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2012 • Ano 9 • nº 74

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Exemplar do Assinante

Onde está o investimento privado?

Governo tem buscado a retomada do desenvolvimento através do incentivo e financiamento às empresas privadas. Queda dos juros, realinhamento do câmbio e aumento das linhas de crédito são medidas corretas. Mas podem demorar para surtir efeito Entrevista A entrada da Venezuela no Mercosul
Para além das polêmicas, quem ganha e quem perde com a ampliação do bloco?

Paulo Sérgio Pinheiro Os crimes da ditadura e os dilemas da Comissão da Verdade

Universidade em questão

Apesar das mobilizações, nunca se investiu tanto no ensino superior público

Governo Federal Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República MINISTRO Welling ton Moreira Franco

Carta ao leitor
A matéria principal desta edição de Desafios do Desenvolvimento fala de um dos fatores essenciais para a recuperação econômica do país: o investimento privado. O governo buscou, nos últimos meses, concretizar vários incentivos para as empresas, visando auxiliá-las no enfrentamento das vicissitudes causadas pela retração externa. Realinhamento do câmbio, desonerações, isenções tributárias, concessões e novas linhas de crédito mostram que a redução da intervenção do Estado na economia não faz sentido em países como o Brasil. O repórter Marcel Gomes também checou dados e informações sobre prestadoras de serviços públicos,

PRESIDENTE

Marcelo Côr tes Neri

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cujos serviços têm piorado por falta de investimentos. O jornalista Daniel Cassol, por sua vez, investigou os investimentos nas universidades públicas, que têm sido palco de intensas manifestações. Ao mesmo tempo, a matéria demonstra que raras vezes se investiu de forma tão ampla na expansão das instituições federais de ensino superior como nos últimos anos. A universidade pública, como se sabe, é responsável pela maior parte das pesquisas acadêmicas e pela formação da maioria dos mestres e doutores no País. Colhendo opiniões de acadêmicos e especialistas, Cassol realiza um competente painel do setor. A entrevista da edição toca em tema sabidamente polêmico: a instalação da Comissão Nacional da Verdade. Um de seus mais proeminentes membros, o diplomata e acadêmico Paulo Sérgio Pinheiro, é cristalino em sua perspectiva de trabalho: “A democracia não pode continuar a conviver com a tortura”. Para ele, examinar o passado é fator essencial para a construção de um futuro diferente. Sem fugir de temas controversos, a edição também foca o ingresso da Venezuela no Mercosul. Vinícius Mansur consultou dados econômicos e ouviu analistas para avaliar os prós e contras da primeira expansão real do bloco regional. Ela ocorre no bojo das turbulências da ordem democrática continental, materializadas pelo golpe parlamentar realizado no Paraguai, em junho último. A revista apresenta, além disso, na seção História, um retrospecto sobre as dificuldades existentes na segunda metade do século XIX para o início de um ciclo industrializante no Brasil. Exiguidade do mercado

João Cláudio Garcia CONSELHO EDITORIAL André Gustavo de Miranda Pineli Alves, Antonio Semeraro Rito Cardoso, Daniel Gonçalves Oliveira, Fernanda Cristine Carneiro, Guilherme Dias, João Cláudio Garcia, José Carlos dos Santos, Júnia Cristina Perez Conceição, Luciana Acioly da Silva, Márcio Bruno Ribeiro, Maria da Piedade Morais, Marina Nery, Murilo José de Souza Pires, Natália Fontoura, Pedro Cavalcanti, Pérsio Marco Antônio Davison
DIRETOR-GERAL

Redação Gilberto Maringoni EDITOR DE ARTE/FINALIZAÇÃO Diogo Félix EDITORA DE ARTE Francielly Dayne Megel REVISOR Daniella Cambaúva RIO DE JANEIRO Marina Nery JORNALISTA RESPONSÁVEL Gilberto Maringoni FOTOGRAFIA Sidney Murrieta e João Viana CAPA Dreamstime
EDITOR-CHEFE

Colaboração George da Guia Cartas para a redação SBS Quadra 01, Bloco J, Edifício BNDES, sala 1517 CEP 70076-900 - Brasília, DF desafios@ipea.gov.br Impressão Gráfica Art Printer

AS OPINIÕES EMITIDAS NESTA PUBLICAÇÃO SÃO DE EXCLUSIVA E DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS AUTORES, NÃO EXPRIMINDO, NECESSARIAMENTE, O PONTO DE VISTA DO INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (Ipea). É PERMITIDA A REPRODUÇÃO DA REVISTA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

interno, tarifas aduaneiras extremamente baixas e especialização em determinados itens da pauta primário-exportadora foram algumas das razões do retardamento do desenvolvimento local, em relação aos países centrais. Os artigos de pesquisadores e as seções permanentes compõem um número substancioso. Vale a pena conferir.

DESAFIOS (ISSN 1806-9363) É UMA PUBLICAÇÃO DO Ipea PRODUZIDA PELA VIRTUAL PUBLICIDADE LTDA.

virtual publicidade ltda Rua Desembargador Westphalen, 868, Curitiba-PR Cep. 808230-100 – Fone: (41) 3018-9695 e-mail: virtualpublicidade@virtualp.com.br

João Cláudio Garcia, diretor-geral da revista Desafios do Desenvolvimento

Sumário
Pág. 10 Entrevista – Paulo Sérgio Pinheiro Pág. 22 Economia – Onde está o desenvolvimento privado? Pág. 34 Educação – A universidade se universaliza? Pág. 48 História – A superação dos obstáculos para a industrialização Pág. 58 Internacional – Os venezuelanos estão chegando Pág. 64 Entrevista – Maximilien Arvelaiz Pág. 66 Refugiados – Em busca de um lugar seguro Pág. 80 Melhores práticas – As margens do desenvolvimento

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Seções
6 Giro Ipea 8 Giro 72 Perfil 88 Circuito 90 Observatório latino-americano 92 Estante 94 Humanizando o desenvolvimento

Artigos
Pág. 21 Ameaças ao mecanismo clássico de financiamento da Seguridade Social
Eduardo Fagnani

Pág. 43 Existe ilusão fiscal no Brasil?
Alexandre Manoel A. da Silva e Rozane Bezerra Siqueira

Pág. 47 Sistema de logística reversa: responsabilidade compartilhada sobre o ciclo de vida do produto
Jaqueline Fernandez, Adriana de Moura e Júlio César Roma

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Pág. 57 A gestão da água na América Latina
José Esteban Castro

Pág. 75 A nova lei antitruste e o sistema de análise dos atos de concentração econômica
Felipe Guimarães de Oliveira

Pág. 76 Crise econômica e reprimarização
Emanuel Sebag de Magalhães

Pág. 77 Justiça, democracia e movimentos sociais
Anna Karenine Sousa Lopes

Pág. 79 A importância da educação ambiental na gestão dos resíduos sólidos
Maria Lúcia Barciotte e Nilo Luiz Saccaro Junior

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moradia. é possível afirmar que o valor passou de 11. educação. Em valores correntes.98% para 7. técnico da Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte). chegaram a 1. segurança. Os gastos com a previdência. O dispositivo é desenvolvido pelo Ipea junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). trabalho e renda. No caso da educação.br Dreamstime Sistema de monitoramento de direitos humanos Carol Garcia/Secom e joga luz Até o fim do ano. Segundo a ministra.5 bilhões. subiram de R$ 103.ipea GIRO Direitos Humanos Estratégias de negociação Relações entre política comercial e comércio exterior Com objetivo compreender e examinar as estratégias de negociação comercial do Brasil no período 1995-2010. presídios e penitenciárias. Em termos de Produto Interno Bruto (PIB).ipea. o autor analisa o papel do multilateralismo e do regionalismo sobre fatores internos determinantes da política externa nas últimas décadas. desenvolvimento agrário e cultura. alimentação e nutrição. o Brasil terá um sistema integrado de monitoramento das ações de direitos humanos delineadas pelo governo federal. bem como a situação dos grupos com maior vulnerabilidade.54% em 2010.gov. 6 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . habitação e urbanismo. O estudo. tradicionalmente a maior captadora de recursos.gov.ipea.7 bilhões para R$ 303. mensura o volume de recursos aplicado pelo governo federal nas políticas sociais e compara o montante efetivamente gasto nessa área diante do total de recursos mobilizados no período.95% do PIB. br. saltaram de 4. o que equivale a um cres cimento de 172%. O trabalho foi produzido por Ivan Thiago Machado Oliveira. Essa é uma das conclusões da Nota Técnica Gasto Social Federal: uma análise da prioridade macroeconômica no período 1995-2010. benefícios a servidores públicos. Dreamstime Aplicação de recursos Gastos sociais aumentam 172% em 16 anos Os gastos do governo federal na área social aumentaram de R$ 234 bilhões para R$ 638.24% do PIB. saúde. informou a ministra Maria do Rosário. divulgada pelo Ipea em setembro. Já as despesas com habitação e urbanismo no período passaram de 0. o Conselho Nacional de Direitos Humanos já aprovou a criação de um grupo especial para a sociedade civil monitorar o sistema.38% do PIB em 16 anos.5 bilhões em 16 anos. assistência social.81%. entre outras instituições. em 1995 os investimentos correspondiam a 0. ano a ano. da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH).11% do PIB para 0. O texto está disponível na página do Ipea: www. Nele.11%. O objetivo é realizar um levantamento para saber qual a melhor maneira de monitorar. para 15. Há dois anos. São onze as áreas que compõem os gastos sociais: previdência social geral. em 1995. o Ipea publicou o Texto para Discussão (TD) Política comercial e política externa no Brasil: uma análise da estratégia de negociação comercial brasileira (1995-2010). saneamento básico. disponível em www. informações sobre os direitos da população em áreas de saúde.

que vigorará entre 2011 e 2015. Sociedade Estudo analisa a atuação do governo na área social A 20ª. No entanto. sobre o aumento da participação das commodities na pauta de exportações e sobre o aumento das importações de manufaturados. Outro estudo aborda as dificuldades de competitividade diante de parceiros externos.2%. das mudanças nas políticas e nos programas e dos principais desafios colocados para cada área. a pedido do Centro de Estudos Judiciários (CEJ) do Conselho da Justiça Federal (CJF). conferências e fóruns) ocorridos nesse período. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 7 . 8 meses e 22 dias (631 dias). O texto traça a evolução da iniciativa e discute sua contribuição para organizar o planejamento e a gestão pública. mudanças institucionais. Há ainda uma reflexão sobre os possíveis impactos da desoneração da folha de pagamento em setores selecionados pelo Plano Brasil Maior. para se interpretar os indicadores. a pesquisa foi feita em 231 JEFs de todo o país. Outra informação revelada pelo Ipea é que. mais de 85% dos usuários dos JEFs são representados por advogados. com um balanço das mudanças promovidas no novo Plano Plurianual (PPA). elaborado pela equipe da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) do Ipea. desenvolvimento rural. No último artigo. Apresentada em setembro. quando há recurso nos processos. A publicação reúne cinco Dreamstime trabalhos sobre a questão. Cada capítulo trata dos fatos mais relevantes (inovações legislativas.97% das causas – em geral. igualdade racial e igualdade de gênero. embora os juizados tenham sido criados para que o jurisdicionado acesse a Justiça sem precisar de advogado. Uma das conclusões é de que o tempo médio de duração de um processo nos JEFs é de 1 ano. O boletim traz ainda um artigo especial. além de haver possibilidades diversas Dreamstime Pesquisa traça perfil dos Juizados Especiais Federais Por ocasião dos dez anos da criação dos Juizados Especiais Federais ( J E F s ) . mapear a estrutura e forma de organização. abordando previdência social. o Ip e a divulgou um estudo que reúne os principais dados acerca do tempo de processamento das ações e dos profissionais que atuam no setor. Há também uma análise da evolução da produtividade do trabalho ao longo da última década. O exame inclui desde o marco institucional até os recursos gastos e a população beneficiada. produção e comércio exterior. edição do Boletim Políticas Sociais: acompanhamento e análise. assistência social. as condições em que ocorre o funcionamento dos juizados em cidades do interior e os impactos da informatização nos processos. Com o objetivo de contemplar o debate. O estudo. Esta edição aborda ainda o acompanhamento de políticas e programas sociais federais no último ano do governo Lula e já destaca as principais iniciativas tomadas em 2011 pelo governo Dilma Rousseff. somente nas grandes cidades. são apresentados indicadores clássicos de desindustrialização e as principais causas teóricas para a ocorrência desse fenômeno. o Ipea divulgou em setembro a 21° edição do Boletim Radar: tecnologia. o debate sobre a ocorrência ou não de desindustrialização no Brasil é retomado a partir de dados sobre a redução da participação da indústria no PIB. pode haver uma diferença de 480 dias a mais no tempo de processamento. A pesquisa buscou também captar a percepção desses atores sobre a prestação jurisdicional. No primeiro. possui nove capítulos.Produção Justiça A desindustrialização da economia brasileira O processo de reprimarização da economia brasileira é um tema controverso por não existir um único e consagrado conceito de “desindustrialização”. contados desde o protocolo inicial até o arquivamento. A pesquisa mostra ainda que a Defensoria Pública da União está presente em apenas 0. registra e avalia a evolução da atuação do governo federal no setor. cultura. educação. disponibilizado no site do Instituto. os mecanismos de acesso. saúde. O percentual de autores que ingressam sem advogado é de 12. trabalho e renda.

Os Estados Unidos perderam posição pelo quarto ano. as economias da região devem crescer mais em 2013 do que neste ano. em alguns casos. o Chile (33º) mantém a liderança. estima estudo divulgado pela IDC Custom Solutions. prontidão tecnológica. cujas previsões de avanço estão em torno de 14%. na 59ª e a Rússia. segundo relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF. A Holanda subiu da 7ª para a 5ª posição das economias O ranking engloba 12 categorias “consideradas os pilares da competitividade e tem como objetivo oferecer uma ampla descrição da paisagem competitiva de um país”. México (53º) e Peru (61º). as estimativas para o Brasil e a Argentina. Rússia e África do Sul devem crescer 11% e 8%. cuja projeção caiu de 3.9%. Entre os BRICS (Brasil. que ficou em quarto. ambiente macroeconômico. servidores. China e África do Sul).5% no ano seguinte. A Suíça lidera a lista pelo quarto ano consecutivo. este ano. Tais segmentos compensarão investimentos menores em computadores de mesa. tenha caído de 2. Os dados estão no relatório Estudo Econômico da América Latina e do Caribe. caindo do 5º para o 7º lugar no ranking. a China continua em primeiro lugar no grupo e na 29ª posição global. na 67ª. Economia Cepal prevê maior crescimento em 2013 Segundo estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Embora a projeção de crescimento da economia brasileira. desenvolvimento do mercado financeiro. Para a Cepal. apesar de ter recuado três postos.8% em relação ao ano passado. Entre demais países que também registraram melhoria na sua competitividade. periféricos e equipamentos de telecomunicações. de 2%. Já a Argentina deve crescer 2% em 2012 e 3. Para o mercado brasileiro de TI de forma geral. divulgado no início de outubro. Já no mercado norte-americano. a consultoria espera um salto de 6%. sofisticação de negócios e inovação. o investimento no setor aumentou 7% e. armazenamento de dados. Segundo o estudo.2%. especialista em consulDreamstime mais competitivas.GIRO Informação Inovação Brasil sobe em ranking de competitividade global O Brasil subiu cinco posições no ranking de competitividade global em 2012. o país ocupa o 48º lugar. graças à evolução favorável do mercado de trabalho. estão Panamá (40º). ante 8. o País foi o único a subir de posição neste ano. e no Japão. China e Índia. A África do Sul aparece na 52ª posição. Agora. a expansão prevista é de 5.6%.5% em 2011. respectivamente. a expectativa de crescimento situa-se em torno de 4%. Ainda assim. Cingapura permaneceu em segundo lugar e a Finlândia subiu para a terceira posição. o consumo privado é o principal agente da expansão regional. do aumento do crédito e. A expectativa é que o aumento do investimento aconteça em mercados emergentes. mais de 14 mil líderes empresariais de todo o mundo foram entrevistados em 144 países. eficiência no mercado de trabalho. Para o relatório de 2012. esse crescimento será impulsionado por desempenho em softwares. A expectativa de desempenho do mercado europeu é de 1%. infraestrutura. ultrapassando a Suécia. Na América Latina. espera-se um crescimento de 4% em 2013. educação superior e capacitação. Índia. para 2013. No ano passado. 8 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . na sigla em inglês). afirma o relatório. Segundo a IDC. Para o próximo ano. Esses pilares são: instituições. das remessas de recursos do exterior para os países da região.7% para 1. como Brasil. Dreamstime Dreamstime Gastos globais com TI crescem em 2012 Os gastos globais com tecnologia da informação (TI) devem aumentar 6% neste ano. a Índia.7% para 3. a IDC espera um crescimento de 8. que têm peso fundamental na economia da região. Rússia. toria e pesquisas para o mercado de TI. saúde e educação primária. eficiência no mercado de bens. redes empresariais e dispositivos móveis. deverão levar otimismo ao cenário econômico.

o Canadá. o setor de serviços não financeiros cresceu mais do que a média geral da economia e ajudou o Brasil a se recuperar da crise mundial de 2008. afirmou que “as perspectivas no mercado laboral não são nada brilhantes. O Fies permite ao universitário financiar até 100% das mensalidades escolares. administrativos e complementares. Sabemos que. Figuram na mesma situação a Argentina. Desde sua criação. com um crescimento real de 6. O risco de crédito do importador será assumido pelo Banco Provincia. Devemos encontrar novos enfoques”. o programa tem como objetivo dar maior agilidade operacional ao financiamento às exportações brasileiras de máquinas e equipamentos.7 milhões de jovens nessa idade sem emprego. o desemprego juvenil. voltou Dreamstime O Banco de la Provincia de Buenos Aires é a décima oitava instituição credenciada para operar o programa BNDES Exim Automático. E. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Dreamstime Segundo a Organização Internacional a crescer 11. está o fortalecimento da economia global relacionado a políticas de trabalho e emprego. japoneses e mexicanos estão em melhor situação. Segundo o IBGE. Já em situação “crítica” estão a Espanha. O dinheiro atende a mais de 200 mil estudantes de instituições privadas de Ensino Superior. Criado em 2010. dois terços do total das operações liberadas pelo banco até agora foram formalizadas durante 2012. de 2007 para 2008. apresenta uma taxa de desocupação considerada moderada para essa faixa etária. com taxas de desemprego entre 8% e 11%. as atividades imobiliárias. de acordo com o Dreamstime Segundo a instituição. segundo o BNDES. o BNDES estabelecerá linha de crédito de US$ 20 milhões para o banco argentino para financiar importadores locais de bens de capital fabricados no Brasil. Entre eles.Recuperação Exportações Trabalho Setor de serviços ajudou BNDES firma contrato Brasil a enfrentar crise com banco argentino De acordo com a Pesquisa Anual de Serviços (PAS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). quando os números do emprego em geral são negativos. O desempenho supera em 226% o resultado de 2011. se destacaram: os serviços de manutenção e reparação. Banco do Brasil. De acordo com dados divulgados pela Organização após a reunião do seu Grupo de Trabalho sobre Emprego. OIT alerta para desemprego juvenil nos países do G20 do Trabalho (OIT).2% em 2010. grupo das maiores economias do mundo. Já os jovens australianos. Em nota divulgada pela OIT.1%. alemães. Paraguai. os serviços prestados às famílias e os serviços profissionais. O estudo. Ilhas Cayman. Com o contrato. médias e grandes empresas brasileiras. com orientação para a expansão de políticas de proteção social. Ela está entre 14% e 19%.4%. os serviços que fazem parte da pesquisa responderam por 13% do PIB brasileiro em 2009. Os juros são de 3. a Rússia.4% ao ano para todos os cursos e o pagamento começa 18 meses após a formatura. Os 18 bancos credenciados em dez países – Argentina. há mais de 17. divulgado em setembro. “A gente pode dizer que o setor de serviços ajudou a impulsionar a recuperação da economia como um todo”. a receita operacional líquida das empresas de serviços cresceu 11. Peru e Uruguai – podem financiar cerca de US$ 800 milhões em máquinas e equipamentos exportados pelo Brasil. Chile. mostra que. já foram feitas mais de 50 operações em seis países. a Itália e a África do Sul. a situação do emprego juvenil é ainda pior. em outubro. Estados Unidos. As taxas na França. sul coreanos. Colômbia. Quatro setores. em especial. a Turquia e os Estados Unidos. na Indonésia e no Reino Unido também são altas – 21% e 23%. é considerado persistente em 17 países do G20. apesar de o setor ter desacelerado em 2009. pesquisadora do IBGE. Produção Banco do Brasil aumenta o financiamento estudantil em mais de 200% As operações no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) já chegaram a R$ 7 bilhões. o diretor-geral da Organização. que abrange jovens entre 15 e 25 anos. beneficiando pequenas. O Brasil. por meio da concessão de linha de crédito a bancos no exterior. 9 . que faz parte do G20. concluiu Ana Carla Magni. Panamá. Guy Ryder. Honduras. com índices entre 35% e 52% de desocupação.

ENTREVISTA Paulo Sérgio Pinheiro 10 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .

o presidente. Todos estavam inteirados dos excessos” Bia Barbosa – de São Paulo José Geraldo de Oliveira Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 11 .“Na ditadura. os generais e os executores cometeram crimes.

No governo. em novembro de 2011. integrou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos). a Comissão foi instalada oficialmente em maio de 2012. o foco principal está no exame dos crimes de Estado cometidos no período da ditadura militar (1964-1985). Atualmente. Formada para examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas por agentes do Estado entre 1946 e 1988. preside a Comissão de Investigação da ONU sobre a Síria. nos EUA. Exerceu também a função de Expert Independente do Secretário-Geral da ONU para o Relatório Mundial sobre Violência contra a Criança. é professor adjunto de Relações Internacionais na Brown University. Brasília e Genebra. Na ONU. em Paris. Foi professor titular do Departamento de Ciência Política e coordenador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP. para Mianmar (antiga Birmânia). na Grã-Bretanha. No entanto. publicado em 2006. ele e seus colegas têm a missão de identificar e tornar públicos as estruturas. intelectual com larga trajetória na academia e na diplomacia. poderão requisitar informações e documentos de órgãos do Poder Público.Desde maio de 2012. reconhecido por sua idoneidade e identificação com a defesa da democracia e dos direitos humanos. os locais. foi professor das universidades de Columbia e Notre Dame. nós também trabalhamos com sigilo dos depoimentos O acadêmico e diplomata Paulo Sérgio Pinheiro. as instituições e as circunstâncias em que foi praticada a repressão de Estado durante a ditadura militar. Paulo Sérgio Pinheiro. como relator dos direitos das crianças. a lei que cria a Comissão Paulo Sérgio Pinheiro é membro da Comissão Nacional da Verdade. Até maio de 2014. a Presidenta Dilma Rousseff sancionou. foi relator especial de direitos humanos para o Burundi e. é um dos integrantes do novo órgão. é um dos sete integrantes da Comissão. Fora do país. entre 2001 e 2003. Entre 2004 e 2011. nos EUA. e membro das Comissões Especiais de Investigação sobre o Timor Leste e o Togo. Hoje. Perfil Não dá para fazer audiências com torturadores ou suspeitos envolvidos nos desaparecimentos na frente da televisão! Do mesmo modo que a imprensa trabalha com sigilo de fontes. do exame dos crimes e da necessidade da sociedade conhecer os excessos para que eles não se repitam Nacional da Verdade. Nesta entrevista ele fala de seu funcionamento. Seus objetivos são analisar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988. Paulo Sérgio Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro e hoje vive entre São Paulo. mais tarde. o Brasil tem uma Comissão da Verdade em funcionamento. Pinheiro foi relator do primeiro e segundo Programa Nacional de Direitos Humanos (1996 e 2002) e ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos no governo Fernando Henrique Cardoso. D epois de muita polêmica. de Oxford. independentemente de seu grau de sigilo. e da École des Hautes Études en Sciences Sociales. nomeado pela presidenta Dilma Rousseff. Para isso. convocar para testemunho pessoas que possam guardar qualquer relação com os eventos examinados e até determinar a realização de 12 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . do qual hoje é pesquisador associado.

