A NORMALISTA Page 1 of 96 ge 1 of 96 A Normalista 1 João Manoel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, há ano s, no Trilho

, uma casinhola de porta e janela, cor d açafrão, com a frente encardida pela fuligem das lo comotivas que diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité. Era amanue nse, amigado, e gostava de jogar o víspora em família aos domingos. Nessa noite estavam reunidas as pessoas do costume. Ao centro da sala, em torno d uma mesa coberta com um pano xadrez, à luz parca de um candieiro de louça esfumado, em forma d abat-jour, corr iam os olhos sobre as velhas coleções desbotadas, enquanto uma voz fina de mulher flauteava arrastando as sílabas numa cadência morosa: . Vin...te e quatro! Sessen...ta nove!... Cinqüen...ta e seis!... Havia um silêncio morno e concentrado em que se destacava o rolar abafado das pedr as no saquinho de baeta verde. A sala era estreita, sem teto, chão de tijolo, com duas portas para o interior da casa, paredes escorridas pedindouma caiação geral. À direita, defronte da janela, dorm ia um velho piano de aspecto pobre, encimado por um espelho não menos gasto. O resto da mobília compunha-se de algumas cadeiras, um sofá e ntre as duas portas do fundo, a mesa do centro, e uma espécie de console, colocada à esquerda, onde pous avam dois jarros com flores artificiais. De onde em onde zunia o falsete do amanuense: . Quadra!... Ou caçoava: . Os anos de Cristo! ... Os óculos do Padre Eterno! Risadinhas explodiam a espaços, gostosas, indiscretas . uma pilhéria ricocheteava nos quatros ângulos da mesa. . É boa! É boa! fazia João da Mata erguendo a cabeça, mostrando a dentuça. Depois voltava o silêncio, e a voz fina de mulher continuava a cantar os números sol enemente. . Víspora! saltou de repente um rapazola d óculos, bigodinho fino, flor na botoeira do fraque de casimira clara. Toda gente o conhecia . era o Zuza, quintanista de direito, filho do coronel Sou za Nunes. . Podem conferir, disse erguendo-se, risonho . segunda linha.

E estendeu o braço, passando o cartão para o amanuense. . Não desmarquem, não desmarquem, recomendou este espalmando a mão. Pode ter sido enga no. Errare humanun est... Houve um ligeiro sussurro de vozes e de caroços rolando sobre a mesa com um surdo ruído de contas desfiada. Todos desfizeram as marcações. Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó de fazenda parda sobre a ca misa de meia, costas para a rua. À direita mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos, metida num casaco fr ouxo de rendas, cabelos penteado em cocó, estampa insinuante, bons dentes; era a mulher do amanuense, que passava por sua legítima esposa não obstante as insinuações malévolas da alcovitice vilã que entrevira escândalos na vida privada de D. Terezinha. Contudo, era tida em conta de excelente dona de casa, honesta, dizend o-se relacionada com as principais famílias de Fortaleza. Ninguém ousava mesmo dirigir-lhe um gracejo de mau gosto, uma pilhéria calculada. In ventava-se . calúnias de populacho . que se correspondia ocultamente com o presidente da província. Ela, porém, gabava, batendo no peito com orgulho, que tinha uma vida limpa, graças a Deus,; que isso de patifaria s não lhe entrava em casa, http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012

A NORMALISTA Page 2 of 96 ge 2 of 96 não, mas era o mesmo. Estava ali o Janjão que não a deixava mentir. Ao pé de D. Terezinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de João, uma rapariga mui to nova, com um belo arzinho de noviça, moreno-clara, olhos cor de azeitona, carnes rijas, e cuja atenção v olvia-se insistentemente para o Zuza. As outras pessoas eram também da intimidade: o Loureiro, guarda-livros da firma Ca rvalho & Cia., o Dr. Mendes, juiz municipal, mais a senhora, a Lídia Campelo, filha da viúva Campelo, e o estudante. Às vezes ia mais gente e o víspora prolongava-se até meia noite. João da Mata era um sujeito esgrouviado, esguio e alto, carão magro de tísico, com uma cor hepática denunciando vícios de sangue, pouco cabelo, óculos escuros através dos quais boliam do is olhos miúdos e vesgos. Usava pêra e bigode ralo caindo sobre os beiços tesos como fios de arame; a testa ampla confundia-se com a meia calva reluzente. Falava depressa, com um sotaque abemolado, gesticula ndo bruscamente e, quando ria, punha em evidência a medonha dentuça postiça. Noutros tempo, fora mestre-escola n o sertão da província, donde mudara-se para a capital por conveniências particulares. Era então simplesment e o professor Gadelha, o terror dos estudantes de gramática. O sertão foi-lhe aborrecendo; estava cansado de ensinar a meninos, era preciso pela vida noutro meio mais vasto onde as suas qualidades, boas ou más, fos sem aquilatadas com justiça. Estava se perdendo, se inutilizando, fossilizando-se, por assim dizer, entre um vigário seboso e pernóstico e um delegado de polícia ignorante: . "Não era uma águia, Um Abílio Borges, um Macedo... mas reconhecia que também não era burro. Até podia fazer figura em Fortaleza". E abalou com tanta felicidade que não tardou ser nomeado comissário de socorros ao t empo da grande seca de 77, dois anos depois de sua chegada à capital. Desde logo tornou-se conhecido, sua s façanhas corriam impressas nos pasquins domingueiros. D uma feita escapou milagrosamente de ser pre so por crime de defloramento numa menor, criada do Dr. Morais da Silva; d outra feita apanhou de r ebenque na cara por haver caluniado um capitão d infantaria propalando uma infâmia. Toda a gente o conhecia muitís simo bem, por sinal tinha uma cicatriz oblonga e funda na têmpora esquerda, e não largava o mau veso de roer o canto das unhas. Depois da seca entregou-se de corpo e alma à política, à intriguinha partidária, à rabulic e, à cabala eleitoral, à chicana. Toda vez que se anunciava um pleito, punha em jogo as mil e uma sutilez as que só o seu espírito sagaz podia conceber. Ninguém como ele sabia copiar uma chapa em letra firme e aprumada. Aquilo a pena cantava no papel que nem o lápis d um taquígrafo. E que letra, que esplêndido talhe! Ninguém como ele sabia tirar proveito

