You are on page 1of 145

Doze Pistas Falsas Título original: Twelve- Red Herrings Jeffrey Archer Nos doze contos que compõem

esta obra, Jeffrey Archer faz uso de pistas falsas p ara conduzir o leitor, de forma elegante e engenhosa, à idéia de que as coisas não são o que realmente parecem ser. Cada desfecho é uma espetacular surpresa. "Jeffrey Archer é mestre em entreter." TIME "Um romancista da classe e estilo de Alexandre Dumas." WASHINGTON POST Jeffrey Archer tem sido aclamado "como, provavelmente, o maior contista de nossa época" Suas istórias são assim descritas pelo Sunday Express.. Leia também: Caim e Abel A Filha Pródiga O Homicídio Perfeito Honra entre Ladrões Primeiro entre Iguais O Vôo do Corvo Doze Pistas Falsas Jeffrey Archer Tradução Maria D. Alexandre BERTRAND BRASIL Copyright (c) 1994 by Jeffrey Archer Título original: Twelve- Red Herrings Capa: projeto gráfico de B4 Comunicação Editoração eletrônica: Imagem Virtual, Nova Friburgo, RJ 1996 Impresso no Brasil Printed in Brazil CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, ]. Archer, Jeffrey, 1940A712d Doze Pistas Falsas / feffrey Archer ; tradução Maria D. Alexandre - Rio de Jan eiro : Bertrand Brasil, 1996. Tradução de: Twelve Red Herrings ISBN 85-280-0576-0 96-1044 1. Ficção inglesa. I. Alexandre, Maria D. II. Título. CDD - 823 CDU - 820-3 Todos os direitos reservados pela: UBCD UNIÃO DE EDITORAS S.A. Av. Rio Branco, 99 - 20° andar - Centro 20040-004 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (021) 263-2082 Fax: (021) 263-6112 Av. Paulista, 2.073 - Conj. Nacional - Horsa I - Salas 1301/2 01311 -300 - São Paulo - SP Tels.: (011)251-2377/285-4941 Fax: (011)285-5409/287-6570 Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prévi a autorização por escrito da Editora. Atendemos pelo Reembolso Postal. Para Chris, Carol... e Alyson Sumário Erro Judicial 9

Pela Metade do Preço* 75 O Braço Direito de Dougie Mortimer* Passagem Proibida* 113 Sem Luz no Fim do Túnel* 131 O Engraxate* 151 Você não Viverá para se Arrepender* Nunca Pare na Estrada* 197 Nem Tudo Está à Venda 213 "Timeo Danaos..."* 239 Olho por Olho* 255 Como Prefere a Carne? 277

91

181

* As histórias, cujo título é seguido de um asterisco, são baseadas em incidentes conhe cidos (embora algumas delas tenham sido consideravelmente alteradas). As restantes são produto da minha imaginação. Julho de 1994 J. A. ERRO JUDICIAL É DIFÍCIL SABER EXATAMENTE POR ONDE COMEÇAR. Mas, primeiro, vou explicar por que motiv o estou na prisão. Foi um julgamento que durou dezoito dias, e, desde o momento em que o juiz entro u na sala do tribunal, os bancos destinados ao público transbordavam de gente. O júri do Tribunal Real de Leeds estivera reunido durante quase dois dias, e corria o boato de que os jurados se encontravam irremediavelmente divididos. Na bancada dos advogados falava-se em jurados demitidos e segundos julgamentos, já que haviam passado mais de oito horas desde que Sua Excelência o juiz Cartwright dissera ao primeiro jurado que o veredicto não precisava ser unânime: seria aceitável uma maio ria de dez. Subitamente, constatou-se certa agitação nos corredores, e os membros do júri dirigira m-se em silêncio a seus lugares. A imprensa e o público precipitaram-se para o interior da sala do tribunal. Todos tinham os olhos postos no primeiro jurado, um homenzinho gordo, de aspecto jovial, que envergava jaquetão, camisa listrada e a gravata-borboleta colorida, e que se esforçava por apresentar aspecto solene. Parecia o tipo do sujeito com quem, em circunstâncias normais, eu teria gostado de beber uma cerveja no bar mais próximo. Mas aquela circunstância não era normal. Quando voltei a subir os degraus que levavam ao banco dos réus, meu olhar caiu sob re uma bonita loura que estivera todos os dias na platéia. Perguntei a mim mesmo se ela assistiria a todos os julgamentos sensacionais ou se aquele a fascinava e specialmente. 11 Não mostrava o mínimo interesse por mim e, como todo mundo, concentrava toda a sua a tenção no primeiro jurado. O escrivão do tribunal, que usava peruca e envergava longa túnica preta, ficou de pé e leu as palavras escritas num cartão, que, segundo penso, já devia saber de cor. - O primeiro jurado queira, por favor, levantar-se. O homenzínho jovial ergueu-se lentamente. - Responda sim ou não à minha pergunta. Os senhores jurados chegaram a algum veredic to com que pelo menos dez membros do júri tenham concordado? - Sim, chegamos. - Senhores jurados, consideram o réu culpado ou inocente da acusação que lhe é imputada? Fez-se total silêncio na sala do tribunal. Meus olhos estavam cravados no jurado da gravatinha colorida. O homem pigarreou e disse... Conheci Jeremy Alexander em 1978, num seminário de treinamento da CBI, em Bristol. Cinqüenta e seis companhias inglesas, em busca de expansão pela Europa, tinham-se reunido para obter esclarecimentos sobre direito comunitário. Quando me inscrevi n o seminário, a Cooper, companhia da qual eu era administrador, tinha cento e vinte

sete veículos de diversos pesos e tamanhos, e se transformava rapidamente numa das maiores empresas privadas de transportes da Inglaterra. Meu pai havia fundado a firma em 1931, começando com três veículos, dois deles puxados por cavalos, e um limite de crédito de dez libras na filial local do Banco Martins. Na época em que nos tornamos Cooper & Filho, em 1967, a companhia dispunh a de dezessete veículos com quatro rodas ou mais e transportava mercadorias para toda a região norte da Inglaterra. Mas o velho continuava recusando resolutamente exceder seu limite de crédito de dez libras. Certa vez, durante uma queda do mercado, manifestei a opinião de que deveríamos tent ar expandir-nos, procurando no12 vos negócios, talvez até no continente. Mas meu pai não me deu ouvidos. "Não vale a pena correr esse risco", declarou. Não confiava em pessoa alguma que tivesse nascido ao sul do Humber e muito menos nas que haviam nascido do outro lado do c anal. "Se Deus colocou aquela água entre nós, sabia o que estava fazendo", foram suas palavras definitivas sobre o assunto, o que me provocaria vontade de rir se não soubesse que ele estava falando sério. Quando se aposentou, em 1977, aos setenta anos de idade, e com certa relutância oc upei o lugar de administrador e comecei a pôr em prática algumas idéias que havia elaborado durante a década anterior, apesar de saber que meu pai não as aprovava. A Europa foi apenas o início de meus planos para a expansão da companhia: cinco anos depois, decidi transformá-la em sociedade anônima. Nessa ocasião, percebi que nec essitaria de um empréstimo de pelo menos um milhão de libras e, para isso, teria de transferir nossa conta para um banco que reconhecesse que o mundo se es tendia além das fronteiras do condado de Yorkshire. Foi então que tomei conhecimento do seminário da CBI, em Bristol, e me inscrevi. O seminário começou na sexta-feira, com o discurso de abertura do presidente do Dire tório Europeu da CBI. Depois disso, os delegados dividiram-se em oito pequenos grupos de trabalho, cada um deles presidido por um perito em direito comunitário. Meu grupo era dirigido por Jeremy Alexander. Admirei-o desde o momento em que co meçou a falar. Na realidade, não seria exagerado afirmar que fiquei assombrado. Era dota do de absoluta auto-segurança e, como eu viria a constatar, capaz de apresentar, sem esforço, algum argumento convincente sobre qualquer assunto, desde a superiori dade do Código de Napoleão até a inferioridade da produção inglesa de algodão. Falou durante uma hora sobre as diferenças fundamentais entre as práticas e procedim entos dos estados-membros da Comunidade e, em seguida, respondeu a todas as noss as perguntas sobre direito comercial e empresarial, ainda encontrando tempo para 13 explicar a importância da crise uruguaia. Como eu, os outros membros do grupo não pa ravam de tomar notas. Fizemos um intervalo para o almoço alguns minutos antes da uma hora, e consegui ar ranjar um lugar ao lado de Jeremy. Já estava começando a pensar que ele seria a pessoa ideal para me aconselhar quanto à forma de pôr em prática minhas ambições européias. Ouvindo-o falar sobre sua carreira enquanto comíamos empadão de peixe com pimentões ve rmelhos, me dava conta de que, apesar de termos a mesma idade, não poderíamos ter vindo de extratos mais diferentes. O pai de Jeremy, banqueiro de profissão, ti nha fugido da Europa Oriental alguns dias antes de estourar a Segunda Guerra Mun dial. Instalou-se na Inglaterra, anglicanizou seu nome e mandou seu filho para Westmin ster, de onde Jeremy foi para o King's College de Londres e fez o curso de direi to, licenciando-se com notas altas. Meu pai foi um homem que se fez à própria custa em Yorkshire Dales e insistiu para q ue eu parasse de estudar mal terminei o curso secundário. "Eu lhe ensino mais sobre a vida real num mês do que você aprenderia durante uma vida inteira com esses tipos da universidade", costumava dizer. Aceitei sua filosofia sem duvidar dela

Como os dois colégios promoviam diversas atividades conjuntas. Depois de terminar meu curso de oficina. na esperança de vislumbrar seus calções azuis quando ela pulava para lançar a bola certeira na cest a. na cintura. a nossos clientes mais afastados. Depois disso. uma forte mistura de ambição e esnobismo intelec tual da qual meu pai teria desconfiado. enquanto nos dirigíamos para os chuveiros. passei para o armazém 14 de Leeds. Isso para não lembrar que a mulher mais atraente do curso acabou indo parar na sua cama na noite de sába do. na Sorbonne. Quando Buster Jackson se aposentou. corri ao andar de c ima e me agachei aos pés da cama. aos treze anos de idade. Encontramo-nos no domingo pela manhã para jogar squash. comecei a me interessar vivamente por produções teatrais. Jer emy havia passado esse mesmo período preparando uma tese de mestrado. Meu pai me recomendara que nunca cometesse o erro de imaginar que amigos e coleg as fossem necessariamente animais do mesmo tipo (muitas vezes. todas as desculpas me serviam para ir ao ginásio. Inscrevi-me na orquestra conjunta e acabei tocando triângulo. percorri o norte da Inglaterra . Voltei para Leeds no domingo à noite e. Embora tivesse ficado impressionado com Jeremy durante o seminário. embora não gostasse dele. sem nunca abrir a boca. sem parecer sequer transpirar muito. -Temos de nos encontrar outra vez . citava o Conselho de Ministros como exemplo). talvez eu possa ajudá-lo. Intuí que ele só aceitara fazer aquela preleção na es perança de. passei dois anos no departamento de con tabilidade. Não contribuiu muito para a impressão que me causou o fato de ele ter mais alguns ce ntímetros de altura do que eu e. entregando de tudo. quando cheguei a casa. continuei a . durante os três anos seguintes. ele pensou que os dividendos seriam grandes. apesar de não saber representar. o que era mais importante. . eu estava ganhando um salário de operário havia oito anos. deleitando minha sonolenta mulher com o relato de um fim de semana que se revelara proveitoso. sob o olhar vigilante de Buster Jackson.Se está realmente pensando em lançar-se na Europa. Na época em que finalmen te abandonou o mundo acadêmico e obteve seu primeiro emprego como sócio de uma grande f irma de advogados comerciais em Londres. o chefe das oficinas. desde nosso primeiro encontro. antes de partir de Bristol. Algumas semanas depois de fazer vinte e um anos. a montá-los de novo. no futuro. preparando uma tes e de doutorado sobre barreiras comerciais internacionais. aprendendo a calcular os preços e a cobrar dívidas difíceis. apaixonei-me ao vê-lajogar b asquete.disse Jeremy. obter alguns dividendos. pressenti. Assis ti a debates. que me ensinou a desmontar todos os veículos da companhia e. vel ada em sua amabilidade superficial. de animais a abacaxis. estudou no Colégio Feminino de Leeds à mesma época em que eu freqüentava o colégio vizinho. passei no exame de habilitação para conduzi r veículos pesados e. Depois de sair do colégio e ir trabalhar na oficina. Os dois estabelecimentos 15 partilhavam um único ginásio.e deixei o colégio algumas semanas depois de fazer dezesseis anos. como chefe das oficinas. Helen. e. e ele me derrotou completa mente. alguns a menos. A primeira. já tinha em meu poder os diversos números de telefone e de fax de Jeremy. comecei a trabalhar na Coopers como aprendiz e passei os três primeiros anos no armazém. sobre o Código de Napoleão. no final da conferência. Na manhã seguinte . Percebo agora que. Por isso. Rosemary era minha segunda mulher. Jeremy estava em Hamburgo.

sentia-me secretamente encantado com o resultado de nosso pecado juvenil. Você joga tênis. era a fi lha do xerife-mor.Talvez pudéssemos jogar um pouco de tênis depois. no pequeno pavilhão por trás da quadra. ao lado de uma senhorita Kershaw. Fiquei muito lisonjeado com o mínimo de interesse que a filha do xerife-mor demons trou por mim. e acompanhar meus pa is ao baile. revelou-me um aspecto sensível de seu caráter. Apesar de minha paixão. mesmo assim. . também servia para o pai de Rosemary. Comecei a compreender. e Rosemary utilizo u esse tempo para me seduzir. descrição que.. debulhada em lágrimas. que estava grávida. onde continuou a expor os problemas que enfrentava diante de qualquer espécie de trabalho quando sua agenda estava tão cheia de compromissos sociais. Telefonava-me muitas vezes à noite para saber como eu estava e insistia para que eu fosse com ele regularmente para o camarote da administração em Elland Road. 17 Rosemary fingiu que não ouvia os antipáticos comentários da mãe e continuou conversando comigo sobre meu trabalho. Helen morreu na noite de 14 de setembro de 1964. Depois do café. que não pretendia olhar para outra mulher durante o resto de minha vida. No entanto. tom. . Enquanto comíamos uma coisa descrita no cardápio como "Abacate com ervas aromáticas". que eu ainda não tivera oportunidade de conhecer. porém. não tenho certeza de termos cons umado o ato. não era tão fácil de agradar. o tipo de pessoa com quem ela pretendia compartilhar seu almoço de domingo. descobrindo que a residência do s Kershaw era exatamente como eu a imaginava. Contra a vontade dos pais dela.Não quero ser professora . que não era homem compassivo ou sentimental (não se encontram muitos no Yorkshire). nunca chegamos a jogar tênis. no fim da festa. mas. Estava elegantemente trajada com um vestido azul sem alças que realçava sua figura graciosa. Tinha nascido em Hampshire e foi incapaz de disfarçar a sensação de que. Seis semanas depois. que. não olhei para uma única m ulher durante anos. Mas eu. nos havia convidado. que estava fazendo o segundo grau. à medida que as semanas passavam. não a levei a sério quando. 16 não tive alternativa senão vestir meu smoking. entretanto. para falar com franqueza. não joga? No domingo. de vez e m quando. ela me disse. ela me telefonou. sussurrou ao meu ouvido: . Conheci Rosemary ce rca de quatro anos depois. Tinha cabelos ruivos e um sorriso que me fez sentir que éramos amigos há muitos anos.E não fui feita para ser secretária. que sobreviveu apenas uma semana. pela primeira vez.disse. e. o xerife-mor do condado e presidente do comitê do baile.. entrei no carro e fui até Church Fenton. num baile organizado para inaugurar o Festival de Música de Leeds. por que motivo minha mãe ainda o adorava depois de mais de vinte anos de casamento. apesar de eu servir para fazer. Pensei jamais conseguir vencer o desgosto e não estou certo de que tenha conseguido. raramente usado. comecei a me questionar se. . afinal. meu pai. . A princípio senti-me nervoso por namorar a filha do xerife-mor. Depois de sua morte. A mãe dela. donativos com fins de caridade.Vamos manter contato. na casa de campo da família. Fui colocado na mesa 17. Não era meu habitat natural. para ver o Leeds United jogar aos sáb ados à tarde. mas logo me habituei à idéia. ao dar à luz nosso filho. mas. grande e decadente. de forma alguma. ela me arrastou para a pista de da nça. fizemos um casamento apressado.ver Helen. dedicando toda a minha energia à empresa. pensando bem. como a Cooper tinha um anúncio de u ma página no programa e o brigadeiro Kershaw. convidando-me para almoçar com e la e seus pais no domingo seguinte. entretan to. contou-me que tinha terminado o curso de inglês na Universidade de Durham e não sabia ao certo o que fazer da vida. para . não era. Alguns dias depois. um tipo simpático. só fizemos amor quando já tínhamos dezoito anos. Como choveu durante toda a tarde.Conversam os durante o segundo e o terceiro pratos sem prestar atenção às pessoas que estavam sentadas ao nosso lado. Depois dos funerais de minha mulher e meu filho. que tinham esperanças de vê-la na univ ersidade.

conheceu Jeremy Alexander. o irritante hábito de tamborilar os dedos sobre a mesa quando eu não compreendia imediatamente onde ele queria chegar. Constatei que Jeremy já havia falado com o advogado da companhia francesa em Toulo use as restrições que poderia ter. Assegurou-me que. percebi que todo mundo que trab alhava no edifício já tinha partido para o fim de semana. sugerindo-me que nos reuníssemos depois para analisar o contrato. sempre que tinha tempo para isso). I nteressou-se pela companhia. Rosemary pretendia uma vida feita de idas regulares ao G rand Theatre for Opera North. Mas confesso que. no sentido de transportar su as mercadorias para supermercados britânicos.) 18 começou a ter amantes (e eu também. aquilo seria mais do que mera "fantasia com um caminhoneiro". sem dúvida. pois Rosemary mostrava-se inflexível. quando telefonou. tinha perdido basta nte dinheiro em empreendimento semelhante com uma companhia cervejeira alemã e não podia dar-me ao luxo de cometer novamente o mesmo erro.. seguidas de jantares com seus amigos do condado qu e durassem até a madrugada. embora eu tivesse garantido que ela iria gostar dele. Para Rosemary.Mande-me todos os detalhes . aprendeu os nomes de todos os empregados. ele já o pusera a par de nossas dúvidas.. Depois de termos virado a última página do contrato. . (N. é muito gentil de sua parte. evident emente. Durante alguns anos. Quando lhe apr .ela. Isso. . A senhora Kershaw não conseguiu esconder seu desgosto diante da idéia de que uma pessoa como eu pudesse vir a ser seu genro . enquanto eu preferia trabalhar nos fins de semana e esta r na cama antes das onze. No ano anterior.Obrigado. Mas. Se ela An Ideal Husband ("Um Marido Ideal"). mas a opinião dela revelou-se inútil. Jeremy tocou a campainha da porta poucos minutos depois das oito. Ao fim de quatro anos sem filhos (não que Rosemary não fosse ativa na cama). da T. Cumpriu a palavra e. na ig reja paroquial de St. Mary. na maior parte das vezes. de modo que sugeri a Jeremy que jantasse em minha casa. comigo e com Rosemary. Recordo-me de ter ficado sobr essaltado com o emprego da palavra "nossas". não ficou satisfeita de só ter sido avisada na última hora que e u havia convidado um estranho para jantar. Rosemary fez todos os esforços possíveis para ser boa esposa. disse-me que estaria em York na quinta-fe ira seguinte para falar com um cliente. apesar de Jeremy manifestar.disse Jeremy. eu não estava sendo o marido que dera título à peça de Oscar Wilde* que ela me levara recentemente p ara ver. e o fato de eu ter adormecido durante o segundo ato não ajudou muito. Devem ter passado cerca de seis semanas após o seminário em Bristol antes que eu tiv esse ocasião de telefonar para Jeremy a fim de lhe pedir conselhos. até ela começar a falar em casamento. como eu trabalhava durante todas as horas que Deus me concedia. Foi um prazer ver aquele profissional trabalhar. até se fez amiga das mulheres de alguns dos executivos. ponderou a oferta durante um momento e depois disse: 19 . então. quando fiz meia-volta para ver Ros emary avançar pela nave da igreja. começamos a seguir caminhos separados. Casamos dezoito meses mais tarde. Pretendia fechar negócio com uma companhia francesa de queijos. Mais de duzentos convidados compareceram ao grandioso casamento campestre. E. mos trou-se discreta a esse respeito. receio não lhe ter prestado toda a atenção de que ela necessitava. meus pensamentos se voltaram para a cerimônia de meu pr imeiro casamento. de vez em quando. esmiuçando todos os pontos do contrato. e passamos a maior parte daquela sexta-feir a fechados na sala de reuniões da Cooper. Pode deixar-me no Queen's Hotel para muda r de roupa? Rosemary. no entanto. Concordei. embora Monsieur Sisley não falasse inglês.Eu estudo a papelada no fim de se mana e lhe telefono na segunda pela manhã. Ele consultou o relógi o.

embora eu não fosse cego. Jeremy havia m aconselhado a aceitar uma das ofertas. Havia conseguido embarcar no último avião. o Sunday Times avaliou nossa fortuna (minha e de Rosemary em conjunto). a verdade é que fechei um olho. Eu continuava a viver na casa de meu pai.esentei Rosemary. mas eu lhe dissera que nunca permitiria que a Cooper saísse do controle da família. em cerca de trinta milhõe s de libras. advogado da companhia. seu valor tinha subido para duas libras e oitenta. as ações da Cooper tinham ultrapassado o marco das cinco libras. pa ra mim.. e. Meus contadores concordaram. conseguimos anunciar em 12 de fevereiro de 1980 que a Cooper iria s olicitar a inclusão de ações na Bolsa durante esse ano. ofereci a Jeremy um lugar na direto ria. não tivesse chegado em casa inesperadamente. Graças à sua diligência e experiência. de certa forma. seguindo-se especulações da imprensa em relação a uma possível redistribuição. Há algum tempo eu achava que a companhia necessitava de um advogado e. acho que ele teria mesmo desaprovado essa idéia. afinal. encontrei o BMW branco de Jeremy estacionado próximo à min ha porta. a economia inglesa revelou crescimento contínuo. fez uma ligeira reverência e beijou-lhe a mão. e. que morrera no ano anterior. e não há dúvida de que Rosemary não me desencorajou. elas deveriam ser divididas igualmente entre nós. nunca teria compreendido que fosse possível passarmos a valer vários milhões de libras de um dia para o outro. Nunca tinha dado grande importânci a às férias e não era extravagante por natureza. naque la ocasião. Eu me sentiria feliz em continuar vivendo da mesma forma se. passei grande parte do tempo em Madri. Depois disso. não tiraram os olhos um do outro durante toda a noite. em março de 1984.. b atalhando novos contratos. Meu pai. e devo confessar que seu súbito entusiasmo pelo norte da Inglaterra me permitiu fazer progredir minhas ambições para a Cooper muito mais rapidamente do que eu sonha ra ser possível. tivemos de divi dir as ações em três ocasiões diferentes. no quarto da frente. Jeremy orientava habilmente a companhia ao longo de uma floresta de problemas legais e financeiros provocados por nossa expansão. 21 Estacionei meu carro ao lado do de Jeremy e já me dirigia para a porta da frente q uando notei que havia apenas uma luz acesa na casa. as ações não passavam de pedaços de papel nas mãos de Joe Ramsbottom. e de início planejara passar a noite em Londres.. de regresso a Heathrow após negociações particu larmente longas e árduas em Colônia. no pr . Enquanto isso. Durante a década de 1980. Jeremy começou a arranjar desculpas para passar cada vez mais tempo em Leeds . pois morreu ainda convencido de q ue um crédito de dez libras era perfeitamente adequado para a condução de um negócio bem gerido. Mas já estava farto de hotéis e queria ir logo para casa. alguns minutos depois de uma hora da madrugada. já com c inco anos. p ouco importante. certa noite.000 ações de uma libra foram rapidamente absorvidas por instituições e pelo público em geral. Quando cheguei a Leeds. não pensei duas vezes. Durante esse período. Amesterdã e Bruxelas. apesar de ter de dirigir durante muito tempo. A riqueza parecia-me. Segundo os termos do lançamento de ações. e.900. por volta de 1989. Na realidade. Jeremy explicou-me que. um ano depois de nosso primeiro encontro. talvez nunca tivesse ido para r na prisão. Foi então que cometi meu primeiro erro: convidei Jeremy para o cargo de administrador da companhia. e.. Se eu tivesse telefonado a Rosemary durante o dia. cinqüenta e um por cento das ações ficariam em meu poder e de Rosemary. Só um cego deixaria de ver o qu e tinha todas as possibilidades de vir a acontecer. com a missão de preparar a companhia para se tornar uma sociedade anônima. Logo. Eu nunca tinha pensado a meu respeito em termos de uma pessoa rica. e poucos dias depois que a companhia 20 começou a fazer parte da Bolsa. guiava um Jaguar. Depois disso. e trabalhava quatorze horas por dia. por motivos fiscais. As restantes 4.

dolorosamente. . Jeremy abandonou a cadeira da presidência sem comentários logo que entrei na sala de reuniões e não revelou interesse especial nos procedimentos.Jeremy poderi a contar a você o que aconteceu durante sua ausência. Disse-lhe que não era . . Fiquei feliz por ela não poder ver o sorriso de satisfação que se espalhou em meu rosto. Ele consultou o registro e confirmou que sim. mas da qual resultaria que Rosemary e eu perdêssemos o controle total da companhia. Nada se mex ia. Quando telefonei para Rosemary comunicando-lhe que J eremy iria jantar conosco. pode ria. . de modo que era evidente que eles não tinham ouvido o barulho do carro e não tinham percebido a minha presença. com tempo. antes de chegarmos a qualquer decisão. Precisamente quando ele julgava ter cons eguido fazer passar a moção sem votação. Eu poderia ter caído naquilo se não tivesse chegado a Leeds na noite anterior e encontrado seu carro estacionado em minha casa e a luz de meu quarto acesa.E também estamos sem nenhuma comida especial . bem como o que ele e Rosemary deviam andar tramando há algum tempo. Embora já não sentisse muito afeto por Rosemary e até aceitasse a idéia de que talvez nunca tivesse sentido. a quantidade de ações da companhia que era agora co ntrolada por Jeremy. telefonei para minha secretária e disse-lhe que regressaria ao es critório diretamente de Londres. Uma rápida consulta à agenda durante o desjejum tornou perfeitamente clar o o motivo de Jeremy pretender presidir aquela reunião em particular. já tivera tempo de estudar meus 22 dossiês e perceber. Mas seus planos já não me interessavam.Meu pai teria ficado orgulhoso com aquela poupança de recursos da companhia. ela pareceu ainda menos entusiasmada com a idéia do que ele. .Talvez fosse melhor irem os dois a um restaurante sugeriu ela. Quarldo cheguei ao Queen's Hotel.Então eu fico com a chave dele . Jeremy não revelou sinais de emoção. Estendi-me na cama do hotel. perguntei ao gerente de plantão se o senhor Jeremy Alexander tinha reservado um quarto para aquela noit e. Retornei então ao carro e guiei tranqüilamente para o Centro da cidade. agora odiava Jeremy.O senhor Alexander registrou-se em outro hotel para passar a noite. . Eu estava decidido a fazer com que o relatório viesse a provocar sua queda.disse-lhe. pedi aos contadores da companhia que elaborassem um re latório completo para a próxima reunião do conselho. Não precisaria ser um Sherlock Holmes para deduzir o que estaria acontecend o naquele quarto.acrescentou. Na manhã seguinte. depois que fingi não compreender totalmente sua pr oposta de novas ações e insistir no fato de que minha mulher deveria ser informada a esse respeito. Foi nesse momento qu e tentou introduzir uma moção aparentemente inócua. Mas só no dia segu inte descobri até que ponto o odiava. Se eu não estivesse tão furioso. sem que pudéssemos impe dir qualquer oferta de aquisição futura. Limitou-se a olhar para suas anot ações e depois a tamborilar com os dedos na mesa. cada vez mais furioso à medida que as horas passavam. Jeremy não me pareceu muito interessado. até chegarmos ao ponto da agenda que dizia respeito a uma futura emissão de ações. Queria vê-los juntos. . Detive-me e fiquei olhando as cortinas cerradas durante algum tempo. sem conseguir dormir. ter preparado uma forma mais sensata de me ver livre dele. concordou.imeiro andar. Na hora em que a reunião do conselho deveria começar. Tinha decidido informar os diretores sobre aquilo que ele pretendia exatamente e fazer com que fosse afastado da direção o mais depressa possível. Como ninguém tinha "outras questões" a levantar. Ela me recordou que havia uma reunião do conselho marcada para as duas horas e que estava agendado que o senhor Alexander presidir ia. mas. encerrei a reunião às I7:40h e sugeri q ue Jeremy e Rosemary jantassem comigo. . Cheguei à Cooper pouco depois das 13:30h e estacionei o carro no espaço marcado PRES IDENTE.Esforcei-me para não rir.

na sala de estar. Já não é uma sociedade familiar. e minha pergunta seguinte ju stificou plenamente a reputação do condado. .exclamou Jeremy.Gostaria de saber a que acionistas ele estaria se referindo. Não percebe que seríamos ra pidamente substituídos? Ele tentou algumas frases bem ensaiadas. . embora Rosemary fosse menos convincente. A longo prazo. Para qu em nunca revelara o mínimo interesse pelas transações da companhia. No silêncio que se seguiu. Foi então que ela se voltou para mim e disse: "Temos de pensar em nosso futuro. quando ele bebia o segundo brandy.Ele pode confi rmar que eu reservei meu quarto habitual. . Engraçado que o que mais me enfureceu não foi o fato de Jeremy ter dormido com minha mulher.a comida o que mais me preocupava. em vez de ficar percorrendo toda a Europa. Posso ser alguns centímetros mais baixo do que ele. é preciso seguir um curso muito prudente para ambos. Durante o café. e depois disse: . .Estou sóbrio como um juiz. o que não era de seu feitio. Devia ter mostrado mais interesse por Rosemary. Jeremy chegou tarde.E existe algum regulamento da Bolsa que exige que essas explicações sejam dadas na cama? .perguntei .disse eu.Nem uma gota . um pouco mais lentamente. 24 1 Como estava quando cheguei ontem à noite e encontrei seu carro estacionado à minha p orta e a luz do quarto acesa. Não se admire de também correr o risco de perder a empresa.A culpa é sua. . Não respondi.Pode. Jeremy pôs-se imediatamente de pé.acrescentou. seu idiota! . Levantei-me também de minha cadeira. . . . . com toda a calma. apesar de apenas por um momento.disse ele. mas em vinte .Oh. Os homens de Yorkshire são famosos por sua franqueza. Pela primeira vez desde que conhecera Jeremy. não seja ridículo! .esbravejou ele finalmente. e isso para não mencionar os ac ionistas. Telefon e para o gerente . . . mesmo depois de Jeremy ter franzido a testa de forma demasiado óbvia ao olhar para ela. e o encarei. consegui provocar o confronto que Jeremy tinha tão habilmente evitado durante a reunião do conselho.Acho que você bebeu demais. Richard.Estava simplesmente explicando a Rosemary de que forma a emissão de novas ações a af etaria . tirei a chave do quarto do hotel do bolso do casaco e a gitei-a diante dele. mas preparei 23 seu habitual uísque com soda logo que ele entrou. Devo dizer que fez uma brilhante representação durante o jantar.Por certo você sabe que retirará o controle da companhia das minhas mãos e das de Rosemary. Começou a tamborilar com os dedos na mesa de vidro à sua frente.Por que está tão interessado em levar adiante essa nova distribuição de ações? . Finalmente perdi a cabeça. parecia extremamen te integrada nos argumentos que ele apresentava. estendendo o aparelho para mim. mas a arrogância de pensar que também poderia ficar com minha empresa. vi-o perder o equilíbrio. Jeremy deixou escapar uma gargalhada curta. . Limitei-me a dar um passo à frente e aplicar um murro em seu queixo be m barbeado.Mas também confirmará que eu passei a noite no seu quarto. para começar. . .O que é exigido pelos regulamentos da Bolsa.Por acaso vocês estão tendo um caso amoroso? Rosemary ficou vermelha como um pimen tão. excessivamente alta. Você deve compreender que a Cooper es tá se expandindo muito rapidamente.No melhor interesse da companhia. Richard. querido".Passei a noite no Hotel Queen. com certeza . . Fiquei um pouco surpreso ao constatar que Rosemary não só o apoiava como mostrava co mpreender perfeitamente os menores detalhes da cessão de quotas.garanti. pergun tando a mim mesmo o que iria ele dizer a seguir.

Deitei-me na cam a. Ramsbottom .disse Joe com firmeza.Sou o inspetor Bainbridge . depois para frente. o vestíbulo estava deser to e entrei no elevador. quando a porta da cela se abriu e entrar am dois detetives à paisana. O inspetor hesitou um momento e depois fez um sinal com a cabeça ao colega. derramando o brandy no chão. excet o com os filhos. Nunca tinha visto Joe ser tão firme com alguém. e seus ternos. mas estava muito agitado para conseguir dormir.Se cooperar conosco. . contei-lhe exatamente o que tinha acontecido. com o sangue escor rendo sobre o tapete. que foram guardados num volumoso en velope pardo. . especialmente quando Ro semary correu para perto dele e começou a gritar barbaridades para mim. resolvam logo. .Ou acusam formalmente meu cliente ou nos deixam e m paz. levaram-me para fora do hotel e conduziram-me para o posto pol icial de Millgarth. que abanou a cabeça. Apalpei meu queixo e concluí que o mesmo se passava comigo.respondi-lhe . Estava cada vez mais ans ioso para saber o que tinha acontecido. Alguns minutos depois das cinco horas. Um deles disse que eu estava preso e leu meus direitos. pois ambos estavam com a barba por fa zer. de modo que liguei para Joe Ramsbottom. depois que a porta da cela fechouse atrás deles. comecei a temer que Jeremy pudesse ter sofrido um ataque ca rdíaco ou mesmo que a pancada da cabeça na quina da mesa o tivesse matado. . Disseram-me que tinha o direito de dar um telefonema.prosseguiu ele. Saí de casa em grandes passadas e voltei de carro para o Centro da cidade.De que.disse o mais alto dos dois homens.disse o inspetor Bainbridge a Joe.Meu cliente nada tem a dizer neste momento. Quando entrei no Queen's. .Está disposto a fazer dec larações por escrito ou gravadas? .Esse é o sargen to Harris.Não . Sem mais explicações.Não nos importamos de que esteja presente. . Joe vinha atrás deles. deixand o-o no estacionamento do hotel. diga-lhe que não se incomode de ir para o Queen's Hotel. cerca de quarenta minutos depois. . fui registrado pelo oficial de serviço e retiraram meus pertences. . Pareciam ter estado de serviço a noite toda. quando ele acordar. Quando Joe chegou. Quando termi nei. Jeremy cambaleou. amarrotados. ajudará as investigações . Depois que Joe saiu. Ficou imóvel na minha frente.E. . primeiro para trás. Fiquei bastante impressionado. bateu com a têmpora direita na quina da mesa de 25 vidro. Depois trancaram-me numa pequena cela e deixaram-me só.indaguei. Sentei-me no banco de madeira e tentei compreender por que tinha sido preso.anos de convivência com caminhoneiros aprendi a aplicar um murro eficiente. inspetor disse Joe.E nada terá a dizer até que eu lhe dê instruções. mas não manifestou opinião. . . Ele escutou atentamente. Dr. porque vou dormir outra vez na cama dele esta noite. antes de cair aos meus pés. Minha imaginação corria à 26 solta enquanto eu considerava as piores possibilidades.disse o inspetor. com o se eu não existisse.. -Acusar-me? . Não p odia acreditar que Jeremy tivesse sido tão louco a ponto de me acusar de agressão.. Devo confessar que fiquei muito satisfeito comigo mesmo.Poupe o fôlego para seu ex-administrador . .Gostaríamos de fazer algumas perguntas a respeito do que aconteceu em sua casa n a noite de ontem . . Partir am ambos sem uma palavra. Olhei para Joe. indo diretamente para o quarto de Jeremy. disse que ia tentar descobrir de que me acusava a polícia.Os dois estavam com os olhos cansados. acordei a mulher dele e perguntei-lhe se Joe poderia me procurar na prisão o mais depressa possível.Nós só queríamos uma declaração. pelo amor de Deus? . Ao cair. Estava finalmente começando a cochilar quando quatro policiais entraram no quarto e me arrancaram da cama.

não me foi concedida fiança. perto da casa . como eu.confessou Joe.Isso não é propriamente o pão-nosso-de -cada-dia de um advogado de empresa. . ele ainda estava estendido no chão. Richard . repassando vezes sem conta minha história.Ele é esperto.. Vai hoje ao Tribunal Real de York e concordou em reunirse conosco logo que termine o julgamento. antes que ele saísse de casa esta manhã.Não. mas parecia não se importar de me representar. com Sir Mat thew na defesa não precisa temer nada. . Qu ase me cansei de dizer a todo mundo que queria ouvir-me que o cadáver de Jeremy nu nca .Isso não é possível .repeti. para ser franco não estou . .disse eu.insisti. Notei que ele não acreditava numa palavra do que eu dizia.Oh. Suas faces muito coradas e seu sorriso caloroso davam-lhe o aspecto de quem ap recia regularmente uma boa garrafa de vinho e a companhia de pessoas divertidas. quase sem conseguir pronunciar a palavra.Homicídio? . .Mas. Disso você pode estar certo.disse Joe. 27 . Foi decidido que eu permanecesse sob custódia até a polícia ter investigado e apresent ado todas as suas provas à Promotoria Pública. e envergava o traje característico de sua profissão: terno escuro com colete e gravata cinzento-pratead a. Quarenta minutos depois fui transferido para a prisão de Armley. meu Deus! . . e as semanas em meses.Quando deixei Jeremy. .A polícia também encontrou vestígios de sangue na mala de seu carro e parece confian te de que condiz com o de Jeremy. como nos anúncios que o velho Denis Compton fazia para o Brylcreem. e ins talei-me para passar minha primeira noite atrás das grades. apesar de um eloqüente apelo de Sir Matthew. Tinha a cabeça coberta de cabelos escuros.protestei. . de aspecto distinto.. . Sir Matthew R oberts era mais ou menos da minha altura.disse Joe -. Joe e ele saíram alguns minutos depois das onze. ..De homicídio. eu acho . .Mas não foi isso o que aco nteceu . um magistrado convocou-me para o Tribunal Real de Leeds. É muito esperto. Eu sabia que não o encontrariam. acompanhado de um homem forte.. e. Se você for inocente. Por volta das sete horas daquela noite. Joe me contaria. mas pelo menos uns cinqüenta quilos mais pesado . .Ninguém iria acreditar numa história tão absurda. a porta de minha cela abriu-se outra vez e Joe entrou. que tinham revolvido mais terra no meu jardim nas últimas vinte e quatro horas do que eu conseguira revolver durante os últimos vinte e quatro anos de minha vida. no dia seguinte. Você não está vendo o que el es tramaram? . Naquela tarde fui acusado formalmente do assassinato de Jeremy Anatole Alexander . os dias em semanas.Escute i com descrença o que Joe disse ter descoberto acerca das declarações que minha mulher fizera à polícia nas primeiras horas da madrugada. .Podem acreditar quando souberem que a polícia encontrou um rastro de sangue que vai da sala até o local onde seu carro esteve estacionado. conselheiro da rainha. ao telefone. As horas transformaram-se em dias. Mas consegui falar com Sir Matthew Roberts. inconsciente.. mas que esperava encontrá-lo dentro de poucas horas. A polícia confidenciou a meu advogado que ainda não encontrara o corpo. lisos e bem modelados em torno do crânio. Passei parte da noite com Sir Matthew.Depois do que Rosemary contou. Suas primeiras palavras foram para expressar o desejo de que nos tivéssemos conhecido em circunstâncias mais agradáveis. Gostei dele 28 mal se apresentou. No dia seguinte.respondeu Joe.

Eu não suportava olhar p ara ela.Senhora Cooper. foram as últimas palavras que ouvi meu marido dizer qua ndo saiu de casa com o corpo de Jeremy.Então. cada palavra do julgamento. Sir Matthew? .perguntou o juiz. em vez de ir direto ao quarto de Jeremy. Ele se mostrou sombrio quando o advogado de acusação voltou ao seu lugar.Apenas em ocasiões sociais. Até aquele momento não poderia refutar uma única palavra do que ela disse.Sim. o senhor Alexander não esteve com a senh . meritíssimo .Sem dúvida alguma. Quando o caso chegou finalmente ao Tribunal Real de Leeds.seria encontrado. Richard?" . 30 Sir Matthew ergueu-se lentamente. ou quando ia ao escri tório recolher sua correspondência. Não me 29 ajudou muito o fato de a polícia ter-me encontrado na cama totalmente vestido.Deseja interrogar essa testemunha. Sem um cadáver. "Cuidado para que não fiquem vestígios de sangue". "Observei os rostos dos jurados. Os jornais esmeraram-se em descrever Jeremy como o Lorde Lucan de Leeds e a mim como o moto rista tarado por sexo. Teria me divertido com essas descrições se não fosse eu o réu.Disse que pretendia se livrar do corpo enquanto ainda estava escuro e pediu-me que eliminasse todos os sinais de que Jeremy tinha ido lá em casa. depois. de modo que virei o rosto para uma loura vistosa que sentava na primeir a fila liberada ao público em cada dia do julgamento.Levantou o corpo. Estavam perplexo s. ajei tou a toga e olhou de frente para seu adversário. não costumavam se ver quando o senhor Cooper estava ausente de Leeds ou for a do país para tratar de negócios? . os jornalistas que faziam a cobertura policial apareceram em bandos e acompanharam .sondou o advogado da Coroa. nove meses depois.Meu marido inclinou-se e apalpou o pulso do senhor Alexander . na noite de 17 de setembro de 1989. "Na sua fala de abertura. deliciados. Um multimilionário. . . . Deve ter sido nesse momento que desmaiei .Ficou branco e disse apenas: "Está morto. Durante uma hora. um caso de possível adul tério e um cadáver desaparecido eram coisas a que não podiam resistir.E. senhora Cooper? . todo mundo partiria do princípio de que Je remy havia regressado a Londres durante a tarde. .respondeu Ros emary calmamente. como poderia seu cliente ser acusado de homicídio? E como eu poderia ter-me livrado do cadáver. e era óbvio que tinham dúvidas quanto à minha culpabilidade.respondeu. o que aconteceu. o advogado de acusação orientou gentilmente minha mulher nas suas respostas sobre o que se passara naquela noite até eu agredir Jeremy. diria que era amiga do senhor Alexander? . Estendeu-se em toda a sua altura. quando acompanhava meu marido. no banco dos réus. . Sir Matthew olhou interrogativamente para mim. Como já não havia ninguém no escritório quando eles saíram de lá. Essa dúvida manteve-se até Rosemary se sentar no banco das testemunhas. Eu o matei.E que fez o senhor Cooper em seguida? . Abanei vagarosam ente a cabeça. antes de seu marido regressar i nesperadamente de uma viagem pela Europa. . colocou-o no ombro e se dirigiu para a porta. após o discurso inicial da acusação. Eu gritei: "O que está fazendo.Tem certeza de que foram essas as únicas vezes em que o viu. pois não havia cadáver algum para encontrar. .murmurou Rosema ry. se havia passado a noite inteira no Queen's Hot el? Eu lamentava profundamente não me ter registrado da segunda vez." . mas apenas no sentido de que ele era colega de meu marido . . senhora Cooper? Não h ouve outras ocasiões em que passou bastante tempo sozinha com o senhor Alexander? Por exemplo. Sir Matthew travou uma extraordinária luta em minha defe sa.E o que ele respondeu? .

enquanto a senhora e seu amante utilizavam esse tempo para deixar pistas pela cidade de Leeds. senhora Cooper retrucou Sir Matthew.Eu sei o que meu marido diz . .Para 32 poder entrar neste tribunal e confirmar que estou dizendo a verdade. . Rosemary tinha sua respos ta preparada. .Sendo assim. Apesar dos protestos do juiz e do tumulto no tribunal. .Compreendo . Ele apareceu lá em casa depois do expediente a fim de deixar um documento par a meu marido.Bem. enquanto s eu amante desaparecia. se quisesse. quando Rosemary disse calmamente: . . .Ou talvez a verdade esteja no fato de que utilizou esse tempo para preparar uma armadilha para seu marido.Mas seu marido diz que. senhora Cooper.interrompeu o juiz.O juiz não conseguia 31 ocultar sua irritação e perguntou-lhe novamente: . poderia nos dizer exatamente onde ele se encontra neste momento. Os jurados olharam para mim. Contém a chave deste caso ..disse Sir Matthew. embora não fosse a primeira vez que meu marido me acusasse injustamente. .respondeu Rosemary.continuou Sir Matthew. . como afirma. E que. Na verdade. . . vamos diretamente à questão. Todos os olhares estavam cravados em Rosemary.Não. Ela não hesitou.ora várias horas. em circunstância alguma. Está indo longe demais.Bem que gostaria que ele estivesse vivo .Compreendo . Especialmente se.Relevante? É absolutamente vital.Não. Um murmúrio percorreu a sala de audiências. Sir Matthew? . interpelando-o novamente. como se tivesse ensaiado aqu ela resposta uma centena de vezes. . quando se encontrava sozinha em casa? . -Afirmo-lhe.disse Sir Matthew. e que a senhora sabe perfeitamente que ele está vivo e com boa saúde. acreditava qu e seu marido tinha cometido um homicídio e ia livrar-se do corpo.Muito conveniente . Desejei que ela dissesse a verdad e. . desmaiei logo que ele saiu da sala. .disse o juiz.Sempre fui boa esposa e uma mulher fiel. meritíssimo. . mas não posso. não estou indo suficientemente lo nge. Dirigiu-se ao Queen's Hotel e p assou lá o resto da noite. meritíssimo.A voz era suave e meiga.. devo acrescentar. .. mas não teve tempo nem para tomar uma bebida. meritíssimo. Telefonei à polícia assim que recuperei os sentidos. O juiz ia começar a protestar. pistas. A maior parte deles parecia desejar que voltasse a pena de morte.Sir Matthew . . . .Deu meia-volta e fitou novamente minha mulher.Como já expliquei. . .disse Sir Matthew.Sem a mínima dúvida. p actuar com um homicídio. A senhora tinha um caso com Jeremy Alexander no momento em que ele desapareceu ? .respondeu o consultor da rainha em tom calmo. que Jeremy Alexander era seu amante e ainda é.Isso é relevante.A verdade é que seu marido saiu de casa sozinho.disse Sir Matthew.. senhora Cooper . com todo o respeito. e não estou sendo ajudado pelas mal v eladas tentativas de Vossa Excelência em favor dessa testemunha. cuja vo z ia gradualmente subindo de tom. devo perguntar-lhe por que motivo esperou duas horas e meia para chamar a polícia . que se dest .respondeu -.Isso é relevante? Sir Matthew explodiu.disse ela.É evidente que não .Mas a senhora já conhece a verdade. com indignação. . .

Mas a única coisa que não puderam deixar foi um cadáve r. ele não está morto. Era evidente que ele não tinha dúvida quanto à minha culpa. enquanto irrompia um burburinho no tribunal. Depois de terem passado um dia inteiro deliberando o caso.Agora que foi descoberta. agarraram-me firmemente pelos braços e conduziramme pelos degraus por trás do banco dos réus até a cela que eu ocupara todas as manhãs durante os dezoito dias que durara o julgamento.disse Sir Matth ew em voz baixa. O juiz pediu silêncio. Quando chegou minha vez de sentar no banco das testemunhas e Sir Matthew começou a interrogar-me. porque. e Sir Matthew entrou.disse o policial que tinha se ocupado de mim desde o início do caso. Momentos depois a porta abriu-se de novo. mort al. É a sentença determinada pela lei.interrompi com voz calma. Gostaria de lhes agradecer. Depois de outra noite na prisão de Armley.Foi aquela maldita mulher que voltou todos contra o senhor. não! . com o fim de levar a cabo seus propósitos. ironicamente. Rosemary mostrara-se capaz de dar uma resposta que me revelara todos os sintomas de uma experiente preparação de Jeremy Alexander. 33 recordando aos jurados que sua opinião acerca das provas não deveria pesar sobre a d ecisãp deles. como muito bem sabe.inavam a incriminar seu marido. Sempre desejei saber quais tinham sido os dois membros que não se sentiam suficientemente convencidos para declarar minha culpabilidade. mas. no tribunal.Oh.Senhores jurados. . e. companheiro . . e sua voz tornou-se ainda mais áspera ao pronunciar: . Na realidade. Só posso desejar que o senhor juiz viva o suficiente para perceber a verdade.gritou Rosemary.. A cada uma das perguntas com que Sir Matthew a sondara. .Não o matei. consideram o réu culpado ou inocente das acusações que lhe são feita s? -Não me surpreendi ao ouvi-lo dizer claramente. o Queen's. quando foi finalmente perguntado ao homenzinho gordo e jovial da gravata-borboleta: .Culpado. antes de finalmente desatar a soluçar. A palavra final da acusação foi mortalmente aborrecida. meritíssimo . quando terminou. deixe disso.Condeno-o à prisão perpétua.Sir Matthew ergueu ansiosamente o olhar. A escolha das provas que descreveu foi desequilibrada e inju sta. . Não só tinham acreditado na representação de Rosemary. os jurados decidirão se seu desgosto é verdadeiro. e os dois juntos fa bricaram toda essa história falsa. senhora Cooper. Na verdade..Não. senhora Cooper? . . Levem-no! Dois guardas carcerários avançaram. Olhei para os jurados. de modo que todos o ouvissem: . os jurados tiveram de passar também a noite num hotel. Fechou a porta da cela e girou a chave antes que eu tivesse oportunidade de 34 concordar com ele. tive a sensação de que minha história soava muito menos convincente do que a de Rosemary. o que mais me espantava era o júri não ter chegado a uma decisão unânime. Essas lágrimas são falsas.Richard Wilfred Cooper foi considerado culpado do homicídio de Jeremy Anatole Al exander. . A de Sir Matthew foi sutil e dramática. regressei a o banco dos réus para a decisão final do juiz. Olhou para mim durante algum tempo sem pronunciar uma . cuja voz falhou.Sinto muito. de qualquer jeito. e. . O juiz olhou para mim. apesar de corresponder à verdade. senhor juiz. acrescentou hipocrisia à parcialidade. mas tive novamente a sensação de que fora menos convincente. Não é essa a verdade. como agora me desprezavam por ter permitido que meu "bruto e insensível" advogado atacasse uma mulher tão virtuosa e sofredora. Jeremy Alexander ainda está vivo. não são? .

disse Dedos. . . Dedos já estava usando meu relógio. Uma semana depois. quando ela começou a despedir parte do meu pessoal mais experiente. Foi no início do quarto mês de prisão que pedi papel para escrever. -Vamos apresentar imediatamente um apelo contra sua condenação.O cara é honesto. . esquadrinhando cada palavr a do Financial Times. Como um advogado que não quer vir a ser juiz. Pode estar certo de que não descansarei até ter encontrado Jeremy Alexander. e a gente não consegue subomálo. Vamos colocá-lo diante da justiça. o nome era merecido. Pela primeira vez. .e fui escrevendo o relato que vocês estão lendo neste momento. Dedos fez uma pequena sondagem entre os prisioneiros para saber qu al era o melhor detetive que haviam conhecido. A companhia acabou por ser adquirida. senhor Cooper disse afinal.Desculpe . que acabava por decorá-lo. que me fazia ainda mais rico. mas só d epois que a quota das ações atingiu £13. dando-lhes instruções para venderem minhas ações se e quando surgisse a oportunidade . um dinheiro que ele nunca teria conseguido se eu estivesse presente para evitar a aquisição.É o hábito. conhecido como Don. é justo.Parece ser o tipo de que eu preciso . Hackett. Todas as manhãs traziam o Financial Times à minha cela. isso me serviu para planejar meu passo seguinte . que ele rejeitara o lugar de assistente do chefe da polícia do Yorks hire Oeste. ainda haja alguém a quem chamem Dedos? Mesmo assim. Três dias depois ele me deu o resul tado: o superintendente Donald Hackett.O ponto fraco do cara é pegar criminosos . .e foi com prazer que paguei por certos privilégios. foi indicado em primeiro l ugar por mais da metade dos respondentes. Momentos depois de eu entrar na cela. o que me deu a oportunidade de me man ter a par do que se passava em Londres. sempre que havia uma referência à Cooper.disse.É o que co loca Hackett na frente dos outros? . preferira ficar mais abaixo. E. É concebíve l que. Todos os dias o guarda de minha ala trazia novas folhas de papel pautado .Que idade tem ele? Dedos ponderou um pouco: * Pesquisa de opinião criada por George Horace Gallup (1901-1984). quando descobre que um tipo é mau. todos os dias. Não por causa da oferta de £12. As ações de Jeremy valeriam agora vários milhões de libras. com convicção. provinha de Bradford.43. Corria o boato..Foi cometida uma terrível injustiça. Devolveu-me logo que dei pelo desaparecimento. . Lia tantas vezes o parágrafo. mas porque se tornava dolorosamente óbvio que tinha sido tramada por Rosemary e Jeremy. escrevi a meus corretor es. Fui colocado numa cela com um criminoso pequeno chamado "Dedos" Jenkins.50 por ação. Continuei a seguir suas 35 atividades com grande interesse e senti-me cada vez mais apreensivo quanto à quali dade da nova direção. .perguntei. leva o tempo que for preciso até conseguir colocá-lo na prisão. Quase fiquei doente quando soube da ofer ta de aquisição da Cooper. entre os o utros presos.afirmei com prazer.Então ele é mais seguro do que uma pesquisa Gallup"*. incluindo Joe Ramsbottom. A prisão poderia ter sido muito pior se meus colegas não tivessem descoberto que eu era milionário .só palavra. segundo me informaram. estendido no meu catre. Decidira que tinha chegado a hora de fazer um registro de tudo o que me acontecera desde aquela noite em que voltara inesperadamente para casa. . Passava horas. percebi que Sir Matthew sabia realmente que eu era inocente. A meu pedido.. à beira do século 21. um americano . . Além do mais.disse eu a Dedos.

.. Sir Matthew estava preparando meu apel o e. Não entregam os bens de Jeremy Alexander sem ver seu cadáver ou. da T. NÃO SÃO ACEITAS CARTAS ANÔNIMAS.Mas eu não sou. . 38 Sir Matthew informou-me. Desde o momento em que eu fora condenado. . . (N. dizi a o seguinte: 37 Em resposta a esta carta. Depois de Sir Matthew ter saído naquela noite. pedi mais papel e comecei a redigir cuidadosamente uma carta para o superintendente Hackett. Quando Sir Matthew veio visitar-me na segunda-feira seguinte. MAJESTADE ARMLEY LEEDSLS 122TJ Reli a carta. Devo dizer. só depois de sete anos.ponderou de novo . e nunca o peguei mentindo. independente do que lhe oferecesse. isso eu posso dizer .Já deve passar dos cinqüenta. corrigi um erro de ortografia e garatujei minha assinatura no fina l. diversas versões. . E logo acrescentou: .Os jurados ingleses podem tê-lo declarado culpado . Queria a opinião de um profissional.O primeiro estafeta a ganhar mil libras por dia dos Correios Reais . no entanto.Pensando bem. explicou Sir Matthew. na segunda-feira seguinte.disse Sir Matthew. ele me deve um favor. Todo o meu esforço. acabaram como bolas no chão de minha cela.. mas os fiscais de impostos são teimosos e não se deixam convencer tão facilmente. embora nunca me tivesse dado esperanças.respondeu meu a dvogado. Sir Matthew entregou a carta a Hackett pessoalmente. disse-lhe o que ti nha em mente e perguntei-lhe o que achava de Donald Hackett.Eu sei.Nunca exagera. no seu testamento. que tinha entregue a carta p essoalmente ao superintendente.Mas como posso convencê-lo de minha inocência se estou enfiado na prisão? . no entanto.. Mas prometeu a Sir Matthew que lhe comunicaria sua decisão em uma semana. . o único comentário de Hackett foi quê teria de consultar seus superiores.. TODA A CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA DEVERÁ CONTER! NOME E ENDEREÇO DO REMETENTE. e isso foi. Mas.É uma droga de testemunha para interrogar. . não conseguiu ocultar sua satisfação ao que descobriu numa visita ao Departamento de Homologação de Testamentos..dedicado à estatística.) 36 . agora ..O cara me botou atrás das grades por roubar um estojo de ferramentas. é favor escrever no envelope: Número A47283 Nome. Jeremy deixava tudo a Rosemary. que duvido que ele concordasse em envolver-se com um criminoso condenado. Constatara que. então. .. Isso incluía ma is de três milhões de libras de ações da Cooper. A PALTA DE COMUnicAÇÃo ComPROmete O CORREIO PRISÃO DE S..disse ele -.Mas Hackett terá de ser convencido disso antes que conco rde em falar com você. afinal.Por quê? . Confesso que raramente ou nunca levei a melhor com esse superintendente. R. senhor Cooper .respondeu. nunca prevarica. A meu pedido.há mais de vinte anos.disse-lhe eu. . . depois de pensar um po uco. . a lei não lhe permitia dispor delas durante sete anos.vou tentar influenciá-lo a seu favor . Depois de ler uma segunda vez.COOPER . o que torna muito d ifícil fazê-lo cair em contradição.disse Sir Matthew.W. que ainda não parecia capaz de me tra tar pelo primeiro nome..

prosseg uiu Dave.Pergunte se ele vai se aposentar. ao deixar o parlatório. Quando entrei na sala e me deparei com o superintendente. Richard .Não. Nunca tinha perguntado a Dedos como era o aspecto físico de Don e. .Um bom tira nunca está satisfeito se alguém é preso por uma coisa que não fez. Eu gostaria de saber como o homem de confiança do diretor conseguira ouvir ambos o s lados da conversa. vão guardar os bens de le para não correr o risco de Alexander ainda estar vivo. . 39 Aparentemente. estava encantado pelo fato de os fiscais terem metido o nariz nos meus assuntos..acrescentou Dave.disse Dedos.disse. Sir Matthew prometeu que me informaria se acontecesse alguma coisa. Era magro como um espet o e usava óculos de lentes grossas com armação de osso. todo o pessoal da prisão sabia que o superintendente Hackett vinha me visitar muito antes de eu saber. Foi Dave Adams. Apertei com . para a qual eu já conhecia a resposta: .Dê meus cumprimentos a Don .. e tenho apenas um metro e setenta. misteriosamente. Mas o homem que se encontrava à minha frente era uns cinco centímetro s mais baixo do que eu. principiava o super intendente. Esclareceu que não demoraria mais de meia hora e insistiu na presença de uma testemunha. E as horas não são muito importantes quando nosso quarto foi reservado para toda a vida. recebi diversas mensagens de meus companheiros. .disse Sir Matthew. Sorri.Boa noite. . "Caro Cooper". Fique certo de que os sujeitos com penas maiores estão preparando uma recepção calorosa para você. Pela primeira vez. comecei a contar as horas. Hackett telefonou para o diretor na terça-feira passada e falou secretamente com ele.Quando tiver acabado de conversar com ele. como têm direito de esperar sete anos. tinha formado na minha mente a imagem de uma espécie d e super-homem. Na manhã seguinte chegou uma carta de Bradford.Dê-lhe um pontapé nos bagos por mim e diga que nem me importo de ficar mais tempo aqui por isso. segundo diz Maurice . um recluso já antigo da cela ao lado. isso eu po sso garantir. mas concluí que não era o momento para fazer perguntas impertin entes. Sir Matthew levantou-se para nos apresentar.Diga-lhe que lamento não encontrá-lo des ta vez. ao longo dos últimos dias. . Quando foram me buscar na cela naquela tarde de domingo e me escoltaram ao parla tório. Só lhe faltava uma capa de gabardine encardida para parecer um c obrador de dívidas. 40 Um dos prisioneiros até sugeriu uma pergunta.Estão ansiosos para ver Jeremy Alexander ocupar sua cela.. . que me explicou por que moti vo os prisioneiros pensavam que Hackett tinha concordado em vir visitar-me. não teria conseguido ter uma resposta pronta para cada uma das minhas perguntas quando estava no banco das testemunhas. pergunte se ele quer vir à minha cela beber uma xícara de chá e falar dos velhos tempos. . que lhe dava a impressão de ser meio cego. -Até mesmo os caras mais empedernidos aqui da casa acham que você é inocente . porque eu só saio daqui no dia seguinte. para serem transmitidas ao superintendente. Outra novidade. se sua mulher o tivesse matado. . Pela primeira vez na minha vida.É simplesmente porque. informando depois que pretendia visitar-me às quatro horas da tarde do domingo seguinte. De qualquer forma. não . pensei que tivesse hav ido algum engano.Estarão pensando que Rosemary pode tê-lo matado por causa do dinheiro e depois esc ondido. rindo de minha sugestão. desde que fora preso. .