Desenvolvimento . algo que pouco se tem falado. Teremos ainda acesso aos documentos da Funai [Fundação Nacional do Índio]. fundamentalmente com arquivos. em 1974. feito pelos estudantes. é a que analisará o papel do Judiciário na ditadura.perícias e diligências para coleta de informações. desaparecimentos forçados e prisões arbitrárias. como os 42 sobreviventes da guerrilha do José Geraldo de Oliveira Araguaia que foram assassinados na última “Operação Limpeza”. ou que tiveram relação com conflitos agrários.Das quarenta Comissões da Verdade que conheço. Por fim. por exemplo. Aquele poder sofreu e também colaborou intensamente com a aplicação da legislação autoritária. têm quatro toneladas de documentos.O senhor está trabalhando em qual das subcomissões? Pinheiro . numa rede que existiu dentro do Ministério das Relações Exteriores e que teve colaboração Acho da maior validade o movimento do Levante Popular. Isso politiza o tema.Como está sendo realizado o trabalho da Comissão? Paulo Sérgio Pinheiro . Também tenho um interesse especial pela reconstituição dos vários crimes que estão na lei. mais consultores e secretária. Quer dizer. Nada foi queimado. pois muitas violações foram cometidas em ações contra indígenas.Eu trabalho com a questão dos sistemas de informações externas. Os do Itamaraty. Paulo Sérgio Pinheiro detalha como anda o trabalho e os principais desafios que a Comissão Nacional da Verdade tem pela frente. da mesma maneira que o ministro [Antonio] Patriota [Relações Exteriores). O ministro Celso Amorim [da Defesa] tem dialogado e dado apoio. Desafios do Desenvolvimento . Uma subcomissão importante. Além disso. uma das preocupações fundamentais é completar as informações sobre os desaparecidos – 475 foram analisados pela Comissão de Mortos e Desaparecidos – e os exterminados. Ao final do trabalho. Somos sete membros e 15 assessores. como os assassinatos. devem apresentar um relatório com conclusões e recomendações de medidas e políticas públicas para assegurar a não repetição de tais violações. Há várias equipes trabalhando. estamos preocupados com os milhares de membros das Forças Armadas reprimidos e punidos internamente durante o período. Mas já há muita coisa acumulada. Talvez aqui no Brasil devêssemos ter estipulado um prazo para organizá-la. como configurando uma política de Estado dos governos da ditadura. O escracho e os comitês de memória dentro das universidades estão dando uma contribuição extraordinária bastante estreita com os órgãos de repressão. é preciso superar aquela noção de Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 13 . a maioria levou seis meses para decolar. não partimos do zero. Também há a tentativa de se ter acesso a documentos das Forças Armadas. Nesta entrevista.

tudo se torne público? Pinheiro . foi assim e vai continuar sendo assim. ao final.que tivemos práticas e excessos cometidos por alguns poucos.No caso dos desaparecimentos forçados e assassinatos já comprovados. Do mesmo modo que a imprensa trabalha com sigilo de fontes. todos estavam absolutamente inteirados. Mas estamos começando a reexaminar laudos de necropsia utilizados nas informações sobre esses desaparecimentos. Desenvolvimento . Recentemente conceder o anonimato.Uma das polêmicas sobre o funcionamento da Comissão Nacional da Verdade tem sido o sigilo de seu trabalho. nós também trabalhamos com sigilo dos depoimentos. podemos Pinheiro . trabalharam com confidencialidade. Desenvolvimento .Por trás dessa polêmica há uma enorme desinformação. Então não dá para fazer audiências com torturadores ou suspeitos envolvidos nos desaparecimentos na frente da televisão! Se considerarmos que há possibilidade de obter informações que não teríamos. desde o Presidente da República. os generais e até os que executaram cometeram esses crimes. também a da África do Sul. Mas também há uma dimensão pública do trabalho. Trata-se de uma investigação sobre crimes cometidos. Qual a sua opinião sobre isso? A ideia é que. Mas isso resta ser documentado. Na verdade. há uma perspectiva de a Comissão fazer um estudo caso a caso? membros e 15 assessores compõem a Comissão da Verdade 7 tivemos um seminário sobre comissões da verdade na América Latina e todas. que são 14 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 José Geraldo de Oliveira .Refazer os 400 casos e mais as centenas de outras ocorrências individuais é uma tarefa impossível. Isso é assim.

o governador Simão Jatene disse que vai propor a todas as correntes políticas a criação de uma Comissão estadual. Acho da maior validade. não vamos publicar. mas vamos informar minuciosamente tudo o que se faz: as correspondências trocadas com as autoridades. em que se ouvem 15 . Qual o papel desses espaços? Pinheiro . com o relato sendo televisionado de modo que os que sofreram os crimes possam testemunhar. é outro problema. do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul também. produto de uma lei. a audiência pública ideal é a que trata de um caso concreto: o depoente. ela já foi formada. que podem participar publicamente do processo. Funcionários civis e militares então. Desenvolvimento . denunciaremos ao Ministério Público Federal Desenvolvimento . Isso nos dá informações. por exemplo. vai ser aperfeiçoado.Para mim. nomeada pela presidenta da República para apresentar um relatório final do seu trabalho. acompanhado de um advogado. Agora. Na OAB de São Paulo. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 José Geraldo de Oliveira as audiências coletivas. Em Alagoas.Há também um objetivo de estabelecer um diálogo com a sociedade através dessas audiências? Pinheiro . Ela tem um estatuto especial. No Pará. que tipo de arquivo consultamos etc. É evidente que a informação sobre o que se faz tem que ser pública. depoimentos no curso de uma investigação. Nossa comissão tem mais poderes do que qualquer outra da América do Sul e Central no século XXI. Mas é evidente que vamos colaborar com essas comissões. porque temos o poder de convocar qualquer cidadão ou cidadã.A Comissão Nacional da Verdade não é coordenadora desses movimentos. mas também tem um papel em relação às vítimas.Estão surgindo também comissões nas Assembleias Legislativas e em universidades. Vamos visitar todos os estados. é uma comissão do Estado. O nosso site ainda é muito insatisfatório. nem se fala! E os que não vierem.depoimentos específicos. Se vamos publicar depois.

A democracia não pode continuar a conviver com isso. Execuções sumárias pelas polícias militares do Rio de Janeiro e de São Paulo são intoleráveis. facebook. como se não existissem os crimes que estamos discutindo internet. A própria Aeronáutica cedeu vários deles para o Arquivo Nacional. Desenvolvimento . Nelson Jobim.Não precisamos ter grandes ilusões de que uma sociedade profundamente autoritária e fundada no racismo estrutural vá se mobilizar de um dia pra outro e sustentar a Comissão da Verdade. nem toda a digitalização de arquivos.O senhor falou da colaboração entre Comissão e Ministério da Defesa. que é sensibilizar a sociedade para o que aconteceu neste período? Pinheiro . mas a posição oficial da Comissão. feito pelos estudantes. de grande coesão. que já foi publicada.Pessoalmente. Minha opinião é que só quem acredita em fadas acha que não existe nenhum arquivo. Mas é evidente que a diferença entre silêncio e mobilização pode melhorar. Todos já trabalhamos. 16 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 José Geraldo de Oliveira . Isso politiza o tema. twitter. inclusive com a ajuda da mídia. é que julgamos ilegais esses atos de destruição de documentos. O escracho e os comitês de memória dentro das universidades estão dando uma contribuição extraordinária. Nossa comissão é a única da América Latina que está acontecendo no século XXI. O atraso da criação da Comissão assim é altamente compensado pelo que foi realizado e pelos novos meios de comunicação. No funcionamento das Comissões da Verdade na Guatemala e de El Salvador não havia O entulho autoritário continua na parte da tortura.Somos um grupo muito integrado. Mas o ministro anterior. Como está esse processo agora? Pinheiro . Desenvolvimento . como o senhor se vê neste processo? Pinheiro . Também não pode conviver com o ensino nas Forças Armadas ainda passar uma visão da ditadura militar totalmente positiva.O ministro Jobim é meu amigo. fez o primeiro Programa Nacional de Direitos Humanos. chegou a afirmar que todos os documentos haviam sido destruídos.Essas ações dialogam com um dos objetivos da Comissão.o movimento do Levante Popular. Desenvolvimento .

as torturas. porque temos o poder de convocar qualquer cidadão ou cidadã. Pinheiro . 17 . Ora.Como o senhor analisa as críticas feitas às funções e formato da Comissão antes da aprovação da lei? Pinheiro . temos acesso a qualquer arquivo. além do apoio da presidenta Dilma. por causa da Lei da Anistia e do acórdão do Supremo Tribunal Federal. sem interferência de nenhum ministro. O relatório final vai indicar a autoria e as circunstâncias em que esses crimes foram cometidos pela ditadura. existe a possibilidade de.Considerando sua experiência em direito internacional e o conflito entre a decisão do STF sobre a Lei de Anistia e a decisão da Corte Interamericana no caso Araguaia. em algum momento. Em terceiro. Nos ministérios. O apoio material do governo também é muito maior do que eu podia supor.José Geraldo de Oliveira Funcionários civis e militares então. denunciaremos ao Ministério Público Federal. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. teve poder judicial. já temos acesso a documentos secretos e ultrassecretos. E temos uma equipe extraordinária de assessores e consultores. temos o mandato de indicar a autoria e as circunstâncias em que foram cometidos os assassinatos. não importa seu grau de sigilo. O importante é que nossa comissão tem mais poderes do que qualquer outra da América do Sul e Central no século XXI. Essa manifestação dos tribunais brasileiros é algo que dá grande conforto e esperança às famílias Desenvolvimento . um com o outro.Foi outra choradeira. Desenvolvimento .Essas críticas vieram de setores que desejavam uma Comissão da Verdade com funcionamento de tribunal. Tenho a maior alegria em ver o resultado de casos como o Ustra. ao contrário do Poder Judicial. nenhuma das quarenta Comissões da Verdade. especialmente pelo que isso significa para as famílias dos que foram torturados e assassinados. no relatório Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 é algo que não nos impede de fazer o que a Comissão nasceu para fazer. Desenvolvimento . inclusive a da África do Sul. nem se fala! E os que não vierem. Em segundo lugar.Houve afirmações também de que a Comissão não conseguiria trabalhar por conta da decisão do STF sobre a Lei de Anistia. A Lei da Anistia não nos atrapalha nem ajuda. os desaparecimentos forçados e a detenção arbitrária.

é que uma decisão da Corte deve ser cumprida pelo Estado brasileiro. e isso não nos atrapalha. especialmente pelo que isso significa para as famílias dos que foram torturados e assassinados. Só posso dizer da minha satisfação em ver o Ministério Público Federal e o Sistema Judiciário brasileiro assumindo seu papel dentro dos ditames da lei. Digo a mesma coisa sobre outras condenações que estão surgindo. que dão a eles alguma possibilidade de ação. foi uma autoanistia. Felizmente ainda temos vinte meses para resolver essa questão das recomendações. A doutrina do direito internacional interamericano diz que as autoanistias não são válidas. em 1998. 18 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . que fui membro por oito anos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e apoiei a decisão do presidente Fernando Henrique. como já falei muitas casos como o [do coronel Carlos Alberto Brilhante] Ustra [declarado torturador pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O Supremo não entendeu assim.Não tenho competência para avaliar se é uma boa ou uma má estratégia. e a anistia no Brasil. É algo que cabe ao Estado brasileiro.Não sei. As vítimas querem antes saber sobre a autoria. mas não cabe a mim nem à Comissão da Verdade ficar contestando essa decisão.José Geraldo de Oliveira vezes. para poder responsabilizar os perpetradores? Pinheiro . Tenho a maior alegria em ver o resultado de Enquanto não tivermos bem encaminhados na reconstrução da verdade. inclusive a minha. Essa manifestação dos tribunais brasileiros é algo que dá grande conforto e esperança às famílias. A posição de todos os membros da Comissão da Verdade. de reconhecer a competência da Corte Interamericana.O senhor concorda com a estratégia do Ministério Público de abordar judicialmente crimes como o desaparecimento e a ocultação de cadáveres como crimes não prescritos. haver uma recomendação para que a Justiça enquadre os responsáveis pelas violações de direitos humanos durante a ditadura? Pinheiro . Desenvolvimento . as circunstâncias e a responsabilidade do Estado. é muito cedo para se discutir reconciliação nacional. para então fazer esse trajeto da reconciliação final da Comissão. em agosto último].

As violações hoje cometidas por agentes do Estado nos estados da Federação não são coordenadas como foram durante o regime militar. por exemplo. Mas não somos nós que vamos guiá-las. Mas enquanto não tivermos bem encaminhados na reconstrução da verdade. Continuará a haver problemas.Por outro lado. a reconciliação pode ocorrer na dinâmica do processo. do Rio de Janeiro.Quando a lei que cria a Comissão aponta no sentido da reconciliação.Este termo está presente na lei que criou a Comissão e na denominação de várias outras comissões da verdade pelo mundo. Não espero unanimidade. Qual a sua leitura sobre esse conceito? Pinheiro . o que já é uma diferença extraordinária. Desenvolvimento . mas é preciso olhar para o que avançou para reexaminar em que falhamos e o que deu certo. Temos uma porção de problemas. As violações continuam. continuar a conviver com isso. porque a caminhada dos direitos humanos nunca termina. por exemplo. como se não existissem os crimes que estamos discutindo. na parte da tortura. Mas evidentemente não se pode cometer crimes. A democracia não pode Desenvolvimento . ainda há políticas de Estado que possibilitam a violação? Pinheiro . com o funcionamento da Comissão da Verdade. uma das minhas tarefas na Comissão é reconhecer onde que progredimos.Nós estamos numa democracia. Desde que a expressão dessas opiniões não seja traduzida em crimes.Mas não é o Estado que organiza os crimes cometidos por seus agentes. Aquele poder sofreu e também colaborou intensamente com a aplicação da legislação autoritária além dos direitos econômicos e sociais. É importante reconhecer que o Brasil teve uma continuidade na política de direitos humanos. Na sua avaliação. É de se esperar que. mas é um vexame que isso ainda continue. Desenvolvimento . que deve ser investigada. Desenvolvimento . Não tem jornalista ou preso político torturado.Um dos objetivos da Comissão da Verdade é a promoção da reconciliação nacional. O Grupo Tortura Nunca Mais. ela sinaliza uma preocupação com o legado da ditadura nos dias de hoje. nos daríamos um atestado de incompetência total. As vítimas querem antes saber sobre a autoria. A situação subalterna ainda prevalece nos direitos econômicos e sociais. Senão. as circunstâncias e a responsabilidade do Estado. O processo. Uma subcomissão importante é a que analisará o papel do Judiciário na ditadura. Também depende do que vamos encontrar. para a maioria afrodescendente. é muito cedo para se discutir reconciliação.reagem aos avanços. as pessoas são livres para pensar o que quiserem sobre a Comissão da Verdade. Por outro lado. Também não pode conviver com o ensino nas Forças Armadas ainda passar uma visão da ditadura militar totalmente positiva. para então fazer esse trajeto da reconciliação.Ainda que tenhamos caminhado na luta contra a pobreza extrema.Quais os grandes gargalos que o país ainda enfrenta na garantia dos direitos humanos? Pinheiro . mas não são mais uma política de Estado. esse legado persiste? Pinheiro . No Brasil vigora a liberdade de opinião. dinâmica e as recomendações da Comissão podem contribuir para superar esse legado autoritário. o gargalo são os direitos civis e a defesa dos direitos das minorias. as pessoas e a imprensa são livres para se expressar. como essa invasão da sede do Tortura Nunca Mais. há setores que ainda 19 . Execuções sumárias pelas polícias militares do Rio de Janeiro e de São Paulo também são intoleráveis. conflitos sociais venham à tona para disputar diferentes visões sobre este período na sociedade? Pinheiro .Apesar de a violação de direitos humanos não ser mais política de Estado.O entulho autoritário continua. teve sua sede invadida. Este é um tema para o Estado brasileiro. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 José Geraldo de Oliveira Desenvolvimento .

Nos países europeus o financiamento da Seguridade Social é composto. M. empregadores e Estado.. 22% pela contribuição dos empregados. Na ausência de uma política de investimentos. Brasília: Ipea. Comunicado Nº 117. O princípio da “Seguridade Social” (todos têm direito mesmo sem contribuir) prevalece ante o princípio do “Seguro Social” (tem direito quem contribui). insegurança e instabilidade no emprego’. O chamado “Custo Brasil” ganhou centralidade na agenda do governo de FHC. consenso em torno da premência da redução de encargos sociais que atuaria a favor da competitividade. quarenta setores econômicos foram isentados da contribuição patronal. Jornal do Brasil. mas sim a política econômica e seus reflexos na dinâmica do sistema produtivo que estão causando desemprego. Impostos progressivos financiam os direitos daqueles que não podem pagar. As recentes medidas de desoneração da contribuição patronal para a previdência (20% A Seguridade Social é um dos núcleos dos regimes de Welfare State que experimentaram notável desenvolvimento nos “trinta anos sobre a folha de salário) corroem esse modelo clássico e acentuam tendência preocupante. o Brasil é um dos países em que o custo da mão-de-obra. Um deles foi a tentativa de articular políticas de Seguridade Social (art. Hoje é o maior da Europa. e 36% da contribuição do governo. por 38% da contribuição dos empregadores.. quando medido pela participação dos salários no custo da produção ou no valor agregado. Em meados dos anos de 1990 a ampliação da competitividade passou a ser considerada como pressuposto do ‘sucesso’ do Plano Real. (. A agenda de reforma democrática brasileira construída a partir de meados dos anos de 1970 inspirou-se na experiência da social democracia europeia. A professora Maria da Conceição Tavares. Formou-se. Esta tendência tem se acelerado entre 2011 e 2012 (Medidas Provisórias 540 e 563). A Espanha foi um dos países que mais avançou na desoneração de encargos trabalhistas nos anos de 1990. Cerca de R$ 21 bilhões desse montante são isenções que afetam a Seguridade Social.8 bi em 2013. Tampouco existem evidências de que a redução dos salários contribua para aumentar o emprego. C..) Aliás. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 21 . Nossos constituintes copiaram o modelo tripartite clássico do Welfare State. é um dos mais baixos do mundo. Eduardo Fagnani é professor do Instituto de Economia da Unicamp.” (Tavares. Assim. p.ARTIGO Eduardo Fagnani Ameaças ao mecanismo clássico de financiamento da Seguridade Social de ouro” (1945/1975) de capitalismo regulado. Esse argumento revisita teses do passado. Instituiu-se a forma clássica de financiamento tripartite da Seguridade Social (empregados. Quem vai se lembrar dessa afirmação quando o “novo” rombo da previdência voltar a servir de mote para o mercado financeiro impor novas rodadas de reformas para tornar o país “governável”? A desoneração é justificada pela criação de empregos formais. então deputada federal (PR-RJ). 12/2/1996). um aumento do emprego e da formalização”. Agência Estado). A redistribuição da renda é feita pela via tributária. do emprego e da formalização.195) vincula fontes de impostos gerais (contribuição do governo) e de contribuições sobre a folha de salários (contribuição de empregadores e trabalhadores). entre os neoliberais. via impostos gerais). Esse movimento ganhou impulso no âmago da luta pela redemocratização do Brasil e desaguou na Constituição de 1988. financiamentos e reestruturação econômica e social solidárias – que seriam fatores determinantes na melhoria do emprego e das condições de uso e remuneração da mão-de-obra – não adianta usar paliativos.194) e assegurar fontes de financiamento para o seu desenvolvimento. O custo do trabalho era item privilegiado. denunciava o caráter falacioso desse argumento: “Não existem evidências de que a regulamentação do mercado de trabalho seja um obstáculo de peso para a criação de empregos ou que sua flexibilização ‘contribua para solucionar os problemas de insuficiência. 13/09/2012. 8). Recentemente. Entre 2006 e 2011 as renúncias fiscais passaram de R$ 79 bilhões para R$ 137 bilhões (Gastos tributários do governo federal: um debate necessário. sequer setorial. O verdadeiro custo Brasil. Mas o desemprego não cedeu naquela década e na seguinte. O “Orçamento da Seguridade Social” (art. afirmou o ministro da Fazenda (Governo desonera folha de mais 25 setores e renuncia R$ 12. “A tendência é um aumento da contratação de trabalhadores. não são as condições institucionais do mercado de trabalho. que dirá global. Segundo o Ministério da Fazenda a renúncia fiscal será de mais de R$ 60 bilhões até 2016. em média. O governo afirma que “não haverá impacto sobre a Previdência Social: a União compensará qualquer perda de arrecadação previdenciária com recursos do Tesouro”. A Constituição inovou em diversos pontos.

Apesar das privatizações dos anos 1990. convencimento e pressão para impulsionar o investimento privado e reduzir os efeitos internos da crise internacional.ECONOMIA Onde está o investimento privado? Marcel Gomes – de São Paulo O governo tem usado de incentivos. A necessidade de planejar e atender à população com qualidade e preços competitivos colocam em pauta também a necessidade de uma fiscalização mais eficiente por parte das agências reguladoras 22 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . grande parte do dinheiro alocado em serviços e infraestrutura foi feito pelo Estado.

Embora existam projetos de expansão. o custo da eletricidade no Brasil é visto como um dos fatores que tiram a competitividade da indústria nacional Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 23 Marcello Casal Jr/ABr .

que mede quanto as empresas gastaram com bens de capital. sobretudo aqueles em que participa da gestão. a moeda de troca é a revisão dos contratos.7% no trimestre. Para os transportes. a presidenta Dilma Rousseff tem empregado diversos mecanismos de incentivo. conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). hoje abaixo de 20%. a estratégia é fazer novas concessões. pressão e convencimento. No caso das telecomunicações. O objetivo imediato é reduzir o custo da conta de luz. acumulando recuo de 0. Isso é revelado por um outro indicador divulgado pelo IBGE junto com o PIB: a Formação Bruta de Capital Fixo. os últimos dados disponíveis do Produto Interno Bruto (PIB). E. em que períodos curtos de expansão são sucedidos por fases de estagnação – nem tão curtas assim. Com o diagnóstico de que o empresariado pode fazer muito mais pelos setores de infraestrutura. imagem marcante de vários momentos da história econômica brasileira. é vista como fundamental para fazer o país crescer de modo sustentável.2% nos doze meses anteriores a junho.O em 2012 a temporada de caça aos investimentos privados. que começam a vencer em 2015. em São Paulo ESSENCIAL PARA O CRESCIMENTO A elevação da taxa de investimento do Brasil. Esse índice. em que o novo marco regulatório mantém o setor atrativo para empresas privadas. A meta é evitar o chamado “voo de galinha”.3% em 24 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Andreia Reis governo federal “inaugurou” . 2% é a taxa de crescimento da economia brasileira em 2012 Falta de investimento privado em energia tem levado o sistema a falhas como um blecaute em maio de 2009. a solução foi pressionar as companhias através de mecanismos regulatórios. referentes ao segundo trimestre. desanimaram. O problema é que havia poucos sinais de recuperação no horizonte. para o ramo da energia. como máquinas e equipamentos. caiu 0. como rodovias e aeroportos. Sinal de que a preocupação é atual. A economia cresceu apenas 1.

e o elevado preço dos pedágios em parte das rodovias sob concessão. Basta lembrar a crise do apagão. tão necessários para aquecer a economia. em particular. então.Construção da Ferrovia de Integração Oeste-Leste. torna-se mais difícil que o crescimento do PIB em 2012 supere sequer os 2%. Sem isso. Obra realizada com recursos do PAC doze meses. atrair o investidor privado sem tirar do Estado seu poder regulador? Como permitir que o empresário se interesse pelas concessões e ganhe dinheiro. não possui a solução para todos os nossos males econômicos. São justamente os investimentos das empresas. revela que o empresariado. A experiência brasileira. Não há dúvida que os investimentos privados podem ajudar a mudar esse cenário. Mas não de qualquer maneira. que ligará Ilhéus (BA) a Figueirópolis (TO). nas quais o arranjo normativo Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Alberto Coutinho/Secom 25 . segundo dados do IBGE anos após a venda de distribuidoras de eletricidade. que não dão sinais de avanço. poucos 1. um índice pequeno se comparado aos demais países em desenvolvimento. entre 2001 e 2002. nos doze meses anteriores a junho.2% é a taxa de crescimento do PIB. apesar de sua evidente expansão. sobretudo na era das privatizações da década de 1990. Como. Enquanto críticos afirmaram que o governo faz privatizações mesmo após denunciá-las durante a campanha eleitoral. o alto custo e a baixa qualidade dos serviços de telefonia. a presidenta responde com a alegação de que as novas concessões são “parcerias”. sem prejudicar o interesse público? Essas questões têm sido enfrentadas por técnicos do governo e pela presidenta Dilma. por si só.

