Fundação Técnico Educacional Souza Marques - FTESM

FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS

ACIDENTES NUCLEARES E RADIOLÓGICOS
Consequências e ações mitigadoras

Gabriel Alves Gomes

Rio de Janeiro 2012

Gabriel Alves Gomes

ACIDENTES NUCLEARES E RADIOLÓGICOS
Consequências e ações mitigadoras

Monografia apresentada à FTESM como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Física.

Professor orientador: Fernando Nuno Carneiro de Sousa

Rio de Janeiro 2012

RESUMO

O objetivo deste trabalho é promover uma discussão sensata e imparcial a respeito do uso consciente das técnicas nucleares, tanto no âmbito nucleoelétrico como em indústrias, medicina e afins. Portanto, abordam-se aqui os piores acidentes já ocorridos na área nuclear e radiológica, que vitimaram milhares de pessoas ao longo dos anos, mostrando os dois lados de suas consequências. Ressalta-se ainda que, apesar do perigo naturalmente imposto pelas reações químicas e nucleares, a utilização da energia nuclear a partir de técnicas específicas pode ser de total segurança, desde que respeitadas as normas e regulamentações internacionais, surgidas através do agravamento de cada evento acidental.

Palavras-chave: Acidentes nucleares, Física nuclear, Chernobyl, Fukushima.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Classificações da INES ............................................................................. 18 Figura 2: Imagem de satélite da usina de reprocessamento Mayak, próximo de Kyshtym .................................................................................................................... 22 Figura 3: Diagrama da unidade de Three Mile Island-2. ........................................... 30 Figura 4: Vista aérea de Junho de 2010 da usina nuclear de Three Mile Island, com a unidade 2 desativada ............................................................................................... 34 Figura 5: Placa histórica na River Road (Middletown, Pensilvânia) sobre o acidente nuclear de TMI. ......................................................................................................... 37 Figura 6: Diagrama de um reator RBMK-1000 ......................................................... 39 Figura 7: Vista aérea dos destroços do reator da unidade 4 de Chernobyl .. ............ 43 Figura 8: Deposição superficial de Cs-137 nas vizinhanças de Chernobyl .............. 45 Figura 9: Esquema dos reatores BWR da usina de Fukushima. ............................... 49 Figura 10: Epicentro do terremoto Tohoku ............................................................... 50 Figura 11: O tsunami atingindo a parede de contenção da Central Nuclear de Fukushima I .............................................................................................................. 51 Figura 12: Momento das explosões dos reatores Fukushima causadas pelo acúmulo de hidrogênio ............................................................................................................ 52 Figura 13: Raio de exclusão em torno da central nuclear de Fukushima Daiichi ..... 56

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 7 1.
1.1. 1.2.

ENERGIA NUCLEAR ................................................................................. 9
Significado e utilização ..................................................................................... 9 Estigmatização, um dos principais problemas enfrentados no avanço da

tecnologia nuclear ..................................................................................................... 10

2.
2.1. 2.1.1. 2.1.2. 2.1.3. 2.1.4. 2.1.5. 2.1.6. 2.1.7. 2.1.8.

REATORES NUCLEARES DE FISSÃO .............................................. 12
Componentes das instalações nucleares ...................................................... 12 Combustível nuclear ............................................................................ 12 Moderador ............................................................................................ 13 Refrigerante ........................................................................................ 14 Barras de controle ............................................................................... 14 Vaso de pressão .................................................................................. 14 Condensador ....................................................................................... 15 Gerador de vapor ................................................................................ 15 Prédio de contenção ........................................................................... 15

3.

ESCALA INTERNACIONAL DE EVENTOS NUCLEARES E

RADIOLÓGICOS (INES) ................................................................................... 17 4.
4.1. 4.1.1. 4.1.2. 4.1.3. 4.2. 4.2.1. 4.2.2.

OS PRINCIPAIS ACIDENTES NUCLEARES .................................... 20
Kyshtym, Russia (1957) ................................................................................. 20 Resumo dos eventos ........................................................................... 21 Consequências e impactos na população e no meio ambiente .......... 22 Ações posteriores e lições aprendidas ................................................. 24 Windscale Fire, Reino Unido (1957) ............................................................... 24 O reator de Windscale, GCR (Gas cooled reactor) .............................. 25 Resumo dos eventos ........................................................................... 26

4.2.3. 4.2.4. 4.3. 4.3.1. 4.3.2. 4.3.3. 4.3.2. 4.3.3. 4.4. 4.4.1. 4.4.2. 4.4.3. 4.4.4. 4.4.4.1. 4.4.4.2. 4.4.5. 4.5. 4.5.1. 4.5.2. 4.5.3. 4.5.2. 4.3.3.

Consequências e impactos ambientais ............................................... 27 Ações posteriores................................................................................. 28 Three Mile Island, E.U.A. (1979) ..................................................................... 29 O Reator de Água Pressurizada, PWR (Pressurized Water Reactor) . 30 Resumo dos eventos ........................................................................... 31 Impactos ao público e ao meio-ambiente ............................................ 35 Ações posteriores ................................................................................ 35 Consequências e lições aprendidas .................................................... 36 Chernobyl, Ucrânia (1986) .............................................................................. 38 O reator russo RBMK .......................................................................... 38 Resumo dos eventos ........................................................................... 39 Impactos ambientais e liberação de radiação ..................................... 43 Ações posteriores................................................................................. 44 Zona de exclusão ................................................................................. 44 Medidas de Contenção ....................................................................... 45 Consequências e lições aprendidas .................................................... 46 Fukushima, Japão (2011) ............................................................................... 47 O reator a água fervente, BWR (Boiler Water Reactor) ....................... 48 Resumo dos eventos ........................................................................... 49 Impactos ambientais e ao público ....................................................... 54 Ações posteriores ................................................................................ 55 Consequências e lições aprendidas .................................................... 56

5.

BREVE DISCUSSÃO DOS ACIDENTES COM FONTES

RADIOATIVAS ..................................................................................................... 58 6. CONCLUSÕES ......................................................................................... 61

REFERÊNCIAS ................................................................................................... 62

7

INTRODUÇÃO

Com o crescimento da indústria nuclear, no início do século passado, a utilização de materiais radioativos tanto para fins de tratamentos médicos, industriais e geração de energia se consolidou fortemente. Sabe-se que, atualmente, 18% da eletricidade consumida no mundo é gerada em instalações nucleares (principalmente nos Estados Unidos, Rússia, França e Japão), sendo que cerca de 438 reatores de grande porte estão em funcionamento. Há também a constante dependência atual das indústrias e da medicina pela radiação, seja em tratamentos médicos (radioterápicos) como em processos de irradiação para os mais diversos fins. Embora contem com diversos aparatos de segurança no sentido de garantir a eficácia de processos de controle e contenção de acidentes, sempre haverá possibilidade de ocorrência destes em menor ou maior escala, devido à erros humanos ou falhas sistemáticas. No presente trabalho serão abordados as causas de tais acidentes, bem como as ações de intervenção à época, enfatizando as lições aprendidas e as posteriores medidas adotadas de forma a melhorar a segurança e regulamentar de forma mais eficiente as instalações nucleares e radiológicas. Portanto, é preciso fazer uma distinção ente elas e, consequentemente, separar os acidentes em dois grupos: acidentes nucleares e acidentes radiológicos. No primeiro, estão as ocorrências em instalações nucleares, tais como as usinas de potência e fábricas de combustível nuclear utilizados em reatores, e no transporte dos combustíveis. Já no segundo, entram em consideração as ocorrências que envolvem fontes radioativas, despejo de materiais radioativos, transporte desses materiais e aparelhos de irradiação, utilizados para as mais diversas práticas. Na segunda seção serão abordadas mais a fundo o funcionamento de uma instalação nuclear e seus componentes, para que o leitor possa situar-se no propósito deste trabalho. É importante ainda destacar que os acidentes nucleares podem ter consequências radiológicas graves, por conta da possível liberação de material

8

radioativo para a atmosfera, dependendo da sua gravidade. Portanto, serão discutidos mais detalhadamente os acidentes nucleares mais graves até então, definidos pela sua relevância no que diz respeito tanto às severidades causadas quanto às medidas adotadas para a proteção do público em geral. Abordará-se brevemente também alguns acidentes radiológicos com fontes radioativas, de modo a estabelecer um método comparativo na prevenção e eficácia do controle dessas incidências. O presente trabalho foi produzido com base em pesquisa literária, em relatórios confeccionados pela IAEA (International Atomic Energy Agency), UNSCEAR (United Nations Scientific Committee on the Effects of Atomic Radiation) e outras agências e instituições governamentais que se dedicaram ao estudo desses acidentes.

9

1.
1.1

ENERGIA NUCLEAR
Significado e utilização Os átomos de alguns elementos químicos apresentam a propriedade de,

através de reações nucleares, transformar massa em energia. O processo ocorre espontaneamente em alguns elementos, porém em outros precisa ser provocado através de técnicas específicas (KAPLAN, 1978). Atualmente a dependência da energia nuclear atinge as mais diversas indústrias e instalações, desde esterilização de alimentos e equipamentos, tratamentos médicos e aplicações de controles de qualidade, até a produção de energia elétrica em massa. Em aplicações industriais, a radiação ionizante proveniente dos núcleos instáveis são utilizadas de forma a ionizar os átomos do material alvo que se deseja e causar os efeitos apropriados. Atualmente, são utilizadas crescentemente em processos industriais as fontes radioativas emissoras de partículas alfa, beta e radiação gama, bem como fontes de radiação X. Na produção de energia elétrica, atualmente são utilizadas as fontes de radiação ionizante emissoras de nêutrons, de forma a induzir a reação de fissão nuclear no núcleo atômico. Este, por sua vez, se divide em duas ou mais partículas (chamados de produtos de fissão) liberando mais nêutrons que induzirão as reações encadeadas. A fissão do átomo de urânio é a principal técnica empregada para a geração de eletricidade em usinas nucleares, sendo usada em mais de 400 centrais nucleares em todo o mundo, principalmente em países como a França, Japão, Estados Unidos, Alemanha, Suécia, Espanha, China, Rússia, Coréia do Sul, Paquistão e Índia, entre outros. Segundo a World Nuclear Association (WNA, em tradução livre Associação Nuclear Mundial), atualmente 14% da energia elétrica no mundo é gerada através de fonte nuclear, e este percentual tende a crescer com a construção de novas usinas, principalmente nos países em desenvolvimento (e.g. China, Índia etc.). Os Estados Unidos, que possuem o maior parque nuclear do planeta, com 104 dos 437 reatores em operação, estão ampliando a capacidade de geração e aumentando a vida útil de várias de suas centrais (INB, 2012). Por sua

10

vez, França, com 58 reatores, e Japão, com 50, também são grandes produtores de energia nuclear, seguidos por Rússia, com 33 reatores e Coréia do Sul, com 23 reatores (IAEA, 2012). A maior vantagem ambiental da geração elétrica através de usinas nucleares é a não utilização de combustíveis fósseis, evitando o lançamento na atmosfera dos gases responsáveis pelo aumento do aquecimento global e outros produtos tóxicos (ELETROBRAS, 2012). Há que se destacar também o fato de que as usinas nucleares ocupam áreas relativamente pequenas, podem ser instaladas próximas aos centros consumidores e não dependem de fatores climáticos, como chuva, vento etc., para o seu funcionamento. Além disso, o urânio utilizado em usinas nucleares é um combustível de baixo custo, uma vez que as quantidades mundiais exploráveis são muito grandes e não oferecem risco de escassez em médio prazo.

1.2.

Estigmatização, um dos principais problemas enfrentados no avanço da

tecnologia nuclear Embora o uso da energia nuclear geralmente seja bem aceito nos países de primeiro mundo, a tecnologia de utilização de fontes nucleares tanto para produção de energia elétrica quanto para os mais diversos tratamentos ainda não é detentora de confiança por parte de seus consumidores. Como será visto mais adiante, os acidentes ocorridos apenas potencializaram um receio já existente desde a época do pós-guerra. Infelizmente, o primeiro contato do público com relação à utilização da energia nuclear foi através das bombas Little Boy1 e Fat Man2, lançadas no Japão durante a Segunda Guerra Mundial, resultados do Projeto Manhattan (JUNGK, 1956), de onde criou-se um crescente medo da tecnologia e possíveis rejeições são tidas como sensatas. Por mais que as usinas nucleares atualmente sejam mais seguras e menos agressivas à natureza do que qualquer outro modo de produção de energia elétrica

1

Bomba de urânio-235, detonada em 6 de agosto de 1945, na cidade de Hiroshima, deixando mais de 120 mil mortos instantaneamente e mais de 100 mil pessoas seriamente danificadas. 2 Bomba de plutônio do tipo implosão, detonada três dias após a primeira, em 9 de agosto de 1945, a noroeste do centro da cidade de Nagasaki, deixando cerca de 74 mil mortos instantaneamente e mais de 75 mil pessoas seriamente lesionadas.