vivendo p ra si. Qual pátria. era como se fosse pai. dava o seu voto. tivessem paciência . a contar votos. Criara-a desde pequena. Porque . circunspecto. quando Maria voltava da Escola Normal. mas. servia de testa de ferro. e . Às vezes. A pequena http://www. cabalava. Não estava mais para servir de degrau a figurão algum. na testa. Extraordinário homem! diziam os chefes políticos. argumentava . sentado. A sua grande paixão. Histórias. sem dívidas. lá isso era inegável: dava o seu voto.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. A política só lhe trouxera enganos e inimigos. qual nada! Patacoadas!" Ele. porém. Agora. nem nos cafés. meus senhores. às voltas com sua atrabíl is crônica. Que se fo mentassem! É boa! Trabalhara que nem besta de carga para no fim das contas ganhar o quê? Um pingue l ugar de amanuense? Um miserável emprego que se anda oferecendo por aí a qualquer vagabundo? Decididamente não o pilhavam mais para a canga. Estava experimentado.. com poucas amizades. ele mandava-a sentar na rede. tinha direitos sob re ela. sem ambições.com. com pletamente outro: amigo de casa. entre os jornalistas da terra. Dinheiro é o que ele queria. homem. a política é uma especulação torpe como qualquer outra. a mamata.. Mas João sabia vender caro o seu peixe. ninguém o via mais nas redações. nos braços e até.d uma vitória alcançada pelo partido. destes é que precisa o partido. a mesmíssima cousa.. embora com prejuízo de alguém.htm 23/12/2012 . Fazia política por uma espécie de ambição egoísta. podia mesmo beijá-la . queria um bem extraordinário à rapariga e tratava-a com um carinho languido de amante apaixonado n o supremo grau do amor incondicional. E agora.. pois não é? P ra tudo é preciso jeito. v isando sempre tirar resultados positivos de suas artimanhas. o seu fraco. sem malícia. a afilhadinha. a lavrar atas. como dantes. histórias! Isso de patriotismo é uma patranha.. muito jeitinho. berrava.. destes é que nós precisamos. já se deixa ver . Discutia. era a Maria do Carmo.. João. ". mão p ra cá. experimentadíssimo. a s eu lado. não lhe fossem falar em política sem interesse pessoal. um rótulo falso! O q ue se quer é dinheiro. era mão p ra lá. econômico. porque não? na boca. com efeito. como a de comprara e vender couros de bode na praia. o santo dinheirinho. Estava outro homem. a menina dos seus olhos. a esbravejar contra os adversários. nas faces. na sua cadeira de mesário. impunha-se! .. falava alto. andava meio retraído. quanto mais em dia de eleição.biblio. passe muito bem! . carrancudo. calado. metódico. trabalh ava.

e lá ia. a semicalva reluzente de suor. era um rapaz sério. todos enfim. todo gabola e amaneirado. Fez-se novo silêncio. desmanchando-se em ondas de seda finíssima. Alto lá! Tudo menos pat ifaria dentro de sua casa. Vieram-lhe desejos imoderados de e stourar. Coronel Souza Nunes não fosse pensar que faria o que bem entendesse. E o jogo continuou. sem que ela sequer percebesse a fixidez de seu o lhar cheio de desejo! Maria estava-se pondo moça. mordendo com desespero as guias do bigodaço. de dar escândalo. víspora numa voz triunfante e clara. Quanto ao Loureiro não havi a risco. Isso o incomodava. Sim senhor. sob pena de ele. um papel à Maria. Davam nove horas na Sé quando todos se ergueram. o futuro bacharel. o Loureiro também foi de opinião que se jogasse ainda uma vez.. sobretudo. Naquela noite. punha-lhe pruridos na calva. cafunés no alto da cabeça. ao contrário . João este quase atirando-lhe com o cartão. João. tirando as pedras com as pontas dos dedos e colocando-as devagar. o guarda-livros estava para se casar com a Campelinho. Vamos à última. cabelos compridos descendo até a altu ra dos quadris. que cantava pausadamente. A li andava namoro. sem fazer beiço. desmoralizar-se no conceito da gente séria.. e assinados por Z** *.C. Agora era o Zuza. apostava. uma como insistência atrevida em dizer as coi sas por metáforas. eram carinhos. desejavam continuar . pensav a em Maria do Carmo. E João da Mata se ntia um bem estar incomparável. Boas! Era preciso po r um termo ao descaramento. Quando o Zuza. . uma delícia. entrava nos seus quinze anos. disse secamente devolvendo o cartão. nervoso. mas João da Mata opôsse . um gosto inefável ante aquele esplendido tipo de cearense m orena. Quantas vezes. olhos cor de azeitona onde boiava uma névoa de ingenuidade. Mas o senhor Zuza?. vermelho do calor da luz. e o padrinho a adorá-la ca da vez mais! João começou a inquietar-se com as freqüentes visitas do Zuza. sem olhar para os números.. Obedecia-lhe cegamente.. Lá po r ser filho do Sr. nunca lhe dissera uma palavra ás pera. enraivecia-o. Por fim notara certas t endências do estudante para a pequena. deitar-se com o padrinho. Tinha sempre um sorriso fresco e luminoso para "o seu padrinho". amarfanhando o rico vestidinho de cretone passado a ferro pela manhã.A NORMALISTA Page 3 of 96 ge 3 of 96 guardava os livros. cócegas. gritou .... A Campelinho suplicou mais uma pa rtida.. Tinha idéia de ter lido na Província uns versos dedicados a M. histórias d almas d outro mundo e gracinh as p ra ele rir.. E enquanto ia enchendo os cartões automaticamente. cauteloso. quantas? punha-se por traz dos grandes óculos escuros a olhá-la como um pateta. trêmulo.. pareceu-lhe ver o mariola passar uma carta. certo quebrar d olhos.

Assim que se foram os habitués do víspora. A noite estava muito escura e calma. Uma só. acotovelou o marido e despediu-se "até a pr imeira vista". Fazi a medo transitar ali a deshoras. acrescentou furioso. Ouvia-se distintamente. Mas eu sei quem é a culpada. parecia um túnel subterrâneo. Maria do Carmo que lhe pedia com um sorriso extraordinário que jogassem! E na sua imaginação acentuava-se a suspeita do namoro com o estudante. deserta. . Agora era a própria afilhada.htm 23/12/2012 . a Sra. por hoje basta de víspora! . a toada dos soldados rezando à Virgem da Conceição no quartel de linha e o marulhar da praia distante. tinha muito que escrever. por que se atreve a http://www. Mendes. Uma patifaria! O Sr. . plantar a desordem no seio da família. ! Todos admiraram a súbita mudança na sua fisionomia a princípio tão alegre.com. com sua iluminação incompleta. meu padrinho. rogou Maria do Carmo tomando-lhe as duas mãos e fitando-o co m os seus magníficos olhos cor de azeitona. A ru a do Trilho. João da Mata desabafou. Curvou-se e proferiu um palavrão ao ouvido da rapariga. Zuza foi o último a retirar-se. fitando em Maria um olhar embebido de ternura. Estava muito enganadinho. Zuza pretendia sem dúvida abusar da sua confiança. mas estava muit o enganado. minúsculas como cabeças d alfinete em papel de seda escuro. seu pelintra! . Maria do C armo. muito afetada. Ali era casa de gente pobre e honesta.tenazmente: que era tarde. . O amanuense estremeceu. A mulher do Dr. a culpada é a Sra. não se c ontinha. naqueles confins a cidade. As estrelas tinham um brilho particular. al tas.biblio. Estava desesperado. Não senhora. D.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. D. como por um tubo acústic o.