Sir Matthew e o diretor t entaram me convencer disso. Já tinha repassado a história diversas vezes na minha cela. Ach o que precisará de uma secretária e de um assistente. . que não parecia condizer com seu corpo franzino. . quando eu ia começar a contar a minha história. porque. -Vinte minutos depois eu tinha terminado a versão abreviada de minha vida. .Obrigado por ter vindo me visitar. Por que sete anos? . .disse eu..Saiu sem dizer mais nada. Dessa vez ele não hesitou.disse. Era óbvio que eu o surpreendera. mas espero que trabalhe sete dias por semana. . .Ofereceram-me um emprego no Grupo 4. Percebi um leve tom de cinismo em sua voz. de modo que eu lhe forne ceria dinheiro suficiente para o pessoal de apoio. senhor Cooper. serviria para o lugar. pago-lhe mais quinhentas mil libras em qualquer banco do mundo que o senhor estipule. . mas não antes que eu concordasse em continuar a pagar sua .perguntei. se o descobrir dentro de sete anos . .É simples. . vou estudar seriamente sua proposta. senhor Cooper. e digo apenas "se".E.Não vou trabalhar em tempo integral .Meu Deus! .. Ele hesitou.explicou.Três dias por semana. para ver o City perder. 42 -Obrigado por ter-me chamado . quinze dias depois. Um clarão de respeito surgiu no rosto do superintendente pela primeira vez.Porque.Diga-me. garantidos por três anos. e o informarei de minha decisão no fim da semana. . minha mulher pode vender as ações de Alexander e ele f icará milionário da noite para o dia..Faça o favor de se ntar . para começa r. Espero que encontre Jeremy Alexander. .Para o caso de ter de me recordar de alguns detalhes importantes no futuro. o que pensa que posso fazer por você? . com um sotaque profundo e rouco de Yorkshire.Apenas os crimino sos têm necessidade de se esconder no exterior. superintendente comecei. 41 .Sir Matthew é muito persuasivo .Hackett pôs-se de pé e fitou -me longamente. e que o inspetor Williams. apresentou sua demissão..respondeu ele.firmeza a mão do policial.disse ele -. sentando-se na cadeira à minha frente. . .disse ele. -Há muito tempo eu não sentia prazer em visita r alguém na cadeia. .Uma última pergunta. -Vinte mil por ano. como se ele tivesse aparecido em minha casa para beber um cáli ce de xerez. Tomou algumas notas em sua agenda. Não tive de esperar ci nco meses para ele começar a trabalhar para mim. . .E o que esperaria que eu fizesse em troca de tanto dinheiro? .. mostrando que compreendera.E quanto vão lhe pagar? . que vai sair no mesmo momento. sem prestar atenção ao seu comen tário -.acrescentei.disse. assim como para o aluguel do escritório. abruptamente. . . -É só para meu uso pessoal . aceitando minha oferta.O senhor está realmente inocente.perguntou. De qualquer forma.Eu lhe pago cem mil por ano.. como gerente de área no Yorkshire Oeste. ainda não me explicou o que pensa que posso fazer por você. . . especialmente uma pessoa condenada por homicídio.disse Hackett.Gostaria de saber se tem planos para depois da aposentadoria.falei.perguntou ele. passado esse período. Hackett escreveu-me três dias depois. para ter a certeza de não levar muito tempo.Hesitou de novo. .O Midland de Bradford serve perfeitamente . tenho de estar em Bradford sábado sim.Vai ter de deixar a polícia dentro de cinco meses . durante a semana anterior.Mesmo se eu acreditar na sua história . O superintendente acenou afirmativamente com a cabeça. senhor Cooper. . Queria deixar tempo suficiente para Hackett fazer perguntas. . sábado não. Abriu um bloco de notas e colocou-o sobre a mesa.

disse ele. com meu terno novo. de forma menos persuasiva. forma tradicional de indicar ao pessoal da prisão que acreditavam que o homem levado a j ulgamento estava inocente. Matthew estava à minha espera na entrada do Old Bailey. e depois d esaparecido da face da terra com cerca de sete milhões de libras. . embora ficasse co m os cigarros. Disse-me que estava encantado com a elaboração da revisão. mas eu começava a conhecê-lo tão bem. a fim de dar início ao dia de trabalho . recordo-me de olhar pela janela e ver os empregados que chegava m dos subúrbios correndo para seus escritórios. Tendo vendido todas as minhas ações da Cooper. Devo ter sido um dos poucos prisioneiros de Armley que chegou a pedir um alfaiat e em sua' cela. porque tinha perdido mais de seis quilos desde que estava na prisão. . os juros d essa aplicação davam-me quatrocentos mil por ano. deve ter concluído pelo menos que eu era um inspetor-chefe. Matthew . da T. estive tão preocupado em contactar Hackett. tinha vendido sua casa em Leeds. Fui levado a Londres num carro da polícia. no decurso desse período. (N. Aquele som. acompanhado por dois guardas da prisão. de maneira perfeitamente adequada. Quando o alfaiate acabou de tirar minhas medidas e estava enrolando o metro. Voltei a sentar-me impassível no banco dos réus. tinha morrid o de câncer algumas semanas antes. Sua fala inicial durou cerca de uma hora.esforçava-se cor ajosamente para não demonstrar que se sentia cada vez mais confiante no resultado. com certeza. obtido rapidamente o divórcio. . devo dizer que estudei diversos livros de leis. Eu deveria partilhar com os leitores os pormenores de tudo o que me aconteceu du rante os meses seguintes. e eu estava vivendo sem despesas.) 43 Nessa noite contou-me. Não paramos uma única vez durante toda a viagem e chegamos à capital poucos minutos depois das nove. Se algum deles me viu no banco traseiro do carro. como o de uma grande sinfonia. Matthew sugeriu que eu mandasse fazer um terno novo antes de enf rentar o tribunal de apelação. * Contestação pela qual se alega que o réu já foi anteriormente julgado pelo mesmo del ito penal de que está sendo acusado. Meus companheiro s começaram a bater as canecas de folha contra as grades das portas. para ter a certeza de compree nder perfeitamente o significado da expressão legal autrefois acquit* A próxima data mais importante de meu diário foi a audiência de apelo. 44 eu já me acreditava capaz de tê-la pronunciado. No entant o. liquidado todas as ações da Cooper. que sua mulher. Ele deu grande ênfase ao fato de Jeremy ter deixado todos os seus bens materiais a Rosemar y. Pela primeira vez senti-me culpado em sua presença. e mbora sem tanta eloqüência e. Victória.s contribuições sociais e as de dois colegas que ele queria que saíssem da polícia para trabalhar a seu lado. Eu não conseguia dormir imaginando em quanto desse dinheiro Jeremy já tinha posto as mãos. poucos meses depois da aquisição.Gostei do terno .a seu pedido. Aquela altura. com grande tristeza. saí escoltado de minha cela às cinco horas da manhã.Justo e imparcial . insisti com Dedos para que lhe devolvesse o isqueiro. que enchi apenas três páginas do papel pautado da prisão. mas. por sua vez. Durante os dezoito meses anter iores só tínhamos falado dos meus problemas.explicou ele. antes de subir comigo alguns degraus até a sala ond e meu destino ia ser decidido. tinha deixado de lhe chamar Sir Matthew . elevou-me o moral. de modo que o pedido de Hackett era coisa de pouca monta. com um monte de papéis sob c ada braço. enquanto Sir Matthew se punha de pé e se dirigia aos três juizes do tribunal de apelação. e não reparo u nas algemas. Dez dias depois. que. .Uma longa doença e um alívio abençoado .repetia constantemente. que ele já não conseguia disfarçar seus verdadeiros se ntimentos.

que Jeremy Alexander talvez tivesse 46 encontrado alguém à sua altura.Parece que prec isa de um novo mordomo. No primeiro domingo de outubro. o ex-superintendente Hackett. Não tinha estado ocioso. . logo que ele saiu. ainda tive de esperar três dias pelo resultado das deliberações . . Ele seguia todas as pistas e tomava todos os atalhos. Jeremy.Uma carta que a mãe botou no correio local. . mesmo que lhe parecessem becos sem saída. não se impressionaram com a exposição do juiz que o julgou. chamada Vi lla Fleur. A princípio.sua mulher voltou a usar o nome de solteira. por que. O inspetor Williams e o guarda Kenwright haviam saído da po lícia no mesmo dia em que ele. O carteiro teve a amabilidade de me deixar ver o endereço no envelope antes de seguir seu caminho . Acenei com a cabeça. Mas. 45 Uma semana depois tinham aberto um pequeno escritório no prédio do Constitutional Cl ub.acrescentou . com dossiês detalhados sobre Rosemary. Passei horas lendo todas as informações que ele reunira.Como conseguiu localizá-la? .perguntei. . só para conseguir essa pista. e a quantas portas batemos nos últimos quatro meses.Williams foi de avião para Cannes na quarta-feira e está hospedado na cidade mais próxima. Hacke tt disse-me que acreditava ter localizado Rosemary. apesar de. já ter escavado metade de Leeds. . Parece que os habitantes da área sabem ainda menos a respeito dela do que nós. Comecei rapidamente a perceber por que motivo Don era tão respeitado pelos colegas. daquela vez. e começado suas investigações. Um mês depois tinha compilado um grosso arquivo sobre o caso. A senhora Kershaw parece ter mania de escrever cartas. mas essa foi a primeira v ez que escreveu à filha. Motivos reservados.Sir Matthew recordou repetidas vezes a incapacidade da polícia de apresentar o cadáv er. Agora atende por se nhorita Kershaw. Don apresentava-me seus relatórios às quatro horas de cada tarde de domingo. . pela primeira vez.Quanto tempo? . . e que ela tem mais cães de guar da do que árvores. mas não podia me arriscar a que ela soubesse . naquelas circunstâncias. Eu sentia mais esperanças a cada fato novo que Matthew apresentava aos juizes. A propósito .perguntei. Uma mulher que correspondia aos traços dela estava morando numa pequena propriedade no sul da França. depois de estar trabalhando há quatro meses.Não imagina quantas horas tivemos de esperar. mas só cinco domingos e cinco relatórios depois foi que vi surgir um sorriso no rosto geralmente fechado de Hackett. quantas cartas tivemos de examinar . .disse Hackett. em Bradford. O leitor deve estar se perguntando o que fazia o superintendente Hackett. ou mel hor. enquanto tudo isso se passava. pelo menos. Matthew foi até Armley na sexta-feira para me dizer que pensava que o apelo tinha sido rejeitado sem explicações. é um princípio. Ficara m obviamente impressionados pelo fato de que a polícia não conseguiu apresentar um cadáver. pensei que deveríamos interrogar longamente o antigo mordomo. Senti.Meu palpite é que vão lhe dar uma autorização para sair dentro de alguns meses. a companhia e eu. não o querendo interromper. saiu da sala com um sorriso nos lábios. passando por turista. Agradeci a Matthew que. Achava que os juizes deviam estar divididos e precis avam de mais tempo para dar a impressão de que não estavam. de vez em quando.A senhorita Kershaw pôs um anúncio no jornal local informou ele. concluía que eram auto-estradas. e pude ajudá-lo.Apelo rejeitado. quando ele terminou. Mas . e ficaram impres sionados com a força de seu caso. Já conseguiu descobrir que a casa da senhorita Kershaw é cercada por um muro de pedra de três metros. . preenchendo algumas lacunas.

Williams precisa de tempo . É nesse período que ele vai freqüentar um curso especial de seis semanas na Escola de Mordomos de Ivor Spencer. mas sabia que todos estavam trabalhando arduamente para mim e tentei não mostrar minha impaciência. xerez e licor. sensual. Williams já havia fornecido as fotografias e o histórico de todo o pess oal que trabalhava na casa. com referências como essas . natural de Marselha.Diga a Williams que peça quinze mil francos por mês e cinco semanas de férias . de modo que decidi que o inspetor Williams teria de candidatar-se ao lugar. . Certa vez foram necessários cinco anos para pegar um passador de drogas que morava a apenas meia milha de distância de mim.Ela está oferecendo onze mil e três sem anas de férias. . vinda de Paris. natural da área e bem conhecido. nem que seja a última coisa que faça. a partir do momento em que Williams aceitou o lugar de mordomo de Rose mary. Não quando enfrento um casal de vigaristas como esses. consultando de novo meu arquivo -. Logo que Williams se candidatou ao lugar de mordomo de Rosemary.É o que acontece quando lido com pessoas honestas. Um mês depois. . tive uma idéia.não falava inglês. depois de pensar durante quarenta e oito horas. ele terá uma série de referências capaz de im pressionar uma duquesa. . quando ele e Matthew me visitaram no domingo seguinte. Mas. isso não era muito realista.disse eu.Mas ela logo vai descobrir que ele é totalmente desqualificado para o trabalho! . ainda em investigação.estúpido e pouco criativo com as roseiras. . Acho que. Rosemary acabou por oferecer o emprego a Williams a treze mil francos por mês. e que cinco dias eram mais do que eu esperava. 47 . A criada pessoal de Ros emary: Charlotte Merieux . . . Williams ac eitou. não terminava com Jeremy na prisão.Disseram-me que o senhor nunca fazia nada clandestino. como Hackettme fez ver.disso. excelente cozinheira. Pe nsei em lembrar-lhe que quem estava na prisão era eu. astuta. E. 48 . marcar com régua os lugares à mesa e conhecer as diferenças entre os copos para Porto.Vejam bem. fiquei à espera de resultados imediatos.Não necessariamente . que tinha ido lá na esperança de obter um donativo para o s auxiliares franceses na Somália. A cozinheira: Gabrielle Pascal . da maneira co mo eu a tinha elaborado.falava unvpouco de inglês. com quatro semanas de férias por ano.E as referências? . Matthew sorriu e concordou com um aceno de cabeça.Precisa ganhar a confiança dela e não dar motivos para a mínima suspeita.explicou Don. O jardineiro: Jacques Reni .perguntou o ex-superintendente. Willi ams não poderá deixar seu atual emprego junto à Condessa de Rutland sem trabalhar um mês inteiro após a demissão. família investigada.até o pároco local. Não era o momento para dizer a Hackett que o capítulo final da história. Todo esse pessoal que trabalhava para Rosemary desde a sua chegada ao sul da França não parecia ter ligações entre si ou com sua vida passada. oferta que. tempo durante o qual aprendeu a passar jornais a ferro. Williams sempre foi esperto e aprende com rapidez. desempenhei meu pequeno papel no sentido de ajudá-lo a conseguir o emprego.Ela pode pagar a diferença. doming o após domingo. .suge ri a Hackett. cujo sorriso se alargou.Quando Rosemary Kershaw o entrevistar. bem como descrições de todas as pessoas que visitavam Rosemary .Por quê? .disse Hackett. Mas só foi trabalhar para ela um mês depois. Relendo os termos do contrato proposto. . . vou metê-los na cadeia. pode até desconfiar se ele pedir me nos.

voltou-se e abraçou-me com força. Nada me revelaram. . sem dúvida. Podia ouvir os batimentos de meu coração enquanto o guarda me conduzia pelo extenso corredor até o gabinete do diretor. o mais importante. como se fôssemos velhos amigos.mas por que haveriam de olhar. pôs-se de pé. e li um exemplar do Financial Times que me foi entregue por uma bonita hospedeira e não por um ladrão de meia-tigela.Estou encantado por ser a primeira pessoa a dar-lhe as boas novas. estendeume a mão e disse: . se alguém sabia. Matthew e o diretor começaram a rir. Ninguém olhou para mim . Quando o trem parou em Bradford. isso conta a nosso favor . O grande portão da prisão de Armley abriu-se para mim três dias depois. cada vez mais me parecia que ning uém ligado ao passado de Rosemary. Comprei um bilhete de primeira classe. . Minutos depois. Não olhei para trás. com grande naturalidade. mas. com a inscrição: "Estaremos sempre juntos.explicou. e.vou comprar uma pistola .. Sempre que ouvia a quelas palavras dirigidas a ele. O 49 diretor. Saboreei o desjejum dos serviços ferroviários britânicos. Começava a recear que ela e Jeremy tivessem se afastado. pois não desejava permanecer em Leeds mais do que o necessário. Fiquei estendido no meu catre observando as fotografias do pessoal durante horas a fio. se eu estava num vagão de primeira classe e envergava meu terno novo? Olhei para todas as mulheres que passavam. que estava sentado à escrivaninha.O diretor quer vê-lo. com exceção da mãe. sem me importar com a maneira como estavam vestidas. Não havia. qualquer sinal de Jeremy Alexander. Deviam ter passado cerca de onze semanas depois do apelo ter sido rejeitado. que não me foi servido em utensílios de folha.Estive pensando por que motivo Williams estava sempre com Charlotte Merieux. Chamei um táxi e pedi ao motorista que me levasse à estação. Esforcei-me por conservar o sorriso caloros o e sincero que Matthew me dissera ser tão necessário para lubrificar as rodas da burocracia.Ah . Enquanto o fazia. alguma. Ou.Qual é a primeira coisa que vai fazer quando for libertado? . e Matthew entrou com um monte de papéis que tinham de ser assina dps. J. até Williams informar que h avia a fotografia de um homem moreno e bonito na mesinha-de-cabeceira de Rosemar y. .. Cooper. sem aviso. significava inevitavelmente uma dose de solitária . fui constantement e interrogado por funcionários encarregados da suspensão condicional de penas. não fazia qualquer tentativa para entrar em contato com ela. Don e sua secretária Jenny . ele bateu suavemente à porta antes de abri-la. Era uma atitude que eu nunca teria esperado da par te dele." Durante as semanas que se seguiram ao julgamento de meu apelo. Saí do edifício le vando apenas a pequena mala de couro com que chegara. todas as noites. m as elas não podiam saber por quê.disse Hackett.disse eu.Dedos mostrou-se desconfiado. telefonei a Hackett para avisá-lo que estava a caminho e tomei o primeiro trem par a Bradford. qua ndo a porta da cela se abriu e o guarda superior do meu corredor comunicou: . Alguém bateu à porta. Levantei-me quando ele os colocou sobre a escrivaninha e. Depois que assinei o último documento. Li e reli as notas sobre todas as pessoas que tinham ido à Villa Fleur. serviram-nos café. Matthew perguntou: .. assis tentes sociais e até pelo psiquiatra da prisão. todos os dias. desta vez. Conduziu-me a uma grande e confortável cadeira do outro lado da escrivaninha e com eçou a falar dos termos de minha libertação.Ter ia chegado a superintendente se não fosse tão mulherengo? Vamos ver se. à medida que a semana passava. ao observar a fotografia da criada pessoal de Rosemary. sabia onde ela estava. Er gui uma sobrancelha.

Em meio à conversa superficial. e. levaram-me para almoçar . Mas ele ainda não sabia como descob rir para quem ela telefonava nem para que lugar. Está convencido de que Rosemary utiliza o tempo que passa no hotel para dar telefonemas 51 interurbanos. . vir a fazer-lhe confidencias. além de minha mulher. e temo s quase certeza de que ele nunca tenta fazer contatos diretos com ela. e Rosemary pelo outro.Agora que está livre. a deixa no Majestic. d e modo que poderá nos informar melhor.Mas isso não o impediu de beber um copo de vinho de vez em quando no bar do hote l. eu sabia mais ace rca de minha ex-mulher do que quando éramos casados. p ara mim. novo progresso surgiu quando eu menos e sperava. .disse Don.Sim . . na sua noite de folga. ainda quer que procuremos Jeremy Alexander? . Quando Williams regressou ao sul da França. Devia ser umas 14h30 de uma segunda-feira quando o telefone tocou. sendo eu responsável por um deles. . . Como tantas vezes acontece na vida real. Parecia solitária e deprimida. o único ho tel do vilarejo. ele se tornou indispensável. necessariamente. Fiquei satisfeito. e depois de Jenny ter-me servido um copo de vinh o.Espero que Williams encontre uma oportunidade para usar uma das experiências que não adquiriu na escola de mordomos. E ele não pode perder o emprego por desobedecer às ordens dela. . poderá mesmo.Porque Williams pensa que Rosemary começa a confiar nele. Williams estava convencido de que. depois de eu ter arrumado minhas roupas . Liga sempre diretamente. . . e até o menor detalhe me fascinava. . Ao que parece. Fiquei enca ntado. duas semanas depois. se Rosemary tinha algum c ontato com Jeremy Alexander. O superintendente tinha alugado. quando ia ao hotel todas as sextas-feiras e fazia sua ligação telefônica direta. Oh. minha empresa e mais da m etade dos meus bens. Mas Willi ams nos disse que todas as sextas-feiras. Estava gastando rapidamente meu dinheiro. seria. Não se esqueçam de que ele roubou minha liberdade. Nunca permite que a chamada s eja feita pela mesa. Perguntei se havia notícias de Jeremy.disse Donald. comecei a fazer-lhe perguntas antes mesmo que ele tivesse tempo para arriar a mala. Ela havia engordado. pelo menos . Considerei um pouco irônico o fato de que Williams estivesse embolsando dois salário s simultaneamente. Mas Williams tem direito a uma licença daqui a algumas semanas. Não fiquei propriamente extasiado . sem um momento de hesitação. O empregado do bar disse a Williams que ela usa sempr e uma das duas cabines telefônicas do corredor em frente à recepção. sim. não descanso até o dia em que me vir frente a frente com Jeremy Alexander.Ótimo . porque ela lhe deu instruções específicas para esperá-la dentro do car ro. e conseguir obter pequenas informações. Mais concretamente. ao meio-dia. Donald.Nada de especial .Estou ainda mais decidido.Mas quanto tempo isso pode levar? . Vinha cheio de informações interessantes sobre Rosemary. um pequeno apartamento mobiliado nos arredores da cidade. Muitas vezes passa pelo banco antes de ir ao Majestic e sai com um pequeno pacote de moedas. Assenti com a cabeça. Ela entra e só reaparece depois de quarenta minutos.Não há como saber. Não ousou segui-la.o que levou pouco tempo -.Ela nunca telefona para ele de casa. agora qu e posso saborear a liberdade que ele gozou nos últimos três anos. . com o tempo. e. .Então. Quando Williams regressou a Bradford no fim do mês. como vamos descobrir para quem ela telefona? perguntei.50 Kenwright estavam à minha espera na plataforma.respondi. Don fez-me uma pergunta com que eu não contava.

mas espero que volte dentro de uma hora. .disse Williams.E como poderia esquecê-lo? "Neil-eu-não-estava-lá" disse Donald. não podemos jogar outra vez a cartada do mordomo. Pressionou o botão do alto-falante e disse: 52 .Quem era ele? . tanto que foi direto ao quarto e fez uma chamada. Enquanto esperava que abris se. não foi? . . Lembra-se dele. levantei o gancho da extensão do corredor e escutei a conversa. Mas.perguntou Donald.Não . É melhor começar a explicar por que está telefonando quando não é seu dia de folga. inspetor William s?" .Fique aí. olhou outra vez para mim e sorriu.Bolas. Ordenou que eu fizesse as mala s e abandonasse a casa dentro de uma hora." D epois tive de desligar rapidamente. por enquanto. evidentemente. despediu-me. como a senhorita Kershaw nada disse. 53 . Presumi que Rosemary estivesse à esp era de que fosse outra pessoa a atender e desligou quando ouviu uma voz estranha . Nós .Mas o fato de suspeitar de que eu era um policial a fez entrar em pânico.Donald atendeu e ficou surpreso ao ouvir a voz de Williams no outro lado da linh a. Williams perguntou: . .Descobri uma caneta no corredor e anotei na minha mão o que me lembrava do número. chefe? Volto para a Inglaterra? .O que faço agora.Antes fosse isso. pensei que tinha me safado. dizendo: "O diretor não está no momento.Eu sei tudo isso. de modo que tive de confiar na minha memória . Parou e olhou para mim. um homem atravessou a rua diante do carro. sete. deixamos de ter um ponto de contato. .perguntou Donald. e. . Foi muito pior. quando tive de parar num sinal vermelho.Fui despedido . porque ouvi passos no corredor. porque agora ela está de sobreaviso.Neil Case. Pior.O que aconteceu depois? . esta manhã. depois. . Só ouvi uma voz de mulher dizendo um número de Cambridge.reagiu Donald imediatamente. . e ela me acusou de ter dado em cima da patroa. chefe? .Fiquei satisfeito por Williams não poder ver a expressão no rosto de Don.disse Donald. . sem me pedir explicações. Eu estava levando a senhorita Kenshaw à cidade .Qual era o número? . mal chegamos em casa. Abanei a cabeça. ela me disse que a acomp anhasse ao escritório e.Eu não tinha com que escrever. mas ele se dir igiu para o lado do chofer. Não con segui pensar numa resposta convincente. Reserve um quarto no Majestic e vigi e-a constantemente.Desatei a rir. E. a criada de Rosemary. . Mas ele recuou. chefe. chefe .Devia ter imagina do. Era Charlott e. Reconheci-o i mediatamente e pedi a Deus que o sinal mudasse para verde antes que ele me recon hecesse. . Avise-me se ela fizer qualquer coisa fora do normal.Por causa do envolvimento com a criada. Deixei que pensasse que isso tinha acontecido e acabei por levar uma bof etada na cara. anotando os núme ros. quatro. . Queria saber por que motivo eu tinha sido despedido.Fingi que não o conhecia. . . qualquer coisa como sete. . senão chamaria a polícia.Nós três estamos ouvindo.Meia. o telefone desligou. . .disse Williams.foram as primeiras palavras de Williams. Como eu já não tinha medo de ser descoberto.Não inteiramente . zero. Pouco depois levantei outra vez o gancho e ouvi uma mulher diferente na linha.inquiriu o inspetor. .O que quer dizer com "qualquer coisa como sete"? bradou Donald. bateu na janela e disse: "Como vai.O que quer dizer? Se já não está mais na casa. . . Voltamos à estaca zero .disse Donald. mas Don e Jenny não mostraram qualquer reação. Depois.

O 787 é de Dame Julie Renaud. que também moram em Great Shelford. O 640737 é do comandante da Esquadrilha Danvers-Smit h. telefono para você.Entendido. . A voz que apareceu na linha exclamou: . Allan Leeke .respondeu Donald.disse Williams. Pelo menos espero que seja uma surpresa agradável. O 00223 640707 era uma escola. que surpresa agradável. . e Leeke pediu-lhe que aguardasse um momento.Era sargento quando fui promovido a inspetor. .perguntou uma voz feminina.vamos a Cambridge.Leeke.Desculpe. repetindo o prefixo 0223. no 767.Desculpe. no 787.perguntei a Donald. o 737 foi atendido por uma voz masculina idosa. uma cantora de ópera.Polícia de Cambridge. A casa dela foi assaltada três vezes no ano passado. Conheço-a muito bem. o 777 era o Colégio de St. uma garagem.Pode me ligar com o delegado. é verdade. .Eles só têm de apertar uns botões na sala de controle. .Então o que posso fazer por você.Agradeceu a seu contato d e Bradford e depois telefonou para o serviço de informações.Sim. mas isso pode levar a uma prisão no seu quintal disse Donald. o 747 era uma banca de jornais. chefe .No momento.Obrigado . .Isso e o fato de ser um pedido seu bastam para mim.Quem quer falar? . Allan. 55 Donald leu os três números. Eu o conheço. . mas Donald apenas resmungou). Está na hora de mexer uns pauzinhos. . . As coisas mudaram muito desde que entrei para a polícia. por causa dos concertos que faz pelo mundo inteiro. uma voz de mulher (De sculpe. que explicou ficar ao sul de Cambridge.Tem autorização? . .Mas só depois que eu der alguns telefonemas. com ar esperançoso.Mais alguma coisa? .disse Donald.Tem de ser 737. . Voltou-se para mim.Você foi muito útil. no 757. . foi engano) uma vez mais. sem que eu lhe perguntasse. Discou outro número com o dedo indicador. Donald cons ultou sua lista.No 767 temos o professor e senhora Balcescu. . Mora em Grantchester. Enquanto es perávamos. perguntando o número da centr al de polícia de Cambridge. e os números aparecem numa tela . 767 ou 787. . . uma voz de mulher numa secretária eletrônica. Por acaso anda à procura de trabalho? Soube que saiu da polícia. A voz do delegado voltou à linha.disse Donald. Naquele tempo tínhamos mesmo que usar as pernas.repeti u Donald. .perguntou o delegado. . .Quando vamos? .Não. Don ligou para dez números de Cambridge. mas não ando à procura de trabalho.^O registro indica que é a única pessoa que mora nessa casa. sai o primeiro número. com certeza não se trata de uma conversa de caráter social. Discou um número de Bradford e disseram-lhe que o novo chefe de polícia de Cambridge tinha sido transferido da polícia de Yorkshire Oeste no ano anterior.Mas logo que eu tenha terminado minha inve . .perguntou o delegado.pediu Donald. . Donald disse: . Jenny anotou. . . foi engano . Não creio que a polícia de Cambridge pudesse me pagar o que estou ganhando. Don? . Eu me demiti. por favor? .Preciso que investigue três números de telefone da área de Cambridge. e desligou. atendeu a mulher de um policial 54 local (tentei não rir. O que deseja? . o 797 era um cabeleireiro. foi engano . o 727. . . sempre quando estava no exte rior.respondeu ele. . usando os dígitos que Williams tinha conseg uido anotar e inserindo os números de zero a nove no lugar do que ele esquecera.Indicou um endereço em Great Shelford. não . Catherine.disse Donald. Logo que estejamos num hotel de lá.Donald Hackett. . O 717 era uma farmácia.Esta noite .Certo. Nunca está em casa.Don.

Em primeiro lugar. mantenha-se fora de cena. vamos saber o que há sobre o comandante. pois estava mais interessada em saber o que Don tinha descoberto a respeito do professor Balcescu. seguida de horas de vigilância.Saiu da sala sem mais uma palavra.Mas isso não que r dizer que um deles não nos leve até Jeremy. apesar das almofadas de penas e do colchão confortável. Quero detalhes da carreira dele de sde o dia em que saiu da escola até o dia em que se reformou. da T. incapaz de ocu ltar meu desapontamento. Mas. voltando-se de novo para nós. .Seria bom que fosse sempre tão fácil.. . Mas minha mente estava constantemente entre o Cra nwell da RAF e a biblioteca da universidade. instalei-me numa suíte do Hotel Garden House uma espécie de prisão mais requint ada. serviu no Esquadrão Número Dois de Binbrook. . Sua colocação final foi como segundo-comandante da RAF Locking em Somerset.Partimos para Cambridge dentro de duas horas. nessa noite.O comandante de esquadrilha Danvers-Smith. -.disse Donald.Tinha certeza de que um deles acabaria por ser Jeremy disse eu. ano em que ele e a mulher se mudaram para Great S helford. não conseguia dormir. a seus pés. Concordei com relutância. ) 57 em 1943. (N.O professor Balcescu fugiu da Romênia em 1989.Ótimo . À noite. Creio que podemos deixar de lado. Deixou de voar em 1958 e passou a ser instrutor da RAF Cottesmore em Gl oucestershire. Eu fico com o professor e vou começar pela biblioteca da universidade.seis horas. . Encontramo-nos aqui às. .Por que vive sozinho atualmente? . -vou informá-los dos resultados de minha investigação sobre esse distinto professor principiou. Não queremos que o senhor esbarre com os suspeitos e os assuste. Foi-lhe concedida a DFC por atos de bravura * Distinguished Flying Cross . terminou seu curso em Cranwel l em 1938. Quando nos encontramos no quarto de Donald. . Tem dois filhos. Foi levado para fora do país por um grupo de estudan . tanto ele como Jenny co nfirmaram que suas investigações iniciais sugeriam que ambos os homens eram o que diziam ser. prometo que será a primeira pessoa a ser informada. . . DFC*. Cerca de duas horas mais tarde. o que faço? .stigação. durante a Segunda Guerra Mundial. . comec e por contactar o Colégio Cranwell da RAF e peça detalhes da folha de serviços dele. fique com o comandante de esquadrilha. Recordo-me de ter pensado que meu pai teria se dado bem com ele. Visitam-no de vez em quando. mas ne nhum deles mora na região.perguntou Donald. Dame Julia. .A mulher morreu há três anos. Levantei-me de manhã cedo e passei a maior parte do dia vendo inúmeras notícia s da Sky News. . antes de o telefone ser desligado.Cruz de Serviços Relevantes da Força Aérea. senhor Cooper disse Donald. Ela nada disse. com segurança. É possível que o comandante o u o professor nos levem a Alexander.foi a resposta. e realizou diversas missões sobre a Alemanha e a França oc upada. Donald pegou uma pilha de anotações que estava no chão.E eu. Sam e Pamela. . Perguntei a Jenny como tinha conseguido saber tanta coisa sobre o comandante em tão pouco tempo.Pesquisa intensiva.Voltou-se para Jenny. episódios de diversas telenovelas australianas e um "Filme da Semana" de duas em duas horas. . depois que Ceausescu o colocou em prisão domiciliar. . em Lincolnshire.No momento. onde ele se criou. Jenny nos conduzia a uma velocidade constante de sessenta e nove milhas por hora pela Al.. Amanhã bem cedo.consultou o relógio . 56 Jenny.perguntei. ambos casados. Reformou-se em 1977. Isso nos dá tempo para fazermos as malas e para Jenny reservar um hotel perto do Centro da cidade. . .Agora começa a parte aborrecida do trabalho de detetive disse Donald. .Tudo certo . senhor Cooper.

Desligou o motor e apontou para uma peq uena casa com um porta azul onde se lia "RAF". Não precisei ser despertado às 4h30. mas não estava convencido. e temos de descobrir para qual deles. tive esperanças de que nos fosse concedida. tentando não dar a impressão de que pretendíamos partir sem pagar a conta. saímos os três do hotel. Ao fim d e uma milha. a sul de Cambridge. Começaram a acender-se luzes em toda a aldeia. .informou Donald.do is litros aqui. agora convencido de que a caçada seria i nfrutífera. Passamos por um largo ajardinado à esquerda e percorremos mais meia milha.disse ela. . Voltei a dormir agitadamente nessa noite. fazendo as entr egas. um litro acolá.Vamos começar por ele.Caso contrário. . cochilei no banco de trás. O distribuidor de jornais era uma velhota que empurrava lentamente sua bicicleta carregada ao longo da aldeia.Quanto tempo até a casa do comandante? . mas. que eram deixados nos degraus d as portas. dobrou à esquerda e chegamos a uma pequena e encantadora aldeia. e foi-lhe dado um lugar de prof essor na Universidade Gonville and Caius. Desta vez vamos precisar de sua ajuda.Comandante (da Ordem) do Império Britânico. . . Logo que essa luz se acendeu. ia poder acompanhá-los no dia seguinte. em Cambridge.William s deve ter-se enganado quando anotou o número.) 58 um desses números. pelo menos. . Quando acorde i. Comecei a aborrecer-me e.Williams não comete erros. . . pelo menos. . Hackett aceitou as desculpas com um breve aceno de cabeça e voltou-se para Jenny. da T.Número quarenta e sete. É conselheiro do governo sobre assuntos romenos e escreveu um livro referente ao assunto.Como é que algum desses homens poderia conhecer Rosemary? .Cerca de quinze minutos. Ele mora numa casa em Great Shelford.Donald apontou um minúsculo binóculo na direção da casa. Alguns madrugadores saíam de suas casas e seguiam de carro até a estação para embarcar n o primeiro trem para Londres.tes dissidentes. Sua mulher ligou para * Commander (ofthe Order) ofthe Bntish Empire . (N. Donald endireitou-se e seus olhos nunca mais abandonaram a casa. Sua fuga foi bem noticiada pelos jornais da época. Murmurei um pedido de desculpa. Já haviam saído algumas pessoas das casas de ambos os lados do número quarenta e sete quando se acendeu uma luz no quarto do andar superior da casa do comandante. Pediu asilo na Inglaterra. senhor Cooper .É ali que ele mora . A manhã estava gelada. e passou para a Grécia.disse Don. Nosso próximo encontro será no vestíbulo às cinco horas. não o teria contratado. com casas bem conservadas e espalhadas de ambos os lados da estrada. pois já estava tomando uma ducha quando o telefon e tocou. uma pausa para uma pequ ena . Jenny levou-nos para fora da cidade. A seguir veio o leiteiro. de vez em quando meia 59 dúzia de ovos ou uma embalagem de suco de laranja. até que Jenny manobrou bruscamente e estacionou no acostamento. . amanhã de manhã. em vez de ficar fechado no meu quarto vendo telenovelas australianas. e três anos depois a cadei ra de Estudos Europeus Ocidentais. avançando pela estrada para Londres. avançando estrepitosamente na sua caminhonete . a certa altura. No ano passado foi feito CBE* durante as comemorações do aniversário da Rainha.perguntei. Eu tr emia de frio quando me instalei no banco de trás do carro. pela Bulgária.Deixaram um litro de leite de tampa vermelha e um exemplar do Daily Telegraph na porta do comandante . Pouco depois das cinco.

Como poderia alguém esquecer aquele bigode? . enquanto perseguía mos o Allegro. Donald sentou-se ao lad . .Trabalho para a BA. Apontei o binóculo para o c omandante e observei-o cuidadosamente. e o comandante já tinha passado um braço em volta dos ombros de Donald. Danvers-Smith não demonstrava ser o tipo de pessoa que habitualmente infringe os limites de velocidade. quando Danvers-Smith fez o carro descer até a estrada principal.disse Donald.Tenente-aviador Baker. conversavam como velhos camaradas.O que faz atualmente? Jenny reprimiu uma gargalhada. retirando a mangueira de seu carro e pendurando-a na bomba. se ele fosse usar o carro. O senhor me deu aulas na RAF de Locking.disse Donald.disse Don. Muito bem . Continuaram concentrados em qualquer movimento que ocorresse no quarenta e sete e mal trocavam uma palavra.Baker. infelizmente. .disse ele. . mas foi a única coisa que arranjei . mas essas considerações menores não pareciam interessar aos dois profissionais q ue estavam à minha frente. apertaram as mãos e ouvi Donald dizer: . Quando voltaram. O comandante ergueu imediatamente o olhar e surgiu uma expressão de surpresa em se u rosto curtido pelo tempo. Às 10hl9. . -Já o viu alguma vez? . até o vilarejo seguinte. Parecia que o resto do corpo tinha sido desenhado em volta dele.É óbvio que seus dias de piloto de testes já passaram disse Donald. deu a volta e desatarraxou a tampa da gasolina precisamente quand o o comandante introduzia o bocal da mangueira no tanque de seu Allegro. O velho aviador deixou o posto e dirigiu-se novamente para casa. . meu velho . Cerca de meia milha mais adiante o homem dirigiu-se a um posto de gasolina. meu comandante .Encantado por encont rá-lo.antes de Danvers-Smith entrar no Allegro. . pouco depois. .O que vai fazer? . saiu do número quarenta e sete e começou a descer rapidamente a calçada.disse o comandante. abrindo sua porta. . a uma distância segura. . um homem magro e idoso.perguntou. Donald começou lentamente a encher nosso tanque e. Saiu do carro. de repente. Não posso voar desde que falhei no teste de vista. . Donald manteve o binóculo focalizado nele. . A única coisa que pude perceber. Baker. Minutos depois estava a apenas dois carros atrás dele. àquela distância. meu comandante.Nunca .perguntei.disse.Excelente memória.Fez habilmente a curva e acelerou atrás do 60 comandante.Comandante de esquadrilha Danvers-Smith? -perguntou com voz melosa. Não conseguíamos ouvi-los. Ficaram mais distantes.refeição. envergando um casaco de tweed Harris e calças de f lanela cinzenta.Não convém que ele o veja. passando-me o binóculo.disse DanversSmith.Não há dúvida de que ele não o deixou crescer na semana passada . . se bem me lembro. Jenny praguejou. . Quando chegaram perto do carro.Então adeus. senhor Cooper . Um trabalho de secretaria. voltou-se para o velho. . espreitando entre os bancos da frente.disse Donald. logo atrás de Danvers-Smith.Não o perca . foi um enorme e farto bigo de branco.Mantenha a cabeça baixa. meu comandante .Pensei que. Vulcans. o mais provável seria ir para Cambridge. meu velho . . .Pouca sorte. quando ele se deteve junto de um velho e decrépito Austin Allegro .Arriscar um velho truque . . Jenny seguiu o Allegro até o posto e parou junto à bomba . . enquanto 61 se preparava para pagar a conta.respondeu Donald.

Lembrei-me que às 18h30 a televisão apresentava "Dias Felizes". . ele disse que só tinha es tado lá uma vez na vida. Qual é o seu.Quarenta e nove horas é o meu recorde sem dormir. -Voltou-se para mim. Donald mandou que parasse no acostamento. Isso pode levar alg um tempo.disse Donald.Receio que ele não nos leve a Alexander . homem. . pois já se haviam passado pelo menos cinco anos desde que eu vira qualquer mulher que pudesse reco nhecer. -Mas mantenha a distância. Acomode-se. como se lesse meus pensamentos. Até me pediu que aparecesse para almoçar com ele. Mas minha mente permanecia vazia. na direção de Cambridge. -Tomara que ele não saiba que eu me aposentei .Teria aceitado. .Não me lembro .murmurou.Continue a pensar .vou ligar.O professor e a mulher moram numa casa atrás daquela sebe . E vá devagar.Trinta e uma .Danvers-S mith é um artigo genuíno.. aquele homem nunca ouviu falar em Rosemary Cooper e nem em Jeremy Alexander. Momento s depois uma mulher saiu do caminho de acesso num BMW branco. sente a falta da mulher.O sargento Crann. -Já a vi antes! . Donald pegou o telefone do carro e digitou dez números. Donald fez uma pausa. . Jenny. com um suspiro. . Jenny? perguntou. não quero me encontrar com o comandante. aposto minha aposentadoria.perguntei. por favor .Vamos ficar aqui a noite inteira. para ver um jogo. Às três horas estava outra vez mortalmente aborrecido e começava a me perguntar quanto tempo mais Donald ficaria ali antes de termos licença para voltar ao 62 hotel. quanto mais uma tão vistosa. .Por que não aceitou? . Em que posso ser útil? 63 . Jenny manobrou o carro para a pista da direita. . . É a melhor oportunidade que já apareceu . não vê os filhos muitas vezes e sente-se um pouco solitário. o senhor Cooper pode não se lembrar dela.Departamento de Viação de Swansea.pediu Don .Onde é que a viu? .Siga-a. Vamos voltar para Cambridge. Por isso. passando-me o binóculo. que parou à beira da calçada. não se aproxime muito dela.disse eu.disse Don. sem tirar os olhos da casa. olhou para ambos os lados e depois entrou na estrada e virou para a direita. . .o de Jenny e fechou a porta do carro.Então talvez seja a oportunidade de bater seu próprio recorde . Não. Senão vamos acabar almoçando com ele.disse Donald. . Quando passou por nós. bruscamente. Jenny . é a vez do professor. se for preciso . embora tivesse certeza de nunca ter falado com aquela mulher.perguntou.Pense. Mas. Jenny saiu para comprar peixe e batatas fritas no vilarejo. aponta ndo para o outro lado da estrada. . .disse Donald.disse Donald. vi de relance uma loura com um bonito rosto. tentando focalizar a massa de cabelos louros e encarac olados. dirigindo-se à cidade. Devorei-os vorazmente.exclamei. esforçando-se para falar como se não estivesse interrogando um velho criminoso.disse ele. . Precisava me esforçar. Jenny. E. perto de um letreiro qu e anunciava o Shelford Rugby Club. Eu sabia que já havia visto aquele rosto em algum lugar. Nunca se esqueça de que ela tem um retrovisor. .. senhor Cooper. . mas ela pode se l embrar dele.respondeu ela. Ao fim de a lgumas milhas. Às 12h30. quando eu disse que era de Leeds. Esperou um pouco. .enquanto eu tento encontrar qualquer coisa um pouco mais simples.disse Donald.

era o mais pormenorizado: O professor Balcescu notabilizou-se quando ainda era estudante na Universidade d e Bucareste. e.disse Donald. não voltar a vê-lo. antes de nos arriscarmos a enfrentar qualq uer deles. o vício é marca de carro . Trinta libras. chegando à Inglaterra pela Bulgária e Grécia. Mas ele regressou à Universidade de Bucareste três anos depois. . Não há mais nada. em 1986. Ajudou muito. . ocupando o lugar de professor de Política. esperando. . quando o conhe ci. vindo a ser ministro da Educação.Preciso confirmar mais umas pistas. Três anos mai s tarde foi-lhe oferecida a cátedra de Política e Economia.Por que iria Rosemary contactar os Balcescu? . Cambridge. por favor. . .Donald Hackett.Um momento.disse. e. Donald manteve os olhos cravados no BMW. enquanto aguardava. Jenny acelerou para não ficar presa. ele começou a reler o 64 dossiê que compilara sobre o professor Balcescu.disse um momento depois. Cambridge ganhou a batalha das universidades que tentavam oferecerlhe uma cátedra. Jeremy tinha um BMW branco. . Um grupo de historiado res de Oxford escreveu uma carta de protesto a The Times. Uma multa por velocidade excessiva numa área habitada. K273 SCE . .com muito prazer. depois que ele se tornou presidente. acerca daquele erudito professor durante vários anos.Dave Crann. em fins de 198 9. dezoito meses depois. Outras de beber.Boa tarde. . . possivelmente. olhando para o carro à sua frente. Vamos pensar no que devemos fazer em seguida. . Mas em breve se sentiu desiludido com o regime de Ceausescu e. começou a escrever uma série de panfletos que denunciavam Ceausescu e seu regime fantoche. O crescente desapontamento do professor Balcescu em relação ao governo transformou-s e finalmente em aberta desaprovação. ao defender a derrubada do governo eleito. Balcescu ocupou a cátedra de Est . superintendente. chefiou uma revolta de estudant es em apoio a Nicolae Ceausescu. e.Obrigado.Acho que é hora de largá-la . . Great Shelford.d isse Donald. dirigindo-se a um sinal com luz verde. / Quando voltamos ao quarto de Donald. Estava a uns trinta metros à nossa frente. Balcesc u foi recompensado com um lugar no Conselho. e ele se tornou membro da Gonville and Caius em setembro de 1990. tinha-se demitido e regressado à universidade como simples assistente.Identificamos o carro . Algumas semanas de pois de um ataque particularmente agressivo ao regime.disse ele. o sargent o Crann voltou ao fone.disse Jenny. pousando o telefo ne.. superintendente. não desligue. foi levado para fora da Romênia por um grupo de estudantes. Donald voltou-se para Jenny. mas. Em que posso servi-lo? -Um BMWbranco.Eu sei que é apenas uma coincidência . com algumas pe ssoas.Nenhum de nós tentou responder.murmurou quase para si próprio .F173 BZK . Em novembro de 1991.E será apenas um deles ou ambos? .Embora haja muita gente que dirija BMWs brancos . As autoridades ficaram a liviadas quando lhe foi oferecido um lugar em Oxford. .aventurei-me a dizer -. após a aposentadoria de Sir Halford McKay. . -Lembro-me de ter visto a placa no dossiê. Finalmente. T he Kendalls. No ano seguinte. mas nada mais se soube . em 1991. . colocado em prisão domiciliar.A proprietária registrada é Susan Balcescu. High Street. sargento. foi despedido do cargo na universidade e. disse-nos ele. Voltemos para o hotel. . O artigo do Times sobre sua fuga da Romênia. caso ele fechasse. logo depois. quando passava com a luz amarela. Mas.Há pessoas que não conseguem deixar de fumar.

desconfiado. Minutos depois fui ao encontro deles.Recorda-se da segunda chamada de Rosemary? . tirada quando estava na Grécia. rodeado por estudantes. . já desesperada.E hora de assistir à palestra de Balcescu. Donald ignorou o comentário e consultou o relógio.disse Donald. . Donald ergueu o olhar. . .Se me permite que termine . mas nenhum de nós achou que estivesse mais próximo de uma solução. Jenny descobriu uma vaga a algumas centenas de metros do departamento de Estudos . mas está muito desgasta da para ter alguma utilidade. dadas as circunstâncias. . Franzi a testa.Talvez estivesse enganado . . . pelo espelho retrovisor.disse Hackett severamente. talv ez estivéssemos um passo mais próximos de Jeremy Alexander. Observei a fotografia em preto e branco do homem de meiaidade.Começa a parecer que sim . Não se parecia com Jeremy. Estarei com ar culpado?.interromp eu Jenny. .Acho que devíamos nos concentrar na senhora Balcescu.Mais um beco sem saída.perguntei. Balcescu dá sua aula semanal todas as sextas-feiras de manhã.Se conseguíssemos descobrir quem é o diretor.. Jenny conduziu-nos para fora do esta cionamento do hotel.disse Donald.confessei. barbudo. e ele prosseguiu: . . .Lamento dizer que estamos de volta ao ponto de partida. Jenny. vamos sair às onze. . que seri a muito difícil ele receber uma chamada pessoal a essa hora todas as sextas-feiras .. Donald e Jenny passaram as horas seguintes consultando dossiês. perguntei a mim mesmo. . Depois de Donald ter pedido a Jenny que trouxesse o carro para a porta do hotel. Abanei a cabeça. Estou certo de que concordará. .Possivelmente . das dez às onze. . enquanto eu me mantinha silencioso no banco de trás. fui ao meu quarto buscar uma coisa que há muito estava escondida no fundo de minh a mala. "O diretor não está neste momento"? Poderia ser a pista que procuramos? .disse Jenny. já que é uma hora que ela sabe exatamente onde está o marido. ele reviu todas as informações qu e havia reunido até aquele momento.Para que todo esse trabalho? . confirmando cada u m dos dez telefones uma segunda vez. virando à direita para a estrada principal.perguntei.Concordo. 65 . a que assistem todos os funcionários. ou uma amiga de Je remy? .disse Donald.. Como a palestra seguinte só será na próxima semana.Talvez ela seja a pessoa que recebia as chamadas todas as sextas-feiras ao 66 meio-dia. .E quanto à senhora Balcescu? . .Quantos diretores haverá na Inglaterra? Durante o café no quarto de Donald.Talvez tenha razão . a menos que se recorde de onde viu a senhora Balcescu.Mas isso não o impede de receber uma chamada de Rosemary ao meio-dia . Jenny baixou a cabeça. Mas será simplesmente a mensageira de Rosemary.udos Europeus Ocidentais. .Há aqui uma fotografia dele.. Segundo sua secretária. na manhã seguinte. .Talvez tenhamos de grampear o telefone dela para descobrir . Se descobrirmos que o t elefone da senhora Balcescu está ocupado entre as doze e as doze e trinta. De qualquer forma.Ao meio-dia preside uma reunião do departamento no seu gabinete.Especialmente depois do que descobri ontem. Donald voltou-se para mim. .Mas não podemos desperdiçar qualquer pista que seja.opinou Donald. Recordo-me das últimas palavras de Jenny antes que eu voltasse para meu quarto: . Donald olhou para mim.perguntou Jenny. talvez seja melhor ouvirmos a de hoje.

A seguir indicou-me um lugar atrás de um estudante 67 que. começou a desenrolar um discurso que parecia ter . Calculei que pudesse comportar cerca de trezentos estudantes. O s estudantes começaram a fazer anotações em seus blocos. e não creio que fosse pelo fato de não ter assistido às primeiras cinco palestras. No momento em que o relógio da parede do fundo indicava 9:55h quase não havia um lugar vago. mostrando diferentes grupos de rendimen to da Europa Oriental relacionados com as respectivas balanças de pagamento e exportações. mas não fiquei sabendo muito mais. Jenny corou um p ouco. Ia contar a Donal d. cor dos olhos diferente. . mas a sala ficou em silêncio quando o professor pronunciou as palavras de abertura. mas eu me sentia cada vez mais irritado com o contínuo zumbido das vogais anasaladas do professor. De repente. O assistente encarregado do projetor havia colocado alguns slides ao contrário.Esta é a sexta de oito palestras . O an fiteatro consistia em um grande semicírculo. Ninguém olhou para nós. Quando bateram dez horas. cerca de quinze quilos a men os. . . A localização do centro de conferências estava claramente indicada. Entramos por uma p orta no primeiro andar. .Eu deveria ter verificado a planta do edifício antes de entrar. embo ra. Saltamos e seguimos o fluxo de estudantes que avançava pela calçada e subia pelas escadas. pois não podemos nos arriscar a atrair as atenções sobre nós se sairmos. e ainda ficamos com tempo para ver s e ela está em casa para receber a chamada das doze horas. . O professor franz iu a testa e começou a pronunciar seu discurso cada vez mais depressa. Percebi-me olhando para o relógio da parede a intervalos de poucos minutos. a intensidade das luzes foi reduzida para que o professor p udesse ilustrar alguns dos pontos abordados por meio de slides.De acordo . Donald dirigiu-se imediatamente para a última fila. Temos que sair assim que a palestra acabar. devia treinar todo sábado para os jogos de rúgbi de sua faculd ade. Quando entramos no edifício.Então a ligação tem de ser com a senhora Balcescu sussurrou Jenny. àquela altura.disse ele . Levei a mão ao bolso do casaco. enquanto esperava que Balcescu entrasse. Parecia mais um revolucionário marxista do que a maior parte das pessoas que ia assistir à p alestra. como fazia nos meus tempos de escola. Não eram necessárias mais provas acerca da reputação do professor. que gemi alto: ele era totalmente o opo sto de Jeremy. . comecei a olhar em volta. Donald tirou a gravata e meteu-a no bolso do casaco. Ainda estava lá.Fez uma pausa. Enquanto esperávamos que Balcescu entrasse na sala. a porta do anfiteatro abriu-se. Era cada vez mais difícil para o assistente encontrar os slides que coincidissem com suas a firmações. por seu aspecto.com acentuado sotaque da Europa Central.Cor de cabelo diferente. Senti que se formavam leves gotas de suor na minha testa. .disse Donald entre dentes. lembrei-me de onde tinha visto a senhora Balcescu.sobre as recentes tendências sociai s e econômicas da Europa Oriental. pensei. No meio da palestra.Europeus e encostou o carro na calçada.sido feito muitas vezes antes. Fiq uei tão desapontado ao ver o homem que entrou.Don não reagiu. que era a única que servia de entrada e saída para o anfiteatro. não servisse para nada. . mo strando o final da tabela de exportações da Alemanha e a parte superior da tabela da Romênia. o que provocou uma leve onda de risos no anfiteatro.Mas ficaremos presos aqui durante a próx ima hora. seguido por mim e por Jenny. . porque sabia que o eu naquele caso era você e se referia a ela. Observei os dois primeiros gráficos que apareceram na tela. pois estava impaciente para falar a Hackett sobre a 68 senhora Balcescu e voltar para Great Shelford o mais depressa possível. lembrando um teatro grego em miniatur a..

Estava abrindo outra porta. Balcescu deu um passo à frente e começou a tamborilar impacientemente os dedos sobre a estante de madeira. . Só que agora vai haver um cadáver. ao ficar de lado. .disse eu. não! Eu posso explicar! Acredite! Eu posso explicar! Donald entrou correndo.Sinto muito. no que fui impedido pelos estudantes que já começavam a sair. mas nada apareceu na tela. .Não vou me queixar por ter matado Jere my Alexander.Lembro-me de ter observado que era a primeira vez que ele me chamava de Richar d. O anterior fora substituído por uma tela em branco. não tive dificuldade em reconhecer a voz estridente de Rosemary. o sangue abandonou seu rosto. Ao ver a arma. Apertei o gatilho no momento exato em que Jenny. mas.Desta vez está errado. Havia uma pequena cicatriz por cima do olho direito. A mulher parou o que estava fazendo e ergueu o olhar para mim. Todo mundo olhou para o assistente. Corri atrás dele. Apesar do tempo qu e passara. Quando tirei a pistola do bolso. mergulhou e agarrou-se às minhas pernas. . Mas o assistente não conseguia encontrar o slide que faltava. Passei por ela. Jeremy começou a gritar: . onde me vi diante de Jer emy Alexander pela primeira vez desde que o deixara. mas fiquei aliviado quando.Voltei a deixar-me vencer pelo tédio. . me deparei com um letreiro: PROFESSOR BALCESCU DIRETOR DE ESTUDOS EUROPEUS Abri bruscamente a porta e vi uma mulher sentada a uma mesa. Jeremy e eu caímos ao mesmo tempo no chão.Preciso ver o professor Balcescu imediatamente . se não o p egasse antes que Hackett me alcançasse. Avistei-o no fundo do corredor. abri a porta e entrei na sala seguinte. Quando cheguei à porta que ele fechara.. pude captar seu perfil pela primeira vez. . no momento em que o relógio marcava onze horas. e logo desapareceu de minha vista.Não faça isso. Deteve-me bruscamente junto à mesa do professor. mas à luz brilhante do foco eu podia vê-la claramente. 69 Pulei sobre o encosto de minha cadeira e comecei a correr para a saída. Donald .. estendido no chão da minha sa la de estar. folheando papéis. As lu zes acenderam-se e o professor abandonou rapidamente o anfiteatro sem mais uma palavra. sabendo que. Ele já foi declarado morto.gritei. Richard . largou o telefone.Não. Tenho certeza de que conhece o significado de autref ois acquit. poderia perder minha oportunidade. mas não mos trou interesse algum por Jeremy. Ele estava falando animadamente ao telefone. .sussurrei a Donald. que procurava desesperadamente o slide. mas ergueu o olhar e me r econheceu imediatamente. Eu sei. e por isso sabe que não posso ser acusado uma segunda vez de algo pelo qual já fui condenado. às cinco para as o nze.Jeremy? . Mas. . esbarran do em vários estudantes que conversavam. porque fui condenado à prisão perpétua por seu assassinato. .suplicou ele. deixando o professor bri lhantemente iluminado por um raio de luz. O professor começou a ficar irritado à medida que o ponteiro dos minutos se aproximava das onze. -Vai passar o resto da vida se lamentando.perguntou uma voz agitada do outro lado da linha.respondeu ela. Out ra porta fechava-se atrás dela. ao entrar na sala correndo.O diretor está à espera de uma ligação do exterior a qualquer momento e não pode ser inc omodado .É ele! . que devia ter quase desaparecido ao longo dos anos. Balcescu pediu o gráfico final. Voltou a acionar o comando. Empurrei-os até chegar à porta por onde o professor saíra tão abruptamente. 70 . Desloquei a pistola um pouco para a direita e apontei no coração de Jeremy. Richard.

Os jornais precisam sempre de um herói e de um vilão. Jeremy tinha sido preso e enviado para o Hospital Addenbrookes po r Allan Leeke. ao passar pelo banco dos réus. como disse no início desta narrativa. . por que voltei à prisão. ambos.É óbvio que Sua Excelência necessita de algum tempo para pensar . e sua voz sonora fez com que as palavras soassem como as de um p rofeta do Antigo Testamento.disse ele ao juiz.Bem. . a fim de aguardar julgamento. evidentemente.foram as últimas palavras 71 de Sir Matthew. Depois de consideráveis comentários na imprensa durante algumas semanas e daquilo qu e Sir Matthew descreveu no Tribunal de Apelação como "a inigualável provação e exemplar comportamento de meu cliente.Os aplausos da galeria foram tão barulhentos. acabei ficando na prisão apenas nove meses. Dessa vez tinham um herói e dois vilões. Não lhe foi concedida fiança. o juiz pronunciasse uma sentença leve. dessa vez por tentativa de homicídio . Depois de muita deliberação em seu gabinete. e Donald informou-me de que as prisões francesas. mais alguns milhões. pelo qual ele fora inquestionavelmente o cérebro responsáve l. delegado de polícia de 72 Cambridgeshire. pois me fez um sermão de vários minutos e depois disse que eu teria de cump rir uma pena de cinco anos. . sem falar no tes temunho falso da esposa. que o juiz teve de mandar evacuar a sala antes de conseguir responder a Sir Matthew. são . No mês que vem comparecerá ao Tribunal Real de Leeds. Rosemary também foi presa e acusada de perjúrio. A propósito. Note-se que valeu a pena. O juiz Lampton obviamente não lia os jornais. apelando por clemência. Foi brilhante na sua descrição de Rosemary como uma Jezebel perversa e calculista. Matthew pôs-se imediatamente de pé. em vista das circunstâncias. Mas o primeiro ju rado manifestou a esperança dos outros membros do júri de que. só para ouvir a preleção final de Matthew. uma vez que eu já tinha cump rido longa sentença. Dessa vez os jurados olharam para mim com cons iderável simpatia. Dedos e os rapazes deram-lhe magníficas boas-vindas. teriam emb olsado. pois ele entendeu muito bem o significado de autrefois acquit.Suplico a Vossa Excelência que não o coloque novamente atrás da s grades. mas apenas porque não tinham alternativa. . Dizem que já perdeu mais peso do que o que perdera quando andou pela Europa tecendo sua nova identidade. Nunca perdoarei Jenny por isso. especialmente a de Marselha. Fui julgado uma segunda vez. Pareciam ter esquecido tudo o que haviam escrito durante o julgamento anterior acerca do motorista tarado por sexo. Nesse dia fui enviado par a a prisão aberta de Ford.explicou-me Matthe w.ou. e teria sido ingênuo sugerir que as muitas páginas dedicadas a todos os sórdidos detalhes do embuste de Jeremy e Rosemar y não tiveram qualquer influência sobre os jurados. Enquanto isso. No seu resumo final.Este homem vê o mundo através de uma janela de lágrimas . foi acusa do de conspiração para denegrir o curso da justiça pública e transferido para a prisão de Armley. e o leitor pode estar certo de que estarei presente naquele tribunal acompanhando o julgamento todos os dias. o juiz quase lhes ordenou que o fizessem. disse aos jurados um exasperado Matthew.Não levantarás falso testemunho . . Depois de três dias numa enfermaria fortemente guardada. o juiz Lampton contentou-se com três anos. para ser mais exato. e de Jeremy como um homem mo tivado pelo rancor e pela ganância. capaz de se fazer passar cinicamente por herói nacional enquanto sua vítima apodrecia na cadeia por toda a vida.apesar de só ter atingido de raspão o ombro daquele miserável. baixinho. tenho de explicar por que motivo estou na prisão . Dentro de mais quatro anos. Consideraram-me culpado.

na Wall Street. O Bradford City desceu de divisão. Jeremy cometeu um pequeno erro para uma pesso a tão calculista e tão astuta quanto ele. e a s colunas sociais de ambos os lados do Atlântico sugeriam que. No caso de A Rainha versus Alexander e Kershaw. Quando aterrissaram em . era o terceiro marido de Consuela. ninguém sabe ao certo o que aconteceu àquele distinto acadêmico. procure o leitor as novas ações na Bolsa em meados do próximo ano. resolveriam esse problema. agora que assinamos o Tratad o de Maastricht. A propósito. Por isso. Até mesmo os romenos pensam que ele conseguiu fugir para a Inglaterra e a li iniciou uma nova vida. pois a nova equipe de administração não se mostrou muito eficiente quando procurou enfrentar uma recessão. porque não me agradará ir para a cadeia pela terceira vez. Seus dois primeiros maridos -um árabe e um judeu (Consuela não tinha preconceitos raciais no que dizia respeito a contratos de casamento) . provenientes de sua residência em Nova York . O mentor da falência ficou encantado por ace itar minha oferta de 250. para ser mais exato. estava vivendo com outra mulher. e compre algumas.uma das poucas desvantagens de se viver no sul da França. Ela está lutando pela ordem de extradição. decidi finalmente voltar a Leeds. pois serão aquilo a que meu pai chamaria "u m risco que vale a pena correr". e Consuela Rosenheim não constit uía exceção. são apenas onze na Inglaterra. um banqueiro americano. de suas residências em Nova York. O pobre Jeremy não vai receber praticament e nada por suas ações. mas Matthew assegurou-me que não tem a menor chance de conseguir. evidentemente. de modo que Donald comprou uma casa na zona oci dental e instalou-se lá para ver o Bath jogar rúgbi. Dois outros a cordos de divórcio. quando for interrogada. ela vai pre star depoimento em favor da Coroa.tenho certeza de que o leitor descobriu muito antes de mim onde a conheci. pois ninguém mais mostrava o mínimo interesse por ela. quando são doz e horas na França. pôs todo s os seus bens em nome da mulher. Consuela calculava que em cerca de cinco anos estaria em condição de fazer o voto final. A propósito. pois ele esqueceu de lhe dizer que. como pensei que seria. entretanto.menos confortáveis do que a de Armley .ou. Consuela saíra da mansão nos Hamptons e seguira até o aeroporto num carro com motorista. Matthew avisa-me de que acabei de dar ao leitor aquilo que chamam de "informação privilegiada". segundo me disseram. enquanto conversava semanalm ente com ela pelo telefone. Encontraram-se no salão do Concorde no JFK. Por isso peço a vocês que não a transmitam. que acende um cigarro no outro. a loura vistosa acabou ficando com tudo. como um fumante inv eterado. Entretanto. mas já anda se queixando do salário e das condições de trabalho . Os Rosenheim haviam partido de avião para Londres.000 libras pelo que restava da companhia. porque. num segundo carro também com motorista. a ex-modelo colombiana já andava à procura do próximo companheiro antes de sugar o último fôlego do atual. Victor Rosenheim. Para se proteger de ser identificado. A Cooper foi liquidada. Williams regressou a Bradford e decidiu-se por uma aposentadoria antecipada. enquan to o marido partira de seu escritório. Foi ele quem nos chamou a atenção para o fato dolorosamente óbvio de que. 74 PELA METADE DO PREÇO AS MULHERES SÃO NATURALMENTE SUPERIORES AOS homens. e tenho a impressão de que. Quanto à senhora Balcescu . Rosemary não vai ajuda r muito Jeremy. Eu sabia que alguma coisa boa havia de resultar daí. Isso decidido. Tem sido difícil descobrir o paradeiro do verdadeiro professor Balcescu. d esde a queda de Ceaucescu. Jenny foi trabalhar em uma agência de detetives 73 particulares em Londres.não a haviam deixado ainda em posição que lhe garantisse segurança financeira quando sua beleza natural tivesse desaparecido.

para não mencionar o fato de ter três filhos adolescentes.. casada com um armador não propriamente desconhecido . deu instruções ao motorista para que a conduzisse ao Harry's Bar. enquanto surgia à sua frente uma salada niçoise.Como está Victor? .respondeu. Eram 12h52. Depois. enquanto Consuela ficava na cama. "emagrecimento". Conseguiu comer uma pequena torrada sem manteiga e a metade de um ovo cozido. As duas mulheres tinham lido todos. além do fato de almoçar com uma velha amiga? . a fim de iniciar a caça ao presente de aniversário. desapar eceu no banheiro. . onde a senhora Stavros Kleanthis a aguardava na mesa habitual. os livros que alcançaram o topo da list a de besl-sellers do New York Times que incluíssem as palavras "juventude". outra limusine transportou-os ao Ritz. depois de pedirem a refeição. no conteúdo do cardápio. num vestido Olaganie cor-de-rosa com gola azul-escuro. de modo que Consuela concluiu que os cinqüenta minutos anteriores não tinham sido desperdiçados. nem seu corpo. Poucos homens por que passou entre o elevador e as portas giratórias da entrada deixaram de vira r a cabeça para admirá-la. Consuela cumprimentou a amiga com um beijo em cada face e sent ou-se diante dela. Apesar de consideráveis investigações. Consuela avaliou a pergunta durante alguns segundos e decidiu dizer a verdade.Heathrow. . saiu novamente de mãos vazias. Cinqüenta minutos mais tarde deixou sua suíte. sem que lhes fosse sequer sugerida a assinatura de. durante os últimos minutos. apesar dos esforços de um vendedor decidido. . como não tenho nem sua beleza.E Stavros? -Já ultrapassou a dele. . onde foram conduzidos à sua suíte habitual.os gregos p referem uma mulher legítima e diversas ligações amorosas -. Convencida de que a manhã fora infrutífera. enquanto a esposa. leste ou oeste daquele reconfortante ponto de referência. 78 Consuela deteve-se na calçada e consultou o relógio. antes de passar à Cartier. não fui capaz de descobrir que aniversário ela celebrava oficialmente. Saiu do hotel para o sol da manhã. pretendia ocupar seu tempo procurando um conveniente presente de anive rsário para si mesma. Iniciou sua busca na New Bond Street.Chegando rapidamente à data-limite . admirando os mais recentes relógios de fina espessur a. sul.E o que a trouxe a Londres. Maria Kleanthis. Victor Rosenheim foi c ompletamente despertado do estado de leseira por uma reunião no início da manhã no Centro de Londres. beliscando o café da manhã. devido à diferença de horários. não tinha intenções de se de sviar mais do que alguns quarteirões para norte. Depois de retirada a bandeja do café. havia concentrado sua atenção. e um ovo Fabergé. O senhor Rosenheim tinha esperanças de adquirir um pequeno banco comercial que não se beneficiara com a recessão..insin uou Maria. fichas de registro . Consuela sorriu. de onde. onde rejeitou uma salva de prata com brasão. apesar de um carro conduzido por motorista segu i-la a poucos metros. um relógio de pulso de platina e um relógio de sala Luís XIV Caminhou mais alguns metros até a Tiffany. para verificar se o rest aurante servia os poucos pratos que sua mais recente dieta lhe permitia comer. Como anteriormente.perguntou Maria. 77 O propósito da viagem era duplo. não me parece que possa voltar ao mercado e trocá-lo por algo mais recente. "boa forma" ou "imortalidade" no título. os cabelos louros balançando sobre os ombros. que lhe mostrou quase tudo q ue a loja tinha para oferecer. receio . Consuela deu alguns telefonemas a fim de con firmar almoços marcados para os dois dias que passaria em Londres. Passou algum tempo na Asprey. . Depois de uma noite sem dormir. .Mas. uma estatueta de ouro com olhos de jade.disse Maria. "orgas mo". Consuela.

senhora . uma para leste e outra para oeste.Victor está de olho em mais um banco . um incomparável colar de diamantes e rubis. Obviamente. e passando rapidamente à Adler. convencendo-se de 80 que. e Consuela se viu diante de um homem alto e imp onente que vestia um longo casaco preto e calças de risca-de-giz. concluiu que se tratava com certeza de um estabelecimento novo. A partir desse momento percebeu que não precisar ia de novas incursões. Teve a sensação de já ter visto aquela jóia ma gnífica em algum lugar. Os pratos de salada foram habilmente retirados por um garçom que Maria considerou novo demais e magro demais. Admirou as magníficas jóias em seus luxuosos estojos. Na calçada da South Audley Street beijaram-se novamente nas faces antes de seguire m caminhos opostos. onde se abriu uma segunda porta. . Minutos depois.E eu vim procurar um bom presente de aniversário. Voltou a amaldiçoar a recessão.disse Consuela. e continuou a admirar os rubis requintadamente montados e rodeados por diamantes de talhe perf eito. pousando o garfo ao lado da 79 salada. . até serem as únicas clientes que permaneciam na sala. Consuela dirigiu-se lentamente para a pesada porta de vidro da entrada da loja e apertou um discreto botão de marfim na parede. um garçom pouca coisa mais gordo veio trazer-lhes a conta . que. ap arentemente. embora sua companheira não se mostr asse tão disciplinada. com o mesmo problema. a uma distância de não mais de meia milha. e a única coisa atraente na Tiffany era o empregado. . não escaparia de uma expedição a Knightsbridge no dia seguinte. desceu e começou a percorrer cuidad osamente o outro lado da rua. e.Ainda não . Consuela recusou o creme e o açúcar. abriu a boca de espanto. a quem bastou lançar um rápido olhar à senhora Rosenheim para conduzi-la imediatamente pelos portais interiores. que Victor lhe garantira ser a causa da maior parte dos atuais problema s mundiais. -Já encontrou algo adequado? .disse ele. . sua viagem de regresso ao Ritz. Em seguida. com Velutância. pendurado num fino pescoço de mármore. Um segundo garçom.Nada disso . sofria do mesmo mal.Uma casa no ca mpo? Um cavalo de corrida puro-sangue? Ou talvez o seu próprio jato Lear? . indubitavelmente. Preparava-se para iniciar. não tinha um níquel. parando na Bentley's. Não se recordava de ter visto aquela loja na sua última visita a Londres. os expositores da Cartier estavam quase vazios. que.respondeu Consuela.perguntou Maria.Preciso de algo que possa ser negociado no futuro. Consuela subiu para o banco de trás do carro. Consuela começava a se irritar por não encontrar alguma coisa que valesse a pena na Bond Street. Quando chegou à terceira vitrine. mas afastou rapidamente a idéia. provavelmente. Quando se viu novamente em território conhecido. con siderando que nenhuma delas pedira um segundo prato nem encomendara mais do que uma Evian ao garçom que trouxera a carta de vinhos. .perguntou Maria.A Asprey não me mostrou nada de interessante. qu ando parou de repente diante da House of Graff.Bom-dia.E o que deseja que Victor dê a você desta vez? . porque ali estava. Consuela reparou que ele . como se falasse sobre uma criança que coleciona selos. em qualquer estado. queixaram-se dos sacrifícios que tinham de fazer por causa da recessão.. . Sem sequer pensar no quanto custa ria o objeto. permanecendo assim por instantes. que davam ao colar uma beleza inigualável. como con hecia a Bond melhor do que ninguém. . a House of Graff não estava interessada em visitantes de passagem.confessou Consuela. vou ter de continuar mi nha busca esta tarde. reconheça como inquestionavelmente minha. fortemente protegidas por vidr os à prova de balas. A porta foi aberta pelo encarregado da segurança. fazendo sutil reverência. alguma coisa que qu alquer tribunal. cerca de seis meses antes.extraordinariamente longa. onde parecia não ter sido vendida coisa alguma desde o ano anterior. e o motorista regressou a New Bond. culpando Bill Clinton. serviu café para as duas.

lhe mere ceriam horas de atenção. Abandonou imediatamente a escrivaninha. quando ele segurav a a porta para ela passar.Ah .perguntou Consuela com indiferença.respondeu o gerente. apertando-lhe a mão. diante da senho ra Rosenheim. e o assistente pousara delicadamente o colar sobre ele.Consuela hesitou. . .Desde então tem passado por diversas mãos antes de chegar à House of Graff . nenhum deles. Nove de cada dez clientes que faziam aquela afirmação não tinham intenção de voltar. ela lhe deu quatro herdeiros. Laurence Graff ergueu o olhar para a tela da televisão na parede. Mas. . abriu uma pequena porta e retirou o colar. sentindo-se insegura pela primeira vez naquele dia.Um milhão de libras.com certeza. Graff acompanhou-a à porta. no ano passado. lançando-lhe uma olhadela final. e. saiu d e seu escritório e tomou o elevador para o andar da loja.Criado em 1936 por Silvio di Larchi . sobre o colar de diamantes e rubis. mas ele sabia pressentir o décimo.disse ele.prosseg uiu o proprietário. sem conseguir recordar-se nem dele.aproveitara para admirar sub-repticiamente seus anéis. numa festa em benefício da Cruz Vermelha.disse ela.Como o presidente da Câmara dos Comuns consegue identificar cada um de seus seiscentos e cinqüenta membros. mas infelizmente os poços de petróleo do marido secaram. depois disso . puxando uma cadeira para Consuela. senhor. O gerente já havia colocado um forro de veludo preto sobre a mesa. senhora . e que ele talvez desejasse negociar pessoalm ente. qu e lhe mostrava o que acontecia na loja.disse ele.. em circunstâncias normais. ao ver a senhora de vestido cor-de-rosa sentada junto à mesa Luís XIV . numa loja de bugigangas.elogiou. . seria capaz de localizá-la a cem passos numa escada rolante em movimento. Os diamantes foram adquiridos de De Beers por um mercador egípcio que. . . .num coquetel em Manhattan. que se dirigiu silenciosamente à 81 vitrine. ..O colar Kanemarra. .respondeu Graff. . es tava destinado a subir ao trono. minha senhora . hipnotizada. . reverente...disse Laurence Graff.Eu volto . O gerente deslizou para trás d o balcão e apertou um botão oculto.Claro . tão naturalmente como se ela tivesse perguntado o preço de uma bijuteria. Conhecemo-nos em Sotheby Parke Benett. senhora Rosenheim . avisando-o de que um cliente tinha pedido pa ra ver uma peça particularmente cara. à sua esquerda. nem da festa. . ofereceu-lhe esta jóia no dia do casamento. .Bom-dia. depois de o colar ter sido confeccionado para ele. Quando o monarca s e casou com a princesa Farida. erguendo-se.É magnífico . Fez um sinal quase imperceptível com a cabeça para um assistente.Graff ergueu o olhar de uma beleza para outra . Consuela fixou o objeto de seus desejos. se bem me lemb ro. Todos os rubis foram extraídos de uma única mina na Birmânia.Que prazer voltar a vê-la. ao longo de vinte anos. . Um leve sorriso iluminou o rosto de Consuela Rosenheim quando finalmente se reco rdou de onde tinha visto aquele colar.disse Consuela. . uma herança de família .Posso saber qual é o preço? . Na verdade só a tinha visto uma vez . .Gostaria de ver melhor o colar de rubis e diamantes que está exposto na terceira vitrine. por serviços prestados. ofereceu esta peça única ao rei Faruk. . uma campainha soou no escritório privado de Laurence Graff. Quatro andares acima. fazendo uma pausa antes de assumir o lugar do gerente à mesa.Laurence Graff . . a mente de Consuela estava voltada para um único objeto. num balneário . .Bom-dia. saindo do elevador e caminh ando sobre o espesso tapete em direção à sua possível cliente. infelizmente.disse com voz suave.Sua mais recente proprietária foi uma atriz.prosseguiu. se não estou enganado. La urence Graff reconhecia os seiscentos e cinqüenta clientes que poderiam adquirir seus tesouros mais extravagantes. Laurence Graff inclinou-se.Consuela Rosenheim. .Em que posso servi-la? Embora a sala estivesse cheia de tesouros que. como recompensa.

acendeu um charu to e se recostou na cadeira. Consuela puxou o lençol por cima de seus corpos nus. Utilizou o te mpo para tomar um longo banho e premeditar sua armadilha. regressando ao quarto.A propósito. Atravessou a rua. Voltou-se para ela. Um bônus inesperado.respondeu ela. de onde saiu duas horas depois com todas as armas de que necessitava para a batalha que tinha pela frente. Regressou à suíte no Ritz alguns minutos antes das seis. encontr ou o presente? . Pela primeira vez. dirigi ndo-se primeiro à The White House. Victor". Victor descreveu à mulher. ele já estava tirando a gravata. Quando saíram do salão de refeições e se dirigiram para o elevador. Fizeram amor pela segunda vez. com a recordação ainda bem viva na memória da noite anterior.Um triunfo. com t odos os pormenores. Durante um jantar tranqüilo no restaurante do Ritz. começou a ressonar. Consuela estimulou o marido com observações do gênero "Como você é inteligente. Quando chegou à calçada. já tinha despido o casaco e sua mão deslizara um pouco mais para baixo. Quarenta minutos depois. exausto. Durante alguns minutos. Olhava-se no enorme espelho do guarda-roupa quando Victor entrou no quarto. Muito antes de chegarem à porta da suíte. ela começou a passear seu pé direito. deix ando imediatamente cair a pasta no tapete. porque ele precisava passar a maior p arte do dia fechado com seus advogados. Consuela voltou-se para ele. depois à Yves Saint Laurent e finalmente à Chanel. Só quando saiu do chuveiro Victor se lembrou de que aquele era o dia do aniversário da mulher e que prometera sair com ela.qualquer. Depois de seca e empoa da. Consuela constatou com alívio que o marido ainda não voltara do banco. .Quem ainda tem dinheiro não precisa temer a recessão acrescentou Victor com satisf ação. querido . Victor estava estendido na cama. nessa noite.disse ele. . Quando o elevador chegou ao sexto andar. sobre o lado interno da coxa dele. Depois de sus pirar durante alguns minutos. minha querida . Quando ele finalmente pediu uma dose de brandy. "Nunca vou compreender como você consegue isso". . Sua mente agora trabalhava em velocidade que teria impressionado seu próprio marido. Victor passou o braço em volta da cintura estreita de sua mulher. envolto em meia finíssima. Consuela deu uma risadinha.declarou seu marido. Ao entrarem no quarto. passando os olhos pela primeira página do Financial .acrescentou. Já estava preparando a se gunda fase do plano. o que se passara no banco naquele dia. A aquisição ficou acertada e por metade do preço que me teria custado há u m ano. Consuela colocou o letreiro NÃO INCOMODAR do lado de fora da maçaneta da porta. Consuela dispensou o motorista.Como foi seu dia? . Consuela sorriu. mas seus olhos permaneceram abertos. com a mulher acariciando suavemente o lado inter no de sua perna. coisa que há muito ele não se reco rdava de ter acontecido. "Fantástico". Victor acordou na manhã seguinte. vendo sua elegante mulher despir o vestido que havia comprado nessa tarde.Obrigada. Durante algumas pausa s ocasionais em seu monólogo. . para lhe comprar um presente. cujo olhar de desejo era o mesmo com que ela admirara o colar Kanemarra algumas horas antes.Está espantosa! . aplicou um pouco 83 do perfume novo no pescoço e vestiu um dos trajes que acabara de comprar. . . Victor ficou hipnotizado.Parabéns. Esperava que ela já tivesse escolhido o que desejava. D 84 despiu-se então rapidamente e desejou uma vez mais ter levado a cabo suas resoluções d e Ano-Novo. Vict or parou de pensar na aquisição do banco. estudando ponto por ponto o documento da oferta.

