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ISSN da publicação: ISSN 2175-6880 (Online)

Anais do Evento 2011 Volume 12 Trabalhos apresentados no Grupo de Trabalho 12 Sociologia e Saúde Coordenadores: Prof. Dr. José Miguel Rasia (UFPR) Máximo Dias Colares Giseli Gontasrki Ementa: Nos últimos anos a Sociologia da Saúde se constituiu como área de conhecimento das mais importantes no campo da sociologia. A proposta do GT incorpora as discussões que vem sendo feitas nesta área do conhecimento sociológico nos vários aspectos que dizem respeito à saúde humana, a medicina e todas as demais práticas culturais voltadas para o cuidado e a cura. Estão contempladas no GT também as políticas de saúde e os sistemas de saúde.

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TAVARES e outros pesquisadores oriundos de instituições distintas. Saúde da População Negra. no contexto da Agenda 21 local.seminariosociologiapolitica. comunidades-terreiros do Município de São Francisco do Conde. parte das informações coletadas nos diários de campo dos pesquisadores. a utilização das Agendas Cidades Saudáveis e 21 local. MANDARINO. Elisabete Aparecida Pinto. apontam que os adeptos do Candomblé da cidade de São Francisco do Conde têm consciência das discriminações que são acometidos nos serviços de saúde da referida cidade. as quais prevêem a utilização de tecnologias sociais participativas e abordagem integradora dos princípios e categorias do desenvolvimento sustentável e da promoção da saúde. Aluna de graduação em Serviço Social da UFBA – pesquisadora bolsista da FAPESB 4 Aluna de graduação em Serviço Social da UFBA – pesquisadora bolsista da FAPESB 5 Aluna de graduação em Serviço Social da UFBA – pesquisadora bolsista da FAPESB Anais do Evento www. 03 (três) grupos focais. Até o presente momento realizamos 02 (duas) oficinas de sensibilização. 03 (três) entrevistas com profissionais e 05 (cinco) entrevistas com representantes religiosos dos Terreiros de Candomblé. Comunidade de Terreiros. GOMBERG. depoimentos orais e grupos focais). Estado da Bahia. observação participante e história oral nas modalidades (história de vida. BAHIA. Entendemos o racismo e a intolerância religiosa como um fator que implica diretamente no bem estar físico e mental. FAPESB1 Gabriela Alcântara de Araújo2 Mariana Puridade M. Neste sentido. O objetivo principal do referido projeto é a implantação da Agenda Cidades Saudáveis parte integrante das políticas públicas direcionadas as comunidades tradicionais.ufpr. Neste artigo utilizaremos. 01 (uma) oficina de capacitação . prioritariamente. Doutora em Psicologia Social PUC/SP. BAHIA desenvolvido por PINTO. UFBA. da Silva3 Michelle de Assis da Rocha4 Renata Silva Fernades Simas5 Resumo: Este artigo é um produto do projeto PRÁTICAS E SABERES NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E NA PROMOÇÃO DA SAÚDE EM TERREIROS DE CANDOMBLÉ DO MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO DO CONDE.O DIABO MORA AO LADO: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE E ADEPTOS DO CANDOMBLÉ SOBRE AS PRÁTICAS DE SAÚDE DESENVOLVIDAS EM TERREIROS DE CANDOMBLÉ NO MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO DO CONDE. Coordenadora do referido projeto. 1 Professora Adjunta da Universidade Federal da Bahia / Instituto de Psicologia – Coordenadora do Colegiado de Graduação em Serviço Social. Os dados estão sendo coletados a partir de análise documental. Assistente Social pela PUCCAMP. também. As informações até agora obtidas. Palavras Chaves: Cidade Saudável. 2 3 Aluna de graduação em Serviço Social da UFBA – pesquisadora bolsista da FAPESB Graduada em Ciências Sociais . Nossas primeiras impressões corroboram a idéia de que os Terreiros de Candomblé possuem uma visão particular na compreensão das categorias: desenvolvimento sustentável e promoção de saúde. podem alagar as brechas de participação dos grupos discriminados e intervir diretamente nos preconceitos arraigados na população de São Francisco do Conde e conseqüentemente nos profissionais de saúde. Doutora. No que diz respeito ao aspecto interventivo o projeto previu a realização de oficinas de sensibilização e capacitação junto aos profissionais e controle social. tendo uma dimensão investigativa e interventiva. Esta pesquisa segue um démarche qualitativo.PPGCP/UFPR 1 3 .br PPGSOCIO/UFPR . também. Mestra em Ciências Sociais Aplicada à Educação pela UNICAMP.Oficina de discussão da agenda cidades saudáveis no contexto do desenvolvimento sustentável e na promoção de saúde com recorte étnicoracial.

62. O líder dessa rebelião celestial foi Lúcifer e ao ser expulso trouxe um terço dos anjos dos céus consigo.8% branca e 0.41 e o das mulheres de R$ 324. os índices que medem às condições de educação.74% ao sexo feminino. nossa intenção é definir como as religiões judaico-cristã pensam o diabo para compreendermos minimamente o processo de satanização das religiões de matriz africanas e espiritualistas por essas religiões. Segundo esta mesma pesquisa.1% parda. demônios) são anjos caídos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2009) possui uma população de 31. 28. No caso do presente artigo focalizamos os adeptos do Candomblé na relação com a sociedade local. Na tradição judaico-cristã7 o diabo (satanás. seguida por infarto agudo do miocárdio e diabetes. Eles habitam os infernos e têm como principal atividade a destruição dos homens – considerados como a máxima criação de Deus – roubando suas almas e fazendo com que esses não reconheçam Jesus Cristo como o único Salvador. a própria encarnação do maligno e/ou demônio. e. benzedeiras etc. A base econômica de São Francisco é a indústria petroquímica.br PPGSOCIO/UFPR .1.por uma razão ou outra .seminariosociologiapolitica.71. foi catalogado pelas Secretárias de Educação e Cultura espaços esotéricos. O rendimento médio mensal dos homens era de R$ 408. Todavia. entre todos os preconceitos cristalizados a um longo tempo contra esse grupo. saúde e desenvolvimento social encontram-se entre os piores. Basicamente. 8. O objetivo desse artigo não é fazer um estudo sobre o diabo. Conforme dados da SESAB (2008) a primeira causa de morte no município foram as doenças cerebrovasculares.Introdução O município de São Francisco do Conde compõe a região metropolitana de Salvador. particularmente a Refinaria Landulfo Alves. Nesta cidade de pretos com um número significativo de Terreiros de Candomblé6 e com certeza.PPGCP/UFPR 2 4 . é que buscamos os sentidos e significados da pertença religiosa e dos conflitos existentes em comunidade entre aqueles que seguem as normas estabelecidas e aqueles que ousam seguir . Apenas lanço mão do que é compreendido no senso comum acerca do mesmo. devoradores de alma. contraditoriamente. 6 7 Até o presente momento temos notícia da existência de 80 Terreiros. os quais se transformam nos inimigos de Cristo. dentre os quais 49. O município apresenta o terceiro melhor Índice de Desenvolvimento Econômico do País. Todavia.703 habitantes. segunda do país em capacidade de refino.25% correspondem ao sexo masculino e 50. podemos apontar na Bíblia algumas referências Apocalipse 5:11/ 12:4 /12:7-9) (Ezequiel 28 e Isaías 14:13-14) (Mt 17:21) Anais do Evento www.ufpr. com um número igual ou maior de Igrejas Evangélicas. Nesta cidade negra do Estado da Bahia é que estamos desenvolvendo o projeto PRÁTICAS E SABERES NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E NA PROMOÇÃO DA SAÚDE EM TERREIROS DE CANDOMBLÉ.2% da população declara-se preta. encontramos uma nova referência e classificação: adoradores do inimigo.3% indígena. Com a ajuda dos profissionais da SMS da cidade chegamos ao número de 32 Terreiros.caminhos diversos. também como cartomantes. Todavia.