5 mil quilômetros de estradas e a duplicação de 5. predomina no deslocamento das mercadorias. a mais cara e poluente. Acima. se comparado ao que o setor público vem investindo. estaduais e municipais colocaram R$ 10. Em um país continental. como o ferroanel de São Paulo e as ligações ao porto de Santos 26 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Sérgio Vale/Agência de Notícias do Acre . ao longo de 25 anos. Para atacar o problema. Esses montantes. o governo lançou em agosto o 40% é o aumento do investimento feito pelo setor privado em rodovias no ano de 2011 rodovias. Cobrança em área urbana é proibida.garantiria o “fortalecimento das estruturas de planejamento e de regulação”.8 bilhões nas rodovias. predomina no deslocamento das mercadorias. Em 2011. Em 2011.7 mil. TRANSPORTES E LOGíSTICA Entre as carências de infraestrutura do país. porém. foram atualizados em valores de dezembro de 2011. como a Fernão Dias. Carlos Alvares da Silva Campos Neto. alta de 40% sobre 2002. É pouco. os governos federal. a mais cara e poluente. o empresariado alocou R$ 3. O programa prevê a concessão de 7. O modelo de disputa selecionará a concessionária pelo menor valor de tarifa de pedágio a ser cobrada dos usuários. abertura de estrada no Acre Programa de Investimentos em Logística. entre São Paulo e Belo Horizonte. o Programa de Investimentos em Logística também aposta no apoio do capital privado para a reforma e construção de 10 mil quilômetros de trilhos. A matriz rodoviária. A expectativa do governo é elevar o investimento privado. caminhões transitam por milhares de quilômetros em estradas esburacadas e mal sinalizadas.5 bilhões nas estradas. caminhões transitam por milhares de quilômetros em estradas esburacadas e mal sinalizadas do Ipea. Há trechos considerados estratégicos em termos de logística. Em um país continental. Por exigência contratual. o concessionário só poderá exigir pedágio após a conclusão de 10% das obras previstas. com expansão de 238% sobre 2002. uma das mais notáveis está no setor de transportes e logística. o que já foi testado em outras concessões de A matriz rodoviária. No caso das ferrovias. que prevê a aplicação de R$ 133 bilhões em obras de rodovias federais e ferrovias. compilados pelo coordenador de Infraestrutura Econômica Obras de infraestrutura têm contado com financiamentos do PAC em diversos estados.

[. transporte de cargas. também no setor ferroviário como no caso das estradas. o coordenador do Ipea Campos Neto alerta que há um teto não muito alto para eles. Com isso. não haverá muitos outros trechos que interessam ao setor privado.5 bilhões no ano passado. o investimento dos empresários em ferrovias alcançou R$ 1. o porto de Santos (SP) Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 27 .. Os trilhos. 238% foi o aumento do investimento público em estradas entre 2002 e 2011 interessantes para o setor privado”. por meio de ofertas públicas. assim. O modelo escolhido pelo governo mais uma vez se foca na menor tarifa: o leilão de concessão será vencido pela companhia que oferecer o mais baixo preço para o trânsito dos trens. toda a capacidade de a expectativa é de aumento da participação privada. A vantagem para essas últimas é que o prejuízo será do governo. A opção é sempre receber a estrutura já pronta” Carlos Álvares da Silva Campos Neto. Acima. os trilhos terão de ser compartilhados por várias empresas. assim Sidney Murrieta “Depois da concessão desses 5. não haverá muitos outros trechos INCENTIVO ESTATAL Entretanto. e a revenderá depois aos interessados. poderão ser usados por operadores ferroviários ou mesmo pelas próprias concessionárias.7 mil km de rodovias. Em 2011. Isso significa que o poder público jamais poderá abandonar seu papel de investidor em estradas. se a demanda for menor do que a capacidade construída.5 bilhão. 290% a mais do que em 2002. diz ele.e entre Rio de Janeiro e Vitória. o governo comprará. que atingiram R$ 4. “Depois da concessão desses 5.7 mil km de rodovias.] Há pouca disposição das empresas para construir novas rodovias. Além disso. para aguçar o interesse do setor privado. sobretudo na abertura de novas Carolina Macedônio Amâncio coordenador do Ipea O investimento na melhoria e na modernização dos portos continua sendo um ponto fundamental na política de expostações.. Mas. a expansão foi bem menor do que a registrada pelos investimentos públicos. através da estatal Valec e após a finalização das obras. alta de 110% sobre 2002. DúVIDAS E DESAFIOS Apesar da expectativa do governo em atrair o empresariado.

alta de 40% sobre 2002. O setor público. Nesse caso. Em fevereiro. explica Campos Neto.9 bilhão no ano passado. poderá conquistar mais o interesse do empresariado. em agosto.8 bilhões nas rodovias. também.5 bilhões. na Câmara Municipal de Ilhéus (BA). seja via orçamento fiscal ou Infraero. Em 2011. Não é à toa que o governo federal prepara um novo pacote para o setor.5 bilhões no setor. na opinião de Campos Neto. Campos Neto alerta. A unidade representará uma importante via de exportação de minério de ferro Em 2011. o empresariado alocou R$ 3. em que se prevê a construção de terminais pela iniciativa Apresentação do Projeto do Porto Sul. e os concessionários terão de investir mais R$ 16 bilhões durante o período do contrato. que a iniciativa privada tem interesse em apenas “10 ou 12 dos 66 aeroportos administrados pela Infraero”. ÁREA ATRAENTE Se há uma área que. investiu R$ 10. foram aplicados R$ 1. e planeja fazer o mesmo com as estruturas de outras cidades. o poder público terá de se manter como um grande investidor aeroportuário. é a de portos. No total. O coordenador do Ipea diz que a mesma lógica vale para os aeroportos.para construir novas rodovias. porém. “Há pouca disposição das empresas . A opção é sempre receber a estrutura já pronta”. Brasília e Campinas. alta de 267% sobre 2002. por sua vez. o governo leiloou os terminais de Guarulhos. o investimento nesse setor no país era praticamente 100% público. Os leilões arrecadaram R$ 24. com expansão de 238% no mesmo período 28 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Carol Garcia/Secom Adenilson Nunes/Secom rotas.

e um porto de águas profundas em Vitória (ES). mas que ainda se mantém bem abaixo do aplicado por outros países emergentes. Rússia e Coreia superam os 3%. porém. o que seria possível a partir do lançamento de um novo marco regulatório. deve ser ampliado nos próximos anos Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Ventura 29 . “Tudo estava entregue às empresas.630 (Lei dos Portos).9 “Há muitos atrativos para os portos. em São Paulo. com o lançamento do Programa Nacional de Banda Larga. e estiveram submetidas a uma regulação atrasada e fraca” Rodrigo Abdalla de Sousa. e estiveram submetidas a uma regulação atrasada e fraca”. a um preço mais barato que o oferecido. em 2010. afirma. em termos de valor”. A Telebrás foi reativada para executar o bilhão de reais foram investidos no setor aeroportuário em 2011 1. Elas fariam o investimento e a operação.Sidney MMurrieta TELECOMUNICAÇÕES NA BERLINDA Se no setor de transporte a estratégia do governo federal “Tudo estava entregue às empresas [de acordo com o modelo neoliberal]. para atrair investimento privado é o convencimento. o pesquisador do Ipea e especialista em telecomunicações privada e a aplicação de novos investimentos em unidades arrendadas antes da Lei 8. Essa história começou a mudar.7% de seu PIB em infraestrutura. pelas operadoras privadas. pesquisador do Ipea e especialista em telecomunicações. diz o coordenador o Ipea. como um investimento menor para a construção. no caso das telecomunicações predomina a pressão. esses novos aportes ajudem a elevar a taxa de investimento total em infraestrutura no Brasil – que cresceu para R$ 23. O Brasil investe cerca de 0. Seu objetivo é proporcionar o acesso ao serviço a 40 milhões de domicílios brasileiros até 2014. e na avenida Rio Branco. os investimentos se concentraram “no setor comercial de Brasília. no Rio”. Segundo Rodrigo Abdalla de Sousa. um montante 141% superior ao de 2002. principal terminal de transportes do Amazonas. Sem uma coordenação central. outro em Manaus (AM). entre as privatizações da década de 1990 e o ano de 2009 predominou o “modelo neoliberal”. explica Sousa. serviço tornou-se caro e de baixa qualidade. na avenida Paulista. e a carência que temos no setor. enquanto China. à época. Elas fariam o investimento e a operação. Mesmo nas regiões mais endinheiradas. se comparado a outras obras. Ele espera que O porto de Manaus. Espera-se que três novos terminais devam ser construídos e administrados pela iniciativa privada: um em Ilhéus (BA). deixando grandes clarões pelo país. que viu o comércio internacional crescer 125% entre 2003 e 2011.1 bilhões em 2011.

os investimentos foram estimados em R$ 12. também é para o BNDES”. Esse mecanismo ajuda a diluir os riscos de implantação e operação de um novo projeto entre todos os atores envolvidos no setor energético. A penalização foi aplicada por estado e atingiu a operadora com maiores problemas em cada um deles. Isso ocorre porque o fluxo de caixa do projeto é a principal fonte de consultor em energia e diretor do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo Na época de anúncio do programa. Tim e Oi foram penalizadas. Por sua vez. Claro. a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). enquanto no financiamento corporativo tradicional as garantias são calcadas principalmente nos ativos dos investidores.] Se é mais seguro para o investidor privado. muitas vezes. investimentos em pesquisa e financiamentos. diante da baixa qualidade dos serviços. Todas. tocado pelo consórcio Norte Energia. majoritariamente do Estado.. a Anatel decidiu proibir a venda de novos chips em todo o país. [. Em termos de financiamento de novos projetos. no aumento do número de antenas de telefonia celular.8 bilhões. Mas. “O ‘project finance’ trouxe segurança aos investidores”. sendo que R$ 4 bilhões teriam sido garantidos pela suspensão da venda de novos chips. defende Kirchner. Claro e Oi – de venderem novos planos. tiveram de apresentar um plano de investimentos para superar as carências. Entre elas. entre desonerações. se o setor público fazia sua parte corrigindo erros da privatização. As operadoras foram ao governo e prometeram injetar de cerca de R$ 20 bilhões até 2014. explica o consultor em energia e diretor do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo Carlos Augusto Kirchner. O mesmo valeria para o BNDES. capitalização da Telebrás. em equipamentos para aumentar a taxa de transmissão de dados e na melhoria do atendimento aos clientes. 30 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . uma nova legislação para o setor lançou as bases de um modelo que. sem abrir mão do setor Beatriz Arruda “O ‘project finance’ trouxe segurança aos investidores. Ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) caberia a metade da origem desses recursos. hospitais e outras localidades de interesse público. ENERGIA MAIS BARATA A crise do apagão e a necessidade de racionamento de energia. Em julho deste ano. O exemplo gaúcho exigiu que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) tomasse providências. Novas hidroelétricas em construção utilizam o mecanismo. inclusive Belo Monte. sobretudo. as operadoras privadas oferecem os planos de acesso mais baratos ao consumidor final – o que. bilhões de reais devem ser investidos até 2014 pelas operadoras de telefonia celular 20 aplicados. porém. escolas. a aposta foi em um mecanismo chamado “project finance”. Foi criada uma entidade responsável pelo planejamento de longo prazo. Tim. e apenas a Vivo escapou. que também financia a maior parte das grandes e bilionárias obras. não acontece. o Procon de Porto Alegre decidiu proibir as quatro grandes operadoras de telefonia móvel – Vivo. não funcionava mais. Mais tarde. fortaleceu o papel coordenador do Estado. desverticalizado pelas privatizações dos anos 1990 e deixado ao sabor do mercado. entre 2001 e 2002. a proibição foi levada a todo o estado. centros de pesquisa. feito com o objetivo de atrair tanto recursos privados quanto públicos. também é para o BNDES” Carlos Augusto Kirchner privado. qual seria a contribuição do setor privado? A resposta a essa questão começou a se materializar com a insatisfação pública manifestada através das listas de reclamações de usuários mantidas pelos Procons. “Se é mais seguro para o investidor privado. revelaram que o modelo energético brasileiro. justamente com a função de avaliar permanentemente a segurança do suprimento de eletricidade. o projeto de Belo Monte. Queiroz Galvão e Vale. que tem entre seus membros empresas estatais e privadas como Chesf. segundo recorrente denúncia da organização não governamental Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). Os recursos devem ser pagamento do serviço e da amortização do capital de terceiros. Como o problema não atingia apenas o Rio Grande do Sul.programa e prestar suporte a políticas de conexão à internet direcionadas a universidades. Entre 2003 e 2004..

EDUCAÇÃO A universidade se universaliza? Daniel Cassol – de Porto Alegre 34 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Stock .

E dentro de um passivo existente. podendo alcançar 63 em 2014 (com um total de 321 campi). “A universidade. em 2012 o número chegou a 59 (com 274 campi). Os números são expressivos. que é baseada no tripé ensino. havia um passivo. “As ações do programa contemplam o aumento de vagas nos cursos de graduação. ainda segundo o MEC. as universidades não estão dando conta de fazer pesquisa e extensão”. estaríamos diante de uma crise de crescimento. Há universidades funcionando em escolas municipais e até mesmo hotéis desativados. em 2003. Marinalva Silva Oliveira. o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) começou a elaborar em agosto deste ano um dossiê para apontar as dificuldades enfrentadas pelas instituições “Quando o Reuni foi criado já havia problemas. no entanto. problema agravado com a criação de novas unidades e a falta de condições físicas adequadas. laboratórios e professores. passando pelo semiárido nordestino. “O ritmo acelerado da expansão das universidades.046 novos cursos de graduação. entre outras metas”. a criação de novas universidades expõe carências de infraestrutura e déficits no número de professores. pois os investimentos aumentaram N os últimos anos. Já as universidades que foram criadas apresentavam problemas de infraestrutura. Para alguns. em 2007. para mais de 230 mil em 2011. Principal crítico das deficiências do processo de expansão. bibliotecas e equipamentos em grande parte das novas unidades. critica Marinalva. no entanto. do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). No mesmo período. Segundo a página do Ministério da Educação criadas e ampliadas a partir do Reuni. Para a dirigente. a expansão das universidades não levou em consideração um passivo existente RITMOS EM DESCOMPASSO Na avaliação do pesquisador do Ipea Paulo Corbucci. Do pampa gaúcho ao coração da Amazônia. um laboratório foi improvisado dentro de um banheiro na Unipampa. a qualidade do ensino fica comprometida. pesquisa e extensão. implanta um programa de expansão”.Há uma polêmica sobre os números da expansão do ensino superior federal no país. Para outros. Se até o ano de 2002 o Brasil contava com 43 instituições de ensino superior (IES) federais espalhadas em 148 campi. pelo Recôncavo Baiano. Para a presidente do Andes. vem sendo acompanhado por problemas relacionados à falta de infraestrutura e à insuficiência de professores e técnicos administrativos” instituições de ensino superior (IES) federais existem no Brasil 59 INFRAESTRUTURA E CONTRATAÇÕES O ritmo acelerado da expansão das universidades. vem sendo acompanhado por problemas relacionados à falta de infraestrutura e à insuficiência de professores e técnicos administrativos. Em um dos casos mais chamativos. uma das explicações para as dificuldades encontradas diz respeito a um descompasso entre o ritmo de expansão estabelecido pelo MEC e o ritmo Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 35 . o total de matrículas em instituições federais passou de 638 mil para mais de um milhão. Um balanço do Reuni divulgado em junho deste ano pelo MEC apontou que as vagas anuais de ingresso na graduação mais que dobraram nas federais. no Rio Grande do Sul. Ou seja. passando de cerca de 110 mil. pelo Vale do Jequitinhonha e pelas regiões de fronteira. a interiorização de campi e a criação de novas instituições federais de ensino superior não somente democratizaram o acesso ao ensino superior como desencadearam uma nova dinâmica de desenvolvimento em regiões economicamente deprimidas. que não tinha sanado os problemas anteriores. Faltavam professores e não havia reposição. aponta. Com o Reuni. foram criados 2. universidades federais. A expansão da educação superior no Brasil recebeu impulso com a criação. Por falta de equipamentos. o governo. várias regiões do Brasil vêm experimentando um processo de transformação proporcionado pela chegada de (MEC) na internet. passa a ter apenas ensino. a ampliação da oferta de cursos noturnos. na contratação de novos professores. a promoção de inovações pedagógicas e o combate à evasão. A entidade aponta a falta de laboratórios.

421 para docentes e 20. A previsão é de 43.4 bilhões na expansão e reestruturação das universidades federais desde o começo do processo de expansão. e as demais estão em processo de licitação. garantindo que os investimentos acompanham o cronograma previsto pelas instituições. do Ipea. pesquisa e extensão. de contratação e adaptação de professores e de técnicos administrativos. de laboratórios. ORÇAMENTO E EXPANSÃO De acordo com o balanço divulgado pelo MEC em junho. Na mesma direção. mas atribui esse obstáculo ao processo de crescimento do próprio Brasil e às dificuldades decorrentes em relação à contratação de mão de obra e compra de materiais. ainda em 2012 devem ser abertos concursos públicos para a contratação de 8.099 vagas de trabalho por meio de concurso. 42.678 para técnicos administrativos. .7 mil professores. Em relação à infraestrutura. no processo de expansão da rede federal de ensino superior foram criadas. etc”. Eduardo Rolim. a Secretaria de Educação Superior (Sesu) do MEC instalou em julho deste ano uma comissão para acompanhar o andamento das ações para a consolidação da expansão das universidades e a situação dos egressos das universidades. sobre- 36 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . que é baseada no tripé ensino. que autoriza o MEC a criar mais 77 mil cargos efetivos. cargos de direção e funções gratificadas para as universidades e os institutos federais.417 já estão concluídas (62%) e 1. o impacto da graduação na vida deles e nas regiões. De acordo com Paulo Corbucci.“A universidade. as universidades devem cumprir requisitos estabelecidos por lei no que se refere a licitações e concursos. o presidente da Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais de Ensino Superior (Proifes). de construção de prédios. como o Andes e o Proifes.714 de técnicos administrativos.608 de direção e 3. O Ministério da Educação (MEC) reconhece que houve atraso em algumas obras. laboratórios e professores.875 cargos de professor. Em maio. 2. Deve-se ter em conta que. por exemplo. passa a ter apenas ensino. fazem manifestação em frente ao estádio do Maracanã orçamento federal destinado às universidades vem crescendo de forma considerável. “É provável que haja problemas em relação à sincronia entre diversas ações como. contratação dos aprovados e o efetivo exercício desses. sendo 21. a realização de concursos. 27.Alunos e professores de universidades federais e estaduais. o MEC informou que de um total de 3. presidente do Andes legal das políticas públicas. por serem instituições públicas. Por falta de equipamentos. entre 2003 e 2011.981 funções gratificadas. As obras paralisadas ou com contratos cancelados totalizam 163 (4%). o que pode contribuir para retardar o início da oferta dos serviços por elas prestados” analisa Corbucci. entende ser Tânia Rêgo/ABr necessário mais tempo para as condições se estabilizarem. as universidades não estão dando conta de fazer pesquisa e extensão” Marinalva Silva Oliveira. 1.885 obras. com as críticas realizadas pelas entidades docentes. o Congresso aprovou o Projeto de Lei nº 36/2012. além de representantes da área de saúde e de movimentos sociais. As universidades levaram para o interior o seu padrão de qualidade. afirma. e isso é muito relevante”. “Queremos identificar os egressos.022 (26%) estão em fase de execução. em 2003. o Rio de Janeiro . “Esse processo envolve questões complexas. o que estão fazendo. Reprodução Ainda assim. afirma o secretário de Educação Superior. O governo federal investiu R$ 8. Amaro Henrique Pessoa Lins. Segundo Amaro Lins.

7 bilhões em dívidas das faculdades particulares com a União em bolsas de estudo do Programa Universidade para Todos (Prouni). o governo federal assinou um termo de acordo com o Proifes para o envio ao Congresso do projeto de lei anos.tudo se os últimos 20 anos forem tomados como referência. já reajustados. esclarece. talvez. Já um professor doutor recém-ingressado na carreira passa a receber salário de R$ 8. 4. o governo afirmou que não tinha dinheiro. enquanto os repasses para o funcionamento das instituições federais de ensino superior (Ifes) aumentaram 17%. Como comparativo. de três anos. o governo federal assinou um termo de acordo com o Proifes para o envio ao Congresso do projeto de lei que concede reajuste à categoria ferido para o seu funcionamento”. sobre os salários de março. Pela proposta do MEC. A qualidade das universidades públicas vai decair”. O custo total será de R$ Elisa Bahiense 37 . que receberão o aumento maior (40%). É uma concepção política. nos anos de 2013. e será pago em três etapas. Outro ponto crítico. de privatização do ensino. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 FALTA DE PROFESSORES Para a presidente do Andes. Entre 2008 e 2011. “A visão é muito empresarial. Em agosto. Com a aprovação do projeto de lei para a contratação de profissionais. alerta a presidente do Andes. o Andes cobra agora a apresentação de um cronograma de concursos públicos. e isso não cabe na universidade”. O número de contratações nos últimos anos teria sido insuficiente.2 bilhões até 2015. o descompasso entre o orçamento federal e o ritmo de expansão das universidades reflete uma política de governo baseada numa concepção privatista do ensino superior.05 mil. é o déficit de professores. terão os vencimentos elevados de R$ 12. que desvalorizaram a carreira docente em relação a outras carreiras do serviço público federal. Concluído esse período. O Andes afirma que a proposta de reajuste apresentada pelo MEC não dá conta de recompor as perdas salariais dos últimos A reestruturação da carreira docente foi a principal pauta de reivindicação dos professores das universidades federais. Em agosto. de gastar menos e que concede reajuste à categoria. período referente ao último Plano Plurianual (PPA). “Quando defendemos R$ 8 bilhões para a reestruturação da carreira. os investimentos em infraestrutura tiveram crescimento real de 242%. que em maio deste ano entraram em uma greve desgastante para o governo e para as universidades. indica Corbucci. 2014 e 2015 – na proporção de 40%. e a iniciativa do MEC de criar a figura dos professores temporários teria impactado negativamente na qualidade do ensino. Os professores titulares com dedicação maior. 30% e 30%.22 mil para R$ 17. “Não se pretende afirmar que tais proporções devessem ser equivalentes. chegará a R$ 10 mil. mas. A reestruturação da carreira docente foi a principal pauta de reivindicação dos professores das universidades federais. que um maior equilíbrio entre ambas as rubricas pudesse reduzir parte das dificuldades identificadas”. “É possível que haja um descompasso entre o que vem sendo investido na expansão e adequação da rede federal e o que é trans- fazer mais. na visão do Andes. que em maio deste ano entraram em uma greve desgastante para o governo e para as universidades. o aumento varia entre 25% e 40%. Marinalva cita a lei aprovada em julho deste ano que transforma 90% do total de R$ 15.4 mil durante o estágio probatório. afirma Marinalva Oliveira. excluindo-se os hospitais de ensino.