Deu um passo atrás e estendeu o veludo negro sobre a mesa. . ambas pretas e ambas notavelmente reduzidas. . abotoand o a camisa.Do outro lado da rua.. enquanto saíam do hotel e se dirigiam.perguntou Victor.disse Victor. Victor.. Consuela. para não falar no trabalho. .acrescentou. cuja voz subia de tom. mas eu preciso saber quanto a peça vai me custar ..Permite que o felicite pelo brilhante sucesso .Ótimo. . Meio milhão. uma vez mais. Só espero que não seja muito cara. 85 .Receio que. Então vamos lá ver essa coisinha.disse Victo r. .Alguns milhões?! .disse o proprietário. .Sabia exatamente o que se passava na cabeça do marido. voltou-se para Victor: . você é muito mais esperto do que eu . conduziu habilmente a conversa para o triunfo do marido no dia anterior.Quanto? . a retirar o magníf ico colar da terceira vitrine e a colocá-lo cuidadosamente no centro do forro de velud o.foi a resposta imediata. . Graff ia começar a contar a história da peça. O encarregado da segurança apressou-se a abrir a porta e. mas depois recordou-se dos advogados .que. poupei alguns milhões . Enquanto Victor acabava de se vestir.Sua extraordinária beleza. . .repetiu Victor.Quanto custa? Graff ergueu a cabeça. descrevendo-a como um gol pe. enquanto vestia uma blusa de seda azul-marinho. com a ajuda do Financial Times. . à sua espera.Talvez tenha razão. .disse ele. Escutou uma vez mais os pormenores da aquisição. . minha senhora . Victor começou a pensar se ainda teria tempo.exclamou..Repito a minha oferta. .Há sempre espaço para negociar.disse Victo .Meu marido gostaria de ver o colar Kanemarra . se pensar um pouco .. ..Naturalmente. nessa manhã. meu querido . Consuela voltou-se para el e. não mais . Você não vai perder muito tempo. . Consuela sorriu. 86 . .Vi uma coisinha que eu gostaria de te r.perguntou Victor. .disse Graff em tom neutro.Provavelmente.E quanto custa essa "coisinha"? .Times.Um milhão de libras . Consuela cons tatou que Graff já estava junto da mesa.Quanto? .disse Consuela.respondeu Consuela.A sua proveniência garante.perguntou.. . não há espaço pa ra negociar. Eu acho que. .. O redator já fazia especulações sobre a possível aquisição. que tinham estado toda a noite de pé e estariam pacientemente à sua espera no banco.Nisso. Vestia apenas duas peças de roupa. antes que Victo r tivesse oportunidade de responder.Sim.Lamento dizer .. para a Bond Street. senhor Rosenheim? Em que posso servi-lo? Victor sorriu. dessa vez.Como você é esperto.Não se trata de uma jóia comum. .respondeu Consuela.Não perguntei o preço . para exibir a jóia em todo o seu esplendor.Compro-o por meio milhão.. Com'uma pequena reverência para ela. . sem perder mais tempo . . Pela segunda vez. . na Bond Street.declarou Graff . nesse caso.Quanto? . . . Victor consultou o relógio. percebendo que não devia arriscar mais adjetivos. . em relação a esta peça em especial. seja o que for que se venda .repetiu ele..É muito longe daqui? . meu querido respondeu Consuela. de braço s dados. O assistente voltou. conduzindoo até a porta da House of Graff. que começava a mostrar-se impaciente. surgiu no rosto de Victor um sorriso de satisfação.Confio que possa ver as coisas à minha maneira. quando Victor perguntou simplesmente: . a palavra "único" não seria inadequada.

r. - Mas esta manhã não tenho muito tempo livre, de modo que vou dar-lhe um cheque de meio milhão e deixo-o com liberdade para descontá-lo ou não. - Receio que esteja perdendo seu tempo - disse Graff. Não posso vender o colar Kan emarra por menos de um milhão. Victor retirou um talão de cheques do bolso interno do paletó, desenroscou a tampa d a caneta e escreveu "quinhentas mil libras" sob o nome do banco que tinha o seu nome. A mulher deu um discreto passo para trás. Graff ia repetir seu comentário anterior quando, ao erguer o olhar, notou que a se nhora Rosenheim lhe pedia silenciosamente que aceitasse o cheque. Surgiu em seu rosto uma expressão de curiosidade, enquanto Consuela repetia seu ge sto. Victor destacou o cheque e deixou-o sobre a mesa. - Dou-lhe vinte e quatro horas para decidir - disse. Voltamos para Nova York ama nhã de manhã... com ou sem o colar Kanemarra. A decisão é sua. Graff deixou o cheque sobre a mesa, enquanto acompanhava o senhor e a senhora Ro senheim à porta da frente e, com uma reverência, os viu sair para a rua. 87 - Você foi brilhante, meu querido! - disse Consuela, enquanto o motorista abria a porta do carro para seu patrão. - Para o banco - disse Rosenheim, deixando-se cair no assento de trás. -Você vai ter sua coisinha, Consuela. Elevai sacar o cheque antes que terminem as vinte quatr o horas, tenho certeza. - O motorista fechou a porta de trás e o vidro desceu suavemente, enquanto Victor acrescentava, com um sorriso: - Parabéns, minha querida. Consuela devolveu-lhe o sorriso e atirou-lhe um beijo, enquanto o carro entrava no trânsito e se dirigia para Piccadilly. A manhã não havia passado exatamente como ela planejara, pois não concordava com a avaliação do marido... mas ainda tinha vinte e quatro horas para jogar. Consuela regressou à suíte do Ritz, despiu-se, tomou uma ducha, abriu outro frasco d e perfume e começou lentamente a vestir o segundo traje que comprara no dia anteri or.Antes de sair do quarto, consultou a seção de mercadorias do Financial Times e informou-se do preço do café verde. Saiu da entrada do Ritz na Arlington Street, usando um vestido azul-escuro de do is bolsos de Yves Saint Laurent e um chapéu vermelho e branco de aba larga. Sem so licitar o motorista, chamou um táxi, pedindo ao chofer que a levasse a um pequeno e discre to hotel de Knightsbridge. Quinze minutos mais tarde entrou no vestíbulo de cabeça baixa e, depois de indicar ao gerente o nome da reserva, foi acompanhada a uma s uíte no quarto andar. Seu companheiro de almoço pôs-se de pé quando ela entrou no quarto, encaminhou-se para ela, beijou-a nas faces e deu-lhe os parabéns. Depois de um almoço íntimo e uma hora ainda mais íntima passada no quarto ao lado, o c ompanheiro de Consuela escutou seu pedido e, tendo consultado o relógio, concordou em acompanhá-la a Mayfair. Não lhe disse que teria de estar no escritório às quatro hora s para receber um telefonema importante da América do Sul. Desde a queda do presidente do Brasil, os preços do café tinham disparado. Enquanto o carro descia a Brompton Road, o companheiro de Consuela telefonou par a se informar da última cotação do café PELA METADE DO PREÇO verde em Nova York (apenas a mestria de Consuela na cama o impedira de telefonar mais cedo). Ficou satisfeito por saber que subira mais dois cêntimos, mas não tão satisfeito quanto ela. Minutos depois, o carro os deixava diante da House of Gra ff. Quando entraram no estabelecimento de braços dados, Graff não ergueu sequer uma sobr ancelha. - Boa tarde, senhor Carvalho - disse. - Espero que suas propriedades tenham prod uzido abundante colheita este ano.

O senhor Carvalho sorriu e respondeu. - Não posso me queixar. - Em que posso servi-lo? - inquiriu o proprietário. - Gostaríamos de ver o colar de diamantes da terceira vitrine - disse Consuela sem um momento de hesitação. - Naturalmente, minha senhora - disse Graff, como se se dirigisse a uma pessoa t otalmente desconhecida. Uma vez mais foi estendido o veludo negro, sobre o qual mais uma vez o assistent e colocou o colar Kanemarra. Dessa vez Graff pôde contar a história do colar, antes que Carvalho perguntasse deli cadamente qual era seu preço. - Um milhão de libras - disse Graff. Após um momento de hesitação, Carvalho ofereceu: - Estou disposto a pagar meio milhão. - Não se trata de uma peça comum - respondeu o proprietário. - Penso que... - Talvez não, mas meio milhão é a minha melhor oferta disse Carvalho. - A sua espantosa beleza, para não falar do trabalho... - No entanto, eu não ultrapasso o meio milhão. - ... a palavra "único" não seria inadequada. - Meio milhão, não mais - insistiu Carvalho. - Lamento dizer - declarou Graff - que, em relação a essa peça, não há possibilidade de ne gociação. - Há sempre possibilidade de negociação, seja o que for que se venda - insistiu o plan tador de café. - Receio que não neste caso. Bem vê... - Penso que acabará por se dar conta - disse Carvalho. 89 Mas, infelizmente, não disponho de muito tempo esta tarde. vou dar-lhe um cheque d e meio milhão de libras, e o senhor decidirá se deve sacá-lo ou não. Carvalho retirou um talão de cheques do bolso interno do paletó, desenroscou a tampa da caneta e escreveu "quinhentas mil libras". Consuela fitava-o em silêncio. Carvalho destacou o cheque e deixou-o sobre o balcão. - Dou-lhe vinte e quatro horas para decidir. Parto para Chicago no primeiro avião de amanhã. Se o cheque não tiver sido descontado quando chegar ao meu'escritório... Graff fez uma ligeira reverência e deixou o cheque onde estava. Acompanhou-os à port a e fez nova reverência quando saíram para a rua. -Você foi brilhante, meu querido! - disse Consuela, quando o motorista abriu a por ta do carro para seu patrão. - Para a Bolsa - disse Carvalho. Voltando-se para a amante, disse: -Você vai ter s eu colar antes do fim do dia, tenho certeza disso, minha querida. Consuela sorriu e acenou, enquanto o carro desaparecia na direção de Piccadilly, e, a essa altura, já podia concordar com a opinião de seu amante. Mal o carro dobrou a esquina, entrou novamente na House of Graff. O proprietário sorriu e entregou-lhe o presente belamente embrulhado. Fez uma demo rada reverência e disse simplesmente: - Feliz aniversário, senhora Rosenheim. O BRAÇO DIREITO DE DOUGIE MORTIMER 90 Re JXOBERT HENRY KEFFORD in, BOB PARA OS AMIGOS, estava na cama com uma jovem chama da Helen quando ouviu falar, pela primeira vez, do braço direito de Dougie Mortime r. Bob estava com pena de deixar Cambridge. Havia passado três magníficos anos em St. J ohn e, embora não tivesse lido tantos livros quanto lera para o mestrado na Universidade de Chicago, fizera o máximo esforço possível para ser o primeiro colocado no rio. Não era comum um americano ganhar uma regata no início da década de 1970, mas ter leva do um barco de oito homens à vitória, como remador de popa, durante três anos seguidos, era considerado um recorde. O pai de Bob, Robert Henry Kefford II, Robert para os amigos, tinha ido à Inglater

ra para ver o filho participar das três regatas entre Putney e Mortlake. Depois de Bob ter levado Cambridge à vitória pela terceira vez, o pai tinha-lhe dito que não deveria regressar à sua Illinois nativa sem ter presenteado o Clube Náutico da Universidade com uma recordação sua. - E não esqueça, meu rapaz - declarou Robert Henry Kefford II -, não deve ser um prese nte ostensivo. É melhor mostrar que você se esforçou para lhes oferecer um objeto de valor histórico do que lhes dar qualquer coisa que tenha obviamente cust ado muito dinheiro. Os ingleses apreciam esse tipo de coisas. Bob passou muitas horas refletindo sobre as palavras do pai, mas não conseguia ter uma idéia de como agir. Afinal, o Clube 93 Náutico da Universidade de Cambridge tinha mais taças de prata e troféus do que conseg uia exibir. Foi num domingo de manhã que Helen pronunciou pela primeira vez o nome de Dougie M ortimer. Estavam os dois deitados, um nos braços do outro, quando ela começou a pressionar os bíceps de Bob. - Isso é alguma espécie de antigo jogo erótico britânico que eu desconheço? - perguntou Bo b, passando o braço livre em volta dos ombros da jovem. - É claro que não - respondeu Helen. - Estava simplesmente tentando descobrir se seu s bíceps eram tão grandes como os de Dougie Mortimer. Como Bob nunca tinha ouvido uma garota falar de outro homem enquanto estava na c ama com ele, não conseguiu pensar numa resposta imediata. - E são? - acabou por perguntar, tensionando os músculos. - É difícil dizer - respondeu Helen. - Nunca toquei o braço de Dougie, só o vi a distância . - E onde você encontrou esse magnífico espécime masculino? - Está pendurado acima do balcão do bar de meu pai, em Hull. - E Dougie Mortimer não acha isso um pouco incômodo? perguntou Bob, rindo. - Duvido que se preocupe muito com isso - disse Helen. Afinal, está morto há mais de sessenta anos. - E o braço dele ainda está pendurado acima do balcão de um bar? - perguntou Bob, incréd ulo. - Não terá começado a cheirar um pouco mal? Foi a vez de Helen rir. - Não, seu americano idiota! É um molde de bronze do braço dele. Antigamente, quando s e fazia parte da equipe de remo da universidade durante três anos seguidos, confeccionava-se um molde do braço para pendurar no clube. Sem falar de um cartão co m a fotografia do indivíduo em cada maço de cigarros Player's. Pensando bem, nunca vi a fotografia dele num maço de cigarros - disse Hela puxando o lençol para cima da cabeça. 94 - Ele remava por Oxford ou Cambridge? - perguntou Bob. - Não tenho idéia. - Como é que se chama esse bar em Hull? - O Rei Guilherme - respondeu Helen, enquanto Bob retirava o braço que lhe rodeava os ombros. - Isto é um jogo erótico americano? -perguntou ela, minutos depois. Ao fim dessa manhã, depois de Helen ter partido para Newham, Bob começou a procurar na sua estante um livro de capa azul. Retirou da prateleira a sua muito folheada História das Regatas e percorreu o índice, para ver se havia Mortimers na lista. Cin co tinham remado por Oxford, dois por Cambridge. Começou a rezar, enquanto verific ava as suas iniciais. Mortimer, A. J. (Westminster e Wadham, Oxon), Mortimer, C.K. ( Uppingham e Oriel, Oxon), Mortimer, D.J.T. (Garrow e St. Catherine, Cantab.), Mo rtimer, E.L. (Oundle e Magdalen, Oxon.). Bob voltou sua atenção para Mortimer, D.J.T., biogr afia na p. 129, e folheou as páginas até chegar à que procurava. Douglas John Townsend-Mortimer (St. Catherine), Cambridge 1907-08-09, remador de popa. Depois leu o curto resumo da carreira de Mortimer como remador.

Mortimer morreu em 1914. A segunda chamada foi atendida por uma moça. Sentou-se à gr ande mesa central. Utiliz avam como balizas as paredes fronteiras de duas casas. qual é o primeiro trem de regresso? perguntou Bob. . Mas. Bob fechou o livro e voltou a colocá-lo na estante. os azul-claros perd eram uma regata contra Oxford.Oito e vinte e cinco. Se conseguisse trazer o braço direito de Dougi e Mortimer de volta para Cambridge e o oferecesse ao Clube 95 durante o Jantar Anual dos Azuis*. Saiu e dirigiu-se à sua faculdade para almoçar.Só abrem às sete.Sim. da T. Bob perguntou a si mesmo . dirigindo-se à cabine telefônica do co rredor.DOUGIK MORTIMER levou um barco de Cambridge à vitória.Não conseguiu entender todas as palavras do forte sotaque do norte com que lhe responderam. que disse: . feito esse que repetiu em 1908. então este é o bar que procura. acho que é isso . du as horas mais tarde. perguntou: .O braço direito de Dougie Mortimer está pendurado acima de seu balcão? .Pode tomar o das 3h 17 para Peterborough. mas revelou-se uma péssima companhia para os que se sentaram à sua volta. cuja equipe era considerada inferior. porque havia três bares com esse nome na lista telefônica de Hull.Rua Percy. é possível . quando os peritos eram de opinião que Cambridge possuía uma das melhores tripulações em muitos anos. para os Rei Guilherme. propôs-se a transpor o obstáculo seguinte. . Chega a Hull às 6h32. depois de ter deixado Bob dia nte da porta. Sentou-se na beira da cama. Vestiu-se rapidamente e desceu ao andar térreo. . desceu do trem. com certeza.) V 5 96 Tomou o trem para Peterborough nessa tarde. meu rapaz . dirigiu-se a outro que aguardava junto da plataforma três e embarcou. um presente à altura do exi gente critério do pai. Quando conseguiu a ligação com o primeiro. Logo que lhe deram o número de quatro algarismos que solicitara. mais precisamente. a um desportista que representa ou repres entou as universidades de Oxford ou Cambridge e tem o direito de usar a cor de s ua universidade (azul-escuro para Oxford. o resultado da corrida cont inua a ser um mistério até hoje. . em 1909. Pediu ao primeiro táxi da fila qu e o levasse ao Rei Guilherme. Deve estar de volta a Cambridge pouco depois da meianoite. ain da profundamente mergulhado em seus pensamentos. Depois de Bob ter anotado o endereço e o horário de abertura do bar. . Em Peterborough. Começou a descer uma rua l ateral nos fundos do bar e parou para ver alguns rapazes jogando futebol. partindo do princípio de que o g rande remador morrera na Primeira Guerra Mundial. . baldeação em Doncaster e Peterborough. mas não restavam dúvidas de que a resposta tinha sido negativa.Bem. Embora tenham sido adiantadas pela imprensa muitas explicações. Tinha que esperar vinte minutos.Praça do Mercado.Sim. .Depois disso. esquina da Harold ou rua Percy? perguntou o motorista. uma de cada lado da rua. fez uma terceir a chamada. ainda pensando em como poderia conve ncer os proprietários do bar a cederem o valioso objeto. como remador de popa. mudar outra vez. (N. pensando nas informações que recolhera. As primeiras chamadas que fez foram para o Rei Guilherme ou.disse-lhe o motorista.Refere-se àquela coisa que está pendurada na parede por trás do balcão? . .respondeu Bob.disse Bob. azul-claro para Cambridere). e dem onstravam espantosa habilidade em não atingir as janelas. teria. . depois.Obrigado . onde t erá de saltar e pegar o das 4h09 para Doncaster e. na Inglaterra.disse Bob. * Chama-se Blue (Azul). por favor .disseram-lhe. Quando o trem chegou a Hull. em 1907 . Bob consultou o relógio. não avançara na resolução do problema.

Para ser mais exato. Dougie Mortimer. . enquanto o bar se enchia. do escuro . Quando terminou a bebida. envergando um blazer azul de dois bolsos. por favor . . quando uma jovem loura se aproximou e lhe perguntou o que desejava. Quando ele morreu. E foi o que fiz.Um chope bem tirado. as três pessoas que estavam atrás do balcão bem podiam perguntar a si mesmas se ele teria caído do outro planeta. Disse que ia pendurar no bar. . mas eu não deixei. Bob ergueu o olhar e admirou novamente o braço. passeou o olhar pela parede acima do balcão.Cale a boca.Não vim só para isso. . . como servia a maior parte dos fregueses.Em que posso servi-lo.Como é que aquele braço veio parar em Hull? .Então o que veio fazer? . . . CATHERINE.disse o dono.Vamos trabalhar.disse Nora. .Queria outro. obrigado". . poli e ficou bem bonito. Achou o objeto simultaneamente horrível e inspirador. sabe? Nasceu em Ely e passava as férias pescando no Cam. Seus olhos desceram para as letras gravadas em ouro sob o braço: D.quem não só mandava no estabeleci mento. Bebeu um gole do líquido escuro e quase se engasgou. Disse que foi a única coisa que pescou naquele ano. J. .Isso provocou diversas gargalhadas entre . Nora .perguntou 98 . seria o primeiro a quebrar uma vidraça. esforçando-se para falar como seus c olegas britânicos quando pediam uma bebida na cantina da universidade. calças cin za. Tentou ocultar sua excitação ao ver um braço maciço em bronze pregado num grande retângulo de madeira envernizada.disse Bob. . com um metro e noventa de altura. . se jogasse com eles. Cyril Barnsworth.Telefonou para cá esta manhã. diante dele. não foi? Minha Christi e falou-me. desviando as atenções do prop rietário de sua pessoa. Colocou o chope sobre o balcão. sem prestar atenção à bebida. convencido de que. . na esperança de que ninguém prestasse atenção em sua presença.perguntou ela. Respondeu: "Não. .Então.perguntou Nora.Não vê que há fregueses à espera? Nora voltou-se para ele e disse: . Mas vejo que percorreu uma grande distância só para ver essa tralha velha. E depois pendurei na parede atrás do balcão.É uma história muito comprida .respondeu Bob. mas logo percebeu que era a mulher dele .Americano .disse ela.se aquele jogo viria a pegar na América. que eles pararam e lhe pergun taram se queria jogar. Ficou tão entusiasmado com a habilidade dos garotos. o que o traz a Hull? -A senhora . T. MORTIMER 1907-08-09 (ST. E mais: quer comprá-lo. . enquanto manejava a bomba e recomeçava a encher o copo. camisa azul e gravata da universidade.Agora já sei quem é . Regressou à porta do Rei Guilherme alguns minutos depois das sete e entrou no bar vazio. dirigiu-se para a extremidade do balcão onde ela se enco ntrava. Limpei. Nora olhou desconfiada para aquele estranho que tinha idade suficiente para ser seu filho.todos a chamavam de Nora .disse Bob. Bob sorriu. meu pai queria jogar essa porcaria fora com o resto do lixo. meu rapaz? . Devia ter imaginado.disse Nora. Absteve -se de olhar para a parte superior do balcão. o que sempre me pareceu melhor do que dizer que aquilo caiu da caçamba de um caminhão. O dono do bar olhou para Bob desconfiado quando ele levou 97 seu copo para uma pequena mesa redonda a um canto e se sentou num banco. Bob fic ou satisfeito quando entraram mais dois homens no bar.Era do meu avô. . pelo menos desde que as bases fecharam. Este rapaz veio aqui só para ver o braço de Dougie Mortimer. Reteve a respiração.Vim para comprá-lo. REMADOR DE POPA) Bob não perdeu de vista o proprietário. Mas. Quando se recu perou. Bob acenou afirmativamente com a cabeça. Não aparecem muitos por aqui.

Mas. tinha-se tornado azul vinte anos antes e era reconhecido como a enciclopédia viva do clube. de modo que deve ter mais de oitenta anos. en tregou-o a um restaurador de móveis. cuidadosamente envolto em papel castanho. . que dá para o rio Cam. Subitamente. à sua chegada nessa noite. Bob tinha sido coloc ado na primeira mesa. que prometeu devolver o braço à sua antiga glória.nem sequer com Helen . Porém. . onde o escondeu debaixo da cama. como agora lhe chamava. apesar de alguns parecerem obviamente novos dema is. antes que o gerente do banco tivesse telefona do para Cambridge assegurando de que da conta de Robert Henry Kefford II seria possív el retirar duzentas libras. não acha? . R emou pelo clube no lugar número três em 1908-1909. estendeu a mão por cima do balcão e disse: .Não é seu. Também teve de pernoitar num hotel local. vo ndo-se de novo para Bob: .duvidou Bob. meu rapaz: ele tem razão. tom apontou a Bob três contemplados com medalhas olímpicas espalhados pela sala. . recordando-se do retrato juvenil de Forester na pare . o secretário honorário. . apesar de ter avisado ao surpreso presidente que ia oferecer um prese nte e que precisava de dois ganchos a quarenta e cinco centímetros de distância um do outro 100 e a dois metros e meio do chão. tom Adams. mas também o de todos os remadores do passado. O dono do bar olhou para a mulher. naq uela manhã de segunda-feira.Repare.disse Nora. e depois carregou o pesado objeto da estação até seus aposentos na Grange Street.Gostaria que o braço regressasse 99 ao lugar que lhe pertence em Cambridge e estou disposto a pagar duzentas libras por essa honra.Poderíamos comprar aquele carro usado em que eu ando de olho . Não me separaria dele nem por cem libras. a tempo do Jantar dos Azuis. . Bob agarrou-se a seu tesouro durante todo o caminho de regresso a Cambridge. No dia seguinte. Colocou o embrulho. O Jantar dos Azuis da Universidade é um acontecimento anual que se realiza na Casa dos Barcos.Diversos fregueses começavam a interessarse pela conversa. sob sua cadeira e pousou a máquina fotográfica à sua frente. Por ser seu último Jantar dos Azuis antes de regressar à América. . Bob pôde ver os resultados dos esforços do restaurador.Então foi uma viagem em vão.Para não falar de férias de verão e um casaco novo para o inverno .Aquilo não está à venda.perguntou Bob tranqüilamente.Estou mesmo .disse ela.disse Bob. . como se não acreditasse no que estava ouvindo. . Decidiu não partilhar esse segredo com pessoa alguma . Dessa vez Nora gargalhou.Será possível? . . os risos cessaram rapidamente.Meu Deus. e Bob ficou encantado ao constatar.os fregueses que estavam junto ao balcão. você está falando sério! .Negócio fechado. Quando Nora parou de rir.até a noite do Jantar dos Azuis. Quando. como Nora não riu.disse o dono. entre o secretário honorário e o atual presidente da Casa dos Barcos. pousando as mãos nas ancas. s entiu-se imediatamente seguro de que possuía um presente que não só era digno do Clube Náutico. que deveriam ser fixados antecipadamente na parede . -Charles Forester. como também satisfaria os desejos de seu pai. que a sal a estava extremamente concorrida. olhando para Bob como se ainda precisasse de ser convencida de que ele não vinha de outro planeta. Bob acabou por ter de pagar diversas rodadas aos fregueses que afirmavam ter sid o amigos pessoais do avô de Nora.acrescentou Nora . três semanas depois. pois sabia o nome não só de todos os presentes na sala. Qualquer remador antigo ou atual pode estar presente. rapaz. fitou o estranho jovem. porque Nora não quis se separar da "herança" de seu avô. mas Bo b nem sequer mexeu o lábio. .E por duzentas? .disse. você é que não pode vendê-lo . .O mais velho está sentado à esquerda do presidente disse ele. .

Este ano haverá uma oferta especial ao clube. de regresso aos aposentos.disse o secretário. Fisk deve ter conhecido Mortimer. Bob olhou então para Sidney Fisk e notou que ele também não se levantara. sim. permanecera sentado. . desejando apenas que seu pai pudesse estar presente para presenciar a reação provocada. . meu jovem . Contou como conseguira localizar e. com a ajuda 102 de tom Adams. ao olhar em volta . . Charles Forester. por certo. Pensando bem. se bem me lembro. os aplausos tornaram-se ainda mais fortes. mas não conseguiu saber muito mais do que lera na História das Regatas. Catherine. ainda cantarolando. . sem se juntar sequer aos aplaus os.E é . Depois de retirado o último prato. mas ele falava tão baixo. 1907-08-09. todos irão apreciar. Percorrendo a sala com os olhos. entre um remo que tinha sido u sado por um dos membros da tripulação olímpica de 1908 e uma camisa usada pelo único azul que tinha remado num barco de Cambridge.Parece ainda mais velho. recuperar o braço direito de Dougie Mortimer.Então deve ter conhecido Dougie Mortimer . quando subitamente se recordou de que tinha deixado a máquina fotográfica sobre a me sa do clube. já que os azul-cl aros tinham uma tripulação visivelmente superior. Bob começou a tirar fotografias da cerimônia. pendurou o braço de bronze na parede. e não levantou as mãos dos joelhos. que. Bob não pôde deixar de notar que o azul mais velho presente. nessa noite.E o homem no outro extremo da mesa? . 101 Oh. em tom pensativo. muitos dos membros do clube e antigos azuis rodeara m Bob para lhe agradecer e felicitá-lo.acrescentou. Bob continuou a interrogar Adams acerca de Dougie Mortimer. Os membros do clube puseram -se de pé e aplaudiram.disse Adams. . apenas com uma pausa durante a Primeira Guerra Mundial.disse o secretário. continuava a ser um mistério.Ora. remador de popa.Mortimer.. Quando se encontra . Bob foi dos últimos a sair. . Decidiu ir buscá-la de manhã. Bob esqueceu os dois velhos quando o presidente. Foi barqueiro de 1912a 1945. rind o -. que o ruído cessou rapidamente. quando se voltou para confirmar. feita pelo nosso colonial remador de popa. depoi s. .E lhe digo mais. cantarolan do. Tomou o luga r do tio. desembrulhou a oferta que tinha estado escondida sob sua cade ira e mostrou a todos o objeto de bronze restaurado. mas. deixando de referir apenas o local e xato onde se encontrava quando tomara conhecimento de seu paradeiro. que batera Oxford quatro anos a fio.disse Bob. Surgiu um sorriso de satisfação no rosto de Bob. Charles Fo rester deve ter partilhado o barco de Mortimer quando ele era remador de popa. Os lábios do a ntigo remador permaneciam apertados numa linha estreita. .T. Quando Bob se ergueu. Caminhava pelo pátio. você também ficará como ele um dia.J. D. Girou e começou a caminhar em direção ao clube. porque estava certo de que o clube estaria fechado e deserto naquele momento. O presidente terminou com as palavras: . Bob apreciou as partes que conseguiu ouvir apesar do ruído produzido pelos estudantes dos primeiros anos e juntou-se à gr itaria quando era mencionado o nome de Oxford.de do clube. aí está um grande nome do passado . o presidente ergueu-se para dar as boas-vindas aos convidados e fazer um breve discurso. além de confirmar que a derrota de Cambridge. St. em 1909.É Sidney Fisk. Depois de pendurada a placa. com um curto prazo de aviso. viu luz no andar térreo. para ficar com uma recordação e para mostrar ao pai que tinha satisfeito seus desejos. porque muitos membros quiseram lhe deseja r boa sorte no futuro. Durante a refeição. .perguntou Bob.É claro que é . Bob Kefford. com certeza. com um gesto rápido. não lhe deixando dúvidas de que valera a pena o trabalho de localizar o braço.

va a poucos passos. por diversas vezes. seu avanço para a margem foi ainda mais lento do que o de Forester. mas se u ritmo revelava que tinha grande prática de remar. Quando volt ou a sair para o ar frio da noite. Pegaram ambos o braço de bronze e.. escondendo-se por trás das grossas árvores. Aproximou-se mais para vê-los melhor e ficou surpreso ao reconhecer o velho azul. olhou pela janela e viu duas pessoas na sala do comitê. Forester parou de rema r e juntou-se ao companheiro na proa. Forester pegou os remos. Fisk foi buscar uma cadeira e encostou-a à parede.. Acabafam por chegar a t erra e. ajudando-o a subir também. que parar. o secretário honorário do clube. Bob seguiu -os silenciosamente. Encharcados e exaustos. pousar o braço no chão. sem conseguir pensar em outra coisa. Forester conseguiu sub ir com bastante rapidez para o barco. enquanto o barqueiro permanecia à proa. Quando os dois homens calcular am ter chegado ao centro do Cam. Bob escutou o relato de Adams sobre o assalto. Depois foi a vez de Fisk pegar os remos. enquanto os dois velhos transportavam o braço de Dougie Morti mer pela sala e saíam da Casa dos Barcos. tentando arrastar uma pes ada mesa. Forester começou a remar com firmeza para o meio do rio.O que é surpreendente é que só levaram uma coisa. centímetro por centímetro. Na realidade. atiraram-no pela borda. descansar e recomeçar o percurso. enquanto via os dois velhos arrastarem a mesa. erguendo-a dos ganchos e descendo-a lentamente 103 até a colocarem entre os pés de ambos.O seu braço. até que os dois velhos viraram subitamente para a margem do rio. Quando já estavam os dois em segurança em cima da mesa. até a parede. desceu da m esa e voltou-se para ajudar o companheiro. travaram uma breve conversa antes de estender as mãos para a peça de bronze. Tiveram. o velho remador fechou rapidamente a porta a cadeado. Bob ouviu o barulho da água e viu o ba rco balançar perigosamente. Teria ido ajudá-los se Fisk não tivesse subitamente apontado para o braço de Dou gie Mortimer. o remador aposentado. os dois homens voltaram-se um para o outro. Forester. mas Fisk levou alguns minutos para consegu ir juntar-se ao companheiro. para dentro do rio. . finalmente. Os dois homens voltaram a travar uma breve conversa antes de erguer o troféu de Bo b e começar a avançar aos tropeções pelo caminho de sirga. com a condensação das respirações claramente visível no ar da noit e límpida e fria. agarrado ao braço de Dougie Mortimer. Depois. apertaram-se as mãos como dois magnatas que tivessem fechado importante negócio. . em seu ponto mais profundo. antes de desapar ecer na noite. Tendo colocado o objeto no chão. do lado de fora.. O antigo azul desamarrou o barco. o barqueiro prende u a corda a uma grande argola. sem-cerimôn ia. Avançava lentamente. Charles Forester. estivera toda a noite acordado. após saltar do barco. tom Adams. Bob permaneceu imóvel. 104 empurraram-no com dificuldade para o ancoradouro. Forester tornou a entrar na sala para apagar as luzes. Forester inclinou-se e segurou o braço do homem mais velho. ou . Bob permaneceu imóvel. com a ajuda da cadeira. Nenhum deles pareci a preocupado com o fato de que estavam ficando encharcados. fez uma pausa. colocando-a sob a placa. e os dois homens empurraram-no silenciosamente para o rio. Quando estavam ambos a bordo.. Detiveram-se à beira da água e colocaram sua carga dentro de um pequeno barco a remos. e Forester utilizou-a como degr au para subir à mesa. Então. e Sidney Fisk. telefonou a Bob na manhã seguinte para lhe dar uma notícia que ele já conhecia. até a água bater nos joelhos das calças dos smokings.

. lembra va-se de manter o carro do lado esquerdo da estrada e não pôde deixar de pensar quanto tem po faltaria para os ingleses começarem a construir auto-estradas com mais de uma pista. Vejamos se está na li sta da faculdade.Meu pai não consegue enxergar muito bem atualmente explicou ela. 1909-1911. iniciando sua via gem para Tewkesbury num carro que tinha alugado na véspera.disse Bob. -Já que estou falando com o senhor. Mill Road.Perfeitamente. mas não consig o lembrar onde. .Sim. Ficou surpreso ao receber um telefonema no seu alojamento. três dias depois. na esperança de que o velho azul concordasse em recebê-lo. Poderia ter ido de trem. é esse mesmo .disse Bob. .Afinal. Atendeu-lhe uma voz rabugenta. . licenciatura em 1916 (Teologia). vivo? . no que respeita a Oxford. 105 .Ajudou-me muitíssimo. Fez-se bispo. filha de Deering. Harold. Gloucestershire. . Bob passou o resto da tarde escrevendo uma carta ao antigo bispo.Houve um longo silêncio do outro lado da linha. .Reverendo Harold Deering. Tenho certeza de que compreenderá. Casa de Pedra.Tem de ser de manhã .Por acaso sabe quem é o mais velho azul de Oxford.disse Bob.disse a voz. .De modo que t ive de ler a carta para ele..Obrigado . Só estava tentando me lembrar se o velho Harold Deering ainda está vivo.Deering. .Apolícia local está investigando. lá pelas onze e meia. E estou um pouco enferrujado.Esse é novo para mim. que não conseguiu comer.Tenho .Diga a seu pai que me espere por volta das onze e meia. . . da se nhora Elliot..Está ótimo .disse a voz.perguntou Bob. .continuou a explicar a senhora Elliot -. É esse? .salientou Adams. Deering. não admira. . mas a posto que quem roubou o braço já está fora do condado neste momento.disse Adams.. É muito estranho. Deering. melhor. Depois de um almoço na faculdade. . encontrou rapidamente a Casa de Pedra. Estacionou o carro próximo a um pequeno portão de bambu. Foi um bocado antes do meu tempo.Outra longa pausa.Obrigado .Deering? .É capaz de ter razão .. Passava das onze quando chegou a Tewkesbury. . se bem me recordo. mas ele gostaria muito de recebê-lo e pergunta se pode vir no domingo. Bob regressou ao alojamen to e telefonou para a portaria do Keble. . . .Há alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? perguntou Bob. . com quem ele vivia.Mas não se esqueça de que isso é só um passatempo para mim. bacharelado em 19 11.perguntou Bob.disse Bob. Bob estava de pé muito antes de o sol nascer. . vou enviar as instruções do percurso para a sua faculdade. o braço de Dougie. 1909-10-11.Sim. não leio as colunas do obituário todos os dias. quando a voz respondeu: . . . antigo membro da faculdade? . meu rapaz .disse Adams. . gostaria de lhe fazer uma pergunta sobre a história do clube. não me parece. A propósito. No domingo de manhã. porque ele gosta de dormir depois do almoço. meu rapaz. durante a qual Bob chegou a pensar que o telefone tinha sido desligado. . mas os trens britânicos não pareciam dispostos a funcionar suficientemente ced o para ele chegar a tempo a seu destino.Por acaso tem o endereço dele? . .Está ouvindo? .Santo Deus. -vou fazer o possível para responder . e.disse Bob.Posso estar enganado . graças às claras instruções da senhora E lliot. Tew kesbury. É bispo de Truru. Não me recordo de ter visto seu obituário no Times. depois das matinas. . .Tem algum registro de Harold Deering. senhor Adams.espantou-se Bob. Radley e Keble. . -Já me ajudou bastante. Bob agradeceu novamente antes de desligar.Não. especialmente porque deixaram uma cara máquina fotográfica sobre a mesa principal. desde que isso não lh e traga inconvenientes. Enquanto percorria os Cotswolds..

Bob mal podia crer que aquela frágil figura tivesse sido um dia um remador olímpico. .três vezes. Bob tentou controlar seus pensamentos. . onde ele se viu imediatamente diante de um velho sentad o num sofá de couro.disse o velho.É ele? . Bob avançou e apertou a mão ossuda que o velho lhe estendeu.Não. Kefford . e Bob perguntou a si mesmo se ele teria adormecido. senhor. por acaso? . É o senhor Kefford.disse ela. pai .J.Uma mulher havia aberto a porta da casa antes mesmo de Bob chegar a meio do cami nho coberto de ervas. ansioso por saber por que quer falar com ele .Não incomoda nada . . Trata-se apenas de um capricho pessoal.Não. Kefford? . .Você é jornalista.disse Bob.respondeu a senhora Elliot.que vai ter de falar alto.T. Bob fitou-o. Kefford. .respondeu o velho sem hesitação.A verdade é que meu p ai ficou muito excitado com a idéia de um azul americano de Cambridge vir visitá-lo depois de todos esses anos.Bob sorriu e apertou-lhe a mão. perguntando-lhe quais as circunstâncias de sua morte. Meu pai está muito surdo ultimamente e receio q ue sua memória já não seja como antes. Dougie Mortimer .Peço desculpas por lhe causar tanto incômodo. puxando a manta mais para cima.disse.Gostaria de começar pelo fim. . que minha capacidade de c oncentração já não é a mesma. O velho não respondeu durante alguns momentos.Não é o tipo de coisa que os rapazes falavam no meu tempo .D.perguntou o velho em tom alto.disse o velho. Mortimer .disse ela. à sua custa. 108 .Devo avisá-lo explicou a senhora Elliot. Deve recordar tudo o que aconteceu quando tinha a sua idade.disse Bob.disse Bob.Quer tomar uma xícara de chá. . E e stá cheio de curiosidade.Eu sou Susan Elliot. você deve compre ender. de modo que é melhor dizer logo por que veio. . mas não se lembra das coisas mais simples que eu lhe disse onte m. . 106 107 Levou Bob para uma sala. . Não parou de falar do assunto nos dois últimos dias. .É. . em voz sibilante. . se puder.O velho fez uma pausa.Mortimer.Foi muito simpático de sua parte vir de tão longe. senhora Elliot .disse o ex-bispo.disse Bob. se puder . Veio d e Cambridge especialmente para vê-lo. enquanto a senhora Elliot o encaminh ava para uma grande e confortável cadeira de frente para o pai. Um dos melhores remadores de popa que Cambridge produziu.declarou ela. conduzindo-o pelo corredor.Deve ser o senhor Kefford .Não me lembro de todos. enquanto o conduzia à porta . Queria saber umas coisas ac erca dele antes de voltar para a América.acrescent ou ela. envolvido num quente roupão de xadrez e apoiado em diversas almofadas..perguntou Deering.Então vou tentar ajudá-lo. As pálpebras do clérigo fecharam-se. . .Como quiser . muito obrigado . . Tive que repetir a que horas o senhor vinha esta manhã . . . quando entr avam . . receando que aquela viagem tivesse sido feita em vão. . confidencialmente. .Devo avisá-lo.. sim. . com as pernas cobertas por uma manta escocesa. no mesmo tom.Como se chama ele? . -Aí está uma pessoa que não se esquec e facilmente.Ando fazendo uma pequena investigação sobre um azul de Cambridge que deve ter rema do mais ou menos na mesma época que o senhor.Agradeço que me tenha recebido . como Oxford concluiu.Obrigado . . .

Mas nunca me tinha passado pela cabeça que alguém f izesse isso deliberadamente. Porque não se pode pôr na cadeia quem já está morto. mas. acompanhado por um a garrafa de vinho. acho que sim .Meus parabéns. .Sim. Houve um novo e longo silêncio. .A minha filha disse que o senhor foi remador de popa do barco que deu a vitória a Cambridge três anos a fio.disse Bob. Disse-me. Tomei parte nessa regata. se o timoneiro da embarcação de Cambridge não se tivesse ordenado. mas. Não há muitos estudantes que não as tenham. assim como o senhor. não é verdade? Mas nunca foi confirmado.. reverendo .Não estou compreendendo. mas não houve provas. Se têm uma oportunidade. e nós não tín hamos possibilidades de perder. no caso de Mortimer. em Rutland.Partridge era solteiro. Sabe Deus que há suficientes destroços na água para que isso pareça inevitável. Penso que ele esperava que sua fama e popul aridade impedissem seus credores de lhe cobrar as dívidas. escreveu-me e convidou-me para falar ao seu rebanho. e achei que podia ser aquela a minha oportunidade. O resultado nunca ficou devidamente explicado. Percebeu.Nem podia.respondeu ele. Fiquei lá durante a noite. sabe como é. receando deter o fluxo de pensamentos do velho. sabe? . quando era claramente favorito? . como sabe.disse Bob. o que lhe deu imensas oportunidades.Mas.É a minha vez de lhe fazer umas perguntas. .disse o sacerdote -. Mas diga-me uma coisa: se 109 tivesse desejado perder uma dessas corridas. . dura nte o qual Bob chegou a recear que o velho houvesse julgado ter ido longe demais . ou até mesmo desviar um pouco o barco quando se chega à curva de Surrey. . . meu rapaz. Hoje em dia penso em non sequiturs. quando foi primeiro-ministro acrescentou. quando fui feito bispo de Truro. meu rapaz.O suicídio É um disparate. Veio a ser pároco de um local chamado Chersfield.Acha que isso poderia estar relacionado com o fato de Cambridge ter perdido as regatas em 1909. pensando bem . naquela época. .. . adoram conversar.É possível. que por acaso não era grande coisa. rind . que não devia partir do princípio de que um corpo frágil significa necessariamente mente frágil.À vontade. poderia tê-lo feito sem que o resto d a tripulação percebesse? Foi a vez de Bob pensar um pouco.Cambridge era nitidamente o favorito.Contra a lei? .perguntou Bob. Kefford .Pode-se sempre alterar o ritmo das rem adas sem avisar. devo confessar. não houve provas. pela primeira vez desde que tinha en trado na sala. Não 110 muito diferentemente de Disraeli. . . Correram muitos boatos na época. compreende? . penso eu . pode-se dizer. rindo. queria ver resolvido o mistério da co rrida de 1909. Pr ovavelmente o único lugar que o aceitou . ..disse Deering. respirando pesadamente. hesitando uma vez mais. .disse. . . vou tentar ser mais claro. naqueles tempos. que eu poderia facilmente ter-me desculpado. surpreso.acabou por dizer.Bob fitou o velho de frente. . .Nem pela minha .É verdade. que todo mundo sabia que Mortimer tinha grandes dívidas em toda a cidade de Cambridge.O que é que não ficou provado? .Deteve-se de novo. . Era uma via gem tão difícil da Cornualha a Rutland.prosseguiu o ex-sacerdote -. . . durante um longo jantar. finalmente. finalmente.Especialmente por ser contra a lei.disse ele. O timoneiro do barco da corrida de Gambridge de 1909 era um rapaz chamado Bertie Partridge. e os solteirões sentem-se muito solitários. apesar de s er um pecado mortal. Bob não tentou interrompê-lo.Devo confessar que essa idéia me passou pela cabeça. reverendo. ultrapassavam largamente seu potencial financeiro. .

Keyfford. Kefford .Sei disso porque meu tutor perdeu uma aposta de cinco libras. .Evidentemente.Não.Fico muito grato por sua franqueza. não lhe parece. . Algumas semanas depois o barqueiro foi despedido sem expli cações. o estava conduzindo de carro ao aeroporto. e ainda menos pelos estudantes.Fico absolutame nte encantado por ter podido ajudálo. perguntando a si mesmo como teria reagi do seu pai. . sor riu e acrescentou: . não desejando distraí-lo. Bob sentou-se na beira do assento. pela primeira vez. reverendo . quando o velho barqueiro se embebedou certa noite.Mas.A única coisa de que me recordo é que os corretores de apostas fizeram um estrago . Kefford? Bob pensou na questão durante algum tempo. Bob pôs-se de pé e. em letras douradas: H. Depois respondeu simplesmente: . desde que iniciara nov a vida nos Estados Unidos.disse Bob. . justifica r a mim mesmo o fato de nunca ter conseguido apanhar um vinte. e nunca mais se ouviu falar do assunto. .. como o senhor. ao voltar-se para agradecer à senhora Elliot. DEERING 1909-10-11 (KEBLE.respondeu o sacerdote. que não se in teressava absolutamente nada por regata. . . a reprodução de um braço em bronze presa na parede.Obrigado. . Posso fazer mais alguma coisa por você? . TIMONEIRO) . con fessou ter jogado o braço de Mortimer no meio do Cam. sob a qual se lia. . H. . Nenhum dos dois teria achado isso possível cinco anos antes.É o melhor lugar para ele.Não. Bob pe rmaneceu em silêncio. É o melhor lugar para ele. no caso de Mortimer.O velho fez uma pausa. o que não havia de agradar a um homem de Cambridge. quando tinham chegado à América como refugiados políticos.disse. O velho parou uma vez mais.perguntou Bob.o de novo. .disse o velho azul. causou muita agitação na época. reverendo. sem qualquer explicação. 111 . nem tanto . Alguns dias depois de a regata ter sido perdida.disse o velho. pagou todas as suas dívidas. Bob riu.disse Deering abruptamente. . Mas. . agora quase num sussurro.Mas tive a sorte de estar no barco vitori oso durante três anos seguidos.Mas desapareceu misteriosamente da Cas a dos Barcos em 1912.Acho que já me disse tudo o que eu p recisava saber. reverendo . sim . como que mergulhado em profundos pensamentos. pensando nas recordações do velho.O senhor deve ter sido um bom remador. e nunca mais me deixou esquecer que eu dissera que não tínhamos a mín ima possibilidade de ganhar.. senhor. Shereen. . parece que Mortimer.Fizeram. PASSAGEM PROIBIDA 112 Maio de 1986 HAMID ZEBARI SORRIU À IDÉIA DE QUE SUA MULHER. . muito obrigado. por causa disso. havia um determinado lojista. notou. reverendo.Ergueu o olhar e sorriu ao seu visitante. Hamid começava a pensar que tudo seria possível. Imagine que sempre pude. . que ameaçou levá-lo à j ustiça na semana anterior à regata de 1909.Uma última pergunta antes de partir.Partridge me disse que. . E pode contar com minha discrição.Fizeram uma reprodução em bronze do braço de Dougie Mortimer? .Soube-se por que motivo tinha sido despedido? .Sim.

uma funcionária das Linhas Aéreas Turcas estava coloca ndo num quadro o aviso do vôo 014. .Quando você volta para casa. Nova York-Londres-Istambul. observou que o avião deles partiria uma hora antes do seu. . Como fazia o mesmo vôo duas vezes ao ano. Os bancos começavam a encher-se com o habitual grupo cosmopolita de passageiros: t urcos que iam visitar suas famílias. o filho. Hamid ainda tinha de esperar uma hora antes que chamassem os passageiros para o vôo. Abraçou primeiro a filha e. antes de entrar na part e de trás do carro. e lhe ocorriam os mesmos pensamentos. junto ao meio-fio. e o porta-malas abriu.não pelo fato de ele ir embora. Hamid desapareceu no terminal.respondeu-lhe Hamid com um sorriso. Hamid engoliu a última garfada de carne picada .perguntou o filho. servido em pequenas xícaras de porcelana. acompanhado s de carne picada. que ainda era pequena demais para compreende r por que motivo o pai ia se ausentar.Viremos buscá-lo . depois. . sob o letreiro das Linhas Aéreas Turcas. Apertou um botão no painel. e homens de negócios cujos balanços comerciais eram e streitamente vigiados por avarentos contadores. disse a si mesmo.E quatorze noites .o avião das Linhas Aéreas Tur cas estaria estacionado a meio caminho de Manhattan. Começou a andar lentamente para o portão B27.ainda não se acostumara com o hábito americano de cobrir tudo com 116 ketchup . o qu e sempre fazia cessarem as lágrimas. Uma vez registradas suas seis malas vazias. Ele a deixou acariciar seu farto bigode. Sempre que as rodas do avião deixavam o solo. A essa altura.E. . queiram. . Estava ansioso por volta r a provar o espesso café turco.Passageiros das filas 35 e 41. por favor queiram dirigir-se para bordo. Hamid pegou sua pasta e encaminhou-se para a passagem que levava ao vôo 014.disse sua mulher. Um fu ncionário das Linhas Aéreas Turcas confirmou seu cartão de bordo e o fez entrar. Hamid abraçou a mulher e sentiu em seu ventre o pequeno volume de seu terceiro filho.gritou Shereen. Não mais . . enquanto o marido dava uma gorjeta ao carrega dor.. Pagou a conta e deixou um dólar no pires. e passaria a viajar na classe de exec utivos da Pan Am.Senhores passageiros com destino a Istambul.e bebeu um último gole do café fraco e sem sabor. Depois de ter reservado seu lugar e recebido o passe de bordo.respondeu o pai. Hora prevista para a partida: lOhlO. Eram essas pequenas coisas que lhe recordavam diariamente a liberdade recém-adquirida e o quanto devia à América. pai? . já poderia pagá-la.Quanto tempo é uma quinzena? . ao lado da irmã May.Quatorze dias . perto do extremo da classe ec onômica. quando comparado com o privilégio de viver num país livre. preso pelo cinto de segurança no banco de trás. . acompanhados de crianças. Quando passou pelo balcão de check-in da Pan Am no B5. Quando chegou à área do check-in. ven do seu país de adoção desaparecer de sua vista.Quatorze dias . por favor. May estava chorando . mas porque 115 chorava sempre que o carro parava. não precisou pedir informações à comissária. retirou a bagagem e pousou-a na calçada. quando eu voltar . . Hamid dirigiu-se ao bar do restaurante e pediu café e dois ovos moles. Mais dez viagens.Daqui a uma quinzena. .perguntou Nadim. dirig indo-se ao balcão das Linhas Aéreas Turcas. americanos que iam passar férias e queriam poupar os sessenta e três dólares. prometo. Mas era um sacrifício ínfimo. vamos tirar férias. Hamid olhava pela pequenajanela. Hamid saltou do carro. .repetiu o filho. parando junto à calçada. Havia sido colocado num lugar do lado do corredor. dirigir-se para bordo solicitou a funcionária pelo alto-falante. um privilégio para quem estivesse disposto a pagar mais sessenta e três dólares. Era sempre a mesma coisa .

e o único verdadeiro amigo que tinha .apenas dois passaportes. na cidade. longe do Centro da cidade. que um ministro do Iraque. como a neve ao sol da manhã. Tinham sido transportados ao longo dos montes por mulas. usando um cambista diferente de cada vez. sempre desejara que ele entrasse para o negócio da família e o havia prevenido. Deixou o ex-ministro e sua mulher em segurança do outro lado da fronteira às primeiras horas da manhã. Quando chegaram a Erbil. oculto nas roupas largas da mulher. todos são espiões. de pois que o Exército Popular recebeu uma parte e os intermediários outra. usando a maior parte dos dinares restantes para pagar ao motorista. as pessoas ainda se julgam imortai s. de que não aceitasse a pasta da Agricultura. Saddam não se havia referido a ele. o povo iraq uiano ficou com muito pouco. duzentos e vinte e um dólares americanos. pois os três ministros anteriores haviam sido demitidos e. A seguinte foi à embaixada americana. de qualquer forma. mais tarde. já em solo turco. Hamid e Shereen dormiram durante toda a longa viagem de trem até a capital turca e acordaram na manhã seguinte na qualidade de refugiados. A primeira visita que Hamid fez. Alguém tinha de arcar com as culpas. um dia. convencera-se. pouc o antes de morrer. . No dia em que foi afastado. No Iraque. diante de todo o Conselho de Comando Revolucionário. Chegav a a onze mil. fora a de retirar de sua conta bancária. onde depositou dez mil e oitocentos dólares . As colheitas de trigo tinham sido fracas naquele outono. à espera do primeiro trem para Istam bul. então grávida. e. Seu pai lhe dissera. Na quinta-feira seguinte. A única precaução que Hamid tomara. tomaram o ônibus para Erbil. trocava o dinheiro extra por dólares americanos com um cambista de rua. e nunca trocando uma quantia que pudesse levantar suspeitas. Chegaram a Zakho no princípio da tarde. depois de ter assumido a pasta da Agricultura durante dois anos apenas. onde apresentou seu passaporte diplomático e pediu asilo político. A parte final da viagem fora a mais lenta de todas. à espera de qu e o sol da manhã aparecesse através da janela sem cortina. quando aquele presidente especial despedia alguém . prontos para a caminhada a pé até a aldeia mais próxima. e alguns dinares iraquianos para chegar à fronteira. A colheita do primeiro ano fora abundante e. Depois.os amigos derreti am-se. Nem um.o jovem contraba ndista curdo não mostrara interesse pelos dinares iraquianos. Passaram a noite nu m pequeno hotel. Mas Hamid aceitara o ca rgo. foi ao Banco Iz. Deixaram seu Mercedes conspicuamente estacionado na frente de sua grande casa nos subúrbios e não levaram bagagem . o que lhes custou duzentos dólares . ele e a mulher . outro ônibus levou-os aos montes do Curdistão.e todo mundo no Iraque sabia o que queria dizer "desaparecido". No dia seguinte. Hamid e a mulher pegaram um táxi para Sulaimania. um pouco mais de dinheiro do que necessitava. o maço de dólares.o ajudara a fugir. O pai de Hamid. afinal. contou o dinheiro escondido embaixo do colchão. E. Ninguém os iria procurar num ônibus para Erbil. todas as semanas. Chegaram à noite em Kir mizi Renga e 118 passaram outra noite sem dormir na estação local. dia em que começa o fim de semana em Bagdá. re cém-despedido. nem outro dormiu. a Agricultur a era apenas um degrau para postos mais altos. durante seu tempo de ministro da Agricultura. 117 O pai de Hamid tinha razão. um negociante de tapetes. desaparecido . era sempre uma boa aquisição para os americanos. como "m eu bom e íntimo amigo"? Aos trinta e dois anos.Tinham-se passado quase cinco anos desde que Saddam Hussein o demitira do Consel ho de Ministros Iraquiano. e o bode expiatório mais óbvio era o ministro da Agricultura.

e ele fora condenado à morte à r evelia.A embaixada arranjou acomodações para Hamid e sua mulher num hotel de primeira class e e informou imediatamente Washington do seu pequeno golpe. A viagem foi tão bem-suc edida. . Prometeram a Hamid que voltariam a contactá-lo o mais depressa possível. Hamid registrou-se no pequeno hotel habitu al e começou a planejar a melhor maneira de aproveitar o tempo durante as duas semana s seguintes.Hamid secretamente apreciava.ou àquele que o vendedor esperava receber. No fim de quatro anos. Tivera o cuidado de escolher apenas os tapetes que seriam procurados pelos nova-iorquinos mais exigentes e confiava que 120 aquela remessa lhe rendesse quase cem mil dólares na América. Depois de ter sido intensivamente interrogado pela CIA durante cinco dias. a mulher grávida e os v inte e três tapetes embarcaram num trem para Nova York. pois o preço inicial dos ve ndedores era sempre três vezes superior ao que Hamid estava disposto a pagar . Agradava-lhe estar novamente no meio do bulício e do ruído da capital turca. Foi então libertado. Isso significaria quator ze dias de espesso café turco e muitas horas para regatear. Os Zebari receberam vistos americanos ao fim de uma semana e foram levados de av ião para Washington à custa do governo. Hamid só conseguiu vender o primeiro tapete cerca de três meses depois. Hamid havia comprado cinqüenta e sete tapetes por preço um pouco superior a vinte e um mil dólares. com um pequeno apartamento no segundo andar. que tudo era possível nos Estados Unidos. Hamid recebeu agradecimentos por sua cooperação e pelas úteis informações que tinha fornecido. Ele decidiu aproveitar o tempo para visitar os bazares de tapetes na zona sul da cidade. Mas não havia atalhos no processo de ne gociação. Hamid levou seis semanas para encontrar a loja adequada. porque. Ele. onde poderia vender seus tapetes. aquela vez. que Hamid decidiu que se podia dar ao luxo de tomar o vôo da Pan Am. Sua casa e seus bens tinham sido confiscados pelo Estado iraquiano. o avião aterrissou no Aeroporto Ataturk de Istambul p oucos minutos antes da hora prevista. no fim do primeiro ano. esperava regressar a Nova York com pelo menos sessenta tapetes. mas não lhe esclareceram quanto tempo isso poderia levar. Shereen 119 começou imediatamente a pintar o novo nome americanizado de ambos na porta do esta belecimento. Muitos negociantes recordavam-se do pai de Hamid .como seu pai . Depois da parada em Londres. Logo que assinou o contrato de alug uel por cinco anos. Aceitara a idéia de que não poderia vo ltar a seu país natal enquanto Saddam permanecesse no poder. na baixa zona leste de Manhattan.um homem honesto que gostava de regatear e beber litros de café. Tiveram muito prazer em conhecê-lo. e que lhes dissera muitas vezes que o filho havia entrado na política. Havia trinta e um vendedores que pretendia visitar. tantas vezes freqüentados por seu pai. No final de duas semanas. vender a dezesseis dos vinte e três tapetes e constatou que em breve teria que voltar a Ist ambul para comprar mais material. que continha vinte e três tapetes turcos. Mas. o que incluiu os encargos de excesso de baga gem. para começar sua nova vida na América. quando suas parcas economias já tinham quase desaparecido. que . os Zebari tinham-se mudado para uma loja maior na zona oe ste. especialmente ao saber o que ele pretendia fazer quando se instalasse nos Estados Unidos. Não acreditava que pudesse voltar a ver Bagdá. Hamid dizia constantemente à mul her que aquilo era apenas o princípio. Conside rava-se agora um cidadão inteiramente americano e não apenas por causa do estimado passaporte azul que confirmava sua cidadania.

de regresso a Nova York.Comandante.disse ao co-piloto -.Chamo-me Hamid Zebari. . enquanto falo com o senhor Zebar i. e a aeromoça americana.perguntou. antes de prosseguirmo s viagem. Então. . Não devemos levar mais do que uma hora.Em que posso servi-lo? . abriu-a e disse: . . Afinal. torturado e executado. num sono profundo. partiremos imediatamente.Assuma o comando. s empre poderão dizer a seus amigos que visitaram Bagdá.Senhores passageiros . durante sua viagem. e tendo decidido que não queria ver o filme. fala o comandante. Hamid adormeceu e sonhou com o que conseguiria alcançar na América. o regime não hesitaria em matar-me . Hamid sentiu-se subitamente sem forças.Não iremos desembarcar porque se trata de uma parada não programada. Imediatamente! A aeromoça não pôs em dúvida a ansiedade do passageiro e 121 conduziu-o rapidamente para a parte da frente do avião. . o comandante abanou a cabeça e sorriu. Bastou o comandante observar Hamid para ver que ele não mentia. e. . Lamento interromper o filme ou acordar os que estão descansando.Explique melhor. Recomeçou a tremer. . Hamid estava totalmente acordado.disse a voz sulista. de mod o que os passaportes dos passageiros não serão vistoriados.garantiu a Hamid. Quando chegou ao final da história. . voltou-se e olhou para Hamid. de modo que iniciamos nossa descida e esperamos pousar dentro de vinte minu tos. Rece bemos permissão para aterrissar em 122 Bagdá. satisfeito. "Até que ponto uma pessoa pode suportar a ansiedade?". para mantê-los informados. Hamid explicou por que motivo tivera de sair de Ba gdá e como fora morar na América. conseguira ganhar várias vezes mais os sessenta e três dólares extras. por favor .Não vale a pena entrar em pânico . enquant o o comandante o deixava para falar com o co-piloto. contribuiu para a sensação de já estar em casa. Chame-me quando tivermos permissão para aterrissar. . Nada preocupante. perguntou-se Hamid. O comandante soltou o cinto de segurança e conduziu Hamid a um recanto vazio da sa la da primeira classe. Os Estados Unidos estariam preparados para ter um presidente iraquiano no ano 2025? Sorriu a essa idéia e caiu. Jim . Depois iremos para o extremo da pista. que agor a tremia incontrolavelmente. .Preciso falar com o comandante imediatamente. na medida do possível. Talvez seu filho se d edicasse à política.Se aterrissar em Bag dá.começou ele. Podem estar certos de que nos esforçaremos para compensar o tempo pe rdido. para poder falar comigo a qualquer momento. Ninguém vai sair do avião. com seu pronunciado sotaque nova-iorquino e seu sorriso amistoso. um dos passageiros precisa falar-lhe urgentemente. com o tempo. vou ser preso. É melhor ficar aqui na primeira classe.Faça-o entrar . e sua cabeça pendeu para a frente. Ele ergueu a cabeça e fitou-a nos olhos. mas temos um pequeno problema num dos motores da nossa asa de estib ordo. subindo a escada em espira l até a sala da primeira classe e a cabine de vôo. Bateu à porta da cabine. . Depois de servid o o almoço. . prosseguiremos nossa viagem. De súbito. Durante os minutos seguintes. senhores passageiros. Logo que o motor estiver pronto.As palavras saíam atropeladas. Sou refugiado político. Sou cidadão americano . ecoando pelo intercomun icador -. no máximo. Logo que eles resolvam nosso problema. se chegar a ficar preocupado. Depois prosseguiremos nossa viagem. .pediu. . como deve compreender. A aeromoça correu para seu lado.disse uma profunda voz sulista.É o comandante uma vez mais. Estava ansioso para rever Shereen e os filhos antes mesmo que o avião tivesse leva ntado vôo. No entanto. mas as regras da Autoridade Federal da Aeronáutica impõem um pouso no aeroporto mais próximo para resolver o problema.Sente-se mal? . onde ficaremos aguardando os mecânicos .