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em massa, os acidentes são logo relacionados à esse passado malquisto da ciência nuclear. Muitas vezes, tais controvérsias e receios chegam a limites tão intensos que acabam por tomar quase que completamente a resolução de sensatez, no que tange também aos tratamentos com a utilização de radiação ionizante. Mais adiante, serão apresentados mais claramente as consequências adversas dos acidentes, não só no aspecto físico, mas também no lado emocional dos envolvidos.

12

2.

REATORES NUCLEARES DE FISSÃO
Nesta seção, serão explicados basicamente o funcionamento dos reatores

nucleares de fissão e seus componentes essenciais. Basicamente, um reator nuclear de fissão é qualquer sistema físico em que se tem a produção e controle de reações nucleares de fissão em cadeia. Dentro dos propósitos deste trabalho, serão discutidos os reatores térmicos, aqueles em que os nêutrons liberados em cada fissão têm sua energia cinética diminuída para um valor da ordem de 0,025 elétron-volts (eV), de forma que possam fissionar outros átomos, mantendo o encadeamento da reação. Portanto, nos itens a seguir, serão apresentados conceitos referentes ao funcionamento dessas instalações como um todo. As particularizações de cada instalação, tal como os diferentes tipos de reatores térmicos, serão vistos mais à frente.

2.1.

Componentes das instalações nucleares Serão definidos nesta seção os componentes em comum de instalações

nucleares que utlizam reatores fissão, desde os componentes internos do reator (setor primário) até seus sistemas de redundância (setores secundário e terciário).

2.1.1. Combustível nuclear Combustível nuclear é todo material que pode liberar energia através do processo de fissão nuclear. O dióxido de urânio (UO2) é matéria-prima para fabricação do combustível nuclear nos reatores nucleares, e é muito pobre em urânio físsil (urânio-235, doravante denotado por urânio presentes nesse óxido são não físsil. Como os núcleos de
238 235 235

U). Apenas 0,7% dos átomos de
238

U; os 99,3% restantes são de

U, seu isótopo

U são bons absorvedores de nêutrons, eles tendem a
235

absorver os nêutrons produzidos nas fissões dos núcleos de

U e se constituem,

portanto, em obstáculos à reação em cadeia. O uso efetivo do urânio como combustível nuclear requer que se retire parte do urânio-238 das amostras de urânio

13

natural. Assim, é necessário um novo tratamento para separar o isótopo físsil do isótopo não-físsil. Este tratamento é conhecido como enriquecimento do urânio. Um dos processos para realização do enriquecimento consiste em transformar o dióxido de urânio no gás hexafluoreto de urânio (UF 6) e fazer este gás difundir-se por placas porosas (difusão gasosa). Também há o processo chamado de ultracentrifugação, mais utilizado atualmente, que consiste na separação dos isótopos
235

U e

238

U, através de uma ultracentrífuga a gás girando em uma

velocidade extremamente alta contida em um meio a vácuo. Assim, um campo de força ultracentrífuga gerado dentro do cilindro em rotação (rotor) separa os diferentes isótopos ao longo da direção radial. Então, para se obter produtos com os teores desejados em escala industrial, conclui-se que uma usina de enriquecimento compreende inúmeras cascatas (que interligam os estágios de separação) constituídas de elementos de separação isotópica interligados em série e paralelo, por meio de tubulações referentes aos fluxos de urânio de alimentação e retirada de urânio enriquecido e empobrecido (INB, 2012). Com isso, consegue-se separar o UF6 de
235

U do UF6 de

238

U. Em seguida, o

gás hexafluoreto de urânio enriquecido volta a ser convertido em dióxido de urânio. Este óxido é o que constituirá finalmente o combustível nuclear. O elemento combustível é composto por pastilhas (pellets) de dióxido de urânio montadas em tubos de uma liga metálica especial de zircônio (zircaloy), formando um conjunto de varetas cuja estrutura, que tem até 5 metros de altura, é mantida rígida por reticulados chamados grades espaçadoras (CNEN, 2010). Em um reator nuclear de fissão comercial utiliza-se o urânio de baixo enriquecimento, cujo teor de 235U está entre 3% e 5%.

2.1.2. Moderador Em reatores de potência, ou comerciais, geralmente o moderador é composto de um elemento leve que pouco ou nada absorva dos nêutrons liberados nas

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fissões, como água (pesada3 ou leve) ou carbono na forma de grafite, e aparece ao redor dos elementos combustíveis. Como os nêutrons são produzidos na fissão do
235

U com energia muito alta

(aproximadamente 5 MeV), o moderador é responsável por causar a diminuição de energia do nêutron, também chamada de termalização, feita por meio de colisões com os núcleos dos átomos que o compõem até o ponto de entrarem em equilíbrio térmico.

2.1.3. Refrigerante Fluido que circula pelo núcleo, de modo a remover o calor do núcleo do reator e transferi-lo para os geradores elétricos e, por fim, ao meio-ambiente. Em reatores de água leve, o líquido refrigerante também tem a função de moderador de nêutrons.

2.1.4. Barras de controle Podem ser definidas como um conjunto de hastes que podem ser introduzidas e removidas do núcleo do reator, de forma a controlar a velocidade da reação em cadeia ou até mesmo para impedi-la, e são constituídas de boro, háfnio ou cádmio, substâncias absorvedoras de nêutrons. Em alguns reatores de água pressurizada (PWR), um sistema especial de barras de controle é usado de forma a permitir que o núcleo mantenha um baixo nível de potência de forma eficiente. Sistemas de controle secundários envolvem outros absorvedores de nêutrons, geralmente boro no refrigerante (água borada), com uma concentração ajustada ao longo do tempo em que o combustível é queimado.

2.1.5. Vaso de pressão Normalmente, um recipiente de aço sólido contendo o núcleo do reator e moderador/refrigerante, mas que também podem ser uma série de tubos que seguram o combustível e transmitem o líquido refrigerante através do moderador.
3

Molécula de água composta por dois átomos de deutério e um átomo de oxigênio (D2O), utilizada em reatores alimentados a urânio natural.

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Nem todos os reatores têm um vaso de pressão. Como será mostrado mais adiante, os reatores nucleares são geralmente classificados pelo tipo de líquido de refrigeração que utilizam, ou ainda pela energia dos nêutrons de fissão, em vez de pela configuração do vaso do reator.

2.1.6. Condensador O objetivo primário de um condensador é condensar o vapor de escape de uma turbina para obter a eficiência máxima, e também para converter o vapor de escape da turbina para a água pura (vapor condensado), de modo que ele pode ser reutilizado no gerador de vapor.

2.1.7. Gerador de vapor Os geradores de vapor são trocadores de calor utilizados para converter água em vapor pelo calor produzido no núcleo de um reator nuclear. Eles são utilizados em reatores de água pressurizada entre os sistemas de refrigeração do circuito primário e secundário. Constituem uma parte do sistema de refrigeração, onde o líquido refrigerante de alta pressão do circuito primário, quando trazendo o calor do reator, é utilizado para fazer vapor para a turbina, no circuito secundário.

2.1.8. Prédio de contenção Um prédio de contenção, em seu sentido mais comum, é uma estrutura de aço e concreto reforçado, hermeticamente fechados, que envolve o sistema do reator nuclear. É designado, em qualquer situação de emergência, a conter qualquer escape de radiação em alta pressão. A contenção é a quarta e ultima barreira do prédio do reator, impedindo a liberação de radiação para o meio-ambiente. Como exemplo, nos EUA cada instalação nuclear é projetada para resistir a certas condições que estão traduzidas como "Acidentes de base de design" (Design Basis Accidents) no Relatório Final de Análise de Segurança (FSAR). O desenho e espessura do confinamento e do escudo contra mísseis são regidas por regulamentações federais e devem ser suficientemente fortes para suportar o impacto de um avião de passageiros totalmente carregado sem romper a estrutura.

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Enquanto a contenção desempenha um papel crítico nos mais graves acidentes com reatores nucleares, só é projetada para conter ou condensar o vapor a curto prazo, e a remoção de calor a longo prazo ainda deve ser fornecida por outros sistemas. Os sistemas de contenção para reatores nucleares são distinguidos por tamanho, forma, materiais utilizados, e sistemas de supressão. O tipo de contenção utilizada é determinada pelo tipo de reator, sua produção, e as necessidades específicas da planta. Os sistemas de supressão são fundamentais para análise de segurança e afetam significativamente o tamanho de contenção, referindo-se a condensação do vapor de água depois de uma ruptura lançar esse vapor no sistema de refrigeração.

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3. ESCALA INTERNACIONAL DE EVENTOS NUCLEARES E RADIOLÓGICOS (INES)

A necessidade de comunicar facilmente ao público o significado de qualquer evento relacionado às operações de instalações nucleares e radiológicas que possam originar riscos ao público ou ambiente, surgiu na década de 1980, após os acidentes em instalações nucleares que atraíram atenção da mídia internacional (IAEA, 2009). A partir daí, em 1990, foi criada a Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos, INES (da sigla em inglês International Nuclear and Radiological Event Scale), com o objetivo de comunicar prontamente ao público, de forma consistente, o significado da segurança em eventos associados a fontes radioativas. Ele abrange um amplo espectro de práticas, incluindo o uso industrial, tais como radiografia, o uso de fontes radioativas em hospitais, atividades em instalações nucleares e no transporte de material radioativo (IAEA, 2008). Os eventos são classificados em sete níveis em ordem crescente de agravamento. Os níveis mais baixos (1 a 3) são denominados incidentes e relacionam as ocorrências restritas à área da instalação, ao passo que os níveis mais altos (4 a 7) são chamados de acidentes, refletem os eventos nucleares cujo impacto atingiu a área externa à instalação. Eventos nucleares ou radiológicos que não comprometam a segurança do público e do meio-ambiente de nenhuma forma, são classificados como nível zero/abaixo da escala.

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Figura 1: Classificações da INES. Fonte: IAEA

Para comunicação de eventos ao público, são atribuídos a cada nível da INES frases distintas em ordem de gravidade crescente, que são: Nível 1 – anomalia; Nível 2 – incidente; Nível 3 - incidente grave; Nível 4 - acidente com consequências locais; Nível 5 - acidente com maiores consequências; Nível 6 - acidente sério; e Nível 7 - acidente grave. Os eventos também são considerados na escala por três áreas de impacto: Público e meio-ambiente, onde são consideradas as doses de radiação para pessoas próximas ao local do evento e a liberação generalizada e não planejada de material radioativo de uma instalação; barreiras e controles radiológicos, que cobre os eventos sem qualquer impacto direto sobre as pessoas ou o ambiente, e aplicase apenas dentro de grandes instalações, onde os possíveis despejos de materiais radioativos ficam confinados no interior da instalação; e defesa em profundidade, que também cobre os eventos sem qualquer impacto direto sobre as pessoas ou o meio ambiente, sendo que aqui o conjunto de medidas impostas de modo a tomar controle da situação e evitar acidentes não funcionaram como pretendido.

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Segue abaixo a tabela 1, que lista o detalhamento das ocorrências abrangidas pela INES, separadas pelos critérios já explicitados acima.

Tabela 1: Descrição dos níveis da INES

Nível e descrição

Público e meio-ambiente

Barreiras e controle radiológicos

Defesa em profundidade

Grande liberação e danos Nível 7 generalizados à saúde e ao Acidente grave meio-ambiente. Liberação significativa de material radioativo, requerendo implementação total do plano de emergência. Liberação limitada de material radioativo, requerendo implementação parcial do plano de emergência. Dano severo do núcleo do reator e/ou barreiras de segurança. Dano significativo do núcleo do reator com liberação de materiais do núcleo. Contaminação severa, não prevista em projeto Contaminação significativa não prevista em projeto Sem importância com relação à segurança. Quase acidente, com todas as barreiras de segurança degradadas. Incidentes com falhas significativas nas provisões de segurança. Anomalia fora do regime autorizado de operação.

Nível 6 Acidente sério Nível 5 Acidente com maiores consequências

Nível 4 Pequena liberação de material Acidente com radioativo. Público exposto aos consequências limites prescritos. locais Nível 3 Incidente grave Nível 2 Incidente Nível 1 Anomalia
Fonte: IAEA Liberação muito pequena de material radioativo. Público exposto a uma fração dos limites prescritos. Sem importância com relação à segurança. Sem importância com relação à segurança.