Integrar a Agenda Comunidades Saudáveis à Agenda das Comunidades Tradicionais do Município no Anais do Evento www. abraçamos a definição dessa religião como monoteísta. a oração e em alguns casos o jejum para os evangélicos. uma vez que orienta as práticas de uma determinada população. pois o Deus único para a nação Ketu é Olorum. Apesar de muitos acreditarem ser o Candomblé uma religião panteísta. Esses elementos interferem decisivamente nas representações sociais que a sociedade mais ampla vai ter das religiões de matriz africana. Oxum etc. Objetivos específicos: Realizar Análise Situacional da Saúde em Terreiros de Candomblé (comunidades terreiros) do Município em questão. Os métodos de cura do endemoninhamento são o exorcismo para Igreja Católica. No Candomblé original não há incorporação os adeptos não recebem o Santo.br PPGSOCIO/UFPR . Orí significa ―cabeça que vai determinar a personalidade. vai interferir nas representações sociais e atitudes que os próprios adeptos vão ter da religião de sua inserção na mesma. 9 Objetivo Geral: Integrar a Agenda Cidades Saudáveis à Agenda das Comunidades Tradicionais e Áreas Protegidas do Município de São Francisco do Conde/Bahia sob a perspectiva do Desenvolvimento Sustentável e Promoção da Saúde. isto é. viram no Santo. Chaves (2006). bem como.seminariosociologiapolitica. assim como apreender o papel e o significado dos Terreiros de Candomblé no Município de São Francisco do Conde/Bahia e se estes de fato atuam como agências sociais na promoção da eqüidade da saúde da população negra através da articulação de diversas racionalidades terapêuticas.As religiões católicas e evangélicas acreditam que quando os homens se submetem ao diabo esse pode entrar em seus corpos e/ou atuar sobre eles. As representações sociais atuam como um sistema de interpretação da realidade de modo que organizam as relações sociais do indivíduo. Viram na energia que habita em seu Ori8. idéias e práticas que têm as funções de estabelecer uma ordem para orientar as pessoas no mundo material e social e de propiciar a comunicação entre os membros de uma comunidade. O orixá habita no seu Ori. o qual é constituído de objetivos amplos. Oxalá. Por isso as pessoas de santo costumam dizer minha cabeça é de Xangô. o destino‘.PPGCP/UFPR 3 5 .ufpr. O presente artigo foi elaborado a partir dos dados extraídos do projeto de pesquisa PRÁTICAS E SABERES NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E NA PROMOÇÃO DA SAÚDE EM TERREIROS DE CANDOMBLÉ DO MUNICÍPIO DE SÃO FRANCISCO DO CONDE. tem por base a alma da natureza. O referido autor corrobora a idéia de que as representações sociais são indispensáveis para a construção do conhecimento social. Neste sentido. O espiritismo e umbanda são religiões hinduístas acreditam na reencarnação e evocam os espíritos.9 Destes abordaremos apenas cinco. constituindo-se numa espécie de guia para a ação e reinterpretação das realidades compartilhadas. a saber: 8 Traduzindo da língua Iorubana. ancorando-se em Moscovici afirmam que representação social diz respeito ao sistema de valores. BAHIA. O Candomblé é uma religião anímica. determinando seus comportamentos e práticas. para a nação Bantu é Nzambi e para nação Jeje é Mawu.

Neste artigo vamos nos ater mais especificamente nos contornos sócios.br PPGSOCIO/UFPR . 03 (três) entrevistas em profundidade com os profissionais da SMS . Anais do Evento www. identificar as possibilidades de se desenvolver potencialidades e habilidades que ampliem a capacidade da população de participação no SUS e nas políticas públicas voltadas ao desenvolvimento equânime e sustentável do local. sistema único de saúde no contexto do desenvolvimento sustentável e cidade saudável A definição de religião de matriz africana inclui o Candomblé e a Umbanda.São Francisco do Conde. 05 (cinco) entrevistas com os pais de santo. Levantar os pontos de contribuição para reforçar a capacidade sócio-comunitária na reivindicação.ufpr. Também utilizamos as informações coletadas através das observações e dos contatos obtidos com a população no decorrer do processo de preparação das atividades como reuniões com gestores e as informações e avaliações realizadas a partir da 1ª oficina. entre essas uma média de 50 profissionais da área da saúde. 2 – As religiões de matriz africana.seminariosociologiapolitica.PPGCP/UFPR 4 6 . na gestão participativa e no controle social das políticas públicas voltadas para construção de territórios saudáveis. Até o presente momento realizamos 03 três grupos focais com os profissionais. Verificar as possibilidades de integração a Agenda Comunidades Saudáveis à Agenda das Comunidades Tradicionais do Município no contexto da Agenda 21 local. Desta oficina participaram aproximadamente 120 pessoas. políticos e culturais que envolvem o Candomblé. Verificar se os Terreiros atuam como agências sociais na promoção da eqüidade da saúde da população negra através da articulação de diversas racionalidades terapêuticas.Apreender o papel e o significado dos Terreiros de Candomblé no Município de São Francisco do Conde/Bahia. Esses objetivos são de ordem investigativa e interventiva desta forma. na gestão participativa e no controle social das políticas públicas voltadas para construção de territórios saudáveis. Conceber materiais informativos com conteúdos dos princípios e categorias do Desenvolvimento Sustentável e da Promoção da Saúde. assim como na eqüidade da saúde da população negra. assim como na eqüidade da saúde da população negra. do controle social e demais ações que favoreçam uma mudança na relação entre os serviços de saúde e os Terreiros de Candomblé. Avaliar a coerência e efetividade do projeto em relação aos princípios do Desenvolvimento Sustentável e da Promoção da saúde. Desenvolver capacidades e habilidades que ampliem a capacidade da população de participação no SUS e nas políticas públicas voltadas ao desenvolvimento equânime e sustentável do local. tendo como eixo de comparação os profissionais que participaram da 1ª Oficina de discussão da agenda cidades saudáveis no contexto do desenvolvimento sustentável e na promoção de saúde com recorte étnicoracial e aqueles que não participaram da referida atividade. Contribuir para reforçar a capacidade sóciocomunitária na reivindicação. Da Mata (2009) ancorando-se em Bastide adotada a definição que esta é uma religião contexto da Agenda 21 local. o projeto contempla também ações educativas como capacitação dos profissionais.