Além disso. com 600 mil vagas no total. Há muito desperdício do dinheiro público. realizado no mês de agosto em São Paulo. informa Corbucci. observando os requisitos de necessidade. “Não precisa ter universidade para todo o lado. o maior desde a edição do Plano Real. do Proifes. explica o pesquisador. avalia. Há muito desperdício do dinheiro público. na maioria técnico de planejamento e pesquisa do Ipea Segundo o portal do MEC. afirmou o ex-presidente. “O Ministério da Educação focou a expansão para o interior dos estados. Ciência e Tecnologia]. alerta o pesquisador. Senão vira um balcão de empregos. por outro lado. “Não precisa ter universidade para todo o lado. sustenta. mas é claro que o aumento do número de vagas. a instalação de novas universidades já abre uma janela de oportunidades para essas localidades. o setor privado não investia. afirma o presidente do Proifes. que se somaram aos 140 existentes anteriormente. na expansão da rede federal tenha mais a ver com a gestão dos recursos. a qual diz respeito principalmente à gestão da política”. FALTA DE PRIORIDADES Se o aumento dos recursos para a educação e a reestruturação da carreira são preocupações dos dos casos. Estão criando universidades em todos os lugares e o resultado é pífio em termos de formação”. creio que estão sendo fortalecidas as bases para que a educação superior pública possa exercer o seu papel em favor do desenvolvimento da sociedade brasileira” Paulo Corbucci. concedido por intermédio do Programa de Financiamento Estudantil (Fies) e do ProUni. O processo de interiorização das IES era necessário na medida em que. o acordo assinado pela entidade com o governo federal vai recuperar em 2013 o patamar salarial de 2010. Ele pode ser incrementado com a aprovação. no Plano Nacional de Educação. Segundo Rolim. abaixo do verificado nos anos anteriores.“A política de expansão da educação superior pública constitui uma das principais inflexões ocorridas no campo da política educacional brasileira nas duas últimas décadas. A crise de estagnação no setor privado é um problema mais grave a ser enfrentado. “Resultados ainda menos favoráveis referem-se aos novos ingressantes. em instituições privadas de educação superior”. A previsão até 2014 é de se chegar a 562 unidades. para o pesquisador. A avaliação é de Paulo Corbucci. o que era uma antiga demanda. as matrículas nas universidades particulares ampliaram-se em apenas 10%. quanto econômicos. Em que pese os ajustes necessários a qualquer política pública. Senão vira um balcão de empregos. Entre 2003 e 2010. o Prouni “tem como finalidade a concessão de bolsas de estudos integrais e parciais a estudantes de cursos de graduação e de cursos sequenciais de formação específica. “Entendo que superar a crise de estagnação constitui tarefa bem mais árdua que a da superação da crise de crescimento. Entre 2007 e 2010. o Ministério da Educação ampliou a rede federal de educação profissional com a criação de 214 novos Ifets. Na ausência do financiamento público. licenciatura e tecnológicos”. evidenciada pelo baixo crescimento das matrículas e de novos ingressantes nos últimos anos. O Ministério informa ainda que as faculdades inscritas no programa recebem isenção de tributos. Ex-presidente da República 38 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . que o aumento de recursos destinados às universidades foi considerável nos últimos anos. cujo número se manteve praticamente inalterado nos últimos quatro anos”. de cursos e de universidades cria novas demandas que têm de ser atendidas”. Eduardo Rolim. ESTAGNAÇÃO PARTICULAR O pesquisador do Ipea Paulo Corbucci analisa que o setor privado da educação superior vem apresentando uma certa estagnação. “Há que se reconhecer que as verbas de OCC (Outros Custeios e Capital) das instituições federais cresceram muito nos últimos anos. O secretário de Educação Superior Amaro Lins sustenta que o processo de expansão foi baseado no diálogo com as universidades e levando em consideração as necessidades de cada região. destaca o secretário. que ofertam cursos de bacharelado. há que se ressaltar a importância da expansão dos Ifets [Institutos Federais de Educação. o desempenho poderia ter sido ainda mais desfavorável. tanto em termos educacionais. Em seminário da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ). a expansão das universidades vem recebendo críticas devido a uma suposta falta de prioridades na criação de novas unidades e instituições. o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou que a expansão das universidades foi feita sem planejamento e não resultou em qualidade na formação de novos profissionais. a adequação dos investimentos públicos docentes. dos 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação. “Por si só. na medida em que. Essas regiões passaram por uma grande transformação com a chegada das universidades”. Estão criando universidades em todos os lugares e o resultado é pífio em termos de formação” Fernando Henrique Cardoso.

complementa. atraindo gente jovem. se cria toda uma nova pressão social positiva. Não é possível imaginar a inexistência de demanda quando a imensa maioria das matrículas no ensino superior está na rede privada. A cidade muda. atraindo gente jovem. além de se dar acesso ao ensino público aos habitantes locais”. entre outras. com espírito criador. o país deve ampliar a conclusão da educação básica na idade adequada e viabilizar condições para o acesso e a permanência dos jovens no ensino superior. nas áreas de tecnologia. de licenciatura. creio que estão sendo fortalecidas as bases para que a educação superior pública possa exercer o seu papel em favor do desenvolvimento da sociedade brasileira”. presidente do Proifes Reitoria da Universidade Federal do Paraná. atraindo empresas. enfim. com a prioridade que se deve atribuir à univer- “Quando se cria uma nova universidade ou um novo campus em uma região onde não existia ensino superior público. “A política de expansão da educação superior pública constitui uma das principais inflexões ocorridas no campo da política educacional brasileira nas duas últimas décadas. atraindo empresas. afirma Corbucci.ESTATAL E PRIVADO “A demanda por ensino superior se justifica em todo o país pela necessidade de profissionais qualificados. além de se dar acesso ao ensino público aos habitantes locais” salização da educação básica no Brasil. Para o pesquisador. Em que pese os ajustes necessários a qualquer política pública. Paulo Corbucci. com espírito criador. “Quando se cria uma nova universidade ou um novo campus em uma região onde não existia ensino superior público. defende Eduardo Rolim. presidente do Proifes. Curitiba Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Denise Mayumi 39 . a ampliação dos mecanismos de financiamento público ao setor privado e o crescimento econômico com ampliação do poder aquisitivo das classes C. D e E são apontados pelo pesquisador como eixos a serem trabalhados no cenário futuro. Muitos desses cursos têm avaliações ruins nos exames”. sustenta que os investimentos na educação superior não colidem Eduardo Rolim. A continuidade da expansão da oferta de vagas pelas redes públicas. se cria toda uma nova pressão social positiva. enfim. criando uma nova dinâmica na sociedade local. do Ipea. criando uma nova dinâmica na sociedade local. A cidade muda.

5% do PIB. maior o gasto público. o argumento de que o nível de gasto público reflete. a carga tributária subiu de 25. portanto. A variável utilizada para mensurar a ilusão fiscal foi a razão entre o total arrecadado de imposto de renda – considerando-se tanto o montante arrecadado das pessoas físicas quanto o montante arrecadado das pessoas jurídicas – e o total da receita arrecadada pelo governo federal. Essa hipótese é conhecida na literatura como “hipótese de Mill”. Rozane Bezerra Siqueira é professora de economia da UFPE. induzindo-os. A relação entre sufrágio universal e gasto público já era discutida na literatura de finanças públicas no século XIX. o que teria como consequência uma elevação do montante de tributos. educação e assistência social. uma vez que a origem desse argumento é atribuída a John Stuart Mill. a apoiar níveis excessivamente elevados de gasto público. destacando-se que foram consideradas apenas as receitas primárias do governo federal. a ocorrência de ilusão fiscal reforça a importância de reformas que aumentem a transparência do sistema tributário. Essa hipótese é questionada pela literatura de ilusão fiscal. maior é a probabilidade do contribuinte subestimar a carga tributária que recai sobre ele. quanto menor a fração do imposto de renda na arrecadação total – que equivale a uma maior proporção de tributos indiretos –. Com isso em mente. passando de aproximadamente 14% para 21. quando o governo é eleito pelo voto da maioria. cabe destacar duas implicações da presença de ilusão fiscal. no mínimo. Alguns analistas têm observado que. quando a participação do imposto de renda em relação à receita arrecadada se eleva. no intuito de investigar se ilusão fiscal pode ajudar a explicar o substancial crescimento do gasto federal no Brasil desde a redemocratização. o gasto primário do governo federal eleitor-contribuinte mediano dependeria da hipótese de que esse eleitor tivesse informação completa. Ainda de acordo com a literatura sobre ilusão fiscal. se houver ilusão fiscal. esse processo de forte expansão do gasto governamental coincide com o período que se seguiu à redemocratização do Estado brasileiro. a baixo custo. a teoria da ilusão fiscal argumenta que governos que veem os indivíduos como avessos ao pagamento de impostos tenderão a escolher estratégias de tributação que levam os eleitores a subestimar os verdadeiros preços das atividades governamentais. uma vez que as escolhas democráticas dos cidadãos-eleitores podem ser sistematicamente distorcidas.5 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB). uma das estratégias mais utilizadas pelas autoridades fiscais para promover ou explorar ilusão é a participação de tributos indiretos (ou “menos visíveis”) na receita tributária. Primeiro. Entre 1991 e 2011. a teoria do eleitor mediano prevê que a escolha democrática eleva o nível de gasto público. Como esse eleitor tende a demandar mais proteção do Estado e serviços básicos. Segundo. Alguns economistas e cientistas políticos argumentavam que o voto popular elevaria as pressões políticas por gastos públicos (sociais). Em meados do século XX. buscamos uma estratégia de testar a validade da hipótese de Mill. da Silva Rozane Bezerra Siqueira Existe ilusão fiscal no Brasil? O gasto público no Brasil cresceu substancialmente nas duas últimas décadas. surgiu a “teoria do eleitor mediano”. Nesse mesmo período. assim como de iniciativas para melhorar a percepção tributária e a assertividade do contribuinte. a qual sugere que. (inclusive transferências a estados e municípios) aumentou em torno 7. com ilusão fiscal. não por acaso. as preferências do Alexandre Manoel é técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea. a utilidade do modelo do eleitor mediano para avaliar o gasto público é. sobre os custos e benefícios dos serviços providos pelo governo. Supõe-se que. de fato.ARTIGO Alexandre Manoel A. De fato. Assim. a exemplo de saúde. Todavia. Assim. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 43 . os gastos do governo diminuem. Por fim. Essa relação indica que há ilusão fiscal na demanda por gasto público federal. Os resultados econométricos obtidos indicam que tanto no curto como no longo prazo. Utilizamos dados referentes ao período 1990-2011 e um modelo padrão de eleitor mediano modificado para incluir ilusão fiscal. controlando por uma série de variáveis. uma vez que o aumento da participação de um imposto com maior visibilidade leva a um menor nível de gasto público. espera-se que a pressão política exercida pela demanda de bens públicos seja mais forte. reduzida.2% para cerca de 36% do PIB. quanto maior a proporção de tributos indiretos em relação ao total de tributos pagos. a competição entre partidos políticos resulta na eleição de um candidato cujo plano de governo coincide com as preferências do eleitor que representa a renda mediana da população. em uma democracia.

para que o instrumento seja implementado. produtos eletroeletrônicos e seus componentes e resíduos de embalagens de agrotóxicos. deve haver uma logística de recolhimento. Além disso. foi elaborado um que trata especificamente dos resíduos objeto da logística reversa. Nesse sentido.937 (cerca de 53%) exercem controle sobre o manejo de resíduos especiais realizado por terceiros. Em dezembro de 2011 foi lançado o primeiro chamamento para o acordo setorial para embalagens usadas de óleos lubrificantes. Outros tipos de resíduos. integrada e ambientalmente adequada dos resíduos sólidos.br. identificou os principais documentos legais dos âmbitos federal. A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico-2008 revelou que dos 5. pneus. são importantes instrumentos para verificação do cumprimento de metas. Os resíduos de sistema de logística reversa obrigatório são definidos nos termos da PNRS em seis grupos principais: pilhas e baterias. lâmpadas fluorescentes de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista.ARTIGO Jaqueline Fernandez Adriana de Moura Júlio César Roma Sistema de logística reversa: responsabilidade compartilhada sobre o ciclo de vida do produto A Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS (Lei 12. estão em andamento discussões sobre a cadeia de logística reversa para vários resíduos de sistema de logística reversa obrigatória. também podem ser objeto da cadeia da logística reversa. fornecendo subsídios à elaboração do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. As pesquisas sobre resíduos sólidos. em termos quantitativos. fabricantes e importadores. em especial a PNSB e outras. Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica. disponível em www. O instrumento aplica-se a todos os tipos de resíduos. em articulação com outras políticas relacionadas ao tema. realizaram diagnósticos com o objetivo de traçar um panorama dos resíduos sólidos no Brasil. desafios. O estudo.ipea. Atualmente. e todo o sistema deve ser avaliado sob os aspectos técnico e econômico. Dessa forma. Para tal. Segundo a PNRS. independente do oferecimento de serviço público de limpeza urbana. Também se verificou a dificuldade de estimar a geração dos resíduos. pesquisadores do Ipea. No período de maio a julho de 2011.564 municípios brasileiros. As principais fontes de dados foram o Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SNIS) e a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB). estabelecendo-se a responsabilidade compartilhada pelos resíduos entre geradores.gov. importadores. Destes. além de estudos feitos pelas Secretarias Estaduais de Meio Ambiente. verifica-se a necessidade de participação de diversos atores. distribuidores ou comerciantes. sem dúvida. como medicamentos e embalagens em geral. por tipo de resíduo. objetivos e instrumentos visando à gestão forma a garantir o retorno desses resíduos ao fabricante após o uso pelo consumidor final. considerando ainda o desenvolvimento socioeconômico. A execução dos sistemas de logística reversa apresenta. Será necessário o planejamento de ações e o estabelecimento de metas específicas à logística reversa. apenas 2. seus resíduos e embalagens. para a implementação da logística reversa é necessário acordo setorial ou contrato entre o poder público e fabricantes. Devem ser considerados aspectos de qualidade ambiental e de saúde pública. resíduos anteriormente descartados poderão ser reaproveitados pelo próprio fabricante ou em outros ciclos produtivos. poder público. Entre esses diagnósticos. mediante adaptações para tal monitoramento. em especial para resíduos eletroeletrônicos e lâmpadas fluorescentes. A PNRS define Logística Reversa como instrumento a ser instituído para viabilizar a coleta e a devolução de determinados resíduos sólidos ao setor produtivo/empresarial responsável. O levantamento de informações possibilitou a identificação de dados oficiais sobre alguns dos resíduos. buscou identificar as informações mais recentes sobre os resíduos de sistema de logística reversa obrigatória. que se destacam por suas características de risco à saúde pública e ambiental. apenas 11% exercem controle sobre pilhas e baterias e 10% sobre lâmpadas fluorescentes. Ministério do Meio Ambiente. após a implementação dos planos de resíduos. em conjunto com especialistas temáticos. principalmente aos produtos ou embalagens que representam riscos à saúde pública e ao meio ambiente. de Jaqueline Aparecida Bória Fernandez é coordenadora do Curso de Engenharia Ambiental do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos – UNIFEB e bolsista PNPD/Ipea Adriana Maria Magalhães de Moura e Júlio César Roma são técnicos de Planejamento e Pesquisa do Ipea Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 47 . garantindo sua integração aos objetivos gerais da PNRS. óleos lubrificantes. estadual e municipal.305/2010) – apresenta princípios.

na segunda metade do século XVII.HIST RIA A superação dos obstáculos para a industrialização Gilberto Maringoni – de São Paulo A industrialização brasileira teve início quase um século e meio após a primeira Revolução Industrial. Os principais obstáculos estavam na exiguidade do mercado interno e nas baixas tarifas de importação de produtos manufaturados. Mas o principal entrave só seria superado no final do século XIX: a escravidão 48 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . na Inglaterra.

África Missy & the universe Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 49 . Tanzânia.Estátuas do monumento “Memória dos Escravos”. no Zanzibar.

O novo ciclo histórico balizou a economia e fomentou centralização do Estado nacional em formação. a produção cafeeira seria resultado do trabalho escravo em vastas propriedades agrícolas que paulatinamente tomaram conta das províncias do Rio de Janeiro. após o fim de uma série de rebeliões provinciais TERRA E ESCRAVIDÃO Até 1888. começou a ganhar peso na economia a Família de imigrantes italianos alojada na Hospedaria dos Imigrantes. de São Paulo. mil escravos eram importados anualmente. Utilizado como antídoto para o sono de operários que atravessavam noites em manufaturas e difundido como iguaria requintada em ambientes sociais. Nosso principal produto do período era o café. de 1846. Já existia uma cultura expressiva antes disso. expedição. a sociedade e a vida política nacional. embalagem. antes da extinção do tráfico atlântico em 1850 50 casas de financiamento. navegação e comercialização. de Minas Gerais e da Bahia. a Reforma Monetária. acarretou a redução do peso político e econômico do nordeste. mas nessa época o Brasil passa a ser responsável por 40% da produção mundial. Seu cultivo. Ao dinamizar a atividade econômica. em São Paulo. ao longo da segunda metade do século XIX. no início do século XX Utilizado como antídoto para o sono de operários que atravessavam noites em manufaturas e difundido como iguaria requintada em ambientes sociais. marcado pela cultura canavieira. o café conheceu demanda crescente nos países centrais partir da década de 1840. armazenamento. As principais medidas institucionais foram a Tarifa Alves Branco. quando regimes de trabalho de dois e de três turnos disseminaram-se por fábricas iluminadas por luz elétrica. O café teve a característica de organizar todo um subsistema econômico de negócios ligados à exportação. o café reorganizaria toda a economia. de 1844. A frutinha vermelha se espalhou pelos campos do sudeste e em breve seria o centro da pauta de exportação. O produto.N possível onda de desindustrialização na economia brasileira. o café ensejou algumas iniciativas governamentais destinadas a aumentar a arrecadação fiscal e a consolidar a unidade política e territorial do país. vale a pena examinar as dificuldades existentes para o país superar seu padrão agroexportador. que prospera em climas tropicais. O governo imperial e as oligarquias que giravam ao seu redor se fortaleceram perto da metade do século. Pelos cem anos seguintes. em regiões próximas à Corte. como iniciadas após a Independência. o café conheceu demanda crescente nos países centrais. Suas características como estimulante o tornariam uma espécie de marca da Revolução Industrial na Europa. o 50 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Reprodução um tempo em que se discute uma .

entre eles a exiguidade do mercado interno. as baixas tarifas alfandegárias praticadas pelo Brasil em relação às mercadorias inglesas contribuíam para sufocar a produção local. em 1850. Aliado a isso. Revista Illustrada. Eram também 1% mais baixas que as pagas por Uma visão da época. foi abrir os portos às “nações amigas”. A possibilidade de se iniciar um ciclo industrializante esbarrava em vários entraves estruturais. a economia escravista segue em lombo de burro. Em linguagem clara. As contrapartidas logos se materializariam. ao chegar ao Brasil em 1808. Mas a adoção do tear mecânico pela Grã-Bretanha – uma das marcas da primeira fase da Revolução Industrial do século XVIII – barateou preços e inibiu a concorrência internacional. como em alguns casos FAVORES ADUANEIROS Um dos primeiros 50% da produção mundial de café era brasileira. agosto de 1887 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Acervo Gilberto Maringoni 51 . Enquanto o trem do progresso conduz o abolicionismo. um novo tratado estabelece que a Inglaterra pagaria apenas 15% de tarifas. Londres apoiou não apenas política e economicamente os países em fase de libertação. Isso aconteceu no Chile. após a Guerra do Paraguai (1864-70) atos de D. no início do século XIX. no plano comercial. TRAVAS à MODERNIZAÇÃO Poucas atividades econômicas de monta prosperavam fora da lógica agroexportadora. Em 1810. acentuava esses desequilíbrios. em vigor entre 1808 e 1843. À Inglaterra interessava expandir seus mercados de produtos industrializados e deu suporte militar. com demandas até nas camadas mais pobres da população. na Venezuela e no Brasil. as mercadorias inglesas teriam taxas aduaneiras menores que produtos de outras partes do mundo. 9% a menos que os cobrados seus concorrentes externos. Uma série de medidas favoráveis aos ingleses de crédito e aumentar seu leque de fornecedores de matérias primas. ou seja. Para isso.Código Comercial. A modalidade que poderia florescer seria a indústria têxtil. A ascendência do país europeu sobre a América Latina se consolidou através de vultosos empréstimos concedidos aos novos Estados para viabilizarem suas independências e um processo de construção nacional. João VI. o monarca português. a Lei de Terras e o fim do Tráfico Negreiro.

Enquanto essa tarifa perdurou. Revista Illustrada. como já mencionado. estradas de ferro. nos mercados estrangeiros. em São Paulo. o governo construiu no Arsenal da Marinha. a tarifa era insuficiente para alavancar a atividade industrial. nem pode fazer concessões vantajosas. João VI (1808-21). uma fábrica de pólvora. próximo a Sorocaba. na mensagem ao Parlamento. é o número de vezes que a malha ferroviária se expandiu entre de 1858 e 1900 140 o governo imperial promulga. uma série de medidas sobre o comércio internacional. Houve algumas tentativas fabris no período. a partir de 1844. Tentando fomentar uma produção local. por conseguinte. Um povo sem manufaturas fica sempre na dependência de outros povos e. pioneiro da industrialização no Brasil. Através dela. Tinha por objetivo fortalecer o caixa do tesouro. em 1844: “Nenhuma nação deve fundar exclusivamente todas as suas esperanças na lavoura. bolsa de valores etc O ministro assim justifica sua proposta. Além do reduzido mercado interno e da concorrência externa. que se materializa numa incipiente indústria de manufaturas e em negócios ligados à exportação de café. Era a Irineu Evangelista de Sousa. a partir de 1888. nem avançar um só passo na carreira da sua riqueza”. Acervo Gilberto Maringoni TRABALHO ESCRAVO Apesar de encarecer a compra de produtos estrangeiros. consolidam a dinâmica capitalista na economia. A principal delas. nome de seu proponente. na produção da matéria bruta. havia outro fator a inibir a implantação de manufaturas. e em Congonhas do Campo. foi a Tarifa Alves Branco. Pequenas siderúrgicas foram tentadas em Araçoiaba. o ministro da fazenda Manuel Alves Branco (1797-1855). 52 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . como casas bancárias. no Rio de Janeiro. novembro de 1889 permanência do regime de trabalho escravo. as taxas sobre importações de determinados produtos seriam elevadas em percentuais que variavam de 30% a 60%.Portugal. Não foram muito adiante. em Minas. a concorrência predatória de manufaturados ingleses inibiu a industrialização brasileira. A Abolição e a paulatina implantação do trabalho assalariado. o Barão de Mauá. Ainda nos tempos de D.

o custo do cativo era alto em períodos de entressafra.. Seus lucros seriam menores. confirmou-se a dispensa de direitos alfandegários sobre matérias primas destinados às fábricas nacionais. E pergunta: Não seria possível revitalizar a produção mercantil e escravista revigorando as exportações ou implantando a grande indústria escravista? em O capitalismo tardio Aparentemente barato para o empreendedor. Mais adiante. Nem assim houve um surto industrializante. pelo fato de o pagamento da força de trabalho ser adiantado quando há escravos. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 53 . o pagamento é feito após o trabalho ser realizado. enquanto o trabalhador livre desempenha suas funções em troco de um salário. “Os custos da indústria escravista deveriam ser marcadamente superiores aos da indústria capitalista”. e. Seu raciocínio volta-se para a economia escravista. isenção de impostos sobre transportes internos e externos etc. isenção de impostos sobre transportes internos e externos etc. Isso acontece. e. em 1847. Em seu livro O capitalismo tardio. o economista é categórico ao responder que não. sob pena de perder investimento. Além disso. De outra parte. O economista João Manuel Cardoso de Mello discorda da opinião de que a indústria brasileira não se desenvolveu antes de 1850 apenas por falta de proteção contra a concorrência externa. revelou-se insuficiente. A cultura do café foi decisiva para o desenvolvimento da ferrovia produção dispensa trabalhadores que se tornam ociosos.João Manuel Cardoso de Mello Foram dispensados às fábricas de algodão vários incentivos. ele continua: O verdadeiro problema começa aí: há que se explicar porque o nível de proteção. O fazendeiro acabava imobilizando um capital humano que deveria ser alimentado e mantido constantemente. o escravo tem de ser coagido a produzir. Foram dispensados às fábricas de algodão vários incentivos. em primeiro lugar. confirmou-se a dispensa de direitos alfandegários sobre matérias primas destinados às fábricas nacionais João Manuel Cardoso de Mello. quando há assalariados. ele diz que em 1846: é o último ano em que a produção cafeeira beneficiou-se do trabalho escravo 1888 Marc Ferrez Sobre isso.. estação de Cruzeiro em fins do século XIX. Um senhor de escravos. como isenção de tarifas para a importação de máquinas. em 1847. que jamais foi baixo. Um patrão que mecaniza parte de sua Estrada de Ferro Minas-Rio. como isenção de tarifas para a importação de máquinas.

em seu clássico História Econômica do Brasil. econômica. Em 1845. A questão arrastava-se desde pelo menos 1826. em sua maior parte. entre 1850 a 1857. Acaba-se ali o mais bem sucedido negócio brasileiro. A ação é fulminante. A partir de 1852. uma foi definidora para o crescimento econômico: a extinção do tráfico entre a África e o Brasil. conforme assinala Karl Polanyi. que resultava na importação anual de cerca de 50 mil escravos. o Brasil não apenas era responsável por metade da 54 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Reprodução que comprou seus trabalhadores. Uma ligação segura. um mercado de trabalho. O transporte era feito por estradas precárias. como empresas de transporte. FIM DO TRÁFICO Entre todas as medidas da época. a criação do dinheiro deveria juntar-se a um mecanismo automático e os bens deveriam ser livres para fluir de país a país. Os excedentes advindos da cultura cafeeira e novos mecanismos de arrecadação fiscal possibilitaram o financiamento da expansão. em busca de terras novas. o padrão-ouro e o livre-comércio. por iniciativa de Irineu Evangelista de Sousa. Entre 1858 e 1900. entre eles a exiguidade do mercado interno cada vez mais da costa. O acordo tornou-se letra morta. A carga é tamanha. na vida social da Corte. Após a Guerra do Paraguai (1864-70). jamais . a extensão da malha ferroviária se expandiria 140 vezes no país. quando o laissez-faire se afirmou como doutrina dominante. o Parlamento inglês aprova uma norma declarando lícita a apreensão de qualquer embarcação que traficasse africanos em qualquer lugar do mundo. a expansão do café levou o plantio a se afastar uma injeção considerável de dinheiro na economia. sem empecilhos ou privilégios. O tráfico é abolido. Assim. obrigando-se a eliminar o comércio atlântico nos três anos seguintes. o país conheceu um período de expansão monetária e de ampliação e diversificação dos investimentos. o escravismo mostrou-se impeditivo para o progresso técnico na produção capitalista. A principal mola propulsora dessa difusão foi o café. 1910. quando o governo assinou um tratado com a Inglaterra. o Barão de Mauá. passando de 109 quilômetros para 1530 quilômetros. no sudeste. e os trilhos foram assentados. a iluminação a gás e canalização de córregos.irá se livrar deles para reduzir custos. as vultosas somas de capital empregadas no tráfico tiveram de se alocar em outros ramos de atividades. De imediato. com idas e vindas. A possibilidade de se iniciar um ciclo industrializante esbarrava em vários entraves estruturais. inclui um culto ao luxo e à ostentação por parte da oligarquia e vários melhoramentos urbanos. em lombo de burro e outros animais de carga. Com isso. A partir dali. Soltá-los significaria perder dinheiro. a nova modalidade de transportes se consolidou. A potência europeia se arroga ao direito de realizar apreensões mesmo em águas brasileiras. o que provocou CAMINHOS DE FERRO Ao longo dos anos. São Paulo. Fábricas no bairro do Brás. em A grande transformação: Foi somente nos anos 1820 que ele (o liberalismo econômico) passou a representar os três dogmas clássicos: o trabalho deveria encontrar seu preço no mercado. por pressão inglesa. Pagou pelos cativos. A industrialização se implantou nos primeiros anos do regime de trabalho livre Poucas atividades econômicas de monta prosperavam fora da lógica agroexportadora. Esta fase. A superação do trabalho escravo vinha das primeiras décadas do século. Em resumo. A solução colocada no horizonte era o último avanço tecnológico europeu na matéria: a ferrovia. como examinou Caio Prado Jr. os primeiros quilômetros de trilhos foram implantados em parte do trajeto do Rio de Janeiro a Petrópolis. contínua e rápida das regiões produtoras com os portos de exportação mostrava-se um gargalo cada vez mais preocupante. que o Brasil cede em 1850.