20

4.

OS PRINCIPAIS ACIDENTES NUCLEARES

As instalações nucleares quando em processo de concepção, são projetadas para operar com a mínima intervenção humana possível através de seus sistemas cada vez mais automatizados e seguros. Porém, essas melhorias são o legado de uma série de erros e acidentes acontecidos em instalações nucleares desde meados do século XX. Nesta seção serão apresentados os principais acidentes nucleares ao longo da história, muitos deles culminando em graves acidentes radiológicos. Em cada ocorrência, serão explorados ainda os impactos radiológicos na população e no meio-ambiente, bem como as medidas adotadas para contenção e segurança do público na época dos acidentes e posteriormente.

4.1.

Kyshtym, Russia (1957) O acidente de Kyshtym, nome de uma pequena cidade no sul da Rússia, a

leste dos Montes Urais, ocorrido na usina de reprocessamento de combustível nuclear chamada Mayak (posteriormente mudada para Chelyabinsk 40), foi o local do primeiro e um dos maiores acidentes nucleares que resultou na dispersão de material radioativo para o meio-ambiente. A instalação tinha como objetivo a produção de plutônio para construção das armas nucleares soviéticas a partir de 1948. Sendo a instalação situada nas imediações no rio Techa, tais atividades resultaram em problemas de significativa contaminação, tanto para as áreas vizinhas como para regiões mais distantes, devido à dispersão do material através dos sistemas fluviais, necessitando o desenvolvimento e aplicação de certas medidas para atenuar as consequências do acidente. No início a meados de 1950, repositórios de resíduos para materiais radioativos gerados em Mayak foram desenvolvidos. Um alto nível de resíduos radioativos foi armazenado em tanques compostos de aço-concreto, em condições de refrigeração por períodos de cerca de 1 ano.

21

4.1.1. Resumo dos eventos Em 29 de setembro de 1957, os sistemas de refrigeração de um dos tanques de armazenamento de resíduos falhou, e a temperatura começou a subir no seu interior. Por volta das 16:20, a evaporação do líquido de refrigeração no tanque e o aumento da temperatura de 70 a 80 toneladas de resíduos radioativos, resultou em uma explosão química dentro do tanque. Esta explosão resultou em uma considerável perda de integridade do tanque de abastecimento, e a consequente ejeção de material radioativo para o ambiente. Cerca de 20 milhões de Ci de rejeitos radioativos haviam sido dispersos na atmosfera. Devido à natureza confinada da explosão, cerca de 90% do lixo nuclear foi disperso perto dos tanques sob a forma de uma polpa líquida (BURNAZYAN, 1990). No entanto, uma pluma de aerossol resultante com uma atividade de 2 milhões de curie (Ci) atingiu uma altitude de cerca de 1000 metros e resultou na vasta dispersão de material ejetado. Os materiais contaminantes da pluma foram confinados em Chelyabinsk e nas Províncias de Sverdlovsk. Antes do acidente, mais de 28 mil pessoas viviam nas 38 aldeias ao longo do rio Techa. Dosagens de concentração de
90 90

Sr (Estrôncio-90) excederam 0,01

Ci/km2 e foram distribuídos em mais de 23.000 km2 (KOSENKO, 1991). A mais alta Sr foi localizado em uma área conhecida como Metlino, localizada próxima a Kyshtym, em que as doses foram em média de 3 4sievert/km2 (Sv/km²). Apenas para se ter ideia do quão alto essas doses representam, o limite tolerável pela Agência Internacional de Energia Atômica de dose para indivíduo público é de 1 mSv/ano (IAEA, 2012). Cerca de dez anos após o acidente principal, na primavera de 1967, um outro acidente ocorreu, resultando em dispersão de 600 Ci de
137

Cs (Césio-137) e

90

Sr no

ar, pela transferência de partículas de areia radioativa, provenientes da praia do Lago Karachay (localizado a aproximadamente 17 km a leste de Kyshtym). Após três meses de limpeza intensa, entre o verão e o outono de 1967, resultaram numa diminuição de 10 vezes o nível de radiação. Isso ocorreu porque os encarregados conseguiram remover toda a água do reservatório contaminado,
4

Sievert (Sv) é a unidade do SI que regula a dose equivalente ou dose efetiva de radiação, e leva em consideração o efeito biológico em tecidos vivos, produzido pela radiação absorvida. Equivale a 1 joule de energia da radiação incidente por quilograma de matéria (1Jkg).

22

localizado perto da área de Metlino (DEGTEVA, 1991). 4.1.2. Consequências e impactos na população e no meio ambiente Cerca de 15.000 a 20.000 km2 receberam níveis de contaminação superiores a 3,7 kBq/m2 de
90

Sr. Uma densidade de contaminação de 74 kBq/m 2 de

90

Sr foi

estabelecido como sendo o nível de intervenção para a evacuação da população. Foi então delimitada uma área de aproximadamente 1.000 km², que se tornou conhecida como o East Urals Radioactive Trace (EURT, em tradução livre Rastreamento radioativo dos Urais do leste). Uma queda muito rápida dos níveis de radioatividade dentro do EURT ocorreu com isótopos de meia-vida curta, já decaídos. Dentro de dois anos, isótopos como
95

Zr,

95

Nb e

144

Ce tinha deixado de constituir uma proporção significativa da carga
90

contaminante e o isótopo principal de preocupação foi relativamente longa, de 28,8 anos.

Sr, devido à sua meia-vida

No momento do acidente, 63% da área era utilizado para fins agrícolas, e 23 comunidades rurais existiam na área. Estas populações foram evacuadas, cerca de 10.700 pessoas no total de 22 meses após o acidente. A utilização da área foi temporariamente proibida, mas em 1961 a sua recuperação foi iniciada. Atualmente, cerca de 180 km2 perto do local da explosão são tidos ainda oficialmente como fora dos limites de segurança.

Figura 2: Imagem de satélite da usina de reprocessamento Mayak, próximo de Kyshtym Fonte: Google

23

Nos momentos iniciais pós-acidente, a dose externa de radiação gama em humanos estava acima da dose recebida internamente por ingestão de material radioativo. Cerca de 270 dias após o acidente, as doses internas e externas de radiação se igualaram, e consequentemente a dose externa começou a diminuir em relação à interna. A dose interna foi recebida em maior parte pelo aparelho gastrointestinal, através do consumo dos alimentos contaminados e de produtos agrícolas. À medida que o tempo avançou, toda a parte agricultura, bem como leite e água, se tornaram os principais problemas de contaminação de
90

Sr em humanos,

principalmente com as ingestões do isótopo contido no leite, água potável de pequenos reservatórios próximos e de pão, feito a partir dos grãos contaminados. Tais problemas afetaram os órgãos governamentais, e pela primeira vez na história foi feita uma intervenção alimentar, introduzindo limites de acordo com o conteúdo dos radionuclídeos em produtos alimentares. Tais regulamentações e limites existem e são fortemente utilizadas atualmente, de forma a proteger o público de uma possível exposição à radiação com níveis acima dos aceitáveis. A intensa contaminação do território resultou em uma variedade de efeitos biológicos sendo observados, principalmente nos primeiros 12 meses após o ocorrido. Nas áreas de contaminação superiores a 18 MBq/m², a morte da vegetação foi inevitável, e tais efeitos foram sustentados por cerca de 4 anos após o acidente Oito anos após o final do desastre, o leite continuou sendo a principal via de contaminação humana, constituindo cerca de 50% da radiação ingerida. Em 1987, a ingestão de
90

Sr no organismo havia diminuído por um fator de 1300, relativo à

ingestão no período imediatamente após o ocorrido, e por um fator de 200, relativo à um ano após. Tal fato se deve principalmente às medidas de intervenção feitas, destinadas à limitar o consumo dos suprimentos contaminados. O verdadeiro número de mortes devido diretamente à contaminação radioativa ainda permanece incerto. Sabe-se, através de estudos estatísticos, que as taxas de mortalidade aumentaram significativamente nos últimos anos ao longo do rio Techa. Ainda de acordo com tais estudos, os resultados mostraram que as incidências de câncer no estômago, proveniente da ingestão dos alimentos contaminados, foram cerca de 2 a 3 vezes maiores do que em sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, assim como câncer de mama (2 vezes

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maior), de pulmão e no esôfago, cerca de 3 vezes maiores (DEGTEVA, 1991).

4.1.3. Ações posteriores e lições aprendidas Entre 1957 e 1959 mais de 10.000 toneladas de produtos agrícolas foram considerados impróprios para consumo humano e destruídos. Mais de 6000 de hectares de terras agrícolas foram submetidos a descontaminação profunda e a camada superficial de solo altamente contaminado foi enterrada a uma profundidade de mais de 50 cm, mais baixa do que a profundidade das raízes de muitas colheitas. Isto serviu para reduzir a captação via sistemas de raiz. Na região de Chelyabinsk, cerca de 59 mil hectares de terra foram removidos da utilização agrícola, e só a partir de 1990, a grande maioria desta terra pôde voltar à sua produção normal. Atualmente, o nível de radiação em Ozyorsk (aproximadamente a 10 km de Mayak) é dito ser seguro para os seres humanos, mas a área de EURT ainda está fortemente contaminado com radioatividade. Em 1968, o governo soviético, de modo a tirar o rótulo da área EURT acidentada, cria a East-Ural Nature Reserve (EURT, em tradução livre “Reserva Natural do Ural Leste”), que proibiu qualquer acesso não autorizado à área afetada. Segundo publicação da INES, o acidente de Kyshtym é designado como nível 6 (Acidente Grave), por conta das altas taxas de dose provenientes da dispersão não estimada de material radioativo para o meio-ambiente.

4.2.

Windscale Fire, Reino Unido (1957) O acidente de Windscale (também chamado de Windscale Fire), ocorrido em

10 de outubro de 1957 na unidade 1 da usina nuclear de Cumberland (agora Sellafield,Cumbria), foi a mais cruel consequência do planejamento britânico para a construção da sua primeira bomba atômica. Ocorreu quando o moderador de grafite de um dos reatores refrigerados a ar, teve um incêndio que resultou na primeira liberação significativa de material radioativo de um reator. Foi o pior acidente nuclear da história da Grã-Bretanha, classificado em termos de gravidade como nível 5 (Acidente com variadas consequências) na escala da INES, devido ao nível de periculosidade imposto ao público.

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A instalação foi o lar do primeiro de dois reatores nucleares britânicos construídos para produzir plutônio e outros materiais para o programa de armas nucleares do Reino-Unido (BBC).

4.2.1. O reator de Windscale, GCR (Gas cooled reactor) Um dos mais amplos programas para a geração de energia nuclear foi o desenvolvimento e construção britânicos de uma série de reatores alimentados à urânio metálico natural, moderados a grafite e refrigerados à gás. Neste tipo de reator, um gás inerte (e.g. hélio ou CO2) é utilizado no lugar da água (EL-WAKIL, 1962), de forma a moderar os nêutrons iniciais. Em Windscale, o reator foi construído em pilhas e era refrigerado a ar, principalmente para a produção de plutônio. Os reatores foram construidos dentro de um pequeno espaço de tempo, perto da pequena aldeia de Seascale, Cumberland, e eram conhecidos como Windscale Pile 1 e Windscale Pile 2, alojados em grandes edifícios de concreto a poucas centenas de metros de distância. Uma das principais vantagens desse tipo de reator reside no fato de que os gases são mais seguros, amplos na natureza e consequentemente baratos, além de serem mais facilmente controláveis em altas temperaturas sem a necessidade de pressurização. Um dos problemas é que, como o reator tem de ser operado a altas temperaturas para uma maior eficiência térmica, devido à característica dos gases de baixa transferência de vapor, a escolha do elemento combustível e toda a metalurgia que o envolve na fabricação devem ser altamente resistentes à temperatura altíssima (EL-WAKIL, 1962). Como resultado, a eficiência mais alta desse tipo de instalação (40% ou mais), pode ser obtido em comparação com os refrigerados a água (em torno de 33 a 34%). Embora hajam as restrições e desvantagens de projeto, é o terceiro tipo de reator mais utilizado, ficando atrás apenas dos reatores de água pressurizada (PWR) e de água fervente (BWR). Um outro dado importante é que este é o principal tipo de reator operando atualmente no reino unido, com 15 unidades, sendo este

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também o número total de GCR operantes em todo o mundo (IAEA, 2012).