Hamid ainda não estava convencido. Chegou depois uma elegante caminhonete para recolher a tripulação. A chefe das aeromoças aplicou-lhe um pouco d e maquilagem para igualar a cor à do rosto. mas sabia que só regressariam à normalidade quando o avião levantasse vôo e ele tivesse a certeza de que não voltaria. P odia ver guardas armados no telhado e nas portas que levavam à pista. mas. . depois de envergar a farda extra do co-piloto e de se observar no espelho d o banheiro. deixando o lábio superior tão pálido como uma bola de sorvete de baunilha. com uma espingarda kalashnikou na mão. e deixou todos procurando lugares nos bancos de madeira do salão de paredes brancas. O 123 chefe da oficina só estará disponível dentro de uma hora. com expressão preocupada no rosto. antigo membro da guarda pessoal de Saddam. de modo que ele ficasse sempre rode ado. de modo que recebemos ordem para desembarcar e aguardar na área de trânsito até ele terminar o trabalho. Rezou a Alá.Quando se livrar desse bigode e vestir uma farda de piloto. A caminhonete partiu em direção ao terminal. a porta da cabine abriu-se . Hamid solto u o cinto e conseguiu ficar de pé. Olhou pela janela. Hamid raspou o bigode farto de que tanto se orgulhava. A única decoração era um enorrr e retrato de Saddam Hussein . e Hamid recomeçou a sentir-se inquieto. enquanto o avião percorria o terminal que ele tão bem conhecia. Os batimentos de seu coração baixaram de 180 por minuto para cerca de 110. com passos inseguros. teve de confessar que seria realmente extraordinário que alguém o reconh ecesse. rezou a Jesus.. para começar. o silêncio só foi interrompido pelo som de uma caminhonete que atravessou a pista e parou embaixo da asa de estibordo do avião. rezou até ao presidente Reagan. O comandante não perdeu tempo com rodeios. com a ajuda de uma tesoura. . embora ainda intranqüilo. . subiram para um pequeno guindaste e foram içados até o nível da asa. Não parou de tremer durante os vinte minutos seguintes e quase desmaiou quando as rodas tocaram o solo da terra onde nascera.Ouviu-se um suspiro coletivo. seguiu o comandante até a cabine. Começaram a desaparafusar as placas externas de um dos motores.São franceses . Quarenta minu tos depois.explodiu Hamid. voltaram a aparafusar as placas e desceram. que saiu em grupo. Então. senhor Zebari. A porta fechou-se atrás dele s. Va mos vestir-lhe uma farda extra. sentindo as pernas tremerem..informou a chefe das aeromoças. . e ele viu o comandante avançar em sua direção. Hamid o viu: Saad al-Takriti. Isso possibilitará que fique sempre perto de nós e use as instalações para a tripulação. Durante os quinze minutos seguintes. . .É melhor vir para junto de nós. -Preferia morrer num acidente de avião! .Sentou-se ao lado do comandante do avião francês e experimentou uma pergunta simples. Hamid viu os dois mecânicos que carregavam volumosos sacos de ferramentas. à espera do momento de voltar para seu avião. sem saber como. na cabine de vôo sussurrou o comandante. Os passageiros foram os primeiros a deixar o avião. protegendo Hamid.principiou Hamid. fardado. seguida de espuma de barbear e de uma gilete. enquanto Hamid agarrava o braço do assento e desejav a não ter almoçado. Nada aconteceu durante os minutos seguintes. ma s Hamid estava muito assustado para entabular qualquer conversa. nem sua mãe o reconhecerá. Hamid sentia-se cada vez mais nervoso a cada metro que a caminhonete avançava para o terminal. . . .Mas se alguém me reconhecer. sendo conduzidos num ônibus até o terminal principal.Não se preocupe. Quando o comandante francês começou a explicar que seguiam para Singapura via Nova D elhi. Saíram da caminhonete. . es perançoso. Ninguém pedirá seu passaporte. Pensamos numa forma de resolver seu problema. A guarda de segurança não revelou qualquer interesse especial pela tripulação quando ela entrou no edifício.Os mecânicos não conseguiram localizar o problema. Hamid não conseguia olhar para o retrato do seu "grande e íntimo amigo". óculos escuros e boné.vou tentar descobrir se minhas a ulas noturnas valeram o dinheiro que gastei. Hamid sentiu-se aliviado. Havia outra tripulação sentada na sala. Apertou o cinto de segurança.

. Hamid olhou além do avião da Air France e viu uma caminhonete parar junto da asa de estibordo do avião da Pan Am. Estamos em trânsito. sobre a mesa. não se encontram legalmente em nosso país. Ninguém deverá sair do edifício. . que me ser apresentado. Hamid pensou que ia desmaiar. No Iraque.disse Hamid. . . .Tudo bem. Saad al-Takriti regressou à sal a. naturalmente. Se houver alguém que não tenha passaporte. .Acho que ele me reconheceu . que quase deu um salto.Comandante. Quando terminou a tarefa.A julgar pela insígnia que trazia no ombro. anunciou. .Então vou ter de fazer um exame mais detalhado. e. exijo que me mostre a lista de passageiros. antes que Hamid se apressasse a sentar-se ao lado do comandante. sob a proteção da Resolução 238 das Nações Unidas. exatamente quando um ônibus parava dian te da área de trânsito para levar a tripulação francesa até seu avião. de súbito. Al-Takriti atravessou a sala olha ndo para as tripulações francesa e americana e demorando o olhar nas pernas das aeromoças envoltas em meias pretas.Deve ter-se enganado . enquanto a tripulação continuava a p .Diga-lhes que se sentem! .berrou Al-Takriti. ergueram-se subitamente de seus lugares e começaram a andar de um lado para outro. terá. Deteve-se. . 126 Quando entraram na sala. Hamid pôs-se de pé para ver melhor e.disse o comandante. comandante. por isso. no que nos diz respeito. naquele momento. .Meu co-piloto é que tem todos os passaportes -respondeu o comandante. dirigiu-se lentamente ao co-piloto e pediu-lhe os passapo rtes. Mas peça a sua tripulação que permaneça aqui. Sem sequer olhar para Hamid. O comandante pôs-se de pé. parecia estar agora encarregado da seg urança do aeroporto. comandante? Peço-lhe que entregue os passaportes aos seus donos. . Al-Takriti entr ou numa sala lateral com o letreiro "Entrada Proibida". O comandante inclinou-se para a chefe das aeromoças e interrompeu sua conversa com o comandante francês. mudando continuamente de direção. Ela escutou as instruções do seu chefe e depois tentou uma pergunta mais difícil em francês. Reuniu os passaportes o mais lentamente que pôde e deixou Al-Takriti conduzi-lo à sua tripulação. com fingida surpresa: .disse o comandante. com o o senhor mesmo disse. O comandante tocou o ombro de Hamid. Pareci a sentir prazer em examinar lentamente cada um deles. Saad Al-Takriti colocou os quatorze passaportes à sua frente. leve-os a meu gabinete para que eu possa verificar. . De modo que não deve demorar muito tempo. não lhe parece. não nos interessam as resoluções da ONU. O comandante levou os passaportes para o gabinete da segurança.Comandante. Al-Takriti vociferou: 124 125 . A maquilagem começava a escorrer-lhe s obre os lábios. Depois deu uma ordem que o deixou totalmente surpreso. -vou falar com ele. .disse Al-Takriti. em nenhum caso. Não estamos legalmente no seu país. E.Poupe o fôlego. Pensei que gostaria de saber que o chefe dos mecânicos já está a caminho d o avião.O senho r deve saber.Obrigado . e os olhares dos dois homens cruzaram rapidamente. Um homem de macacão azul saiu do veículo e subiu no pequeno guindaste.Quando tiver todos. enquanto falavam uns com os outros em voz muito alta. o numero de tripulante s que transporta e seus passaportes. que estavam espalhados pelo banco. sem a minha permissão. Hamid rezou para que ele não olhasse em sua direção. contei quinze tripulantes com fardas da Pan Am.Somos apenas quatorze. os membros da tripulação da Pan Am. O comandante compreendeu que estava perdendo tempo e que tinha de parar de blefa r. Saad al-Takriti saiu da sala lateral e dirigiu-se ao comandante americano.Mas isso é contra os regulamentos internacionais .

que havia apenas quatorze trip ulantes da Pan Am na sala. que bai xasse o tom de voz. Olhou em volta.Como disse? .Diga-lhes que se calem! O comandante começou a percorrer a sala. No dia seguinte. Al-Takriti começou a contar e descobriu. . com irritação. O Air France 747 projetou-se para frente e começou lentamente a ganhar velocidade. . Saad Al-Takriti praguejou e depois correu para fora do edifício. mas porque ficou horrorizada ao ver a mãe abraçada a um estranho. logo de manhã. com Al-Takriti de pé. saltando para um jipe.Não. numa rápida continência. e voltou a contar. O comandante deu uma ordem frouxa e. quando as rodas do 747 se e rgueram do chão.Hamid sorriu para o filho. Àquele que parecia árabe. Afinal.vociferou Al-Takriti. O comandante americano sorriu e voltou-se para a chefe das aeromoças.Isto só prova a minha teoria de que os franceses são capazes de tudo para consegui r mais um passageiro. . toda a tripulação americana estava de olho no avião francês.Estava enganado. Saad Al-Takriti voltou-se e olhou pela janela. Hamid Zebari chegou a Nova Delhi seis horas depois e telefonou imediatamente par a a mulher a fim de lhe contar o que acontecera.Ao meu lado estava sentado o comandante do avião francês .Todos os quatorzes parecem estar presentes . momentos depois.assear em ziguezague de um lado para outro da sala.em primeira classe. . explodiram gritos de alegria na sala de trânsito. agarrado ao pára-brisa e agitando o punho para a cabine do avião. pedindo a cada um deles.disse ela. . enquanto o tom de voz de Al-Takriti subia a cada palavra que pronunciava. colocando a mão em volta da orelha. O comandante não precisava conhecer árabe para compreender o teor daquelas palavras. . pai. Quando Hamid saiu do terminal do aeroporto.disse o comandante. Nadkn desceu o vidro da janela e declarou: . mas a filha começou a chorar. Ma s continuaram a conversar em voz muito alta. furioso. O comandante francês saudou-o. . Os olhos de Al-Takriti percorreram os bancos da sala de trânsito. a Pan Am transportou-o para Nova York . um a um. Dessa 128 vez não foi porque o carro parou. A maquilagem do seu lábio superior tinha começado a escorrer. 127 . . seguiu paralelamente o avião francês. uma quinzena são quinze dias. e. Viu o avião da Air France no final da pista. O jipe partiu e m grande velocidade. acelerando enquanto circundava os aviões estacionados. apontando o dedo para o comandante. preparando-se para levantar vôo.Onde está o homem que estava sentado a seu lado? gritou Al-Takriti. .garantiu-lhe o comandante. Naquele momento. Apertou um botão de seu telefone celular no momento em que os motores a jato começaram a rugir e berrou algumas ordens em s ua língua.Diga-lhes que se sentem! .perguntou o comandante. durante os cem metros seguintes . no assento da frente. . 129 . Apontou o avião e ordenou ao motorista que o perseguisse. desejando que eie partisse. a mulher saltou do carro e abraçou-se a ele.Ele estava sentado ao seu lado. deveria estar a cento e oitenta e. enquanto o coman dante olhava para a pista e via o avião francês dirigir-se para a pista seguinte.Não há árabes na minha tripulação . estavam todos sentados. depois de ter entregue os passaportes aos membros da tripulação. Al-Takriti dirigiu-se à chefe das aeromoças.Refere-se ao meu co-piloto? . E percebeu imediatamente o seu erro. Quando chegou à pista.

se rá a Karen.Estou ansioso para ouvir isso amanhã à noite. como das outras vezes.Christabel . . pelo menos. Quando me dirigia para a p orta de Duncan. ele é excele nte cozinheiro. de modo que. posso adiar. quero falar sobre minha idéia para o romance. Outra diferença: em absoluto contraste comigo.Porque já está mesmo no fim.Não. E. Eu podia esperar. mas. que escreve nos intervalos de seus artigos ocasionais para o Newsweek e o New Yorker. Limitei-me a perguntar qual delas estaria presente ao jantar. eu já havia assistido a inícios (muito físicos) e períodos médios (em que principiava o arrefecimento). Você vai adorá-la.disse ele.Estou ansioso para vê-lo . na potência máxima de seus pulmões. ouvi vozes alteradas . . Mas. Outra diferença entre nós reside no fato de eu estar casado com a mesma mulher há vint e e oito anos.nada mau. Temos feitios opostos. Conheci uma nova.. Fechei as portas gradeadas e apertei o botão do décimo quarto andar. Concluí que aquilo deveria ser o fim com Christabel. dinâmicas e inteligentes.expressão muito britânica que subestima a situação. Mas. Até então. mesmo aí. . e. o porteiro parece mudar a ca da viagem. ao passo que prefiro romances e contos. De qualquer forma. sempre levo alguns minutos para localizar a entrada do edifício. 133 . embrulhei um exemplar de meu último romance e escrevi "Esp ero que goste". ficarei aqui durante uma semana. Na realidade.. . por fora. O novo porteiro grunhiu quando lhe disse meu nome e apontou o elevador no extrem o oposto da entrada. tentando lembrar seja a conhecia. Abri as portas e saí para o corredor. apesar de já ter ido lá diversas vezes. na Quinta Avenida. As garotas são sempre bdnitas. Karen. . nos sentimos atraídos um pelo outro. enquanto Duncan parece ter uma namorada diferente a cada vez que vou a Nova York . Não achei que fosse o momento adequado para dizer a Duncan que havia adorado todas elas. uma vez que vou lá pelo menos duas vezes por ano. Duncan mora num daqueles blocos de apartamentos no cruzamento da 72 com a Park.de acordo com a fase em que se encontram. não. Duncan e eu só temos uma coisa em comum: somos ambos escritores. s eria no seu apartamento. sejamos francos e admitamos que eles estavam aos berros. pude acompanhar pela primeira vez um final. . .acrescentou meu amigo...Depende.Christabel.. porque Duncan se especializou em roteiros de filmes. naturalmente.. Pode ser por volta das sete e meia? Antes de sair do hotel. Isso é muit o mais importante. Ainda não dormimos juntos. Era um daqueles últimos andares que não podiam ser descritos como cobertura n em sequer pelo mais imaginativo agente imobiliário. E posso perguntar. garanti-lhe. ensaiando sorrisos 134 apropriados para Christabel (adeus) e para Karen (olá).hesitei. É absolutamente sensacional. e estava planejando isso para amanhã à noite.repeti. .Ótimo -respondi.Tive finalmente uma idéia para um romance e quero lhe contar o enredo.SEM LUZ NO FIM DO TÚNEL SEMPRE QUE ESTOU EM NOVA York. . como as mulheres de Duncan..Afinal. Não pude deixar de rir. há uma diferença. Telefonei para Duncan do meu hotel. como você está na cidade. se Christabel tiver acabado de fazer as malas respondeu Duncan . informando-o de que estav a na cidade para fazer o lançamento de meu novo romance. . Parti do princípio de que.Mas não precisa guardar seu nome . nessa viagem.disse ele. e há diversos graus de intensidade em suas relações . e não o começo com Karen. TENTO JANTAR com um velho amigo chamado Duncan Mc Pherson. . . e ele me convidou imediat amente para jantar na noite seguinte. . Venha à minha casa amanhã à noite. .

antes disso. avançando para o elevador. completamente fa lido. Tive esperanças de que tivesse recebido um adiantamento pelo seu romance. Christabel apertou minha mão com força e pediu desculpa por estar um pouco despentea da. Sayers.disse ela. não há absolutamente nada na geladeira.disse ele.Primeiro lugar na lista dos best-sellers do Ne w York Times.Parabéns! . .Entre . Toquei a campainha e. . e o New York 136 Times fez-lhe generosa referência. .Foi .acrescentou. uma pessoa que goste de aproveitar restos dos outros. A prova de seu trabalho estava à vista: três grandes malas e duas caixas de papelão ch eias de livros.disse ele.disse ele. não podia voltar atrás.disse Duncan. . . como Duncan disse. afunilados. pela 72.Só os c alifornianos precisam de carro para andar um quarteirão. para o caso de ainda não ter chegado a essa conclusão. mas. . mas d evo confessar que teria adorado fazer de Christabel uma exceção. .fez uma pausa . Christabel tinha passado por ele e estava no corredor.disse Christabel.disse Christabel. Tinha um rosto oval. Eu começava a tomar consciência de que não poderia ter escolhido pior noite para encon trar meu velho amigo.Obrigado . por isso não me diga nada a r espeito dele. -Ainda não consegui lê-lo. Era igualmente dotada daqueles finos cabelos louros que só nascem nas raças nórdicas e da aparência que os anúncios de produtos para emagrecer procuram. Entreguei-lhe minha pequena lembrança. colocando-a sobre a mesa do saguão. Não estava à venda na Bósnia . virando-se para dizer adeus a Christabel. Não tive tempo de fazer 135 compras. . . Percebi que Duncan ia protestar. Sobre uma das caixas havia um livro policial de Dorothy L.disse ele. Era uma daquelas tardes frescas que tornam tão agradável passear a pé por Nova York. Comecei a protestar não só porque jamais gostei da complicada comida francesa.disse Duncan.Eu já li .Passei a tarde fazendo as malas .um dia atarefado. . . mas t ambém porque não estava a par das imprevisíveis circunstâncias pecuniárias de Duncan.acrescentou. .Ganho mais tempo para descrever o enredo de meu romance. Duncan disse que havia escolhido um novo e elegante restaurante francês para me levar. Usava uma camisa de caxemira ejeans brancos . com aquilo que imaginava ser um sotaque inglês. -Como você. conseguiu dirigir-me um sorriso. as fe ições rudes de seus antepassados irlandeses e a constituição de um campeão de tênis. com a sobrecapa de papel vermelho. . . sempre que vou a Londres.Como estava alguns minutos atrasado. d e modo que apreciei a caminhada enquanto Duncan me falava sobre sua recente viagem à Bósnia. Voltei-me para ela. .Importa-se de que eu vá com vocês? Estou morrendo de fome. parabéns .Vamos . Duncan mordeu o lábio.Pelo seu romance . olhos azul-escuros e um sorriso angelical. p ara grande alívio meu. com uma infantil madeixa caída sobre a testa. vo cê me recebe "como um rei" . Algumas vezes.Mas o restaurante ac aba de ser inaugurado.Teremos de comer fora desta vez .Podemos ir a pé até o restaurante . Mas é até bom . que pouco deixavam à imaginação. . quando chegamos ao térreo. normalmente não ligo muito para isso . Duncan abriu a porta e. que estava rasgada. as vozes calaram-se imediatamente. que me perguntou: . apesar de ter o rosto vermelho de raiva.Deixe-me apresentar-lhe Christabel.acrescentou com uma risada. ele estava cheio de dinheiro.Sim. por natureza. Não sou. perto da porta. não foi? .explicou. Iss o me recorda que esqueci de descrever mais algumas diferenças entre nós: Duncan tem cabelos escuros encaracolados. .disse Duncan. E. Enquanto seguíamos para oeste.Estou ansioso para ler. em outras. De qualquer forma.

Acabei de chegar. enquanto esperávamos os menus. sim. Um garçom usando camisa branca de gola aberta. Christabel sussurrou qualque r coisa ao garçom. Dirigi-lhe um sorriso com o qual esperava lhe dizer que considerava Duncan um idiota e a achava fantástica. Nos minutos seguintes. Duncan nos fez descer um pequeno caminho pavimentado. passar por uma pesada port a de carvalho e entrar num restaurante brilhantemente iluminado.Foi sorte você me encontrar em Nova York! . à porta de uma casa chamada Lê Manoir. monsieur. Surgiu outro garçom ao lado de Duncan e nos entregou três pequenos menus cor-de-rosa . . com pouca convicção.com certeza. . perguntando se desejávamos um aperiti vo. para que se confirmassem meus piores receios.disse eu. . Decidi que o consommé deveria ser a entrada mais barata e indicada para contribuir .Poderia ser para três? . Voltei-me para ver se Christabel ainda nos acompanhava.Christabel amuou. com a mesa posta só para duas pessoas. isso causou grande agitação na ONU . Comecei a analisar cuidadosamente o cardápio. ma s não obtive qualquer reação.disse Duncan. que acenou afirmativamente com a cabeça e se afastou sem ruído.Boa noite. Bastou-me olhar em volta da enorme sala.Boa noite . depois de ficar encurralado naquele maldito lugar durante três meses. com um quarteto de cordas tocando Schubert ao fundo. .Sim.perguntou meu anfitrião. e comecei a contar q ue ficara fascinado com as provas que ele apresentava. com "Lê Manoir" bordado em vermelho no bolso superior. quando colocaram outra taça de champanhe na frente de Christabel. Ao fim de mais alguns metros avistei um toldo vermelho e dourado. eu sei. Uma mesa para dois. Sempre preferi a comida simples e há muito que considero a pretensiosa cozinha francesa uma das m aiores fraudes dos anos 80. vou conduzi-los à mesa. O maítre consultou a longa lista de reservas. Li seu artigo na Newsweek no avião . senti-me ainda mais culpado por ter levado Duncan àquilo. O maítre veio ao encontro dele e o cumprimentou: 137 . ondulado pela brisa. enquanto outro dispunha habil mente pratos e talheres para ela.Sim. O coração caiu-me aos pés. continuamos a falar sobre a viagem de Duncan à Bósnia e o contraste entre raspar a comida de uma marmita. . num abrigo gelado.O New York Times e o Was hington Post deram prosseguimento à história com a descrição dos principais culpados. . mas sem se dar ao trabalho de me atribuir a origem da investigação. Ao observar a toalha. Enquanto eu corria os olhos pela lista de pratos. Parecia mergulhada em pr ofundos pensamentos e caminhava alguns passos atrás. e o arranjo de lírios no centro da mesa.Ah. . eviden temente. contrariado por descobrir que aquele era um dos tais restaurantes que só permite conhecer os preços quando se paga a conta.dizia ele. Pedi água de Evian. apressou-se em trazer uma cadeira para Christabel. e jantar em pratos de porcelana num restaurante aquecido. mas não ficou menos bonita.respondeu Duncan.. Estava 138 tentando imaginar quais seriam os pratos mais baratos. Apareceu um terceiro garçom ao lado de Duncan. calças e colete pretos. de que um grupo de soldad os da ONU havia criado sua própria rede clandestina e não tinha escrúpulos em operar um m ercado negro ilegal em todos os países onde ficava estacionado. Christabel sorriu docemente e perguntou se podia beber uma taça de champanhe. . . ao som de balas. que deveria passar pela década seguinte sem fazer part e da história da culinária. os pratos com grandes flores e as palavras "Lê Manoir" pinta das em vermelho. Fomos guiados ao longo de uma sala apinhada de fregueses até uma pequena divisória a um canto. monsieur. e Duncan indicou com um sinal que queria a mesma coisa.Reservei uma mesa em nome de McPherson. excessivamente decorada.

que trazia um grande livro de couro vermelho com uvas em relevo na capa. Fiquei horrorizado enquanto via mais uma taça de champanhe sendo colocada diante d e Christabel. mal se afastou. mas ne sse momento apareceu um garçom com uma garrafa de vinho branco.Deseja encomendar oS vinhos.disse Duncan -mas meu livro se passa na Inglaterra. esperada atualmente em todos os restaurantes franceses do mundo. Duncan inclinou-se para mim e perguntou-me se já tinha escolhido. se não se importa. decidi-me finalmente p elo pato. . que deverá ser inaugurado pela rainha Isabel em 6 de maio de 1994.A história começa em quatro locais diferentes. reparou imediatamente na taça vazia de C hristabel e perguntou: . fricassée de cogumelos e raízes de salsa. Mas.Salada César e um bife malpassado. Como você sabe. Chunnel* vai ser o título do meu livro. filé de linguado com purê de agrião. Como prato principal temos Escalope de turbot. nos serviu. têm uma coisa em comum: a reserva de lugares no primeiro trem de passagei ros que ligará Londres a Paris pelo túnel do Canal.em meus débeis esforços de perder peso. ambientes sociais e países. gelée de saumon sauvage et caviar imperial en aigre doux. Senti súbita pontada de culpa e me perguntei se deveria dizer alguma coisa.disse eu. com meu limitado conhecimento do francês. que vem a ser lascas de salmão e caviar imperial numa delicada geléia com creme azedo e courgettes conservadas em vinagre de endro .sugeriu Christabel. fricassée de chanter elles et racines de persil. voltando-se para Duncan. Christabel parecia estudar o cardápio com a devida diligência.disse o maitre. madame? . para sua evidente desaprovação. antes. Devo dizer que o momento da sua publicação é absolutamente vital.Quer que escolha para você? . 139 -Obrigado. . monsieur . Duncan prosseguiu: . . Duncan assentiu com a cabeça.) 140 Acenou afirmativamente com a cabeça.Talvez isso o surpreenda . quando o maítre chegou para anotar nos sos pedidos.Nossas especialidades de hoje são . com quatro conjuntos de personagens diferentes. da T. .Consommé e pato são suficientes para mim . e o maítre deu um sorriso de aprovação.Como deseja o pato? Muito ou pouco frito ? . cuja etiqueta Christabel estudou cuidadosamente. .respondeu ela docemente. então. recomendamos também todos os pratos que constam do menu. há atualmente um consórcio inglês e francês construindo um túnel entre Folkstone e Sangatt e. por favor . Os pratos principais deixaram-me ainda mais perplexo. Duncan disse: . Embora todos pertençam a diferentes grupos etários. tivemos de suportar a provação. . Temos igualmente Cuisses de grenouilles à lapurée d'herbes à soupe. Na realidade. . vou falar sobre o meu romance. com um sotaque que não lhe ter ia conseguido um papel como ator: para hors d'oeuvres. Um gole trouxe-lhe o sorriso de novo aos lábios. O garçom. monsieur'? . sem hesitar.principiou ele. e. . Senti-me farto antes mesmo de ele ter terminado as descrições.perguntou outro garçom.respondi. e o garçom entregou a lista dos vinhos a Christabel. que são pernas de rã em purê de salsa. q ue a abriu com o interesse de quem vai iniciar a leitura de um romance de grande vendagem.Bem frito . porque não conseguia encontrar sinais de poulet. momentos depois. Quando o garçom regressou.Não precisa interromper sua hi stória. .Agora.Deseja mais uma taça de champanhe. O maitre recuperou os cardápios e. . (N.perguntou ele. e o garçom abriu a garrafa e colocou um pouco d e vinho no seu copo vazio.Sim. Apontou um dos pratos .E monsieur'? . Evidentemente. sabayon de limão e um molho Gewürztraminer. * Nome dado ao túnel do Canal da Mancha (junção de channel e tunnel).

Uma grande banda.disse Duncan -. . a quem era servida uma segunda porção de caviar.Que período de tempo envolve o romance? .No terceiro capítulo . enquanto os outros vão para a segunda classe. Enquanto eu imaginava a cena e ia tomando minha sopa . Nesse momento já se começa a suspeitar de que não são estudantes comuns. pois esse é o ponto central do enredo.começa com o trem saindo da estação.Já. corte de fitas pela realeza etc. que se casou nessa manhã e vai iniciar sua lua-de-mel. . Olhei para o que Christabel havia escolhido. Duncan parou de falar quando lhe puseram à frente a salada César e um segundo garçom a presentou-me uma taça de consommé. Isso deve dar para cobrir outro capítulo.respondeu Duncan. mãe.prosseguiu Duncan . e. o garçom dos vinhos encheu meu copo e de pois o de Duncan. . por um membro negro da tripulação. Mas ainda não sei ao certo. Christabel retirou a garrafa de vinho do balde de gelo e voltou a encher o copo antes que o garçom tivesse oportunidade de servir. e sua esposa francesa . . quando se preparam para a viagem. A família americana está gostando muito da viagem.perguntei. mas devo confessar que aq uele era absolutamente excepcional. um milionário grego. um jovem casal inglês. por causa da sua contínua extravagância. O milionário tem mais uma discussão com a mulher.disse Duncan ..Ora . que parecia ainda maior do que a primeira. Já posso dizer o comprimento dos vagões. -Já começou as pesquisas? . e voltei minha atenção para Christabel.encontramos os diversos grupos chegan do à estação de Watterloo para tomar lugar a bordo de Lê Shuttle.Escrevi para Sir Alastair Morton. o dia da vi agem e o dia seguinte. Duncan sorriu e continuou a comer sua salada. que reservaram as passagens um ano antes. e três estudantes.. que se fez à própria custa. A pesquisa é a chave desse projeto.É realmente um enredo forte . .O quinto capítulo .perguntei ansiosamente. pai. Duncan fez uma pausa para comer. na sua primeira vi sita à Inglaterra. quando o garçonj dos vinhos en chia nossos copos pela terceira vez.o restaurante podia ser s ofisticado. na primeira classe. No final. até pode acontecer tudo no mesmo dia. tendo conseguido esvaziar a garrafa. pelo menos. Os jovens noivos fazem amor na sala de repouso. entre colheres de consommé. no primeiro capítulo é importante que o leitor não perceba que os estudantes estão de alguma forma interligados.disse Duncan .O dia antes da viagem.Haverá uma família americana. O leitor descobre suas motivações para aquela viagem. o motivo por que o trem pode andar mais depressa do l . e que já se conheciam antes de entrar no trem. como se me indicasse que compreendia perfeitamente aquilo por que eu estava passando. Passamos para os quatro grupos no segundo capítulo. será realizada na plataforma uma espécie de cerimônia para comemorar a inauguração do túnel. e já estou bastante adiantado .. O milionário grego e sua mulher 141 francesa serão conduzidos a seus lugares. Eu franzi a testa. fogos de artifício.Provavelmente três dias . Nessa altura c omeça verdadeiramente a ação. Senti-me culpado por tomar parte na sua cons piração e tive vontade de avisar a Duncan. o número deles. em papel timbrado da Newsweek. . com uma bola de cav iar no centro. e os três estudantes encontram-se pela primeira vez no bar. 142 presidente do Eurotúnel. dois filhos adolescentes. olhou para Christabel. Era um prato de salmão defumado cortado em fatias muito finas. . e seu escritório mandou-me u ma caixa cheia de material. Christabel piscou-me um olho. Uma vez que estejam todos a bordo. Geralmente não gosto muito de vinho branco.aventurei-me a dizer. o diâmetro das rodas. Ela acenou sutilmente com a cabeça. e eu descrevo um pouco dos antecedentes de cada um dos personagens. mas a comida era excelente -. Estava divertidíssima espremendo sobre o prato meio limão envolvido em musselina. mas agora estão pensando em se divorciar. . .

entrar em contato com o casal de recém-casados. o pessoal do trem e as salas de estar. . . Acenei afirmativamente com a cabeça. com uma força policial à espera deles em qualquer das extremidades.Durante o sexto capítulo. Fizeram-m e lembrar um quadro de Miro. dentro do túnel .Começou a atacar seu bife. . O sabor ficara gravado na minha menfória. . fundamentalistas islâmicos. . entusiasmando-se com seu tema.disse eu . que. Só tinha provado uma bebida daquelas uma ve z. mais atrás. A um gesto do maitre. . puxa o cordão de alarme quando está sentado no banheiro.mas deixei-o passar uma vez mais. cuja voz revelava que estava m ergulhado em profundos pensamentos.com os vagões-restaurante.Mas como? E por quê? .Não acho que eles devam estar interessados numa compensação financeira . .Devia ter di to também. .Sim.Não deve ser difícil . para não falar do membro negro da tripulação. . . antes que ela rapidamente estragasse a tela. enquanto os outros dois.disse Duncan. . uma vez que estão presos no meio de um túnel.O garçom dos vinhos entregou a 143 Christabel a garrafa de clarete que ela havia escolhido. Seria indelicado de minha parte não confessar que a comida tinha um aspecto magnífico. ou pelo menos com a noiva. Parecia veludo. Depois de ter cheirado a rolha. Absolutamente inocente. e até o motivo por que é preciso ter vagões de bitola diferente em ambos os extremos do Canal. . o enredo começa a desenrolar-se . ..Isso depende de você querer ou não que eles escapem sugeri. um corredor. em casa de um amigo que possuía uma cave de vinhos antigos comprada com dinheir o novo. vivem juntos há algum tempo.disse Duncan.perguntou-me D uncan. de qualquer forma. .É aí que está a questão. Tem alguma idéia? .O capítulo termina com o trem parando subitamente no meio do caminho. Vol tei-me para ver o que Christabel havia escolhido: trufas comfoie gras. .disse Dunca n.No sétimo capítulo fiquei bloqueado .prosseguiu Duncan. . separatistas bascos ou qualquer dos mais recentes grupos de terroristas que aparecem nos jornais. os bares. mas terroristas que pretendem apoderar-se do trem. É um alarme falso. O filho mais novo da família americana. . na descrição dos personagens no princípio do livro.. enquanto um dos garçons levava os p ratos vazios e outro varria algumas migalhas de pão sobre a mesa com uma escovinha de prata.O que me preocupa é a forma de pôr o estudante em contato com a noiva.O que seria muito di fícil. os outros vagõe s.Deviam ser do IRA. sem dúvida. mas tem de parecer natural . o momento de lhe dizer . Tentei recordar-me em que ponto da história estávamos. muito interessado no seu tema. Bebi um gole de vinho.disse Duncan.ado francês do que do inglês.Que motivo você acha que os terroristas têm para assaltar o trem? . O equipamento 144 . e o garçom dos vinhos começou a servirnos uma segunda garrafa. . um homem e uma mulher. Senti uma pontada no coração ao ver que o prato vazio de Christabel estava sendo ret irado. apesar de Duncan e eu mal termos começado a esvaziar os nossos. Ben.O truque consiste em manter o leitor interessado nos quatro grupos a o mesmo tempo. Foram colocados diante de nós três pratos cobertos por cúpulas de prata.Chegamos agora ao ponto da história em que o leitor descobre que os estudantes não são verdadeiramente estudantes.perguntei. Deveria dizerlhe agora? . as três cúpulas foram levantadas simultaneamente pelos garçons.Fez uma pausa. se registra que um dos estudantes é solteiro. ela indicou que o achava aceitável. Era aquele. com os olhos postos num ponto longínquo. O barulho da rolha saltando sobressaltou-me.Um dos terroristas deve.

irritado. em que o pai da família am ericana decide permanecer no trem .Diz ao resto 146 da sua tribo que pule e corra para longe dali. . madame? . Três garçons retiraram os pratos vazios. . .Isso é importante? . Mas o que eles não sabem é que já estão em território francês. bebendo seu vinho em generosos goles.Os franceses e os ingleses concordaram sobre o pon to exato no interior do túnel em que principia a jurisdição francesa e termina a inglesa. Duncan fez uma pausa para beber um gole de vinho. a parada .disse Duncan. . famíli a pedindo desculpas.Mas ainda há mais. . Derramou brandy em uma frigideira baixa. . Ergui o olhar. os terroristas recearam que houvesse 145 um grupo rival a bordo. tomando minha expressão por uma profunda preo cupação pelas pessoas que seguiam no trem. . . enquanto outros começam a correr para o lado francês ou inglês.Talvez um café daqui a pouco. seja quem for. mas. enchendo uma vez mais nossos copo s com clarete. mas simplesmente porque não queria dar a Christabel a oportunidade de pedir outra garrafa.sanitário é tão sofisticado.Não. Os únicos outros passageiros que fi cam são o milionário. .Claro que é . a mulher e o casal de noivos.perguntei com voz fraca. nada . Duncan pros seguiu com sua história.perguntou o maitre a Christabel . os terroristas já entraram na cabine do maquinista.Portanto. Agora era o momento de eu lhe dizer. mas não exatamente no meio.perguntei. Criança chorando. aproveitaram-se da confusão causada pelo jovem Ben para se introduzir na cabine ao lado da do maquinista.No início do non o capítulo.perguntou Duncan. Par ou junto de Christabel e acendeu um pequeno fogo. cada vez mais excitado.disse eu ao maitre. . . Os passageiros são informados pelo intercomunicador de que. dessa vez.Certo . Distraí-me quando o maitre surgiu empurrando outro carrinho em direção à nossa mesa. Christabel tocou os lábios com o guardanapo e dirigiu-me um grande sorriso. . explicação dada pelo guarda pelo intercomunicador do trem. alguns dos passageiros entram em pânico.disse Duncan .Que acontece então? . enquanto saboreava a codorniz. de modo que fiquem o mais longe possível quando ocorrer a explosão. Naturalmente. . São orientados a abandonar o trem. o que alivia a ansiedade que os passageiros poderiam ter sentido. Como você vai descobrir. os filhos. de fundo de cobre.Quando o trem parou. Eu estava pensando se aquilo seria plausível quando foi colocado diante de Christa bel um peito de codorniz com batatas fondant. guarnecido com bacon defumado.não porque o vinho não fosse puro néctar.Esse é o ponto da história. ao ver que ela estava se servindo do que parecia ser uma grande colherada de tudo o que havia. O garçom começou a movimentar-se em volta da mesa. tentando não perder o fio de sua meada. com o mesmo propósito que eles. isso é importante para o desenvolvimento da histór ia. forçam o maquinista e seu ajudante a parar o trem pela segunda vez. o trem recomeça sua marcha e.Nada. evitando o olhar dela. . Ela não fez qualquer esforço no sentido de exercer a mesma restrição. Ela não perdeu tempo para atacar a ave. as mulheres. . e começou a preparar um crêpe suzette. mas de que o trem foi tomado pelo bando pelo qual eu me decidir e vai pelos ares dentro de quinze minutos. saindo para o túnel. ultrapassa o ponto médio. não se trata de alarme falso. dessa vez.disse ele. Uns pulam para o túnel fracamente iluminado. Todos eles têm fortes motivos .Oitavo capítulo.não passa de um desvio. Mas logo que descobriram o que realmente tinha acontecido. obrigado . não é? . que ele julga que se trata da corrente da descarga.Monsienr? . Pousei a mão sobre o meu . Apontando-lhe uma arma. O trem está parado no interior do túnel a várias milhas da entrada. . Minutos depois . provavelmente no décimo capítulo.disse Duncan. Muito s procuram freneticamente os maridos.Deseja alguma sobremesa do carrinho.disse Duncan. ele recomeçou.É absorvente. antes que tivesse oportunidade de falar. . conforme sua nacionali dade.

Voltou-se para mim e disse: . Tive muito prazer em conhecê-lo. quando ele passou pela nossa mesa . .. . espetando o charuto. Mas os passageiros que ficaram no vagão. quando Christabel. . no início do capítulo onze.perguntou o maitre quando Duncan parou por um momento.. planejam uma contr aofensiva.Assim. Isso o fez calar-se. sentindo-me mais culpado do que nunca.. Quero dizer que gostei muito do seu último romance. Estavam servindo um cálice de vinho do porto vermelho-escuro a Christabel. o problema deles é com o governo britânico. nosso trem está sozinho parado num túnel. e há quatro passageiros ainda no trem.Pode trazer a conta? . Duncan . Um deles vai procurar no trem alguém que saiba falar francês e encontra a mulher do milionário..Agora meu problema está no final.perguntei. .com certeza . agora tenho três terroristas na cabine do maquinista. e Duncan pegou automaticamente o charuto. a polícia de ambos os lados do Canal faz parar todos os trens em ambos os sentidos. Fiquei de pé. beijei sua mão e agradeci.Parou para beber um gole de café. Elevou-se da frigideira uma chama azu l.começou Duncan.Certo.Quando você . Portanto.disse Duncan. para que a causa deles apareça nas primeiras páginas do mundo inteiro. de qualquer forma. . Olhei p ara a etiqueta: Taylor's 55. . Isso desorienta completamente os terroristas. e.respondeu ele.disse Duncan. embora com insegurança. o maítre cortava. sim? . embora tenha a impressão de que não 148 voltaremos a nos encontrar. voltando-se para seu ex-amante.É verdade! . em qualquer situação. que diz não poder negociar com eles porque o trem já não está sob sua jurisdição. * . sem me perguntar se eu queria beber. os terroristas iniciam negociações com a polícia ingl esa.disse Duncan. subitamen te. . entre Londres e Paris. Mereceu ficar em primeiro lugar.disse ela. . . Ele passou suapièce de résistance para um prato aquecido. O maítre acendeu o fósforo. -Ah. . .Café. Christabel indicou ao garçom que a garrafa devia ficar na mesa. . Eu temia que já tivesse passado o ponto em que podia ter contado a verdade a Dunca n.disse eu.Ou seja.Não se preocupe -acrescentou ela. fazer o trem ir pelos ares com fins publicitários.Ele é grego. com um único movimento.pediu Duncan ao maítre. Mataram o ajudante.. .Adeus. Mas só por um momento.pessoais para ficar. . madame? . além do negro da tripulação. E não se esqueça dos direitos cinematográficos . . Era uma coisa que eu jamais tivera o privilégio de saborear.sugeri eu. .O milionário que começou do nada poderia sentir que era um chefe nato . para mim . ainda não me decidi.No capítulo doze descobrimos o propósito dos terroristas . tenho de ter em vista o mercado americano. Enquanto isso. chefiados pelo pai americano.Acho que está na hora de ir embora. e colocou-o diante de Ghristabel. . Enquanto isso.Normal.Licores ou charutos? Apenas Christabel reagiu. para Duncan. se pôs de pé. por favor .Fiz uma investigação cuidadosa. colocando-o en tre os lábios.Irlandês . sem sequer interromper a marcha. . O garçom a cenou afirmativamente com a cabeça e Christabel encheu-me imediatamente um cálice. O maitre acendeu um fósforo e flambou o crêpe. que já foram determinados anteriormente.Descafeinado. .disse Christabel. mas ele nem se deu ao trabalho de erguer o olhar. 147 . Um a idéia muito original.. Não consegui encontrar erros na sua lógica. Normalmente há vinte trens correndo em ambos os sentidos.prosseguiu Duncan. a ponta de um charuto que ele não tinha pedido. conhecendo a resposta perfeitamente bem. Se quero ganhar dinheiro com esse projeto. que poderá ser um agente do SÃS disfarçado. porque nenhum deles fa la francês.

Queria dizer que gostei imensamente do seu novo livro disse ela em voz alta.Não queremos mais espertalhões de Londres que chegam aqui e nos digam como devemos dirigir o departamento declarou a senhora Thompson. conseguindo alcançar a por ta que dava para a rua.poder ia ser a pessoa indicada. Ken. mas ainda não tenho um final. sob a diligente direção de seu irmão mais velho. puxando fumaça do cha ruto. O negócio de construção da família também tinha feito uma boa guerra. O deputado titular. desencantado. Não havia trabalho para ele na fábrica que. O ENGRAXATE 150 TED BARKER ERA UM DAQUELES MEMBROS DO PARLAmento que nunca procuram grandes honr as. dessa vez para colocar à sua frente uma peque na pasta de couro negro. . 149 . O maítre fez uma reverência. Ted . tendo recebido seu entusiástico apoio . A mulher parou junto da nossa mesa.Precisamos de alguém que 153 conheça a região e compreenda os problemas da nossa gente. em sua casa de Sulffbk. . contentara-se em voltar para junto de sua mulher.O meu problema. . que ficou encantad a ao saber que Barker estava disposto a permitir que seu nome fosse indicado como . Sir Dingle Lightfoot. mas não tão profunda como a anterior. . . uma vez terminada a guerra.sugeriu ela . quando uma mulher de meia-idade se levantou de uma mesa próxima e começou a caminhar decididamente na nossa direção. Duncan abriu a pasta de couro e olhou a conta.presidente do departam ento de Wedmore da Associação dos Conservadores de North Suffolk.tend o recebido a Cruz da Guerra e alcançado o posto de major. Havia feito o que era descrito por seus colegas como "uma boa guerra" . pedindo-lhe apenas uma semana para avaliar. foi oferecido a Ted seu antigo lugar na administração.Obrigado . foi visitar a senhora Thompson.. teriam de procurar quem o substituísse. mas com absoluta falta de imaginação. fiz as pesquisas. Os outros clientes voltaram-se para ver o que estava acontecendo. conhecido pelo eleitorado como "Na Ponta dos Pés".Que inteligente! Eu nunca teria imaginado a forma com que o senhor fez que a família americana saísse viva do túnel. Depois de ter sido desmobi lizado. Os olhos de Duncan estavam cravados na conta. ótima na cama.Um corpo fantástico. no domingo seguinte. já não estarei no apartamento.mu ito mais importante para o desenvolvimento desta história . Nessa ocasião.disse eu sucintamente. O maítre reapareceu ao lado de Duncan. depois.Bem. tinha tornad o bem claro que. de l onge. Hazel. . .voltar. foi abordado por Ethel Thompson. . Ted confessou que tal idéia nunca lhe havia passado pela cabeça. Duncan concordou com um aceno de cabeça. mas prometeu à senhor a Thompson que pensaria seriamente na sua proposta. estupefato. à tarde. na esperança de impedir que ela me fizesse sen tir ainda menos à vontade. a crítica teve realmente razão em relação a este lugar . em novembro de 1945. . Logo que regressou a casa.comentei. se assemelhasse sequer ao serviço ativo. O maítre abriu a porta para ela e fez uma profunda reverência.. Começou a caminhar com grande insegurança pelo restaurante. que ele aceitou com prazer. o distinto guerreiro começou a sentir-se um pouco aborrecido e. Falou do caso à mulher e. Você tem alguma idéia? -perguntou ele.disse Duncan. Mas.Não posso dizer que sinto pena de vê-la partir . como estava tentando explicar antes de Christabel ir embora prosseguiu Duncan -.disse ela. à medida que as semanas iam passando. é que elaborei o enredo. a representante dos operários e .E o final .

O funcionário de serviço a companhou-o pelo longo corredor do andar inferior e pediu-lhe que se sentasse numa pequena sala de espera. Após algumas horas de estudo.Bom-dia. essas visitas tinham sido apenas por ocasião de coquetéis. Depois disso leu atentamente todos os livros. Harold Macmillan. a popularidade de Ted. Mas. Ted. Sir Ted. "um político amador". senhor primeiro-ministro. tanto no nível nacional como no lo cal. disse simplesmente: . com tão pouca antecedência de aviso. No final da década de 1960. . Ted apresentou-se à porta número 10 às 11 h 17 do dia seguinte. A essa altura. Será uma honra.um dos quais veio. Ted fez diversas visitas ao Gabinete de Assuntos Estrangeiros e Coloniais para receber detalhes acerca de diversos aspectos de sua nomeação. . recomendou à rainha que Ted fosse feito cavaleiro. o primeiro-ministro em exercício. não conseguia 155 situar o local no mapa. Acompanhou Ted à Sala do Cons elho. Ted foi surpreendido por um telefonema do n° 10 de Downing St reet: . após uma animada ca mpanha de três semanas. disse que s eria indelicado revelar o números de votos que cada candidato obtivera. foi crescendo. que fora colonizado . com maioria de mais de sete mil votos. apesa r de já ter ouvido falar em St. George. que não era pessoa que gostasse de perder tem po com preâmbulos. não precisava de uma semana para pensar em sua resposta . Durante as semanas que se se guiram. Ted recordou o dia em que a senhora Thompson lhe pedira que pensasse na hipótese d e se candidatar ao Parlamento. Quando o presidente anunciou à imprensa local a decisão do comitê. o nervosismo de Ted começava a transformar-se em apreensão.Obrigado. junto à Sala do Conselho.vou nomear o novo governador de St. naquele momento. onde o senhor Heath se levantou para cumprimentá-lo.Ted reprimiu um sorriso. Ted foi reeleito para o lugar de membro do Parlamento por North Suffolk. À medida que os anos iam passando. mais tarde. Sir Ted (nunca foi conhecido como Sir Edward) sentiu q ue estava chegando a hora de o departamento começar a procurar outro candidato mais jovem e explicou claramente ao presidente local que não pretendia candidatars e às próximas eleições. Na realidade. Seis meses depois.candidato a deputado pelo departamento de North*Suffolk.e o candidato da terra. Ted havia ultrapassado confortavelmente os votos somados dos dois out ros candidatos. Sentia-se como um estudante infrator prestes a enfrentar seu reitor. o futuro governador havia descoberto que St. Ted . Mal conseguiu recuperar o fôlego. Ao fim de alguns minutos surgiu uma secretária. A lista final incluía dois espertalhões de Londres . Ted Barker. em suas próprias palavras. recepções e um jantar ocasional ofe recido a um chefe de Estado visitante. George. . Ted não conseguia imaginar o que Edward Heath teria para lhe dizer. eviden temente. .Tenho esperanças de que consiga ajudar-me a resolver uma questão delicada. George era um minúsculo grupo de ilhas no meio do Atlântico Norte. . Ao fim de quatorze anos de diligentes serviços prestados ao partido. e não consigo encontrar uma pessoa mais adequada para o lugar do que o senhor. Hazel e ele prepararam-se para uma tranqüila aposentadoria na sua amada East Anglia.prosseguiu o primeiroministro. já tivesse estado diversas vezes no n° 10. Confessou a Hazel que se sentia um pouco nervoso. o primeiro-ministro convocou eleições gerais e. Embora. quando era deputado. o primeiro-ministro vai recebê-lo. panfletos e documentos oficiais que os mandarins lhe forneceram.Foi muito gentil de sua parte vir hoje.apesar de demorar para aceitar a idéia de que. pois estava certo de que o primeiro-ministro sabia que só uma doença muito grave ou uma tempestade localizada o impediriam de comparece r. junto a seu eleitorado. a pertencer ao Conselho de Ministros de Macmillan . 154 Pouco depois da eleição. Em breve tornou-se respeitado e popular entre seus colegas de ambos os lados da Câmara. emb ora nunca pretendesse ser mais do que.O primeiro-ministro deseja receber Sir Ted às llhSO de amanhã. e sua maioria aumentava em cada eleição geral.

Ted e Hazel aceitaram a política real local e instalaram-se para passar cinco anos de descontraída diplomacia entre gente encantadora. Mesmo antes de partir para sua aventura. e a única coisa que o antecessor de Ted havia deixado fora um labrador preto. já idoso. (N. Ted não riu quando os alfaiates lhe mandaram a conta. . ao passo que no verão deveria enve rgar um uniforme de algodão branco com uma gola bordada a ouro e galões dourados nos ombros. Hazel rira muito quando o vira com esses uniformes. partiu de avião para as ilhas. o aniversário oficial da rainha. Obviamente construída no auge d o Império Britânico. Foi içada a Union Jack* no telhado do ter minal do aeroporto e irrompeu um fraco ruído de aplausos dos vinte ou trinta dignitários locais reunidos. a banda da cidade executou sua interpretação do hino nacional. a fim de ocupar seu posto. da T. a empregada diarista. Ted receava parecer .) 157 visitando hospitais e fazendo discursos em cerimônias de entregas de prêmios nas esc olas e julgando exposições de flores. Sir Ted e Lady Barker foram então conduzidos à residência oficial. tinha servido dois governadores anteriores. em junho. estava regularmente doente. ocasião em que o governador oferecia aos dignitários locais uma festa nos jardins da Casa do Governo. Ted já se habituara a que lhe chamassem " Excelência". O ar-condicionado não funcionava. dividido em diversas ilhas. o Ministério dos Negócios Estrangeiros não tinha verba para tratar de qualquer desses problemas. George um grande eleitorado parlamentar. Formav am uma das colônias soberanas de Sua Majestade e assim desejavam permanecer. apenas recebi a sugestões para cortes orçamentários. a senhora Rogers. o motorista parou o carro e saiu para abrir os portões. dando sinais de sua idade. A mansão colonial era magnífica sob todos os aspectos. depois disso. tendo os habitantes das ilhas recusado todas as ofertas de independência.Imagine o sucesso que você vai fazer num baile de máscaras.como era a expressão moderna? O. sendo as duas maiores: Suff olk e a ilha Edward.uma oportunidade para a maior parte d os cidadãos da colônia passar dois dias em estado de total embriaguez. T* No inverno deveria usar um conjunto de camurça azul-escura com uma gola bordada a ouro e galões dourados nos ombros. num Rover espaçoso qu e. T. Sempre que Ted os mencionava nos seus despachos. O recém-nomeado governador e comandante-chefe de St. George. Ted e Hazel começaram a considerar St. Foi acolhido pelo primeiro-ministro das ilhas como cidadão número um da colôn ia e pelo chefe do Supremo Tribunal como reOver the top . Pior ainda . Mas o tamanho. que chegou mesmo a pensar se teria sido essa c oincidência que dera ao primeiro-ministro a idéia de colocá-lo ali. (N. tinha uma longa história de domínio imperial . e Suffolk e a ilha Edward se defrontavam num jogo de críquete . Isso animou Ted. depois de se aposentar . de Saville Roe.foi o único comentário de Hazel. Quando chegaram à Casa do Governo. Mas. depois de ter sido equipado por Alan Bennet. no dia 12 de janei ro de 1971. a canalização era pouco digna de confiança. O ponto mais alto do ano era. sem dúvida. era amplamente desproporcional à importância da ilha ou à atual posição da Inglaterra no mundo real. num clima magnífico. da T. Os deveres do governador dificilmente poderiam ser descritos como onerosos: Haze l e ele passavam a maior parte do tempo * Pavilhão do Reino Unido. especialmente depois de sabe r que seria improvável que usasse os uniformes mais de duas vezes por ano. Ao fim de algumas semanas.) 156 presentante legal da rainha. como o governador e a mulh er em breve descobririam. sem ver . Prosseguindo a viagem. com dois uniformes completos. em posição mais ou menos de sentido.pelos ingleses em 1643 e. Ted e Hazel viram pela primeira vez sua nova casa.excessivo. acompanhado de sua es posa. Depois que o novo governador recebeu continências de seis policiais de licença. não significava necessariamente eficiência ou conforto.

Nada mais fácil. como se Ted não tivesse compreendido. e ia prec isamente preencher os espaços da linha doze vertical . . .disse Ted. Na verdade. Por favor.Estou.É Mountbatten ao telefone! . na terceira vez. .Então me passe a ligação . mas.quando seu secretário particular. porque o telefone em cima da es crivaninha já estava tocando.Bom-dia. Não se teria mostrado mais ansioso se viesse informar que os alemães iam desembarcar na costa norte da ilha.Mas pensei em fazer um ligeiro desvio e ir visitá-lo. não se incomode por minha causa. Minha mulher e eu estaremos no aeroporto para re cebê-lo às quatro horas da tarde de amanhã.disse Ted calmamente. e nunca entrara no escritório sem primeiro bater delicadamente à porta. Ted tinha sido obrigado a abandonar a festa que o almirante oferecera. Espero que se encontre bem. Foi numa quinta-feira pela manhã.Bem. prefiro que tudo seja o mais informal pos sível.d isse Charles. como "comandante-chefe". tenho a possibilidade de informar a Sua Majestade do que está se passando. Gosto de visitar colônias se mpre que tenho essa oporturidade. da última vez que nos vimos.Compreendo . Decidiu-se por: .Porque. . visto que era conde. . porque era o ex -chefe do EstadoMaior da Defesa. mas duvidava de que o grande homem se recordasse de sses encontros. . ao fim de todos aqueles anos.De forma alguma. vou precisar deixá-lo relativamente cedo. .Então. Charles Roberts. para cumprir meu 159 programa. . . governador.Neste momento encontro-me em Washington participando de uma reunião de cúpula. Quando Ted pegou o fone. Espero que essa visita não vá causar problemas. sim. O govern ador ergueu uma sobrancelha. inicialmente. . Assim.disse o surpreso governador.respondeu Ted. na manhã seguinte. dobrando seu exemplar do Times e co locando-o em cima da escrivaninha. e. e o governador encontrava-se no seu escritório len do o Times de segunda-feira.Bom-dia. Ted percebeu que devia tratar-se de alguma coisa importante. se bem me recordo. Estava deixando a leitura de um longo artigo sobre a conferência realizada em Washington para depois das palavras cruzadas. muito obrigado . . ou como "almirante".disse Mountbatten. senhor .O almirante da Armada. já que almirante da Armada é nomeação vit alícia. . Conde Mountbatten da Birmânia . . eu ficaria agradecido se avisasse às autoridades do aeroporto para que esperem a chegada do meu avião por volta das quatro horas da tarde de amanhã. entrou cor rendo no escritório.Evidentemente.O governador deve estar curioso para saber por que estou telefonando. pois Charles nunca corria para nada. ainda estava pensando se deveria dirigir-se a Mountbatt en como "My Lord".no horizonte nuvens que pudessem perturbar sua pacífica existência. Mal desligou o telefone. foi a vez de Ted sair correndo pela primeira vez em várid .um rebanho tresmalhado prov oca esta diversão (3. . senhor. 6) . Estava razoavelmente convenc ido de que o propósito do telefonema de Mountbatten não era saber de sua saúde. embora não entendesse aonde ele queria chegar. Não podia imaginar sobre o que poderia Mountbatten querer l he falar nem tinha tempo para pensar no assunto. Tinha falado três vezes com Mountbatten durante os últimos vinte anos. . Até que aconteceu o telefonema. estava sofrendo de um víru s intestinal. A propósito. Gostaria de pernoitar aí.disse Ted. senhor .Exatamente.exclamou Charles.Ótimo . Excelência. planejava regressar a Londres amanhã de manhã. -Teremos imenso prazer em recebê-lo.Agradeço muito. . . sem bater à porta. porque não estava 158 se sentindo muito bem.

. O nosso problema seguinte consiste em transportá-lo do aeroporto para a Casa do Governo.Refere-se ao coronel Hodges e ao seu bando de guerreiros indisciplinados? Nem sequer têm fardas iguais.disse Charles. Charles franziu a testa. . . obviamente. há a banda municipal . regressando ao seu gabinete.Certo . .. Colocou as flores numa jarra sobre o peitoril da janela e sentou-se em frente do marido. .para nenhuma delas ficar ofendida. Imediatamente . 160 . .disse Haz el decididamente. . . Às quatro horas.E evidentemente. mas começou a escrever rapidamente. esperando que esteja de novo no lugar quando ele visitar essa parte da cas a..Não temos guarda de honra .Mas eles só conhecem três músicas .disse Hazel. .Charles pode encarregar-se para que ela esteja limpa amanhã . Deixe isso comigo .disse Ted. Estiv era. com um ramo de dálias na mão. Nem tinha percebido que ela era vermelha. escutando a conversa pela extensão. Hazel chegou poucos minutos depois. e depois venham os dois f alar comigo imediatamente. o que não convém d iscutir. quase sem fôlego. com três regimentos sob seu comando e mais de mil funcionários às ordens.Talvez não seja a melhor ocasião para lhe dizer.disse Ted.s meses. deixo isso a seu cargo.Amanhã à tarde. ex-chefe do Estado-Maior da Defesa e almirante da Armada.. .perguntou Hazel tranqüilamente.repetiu Ted. para anotar as instruções de seu chefe. .disse Hazel. Charles tirou uma caneta do bolso interno do casaco. E quanto à banda? .Encontre minha mulher e vá buscar um bloco de anotações. . Ted? Por que esse pânico? . a banda da polícia. .Certo . levantou a capa de seu bloc o e ficou à espera. . . tomando nota no seu bloco. .Bem. seguida pelo secre tário particular. a primeira coisa que espera ver é uma passadeira verme lha . . e quanto à guarda de honra? .disse Hazel. . do outro lado da escrivaninha.Então vamos começar a fazer uma lista das coisas que terão de ser feitas . Por isso.perguntou Hazel. Vamos ter que usar essa. .Se ele vai chegar de avião.disse Hazel .Temos.Mas nós não temos uma passadeira vermelha. .Mulher de sorte essa senhora Rogers . .interrompeu Ted. . . . sim. o juiz do Supremo Tribunal e seis policiais de folga. .Mountbatten vem aí.. Charles vai ter de enrolar a passadeira e levá-la ao aeroporto.É realmente um bom motivo para entrar em pânico confessou Hazel.Qual é a pressa.Numa ocasião dessas é preciso juntar as duas .Como na certa haverá problemas com as músicas.. Há uma entre a sala de jantar e a sala de estar. quando che gamos à ilha. que vinha ao seu encontro pelo longo corredor.disse Ted.disse Ted. fomos recebidos pelo primeiro-ministro. mas a senho ra Rogers ficou doente.Bem senhor. não imagino o que ele espera encontrar quando chegar aqui. O último posto colonial que ele teve foi o de vice-rei da índia.Eu telefono para ele esta manhã. .Não sei se você se lembra que. E quanto aos rifles..O que quer dizer com "arranjar"? . Hazel.disse Ted.Então temos de contar com o Exército Territorial. . Bem.Hodges vai ter de apresentá-los amanhã mais ou menos em forma às quatro horas da tar de. vamos ter que nos ar ranjar.Basta que conheçam uma .e depois trazê-la de volta. . não esqueçamos que Mountbatten é membro da família real.fez uma pausa .Quando? .Certo.O hino nacionaU 161 . Encontrou Charles.

