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Motricidade, Cognição e Analfabetismo Motor

Paradoxo educacional 7

. desenvolvimento da lateralidade. então ela brinca espontânea e intencionalmente. etc.. porém. 1993. Assim. da orientação esquerda-direita e da dominância da mão e do pé. 80). o uso das atividades motoras como uma preparação e complementação para o treinamento da percepção visual e auditiva. desenvolvimento da resistência força e agilidade. p. Se a criança tem a chance de executar suas potencialidades naturais. Tansley (1993) defende a inclusão de pelo menos dez aspectos da educação motora como base para um currículo que objetive a educação integral: [. ampliando ainda mais suas possibilidades se houver a disponibilidade de elementos diversos.O MOVIMENTO E A INTELIGÊNCIA Para Wallon (apud Le Camus. o movimento é antes de tudo a única expressão e o primeiro instrumento do psiquismo. 1986). além das resoluções de problemas (TANSLEY. fantasiar. a formação do esquema corporal e dos movimentos controlados no espaço. dançar. a atividade motora ampla e fina. correr.] a linguagem de movimento. o treinamento do equilíbrio. ainda sem resultados práticos. das sensações de bemestar e de autovalorização. o que representa e proporciona ganhos reais em seu desenvolvimento e aprendizagem. cantar. atividades dramáticas. tudo isto com o vínculo de afeto. atividades rítmicas. dramatizar. provavelmente pelo fato da formação de professor dessas faixas etárias desenvolver no futuro docente um conceito de educar crianças como sinônimo de estímulo ao desenvolvimento puramente intelectual. Esta nítida ênfase às atividades motoras como requisito fundamental para o desenvolvimento do aluno é hoje difundida nos cursos brasileiros para professores de anos iniciais do ensino fundamental. coordenação olho e mão e olho e pé. ela testa os limites do seu corpo e das regras.. como pular. executando ações mais amplas e diversificadas. .

o que causa esta incoerência entre as tendências atuais em educação e a prática educacional nesses segmentos? . fantasiar. Assim. tanto pelas crianças quanto pelos professores. correr. Se a criança tem a chance de executar suas potencialidades naturais. o que representa e proporciona ganhos reais em seu desenvolvimento e aprendizagem. sem dúvida alguma. o estímulo e a prática da criatividade.. ao abordar a questão do jogo na escola. Macedo (1995). propõe uma estratégia para a recuperação do sentido desta prática tanto no ambiente escolar quanto na própria vida. se perguntarmos a qualquer professor de educação infantil e anos iniciais sobre a influência do brincar no desenvolvimento de seus alunos. mas. Não obstante. cantar dramatizar. como pular. executando ações mais amplas e diversificadas. ela testa os limites do seu corpo e das regras. que está livre de qualquer tom de ironia ou ofensa. o que somente se alcança com uma carga horária específica composta de várias disciplinas também específicas. ampliando ainda mais suas possibilidades se houver a disponibilidade de elementos diversos. será proferida com segurança em afirmar que a brincadeira é fundamental nesse processo. então ela brinca espontânea e intencionalmente. Mas. ao menos por algum tempo. que seu processo de formação não prepara o profissional para lidar com os aspectos inerentes ao desenvolvimento motor e suas diversas manifestações. sim. então. enfatizando.Tal afirmação. Neste contexto. tudo isto com o vínculo de afeto. se existe tal certeza. de maneira alguma tem o objetivo de levantar dúvidas sobre a formação em Pedagogia ou Normal Superior. a partir de uma postura menos rígida da escola. etc. a resposta. ou que ambas são menos importantes que as demais áreas. dançar.

libertando-se de uma prática tradicional que assemelha-se à leitura moralista e pedagógica do século XVI. as crianças estão em acelerado processo de desenvolvimento. constituindo-se num momento adequado para o estímulo do aprendizado e do desenvolvimento motor. 2000. Voltando à proposta de Macedo (1995). (PAPALIA e OLDS. Elas adquirem novas habilidades. Elas estimulam os sentidos. o desenvolvimento integral da criança. Para Winnicott (1975). emoções e pensamentos. Também não é nenhuma novidade. o brincar é um fator fundamental para o crescimento da criança... p. e adquirem domínios sobre seus corpos. é necessário levar em consideração que a ação educacional deve ser reflexo da interpretação das intencionalidades dos parâmetros atuais em educação integral. por meio do qual tem suas possibilidades do uso significativo de gestos e posturas corporais ampliadas. influenciando diretamente na promoção da saúde.219) Todo educador tem ciência que através do movimento a criança expressa sentimentos. Nesta fase. .ao reencenarem situações da vida real – manejam emoções complexas. experimentam diferentes papéis e. tendo como primeiro fator fundamental. sendo a ausência dessa prática o indicador de que a mesma esteja com algum problema. . O problema é que a interpretação desta necessidade conhecida por todos é convertida num brincar limitado à prática de atividades que não ultrapassam o limite do desenvolvimento cognitivo. Elas exploram o mundo e a si mesmas. tornam-se mais proficientes na língua. que a infância é a etapa mais importante no desenvolvimento do indivíduo.UMA “PEDAGOGIA ESTÁTICA” [. aprendem a usar os músculos.] Pelo brincar as crianças crescem. o que serve como parâmetro para o professor refletir sobre relevância de uma proposta pedagógica voltada para as séries iniciais do ensino fundamental. mesmo para o senso comum. coordenam o que veem com o que fazem.