4.2.2. Resumo dos eventos Em 7 de outubro de 1957, os operadores começaram um ciclo de recozimento para Windscale Pile 1, trocando as ventoinhas de refrigeração de forma a abaixar o consumo de energia e estabilizar o reator em baixa potência. Durante a operação normal, os nêutrons interagem com o moderador grafite, resultando em uma distorção em sua estrutura cristalina (BERTINI, 1980). Esta distorção remete a um acúmulo de energia que fica armazenada no grafite, também chamada de energia Wigner. O processo de aquecimento controlado foi utilizado para tentar restabelecer a estrutura de grafite e libertar a energia armazenada. Quando parecia que o processo de recozimento estava ocorrendo, as hastes de controle foram inseridas de volta no núcleo para desligar o reator e restaurar o grafite à sua forma original, procedimento pradrão para esse tipo de operação. Porém logo tornou-se evidente que a liberação de energia Wigner não estava se espalhando através do núcleo, e sim diminuindo de forma prematura, alojando-se em certos pontos na parede do núcleo (WIKIMEDIA, 2012). Na sequência, os operadores retiraram as hastes de controle novamente para aplicar um segundo aquecimento e concluir o processo de recozimento. Nesse momento, eles não tinham ciência de que algumas áreas estavam consideravelmente mais quentes do que outras, já que a maioria dos termopares não se encontravam em regiões do núcleo onde ocorria o superaquecimento. Tudo o que era visível nos instrumentos foi um aumento suave da temperatura, o que era de esperar durante a liberação da energia do processo. Infelizmente, neste caso, a energia de excesso sendo libertada resultou em danos de combustível. Primeiro o combustível de urânio metálico e posteriormente a grafite do moderador reagira com o ar de refrigeração e começou a queimar. No início da manhã de 10 de Outubro, suspeitou-se que algo de anormal estava acontecendo. A temperatura no núcleo deveria cair gradualmente ao término da liberação de energia, mas os equipamentos de monitoração mostraram incerteza

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e um termopar indicou que a temperatura do núcleo, em vez de cair, subiu potencialmente. Suspeitando que uma haste de combustível havia rompido, os operadores usado um dispositivo de escaneamento remoto, mas a engrenagem do mecanismo de funcionamento ficou presa. Assim, vestindo roupas de proteção, dois trabalhadores abriram uma cavidade na parte da frente do reator e encontraram o combustível em brasas. Esta foi a indicação de que um incêndio havia acontecido ali por cerca de 2 dias. Em um esforço para refrigerar a pilha de combustível, aumentou-se o fluxo de dióxido de carbono. Isto alimentou mais oxigênio para o fogo e levantou materiais radioativos até a chaminé e galerias de filtro. De início não foi utilizada água de forma a conter o fogo, porque os operadores temiam que o hidrogênio na água poderia alimentar uma explosão. Porém, como não haviam conseguido sufocar o fogo com a utilização de CO2, na manhã de 11 de outubro o núcleo do reator fora inundado com água, já sabendo que não haveriam mais riscos de explosões. A esta altura, o incêndio já alcançava o seu pior estado, onde cerca de 11 toneladas de urânio estavam em chamas. As temperaturas indicadas pelo termopares do núcleo estavam em cerca de 1300°C, e todo o sistema de blindagem do reator atingido corria severos riscos de ruptura. De início, a injeção imediata de água também não foi suficiente pra conter o incêndio. Somente após outra série de medidas tomadas pelos operadores, mantendo o fluxo constante de água pelas 24 horas seguintes, o reator, já completamente destruído, foi satisfatoriamente resfriado e o fogo finalmente extinto.

4.2.3. Consequências e impactos ambientais Durante o evento, gases radioativos, principalmente iodo e gases nobres como criptônio e xenônio, tinham sido liberados. Amostras da vegetação nos arredores da instalação indicaram que as galerias de filtro da pilha haviam removido quase todas as partículas radioativas, mas permitiu que gases radioativos fossem lançados para o exterior. Uma das preocupações no momento pós-acidente era com o isótopo

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radioativo de
131

131

I (iodo-131), que embora tenha uma meia-vida de apenas 8 dias, é

absorvido pelo corpo humano e armazenada na tiróide. Como resultado, o consumo I muitas vezes leva ao câncer da tireóide, sendo estimado que o acidente pode ter causado cerca de 240 casos de câncer (Morelle, 2007). Investigações posteriores mostraram que cerca de 20 mil curies deste isótopo foram liberados da pilha e, em sua maioria, transportados para a alimentação animal, o que resultou na contaminação posterior do leite, sendo este o único efeito sobre o público (BERTINI, 1980). A população que vivia às proximidades do reator recebeu doses de radiação de cerca de 10 vezes maior que o limite permitido para o tempo de vida (RAGHEB, 2010).

Tabela 2: Principais radionuclídeos liberados no acidente e suas quantidades

Radionuclídeo Iodo-131 Césio-137 Polônio-210 Estrôncio-89 Estrôncio-90
Fonte: M. Eisenbud

Alcance estimado de liberação (Curies) 16200 a 20000 600 a 1240 ~ 240 80 a 137 6a9

4.2.4. Ações posteriores Embora ninguém tenha sido evacuado da área ao redor, certamente havia a preocupação da contaminação através da alimentação. Portanto, todo o leite produzido em cerca de 500 km2 de terras próximas ao acidente foi destruído (diluído em mil vezes e jogado no mar da Irlanda) por cerca de um mês (MCGEOGHEGAN, 2000). Um estudo de 2010 com os trabalhadores diretamente envolvidos na limpeza, portanto altamente expostos à doses maiores de radiação, não encontraram efeitos significativos à saúde a longo prazo por seus envolvimentos (MCGEOGHEGAN, 2010). O tanque do reator permaneceu selado desde o acidente e ainda contém cerca de 15 toneladas elemento combustível danificado, que continuam estocados

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na instalação em forma de cinzas radioativas e restos do incêndio. O reator foi desativado usando sistemas remotos, construídos exclusivamente para o projeto a um custo de 500 milhões de libras (RAGHEB, 2010). Embora a unidade 2 (Windscale Pile 2) não tenha sofrido danos causados pelo incêndio, foi fechada meses depois por ser considerado muito perigoso o seu uso continuado.

4.3.

Three Mile Island, E.U.A. (1979) O acidente nuclear de Three Mile Island, ocorrido na unidade 2 (TMI-2) da

usina nuclear localizada próximo a Middletown, Pensilvânia, em 28 de março de 1979, foi o mais grave na história de instalações nucleares comerciais dos EUA. O complexo nuclear era composto por dois reatores de água pressurizada (PWR), um com capacidade de geração de 802 MW na unidade 1 (TMI-1, em operação desde 1974 e que continua sendo uma das unidades com melhor desempenho nos EUA) e outro de 906 MW na unidade 2 (TMI-2, em operação desde dezembro de 1978), o qual sofreu o derretimento parcial do núcleo. Embora não tenha levado a óbito nenhum trabalhador da instalação ou membros de comunidades vizinhas, levou o governo norte-americano e a própria indústria nuclear a rever todas as suas normas e procedimentos de operação dessas instalações, culminando com um significativo aumento nas exigências para emissão de licenças de instalação e operação de novos reatores e com uma forte diminuição no ritmo de construção de novas centrais nucleares. Após o ocorrido, a licença de operação da unidade 1 foi temporariamente suspensa, a fim de passar por avaliações criteriosas de segurança. Desde então, a unidade 2 nunca mais foi utilizada. São aceitos como as principais causas do acidente a falta de instrumentação de segurança nas salas de controle, bem como o treinamento inadequado dos operadores para atuar em casos emergenciais.

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Figura 3: Diagrama da unidade de Three Mile Island-2. Fonte: Nuclear Energy Institute (NEI)

4.3.1. O Reator de Água Pressurizada, PWR (Pressurized Water Reactor) Este é o tipo mais comum em instalações nucleares de potência, com 272 em uso (IAEA, 2012) para geração de energia elétrica. É o mesmo tipo de reator utilizado no complexo nuclear de Angra dos Reis e constitui um dos três tipos de reatores de água leve (Light Water Reactors, LWR), sendo os outros o BWR (Boiling Water Reactor), que será visto à frente, e o SCWR (Supercritical Water Reactor), que utilizam água natural desmineralizada (leve) tanto como refrigerante e moderador. Seu design distingue-se por ter um circuito de refrigeração primário que flui através do núcleo do reator sob pressão muito elevada, e um circuito secundário, em que o vapor é produzido para acionar a turbina (NEI, ). Em um PWR, o refrigerante primário (água) é bombeado a alta pressão para o núcleo do reator, onde é aquecido pela energia gerada pela fissão dos átomos de urânio. A água aquecida, então, flui para um gerador de vapor, onde ela transfere a sua energia térmica para um sistema secundário, onde o vapor é produzido e flui para as turbinas a qual, por sua vez, giram um gerador elétrico ligado à rede de abastecimento de energia. Uma das vantagens desse sistema é a sua tendência de uma menor produção de energia com incursões de temperatura, o que torna o reator mais facilmente operável do ponto de vista da estabilidade. Há também o fato de que os

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anéis de refrigeração do primário e do secundário são separados e não há mistura entre os dois fluídos, uma vez que a água de refrigeração do núcleo pode tornar-se radioativa. Há ainda que se destacar o fato das barras de controle serem conduzidas por eletroímãs, caindo automaticamente por gravidade caso ocorra panes no sistema elétrico. Em caso de desligamento da usina, a inserção total das barras de segurança impedem a continuidade das reações nucleares em cadeia. Por ser um sistema altamente pressurizado, deve-se manter o líquido comprimido ao máximo de forma que resista à alta temperatura. Para isto, os tubos devem ter alta resistência témica e o recipiente onde fica o reator, resistir à alta pressão. Por isso, um dos contras acaba por ser o custo de construção, que se torna mais elevado.

4.3.2. Resumo dos eventos O acidente começou por volta de 04:00h, quando a usina sofreu uma falha no setor secundário. Nessa hora, o reator se encontrava operando próximo à potência de 97%, enquanto que a unidade 1 (TMI-1) encontrava-se desligada para o reabastecimento de combustível (USNRC, 2009). Devido a uma falha mecânica ou elétrica, as bombas de alimentação principais pararam de funcionar, impedindo os geradores de vapor de removerem o calor gerado no setor primário, desligando automaticamente a turbina e o gerador de vapor. Em seguida, o sistema do reator inseriu, também de forma automatizada, as barras de segurança absorvedoras no núcleo, de forma a interromper as reações de fissão em cadeia. Por conta do desligamento das bombas principais e a não atuação das bombas auxiliares, não era possível a remoção do calor do núcleo, aumentando consequentemente a pressão no sistema primário. A fim de impedir que a pressão se tornasse excessiva, o operador acionou a abertura da válvula de alívio (PORV, pilot-operated relief valve), localizada na parte superior do pressurizador. Essa válvula, que deveria ter fechado quando a pressão diminuiu de um determinado valor, devido a outro problema mecânico não o fez. Nesse instante, a

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sinalização disponível para os operadores mostrou erroneamente um sinal certificando que a válvula estava fechada, mas não havia sinalização indicando a sua posição no núcleo (WNA, 2012). Dessa forma, a água que servia de refrigerante foi jogada com alta pressão para fora da válvula de alívio aberta, juntamente com vapor gerado pela queda de pressão, e expôs o núcleo do reator ao superaquecimento. Como a válvula de alívio estava aberta, a água do interior estava circulando apenas devido à ação das bombas de circulação, porém em estado de ebulição. Sendo assim, bolsões de vapor começaram a se formar dentro do núcleo, bem como vapor começou a se formar na tubulação de resfriamento, bloqueando o fluxo de água e aumentando ainda mais a temperatura do vaso de pressão. Os vazios devido ao vapor também passaram a ocupar mais volume que a água líquida, fazendo com que o nível de água no pressurizador aumentasse mesmo com a constante perda de líquido refrigerante pela válvula de alívio aberta. Dessa forma, os operadores consideraram o nível de água no núcleo pelo nível do pressurizador, e desde que esse nível estivesse elevado, assumiram erroneamente que o núcleo estava adequadamente coberto com o refrigerante (WNA, 2012). Como não havia sinal claro de que a válvula de alívio estava aberta, enquanto os alarmes soavam e luzes de advertência piscavam os operadores não perceberam que o reator estava entrando em um acidente por perda de refrigeração (loss-of-coolant-accident, também chamado de LOCA), considerado pela indústria nuclear o pior tipo de acidente nesse tipo de instalação. Foram tomadas, então, uma série de providências que tornaram as condições ainda piores. Uma delas foi simplesmente a redução do fluxo de refrigerante para o núcleo, procedimento que lhes fora ensinado através de treinamentos. Os operadores desligaram então o sistema de bombeamento de água de emergência para o núcleo, e assumiram que uma vez estando o núcleo coberto de água, deveria ser evitado que esse nível chegasse ao topo do pressurizador, o que não permitiria mais controlar a pressão. Com o aumento de vapor sendo formado no sistema de refrigeração do reator e com o bombeamento de uma mistura de água e vapor para o núcleo começaram a ocorrer vibrações no sistema, o que poderia danificar as bombas do sistema primário, surgindo então decisão de desligá-las a fim de evitar danos permanentes.