de 1885. como a borracha e a cana. depois do abatimento proveniente da guerra. de 28 de julho de 1885 complexidade dos negócios cafeeiros criara capilaridade entre o setor produtivo rural. (. Motor da prosperidade oligárquica. Estavam dadas as condições para o início de nosso primeiro surto industrializante. O estabelecimento inconteste do império britânico. o sistema de transportes. estradas de ferro. deram grandes lucros aos fazendeiros. e o país se adapta ao livre mercado concorrencial. após 1870. para tornarem-se o centro efetivo dos negócios. estabelecendo novas relações sociais e mudando desde as características do mercado de trabalho. como casas bancárias. bolsa de valores etc. Havia outras atividades de monta ligadas à exportação. com suas características internas – latifúndio e escravidão –. As cidades maiores deixam paulatinamente de serem meras organizadoras da vida rural. Para esta economia.. como tinha o poder de impor os preços da commodity. disseminando relações econômicas capitalistas.Revista Illustrada nº. as casas financiadoras de crédito. 415. quase uma monocultura. somadas à constante alta do café no mercado internacional. RELAÇÕES CAPITALISTAS O setor exportador consolidava-se como polo dinâmico da economia e principal elo do país com o mercado mundial. irrigam o sistema internacional com migração maciça de capitais e pesados investimentos nos setores ligados à exportação em alguns países do Sul.) Tudo fazia crer que entrara o país definitivamente numa era de recuperação. consolidam a dinâmica capitalista na economia. que necessitavam urgentemente de capitais externos para se expandir. Mas. vale por um pequeno ensaio. A Abolição e a paulatina implantação do trabalho assalariado. a organização do Estado (monarquia incluída) e da produção agrícola burguesia. a escravidão produção mundial. a partir de 1888. os agentes de comércio. no qual o setor exportador de produtos primários é a fonte do dinamismo econômico. A crescente era uma relação social obsoleta. a essa altura. o café. até o funcionamento do Estado. As abundantes colheitas. O novo padrão de acumulação daí advindo abala o que resta da economia colonial. As últimas décadas do século XIX marcam a inserção das economias latino-americanas numa inédita divisão internacional do trabalho. e a prosperidade acentuada da economia mundial. também expunha o país às vicissitudes e oscilações da demanda internacional. a supremacia do café era incontestável. Sérgio Buarque de Hollanda refere-se à situação da seguinte forma: O ano de [18]72 foi aliás de notável prosperidade para o país. Tais fatores vão se irradiando pela base produtiva brasileira. Ela mostra a articulação estreita entre a escravidão. a seleção de grãos e o ensacamento. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 55 . e o sistema portuário. após a proclamação da República. fazendo com que parte da oligarquia agrária se transforme numa incipiente Esta charge de Ângelo Agostini.. o processo de estocagem. que se materializa numa incipiente indústria de manufaturas e em negócios ligados à exportação de café.

já que existem demasiados processos que parecem estar fora de controle.ARTIGO José Esteban Castro A gestão da água na América Latina privilegiada nesse quesito. Parece prevalecer na América Latina a noção de que recursos naturais são inesgotáveis e se autopurificam (visão segundo a qual não importa que se despejem grandes quantidades de dejetos sem tratamento nas fontes de água). em alguns períodos. reforçando a formação de quadros competentes em todas as áreas relevantes para a ação. Política e Sociologia da Universidade de Newcastle. Traduzido do original em espanhol por Raony Silva Nogueira e Maria da Piedade Morais. A América do Sul em particular é uma região Um grave risco que a América Latina enfrenta é o fato de que para uma grande maioria dos quadros dirigentes na região parece que os temas ambientais continuam ocupando uma posição muito baixa na escala de prioridades do serviço. Contudo. muitas vezes devido à falta de tecnologias adequadas para um manejo eficiente dos recursos hídricos. José Esteban Castro é coordenador da Rede Waterlat (www. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 57 . No melhor dos casos. Estima-se que somente 5% do esgoto proveniente de usos urbanos e industriais recebem algum tipo de tratamento antes de serem devolvidos ao meio ambiente. que demonstram uma tomada de consciência por parte da população. Esta aparente cegueira que caracteriza em grande medida a prática concreta. gera motivos para preocupação. A agricultura e a mineração intensivas também respondem por usos excessivos. mas não lograram reduzir esse processo a níveis controláveis. os processos de desmatamento intensivo na América Latina estão longe de serem controlados. onde grandes quantidades de água tratada para o uso humano. Orinoco e da Prata. os governos conseguiram reduzir a taxa (podemos dizer. com custos muito elevados para a sociedade. Neste sentido. É urgente continuar melhorando a qualidade das instituições dedicadas à gestão dos recursos hídricos na região. em termos climáticos. a distribuição da água é altamente desigual em termos geográficos. Até mesmo as grandes bacias hidrográficas estão sofrendo situações extremas. como a criação de instituições e marcos normativos que potencialmente podem contribuir para uma gestão mais racional e equitativa da água. e sobretudo a educação dos dirigentes em todos os níveis. Um grave risco que a América Latina enfrenta é o fato de que para uma grande maioria dos quadros dirigentes na região parece que os temas ambientais continuam ocupando uma posição muito baixa na escala de prioridades. há processos muito animadores ocorrendo em quase todos os países da América Latina. em muitas áreas os processos de mudança climática acelerados pelo aquecimento global apresentam forte impacto nos volumes de água disponíveis. O continente também possui grandes áreas desérticas ou semidesérticas. incluindo as ciências sociais. como as dos rios Amazonas. como a escassez de água ao longo do Amazonas ou a redução do fluxo na bacia do rio da Prata. a velocidade) do desmatamento. Contudo. O impacto negativo do desmatamento sobre os recursos hídricos na América Latina já é notável e ameaça reduzir seriamente a disponibilidade e a qualidade da água em muitas áreas da região. fora do alcance dos governos e de outros atores com capacidade de ação neste terreno. é desperdiçada tanto pelos usuários como pelas próprias empresas responsáveis pelo fornecimento A América Latina é uma região possuidora de vastos recursos hídricos.org). o panorama geral dá motivos para a preocupação. incluindo descargas de esgotos domésticos e industriais e os impactos ambientais negativos causados pela agricultura e pela mineração intensivas. Além disso. Há sérios desafios relacionados à gestão da água. Vários governos da região também promovem processos auspiciosos. particularmente nas áreas urbanas. Por um lado. não necessariamente o discurso das autoridades e dos líderes empresariais da região. Outro problema grave é a falta de racionalidade. É necessário também aprofundar o processo de educação da população.Inglaterra. Ali estão algumas das bacias hidrográficas mais importantes do mundo. Outra ameaça importante é a contaminação das fontes de abastecimento pelos mais variados motivos. dedicada à pesquisa dos temas da água na America Latina e Caribe e professor de Sociologia da Escola de Geografia.waterlat. o que constitui uma atitude irracional e que vai contra a evidência cada vez mais incontestável sobre a situação crítica da água em muitas partes da região.

INTERNACIONAL Os venezuelanos estão chegando Vinicius Mansur – de Brasília 58 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .

empresários veem boas perspectivas com incremento de comércio regional e novas possibilidades de investimentos Joseph Remedor Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 59 . segundo o Banco Mundial. o país agrega vasta produção petrolífera e expressivo mercado interno ao bloco.Desde julho último. Com uma população de 30 milhões de habitantes e um PIB de US$ 316 bilhões. a Venezuela integrou-se plenamente ao Mercosul. Apesar das polêmicas.

Brasil. Criado Uruguai e Paraguai. Gilberto Maringoni em 1991 pelos governos de Argentina. de acordo com o Banco Mundial. milhões de pessoas é a população de todos os países participantes do Mercosul Edgar Alberto Domínguez Cataño 270 A Venezuela teve 14 eleições livres desde 1998. o Mercosul somado é a quinta força”. por meio do Tratado de Assunção. as recentes descobertas e certificações da Faixa Petrolífera do A destituição de Fernando Lugo pelo Congresso paraguaio foi vista como golpe de Estado pelos demais países do Mercosul 60 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . com uma reserva comprovada de mais de 250 bilhões de barris.A entrada da Venezuela no Mercado Comum do Sul (Mercosul) – oficializada em reunião presidencial no final de julho.7 milhões de quilômetros quadrados. Segundo o relatório de julho de 2011 da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Alemanha e Japão –. indica que o país detém a oitava maior reserva de gás do planeta. a primeira expansão real do bloco. apesar das acusações de que não seria um país democrático Durante a cúpula presidencial. Já o Informe Estatístico de Energia Mundial 2011.28 trilhões. O bloco também se firma como potência energética ao celebrar o ingresso do maior detentor das reservas de petróleo do mundo. ou 58% do PIB latino-americano. Não é pouco: trata-se de 70% da população e de 72% do território da América do Sul. Em termos econômicos. este contorno representa um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 3. Dilma Rousseff disse aos seus colegas: “Considerando os quatro países mais ricos do mundo – EUA. China. da British Petroleum. o Mercosul passa a agregar uma população de 270 milhões de pessoas e um território de 12. O montante corresponde a quase 20% das reservas planetárias. em Brasília – marca Orinoco fizeram a Venezuela superar a Arábia Saudita.

Porém. deu novo rumo à história. todo esse movimento aconteceu à margem das normas jurídicas. Países observadores: México e Nova Zelândia. O golpe parlamentar de 22 de junho de 2012. que há liberdade de imprensa. O professor da UnB vê o projeto regional em progressiva erosão. afirma. Logo. mas não foi ilegal”. “O processo de impeachment não foi correto. inicialmente composto por Argentina. eles não têm mais voto”. Viola ENTRADA TURBULENTA Apesar dos números atrativos. de Assunção. de reunião e de organização no país e que o ex-presidente Lugo continua em liberdade. mesmo após o retorno do Paraguai. Peru e Bolívia. “Suspensos. Colômbia. Argentina. Na mesma reunião aprovaram a entrada da Venezuela. Dilma Rousseff. em Mendoza. Quanto à entrada no Mercosul. ocupante do cargo de Alto Representante do Mercosul até as vésperas da entrada venezuelana. No dia 29 de junho. dentro da legalidade do bloco de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Eduardo Viola. “Tem mais democracia no Paraguai do que na Venezuela”. os demais governos do Mercosul anunciaram a suspensão do Paraguai do bloco. Equador. Uruguai e Paraguai defesa. Opinião oposta tem o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. descartando ilegalidades. avalia. que derrubou o presidente do país. Cristina Kirchner e José Mujica ratificaram o afastamento do país até a realização de nova eleição presidencial. Argentina. os congressos da Argentina e do Uruguai aprovaram a entrada do novo membro. Argentina. Ele vê a suspensão do Paraguai do Mercosul como uma “postura firme e prudente”. Este condiciona a adesão de um país à aprovação dos parlamentos de todos os membros. O Legislativo brasileiro o fez somente em dezembro de 2009. FUTURO DO BLOCO Guimarães e Viola não acreditam que o ingresso possa ser revisto.Composição do Mercosul Membros plenos: Brasil. O Protocolo de Adesão do país caribenho foi assinado em 2006 por todos os presidentes de países do bloco. Guimarães qualifica o impeachment de Lugo como “golpe grosseiro” e a suspensão do Paraguai como “postura firme e prudente”. enquanto a instituição paraguaia jamais abriu mão de sua negativa. Dois dias depois. Viola também salienta que as instituições paraguaias continuam funcionando normalmente. Uruguai. impulsionada Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 61 . divergem sobre as perspectivas do Mercosul. Acordos de livre comércio: Egito. a aceitação da Venezuela encontrou forte resistência nos poderes legislativos do Brasil e do Paraguai. opina. Brasil e Uruguai alegaram que o rito sumário de impeachment jogou por terra o direito à considera a iniciativa uma violação ao Tratado 1991 foi o ano de criação do Mercosul. Brasil. Venezuela e Paraguai (suspenso até a realização de eleições diretas para presidente da República) Países associados: Chile. Evocando a cláusula democrática do Protocolo de Ushuaia I. Israel e Índia SAEPR NORMAS JURíDICAS Para o professor titular O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães classifica o impeachment de Lugo como um “golpe grosseiro”. convertendo-se uma ruptura da ordem democrática. destacando que a decisão foi tomada pelo Congresso e legitimada pela Justiça daquele país. Fernando Lugo.

Segundo o titular da missão do Ipea na Venezuela. Pedro Barros. Tendência que. segundo ele. 78% foram de exportações brasileiras. a formação de um espaço econômico comum nas regiões norte do Brasil e sul da Venezuela.86 bilhões. a expansão da linha de transmissão elétrica Guri-Boa Vista e posterior conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN) brasileiro e a construção do Gasoduto do Sul. A integração produtiva. “Destacaria a estruturação do Eixo Amazônia-Orinoco e os projetos de integração produtiva em petroquímica”. Considerando-se os dados registrados até julho de 2012.86 bilhões de dólares movimentados entre Brasil e Venezuela são de exportações brasileiras 78% Reprodução “Essa negociação de entrada criará uma espécie de metodologia. à competitividade global. Isso deixará os outros países mais confiantes em participar” Paulo Vizentini. no estado de Sucre.dos 5. deve ser acentuada pela entrada do novo sócio: “O governo venezuelano tem uma orientação oposta ao livre comércio. à integração de cadeias produtivas transnacionais e ao que originalmente era o Mercosul. enquanto as exportações venezuelanas somaram apenas 22% do total. a conexão fluvial da Bacia Amazônica com a Bacia do Orinoco. Hoje ele é mais uma instituição que agrupa governos de orientação similar coordenador da pós-graduação de Estudos Estratégicos Internacionais da UFGRS do que um acordo estável de regras de jogo econômico”. O Ipea discute ainda a complementariedade entre a indústria de coque dos dois países. O comércio bilateral aumentou mais de sete vezes desde 2003 e as perspectivas são positivas para os próximos anos De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento. cortando o Brasil. passa pela edificação do Polo Petroquímico de Güiria. Dos US$ 5. o intercâmbio comercial entre Brasil e Venezuela aumentou em mais de 660% entre 2003 e 2011. as transações binacionais movimentaram mais de US$ 33 bilhões desde 2003. produto utilizado como insumo para a produção de cimento e alumínio. 62 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .86 bilhões de intercâmbio comercial entre Brasil e Venezuela registrados em 2011. da Venezuela até a Argentina. Indústria e Comércio Exterior (MDIC). segundo Barros. aponta. desde 2011. como a recuperação da rota rodoviária Manaus-Caracas. apontando que setores e legislações terão de ser adequadas etc. O embaixador. especialmente pela Argentina. por meio de reiteradas violações à Tarifa Externa Comum e de políticas cambiais incompatíveis com uma zona de livre comércio. em particular. Barros salienta que os esforços de integração são estratégicos para reduzir a considerável assimetria existente nas relações bilaterais. por sua vez. passando de US$ 883 milhões para US$ 5. vários diagnósticos sobre as possibilidades de integração bilateral visando. Para a estruturação do Eixo AmazôniaOrinoco estão em estudo diversos projetos de infraestrutura. estão em curso. é otimista justamente porque agora se consolida um Um estímulo ao desenvolvimento integrado Diversos projetos de integração podem beneficiar o norte do Brasil e o sul da Venezuela com a integração do país ao Mercosul.

“Essa negociação de entrada criará uma espécie de metodologia. atualmente. cialistas. com o objetivo de reduzir assimetrias internas. o organismo surgiu com o propósito de articular infraestrutura. científico. o fato contribuirá positivamente para alterar o centro gravitacional do bloco que. na Venezuela. na verdade. ao capital privado transnacional e em que setores CONTRA-ASSÉDIO No contexto mundial. “Eles terão de definir o papel que cabe ao capital estatal. mas de um projeto de mercado.projeto de integração alternativo ao livre comércio. como o ocorrido no país em 2002. Primeiro porque a incorporação abre boas possibilidades para a complementação de mercados e para a integração de cadeias produtivas. Isso deixará os outros países mais confiantes em participar”. Paulo Vizentini. o bloco caminha para um modelo de integração socialmente orientado. mas deve haver um marco regulatório comum”. sob pretexto IMPACTOS NA VENEZUELA A entrada da Venezuela no Mercosul também gerará consequências significativas internas ao país. se concentra no Brasil e na Argentina. América Central e Caribe fundaram a Comunidade dos Estados LatinoAmericanos e Caribenhos (Celac). tão propalado na década de 1990. Do ponto de vista político. Samuel Pinheiro Guimarães ressalta que a cláusula democrática do bloco dificultaria tentativas de golpe de Estado. passando pela eliminação das assimetrias tradicionalmente ignoradas pelo livre mercado. “Não se tratava de uma ampla integração regional. Ele lembra que a Venezuela é grande importadora de produtos agrícolas Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 63 . que fez do Mercosul uma simples união aduaneira e uma área de livre comércio imperfeita”. os países mais ricos aportam recursos para a constituição de reservas destinadas ao financiamento de projetos de desenvolvimento das economias menores. Peru. Em operação desde 2006. Um começo de século intenso para a integração regional Várias iniciativas realizadas ao longo da última década fortaleceram e transformaram o Mercosul em um bloco mais complexo do que uma união aduaneira. da população da América do Sul compõem o Mercosul. “Estabelecer as mesmas normas econômicas para países economicamente muito desiguais. foi criado o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem). Entre os frutos desta articulação destacam-se o projeto da Nova Arquitetura Financeira Regional (NAFR) para a constituição do Banco do Sul. os chefes de Estado dos 33 países da América do Sul. Também fazem parte de sua agenda o desenvolvimento energético. Podem existir diferenças entre os países. O coordenador da pós-graduação de Estudos Estratégicos Internacionais da UFGRS. Além de promover a integração comercial. transportes. finanças. o mecanismo conta com a provisão orçamentária anual de US$ 100 milhões. ao capital privado nacional. Com a decisão. um mercado regional de títulos públicos e a criação do Instituto Sul-Americano de Governança em Saúde (ISAGS). em Cusco. Suriname e Guiana. defende. Em sua avaliação. com a entrada da Venezuela 70% da reciprocidade. também vê boas perspectivas para o bloco. apontando que setores e legislações terão de ser adequadas etc. saúde e defesa. Guimarães vê a entrada da Venezuela como um freio positivo ao assédio historicamente promovido pelos Estados Unidos sobre a América Latina. tecnológico e educacional dos países membros. durante a III Cúpula de Presidentes do continente. Para ele. a partir da ampliação dos Acordos de Complementação Econômica entre os países da Comunidade Andina de Nações (CAN) e do Mercosul. Em 2004. Em 2011. afirma. O regulamento do Mercosul impede que seus membros celebrem os acordos de livre comércio pretendidos por Washington. No âmbito econômico. como Equador. impede o desenvolvimento das economias mais fracas”. Paulo Vizentini prevê que a adequação às normas do Mercosul dará à Venezuela maior estabilidade para encontrar o caminho próprio para o seu desenvolvimento. nasceu a Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa). Bolívia. Vizentini crê também que o ingresso estimulará a adesão de outros países. comunicação. em 2007. apontam espe- eles podem entrar. e manufaturados. Em 2004. finaliza. A instituição foi renomeada para União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

e não o mercado. comanda a integração” 64 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .Marcelo Lucena Maximilien Arvelaiz “A política.

de garrafas para abastecer o norte. ordena a pauta.Alguns setores políticos eram contra a entrada. Para nós há uma perspectiva grande de desenvolvimento industrial. os principais trechos da entrevista concedida a Desafios do Desenvolvimento Desafios do Desenvolvimento . É verdade? Arvelaiz . rapidamente as pessoas se identificam com as similaridades. antes ainda de assumir a presidência em 1998.Por que a Venezuela decidiu ingressar no Mercosul? Maximilien Arvelaiz . O que muda com o Mercosul? Arvelaiz . Importantes empresas brasileiras manifestam interesse em instalar-se na Venezuela. Desafios . quando a Venezuela se voltava para o norte e para os Estados Unidos.Numa primeira fase essas parcerias atenderam demandas muito específicas nossas. Maximilien Arvelaiz. A Unasul até agora se mantém numa construção política. nos setores de petroquímica. quer parte da nossa produção de vidros. No Paraguai usavam isso como elemento de disputa interna. Desafios .A Venezuela já mantém parcerias com a Embrapa. Isso deve se dar especialmente Desafios . como também para os demais países. de 1992. Isso pode acontecer ao Mercosul? Arvelaiz .Como membros do Mercosul. Os setores da petroquímica. um euro tem de valer mais do que um euro na Alemanha. Por que? Arvelaiz . Veja o tema da moeda comum na Europa. quando um grupo musical venezuelano vem para cá. Então o que fazem? Desvalorizam a riqueza e o nível de vida de todo um país.O processo de integração europeia se distorceu quando a lógica financeira e econômica superou a política. a Caixa Econômica. O marco disso foi o Tratado de Maastrich. alumínio.Esse é um tema pouco desenvolvido. A política.Os que se opunham ao ingresso da Venezuela tentavam ideologizar algo que não deveria ser ideologizado. Já não se trata simplesmente de pensar só no mercado venezuelano.A União Europeia está enfrentando uma grave crise. Como o setor privado Desafios . Estamos acertando agora a adoção da nomenclatura do Mercosul. algo parecido com o Minha Casa Minha Vida.O embaixador da Venezuela no Brasil. E o que dizem aos gregos? “Vocês tem de perder 30%. Na Grécia. e não o mercado financeiro. Talvez a Venezuela possa trazer um pouco da experiência da cooperação social que desenvolvemos dentro da Alba (Aliança Bolivariana das Américas). A Ambev.Haverá integração em outros setores além do estritamente comercial? Arvelaiz . O gesto sinalizava uma mudança em décadas de política externa. Era algo digno da Guerra Fria. a parceria será mais sistemática. do alumínio. Também integraremos a normativa legislativa do Mercosul. Apesar disso. 65 .Desde sua primeira eleição. Sua primeira viagem internacional. o Ipea.A integração abre novas possibilidades tanto para o Estado venezuelano e seu setor privado.Qual é a importância da nova situação? Arvelaiz . O que nos salva na América Latina é termos uma geração de líderes e governos progressistas que está ciente de que o esforço vale a pena se os povos forem beneficiados. há investimentos do BNDES e compra de aviões da Embraer. A presença dessas instituições foi estruturando eixos de cooperação e. A seguir. o presidente Hugo Chávez sinalizou priorizar as relações com os países do sul do mundo. 40% do seu nível de vida para manterem-se no euro”. bem como a maioria dos governadores dos estados do norte e nordeste do Brasil. Arvelaiz afirma que os oponentes da nova adesão tentam “ideologizar algo que não deveria ser ideologizado”. foi ao Brasil e à Argentina. Depois temos a adoção das tarifas comuns e das tarifas externas.Trata-se de uma aposta. é um entusiasta da entrada de seu país no bloco sul-americano. teremos muitas normas jurídicas que nos colocam num mesmo marco e afastam qualquer possível insegurança. um cientista político franco-venezuelano. Desafios . Um Estado hoje em dia não pode desvalorizar o euro para reequilibrar sua economia. Desafios . do vidro e agricultura. A Caixa foi importante para conhecermos o processo de universalização do acesso ao sistema bancário por parte das pessoas de baixa renda e também na assessoria da Gran misión vivienda. Apreciador da música e da cultura brasileira. A integração cultural ainda é pequena. Desafios . do vidro e da agricultura devem ser os primeiros beneficiados com a medida. O objetivo é gerar uma produção destinada ao mercado do norte do Brasil.A imprensa brasileira alega não existir segurança para o investimento externo na Venezuela. (Gilberto Maringoni – de São Paulo) Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 venezuelano vê a possibilidade da entrada de poderosos concorrentes em seu mercado? Arvelaiz . O Estado da Venezuela tem todo o interesse de respeitar essas normas e também fará todo o esforço de diversificar sua indústria. Os empresários foram mais pragmáticos e realistas e não se opuseram. por exemplo. agora.O empresário brasileiro pensa a Venezuela como um mercado consumidor.

Apenas a cidade de Brasileia abriga mais de 1.200 imigrantes 66 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .REFUGIADOS Em busca de um lugar seguro Daniella Cambaúva e Murilo Machado – de São Paulo Gleilson Miranda/Secom Mais de 500 haitianos chegaram ao Acre somente nos últimos 10 dias do mês de janeiro.