E quanto ao menu'? .Vamos ter de pedir a Dotty Cuthbert para nos ceder a senhora Travis por esta n oite . . bebidas.Quantas peças ainda estão aproveitáveis? . por favor.Sessenta.Henry Bandall tem um Rolls-Royce . Esperemos que alguns deles estejam indispostos ou no exterior.disse Hazel..disse Hazel.perguntou Charles. para não falar do resto do pessoal .disse Ted.Meu Deus. . . -Jonathan F letcher tem a melhor adega da ilha. . . e descubra quais são os gostos de Mountbatten. . a mesa de honra já me parece muito aper tada .perguntou Charles.. .É evidente que temos de oferecer um jantar em honra dele . .Mas ele detesta os ingleses . 162 . . telefone ao Ministério 163 dos Negócios Estrangeiros. graças a Deus.. . em caso de emergência .Certo. do presidente da Câmara.Eu vou arranjar as coisas com Mick Flaherty. os Hodges disse Hazel. Quantas pessoas cabem na sala de jantar? . . apesar de s aber que o convidado de honra é membro da família real. Comidas. os Bendalls. . hábitos excêntricos. do chefe de polícia.disse Hazel. inocentemente. .Hazel e ele voltaram-se para o secretário particular. . não fazia idéia de que ele dormia! . .Desde que ninguém diga a Mountbatten que ele pertence a um vendedor local nem pa ra que foi usado na manhã antes da chegada dele.De acordo . A essa altura.. . .Para não falar do primeiroministro.Dotty Cuthbert.Não há melhor cozinheira em toda a ilha. -Jantar? -disse Hazel.disse Hazel. horrorizada. da última vez que contei disse Hazel. . .Não temos sessenta pratos. todo mundo que pensa que é alguém espera ser convidado . não espera ficar na mesa de honra . .E.exclamou Ted. . Charles já preenchia a terceira folha de bloco. anotando os nomes.acrescentou Ted. do juiz. tudo o que conseguir descobrir.acresc entou Ted.Charles . cuja voz subira de tom..De acordo .Esta tarde vou tratar de tirar todas as nossas cois as do quarto Rainha Vitória.E. .E o Ministério do Exterior recusa-se a reabastecê-la recordou-lhe Ted. sessenta colheres pequenas.disse Ted -. .disse Ted.Onde é que ele vai dormir? .E também vamos precisar de um mordomo.disse Hazel.Estamos numa emergência .Mick Flaherty também tem um velho Rolls .disse Ted.Não pode ser no velho Rover . Não quero que aquele "cavalheiro" me pegue despreve nido. .disse Hazel. e muito menos sessenta xícaras de café..Nós vamos para o quarto Nelson por essa noite.Um Silver Shado w. se não me falha a memória.disse Ted.Enguiçou três vezes no mês passado e chei ra a canil. erguendo o olhar de suas no tas. sessenta. mas vai querer jantar na Casa do Governo.interrompeu Charles. . os Flahertys. . . .. E o único com uma cama que não tem um buraco no meio .respondeu Charles. O secretário particular virou mais uma folha de bloco e conti- . .Nosso problema seguinte são as bebidas . minha querida disse Ted. oferecido pelo falecido rei depois da sua visita em 1947 . o que é pior. com certeza há um arquivo sobre ele.disse Ted.Começava a ceder ao desespero.disse Hazel.Se estamos limitados a quatorze lugares. . e as respectivas mulheres.É melhor você falar com Lady Cuthbert..Mais importante: quem vai prepará-lo? . . . Não se esqueça de que o último g overnador esvaziou a adega poucos dias antes de ir embora. -Ainda temos aquele serviço Royal Worcester. isso resolve o problema de quantas pessoas vão sentar-se à mesa principal..disse o governador -.disse Hazel. e agüentaremos aquelas horrorosas c amas cheias de cupins com seus velhos colchões de crina.Vai ter de ficar no nosso quarto.Só haviam quatorze conjuntos.Estamos mesmo . ... -vou ter de requisitá-lo. . .

e um genuíno primeiro-sargento. de v oz apropriada.Certo. por certo . O governador. com uniforme completo. . que colocou na mala do Rover. Teve o prazer de ver uma multidão superior a qualquer outra que vira na ilha.Tarde demais para isso . e um capacete Wolsey com penas de cisne brancas e vermelhas na cabeça. à vontade. e. envergando seu uniforme de verão.disse Ted.nuou a escrever. . partiram em diferentes direções para passar a tarde fazendo pedidos por toda a ilha. Quando saiu do carro. Desceram os degraus da Casa do Governo e depararam com dois Rolls-Royces um pret o e outro branco. . . Charles vinha logo atrás com a passadeira vermelha.Diante do almirante deverá dirigir-se a mim como " Excelência" e a Lorde Mountbatten como "My Lord". no programa do princípio da noite. para aclamar "o grande homem de guerra". Ted teve de confessar que. Quando chegaram ao terminal.disse Ted. . com firmeza. caritativamente.Não pode se esquecer. talheres.Não . enquanto seu patrão sentava n o banco traseiro do primeiro Rolls-Royce. com a ajuda de uma lanterna. também não eram um bloco carnavalesco.E hora de partir para o aeroporto. Tinham duas vantage ns: um verdadeiro coronel. os três debateram todos os problemas que poderiam surgir durante a visita. embora não fossem a Guarda de Granadeiros.Bill Simmons . Bill. ao encontr o de sua mulher. onde as bandas unidas tocavam um excerto de West Side S tory -pelo menos foi o que. saiu para o corredor. dois anos antes. dizen do que esperava tanta gente quanto fosse possível no dia seguinte no aeroporto. Ted deparou com três fileiras de soldados do Exército Territor ial. diga-me. quinze minutos depois. antes de apagar a luz. Durante a hora seguinte. fatigada.Certo. para informar aos cidadãos de que um membro da família real viria visitar a ilha no dia seguinte. arranjava os canteiros que ladeavam o caminho de acesso. Sir Ted terminou sua locução. Hazel trajava o vestido de verão verde que 164 comprara para a festa do governador. um policial conduziu o peque no cortejo para a pista. Charles. num total de sessenta e um homens.informaram-no. provenientes de diferentes pontos da ilha. esperemos que Mountbatten não perceba.Mas. Bilhpôs o carro em movimento e dirigiu-se aos portões numa velocidade que.Só Deus sabe! . Enquanto Hazel passava a tarde limpando as salas em que o grande homem de guerra pudesse concebivelmente entrar. . e Ted supervisionava a chegada à Ca sa do Governo de pratos.perguntou Hazel. Se tiver dúvidas. um atrás do outro. e o velho Rover. seja o que for. . com galão dourado ao longo das calças brancas. . A primeira coisa que o governador precisou conhecer foi o nome de seu motorista. governador. quando se esticou na cama às duas horas da madru gada. depois de comer sanduíches. com idades compreendidas entre os dezessete e os setenta anos. condecorações e medalhas de campanha ao peito. Excelência. governador. nem . Foi idéia de Charles que o governador aparecesse na emissora de televisão local. Charles já tinha começado a desenrolar a passadeira vermelha 165 quando o governador voltou sua atenção para as barreiras colocadas às pressas. . -Algo foi esquecido? . que eles próprios prepararam. considerava majestosa. enquanto ela ajeitava um ramo que havia caíd o um centímetro. e estava verificando as fl ores do vestíbulo.disse Ted. antes de virar à direita e tomar o caminho para o aeropor to. . Ted pensou. comida e vinhos. de que tem de parecer que esse sempre foi o seu trab alho. quando seu avião pousasse às quatro horas d a tarde.

Mountbatten correspondeu à saudação e disse: . fez continência e disse rigidamente: . o coronel pôs-se em sentido. Muitos dos habitantes agitavam bandeiras inglesas e alguns erguiam fotografias d a rainha. Ted ergueu o olhar. ao presidente da Câmara local e à sua mulher. A multidão cantou "Deus salve a Rainha" com tanto entusiasmo.murmurou Hazel. . É realmente um grande prazer. . Quando pisou a passadeira vermelha. . PC.respondeu Mountbatten. GCIE. fez uma reverência completa e apertou a mão do almirante. o comissário da P olícia e suas esposas alinhavam-se ao fundo da passadeira vermelha. OM. Janet. Aterrissou no extremo da pista. LLD (Hon. e dirigiu-se para a passadeira vermelha no momento em que soavam cinco badaladas no relógio da torre de controle. que os esperava. GCSI. O primeiro-ministro.sequer no jogo anual de futebol entre Suffolk e a ilha Edward. Quando o hino terminou. Lady Barker. enquanto ambos avançavam pela pista em direção à guarda. Ted pôde constatar que todos tinham feito um esforço especial. Caroline.Bem-vindo a St. o juiz Supremo.Guarda de honra pronta para a inspeção. que estava em sentido se is passos atrás do coronel. Voltando-se. Mountbatten marchou. O sol brilhava num céu sem nuvens. que empunhava todas as armas da unidade. a multidão começou a aclamá-lo com ma is força. e ao comissário da Po lícia e à sua última mulher. berrar as ordens: . apresentar armas! A fila da frente. O avião deveria chegar dentro de dezesse te minutos. Subitamente. ouviu-se o som de motores e a multidão começou a aclamar. que foi sinal para o primeiro-sargento. o governador disse: 166 . o coronel pôs-se em sentido e voltou a fazer c ontinência. suponho que devemos ficar gratos por não ter proposto fazer uma visita oficial . três minutos antes da hora. DSO. cujo nome não conseguiu recordar.Talvez deseje passar em revista a guarda de honra antes de partirmos para a Ca sa do Governo . encaminhando Mountbatten na direção do coronel Hodges e dos seus homens. entre as fileiras. A porta do avião abriu-se e lá estava o almirante da Armada. o governador deu um passo à frente. .com o maior prazer . apresentou armas. num giro lento. . Ted sorriu e consultou o relógio. senhor. enquanto ela e Ted avançavam para a escada que havia sido rapidamente colocada ao lado do a vião. KG .). com ar tão grave como s e estivesse passando em revista uma brigada da Guarda Pessoal.disse o almirante. . O almirante fez-lhe continênc ia e nesse momento as bandas conjuntas do município e da polícia atacaram o hino nacional. Depois de ter pas sado pelo último soldado da fileira de trás. FRS. governador . ao juiz Supremo e à sua mulher. como lhe competia. e viu um Andover da esquadrilha da rainha descer em direção ao aeroporto. deu três passos à frente.).Gostei muito de voltar a vê-la. enq uanto a segunda e a terceira ficavam rigidamente em sentido.A mulher do governador deu u m passo à frente. Enquanto Mountbatten descia lentamente a escada. Mountbatten deteve-se e correspondeu à conti nência com uma saudação naval. envergando o uniforme completo de almirante da Armada (farda de verão). o conde Mountbatten. . DCL (Hon. tirou seu chapéu de plumas e fez uma reverência. Sheila.sugeriu Ted. GCVO. acenando para a multidão.Se isso é o que ele chama de "relativamente informal".Oficial de comando em parada! Saudação geral. protegendo os olhos com a mão.Obrigado. Hazel. O governador conduziu seu convidado até o final da passadeira vermelha e apresento u-o ao primeiro-ministro e à sua mulher. que a s notas desafinadas foram disfarçadas pela exuberância.Gostaria de apresentar-lhe minha mulher. Quando ainda estavam a uns vinte metros de distância. o presidente da Câmara local. GCB. George.

. tinha tido tal êxito. O governador só esperava que Mountbatten não tivesse visto dois membros do pessoal d o aeroporto enrolando a passadeira vermelha e colocando-a na mala do Rover. vou começar pela sala de jantar. A aparição de Ted na televisão.sugeriu Ted. numa posição que ele imaginava ser de sentido. enquanto desciam as escada.Parece-me tudo perfeito. A porta do carro foi habilmente aberta por um dos ajudantes do porteiro.Talvez deseje tomar chá com Hazel e comigo na sala. . senão o ajudant e-de-campo estranharia seus hábitos de dormir. pousando o chapéu de plumas na mesa do saguão.Talvez você tenha razão .murmurou Hazel.É muito amável de sua parte . segurando.disse o almirante. Mas é mais um motivo para verificarmos se nos esquecemos de alguma coisa.167 . a porta aberta. junto do qual se en contrava Bill. ao mesmo tempo. O governador conduziu então Mountbatten ao Rolls-Royce branco.Deseja alguma coisa. . Uma tropa de primeira classe. . . Quando se aproximaram dos portões abertos. seguindo Carruthers pela esc adaria principal.Não. coronel. mlord .Carruthers. como se tivesse feito aquilo milhares de vezes. . .Bemvindo à residência. Mountbatten entrou. quando c hegaram ao topo das escadas. todos muito bem-vestidos. É melhor você ver como vai a senhora Travis na cozinh .Não sei o nome do mordomo.disse. Ted pôde ver um mordomo. . enquanto o governador se dirigia ao o utro lado.O almirante. em direção à saída. essas antigas residências governamentais elogiou Mountbatten.Acho que ele suspeita de qualquer coisa . abria ele próprio a porta. fechando cuidadosamente a porta.Muito obrigado. À distância.quase disse em voz alta. dois ajudantes de mordomo e diversas criadas. senho r . a minha casa no Hampshire . na véspera. . com uma reverência. quando o carro parou no fundo das escadas. quando estiver pronto. s e me permitem. Dirigi u-se à janela e olhou para o relvado recém-aparado. As duas motocicletas da polícia da ilha. Se tiver a b ondade de me seguir. dois policiais puseram-se em sentido e fizeram continência à passagem do primeiro carro. Haze l esperava que houvesse lençóis suficientes para a cama do Quarto Verde. eu o conduzirei a seus aposentos. de pé. milorde? . enquant o o segundo supervisionava o descarregamento da bagagem da mala. O mordomo deu um passo à frente. . entrando na suíte privada do governador.disse Ted.Que encanto . quando o ajudante do mor domo começou a supervisionar a abertura das malas. penso que não . Ted e a mulher saíram do quarto.Desço dentro de trinta minutos. .disse o almirante. enquanto Charles e o secretário do almirante tiveram de acomodar-se no Rover. que a estrada de dez milhas estava cheia de gente.Que agradável! Faz-me lembrar Broadlands.Caramba! . . Hazel e o ajudante-de-campo do almirante tomaram seus lugares no Rolls-Royce pre to. desejando as boas-vindas ao visitante. Lady Barker sorriu com o elogio. e se juntava a seu convidado no banco de trás. .disse Mountbatten. precederam os carros. . quando Mountbatten saiu do carro.perguntou Carruthers. Hazel reteve a respiração. Carruthers abriu a porta do quarto Rainha Vitória e afastou-se. A multidão acenou e aplaudiu entusiasticamente quando a comitiva iniciou sua curta viagem até a Casa do Governo. . acompanhad o pelo governador 168 e Lady Barker. .Magníficas. com seus motociclistas de uniforme branco . à espera de sua chegada. mas não conseguiu descontrair-se. subiu os degraus da Casa do Governo. bom trabalho. nas escadas.

Que excelente memória a sua.Diabo! . tentando lembrar-se de qualquer coisa que pudesse ter esquecido.Earl Grey.Mas 170 teria sido melhor se os franceses não tivessem recorrido aos truques habituais.. Já não envergava o uniforme de almirante. pois a avisara com tão pouca antecedência.Que tal foi a conferência? . Mountbatten chegou. o verdadeiro problema que enfrent amos neste momento. .Devo dizer. Gi scard parece considerar-se o resultado do cruzamento de Carlos Magno com Joana d'Arc. . Hazel levantou-se para saudar seu convidado e conduziu-o para um grande e confor tável sofá. deparou com a senhora Travis preparando legumes e uma das criadas descascando um monte de batatas. .Até conhec ia a marca de uísque que eu prefiro. recordando-se do conselho do Ministério dos Negócios Estrangeiros acerca do apreço do almirante por envergar a farda de gala.. pondo no seu chá um cubo de açúcar . embora deva dizer que seria tolice de sua parte deixá-lo ir . percebendo imediatamente o que esquecera de fazer. . m'lord.acrescentou. é simplesmente que. . que estava pondo a mesa para o jantar. nem todas as 169 superfícies tão imaculadamente limpas. . e confessou que nunca vira a c ozinha tão cheia de alimentos exóticos.disse o almirante. enquanto uma criada dobrava guardanapos em forma de cisnes.a única coisa que lhe parecia ser deles.perguntou Ted. esforçando-se para não . . já era quase hora de se vestir..Muito obrigada . A criada de quarto está preparando seu banho. e também falando do problema de encontrar uma esposa para o príncipe Charles e dissertando sobre as re percussões a longo prazo de Watergate. .confessou Hazel. . .Devemos nos vestir para jantar? .Para os ingleses.Há pouco tempo . tudo bem . Quando Mountbatten acabou de expor os resultados da conferência. Ted ergueu uma sobrancelha.Um magnífico lanche . Hazel. . pensou Haze l. .disse Hazel. Alguns minutos depois. Mountbatten sorriu quando Carruthers apareceu silenciosamente à porta.Não. senhor . em tom esperançoso.Até aqui. Agradeceu à senhora Travis por ter vindo.disse Hazel.Já preparei o traje de gala. . quando a criada co meçou a servir o chá.. Lady Barker. Mountbatten sorriu. Saíram da sala de jantar e entraram na sala de e star. Hazel foi juntar-se ao marido na sala de jantar. Ted. que Hazel nunca vira antes . onde o viu admirando a perícia do segundo ajudante de mordomo. Tomei a liberdade de passar as calças a ferro . . .Os anfitriões riram delicadamente.respondeu Ted. sempre que tinha oportunidade. transmitindo suas opiniões concretas acerca de James Callaghan e Ted Heath. "Dou graças a Deus pelas informações do Ministério dos Negócios Estrangeiros".bom. .disse Mountbatten. que seu mordomo é magnífico disse Mountbatten. se bem me recordo . .perguntou Mountbatten. até o chão estava impecável. . Lady Barker .Achei que seria apropriado. muito bem . erguendo-se do sofá.E que pessoal espantoso. Quando Hazel entrou na cozinha.acrescentou.disse Hazel.a.Sim. onde Ted se pôs a andar de um lado para o outro. quando entrou uma criada com um bonito serviço de chá Wedgewood. . se estiver de acordo.Obrigado . enquanto esperavam que o grande homem descesse para tomar chá com eles. enquanto aceitava o cumprimento com um sorriso. volta ndo-se para sua anfitriã.Condecorações? . Não sei como conseguiu arranjar. não deixe de me avisar. Há quanto tempo está a seu serviço? .diss. Compreendendo que sua presença era supérflua. tendo vestido um terno cinzento-escuro de dois bolsos. senhor. se ele por acaso quiser um trabalho na Inglaterra. .lembrou Ted.

Henry . Devo dizer que gosto muito desse uniforme. . . . Hazel apresentou-se aos três e foi compor de novo as flores do vestíbulo.Fico encantada por poder ajudar . onde encontrou Ted. a propósito acrescentou.disse.Não posso parar . Ted .Os homens são tão vaidosos . de manhã já terá voado para ca sa.Hesitou. mas não temos tempo para nos preocupar com isso .Eu acho que ele sabe . . deparando com mais um ajudante de mordomo junto da porta de entrada e mais duas criadas diante dele. . Saíram da sala e subiram rapidamente as escadas. guardanapos de linho com brasão e um magnífico centro de mesa que representava um faisão de prata e que dava maior brilho à mesa.Meu Deus. que tinha inicialmente pensado ser um desperdício de dinheiro. .Cerca de sessenta. Esperamos servir o jantar às oito. Mais uma vez consciente de que não fazia falta na cozi nha. Ted? -perguntou Mountbatten.disse Ted. 171 . não é? .disse Lady Cuthbert. Ted quase entrou no quarto de Mou ntbatten. E o Bill. .Se as luzes ficarem suficientemente baixas .Que prazer em vê-lo. O monte de batatas reduzira-se a uma colina de batatas descascadas. três séries de copos de vinho.Não tenho idéia .Quem nos emprestou aquilo? .disse Ted. Sacudiu um fio das calças que tinha acabado de passar a ferro. pode fazer o favor de tirar esta mesa? . Estava admirando o conjunto no espelho quando Hazel entrou no quarto com um conjunto Hardy 172 Armies cor-de-rosa. com bandejas de prata carregadas de taças de cham panhe. Ted gostava muito de seu uniforme de camurça azul-escuro com gola e punhos escarla tes. seguindo Carruthers até o quarto. . .Dotty.disse a moça. .Estarei pron to quando aparecerem . Há uma lista de convidados na sua mesade-cabeceira. -Você sabe perfeitamente que só deveria usar isso no inverno. .disse Ted. vendo que o marido continuava a observar-se no espelho. porque nunca esperava ter de usá-lo.Talvez. .disse Hazel.Sim. pedia mais pimenta e algumas especiarias que tinh am de ser compradas na cidade. . Excelência . A mesa de honra já estava totalmente posta com o serviço de jantar do rei.disse o governador. num murmúrio alto.Tem tudo sob controle. . mas lembrou-se a tempo.respondeu Ted. talvez ele não no te que as outras mesas têm baixelas e talheres diferentes. com ar um pouco ansioso.Quis vir mais cedo para passar alguns minutos na cozinha com a senhora Travis. com impaciência -. De qualquer forma. -A que horas quer que desça para o jantar.Molly. tenho certeza de que seremos eclipsados por Mountbatten.perguntou ela. .Façam de conta que não me viram. . O governador e a mulher saíram do Quarto Nelson e desceram a escadaria precisament e às 19:20. olhe as horas! . . Talvez Ha zel e eu pudéssemos ir buscá-lo às dez para as oito.acrescentou.disse Mountbatten com ar de aprovação. Lady Cuthbert entrou apressadamente. já a caminho de uma nova inspeção à cozinha.Não poderia ser melhor . Logo que a porta se fechou atrás dele.disse Hazel. .respondeu Henry Bendall. por um momento.. não sei o que faríamos sem sua ajuda . Batiam as 19h30 no grande relógio do saguão quando chegou o primeiro convidado. correndo atrás dela pelo saguão.corar. mas é o único uniforme difer ente que tenho. minha senhora . que preparava os molhos.Foi um prazer.declarou Mountbatten.Os primeiros convidados devem aparecer para os aperitivos por volta das sete e meia. Hazel disse à criada: . Quantas pessoas espera? . . . .murmurou Hazel -. Hazel dirigiu-se à sala de jantar.Sei disso perfeitamente .É Mol ly.Mas uma coisa é certa. A senhora Tr avis..observou. se achar conveniente. Muito obrigado por nos deixar usar o Rolls. .

Sr.perguntou Hazel.disse o governador.Boa noite. Presidente. Mas saberá que nós sabemos? . Se existia uma melhor cozinheira do que a senhora Travis em St. Quando o som silencio u. um dos ajudantes de mordomo deu uma pancada num gongo que até aquele momento nem o governador.O Honorável Conde Mountbatten da Birmânia.Talvez. minhas senhoras e meus senhor es . Inclinou-se para a frente e bateu levemente à porta . Eu a levo até lá. que não parou de falar e se manteve mais ereto do que Ted algum a vez o vira. senhor presidente . Olhou para ela. ofuscado. Excelência.A propósito. .disse Lady Cuthbert. parando no terceiro degrau. Primeiro-Ministro. nem a mulher sabiam que existia. não se preocupe . . no alto da escadaria. Ted consultou o relógio . seguiu-o.My Lord. Carruthers anunciou: . o mordomo fez uma profunda reverência. Mountbatten moveu-se agilmente pe la sala. . .murmurou ela. ninguém à me sa de honra tinha sido alguma vez servido por ela. Pigarreou e esperou que os convidados ficassem em silêncio. Presidente.disse Ted. Carruthers começou a descer lentamente a escada diante deles. a seu lado. . Benson está à espera na entrada. George. Abriram caminho em meio aos convidados e subiram a grande escadaria. Excelência . Sr.. Excelência . pronto para correr até em casa se descobrir que precisam de mais alguma coisa.. senhora Janson . detiveram-se e oIharam um para o outro. e.Excelência. . com Hazel pelo br aço. o jantar está servido. enquanto lady Cuthbert desaparecia n a direção da cozinha. Mountbatten conversou e sorriu. O almirante deu três passos à frente e deteve-se.Não.disse Mountbatten. Sr.Ele deve saber . minhas senhoras e me us senhores. Sr. Excelência. e com Mick Flaherty. Como ele não se movesse. Colocou-se e m posição de sentido. dois passos atrás. uma faixa azul e dourada e oito fileiras de condecorações de campanha. Continue a receber os convidados. Carruthers abriu-a imediatamente.disse o governador. a cozinheira havia se esmerado. fizeram o mesmo. Passou algum tempo conversando com Lady Cuthbert. . e Ted conversava com Mick Fl aherty quando Hazel lhe tocou o cotovelo.Boa noite.Boa noite.disse Ted. escuta ndo atentamente as poucas palavras que o almirante lhes dirigia. não fazendo segredo de que estava apreciando o mom ento. 173 . Às oito horas.Que bonito vestido. enquanto os convidados o aplaudiam del icadamente. deixando ver Mountbatten envergando o tercei ro conjunto do dia: farda de gala completa de almirante da Armada.anunciou. Quando passou por 174 Carruthers. . . senhor . cujo marido tinha estado sob suas ordens em Portsmouth. Mountbatten desceu lentamente os degraus.Muito obrigada. Foi muito amável da sua parte nos convidar em tão auspiciosa ocasião.É uma santa. que escutou com delicado int eresse. A única exceção foi Mick Flaherty. voltando para junto do marido.respondeu a mulher do presidente da Câmara. . enquanto Ted o apresentava a cada um dos convidados.Desejam uma taça de champanhe? . Quando cheg aram à porta do quarto Rainha Vitória. Primeiro-Ministro. Esses faziam reverências e cortesias. Ted assentiu com um gest o de cabeça e pediu ao juiz Supremo que se ocupasse de receber os convidados. . . . . Ted e Hazel aguardavam.19h50. três estrelas. nessa noite. O governador. Dotty. . Às 19h45 a maior parte dos convidados já havia chegado.sussurrou Hazel.Conheço o caminho. -Acho que devemos subir para ir buscá-lo.Boa noite.

-Foi uma honra conhecê-lo. .Talvez você tenha razão . e um merengue de avelãs e damascos para completar o festim. com um sorriso. vamos embora.Notou alguma coisa errada? .Hazel.disse Ted.Sete e meia está bem? . Lorde Mountbatten fartou-se de fazer esse comentário.com certeza . . que estava novamente impe cável.É muito amável. . Observou a cozinha. .Dei a volta até o pátio dos fundos e entrei pela porta de serviço . De braços dados. O chefe principal do Sav oy não teria produzido um banquete melhor. ansiosa. não te m? . "Se soubesse até que ponto".Isso me dará tempo para partir às n ove.Evidentemente .Mas saberá que nós sabemos que ele sabe? . Momentos depois entrou Carruthers. foi tomar café com os convidados na sala de estar e conseguiu tr ocar algumas palavras com cada um. .E quero agradecer-lhe. Hazel. .disse Mountbatten.Como voltou. . Depois que o ajudante de mordomo fechou a porta ao último convidado. Ted colocou o braço em volta da cintura da mulher e disse: . .Evitou di zer ao "meu pessoal".disse o governador.Senhora Travis .Há mais alguma coisa que possamos fazer pelo senhor antes de se retirar? . . .Um desjejum leve é exatamente o que pretendo . Perfeito em todos os aspectos. vou re tirar-me já.Boa noite.respondeu Lady Cuthbert.respondeu Mountbatten. . Dotty foi das últimas a partir e fez uma profunda reverência ao convidado de honra. . Boa noite e muito obrigado. . . senhor.Uma noite pe rfeita. senhor? perguntou o governador. Se me permite. pensou Hazel.Não. . Dotty? .Ele tem um grande apetite. .acrescentou. apesar de o coronel Hodges tentar apoderar-se dele para falar dos cortes na defesa. . minha querida. O governador fez uma reverência e sua mulher uma cortesia.Nada que eu percebesse .perguntou Mountbatten.disse Ted.A menos que Mick Flaherty não tivesse conseguido beber um quarto copo de Moscatel de Veneza.Ele sabe que nós sabemos. senhor. Os convidados começaram a partir alguns minutos depois da meia-noite. . Lady Cuthbert . . Seu pessoal não teria podido fazer melhor. Carruthers. depois voltou-se para Ted e disse: . Mountbatten voltou-se para sua anfitriã e disse-lhe: .disse Hazel. Mountbatten fez observações acerca de cada vinho e chegou mesmo a pedir um segundo cálice de vinho do Porto. vou transmitir seus agradecimentos ao pessoal. Todos foram magníficos. dizendo: . tenho de agradecer-lhe por esta memorável ocasião. Excelência .respondeu Lady C uthbert. cujas mangas de renda longas do vestido de noite estavam firmemente arregaçadas.E a que horas deseja tomar o café da manhã.diss e-lhe Mountbatten.disse Ted -.vou dar ordem a Carruthers para lhe levar desjejum leve ao quarto. . obrigado .perguntou Hazel. regressaram à cozinha.Foi um longo dia. . . .Cada prato ultrapassava o anterior: suflê. Quando o mordomo fechou a porta do quarto Rainha Vitória. onde encontraram a senhora Travis pondo prat os num caixote sob a supervisão de Lady Cuthbert.Contribuiu muito para tornar esta noite bastante agradável.Obrigada. Não estou fazendo mais do que repe tir as exatas palavras de Lorde Mountbatten. A menos que prefira outra coisa.vou ter de pensar nisso . enquanto o almirante su bia as escadas dois passos atrás de Carruthers. Depois do jantar. 176 .perguntou Hazel. seguido de costeletas de carneiro. my lord. e Ted não pôde d eixar de se divertir quando viu 175 Mick Flaherty despedir-se do almirante com uma grande reverência. o chefe principal do Savoy não teria produzido um banquete melhor. Perfeito em todos os aspectos. pelo papel que o senhor e sua espantosa equipe desempenharam. .com sua permissão. às sete e meia.disse a senhora Travis.

colocou dois cubos de açúcar na xícara de Lody Cuthbert. Mas no dia de Natal vai ficar sabendo. detiveram-se bruscamente.disse Hazel.Decididamente. . Ted encolheu os ombros. O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros fartou-se de rir ao ler o relatório d e Mountbatten e juntou uma nota à última folha.Não sei como você se sente. a rainha perguntou-lhe: ..disse Ted. Voltaram ao saguão e começaram a subir as escadas. no Castelo de Windsor.Bem. mas. exceto o regimento em que ele tinha servido. Sua Excelência. b) Possivelmente.confessou ela. . depôs de pensar um pouco. você.disse com doçura.Foi Carruthers que se traiu. Ted acenou afirmativamente com a cabeça e. às sete e meia. por sua vez: a) Depois do jantar. para o espetáculo que os aguardava. Ted passou o braço em volta da cintura da mulher. A que horas deseja que voltemos de manhã para p reparar e servir o café? . viremos às seis e meia . o governador e comandante-chefe de St. na segunda-feira segui nte. A rainha fez mais uma pergunta: .Um triunfo pessoal para você. Temos de estar de pé às sete para que tudo esteja pronto antes de ele partir para o aeroporto. A última pessoa a sair foi Dotty. uma das criadas perguntou a Lody Barker se ela queria açúcar no seu café.Vamos tentar dormir um pouco. Hazel beijou-a em ambas as faces ao partir. George. O almirante contou a história da sua visita numa reunião de família. Sir Ted teve o prazer de receber um cartão de Natal de Lorde Mountbatten. Isso não seria possível com um velho soldado. meu querido . antes de se dirigir para o qu arto Nelson. olhando. Foram enviados exemplares à rainha e a o secretário-geral. minha querida. . horror izados. porque percebeu que não só teriam de passar pela inspeção de um almirante da Armada. como teriam de parecer ter sido engraxados por Carruthers. voltando-se para a mulher. Quando chegaram ao patamar.É muita amabilidade de Sua Alteza. Hazel abriu a porta da cozinha para eles saírem e todos carregaram caixotes cheios de louças e cestos cheios de comida para os carros que os esperavam.Não tenho certeza.Agora tenho certeza de que ele sabe . fatigados. pedindo esclarecimentos sobre dois pontos: a) Como pode ter certeza de que o pessoal que serviu o jantar não fazia parte do p essoal do governador? b) Pensa que Sir Ted sabia que o senhor sabia? O almirante respondeu.Estou morta . fechando à chave a por ta da cozinha. quando os risos cessaram. um momento depois. sem precisar perguntar.Você ou eu? Hazel apontou o dedo firmemente para o marido. Sabia tudo acerca de Sir Ted. . acerca da sua visita a St.Então. 177 que levava o faisão de prata. fez um relatório completo. e. Três pares de sapatos de couro preto haviam sido colocados em linha diante da porta do quarto Rainha Vitória. assinado . sussurrou: . Lillibeth . Quando Mountbatten regressou ao Almirantado em Whitehall. pegou os sapatos do almirante e voltou a descer para a c ozinha. . Hazel consultou o relógio. Mas não pretendo deixá-lo na dúvida de que eu sabia. por 178 escrito. George passou quase toda a madrugada engraxando aqueles três pares de sapatos.respondeu Mountbatten. mas sem pronunciar uma palavra.disse Carruthers. com receio de perturbar o repouso do convidado. ele pediu um desjejum leve no quarto. . Passavam dezessete minutos de uma da madrugada.Pensa que o governador sabia que sabia? . nesse sábado à noite. não. mas eu estou exausto .Quando é que começou a desconfiar? . .

COMBINADO: DAVID DEIXARIA TUDO para Pat. correendo o dedo por uma página de tabelas atuais que puxara de sua pasta -. mas perguntou.: "Boas-Festas. e David permaneceu silencioso. . e daquela vez David concordou. especialmente porque tinha sido ele o infiel. David sabia exatamente que desastre o aguardava na porta de casa. dessa vez sem ment ir. -Afinal. . David andara adiando as coisas.Bem . e não conseguiram ocultar sua surpresa .Ganho um bom salário. pelo menos o outro ficaria financeiramente seguro para o resto da vida. David se ntiu que era o mínimo que podia fazer por alguém que tinha estado a seu lado durante tant os anos. chamado Marvin Roebuck. Marvin ficou obviamente impres sionado.disse David. Se um deles morresse. acidentes.dessa forma. e.Aumentou todos os anos durante os últimos sete .e desaprovação. pensou ele. meu amigo? -perguntou Marvin. Na primeira segunda-feira do décimo mês.Agora sabemos que ele sabia. meus pais vão deixar tudo para mim. David disse-lhe 183 que tinha todo tipo de seguros de que poderia necessitar: roubo. Obrigado por uma estada memorável. pareceria que tinha sido o agente a procurá-lo. no caso do pai de Pat . Escolheu um dia de plantão noturn o de Pat no hotel e pediu a Roebuck que viesse ao apartamento . um valor a proximado. na esperança de uma cura mila grosa. nunc a se pode ter certeza de não sofrer um desastre mesmo na porta de casa.disse Marvin finalmente -. Hazel desembrulhou o pequeno pacote e encontrou uma lata de graxa Cherry Blossom (preta).perguntou Marvin. . propriedade. inocentemente: . o mais importante.Bem. com relutância. . e quanto ao de vida? .respondeu Ted com um sorriso. continuando a empurrar uma porta que não tinha modo de saber que já estava aberta.disse David. PORTANTO. tenho segurança mais do que suficiente. isso depende do quanto ganha atualmente . tentando falar com naturalidade.Mas saberia que nós sabíamos que ele s abia? Isso é que eu queria saber. Conheciam-se praticamente desde que nasceram. Seu único comentário foi: 179 . N a verdade.Em que tipo de negócio trabalha.disse David. poderia até pensar numaámportância superior.acrescentou. se accredita que seus rendimentos vão continuar a crescer durante os próximos anos. Ambas as famílias sempre alimenta ram esperanças de que David se casasse com a irmã de Pat.Mas.Cento e vinte mil por ano . David estava regando a Clupea harengus escarlate da mesa do saguão. o senhor tem apenas vinte e sete anos. . o prêmio é alto. . Dickie. umedecendo os lábios.Desse não preciso . saúde e até de férias.Está falando de uma importância da ordem de quanto? . .De acordo . principalmente porque Pat tinha três anos a mais que David.. eu sugeriria meio milhão de dólares. quando Marvin Roebuck tocou a campainha da porta. . que mal conseguiam recordar.. ele voltou a telefonar. enquanto ele fazia alguns cálculos de cabeça. apesar de um insistente agente de seguros da Geneva Life.quando eles começaram a viver juntos." Ia acompanhado de um presente. . Ruth. em falar com ele. que o andava pressionando para "uma reunião" durante os últimos nove meses.perguntou Marvin. 180 VOCÊ NÃO VIVERÁ PARA SE ARREPENDER FICOU. Durante algum tempo. . já que aquilo era quase o dobro do seu rendimento real. Afinal . . auto móvel.disse Marvin.Mas não seria prudente garantir o recebimento automático de uma boa soma no dia do seu sexagésimo ou sexagésimo quinto aniversário? . pois seus pais tinham sido amigos ín timos há tanto tempo. Depois de ter servido uma Budweiser a seu vi sitante.

especialmente quando estivesse tentando fechar um negócio. no momento em que mai s vai precisar dele. em termos reais. co nsultando mais uma vez as tabelas. mas. Marvin mostrou-se desapontado. para eu pensar no assunto du rante o fim de semana? Prometo que volto a fazer contato.. já lhe terem dito inúmeras vezes que não fizesse isso. . . Afinal. pensando no que acontecera durante a reunião com Marvin. pois isso só lhe dava mesmo tempo para pensar.E não se esqueça de que sessenta por cento é dedutíve l dos impostos.Eu sei.disse ele.Pat nem sequer conseguia dizer não a um vendedor de escovas que batesse à porta. Quando se deitaram. se tiver o azar de morrer antes do sexagésimo. . mas não tinha a mínima intenção de fazer . logo de manhã. . com a inflação e seus contínuos aumentos de salário.Quanto eu teria de pagar todos os meses para receber um milhão? .perguntou Pat. . não o deixar escapar. meu amigo. senhor Roebuck. durante os cursos de capacitação. pouco mais de mil dólares por mês . são à prova de inflação.perguntou Davi d..disse David.perguntou David. nunca sobem. Pat regressou do turno da noite pela madrugada.disse Marvin. o que fazemos agora? . .Aconteça o que acontecer. fazendo com que a soma parecesse insignificante. . Até eu posso passar uma apólice por isso . Marvin telefonou às 8h30 da segunda-feira seguinte. tentando mostrarse aborrecido. . Sentia os lábios se cos. confirmou Marvin. não dando pormenores 184 acerca da pequena firma para que trabalhava nem da posição secundária que ocupava.Os pagamentos mensais poderão parecer um pouco altos no início.Esperamos. . a menos que o mundo acabe. esses mil dólares são fixos. só estará pagando cerca de quinze dólares por dia. . passando o braço em volta dos ombros de Pat. . a propósito.Mas eu receberia sempre a importância por inteiro. -Aposto cem dólares como Marvin lhe telefona na segunda-feira. e Pat não sabia ao certo como as coisas pode riam correr quando já não tivesse David para lhe dar conselhos. independente do que sucedesse no mercado? .Um homem tão bem-apessoado como o senhor. um milhão está tranqüilamente dentro de seu alcance de crédito . E não se esqueça. .Deve haver alguém por quem se interesse . verá que se tornam quase insignificantes. quando vai acabar recebendo um milhão.Tinha esperanças de encontrá-los antes de ir vender suas ações e obrigações . Graças a Deus era David que tinha de tratar com Marvin . . nunca haveria necessidade de Pat conhecer Marvin. . especialmente os financeiros. Pat sentiu que um ataque de asma se aproximava e decidiu que não era hora para pedir a David que voltasse aos pormenores.Então. 185 . Na verdade. continuo a dar a impressão de que é ele qu e está insistindo. Deus não o permita. .Por que não me deixa os prospectos. tentando dar a impressão de que se convencera.respondeu David. Marvin umedeceu novamente os lábios. à medida que os anos forem passando. - .Partindo do princípio de que escolhe o seu sexagésimo aniversário para terminar o co ntrato.Soltou uma gargalhada horrivelmente aguda.Ações e obrigações . de modo que..Bem.No entanto.disse David.disse ele. . . soltando outra gargalhada aguda. David sempre resolvera todos os seus problemas ante riores. continuando a faze r com que fosse Marvin a avançar.Então.Mas você prometeu a Marvin que voltaria a fazer contato com ele.disse Marvin. mas David tinha ficado acordado. E.Não tenho dependentes . para quanto acha que eu deveria ir? .Um milhão de dólares no seu sexagésimo aniversário. como David lhe explicara diversas vezes.disse Marvin. seus dependentes receberão imediatamente a quantia por inteiro. . Pat mostrou sua apreensão e insegurança quanto ao plano. Não precisava de um curso de aperfeiçoamento para sab er que era preciso encostar o cliente à parede logo na primeira reunião. apesar de.

. . Marvin voltou a telefonar. Tenho uma consulta com o Dr. Mas. Numa pequena placa de metal lia-se: "Dr. mas. depois das súplicas de Marvin. chegou à clínica. Sei que tomou a decisão certa. você recebe um milhão de dólares. David.se o senhor morrer a ntes de 1° de setembro de 2027.disse. apertou a mão do paciente e disse: . Garanto-lhe que não se arrepe nderá durante toda a sua vida. Roysto n. Abraçaram-se mais uma vez. .Não.disse David. A enfermeira bateu à porta. Separaram-se a um quarteirão da sede da companhia de seguros. porque quinhentos mil talvez não sejam uma grande soma de dinheiro quando eu chegar aos sessenta. . .Não vamos levar muito tempo. e ela acha que eu devo me decidir pelo milhão. e outros mais "n unca se arrependerá disso durante toda a sua vida". entre duas cruzes a lápi s.de "rotina". .foi seu único comentário.respondeu David. Quando foram para a cama nessa noite. Marvin levou toda a papelada ao apartamento. Partiram juntos para Nova York na segunda-feira seguinte. exatamente. . mas ambos aceitaram que isso já não era possível.Nem pense sequer nisso.Posso deixar a papelada por sua conta? . . só vivemos juntos .disse a enfermeira. palavra que se fartou de repetir. Seu ato final foi escrever o nome de Pat numa pequena coluna que Marvin lhe indicara com o dedo.com certeza . depois de confirmar que a papelada tinha sido preenchida. Marvin saiu do apartamento agarrado à proposta. David rabiscou sua assinatura em três documentos separados. O Dr.Sim.Como única pessoa a herdar . Usava óculos de aros de osso. Depois de mais alguns "meu amigo" para aqui. mas. F aça o favor de me seguir.Sim. Pat tentou desesperadamente fazer amor com David. . senhor Kravits . Quando tudo tiver terminado. dada a importância da soma segurada.Chamo-me David Kravits. porque não queriam correr o risco de serem vistos ju ntos. sim. na noite seguinte. que tinha apenas alguns fios de cabelo na calva lustrosa e queimada de sol. Uma mulher de longa bata branca sorriu-lhe por detrás do balcão. -Lembre-se de 187 que ninguém me conhece tão bem quanto você. Royston era um homem baixo e idoso. Alguns minutos antes do meio-dia.Falei sobre o assunto com minha mãe durante o fim d e semana.perguntou David tentando dar a impres são de que não queria tratar de detalhes. . Apenas rotina. se não estou enganado.disse Marvin. Royston está à sua espera. misturadas com um pouco de untuosa persuasão. senhor Kravits.Bom-dia .Oh. e seu rosto su geria que sua própria apólice de seguros não estava muito longe de alcançar o prazo de maturid ade. Levantou-se de sua cadeira.Sua consulta é em função de um seguro de vida. meu amigo.Agora é só manter a calma .Conduziu-o por um longo corredor vazio até a última porta à esquerda. depois de Pat te r saído para o trabalho. No dia seguinte. Royston". . Deixe todo o trabalho comigo. "meu amigo' para lá. acabou por ceder. teria de ser feito pe lo médico da companhia em Nova York. dizendo que a papelada estava pronta e que agora só faltava David fazer um exame médico . abriu-a e disse: . . Marvin ficou satisfeito por David não vê-lo umedecer os lábios. acrescentando que talvez tivesse toma do a decisão errada. para cumprir a consult a que David marcara com o médico da Geneva Life. doutor.explicou o agente de seguros . .Sua mãe é obviamente uma senhora muito esperta . . David protestou por ter de ir a Nova York.disse David a Pat. Deus não o permita! Está casado com Pat? . mas a companhia gost .Já tomou uma decisão? 186 . quando se separaram.O senhor Kravits. receando que Pat não fosse capaz de levar aquilo até o fim.O Dr. já tomei . David ainda estava preo cupado.

não querendo confessar a sua asma naquele momento.Que eu saiba.Ótimo. de vez em quando. Depois volte aqui. . e suba nesta balança. . problemas d e fígado? . . fazendo um "V" no último quadrado. Importa-se de subir a manga do l ado direito? . O médico tomou mais algumas notas.Todos. . Pelo menos. .O médico colocou uma tira de borracha em volta do bíceps direito de David e apertou-a até as veias ficarem nitidamente salientes..declarou. . foi assim que o padre descreveu sua mor te no funeral.Seu pai ainda está vivo? . Sente-se. obviamente sem o mínimo interesse pelas opiniões do corretor. fazendo mais um "V" no impresso à sua frente. . enquanto David saía da sala e regressava momentos depois.Que idade tinha ele? . algum caso de ataque cardíaco. . O Dr. O pai de meu pai morreu há dois anos.Oitenta e um.Preencheu mais duas linhas no seu relatório. mas nada que se possa considerar grave .perguntou.Ótimo . Royston. -Talvez tenha um pouco de peso a menos. pedindo-lhe. mas não me surpreenderia se vivesse muito mais do q ue ele.Agora preciso de um exame de urina. Começava com artrite e terminava dezoito linhas abaixo com tuberculose. Venha cá. não. mas nunca tomo bebidas fortes. senhor Kravits.Recorda-se? . por favor .Uma picadinha d isse.Morreu simplesmente. . E na sua família mais próxima. Uma gripe de vez em quando. . 188 189 .Ótimo. O médico riu. de vez em quando.disse ele.respon deu. . . Faça o favor de levar esse r ecipiente de plástico para aquele compartimento. . nada disso . oitenta e dois.Não. . Depois olhou para a balança e moveu o pequ eno peso até alcançar o equilíbrio.Sabe qual foi a causa da morte? .Excelente .E sua mãe? . câncer. . Agora temos de fazer um exame de sangue. teria me contentado com meio milhão.E bem. . acho. Gosto de um copo de vinho ao jantar. . . que inspi . e ele desviou o olhar enquanto o médico extraía o sangue.Socialmente.afirmou. -A agulha penetrou.Bebe? . por favor.. Nada mau. Royston limpou a picada e colocou sobre ela um pequ eno penso circular. Setenta e oito quilos. .Eu também achei a soma muito alta.Alg uma vez sofreu de alguma dessas coisas? .Fuma? . mas o corr etor foi tão persuasivo.a de ter a certeza de que as pessoas estão em boas condições físicas quando vai se responsabilizar por uma soma tão grande de dinheiro.Não. senhor Kravits.repetiu o Dr.disse o médico.Não faz nenhuma dessas coisas. .Não vai sentir nada. apontando para o outro lado da escrivaninha.Corre todas as manhãs e levanta pesos no ginásio local nos fins de semana.Um metro e oitenta e dois .Teve alguma doença grave durante os últimos dez anos? perguntou o médico.perguntou o médico. .Está em boa forma? .Nunca. -Vamos agora confir mar seu peso e altura. O médico inclinou-se e encostou um estetoscópio gelado em diferentes partes do peito do paciente. . Passou os olhos lentamente pela lista antes de responder: . O médico teve de ficar na ponta dos pés para subir o marcador até ficar encostado na c abeça de David.Ainda tem avós vivos? .diss e. quando terminar.Deixei o recipiente na prateleira . encha-o até o meio e deixe-o na prateleira. mostrando-lhe uma lista. com exceção de um.

Disseram que me dariam notícias dentro de poucos di as. o advogado de David.E tudo. Pat recebeu carta de um representante da Geneva Life solicitand o uma entrevista com o beneficiário da apólice.Nem vamos pensar nisso . .consultou seu bloco Nova Jersey. estava à espera dele. . descendo as escadas. "Se tiver alguma dúvida. para ela fazer uma radiografia e divertir-se um pouco com seus eletrodos. Goldberg e Levy. é melhor dizer agora. David expediu um cheque para a Geneva Life n a manhã seguinte. e deppis entregar-lhe o dinheiro. Royston o co nsiderara em perfeita saúde. dissera ele. que teria lugar.Obrigado. onde se lia: "Dra. . E pode ir embora. Após despedir-se da Dra. abotoando a camisa. 191 Dezenove dias depois do sétimo pagamento ter sido efetuado.disse ele. Dr. Harvey. Vai ter de passar mais uns minutos no consultório ao final do corredor com a Dra.rasse e expirasse.Ponha os braços atrás das costas e inspire. para se colocar diante do aparelho de raios X. com cabelos grisalhos cortados curtos. Pat entregou logo a carta ao advogad o de David. no primeiro dia de cada mês." A Dra. Mas de pois disso estará livre e poderá voltar para . espalhou pomada em alguns pontos de sua pele e fixou pequenas almofadas sobre ela. ela acionou um computador e concentrou-se numa pequena tela de televisão que estava sobre a escrivaninha. David aconselhara Pat a não se envolver em coisa alguma. e deixa r tudo em suas mãos. . como seu executor. Marvin telefonou uma semana mais tarde para dizer a David que o Dr.Porque. .Pode vestir a camisa. 190 . com uma placa na porta. David Kravits morreu d e Aids. Deveria contactar um certo Dr. .Ótimo . onde ele e Pat haviam se s eparado. em Manhattan. Agora. fazer a reivindicação junto à companhia de seguros. Enquan to ele olhava para o teto branco. Abraçaram-se de novo. . só teria de enviar a primeira prestação de 1.Há alguma coisa que não me tenha dito.Ainda bem que você não teve problemas. logo que saíssem os resultados dos testes. A companhia entrará em contato com o senhor dentro de poucos dias. se houver . concordando com a entrevista. Levy respondeu. Sua expressão nada revela va. . Pat tentou recordar-se da primeira coisa que tinha de fazer.Correu tudo bem? . foi o último conselho que David dera a Pat antes de morrer. alguns minuto s antes da chegada do representante da companhia de seguros. Dez dias depois. nos escritórios de Levy.100 libras para a companhia de seguros. logo que tenham os os resultados.disse ele. Sorriu ao homem alto e elegante e pediu-lhe que despisse novamente a camisa e subisse na plataforma. senhor Kravits. Royston . O Dr. Depois disso. O médico tocou uma campai nha sobre a escrivaninha. Inclinou-se sobre seu peito. .repetiu várias vezes. Mary Harvey.Só espero que você não tenha. a pedido do seu cliente. A enfermeira reapareceu e levou-o a outra sala. Finalmente disse: . Que deix asse Levy. senhor Kravits. apertando contra si a única pessoa que amava . elegantemente vestida. o jovem saiu apressadamente do edifício. seus pagamentos foram feitos por transferência. Obrigada. Levy. Harvey.Em seguida pediu-lhe que s e estendesse no leito no canto da sala. Depois de ter retirado a pomada com um pano úmido. não diga nad a". . mulher de me ia-idade. logo que o testamen to fosse lido. e correu até a esquina. Patrick? perguntou-lhe Levy.disse Pat.Penso que sim . Harvey. disse-lhe: . .

ansioso por arranjar uma forma d e se livrar de Marvin. oito meses antes. não tenho nada para lhe dizer .e pergunta quanto vai custar? Que são mil dólares por mês para uma pessoa tão rica? . É melhor vir aman hã à tarde.. baixando a voz. pelo menos. . .suplicou Marvin. uma vez que Marvin lhe assegurou que o exame médico poderia ser fe ito com qualquer médico de sua escolha. dentro de trinta dias.Nem pensar. perguntando-se o que David teria ac onselhado. mas v ai receber o cheque no dia trinta deste mês.Não. . iniciarei imediatamente um processo contra a Geneva Life. poderia fazer um seguro para si própr io. Não voltarei a incomodá-lo prometeu Marvin.insistiu Marvin. 192 O representante da companhia perguntou a Levy se aceitaria um acordo. com os olhos continu amente cravados na cabeça curvada de Pat. Se fosse outra vez ao Dr. Pat. o representante da Geneva Life.Mas não posso ter certeza de que vou receber esse milhão .Estou metido numa grande confusão..quase gritou Marvin . meu amigo. fortalecido pelo conhecimento de que. vou perder o emprego por causa daquela apólice que vendi para seu amigo David. Levy.Tenha pena de mim. Pat já tinha mud ado de idéia.disse Pat.Vai receber um milhão de dólares . Nem sequer vai ter de fazer o primeiro pagamento antes de receber o milhão. mas tudo lhe pa recia inútil sem David. meu amigo . Esperava que David tivesse aprovado essa decisão. mas só depois de ter recebido o cheque. Não consigo agüentar outro divórcio . Isso talvez me salvasse a pele.respondeu Pat. Mas.Quanto é que isso me custaria? . . Pat correu para atender.Obrigado. . eu não estarei . acedeu e assinou todos os im pressos entre as cruzes a lápis. Levy limitava-se a repetir: . .disse Marvin.disse Marvin. meu amigo. Royston. . .Não.. Desde o começo da entrevista. não deixou qualquer dúvida ao Dr. Afinal. . Mas o advogado enfrentou todas a s questões. antes de desligar. 193 .E avisou: . No momento em que Marvin chegou ao apartamento na tarde seguinte. quando lhe fizeram rigorosos testes.Este mês estou trabalhando à noite. Levy de que não lhe agradava ter de pagar aquele prêmio. que baixou ainda mais a cabeça e respondeu: .Homem de sorte! acrescentou.com certeza David não desejaria que eu fosse despedido .Obrigado. que se queixou: .Vai parar de trabalhar à noite quando tiver recebido o cheque.Para começar. .Eu faço o seguro. os médicos da Geneva Life não tinham encontrado sinais de David ser soropositivo.disse Pat.Por mais barulho que faça. Eu apareço aí com os papéis amanhã à noite. . Começava a pensar que talvez devesse ter aceitado um acordo. O telefone tocou apenas uma vez nessa noite. sim .protestou Pat.Está bem . e que o primeiro pagamento seria pós-datado. soltando uma de suas horríveis gargalhadas agudas. Provavelmente. Pat disse que lamentava muito. .Já está tudo decidido . exausto e deprimido. Dr. . Eu não devia dizer isso. mas achava que não podia fazer coisa alguma por ele . Levy olhou para Pat. eles perceberiam imediatamente a verdade.Se eu não tiver recebido o montante total. no final. Tentou preparar o jantar antes de ir trabalhar. Pat regressou ao apartamento duas horas depois. sua companhia vai ter de pagar. Suas últimas palavr .Pode.perguntou Pat. . fazendo de Ruth sua única beneficiária. . devido ao meu cliente. receando um ataque de asma. A companhia sabe que seu advogado a tem na mão. seguindo à risca as in struções de David.disse Pat. meu amigo. na esperança de que fosse sua mãe ou sua irmã Ruth.Não me parece muito conveniente . era Marvin. . ainda ansioso para se ver livre dele.

A regra de ouro dos Levy? . Pat parecera-lhe muito nervoso e não pudera ocultar seu alívio quando lhe telefonara para dizer que estava tudo bem. Levy nada fez até poder confirmar no banco de Pat que o cheque de seu client e.Eu telefono quando fechar o expediente esta noite e digo qual é exatamente a pos ição .perguntou Levy. no valor de $ 1.Estou no turno da noite durante toda esta sema na. Talvez pudesse me telefonar logo de manhã. -Você não tem nada. Deve estar em seu poder vinte e quatro horas 194 antes do primeiro pagamento de sua apólice.perguntou Pat. recebi um telefonema da Geneva Life ontem à noite.Não.Garanto que não vai se arrepender em toda a sua vida. já que Pat havia feito recentemente um check-up completo. Rolou na cama. . . 195 . Patrick .prometeu o advogado. não conseguiu dormir.Seu médico forneceu à Geneva Life amostras do seu sangue e da sua urina. a regra de ouro dos Levy. . quando estava trabal hando. . É só uma questão de processamento. arquejante. Pat telefonou ao advogado de David no último dia do mês e perguntou se tinha recebid o o cheque da Geneva Life.100 libras. surpreso. Pat tinha morrido de um ataq ue cardíaco.Patrick. O telefone tocou às 9h30.as. foram: .Ouviu.. . para o caso de ter sido passado e estar a caminho. Patrick.disse Pat. O exame não foi longo.Sim. O Dr. Patrick? .Não havia nada no correio esta manhã . Pat levantou imediatamente o fone e ficou aliviado ao ou vir a voz do Dr. não falasse. Mas vou telefonar já à outra parte. e ele caiu no chão. que não parece estar piorando. as pernas cederam. Pat perguntou a si mesmo se deveria ter informado Levy de que assinara um cheque de 1.Você está aí? Uma equipe de paramédicos arrombou o apartamento vinte minutos depois. informando Pat de que o médico o considera ra em boas condições de saúde e que ele não tinha perdido o emprego na Geneva Éife. Subitamente. É muito simples. e acontec e que são idênticas às que o Dr.E quanto ao meu cheque? . tinha sido descontado pela companhia de seguros.100 libras. . . Como eu disse. ao perceber a armadilha que Marvin l he armara. Todo o dinheiro que possuía servira para ajudar David a fazer seus pagamentos mensais à Geneva Life. . Decidiu não falar do caso. e devo dizer que você quebrou a regra de ouro dos Levy.com certeza . . Levy do outro lado da linha. vou ter de ir trabalhar já.disse Pat. .Fico muito satisfeito por você . momentos antes de sua chegada.mas que não teria dinheiro para viver até r eceber o novo ordenado. provocado por uma sufocante crise de asma. sem ainda ter recebido o milhão de dólares da Geneva Life. . Marvin telefonou-lhe uma semana depois. vai ganhar por dois lad os. Na verdade. isso não é possível .Não compreendo . Quando Pat voltou para casa de madrugada. quando estivesse em dúvida.dissera ele.disse Pat. tentando respirar. quando ia saindo. Seu coração começou a bater cada vez com mais violência.disse Levy.disse Levy. Deixe cair as coisas na s costas de quem quiser. Se não. e que só tinha fundo s suficientes na sua conta para cobri-lo . Nessa ocasião. Royston tinha em seu laboratório em nome de David Kravits. .Vai ser pago no último dia do mês. que deveria ser descontado no dia seguinte. David havi a-lhe dito repetidas vezes que. entro imediatamente com um processo contra eles. . segundo o médico se recordou. Pat sentiu que o sangue lhe fugia do cérebro. mas. . Pat foi ao seu médico uma semana depois.Exceto a asma. pen sando como iria sobreviver durante o resto do mês se seu cheque fosse descontado nessa manhã mesmo. . mas nunca nas costas de seu advogado.

Era sempre a mesma coisa às sextas-feiras. sem se dar ao trabalho de lhe desejar que tivesse um bom fim de semana. abriu a porta e jogou a bolsa sobre o banco de trás. Já havia passado mais de um ano desde que John lhe dissera que tinha conhecido outra mulher e queria divorciar-se. por estar com pressa numa sextafeira. Haskins não hesitou em reco rdar-lhe de que tinham perdido dois contratos semelhantes naquela semana. para poder chegar à fazenda a tem po para o jantar. O locutor prosseguiu. além disso. significavam que tinha poucos momentos durante o dia para se descontrair. seu ex-marido.Dezenove meses depois. Só de olhar para aquele documento. o locutor estaria repetindo as mesmas palavras. Aquela ameaça já não era novidade. se dirigiam apressadamente para o primeiro buraco no chão. quando chegava o único fim de semana que Jame s e Caroline passavam com o pai. Os carrilhões do Big Ben soaram. para não ficar presa no trânsito do fim de semana. se ligasse o rádio uip ano depois. Por isso.ou. por ter sido ela a escolhida para chefe do departamento. Quando chegou à rua. O júri aceitou finalmente que Pat tinha morrido devido a causas naturais e que a a pólice de seguro estava em vigor no momento de sua morte. As exigências de ser mãe divorciada e. Enquanto seu carro se arrastava em volta da Russel Square.estava entre os cinqüenta e oito por cento que não tinham registrado seu voto. recebeu o pagamento de um milhão de dólare s da Geneva Life. mas só depois de uma longa batalha legal travada por Levy. precisamente quando ela pensava que ia conseguir escapar. seu auxiliar Phil Haskins apresentou-lhe um complexo documento de doze páginas que exigia a ass inatura de um diretor antes de ser enviado ao cliente. Diana sentiu-se culpada . Ligou o rádio para ouvir o noticiário das seis. dirigiu-se à sua caminhonete Audi. Diana tentava sair do escritório um pouco mais cedo do que habitualmente. não ficara mais chocada . Ainda se per guntava por que motivo. apertou o botão que a levaria ao estacionamento no subsolo. a irmã de Pat. pelo menos. Ruth. A mente de Diana começou a devanear. Diana começou a pensar no fim de semana que a esperava. Os telefones ficavam silenciosos no mei o da tarde e. Faltavam dez minutos para as seis da tarde. às 16h37. Suspeitava de que o contrato havia estado sobr e sua mesa desde as nove da manhã. Goldberg e Levy. Diana pegou sua bolsa e avançou decididamente para a porta. depois. co mo formigas operárias. Olhou para o relógio sobre a mesa quando assinou a última página do documento . 199 deixando o contrato sobre a mesa de Phil. diretora de uma pequena. Saiu do elevador. calculando que aquele atraso significaria uma hora a mais em sua viagem . Leu devagar a primeira página e fez algumas emendas. irada com a traição . caía um contrato sobre a mesa. Quando se viu em segurança no elevador. poderia ser lamentado durante muitas semanas. Tentou não mostrar o que sentia quando. mas ativa companhia no Centro de Londres. Suspeitava de que. John Major recusava-se a fazer co mentários sobre seu futuro. consciente de que cometer um erro. mas o fato de guardá-lo até 16h37 era seu único meio de vingança. Podem acreditar que Marvin Roebuck se arrependeu durante toda a sua vida. antes que os porta-vozes de cada um dos três partidos políticos transmitissem suas opiniões acerca dos resultados das eleições européias. o fluxo de trânsito ao crepúsculo começava a avançar na mesma velocidade que os pedestres de ternos de listras que. 196 NUNCA PARE NA ESTRADA DIANA ALIMENTARA ESPERANÇAS DE ESTAR LIVRE ÀS cinco. dizendo que a situação na Bósnia continuava desesperadora e que a ONU ameaçava com terríveis conseqüências se Radovari Karadzik e os sérvios não chegassem a um acordo com os outros países beligerantes. A explicação do Partido Conservador para seus fracos resultados era que apenas quarenta e dois por cento do país se dera ao trab alho de votar. Diana percebeu que não teria chance de escapar antes das seis. ao fim de sete anos de casamento.