João. Janjão. com os olhos na alcova onde sumira-se D. como se Maria fosse propriedade sua. Zuza não lhe punha mais os pés em casa sob o pretext o algum. porém. entregando-se-lhe. dizia ela dentro da alcova. a gente deve pensar antes de fa zer as cousas.. Mas. fora p ra rua! Estavam fazendo de sua casa um alcouce! A Sra. porque semelhante barulho". . nem mais uns cafunés. Isto é que o desesperava! Desde a saída de Maria do colégio das Irmãs de Caridade tinha se operado uma mudança adm irável nos hábitos . mas e stá muito enganado! Aqui estou eu (e batia com força no peito ossudo) para impedir escândalos em minha casa! Debalde D. nem um sorriso daqueles que ela sempre tinha para o padrinho. Via-a caída pelo acadêmico. E o que seria dele. com uma flor no peito. Se houvesse má intenção por parte do Zuza. Maria desaparecera pelo corredor e chorava debruçada sobre a mesa do jantar. amando-o talve z. O moço era filho de gente graúda. berrava. Teté. Não era precisamente receio de que o Zuza pudesse iludir a rapariga desonrando e atirando-a p ra aí ao desprezo. D. o Sr. depois? Nem mais uma b eijoca na boquinha rubra e pequenina. estava fora de si. aflita. dominando-o. esmurrando a mesa. que não desses escândalo. Pensa ele que não tem mais do que enfronhar-se n um fato de casimira clara. . não senhor. toda voltada para ele. já uma vez caíra-lhe porta dentro uma imundície de carta anônima denunciando certos abusos. e ele. era como revolta do instinto. o rosto afogueado p elo calor. ela. seria a prim eira a não consentir que ele pisasse o chão de sua casa. Que sujeito! gania o amanuense. Terezinha aconselhava. Lídia vinha namorar o outro às sua s barbas. exclusivamente sua por direito inalienável. "As paredes têm ouvidos. João da Mata. uma agonia. uma espécie de egoísmo ani mal que o torturava. Tivesse modos. sacudindo os braços.A NORMALISTA Page 4 of 96 ge 4 of 96 olhar para ele! Aquilo não podia continuar. Não se portava sério? Pois então . e zás! plantar-se na pequena. que fosse dormir . uma sufocação ante a possibilidade de um namoro entre o estudante e a afilhada. E colérico. Seu tem peramento excessivamente irritável expandia-se com desespero ao mesmo tempo que seu coração de h omem gasto sentia pela primeira vez um quer que era.. um simples empregado público. acendendo-lhe todas as cóleras. com modos de safardana. cansadinha. soprando o bigode. Terezinha. P ra que todo aquele espalhafato. onde ardia uma vela de carnaúba. preferindo-o a todos os outros homens. nem mais um abraço ao voltar da escola. tinha a cabeça a arder como uma brasa.

com uma rapidez admirável. po rque. na sua opinião. que queria a filha para santa.htm . a fa lar sempre no Padre Reitor e na Superiora e na Irmã Filomena e noutras pieguices. "ora pró nobis. e maldizia os padres. Pode ser que as Irmãs sejam umas mulheres virtuosíssimas e castas. onde as meninas desenvolvem-se física e moralme nte como a rapaziada de calças.biblio. a ler a Imitação. rezando noite e dia . o cônego Feitosa. O diabo é que no Ceará não havia colégios sérios. As melhores famílias sacudia m as filhas Imaculada Conceição como único recurso para não vê-las completamente ignorantes e pervertidas. magrinha. Dava-se apenas com um padre. o olhar macilento. era um sacerdote sem hipocrisia. não acreditava e m santos. se ar nem luz. um padre como ele entendia que deviam ser todos os pad res. Era da opinião do José Pereira da Província: "Irmãs de Caridade foram feitas para os hospitais". "um coito de patifarias". Terezinha participava das mesmas idéias de Janjão. Afina l. Uma coisa assim fazia até vergonha a ele que detestava tudo que cheirasse a sacristia. era uma espécie de mito. Não compreendia (tacanhez de espírito emb ora) como pudesse instruir-se na prática da indispensável da vida social uma criatura educada a toques de sineta. Uma menina inteligente como Ma ria devia educar-se no Rio de Janeiro ou num colégio particular.. perfe itas donas de casa. D. muito calada. asseado. Queria a educação como nos colégios da Europa. O menino ou menina saía da escola sabendo menos que dantes e mais instruído em hábitos vergonhosos. não chegava à janela. João da Mata detestava a padraria.de João da Mata. incomparavelme nte mais bonita e fornida de carnes. Jesus. olé! e sabia muito bem o que isso era . que esperança! aquela Maria do Carmo da Imaculada Conce ição. Uma tontinha a Maria naquele tempo. com uma cor esbranquiçada e mórbida de cera velha. doida por voltar ao colégio. muito sonsa.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. uma como legenda mística sem u tilidade prática. sem a intervenção inquisitorial da Irmã de Caridade. para não contrariar o Mendonça. uma vez no mês. mas um colégio onde ela pudesse aprender o "traquejo social". com quadros alegóricos d as almas do purgatório e das penas do inferno. metera Maria do Carmo no "co nvento". metia-se para os fundos do quintal ou pe las camarinhas. Quando ia passar o domingo em casa. dizia ele. Isso de colégios internos à guisa de conventos não se acomodava com o seu temperamento. Aquilo punha o padrinho de mau humor. A instrução públ estava reduzida a meia dúzia de conventilhos: uma calamidade pior que a seca. toda santidade. com o mais lamentável desprezo de todas as prescrições higiênicas. Já não era. ora pró nobis". Porque João da Mata dizia-se pensador livre.com.. no silêncio e na sensaboria de uma casa conventual entre paredes sombrias. Também f ora professor. segundo vira em certo pedagogista. estava quase moça. não aparecia às visitas. tornando-se por fim excelentes mães de família. inimigo da http://www. Ela já era para ele como uma filha. ma filha sua não punha os pés em colégio de freiras.

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D aí. por ali afora .. A fama da normalista encheu depressa toda a capital. O próprio Cristo dissera numa parábola cheia de senso e experiência : "Crescei e multiplicai-vos". Maria estava uma mocetona digna de figurar em q ualquer salão aristocrático. com ares de algo..A NORMALISTA Page 5 of 96 ge 5 of 96 batina. d aí o desregramento das classes religiosas condenadas a eterno celibato. eis o que ele queria e apregoava alto e bom som. modas e tutti qua nti. Zuza não gosta do Ceará. E porque não? Os padres são fisicamente (e sublinha va a palavra). Ia à Escola todos os dias vestidinha com simplicidade. assinava a Gazeta Jurídica. a educação livre. mangas curtas evidenciando o meio braço moreno e roliço. Agora. João da Mata inflava. nerv os como os outros homens. sem i ntervenção da batina . pensava o amanuense. têm coração. sim. Ao que parece o Sr. is horas da tarde já lá estava no Trilho. a capital de Pernambuco. Sua vida agora traduziase em ler romances que pedia emprestados a Lídia.. afinal. a gente pode viver. queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando. anatomicamente. em cabelo. Muito progresso. Havia meses que se achava rtaleza estudando o quintoano de direito e gozando a sua fama de rapaz rico. disse-lhe um dia D. O contrário é contrafazer a natureza humana que. o guarda-sol de seda na mão. "Por amor de Deus" não lhe falassem em padres. muito limpa. tão desenvolta e insinuante. Portanto. em casa do amanuense.. assiste-lhes o mesmíssimo direito de procriação. até a praça do Patrocínio. em Fo Às se fid div bom gos . uma sociedade papa-fina muitíssimo bem educada. As outras normalistas tinham-lhe inveja e faziam pirraças. Entretanto o Zuza era um rapaz da moda.. certas comodidades que ainda não havia no Ceará. João conhecera-o uma noite no baile do Dr. Havia meses que Maria do Carmo cursava a Escola Normal. toda preocupada com bailes.. certo to nas toilettes. . pode gozar. concluía João. toc. homens como os outros. Castro. sim. muito ertimento: corridas de cavalos. toc. Certo não a entregaria por preço algum a qualquer rapazola como o filho do coronel Souza Nunes. como uma grande senhora independente. fazia versos.. Ali. Não se compreendia como uma s imples retirante saída há pouco das Irmãs de Caridade fosse tão bem feita de corpo.. A educação moderna. fisiologicamente. nos costumes. Montava a cavalo. Terezinha. com afilhadas em casa. direito natural e a té consagrado pela Escritura. passeios. todos a procuravam. magníficos arrabaldes. órgãos sexuais. não obedece a prec eitos de castidade. Nas reuniões do Club Iracema era ela a preferid a dos rapazes. freqüentava o palácio do presidente. toc .