As religiões criam e se recriam. a criminalização. Anais do Evento www. 11 Denominazação: associado da pratica do Candomblé à feitiçaria e rituais de magia negra. Segundo Da Mata (2009) Pinto e Almeida (2004). 1983). presenciamos algumas recorrências desde a Teologia do Desterro (Mira. se o estigma criado pela sociedade em relação aos negros e a mulher negra ultrapassou as marcas do tempo. isto é. Pomba da Paz.de característica animista. da Ética protestante (Weber. Entendemos que o Candomblé é uma religião que se estrutura no Brasil. atual Benin. A junção dos cultos se deu a partir da diáspora africana e este fenômeno acontece em vários países da América Latina e Caribe. os Ketu. Exu enquanto a personificação do Demônio Cristão. uma vez que foi também uma das grandes divulgadoras da inferioridade do negro. Particularmente.ufpr. cada nação africana tem como base o culto a um único orixá. Os símbolos do culto eram vistos como comportamentos inerentes a pessoas com alguma atraso mental e sugestionáveis. Mas especificamente nos últimos 30 anos com o advento da crescente expansão das religiões neopentecostais ressurge com maior ênfase a demonização em relação às religiões de matriz africana. os Ijexá. patologização10 e demonização11 fizeram parte do imaginário social da sociedade brasileira.br PPGSOCIO/UFPR .seminariosociologiapolitica. 1999) e à criação de estereótipos e crenças (Moore Jr. Entretanto.. para Da Mata (2009) a sociedade baiana acreditava que o Candomblé era espaço de depravações. Neste sentido. contribuindo com isso a uma rentável rede de comércio. Os grupos étnicos mais expressivos são os Ewe e os Fon. 1987). Segundo Da Mata (2009) na Bahia as significativas são: Angola que tem como referencial ancestral a matriz banto. que tem como característica principal a veneração aos orixás. com origem totêmica e familiar. 1987). Os grupos étnicos mais expressivos são o Congo e o Angola. revista editada pela filosofia religiosa Seicho-no-ie. 10 Patologização: as manifestações religiosas de origem africana representavam um retrocesso à ideologia da racionalidade científica. com o objetivo de servir o sistema imperialista iniciado no século XVI e dele beneficiar-se. no que se diz respeito à criação de identidades legitimadoras (Castells. Jeje cujo referencial ancestral é os povos do Daomé. A nação Ketu o qual os grupos étnicos mais expressivos são os Yoruba. não seria a religião que lhes forneceria abrigo. A Casa Branca é o primeiro terreiro de candomblé organizado no Brasil. ao permitir que ele fosse transformado em mercadoria.PPGCP/UFPR 12 5 7 . até a figura da pomba da paz no título de uma revista feminina da Seicho-no-ie12. As nações existentes no Brasil são originárias das várias etnias que vieram para o Brasil. concentração de desordeiros e devassos ávidos por práticas orgiásticas. pois na África o culto aos orixás e/ou a outras divindades acontecia de maneira diferente.

O desenvolvimento ulterior da concepção de vocação. reproduzindo-se assim as práticas existentes na sociedade em relação aos negros. ciência e economia se fundem. Assim.ufpr. existindo uma demografia dessas vinculações. Essas Igrejas introduzem na pauta das religiões a teologia da prosperidade que tem como alvo a individualização dos sujeitos e satanização das religiões de matriz africanas. podemos afirmar que a sociedade brasileira tem se reorganizado. Os dados mais recentes apontam para um crescimento das religiões evangélicas13. Com base nisso. que se dividem em três vertentes: o protestantismo histórico. As principais são: Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Goiás. limitando a possibilidade de acesso aos bens e serviços. que permeia todos os segmentos da sociedade. é a corrente neopentecostal a responsável pelo aumento significativo dos fiéis evangélicos. Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro. Internacional de Graça de Deus (Rio de Janeiro. emoções e as realidades das pessoas. p. 14). 1986). Em que pese à necessidade de maiores estudos acreditamos que esta expansão vem responder uma lacuna econômica e social causada pelas políticas neoliberais e a reestruturação produtiva que reduz as oportunidades no mercado de trabalho... pois o racismo é tão presente e cruel em nosso país. fundamentalmente. muitas vezes as especificidades étnico-raciais não são mencionadas. Conforme explanado por Pinto e Almeida (2004. Nesse sentido. os dogmas. 14). essas tendem a universalizar sentimentos. Institucionalmente. nessa nova forma de se relacionar. manifestada por ela. ainda predominam em seus diversos graus e níveis. Segundo a Claudete Alves (2004. todas originárias da Reforma Protestante do século XVI. que não se deve anular nossa negritude quando optamos por professar nossa fé sendo evangélicos. com uma referência norte-americana. Segundo a vereadora Claudete Alves em 2000 havia 26. inclusive as Igrejas Evangélicas. Todavia. residentes nas regiões periféricas de acordo com Pinto e Almeida. principalmente entre os mais pobres e menos escolarizados. permanecer na profissão e na posição em que Deus originalmente o colocara. religião. 1976). as religiões e seitas. 13 O termo evangélico cobre uma extensa gama de denominações.) o indivíduo deve.PPGCP/UFPR 6 8 . 210 in Pinto e Almeida 2004): Apesar da acolhida das igrejas evangélicas e o sentido de comunidade que proporcionam à população. 1977). práticas racistas e sexistas. (2004.seminariosociologiapolitica. As Igrejas Evangélicas têm se expandindo. foi se dividindo nas várias igrejas reformadas (. subjacentes às leis ditadas pelo mercado. reforçado a idéia de subordinação dos trabalhadores diante do poder de Deus. em Religiões: tolerância e igualdade no espaço da diversidade (exclusão e inclusão social. 124). na forma em que. 1980) e a Renascer em Cristo (São Paulo. essas igrejas instalaram-se no Brasil na década de 1970. numa autêntica ―revolução silenciosa‖.As religiões tentam conformar os excluídos da Terra a uma ética e valores dominantes. que deu outros sentidos e significados aos agrupamentos sociais. mas organizadas e dirigidas por brasileiros. étnica e de gênero): Multiplicam-se as formas de vinculação com o sagrado. absolvendo o patrão de sua responsabilidade com a justiça social e definindo a situação do trabalhador como fatalidade divina e seu destino imutável. Nesse sentido.br PPGSOCIO/UFPR . Todavia. No espaço do divino. se Igreja Católica legitimou a escravidão. pois elas se dão de forma distinta entre classes sociais. por meio desses novos paradigmas. desses 6 milhões eram negros. Anais do Evento www. p. daí por diante. a Reforma Protestante deu suporte para a expansão do capitalismo mercantil.1 milhões de evangélicos. 1987 p. e a sua aspiração deve manter-se dentro dos limites dessa sua condição de vida (Weber. política. devemos conscientizar os fiéis negros e negras. gênero e diferentes grupos étnicos. o pentecostalismo e o neopentecostalismo. passou a depender do desenvolvimento da religiosidade. p.