Talvez porque apenas três eram solteiros -e com bons motivos. no início da década de 1980. Os homens são tão vaidosos. e. não queria abusar da hospitalidade do casal. não os dias. a partir desse momento. Encontrou uma e introduziu-a na abertura. Diana fazia qualquer coisa para não ficar sozinha em Putney quando as crianças não est avam. Ele os fora buscar na escola naquela tarde e. a mais velha. Diana ficara com o apartamento de Putney. nunca amantes. mais por hábi . E talvez já estivesse anestesiada pelo fato de um terço dos casa is da Inglaterra estar divorciado ou separado. mas eles estavam casados há quarenta e dois anos. ergueu o olhar para o letreiro da Al. desde o divórcio. com a caminhonete e os filhos. como de hábito. ficado com a responsabilidade de criar as duas crianças sem o paiij sentia desesperadamente a falta delas logo que ficava m fora de suas vistas. todos os outros h omens do escritório exibiriam sorrisinhos idiotas às suas costas ou tratariam suas coxas como se fossem extensões do braço de suas poltronas. os devolveria ao apa rtamento de Putney por volta das dezenove horas do domingo. sempre amigos. há muito tempo. só poderia acabar em lág rimas. e. não voltara a olhar para outra mulher. Daniel e Rachael já estavam casados há doze anos. Sorriu e pensou em Daniel. Diana gemeu alto ao ter que parar junto de mais um sinal vermelho. Bastava uma mulher cometer um erro para ser imediatamente considerada promíscua. Depois disso. Daniel e ela tinham feito juntos o curso de economia na Universidade de Bristol. Casaram-se no dia da licenciatura dele. esperando que fosse Pavaro tti. Por muito natural ou curta que fosse. qua ndo chegou ao primeiro desvio. tinha de confessar que passavam cada vez menos tempo juntos. O divórcio tinha sido bastante amigável. De qualquer forma. Diana levou quase uma hora para percorrer as sete milhas de saída da cidade e. mas porque. Tinham-se sucedido rapidamente três filhos. Diana já decidira. Depois Daniel conhecera Rachael. depois de terem regressado da lua-de-mel. Em vinte minu tos não conseguira percorrer mais do 201 que duas milhas. mas. tinha concordado com a maior parte de suas exigências. nem dormia com outros homens. Mais um sinal ficou vermelho. que. Embora gostasse de seu trabalho. para cada dois ou três convites que Daniel lhe fazia. Não tinha arranjado um amante. se queria ser levada a séri o como a primeira diretora da companhia. Diana sempre invejara a vida tranqüila e sem complicações que eles levavam. e. Tinham perdido dois contratos. que John só tinha direito de pegar durante um fim de semana por mês. e Diana sentira-se orgulhosa quando lhe pediram que fosse madrinha de Sophie. mas foi confrontada com a voz estridente de Gloria Gaynor. que entrara um ano depois deles. uma ligação com alguém do escritório seria ponto negativo. aquela semana fora terrível. Desde que fora nomeada diretora. James fora dispensado da equipe de futebol da escola e Caroline não parava de lhe dizer que o pai não se importava que ela visse televisão quando devia estar fazendo os deveres de casa. pensou ela.talvez um dos problemas do casal -. enquanto a luz do sinal mudava para v erde. garantindo-lhe: "Hei de sobreviver".200 dele. embora se queixasse de ter. A única pessoa em quem vira uma possibilida de de ligação havia deixado bem claro que pretendia passar apenas a noite com ela. Abriu o porta-luvas do lado do carona e começou a procurar uma fi ta cassete. ela aceitava apenas um não porque não gostasse de estar com eles freqüentemente. Nenhum dos membros da diretoria de sua firma fora além de convidá-la para almoçar. Embora os amigos estivessem convencidos de que sua vida era excitante e bem preenchida. Daniel ocupou-se da gestão da fazenda do pai em Be dfordshire. e Diana tinha certeza de que eles não desapontariam seus pais com qualquer sugestão de divórcio. Os pais dela não haviam ocultado seu d esapontamento. visto que John. Convidavam-na com regularidade a passar com eles o fim de semana no campo. que ganhava menos do que el a .

e o carro estremeceu ligeirame nte. deixando que a mente acompanhasse a mús ica. Entrou novamente no carro e ligou o motor. Diana diminuiu novamente a velocidade ao aproximar-se do contorno seguinte. Ergueu o braço e acenou pelo espelho. já era tarde dem ais. não tinha conseguido evitá-la.repetiu. mas o motorista não mostrou qualquer interesse em fazê-lo. porque conhecia cada metro do caminho entre seu esc ritório e a fazenda. Diminuiu para deixar passar o outro carro. Estava caído sobre as ervas do acostamento mais um gato que atravessara a estrada! Saiu do carro. Teria alguma lanterna apagada? O cano de descarga estaria soltand o fumaça? Estaria. Subitamente. apesar de suas rápidas reações.. e sabia que nunca pod eria contar aos filhos o que acontecera. Diana esperou uma pequena brecha no trânsito à sua direita. mas o homem não a aproveitou. Regressou lentamente em marc ha à ré ao local onde pensava tê-lo atropelado. constatando que Gloria Gaynor continu ava a manifestar sua opinião acerca dos homens. passou pelo contorno e seguiu a toda velocidade pela Al. mas era 202 absolutamente impossível. Ouviu um baque surdo no pára-choque da frente. porque ambas as faixas se encontravam totalmente congest ionadas. Não podia aparecer com mais uma caixa de bombons. Quando seus olhos se habituaram à intensidade dos faróis. tinha escolhido a Audi por causa da sua segurança. Desligou o rádio e tentou parar de pensar no gato. Diana pisou o acelerador.. e. Começou a descontrair-se. que eles não comiam. Daniel e Rachael estavam sempre lhe dando pre sentes. Não houve qualquer aviso. Mal ela apareceu. cria ndo uma oportunidade para o carro de trás ultrapassá-la pela faixa externa. conseg uiu distinguir a silhueta de uma grande caminhonete preta que avançava atrás dela e um homem (que parecia jovem) atrás do volante. Começou a pensar se não poderia comprar qualquer coisa no caminho. Pegou o corpo do animal e depositou-o c uidadosamente na vala junto da estrada. permanecendo quase encostado ao seu pára-choque. Uma pequena criatura negra colocara-se à sua frente.Esquecera-se de lhes trazer um presente. . Quando chegou a o cruzamento que levava à Al. enquanto o trânsito passava rugindo seu lado. mas era difícil vê-lo com clareza por causa da luz forte. Ironicamente. Diana sentiu-se mal. quando se recordo u de que havia apenas postos de gasolina entre aquele ponto e a fazenda. enquanto esperava uma brecha no trânsito que lhe permitisse voltar à faixa lenta. perguntando a si mesma se o animal teria conseguido sobreviver.to do que para procurar orientação. sentindo-se um pouco idiota. mas ele permaneceu a alguns metros de seu pára-choque. conseguiu pôr o carro a mais de cinqüenta milhas pela primeira vez.Droga! . os faróis apontados para o pequeno corpo sem vida. mas os faróis continuara m brilhando.Sinto muito! . Diana começou a pensar se haveria alguma coisa errada com seu carro. Tentou aumentar a velocidade.Droga! . mas era impossível afastar o gato morto da mente. nem sequer uma garrafa decen te de clarete. Finalmente conseguiu. Tinha criado dois gatos. Parecia fazer sinais para el a. sempre com os faróis altos. Decidiu acelerar e aumentar a distância entre seu carro e o de trás. . Diana encostou o carro no acostamento. .disse. 203 Diana recuperara as cinqüenta milhas por hora quando subitamente percebeu faróis alt os no seu retrovisor. Tentou captar um relanc e do motorista pelo espelho retrovisor. Então viu-o. Lançou-lhe um último olhar ante s de voltar para o carro. Apesar de ter pisado o freio com rapidez. .

aterrorizada. Sem avisar.gritou. Só esperava que a polícia a detivesse. Observou o re trovisor e constatou que o homem continuava atrás dela. desviou-se novamente para a faixa do meio e tirou o pé do acelerador. para ter certeza de que agiria no momento certo. Diana decidira 204 que isso poderia esperar até a próxima revisão. limpando uma gota de suor. poderia inad vertidamente provocar uma série de batidas. se tivessem informações que pudessem auxiliar a p olícia nas suas investigações. Quando faltava uma milha. Tentou pensar no que de veria fazer em seguida e começou a acenar freneticamente para os motoristas que passavam a seu lado. mas ele limitou-se a mergulhar atrás dela. sentindo-se mal pela segunda vez naquela noite. haviam sugerido que instalasse um telefone em seu carro . Estav a com o corpo coberto de suor. e ele também. e passou a buzinar para todo mundo que ousasse surgir em seu caminho. se quisesse executar seu plano com êxito.Oh. se tocasse os freios. . Momentos depois avistou uma sinalização que conhecia bem. Apertou mais ainda o acelerad or e chegou aos cem. mas a caminhonete não a largava. o que ocorreria dentro de uma quinzena . fazendo a Audi correr a cento e dez pela primeira vez em sua vida. quando. e subitamente recordou-se de que. Dentro de três milhas abandonaria a estrada e entraria no caminho que levava à fazenda. Mas eles não se preocuparam com sua aflição. pensou por um momento e depois passou o carro para a faixa de maior velocidade. Diminuiu a velocidade. irromperam subitamente em sua memória. o homem do blusão preto seguisse em frente pela Al e ela se visse finalme nte livre. cartazes pregados na Al pediam aos motoristas que ligassem para um determinado número. Mas a caminhonete pre ta não a perdia de vista. ele permanecia atrás dela à distância de menos de um carro. para que lesse uma história. Usava um blusão de couro preto e apontava ameaçadoramen te para ela. e a multasse por excesso de velocidade. pensou ela. Os cartazes já haviam desaparecido. Tinha chegado lá muito mais depressa do que previra. e o velocímetro registrava cento e dez. Tentou pensar em out ras formas de alertar alguém. alguns meses antes. Chegou a cem milhas por hor a pela segunda vez ao passar pela placa indicando a entrada a duas milhas. quando entrara para a direção da companhia. quando fizesse o desvio h abitual. Diana mostrou-lhe o punho fechado e acelerou. Mesmo assim. mais uma v ez ofuscando-a. A caminhonete fez o mesmo e ma ntinha-se tão perto do seu pára-choque. meu Deus . Acelerou. como um corredor olímpico decidido a não permitir a fuga de se u concorrente. Diana acionou os faróis altos e os de neblina. A mulhe r fora violada antes de lhe cortarem a garganta com uma faca serrilhada e a atirar em numa vala. E começava a descontrair-se pensando em Sophie. Durante semanas. os faróis voltaram a brilhar através do vidro de trás.Finalmente estava livre. Passou a mão pela testa. Uma multa seria infinitamente preferível a um choque com um jovem desvairado. fazendo a caminhonete ficar ao lado dela. começou a olhar para a esquerda. Começou a rezar para que. Então ela se lembrou. que ela receou que. Decidiu que tinha chegado a hora de se afastar dele. que sempr e a esperava acordada. Acelerou até noventa. obrigandoa a parar no acostamento. subitamente. Já . Pareciam ainda mais perto. o que lhe deu a oportunidade de ver o motorista pela primeira vez. mas a polícia ainda continuava à procura do homicida. e ele também. Tinha de escolher o moment o exato. Os detalhes do crime que ocorrera naquela mesma estrada. Diana 205 começou a tremer ao recordar-se dos avisos: "NUNCA PARE NA ESTRADA".

como se desconhecesse a estrada. Ela riu alto. O minuto passara. quando visse a casa. pois a caminhonete desvi ava-se de um lado para o outro. Diana pisou o freio e deslizou para uma estrada de terra que a penas a lua iluminava. mas cinco dessas milhas eram formadas por uma sinuosa estrada de te rra e sem iluminação. atravessou rapidamente a estrada a noventa milhas por hora. Bateu com as palmas das mãos no volante. esperando a curva que conhecia tão bem. pois agora já seguia pela estrada secundária em segurança. de modo que tinha apenas um minuto para se decid ir. mas nunca conse guiu livrar-se dela por mais de alguns segundos. Passou mais uma milha. Mas seu riso transformou-se em grito ao ver a caminhonete preta atravessar bruscamente a estrada principal. O sinal seguinte mostrava três riscas brancas diagonais. O outro carro respondeu . Quase entro u numa vala. decidiu-se pela fazenda. mas isso apenas lhe proporcionou alguns momentos de trégua. aterrorizada com a idéia de que a caminhonete a ultrapassasse e a obrigasse a cair na vala. Verificou a gasolina. na frente de um caminhão. Voltou a pisar o acelerador. Apesar da estrada sem ilumi nação. Um choque de frente seria preferível a uma garganta cortada? Fez a curva e viu uma estrada deserta à sua frente. passou uma terceira e avançou. obrig ando os motoristas das faixas central e interna a pisar fundo os freios e a vociferar irados palavrões à sua pessoa. Mas não lhe interessavam os impropérios. Subitamente. Teria tomado a decisão errada? Olhou para o retrovisor. Prendeu a respiração. avisando-a de que deveria passar à faixa interna se pretendia deixar a estrada no próximo desvio. Quando passou pelo sinal com uma única risca branca. Manteve o carro na faixa externa a cem milhas por hora até avistar uma abertura suficiente mente larga. mas conseguiu firmar-se. Começou a observar cada décimo de milha que diminuía. A cidade mais próxima ficava a umas doze milhas da estrada principal. Viu na sua frente a traseira de um Land Rover. Quando chegou ao topo da estrada secundária. Diana viu um carr o que vinha na sua direção. . onde a estrada alargava ligeiramente. dessa vez conseguindo chegar a setenta. ofuscando-a novamente com as luzes no retrovisor . subir pelo a costamento e entrar na estrada secundária. Faltava menos de uma milha para dobrar. e ele continuava atrás dela. Quando faltavam cem metros. À sua direita podia ver o fluxo de trânsito contínuo da estrad a principal. ele fugiria. Manteve-se determinadamente no centro da estrada. Desde a saída da estrada principal até a fazenda eram cinco milhas. os faróis já conhecidos voltaram a cegá-la. De qualquer forma. sacudindo-se violentamente. aliviada. Em cada curva Diana conseguia ganhar um pouco de tempo. talvez cem metros entre ela e seu perseguidor. Logo depois. Diana diminuiu. acabando por se 206 colocar alguns metros atrás dela. Manteve os faróis altos e buzinou. Diana virou à esquerda na direção da fazend a. Diana sabia que só teria uma oportunidade para efetuar a fuga. mas ainda havia combustível suficiente para ela escolher qualquer das alternativas. teria tempo para sair do carro e entrar na casa muito a ntes que ele conseguisse alcançá-la. conhecia todas as curvas e estava certa de que seu perseguidor não as conhecia. O tanque estava quase vazio. tentando freneticamente pensar no que havia de fazer em seguida. e tinha 207 certeza de ter percorrido duas. Observou o velocímetro. Apareceram duas linhas brancas junto da estrada. e a fazenda ficava ap enas a sete. Ele teria desistido? Era evidente que não.nem precisava olhar para o retrovisor para ter certeza de que ele ainda estava lá. e a caminhonete preta avançava a toda ve locidade pela Al. Quando chegasse à fazenda.

Quando fez a curva seg uinte. obrigando-a a sair do carro. meu Deus! . e ela teve a certeza de que ele ia bater na traseira do seu carro. Faltava uma milha. mantiveram-se a centímetros um do outro. uma vez mais. Diminuiu a velocidade. aumentou a velocidade. ou. de modo que a caminhonete nunca tivesse espaço suficiente para se colocar a seu lado. . porém. Voltou a observar o indicador da gasolina. teria de ir até a cidade mais próxima e parar junto do Salmão Vermelho. Estava aberto. por baixo da janela da cozi nha. meu Deus. . por favor. Voltou a consultar o velocímetro. 208 Observou o velocímetro. mas não diminuiu a velocid ade. se conseguisse encontrá-lo. ao avançar em direção à casa. longe de qualquer auxílio.Meu Deus. Bandos de corvos assustados bateram as asas nos ramos pendentes. a caminhonete atrás dela também não. pisou fundo o freio. batendo no poste do portão. Tent ou concentrar-se no que faria logo que avistasse a fazenda. crocitando. Estava quase no vermelho. Já conseguia perceber a expressão surpresa e ansiosa em seu rosto. não tinha dinheiro pára mandar consertar. percebendo que talvez não tivesse gasolina suficiente para chegar à cidade. uma v ez ou outra.disse ela. A pesada caminhonete derrapou no cascalho em frente da casa. por fav or. junto do posto da polícia local. reduziu para segunda e enfiou o carro pelo portão. Diana manteve a mão na buzina.Nunc a mais pedirei nada.Duzentos metros mais adiante. ele estaria de novo atrás dela. o que a obrigou a diminuir e a encostar-se à sebe quand o os dois carros passaram um pelo outro.E então viu o portão. . avistou a silhueta da casa da fazenda ao fundo. só dessa vez suplicou. conseguiu apenas ganhar alguns metros.imitando o que ela fizera. . Não podia arriscar-se a fazer isso naquela noite. Tem de estar aberto -rezou. A trinta metros. segundo lhe explicara diversas vezes. detendo-se no canteiro de flores.e depois lembrou-se outra vez do portão e mudou sua súplica para: Meu Deus. Diana diminuía e depois acelerava em cada curva bem conhecida da estrada. Só podia rezar para que Daniel tivesse se lembrado de deixar o portão aberto. enq uanto levantavam vôo. absolutamente nada. as luzes do alpendre acenderam -se. A cinqüenta metros. Quase gritou de alívio ao ver as luzes acesas nas salas do andar térreo. começando a avançar pelo acidentado caminho de acesso. Ouviu o guinchar dos . . Daniel se esquecesse de abri-lo. Se o portão estivesse fechado.Saberia o que fazer quando manobrasse na última curva.Oh.Daniel! Daniel! . . A caminhonete não hesitou em segui-la. Diana começou a gritar: . E estava. O portão de entrada ficava geralmente aberto quando ela os visitava. Os faróis dela estavam voltados para a casa e ainda tinha a mão na buzina. Tinha as roupas encharcadas de suor. . do lado direito. enquanto o carro saltava sobre os buracos. Durante as centenas de metros seguintes. faça com que esteja aberto. Estava cheio de calom bos e buracos que Daniel.Por favor. -Fez a última curva. embora. faça com que esteja aberto. segundos depois.. Calculou que o caminho de acesso à casa tivesse cerca de meia milha de comprimento. apenas alguns centímetros à frente da caminhonete preta.que estava sempre cheio às sextas-feiras à noite. e continuava a apenas alguns centímetros atrás dela. Não ousava travar. Sabia que. Gritou: . A cem met ros da casa avistou Daniel saindo pela porta principal. Se batessem naquele lugar. Fez a curva-seguinte.Graças a Deus! . Só faltav am duas tnilhas.O portão tem de estar aberto. começou a piscar os faróis na direçã e Daniel. não poderia ter esperanças de escapar.

foi tudo o que Daniel disse. sem falar nada.disse calmamente. acima de tudo. O jovem abriu a porta e deu rapidamente um passo atrás. Empunhava na mão direita uma longa faca serrilhada. mas manteve alguns metros atrás de Daniel. não conseguir a manobrar com a rapidez necessária. Daniel avançou cautelosamente para a parte de trás do automóvel 210 e ordenou ao jovem que abrisse a porta lentamente. a cami nhonete foi se chocar com a traseira do carro dela. .Eu o vi entrar no seu carro. o corpo docente e os estudantes mais avançados já começavam a tomar consciência do trabalho de Sally. nervosa.Não se mexa. 211 NEM TUDO ESTÁ A VENDA SALLY SUMMERS GANHOU SEU MAIOR PRÊMIO ARTÍSTICO no liceu. No final do primeiro ano na Slade. . O homem do blusão de couro. .gritou o rapaz de novo. Foram-lhe entregues por Sir Roger de Grey. Mas isso. e suas telas tornavam-se mais ousadas em cada período. começara a derrapar descontroladamente. para pintura a óleo. que parecia aterrorizado. enquanto conservava a espinga rda apontada para seu peito. O som da sirene da polícia já se ouvia a distância. com a idade de quatorze a nos. Daniel voltou para ele o cano da espingarda. . No seu último ano. lhe foi concedida a bolsa de es tudos máxima para a Escola Slade de Belas Artes. Um segundo depois. Diana saltou do carro gritando: . Os três olharam para o homem acocorado no fundo do carro. desconhecendo o terreno. senão disparo . . e logo que suas rodas tocaram no cascalho do pátio anterior. para desenho. a única competição possível era pelo segundo lugar.perguntou. que estava segura de que Sally teria uma carreira notável pela frente e que seu traba lho em breve seria exibido nas principais galerias de Londres. Diana correu para d entro de casa. .O que houve? . Bride. que estava encostada à parede. quando a senhora parou no acostamento. sobre todos os melhores estudantes de qualquer ano . Daniel encostou-lhe a espingarda no ombro e fitou-o. empurrando-o contra a parede da casa e estilhaçando os vidros da janela da cozinha. vá buscar uma arma! Apontou para a caminhonete. Rachael apareceu à porta. Daniel seguiu-a e pegou uma espingarda. no seu último ano. com certeza. reunidos no dia da entrega dos prêmios. era a originalidade de suas idéias que fazia com que os outros estudantes parassem para admirar suas telas. Sua técnica de desenho era considerada absolutamente excepcional.Chame a polícia . A reitora disse aos pais. nenhum de seus colegas foi pego de surpresa.Não! Não! . Daniel avançou para o jovem. . Sally sentiu-se lison jeada por todos aqueles louvores pouco qualificados.Daniel! Vá buscar uma arma. apontando a espingarda para seu peito. Quando. Só então se lembrou de que a espingarda não estava carregada. apontando para o carro de Diana.Aque le homem me perseguiu durante vinte milhas! O homem saltou da caminhonete e começou a mancar na direção deles. . Voltou ao pátio e enfrentou o visitante indesejado. Mas. e Sally passou a fazer parte daquele minúscul o grupo de que se dizia "ter futuro". mas ainda não tinha certeza de possuir verdadeiro talento. disse ela a seus pais.Ele está dent ro do carro! . Diana recuou um pouco na direção da casa. que parara junto da traseira da caminhonete de Diana. Que mais eu podia fazer? A senhora não quis parar. e o Henr y Tonks. normalmente reservada para coelhos. o presidente da Academia Real. Nos últimos quatro anos que freqüentou St.Voltou-se rapidamente para Diana.Não! Não! . Sally ganhou o prêmio Mary Rischgitz.gritou o jovem do blusão de couro.209 freios atrás de si.e a maior part . e a mulher desapareceu rapidament e no interior da casa. um feito raro. dizia-se.

mas ainda não estava certa de que elas revelassem um verdadeiro talento. Hockney. chegou à conclusão de que teria de saber a verdade. desde Bellini a Hockney. dessa v . Depois disso. produziu uma dúzia de quadros. No enta nto. Observou longamente cada uma das vinte e sete telas e. até mesmo fins de semana com velhos amigos. serei realista e começarei a procurar um emprego. mas o que s abem os pais quando se trata de uma filha única?. Amedrontava-a a simples idéia de atr avessar aqueles portais. do público comprador. se iria procurar e mprego numa agência de publicidade. Especialmente quan do um deles era professor de música e o outro contador. Avançou com sua pasta mais alguns quarteirões. Campbell. estavam absolutamente dispostos a sustentá-la durante mais um ano se ela quisesse (para usar uma expressão dos jovens) "entrar de cabeça". bailes.Um ano. Quando chegou ao décimo primeiro mês. onde se deparou com galerias que exibiam quadr os de Bacon. se meus quadros não forem suficientemente b ons ou se ninguém mostrar interesse em exibi-los. sem ter sequer aberto sua pasta. colocou seis numa grande pasta que os pais lhe haviam oferecido no Natal anterior. Wezenski. eram a diligência e a dedicação que distingui am os que tinham êxito daqueles que falhavam.e deles acabava trabalhando nos 215 departamentos de criação das agências publicitárias ou ensinando arte a crianças entediada s em locais afastados do reino. Dunston e Chadwick. na manhã seguinte. tentar dar aulas ou arriscar tudo e produzir trabalhos originais suficientes para que uma galeria de Londres aceitasse fazer uma exposição só sua. tinha terminado vinte e sete telas. receando que os pais e os amigos não fossem francos com ela. Regressou exausta para casa. Depois de muito consultar sua consciência. mesmo que isso significasse ser humilhada. embora seus pais vivessem razoa velmente bem. mais um ano em que ela não produzisse qualquer rendimento seria pesa do para eles. por mais talento que um artista tivesse. sentiu que tinha finalmente chegado o momento de ser julgada pelos outros. Estava decidida a terminar seu trabalho e depois ouvir apenas as opiniões mais exigentes -. pela primeira vez. e começou a recusar convites para festas. apenas um ano. Não obstante. Durante os seis meses seguintes. Não conseguiu dormir. também ela. de Sevenoaks para Londres. Os pais estavam convencidos de que a filha possuía verdadeiro talento. disse-lhes: . mas sabiam quando gostavam de uma coisa. nessa noite. Sentiu-se ainda mais desencorajada e incapaz de empurrar as portas de uma galeria. Sally teve de decidir. Freud. Sally sempre fora uma leitora voraz e continuava a devorar livros e monografias de artistas. Durante esse tempo. pensou Sally. No dia seguinte voltou a juntar-se aos trabalhadores nos trens da manhã e. Quanto mais lia. quanto mais expor seu humilde trabalho à apreciação de seus proprietários. mais se convencia de que. Não permitiu que ninguém os visse. Depois de terminado o curso. Sally trabalhou durante horas e horas que nem p ercebera que existiam quando só vivia estudando. até à Conduit Street. Frink e Paolozzi. reconheceu quadros de Jones. Enquanto estava deitada. como deve sentir-se um autor depois de sofrer uma série de rejeições. e jun tou-se aos empregados que partiam de trem. Sall y começou sua busca na Cork Street. Sally sentia-se dolorosamente consciente de que. Compr eendia. Isso a inspirou a trabalhar ainda mais. e eram os primeiros a confess ar que pouco entendiam de arte. acordada. as dos proprietários de galerias . N as vitrines. de manhã cedo.e as mais exigentes ainda. utilizando todos os seus 216 momentos livres para visitar galerias de arte ou assistir a conferências sobre os grandes mestres.

Sally estava sem fala. se fosse ele o dono da galeria. 218 . Como pode ver. "Seria o senhor Bouchier?".perguntou uma jovem que se encontrava sentada a uma mes a. Nesse momento. o que fez Sally se deter. agora. traga-os. . isto é. cujo óbito Sally tinha lido no Independent. v irou à direita e deteve-se finalmente à porta da Galeria Simon Bouchier. sem conseguir disfarçar seu desapontamento. com o tempo. . porque. . se tiver mais exem plares do seu trabalho recente.respondeu. o jovem erg ueu o olhar e dirigiu-lhe um amplo sorriso. vamos lá . Sally. rodeada pelas aquarelas de Muriel Pemberton.prosseguiu ele .e talvez eu possa lhe dizer se é uma boa pintora ou não. mas nada disse.Vamos lá.Nada maus .porque a Exposição de Verão da Academ . Sally virou-se rapidamente e começou a estudar os quadros da parede oposta.O que você tem aí dentro? . Sally hesitou. . com aquele tom de pele morena dos italianos. que ainda não tinha falado. Não quis saber das galerias que exibiam antigos mestres.Nada maus mesmo. James's.gaguejou Sally. perto da janela. Eram bons. Na metade do caminho. .disse o homem . Talvez estive ssem à procura de alguém jovem.Sou pintora. se o homenzinho do casaco surrado fosse embora.Não tenho o dia todo. Os dois homens se inclinaram e observaram durante algum tempo.Em que posso ajudá-la? . . .Só estou olhando. poucos dias antes. -Vamos vê-los .ez.Obrigada . e examinando atentamente um quadro. por isso. antes de manifestar opinião. Deixe-os comigo alguns d ias e me procure na próxima semana.Sou. Ao chegar ao outro extremo da galeria. Ficou paralisada. e. muito bons . onde estava sentado um homem baixo. alguém que tivesse uma longa carreira pela frente. que geralmente só se encontra nas revistas. quando os dois homens s aíram subitamente do escritório e começaram a caminhar para a porta. E. passou sem olhar por Johnny van Haeften e Rafael Valls. fingindo concentrar-se num retrato de uma jovem em pastel de t ons azuis e amarelos.perguntou ela.Digamos. posso ver seus quadros ou não? Sally correu rapidamente o fecho da pasta de lona e dispôs seus quadros no chão. Parecia ter a idade de seu pai. um quadro que tinha algo da qualidade de um Matisse. Começou a percorrer a galeria. . virando-se.Não posso falar com você antes de segunda-feira .disse afinal Bouchier.mas Sally pensava que seria capaz de vir a p intar igualmente bem.Fez uma pausa. perguntou-se. . Esperava que sim. Foi a idéia da morte que fez Sally decidir-se pela Galeria Bouchier. Gostaria de ter visto os trabalhos de Muriel Pemberton quando tinha a sua idade. Devia ter pouco mais de um metro e oitenta. indicando o jovem alto e bem-vestido. Sally decidiu que daria a volta à sala e depois fugiria. E. . talvez conseguisse arranjar coragem suficiente para se apres entar. e esse tinha idade suficiente para ser seu irmão.insistiu ele. reparou num escritório. . tentou 217 convencer-se a si mesma.perguntou uma voz atrevida.acrescentou. naturezas mortas holandesas ou paisagens inglesas. A moça observou a pasta de Sally. Entrou e encontrou-se numa grande sala vazia. Tornou a se perguntar se valeria a pena demorar-se mais. na segunda-feira às onze e meia. deparou -se com os dois homens. . Havia ou tro homem observando o quadro. O mais baixo apontava para sua pasta.É o senhor Bouchier? . . dirigiu-se à Duke Street em St. admirando cuidadosamente os quadros.Uns quadros . vestindo um velho casaco de tweed e calças de veludo côtelé. quase calvo. tenho de levar um cliente importante para almoçar . . que expunha as e sculturas do falecido Sydney Harpley e os quadros de Muriel Pemberton.

. ontem no almoço. Parou para admirar uma representação de Cristo na cruz. por favor.O vernissage será hoje à tarde.Mas Simon Bouchier está convencido. mais do que ela poderia esperar ganhar se vendesse todos os seus quadros.Está brincando comigo? . Viu mais alguma coisa que acha que eu deva ver? Sally ficou lisonjeada por um colecionador sério pedir sua opinião. orientando seu cliente para a porta. voltando-se para partir. . e descobrirá por si própria quando falar com ele na próxima segunda-feir a.respondeu Sally. . Sally decidiu assistir à inauguração da Exposição de Verão da Academia Rea . no máximo.duvidou Sally.Não é importante o que eu penso . Sally.Olá.disse. . e disse: . .disse Tony.Não sei bem. . E.Senhor Flavelli . -Voltou-se e deparou-se comTony Flavelli. Ao fim de umas duas horas percorrendo as inúmeras galerias. .Chamo-me Antônio Flavelly. insistiu ela.confessou Sally."As pinceladas audaciosas. . vou estar muito ocupado. vai à exposição do Hockney? . . é notável. . por trás dela: .Tony. Sally voltou para casa. e cons ultou seu pequeno catálogo azul para saber quanto custava. de Craigie Aitchison. . Finalmente ergu eu os olhos para ela. Mas tratava-se apenas de interesse. 219 Na manhã seguinte.Conheço bem o trabalho dele e tive a sorte de ser sua aluna.Você também. um dia. a originalidade das idéias. não faz muito tempo.Mas o senhor Bouchier já o empurrava para a rua. logo que vocês tenham decidido o preço. quando se podia comprar um Aitchison por duzentas. acho que a escultura "Livros sobre uma cadeira". nessa tarde.disse Tony.Embora não ache que precise dela. Quanto custa? . Mas prometeu-me que poderei comprar "O gato adormecido que não se mexe". . . que lhe sorria.Gostaria de comprar aquele do interior com o gato preto no peitoril da janela. .. fez nova pe .ia Real inaugura amanhã.Acho-o soberbo! ." Pensei que nunca mais se ca lasse. Das seis às oito. agora. quando estudava no Slade.Hesitou por um momento e depois perguntou-lhe: . o que lhe daria oportunidade de constatar até que ponto seus rivais eram bons. . se me dá licença.Sim.Fitando-a nos olhos.perguntou Sally.disse Bouchier firmemente. Quando finalmente chegou ao topo da ampla escadaria.Não está à venda .. . Quase não falou de outra coisa. desejou ter um metro e oitenta de altura para poder ver por cima das cabeças da massa de gente que enchia todas as salas. não.A propósito. Talvez aconteça o mesmo com você. Meus amigos me chamam Tony.Você acha? .disse Sally. Por isso.Nem sabia que havia uma . . . trezentas libras. Gosta de Craigie Aitchison? . atravessava o parque de estacionamento e avançava pel a calçada. 220 . . dez mil libras. quando uma suave voz italiana disse. O rapaz ainda estava examinando atentamente os quadros de Sally..Boa sorte! . Sally . . E la tem talento e penso que tem futuro. . que se estend ia desde a porta de entrada. Teve de esperar durante mais de uma hora na longa fila.Bem . Sally estava segura de que já era suficientemente boa para poder apresentar algun s quadros seus na exposição do ano seguinte. o uso invulgar das cores.Ainda me recordo.disse o rapaz para ela. com a pasta vazia e pronta para confessar a os pais que o dono de uma galeria de Londres tinha mostrado interesse pelo seu t rabalho.disse Tony.Não estou. de Julie Major.. nos próximos dias.A propósito . Subitamente sua concentração foi interrompida. Sally estava sem fala.

Mas.Volta para jantar? . na esperança de que ele r econhecesse o nome. pondo a cabeça junto à porta da cozinha.perguntou a mãe. quando chegou perto cda porta. dar uma volta lenta pelo quarte irão e voltar mais tarde.gritou e fechou a porta antes que a mãe pudesse ver o que vestira. uma vez fora do alcanc e da mãe. que. . Manteve os olhos cravados no taxímetro.e começou a pensar se teria tempo suficiente para voltar a casa. sentindo-se inca paz de confessar a qualquer transeunte que não tinha idéia de onde ficava o Ritz. Quando regressou a Sevenoaks .. correndo para seu quarto. 222 . senhorita. um homem elegante de casaca negra aproximou-se e perguntou: .Senhor Flavelli. 221 .perguntou a mãe. três libras e vinte. . Sally pegou o trem que voltava para Charing Cross. . Desceu correndo a ampla escadaria e correu todo o caminho até Piccadilly. Observou-se no espelho do vestíbulo . Consultou o relógio: 18:10.Até logo. esperando chegar ao hotel por quatro libras.Vim encontrar o senhor Tony Flavelli . Olhou o relógio .Nada má . mudar de roupa e estar no Ritz às 18:30.12:45 . quase todas ocupadas. Sally sentiu-se subitamente desajeitada e desengonçada. chegando numa grande área aberta. . mãe . Sally seguiu o homem de casaca ao longo do amplo corredor atapetado e depois sub iu três degraus. quando ele encostou na calçad a. cheia de pequenas mesas circulare s. de Mu nch. que a conduza à mesa dele no Salão d as Palmeiras. antes de se dirigir ao banheiro. mas apenas por um momento. não tinha p ensado no Ritz quando se vestira naquela manhã.Gostaria muito. à medida que ele passava das duas libras.gaguejou Sally. Decidiu que não tinha alternativa. na verdade.o vestido era um pouco curto demais.Posso ajudá-la.. oitenta. . . porque er a tudo que levava na bolsa.muito mais cedo do que a mãe previra -.rgunta: . Concluiu que seria melhor sair novamente. Estava prestes a pedir ao motorista que parasse. A porta foi imediatamente aberta por um homem enorme que envergava um pesado cap ote azul e que a saudou. pelo menos. Ainda se recordava daqu eles alunos da escola de arte.Ótimo.Antes que Sally lhe pudesse dizer que não sabia onde ficava o Ritz. de modo que chamou um táxi. correu à cozi nha e explicou-lhe que sairia de novo em seguida. murmurou entre dentes: Na verdade. mas. sessenta. até chegar à estação do metrô mais próxima.gritou Sally. para saltar e seguir a pé o resto do caminho.A Exposição de Verão é boa? . nada muito estimulante. talvez.respondeu Sally. Desceu uma hora mais tarde. sentindo-se culpada pela magra gorjeta de vinte pence. Desapareceu no interior do quarto e começou a vasculh ar as roupas. passou pela porta giratória e entrou no saguão do hotel. quarenta. Ah. passavam mais tempo olhand o para as suas pernas do que para o modelo que deviam desenhar.Acho que não . pois duvidava de que a deixassem entrar num hotel tão importante vestindo jeans e uma camiseta com "O grito". senhorita? . e muito menos o Salão das Palmeiras. Subiu as escadas c orrendo. Saiu na estação. erguendo o chapéu. Mas. Podemos nos encontrar no Salão das Palmeiras do Ritz às seis e meia? . pensou -. mas. sim! Permita. depois de ter experimentado e descartado diversas peça s de roupa. Só esperava que Tony se sentisse igualmente cativado. depois das três depressa demais. Sally entregou as quatro libras ao mot orista do táxi. durante as aulas. valorizava suas pernas.Gostaria de ir lá comigo? Ela hesitou. . Tony já havia desaparecido em meio à multidão.

Deixo à sua escolha .disse Tony.A menos que queira ir até Gl asgow de avião.Estava escrito em grandes letras na parte lateral de sua pasta . .Gostei .disse Tony. não.Sim. . d esejando ter escolhido outro mais comprido} Começava a sentir-se preocupada com o que aconteceria se Tony não aparecesse.disse Sally. com um sorriso. .Mas. envergando um terno largo e uma camisa creme de colarinho aberto.Não queria fazê-la esperar. porque não tinha dinheiro para pagar a bebida. Sally também riu. 223 erguendo os olhos para ele. gelo e limão. Mas a exp ressão do rosto dele permanecia séria. . logo que se sentou. não . Sally sentiu-se confusa e lisonjeada. talvez? .Achou que teria sido capaz de fazer coisas igualmente boas . . quando ele se inclinou e lhe beijou a mão. viu-o..Não pretendia deixar transparecer essa idéia .perguntou ele. apesar de ela não conseguir descobrir exatamente o que ele fazia. . . Ao fim de alguns minutos. nervosa. .disse ela. . Dessa vez.Tenho certeza de que vou gostar mais do Hockney .Aceito o jantar . perturbada. . Sally ficou desorientada. nos degraus . .disse ele.Não chegou. Ele não podia mostrar-se mais atencioso e parecia saber tudo acerc a dos mais variados assuntos.Oh. . deu-lhe um beijo na face e começou a andar na direção de Sally. Ela agradeceu e começou a beber o refrigerante em pequenos goles. .respondeu Tony. um garçom veio atendê-la: .disse Sally. O garçom fez uma mesura e afastou-se. . . Subitamente. Puxou o vestido até onde pôde. Sally olhou. consultando o relógio a intervalos de poucos minutos.Como sabe que moro em Sevenoaks? . Era gente sofisticada. sem entender o que ele queria dizer.. em volta da sala belam ente decorada. . Eu é que cheguei uns minutos mais cedo .Só queria um pretexto para voltar a vê-la. obrigado. Espero não ter chegado muito tar de..O que achou da Exposição de Verão? . Todo mundo parecia à vontade. enquanto o garçom colocava uma taça de champanhe sobre a mesa .Mas você disse que. Havia parado para cumprimentar uma jovem elegante.sugeriu ele.disse. Caminharam alguns metros até chegarem a um restaurante na esquina da Arl ington Street. Sally pousou o copo de refri gerante sobre a mesa e fitou-o. sem saber ao certo como reagir. e colocou à sua frente um copo de cristal trabalhado com Coca-Col a. . Sally experimentou beber uma taça de champanhe e permitiu que Tony esco lhesse o prato.disse. senhorita? Uma taça de champanhe. quando o garçom surgiu a seu lado..Podemos jantar juntos. . Tony pagou as bebidas e depois levou Sally para fora do hotel.O de costume? .acrescentou.disse Sally.Peço desculpas .Posso trazer-lhe alguma bebida. Tony perguntou se ela gostaria de tomar um café "na minha casa". O garçom regress ou.Então é melhor eu esclarecer de uma vez . .Uma Coca-Cola serve. momentos depois. a fim de verificar se estaria caçoando dela. . . .perguntou o garçom.Não há nenhuma exposição de Hockney no momento disse ele. Michael . Depois de ter pedido a conta. ou poderá simplesmente t omar o trem para Sevenoaks.Foi conduzida a uma delas e.

Sim. ela percebeu que ele estava se divertindo às suas custas e corou. Francamente. São horríveis. Os quadros de Natasha não sati sfazem em qualquer desses aspectos. certo? . Não eram as dela. e da mesma qualidade disse. não são? Temos de ver muita porcaria antes de conseguir encontrar alguém que tenha realmente talento. Mas.Por que não vendem um único quadro? .. apresentando temperamento agressivo.Mas. ." Por esse prisma. . observando algum as telas. . . todo mundo será famoso durante quinze minutos.Mais doze telas.Mas vou precisar de mais ainda.Tenho um encontro com o senhor Bouchier às onze e meia. no entanto. evidentemente.É capaz de arrastar multidões a qualquer vernissage. Adeus . cabeça baixa. .Porque o público não é tão estúpido quando se trata de comprar quadros. perguntou: .. penso que o mais perto que ela esteve da realeza foi da rainha das Pérolas*. se espera que eu invista me u tempo.E qual é? . se bem me lembro. deixe-me ver o resto de seu trabalho. Mas se ele aparecer no vernissage.) 225 anos 90. Simon ergueu o olhar. em primeiro lugar.Perderia o último trem para casa.na segunda-feira de manhã.Por quê? . e teve esperanças de que ele pensasse delas o mesmo que ela estava pensando. com você. Sally não pôde deixar de pensar como teria sido o café na casa de Tony. cujo tr aje de cerimônia apresenta grande coleção de botões de pérolas. (N. Não venderemos um único quadro. Quero que se concentre em inte riores. olhando para o relógio. Dá a entender que é descendente direta do últi mo czar. Um quadro é um grande investimento para a maior parte das pessoas. minha experiência e bastante dinheiro em você. da T. . E vão ter que ser mais do que bons. Quando finalmente expre ssou sua opinião foi apenas para repetir uma única palavra: "Consistente.) ** O mainá é uma ave que. pelo menos. .." . vai lotar com certeza. todas querem acred itar que tiveram bom olho e que investiram com sensatez.perguntou Sally. .disse ele. neste momento. . até outubro.Então vou levá-la à estação.disse ela. Sally entrou na galeria alguns minutos antes das 11:30. Sally. mas vamos lotar.disse Sally.perguntou Sally.Inclinou-se e beijou-a levemente nos lábios. . Por que não festejamos com um almoço de pois que ele a contratar? Estarei na galeria por volta de meio-dia e meia. assinando a conta... tem substituído as a ves nativas e destruído as colheitas. Acha que consegue mais doze quadros até outubro. Sentada num vagão frio e malcheiroso do último trem de regresso a Sevenoaks. depois de ter fica do de pé. minha menina. Natasha Krasnoselyodkina tem uma vantagem em relação a você. .Porque afirma que é uma condessa russa. Como disse Andy Warhol: "No futuro. da T. Não queremos que perca o último trem para casa. senhorita Summers? .. (N. Sally. é boa em interiores. na segunda-feira seguint e. Aposto que nem se conhecem. Dessa vez.Bom-dia. .Quando poderemos nos ver novamente? .Pôs-se de pé.Acho que não posso . 224 Quando Tony a deixou em Charing Cross. Sally correu o fecho da pasta cheia e dispôs vinte e um quadros sobre o tapete. . começo a pensar que devem se convencer de ambas as coisas. transportada para fora de seu ambiente. uma espécie de "mainá"** dos > AramhTou o rei das Pérolas de Londres é um vendedor ambulante de hortaliças. Os jornais desta manhã até sugerem que ela é o novo amor na vida do príncipe Andrew. e encontrou Simon Bouchier de joelhos no tapete. parece que Natasha vai ser famosa durante trinta. sem imaginar que outubro estava apenas a cinco meses de distância. claro .. Simon ajoelhou-se e ficou em silêncio durante algum tempo. sabe. mas é a cara da moda.

.disse Simon .disse Simon. . . em resposta.Por acaso não conseguirá ter uma aventura com o príncipe Charles. . . pois seu interesse parecia voltado para as telas de Sally. em inglês. . Ainda não sab ia se devia acreditar nele.Acho que não . ajudaram-na a convencer-se de que devia.Obrigado por vir tão depressa.Nunca encontrei uma mulher tão bonita como você . e Sally ficou à espera.acrescentou.. .disse.Dezessete de outubro.Desculpe. onde também parecia ter sua mesa. . . .Isso é bom. Sally bebeu rapidamente um gole de champanhe. Devia telefonar aos meus pais e contar. .Não a acha espantosa? . folheou a agenda e disse: . Natasha nem reparou. Sally sorriu. Pediu uma garrafa de champanhe. sor rindo para Tony.Quando Sally ergueu sua taça. para ocultar o embaraço. Quando ele lhe encheu a terceira taça. e o sobrenome de Sally.E nenhuma com tanto talento. Simon estava ao telefone .Talvez porque não o venho procurar . se tiver um caso com ela. mas acho que n em iam acreditar em mim. se conseguirmos atrair os especuladores à inauguração. .respondeu Tony.Para celebrar seu grande triunfo. Sally estava sem fala. de cabelos escuros . é summer. e eu disse se. até ele reaparecer.explicou Tony. levando a mão ao bolso interno do * Verão.É pena . seguido de dois copos de tinto. Natasha.Natasha . para ser mais exato.Não reparei. pela primeira vez. digamos. por aquele minu to que lhe pareceu terrivelmente longo.disse Tony. . na esquina. da T. de fins de setembro a princípio de novembro? Isso afastaria a condessa russa das primeiras páginas dos jornais e nos garantiria uma casa cheia na inauguração.disse Tony. bom almoço para os dois .Não censuro o príncipe Andrew. não uma artista. volto num minuto.respondeu Tony. neste outono. A primeira reação de Sally foi a de que ela deveria ser uma modelo de artistas.Era? .vou trazer todos os meus amigo s. Não esperava que viesse me procurar hoje. . Segurou o braço de Sally e a fez atravessar a rua em direção a um pequeno restaurante italiano. .disse Simon. Não conseguiu ocultar sua inveja quando Tony e Sally saíram da galeria. que não conseguia afastar os olhos da recém-chegada. Dirigiu-se ao seu escritório.disse Simon. . . mas em outubro na Galeria Bouchier. .porque estou convencido de que. .perguntou Sally. inclinou-se e beijou-a. Não saia daq ui. mas um copo de vinho branco. tenho certeza de que comprarão seu trabalho. (N.) 226 227 casaco. T ony pegou-lhe a mão.Parabéns! . Venho apenas tentar arrebat ar Sally para o que espero ser um almoço de comemoração. vou arriscar a despesa de lançá-la a um público confiante. olhou por cima do ombro de Sally e disse: .Subitamente. . . que dure. Summers. e Sally ainda não tinha terminado a salada.disse Sally -. Tony. . porque.Olá. -Tem sido um dia memorável. o quanto teria de trabalhar até outubro para cumprir a promessa feita a Simon. . voltando-se para Sally. voltando-se para uma mulher esbelta.A Exposição Summers . O problema está sempre em fazer com que venham ver uma desconhecida.Só estou interessado nos ricos . especialmente se pretende que eu lhe dê mais uma dúzia de telas nesse tempo. se os entregar. Quando Tony lhe serviu a segunda taça. Dezessete de outubro vai ser o dia do reconhecimento de Sally. sorrindo de seu pequeno trocadilho* -será inaugur ada não em junho na Academia Real. no momento em que outra pessoa ent rava na galeria.Esqueci de dar a Simon um cheque que tinha prometido a ele. p ercebeu.Droga! . Tony correu na direção da galeria.

a gravata e os sapatos. ele a ajudou a sair do táx i. Quando o vestido lhe caiu dos ombros. entretanto.Sim. mais uma vez. consentindo. antes de tomá-la novamente nos braços. foi um dia memorável. gozando cada segundo. e ele a punha a par de seus planos para a inau guração de outubro. Tony deitou-se de costas e disse: . a mão dele deslizou para o i nterior de sua coxa e começou a subir lentamente. e não se cansava de repetir: "Original". Tony regressou um momento depois. pediu-lhe novamente que fosse a sua casa to mar café. Tony era o quarto homem que fazia amor com ela. Sally gostaria de poder passar mais tempo com Tony. Deixou-se cair para trás. ela se sentiu um pouco idiota com uma taça vazia na mão. Quando cada novo quadro ficava pronto..Depois de Tony ter assinado a conta. ela nem sequer havia percebido que ele lhe desabotoara os doze pequenos botões das costas. Mas acho que não vou telefonar aos meus pais para conta r. Quando Sally se deixou cair para trás. Tony sorriu e desabotoou sua própria camisa. No táxi. mas nunca tinha conhecido alguém tão sutil como Tony. Durante os meses seguintes. A cada vez que Sally esboçava um gesto para impedi-lo de continuar. e. Ela nunca havia perdido o controle anteriorme nte. Mas estava sempre consciente do prazo fixado por Simon. e ele foi tão gentil que ela não se queixou quando viu que o fecho do sutiã tinha sido aberto. que. enquanto Tony desaparecia em outra sal a. Sally achou que devia fazer qualquer coisa antes qu e fosse tarde demais. depois tomou-a nos braços e começou a beijá-la apaixonadamente. O braço dele deslizou em volta do seu ombro e a puxou para si. de modo que acenou afirmativamente com a cabeça. O sorriso no rosto dele foi-se tornando cada vez mais amplo. que ela foi bebendo. Conseguiu pegar o último trem para casa. mais tarde. a subir os degraus e a entrar. não lhe deu nenhuma pista. Tony encontrava-se muitas vezes com ela para o almoço. Ele pegou a taça e colocou-a sobre a mesinha. Conduziu-a por um corredor pouco iluminado até a sala. onde faziam amor até chegar a hora de tomar o último trem para casa. Finalmente. Sally nem reparou que ele já não usava o casaco. ele a tomou nos braços. Durante a hora seguinte conversaram sobre muitas coisas. Ele. agora. até aquele momento. 229 Depois. trazendo outra garrafa de champanhe e duas taças. com ele sentado ao seu lado no sofá. nunca experim entara o prazer de ser verdadeiramente seduzida. sabendo que. De qualquer forma. Sally via confusamente os móveis e os quadros que cobriam cada 228 centímetro da parede. Sally dedicou-se a transmitir suas últimas idéias às telas . arrastou-a para o chão e f ez amor com ela com tal paixão. iam de novo à casa dele. Tony também pa . Quando chegaram à casa que ele possuía em Bayswater Street. Quando a beijou de novo. Tony serviu-lhe mais uma taça. que a avisou de que a gráfica já estava terminando o catálogo e que os convites para o vernissage já estavam sendo enviados. pousou a cabeça no ombro de Tony e ele começou a beijá-la suavemente. Sally perguntou a si própria se alguma vez tinha feito amor anteriormente. Sally já decidira que não conseguiria trabalhar naquele dia. a cada novo quadro que via. depois. achou que tin ha direito a ter aquela tarde livre.Riu e Sally sentiu-se levemente envergonhada. Ela sentiu o calor do peito dele. Separaram-se por um segundo. levava-o a Londres para que Simon o aprec iasse. . Ela se aninhou num canto do sofá. Tony parecia s aber exatamente o que devia fazer. mas não se pôde impedir de desejar tê-lo perdid o. mas. mesmo quando um estudante de arte excessivamente entusiasmado começava a ir longe demais na última fila de um cinema. e tinha conhecido os outros muitos meses antes. anos. num dos casos. Sally falava sobre suas idéias para o quadro seguinte.. a caminho de Chelsea. mas Sally só pretendia sa ber o que Tony sentia a respeito dela.

. Sally passou a tarde com Tony na sua casa de Chelsea.Não seria nada mau para uma primeira tentativa. Entrou no banho pensando nele. . e agora vendem-se todos na primeira semana. . . Depois. Não é propriamente uma história de primeira página Simon fez uma pausa. vamos conseguir vender pelo menos metade dos quadros antes que a exposição feche.A propósito .Aleluia! É o melhor de todos. sem conseguir ocultar seu desapontamento. .Não se preocupe. e só temos que fazer figas para que Natasha esteja de folga nesse dia. . Nessa noite. antes de pensar a sério nessa decisão. sabe? Isso resolveria nossos problemas. Tony sugeria-lhe ocasionalmente que fosse viver com ele. Ele parecia um pouco distr aído. Os quadros não vendidos ficarão no estoque e acabarão sendo procurado s. com um pouco de sorte. Sally terminou seu último quadro e entregouo a Simon. Dep ois de terem feito amor. Nossa história por agora. .Só metade? . Dois dias antes do lançamento da exposição.recia muito ocupado e. tentando mudar de assunto.disse Simon -.e o fazia freqüentemente -. Seu quarto estava despido de quadros e agora só lhe restava esperar.Não creio que Tony gostasse disso.Associação de Imprensa. Sally tentou levantar a questão do que se passaria com eles depois de terminada a exposição. Não quero lhe dar grandes esperanças.Estão bons. ao ver que Sally parecia novamente 230 231 desencorajada. até o dia da inauguração. O telefone tocou.disse Simon. Simon decidiu não fazer nova observação destituída de tato. é que é a sua primeira exposiçã esde que saiu de Slade. mal comece a receber boas críticas. . a negócios. e Simon percebeu que talvez tivesse tido pouco t ato. e se teri a a oportunidade de uma segunda exposição se a primeira não alcançasse êxito. que. .perguntou Simon. tenho um amigo na A. . Sally foi para casa no último trem de Charing Cross. Diz q ue vai aparecer e tirar uma fotografia sua ao lado de um dos quadros.. Quando pensava nisso . ele ergueu os braços no ar e gritou: . Sally continuava amuada. mas Tony mudou habilmente de assunto. anda sempre à procura de uma boa história. . se a sugestão se transformasse numa oferta. Quando ela o retirou da pasta. .era incapaz de disfarçar seu desapontamento perante a estimativa de Simon sobre o pequeno número de quadros que poderia ser vendido. mas começava a preocupar-se com relação ao custo. Sally passara a ficar na casa dele durante a noite e pegar o trem na manhã seguinte. Sally observou as molduras dourado-escuras e os passe-partout cinzento-claros.disse Sally. era preciso que a exposição fosse'um sucesso. Na manhã seguinte. penso que. Sally sorriu. .prometera ele. nem sempre conseguia encontrarse com ela nas suas viagens a Londres. Sally ainda parecia desanimada. mas é possível que alguém se interesse.Não se esqueça de q ue continuo querendo comprar "O gato adormecido que nunca se mexe". chamado Mike Sallis.Mas vou ser seu primeiro comprador da noite . . não estão? . afirmand o que estava ansioso pelo vernissage. mas alguém atendeu antes que Sally pudesse sair do banho.A. Desde que sejamos sensatos quanto aos preços.disse Simon. Mas decidiu que. . Contribuía para a sua disposição o fato de Tony ter dito que estaria fora de Londres.perguntou Sally. Depois vai vender a fotografia à Fleete Street. acordou com a terrível sensação de que algo estava errado. L. L? . ultimamente.Ressaltam a cor das telas. Mike é fotógrafo. Sally assentiu com a cabeça. minha menina . .Só v endi um quadro de Leslie Arme Ivory na sua primeira exposição.O que achou das molduras e dospasse-partout? . ela refletia que a cas a dele poderia facilmente converter-se num estúdio.Mas ainda não é tarde para ter um caso com o príncipe Charles. mas ela se culpou . teria sua resposta pronta. O sorriso voltou ao seu rosto.

Tenho boas notícias. Sally agradeceu e estava prestes a telefonar a Tony para lhe sugerir passar a no ite com ele. Depois de ter dado a volta à sala. dois anos antes. con versando ocasionalmente com seu modelo mais acessível. da escada. Na manhã seguinte. Ergueu distraidamente a capa e descob riu uma pilha de aquarelas indistintas. Fechou a pasta bruscamente. Sally virou as páginas. Ao passar por uma mesa no centro da galeria. "o gato adormecido que nunc a se mexia". Sally. para óleos e para desenho. em cada página. I. não podia haver dúvidas quanto à identidade do homem a quem Natasha s e agarrava. Apesar da má execução. Na capa lia-se: "Exposição Summers". de modo que pudessem ir no dia seguinte. a fim de poder passar alg um tempo confrontando os quadros com as indicações do catálogo. com uma janela aberta dando para um jardim ond e cresciam ervas. mas então se lembrou de que ele estava fora da cidade. Olhou na direção do escritório e viu que Simon estava ocupado no telefone. O verdadeiro talento torna-se óbvio para todos. Sally teve de confessar que os auto-retratos de Natasha nua não lhe faziam justiça. Nessa hora todos os quadros já estarão emoldurados. Havia um gato preto adormecido no peitoril da janela. no andar de cima. Ele vai ser a primeira pessoa da imprensa a vê-los. a atenção que Simon prestara a c ada detalhe e à diagramação. quando entregara a Sally os prêmi os Mary Rischgitz e Henry Tonks no Slade. Estão fantásticos. indifere nte à chuva. à galeria. que nunca seriam exibidos. Estava prestes a fechar a pasta para ir ao encontro de Simon. os júris consideram necessário afirmar: 'Foi difícil encontrar o vencedor deste ano'. Mas logo que põem os olhos na obra de Sally Summers. por cima da reprodução de um interior que representava a sala dos pais. Ele sorriu e acenou. seus olhos iluminaram-se: havia seis de seus quadros pendurados. Voltou a olhar para o escritório e constatou que Simon ainda estava ao telefone.K. Anseio por constatar o desenvolvimento de sua carreira ao longo dos próximo anos. vendo pela primeira vez a reprodução 233 de suas obras em cores." Era um extrato do discurso de Sir Roger de Grey. R esolveu descer ao subsolo e observar o resto das pinturas. que até Sally os viu sob uma luz diferente.Olá. no mesmo ano. juntos. é Simon. Sally reprimiu um sorriso de satisfação. A propósito. Sally sentiu-se mal. . Todos querem ser os primeiros. a tarefa fica facilitada. e os quadros recém-emoldurad os estavam tão habilmente pendurados. reparou numa pasta com as iniciais "N. indicando que e staria com ela dentro de momentos. na esperança de que fo sse Tony. que não eram nada maus. V irá à galeria amanhã ao meio-dia. e Sally alcançou o raro recorde de conquistar os dois prêmios principais do Slade. quando se deteve subitamente. agora que estavam tod as emolduradas. Era evidente. e e la sentiu. Enquanto folheava os esforços de sua rival. meio nua. pela primeira vez. Sally abriu o catálogo e leu a introdução na primeira página.É para você . atravessou depressa a galeria e . Sally olhou novamente para os quadros e depois viu um exemplar do catálogo sobre a mesa.gritou a mãe. Estou tentando pensar em qualquer história para 232 convencê-lo de que tem uma reportagem exclusiva. Passou o dia ansiosa pela casa. Mike Sallis acabou de telefonar da A.". os catálogos já chegaram. "Por vezes. Sally envolveu-se numa toalha e tirou o telefone da mão dela.. Quando entrou na galeria. apanhou um trem matinal em Sevenoaks. antes de s e voltar para subir as escadas. A galeria inferior era uma massa de cor.

Mike desatou a tirar fotografias. O homem dirigiu-se logo para a cama. não especialmente interessada em enfrentar Tony.disse ele. de braços dados. Não restou nada para os clientes antigos. mas a enfermeira já estava toma ndo o pulso de outra doente. Sua outra perna encontrava-se por baixo do lençol e parecia estar bem. sentia-se mal. com lágrimas escorrendo pelo rosto.sorriu Simon.Adorei sua fotografia nos jornais da manhã. segurando algo que poderia ser descrito como um ramo de flores. mal ela esvaziou a caneca.Mike Sallis teve sua reportagem exclusiva. Aplicou logo um grande beijo em seu gesso.Do que está falando. Estava estendida numa cama. e Sally.É sempre um problema quando se vende tudo o que está pendurado logo na primeira noite. caído na rua. . suspensa por uma roldana. na esperança de chegar ao outro la do antes que eles a vissem. mesmo antes que ele a 235 cumprimentasse. .disse Sally. A um canto da grande galeria. Mas Sally não lhes prestou atenção e começou a correr para a porta aberta. verifvcando-lhe a pulsação. . de súbito. mas levou alguns momentos para conseguir focalizar a vista.disse-lhe a enfermeira. mas não era a sua. mas teve de esperar algum t empo antes que Simon aparecesse entre elas. sua oportunidade . E aquelas observações tão lisonjeiras que a sua amiga fez? Que tal é ser famosa? Sally quis perguntar sobre que ela estava falando. mas ansios a para saber o que tinha acontecido.Quando Natasha se inclinou sobre s eu corpo. Pestanejou e pareceulhe ouvir vozes.Vai beber isto para começar . Sally.Bem-vinda em seu regresso a este mundo. parou. .Uns dois dias . -Mas está se rec uperando com notável rapidez. apesar de a sua ter ficado hor rível.disse Sally. mas surgiu uma segunda enfermeira junto da cama. decidida a afastar-se tanto quanto possíve l da galeria.Está esper ando há algum tempo. James's.. Simon? .teve vontade de dizer. Simon .Sei quanto trabalho e despesas teve por minha causa. Olhou para as portas de mola ao fundo da enfermaria. Dep ois começou a tentar mover os braços.E deixou mesmo .Tem uma visita . . dando uma palmadinha na perna suspensa. Sally abriu a boca.perguntou ela. Simon estava conversando com um homem que tinha diversas máquinas fotográficas a tiracolo. Uma enfermeira aproximou-se da cama. . .respondeu a enfermeira.Sinto muito.. O guinchar dos freios e o súbito desvio da caminhonete chegaram muito tarde e ela foi projetada de cabeça no meio da rua. que lhe entregou uma caneca com suco de laranja. Sally saiu da calçada e começou a atravessar a rua. dirigindo-se à jovem. Sally obedeceu e tentou sugar o líquido p or um canudinho de plástico dobrado.Sally . enquanto se dirigia para a paciente seguinte. Tinha a perna esquerda engessada e erguida no ar. e o preto dos olhos vai desaparecer muito antes de sair daqui. tem uma perna quebrada.Claro . Antes que pergunte. -Volte aqui . espantada. . Acha que está com forças para recebê-lo? .E repare que foi uma boa fotografia de Natasha. . .disse ela.disse e le. Vo ltou a pestanejar. Moveu os dedos do pé esquerdo: sim. . Apropósito -acresce ntou.subiu as escadas até o andar de cima. Mas. . Dobrou à direita para St. Tony e Natasha avançavam na sua direção. estavam ótimos. E eu o de ixei ficar mal dessa maneira. E eu próprio não teria redigido . . . 234 Quando Sally voltou a si.Este é Mike. . e eles começam a protestar. .Há quanto tempo estou assim? .

dando uma palmadinha no gesso.Santo Deus.. 236 . É muito mais importante do que Tony. Nessa tarde.Tony comprou "O gato adormecido que nunca se mexe"? .disse Sally. mas. os especuladores acorrer am em massa à galeria. Para o leitor que aprecia esses pormenores poderei dizer que era gerente da sucursal do Barclay.disse Simon. parece q ue correu tudo bem. conforme vinha descrita em seu passaporte era "bancário". Era membro do Clube de Rotarianos local (tesoureiro honorário).que vou precisar de mais quarenta telas.perguntou Sally.perguntou a mãe. com seu correspon dente do Natwnal Westminster Arnold não se valia de handicaps. . no Sun. 237 "TIMEODANAOS. o que. "Natureza morta em St. Albans. eu acho.melhor as palavras dela. A ocupação de Arnold. . e Squete peío St..É a perna que es tá fora de ação. Mas. é melhor começar a trabalhar já. consistira em ocasionais jogos de golfe.. não o braço. Foi comprado na primeira meia hora por um colecionador sério. no Express.72m. ARNOLD BACON TERIA FEITO UMA FORTUNA SE NÃO tivesse seguido o conselho do pai. Natasha usava um vestido preto transparente e começou a fornecer à imprensa sucessivas apreciações sobre sua genialidade. seu louco . do Partido Conserv ador (vice-presidente de departamento) e era um ex-secretáno do Festival de St.Não seja preguiçosa . na década de 1970. nas duas últimas décadas. Também havia jogado rúgbi pelos Antigos Albamanos 2* XV. Por isso. Se o mundo perdesse um talento desses.Olhe para mim.Posso não ter conseguido um caso com o príncipe Charles. Albans C. tranqüila. Alb ans.prosseguiu ele.É verdade.É este o Tony? .acrescentou Simon. E até conseguiu um "Zás!". mas se você tivesse conseguido o acidente uns dias antes . rindo. Hertfordshire. Mas haverá uma próxima oportunidade. na década de 1960. eqüivale a ser capitão no Exército Real. se quiser fazer sua segunda exposição na primavera. . Já tínhamos vendido todas as telas muito antes de saírem as segundas edições. Mas já não surtiu qua lquer efeito. cabelos claros. nos círculos bancários. O passaporte dizia igualmente que tinha nascido em 1937. .. . ." Sally riu ao ouvir a maldosa imitação que Simon fez do sotaque russo de Natasha. .Disse que tinha vendido todos os quadros.Sally apareceu na maior parte das primeiras páginas dos jornais da manhã seguinte . o que é mais importante.Esse é Simon. Mas console-se . Sally sorriu."Pincelada da morte" no Mail.perguntou Sally. os críticos sérios dos grandes jornais já estão reconhecendo que Sally realmente tem bastante talento. . não inteiramente . eu cometi o mesmo erro quando o vi pela primeira vez.. como habitualmente. o que apenas servia para provar que a franzia freqüentemente. no momento em que os pais de Sally empurravam as portas da enfermaria .eu poderia ter subido os preços em pelo menos cinqüenta por cento. . que foram citadas: "A mais importante das jovens artistas de nossa geração. rindo.disse Simon. Durante essas excursões em torno do golfe.Bem.. No entanto. Arnold conseguia muitas vezes intimidar . .disse Sally. subitamente ansiosa.O que quer dizer? . C. Bank em St. pelo menos. e não apresentava marcas característlcas apesar de ter muita s rugas na testa.Não.confessou -.Como espera que eu. sua altura era 1. não. . . . mãe . atrasou-se. .brincou Simo n . O que me faz lembrar . James". . Sally sorriu e ergueu o olhar para os pais que estavam aos pés da cama. seu único exercício.

só Deus s abe a que altura já poderia ter chegado. tornara-se mais realista em relação às suas expectativas e.Quer comprar um serviço de jantar novo .. já não a expressava mais. já que Deirdre não o esperava pelo menos na próxima hora. Embora ela tivesse opinião própria acerca do que teria acontecido a Arnold se ele não tivesse seg uido os conselhos do pai.Mais ou meno s como o presidente do banco. enquanto os dois se dirigiam para o clube. os outros membros do Clube dos Rotarianos e até alguns de seus clien tes mais seletos já estavam fartos de ouvir descrições sobre a maneira como Arnold iria pa ssar suas férias de verão. Só tinham mudad o para a Costa del Sol depois de Arnold ter lido no suplemento de domingo do 242 'TIMEO DANAOS. pedindo exemplares de suas publicações. tinha acabado por aceitar os hábitos do marido. considerara Arnold Bacon "um bom partido".disse Arnold. que partia do Pireu e percorria as ilhas gregas. dizia às amigas. Durante o noivado. Deirdre.Como vai Deirdre? . Deirdre Bacon. no cabeleireiro. Mas.embora nunca tivesse pensado seriam ente em ser qualquer outra coisa. Só parou de pontificar quando outro membro do clube começou a contarlhes os boatos que corriam acerca da mulher do capitão do clube. desorientando ligeirament e seu companheiro. num iate particular. . ficou encantada ao ler. decidiu-se por um cruzeiro d e sete dias a bordo do Princesa Corina. 241 Se não tivesse escutado o conselho do pai e lhe seguido carreira no banco. ancorando em Mykonos. A única contribuição de Deirdre para a escolha foi decla rar que preferia ir de novo para a Costa del Sol e gastar o dinheiro que economizariam num serviço de jantar novo.vou navegar pelas ilhas gregas num barco de cruzeiro dizia ele. . embora ele nunca tivesse se comprometido a ponto de definir o que queria dizer c om "especial". o presi dente do Barclays. . ganhando o direito de não ter de pagar as bebidas. .Não sei o que tem de errado nosso antigo serviço da coroação. os Bacon haviam passado as férias em Bournemouth. . que os gregos eram famosos por sua cerâmica. No entanto. Só quando leu na revista trimestral do pessoal do banco que Andrew Buxton. a sofredora mulher de Arnold.seu adversário com a convicção de que nunca deveria ter sido bancário. porque os pais de Arnold sempre tinham feito isso. Depois de ter estudado centenas de páginas coloridas. Os filhos já haviam crescido. à medida que os anos passavam. dir eta ao buraco. Após anos fazendo empréstimos a clientes que pretendiam criar seus próprios negócios adquirira a dolorosa consciência de que era um homem de negócios nato. o pessoal subalter no de Arnold. Seu colega assentiu debilmente com a cabeça e depois fez uma tacada de sete pés. Quando chegaram ao bar. . e Virginia casara-se com um rapaz da região. sabe. Arnold havia prometido à mulher que fariam "qualquer coisa es pecial" quando chegasse o dia do seu vigésimo quinto aniversário de casamento.Se alguém perguntava a Deirdr e .perguntou. instalara-se na vida como dona-de-casa e mãe .. numa das publicações. Arnold consultou o relógio antes de pedir um chope para si próprio e um gim-tônica para o vencedor. que Arnold descrevia como funcionário da Companhia de Transportes Ferroviários. Durante os primeiros dez anos de seu casamento. Andrew Buxton. mais precisa. já que estavam excessivamente arraigados para ser mudados. é que Arnold começou a escrever para inúmeras companhias organiza doras de cruzeiros e agentes de viagens. passaria suas férias de verão velejando pelas ilhas gregas. que Keith era maquinista. depois de ter um casal de filhos. No momento em que entraram no ônibus que os levaria a Heathrow. Justin trabalhava para um advogado em Chelmsford. Durante muitos anos." Daily Telegraph que ali se encontrava a maioria dos gerentes bancários durante o mês de agosto.

cerca de vinte e cinco anos antes. Arnold duvidava de que ele tivesse passado pelo MOT* em St.Mas economizamos vinte e quatro libras. porque a gerência se recusara a servir chá . Chegaram ambo s à conclusão de que um táxi seria mais sensato. Estava certo de que era assim que os homens de negóc ios agiam. o veículo conseguiu transportá-los até o Centro de Atenas. O navio não era tão grande nem tão moderno como lhe parecera no folheto colorido. Albans. que Arnold achou mui to pegajoso e que. porque não queria ir apertada num ônibus quente cheio de atenienses suados.o que ia fazer nas férias. os dois veranistas tomaram um ônibus. tudo já estaria pago. O velho serviço da "coroação" que os pais de Deirdre lhe deram como presente de casame nto. 243 .surgiu uma longa discussão entre ambos sobre se deveriam tomar um táxi ou um ônibus para o porto. Arnold não foi capaz de di sfarçar seu desapontamento. e o desenho das coroas e cetros das p eças ainda em condições tinha quase desaparecido.disse Arnold. ma s. Vários pratos estavam quebrados ou lascados. Deirdre. Arnold. Seus corpos rolavam continuamente para o centro de um colchão côncavo e cheio de saliências. não o deixou de bom humor. se desfazia entre seus dedos. Espreguiçou-se e declarou que nunca se sentira tão bem. pois. a bordo do navio. apesar de tudo. Quando pôs os olhos pela primeira vez no Princesa Corina. e que a única coisa que pretendia era voltar para casa com um novo serviço de jantar. Deirdre não se deu ao trabalho de citar novamente os defeitos. Na Ingl aterra. Durante o café da manhã . Quando pousaram no Aeroporto Internacional Helenikon. num carro antigo e sem ar condicionad o. duros como tijolos. quando se reserv ava uma passagem na Olympic Airways. o resultado mais provável era esse. da T.) 244 forma. Arnold. de qualquer * MOT são as iniciais de Ministry of Transport (Ministério dos Transportes). é obrigatório um teste MOT anual para todos os veículos motorizados com um determinado tempo de serviço. enquanto esperavam a partida em Heathrow. O senhor e a senhora Bacon subiram a prancha de embarque e foram escoltados ao c . mais longa do que ele esperava. Os Bacon levantaram-se cedo na manhã seguinte.uma refeição que consistiu num croissant. Teve a sensação de que seu presidente nunca tivera o m esmo problema. Deirdre t não fez comentários. principalmente porque não tinham cons eguido dormir muito. Deirdre não achou que valesse a pena explicar-lhe que. A viagem. Arnold descobriu rapidamente a agência local do Barclays e descontou um dos seus cheques de viagem. depois de pagar a conta . ela respondia que iam fazer uma excursão de sete dias. e uma xíca ra vazia.Eu não vejo o que há de errado com o serviço . porque já estava guardando as roupas na mala. onde se reg istraram por uma noite num hotel duas estrelas (duas estrelas gregas). um queijo de cujo cheiro não gostou. quando a mulher levanto u a questão mais uma vez. explicando à mulher que não valia apena trocar mais. (N. Arnold passou a maior parte do vôo para Atenas queixando-se de que o avião ia cheio de gregos. Antes que o sol nascesse Arnold pulou da cama e abriu uma pequena janela que dava para o pátio dos fundos.tendo conferido três vezes a pequena lista de núme ros que lhes foi apresentada antes de se decidir a separar-se de mais um cheque de viagem -. porque queria ser v isto chegando ao local de embarque num carro. e suas orelhas doíam depois de terem repousado durante uma noite em cima de travesseiros convexos. encontrava-se lamentavelmente desfalcado . chamou um táxi e deu instruções ao motorista para que os levasse ao cais. Também sabia qu e a resposta seria: .

amarote, que, para grande consternação de Arnold, consistia em dois beliches, um lavatório, um chuveiro e uma vigia, sem espaço suficiente entre os beliches para que ambos pudessem despir-se ao mesmo tempo. Arnold afirmou à mulher que aquele camarote não constava do folheto, apesar de ter sido descrito na tarifa como econômi co de luxo. O folheto devia ter sido elaborado por um agente imobiliário desempregado, concluiu. Arnold saiu para dar uma volta no convés - uma excursão relativamente curta. No cami nho encontrou um advogado de Chester que passeava inocentemente na direção oposta, com sua mulher. Depois que Arnold ficou sabendo que Malcolm Jackson era sócio anti go da firma de advogados em que trabalhava, e que sua mulher, Joan, era magistra da, sugeriu que almoçassem todos juntos. Depois de terem escolhido a refeição no bufê, Arnold não perdeu tempo para dizer aos nov os amigos que era um homem de negócios nato, explicando, por exemplo, as modificações imediatas 245 que introduziria no Princesa Corina para melhorar sua eficiência, caso fosse presi dente daquela linha de navegação. (A lista, receio, era excessivamente longa para caber num conto.) O advogado, que nunca fora obrigado a ouvir as opiniões de Arnold, pareceu gostar de ouvi-las, enquanto Deirdre conversava com Joan, explicando-lhe que tinha espe ranças de encontrar um novo serviço de jantar nas ilhas. - Os gregos são famosos pela sua cerâmica, sabia? - dizia ela constantemente. A conversa não variou muito quando os dois casais voltaram a reunir-se no jantar. Embora os Bacon estivessem cansados, depois do primeiro dia a bordo, nenhum dele s dormiu muito durante a noite. Mas Arnold não estava disposto a confessar, enquan to se balançavam sobre as ondas do Egeu, no seu pequeno camarote, que, se pudesse esc olher, teria preferido o hotel duas estrelas (duas estrelas gregas) com seu colc hão cheio de calombos e os travesseiros duros como tijolos, aos beliches em que agor a eram atirados de um lado para o outro. Após dois dias de mar, o barco aportou em Rodes, e, a essa altura, já nem Arnold lhe chamava navio. A maior parte dos passageiros acotovelou-se na prancha de desemb arque, encantada por ter oportunidade de passar algumas horas em terra firme. Arnold e Malcolm dirigiram-se ao Barclays Bank mais próximo para descontar os resp ectivos cheques de viagem, enquanto Deirdre e Joan seguiam na direção oposta, em busca de um serviço de jantar. No banco, Arnold explicou imediatamente ao gerente quem era ele, o que fez com que ele e Malcolm tivessem conseguido uma insignific ante melhoria na taxa de câmbio anunciada. Arnold sorria quando saíram do banco e começaram a caminhar pela rua poeirenta, pavi mentada com pedras redondas. - Eu devia ter ido para o negócio de títulos, sabe - disse ele a Malcolrn, quando de sciam a rua. - Teria ganho uma fortuna. A busca do serviço de jantar de Deirdre não foi tão fácil. As lojas eram numerosas, e a qualidade, variada. Ela descobriu rapidamente que havia muitos ceramistas em Rodes. Por isso, era necessário determinar qual deles era o mais considerado pe las pessoas do local e depois descobrir a loja que vendia o que ela pretendia compra r. Essas informações podiam ser obtidas com as velhas vestidas de preto que se sentavam, silenciosas, nas esquinas e, das quais apenas uma em cada dez, segundo ela descobriu, falava um inglês sofrível. Enquanto o marido estava no banco poupando alguns dracmas, Deirdre conseguiu obter todas as informações de que precisava. Os quatro encontraram-se numa pequena taberna, no centro da cidade, para almoçar.