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Essa decisão forçou o encerramento do sistema de refrigeração e esperava-se que a circulação natural da água continuasse sua movimentação. Porém, o vapor presente no circuito impediu o fluxo de água através do núcleo, fazendo com que a água presente em seu interior gerasse ainda mais vapor (WNA, 2012). Enquanto a água de refrigeração continuava fervendo e evaporando, a parte superior do reator ficou descoberta e aqueceu cada vez mais rapidamente. Com a temperatura cada vez mais alta, o combustível nuclear superaqueceu ao ponto em que o cladding5 de zircônio rompeu, e algumas pastilhas de combustível foram danificadas de tal modo que despejaram material radioativo no líquido refrigerante, produzindo também gás hidrogênio. Dez minutos após o início do acidente, o tanque que coletava a descarga de vapor do circuito primário encheu-se completamente, em decorrência da válvula PORV ainda aberta, deixando vazar água para um reservatório (sump) no edifício de contenção. Sendo assim, o diafragma de alívio do tanque de recolhimento rompeuse e o líquido refrigerante radioativo começou a vazar para o edifício de contenção geral. Pela manhã, por volta das 06:22h, os operadores fecharam a válvula de bloqueio, localizada entre a válvula de alívio e o pressurizador. Essa ação impediu a perda de refrigerante através da válvula de alívio, mas a essa altura mais de 100.000 litros do refrigerante com material radioativo já haviam vazado do setor primário, e as instalações já estavam seriamente contaminadas. Cerca de uma hora depois, o gerente da estação declarou estado de emergência geral, definindo como tendo um “potencial para consequências radiológicas graves” ao público em geral (USNRC, 2009). Durante toda a manhã, os operadores tentaram forçar mais água dentro do sistema do reator para condensar as bolhas de vapor que eles acreditavam, agora corretamente, estar bloqueando o fluxo de refrigerante. Durante a tarde, por meio da abertura da válvula de alívio, tentaram diminuir a pressão do sistema de refrigeração do reator para permitir o uso de um sistema de resfriamento de água a baixa pressão e a introdução de um suprimento de água de emergência (WNA, 2012). Ainda à tarde, um crescimento repentino na pressão da contenção indicou
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Tubos de metal longos que prendem as pastilhas de combustível nuclear.

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que havia ocorrido uma formação de hidrogênio, proveniente da reação química do vapor a alta temperatura com a liga de zircônio (zircaloy) que envolve as varetas de combustível. O mesmo gás também se acumulou na parte superior do edifício de contenção e havia o receio de que pudesse explodir, causando a ruptura do edifício e consequente vazamento de grandes quantidades de radiação para o meio ambiente. Por volta das 19:50h foi possível restaurar o resfriamento forçado do núcleo do reator, enquanto tentavam encontrar condições para reiniciar uma das bombas de refrigeração. Como o vapor se encontrava condensado, a bomba pôde ser religada sem problemas de vibração excessiva. Nessa hora temperatura do núcleo começou a cair, porém uma grande parte do núcleo havia derretido e o sistema ainda estava perigosamente radioativo. Nos dois dias que seguiram, os operadores conseguiram remover a bolha de hidrogênio periodicamente abrindo a válvula de ventilação do pressurizador, permitindo a saída do gás para a atmosfera. Após um mês de grande ansiedade, em 27 de abril os operadores conseguiram estabilizar a circulação natural do líquido refrigerante. Assim, o núcleo estava sendo resfriado pela circulação natural de água (processo de convecção), sem a utilização das bombas mecânicas. A instalação se encontrava então em “parada fria” (cold shutdown), com a água a menos de 100°C à pressão atmosférica.

Figura 4: Vista aérea de Junho de 2010 da usina nuclear de Three Mile Island, com a unidade 2 (esquerda) desativada. Fonte: Wikimedia.

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4.3.3. Impactos ao público e ao meio-ambiente O acidente de Three Mile Island causou preocupações sobre a possibilidade de efeitos à saúde induzidos pela radiação na área ao redor da instalação. Devido a essas preocupações, o Departamento de Saúde da Pensilvânia manteve um registro por 18 anos de mais de 30.000 pessoas que viviam dentro de cinco quilômetros de Three Mile Island no momento do acidente. Em meados de 1997 tal registro foi interrompido, sem qualquer evidência de alterações incomuns à saúde na área (WNA, 2012). Mais de uma dúzia de grandes estudos de saúde, feitos por órgãos governamentais e privados, estimam que a dose média para cerca de 2 milhões de pessoas em uma região de 16 km da instalação foi de cerca de 0,08 milisieverts (aproximadamente igual à dose recebida de 0,06 mSv em uma radiografia de tórax, por exemplo), com não mais de 1 milisievert a qualquer indivíduo. Em comparação com a dose de radiação de fundo natural, que é cerca de 1 milisievert por ano para a área, a dose coletiva na comunidade do acidente foi mínima (USNRC, 2009). Nos meses seguintes ao acidente, embora questões foram levantadas sobre eventuais efeitos radiológicos nocivos em humanos, animais e plantas na área de TMI, nenhum destes puderam ser diretamente relacionados ao acidente. Milhares de amostras ambientais de ar, água, vegetação, leite, solo e alimentos foram recolhidos por vários grupos de monitoramento de área. Muito embora fossem encontrados níveis muito baixos de radionuclídeos, naturalmente atribuídos ao acidente, as investigações e avaliações dos órgãos oficiais concluíram que, apesar de graves danos ao reator, a maior parte da radiação foi contida, e que os efeitos da liberação real de radiação seria negligenciável sobre a saúde física das pessoas ou o ambiente (USNRC, 2011).

4.3.4. Ações posteriores A limpeza do vaso do reator danificado se iniciou em 1979, e foi extremamente desafiadora pelos cuidados que tiveram de ser tomados. Estima-se que cerca de 100 toneladas de combustível de urânio danificado tiveram que ser removidos do vaso do reator durante o processo. Logo no início da limpeza, a unidade TMI-2 foi completamente cortada de qualquer conexão com TMI-1.

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A cúpula superior do vaso de pressão do reator foi removida em julho de 1984, de forma a permitir o acesso ao que restou do núcleo. Investigações posteriores revelaram que cerca de 45% do núcleo, i.e. 62 toneladas, haviam derretido, e destes 19 toneladas acabaram na parte inferior do vaso de pressão, porém sem a danificá-lo gravemente. A maior parte do material do núcleo derretido permaneceu na região do núcleo. A remoção do combustível danificado foi o centro das atenções dos órgãos responsáveis durante a limpeza. O combustível danificado permaneceu submerso durante todo o processo e em outubro de 1985, depois de quase seis anos de preparativos, trabalhadores foram dispostos em uma plataforma acima do topo do reator, e, manipulando ferramentas de longo alcance, começaram a levantar o combustível em recipientes que pendiam sob a plataforma. Ao todo, 342 latas de combustível foram enviadas de forma segura para armazenamento em longo prazo no Laboratório Nacional de Idaho, colocadas em armazenamento a seco em recipientes de concreto. Toda a água com material radioativo utilizada no processo de limpeza (cerca de 10,6 milhões de litros) foi processada, armazenada e evaporada com segurança. A limpeza terminou em dezembro de 1993, quando a unidade TMI-2 recebeu uma licença da NRC (Nuclear Regulatory Commission) para entrar armazenamento monitorado de pós remoção de combustível (Post Defueling Monitored Storage PDMS).

4.3.5. Consequências e lições aprendidas O acidente foi causado principalmente por uma combinação de erros humanos, deficiências de projeto e falhas de componentes mecânicos e eletrônicos. Além de ter sido o maior acidente nuclear da história dos EUA, foi o responsável por mudar permanentemente todos os regulamentos e órgãos fiscalizadores de instalações desse tipo. O medo e desconfiança da população aumentou, e as medidas de controle e gestão das instalações passaram a ser analisadas com maior cuidado. Os problemas identificados a partir da análise cuidadosa dos eventos ocorridos no acidente levaram a adoção de uma série de medidas, visando tornar as instalações mais seguras e preparadas para esse tipo de ocorrência.

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As reformulações dos treinamentos estão entre os resultados mais significativos do acidente em TMI-2, tornando-se centrado em proteger a capacidade de refrigeração da instalação, qualquer que seja o problema que pode o estar provocando. Também levou à criação do Instituto de Operações em Energia Nuclear com sede em Atlanta (Atlanta-based Institute of Nuclear Power Operations - INPO) e sua Academia Nacional de Formação Nuclear. Estas duas organizações da indústria têm sido eficazes na promoção da excelência na operação de usinas nucleares norte-americanas e dos seus programas de treinamento. Assim, atualmente os operadores são treinados também com uma base para compreensão de aspectos teóricos e práticos das operações da instalação como um todo. Cerca de metade do treinamento dos operadores é em um simulador de grande escala eletrônica da sala de controle de TMI. Com um simulador de 18 milhões de dólares, permite-se aos operadores aprenderem e serem testados em todos os tipos de cenários de acidentes.

Figura 5: Placa histórica na River Road (Middletown, Pensilvânia) sobre o acidente nuclear de TMI. À esquerda, a unidade de TMI-1. Fonte: Allianz

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4.4.

Chernobyl, Ucrânia (1986) O acidente de Chernobyl, ocorrido no dia 26 de abril de 1986 na unidade 4 da

usina situada em Pripyat, Ucrânia, à época parte da União Soviética. Embora a instalação levasse o nome da cidade de Chernobyl, localizava-se a cerca de 18 km desta, e era dotada de quatro reatores do tipo RBMK-1000, de 1 GW de potência cada, que, em conjunto, produziam cerca de 10% da energia elétrica utilizada na Ucrânia. Outros dois reatores de mesma potência estavam em construção na época do acidente (IAEA, 2012). Como os eventos do acidente propriamente dito ocorreram em questão de segundos, não houve margem para um controle e medidas de contenção adequadas. É considerado o pior acidente nuclear da história, classificado como nível 7 (máximo) na classificação da INES. Com o acidente houve um aumento das preocupações sobre a segurança da indústria nuclear soviética, o que diminuiu sua expansão por muitos anos.

4.4.1. O reator russo RBMK O RBMK (Reaktor Bolshoi Moshchnosty Kanalny, em tradução livre, reator de alta potência de canal) de concepção soviética é um reator com canais de combustível individuais refrigerado a água pressurizada e moderado a grafite. É muito diferente da maioria dos outros projetos de reatores potência, uma vez que deriva de um projeto principalmente para a produção de plutônio, sendo usado também na produção de energia (WNA, 2010). O grafite proporciona a maior parte da moderação necessária para sustentar o reação em cadeia. A água leve, utilizada como líquido refrigerante, atua principalmente como um absorvedor de nêutrons e não fornece uma moderação significativa. Isto significa que um vazio no refrigerante poderia na verdade reduzir sua característica de absorção de nêutrons e aumentar a velocidade de reação de fissão, aumentando consequentemente o nível de potência. Com o aumento da potência do reator, aumenta a ebulição do refrigerante, fazendo crescer a fração de vácuo de vapor e aumentando ainda mais a potência. Este mecanismo de

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realimentação positiva caracteriza os sistemas instáveis. O coeficiente de potência positiva ou coeficiente de vazio de reatividade para o RBMK existe sob a maioria das condições de operação, tornando-os particularmente difíceis de controlar a níveis de potência baixas (RAGHEB, 2011).