V . cartilhas e informações técnicas sobre a etiologia das doenças. Apesar da Política Nacional de Saúde da População Negra ser um documento oficial do ano de 2004. Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PLANAPIR)15 e outros que dão diretrizes e estratégias para que as instituições públicas possam desenvolver trabalhos voltados para ressocialização da sociedade brasileira combatendo a intolerância religiosa e o racismo. Ao se recusarem a assumir a perspectiva étnico-racial. e garantir aos seus sacerdotes.080/90 art.que os espaços tradicionais de matriz africana sejam valorizados como pólos de difusão dos saberes e práticas de promoção da saúde da população negra.. Equidade das ações na atenção a saúde: acesso igual para necessidade igual. nos cursos de treinamento de profissionais do SUS. III . essas Igrejas vêem pregando a intolerância religiosa. saber: Produção do Conhecimento:Promover.promover mapeamento da situação fundiária das comunidades tradicionais de terreiro. VI .br PPGSOCIO/UFPR . Tal debate não passa ao largo da área da saúde dos governos federal. se por um lado.promover o respeito aos religiosos e aos adeptos de religiões de matriz africana no País. A Lei 8.. de modo a permitir: . Anais do Evento www. Organização dos Serviços/Atenção a Saúde: Aumentar a eficácia da atenção à saúde. educacionais e de saúde.garantir o cumprimento do preceito constitucional de liberdade de credo. individuais e coletivos (. Agentes Comunitários de Saúde.7º. categorização e tratamento na medicina popular de matriz africana. . apoiar e fomentar. sobre temas tais como: . Este Plano elenca-nos diversos eixos um rol de proposições e diretrizes para transversalização das categorias étnico-raciais e intolerância religiosa nas diversas áreas do conhecimento. Informação a população: Produzir e distribuir amplamente manuais. muitos gestores 14 Essa política se estrutura em 4 eixos: produção do conhecimento. diagnóstico e tratamento das doenças prevalentes na população negra. assim como aspectos da medicina de matriz africana. sinais e sintomas.estimular a preservação de templos certificados como patrimônio cultural.seminariosociologiapolitica.ufpr.combater a intolerância religiosa. para todas as fases da vida. garantindo o ―acesso aos serviços de saúde para toda a população. utilização igual para necessidade igual. cultos e templos os mesmos direitos garantidos às outras religiões professadas no País. e qualidade igual para todos (Lei 8.impactos do racismo sobre o processo saúde-doença.) para todos os níveis de complexidade do sistema‖. o Sistema Único de Saúde (SUS) é um documento da década de 80 que já preconiza a noção de equidade.Todavia. destacamos o Eixo 8 (oito): Comunidades Tradicionais de Terreiro I . A exemplo mencionamos a Política Nacional de Saúde da População Negra14. Interiorização do Trabalho em Saúde e Triagem Neonatal. no cenário nacional. em especial as equipes dos Programas de Saúde da Família. incisos I.medicina popular de matriz africana. bem como os mecanismos de sua identificação. a realização de estudos e pesquisas. informação a população e atenção a saúde.promover melhorias de infraestrutura nas comunidades tradicionais de terreiro. Nos quadros eixos sugere e estimula formas de intervenção. Capacitação dos profissionais: Introduzir matérias sobre etiologia. e VII . . métodos de diagnóstico e tratamento. em todos os níveis de assistência‖. estaduais e municipais. Saúde da Mulher.PPGCP/UFPR 7 9 . qualitativos e/ou quantitativos. capacitação dos profissionais. 15 (PLANAPIR). por outro o Estado brasileiro tem dado respostas às demandas da população negra e das entidades representativas das religiões de matriz africanas incorporando essas especificidades às políticas culturais. Integralidade da atenção ―entendida como um conjunto articulado e contínuo de ações e serviços preventivos e curativos. existe um debate permeado de controvérsias nas diversas áreas do conhecimento humano entre os partidários das políticas universais e das políticas focalizadas ou específicas.contribuição das manifestações afro-brasileiras na promoção da saúde. incorporando à prestação dos serviços o conhecimento sobre os múltiplos fatores que intervêm nas condições de saúde da população negra.assegurar o caráter laico do Estado brasileiro. II .080/90 que regulamenta o SUS institui os princípios e diretrizes do sistema de saúde brasileiro: Universalidade do atendimento. mediante incentivos próprios. Todavia. Atualmente. IV . II e IV respectivamente).