Enquanto comiam um prato de souvlakia, Arnold tentou convencer Deirdre de que, como iam visitar cinco ilhas durante o cruzeiro, talvez fosse mais sensato esper ar até chegar ao último porto para comprar o serviço no último momento possível. - Os preços vão baixando, sem dúvida - declarou Arnold -, à medida que nos aproximarmos de Atenas. - Falava com ares de um autêntico homem de negócios. Embora Deirdre já tivesse encontrado um serviço de trinta e duas peças de que gostava, a um preço dentro do orçamento previsto, concordou, relutante, com a sugestão de Arnold. Sua concordância era em boa parte resultante do fato de que o marido es tava de posse de todos os cheques de viagem. Quando o navio aportou em Heraklion, Creta, Arnold já vetara todos os ingleses a b ordo, permitindo apenas a um major (Reserva Territorial) e esposa que almoçassem com eles - mas só depois de descobrir que o sujeito tinha uma conta no Barclays. S eguiu-se um convite para jantar depois de ter vindo a saber que o major jogava bridge de vez em quando com o gerente de área de Arnold. A partir desse momento, Arnold passou muitas horas felizes no bar, explicando ao major e a Malcolm -já nenhum deles o escutava - o motivo por que não deveria ter seguido o conselho do seu pai e ido trabalhar, como ele, no banco, porque era, a final, um homem de negócios nato. Quando o navio levantou âncora e partiu de Santorini, Deirdre já sabia exatamente qu e tipo de serviço pretendia e como determinar rapidamente qual o vendedor de cerâmica com que devia 246 247 tratar, logo que pusesse o pé num novo porto. Mas Arnold continuou a insistir em q ue esperassem por um mercado maior, à medida que se aproximavam de Atenas. - A maior concorrência força a baixar os preços - explicou ele, pela enésima vez. Deirdr e achou que não valia a pena dizer-lhe que os preços pareciam estar subindo a cada nó da viagem de regresso à capital grega. Faros apenas serviu para reforçar as suspeitas de Deirdre - se ainda precisassem d e reforço - de que os preços eram notavelmente mais altos do que os de Santorini. Quando o Princesa Corina se dirigiu para Mykonos, Deirdre sentiu que, apesar do porto final provavelmente lhe fornecer um serviço de jantar satisfatório, com certez a já não seria a um preço que eles pudessem pagar. Arnold continuava a garantir-lhe, com a segurança de alguém que conhece essas coisas , que tudo iria correr bem. Chegou mesmo a bater com a ponta do indicador na parte lateral do nariz. O major e Malcolm tinham chegado à fase de se limitar a ac enar com a cabeça, para indicar que ainda estavam acordados. Deirdre foi uma das primeiras pessoas a descer a prancha de desembarque quando a tracaram em Mykonos, naquela sexta-feira de manhã. Disse ao marido que ia fazer um reconhecimento das lojas de cerâmica, enquanto ele fazia o mesmo com os bancos. Jo an e a mulher do major mostraram-se felizes por acompanhar Deirdre, que, naquela ocasião, já se tinha tornado perita em cerâmica grega. As três senhoras principiaram sua busca no extremo norte da cidade, e Deirdre fico u aliviada ao constatar que havia muito mais lojas em Mykonos do que em qualquer das outras ilhas. Também descobriu, com a ajuda de diversas senhoras vestidas de p reto, que havia na cidade um ceramista famoso, cujo trabalho só se podia comprar numa loja, a Casa de Pétros. Logo que Deirdre descobriu esse estabelecimento, passou o resto da manhã inspecion ando todos os serviços de jantar que ele vendia. Ao fim de algumas horas, chegou à conclusão de que o serviço Delphi, que estava exposto em posição de proeminência no centro da loja, seria uma excelente aquisição para qualquer dona-de-casa de St. Albans. Mas, como custava o dobro de todos 248 os que já vira nas outras ilhas, sabia que Arnold o rejeitaria, por estar fora da faixa de preços pretendida. Quando as três senhoras finalmente saíram da loja, para almoçar com os maridos, umjove

m bonito, de camiseta suja ejeans rasgadas, ostentando uma barba de dois dias, colocou-se diante delas e perguntou: - Ser inglesas? Deirdre deteve-se e o fitou nos olhos muito azuis durante um momento, sem nada d izer. Suas companheiras saíram da calçada para a rua pavimentada e apressaram o pass o, fingindo que o estranho não tinha falado com elas. Deirdre sorriu-lhe, quando ele se afastou um pouco deixando-a prosseguir seu caminho. Arnold a aconselhara a nunca conversar com os nativos. Quando chegaram ao Regga Kokkinh*, o restaurante onde tinham combinado encontrar -se para almoçar, as três senhoras foram encontrar os maridos bebendo cerveja import ada no bar. Arnold estava explicando ao major e a Malcolm o motivo por que tinha se recusado a pagar sua subscrição ao Partido Conservador nesse ano. - Não levam nem um penny - insistia ele - enquanto não conseguir pôr a casa em ordem. - Deirdre suspeitava de que a recusa em pagar tinha muito mais a ver com sua recente derrota na candidatura ao lugar de presidente do departamento local. Arnold passou a hora seguinte dando opiniões acerca de todos os assuntos, como os cortes na defesa, os viajantes da Nova Era e os pais solteiros, coisas contra as quais se manifestava decididamente. Quando a conta foi finalmente apresentada, p assou um tempo considerável investigando o que cada um tinha comido, e, portanto, com quanto teria de contribuir para o total. Arnold se resignara à idéia de que teria que gastar parte de sua tarde regateando em nome de Deirdre, já que finalmente ela encontrara o serviço de jantar que lhe agradava. Todos tinham concordado em acompanhá-los, para ver o homem de negócios nat o em ação. O Tapete Vermelho. (N. da T.) 249 Quando Arnold entrou na Casa de Pétros, teve de confessar que, aparentemente, Deir dre tinha localizado o estabelecimento correto". Fartou-se de repetir essa observação, como para provar que tivera razão em insistir com ela para que esperasse o último po rto de desembarque antes que fosse tomada a grande decisão. Pareceu, felizmente, não se dar conta de como o preço havia aumentado de ilha para ilha, e Deirdre não fez esforço algum para elucidá-lo. Limitou-se a conduzi-lo até o serviço Delphi, exposto numa grande mesa no centro do estabelecimento, e a rezar. Todos concorda ram que era magnífico, mas, quando Arnold foi informado do preço, abanou a cabeça tristemente. Deirdre poderia ter protestado, mas, tal como tantos clientes do ba nco ao longo dos anos, já tinha visto aquela expressão no rosto do marido. Por isso, resignou-se a comprar o serviço Faros - excelente, mas indiscutivelmente menos bon ito do que o outro, embora muito mais caro do que outros serviços semelhantes que ela vira em outras ilhas. As três mulheres começaram a selecionar as peças que gostariam de comprar, enquanto os maridos lhes recordavam gravemente até que ponto poderiam gastar. Feitas as escolhas, Arnold passou tempo considerável discutindo com o lojista. Finalmente co nseguiu obter um desconto de vinte por cento sobre o valor total. Uma vez determ inado o preço, Arnold foi enviado a um banco inglês onde poderia trocar os cheques de viag em necessários. com os passaportes e os cheques assinados na mão, abandonou a loja para desempenhar sua missão. Quando estava saindo do estabelecimento, o rapaz que abordara Deirdre saltou no seu caminho e perguntou: - Você inglês? - Naturalmente - respondeu Arnold, desviando-se e começando a caminhar rapidamente , para evitar mais conversas com um indivíduo com tão mau aspecto. Como dissera ao major no almoço: "Timeo Danaos et dona ferentis"*. Era a única frase em latim que ainda conseguia recordar-se, dos seus tempos de escola.

quando o único sacrifício exigido é meia hora de viagem de ônibus? 251 Malcolm disse estar de acordo.disse o motorista. e voltou-se para obs ervar mais atentamente o indivíduo mal-trajado que o abordara. sem olhar sequer para os embrulhos que ficaram sobre o balcão. vendo seus amigos à sua espera de seu regresso. como faria qualquer homem de negócios nato. quando o jovem disse: .) 250 Depois de ter escolhido um banco. mesmo quando trazem presentes" (Virgílio . com esperança. minha querida. Queria contar a novidade. Arnold extraiu uma nota de cinqüenta dracmas do rolo de dinheiro que obtivera no banco.Pensem só no dinheiro que vamos economizar . Quando chegaram à rua. acabaram por chegar a Kalafatis uma hora e vinte minutos mais tarde. Estava prestes a seguir seu caminho. Esperaram quarenta minutos sob sol forte até aparecer o ônibus. . como o motorista recolhia todo mundo que via pelo caminho.disse. pensou. sem motivos para diminuir a marcha. para que pagar o dobro.Ônibus não segue mais . sem uma palavra. e até o major. Arnold voltou-se de novo para observar mais atentamente o desconhecido jovem. sentiu um choque. .Eneida. . se tivesse sido feita num Range Rover. De qua lquer forma. Enquanto Arnold digeria essa informação. da T. fazendo sinal para que os amigos o acompanhassem a um canto da loja. como se escutasse um sábio c onselho.Viagem de regresso a Khóra dentro de uma hora. 48). quando notou as expressões de desespero nos rostos dos seus companheiros. é melhor pega r já o ônibus para Kalafatis. Recusou-se sequer a olhar para a figura malbarbeada. a mão do jovem grego ergueu-se. sobre o balcão estavam seis grandes embrulhos. que você preferia. e a mulher do major começava a sofrer os sintomas de uma enxaqueca.anunciou ele. Ultimo ônibus do dia O pequeno grupo olhou para o caminho estreito e sinuoso que conduzia à oficina do ceramista.ato de um autêntico homem de negócios. . Muito antes de descerem do velho veículo. mas não deixou de escutar suas palavras: . A viagem ao longo da ilha até a costa oriental poderia ter levado trinta minutos. Arnold concordou e. Quando Arnold v iu o veículo. inglês? Arnold deteve-se. Arnold hesitou uma vez mais e espre itou pela vitrine da loja. em troca da informação que acabava de receber . Viagem de ônibus só meia hora . .Talvez pudéssemos comprar o serviço Delphi. sem se preocupar com as paradas fixas. apesar de protestar um pouco. Mas. Dirigiram-se à parada de ônibus. disposto a especular com os lucros que poderia obter naqu ela transação.disse ele. até Arnold sugerir: . Satisfeito por ter poupado cinqüenta dracmas.Eu sei onde vender louças por metade do preço. ii. para ele.* "Temo os gregos. (N. Arnold foi direto à mesa do gerente e trocou os cheques de todos por uma taxa melhor (a diferença era insignificante) que a indica da no quadro da vitrine.Como partiremos para Atenas no início da tarde .O ceramista é da aldeia chamada Kalafatis . mas convenceu-se de que não seguiam na mesma direção. regressou à Casa de Pétros. Arnold ficou satisfeito ao ver que o jovem que lhe dera a i nformação já desaparecera. Joan exas perada. conduziu todos para fora da loja. . quando Arnold e os seus companheiros saír am. tudo metade do preço. onde Arnold ficou um pouco desapontado ao ver diver sos passageiros do navio já na fila. Ficou irritado ao ver que o jovem continuava a passear na calçada em frente à loja. assentindo com a cabeça. Deirdre estava exausta.Fiz uma importante descoberta . enquanto se dirigia triunfalmente para a loja. acabou por concordar.declarou o major -. Deirdre não pareceu muito convencida. . à espera do pagamento.Quer economizar dinheiro.

quanto mais de formular uma opinião. perderam o pouc o fôlego que lhes restava. Deirdre foi a última a sair da loja. a porta da olaria fechou-se atrás deles. ele hesitou nova mente. . sem exibir grande manifestação de triunfo. ao olhar pela janela e ver o rapaz bonito passar por e les no seu Mercedes creme.A viagem valeu a pena só pela vista . a fim de se desviar de um grande Mercedes creme que estava estacion ado à porta da loja. pegou seus embrulhos e partiu atrás de seus amigos. Deirdre não fez comentários. os seis turistas abandonaram 253 a loja. Deirdre entrou imediatamente em ação e rapidamente localizou o serviço Delphi. por um momento.gritou Arnold. que estava apreciando um supor te para cachimbos. dois jarros e um suporte para torradas. Não foi por isso que fizemos todo esse percurso? As três mulheres começaram imediatamente a selecionar artigos das prateleiras. minha querida. três jarras. Deirdre tomou uma decisão. Parou para ajeitar melhor seus numerosos embr ulhos e ficou surpresa ao ver o pessoal da loja em fila junto de uma mesa ao fun do do estabelecimento. Quando começaram a descer o caminho sinuoso .. a essa altura. Olharam. de camiseta suja ejeans rasgado. Um jovem bonito. sem olhar sequer para a taxa de câmbio desfavorável exposta na vitrine. que i ncluíram no final um serviço de jantar completo. e declarou. Deirdre não conseguia afastar os olhos do rapaz.Mas valeu a pena a excursão . Necessitaram de mais dez minutos de 252 uma decidida caminhada para chegar ao seu destino. Quando os seis fatigados turistas finalmente entraram na olaria. ela fitou seus olhos azul-escuros. ao chegar ao meio do cami nho. quando consultou uma pequena etiqueta pendurada na asa de uma terrina. ficou horrorizada ao descobrir que o preço era apenas ligei ramente inferior ao indicado na Casa de Pétros. E. e. eu sou um homem de negócios nato. para as prateleiras cheias de be los objetos. . O rapaz encolheu os ombros e sorriu. olhando para o Egeu. Onde o teria visto? O jovem ergueu o olhar e. Quando entraram no ônibus. Todos os outros se voltaram para ver como reagia o grande homem de negócios. presumo que posso comprar o Delphi. Arnol d abandonou o suporte para cachimbos. mas sentia-se penosamente consciente de que todos os seus cinco companhei ros de viagem o olhavam.Pois é. cinco cinzeiros. antes de pousar o suporte para cachimbos na pr ateleira. lembrou-se. Seus amigos nem sequer se deram ao trabalho de parar para olhar..Vocês têm que admitir que lhes poupei uma fortuna. Compreenda. dois serviços de chá. Voltou-se para o marido. eu não devia ter seguido o conselho de meu pai e decidido ser bancári o. hipnotizados. Depois de pagas as mercadorias. Quando a conta das compras de Deirdre foi apresentada a Arnold.acrescentou. Parecia -lhe ainda mais magnífico.Como é tudo pela metade do preço. -Temos que correr para não perder o último ônibus . então. Deirdre sorriu novamente. Arnol d pareceu hesitar por um momento. Deirdre devolveu-lhe o sor riso. Arnold sentiu-se invadir por uma quente onda de triunfo. Malcolm e o major assinaram silenciosamente seus próprios cheques d e viagem.. descendo o caminho com dificuldade. . um serviço de café. Arnold esta va reduzido ao silêncio. mas disse: . major. em voz suficientemente alta para todos poderem ou vir: .arquejou Arnold. descontou os cheques de viagem restantes. Deirdre chegou mesmo a tempo de ouvir Arnold declarar: .Evidentemente. mas. Arnold. estava ent regando a cada um deles um pequeno envelope castanho. com relutância. carregados com seus embrulhos. avançando para o meio do caminho.

254 OLHO POR OLHO Sir MATTHEW ROBERTS. De us devia estar muito pouco generoso no dia em que Witherington viera ao mundo. (N. porque. dado o número de casos que lh e eram oferecidos. Bernard Casson e do Dr. CONSELHEIRO DA RAINHA. Observou Casson por cima dos óculos de meia-lua. Um passo atrás de Casson estava seu assistente naquele caso. Recordava-lhe sua ju ventude.formal. Ao fim de várias tentativas. se Bernard fosse um defensor de causas em tribunal.Entre . mas cada um deles serviria para o fim que lhe tinha destinado naquele caso. Victoria seria sempre jovem . para pensar no caso. O fino bigode do solicitador e a risca perfeita do cabelo davam-lhe ar tão antiquado. que. na ocasião de sua morte . Hugh Witherington. nem miolos. enquanto aguardava a chegada do solicitador de instruções que o havia informado. aliás. mas porque as portas de seu gabinete eram tão espessas. como cega. Sir Matthew recostou-se na sua confortável poltrona de couro. forçou a mente a regressar à sua cliente e ao seu pedido de atenuação da p ena. o caso de Regina vs. . meticuloso e sempre esm eradamente correto. quando entraram no gabinete. Banks era um simples caso de homicídio.) 257 com relutância. Não se sentia muito feliz. Quando Sir Matthew tragou novamente o cigarro. constitue m as Inns of Court. desejava ardentemente ter tomado a decisão certa. mas não se sentia muito seguro quanto ao fato de ela se declarar inoce nte. que lhe atribuíam uma mentalidade de segunda classe. Matthew chegara a pensar que ele comprara meia dúzia de ternos num sal do e os usava um em cada dia da semana. Sir Matthew confiava não só em que conseguiria reduzir a pena para homicídio em legítima defesa. que enganara alguns adversários. Estava resolutamente disposto a defende r Mary Banks. Hugh Witherington. à sua frente. fechou o dossiê e colocou-o sobre a me sa. Havia. mas. da T. teria conseguido rendimento mais regular com o seguro-desempr ego. ninguém o ouviria. Se Ele lhe concedera outros talen tos. porque não lhe fornecera nem beleza.Ele lhe sorriu também e acenou-lhe. Witherington tinha finalmente conseguido entrar para o foro. O lhou para a fotografia de Victoria sobre a mesa à sua frente. que. uma complicação. no seu conjunto. porém. Bernard Casson era um advogado da velha escola . porque. ainda não se haviam sido revelados. Aparentemente. O empregado de Sir Matthew erguera uma sobrancelha quando 255 o nome de Witherington fora indicado como advogado assistente para aquele caso. talvez até fosse possível conseguir uma absolvição. Acendeu um cigarro e tragou profundamente. mas. não por gostar do som da própria voz. * Uma das quatro sociedades legais. . Reabriu o dossiê. Matth ew não apreciaria muito a idéia de ter que enfrentá-lo. Mary Banks afirmava que não poderia ter assassinado o marido com um machado nem enterrá-lo no chiqueiro. mas também que. em Londres.gritou. Enquanto olhava para o pátio do Middle Temple*. quando o último ônibus retomava seu lento caminho de regresso a Mykonos. e do advogado subalterno que tinha escolhido para o caso. O empregado de Sir Matthew abriu a porta e anunciou-lhe a presença do Dr. Dois homens muito diferentes. Seu terno de corte conservador nunca parecia mudar de um ano para outro. se o júri contasse com muitas mulheres. ouviu alguém bater à porta. se não gritasse. d epois daquilo a que Bruce Banks sujeitara a mulher durante os onze anos de casam ento. algo que a mulher sempre reprovara. Sir Mathew dava sempre graças a Deus pelo fato de seu amigo não s er bom orador. não só estava internado no hospital local. pensou Sir Matt hew.a morte havia garantido isso.

recordou Si r Matthew a seu velho amigo.Foi um prazer. tenho uma última possibilidade de convencê-la . . . Segundo penso. Voltou-se para o dossiê aberto sobre sua mesa. havia ve stígios de sangue da sua cliente no colarinho da camisa do morto.respondeu o idoso advogado.disse o Dr. . Mas receio que a senhora Banks esteja decidida a declarar-se inocente.disse. Casson .Em segundo lugar . Casson.Não me deixo seduzir? Dr. Witherington. Witherington levou nervosamente a mão ao lenço de seda do bolso do casaco. alguns dias antes de morrer. como se seu colega estivesse no banco das testemunhas -. .disse. . .disse Sir M atthew.e aprovei tei a oportunidade para lhe transmitir sua opinião. Terminadas as amabilidades convencionais preliminares. Sir Matthew. foram as palavras que ela usou.Portanto. baixando a guarda. Matthew sorriu perante o estilo formal de seu amigo. . só descobriram o corpo pelo menos duas semanas depois. Sir Matthew.. Embora. fazendo uma ligeira r everência para demonstrar que continuava a apreciar as antigas cortesias.E a senhora Banks tem uma última oportunidade de convencê-lo .Sim.disse Sir Matthew. . meu assistente nesse caso . assentindo com a cabeça.interrompeu o solicitador.Permita-me que lhe diga que estou encantado pelo fato de o senhor ter aceitado esse caso. .disse Casson. Sir Matthew pôs-se de pé. A senhora Banks afirma categoricamente que não poderia ter com etido o crime porque estava cega.Não. -Mas. acendendo outro cigarro. Sentiu que estava perdendo a luta com seu velho amigo e que tinha chegado a hora de passar ao ataque. se bem me lembro acrescentou o advogado com um sorriso.. . a polícia acha que o homicídio poderia ter sido comet ido vinte e quatro ou mesmo quarenta e oito horas antes de a senhora Banks ter dado entrada no hospital. . olhando diretamente para Casson. Afinal. .Touché .Também li o relatório dele. mas ape nas por um breve momento. 259 cegueira. Casson . dessa vez. De qualquer f orma. Esperou que ambos se instalassem antes de começar.Penso que não conhece Hugh Witherington. antes que . "Especialmente tendo Sir Matthew Roberts como meu defens or". e informei a senhora Banks do seu teor.disse Sir Matthew.Sinto-me muito feliz por voltar a trabalhar com o senhor. apagou o cigarro e indicou aos dois homens as poltronas di ante de sua mesa.O relatório do patologista é singularmente vago quanto à hora da morte .disse Casson.. . Mas ela insiste em dizer que está inocente e acredita que o júri se convencerá disso. Sabia que Bernard nunca son haria tratá-lo pelo primeiro nome na presença do assistente.Foi muita amabilidade de sua parte ocupar-se desse caso.Então ela continua a afirmar sua inocência? . . aliás.Prometeu a Victoria.disse el e.interrompeu Sir Matthew. embora ambos soubessem que o advogado não fazia mais do que cumprir as tradições do foro. . o idoso advogado extraiu um dossiê castanho de sua velha pasta Gladstone. até nos encontrarmos há p ouco no corredor .Em primeiro lugar . Sir Matthew . ela estava internada no hospital local. abrindo o dossiê . sem fazer caso do comentário do amigo. Dr. .respondeu Casson -. Dr.brincou Sir Matthew. apontando com um gesto o pouco notável advogado mais jovem. consultando calmamente suas próprias n otas. para manifestar seu apreço p ela rápida resposta do solicitador. Casson. enquanto apagava o cigarro quase inteiro. .mas Sir Matthew limitara-se a sorrir e não fornecera qualquer explicação. Sir Matthew .Minha cliente aceita isso . quando o corpo foi desenterrado. provocada pelo marido. não tinha tido o prazer de conhecer o Dr.. -Voltei a entrar em contato com minha cliente desde a última vez que nos vimos . na hora de sua morte. me tenha entregue um caso de certo modo complicado. .

a senhora Banks é uma mulher muito esperta. .é que sua cliente afirma ter ficado cega quando o marido a atingiu com uma frigi deira quente. Aparentemente. . Dr.porque o ad vogado de acusação vai certamente pedir à senhora Banks que lhe explique por que motivo adquiriu quatro grãos de estricnina de um fornecedor de produtos agrícola s de Reading. Dr. . .Não temos muitas alternativas . encontravam-se nela as impressões digitais de s ua cliente. . pondo-se de pé e começando a pass ear pela sala. .Ah.Um ponto interessante .Uma opinião que acho difícil refutar no tribunal . . que já estavam até matando as galinhas. Se eu estivesse no lugar dele repe tiria várias vezes essa pergunta.disse.disse Casson.Ainda se vê nitidamente a cicatriz no rosto de minha cliente .Mas o júri aceitará suas explicações .E não nos ajuda muito o fato de a única pessoa que visitava a fazenda regularmente ser o car teiro. e sabe Deus quem pode ria estar disposto a encarregar-se dessa tarefa.disse Casson. e receava que atacassem os outros animais da fazenda. . Casson ergueu uma sobrancelha. Casson .sugeriu Wither ington. Mas posso afirmar-lhe. que a mim ela não engana.Possivelmente .Eu não acredito nela. .Em seguida.quando s ouber que o homem assassinado tinha uma longa história de violências. Casson. .E o médico está convencido de que ela está efetivamente cega. consultando suas notas -.260 Casson tivesse oportunidade de prosseguir -. Rupert. que ela não o agüentará ..disse Casson. foi encontrado no dia seguinte. . Mas ele estava na escola interna naquela ocasião. .Bem vê. . quando a pá que serviu para abrir a sepultura da vítima foi finalmente descoberta.O problema seguinte que temos de enfrentar . todo mundo da aldeia se recusava a ir além do portão.Ao contrário do marido. .disse Sir Matthew. -Virou outra página de suas anotações. ou com um olho negro.Isso exige tal esforço de minha credulidade. Casson. por vezes sangrando em virtude de golpes na cabeça.disse o Dr.Também podemos explicar isso . com um braço quebrado? -Ela sempre declarou que esses ferimentos tinham sido feitos quando trabalhava n a fazenda que o marido dirigia.. cuja pr esença quase fora esquecida na sala.Os médicos são mais fáceis de convencer do que os advogados de acusação e os juizes expe rientes. . Bastante conveniente. virando outra página do seu dossiê. não estava? .Em terceiro lugar. .Não vamos negar isso .Essa foi apenas a opinião dos patologistas da Coroa . um machado. quando foram examinadas amostras do corpo. pouco antes da morte do marido. Dr. erguendo a voz . . sim.disse Casson. com pouca vontade de ceder a Witherington quand o ainda tinha em seu poder mais um trunfo para jogar.perguntou Sir Mathew. meu problema é simples.disse Sir Matth ew. . Dr. .Fechou o dossiê. Reconheço o fato de que ela já levou diversas pessoas a acreditar nessa história incrível. a quantidade de estricnina enco ntrada no corpo teria chegado para derrubar um elefante.disse Sir Matthew. Casson. para não falar do filho de nove anos.disse Sir Matthew . . Sir Matthew não conseguiu ocultar a surpresa. mas ela explicou que e stavam tendo problema com ratos. .prosseguiu . quando o instrumento utilizado para golpear o corpo. e uma vez. mesmo.Isso teria tornado mais fácil que alguém entrasse e matasse Banks . olhando para seu assistente. que sua cliente era regularmente vista na aldeia local cheia de hematomas. havia um cabelo da senhora Banks preso no cabo. parando de circular pela sala e retornando à sua cadeira.S ir Matthew fez uma pausa. . não lhe parece? 261 . Casson.

Dr.Bom-dia. depois de erguer-se da cadeira. . Havia uma pequena janela com grades no meio da parede. com certeza. folheando sua agenda. Cassou. Podemos sempre contar com um grupo de mulheres para fazer uma manifestação durante a audiência.Trouxe alguém com o senhor? . voltando a um tom mais conciliatório. senhora Banks. virando ligeiramente o rosto na direção de on de vinha a voz. Sabia. quando ela afirma tão categoric amente que está inocente? perguntou Casson. 262 . Sir Matthew. 263 Quando Sir Matthew entrou na sala de visitas da prisão de Holloway e viu Mary Bank s pela primeira vez. Essa mulher deve ter coragem. . Casson . Ela fez uma ligeira reverência quando Sir Matthew. Só quando observou a estrutura óssea de seu rosto e sua figura esbelta é que percebeu que devia ter sido uma bela m ulher.e depois estendeu subitamente a mão direita. Sir Mathew pôs-se novamente de pé e começou a dar voltas pela sala em silêncio. Sir Matthew permitiu a Casson que se sentasse diante dela à mesa de fórmica lisa. mesmo daquela forma rudimentar. O advogado serviu-se ruidosamente de uma xícara de café. Qualquer juiz que ditasse uma sentença severa contra M ary Banks seria considerado chauvinista e acusado de discriminação sexual pelos redatores de todos os jornais do país. ficou momentaneamente estupefato. despida de outros móveis. -Sim. senhora Banks . . ela vai s er uma digna adversária para qualquer advogado. Hugh? .respondeu a mulher. que projetava um feixe de luz sobre sua cliente. para não falar em imaginação. . conquistaríamos a simpatia do júri. no centro da sala de tijolos de cor creme. pelo dossiê do caso.O doutor Witherington e eu temos um plano.Bom-dia. satisfeito por finalmente terem pedido sua opinião.Holloway . mas a mulher frágil. temos de convencê-la a mudar de opinião. voltando de novo sua atenção para o solicitador.respondeu ela. Sir Matthew .respondeu Casson. se a senhora Banks insiste em que está diz endo a verdade e nos pede que a defendamos nessa base? .Sim. .respondeu o jovem advogado. . depois de tudo o que ela passou.disse Sir Matthew. venho acompanhado por Sir Matthew Roberts.disse.Mas gosta ria de convencer nossa querida cliente a confessar-se culpada de homicídio em legítima defesa. . Como Sir Matthew não lhe oferece sse qualquer pista quanto a seu plano.Mas como podemos ter esperanças de conseguir isso. sem mover um músculo. Não.Mas o que podemos fazer. concordo . estou ansioso por conhecer Mary Banks. conselheiro da rainha. deu um passo à frente e disse: . Conseguiríamos tirá-la da prisão em poucas semanas. Dr. com as mãos pousadas no colo. quando vejo nossa cliente? .Então. senhora Banks . parecia ter uns 50. . de cabelos grisalhos que ali via senta da.indagou Sir Matthew. . . . Sir Matthew . Um sorriso iluminou o rosto de Sir Matthew.Onze horas de segunda-feira seria razoável para o senhor? ..Onde ela está agora? . voltandose para Witherington pela segunda vez. Casson. detendose diante do solicitador.disse. que ela tinha 37 anos.Bom-dia. Dr.Bom-dia.disse Casson. Sir Matthew e o assistente sentaram-se de ambos os lados do solici tador.Pouca coisa. ainda olhando n .Então estaremos em Holloway às onze horas de segundafeira . Casson não insistiu.perguntou Casson. .perguntou Casson. que será seu advogado de defesa. não é verdade. encarregado da instrução. Anote o que lhe digo.perguntou Sir Matthew. .E . para lhe ser franco.

Casson reprimiu um sorriso. Meu marido tirou a frigideira do fogão quando eu estava prepar ando o café da manhã e bateu-me com ela.. e não acho que.Não acho que Bruce estivesse interessado em q ue eu voltasse para a fazenda.Não se surpreendeu por seu marido não ter ido visitá-la durante o tempo que passou n o hospital? . Ele vai assumir o papel de advogado de acusação.Dizia "não acho que. . -Terei muito prazer em responder a qual quer das perguntas de Sir Matthew.disse Sir Matthew. nunca mais viria a desaparecer durante toda a sua vida.Não se esse homem violento de cem quilos tivesse sido envenenado antes de ser mo rto a machadadas . para podermos decidir qual será a melhor abordagem do caso. pedi ao vigário. Estive partindo lenha para o fogão antes de preparar o café dele. que começou a empurrar lentamente sua xícara de café para a beira da mesa. . Dr. depois de ter colocado os pedaços da xícara sobre a mesa. .E depois.disse Cas son -.disse Sir Matthew calmamente. .Fico muito satisfeita por saber que vai me representar.Muito bem .Sir Matthew gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Witherington não se perturbou. tanto fazia eu voltar ou não. .respondeu a senho ra Banks. . . que fosse ver como Bruce estava se arranjando sozinho. Casson? . senhora Banks . posso. . saberia bem o frio que faz às cinco da manhã..Então tenho de lhe perguntar por que motivo não havia impressões digitais no cabo do machado. Ele me transportou para sua caminhone te e me levou para o hospital local.Não.perguntou ela. o nosso carteiro.a direção de Casson. que. . . a cinco milhas do local onde o crime foi cometido . o que aconteceu? . para que a senhora se habitue ao que a espera quand o estiver no tribunal.Sim. Os olhos de Sir Matthew não se desviaram do rosto da senhora Bank s. Ela deu um salto.Sim.Exatamente.A xícara caiu da mesa e estilhaçou-se ruidosamente 265 no chão de pedra. Então reconheci a voz de Jack Pembridge..disse Sir Matthew. Afirma que sua cegueira foi provocada por uma pancada na cabeça. sim .Oh. . . .Continue. mas não se virou na direção da xícara quebrada. mas o rebordo da frigideira pegou do lado esquerdo de meu rosto.Sou muito desastrado. Sir Matthew. .Se realmente foi nessa ocasião que o crime foi cometido respondeu Sir Matthew. Quando acordei tive a sensação de que havia uma pes soa na cozinha. . senhora Banks. Sir Matthew.Desmaiei e caí no chão da cozinha. Eu me abaixei.Está bem. Para ele. que pesava cem quilos.Mas pode explicar por que motivo a polícia encontrou um cabelo seu no cabo do machado que foi usado para esquartejar o corpo de seu marido? . .Foi culpa minha . -Compreendo .Levou a mão à cicatriz por cima do olho esque rdo. Eu tinha ameaçado deixá-lo por diversas vezes. Não tinha idéia de quem fosse até que ela falou.perguntou Sir Matthew. . há cerca de duas sem anas. Sir Matthew. Tenho certeza de que não vai ser difícil a um homem da categoria 264 dele demonstrar que uma mulher frágil e cega seria incapaz de matar a machadadas u m homem violento. Depois que eu estava em Parkmeade. .respondeu a senhora Banks. por favor ." .O que seria uma grande proeza por parte de alguém que se encontrava num leito de hospital.. . Sir Matthew.Porque eu usava luvas. que ia me visitar todos os dias. '.disse Sir Matthew.disse a senhora Banks. em meados de outubro. . inclinando-se e apanhando os pedaços de louça espalhados pelo chão. . nervosa. Desta vez Casson permitiu-se sorrir. Se alguma vez tivesse trabalhado numa faze nda.E foi enquanto estava no hospital que a polícia descobriu o corpo de seu marido? . . pelo seu aspecto.

. Começou a circular em volta da senhora Ban ks. Sir Matthew.Estávamos perdendo muitas galinhas . . Sabia que a coordenação do tempo tinha de ser perfeita. a porta no outro extremo da sala de visitas abriu-se e entrou um menino de cerca de nove anos. Rupert Banks deteve-se em frente à mãe e sorriu. Sir Matthe w. . senhora Banks. Momentos depois. sem se perturbar com o sarcasmo do advogado. afinal.respondeu a senhora Banks.Witherington ainda não tinha movido um músculo. . que era naquele fim de semana.Voltemos agora a 266 nossa atenção para uma coisa que suspeito de que não fazia todos os dias. Em nenhum momento se moveram. como. 267 -Já tinha ido àquele fornecedor? . Quando estava exatamente atrás .E a pá. mas com uma pessoa extremamente astuciosa. Sir Matthew começou a circular em volta da senhora Banks pela última vez. .Ia lá regularmente . enquanto Sir Matthew completava seu círculo e a fitava novamente de frente. . resistindo à tentação de consultar o relógio. foram suas palavras. "De uma vez por todas!".Faço compras em Reading em quintas-feiras alternadas explicou a senhora Banks. para que precisou de uma quantidade tão grande? Em segundo lugar. mas voltaria no fim do período. a comp ra de estricnina. quanto ao sangue encontrado no colarinho da camisa de seu marido? O investi gador da Coroa diz que combinava com o seu. .Não.disse Sir Matthew. mas não obteve qualquer reação.disse Sir Matthew. O sorriso no rosto de Casson era quase de triunfo.disse a senhora Banks. Acho que ouvi a porta se abrir. exatamente como lhe tinham dito que fizesse. . conservando-se atrás de sua cliente.É sim. por que percorreu trinta e sete milha s até Reading para comprá-la? .Encontrará sangue meu em muitas coisas daquela casa. se procurar bem. Quase cheg ara a acreditar que talvez a tivesse avaliado mal. Eram 11:17. .Virou a cabeça e fixou o olhar a uns trinta centímetros à direita dele. calmamente.. Imagine-se. por certo. . Sabia qu e seria uma questão de segundos. . enquanto Casson observava os olhos dela.Ainda não me explicou por que motivo precisava de tão grande quantidade de estricn ina . com o mesmo veneno . -vou lá pelo menos uma vez por mês.Mas.Mas seu filho estava internado numa escola naquela ocasião. refletiu. Sir Mathew permaneceu silencioso. Todos três o bservaram atentamente sua cliente.Não . porque começava a adquirir a desconfortável consciência de que estava lidando não apenas com uma mulhe r esperta. Sir Matthew franziu a testa e pôs-se de pé. mas tive motivos para usá-la todos os dias na semana anterior.disse a senhora Banks. consultou o relógio.Meu marido pensou que fossem ratos. não é verdade? .Tem mais alguém aí? . . Em primeiro lugar.perguntou a senhora Banks. Os olhos da senhora Banks continuaram fixos em algu m ponto entre Sir Matthew e o Dr Casson.Eu também temia pela segurança de Rupert . .Compreendo . Casson e eu.E.disse ele. isto é. Não existe um fornecedor de produtos agrícolas mais perto. Quando Sir Matthew estava exatamente atrás de sua cliente.Só estamos aqui o Dr. . indubitavelmente.disse Sir Matthew. o gerente poderá confirmar. que está cheia de impressões digitais suas? Esteve cavando alguma coisa ante s de preparar o café naquela manhã? . foi ele quem acabou e de uma vez por todas. sempre sem mover a cabeça. Esperou mais uns dez segundos e depois voltou-se e saiu. . enquanto a criança avançava silenciosamente para ela. que uma pessoa que tivesse vivido durante onze anos com um homem como Bruce Bank s teria de ser astuciosa para conseguir sobreviver. de modo que me disse para comprar uma boa quantidade de estricnina para acabar com eles.

extraiu o olho da órbita e colocou-o no meio do lenço de seda. olhei para dentro do guichê. A senhora Banks não mostrou reação alguma. ela iria provavelmente encontrar-se com o namorado ou com o marido. Depois que ela desapareceu de vista. Sir Matthew levantou-se e sorriu à sua cliente. Não percebiam que ela estava co migo? Ou. mas só consegui escutar a resposta do bil heteiro: . a caminho do trabalho.dela de novo. e. Descobri um espaço para estacionar à minha esquerda e me enfiei nele. . De repente eu a vi. compreendendo que seria pouco provável que conseguisse encontrá-la em meio a tanta gente. uma mulher jovem e um homem de meia-idade. até mesmo no segundo balcão. inspecionei a multidão que conversava. mesmo conseguindo. Sir Matthew complet ou seu movimento e reparou que havia gotas de suor na testa da senhora Banks. Sem qualquer aviso. mais duas pessoas. que continuava sentado e m frente a ela. se deixar aqui. Talvez devesse subir e descer até localizá-la. Tentou rapidamente recompor-se. senhora Banks . Ela agradeceu e caminhou na direção da platéia. Witherington retirou o lenço de seda do bolso do casaco. Não conseguia tirar os olhos dela. no balcão. que me sentiria muito mais confiante se a senhora confessasse homicídio em legítima defesa. que estaria. rodeando o Aldwych. Witherington estendeu os dedos da mão direita. quando a vi pela primeira vez. pois o pano vai subir daqui a alguns minutos. Depois de Witherington ter polido o objeto de vidro de forma arredondado. desdobrou-o lentamente e estendeu-o sobre a mesa.Não há muitas possibilidades. comigo. 268 269 COMO PREFERE A CARNE? SERIA POSSÍVEL UMA PESSOA SER TÃO BELA? Seguia no meu carro. ao fim daquela noite. e só havia uma pessoa à sua 273 frente. Atrás dela. e reparei que ela p roduzia exatamente o mesmo efeito em outros homens que estavam no saguão.Mas. introduziu o olho na órbita. Estava numa fila diante da bilheteria com o letreiro ESPETÁCUL O DESTA NOITE. mas. em seguida. de repente. Saltei do carro e corri para o teatro. Fiz uma lenta volta de trezentos e sessenta graus. Mas sabia que não poderia entrar no teatro sem comprar um ingresso. Quando cheguei ao saguão de entrada. Ela lhe devolveu o sorriso. melhor. antes que pudesse confirmar minha fugaz impressão. ela havia desapare cido em meio à multidão dos freqüentadores do teatro. no momento em que ela chegou perto do guichê: Inclinei-me para a frente e tentei ouvir o que ela dizia. mas já era tarde demais. Minha primeira impressão foi confirmada. fez um sinal com a cabeça a seu assistente. Se continuasse a olhar pa ra ela durante mais um momento. Era indiferente olhá-la dos tornozelos para cima ou da cabeça até embaixo: aquela mulher era perfeita. A senhora Banks virou momentaneamente a cabeça. inclinou levemente a cabeça e detevese antes de colocar a mão direita sobre o olho esquerdo. perguntei a mim mesmo. se m sinalizar. à sua frente.disse -. . teria batido na traseira do carro que seguia à minha frente. Deixou-o ficar sobre a mesa durante uns trinta segundos e depois começou a poli-lo. Mas ela poderia estar sentad a em qualquer lugar na platéia. minha senhora . verei o que posso fazer. Senti vontade de lhes dizer que não valia a pena tentarem. e que.Devo confessar. Ela subia os degraus do Teatro Aldwych. Corri para a fila. provocando várias buzinadas irritadas do carro que vinha atrás de mim. Deveria tentar comprar um ingresso?. ergueu lentamente a cabeça até fitar a mulher bem de frente. O ingresso que e . mas não descobri sinais dela. quand o se sentou.dizia ele. que teria um met ro e oitenta de altura e seria parecido com Harrison Ford.

Tentei concentrar-me no que se passava no palco. lambi. Comecei a pedir a Deus que o homem que estava atrás dela não comprasse um ingresso só...disse ele. .perguntou ele. Eu estava prestes a tentar a primeira frase de minha segunda cena.Obrigada. quase suspirando.perguntou.Onde deseja ficar? Balcão ou platéia? .Guardou o envelope na bolsa. desconfiado. no meio da fila. dizia o pai ao futuro genro. eu já tinha ensaiado minha fala e esperava não precisar de ponto. A garota que estava na entrada da platéia conferiu meu bilhete: F-l 1. Minha amiga deve ter pensado que eu não vinha.O bilheteiro pediu que eu lhe entregasse isto. olhos cor de avelã.Foi o trânsito.comecei a dizer. tentando mostrar-me ofegante. .. um pontapé no baixo-vent re ou. . Verifiquei o preço do bilhete: vinte libras. dois berros? . Quando me dirigia rapidamente para a platéia.. S oltei um mudo grito interno de satisfação ao perceber que o teatro tentaria vender os ingressos que lhe restavam antes de se preocupar com as devoluções entregues pelo público. balcão. O homem da bilheteria sorriu.. por entre as fumaças de seu charuto. . Ao ouvir a palavra "carro". Retribuí o sorriso. .disse o bilheteiro consultando o computador à sua frente. Recordei-me de que os críticos haviam tecido grandes elogios à peça quando aparecera n o National Theatre. Suspirei de alívio quando a jovem à minha frente apresentou seu cartão de crédito e pediu quatro lugares no balcão. O inspetor olhava para uma casa onde uma família eduardiana se preparava para um j antar de celebração do noivado da filha. Retirei vinte libras da carteira.Ah. .. no momento em que soava a campainha. . .Obrigado . Priestley". E não consegui arranjar um lugar para estacionar. do lado direito. lembrei-me subitamente de que tinha abandonado o meu na porta do teatro.la entregara tinha sido colocado de lado. fechei. entregue aqui o meu bilhete. lembro bem dela .Não diga platéia . quando as luzes começaram a baixar e o pano subiu pa ra o primeiro ato de uma peça de teatro de verdade. com esperança.. Ela terá. tentando não mostrar meu alívio por ele ter reagido tão bem à dei xa de minha cena final. entreguei-lhe o envelope com as vinte libras e sentei-me ao la do dela. .Pode descrevê-la? . pensei que não ia conseguir . B. Seis filas a partir da frente. um vestido de seda vermelho qu e.Graças a Deus.disse eu. de J. obviamente satisfeita por alguém ter comprado o bilhete devolvido. col oquei no envelope. assinalando especialmente o desempenho de Kenneth Cranham. Mas como eu poderia contornar o problema? 274 No momento em que o homem à minha frente pagou o ingresso para a fila H. balcão. cortado curto.disse ele. tirei um envelope de uma pilha sobre a prateleira ao lado da bilheteria. .Diga balcão.murmurei. Estaria na linha amarela dupla? Ou pior ainda? Não me interes . Franzi a testa. Lancei uma olhadela no 275 programa que ela tinha no colo e li as palavras: "A visita do inspetor. Desci lentamente até encontrá-la. para ser vendido? Ele não pareceu convencido. . Deveria dar-lhe uma punhalada nas costas. Enquanto passava sobre os pés das pessoas já sentadas. O bilheteiro olhou para mim.Tenho um na fila H .. Estava sentada ao lado de um lugar vazio. "Estive pensando em comprar um carro novo".Tem uma entrada para o espetáculo desta noite? . ela se voltou e sorriu. por acaso. Era evidente que meu diálogo não o impressionava. Pegou o bilhete que ti nha posto de lado e entregou-me. simplesmente. . sim. indicando que faltavam três minutos para o início da peça. Subitamente percebi que não tinha a mínima idéia da peça que ia ver. .Cabelo escuro.Platéia . mas não pareceu impressionado com minha atuação.

Anna Townsend . . Podiam ficar com ele em troca do modelo que tinha ao meu lado.Recordava-me vagam ente de um dos críticos ter feito essa observação.perguntei. Tirei da carteira uma nota de cinco libras e a ergui bem à vista. es perava não voltar a vê-la. a luz realçava ainda mais sua figura esbelta e elegante. Mas. por ter encontrado alguém que procurava um ingresso no último momento . sim. Acenei afirmativamente com a cabeça.Meu nome é Michael Whitaker. olhando de vez em quando para trás. com aquele elegante vestido vermelh o de seda. . Eu a via recostada contra uma janela. que teriam de ser pronunciadas durante o intervalo entre o primeiro e o segundo atos. mas ainda tive de esperar que quatro clientes fossem servidos antes de obter o m artini seco e o uísque com gelo para mim. .Uma produção muito original . dirigindo-me um caloroso sorriso.principiei. .disse ela. por favor. de modo que fiz o mesmo. e que não haveria uma segunda op ortunidade.respondeu ela. eu sentia confiança no te xto que preparara. . . . O homem não mereceu a gorjeta que lhe deixei. depois. Esperei que terminassem os aplausos e. na esperança de que a possibilidade de u ma boa gorjeta influenciasse o senso de direção do homem do bar. pois o intervalo seria a minha gr ande oportunidade de dar prosseguimento a meu próprio enredo. No momento em que o pano caiu.Fique aqui que eu volto já . todo mun do devia estar pensando que me acontecera alguma coisa.Muito modernista. no final do primeiro ato. . Entreguei-lhe o martini seco.perguntei. .Por que tinha um bilhete extra? . nem que fosse para dar a impressão de que estava acompanhan do o enredo.Gostaria de beber o quê? . . perguntando a mim mesmo quantos preciosos minutos se perderiam enquanto eu ficava à espera no bar. Compreendi que não poderia abandonar o teatro durante o intervalo nem para ver como estava meu carro. .Obrigada . Ele viu o dinheiro. . Sentia-me dolorosamente conscient e de que teria de me restringir a quinze minutos.disse ela. voltei-me para ela. Senti-me encorajado. mas eu já tinha começado a ensai ar as frases de meu roteiro pessoal. quando consegui chegar junto do balcão.Gostaria de tomar uma bebida? . . nem p ara dar um telefonema explicando minha ausência.perguntei.prometi.sava. quando ela bebeu um gole do martini.Eu também tive sorte . consciente de que meu tempo limitado estava quase no fim. . 276 . e meus planos iniciais para aquela noite? A essa altura. para ter a certeza de que ela continuava a seguir-me.Um martini seco.A pessoa que vinha comigo foi chamada para uma emergência 277 . mas eu não podia perder tempo esperando o troco. onde Anna estava lendo seu progra ma. e. mas. . a cada vez que me voltava. De certo modo. .Gostaria. ela me dirigia o mesmo sorriso radioso. .Fiquei de pé e encaminhei-me por en tre uma multidão que se dirigia para o bar da platéia.respondeu ela. Levei as bebidas para o outro extremo da sala.Quero dizer. A peça estava captando o interesse do resto do público. dirigindo-me outro sorriso desarmante. A audiência riu.Obrigada .Tive sorte em conseguir um lugar no último momento.

eu tinha lido algumas críticas e vim até aqui na esperança de conseguir arranjar um ingresso extra. Sei que a peça é fantástica.disse ela.Duvido . no último momento. . . .Fraca recompensa .Foi pena. informando que faltava um minuto. O pano v ai subir. Perdeu uma peça extraordinária . enquanto soava uma voz forte por todo o Tannoy: . ou haveria um pouco de troça naqueles olhos cor de avelã? .Eu? .disse Anna. .Obrigada pela bebida . . a peça vai sair de cartaz dentro de poucas semanas.. enquanto regressávamos aos nossos lugares. sou médica de clínica geral em Fulham. pisando desajeitadamente alguns pés. vamos esquecer o se gundo ato. Eu es tava prestes a arriscar mais uma frase quando a intensidade das luzes começou a diminuir.Sim . .Sim.Não há dúvida .Por que foi procu rar uma entrada no último momento? . na profissão de médico. enquanto avançávamos pela fila. mas só quero passar o resto da noite sozinho com você.Também? .Um dos problemas de ser médico.Ela ergueu o olhar para mim.disse eu com relutância.no último momento . .Acho que sim . Ela sorriu. Michael .E você? .disse Anna. e não enfiado num auditório com mais oitocentas pessoas. Somos três em sistema. Por isso. Não tinha previsto essa pergunta no meu roteiro.Pedimos aos espectadores que retomem seus lugares para o segundo ato.Trabalho em restaurantes .E acho que recebemos mais queixas do que os médicos foi o melhor que consegui di zer. . . .Anna riu.expliquei.Temos de voltar . . sem saber ao certo se ela ainda est aria brincando.disse ela. mas não queria ficar se expondo . .disse Anna. .É médica também? . . .disse Anna. avisando q ue faltavam três minutos.Para falar a verdade. Fitei seus olhos cor de avelã e senti vontade de dizer: "Anna. conduzindo-a na direção oposta àquela para ond e gostaria de levá-la.perguntou Anna. Ajovem soltou um grito penetrante.Sim. pousando o copo vazio no peitoril da janela mais próxima. inquisitivamente.Bebeu mais um gole do martini. . a princesa Diana me disse que teria adorado vir comigo.Não concorda? Tentei recordar-me do que ela tinha acabado de dizer.respondi. ." .Quando se é mulher.perguntou.Por um bilhete tão bom . no momento em que soava a campainha. eles querem imediatamente saber se temos habilitações completas. enquanto soava a campainha dos d ois minutos. ao soar a campainha. mas estavam sempre esgotadas quando eu podia ir. quando uma a miga me arranjou duas entradas no último momento.Como a pessoa que vinha com você .Tentei conseguir entradas quando ainda estava no National Theatre. e não se consegue curar os doentes em dois dias. quando o detetive m ostra à filha uma fotografia da mulher morta. Afinal.apressei-me a dizer. .disse Anna abruptamente. com uma sugestão de ironia na voz.E arranjou um mulher extra também .respondi num tom despreocupado.. Ri e terminei a bebida. .disse eu. agarrei-me a elas com unhas e dentes. . . Durante o segundo ato voltava-me e sorria na direção de Anna a cada vez que as pesso as riam. e as luzes do palco apagaram-se subitamente. na esperança de levá-l a a dizer se"a tal pessoa era homem ou mulher. E que faz você quando não está conversando com Sharon Stone ou levando a princesa Diana ao teatro? .disse eu. . e fui ocasionalmente recompensado por uma calorosa reciprocidade.explicou. mas nesta noite d e rodízio estou de folga.Sharon Stone estava ocupada esta noite e. Eu não teria ousado incluir uma frase tão ousada nos diálogos dela. .Deve ser um dos poucos trabalhos com horário pior e condições mais violentas do que o meu . . Mas meu momento supremo de triunfo surgiu perto do final do ato.

Pode decidir ler os quatro ou.Parece interessante . Anna voltou-se para mim e disse: . simplesmente. esquecendo o fato de que nunca pensara em passar aquela no ite no teatro. . -vou ficar impressionada se você arranjar uma mesa aqui disse Anna. Enquanto descíamos a Aldwych juntos. Conheço um pequeno restaurante no fim da rua.Anna -disse. . MICHAEL. Aquela cena final prendia todo mundo.Eu também . Quando o pano desceu pela última vez. à sua escolha. enquanto os espectadores abandonavam o teatro como u m rio que corria lentamente. dando-lhe o braço.Se não tem nada de especial para fazer. comparando-a favoravelmente com uma outra que vira no Haymarket alguns anos antes. Anna continuou a conversar a respeito da peça. . Passei aqueles momentos preciosos falando dos méritos dos atores. Aproveitamos um sinal vermelho para atravessar entre o trânsito e. . por que não vem jantar comigo?. Estou tão satisfeita de ter vindo. Sorri. olhando para u m grupo de clientes no bar aguardando mesa vaga. Ela olhou para trás. .respondi.Ótimo. os atores voltaram ao palco e recebe ram merecidamente uma longa ovação. tendo o pano subido diversas vezes. fitando de novo aqueles olhos cor de avelã. -Tive de me controlar para não fazer o mesmo.disse Anna. escolher um e considerá-lo o seu fina l Se decidir ler os quatro. o telefone tocou no palco. Quando chegamos ao Strand.Não tem de quê . Momentos depois. apontei para uma grande porta dupla cinzenta do outro lado da rua.disse eu. da originalidade do c enário macabro e até mesmo dos trajes eduardianos.disse Anna. Apertou minha mão.com o te atro às escuras. O público sabia que devia ser o deteti ve do outro lado da linha..Adeus. 280 Nota do Autor N este ponto da história. não pude ver qual foi a reação dela. . da capacidade de interpretação do diretor de cena. deverá fazê-lo na ordem em que foram escritos: 1 MALPASSADA 2 ESTURRICADA 3 BEM-PASSADA 4 AO PONTO Mal passada OBRIGADA. Dirigi-me ao balcão de reservas. de mesa em mesa. . Começou a chover no momento preciso em que entramos. GOSTARIA MUITO.Que peça extraordinária. empurrei uma das portas cinzentas para Anna passar. . . antes de chegarmos às portas duplas que se abriam para o mundo real. Michael .É ali . Acho que vai gostar dele. Quando as luzes se reduziram pela última vez.sussurrei. e eu me perguntei se voltaria a vê-la. E ainda mais satisfeita por não ter visto a peça sozinha. ao chegarmos à calçada em frente. . fervilhante do falatório das pessoas que tinham acabado de sair dos teatros.Adeus .278 279 Anna agarrou minha mão. O chefe dos garçons que acabara de atender um clien ..disse eu. mas soltou-a imediatamente e pediu-me desculpa.Obrigada por ter contribuído para tornar esta noi te ainda mais agradável. Ela se voltou para partir. sem conseguir ocultar minha satisfação. enquanto os garçons corriam com pratos em ambas as mãos. apesar de não saber ao certo o que ele ia dizer. Conduzi-a em meio à multidão qu e saía do teatro. oferecemos ao leitor quatro finais diferentes. Desci com ela um lanc e de escada até um restaurante no subsolo. Seguimos juntos pela coxia. .

. . .A mesma coisa para mim. conduzindo-nos à minha mesa habitual no fundo da sala.disse. Assenti com a cabeça.disse Mário.Mas haverá homens com coragem suficiente para querer uma médica? .O que quer dizer com "trabalho em restauran tes"? .acrescentei. . . de acordo com o que esteja enfrentando a pior crise no dia. desejei ter uns três quilos menos. Mário mos trou-me a etiqueta da meia garrafa que trouxera.disse ela. mostrando minha aprovação por sua escolha: uma safra que condizia com a fineza de Anna.disse eu. .Trabalho no setor de administração . Michael. . Cheguei a uma idade em que não posso comer tudo aquilo que me atrai.Embora a maior parte de meus pacientes seja do sexo fem inino.disse Anna. depois passei para a cozinha durante cerca de cinco anos. enquanto An na provava o vinho. . pelo menos.Ainda bem . Olhei Anna nos olhos.Sim. . obrigada.confessei..Meia garrafa.Acho que vou beber um copo de vinho com a refeição. por favor .Bebeu mais um gole de vinho. .perguntou Anna. Mas tem certeza de que não quer um aperitivo? . se já não é garçom. .Mas. se seríamos normais? .É um Barolo. acho que me contento com ofett ucini e um copo de vinho tinto. .Boa idéia .Dois fettucini . 286 .disse eu. quando Mário reapareceu. Mas ainda há alguns homens inteligentes.Bem.Que vinho magnífico! . . quando nos sentamos. . . Posso garantir.Quantas pessoas são? . que sou capaz de beber um segundo cop o. . no momento em que Mário nos entregou os cardápios.Ou. Voltei a a cenar afirmativamente com a cabeça e Mário encheu o copo de Anna e depois o meu. .Delicioso! Quase derrete na boca. enquanto os dois pratos de fettucini eram colocados à nossa frente. . que. Michael. eu acho. Michael.É tão bom. Acenei afirmativamente com a cabeça. no momento estou dirigindo três restaurantes do West End. obrigada .respondeu ela.Boa noite. antes de provar o vinho. .. é o que faço atualmente. o que faz agora? . somos bastante normais. Subitamente.disse eu. capazes de aceitar o fato de que uma médica tem tantas possibilidades de curá-los como urn méd ico.Sempre me perguntei como seriam as médicas . Comecei como garçom .Não.. -Tenho de jogar squash três vezes por semana para me manter em forma . Assenti com a cabeça e Mário afastou-se. .Queira seguir-me.Mais um martini seco? .Mais ou menos isso.Eu só bebo um copo. no momento.disse ela.perguntei.E quanto a você? . . na maior parte. . Que tal o fettucini? . Finalmente acab ei por ficar na administração.disse Anna. senhor Whitaker . fitando-me.Sim. se já não está na cozinha. o que quer dizer que não paro de correr de um para o outro. percebendo imediatamente que a frase era um pouco fraca.disse eu. . Sorri.Então. . . que começou como garçom.e uma garrafa de. .te. Tenho de começar a tra balhar amanhã cedo. sensíveis e desinibidos. .Eu também . por favor . . de modo que não quero exagerar. .disse eu. Anna estudou o seu durante um momento até eu perguntar se ela tinha visto alguma coisa que lhe agradasse.Não. .Só nós dois.Muitos .Sim .Quer dizer. veio imediatamente falar comigo.Estava dizendo. são gordos e muito pouco atraentes. 285 .comecei . Só que temos de ver todos os dias uma legião de homen s nus.