.. Apenas estabelecia um paralelo.. minha senhora. por assim dizer educado na V eneza Americana. Excia . desequilibrado. Zuza não lhe punha mais os pés em casa por forma alguma!" bradava naquela noite.biblio. tolo. João quis saber onde estava "a carta que o Zuza lhe havia entregue". uma terra em que só se fala nas secas e no preço da carne verde. não pode corresponder às expectativas d um rapaz de certa ordem. ..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Vamos. Ergueu-se com um movimento brusco e rápido. Botasse p r ali. O que dizia é que o Recife está em um plano superior a Fortaleza. Maria não podia falar. . na sala de jantar. já! Trêmula. inconsolável. soluçando devagar. Absolutamente não. Zuza ofende os seus conterrâneos.com. João da Mata achava-o pedante. .. "Não. abafando a cólera que lhe oprimia a respiração. . De bugres!? . o Sr. . Maria continuava a chorar lá dentro..htm 23/12/2012 . Sou meio exigente em matéria de civilização. V. isto me parece ainda uma terra de bugres. com um grande desgosto nalma.. Sim. compreende. De repente ouviu a voz do padrinho que a chamava. vamos! http://www.. Absolutamente não. o lenço nos olhos. triste. Deste modo o Sr. os seus parentes.

dizia ele em camisa de dormir. Então vem porque nos estima. ardia uma lamparina de azeite. As portas da sala já tinham-se fechado . Maria dominava-o. Não senhor. ela com o seu ve stidinho claro de chita. com a fúria de um selvagem. sabe que mais? Você é outra! E deram-se as costas fazendo ranger a cama. acaçapada. Vá dormir. que tolice. É boa! fez João. não me entregou coisa alguma. Teté. Pois bem. . ao pé da mesa. Vem... ímpetos de beijá-la toda inteira. Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova. . no pescoço. como um doido. aconchegado a D. disse num acento doloroso. Pois não achas. ande. nos olhos. Estavam em frente um do outro. Teté. dê-m a! . ele com o paletó aberto mostrando a camisa-de-meia cor de carne. Terezinha na l arga cama de jacarandá. não achas que é um desaforo aquele patife vir à nossa casa para namorar? . na b oca. D. depois de penosíssima viagem. .. Sobre a cômoda. sem levantar a cabeça . Não tenho carta alguma. .. Ora. Famílias sucumbiam de fome e de peste. Soprou o gás e foi deitar-se com a mulher. tornou a normalista.A NORMALISTA Page 6 of 96 ge 6 of 96 .. beijá-la sofregamente. Então aquele bandido não lhe entregou uma carta por debaixo da mesa. o olhar fixo em Maria.. Não.. Homem. O Zuza até é um rapaz sério. fungando. submissa ante a cólera rude do padrinho. sim senhora. . concluiu este moderando a voz. Tome sentido: vocemecê não me aparece mais àq uele cabrocha. na alcova.. coitado. cabelos penteados numa trança. 2 Foi numa tarde infinitamente calma de dezembro de 1877 que o capitão Bernardino de Mendonça chegou a Fortaleza pela estrada nova de Mecejana. A seca dizimava populações inteiras nos sertão.. c . está ouvindo? E depois d uma pausa. João da Mata sentiu atar-se-lhe o fogo da concupiscência. ao pé do oratório. fazia-lhe perder a tram ontana.. trate de suas hemorróidas que é melhor. Teve ímpetos de tomar entre as mãos a cabeça da afilhada e beijá-la. esta cá me fica! . Sra. no víspora? Ent regou. hein? Esta cá me fica. com ternura: . porque nos estima.

htm 23/12/2012 .com. vigoroso. em Campo Alegre.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. e dizia com soberba. Centenas de foragidos. r de cabeça. gabando o peito o rapazola pimpão que aí vive nas cidades grandes caindo de tédio e preguiça.astigado por um sol de brasa. embora mais tarde fosse obrigado a procurar outros climas. cruzavam-se dia e noite no areial incandescente dos caminhos . vendo todos os dias pas sarem pela sua porta. quase soluçada. Conhecia a e dedicado. Totalmente desiludido.biblio. Era um horror de misérias e aflições. resolvera também ir-se com a família para Fortaleza. Contava a esse rijo. não se trocar por muit de vícios secretos. acossados pela necessidade. Bernardino de Mendonça foi dos últimos que abalaram do interior da província para o li toral na pista dos socorros públicos. arrastando os esqueletos seminus. cheio as veias largas e azuis de matuto inteligente puro e abundante sangue português. quase arruinado. Era homem sadio. Corria-lhe n Nunca sofrera a mais leve do http://www. excessivamente trabalhador tempo quarenta anos. nada mais nada menos. abantesmas das desgraça gemendo preces ao Deus dos cristão. magotes de emigrantes andrajosos que batiam do sertão num êxodo pungen te. numa voz rouquenha.

Desde menin o. ou em pé na v aranda. Mas qual! As manhãs sucediam-se cada vez mais tépidas . aos dezesseis anos. escanchado entre dois grandes alforjes de farinha e carne salgada. clarões rápidos e lívidos abriam-se no poente como reflexos de luz elétrica. Outro. de cemitério. Um céu muito alto. triste e apreensivo. sem pingo d água. consultava o tempo. caminho da capital cearense. identificado por assim dizer. da janela que dizia para o poente. Por último nascera Maria do Carmo. chapinhando açudes e lagoas. o pai acostumara-o à vida alegre do campo. arrepiando a folhagem do arvoredo. um dos quais. Crescia sem outra educação a não ser a que lhe davam os pais. Em 1877 complet ara seis anos. A cor. à noitinha. E pouco a pouco aquele estado de coisas foi atuando forte no espírito do sertanejo . o céu d um azul diáfano de safira. var rido. fora recrutado para o exército por peralta incorrigíve l. chamado Lourenço. com seu arzinho ingênuo e meio de sertaneja. ao ar fresco das man hãs do norte. metido em couros. Mendonça punha-se a escutar calado. a doce esperança de ver pela manhã o solo úmi do e a rama brotando verde e pujante da "fornalha". Recol hia-se animado. mais rude e também mais obediente. q ue descobrira nele especial vocação para esse inglório trabalho de andar atrás das boiadas . Até então só tivera três fi ho. e agora aí vinha também. Surpreendia. moreno-clara. um indício qualquer de chuva. monótono. de uma família de Furtados da Telha. o Casimiro. no seu pedrês choutão. Mas os dias passavam quentes e seco. de modo que. vivia com os pais. Casara muito moço. Todas as tardes. invariavelmente. revoadas d aves de arribação. toda uma noite. Eulália de Mendonça Furtado. cabelos negros e luzidios como a asa da graúna . e para felicidade dos pais. e lá tornava a iludir-se alimentando. depois de ter visto estrebuchar a última rês no solo duro e estéril. era mesmo o vaqueiro de Mendonça. o cabelo . Mendonça abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido as esperanças d inve rno seguro. galopando à brida solta nas várzeas. dentes miudinhos e de um brancura de algodão em rama. às vezes. ouvia-se rolar a trovoada muito ao longe. tudo nela era um encanto: olhos puxados p ara negros. naquela idade. era uma criança verdadeiramente encantadora. os olhos. os dentes. uma aragem leve. os horizontes cor de cinza. o último filho do Mendonça. imberbe ainda. com u ma prima colateral. mal soletrava a Doutrina Cristã. com o mugir nostálgico e penoso do gado.A NORMALISTA Page 7 of 96 ge 7 of 96 sífilis por ouvir falar. sentia um com o arrepio bom. ecô! ecô! . procurando bispar na in clemência da atmosfera imóvel a sombra fresca de uma nuvem. a caçula. Deus o sabe. Outras vezes. D. indecifrável como um dogma. o mais velho. crivando a transparência do ar.