portanto. em conformidade com o princípio de equidade preconizado pelo SUS. entendemos o racismo como um fator que implica diretamente no bem estar físico e mental. Neste sentido. Por esta razão.da mesma forma. baseada em um suposto cientificismo que propaga a inferioridade biológica de determinados indivíduos e grupos em relação a outros. o meio ambiente. Anais do Evento www. a saber: as perspectivas étnico-raciais e de gênero .ufpr. tomam a primazia diante das propostas consensualizadas. Outros fatores podem ser agregados para a promoção da saúde da população. Basicamente. a moradia. 3 da Lei 8. diminuindo as desigualdades existentes. o saneamento básico. como estratégicas para garantir a consecução da igualdade. eticamente por toda a sociedade. é importante afirmar que tal estratégia não se contrapõe ao princípio da universalidade. entre outros. o que as situações de racismo têm haver com a saúde? Segundo Art. a habitação. se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico.br PPGSOCIO/UFPR . O SUS não pode oferecer o mesmo atendimento a todas as pessoas. Ao contrário. quando pensamos em promoção de saúde não estamos referindo à ausência de doença. pois muitos vão ter o que não necessitam e outras não serão atendidas naquilo que necessitam. pois os serviços de saúde devem saber quais são as particularidades dos grupos da população e trabalhar para atender a cada necessidade.PPGCP/UFPR 8 10 . O racismo vale-se de uma ideologia etnocêntrica. por força do disposto no artigo anterior. mas sim em uma possível organização de ações que sejam capazes de impactar positivamente seus determinantes. o trabalho. Neste sentido.entendem serem inconstitucionais as políticas de ações afirmativas e tomam decisões públicas a partir de suas concepções individuais. a renda. a renda. O SUS deve tratar com desigualdade os desiguais. o acesso aos bens e serviços essenciais. ao lazer. ao entender que as políticas de ações afirmativas foram assumidas pelo estado brasileiro também no campo da saúde. o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais. o transporte. a alimentação. o saneamento básico. Promover saúde é pensar em ações intersetoriais que envolvam a educação. nos perguntando. a educação.seminariosociologiapolitica. a alimentação.080/90. pode-se afirmar que os padrões morais. os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do país. A ideologia racista difunde ainda que o comportamento cultural e social desses indivíduos e grupos é geneticamente herdado. a condição de vida da população. A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes. o trabalho. melhorando. que geralmente correspondem aos princípios individuais. podemos pensar no quesito raça/cor.o adoecer feminino e masculino envolve questões culturais específicas . Em seu parágrafo único afirma: Dizem respeito também à saúde as ações que. oferecendo mais a quem mais precisa. o meio ambiente. entre outros determinantes sociais da saúde. mental e social.

a instituição é racista. indivíduos e grupos. práticas ou costumes institucionais. Daremos destaque aqui ao racismo institucional o qual se configura na prática discriminatória dos sistemas de trabalho. uma prática felizmente já abolida naquele país. economia.seminariosociologiapolitica. por indivíduos e instituições. geograficamente. Esse tipo de discriminação tem como exemplo mais evidente o apartheid na África do Sul. educação. racismo institucional e racismo cultural. os indivíduos.Jones (1973. direito de voto e a proibição de miscigenação. segundo Jones (1973. direito. por meio dos livros didáticos. Todos eles são praticados e coexistem no Brasil.ufpr. em última análise.br PPGSOCIO/UFPR . necessidades e crenças. Se há conseqüências racistas das leis. saúde. p. a população negra de fato não tem igual proteção perante a lei. 46 – citado em Pinto 2003). estética. podem manter práticas racistas através das instituições que fazem uso dessa ideologia por meio da cultura. ainda que não tenham intenções racistas. de forma generalizada.PPGCP/UFPR 9 11 . valores. no que se refere à religião. p. independentemente dos indivíduos que mantêm tais práticas terem ou não intenções racistas. ao passo que o racismo pode fazer parte dos valores ideológicos partilhados em sociedade. Diante do exposto. e os seus contatos com a polícia baseiam-se no seguinte pressuposto: ―negro se mata primeiro para depois saber se é criminoso – é o slogan dos órgãos de segurança‖ (Moura. recusa de empregos. música. ainda que a sociedade brasileira. 1988. Parece que a única distinção entre ambos os conceitos reside no fato de a discriminação étnico-racial ser precedida por ações racionalizadas e intencionais. A definição de discriminação étnico-racial assemelha-se. à definição de racismo que. mesmo não sendo necessariamente racistas e sexistas. No Brasil são exemplos de práticas racistas institucionais as discriminações raciais no mercado de trabalho e na forma como se dá a violência policial. Quanto a esta. Assim. sem ser claramente explicitado. intencional ou não. é perceptível que esses conceitos e fenômenos estão interligados. 105 citado em Pinto 2003) ―é o resultado da transformação de preconceito racial e/ou etnocentrismo. com o apoio. filosofia. e os professores dele participam. Por exemplo: o sistema educacional. política e moradia. citado em Pinto 2003) classifica o racismo em três tipos: racismo individual. Basicamente. utilização de serviços. propaga a inferioridade étnica e de gênero. de toda a cultura‖. essa forma de racismo é a institucionalização de crenças racistas individuais. Anais do Evento www. O racismo cultural fundamenta-se no absolutismo da cultura branca sobre a cultura e na desqualificação das suas manifestações culturais negras. através do exercício de poder contra um grupo racial definido como inferior. Segregação étnico-racial é uma das práticas discriminatórias e consiste em separar. Discriminação étnico-racial é a manifestação comportamental declarada do preconceito étnico-racial e da doutrina racista.

interações e comunicações. exigindo um tratamento integrado e sistêmico das questões. Neste contexto. ecossistema estável e sustentável. expressando uma teia de dominação e exploração.PPGCP/UFPR 12 . pois se definimos desenvolvimento sustentável como capaz de garantir as necessidades da sociedade mundial presente. o reconhecimento pelas instituições públicas acerca do racismo detonou o desenvolvimento de um conjunto de medidas que atendam parte do repertório das reivindicações da população negra. expulsando-as para as periferias mais longínquas. sem exploração. São nesses espaços urbanos que encontramos os piores indicadores de saúde.seminariosociologiapolitica. alto grau de participação social. orgulho e respeito pela herança biológica e cultural.ufpr. grande parte dos Terreiros de Candomblé. Europa e Estados Unidos. e alto nível de saúde. faltam a infra-estrutura. sistema hierarquizado de saúde (Unidade Básica de Saúde. afastando as pessoas de sua sociabilidade local.os negue e os amenize. por vezes. o que implica uma postura mais ampliada buscando intersetorialidade das ações de saúde – senão não incorporarmos as dimensões étnico-raciais de gênero A Organização Mundial da Saúde (OMS) elenca dez requisitos para que uma cidade possa ser considerada saudável: ambiente físico limpo e seguro. quando muito. recursos. perseguindo a totalidade dos fatores que determinam a saúde. O planejamento urbano e habitacional do Brasil e das cidades parece sempre incluir uma dose de perversidade. economia local diversificada e inovativa. A exclusão social e espacial imposta à população negra tem sua existência conhecida por todos. São nesses espaços que estão presentes. reconhecendo. contatos. através de um projeto habitacional que não inclui as 10 Anais do Evento www. saneamento básico. Atualmente. nacional e internacional. também. A exclusão racial pode ter um impacto direito num projeto de desenvolvimento sustentável local. Militamos a idéia que será impossível pensar num planejamento estratégico que contemple o projeto de cidades saudáveis . Instaura-se o que chamamos de segregação espacial e que é também social e racial. acesso a experiências. educação. Ninguém tem dúvidas que as periferias das cidades são ocupadas por uma população formada em grande maioria por negros. sistema educacional e espaços de cultura e lazer. alto suporte social. a recorrência de atitudes e comportamentos preconceituosos. podemos pensar em racismo e meio ambiente. reportando a existência do racismo para a África do Sul. Pronto Socorros e Hospitais). necessidades básicas satisfeitas. serviços de saúde acessível a todos. sem comprometer o desenvolvimento das gerações futuras o racismo reforçado pelas políticas neoliberais pode promover o genocídio da população negra.br PPGSOCIO/UFPR . violências em suas múltiplas expressões.o qual preconiza segundo Westphal e Mendes (2000) ultrapassar as práticas de saúde médica curativa. Aí.