- Parece mais trabalho de enfermagem - disse Anna. Qual foi o que sofreu a pior crise hoje? - Hoje, graças a Deus, não foi um dia típico - disse eu, sentidamente. - Foi assim tão mau? - disse Anna. 287 - É verdade. Perdemos esta manhã um chef, que cortou a ponta de um dedo e só volta ao trabalho dentro de quinze dias. O chefe dos garçons do nosso segundo restaurante está de folga, alegando que está gripado, e tive de despedir o barman do terceiro po r falsificar as contas. Os barmen sempre falsificaram as contas, evidentemente, mas, nesse caso, até os clientes começaram a notar. - Fiz uma pausa. - Mesmo assim, não gostaria de trabalhar em outra coisa. - Em vista das circunstâncias, estou francamente surpresa de ver que você pôde tirar u ma folga. - Não deveria ter tirado, na verdade, e não teria tirado se não fosse... - minha voz a rrastou-se um pouco, enquanto eu me inclinava para frente e enchia o copo de Anna. - Se não fosse o quê? - perguntou ela. - Quer ouvir a verdade? - indaguei, colocando o resto do vinho no meu copo. - Gostaria muito - disse ela. Coloquei a garrafa vazia sobre a mesa e hesitei, mas apenas por um momento. - Vinha de um dos meus restaurantes, no princípio da tarde, quando a vi entrar no teatro. Fiquei tanto tempo olhando para você que quase bati no carro à minha frente. Virei de repente para o primeiro lugar em que podia estacionar, e o carro que vi nha atrás quase bateu no meu. Saltei do carro, corri para o teatro e comecei a pro curá-la, até que a vi na fila da bilheteria entregando o segundo ingresso. Logo que ficou f ora da minha vista, disse ao bilheteiro que minha amiga não deveria ter esperado que eu chegasse a tempo e talvez tivesse tentado vender meu ingresso. Quando des crevi você, coisa que pude fazer com detalhes, ele me entregou o ingresso sem hesi tar. Anna pousou o copo de vinho e fitou-me com incredulidade. - Estou satisfeita por ele ter acreditado na sua história disse. - Mas eu também dev o acreditar? - Deve, sim. Porque eu coloquei duas notas de dez libras no envelope do teatro e fiquei com o lugar ao seu lado. O resto você sabe. - Fiquei à espera da reação dela. 288 Anna ficou uns momentos em silêncio. - Sinto-me lisonjeada - acabou por dizer e tocou na minha mão. - Não sabia que ainda havia românticos à moda antiga neste mundo. Apertou-me os dedos e fitou-me nos olhos. - E posso saber o que planejou para o resto da noite? - Até agora nada foi planejado - confessei. - Por isso, tem sido tão interessante. - Faz-me parecer um After Eight de mentol - disse Anna, rindo. - Posso me lembrar de pelo menos três respostas para isso disse-lhe, quando Mário re apareceu, mostrando-se um pouco desapontado ao ver os pratos meio vazios. - Estava tudo em ordem? - perguntou, um pouco ansioso. - Não podia estar melhor - disse Anna, que ainda não deixara de olhar para mim. - Quer um café? - perguntei. -- Sim - disse Anna. - Mas talvez pudéssemos bebê-lo num lugar menos cheio. Fui de tal forma pego de surpresa, que levei alguns instantes para recuperar-me. Começava a sentir que estava perdendo o controle da situação. Anna levantou-se e disse. - Vamos? - Acenei com a cabeça a Mário, que se limitou a sorrir. Quando chegamos à rua, ela me deu o braço e voltamos a subir a Aldwych, passando pelo teatro.

- Foi uma tarde maravilhosa! - estava ela dizendo quando chegamos ao lugar onde eu deixara o carro. - Até você entrar em cena, o dia tinha sido bastante aborrecido. Mas tudo mudou. - Também não tinha sido o melhor dos dias para mim confessei. - Mas raramente gostei tanto de uma tarde. Onde quer tomar café? No Annabels? Ou por que não experimentamo s o novo Dorchester Club? - Se não tem mulher, na sua casa. Se tiver... - Não tenho - disse eu simplesmente. - Então está resolvido - disse ela, quando eu lhe abri a porta do meu BMW. Depois qu e ela se instalou, dei a volta e sentei-me 259 ao volante, e constatei que tinha deixado as luzes acesas e a chave na ignição. Girei a chave e dei partida no motor. "Este tem de ser o meu dia", disse para mim mesmo. - Como disse? - perguntou Anna, voltando-se para mim. - Tivemos sorte em não tomar chuva - respondi, quando alguns pingos começaram a bate r no vidro. Liguei os limpadores do pára-brisa. No caminho para Pimlico, Anna falou-me de sua infância no sul da França, onde o pai ensinava inglês numa escola para rapazes. Seu relato de como tinha sido a vida de uma única moça entre algumas centenas de franceses adolescentes fez-me rir bastan te. Senti-me cada vez mais encantado com sua companhia. - O que a fez voltar para a Inglaterra? - perguntei. - Uma mãe inglesa que se divorciou do pai francês e a oportunidade de estudar medici na em St. Thomas. - Mas não sente saudades do sul da França, especialmente em noites como esta? - perg untei, enquanto se ouvia o estrondo de um trovão sobre nós. - Oh, não sei - disse ela. Eu ia falar quando ela acrescentou: - De qualquer forma, agora que os ingleses aprenderam A cozinhar, este lugar tor nou-se quase civilizado. - Sorri interiormente, perguntando a mim mesmo se ela e staria brincando de novo. Descobri-o imediatamente. -A propósito - disse ela. - Presumo que o restaurante onde comemos era um dos seus restaurantes. - Era, sim - disse eu, um pouco envergonhado. - Isso explica como conseguiu tão facilmente uma mesa, quando a casa estava cheia. E que o garçom soubesse que queria umBarolo, sem precisar perguntar, e que saísse sem pagar a conta. Eu começava a perguntar a mim mesmo se estaria sempre alguns passos atrás dela. - Era o do garçom de folga, o do chefcom quatro dedos e meio ou o do barman vigari sta? - O do barman vigarista - respondi rindo. - Mas eu o 290 despedi esta tarde e não me pareceu que seu substituto estivesse copiando seu comp ortamento - expliquei, ao virar à direita em Millbank, começando a procurar um lugar para estacionar. - E eu pensando que você só tinha olhos para mim suspirou Anna -, quando passou o te mpo todo olhando por cima do meu ombro para ver se o barman estava à altura de sua função. - Não o tempo todo - disse eu, enfiando o carro no único espaço vazio do pátio. Saí do car ro e o contornei, indo para o lado de Anna. Abri a porta e a conduzi para minha casa. Mal fechei a porta, Anna passou os braços em volta de meu pescoço e fitou-me nos olh os. Inclinei-me e beijei-a pela primeira vez. Quando interrompemos o beijo, ela disse apenas: - Esqueça o café, Michael. - Despi o casaco e levei-a para o andar de cima, para o m eu quarto, pedindo a Deus que não tivesse sido o dia de folga da empregada. Quando

abri a porta, constatei com alívio que a cama estava feita, e o quarto, arrumado. - Só demoro um instante - disse eu, desaparecendo no banheiro. Enquanto escovava o s dentes, comecei a me perguntar se tudo aquilo não passaria de um sonho. Quando voltasse ao quarto, iria descobrir que ela não existia? Larguei a escova de dentes dentro do copo e voltei ao quarto. Onde estava ela? Meus olhos seguiram um rast ro de roupas que conduzia à cama. Anna tinha a cabeça no travesseiro. Apenas um lençol co bria seu corpo. Despi-me rapidamente, atirando as roupas para qualquer lado e apaguei a luz do t eto, deixando apenas aceso o abajur da mesa-de-cabeceira. Entrei sob o lençol, ao lado dela. Olhei-a por alguns segundos antes de tomá-la nos braços. Explorei lentame nte todas as partes do seu corpo e ela recomeçou a beijar-me. Eu não podia acreditar que uma mulher pudesse ser tão excitante e, ao mesmo tempo, tão meiga. Quando finalm ente fizemos amor, compreendi que nunca mais queria ver aquela mulher longe de mim. Anna permaneceu nos meus braços durante algum tempo, ante de um de nós falar. Fui eu o primeiro a falar sobre coisas que me vinham à cabeça. Confiei-lhe minhas esperanças , meus sonhos, 291 até meus receios, com uma liberdade que nunca experimentara antes com pessoa algum a. Queria partilhar tudo com ela. Ela se debruçou sobre mim e recomeçou a beijar-me, primeiro nos lábios, depois no pesc oço e no peito; e, enquanto descia lentamente pelo meu corpo, tive a sensação de que ia explodir. Só me recordo de ter apagado a luz da mesa-de-cabeceira quando o relógio sobre a mesa do vestíbulo batia uma hora. Quando acordei, na manhã seguinte, os primeiros raios de sol já brilhavam através dos cortinados de renda, e revivi imediatamente a maravilhosa recordação da noite anterior. Virei-me preguiçosamente para tomá-la nos braços, mas ela já não estava lá. - Anna! - gritei, sentando-me subitamente na cama. Não obtive resposta. Acendi a l uz do abajur ao lado a cama e olhei para o relógio. Eram 7:29. Ia pular da cama e correr atrás dela quando reparei num bilhete colocado ao lado do relógio. Peguei-o e o li lentamente. Sorri. - Eu também - disse, e recostei-me no travesseiro, pensando no que deveria fazer e m seguida. Decidi enviar-lhe uma dúzia de rosas naquela manhã, onze brancas e uma vermelha. Depois mandaria entregar-lhe uma rosa vermelha de hora em hora, todas as horas, até voltar a vê-la. Depois de tomar banho e me vestir, comecei a andar pela casa sem destino. Pergun tava-me quanto tempo levaria para convencer Anna a mudar-se para minha casa, e q ue mudanças ela desejaria fazer. Sabe Deus, pensei, ao entrar na cozinha, agarrado ao bilhete dela, que a casa precisa de um toque feminino. Enquanto tomava o café, procurei o número do telefone dela na lista, em vez de ler o jornal da manhã. Lá estava, como ela dissera, uma Dra. Townsend, num consultório da Parsons Green Lane, onde ela podia ser encontrada entre as nove e as seis. Ha via um segundo número, com a indicação, em letras mais escuras, de só ser usado em caso de emergência. Embora eu considerasse meu estado uma emergência, disquei o primeiro número e aguard ei, impaciente. Só pretendia dizerlhe: "Bom-dia, querida. Vi seu bilhete. Podemos fazer da noite passada a primeira de muitas?" 292 A voz de uma enfermeira atendeu o telefone. - Consultório. - Queria falar com a Dra. Townsend, por favor. - Qual delas? - perguntou a enfermeira. - Há duas Dras. Townsend no consultório. A D ra. Anna e a Dra. Elizabeth. Além do Dr. Jonathan Townsend. - A Dra. Anna, por favor - respondi. - Peço desculpas, mas ela não se encontra no momento. Foi levar os filhos à escola e d

disse o funcionário. GOSTARIA MUITO. não foi roubado .Alô? Está ouvindo? .Que serviço deseja? Bombeiros. t erá que apresentar um documento de identidade e um cheque de 105 libras com . .É um Ford Fiesta vermelho. Como irá para lá? . apresento-lhe meu marido. Pensei que tivesse perdido você.disse eu.O carro est ava ilegalmente estacionado numa linha amarela dupla. Anna. . Querido Michael.Olá. Acho que ela só deve voltar aqui dentro de umas duas horas.Agradeço muito .Desliguei o telefone sem responder e olhei tristemente para o bilhete escrito por ela.Obrigado por ter feito companhia à minha mulher . sempre que meu marido me deixar abandonada.Delegacia de Charing Cross.foi o único comentário que fiz.perguntei.Acho que meu carro foi roubado. Michael.Estava interessada em saber como é o negócio dos restaura ntes. É melhor eu me apressar. escutando imediatamente outra voz. por favor? .epois disso vai ao aeroporto buscar o marido. Jonathan. irritado.respondi . placa H107 SHV Houve uma longa pausa. o Dr. Quando chegar lá. Como pode ver. Jonathan.disse ela.disse Anna. considerando a hipótese de ter me esquecido do lugar onde o es tacionara. MICHAEL.Não.disse. eu teria aceitado o convite dele para jantar. . Não consegui pensar numa resposta adequada. quando voltou ao telefone. Michael.Posso ir buscá-lo? . morto. Não caiu. polícia ou ambulância? indagou uma voz. Você teve sorte. . vou me lembrar desta noite durante o resto da minha vida. o tal que ficou r etido no hospital. a cor e a placa. . Jonathan Townsend! .Quer vir jantar conosco? . Ele co mprou seu ingresso. . p orque havia um espaço tão largo quanto constrangedor no lugar onde eu estava certo de ter deixado o carro. . . .Adeus.De táxi. que volta agora de manhã de um seminário médico em Mineápolis. Quer deixar recado? Houve um longo silêncio antes que a voz da enfermeira perguntasse: . A palavra seguinte que me veio aos lábios foi: "Merda!" Repeti-a diversas vezes.Você é um homem de sorte. Sorri.Então peça ao motorista que o leve ao Depósito de Vauxhall Bridge.Pode dizer a marca. sem saber ao certo se o carro teria sido roubado ou rebocado. . com uma madeixa de cabelos louros. Talvez nos encontremos em outra ocasião. Foi rebocado e levado para o Depósito de Vauxhall Bridge. . Anna 293 Esturricada l OBRIGADA. Voltei-me e vi um homem alto. . querido . Peguei o telefone e apertei três vezes o número nove. durante a qual pude ouvir vozes ao fundo. Adeus. Subi e desci a rua.mas acabo de me lembrar que. . . ao lado do telefone. . Havia uma cabine na esquina da Kingsway. neste momento. conseguiu escapar. Qual é a natureza de sua queixa? v .com certeza. . 297 Eu os vi pegar um táxi e desejei que Jonathan caísse ali mesmo. incapaz de ocultar minha satisfação. . Anna.É uma pena .Olá. que parecia sup ortar firmemente o fluxo de gente que tentava passar por ele de ambos os lados. Anna dirigiu-lhe um sorriso que eu não tinha visto até aquele momento. -Apresento-lhe Michael Whitaker. Obrigada. já deveria estar em outro lugar. Praguejei de novo e parti em busca de uma cabine telefônica. Jonathan apertou-me calorosamente a mão. Se você não tivesse aparecido.Polícia . Mas nin guém me ouviu. de mo do que dei meia-volta dirigindo-me ao local onde deixara meu carro.

. de John Major. Lembrei-me então de que não desligara as luzes laterais antes da minha corrida inesperada para o teatro. Abri a porta. passaram por mim três pessoas antes que um jovem negro me perguntasse: . mas o motor não pegou. . não seria recompensado com um divertimento inesquecível. como apanhar traficantes de droga. Quando finalmente chegou a minha vez. Vi outra figura vir correndo pelo depósito em direção a um Land Rover na fila à minha fr ente.disse o policial. . Baixei rapidamente a janela.O que está havendo. Saí do carro e fui buscar os meus bom es de ligação no porta-malas. .um cartão do banco. um robusto policial apontou para um impresso colado ao balcão. amigo . suas previsões tornavam-se mais sombrias. Ou mesmo ladrões de automóveis.disse o chofer. . Soltei uma série de impropérios que traduziam apenas parcialmente meus verdadeiros sentimentos. encharcado. suficientemente larga para me abrigar da violenta chuvarada. apontando para um pon to distante.Depósito de Vauxhall Bridge . que era muito maior do que eu. esgueirei-me para o banco da frente e espirrei novamente.É o segundo que levo lá hoje. Franzi a testa. Estava novamente tremendo quando me instalei p ara esperar. no momento em que começou a chover. Quando cheguei ao outro lado. Estava tremendo de frio e espirrei várias vezes até que um táxi vazio veio finalmente em minha salvação. da equipe de críquete da Inglaterra e dos turistas estrange iros. Seu físico impressionante foi o único motivo que me impediu 299 de sugerir que talvez ele devesse ocupar seu tempo com coisas mais importantes. em meio ao trânsito em movimento len to. produzindo apenas um "ronronar" ocasional.. apresentando-lhe primeiro a minha carteira de mo torista. no caso de não ter a quantia em dinheiro. 295 . . . entreguei-lhe uma nota de dez libras e fiqu ei na chuva à espera do troco. Girei a chave na ignição. antes de parar por completo.Cento e cinco?!-repeti. Era consideravelmente maior do que a primeira. evitando as poças d e água enquanto corria entre as fileiras de carros. dirigi-me à parte da frente do carro. com meu cartão bancário. e percorria Waterloo Bridge. mal entrei. constatando que todos estavam sendo invadidos pelas hordas de pessoas que ainda estavam à porta do teatro. Não conseguia afastar Anna do meu espírito.disse eu ao motorista. Durante os quarenta minutos que fiquei ali dentro. pensei eu. o chofer começou a conversar. continuei a correr até encontrar a marquise de um prédio.Pouca sorte.Evidentemente . a o policial.Seu carro está no outro lado do parque . Mal consegui murmurar respostas monossilábicas às suas opiniões acerca do tempo. Segui ao pé da letra suas instruções. Levantei a gola do casaco e atravessei a rua. Saí da cabine e voltei para a chuva. Enquanto o táxi manobrava lentamente para abrir caminho no trânsito complicado pela chuva. Depois corri na direção de uma pequena cabine onde deparei com minha segunda fila daquele dia. Desliguei violentamente o telefone. depois passando um cheque de 105 libras à ordem da Polícia metropolitana.Depois de eu explicar meu problema. Levei ainda alguns minutos pára localizar meu Ford Fiesta vermelho . Quando chegamos ao depósito de carros.respondi. e eu sabia que. mas ele tinha arrancado antes que eu consegui sse pronunciar as palavras mágicas "bomes de ligação".uma desvantagem. A cada novo tópico. ele coloc . Só parei quando cheguei ao outro extremo do depósito. por cima de várias fileiras de automóveis. mas aceitei a idéia de que a única coisa que conseguira naquela noite fora uma gripe. quando chegasse ao princípio e pagasse meu ingresso. companheiro? . Corri para a esquina da Aldwych à procura de um táxi.Exatamente. de possuir o carro mais popular da Ingla terra. na hora da saída dos teatros. estupefato. Entreguei ambos. levantei o capo e liguei os bomes à bateria.

Acabaram de roubar meu carro! . E um deles acrescentou.sussurrou ela.ou sua velha caminhonete ao lado do meu carro.Está despedido . à porta de um estabelecimento dos correios..Que quer dizer com isso? . E nem pense em vir buscar sua grana. procurando uma cabine nas calçadas. Janice? É Mike. que parecia capaz de funcionar. Em seguida. . durante longo tempo.respondeu ele. esforçando-me para não parec er desesperado. sou eu.É um Ford Fiestaivermelho. A primeira coisa que tinha de fazer. . .Ah... . Estava ilegalmente estacionado junto a uma. . é? .Não foi roubado. e um momento depois estava falando com outra pessoa.resmunguei. .O Nick ainda está por aí para dirigir as coisas. . Mike. Ele não está nada satisfeito. voltando ao seu sotaque de Lambeth. para azar seu. encontrei finalmente uma cabine na esquina da Warwick Way.Exatamente o que disse. meu motor começou a funcionar. droga! .Sim. mal o rapaz começou a acelerar. enquanto me dirigia lentamente para o carro. modelo e placa. mas uma rápida conferida revelou-me que estavam todas destruídas por vândalos. eu posso explicar.Gerald. um pouco inadequadamente. q ue achou sua garota "uma gata espetacular". Mike . .Por quê? . . Comecei então a murmurar obscenidades entre dentes.disse eu. Embora provavelmente àquela hora já tivessem servido os últimos clientes. Olhe. Espirrei novamente e decidi-me pela gripe. dois dos nossos clientes ha bituais ficaram duas filas atrás de você no Aldwych. Depois de entrar no carro e sair para a chuva diversas vezes.Oh. Estava a uma dúzia de passos dele quando um rapaz saltou para o volante.Marca. . meu chapa . Isso me rec ordou de que não tinha aparecido no trabalho naquela noite.Por que não apareceu hoje à tarde? 301 Espirrei e apertei o nariz.Polícia .gritei.perguntei.perguntei. . . contagiava metade dos clientes. . .Bombeiros.disse uma garota com sotaque italiano.Obrigado . cada vez que alguém pronuncia o seu nome esta noite.Ele talvez... . liberando o nariz.Bem. . Corri outra vez à cabine e digitei novamente o 999.perguntaram pela segunda vez nessa noite.disse Gerald. . Qual é a natureza de sua queixa? . Liguei o número do restaurante e esperei. placa H107 SHV Aguardei pacientemente. Está despedido. . Quando saí do depósito. Eu fiquei tomando conta. polícia ou ambulância? .Nick cortou a ponta de um dedo esta tarde e Gerald teve que levá-lo para o hospi tal.Laguna 50 . que alguém atendesse. com certa insegurança. liguei o rádio.. Parei o carro e saí. Gerald empunha a faca mais próxima. desaparecendo na noite. mas eu não.gritei. Gerald não devia ter fechado ainda a cozinha. . . e essa não sussurrava. . Quando ligou sua ignição. e ouvi o Big Ben bater doze horas.Foi um prazer. Voltei a entrar no carro e prossegui minha busca. porqu e não há dinheiro para um chefe de garçons que prefere levar uma qualquer ao teatro em vez de trabalhar. Se fosse trabalhar esta noite. mas.É você.Desligou o telefone.Estou gripado. . levantou o capo e lig ou os bomes à 300 k bateria. . . . era arranjar uma boa descul pa. passan do a marcha com um som horrível. . Olhei através da chuva. acho que teria sido muito pior do que contagiar a garota que esteve sentada a seu lado no teatro.disse eu. ligou a ignição e partiu. se queria conservar meu emprego. Corri atrás do carro em fuga. .disse outra voz.com certeza me confundiu com outra pessoa .Mas eu estou.Devo avisar que. .Delegacia de f>elgravia. ao fim de várias giradas do motor. por favor. . pelo meio da estrada. Gostaram tanto da peça como você parece ter gostado. para explicar melhor as coisas. perdi as esperanças de alcançá-lo. até que descobri três em fil a.

. . Localizamos seu carro e. Comecei a procurar as chaves e depois recordei-me de que tinham ficado na ignição do carro.O próprio.Para norte. . .Chegou mesmo a tempo. . . girei-a e abri a porta.. entreguei-lhe minha última nota e aguardei pacientemente que me devolvesse cada pe nny do troco. . Ele também soltou uma ou duas imprecações. em algum ponto de Chelsea. num prédio entalado entre outros. . não tem seguro. subindo a Vauxhall Bridge Road.gritei ainda mais alto.Onde o senhor está.E qual é o seu número de telefone particular? . senhor. não tem carteira de motorista e. antes que o policial conseguisse terminar a frase.Totalmente destruído? -repeti. o curto caminho que levava à porta da fre nte. . Não me ocorreu comentário algum.E no trabalho? .Em que direção seguia o carro quando o viu pela última vez? . amigo . Esperei mais dez minutos para que ele partisse e passaram-se mais quarenta an tes de chegarmos à estação de Bromley.Não.disse eu. vamos tratar do caso. L amento informar que o carro ficou totalmente destruído. Quando o trem parou e as portas se abriram. Onde está ele? . Quando chegamos. . já tinha decorado todos os anúncios à vista. Mal tinha entrado quando o telefone na mesa do saguão começou a tocar. de modo que comecei a procurar às apalpadelas.disse-me um funcionário da estação -o último trem deve e star chegando. . evidentemente.Mas ainda tive de esperar mais vinte minutos na plataforma gelada e vazia antes que ele chegasse à estação. A essa altura. continuando a espirrar a intervalos regulares. com descrença. antes de derrapar num acostamento a noventa por hora. sentei-me num vagão perto da locomotiv a.Sim. também perdi o emprego.prosseguiu o policial. 303 Saí para a noite do Kent alguns minutos antes de uma hora e comecei a caminhar na direção da minha pequena casa. Parece que o garoto que o roubou só conseguiu andar uma ou duas milhas . que estava sempre escondida embaixo de uma determinada pedra.Numa cabine da esquina da Vauxhall Bridge Road com a Warwick Way. . Já nem tinha energia para praguejar.Como o carro. desde a Guiness ao Mates. Comprei um ingresso para Bromley com as poucas moedas que me restavam e fui em busca da plataforma. Desliguei o telefone e pensei no que havia de fazer em seguida. enfief-a na fe chadura.perguntou a voz. .081 2904820. na escuridão. Mas qual delas? Finalmente encontrei-a. a chave extra.Graças a Deus! . Atendi.A boa notícia é que pegamos o garoto que roubou o carro . A garagem que o rebocou ficou com seu número de telefone e entra em contato com o senhor amanhã de manhã. agora? .Certo.302 . . Vinte minutos depois subia. -A má notícia é que tem apenas quinze anos. Entraremos em contato com o senhor logo que tenha mos notícias. Não me restavam mu itas alternativas. cambaleante. fica ndo aliviado ao constatar que aquele profissional não mostrava vontade de me transmiti r suas opiniões sobre coisa alguma durante a viagem até a estação. Acabou batendo num muro.Paguei 105 libras para recuperar a po rcaria do carro no Depósito de Vauxhall Bridge há menos de meia hora e acabo de vê-lo partir nas mãos de um rapaz enquanto eu estava dando um telefonema. . não estava! .. . Chamei um táxi e pedi ao chofer que me levasse a Victoria.Senhor Whitaker? .Neste preciso momento encontra-se na parte de trás de um caminhão.É da Delegacia de Belgravia.

Quando chegamos ao Strand. o mais tardar .Por acaso o senhor deixou a chave na ignição? 304 ..Acho que não podemos esperar tanto tempo. o garçom avançou lentamente para mim. e esperou por mim do outro lado. à espera de mesa. no patamar. . Tem reserva? . tendo de correr para acompanhá-la.Pouco provável? Que quer dizer com isso? . Acenei imperiosamente com 309 a mão ao chefe dos garçons." O chefe dos garçons consultou a lista de reservas e depois olhou para o relógio.comecei a dizer.Estamos com as reservas completas até essa hora. . mas detive-me subitamente ao ver minha mulher à espera. Descemos um lance de e scada até um restaurante no subsolo.disse Anna. Desliguei também e perguntei a mim mesmo o que mais poderia acontecer.Talvez arranje uma mesa para o senhor por volta das onze e quinze. Sorri. Só esperava que ele me reco nhecesse. . . apontei para uma grande porta dupla cinzenta do outro lado da rua. . de mesa em mesa.Parece ótimo .Então acho pouco provável que receba o seguro.O que deseja? . . onze e trin ta.Depois você pode me contar por que motivo o carro está totalmente destruído . segundo Gerald.perguntou. com ar de pouca esperança.disse. abrindo caminho na densa multidão. Victor? .Pode arranjar uma mesa para dois. . mas. É melhor verificar . .disse Anna. . . olhando para um grupo de clientes perto do bar. . .Victor está de folga esta noite. com pratos em ambas as mão s.Não pode ser antes? .Não. . .Não se preocupe com isso . Depois de receber o pedido do freguês. você foi visto no teatro.Para que lado? .Hoje em dia é norma as companhias não pagarem quando as pessoas deixam a chave na ignição.disse. 305 Bem-passada NÃO. .Acho que não vai conseguir uma mesa..Eu tenho seguro conta todos os riscos. mas ela não me pareceu muito impressionada.disse eu.Anna assentiu com a cabeça. com ar arrogante.disse Anna.Ótimo.foram as últimas palavras do policial antes de desligar.Receio que não .Isso não é problema . .disse o chefe dos garçons. Ela começou a caminhar num passo rápido e continuamos a falar da peça. não tenho.. Ia pegar-lhe a mão para atravessarmos. . incapaz de disfarçar a minha satisfação. .Mas só depois de me explicar por que não foi trabalhar e quem é essa "gata de classe" com quem. esquivando-se por entre os carros parados.É ali .Maureen. fervilhante do falatório das pessoas que tinham acabado de sair dos teatros. que estava atendendo um freguês. mas ela saiu da calçada à minha frente. . Apontei na direção do Strand. se não fez reserva . .. NÃO TENHO NADA DE ESPECIAL PARA FAZER . Despi o cas aco e comecei a subir a escada. Anna abriu as portas cinzentas e eu a segui uma vez mais..perguntou ela.disse ela.disse eu. Voltei-me para sorrir a Anna. .supliquei . . enquanto os garçons corriam. Estava só dando um telefonema e pensei que ficaria longe do carro por poucos minutos.Deixei. avançando para o balcão de re servas. Apressei-me a seguila. Conheço um pequeno restaurante no fim da rua e acho que vai gostar dele. concordando.

apontando um prato no meio da l ista de entradas.O que madame deseja comer esta noite? .respondeu Anna. embora devesse ficar aborrecido. . . Apareceu outro garçom ao lado dela.disse eu. .Sinjxí muito . Quando saímos para a rua. Suspirei de alívio quando abri a porta.Não. Michael. Comecei a correr rua acima.É nossa especialidade do dia. mas o cabelo poderia ter sido mais bem penteado. . .Conheço um pequeno restaurante italiano não longe daqui. -Tenho certeza de que ele pode esperar...Subindo a rua. nem sobre os seus cabelos. mas decidi não fazer comentários sobr e a maquilagem de seus olhos. Só vou beber um copo de vinho com a refeição. eu disse : . entregando-lhe o menu. acho que vou querer .Não precisa fazer isso . A chuva estava cada vez mais forte e. acho que não. .Quer tomar uma bebida? . com Anna atrás de mim. mas ela estava de sobrancelhas franzidas.disse.disse eu. . . Respirei fundo e tentei de novo: 310 .? .. d irigindo-se para a porta com o letreiro SIGNORINAS.perguntei.Costuma. Acenei com a cabeça.disse Anna.disse ela. Tenho de me levantar cedo amanhã de 311 manhã.disse eu. quando estávamos instalados. colocando a bolsa na cabeça para se proteger. estávamos totalmente encharcados no momento em que chegamos ao restaurante. telefonasse urgentemente para Gerald.Merda! . .disse Anna.A essa altura. O criado pegou o menu e partiu.Talvez seja melhor fazer alguns reparos.Posso. senhor Whitaker disse Mário. Só me demoro uns minutos . . tentando sorrir. . voltando-se para sair. de modo que não posso exagerar. Mas. Isso. conduzindo-me à minh a mesa habitual.Como eu previ . no momento em que um trovão fez descer um agu aceiro.disse Anna. . sem se dar ao trabalh o de olhar para ele. Olhei interrogativamente para minha convidada. Não é culpa sua se começou a chove r.Ótimo.Não acho que arranjemos um táxi com este tempo. Correu para mi m. pelo menos.Para que lado . . se ele telefonar outra vez. . Anna veio juntar-se a nós. desta vez? .Ainda não tive tempo de consultar o menu .Você primeiro .Deixe de ficar sempre pedindo desculpas. . embora não tivéssemos percorrido mais de setenta metros.Houve uma chamada para o senhor.Então. onde sempre arranjo mesa. Fiz sinal a Mário.Pediram que.disse ela.. sentando-se. Voltei-me e sorri esperançosamente para Anna.perguntei. mereceu seu entusiástico acordo. indicando "Eu também". se aparecesse aqui.É melhor a gente se apressar . e constatei que a sala de jantar estava me io vazia. É que meu pai tinha uma teoria quanto a restaurantes que estão meio vazios a esta hora da noite.Não me parece que tenhamos muitas alternativas . que começava a escorrer. que não estava servindo cliente algum em especial.disse o garçom. ..? . A maquilagem tinha si do retocada. olhando as nuvens negras. que começavam a enrolar nas pontas.perguntou ele delicadamente.Recomendo os fettucini. . à direita . Tive de apressar-me para segui-la uma vez mais. madame .A culpa é minha. e pedi meia garrafa do tinto da casa.. Levantei-me até ela se sentar. . Vamos arriscar? . Devia ter.respondeu Anna. desesperadamente..Está tudo bem? . . avise-m e imediatamente. . Ele parecia muito aflito. . .

Vamos mudar de assunto antes que eu fique realmente furiosa .Tem muitos pacientes de sexo masculino no seu consultório? . A nna já não era a mesma garota que eu tinha visto . . Quero dizer.Santo Deus. Michael? . nenhum de nós falou.perguntei.Provei o v inho e acenei afirmativamente com a cabeça ao garçom que encheu o copo de Anna.Tarde demais para quê? . mas.Só estava brincando. .Mas diga-me como é ser médica . . espetando com força o garfo nos fettuc ini. se não se imp orta. . é que me lembrei de uma coisa que devia ter verif icado antes de virmos jantar.. -Já é tarde demais? . tentando mostrar-me de scontraído. Não pretendia dar essa idéia.Então o que queria dizer? .Trabalho em restaurantes .Imagino que vai achá-lo muito bom . Não. desejando que os fettucini estivessem um . Michael. Não me leve tão a sério. .quando quase batera com o carro naquela tarde. não.Não. Oh.Não.disse eu.Só pensei.Para fazer qualquer coisa acerca daquilo que você devia ter verificado antes de virmos jantar. . . sim mas.disse eu. Observei mais atentamente minha companheira e comecei a perguntar-me se não teria cometido um erro terrível. é certo .Nem acredito no que estou ouvindo . .. quando o garçom reapareceu com os fettucini.disse eu. . Prefiro não falar de trabalho. Michael? Não rhe parece que tenha uma profissão em que as mulheres sejam tratadas como iguais. ma l pronunciara as palavras.Não mas. tenho certeza de que deve estar tudo bem .perguntou ela.De qualquer forma .. .. tentando mudar de assunto. . .Michael.Ri. Desculpe repeti.Quando é que as pessoas como você vão começar a aceitar que algumas de nós são capazes de algo mais do que passar a vida servindo de joelhos o sexo masc ulino? O garçom colocou um pouco de vinho no meu copo. não. Ou esta mesa tem tempo marcad o? .. Agora .Sim. Sim. o carro! Subitamente lembrei-me onde o deixara e consultei o relógio . lamentando. minha única esperança era de que a polícia de trânsito da noite não fosse excessivamente vigilante. esta é a minha tarde de folga.disse eu.. pode crer. mas.Estou aborrecendo você. . . Absolutamente.perguntou ela.disse Anna. percebendo.Qual é sua profissão. Olhei pela janela e não fiquei muito satisfeito ao ver que parara de chover. .Costuma encomendar sempre meia garrafa do vinho da casa num primeiro encontro? .Não pensou.acrescentou ela.há muitos homens sufici entemente confiantes para aceitar a existência de médicas.. . em tom que se aproximava do sarcasmo.. É esse o problema de muitos homens como você.a distância. que só estava me complicando. ..Bem. . Provavelmente já vi mais h omens nus do que você. . Michael. Desculpe. . Anna franziu a testa. o que me impediu de pedir desculpas novamente. na esperança de que isso 312 313 aliviasse a tensão.Sim. . Aposto que nunca pensou em consultar uma médica. isso é um alívio . .perguntou Anna. Durante alguns momentos. .disse Anna. meu Deus. não é invulgar um homem se consultar com uma médica? . Tentei de novo. . Evidentemente. pousando o garfo... Apesar dos esforços no toalete. Vivemos numa época esclarecida. e não é um espetáculo agradável. Michael.disse eu.disse Anna. .falei.Tenho certeza de que é verdade . acredite.Bem. sem conseguir disfarçar o cansaço na voz.perguntou Anna. .

não ia? A propósito. Mas as palavras de Anna só me recordaram que um dos meus outros restaurantes estava sem chef nesta noite e que era para lá que eu me dirigia antes de me permitir aquela ligeira paixão por Anna. .. Fiquei novamente em silêncio. .Se não fosse o quê? . . .. e o carr o que vinha 315 atrás quase bateu no meu.Voltei a perder sua atenção .Não devia ter feito isso. ainda não me explicou como é realmente administrar restaurantes . Fiquei tanto tempo olhando para você que quase bati no carro à minha frente. que cortou a ponta do dedo e só deve vo ltar ao trabalho dentro de quinze dias. apesar de tudo.perguntou ela. . corri para o teatro e comecei a procurá-l a. você tinha dito isso no intervalo . . .Não estão assim tão maus . levando à boca mais uma garfada. de acordo com o que esteja sofrendo a pior crise em cada dia.di sse Anna.Hoje. Michael. pensando se devia arriscar-me a comer mais um pouco dos fettucini. Quando ficou fora da minha vista.Em vista das circunstâncias.disse ela. de modo que fiquei em silêncio. . e tive de despedir o barman do terceiro por falsificar as contas. Os barmen sempre falsificam as contas. obrigada. . Quando descrevi você.. Pelo menos é o que faço atualmente. 314 . Entrei na fila e a vi entregar o segundo ingresso. Virei de repente para o primeiro lugar em que podia estacionar. disse ao bilheteiro que minha amiga não deveria ter esperado que eu chegasse a tempo e talvez tivesse tentado vender meu ingresso.Bem. . este foi o único prato que deixou o garçom suficient emente confiante para poder recomendá-lo.Não estão maus... Comecei como garçom. entregou-me o ingresso sem hesitar. coisa que pude fazer com detalhes. . Eu posso. graças a Deus. ..Talvez prefira comer qualquer outra coisa.disse eu. sim.disse Anna. se não fosse. mesmo assim. o que quer dizer que não paro de correr de um para outro.disse Anna. .Não. começando a mostrar-se exasperada.. Saltei do carro.disse eu. Receio que sim.disse ela.Minha voz arrastou-se. na verdade. pousando o copo e olhando para mim co .disse Anna.Foi assim tão mau? .. não foi um dia típico .Parece mais trabalho de enfermagem .Você ia falar da administração de restaurantes. estou francamente surpresa por você ter podido tirar a tarde de folga. alegando gripe. descobriu que não era muito bom em qualquer dessas coisas. .Mais ou menos isso . . mas apenas por um momento. .Ah. . Michael. . d epois passei para a cozinha durante cerca de cinco anos. não gostaria de trabalhar em outra coisa.O que prova que ele é estúpido . que tal estão os fettucini? . enquanto me inclinava para a frente e enchia o copo de Anna. quando a vi a entrar n o teatro. Qual sofreu a maior crise hoj e? . .Então.Apesar de este lugar ser sua segunda escolha. Não me ocorreu uma resposta adequada.Ia. De modo que resol veu dirigir os outros. até que a vi na fila da bilheteria. tentando brincar com o caso. Perdemos esta manhã um chef.pouco mais leves. sentidamente. Coloquei a garrafa vazia sobre a mesa e hesitei..Fiz uma pausa. . O chefe dos garçons do nosso segundo restaurante está de folga. evidentemente. e finalmente.Dedico-me a administrá-los.disse Anna. no princípio da tarde.Apesar de tudo? .Vinha de um dos meus restaurantes.Mas. com certa relutân cia. Mas o que significa exat amente "trabalhar em restaurantes"? . . Afinal. mas nesse caso até os clientes começaram a notar. e não teria feito. no momento estou dirigindo três restaurantes no West End.

perguntou.Quer que eu a leve em casa? . Pôs-se de pé e dirigiu-se para a porta. Mas é um dos três restaurantes que dirijo.Por quê? . . se não ficar muito fora de seu caminho. . .Não acha-que devia pagar a conta? .Obrigada pelo jantar .Mas não se preocupe comigo. o ar ansioso. com a luz amarela acesa.respondeu -. Olhei uma vez mais para o carro parado e decidi que trataria do assunto na manhã s eguinte. já me lembro .Mas não sei se devo rir ou chorar.Estava tudo bem? . Elizabeth já deve estar estranhando. an tes de acrescentar: . para ver como ela iria reagir.perguntou ela. . . Michael . tenha escolhido a mulher errada.Esta não é a sua noite.Não. indicando que estava livre. com certa agitação. A mulher voltou-se então para mim: . .Suponho que deveria me sentir lisonjeada . num tom pouco convincente. mas não fiz comentários en quanto nos encaminhávamos para o lugar onde eu tinha deixado meu carro. Anna fez uma careta.Deseja café.O restaurante é seu? . O garçom veio levar os pratos meio cheios. . pego um táxi. . . Enquanto a via desaparecer ao longe. Ela tinha ac abado de chegar à calçada quando se voltou para mim e perguntou: . Acenei freneticamente e o carro parou perto do meu.perguntei. . .disse o chofer.Fez uma pausa. .disse Anna.Depois coloquei duas notas de dez libras num envelope do teatro e sentei-me ao seu lado .Peço desculpas.Pouca sorte.mo se eu tivesse saído de um manicômio. consultando o relógio.prossegui. .disse Anna. não acha? . depois de pensar um pou co. Olhei para a roda da frente e vi o grampo amarelo. Onde está seu car ro? . começou a chover. Anna corou. tenho de ir andando.disse eu.Não é preciso. amigo . . . patrão? Dei-lhe meu endereço em Lambeth e sentei-me no banco traseiro. . Levantou a mão e um táxi parou imediatamente.Mas tenho 316 certeza de que concorda comigo que a comida não era propriamente memorável.De qualquer for ma. Anna limitou sua conversa à possibilidade de chover novamente e disse que gostara muito do vinho.disse ela.Quando saltou dele porque não conseguia tira r os olhos de mim. desta vez. olhando para a minha roda da frente. Fiquei aliviado ao ver meu Volvo estacionado exatamente no lugar onde o deixara. tentando não mostrar grande entusiasmo.Ótimo. Finalmente encontrávamos um ponto em que estávamos de acordo. a um metro de distância. Uma coisa é certa: a mulher com quem vivo há dez anos acharia a história extremamente divertida. ma s não emitiu comentários. -Antes q ue eu pudesse reagir.Tive muita falta de tato. . . Segui-a. .conseguiu dizer.Deixei-o no fim da rua. acho que não vou arriscar . e acrescent ou. estava ótimo .Seria bom .Não. 317 Tentei sorrir. . .perguntou. . Ia correr para o abrigo mais próximo quando surgiu outro táxi na esquina.Oh. .O resto já sabe. tanto mais que pagou o ingres so dela. Estava procurando as chaves quando vi algo colado no vidro. rindo. Anna olhou para as nuvens negras. Aguardei. sim.disse. Receio que.disse Anna. tinha fechado a porta do táxi. de forma ainda menos convincente: -Talvez voltemos a nos encontrar. num tom pouco convincente.É o terceiro que pego esta noite. antes que eu tivesse oportunidade de perguntar onde ela morava.Para onde vamos. minha senhora? . .

sem conseguir ocultar minha satisfação. Ele compr ou seu ingresso. Jonathan. Só queria saber se você estava indo para lá.Não tem nada que estar em outro lugar . este é meu irmão. . . MICHAEL. de ambos os lados. com todos os problemas que teve esta noite. . Mal consegui murmurar respostas monossilábicas às suas opiniões acerca do tempo. que parecia agüentar firmemente o fluxo de gente que tentava passar por el e. Jonathan apertou-me calorosamente a mão.Na Davies Street. patrão? 319 Ao Ponto / OBRIGADA.Quer vir jantar conosco? . Depois de entrar. pelo menos.respondi -.Olá.disse Jonathan.É muito amável .interrompeu Anna. Mas.Não seja tão fraco. Tinha começado a chover de novo. mas acha que só consegue reab rir dentro de um mês. . Michael.Enquanto o táxi manobrava lentamente para abrir caminho no trânsito complicado pela chuva. dirigindo-me o mesmo s orriso. Desci as escadas correndo e saí para a rua. suas previsões tornavam-se mais sombrias. garota. ia aceitar seu amável convite para jantar. . nu. . Sorri.De qualquer forma. -Apresento-lhe Michael Whitaker. para não acordar minha mulher. . Se você não tivesse aparecido. o chofer começou a conversar.disse ele. à hora da saída dos teatros.Olá. que conseguia chegar em casa antes da meia-noite.O incêndio causou muitos prejuízos? . Me disseram que é 323 bastante bom . Deu-me o braço. . à procura de outro táxi. Pensei que tivesse perdido você. com um a madeixa de cabelos louros. ela disse. Voltei-me e vi um homem alto. conseguia dobrar a roupa. saltando da cama.Obrigado por fazer companhia à minha irmã . conseguiu escapar. já deveria estar em outro lugar. . o tal que ficou retido no hospital . John Major. Um táxi deu a volta e deteve-se diante de mim. Subi lentam ente o curto caminho que levava à porta da frente. procedi ao meu ritual rotineiro de tirar o casaco e de scalçar os sapatos. como você tinha saído pouco depois das seis.Obrigado . enquanto começávamos os três a nos dirigir para o Stran d. estaria lá dentro de pouco tempo. Jonathan ..Perg untei a mim mesmo se ela não estaria falando durante o sono. e percorria Waterloo Bridge. Paguei-lhe e sorri tristemente à idéia de que aquela era a primeira vez. Você teve sorte. . nós dois gostaríamos que viesse jantar conosco. . com voz so nolenta: --Não pensei que viesse tão cedo. Não consegui pensar numa resposta adequada. . a equipe de críquete da Inglaterra e os turistas estrangeiros.disse eu. Girei a chave na fechadura e abri a porta silenciosamente.Há um restaurante no fim da rua. empilhá-la e meter-me entre os lençóis ao lado de Judy sem acordá-la. mal puxei a coberta. . Comecei a despir-me antes de entrar no quarto.disse. É melhor. neste momento. O homem só parou de dar opiniões quando estacionou diante de minha casa na Fentiman Road. antes de subir silenciosamente a escada.O incêndio? . Eu disse que.. Anna dirigiu-lhe um sorriso que eu não tinha visto até aquele momento. . mas acabo de me lembrar que.disse eu. Depois de anos chegando à uma ou às d uas horas da manhã. Como pode ver. em muitas semanas. O prejuízo foi muito grande? 318 Eu já estava vestido no momento em que Judy acordou o suficiente para me perguntar por que eu não tinha ido ao restaurante. Cancelou todas as reservas para as próximas semanas. Gerald telefonou momentos depois do fogo ter começado na cozin ha e ter-se espalhado pelo restaurante. GOSTARIA MUITO.Para onde vamos agora. A cada novo tópico.

esperava impacient emente uma mesa vaga.perguntei.Sem dúvida . Jonathan e Anna estudaram os seus em silên cio durante algum tempo. .disse Jonathan.Parece tudo tão tentador . .Ficaria impressionada se você conseguisse arranjar uma mesa aqui . -Acho que é aquela a casa que procuramos .Ótimo. .Ele também já ouviu falar do Frascati. e apre ssou-se a dizer: .Mas eu estou satisfeita por ele ter perdido . .Devia ter feito uma reserva . A menos que. fervilhante do falatóri o das pessoas que tinham acabado de sair dos teatros. -Tem por acaso uma mesa para três? ..concordou Anna.disse Mário. Conseguimos passar os três no meio do trânsito.Eu também. . de testa franzida. . Anna inclinou-se para mim e sussurrou em tom confidencial: . enquanto os garçons corriam com pratos em ambas as mãos. de mesa para mesa.Você não bebe um martini seco desde que. Jonathan afastou as portas cinzentas para nos deixar passar.Fale-me da peça . Desde quando?. Estou morrendo de fome . levei um dedo aos lábios e acenei afirmativamente com a cabeça. .disse Anna.Isto é que foi sorte! . mas nunca sabe ao certo o que fazer quando alguém pede pato.perguntou Jonathan. quando Anna lhe deu o outro braço.disse Anna.disse. . estou no primeiro turno amanhã.Mais um martini seco? Jonathan pareceu surpreso.Três fettucini e uma garrafa do seu melhor Chianti .O que vocês estão conspirando aí? . queira ffcar no meu lugar. .Não. 325 .perguntou Jonathan.disse Jonathan quando Mário v oltou.com certeza..Que aconteceria se tivéssemos escolhido peixe? .comentei. . Faça o favor de me seguir . .vou beber um copo de vinho com a refeição.acrescentou.disse eu.perguntou Jonathan. evidentem ente.E Anna? . devolvendo o menu a Mário. Jonathan sugeriu que eu me sentasse na última cadeira . . Michael . olhando para um grupo de clientes que. . Começou a chover no momento em que entramos. .disse Anna..Tão boa como os críticos diziam .Teve azar em perdê-la . . de modo que a irmã ficasse sentada entre ambos. 324 Logo que nos instalamos. Prefiro passar sem aperit ivos também .Depois do que passei esta tarde.Acho que vou me decidir pelos fettudni e um copo de vinho tinto. .Alguma idéia? . que estava recebendo pedidos de um cliente. Mal chegamos ao outro lado da rua. Jonathan perguntou-me o que queria beber. Mário reapareceu e entregou-nos os menus. até Jonathan dizer: . mas disse apenas. . em volta do bar. não sei se você se lembra. temporariamente parado.respondeu Anna. . . perguntei a mim mesmo. quando Mário se aproximou.Você seria um bom político. .Fettudni e um copo de vinho tinto está ótimo para mim.E o Michael? Não permita que os nossos problemas domésticos estraguem seu jantar. voltando-me para ela.disse Jonathan. . quando chegamos à esqu ina do Strand.Nada mal. conduzindo-nos para uma mesa tranqüila a um canto da sala.É o único vinho italiano cujo nome ele sabe pronunciar corretamente. . apontando para uma port a dupla cinzenta do outro lado da rua. .disse Jonathan. quando ele começou a f azer sinais ao chefe dos garçons. O irmão de Anna nos fez descer um lance de escada até um restaurante no subsolo.Não quer um aperitivo? .disse Anna.disse Anna ao irmão.Estava perguntando a sua irmã quem era o terceiro parceiro do consultório. nem pensar. . . . garota. Mantive-me um metro atrás deles e. Anna olhou-o.

eu assino. Michael? . O garçom extraiu a rolha e colocou um pouco de vinho no copo de Jonathan. Observou a etiqueta da garr afa antes de acenar afirmativamente com a cabeça.Já sou crescidinha . .disse Anna. .disse Anna. É óbvio que contaram um ao outro as histórias de suas vidas durante o in tervalo . .Compreendo. .Mas. .Porque.Você não engana ninguém.disse Jonathan.Um dos meus pacientes escolheu justamente este momento para ter uma recaída. . Depois faço sinal para ele.perguntou Anna.disse eu. Os barmen sempre falsificam as contas. .disse Jonathan.Desculpem .Sou gerente .Pôs-se de pé e voltou-se para a irmã. acho que sim.Ou.É óbvio que o intervalo não foi suficientemente longo para entrarem em pormenores disse Jonathan.. se ainda estiver chovendo quando saírem. .perguntou Jonathan. . Se tiver a bondade de passá-lo na máquina. . Acho que vou ter de deixá-los. . .perguntou ele. não está.Premiu um botão e levou o telefone ao ou vido. não foi um dia típico .É muito amável . Qual foi o que sofreu a pior crise hoje? . duas mulheres e um homem! . para que o provasse. não gost aria de trabalhar em outra. é ela quem está de serviço hoje. .O que você faz. 327 .Ossos do ofício. . fechou-o e guardou no bo lso. o que quer dizer que não paro de correr de um para outro. Fui chamado e tenho de ir. de acordo com o que esteja enfrentando a pior crise em cada dia. depois de ter assentido novamente com a cabeça.Parece mais trabalho de enfermagem . .. . garota? . graças a Deus.disse Jonathan. -Desligou o telefone.Foi assim tão mau? . até os clientes começaram a notar. . Jonathan . talvez ela não encontre um dos tais objetos pretos para lhe fazer sinais.De qualquer forma. evidentemente. é o mínimo que posso fazer.Eu a levo em casa. vou para aí o mais depressa possível.Está tudo bem? .De modo que vou procurar um daqueles objetos pretos com quatro rodas e um letreiro em cima. . quando o garçom desapareceu ao lado de Jonathan. com ar de grande conhecedor.É verdade.disse. Jonathan. neste caso. é isso que faço atualmente. seu jantar e sua irmã.Pobrezinha. . espetando o garfo nosfettucini. .repetiu.Sim. .. ele trabalha em restaurantes . e depois você escreve . Perdemos esta manhã um chefque cortou a ponta do dedo e só volta ao traba lho dentro de uns quinze dias. .disse Jonathan. . mas. O chefe do garçons do nosso segundo restaurante está de folga.disse Anna.Bem. Comecei com o garçom.Sim.Não se preocupe. Éramos quatro .Não. 326 . . . sem perceber o que Anna dissera.disse Anna. é a terceira parceira . como se pretendesse mudar de assunto.Hoje.Mas o que faz um gerente de restaurante? .Mas o que significa exatamente "trabalhar em restaur antes"? .Como vai voltar para casa.disse Jonathan sem dar explicações. quando Mário se aproximou correndo. . porque não estou nada interessado em ter outro homem no consultório.Repare bem.Fiz uma pausa.Não me diga que é médico também. . no momento estou dirigindo três restaurantes no West End. enquanto colocavam na nossa fren te os três pratos defettucini.perguntou Jonathan. . Elizabeth. Fui interrompido por uma campainha aguda. . depois passei para a cozinha durante cerca de cinco anos.expliquei. Não percebi de onde vinha o som até Jonath an tirar do bolso do casaco um minúsculo telefone celular. Escutou durante alguns segundos e franziu a testa. depois de ter ficado com seu ingres so.Acho justo .disse eu sentidamente. mesmo assim. . Michael já percebeu que você não é conhecedor de vinhos disse Anna. e tive de despedir o barman do terceiro por falsifi car as contas. pelo menos. alegando gripe.Não. que diz T-Á-X-I. . . .Peço desculpa . .Entregou-lhe um cartão American Express. e finalmente acabei como gerente.A minha mulher.

. . . senti-me como se estivesse na companhia de uma velha amiga.Espero voltar a vê-lo .Não. Depois comecei a repetir meus passos até o local onde havia abandonado o carro. olhei para o bar e abanei levemente a cabeça. .respondi. . . Mário devolveu seu cartão American Express. 329 .disse Anna. na verdade.Baixou levemente a cabeça. Anna pousou o copo de vinho e fitou-me com incredulidade.. ele me entregou log o o ingresso sem hesitar. . Enquanto subíamos a Aldwych. . . dirigiu-se ao bar e assinou um papel. Subimos a escada e saímos para a rua. um pouco desapontado por ver os pratos meio vazios.disse eu. pondo-me de pé. Virei de repente para o primeiro lugar em que podia estacionar.disse Jonathan. . . Peguei na mão de Anna e a conduzi até a entrada.Não podia estar melhor! . Provavelmente moro muito longe do seu caminho e.Mas eu também dev o acreditar? .perguntou. Não falou durante algum tempo. . Logo que ficou fora da minha vista. rindo.Posso me lembrar de pelo menos três respostas para isso disse eu.Se não fosse o quê? . que ainda não deixara de olhar para mim. de qualquer forma. Quando descrevi você. . Anna estava rindo. Coloquei-a garrafa vazia sobre a mesa e hesitei. Entrei na fila e a vi entregar o ingresso extr a.Quer um café.Faz-me lembrar um After Eight de mentol .Mas.disse Mário.perguntou ela.prossegui.Também espero . e.Eu quero dar carona a você . . corri para o teatro e comecei a pro curá-la.disse eu. quando chegamos ao espaço tristemente enorme onde eu deixara meu carro. obrigada . conversando. no princípio da tarde.disse. sim. terei sua companhia durante um p ouco mais de tempo. e o carro que vi nha atrás quase bateu no meu.Muito obrigado . .Não sabia que ainda havia românticos à mo da antiga neste mundo.O dia também não tem sido nada bom para Jonathan disse Anna.Sinto-me lisonjeada . finalmente. até que a vi na fila da bilheteria. .Assim. E. .minha voz arr astou-se um pouco. . quando Mário rea pareceu.gritei.Esperei para ver como ela reagiria. por favor.perguntou Mário. quando voltei para junto dela. o que pude fazer com detalhes. .Quer ouvir a verdade? .confessei.Posso saber o que planejou para o resto da noite? . senhorita? .disse Anna. surpreende-me que tenha tirado uma tarde de folga. .disse Anna. colocando o resto do vinho no meu copo. . -Temos de sair para procurar um carro ab andonado.Até agora nada foi planejado . mas apenas por um momento.Gostaria muito .disse ela. um pouco ansioso. com seus problemas. .Só Deus sabe se ele ainda está lá depois desse tempo todo.Estou satisfeita por ele ter acreditado na sua história disse.Não precisa me dar carona. . . . disse ao bilheteiro que minha amiga não deveria ter esperado que eu chegasse a tempo e talvez tivesse tentado vender meu 325 ingresso. .disse eu.disse Anna com firmeza. Jonathan deixou-nos. .Estava tudo em ordem? .a quantia. voltando-se para mim.Por isso tem sido tão interessante. De modo que posso pegar um táxi. .O resto você sabe. Coloquei duas notas de dez libras num envelope e fiquei com o lugar ao seu lado .. Comecei a andar rapidamente para um lado e para o outro da ru a. e não teria tirado se não fosse.Não devia ter tirado. Levantei-me e apertei sua mão. . . .Deve.Vinha de um dos meus restaurantes. junte quinze por cento. quando a vi entrar no teatro.Droga! . Michael . .Ela sorria. parou de chover. . enquanto me inclinava para a frente e enchia o copo de Anna. afastando-se. Saltei do carro. Fiquei tanto tempo olhando para você que quase bati no carro à minha frente. Enquanto Anna acenava ao irmão. Mário ra sgou o pequeno papel e jogou os pedaços num cesto de papéis.

. . .disse eu a Anna.disse eu. por sorte.O carro estava ilegalmente estacionado numa linha amarela dupla.Cento e cinco? .Tudo bem.Posso ir buscá-lo? . escutando imediatamente outra voz.Posso fazer uma pergunta pessoal? . finalmente. Marcou 999 e passou-o para mim. Eu vou ficar com você. Não devia ter puxado esse assunto.Não vai nada. .Não é possível.perguntou Anna.Nada.Não. Qual é a natureza de sua queixa? .Valeu bem o dinheiro. .De táxi.É o quarto que levo lá hoje. um deles poderia estar dirigindo um Rolls-Royce. . amigo . . . .disse ela.Acho que meu carro foi roubado. O táxi percorreu uma longa distância.E v ocê? . ficar am atrás de mim na fila . . mas acabei por perdê-lo. Como pretende ir para lá? . . um cheque de cento e cinco libras e o cartão do banco. . . eu os teria simplesmente atropelado.Foi falta de tato da minha parte.perguntei. . . sentindo-me um pouco envergonhado.Não acha que eu deveria ter a oportunidade de escolher entre os quatro? Afinal. nessa noite. a cor e a placa.Nesse caso. durante a qual pude ouvir vozes ao fundo..Estive quase. . sem que qualquer de nós voltasse a falar. isso teria resolvido todos os meus problemas.Ora essa. Morreu há três anos. Foi reboca do e levado para o depósito de Vauxhall Bridge. .Como? . .disse o policial que estivera falando comigo ao voltar à linh a.Agora vou arranjar um táxi para você.Mas se ele tivesse um chofer.Delegacia de Charing Cross. . Boa noite. no caso de não ter a quantia em dinheiro. placa K857 SHV Houve uma longa pausa. vai precisar apresentar documento de identidade.disse Anna. mas. ia fazer a mesma pergunta a você. por que não? .perguntei. . polícia ou ambulância? perguntou uma voz. Passei nove meses tratando dele.Polícia .Claro. mas ela fugiu.disse eu.disse eu. . "seu" guarda. Anna franziu a testa pela primeira vez. Abriu a bolsa e tirou um telefone.Depósito de Vauxhall Bridge.Então faça primeiro. . .disse ela tranqüilamente. . . Peguei-lhe a mão e chamei um táxi. não você.Se é o que penso.Não.Este é outro plano para ficar mais tempo na minha companhia? . sentando-me ao seu lado no banco traseiro do carro.Sinto muito .Fui eu quem o puxou. . . Anna disse: .Anna riu.. .Porque não se poderia estacionar um Rolls-Royce naquele espaço. por favor? . Quando chegar lá. . . Dirigi-lhe um amplo sorriso. Eu é que devo pedir desculpa. Enquanto o táxi manobrava lentamente para abrir caminho no trânsito complicado pela chuva e percorria Waterloo Bridge.Pouca sorte. não foi roubado . . calmamente.disse o taxista. . que fez uma volta na rua e veio parar junto de nós.. brinca ndo.É um Rover 600 azul. por favor.Que serviço deseja? Bombeiros. não sou casado . . 330 Devolvi o telefone a Anna e disse: . Michael. .Era o quarto 331 médico do consultório. prometeu ao meu ir mão que me levaria em casa. De qualquer modo.Exatamente. .Pode dizer a marca.Imagino que os outros três também foram atrás de você no teatro.Eu fui casada .

Mas devo dizer-lhe que é tão bonita seca quanto molhada. se me permite. guardou-as numa caixa de folha e entregou-me um recibo. enquanto entrávamos no depósito que houve muitas pessoas que tiveram a amabilidade de me convidar.Então. Deus sabe . .disse eu.Não faça essa ursada comigo . Se estiver disposta a arriscar-se.Está ali perto.Eu devia ter mandado buscá-las.No entanto.Entregou-me a s chaves. .disse ela. . .O que interessa? Eles não vão ter chance de descobrir.disse Anna.Mas. Eu ri. Dirigi-me ao balcão e li o impresso colado sobre ele. sua companhia de seguros não teria a obrigação de reembolsá-lo. Peguei a carteira. .E. prefiro que m e veja seca. Talvez até me desse confiança suficiente para voltar a sair. vou providenciar para que ele não volte a fazer o mesmo. . A chuva estragara seu vestido.Durante os últimos três anos.Quer dizer. enquanto ela se inclinava e me abria a porta. enquanto saíamos do depósito. apontando pela janela. retirei m inha habilitação e comecei a contar meu dinheiro. . A distância não me interessava.Mas gostaria de voltar a vê-la. e o motor pegou. Anna sorriu e tirou da bolsa o envelope que eu lhe entregara naquela tarde. Se o veículo tivesse sido 332 roubado. . 333 . Ou isso também fazia parte do seu astucioso plano? .disse Anna . se não se importa.Obrigada. . O policial contou lentame nte as notas.respondeu ela com um sorriso. onde devo levá-la? . devo dizer que é sempre uma imprudência deixar as chaves na ignição. as coisas podiam ter corrido de forma diferente. . na fila da frente .Valeu bem o dinheiro . Anna.Nenhum de nós voltou a falar durante alguns minutos. Girei a chave e respirei f undo.Mais ou menos isso.Obrigado . . junt ou-lhe uma nota de cinco libras e estendeu-me tudo.perguntei.disse Anna. Uma gota de chuva escorreu da ponta do seu nariz. e Anna recomeçou a rir. até que Anna disse: . Só tinha oitenta libras em dinheiro e nunca trago comigo um talão de cheques. . .disse.Gostaria de saber o que os três outros homens teriam pensado de mim . talvez tivéssemos que passar o resto da noite juntos. Encolhi os ombros e conduzi Anna até meu carr o. se eu não fosse o tipo de mulher que você procurava? . por favor. Sentei-me ao volante e voltei-me p ara ela. ma s não percebi o que estava se passando.Sinto muito . Fiz uma paus a antes de acrescentar: . Introduzi a chave na ignição. Não me surpreenderia se Jonathan tivesse inventado uma situação para outra pessoa me levar ao teatro.Fulham. pensativamente. 49.A culpa foi minha. seu guarda .disse ele.Se soubesse como me sinto. Parsons Green Lane.Se o motor não tivesse pegado. .acrescentou. Soltei um suspiro de alívio. .disse eu. Entreguei ao motorista uma nota de dez libras e corremos debaixo de chuva até uma pequena cabine.supliquei. Girei a chave uma s egunda vez. sentindo-me novamente embaraçado. mas o carro recusou-se a arrancar. sorrindo. Depois dei a volta até o lugar do motorista. Não fica muito longe daqui.Foi por pouco .confessei.. Abri a porta e deixei-a entrar. desde a morte de Andrew? tenho vivido mergulhada no trabalho e passei a maior parte do meu tempo livre aborrecendo terrivelmente Jonathan e Elizabeth. O policial ergueu os olhos para mim. Constatei então que tinha deixado as luzes laterais acesas. . . Não podiam ter sido mais compreensivos. . Michael . . .. . senhor Whitaker. . mas devem estar mort almente fartos de mim.Nada foi planejado até agora . percebendo subitamente que não sabia onde ela morava.Parece muito seguro de si. .

. finalmente.A propósito.disse Anna. Ela fechou a porta atrás de si no momento em que o relógio de uma igreja próxima batia uma hora. enquanto ela introduzia a chave na fechadura de sua porta. 334 335 Digitalizado e revisto por Virgínia Vendramini Rio de Janeiro. Encostei na calçada e estacionei na frente da casa dela. aquele era o restaurante do garçom com gripe.Não sei bem se tenho de fazer alguma coisa amanhã à noite. Michael.Dessa vez não vamos nos preocupar com teatro .Fica uns cem metros mais adiante. julho de 2008 . no momento em que eu entrava na Parsons Green Lane e começava a procurar o número quarenta e nove. . sim .E obrigada por comprar meu ingresso. Michael .Boa noite. Sorri. . .respondi.disse Anna.Venha por volta das oito e eu faço um jantar para você.disse ela.Então eu faço o mesmo . do chef com quatro dedos e meio ou o do barman vigarista? . .Aceito suas condições . para não falar no jantar. pa ra eu ter certeza-de-que estacionou legalmente o carro e se lembrou de apagar as luzes. Voltou-se então para mim: . do lado esquerdo disse ela.Boa noite.disse. enquanto ela saía.Ela pareceu levar uma eternidade para responder.Então nos vemos amanhã por volta das oito .Estou ansioso.O do barman vigarista . Anna voltou a não responder imediatamente. Estou satisfeita porque meus três outros admirad ores não passaram do depósito de carros. sorrindo. . .respondi. . .Nem eu . Anna. -Mas só com a condição de você me pegar em casa. . . .disse Anna. .E nem sequer ponho minhas próprias condições. . -Hesitei e depois tomei-a em meus braços. . se ini ciarmos nosso acordo amanhã à noite.disse eu. . quando a soltei.Gostaria. Saí e dirigi-me rapidamente para o seu lado.Inclinou-se para mim e deu-me um beijo na face antes de se voltar para abrir a porta do carro.Mas cancelo seja lá o que for.

Related Interests