biblio. Campo Alegre. pouco a pouco foi se convencendo que aquilo era uma situação impossível em que ele não devia absolutamente permanecer. duros como pedra. seria a sua desgraça. Muito bom: iria ao compadre. graças a Deus. com um raio de tempo medonho. ocul tas. com u mas pontadas no coração. outro jeito senão marchar para a capital. para onde quer que fosse. vira de perto a agonia lenta de uma mulher asfixiada pela elefantíasis . uma pouca d água fresca.com. Uma vez.. horrível. invisíveis. pernas inchadas. um punhado de farinha. onde felizmente contava amigos políticos. como as vibrações d um clarim que dá sinal de marcha. igrejinha branca! Ir-se-ia fazer pela vida em qualquer part e. ventre inchado. Passava gente todo santo dia. Decididamente era tempo de arrumar também "os seus cacos" e . como tantos outros infelizes empolgados pela miséria. com um desalento a aniquila r-lhe as forças. aquele inferno do se rtão.htm 23/12/2012 . em Fortaleza. e punha-se a me ditar nos horrores da seca..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. rosto inchado . a dobrarlhe a altivez de forte. adeus. adeus. q ue remédio? bater à porta de um amigo. Lembrou-se então do "compadre João da Ma ta". correligionários dedicados que certamente lhe não recusariam uma acha de lenha. Iria. cascavéis chocalhavam no alpendre. de um correligionário. adeus. Mendonça. pensava em Maria do Carmo. sua filha querida. calcu lava meticulosamente toda a gravidade da situação a que chegara. nas febres de mau caráter.. ele próprio. Os açudes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol. tão nova ainda. http://www. padrinho de Maria. de trouxa ao ombro. arrastando-se pesadamente. tinha sangue nas veias . a pé. a menina dos seus olhos. que andava adoentada. de um cristão. forte c omo um novilho. ju ritis encadeadas iam espapaçar ofegantes no chão. na quase absoluta falta d água. De si para si media. Demais era homem. da Eulália. Não havia outro recurso. seria talvez pior. Depois tornava ao mesmo fio de idéias: não. e todas as coisas tinham um aspecto desolado e lúgubre que se comunicava às criaturas. trabalharia! Ao mesmo tempo lembrava-se da "sua velha". carnaubais rumorejantes. muito fraca e cuja natureza talvez não resistisse às fadigas d uma viagem longa. defronte da casa.

ao romper d alva. com suas janelinhas por pintar.A NORMALISTA Page 8 of 96 ge 8 of 96 Arribaram de manhã. mas nos seus momentos de desânimo. pobre e matutinha. esb atido pela irradiação do sol que tombava glorioso ao fundo da tarde pardacenta. ou na novena do Senhor do Bonfim. num vôo da imaginação. Recapitulava mentalmente. com o seu vestidinho de chita que lhe dera o Sr. muito limpa. toda a sua vida e ficava hor as e horas em cisma.. destacando na meia sombra crepuscular. como por um óculo de ver ao longe. Lembrava-se do papai. solitário como uma coisa inútil. a Campo Alegre.. vigário. ao lado da mamãe. Eulália ciciou uma oração. Ao cabo de doze longos dias em que paravam para repousar à sombra d alguma árvore que ainda verdejava ou nalguma palhoça abandonada. um ceguinho que cantava na estrada sem ter o que comer. com uma precisão cronológica. Os cavalos. Ao passarem defronte da igrejinha do povoado. romper am num trote miúdo . a pensar como se tivesse perdido o juízo. Vinham-lhe à mente os episódios da viagem: uma grande cobra cascavel que o papai matara ao pé d uma árvore. de cami sa e ceroula. como o minarete de um templo muçulmano.. à faca.. Entraram por uma estrada de areia que se prolongava indefinidamente. um pobre nicho todo fechado. avistaram o campanário branco e alegre do Coração de Jesus... Uma tarde infinitamente clama. Havia oito anos que isto fora. Olhava para o passado com a alma cheia de saudade. ocultando-se aqui para brilhar lá adiante por cima da floresta imóvel. as dificuldades que encontraram no caminho. re cordando. torcendo e retorcendo-se em ziguezagues. Para as bandas do Pajeú ardiam restos de fogueiras a extinguir-se. e apequena caravana sumia-se na dis tância. Transportava-se. D. e os outros. . ninharias.. Maria do Carmo p unha-se a relembrar toda essa tragédia de sua infância. muito cedo. quando voltava do roçado.. Morria no ar calmo o dobre melancólico de um sino. e via-se. chapéu de palha de carnaúba. tostado. trigueiro do sol.. via tudo cor de rosa através do prisma límpido e imaculado de sua meninic e. tim-tim por timtim. Nas Irmãs de Caridade é que lhe sobrava temp o para isso. contando histórias de onças e maracajás. costurando quieta ou soletrando a Cartilha. direito e esguio.. como se estivesse lendo num livro. As pisadas dos animais abafavam-se na areia... como uma enorme serpente amarela dormindo ao sol. descobriram-se com respeito... Flutuava um cheiro vago de cousas podres. essa. minudências de sua vida naqueles tem pos em que ela. Mendonça e Casim iro.. magros e ruins.

Eulália morrera d uma síncope cardíaca. eram mortos a dar com o pé. fria de medo. Que fosse imediatamente para o norte. de resto. O amanuense aceitou. aquilo é que é terra de fartura e de dinheiro. de mão no bolso e cabeça erguida.. subindo para o céu. encolhendo-se na rede. manifestou a João da Mata desejos d ir tentar fortuna ond e quer que fosse. era sempre o pobre. de braças cruzados. Mas havia uma dificuldade . sem dinheiro. perseguido.. um pequeno auxílio. Parecia vê-la ainda. mediante uma mesada. D. mas se fosse p ossível tornar a ser criança.. Que feio aquilo! Não era má. Maria lembrava-se muito bem: a mamãe fora para o cemitério na padiola da Santa Casa de Misericórdia. Dias depois Mendonça embarcara para o norte. mo rria gente até defronte do palácio do governo. encarregar-se de sua educação. com uma pouca experiência..htm 23/12/2012 . renascer e viver outra vez em Campo Alegre. ridicularizad o.biblio. Não podia continuar no Ceará. com os olhos já comidos pelos uru bus. Num mês morriam três mil pessoas. Por sinal acordou sobressaltada. e completamente nu. morto. chamando pela mad rinha. sim. Um homem trabalhador e hones to. conhec ia os seringais? eram uma mina da Califórnia. entreabertos. olhando pa ra o tempo. devorado pelas varejeiras. cercada d anjos com um manto azul recamado de estrelas. numa nuvem de incenso. decididamente não podia continuar.. espezinhado. O Pará. mãos cruzadas sobre o peito.. maltratado. E o Ceará? Fome e miséria somente. ao meio dia em ponto.Nunca mais lhe saíra da cabeça um retirante que ela vira estendido no meio do caminh o.. como o compadre. Tantos fossem quantos voltavam recheados.. uma lástima! E acrescentou que o Ceará era boa terra para os políticos e ricaços. em casa dos padrinhos.. podia enricar da noite para o dia.. a Maria. Ainda acabrunhado pelo desgosto que l he trouxera a morte quase repentina da mulher. Tempos depois vira-a em sonho. A vida no Ceará não valia coisíssima alguma. toda de p reto. Os seringais.com. não era.. enquanto que http://www. a sua vida agora.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. viúvo e ocioso. com os olhos fundos. que o pobre em Fo rtaleza. os intestinos fora.. ainda que pesasse quilogramas d honradez. Se o compadre quisesse tomar a menina. sobre o areal quente . No dia seguinte ao da chegada à capital. dentro do e squife.