Figura 6: Diagrama de um reator RBMK-1000. Fonte: World Nuclear Association (WNA)

4.4.2. Resumo dos eventos No dia 25 de abril, a unidade 4 da usina passaria por uma manutenção de rotina. No entanto, foi feita uma mudança no cronograma original antes do desligamento da unidade, na qual seria realizado um experimento destinado a testar a refrigeração do núcleo do reator e saber se o mesmo continuaria em funcionamento caso acontecesse uma perda de fornecimento de energia externa (UNSCEAR, 2000). Esse teste visava avaliar se a turbina, girando ainda por inércia com o reator desligado, proveria a energia necessária para manter as bombas de água em funcionamento, oferecendo assim uma margem segura de refrigeração para o reator enquanto os geradores de emergência não entrassem em serviço. O teste fora previamente realizado em outra unidade onde as medidas de proteção estavam

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ativas e foi constatado que a energia fornecida não era suficiente. No entanto, devido às melhorias feitas nas outras turbinas, necessitou-se a repetição dos testes. Como o teste foi realizado em um longo período de tempo, iniciando à 1:00 h do dia 25 de abril, a rotatividade da equipe de operadores foi grande (3 turnos), e portanto a descontinuidade devido ao desconhecimento por parte da equipe final (que estava incumbida apenas de controlar o resfriamento e não de conduzir o teste), gerou uma série providências errôneas. Há que se destacar tambem o fato do cansaço da equipe de engenheiros que conduzia o teste, que permaneceu a mesma durante todo o processo, devido à longa espera. O teste culminou com a redução da potência abaixo dos valores seguros, tornando o reator altamente instável. Como essa potência era muito baixa para realização do teste, decidiu-se que esta deveria ser aumentada. Porém todos os sistemas automatizados de resfriamento, sinalização e controle haviam sido desligados de modo a não atrapalhar o teste, e a operação de remoção das barras de controle, de modo a aumentar a potência e dar prosseguimento no experimento, foi feita de modo manual. A oscilação de potência acabou por causar uma multiplicação descontrolada de nêutrons no interior do reator, e às 01:18h aumentou-se o fluxo de água no núcleo para evitar problemas com sua refrigeração. Em seguida começou a se formar vapor no núcleo e a potência tinha caído a um valor que exigia o imediato desligamento do reator. Apesar disso, a experiência se manteve. Por mais que o sistema estivesse descontrolado e instável, a indicação para o operador dava a impressão de que o reator estava normal. Dessa forma, o operador tentava, sem êxito, por meio de controles manuais, manter os parâmetros para o reator poder funcionar com segurança. A pressão de vapor e o nível da água caíram abaixo do permitido, quando soaram os alarmes que exigiam o desligamento do reator. Sendo assim, o operador desligou o próprio sistema de alarme e a potência do reator passou a crescer descontroladamente. Às 1:23 h, os operadores desligaram o turbogerador, fechando as válvulas de entrada da turbina. Com isto, a energia para as bombas d'água foi baixando, reduzindo o fluxo de água para resfriamento e, por sua vez, a água no núcleo, que atuava como absorvedora de nêutrons limitando portanto a potência, começou a

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ferver e evaporar. Dessa forma, o reator entrava em estado de superaquecimento. A ordem de desligar o reator foi dada à 01:23:40h, não sendo claro se foi feita como medida de emergência ou como um simples método de rotina para desligar totalmente o reator após a conclusão do experimento. É usualmente sugerido que a parada total foi ordenada como resposta ao inesperado aumento rápido de potência. Um botão de segurança foi então acionado para inserir as barras de controle e deveria resultar na introdução de todas as barras no interior do núcleo. Nessa hora, o número de nêutrons e a quantidade de reações de fissão havia aumentado devido à diminuição da densidade do moderador por conta da água fervente que passava. Como o mecanismo de inserção das barras de controle funcionava a baixa velocidade, levando cerca de 20 segundos para a introdução completa, e a potência de saída só aumentava, houve uma deformação dos canais das barras. Estas travaram após serem inseridas somente em um terço do núcleo, e foram portanto incapazes de conter a reação. À 01:23:44h a potência atingiu um pico de 100 vezes maior do que o valor de projeto. Um segundo depois, a liga metálica envolvendo os elementos combustíveis começam a reagir com a água de circulação produzindo alta pressão nos canais de combustível. À 01:23:49h, os canais se romperam e em seguida, ocorreu uma explosão de vapor. O operador desenergizou o sistema de barras de segurança, na esperança de que caíssem pela força da gravidade. Mas isso não ocorreu, pois já houvera danos irreparáveis ao núcleo. À 01:24h, houve uma segunda explosão. A tampa de concreto do reator, de 2.000 toneladas, foi violentamente levantada a 14 m de altura e destroços foram espalhados por cerca de 2 km, lançando no ar centelhas e pedaços de material incandescente, deixando 3/4 do prédio destruído. Nesse momento, o combustível estava entre 1.300°C e 1.500°C. A tampa caiu ao lado do núcleo, deixando parte dele descoberto. A explosão permitiu a entrada do ar, que reagiu com o bloco do moderador, feito de grafite, formando monóxido de carbono inflamável que provocou o incêndio do reator. Das 140 toneladas de combustível, 8 toneladas continham plutônio e produtos de fissão que foram ejetados junto com o grafite radioativo.

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Iniciaram-se várias explosões e outros 30 incêndios nas imediações. O aquecimento da água de circulação produziu grande quantidade de vapor, que penetrou no edifício do reator. Houve ainda uma reação química com o grafite e o zircalloy que reveste os elementos combustíveis e os tubos de pressão de vapor e de água, liberando hidrogênio e monóxido de carbono que, em contato com o oxigênio do ar, formaram uma mistura explosiva. Contrariando as atuais normas de segurança, o teto da usina foi construído com material combustível, o betume, o que contribuiu para propagar o fogo para a unidade 3, que ainda estava em operação. Era imprescindível que o fogo fosse controlado para impedir que chegasse a tal unidade, e embora o chefe do turno do reator 3 quisesse desligá-lo, o engenheiro chefe negou e ordenou que eles continuassem trabalhando. Pela manhã, por volta das 05:00h, o chefe do turno decidiu por conta própria parar o reator, deixando no local apenas os operários responsáveis pelo sistema de resfriamento de emergência. O aumento da temperatura prosseguiu por causa do incêndio da estrutura de grafite, dos processos espontâneos de desintegração nuclear dos isótopos formados no reator e das reações químicas dentro do recipiente. O incêndio só conseguiu ser contido completamente em 30 de abril de 1986, às 17:00h. O desastre destruiu a parte superior do prédio do reator e parte de uma das paredes laterais. É importante ressaltar que a destruição não foi causada por explosão nuclear, mas por explosões químicas, de tal forma que os danos físicos foram limitados à unidade 4. Fragmentos incandescentes de combustível e grafite foram lançados pela explosão, aterrissando nos telhados dos prédios adjacentes.

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Figura 7: Vista aérea dos destroços do reator da unidade 4 de Chernobyl. Fonte: M. Ragheb

4.4.3. Impactos ambientais e liberação de radiação Em decorrência dos eventos do acidente, foi produzida uma nuvem de radiação que atingiu toda a União Soviética, além da Europa Oriental, Escandinávia e Reino Unido (UNSCEAR, 1988). A maior parte da radiação foi liberada nos primeiros 10 dias, só finalizando a liberação em 6 de maio de 1986. Na emissão de produtos radioativos foram liberados materiais voláteis, como iodo, gases nobres, telúrio e césio (UNSCEAR, 2000). Com o aumento da temperatura e o incêndio no grafite, começaram também a escapar isótopos não voláteis sob a forma de um aerossol de partículas dispersas, resultantes da pulverização do material dos elementos combustíveis e do próprio grafite. Estima-se que o acidente causou 28 mortes diretamente pela exposição aos altíssimos níveis de radiação, até o final de julho de 1986. Destes, seis eram bombeiros que atenderam os fogos iniciais sobre o telhado do edifício da turbina. Embora todos estes tenham sido postos para fora em poucas horas, as doses de radiação no primeiro dia foram estimados acima de 20.000 milisieverts (WNA, 2012). A atividade total de material radioativo liberado é estimada atualmente em 12 milhões de terabecquerel (TBq), equivalente a 3,24 bilhões de curie, sendo entre 6 a

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7 milhões de TBq (aproximadamente 180 milhões de Ci) de gases, o que equivale de 30 a 40 vezes a radioatividade das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. No dia 16 de maio de 1986, novos incêndios acabaram por liberar ainda mais radiação. Outras regiões foram contaminadas, particularmente no sul e sudeste da Bielorússia, leste da Rússia e norte da Ucrânia (UNSCEAR, 2000).

4.4.4. Ações posteriores 4.4.4.1. Zona de exclusão O ocorrido só foi admitido pela antiga União Soviética após o alarme de uma usina sueca, a 1280 km de distância, avisar sobre um aumento perigoso do nível de radiação. Ainda assim, a gravidade do acidente era encoberta e, somente após um reconhecimento feito por satélites americanos, os soviéticos decidiram anunciar que um reator havia sido danificado e que uma comissão estava sendo formada para dar assistência aos necessitados. Tal ação tinha o intuito de dar a falsa sensação de que o acidente era local e estava sobre controle. Uma ordem de evacuação foi dada, e foi dito ao público que duraria apenas três dias, de forma a reduzir a quantidade de bagagens levadas pela população. Nos 10 dias seguintes ao acidente, 130.000 pessoas foram evacuadas num raio de 30 km ao redor do reator. A área ficou conhecida como “zona de exclusão”, onde foi feito um cerco ainda existente (UNSCEAR, 2000). Atualmente, essa área cobre 4.300 km², já que as chuvas e inundações da primavera têm feito com que a radiação se espalhe e o perigo tenda a aumentar. Nesta zona, a radiação atingiu mais de 21 milhões de Ci. Uma dos maiores preocupações atualmente é o perigo da contaminação do suprimento de água da Ucrânia (GREGOROVICH, 1996). Há uma estimativa de que as águas radioativas levadas pelas chuvas contaminarão o rio Pripyat e a bacia do Dnieper ainda nos próximos 50 anos, o que afetará a vida de mais de 10 milhões de pessoas (UNSCEAR, 2000). O total de evacuados na Ucrânia, Bielorússia e Rússia nos anos imediatamente posteriores foi de 326.000 pessoas. Em 1989, mais 100.000 pessoas tiveram que deixar suas residências em territórios severamente contaminados destes países.

45

Figura 8: Deposição superficial de Cs Fonte: The Chernobyl Forum

137

nas vizinhanças de Chernobyl.

4.4.4.2. Medidas de Contenção Como proteção de longo prazo, com a finalidade de absorver a radiação e conter o combustível e os outros materiais radioativos, "sepultou-se" o reator danificado da unidade 4 através da construção de uma estrutura ao seu redor com espessas paredes de concreto, chamada de sarcófago. A estrutura levou 7 meses para ficar pronta e tem a altura de um prédio de 20 andares. Sua fundação não é sólida por ter sido construída com grande pressa, com risco de colapso das paredes. O reator foi selado com 300.000 toneladas de aço e concreto, e cerca de 200 toneladas de material altamente radioativo ainda permanecem em seu interior (Gregorovich, 1996). Mais recentemente, apareceram rachaduras nas paredes da contenção da estrutura. O trabalho não foi definitivo, tendo sido projetado para durar em torno de 20 anos. Um novo sarcófago começou a ser construído em abril de 2012 sobre o atual que não é à prova de vazamento. Espera-se que as obras devam demorar cerca de 4 anos, e permitirá a eventual remoção de materiais contendo combustível

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nuclear. Para evitar a contaminação das águas subterrâneas e superficiais da região, foram construídas barreiras subterrâneas impermeáveis ao longo do perímetro urbano da usina, perfurados poços profundos para baixar o nível das águas do subsolo e erguidas barreiras de drenagem para o reservatório de água de resfriamento, bem como foram instalados sistemas de purificação da água drenada (UNSCEAR, 1988). As unidades 1 e 2 voltaram a operar em outubro de 1986 e a unidade 3 voltou a operar em dezembro de 1987 depois da execução de trabalhos de descontaminação, manutenção e melhoramentos na segurança dos reatores, visto que as instalações desempenhavam importante papel no fornecimento de energia para a região. Contudo, todas as unidades de Chernobyl foram encerradas até o ano de 2000 (unidades 1 e 2 em 1996 e 1991, respectivamente), quando foi fechada a unidade 3, a única que ainda continuava em operação.