Foi para a Bolívia. Cinco dias depois de deixar seu país. conflitos armados ou catástrofes ambientais. A política brasileira para acolhimento de pessoas nessa situação é das mais avançadas do mundo e tornou-se referência internacional. Logo procurou a Cáritas (organização não-governamental dedicada à assistência e proteção de refugiados. os conflitos se tornaram-se insustentáveis. Mesmo assim. a cinco minutos da praia”. movimento cujas primeiras ações no país datam da década de 1960.Há no mundo cerca de 15. Carlos. Aparentemente. mas enfrentaram resistência de um colega de trabalho. Embora elogie o trabalho Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 67 . Carlos não teria motivos para fugir de seu país. deu um golpe de CONFLITOS INSUSTENTÁVEIS Carlos conta que. dona de casa. o peruano Carlos Durand administrava uma fábrica produtora de tabaco em seu país. A situação se agravou até que um incidente ocorrido na fábrica que administrava o levou a deixar o país. o cenário político local de duas décadas atrás não lhe deixou alternativas. e suas quatro filhas ainda crianças. em Lima. “Eu cobria os olhos da minha filha a caminho da escola para ela não ver os corpos espalhados pelas ruas”. As filhas viriam meses depois. E. Tempos depois apareceu um grupo de mulheres em casa pedindo armamento. foi procurado pelo Exército para prestar esclarecimentos. Eles me procuraram. aos poucos. O homem morreu no ato. o peruano decidiu fugir apenas com a mulher. Alberto Fujimori (1990-2000). Cochabamba. “Deixei todas as minhas coisas. descreve. Queriam dinheiro. ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e o Acnur (Alto Comissionado das Nações Unidas para o Refugiado). A reação dos senderistas foi agredir o funcionário com uma pedrada na cabeça. passando por La Paz. fora obrigado a escrever um cartaz com a frase: “Assim morrem os traidores”. participação”. já no Brasil. Santa Cruz e chegou a Corumbá. O presidente eleito do país. estava a família Durand. entre os senderistas e os homens de Fujimori. “o melhor lugar do mundo. Tinha uma vida confortável com sua Estado em 1992. Um dia. Viviam no elegante bairro de Miraflores. que presenciara a cena. No entanto. “Eu disse que estava tudo bem. Aí começaram”. esposa. alguns guerrilheiros tentaram entrar no local. referindo-se aos guerrilheiros. Após daquele dia.5 milhões de refugiados. ACNUR O peruano Carlos Durand e sua família foram acolhidos no Brasil. estava em São Paulo. dissolveu o Congresso e prendeu grupos opositores de modo implacável. “Descobri que é a profissão que ‘me gusta’” Com medo de ser perseguido. vítimas de perseguições. estavam os guerrilheiros de orientação maoísta do Sendero Luminoso. deixando para trás tudo o que tinha – incluindo as crianças. há muito o que melhorar E m 1991. Ele mostra seu cartão de visita de professor particular de espanhol. Entre esses grupos.

a família conseguiu aos poucos se estabelecer no Brasil. técnico de planejamento e pesquisa do Ipea das duas organizações. Era a Convenção Internacional relativa à Proteção dos Refugiados. a mesma faculdade em cuja porta vendiam brincos e anéis foi a responsável pela formação das filhas. “Descobri que é a profissão que me gusta”. Apesar das dificuldades. havia sido criado o Acnur. Enquanto aguardavam. Eu e minha esposa vendíamos brincos e anéis em lugares como a porta da faculdade Mackenzie para sobreviver. Mas ela ainda pode ser aprimorada. Carlos e a esposa só receberam o protocolo de refugiado dois anos após a solicitação. Refugiado é: “toda pessoa que. Quando avisaram que o protocolo estava pronto. terminada a Segunda Guerra Mundial. pertencimento a determinado grupo social ou que expresse opiniões políticas e encontrando-se fora do país de sua nacionalidade ou residência e não podendo. matricular as filhas na escola. Cinco anos depois. religião. responsável por “Os refugiados encontram grandes dificuldades para ter acesso aos serviços públicos. devido a fundados receios de perseguição por motivos de raça. É a primeira reclamação deles” João Brígido. não queira acolher-se à proteção de tal país” Convenção Internacional relativa à Proteção dos Refugiados (1951) 68 ACNUR Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . nós dançamos”. “Você não é ninguém [sem os documentos]. Muitos se queixam porque precisam pagar um tradutor quando chegam ao Brasil. nacionalidade. pertencimento a determinado grupo social ou que expresse opiniões políticas e encontrando-se fora do país de sua nacionalidade ou residência e não podendo. não queira acolher-se à proteção de tal país”. conta. foi estabelecida uma primeira definição de refugiado: “Toda pessoa que. sem esconder sua dificuldade para falar português.João Brígido a uma legislação inovadora. ou a causa de tais receios. religião. Carlos dá aulas de espanhol em grandes empresas. como por exemplo. Atualmente. O QUE É SER REFUGIADO? Em 1945. ou a causa de tais receios. nacionalidade. em Genebra. Naquele mesmo ano. não puderam desempenhar nenhuma atividade que lhes exigisse documentação. principalmente por questões culturais e de idioma. estava colocado um desafio: reinstalar os 40 milhões de deslocados que o conflito havia deixado. devido a fundados receios de perseguição por motivos de raça. avanços significativos para o apoio de refugiados. Por ironia do destino. Carlos Durand e sua família foram acolhidos por autoridades brasileiras graças No documento que ficaria conhecido como Convenção de 1951. com objetivo de conceder proteção jurídica internacional a pessoas nessa situação. a Assembleia Geral das Nações Unidas elaborava um documento regulatório internacional para conferir status legal àquelas pessoas. contou. segundo especialistas.

O presidente do Conare. há 4. A legislação brasileira é de vanguarda porque define a implementação da Convenção de 1951. a lei base dos refugiados. No Brasil. ACNUR representante do Acnur e temporais existentes. em 1960. vem sendo modificada desde então. por exemplo. como a Declaração de Cartagena” Andres Ramirez. Paulo Abrão.506 deles: 63. em Na atual Constituição. ou quando pessoas pertencentes a minorias étnicas nascem em países cuja legislação não atribui nacionalidade a esses grupos. e incorpora outros instrumentos fundamentais.5% da Europa e cinco apátridas – pessoas que não possuem qualquer nacionalidade. Na avaliação de Ramirez. No Brasil. a proteção aos refugiados está assegurada pela Lei 9. 2. removeu os limites geográficos NúMEROS DO DESTERRO Atualmente.devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça. 11% da Ásia. expandindo a abrangência da Convenção de 1951. estima-se que existam ao redor do mundo 15. Andres Ramirez. nacionalidade. segundo dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). estima-se que existam ao redor do mundo A definição de “refugiado”.42 milhões de refugiados. O Brasil foi o primeiro país sul-americano função das circunstâncias descritas no inciso anterior. aos ascendentes. refugiados consideram o apátrida como uma pessoa a ser protegida. III . Posteriormente. esse texto é considerado muito avançado. permite conceder esse status ao cônjuge.42 milhões de refugiados e 895 mil solicitantes de refúgio. por conflitos internos ou violação maciça dos direitos humanos. A legislação brasileira é de vanguarda porque define a implementação da Convenção de 1951. outro aspecto que merece destaque é a amplitude da definição de refugiado. segurança ou liberdade estão ameaçadas pela violência generalizada. quando um Estado deixa de existir. por exemplo. O Protocolo de 1967. não possa ou não queira regressar a ele. é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país”. De acordo com o representante do Acnur no país. 23% do continente americano.474/1997.474/1997. religião. Além disso. firmada em 1984. II não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual. Tal situação ocorre. sintetiza a amplitude dessa definição legal: são aqueles que precisam “fugir da situação de vulnerabilidade” e “pessoas que. pela agressão estrangeira. bem como de seus direitos ao solicitar asilo. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 69 . as leis de a ratificar.5% oriundos da África. a proteção aos refugiados está assegurada pela Lei 9. No artigo primeiro da lei. a Declaração de Cartagena. Na atual Constituição. grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país. “É referência e tem reconhecimento mundial. como a Declaração de Cartagena”. a lei base dos refugiados. consta que “será reconhecido como refugiado todo indivíduo que I . e incorpora outros instrumentos fundamentais. 62 anos depois da criação do Acnur.devido à grave e generalizada violação de direitos humanos. Ela “é referência e tem reconhecimento mundial. a Convenção de 51 e o Protocolo de 1967.15. descendentes ou outros familiares que dependam do refugiado economicamente e também estejam em território nacional. que restringia a aplicação do conceito àquele que havia sido perseguido ou deslocado “em consequência de acontecimentos ocorridos antes de 10 de Janeiro de 1951 na Europa”. passou a considerar refugiado também aqueles que fogem de seus países porque sua vida.

a pessoa está legalizada no Brasil e passa a ser formalmente um solicitante de refúgio. Já o técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea João Brígido Bezerra Lima. além da possibilidade de ter uma Carteira de Trabalho. mas deveria ser refugiada” João Brígido. “Eles estão fugindo de um terremoto e de PROTEÇÃO PúBLICA No Brasil. De acordo com o Conare. pesquisa que investiga as principais características da cooperação para o desenvolvimento internacional e a inserção do Brasil. cobrando assistência por parte dos signatários das convenções internacionais. Passa a ter direito. há refugiados que já conseguiram ser beneficiados. Trabalha ainda para que os refugiados tenham acesso a políticas públicas e por sua integração na sociedade. prorrogáveis por mais 90. Cabe também ao Conare promover e Criado para dar conta dos refugiados em território europeu no pós-Guerra. 70 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 UN Photo/Logan Abassi . Relações Exteriores. por exemplo. de deliberação coletiva.primeiramente. também destaca a relevância da legislação brasileira. “Em casos de enchentes. Para ele. Querem um lugar onde se sintam seguras”. a serviços públicos. coordenar políticas e ações necessárias para proteger e prestar assistência aos refugiados. aqueles que deixam suas casas por conta de catástrofes naturais. o Conare é o principal pilar da política para os refugiados. Trabalho. não têm escolha. uma situação que representa essa necessidade de se repensar a legislação brasileira foi o impasse diante da chegada dos 2. O Acnur é membro convidado com direito a voz. que também é integrante do grupo de pesquisa responsável pela publicação anual Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional. Concluído o minucioso processo de investigação.terremoto de janeiro de 2010. relata. NOVOS OBJETIVOS Apesar de ser reconhecida como “uma das leis mais modernas de refúgio no mundo”. autor de um estudo sobre políticas públicas para refugiados no Brasil. como saúde e educação. mas deveria ser refugiada”. pesquisador Haiti . concedida depois de quatro anos de permanência. por exemplo. mas sem direito a voto. O refugiado pode se inscrever em programas habitacionais. como aponta João Brígido. além do Departamento de Polícia Federal e a Cáritas. Assiste apátridas. a legislação brasileira para refugiados apresenta lacunas. O órgão. Segundo o pesquisador. É o organismo público responsável por receber as solicitações de refúgio e determinar se os solicitantes se encaixam ou não nas condições previstas pela lei. Faz parte de suas atribuições investigar se a pessoa estava de fato em situação de risco no país de origem e também se cometeu algum crime – fator que impede a concessão desse status. o solicitante recebe um protocolo com validade de 90 dias. por exemplo. um dos problemas é não reconhecer os refugiados ambientais. Saúde. Com o protocolo em mãos. no caso daqueles que têm residência permanente. “Esse conceito foi compartilhado por outros países sul-americanos e incorporado às legislações nacionais do Chile e Argentina”. a pessoa é considerada migrante comum. prazo final para a instituição emitir a decisão sobre o pedido. “Em casos de enchentes. Um dos problemas da legislação brasileira é não reconhecer os refugiados ambientais. o Acnur está presente em vários países e expandiu seu trabalho. bem como oferecer apoio legal. como qualquer cidadão brasileiro. a pessoa é considerada migrante comum. Educação e Esporte. deslocados internos e trabalha para garantir que os refugiados sejam protegidos pelos países que os acolhem. relata ele. aqueles que deixam suas casas por conta de catástrofes naturais.186 haitianos em território brasileiro entre janeiro de 2010 e setembro de 2011. é formado por sete membros que representam os ministérios da Justiça.

6 milhões de refugiados palestinos no mundo. principalmente o serviço de integração à sociedade brasileira. O segundo é melhorar o apoio aos refugiados. Isso porque o Estado brasileiro ainda não oferece formalmente aulas de língua portuguesa aos refugiados. os refugiados com maior representatividade no Brasil depois dos angolanos e colombianos. porque há algumas lacunas” Paulo Abrão. No Brasil. não foi um entrave para sua adaptação por conta da proximidade de sua língua materna com o português. sob condição de refugiados ambientais. Huda teve uma lado. a 63 quilômetros de São Paulo. apesar de todas as dificuldades existentes. ela consegue entender português e cursa o Ensino Superior. Na opinião de Andres Ramirez. a integração dessa pessoa à sociedade brasileira é fundamental. Se. cujos processos precisam ser acelerados. O forte abalo sísmico foi seguido por um surto de cólera que provocou a morte de outras seis mil pessoas. O Brasil tem também um histórico de imigrantes. No Brasil. Outro obstáculo é a dificuldade para validar os diplomas de ensino superior de outro país no Brasil. Então fica na cabeça das pessoas a solidariedade. A família estava na Jordânia – seu primeiro país de refúgio – e veio para o Brasil por meio do Programa de Reassentamento Solidário. principalmente por questões culturais e de idioma. conforme ele mesmo admite. criando uma rede que dê conta desse aspecto. o Conare é o principal pilar da política para os refugiados. implantado pelo governo junto ao Acnur. Já para os congoleses. Então fica na cabeça das pessoas a solidariedade. que deixou pelo menos 220 mil mortos.uma doença que dizimou muitas pessoas. Hossam e Mahmoud. disse João Brígido. Em 2008. 120 mil deles no Brasil. o mesmo processo resultou. um ano depois de chegar ao Brasil. É o organismo público responsável por receber as solicitações de refúgio e determinar se os solicitantes se encaixam ou não nas condições previstas pela lei Existem três desafios principais: “o primeiro é dar conta de um volume de solicitações de refúgio. O peruano Carlos Durand pouco conhece a língua portuguesa. na expulsão de quase um milhão de palestinos de sua terra natal. E o terceiro é no campo das reformas legislativas. É a primeira reclamação deles”. Cinco anos depois. o Brasil tem uma capacidade de acolher generosamente os refugiados. representante do Acnur Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 71 . vive em Mogi das Cruzes. criando uma rede que dê conta desse aspecto. Muitos se queixam porque precisam pagar um tradutor quando chegam ao Brasil. liberianos e iraquianos. Os haitianos saíram de seu país para fugir das consequências do catastrófico terremoto de janeiro de 2010. “Muitos brasileiros tiveram que sair do país na ditadura (1964-1989) por causa da perseguição. Isso requer uma revisão da legislação”. O segundo é melhorar o apoio aos refugiados. Huda. com cerca de 3. principalmente o serviço de integração à sociedade brasileira. porque há algumas lacunas”. a criação do Estado de Israel acolheu 140 mil sobreviventes do holocausto judeu. progressista da situação dos refugiados” Andres Ramirez. Sua experiência se encaixa como um exemplo perfeito para uma das críticas feitas pelo representante do Acnur: “É necessário implementar a legislação para os refugiados”. segundo o Conare. Hossam e Mahmoud integram um grupo de refugiados que chegou em 2007. Tais reformas legais dependem do Congresso para serem aprovadas. porém. de 12 e 9 anos. cujos processos precisam ser acelerados. O Brasil tem uma visão humana. e Abrão hemorragia durante a gravidez. O Brasil tem também um histórico de imigrantes. por outro “Muitos brasileiros tiveram que sair do país na ditadura (1964-1989) por causa da perseguição. Como consequência. em 1948. O Brasil tem uma visão humana. Huda Albandar é palestina. acredita que algumas delas são discutidas pelo governo. No hospital. presidente do Conare ACELERAR APOIO Já segundo o presidente do Conare. estavam em um vazio legal. Walid. “Eles encontram grandes dificuldades para ter acesso aos serviços públicos. Com o marido Walid e os dois filhos. não conseguiu se comunicar com o médico e sofreu um aborto. “O primeiro é dar conta de um volume de solicitações de refúgio. Uma vez concedido o status de refugiado. Esse. O problema dos refugiados naquela região é atualmente de maiores proporções. ficou estéril. o idioma torna-se uma grande barreira. conclui. embora a legislação obrigue a integrá-los à sociedade. E o terceiro é no campo das reformas legislativas. existem três desafios principais. progressista da situação dos refugiados”.

PERFIL 72 Angelo Agostini Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .

esmerou-se em mostrar as condições de trabalho e as punições físicas infligidas aos cativos. social e cultural do país e viu a imprensa deixar de ser atividade artesanal para se tornar grande empreendimento capitalista É quase impossível fazer um levantamento gráfico dos últimos anos da monarquia no Brasil sem que se recorra à profusão de desenhos. especialmente a partir de 1880. vertente de cronista visual e se torna um ácido crítico da Igreja Católica. transfere-se para o Rio de Janeiro. Suas imagens de torturas e maus tratos infligidos aos escravos contribuíram para a formação do movimento abolicionista. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 73 . jornalista. caricaturas e imagens variadas produzidas por um italiano que trocou a Europa pelo Brasil ainda na adolescência. da escravidão e do cotidiano de um país de pouco mais de dez milhões de habitantes. Sua produção. ao mesmo tempo. pintor. Seus trabalhos espalham-se por cerca de 3. Três anos depois. Seu nome era Angelo Agostini (1843-1910). editor e militante político.2 mil páginas ilustradas. através das páginas da Revista Illustrada (1876-1898). e produziu extensa representação gráfica de uma sociedade que saia de um defasado regime monárquico para se tornar uma república elitista. Agostini produziu cerca de 3. repórter. em São Paulo. Introdutor das histórias em quadrinhos entre nós. um dos inventores das histórias em quadrinhos. Este homem de qualidades variadas desenvolveu uma das mais longas trajetórias profissionais na imprensa brasileira. sua mais perfeita tradução. em 1864. caricaturista. nesses anos. foi um ativista na luta pela Abolição da escravatura. o registro visual das duas décadas e meia que precederam a República encontra neste artista nascido em Vercelle. diferenciada e irregular. Ele foi o mais importante artista gráfico do Brasil da segunda metade do século XIX. em 1908. o artista deixou como legado uma obra vasta. No plano político. ARTISTA MILITANTE Sua estreia profissional. A característica mais marcante de sua obra é a intransigente defesa do fim da escravidão. Os últimos trabalhos de Angelo Agostini são publicados quando a República oligárquica está consolidada. Ao longo de mais de quarenta anos. desenvolve sua mais importante publicação de variedades do século XIX. Se as imagens que chegaram até nós do início do Brasil independente têm em Debret e Rugendas seus principais autores. entre 1864 e 1908. coincide com o início da Guerra do Paraguai. O país adquirira então um novo papel no cenário internacional. Agostini era. no norte da Itália. definido pelo fornecimento de matérias-primas aos países centrais e pela entrada maciça de capitais externos aqui. onde funda publicações.O traço da Abolição Gilberto Maringoni – de São Paulo Caricaturista italiano foi o mais importante cronista visual do final do Império e do início da República. a charges.2 mil páginas de desenhos sobre a vida política.

aparentemente. Talvez por isso. Reunir gente e algum capital para colocar na rua uma folha de periodicidade irregular e reduzida tiragem não era tarefa das mais difíceis para setores das elites de centros urbanos como Rio de Janeiro. que possibilita a reprodução tipográfica. Mas o projeto social vertebrado pelas novas elites era baseado na imigração europeia e no trabalho assalariado e não na incorporação dos negros ao mercado. conquistou independência econômica e colocou-se. a falta de cultura do povo etc. Sua atuação foi marcante para a formação de uma corrente de opinião pública abolicionista. IMPRENSA-EMPRESA Perto fim do século. um banho de ácido. então. porta-vozes de reduzidos grupos. Havia outros artistas na imprensa brasileira de talento semelhante. Salvador ou São Paulo. as pequenas publicações e pasquins. o desenho é feito com um lápis apropriado diretamente sobre uma pedra especial. em seu História da Imprensa no Brasil. Apesar dos dados do Censo de 1872. MUDANÇAS DE ENFOQUE A obra de Agostini foi uma das expressões da complexidade desses anos. A partir daí. prelos e prensas da fase anterior. A aparente contradição se desfaz. os jacobinos. existiam em número crescente. da fotografia. Recife. liderado por setores da elite branca. quinzenais e mensais. mudou em curtos intervalos. havia no Rio de Janeiro. De abolicionista convicto e narrador sensível das idas e vindas dos eventos do período – guerra. Seu comportamento nos fornece uma importante chave para a compreensão das principais vertentes do movimento abolicionista urbano. Os jornais de menor circulação que não desapareceram passam a ter limitada influência editorial e política. no que toca aos negócios públicos. Através dessa técnica. os vendedores ambulantes. Agostini bateu-se por uma reforma liberal. com a grande dinâmica empresarial. ao do piemontês. feitas em páginas magistralmente elaboradas. alcançaram imensa repercussão na Corte e nas províncias. O espaço para a convivência entre iniciativas de pequenos grupos e vultosos empreendimentos reduz-se. Agostini deixara de ser um pequeno empresário. a sujeira da cidade. Mas nos últimos anos.Denúncias de maus tratos e torturas. Quando morre. é feita uma matriz em metal. O telégrafo faz com que a captação de informações torne-se mais rápida. O maquinário gráfico sofistica-se e torna-se mais caro do que os acanhados parlamentares –. como porta-voz de uma causa democrática como a Abolição. campanha abolicionista. Agostini colocou-se. que corrói as partes não marcadas pela ponta gordurosa do grafite. como um moralizador enfático. não apenas essa técnica é vista como cara e lenta para publicações regulares. entre diárias. 74 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . anos antes. semanais. Expressões maiores desse avanço são a zincografia e a máquina rotativa. para se tornar funcionário de grupos editoriais de porte. em 1910. como um inconformado com aquilo que julgava serem as mazelas dos novos tempos: a violência. Externou solidariedade humana para com as vítimas dos excessos do regime de cativeiro. de acordo com Nelson Werneck Sodré. que desejavam uma campanha restrita ao âmbito do Parlamento e das instituições vigentes. a linguagem tem de ser mais ágil. A possibilidade do uso de cores. entre as décadas de 1850 e 1880. A imprensa se tornava indústria. tornam-se comuns na virada do século. Esta recebe. em seguida. A própria visão de mundo do artista não foi unidimensional e. Revelou um elitismo e um racismo surpreendentes vindos de quem se colocava. criador de seus IMPRENSA EMPRESA Quando Agostini inicia sua carreira. apontando que o analfabetismo marcava 81 % da população brasileira livre. e a ilustração passa a contar com possibilidades e qualidades de reprodução até ali inéditas. em 1864. Tais fatores interferem na atividade jornalística. No plano profissional. a exposição pública da prostituição. para atender a um público urbano que aumenta sem cessar. Agostini era um mestre da litografia. Surge um público leitor crescente e as tiragens aumentam em até cinco vezes. ou num papel fino e depois decalcado na pedra. condizente com os desígnios dos setores mais avançados das classes dominantes. ou superior em alguns aspectos. protestos populares. de grandes tiragens em tempo curto. Agostini era tido por seus pares como um homem de outra época. São os casos do português Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e do também italiano Luigi Borgomaineiro (1836-1876). o avanço da distribuição em nível nacional. O tempo de vida de uma notícia encurta-se. sua vida e obra começam a ser estudadas com detalhes. coisas impensáveis antes de 1890. como o panorama empresarial se altera no âmbito da imprensa. mais de 50 publicações regulares. após a República. graças ao desenvolvimento dos transportes. enfrentamentos palacianos e próprios jornais. A atividade de imprensa confunde-se. Mas nenhum deles superou Agostini em versatilidade – era o melhor cronista visual de sua geração e o que melhor captava o ambiente da Corte – e em tempo de atividade profissional. Ela se torna uma espécie de carimbo. no final dos anos 1870. quando se busca examinar com mais acuidade seus trabalhos durante a campanha pela libertação dos cativos. seu trabalho tenha sido subestimado por décadas.

os processos ganham maior celeridade em sua tramitação. Assim. Assim também se inclinou o direito europeu na perspectiva da notificação prévia. a defesa de uma concorrência e economia mais saudável entre os agentes econômicos.GRADUANDOS ESCREVEM PARA DESENVOLVIMENTO Entre os dias 16 e 27 de julho. através da participação em reuniões. com a implantação do sistema no Brasil. provenientes de vinte universidades de todo o país. No final. da lei citada. Agora. incisos I e II. o que causava enorme insegurança jurídica. foram fortemente influenciadas por Richard Posner. Ocorrem também quando dois agentes econômicos se fundem ou celebram contrato associativo. que possui prerrogativas funcionais parecidas com as do Cade no Brasil. 88. neste sentido. para um intercâmbio do Programa de Incentivo às Novas Gerações (Proing). o inciso IV deste mesmo diploma. 170/CF caput e incisos. Os atos de concentração econômica configuram-se quando um ou mais agentes econômicos se incorporam ou quando adquirem por via direta ou indireta o controle de outra empresa. O antigo controle a posteriori passa a ser prévio. reduzindo também os riscos de desconstituição de operações já consumadas. toda e qualquer operação que se enquadre nestes requisitos deverá ter “sinal verde” do Cade para efetivamente formalizar a concentração econômica entre os agentes envolvidos. que integrou recentemente o ordenamento jurídico. acolhendo tal sistema. edição do Proing. urge haver o integral cumprimento aos ditames da ordem econômica da Constituição Federal de 1988. os estudantes produziram artigos sobre temas relacionados ao desenvolvimento. 29 estudantes de vários cursos. qual seja. selecionados através de chamada pública. devendo este também seguir a tendência mundial do sistema notificação prévia dos atos de concentração econômica. nos moldes do art. sendo o órgão brasileiro lá representado pelo FTC (Federal Trade Comission). a serem agora previamente apreciados pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).884/94 (antiga lei antitruste). Sócio do Instituto de Hermenêutica Jurídica – IHJ. obrigatoriamente. Nesses casos. para que seja exercida uma competição saudável no mercado entre os agentes econômicos. Dessa forma. Isso era comum durante a vigência da Lei nº. Os textos foram avaliados por representantes das diretorias do Ipea e seis foram selecionados para publicação. que a operação tenha uma grande movimentação financeira. é que se percebe a alteração legislativa. nesse sentido. deverá haver a comunicação prévia da operação ao Cade. Monitor da cadeira de Direito Econômico. aumentando expressivamente a segurança e confiabilidade da operação realizada. consórcios Felipe Guimarães de Oliveira é acadêmico e pesquisador do Curso de Direito do Centro Universitário do Pará . É preciso destacar. O programa integra o Sistema de Apoio à Pesquisa (SAP).529/11). tornada evidente no emblemático caso Nestlé/Garoto. sob pena de nulidade desta. Outro ponto salutar é que. a análise prévia dos atos de concentração econômica se coloca como um verdadeiro desafio na estrutura administrativa atual do órgão no Brasil. divulgaremos os outros três selecionados. Ressalta-se que a figura do Cade e a doutrina. 8. Participaram dessa 3ª. o Ipea recebeu estudantes de graduação de todo o país. ARTIGO Felipe Guimarães de Oliveira A nova lei antitruste e o sistema de análise dos atos de concentração econômica A nova lei brasileira antitruste (nº 12. em especial. Dessa forma. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 75 . da importação do sistema de Análise Prévia (Prior Review) dos atos de concentração econômica dos sistemas europeu e norteamericano. Com esses novos mecanismos. Os jovens vivenciaram o dia a dia da instituição. pois o controle a posteriori passa a ter restrições com a nova norma Antitruste. Em nossa próxima edição. apresenta novas vertentes para ou joint ventures. os princípios dispostos no Art. a defesa da livre concorrência e de um mercado competitivo mais saudável e harmônico. A Desafios do Desenvolvimento apresenta aqui três desses trabalhos. o sistema prévio evita o desfazimento de operações já consumadas no tempo. ou seja. no direito norte-americano. as empresas não mais poderão postergar de má-fé a análise dos atos de concentração econômica. Membro Colaborador da revista Conteúdo Jurídico. debates e visitas a outros órgãos públicos. Para que se constitua a concentração econômica também é necessário o requisito financeiro da operação. Neste sentido.CESUPA. Fala-se.