sem descanso. até no "santuário da família". . sociedade. Resolvera como que recomeçar a vida. porém. "Uma terra de famintos. recuperar o tempo perdido . Com a Maria do Carmo não tivesse cuidado. largamente (e abri a os braços) com a simpatia geral. um grandíssimo canalha. que enchiam de íntima e doce consolação a alma ingênua e simples do sertanejo. estimado mesmo por pessoas de bem. homens que negociavam com a própria honra. suas viagens à capital tinham sido rarís simas. a maior felicidade do gênero humano. por tal forma que João se lhe afigurou o único h omem capaz de concorrer para a felicidade de sua filha . miséria e patifaria era o que se via".. por mais duma vez ele própri o fora vítima da ingratidão e indivíduos que se diziam seus amigos e a quem fizera grandes benefícios. João da Mata. mas honrada. incestos de irmãos. a vida ruidosa e dissoluta das capitais. fosse ele. . Sabia os homens propensos aos mal. no seu tranqüilo recanto de Campo Alegre. não lhe faltaria nada. podia entrar onde quisesse. teria para ela todas as carícias. um domingo de muito sol e muito vento. Usava chapéu alto e gravata branca? Tinha um título de bacharel? Não fizesse cerimônia.: tinha ingresso em todos os salões. seu compadre! Fome.. ouvira falar em mulheres que traiam maridos. Sabia-o conhecido em quase todo o Ceará. esquecer o passado. pobre. romances de sensação que ele ruminava devagar e esquecia depressa.A NORMALISTA Page 9 of 96 ge 9 of 96 o indivíduo mais ou menos endinheirado podia contar amplamente. um patife. Mendonça podia mesmo demorar o tempo que quisesse no Pará. cuj a confiança no compadre era ilimitada. entregando-se ao labor com todas suas forças. "É uma grande alma aquele Mendonça!" admiravam os amigos. reflexões nascida da boa-fé e da inexperiên cia da vida social. esse tropel de paixões desencontradas. trabalhando como um mouro. Daí a dias. em toda a parte. realizou-se o embarque do capitão Mendonça e Casimiro. por assim dizer. ele. na s florestas do Pará.. esse tumultuar quotidiano de virtudes fingidas e vícios in confessáveis. havia de tratá-la como filha. E era-o. é verdade. e tudo isso parecia-lhe simples "invenção das gazetas". isso que constitui. Os conselhos de João calaram muito forte no ânimo forte e resoluto do sertanejo. admirava-lhe muito o "coração generoso" e democrata. todos os afagos de um pai. esse acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas. embora. dia e noite. Mendonça conhecia Fortaleza superficialmente. Lá.. filhos que as sassinavam os pais. a menina ficava em casa de gente séria.. . onde só de l onge em longe chegava o eco da vida elegante. desconhecia-o ele e nem sequer imaginava. viera vezes contadas a negócios. esse cortiço de vespas que se denomina . anos séculos.

E.. uma espécie de José Pereira. am iga de escola. no alto Purus. tudo escolhido. O Casimiro.htm 23/12/2012 .. fantasias.com.. ensaiando trechos de música em voga. lesse escondido e havia de gostar muito. Ora estava no piano ." Maria lembrava-se de tudo. ora saía a passear com a Lídia Campelo. ora lia romances. sabiam lá!. que rigor de crítica!. Chamou-a à parte. e uma maleta americana.. bugigangas. Gostaste? .. Ultimamente a Lídia dera-lhe a ler O Primo Basílio. quero eu mesmo ler. Tinha-se mudado tudo: morrera-lhe a mãe.biblio.. estudasse muito. recomendando muito c uidado: "que era um livro obsceno". re ndas. pastinhas..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. que estudasse. contudo.O L ourenço. Tem um defeito . e. de quem era muito amiga.. uma ou outra vez é que se punha a pensar no passado. ela não conhecia .E lá se fora barra fora. criatura? http://www.. atalhou Maria. que ela fosse boa e obediente aos padrinhos. fitas. que não esquecesse rezar por alma da mamãe. numa casa alhe ia. Comprou peças de chita.. sempre muito bem vestido. podia dizer que não tinha tristezas. Estava só. Antes de embarcar teve cuidados maternais para a filha. iam fazer pela vida até. finalmente. Depois que saíra da Imaculada Conceição a vida não lhe era de todo má. que observação. andava no sul feito soldado. Nesse tempo moravam na rua de Baixo.. como ele. porque era feio uma mul her ignorante. nunca mais voltara. honrado e o bscuro." . esse. morr era-lhe o pai d uma febre.. no meio de dezenas de emigrantes que. tudo bom. monóculo. Mas muito! Que linguagem. Onde foste tu descobrir esta maravilha.. Não contes. "Imagina um sujeito bilontra. tomando o livro . mais o Casimiro. na proa d um vapor brasileiro. . Depois ela ficara sozinha em companhia dos padrinhos.. por assim dizer. sabes? o José Pereira da Província. ninguém dava notícia d ele. .. bei jou-a na testa e disse-lhe com os olhos cheios d água e a voz trêmula "que o papai havia de voltar se Deus quises se.. é escabroso demais.

. q uando Maria apareceu. se pudesse ter uma entre vista com o Zuza e fazer de Luiza. Maria teve uma entrevista secreta co m a amiga no quintal da viúva Campelo. com o romance aber to. . Terminada a leitura do último capítulo. Maria folheou ao acaso aquela obra prima. Que porcaria! E assim também a tal "sensação nova!" que Basílio ensinara à amante. não podia ser cousa muito asseada. de cabelos soltos sobre a toalha felpuda aberta nos ombros.. com ateiras e um renque de manjericões ao fundo. antes de ir à Escola Normal. "Aquilo é que é um romance.. A leitura do Primo Basílio despertou-lhe um interesse extraordinário. página por página. Que regalo todas aquelas cenas da vida burguesa! Toda aquela complicada história d o Paraíso!. como se tivesse acabado de um gozo infinito." Não compreendera bem certas passagens.. E veio-lhe à mente o Zuza. disposta a devorá-la... três m esmo... .. pensou em consultar a Lídia. palavra por palavra. Maria sentiu que não fossem dois volumes. uma extraordinária sup erexcitação nervosa. Uma noite. A Campelinho tinha acabado de banhar-se e estava arranjando umas flores para a N ossa Senhora do Oratório. cercado d estacas..A NORMALISTA Page 10 of 96 ge 10 of 96 . perto da cacimba. prurido no bico dos seios púberes. A gente parece que está vendo as cousas. sim a Campelinho devia saber a história da champagne passada num beijo para a boca de Luiza. linha por linha. e a Consciência de Heitor Mallot publicado em folhetins na Província. ... E.. Da saleta de jantar via-se o quintalzinho.. titlações em certas partes do corpo. sentiu um como formigueiro nas pernas. Até aquela data só lera romances de José de Alencar. à luz d uma vela. muitos volumes. o coração batia-lhe apressado. li-o. deitada. Vi-o na estante. que está sentindo . estreito e comprido.. É da mamãe. Uma pitombeira colossal arrastava os galho s sobre o telhado. porejava uma frescura comunicativa e boa. por uma espécie de bairrismo mal en tendido. com efeito. Porque ela só lia o Primo Basílio à noite. que morava defronte do amanuense. devagar. demoradamente. Lídia estava à fresca. leu -a de fio a pavio. A primeira entrevista de Basílio com Luiza causou-lhe uma sensação estranha. o padrinho quase a surpreendeu no quarto. O chão úmido da chuva que caíra à noite. uma nuvem atravessou-lhe os olhos. no seu misterioso quartinho no meio da casa pegado à sala de jantar.. Terminou a leitura cansada. Gostara imensamente! No dia seguinte. peguei.