indolente. pois esta problemática se liga a outras questões que envolvem de uma forma ou de outra o cotidiano de uma comunidade. de carne. As formas. a comunidade de outra forma. Na cidade escura. lazer e urbanização. implicando na formulação do auto-conceito negativo e de uma baixa estima. cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. do desenho privilegiam pensar a cidade. com direitos de participar no poder político. e a elaboração de políticas públicas a partir das diferenças de gênero e étnico-raciais. cultura. a falta de equipamentos e suas implicações no futuro individual e coletivo. A cidade do colonizado. a creche e outros benefícios. o que nos interessa aqui são as necessidades espaciais das classes trabalhadoras e da população negra residentes em bairros periféricos e a necessidade dessa população é a inclusão social. consideramos que lugar é o espaço com referência afetiva. não importa de que.possibilidades de trabalho. saúde. aprofundarmos algumas discussões sobre a vivência da comunidade frente às expressões da questão social e étnico-raciais e de gênero: a gravidez na adolescência. posteriormente. uma cidade ajoelhada. com sonhos. com liberdade de expressão.ufpr. Não uma cidade/local qualquer. pois. A cidade do colonizado é uma cidade faminta. povoado de homens mal afamados. onde os homens estão uns sobre os outros. as casas umas sobre as outras. Aí se nasce não importa onde. Encontram-se nesses espaços pessoas oriundas de vários cantos. Quando falamos de cidade/comunidade. Morre-se não importa onde. Destaca-se aqui o fato de que grande parte dos jovens que moram nas regiões periféricas e vulneráveis não gosta do lugar que vive. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada. A cidade dos excluídos como bem nos lembra Fanon (1976) é a cidade que desaba pelos deslizamentos de terra. faminta de pão. Vale dizer que a idéia sobre o conceito de cidade e espaço onde comunidades foram organizadas pretende encontrar formas de transcender nossas representações construídas. não importa como. É uma cidade de negros. uma cidade acuada. leitura e interpretação do vivido. esperanças e fantasias. de estrangeiros. Mas de seres humanos. em contrapartida: ―A cidade do colono é uma cidade saciada. O mecanismo da observação.br PPGSOCIO/UFPR . da maior importância como marco de uso. homicídios dos jovens. situação que se reproduz em várias periferias do Brasil. a cidade negra. A cidade do colono é uma cidade de brancos. uma cidade de árabes‖ Particularmente. têm um papel na Anais do Evento www. encontro e localização pela população. É um mundo sem intervalos. a reserva é um lugar mal afamado. bem-estar econômico. de luz. Nessa abordagem. de carvão. da fotografia. ou pelo menos a cidade indígena. que ganha significado através da ocupação ou apropriação humana. de sapatos. a Medina (a cidade árabe ao lado da qual se erguem edificações para europeus). lugares das cidades e como na senzala organizam saídas para a exclusão a fim de conseguir o asfalto.seminariosociologiapolitica. estamos nos referindo a um espaço e este nada mais é do que ―um conjunto de formas contendo cada qual frações da sociedade em movimento.PPGCP/UFPR 11 13 . sem alma e sem coração. Trata-se de um conceito importante para descrever as relações humanas com seu ambiente e para.

solidariedade e emancipação social. foi nos ficando claro que os mesmos não tinham conhecimento acerca das Agendas Cidades Saudáveis. já percebemos que algumas questões. Anais do Evento www. Uma cidade saudável é. ou seja.realização social‖ (Santos. Especificamente.seminariosociologiapolitica. 3. nosso valores. acreditamos pensar no verbo implantar. assim como apreender o papel e o significado dos Terreiros de Candomblé no Município de São Francisco do Conde/Bahia e se estes de fato atuam como agências sociais na promoção da eqüidade da saúde da população negra através da articulação de diversas racionalidades terapêuticas. alterando assim. Logo de início percebemos que não poderíamos integrar uma política que não existe. liberdade. apoiar as mobilizações sociais das pessoas e grupos sociais. da Política Nacional de Saúde da População Negra. Agenda 21 e Política Nacional de Medicina Natural e Práticas Complementares PMNPC. Daí a importância de se registrar. um dos objetivos iniciais16. esta informação foi corroborada pelos profissionais de saúde dos três grupos focais realizados. uma cidade sem racismo e intolerância religiosa. a saber: Os profissionais. Todavia. 16 Integrar a Agenda Cidades Saudáveis à Agenda das Comunidades Tradicionais e Áreas Protegidas do Município de São Francisco do Conde/Bahia sob a perspectiva do Desenvolvimento Sustentável e Promoção da Saúde. destaca-se a clareza que a população usuária. culturais e políticos. econômicos. 1997). também.As representações sociais de profissionais de saúde sobre as práticas de saúde desenvolvidas em terreiros de Candomblé No decorrer do processo de realização das atividades e contatos mantidos com os profissionais da cidade de São Francisco do Conde. A primeira oficina de discussão da agenda cidades saudáveis no contexto do desenvolvimento sustentável e na promoção de saúde com recorte étnico-racial foi realizada nos dias 21 e 22 de julho de 2011 e neste momento.ufpr. Desta forma. modificando a relação de nossa forma de vida. Pensar hoje na conquista da cidadania implica em promover garantia da participação política da sociedade civil nos espaços de elaboração e implementação de políticas públicas dirigidas à maioria excluída dos bens sociais. incluso os adeptos dos terreiros de Candomblé têm das questões que dizem respeito ao conceito de Desenvolvimento Sustentável. bem como de alguns conceitos como racismo institucional. no sentido de transformar as relações humanas que com certeza possibilitará concretamente a constituição de estruturas formais participativas o que refletirá na construção de uma comunidade que preserve o sentido de pertença.br PPGSOCIO/UFPR . Para Riani (1997) a cidade só será saudável quando sua sociedade se tornar saudável. controle social e muitos adeptos dos terreiros de Candomblé não tinham conhecimento das agendas acima referidas.PPGCP/UFPR 12 14 . reorganização da vida na cidade. política e o fortalecendo as bases da sustentabilidade. quando se organizar de forma diferente da forma que é posto atualmente. bem como mudar as bases do sistema produtivo da sociedade. Uma realização que só é social porque é realizada pelos sujeitos e atores/atrizes sociais do passado e do presente.