4.4.5. Consequências e lições aprendidas Não pode-se dizer que apenas resultados negativos vieram dessa tragédia, muitas lições em niveis de segurança, administrativos e operativos foram aprendidas após as investigações que se seguiram e todas elas aplicadas aumentando, de forma significativa, o grau de segurança em todas as instalações nucleares. Em um relatório confeccionado pela ONU, em 2005, 56 mortes ocorreram até aquele ano devido a radiação liberada no acidente, em sua maioria devido à síndrome aguda da radiação (ARS). desses 56, 47 eram trabalhadores seriamente expostos e 9 eram crianças. Existe ainda uma estimativa de que ocorreram aproximadamente 4000 mortes relacionadas aos efeitos do acidente (UNSCEAR, 2000). Vários estudos foram feitos a respeito do efeito da exposição a radiação em humanos, animais e plantas, que somados a diversos outros trouxeram grande avanço no conhecimento sobre os efeitos catastróficos que as radiações ionizantes podem desempenhar. Paralelo a isso, estudos foram também propostos para que indicasse as modificações necessárias aos reatores RBMK existentes, dos quais podem-se citar a alteração estrutural das barras de controle, sendo usado em sua

47

construção materiais que possuem uma maior probabilidade para absorção de nêutrons, bem como o aumento do grau de enriquecimento do U235 de 1,8% para 2,4%, o que tornou esses reatores mais estáveis a baixas potências. Foram realizadas também as contenções para o núcleo, que no momento eram inexistentes. A segurança nas instalações soviéticas foi aumentada eficazmente por meio de grandes investimentos no treinamento de pessoal e modernização de equipamentos. A região da zona de exclusão foi declarada pelo governo ucraniano como uma reserva natural selvagem e diversos fundos internacionais foram criados para prover apoio aos atingidos pelo acidente. Embora diversas propostas para a utilização do terreno afetado tenham sido feitas, ainda serão necessários muitos anos para a habitação e utilização segura dessas áreas (cerca de 200 anos para a agricultura, e aproximadamente 20.000 anos para o uso da área vizinha ao reator danificado, por exemplo).

4.5.

Fukushima, Japão (2011) O acidente nuclear de Fukushima-Daiichi, ocorrido nas unidades 1, 2, 3 e 4 da

usina nuclear situada na ilha de Honshu, cidade de Okuma e prefeitura de Fukushima, Japão, é tido atualmente como o pior acidente nuclear ocorrido no país, provisoriamente classificado como nível 7 na classificação da INES, que associou os eventos nas três unidades. Na unidade 4, onde houvera um rompimento da contenção, a classificação foi dada como nível 3 (Incidente grave). É o maior acidente nuclear desde o desastre de Chernobyl, e foi decorrência do maior abalo sísmico já registrado na história do Japão, bem como da tsunami que o seguiu. Atualmente, o Japão possui em seu território 50 reatores em operação (26 BWR e 24 PWR), com capacidade geradora total de 44.215 MW elétricos e responsáveis por 18% da energia elétrica gerada no país (IAEA, 2012). A Central Nuclear Fukushima Daiichi, constituída por seis usinas BWR inauguradas entre 1970 e 1979, tem capacidade geradora total de 4.696 MW elétricos distribuídos na usina 1 (460 MW), usinas 2, 3, 4 e 5 (784 MW cada) e usina 6 (1.100 MW).

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Na área atingida pelo terremoto seguido do tsunami estavam em operação apenas 20 reatores nucleares, dos quais nove continuaram operando e onze foram desligados automaticamente pelos dispositivos de segurança, tudo isso devido à perda de energia elétrica externa. Os sistemas de refrigeração continuaram a funcionar com geradores movidos a diesel (CNEN, 2011) De acordo com o relatório oficial da American Nuclear Society (ANS, 2011), a indústria nuclear certamente terá importantes lições para tirar deste acidente.

4.5.1. O reator a água fervente, BWR (Boiler Water Reactor) Outro tipo de Light Water Reactor, é o segundo tipo mais comum de reator nuclear para geração de energia elétrica. Estes reatores foram originalmente projetados por Allis-Chalmers e General Electric (GE), em meados dos anos 1950. Atualmente existem 84 BWRs comerciais, que podem ser encontrados principalmente na Europa e Ásia. A diferença principal do PWR é que no BWR a água aquecida pela fissão de átomos de urânio é transformada em vapor, que ativa em seguida a turbina do gerador para produzir eletricidade. Nesse reator, há apenas um circuito simples em que a água passa por uma pressão de cerca de 75 vezes a pressão atmosférica, de modo que ferve no núcleo a cerca de 285 °C. O reator é construído para operar com 12 a 15% da água na parte superior do núcleo na forma de vapor e, portanto, com menor efeito moderador. Ainda há o fato da usina ser alimentada por meio de energia elétrica externa, não sendo um processo auto-sustentado. As barras de controles são inseridas no sentido de baixo para cima, em meio aos espaços existentes entre os elementos combustíveis, diferentemente do PWR onde elas caem por efeito gravitacional. O tipo de combustível utilizado no BWR de Fukushima é o dióxido de urânio (UO2) em formato de pastilhas, com grau de enriquecimento em
235

U que perfaz

entre 2% e 4%. É envolto em liga de zircônio, idêntico ao PWR convencional. Uma vez que a água em torno do núcleo sempre é contaminada com vestígios de radionuclídeos, uma das grandes preocupações é que a turbina deve ser protegida e a devida proteção radiológica deve ser fornecida durante cada

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manutenção. Uma das vantagens é que o custo tende a ser menor devido ao seu design mais simplificado.

Figura 9: Esquema dos reatores BWR da usina de Fukushima. Fonte: World Nuclear Association

4.5.2. Resumo dos eventos O terremoto de Tohoku, que ocorreu em 11 de março de 2011, na costa leste do norte do Japão às 14:46h (horário local), foi um dos maiores terremotos da história, atingindo 8,9 graus na escala Richter. O epicentro do terremoto, apresentado na figura 10, foi localizado no mar, a 160 km da Central Nuclear de Fukushima Daiichi, na costa de Honshu, desencadeando um tsunami, que atingiu a costa leste do Japão, inundando cerca de 560 km2 (WNA, 2011).

50

Figura 10: Epicentro do terremoto Tohoku. Fonte: American Nuclear Society.

No dia em que ocorreu o terremoto, as usinas 1, 2 e 3 estavam em pleno funcionamento, enquanto as usinas 4, 5 e 6 estavam desligadas para manutenção. Ao serem atingidas pelas primeiras ondas sísmicas, as usinas 1, 2 e 3 desligaramse imediata e automaticamente, conforme estabelecem normas de segurança em caso de emergência (ANS, 2012). Todas as usinas da central nuclear resistiram aos violentos abalos sem sofrer grandes danos estruturais, conforme especificação de projeto. A falta de energia elétrica atingiu toda a região, inclusive a central nuclear. Sem energia elétrica, não foi possível acionar as bombas de refrigeração do circuito destinado a remover o calor decorrente do decaimento dos produtos de fissão radioativos acumulados no combustível nuclear. O terremoto provocou poderosos tsunamis que alcançaram alturas de até 40,5 metros em Miyako, na Prefeitura de Iwate, a aproximadamente 120 km de Fukushima. O terremoto moveu ainda a ilha de Honshu em cerca de 2,4 metros a leste, deslocando a terra em seu eixo estimadamente entre 10 cm e 25 cm.

51

O tsunami que atingiu a central nuclear media em torno de 14 metros de altura, cujo projeto previa uma altura máxima de 5,7 metros.

Figura 11: O tsunami atingindo a parede de contenção da Central Nuclear de Fukushima I. Fonte: Nuclear and Industrial Safety Agency (NISA).

A devastação causada pelo tsunami tornou completamente inoperantes os geradores a óleo diesel que fornecem energia elétrica para acionar o bombeamento de água nos circuitos de refrigeração de emergência. Com os geradores a óleo diesel afetados, tanto por danos diretos quanto por falta de combustível, que foi carregado pela enxurrada, as baterias utilizadas para substituir os geradores esgotaram-se depois de algumas horas em funcionamento. A refrigeração insuficiente no núcleo do reator fez a temperatura do combustível nuclear aumentar até atingir valores bem acima dos usuais. Na superfície externa do revestimento das varetas combustíveis, feito de zircaloy, a temperatura, que em condições usuais de funcionamento da usina atingem 330C em média, superou 1200C em diversos pontos, aumentando muito a velocidade da reação química entre o zircônio e o vapor de água. Portanto, além de acelerar a corrosão do revestimento em si, facilitando o vazamento de produtos de fissão radioativos, essa reação produziu bolsas de hidrogênio, acarretando o risco adicional de explosão química. Durante manobra para liberação controlada de vapor de água visando diminuir a pressão demasiadamente elevada no núcleo do reator para evitar a ruptura do vaso de pressão (o que acarretaria a liberação de grande quantidade de produtos de fissão radioativos para o meio ambiente), fez com que o hidrogênio produzido na reação química entre o zircônio e o vapor de água acumulasse na

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contenção, atingindo proporções em volume entre 4% e 75% ao misturar-se com o ar. Na contenção, o hidrogênio produzido reagiu quimicamente com o oxigênio do ar de maneira explosiva e liberando a energia de 286 kJ/mol. Explosões de hidrogênio destruíram parcialmente a contenção da usina 1 no dia 12 de março e, dois dias depois, a contenção da usina 3.

Figura 12: Momento das explosões dos reatores Fukushima causadas pelo acúmulo de hidrogênio. Fonte: Nuclear and Industrial Safety Agency (NISA)

No dia 15 de março, a explosão de hidrogênio ocorrida na usina 2 danificou a câmara de supressão localizada na base do reator (TERREMOTO, 2011). A temperatura do revestimento das varetas combustíveis, em decorrência da refrigeração insuficiente no núcleo do reator, continuou aumentando até atingir 1800 C, ponto de fusão da liga zircaloy, que após derretido apresenta a propriedade de dissolver localmente o combustível nuclear sólido constituído por dióxido de urânio (UO2) em até 40%. Estima-se que 55% do núcleo da usina 1, 35% do núcleo da usina 2 e 30% do núcleo da usina 3 tenham sofrido danos. Nenhuma das três usinas afetadas pelo acidente sofreu ruptura do vaso de pressão e da estrutura de concreto que o envolve e, portanto, a imensa maioria dos produtos de fissão radioativos permanece confinada dentro do vaso de pressão do reator de cada usina (TERREMOTO, 2011). Em decorrência de danos na câmara de supressão da usina 2 e no plano inferior do vaso de pressão da usina 1, um grande volume de água com alta concentração de produtos de fissão radioativos e solúveis (tais como
137

Cs e

131

I)

vazou nestas usinas para o piso e para o edifício da turbina. A degradação do núcleo

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dos reatores das três usinas afetadas é um fator que contribui para reduzir a eficácia dos procedimentos emergenciais de refrigeração, que consistem em usar energia elétrica externa para injetar água dentro do vaso de pressão. Nas três usinas acumulou-se um total de quase 70 mil toneladas de água contaminada, nos respectivos edifícios das turbinas. A usina 4, inaugurada em 24 de fevereiro de 1978 e cujas características de projeto são idênticas às das usinas 2 e 3, embora desligada para manutenção no dia em que ocorreu o terremoto, sofreu pane de refrigeração na piscina do combustível usado, onde se armazena tanto os elementos combustíveis gastos quanto os elementos combustíveis que ainda poderão ser usados no reator. Por conta do aumento descontrolado de temperatura, decorrente da pane de refrigeração, a evaporação da água contida na piscina do combustível da unidade 4 reagiu com a zircaloy, gerando o mesmo processo ocorrido na unidade 1. Em 15 de março, a explosão de hidrogênio destruiu parcialmente a contenção do reator. A evaporação da água da piscina dos combustíveis usados deixou descoberta a parte superior dos elementos combustíveis armazenados. A convecção natural no ar foi insuficiente para evitar sobreaquecimento dos elementos combustíveis armazenados com maior tempo de uso no reator e consequentemente menor tempo decorrido desde a retirada do núcleo. Em diversos pontos do revestimento das varetas combustíveis desses elementos armazenados, a temperatura excedeu 1000 C em contato direto com o ar. O zircônio, componente do revestimento das varetas de combustíveis, ao entrar em contato com o ar, reagiu mais rápido com o nitrogênio do que com o oxigênio, fornecendo uma mistura de nitreto, dióxido de zircônio e óxido nitreto. Especula-se ainda que um incêndio decorrente dessa reação tenha ocorrido durante cerca de duas horas no dia 15 de março na piscina do combustível usado da unidade 4. Caso tenha efetivamente ocorrido, o incêndio contribuiu significativamente para liberar produtos de fissão radioativos nas áreas próximas da central nuclear. Por envolver combustão de material pirofórico (zircônio), este tipo de incêndio requer o uso de pó seco especial para ser extinto, sendo absolutamente inédito em instalações nucleares (TERREMOTO, 2011).