etc. sentadas ambas num caixote que fora de sabão.. . acaçapada. que eu não pude compreender bem..biblio.htm 23/12/2012 . Como é? per guntou Luiza tomando o copo. e ele (Basílio) quis-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champagne. Que tal? . medonha. cuidadosamente embrulhado numa folha da Província.. .... Uma vez ali..".. O copo é bom para o Colares. Toma-se um gole de champagne ou d e outro qualquer líquido. Talvez ela não soubesse!. Uma coisa tão simples. E logo triunfante: . . Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preza bebe champagne por um copo.. quase impenetrável à sua inteligência. Como explicas tu isso? .com. menina. Tomou um gole de champagne e num beijo passou-o para a boca dela. hein? saudou esta... . assim. .. Tão simples. E. vem cá.... sublime! Olha. http://www. É isto. sem a mínima comodidade e para onde se entrava por uma portinhol a de tábua mal segura. Queria que a Lídia e xplicasse uma passagem muito difusa.. Maria sacou fora o Primo Basílio. uma espécie de arapuca de palha seca de coqueiro. E dando o braço à outra. Tola! fez a Campelinho. e pronto! bebe-se pela boca um do outro.. Magnífico.. dirigiu-se para o "banheiro". . Lui z riu.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista... única mobília do "banheir o!. etc. E juntou a ação às palavras. Acabei o Primo Basílio! . abrindo o livro leu: ". junta-se boca à boca. Boa vida.

braço a braço. Contou então que o seu primeiro namorado. Depois. e. .. um fedelho. cuspindo. Que pergunta.. pretendes mesmo casar com o guarda-livros ? . deixa-se ficar com o d ela. Nunca vi gostar tanto de beijos! E é preciso que se note. A falar a v erdade. curiosa. com pessoas do coração. E consentistes? . Com o d ela? inquiriu Maria com surpresa. tenho-o seguro. Ele então tem uma paixa doida por mi m! Bebe-me com o olhar eme come de beijos.. na orelha. Lídia apressou-se a dizer que as "mulheres do mundo" é que sabem essas coisas. tentara certa vez.. A mamãe já não repara. Porque não? fez a outra erguendo-se. como vês. . . Lídia: tu amas deveras o Loureiro? . E que prazer há nisso? . passaram à "sensação nova".. menina! tornou a outra com um gesto de nojo. nos olh os. Dize uma coisa. Concluiu baixinho ao ouvido de Maria. está caidinho... que uma noite en contrara D. Conhe . muito admirada Apanhada em flagrante indiscrição. coxa a coxa. recalcando a curiosidade que lhe espiaçava o espírito. Sei lá. Qual! Dei-lhe com um .. Qua nto a ela não conhecia outra sensação além dos beijos na boca. perguntou Maria. muito em segredo. com receio d e que alguém as estivesse observando.. cochichando. no pescoço. conhecemo-nos há três meses! E o teu Zuza? O namoro de Maria com o filho do coronel Souza Nunes estava em começo...A NORMALISTA Page 11 of 96 ge 11 of 96 . !!! Maria tomava sentido. unidas. acotovelando-se e dep ressa a conversação tomou rumo diverso recaindo sobre o Zuza e o Loureiro. na nuca. às escondidas. Amanda na alcova com o Batista da Feira Nova. fora os abracinhos fortes e demor ados peito a peito. as duas curvadas sobre o livro. A propósito. Vai todas as noites à nossa casa. Pode lá haver gosto . ela gostava de Zuza e casaria se ele quisesse. na cara. depois de uma pausa em que folheava maquinalmente o romance: . . e o tolo nunca mais me fez festas. criatura! Certamente que sim.. isto mesmo. rindo. Lídia confessou. um estudant e do Liceu. Muito breve tenho homem! Decididamente este não me escapa. É na boca. Leram ainda alguns trechos do romance.. Calou-s e para não ser indiscreta. não .. mas até aquela data ainda não se tinham comunicado. um negociante.

em toda parte onde se encontravam. porém. ouvia tudo com interesse. tolinha. pro curando inteirar-se dos acontecimentos. Lídia Campelo tinha então vinte anos. expediente que usava sempre que desejava sa ber a opinião de Lídia sobre isto ou sobre aquilo. Nessas confabulações íntimas com a amiga. os seus escrúpulos. por via do atavismo. Havia entre elas um comércio contínuo de carinhos.htm 23/12/2012 . vestiam-se pelos mesmos moldes. Pouco a pouco foi perdendo antigos retraimentos que trouxera da Imaculada Conceição. sem acanhamento.ciam-se . O próprio João da Mata não gostava muito daquela amizade com Maria. A Lídia principalmente era a sua confidente mais chegada. como duas irmãs. Terezinha as suas desconfianças. puxava à mãe. fausse-maigree e bem fe ita de corpo. toda a gente sabia . na Escola.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.biblio. http://www. Não havia na cidade rapazola mais ou menos elegante. fingia-se ingênua. tinham quase os mesmos hábitos. A convivência com as outras normalistas transformara-lhe os hábi tos e as idéias. Agora. A razão por que ainda não se casara ninguém ignorava. sem receio. Quase sempre estavam junta s em casa. que começava a compreender a vida tal c omo ela é na sociedade. corando a qualquer palavra mais livre ou a qualquer fato menos sérios que lhe contavam as colegas de estudo. é que a filha da viúva Campelo.com. Gabavam-se mutuamente. Mais de uma vez dissera a D. nada mais. A princípio evitava conversar em amores. aos cochichos. ca ixeiro de loja de modas que não se gabasse de a ter beijado. nos passeios. exímia em negóc ios de amor. os seus receios com relação a essa intimidade da afil hada com a Lídia: . Maria. de afagos e de segredos. era uma rapariga alta. Tinha fama de grande namoradeira. de braços dados.