A existência da intolerância religiosa na cidade foi reafirmada pelos profissionais dos três grupos.estão fora dos principais cargos. passa a ser um fator profundamente negativo já que muitos destes costumam substituir a prescrição médica pelo uso de substancias naturais que acreditam ser de maior eficácia. Quando questionados acerca das oportunidades de estudo. A idéia de que a população local é constituída em sua totalidade pela população negra encobre o entendimento da possível existência de racismo. Segundo os profissionais o fato de grande parte dos freqüentadores do Candomblé não revelarem a sua religião a torna. Ao mesmo tempo.Os profissionais de saúde que professam a religião evangélica retiram se do anfiteatro. onde se realizava a 1ª Oficina. alegando que os mesmos não procuram estudar. Em todos os grupos houve referência as Igrejas Neopentecostais de denominação nacional e as essas foi atribuído o fortalecendo do processo de intolerância religiosa. porém afirmam que adentrar nestes espaços não é uma tarefa fácil. tal realidade é justificada por atributos pejorativos a esse segmento.ufpr. inviabilizando muitas vezes os resultados do tratamento. 4. Nem todos compartilham a idéia da existência de racismo. e até mesmo prestar atendimento ao público do Terreiro. seria muito interessante uma parceria junto aos terreiros neste sentido. invizibilizada na sociedade. Eles nos informam que na atual gestão os negros estão tendo mais oportunidades e essas são reconhecidas e aproveitadas por essa população. recusando-se permanecer no mesmo lugar no qual estavam os pais de santos. alguns profissionais denunciam a existência de diferença entre o tratamento dispensado para brancos e para negros nos postos de saúde e em hospitais. As falas obtidas nas entrevistas com o povo de santo e as representações religiosas do Candomblé evidenciam a importância da relação corpo e espírito no pensar à saúde pelos adeptos das religiões de matriz africana. já que muitos profissionais das equipes recusam-se a realizar visitas a esses espaços. quando pensado o aspecto do tratamento da saúde. Conforme suas reflexões.PPGCP/UFPR 13 15 . isto é o demônio. Esses profissionais classificam os mesmos como a própria encanação do inimigo de Cristo. havendo um equilíbrio entre ambos.seminariosociologiapolitica. Nos grupos emerge o preconceito e intolerância religiosa no interior da própria SMS. Os negros -em que pese o fato da Prefeita ser negra . agravando-se quando estes são do candomblé. ou menor dano a seu organismo. Acreditam estes que há uma ligação entre esses dois campos: o corpo e o espírito. Todavia. No âmbito institucional a resistência também é bastante expressiva. Claramente.br PPGSOCIO/UFPR . ainda mais. os participantes afrodescendentes afirmam que os negros são acomodados. se o espírito estiver bem o corpo Anais do Evento www. Os profissionais de saúde identificam uma forte resistência e relativo ―fechamento‖ dos Terreiros a comunidade externa. o que dificultaria uma provável integração das ações de promoção à saúde. Apesar dessa afirmação aflora a informação de que em São Francisco a maioria dos cargos públicos são ocupados por pessoas que não são nativas. Principalmente.Representações sociais dos adeptos do Candomblé sobre as práticas de saúde desenvolvidas nos Terreiros.

no povo negro arrancado de sua terra. os profissionais de saúde se recusam a aceitar que um ―ebó‖. pois o olhar dos profissionais de saúde sobre as práticas de cuidado a saúde realizada nos Terreiros denunciam o desconhecimento. já que dialeticamente. Neste sentido. verificar se os Terreiros atuam como agências sociais na promoção da eqüidade da saúde da população negra através da articulação de diversas racionalidades terapêuticas. Tornam-se os desacreditáveis e os desacreditados. Assumir a religião torna-se um grande desafio desmascarando o falso discurso da democracia racial e a inexistência do racismo. ao médico. (apreender o papel e o significado dos Terreiros de Candomblé no Município de São Francisco do Conde/Bahia. embora reconheçam que os medicamentos convencionais sejam muitas vezes derivados das plantas. O quem é você. ainda que nos dias de hoje. explorado.seminariosociologiapolitica. seja uma religião muitas vezes dirigidas por brancos. Retrato disso esta no costume de esconder as guias de proteção sob a roupa ao buscar-se atendimento nas Unidades de Saúde. Torna-se no Brasil uma “religião de preto” que durante anos precisou amparar se na religião católica através do sincretismo religioso. a reprovação e a desconfiança desses.PPGCP/UFPR 14 16 . Uma religião. satanizada e tida como atributos de ignorantes. configuram-se em questionamentos de profundidade bastante complexa. aos minerais. não é estranho identificar nas falas dos adeptos o seu ocultamento à comunidade externa.ufpr. emanam a compreensão de aspectos aparentes e reais.provavelmente estará. animalizado. a recíproca não é verdadeira. A medicina convencional insere-se neste processo como um contínuo das medidas de cuidado e tratamento que são realizadas sob o doente no Terreiro. ao enfermeiro. um chá orientado por um pai ou mãe de santo possam trazer possíveis benefícios. Desta forma. O ―olhar do outro sobre mim‖ ganha grande significância na rotina do povo de santo. carregando em seu cerne mais íntimo os estigmas da escravidão negra. um banho. a equipe da atenção básica ou dos hospitais. aviltado. isto é.br PPGSOCIO/UFPR . ou o quem sou eu. O Candomblé tem suas raízes firmadas nas senzalas. verificar as possibilidades Anais do Evento www. isto é. ao tempo que expressam a questão do autoreconhecimento enquanto portador de construções subjetivas de outros sobre mim. aos animais. 5. conforme definido por Goffman (1975). à água e aos outros elementos. são expressas afirmações acerca da abertura dos Terreiros à promoção e ao cuidado dispensados pela medicina oficial. ervas e outros elementos da natureza.A guisa de conclusões Chegados a este ponto tomamos como base os objetivos que pretendíamos atingir. A natureza ganha um lugar particular no processo de ―cura‖ atribuindo-se significativa importância às plantas. Todavia.