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4.5.3. Impactos ambientais e ao público Desde o desastre de Chernobyl em 1986, nenhuma outra planta nuclear havia tido experiência tão catastrófica. O que ocorreu em Fukushima só não foi pior no sentido de exposição do público à radiação, porque as medidas intervencionistas foram realizadas imediatamente após o acidente. Há ainda o fato de terem sido três reatores seriamente danificados, o que proporciona uma quantidade maior de radiação liberada através de materiais voláteis. Desses, a maior preocupação era com o
131

I, além do

137

Cs, que possui uma meia-vida longa (30 anos) e pode

facilmente contaminar uma vasta área por um tempo considerável. Após a explosão de hidrogênio na unidade 1, algumas quantidades de césio e iodo e foram detectadas na proximidade da planta, tendo sido lançados através dos ventos. Além disso
131

I, 137Cs e 134Cs foram aparentemente liberados durante os dias

seguintes, especialmente após a explosão de hidrogênio na unidade 3 no dia 14 de março e na unidade 4 no dia seguinte. Quantidades consideráveis de ar, sendo que a maior quantidade de maior parte do
134 133 137

Xe (xenônio-133) e

131

I foram dispersos no

Cs (14 dos 15 PBq totais), juntamente com a

Cs, aparentemente vieram da unidade 2. Há também a estimativa

de que dez vezes mais iodo foi liberado pela unidade 2 do que pela unidade 1, enquanto que a unidade 3 produziu metade do que a unidade 1. No entanto, ainda há alguma incerteza sobre as fontes exatas e horários das emissões radioativas. Estima-se que cerca de 167 trabalhadores receberam doses de radiação superiores a 100 mSv, aparentemente devido à inalação de
131

I. O nível de 250 mSv

foi permitido como sendo a dose máxima a curto prazo para os trabalhadores da limpeza do acidente, até dezembro de 2011 (NISA, 2012). Desde janeiro de 2012, devido ao excesso de exposição das pessoas, o máximo permitido foi revertido para 50 mSv/ano. Muito embora os níveis de dose recebidos principalmente pelos trabalhadores tenham sido altos, não houve sinal de vítimas por conta da síndrome aguda da radiação. Foram feitas também, principalmente em março, a monitoração da água do mar e do ar pela IAEA e pelo governo japonês, encontrando-se níveis de
131

I

elevados, porém não nocivos à saúde. Como esse radioisótopo tem uma meia-vida de apenas 8 dias, estimou-se que a maior parte deste já havia decaído a valores

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seguros até o final de abril. No estudo realizado com cerca de 195 mil moradores que vivem nas imediações da usina, também não foram encontrados efeitos nocivos à saúde até maio de 2011. Todos as 1.080 crianças testadas para exposição da glândula tireóide apresentaram resultados dentro dos limites de segurança, de acordo com o relatório apresentado à IAEA em junho. Em dezembro, inspeções de saúde do governo em aproximadamente 1.700 pessoas que foram evacuadas, mostrou que 2/3 receberam uma dose externa de radiação dentro dos limites internacionais, de 1 mSv/ano, bem como 98% ficaram abaixo dos 5 mSv/ano, e 10 pessoas foram expostas a mais de 10 mSv. Assim, não houve uma exposição pública grave, muito menos mortes por radiação, sendo reportados 761 vítimas de "mortes relacionadas ao desastre", principalmente pessoas idosas que saíram de casas e hospitais por causa da evacuação forçada e outras medidas relacionadas com o acidente. O trauma psicológico de evacuação foi um maior risco à saúde para a maioria do que qualquer exposição provável pelo retorno precoce às casas, de acordo com algumas autoridades locais.

4.5.4. Ações posteriores A população residente num raio de 10 km em torno da central nuclear foi evacuada assim que surgiram os primeiros problemas de refrigeração nas usinas 1, 2 e 3, às 5:44 h do dia 12 de março. Após a explosão de hidrogênio na usina 1, ampliou-se o raio de exclusão para 20 km em torno da central nuclear e incentivouse a saída voluntária da população residente entre 20 km e 30 km da central nuclear. Cerca de dois meses após o início do acidente, o limite externo dessa região foi estendido para 40 km em torno da central nuclear. Cidadãos dos EUA e Reino Unido foram instruídos pelas respectivas embaixadas a observarem um raio de exclusão de 80 km em torno da central nuclear (UNSCEAR, 2011).

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Figura 13: Raio de exclusão em torno da central nuclear de Fukushima Daiichi. Fonte: Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN)

Em meados de maio de 2011 começou o trabalho para a construção de uma cobertura sobre uma unidade 1, de modo a reduzir a liberação de radiação no ar do local, impedir a entrada da chuva e permitir a medição de emissões radioativas dentro da estrutura por meio de seu sistema de ventilação. O aparelho foi montado sobre o reator, abrangendo uma área 44 m² e 54 m de altura. As seções da armação de aço foram montadas remotamente em conjunto, sem uso de parafusos e porcas, e todos os painéis da parede tem um revestimento à prova de fogo. A estrutura de cobertura é equipada com câmeras de monitoramento interno, detectores de radiação e de hidrogênio, termômetros e um tubo para injeção de água. Estruturas semelhantes foram projetadas para serem colocadas em torno dos prédios dos reatores das unidades 3 e 4, com início das construções em 4 de abril de 2012.

4.5.5. Consequências e lições aprendidas Embora o acidente seja muitas vezes relacionado à falhas de projeto (possivelmente devido à subestimação de que uma sequência tão improvável de

57

eventos dessa magnitude fosse ocorrer), pôde-se verificar que as medidas de contenção e controle foram excepcionalmente conduzidas e a atuação dos operadores e demais funcionários da usina, mesmo sob condições extremamente desfavoráveis, foi exemplar, resultando no melhor encaminhamento possível para a mitigação das consequências do evento naquelas circunstâncias. Ainda há que se destacarem as ações do governo japonês para proteção do público, incluindo a evacuação da população, que foram de grande magnitude e extremamente bem organizadas e conduzidas. Em outubro de 2012, a nova Autoridade Reguladora Nuclear (Nuclear Regulatory Authority, NRA) divulgou diretrizes de preparação para novas emergências. Suas novas zonas de planejamento de emergência, seguindo as normas internacionais da Agência de Energia Atômica, chamadas de “zonas de ação de precaução", há 5 quilômetros ao redor instalações nucleares e “zonas de ação, proteção e planejamento urgentes", há 30 km ao redor das plantas. Estima-se que até o final de 2012, a NRA estabelecerá critérios específicos de evacuação, que as autarquias locais irão usar para formular planos de emergência até março de 2013. O Ministério da saúde do Japão criou um gabinete especial para acompanhar a saúde dos trabalhadores na usina. O novo escritório irá compilar dados sobre exposição à radiação para os trabalhadores para fins de acompanhamento a longo prazo, e inspecionar os horários de trabalho diários com antecedência.

58

5.

BREVE

DISCUSSÃO

DOS

ACIDENTES

COM

FONTES

RADIOATIVAS

Acidentes radiológicos costumam ser mais recorrentes que os acidentes nucleares, já que as fontes de radiação são utilizadas nas mais diversas práticas industriais e médicas, por exemplo, estando sujeitas à erros humanos muito maiores que os acidentes já apresentados acima. Sabe-se que certos acidentes foram determinantes para a construção de medidas de prevenção e controle hoje existentes, de forma a tornar o manuseio e utilização no nível mais seguro possível. O acidente de Goiânia, por exemplo, ocorrido em 13 de setembro de 1987, é considerado pela IAEA o pior evento com fontes radioativas, sendo o responsável por forçar a Agência Internacional a publicar periodicamente trabalhos com a descrição correta do acidente e as lições identificadas, estando à disposição do público. É classificado na classificação da INES como nível 5, sendo o único acidente radiológico fora de instalações nucleares com essa classificação. Aconteceu devido a uma série de erros, com o abandono de um irradiador utilizado no serviço de radioterapia de um hospital local que continha uma cápsula de cloreto de
137

Cs altamente radioativo (1375 Ci de atividade). A fonte propriamente

dita foi deixado no interior do hospital posteriomente desativado, mas não se sabe exatamente como foi parar nas mãos do público. Foi em um ferro-velho que o equipamento fora aberto e, devido à falta de informação dos moradores locais, repassado para vários outros indivíduos, expondo mais de 100 mil indivíduos e gerando um rastro de contaminação que afetou 129 pessoas. Destas, 49 foram internadas com sintomas graves e, após tratamento intensivo, quatro não resistiram e acabaram por falecer (IAEA, 1988). Muitas casas foram esvaziadas, e limpadores a vácuo foram usados para remover a poeira antes das superfícies serem examinadas para detecção de radioatividade. Alguns objetos como brinquedos, fotografias e utensílios domésticos foram considerados material de rejeito (IAEA, 1988).

59

A

limpeza ser 2008).

produziu Para

13.500 armazenar

toneladas em 14 esse

de

rejeitos atômico e

radioativos, atendendo

que às

necessitaram (TEIXEIRA,

acondicionados

contêineres lixo

totalmente

lacrados

recomendações do IBAMA, da CNEN e da CEMAM, foi criado um parque estadual em Goiânia, onde foram colocados a nível do solo revestidos por uma parede de aproximadamente um metro de espessura de concreto e chumbo. Outros acidentes de natureza igual ocorreram ao redor do mundo, em datas anteriores e posteriores, porém o acidente brasileiro ainda é referência devido ao número elevado de pessoas expostas. Outro exemplo que pode ser citado foi o acidente de Tammiku, na Estônia, ocorrido em 21 de outubro de 1994, também com uma fonte de
137

Cs. Da mesma

forma, a fonte em um contêiner despareceu do seu depósito e foi passada por três indivíduos, irmãos. Nesse evento foi registrada uma fatalidade que estima-se ter sido diretamente ligada ao manuseio da fonte, doze dias após a remoção do contêiner de seu depósito (IAEA, 1998). Pessoas diretamente ligadas aos três indivíduos também foram

consideravelmente contaminadas, principalmente nas duas semanas que se seguiram, sendo feita uma evacuação dos moradores tanto da casa dos três irmãos e de 15 casas vizinhas. Os outros dois indivíduos também apresentaram sintomas devido à contaminação, porém menos severos e sem levar a óbito.

60

Segue abaixo a tabela 3, que relaciona os principais acidentes com fontes radioativas listados na International Nuclear and Radiological Event Scale.

Tabela 3: Classificações e relevâncias dos principais acidentes listados na relação da INES.

Local do evento Goiânia, Brasil Tammiku, Estônia Fleurus, Bélgica Yanango, Peru Ikitelli, Turquia França EUA
Fonte: IAEA

Ano 1987 1994 2006 1999 1999 1995 2005

Classificação na INES 5 4 4 3 3 2 2

Relevância Quatro mortes e outras seis pessoas seriamente contaminadas Uma morte e outras quatro pessoas seriamente contaminadas. Efeitos graves de alta dose de radiação a um trabalhador de uma fábrica de irradiação comercial. Incidente com fonte de radiografia, resultando em queimaduras locais. Desaparecimento de uma fonte de 60 Co altamente radioativa, sem registro de danos. Falha aos acessar os sistemas de controle em um acelerador. Superexposição de um radiologista acima dos limites anuais permitidos.

61

6.

CONCLUSÕES

Sabe-se que as controvérsias a respeito da utilização de fontes nucleares sempre serão postas em pauta, havendo seus lados positivos e negativos. Porém não há o que se questionar a respeito das melhorias e benefícios que vem se realizando de modo a tornar a consciência do público mais sensata e menos repulsiva. Os acidentes discutidos tiveram fortes impactos na população, no que tange tanto ao físico quanto ao psicológico, gerando uma onda de insatisfação que se estende através das militâncias anti-nucleares e nos discursos de não proliferação das usinas. Os exemplos acima mostraram que a preocupação com a segurança foi sendo ampliada e revista ao longo dos anos, através das medidas de contenção, das reservadas zonas de exclusão no local dos acidentes (e adjacências), bem como da ampliação e revisão regulamentais feitas pelos órgãos responsáveis. Portanto, o principal objetivo foi tentar demonstrar que o potencial extraordinário da energia nuclear, caso mal explorado, pode resultar em consequências desastrosas. Eventuais acidentes podem vir a se tornar problemas internacionais de médio a longo prazo, demandando rigor no preparo do pessoal encarregado da operação e absoluta segurança no projeto e manutenção das instalações.

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