para entender a vivência da criança. Lapierre considerava que. principalmente. Observando-as em qualquer local onde estejam livres e espontâneas. Este papel torna-se ainda mais decisivo quando se trata de um adulto na função de educador. um maior preparo e adequação para intervir no jogo infantil. ao considerar a idade dos sete anos como início de uma nova etapa de certa importância na vida da criança daquele século. exercitando-se incansavelmente e desenvolvendo o simbolismo na vivência de papéis. Primeiramente. como sugere Winnicott (1975). uma vez que a criança. o educador deveria possuir. explorando sua criatividade. Ele começou a aprender a montar cavalo. 1 1 André Lapierre é o criador da Psicomotricidade Relacional. podemos notar o papel do adulto como fator importante de grande influência no desenvolvimento da criança. essencialmente as brincadeiras das bonecas:’não deveis mais brincar com esses brinquedinhos. podemos encontrar uma semelhança em termos de limitação de atitudes e ações necessárias ao desenvolvimento integral da criança. façamos uma reflexão sobre o comportamento natural de crianças.87). p. passar pelas próprias vivências corporais. poderemos perceber que “cumprem” suas regras. nem brincar de carreteiro: agora sois um menino grande. Ariès (1981). sua criança interior deve se manifestar. é de suma importância que o educador saiba que a criança precisa adquirir confiança naquele com quem vai “trabalhar”. Analisando o modelo pedagógico acima citado e projetando esta prática numa comparação com a realidade pedagógica atual. a atirar e a caçar” (Ariès. Neste contexto. assim. relata na história de Luis XIII: “Tenta-se então fazê-lo abandonar os brinquedos da primeira infância. Tanto no caso anterior quanto no atual. por exemplo. . Para isto. como ruas ou praças.Neste sentido. 1981. alcançando. além de conhecimento teórico e objetivos definidos. só se exprime criativamente quando brinca. não sois mais criança’.

Voltando ao contexto pedagógico. deve ter noção mínima sobre como dar ao cérebro do aprendiz o estímulo que ele precisa. parece ser uma incógnita para o docente de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental. Lembremos que os ganhos alcançados pela criança. Carreiro da Costa (1994) reivindica o sucesso educativo como resultado da efetiva materialização na capacidade de intervenção do professor no ensino. o processo da ação da música e dos jogos no trabalho simultâneo de nossos sistemas sensoriais. a partir de suas atitudes. organizada e coerente. o professor poderá compreender melhor. por exemplo.. 35). para que o educador possa empregar adequadamente tais conhecimentos na formação de seu aluno. proporcionando. engatinhar. p.] uma maturidade racional e emocional do adulto que se relaciona com ela: cabe ao adulto. é preciso que sinta a disponibilidade do mesmo. E que condições seriam estas? A resposta. por exemplo.sendo que para que isto ocorra na presença do adulto.. . Conhecedor da complexidade das estratégias adequadas. No entanto. que encontra dificuldade para perceber o referido problema central da ação educativa. onde o docente torna-se elemento essencial do processo formativo e a prática pedagógica passa a ser encarada como o problema central da ação educativa. 1998. só serão possíveis a partir de [. etc. que não é tão difícil. a compreensão sobre como se estabelecem as redes neurais no momento da aprendizagem e como as informações se consolidam na memória. encaixar.. como o andar. caracterizada pela ação consciente. assegurar à criança condições para que ela possa se organizar e realizar as conquistas que sua maturidade biológica lhe permite (CRAIDY. montar cubos. A educação constitui-se em atividade estritamente humana. Nos últimos anos. as pesquisas em neurociência têm desencadeado grandes avanços científicos e revolucionado o campo educacional.