O não reconhecimento e/ou reconhecimento indevido. O racismo é a negação de seu direito de ser considerado totalmente humano. comentando o livro de Charles Taylor. Sobretudo. a respeito dos grupos que são vítimas dos preconceitos. situação compartilhada pela sociedade local e reconhecida pelos profissionais de saúde como existente na prestação de serviço a essa população. ou melhor. 1988. Neste sentido. assim como na eqüidade da saúde da população negra. humilhação. um modo de ser falso deformado e reduzido (.ufpr.seminariosociologiapolitica. Para Rose é necessário: Divulgar. jornais e pela palavra. para afirmar que o Estado democrático brasileiro sempre manteve a controvérsia e permaneceu em dúvida se suas instituições públicas deveriam reconhecer a identidade e a necessidade especifica da população negra e de que forma isso se daria. os dados coletados nos informam que ainda persiste a idéia de democracia racial no Brasil enquanto ideologia gestora de identidades coletivas dominantes.para dizer que em que pese os parcos dados coletados podemos sim afirmar a existência de intolerância religiosa na cidade de São Francisco do Conde.br PPGSOCIO/UFPR .) O reconhecimento devido não é só uma cortesia que devemos aos demais é uma necessidade humana vital‖.. p. p. 2000. p.. conforme afirma Charles Taylor. atualmente. Desta forma. 193). ―causar danos. vergonha e dor. Aqui podemos nos ancorar em Rex (1988) e Rose (1972) os quais acreditam que uma das formas de superar o racismo é através da linguagem.PPGCP/UFPR 15 17 . (Charles Taylor. o falso reconhecimento pode.de integração da Agenda Comunidades Saudáveis à Agenda das Comunidades Tradicionais do Município no contexto da Agenda 21 local. 1993) Segundo o relatório do (CIEDH. Desta forma. Fazê-lo não somente pelos livros. são essas as pessoas que deverão informar se uma linguagem é racista ou não.. não considerando todo trabalho desenvolvido pela militância negra.racismo. que é necessária porque a linguagem sempre transporta consigo o legado do passado e aquela que se usa não terá de ser necessariamente adaptada ao antí.) . A renovação da linguagem seria uma tarefa primordial ao exercício da consciência racial (Rex. a pessoa que é objeto de racismo experimenta os sentimentos mais profundos de ofensa. como racista. Segundo Rex: ―A tarefa mais essencial deve ser a reforma da linguagem. Fazer conhecer as causas das diferenças que existem entre os grupos minoritários e grupo dominante. Neste sentido recorremos Amy Gutmann. 1972. conformações exatas de forma a destruir os estereótipos. mas utilizando também as relações pessoais e os contatos amigáveis (Rose. ―La política del reconocimiento‖. negando que o Estado brasileiro se reconhece. 123). Anais do Evento www. que a desigualdade é social. identificar as possibilidades de se desenvolver potencialidades e habilidades que ampliem a capacidade da população de participação no SUS e nas políticas públicas voltadas ao desenvolvimento equânime e sustentável do local e levantar os pontos de contribuição para reforçar a capacidade sócio-comunitária na reivindicação. na gestão participativa e no controle social das políticas públicas voltadas para construção de territórios saudáveis. é comum se afirmar.. pode ser uma forma de opressão que aprisione alguém. 3).

expulsando o diabo da violência institucional. e um bom planejador de políticas deve considerá-lo. A dimensão interventiva do projeto pode contribuir para as alterações das linguagens racistas e fundamentalistas. assim denunciam a falta da intersetorialidade nas ações desenvolvidas pela SMS. única maneira de se conseguir uma correta caracterização do setorial e de formular propostas que o articulem de modo correto com outras formulações. informando os profissionais acerca das agendas em questão. o processo de sustentabilidade do conjunto das ações desenvolvidas por esses. as religiões de matriz africana devem se rever entre si e com todos os segmentos propenso a um Tempo de Paz. estimulando assim. Para Mário Testa (1987 a/b) é imprescindível o reconhecimento efetivo do social como totalidade. Os profissionais realizam seus trabalhos de forma isolada não havendo comunicação com outras secretárias do Município. neste tempo que a sociedade brasileira pensa na possibilidade do ensino religioso nas escolas. Acreditamos que o Planejamento Estratégico Situacional (PES) seria uma metodologia adequada para que os gestores e os técnicos da área da saúde pensassem suas ações com o recorte étnico-racial. A cultura da Paz é a cultura do respeito. ―os ensinamentos contidos em eclesiásticos são os mesmos preconizados pelo Orixá Tempo. considerando as necessidades específicas da população negra e do povo de santo. Um dos instrumentos necessários para transformamos este tempo de guerra e perseguição contra algumas religiões e povos é o conhecimento e a informação. promovendo a cidadania e paz para os pais de santo continuarem cultuando os orixás. das religiões que satinazam as outras. neste tempo no qual temos uma lei que determina a obrigatoriedade da história da cultura africana e dos afro-descendentes nas escolas públicas e privadas. Uma grande lança de Ogum na construção de uma Cultura da Paz. principalmente. neste tempo de mudança significativa. o racismo e o desrespeito que sobrecai nos mais pobres e entre estes os negros. nossa ação deverá ter acesso a gestão das políticas públicas desenvolvidas localmente. uma arma. Anais do Evento www. Poderá auxiliar a SMS no reconhecendo e pontencialização da participação popular.‖ Acreditamos que este projeto pode contribuir para que a cidade de São Francisco do Conde se torne uma ―Cidade Saudável‖. utilizando-o como um instrumento no controle do racismo e da intolerância religiosa. é uma grande ferramenta. Tempo VelhoTempo Novo.Esse projeto aponta também que os Terreiros funcionam como agências promotoras de saúde. apesar de não haver reconhecimento pela maioria dos profissionais da área. gostaríamos de retomar uma discussão realizada por Francelino de Shapanam (citado em Pinto 2004).PPGCP/UFPR 16 18 . Para tanto.seminariosociologiapolitica. Este projeto pode também. O conhecimento é renovação. isto é.br PPGSOCIO/UFPR . Desta forma. tentar expulsar o diabo do imaginário social e principalmente. A Paz deve ser ensinada e deve fazer parte do ensino formal e informal.ufpr. Aqui devemos pontuar que o racismo faz parte desta totalidade social. Assim.

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