Esse panorama faz crer que o perfil primário da pauta exportadora tenda a se acentuar. mas apresenta também forte relação com a recente crise. tem se estabelecido majoritariamente por mercadorias industrializadas de baixo valor agregado. Suas consequências. O recente avanço das exportações brasileiras está fortemente ligado ao ‘efeito China’. continua a sofrer os efeitos da crise. regressão qualitativa da inserção do Brasil no comércio internacional tem bases endógenas. Esse movimento de e inserção internacional fundamentalmente baseada em commodities agrícolas e minerais e em semimanufaturados. que projeções pode-se fazer para a trajetória qualitativa de nossas exportações? Historicamente a economia brasileira se constituiu como primário-exportadora. Essa distinção no perfil do comércio brasileiro com esses países associado ao cenário de crise serve como indicativo de qual será a trajetória qualitativa futura da pauta exportadora. crescendo modestos 2. ultrapassando os Estados Unidos. Apesar dos esforços. a economia brasileira vem passando por um processo de reprimarização da pauta exportadora. Qualitativamente. os países de maneiras distintas. semimanufaturados de ferro ou aços e também manufaturados como aviões e partes de motores. Essa forma de inserção no mercado mundial. porém. de maneira não uniforme. mas continua a crescer mesmo com o cenário desfavorável. os fluxos comerciais tendem a diminuir. recentemente o Brasil vem estreitando laços econômicos com a China. As exportações brasileiras para esse país são primordialmente soja. chegando a atingir um máximo em abril de 2011 (índice de commodities Bloomberg/CMCI).2% no primeiro trimestre de 2012. Dado o cenário econômico adverso. por sua vez. A pauta exportadora para os EUA. as exportações brasileiras para esses dois países são bem distintas. Os principais produtos comercializados são óleos brutos de petróleo. de acordo com a intensidade dos danos causados por ela em nossos parceiros comerciais. a recente crise acentuou o caráter primário das exportações. esse modelo é sustentável? O tão almejado desenvolvimento poderá ser alcançado pelo país afirmando-se essencialmente como exportador de matérias-primas? Mesmo dentro de outros contornos. fechando o segundo trimestre com variação do PIB de 7. apresenta suas fragilidades. mesmo sofrendo processo de reprimarização. de elevada vulnerabilidade externa e dependência econômica. 76 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . país mais afetado pela crise e principal comprador do café brasileiro à época. uma pauta notadamente primária. com uma retração durante o primeiro momento da crise em 2008. Os preços das commodities atravessaram um período de alta desde 2006. retomando a trajetória ascendente já a partir de 2009.Núcleo de Economia Política. Já no Império. A China. atingindo. durante a década de 1930. Diferentemente da crise de 1929.ARTIGO Emanuel Sebag de Magalhães Crise econômica e reprimarização N os últimos anos. Outro fator que distingue os efeitos da crise do subprime na pauta exportadora é o crescimento econômico da China e seu estabelecimento como principal parceiro comercial brasileiro. O período colonial se caracteriza pelo ciclo do açúcar no nordeste e pela corrida do ouro em Minas Gerais. a história infelizmente insiste em se repetir. no longo prazo. o café passa a ocupar o papel principal da produção e comércio exterior do país. parecem apontar para a mesma direção. minérios de ferro e pastas químicas de madeira. porém. Os EUA. composta primordialmente pelos Estados Unidos. com a exaustão das jazidas auríferas. Em um período de turbulência econômica mundial. A partir desse período. Na República. principal comprador de commodities do Brasil. o país se empenha na constituição de uma indústria nacional. sob os efeitos da crise de 1929. ainda maior demandante de manufaturados e de semimanufaturados. desacelera.6%. perpetuando a posição periférica do país no sistema capitalista. Atualmente a desindustrialização e a financeirização do capital produtivo no Brasil têm relação direta com o movimento de reprimarização. os preços do café despencam concomitantemente com sua demanda mundial. Em contrapartida. O processo de formação de um caráter eminentemente primário de nossas exportações é então distinto daquele de nossas raízes históricas. o país chega ao início do século XXI apresentando baixa competitividade na indústria de transformação Emanuel Sebag de Magalhães é graduando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Ceará e membro do Viès . Mas. A retração do comercio mundial tem efeitos assimétricos sobre a composição da pauta exportadora brasileira. o que sinaliza uma possível queda nas exportações brasileiras desse conjunto de mercadorias. que forçosamente levou o país a se industrializar alternativamente à produção do café.

os quais possuíam pautas diversas. juristas. seus institutos são o mais forte meio de manutenção do status quo social e. e que ampliaram consideravelmente suas possibilidades de atuação através da divulgação de suas ideias e ações na internet. E o papel político dessas decisões judiciais é inegável. estão submetidos a uma posição de opressão. é possível afirmar que os movimentos sociais são fortíssimos instrumentos de participação popular na composição das políticas públicas e consolidação da democracia. Em situações como esta. além dos meios pelos quais poderemos construir uma sociedade mais justa. faz-se necessário questionar a ideia de neutralidade que está vinculada à ação dos juristas. somos convidados a todo instante. estava abrindo as portas para que pudéssemos discutir esse novo modo de reivindicação e luta por direitos. perde-se a oportunidade de inovar. E o fortalecimento do regime democrático através da participação popular na tomada de decisões é característica indispensável para as nações que trilham o caminho do desenvolvimento e que estão em busca de melhores condições para atingir um nível de crescimento equilibrado. por conseguinte. democracia e movimentos sociais uando Lorenz Von Stein chamou de movimentos sociais o conjunto de levantes populares que reivindicavam melhores condições de trabalho para os operários europeus. Quando adotam uma postura “neutra” ou “apolitizada”. segundo a tese de Rousseau. Temos a opção de adotar o posicionamento já posto. por um lado. Nesse sentido. seja nos Tribunais. acabam por coadunar com os interesses de uma determinada classe que. Bom exemplo da atuação desses grupos como elementos transformadores da ordem social é o que ocorreu na chamada “Primavera árabe”. pois buscam a construção de novas bases para o convívio social. Consistiu numa das mais importantes articulações das massas em prol da democracia. da perpetuação da situação de desigualdade entre os cidadãos. Diz-se que tais movimentos alimentam-se da utopia. o poder Judiciário estaria retrocedendo. Nós.ARTIGO Anna Karenine Sousa Lopes Justiça. pudemos testemunhar nos últimos anos o surgimento de vários movimentos sociais. por força dos arranjos sociais firmados pelo modelo econômico estabelecido. a repensar o modo pelo qual construímos a Justiça. Tendo em vista o paradoxo acima identificado. o papel clássico atribuído ao Direito vincula-o à garantia da justiça e bem comum. ganhando repercussão mundial. teme pelo fortalecimento das Anna Karenine Sousa Lopes é bolsista de iniciação científica do projeto Direito. A análise histórica dos movimentos sociais permite chegar à constatação de que estes são fruto da indignação de grupos populares que. as profundas contradições que existem entre a realidade posta e aquela que idealizamos ao firmar o “contrato social”. perpetuando o estigma que envolve os que lutam em prol das minorias. que exclui e criminaliza as demandas das classes populares. os operadores do direito são compelidos a realizar uma escolha política. em sede coletiva. na medida em que os movimentos sociais podem ser percebidos como importantes fontes do Direito. em resposta às duríssimas jornadas de trabalho a que eram submetidos no início da instituição do modo capitalista de produção e mercado. E é política na medida em que demanda dos doutrinadores e magistrados um olhar sensível às questões sociais. ou inovar. Eles contribuem para a reforma das legislações. É necessário repensar o papel do jurista. geralmente. é inegável que ao apreciar as demandas produzidas no seio dos movimentos sociais. colaborando para a formação de novos referenciais normativos que se adequem melhor às reais necessidades da população. As demandas levantadas por estes grupos refletem. É ao menos questionável que este permaneça reproduzindo o discurso já firmado. em geral. reconhecendo que também há Direito nas ruas. Se. Assim. seja na Academia. camadas populares. O levante popular instaurado nos países do norte da África e Oriente Médio levaram à queda de vários regimes ditatoriais e antidemocráticos. desenvolvimento e políticas públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. fica evidente que ao recusar-se a apreciar os argumentos trazidos pelos manifestantes. oferecendo resposta aos clamores populares. E ao tomar essa postura. evitando a todo custo o seu empoderamento. sem nenhum questionamento. A despeito das críticas que envolvem o ativismo judicial. Isso ocorre porque as contradições que alimentam os movimentos sociais também permeiam todo o sistema jurídico. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 77 . pois apontam para as falhas existentes na estrutura vigente.

Se a educação é considerada como um processo de socialização do indivíduo. Cuidados devem ser tomados também com projetos. Para tanto é necessário. sob os diferentes pontos de vista existentes. evidenciar a importância do consumo responsável e da diminuição das inúmeras formas de desperdício percebidas na sociedade atual. metodologias e novas linguagens e práticas de trabalho. contando com o apoio e a participação dos vários segmentos sociais. a importância do envolvimento diferenciado. Pode também dizer muito da qualidade do ambiente urbano e o cuidado com os recursos naturais. mesmo que apresentadas de forma a favorecer a EA. Ações como essas podem ocasionar equívocos. novos temas que merecem ser discutidos. abriu-se espaço para oportunidades. ações de publicidade ou marketing de um produto ou material. farão diferença na qualidade de vida desta e das futuras gerações. a seus objetivos. após breve uso) ou exposições similares a partir da simples produção de objetos confeccionados com materiais descartáveis ou sucatas. Maria Lúcia Barciotte é Bióloga e Doutora em Saúde Pública e Ambiental. Observa-se ainda que muitas iniciativas de EA envolvendo resíduos ficam. estimulando profundas reflexões da sociedade brasileira sobre a cultura do desperdício e o atual padrão de produção e consumo. Uma ampla gama de experiências tem investido grande parte de seus recursos humanos e financeiros em ações de EA restritas ao ambiente escolar. pode-se dizer que cada tempo da nossa história e cada contexto sociocultural sugere. além do descarte e destinação adequados. Os setores educacionais. Nilo Luiz Saccaro Junior é técnico de Planejamento e Pesquisa da DIRUR – Ipea. de modo a caminhar na direção da elucidação das novas dúvidas e desafios. refletidos e praticados. precisa abarcar formas distintas de comunicação e de relacionamento com os vários atores sociais. ainda não incorporaram. Ainda nessa direção. Torna-se necessário estruturar diferentes olhares e níveis de abordagem envolvidos. A implementação da PNRS e dos planos federal. comunidades e população. desafios e metas inéditos. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 79 . assim como questões locais e cotidianas como a qualidade de vida urbana. efetivo e consistente da população no tratamento dos resíduos sólidos. portanto. planos de gestão de resíduos. inserindo a ideia de que a simples reutilização destes objetos resolve o problema do excesso de lixo ou ainda provocando o aumento/estímulo ao consumo de determinados produtos ou materiais coletados nos mutirões. lixo. a Educação Ambiental (EA). tendo em vista a premente necessidade de sua valorização para o bem-estar humano. Com a introdução de novas formas de gestão e participação social. bem como o investimento de recursos adequado. estadual e municipal possibilita o estímulo a soluções inovadoras que. suas consequências e os desafios futuros. as escolhas de consumo. A PNRS como exemplo de política pública sistêmica e integrada pode representar excelente avanço. de forma plena. É necessário. muitas vezes questionáveis. assim como os gestores públicos e técnicos governamentais. assim como os próprios tomadores de decisão e educadores. Foi bolsista do PNPD/Ipea. quando aplicada ao tema resíduos sólidos. entre outros). um entendimento mais amplo. isto é. entre outros). ao envolvimento e à mobilização dos atores na direção da participação e apoio às ações implementadas pela PNRS. a discussão de temas globais ( como mudanças climáticas e pegada ecológica. Uma maior eficácia dos programas e projetos de EA passa pela discussão sobre o excesso de geração de produtos. acerca do atual modelo de produção e consumo. ou mesmo impõe. Nesse contexto. a cultura da descartabilidade e da obsolescência programada. Isso tem dificultado a implementação de estratégias. logística reversa. muitas vezes. desconsiderando a população ou as A aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em agosto de 2010 representou o início de uma época histórica para comunidades diretamente envolvidas com os projetos ou programas diferenciados de coleta seletiva e/ou outros pertinentes aos temas objetos da PNRS (responsabilidade compartilhada. principalmente quando realizadas em comunidades escolares. Pesquisadora do NUPENS/USP. Nesse cenário. envolvendo mutirões ou coleta de materiais recicláveis para revenda. relacionam-se diretamente à sensibilização. além da sensibilização aos programas de destinação do lixo.ARTIGO Maria Lúcia Barciotte Nilo Luiz Saccaro Junior A importância da educação ambiental na gestão dos resíduos sólidos a área ambiental e de saneamento básico no Brasil. limitadas à realização de oficinas com materiais recicláveis de baixo valor agregado (que continuam a ser descartáveis. podem induzir ao erro a população.

MELHORES PRÁTICAS As margens do desenvolvimento Daniella Cambaúva – São Paulo 80 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .

O desafio agora é equipar centros de comércio e dotá-los de rede de internet Pascalle Cavernes Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 81 .Projeto realizado por associação comercial em comunidade de difícil acesso no Amazonas cria entrepostos de comercialização e melhora geração de renda em comunidades ribeirinhas.

A parte navegável serve como hidrovia para diversas cidades. localizada em um terreno acidentado onde há uma ribanceira íngreme. comunidades e povoados sendo que o índice nacional é de 0. gestão e comercialização da produção sustentável”.O rio Juruá é um dos mais sinuosos do mundo. elevando os ganhos familiares e promovendo a cidadania na região. A iniciativa é inédita no local e. por conta do êxito empreendido.130 habitantes. O nome. quer dizer “rio de boca larga”. responsável pela criação de 15 pequenos mercados distribuídos entre as 55 comunidades situadas à beira do Juruá que formam a cidade de Carauari geração de renda. constantemente assolada pelo impacto das águas. responsável pela criação de 15 pequenos mercados distribuídos entre as 55 comunidades situadas à beira do Juruá que formam a cidade de Carauari. e com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0. “elevando os ganhos familiares e promovendo a cidadania na região. o Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário figura entre as 50 práticas finalistas da quarta O cerne do projeto Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário são os chamados entrepostos de comercialização. de acordo com o censo de 2010. Em uma de suas margens.350 quilômetros. É o 12º maior rio brasileiro e se estende por 3. comunidades e povoados.575 (considerado médio. Vista aérea do rio Juruá. ou cantinas. e conta com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e de um conjunto de empresas e associações do setor privado. Suas 15 unidades estão dispostas ao longo da Região do Médio Juruá 82 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . O objetivo principal do projeto é viabilizar oportunidades de geração de renda. a cidade possui uma densidade demográfica A ASPROC desenvolveu o projeto “Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário”. através de processos de organização. está a cidade de Carauari (Amazonas). Ao tentar reverter essa situação de subordinação econômica. através de processos de organização. Contando com 26. O prêmio incentiva ações. Nasce no Peru e atravessa o O difícil acesso à cidade – distante 540 quilômetros da capital Manaus – e a parca infraestrutura ali existente – em muitas das comunidades. A coordenação técnica do Prêmio é de responsabilidade do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Escola Nacional de Administração Pública (ENAP). não há nem mesmo energia elétrica – fizeram da região um local pouco atrativo para o desenvolvimento de uma rede mínima de comércio. A parte navegável serve como hidrovia para diversas cidades. Um trecho que vale como cartão postal em um lugar no qual rodovias e ferrovias são praticamente inexistentes. de acordo com documento divulgado pela Associação. realizada em 2011. em guarani.718). programas e projetos que contribuam para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) desenvolveu o projeto Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário. Vihh UMA NOVA REALIDADE A falta de uma rede de comércio sempre foi um impeditivo para o desenvolvimento de Carauari. que se estende por mais de três mil quilômetros. gestão e comercialização da produção sustentável edição do Prêmio ODM Brasil. O objetivo principal é viabilizar oportunidades de estado do Acre até desaguar no Solimões.

não dava quase nada. vende aqui. um quilo de feijão. Na maioria das comunidades ribeirinhas. “[a gente] se destacava daqui pra ir em Caruari fazer uma despesa. não saía por menos R$ 2. balas. “[Hoje]. feijão.70. Em cada cantina. Chegava lá. Dona Maria.Sidney Murrieta de apenas um habitante por quilômetro quadrado. antes da criação das cantinas. onde é feita uma lista para organizar a distribuição pelos entrepostos. que custa R$ 2. O problema era o preço cobrado por eles. sabão em pó. coordenador da iniciativa duas horas de um entreposto. né? E hoje a gente só faz pegar a produção da gente. há 132 produtos. a energia elétrica fica a cargo de geradores que só funcionam algumas horas por dia. e ver o dinheiro da gente. Adevaldo Dias. enlatados. A única opção que restava aos ribeirinhos além de ir a Carauari fazer compras e vender sua produção era comprar. um quilo de açúcar. com R$51 é possível comprar no comércio ribeirinho o que se comprava com R$ 100 no regatão. sete dias para chegar a Carauari. né? Aí compra as coisinhas”.90. uma impressora. Segundo o coordenador da iniciativa. o que facilitou a vida Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 83 . hoje os cidadãos de Carauari os encontram a menos de “Hoje. ou cantinas. comprar umas coisinhas. absorvente e preservativos. com os custos do frete. leite condensado. que custa R$ 1. achocolatado. Isto é praticamente dobrar o poder de compra da população” Adevaldo Dias. afirmou Dias. Ali. O cerne do projeto Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário são os chamados entrepostos de comercialização. como arroz. com preços menores do que aqueles verificados na sede do município. um computador e sistema de comunicação por radiofonia.60. os produtos industrializados disponíveis nas cantinas são comprados em mercados atacadistas de Manaus e a Associação arca Para se ter uma ideia da diferença entre os preços. quando acabava um produto em casa. A compra demora. leite em pó. Isso é praticamente dobrar o poder de compra da população”. vender ou fazer trocas com os regatões. uma das moradoras da Comunidade Novo Horizonte. com R$ 51 é possível comprar no comércio ribeirinho o que se comprava com R$ 100 no regatão. a 11 horas de Carauari. custava Ipam Se antes podiam levar até 52 horas para comprar seus os produtos. as familias ribeirinhas podem comprar seus produtos e também levar sua produção para ser vendida. PERFIL DE CONSUMO De acordo com Dias. O projeto garante a comercialização nas próprias comunidades. em média. lembra que. a ideia é garantir a comercialização da produção sustentável das comunidades ribeirinhas da região. hoje os cidadãos de Carauari os encontram a menos de duas horas de um entreposto. água sanitária. uma cadeira. Suas 15 unidades estão dispostas ao longo da Região do Médio Juruá e cada uma conta com uma casa de madeira equipada com uma escrivaninha. Se antes podiam levar até 52 horas para comprar seus produtos. pagando à produção local o preço de mercado e oferecendo produtos industrializados aos ribeirinhos.

dependentes de uma injusta política de troca.50. A produção dos ribeirinhos é liderada pela farinha de mandioca e pela borracha natural produzida a partir do látex. Nas cantinas. A ideia de desenvolver um comércio que proporcionasse independência econômica e geração de renda para as comunidades ribeirinhas surgiu junto da ASPROC. talvez a maioria delas. motor rabeta.” ORIGENS DA ASSOCIAÇÃO Adevaldo Dias conta que os ribeirinhos – populações que vivem naquela região há mais de três gerações – eram completamente submissos aos “patrões”. é beneficiária”. custava R$ 5.00. e um pacote de bolacha. coisas que você dificilmente via antes.95. que era de R$ 6. “Eu fiquei muito bem impressionado com o trabalho que eles desenvolvem lá. mas “Eu fiquei muito bem impressionado com o trabalho que eles desenvolvem lá. como a alimentação. Antes. contou Dias. começou a funcionar oficialmente”. João Paulo Viana. Estão tentando informatizar o estoque. Para chegar até lá.50. que funciona para eles como uma motocicleta. a extração ilegal de madeira e a pesca de quelônios – produtos com mercado certo entre os regatões.00. Ainda de acordo com Dias. saúde e transporte. “Tudo começou na década de 1990. controlando os recursos naturais. a caça comercial de animais silvestres. que pode ser comprado por R$ 2. Havia falta de oportunidade para comercializar a produção. encontrada em atividades ambientalmente não recomendáveis. uma prova evidente dos resultados do projeto é a característica das demandas: “Hoje. os moradores da zona rural tinham necessidades básicas.50 e hoje é R$ 2.50 por litro. foi criada a Associação pelos próprios trabalhadores ribeirinhos e pela sociedade civil de Carauari com objetivo de organizar e comercializar a produção da Região do Médio Juruá. pesquisador do Ipea PRODUÇÃO RIBEIRINHA A produção dos ribeirinhos é liderada essencialmente pela farinha de mandioca e pela borracha natural produzida a partir do látex. A ASPROC teve suas primeiras experiências em 1992. Havia falta de oportunidade para comercializar a produção. Antes. Estão tentando informatizar o estoque. como a pesca predatória. Nas palavras de Dias. A solução para driblar a falta de alimentos era. A passagem sai por R$ 400. inviabilizando a geração de excedentes e minando as possibilidades de adquirir artigos essenciais para uma vida saudável 84 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . enaltece a prática. passou a R$ 3.R$7. A coisa é bem gerenciada e muito organizada. Sidney Murrieta Nesse contexto. Em 1994. havia um “sistema de trocas injustas que deixava as famílias em situação de insegurança alimentar pela exploração a que estavam submetidas”. o problema não era apenas a dificuldade para comprar mercadoria. O diesel era R$ 4. Isso coincide com o Bolsa Família. eles compram DVD. um dos pesquisadores do Ipea que visitou Carauari. além da possibilidade de se oferecer produtos industrializados com preços melhores. com a conscientização das pessoas sobre a necessidade de se organizar e de comercializar a produção de forma justa. inviabilizando a geração de excedentes e minando as possibilidades de adquirir artigos essenciais para uma vida saudável. Em uma região tradicionalmente extrativista e dependente da agricultura de subsistência nos moldes da agricultura familiar. mas é possível comprá-los por encomenda. a produção. Já o preço da gasolina. desembarcou no aeroporto de Manaus e recorreu à unica alternativa aos sete dias de barco: um avião turboélice bimotor que sai da capital duas vezes por semana. Outros artigos são o açaí e a piaçava usada na confecção de vassouras. a produção” João Paulo Viana. não há eletrônicos ou eletrodomésticos. o problema não era apenas a dificuldade para comprar mercadoria. vendida a uma pequena usina da região. um dos aspectos mais relevantes da prática é a eficiência do modelo de administração desenvolvido no local. porque muitas famílias. algumas vezes. vendida a uma pequena usina da região. Outros artigos são o açaí e a piaçava usada na confecção de vassouras pessoas que se apossavam das terras da região. A coisa é bem gerenciada e muito organizada. Em sua opinião. antena.

sabe de cor todos os números referentes ao comércio ribeirinho e se mostra satisfeito com os resultados. o projeto também recebeu o Prêmio de Tecnologia Social 2011 da Fundação Banco do Brasil. com capacidade para 15 toneladas. gestão. O registro é feito em um sistema de computador. Professor com especialização em gestão ambiental. Entre 1992 e agosto de 2009. mas não há internet para transmissão dos dados. foram atendidas 450 famílias. Um barco com capacidade para 15 toneladas percorria o rio Juruá levando as mercadorias industrializadas e comprando a produção. Assim. Não tem internet nas cantinas. O FUTURO Natural de Caruari. além de 12 diretores no gerenciamento da organização. Já em 2011. da Fundação Banco do Brasil. quando foi chamado para coordenar o projeto. foram criados os entrepostos e capacitados dois jovens para cada um deles. o equivalente a mais de três mil pessoas. disse. 225 famílias foram capacitadas no processo de fabricação de farinha Atualmente. o que totaliza 2. então nós pegamos os dados em um pen drive”. foram atendidas 450 famílias. Populares (SEARP). coordenador da iniciativa nem sempre o projeto obteve sucesso. da Associação dos Moradores Agroextrativistas da RDS Uacari (AMARU). mas não há internet para transmissão dos dados. do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS). “Gerava muitas despesas e as pessoas não tinham muito para vender. Também na nova gestão. foram 600 famílias. da Prefeitura Municipal de Carauari. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 RESULTADOS E PARCERIAS Com a prática. Por conta desse resultado. Já em 2011. acabaram os gastos com combustível e os moradores de todas as comunidades passaram a ter acesso às mercadorias constantemente.“Além de fazer o atendimento diário aos ribeirinhos. 42 pessoas no processo de comercialização e Chico Ferreira 85 . No entanto. foram 600 famílias. nós fazemos um rigoroso sistema de prestação de contas. Além disso. outra meta é aperfeiçoar o atual modelo de gestão. afirmou Dias. Adevaldo tem uma vontade: “Fazer economia para ajudar no projeto”. Conhece bem as peculiaridades de cada comunidade.269 pessoas. Adevaldo Dias Em 2010. da Secretaria de Estado de Articulação de Políticas Públicas aos Movimentos Sociais e morou em Manaus por seis anos. o que totaliza 2.269 pessoas. além do Prêmio ODM Brasil. o Comércio Ribeirinho conta com parceria da Petrobras. Outro benefício foi a capacitação de 225 famílias no processo de fabricação de farinha. o modelo de comercialização feito pelas Associação era itinerante. Ou porque já tinham vendido para os regatões ou porque produziam pouco. não esconde a necessidade de aprimorar alguns aspectos: “Conseguimos comprar um barco de 40 toneladas e conservamos o barquinho antigo. até 2009. Como havia um barco só. “Além de fazer o atendimento diário aos ribeirinhos. do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (IDAM). Não existia um planejamento da produção como se tem hoje”. O registro é feito em um sistema de computador. da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). nós fazemos um rigoroso sistema de prestação de contas. Mas hoje a nossa grande dificuldade é a estrutura do transporte”. da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). em 2010. era possível passar em cada uma das 55 comunidades apenas uma vez a cada dois meses. Não tem internet nas cantinas. o equivalente a mais de três mil pessoas. então nós pegamos os dados em um pen drive” Adevaldo Dias. Segundo ele.

que tem como meta promover a inclusão digital nas escolas públicas por meio da compra de equipamentos de informática. No Brasil. municipal e do Distrito Federal. Em junho de 2012. o potencial eólico soma 300 GW e está concentrado nas regiões Nordeste e Sul. houve 327 pedidos feitos por microempresas. Entre outras medidas. Tais incentivos serão concedidos por meio do Regime Especial de Incentivo a Computadores para Uso Educacional (Reicomp). o crescimento é ainda mais evidente. A análise deve oferecer uma previsão do impacto que mudanças climáticas podem provocar em cada cultura e região do Brasil.335 e 22. Inclui também escolas sem fins lucrativos que prestem atendimento a pessoas com deficiência. Ceará e Rio Grande do Sul. Até o fim de 2016. a eletricidade produzida através do vento passa a ser um componente significativo no panorama energético brasileiro. que amplia o Plano Dreamstime a compra de computadores para escolas públicas. a lei restabelece também o Programa Um Computador por Aluno (Prouca). de acordo com a pesquisa. a meta é inserir no sistema elétrico nacional 8.7%. de acordo com a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Em relação a 2006. programa do governo federal cujo objetivo é aumentar a competitividade da indústria brasileira. registrando um aumento de 20. a capacidade instalada para gerar energia. Energia eólica Investimentos em energia titiva no país. Dreamstime A energia eólica. o crescimento foi de 64. milho e algodão. No entanto. a medida concede incentivos fiscais para 88 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 Dreamstime Cresce o número de pedidos de patentes de micro e pequenas empresas . essas categorias fizeram 5. segunda fonte mais compe- indústria eólica completou 2 GW de Educação Lei incentiva computadores nas escolas Foi sancionada em setembro pela presidenta Dilma Rousseff a Lei 12. com destaque para os estados da Bahia. a alta foi de 81. estadual. como soja. Os estudos são desenvolvidos há um ano por universidades federais e centros de estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). os números de micro e pequenas empresas são modestos quando comparado aos pedidos de pessoas físicas e pessoas jurídicas: em 2011.715. Brasil Maior. Vencida essa etapa.4 GW adicionais de potência eólica. 39 mais do que no ano anterior – um aumento de 13. A expectativa é que. essa ferramenta já esteja disponível. respectivamente.5% atuais para 5. distribuídos por 71 parques. Isso significa elevar a participação dessa modalidade na matriz brasileira dos atuais 1. O objetivo é ampliar a capacidade de gestão agrícola e antecipar as informações sobre produtos agrícolas e minerais comercializados no exterior.080 requerimentos. quando foram realizados 82 pedidos – em comparação a essa data. Além de trazer benefícios para a indústria.3%. afirma estudo realizado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). deve receber investimentos de mais de R$ 40 bilhões até 2020.54%. O investimento feito entre 2004 e 2011 alcançou R$ 25 bilhões.CIRCUITO Agricultura ciência&inovação Inovação O número de pedidos de patentes solicitadas por micro e pequenas empresas continua crescendo ano a ano. do Rio Grande do Norte. Quando comparados a resultados anteriores. e também projeções como o risco de determinada região produzir abaixo da série histórica. Os dados mais antigos das pequenas empresas são de 2009.4% até 2016. Monitorando a produtividade agrícola Pesquisadores de mais de dez instituições no país trabalham para aprimorar uma metodologia capaz de monitorar as principais commodities Dreamstime brasileiras com precisão. em dois anos. Em 2011.16%. que visa a facilitar a aquisição dos aparelhos para uso dos alunos e professores da rede pública federal. Já as empresas de pequeno porte fizeram 149 pedidos no ano passado. 25 a mais do que em 2010. quando microempresas fizeram 199 pedidos de patentes.

Inclusão digital

Universalização do acesso à internet
O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, revelou que o governo federal pretende lançar um plano de universalização da internet no Brasil, priorizando lugares onde não há infraestrutura, como a Região Norte do país e áreas de regiões
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Energia nuclear

Primeiro reator nuclear multipropósito
Um a á re a n o município de Iperó, a 128 quilômetros da cidade de São Paulo, foi desapropriada para construção do primeiro reator nuclear multipropósito (com múltiplas finalidades) brasileiro. O terreno situa-se junto ao Centro Experimental de Aramar, da Marinha. Esse foi o primeiro passo para a execução da meta do Plano de Ação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (PACTI/MCT). Trata-se de um equipamento fundamental para a produção brasileira de radiofármacos – fármacos, produtos biológicos ou drogas que têm em sua composição elementos radioativos e que são utilizados no diagnóstico ou em tratamentos médicos. Com orçamento de R$ 814 milhões, o projeto pode garantir nos próximos anos a independência nuclear do país na área de pesquisas científicas com fins pacíficos. Além do reator, será construído no local um novo laboratório que poderá ser utilizado pela sociedade acadêmica e por empresas interessadas. O equipamento poderá ter aplicações para pesquisas em áreas como agricultura, energia, ciência dos materiais e meio ambiente.

metropolitanas em que o acesso é precário.
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“Vamos fazer isso com calma, de forma bem embasada porque queremos atingir a universalização. Que o computador seja tão presente quanto é hoje o rádio ou a televisão”, disse o ministro. As metas de universalização devem constar em uma revisão do Plano Nacional de Banda Larga, prevista para 2013. De acordo com Paulo Bernardo, em 2011, o número de conexões de internet no Brasil cresceu 78%. No ano passado, houve aumento de 6,3 milhões de novos domicílios com acesso à rede, o equivalente a 38% dos lares.

Tecnologia

BNDES amplia investimentos na área de software
O orçamento do Programa para o Desenvolvimento da Indústria Nacional de Software e Serviços de Tecnologia e Informação (Prosoft), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), poderá ser ampliado de R$ 5 bilhões para R$ 6 bilhões. A informação é do diretor de Tecnologia da Informação do Banco, Julio Cesar Raimundo. “Devemos fazer uma renovação nos próximos meses, para 2015 ou 2016. Hoje temos R$ 3 bilhões aplicados, com um orçamento de R$ 5 bilhões garantidos, e nós podemos ampliar um pouco para a ordem de R$ 6 bilhões”, afirmou. O Prosoft tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento da indústria nacional de software e serviços de Tecnologia da Informação, setor considerado estratégico pelo Banco. Para tanto, o programa busca promover o crescimento e a internacionalização das empresas nacionais do setor; promover a difusão do software nacional no Brasil e no exterior; fortalecer as operações brasileiras de empresas multinacionais de software que desenvolvam tecnologia no país, além de ampliar a participação das empresas nacionais no mercado interno. De acordo com o BNDES, há 130 empresas beneficiadas e mais de 350 operações diretas com o banco.
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OBSERVAT RIO
latino-americano
Chile Venezuela México

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mento de US$ 150 milhões, o Google anunciou em setembro a instalação de seu primeiro centro de dados para a América Latina, no Chile. O centro, segundo a empresa, permitirá aos usuários terem melhor acesso aos serviços da empresa. O centro de dados será localizado em Quilicura, no norte de Santiago, onde “serão instalados computadores que trabalharão 24 horas por dia” e que “armazenarão grandes quantidades de informação” para o melhor acesso de seus usuários, informou Adriana Noreña, diretora do Google na América Latina. O escritório do Google no Chile também desenvolverá negócios de publicidade e marketing a nível regional e aplicativos para celulares. A empresa também possui escritórios na Argentina, Brasil, Peru, Colômbia e México.

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Busca por petróleo em águas cubanas
A Petróleos de Venezuela (PDVSA) iniciou os trabalhos de prospecção em águas profundas cubanas. A iniciativa se dará apesar de duas tentativas fracassadas de companhias estrangeiras que operam no local. A estatal Cubapetróleo informou há alguns meses que as companhias Malasia PC Gulf e a russa Gazpromneft encontraram um “sistema petrolífero ativo”, mas sem quantidades significativas de gás e petróleo, a uma profundidade de 4,6 mil metros, em região próxima ao Golfo do México. Cuba estima que suas reservas de petróleo sejam de 20 bilhões de barris.

Google se instala no país
Com um investi-

Prejuízo de US$ 351 mi com gripe aviária
O prejuízo financeiro da indústria de frangos do México, causado pelo surto de gripe aviária em Jalisco – maior estado produtor de ovos do país –, deve totalizar 4,6 bilhões de pesos (o equivalente a US$ 351 milhões), estimou o ministro da Agricultura mexicano, Francico Mayorga. O vírus H7N3, que não afeta seres milhões de galinhas poedeiras. De acordo com o ministro, até o fim de novembro, o total de frangos do país deve se recuperar até chegar aos níveis registrados antes do surto, em junho. Por enquanto, galinhas poedeiras, que normalmente são abatidas após seu primeiro ciclo de reprodução, estão sendo mantidas vivas durante dois ou três ciclos de fornecimento de ovos para aumentar a oferta doméstica do produto. O México também está aguardando importações de ovos da Costa Rica, do Chile e, possivelmente, da Colômbia e Malásia.
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humanos, causou a morte de 20

Honduras

Aprovada a privatização de cidades
Honduras assinou em setembro um memorando no qual aprova a privatização de três cidades no país. Com agentes de segurança, sistema tributário e legislação próprios e independentes, os municípios já estarão abertos para investimentos de empreendedores em um prazo máximo de seis meses. O objetivo é que essas cidades possuam poderes Executivo, Legislativo e Judiciário desvinculados do governo hondurenho. Assim, as administrações locais ganham autonomia suficiente para ratificar tratados internacionais, firmar parcerias bilaterais e estabelecer sua própria política imigratória. A justificativa do governo é de que esta é uma forma de fortalecer a infraestrutura nacional, bem como o combate à corrupção e ao tráfico de drogas. De acordo com Juan Hernandez, presidente do Congresso hondurenho, o grupo de investimentos MGK já se comprometeu a

injetar inicialmente US$ 15 milhões para a construção de infraestrutura básica em uma das cidades, a primeira delas, na região da costa caribenha.

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América Latina

Cepal aponta falta de políticas industriais para AL
A América Latina como um todo padece de “uma aguda falta de políticas industriais” e, principalmente, de institucionalidade pública para levar adiante programas sustentáveis. É o que conclui o relatório “Mudança Estrutural para a Igualdade”, elaborado pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), divulgado em setembro. No documento, a Comissão cobra não apenas a criação de políticas coerentes, possíveis de serem financiadas e capazes de levar a região a um salto tecnológico, como também ações que sejam fiscalizadas. A avaliação da Cepal é de que, para superar de vez a pobreza, a região precisa investir em uma terceira revolução industrial, com foco no avanço tecnológico. Segundo a entidade, em um mundo de economias abertas, o protecionismo não é aceito e o retorno de novos investimentos é muito mais incerto. A situação leva Estados a terem de preparar políticas de fomento e fazerem investimentos diretos. Isso, no entanto, precisa ser parte de uma política organizada, com prioridades e orçamento garantido. As tentativas brasileiras de política industrial mereceram destaque no classifica a Política de Desenvolvimento Produtivo, lançada em 2008. O relatório ressalta que o Plano Brasil Maior, lançado em 2008 pela presidenta Dilma Rousseff, tem alcance para impulsionar a inovação, os investimentos e o comércio exterior, além de proteger o mercado interno e a produção local.
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documento A Cepal

Exportações

Energia

Crise afeta desempenho do continente
A taxa de crescimento das exportações da América Latina e do Caribe deve cair de 23,3% ao ano
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Eletrobras gerará energia na Nicarágua
A Centrais Hidrelétricas da Nicarágua (CHN), criada pela Eletrobras e pela empresa privada brasileira a gerar energia elétrica no país a partir do segundo semestre de 2016. O projeto desenvolvido prevê a construção da hidrelétrica Tumarin. A usina será construída no município de La Cruz de Río Grande em um prazo de quatro anos e terá uma potência instalada de 253 megawatts. O investimento será de US$ 1,1 bilhão. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concedeu à Nicarágua um empréstimo de US$ 342 milhões para o projeto. A obra receberá financiamento do Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) com US$ 252 milhões.
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União Europeia, pelo baixo crescimento norteamericano e pela diminuição no crescimento da economia chinesa. O relatório conclui que, no médio prazo, as nações em desenvolvimento seguirão como motor da economia e do comércio mundial, ainda que com desaceleração, e destaca a necessidade de continuar reforçando os vínculos com outras regiões em desenvolvimento. Isto porque a economia de países populosos como Brasil, México e Argentina é apontada pela Cepal como alternativa para reduzir o impacto da crise econômica. De acordo com a projeção, a América Latina terá um peso maior do que a Europa Ocidental no crescimento econômico mundial, entre 2011 e 2017.

Queiroz Galvão, deve começar

(em 2011) para 4,1% (no primeiro semestre de 2012). Já as importações, que tiveram taxa de crescimento de 21,7% no ano anterior, devem crescer agora apenas 6,2%. As estimativas são do Panorama da Inserção Internacional da América Latina e do Caribe 2011-2012, relatório anual da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) divulgado em setembro. A queda no ritmo seria motivada pela recessão em países da

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e as principais criações animais e os resíduos resultantes da produção madeireira. considerado fundamental para o desenvolvimento econômico e social. e o excedente poderia ser comercializado. fez um levantamento de dados acerca da situação atual de geração de resíduos. A publicação possui nove capítulos escritos por 13 autores. que fazem resgate histórico da área quanto a equipamentos e conteúdo e traçam também diagnósticos quanto às políticas públicas para o setor.ESTANTE ALTERNATIVAS SUSTENTÁVEIS PARA RESíDUOS SóLIDOS Os impactos ambientais causados pela geração de resíduos podem ser positivos quando forem utilizados como fertilizantes orgânicos ou como fonte de energia renovável. ainda há dificuldades e aspectos a serem aprimorados. segregadas em culturas temporárias e permanentes. Marcio Wohlers de Almeida e Fernanda De Negri. Contribuir para este debate é um dos desafios do livro Tecnologias da Informação e Comunicação: Competição. provocando contaminação do solo. pecuária. ipea. podem gerar impactos negativos. Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa. subsidiando a elaboração de planos de redução. através do Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Lançada em setembro. Isto porque a energia elétrica gerada a partir dos resíduos advindos do setor agrossilvopastoril serviria para atender prioritariamente às necessidades dos empreendimentos. da água e do ar. Porém. nutrição animal e geração de energia por meio de reaproveitamento da biomassa. A obra analisa o grau de eficácia dos instrumentos de política que têm sido adotados para a ampliação do mercado brasileiro e contempla desafios como a dificuldade de acesso à internet em localidades mais distantes dos centros. Políticas e Tendências. 92 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 . Para tanto. o trabalho aponta para outras possibilidades econômicas de utilização dos resíduos para adubação orgânica.br. Com intuito de contribuir para o destino correto dos resíduos sólidos. como áreas rurais. O trabalho traz ainda recomendações para melhorar o setor. Foram avaliadas as principais culturas agrícolas brasileiras. do Ipea. além de riscos à saúde ambiental. o relatório de pesquisa Diagnóstico dos Resíduos Orgânicos do Setor Agrossilvopastoril e Agroindústrias Associadas. e do potencial energético destes resíduos.gov. Por fim. O livro está disponível no endereço www. a publicação trata de problemas existentes. do Ipea. livros e publicações DESAFIOS E SOLUÇÕES EM TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO Apesar da ampla expansão no setor de tecnologias de informação e comunicação (TICs) no Brasil. foram feitas estimativas dos montantes de resíduos orgânicos gerados pelas atividades da agricultura. O objetivo é colaborar com a formulação de políticas públicas para o setor. organizado por Luis Claudio Kubota. pequenas cidades e subúrbios das grandes cidades. quando não forem manejados. dependendo das condições do mercado de energia. silvicultura e agroindústrias associadas. bem como das circunstâncias que os produzem. reutilização e reciclagem dos resíduos gerados.

8%. Para os que se classificam como brancos.gov. e a população declarada como parda obteve melhoria de 85. pobreza e políticas de renda e indicam que a variação do aumento de ganhos reais foi 5.6%. sendo o gasto com transporte privado cinco vezes maior que o valor despendido com transporte público. nos últimos dez anos.br. a renda cresceu 72.5 vezes (550%) mais rápida para o décimo mais vulnerável dos brasileiros. Entre aqueles que se consideram negros. entre 2001 e 2011. Fortaleza. metrôs e trens metropolitanos.5% nas cidades interioranas. Esses dados constam do Comunicado do Ipea nº 155 – A década inclusiva (2001-2011): Desigualdade. mototáxi e transporte alternativo) e privado (automóveis. 67% dos domicílios pesquisados informaram ter gasto com transporte público. Belo Horizonte.7% nos colares metropolitanos. Rio de Janeiro.6%. o aumento de renda foi de 66. metade dessas famílias tem despesas com transporte privado. e a outra metade com transporte público.1% nas capitais e 3. o crescimento de renda foi de 47. além das bicicletas). foram utilizadas duas categorias de transportes: público (serviços de ônibus. divulgado pelo Instituto em setembro. No Comunicado. Salvador e Belém –.2%.4% dos gastos são nessa modalidade entre moradores das capitais. táxi. divulgada pelo IBGE. nas capitais.ipea. Recife. O Comunicado foi elaborado a partir da recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2011. feita pelo IBGE e utilizada como base para a confecção do estudo. É o que mostra o Comunicado do Ipea nº 154: Gastos das famílias das regiões metropolitanas brasileiras com transporte urbano.FAMíLIAS GASTAM CINCO VEZES MAIS COM TRANSPORTE PRIVADO As famílias brasileiras moradoras de áreas urbanas utilizam 15% de sua renda mensal com transporte diário. A pesquisa mostra ainda que o transporte coletivo mais usado é o ônibus: 78. esse percentual chega a 88%. trabalha com os gastos das famílias no dia a dia. revela que. RENDA DOS MAIS POBRES CRESCEU 90% EM DEZ ANOS Estudo divulgado pelo Ipea mostra que. ferrovias.5% do ganho pelo trabalho. A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF). Curitiba. Porto Alegre.3%.8%. transporte hidrográfico. grandes centros urbanos que enfrentam os maiores problemas com trânsito. essa taxa foi de 45. que é de 5. Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 93 . enquanto a parcela mais rica da população obteve nesse mesmo período um aumento de 16. Na região Nordeste. os 10% mais pobres do Brasil tiveram um crescimento de renda acumulado de 91. complementado por dados inéditos até agosto de 2012. O uso do transporte alternativo chega a 11. motocicletas e caminhonetes. que está disponível no endereço www. Já nas regiões metropolitanas. O estudo. Nas regiões metropolitanas. O foco do estudo foram as nove regiões metropolitanas nacionais – São Paulo. Já no Sudeste.

Uma série de exposições fotográficas também será organizada em diversas cidades ao redor do mundo. Todos vocês tornaram a campanha uma realidade e nos ajudaram a destacar e promover o desenvolvimento através de novas lentes. a marginalização e a exclusão social. Parte da coletividade obtém seu sustento através de suas excepcionais habilidades para o artesanato. Uma galeria de fotos será permanentemente localizada no escritório do IPC e será aberta para visitação pública.ipc-undp.org/photo/ 94 Desenvolvimento • 2012 • Ano 9 • nº 74 .humanizando o DESENVOLVIMENTO Prayash Giria MODELANDO O FUTURO – A senhora na foto integra a comunidade Meghwal e reside no vilarejo de Hodka. Parabéns aos participantes. Nós agradecemos as instituições parceiras e membros do Comitê de Seleção por suas contribuições para a campanha. Hoje toda a população da vila desfruta de melhores condições de vida em razão de seu trabalho. Visite o site e veja algumas das fotografias da campanha: http://www. e compartilharam sonhos e desafios. Nós temos o prazer de anunciar as 50 fotos selecionadas pela campanha. vendido até no exterior. a campanha pretende contrabalancear as imagens frequentes que mostram desolação e desespero. na índia. Chamando-se a atenção para os sucessos obtidos. Nós gostaríamos de agradecer aos participantes de mais de 100 países quer nos enviaram suas fotos e suas histórias. Como você vê o desenvolvimento? Como retratar uma face humana do desenvolvimento? Como os programas e iniciativas do desenvolvimento melhoram a vida das pessoas? A Campanha Mundial de Fotografia Humanizando o Desenvolvimento busca mostrar e promover exemplos de pessoas vencendo a luta contra a pobreza.