sem ler." Tantos fossem. é que o procedimento de D. tá. Antes prevenir que curar". A filha seguia o mesmo caminho. depo is. "Uma mulher honesta!" protestava o Loureiro.. com um movimento disfarçado. Tal mãe. e voltou imediatamente ao seu lugar com um alívio. tal flha! 3 O velho mostrador da sala de jantar deu meia noite. colérico. e muito menos as igrejas: vivia a seu modo.. Decid . num respeitoso isolamento. Guardou-o nem guardado. como se todo o mundo a tivesse surpreendido em flagrante às barbas do padrinho. Ela mesmo. tá. Tremia com o papel na mão. esmurrando a mesa. uma hora. no fundo de uma caixinha de fitas. arregaçando os beiços. o seu crime ia ser descoberto. . convicto: . admirou sua coragem. a pensar no Zuza. não freqüentando os bailes nem o Passeio Público. com os olhos baixos. batendo portas. sem amigas. Infâmias era o que diziam da pobre senhora. igual e redonda. medonho. pretextando sede e l evantado-se para beber água no interior da casa. Amanda não escandalizava a sociedade. Ao apanhar o envelope. do minguado montepio de seu defunto marido. muito concentrada. M as o víspora continuava animado e ela pode cautelosamente guardar o objeto querido. ia tudo águas abaixo. e Maria do Carmo a inda estava acordada. porém. atirando-lhe uma cartinha por baixo da mesa. comodamente. miudin ha. de mulher. Havia mesmo quem ousasse afirmar que a Campelinho "já não era moça" Da viúva diziam-se horrores: "aquilo era casa aberta. O certo. Pareceu-lhe ver através dos óculos esc uros do padrinho um lampejo de cólera concentrada. quantos el a recebia com um risinho se vergonha. arquitetando frases para responder ao futuro bacharel em ciências jurídicas. sem saber o que fizesse. Porque o estudante. achara meio de comunicar-se com a rapariga. muito lépida. ficou fria. Era a primeira vez que Zuza lhe escrevia numa letra caligráfica. infâmias que caiam por terra. temendo-o como a seu pai. Vivia na sua modesta casinha do Trilho. tá. como sugeriu o amanuense. Quando o amanuense entro a esbravejar contra o Zuza.A NORMALISTA Page 12 of 96 ge 12 of 96 "Não consentisse a rapariga ir à casa da outra. Amanda! E acrescentava. Maria sentiu o sangue afluir todo para o rosto. quando jogavam o víspora. ela que nunca desrespeitara o amanuense. sem prestar atenção ao jogo. ante o indefectível procedimento de Da. não avia fugir. Estava irremediavelmente perdida! Enfiou pelo corredor com as mãos na cabeça. sai ndo à rua poucas vezes na companhia da filha. aflita. Não pôde reprimir um susto. Maria ficou lívida! Tá.

em camisa.biblio. Excia. defronte.. suplicar-lhe por amor de Deus.. muito à fresca. atirar-se aos pés de João da Mata e pedir-lhe. seu primeiro ímpeto foi voltar. O padrinho berrou.. três.. Maria estava só. Fazia calor. com a cabeça entre as mãos. "Minha senhora".. branca e sarapintada de encarnado. que felicidade para a rapariga! foi se deitar com a mulher. porém. afinal. que fora uma fraqueza.. q uantas vezes quisesse. nessa bondade que se revela em seus esplêndidos olhos de madona e na brandura meiga de sua voz cujo timbre faz-me lembrar toda a melodia d uma harpa eólia tangida por mãos de serafins. De quando em quando havia um barulho d asas na sala de jantar: era a sabiá d ebatendo-se na gaiola. o Sultão abanava as orelhas sacudindo as pulgas... . só no seu quarto. Maria costumava dormir com a vela acesa. por quem era. Maria suspirou forte como se lhe tivessem tirado um grande peso do coração. seria complicar a situação.idamente o padrinho ia expulsá-la de casa. à noite. uma cria ncice.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. lia e relia a carta do acadêmico. assombrada. jurou acabar com a "bandalheira". numa palmatória de flandres. Agora. confessar-se culpada. Amo-a deveras. cotovelos f incados na mesa. chamada Mariana.. confiado na sua infinita bondade. duas. Noutro quart o. Nada como a noite para os namorados! Era só quando ela gozava a sua liberdade. disse horrores do Zuza. Só me resta esperar que http://www. sim.htm 23/12/2012 . podia ler à vontade. e. olhos fixos na luz moribunda da velinha de carnaúba. entregar-se à cólera do amanuense. Isto.. E ao sent ar-se à mesa de jantar foi acometida por uma convulsão de choro mudo. no seu quarto. "Tomo a liberdade de me dirigir a V. uma retirante velha. e agora.. uma..com. sent indo um bem estar na sua rede de varandas. completamente só. ressonava a cozinheira. Tomo esta liberdade para dizer-lhe simplesmente que a amo! e que este amor só podi a ser inspirado pela incomparável luz do seu olhas e pela música sentimental de sua voz.. que a perdoasse. dizia o futuro bacharel muito respeitoso. fazendo o que bem entendesse. no corredor. a carta do Zuza. e.

era filho d um homem de bem. nada! Ela. aceite este amor como tributo sincero de um coração avassalado por sua bel eza encantadora. ele. de chambre e gorro. e então serei o mais feliz dos homens. coisas impossíveis. despreocupado. sem filhos. com os olhos na parede onde esbatia a sombra da rede ao comprido. comparar seus olhos com olhos de madona e sua voz com uma harpa eólia! . ora sebo! Maria implicava com certos modos do rapaz. tinha cara de pedante com os seus óculos d ouro. Que idiota! pensava.. De V. sentado na escrivaninha a fazer versos. da sala para a cozinha numa azáfama de burguesinha reles. faça você aquilo. Leu outra vez a carta. incapazde seduzir uma rapariga honesta. recostada na espreguiçadeira. E lá vinha o mas e a dúvida não se desfazia. Mas. Boas! E não assentava idéias. com a sua flor na botoeira. d um coronel.. numa casinha muito bem mobiliada. muito besuntada. fantasiando situações disparatadas. dizendo que dê.. fitinha na frente d alto a baixo. lia e relia a carta numa inquietação que lhe tirava o sono... repetindo as frases a m eia voz. nessa dúvida. por outro lado. um advogado com escritório e tabulet a à porta para fazer. E. Excia. quis-lhe parecer tosca demais para ter saído do punho d um est udante de direito. mu ito bem educado. Aquela linguagem alambicada e dengosa. É verdade que tinha fortuna. a mente que nem um rodopio.. cuidando somente da papelada de autos e requerimentos. a cuidar dos filhos.. . Imaginava-se ao lado do Zuza. feliz. indecifrável quase. Maria esteve meditando muito tempo sobre a resposta que devia dar ao estudante. refratária a pagodeiras. Para não responder ficava-lhe mal. . a ler o último romance à moda. Às vezes.. Realmente! começava cedo a sua carreira amorosa e começava com um aspirante a bachar el! Seria verdade aquilo ou o rapaz queria divertir-se à sua custa? O Zuza parecia-lhe um bom moço. era uma f alta de consideração.. Devia responder fosse o que fosse. adm. ela com um robe-de-chambre todo branco. . porém. analisando-a palavra por palavra. e escravo José de Souza Nunes Isto numa letrinha microscópica. de costumes irrepreensíve is. dê-me você isto. cabelo s olto. Excia.A NORMALISTA Page 13 of 96 ge 13 of 96 V. com cortinas de cretone na sala de jantar e um viveiro de pássaros. Que vida! Ao mesmo tempo lembrava-se de que o Zuza podia lhe sair um marido muito besta e casmurro.

Havia missa cantada na Sé. apesar do padrinho ter proi bido expressamente a entrada do pasquim em sua casa. O mais era uma súcia de papéis nojentos que só serviam para . Maria do Carmo quis ver o que dizia a Matraca. . menina? Lê isto aqui.biblio.com. . . Abriu o jornal ansiosa. Qual harpa eólia. dissera ele. ". . Maria teve um palpite. O Namoro do Trilho de Ferro! gritavam os vendedores. Que horror! Havia com efeito uma piada sobre ela e o Zuza. Que felicidade o padrinho estar no banho! Pagou ao menino pedindo-lhe pelo amor de Deus que não gri tasse mais o Namoro do Trilho de Ferro. Estás vendo. isso mesmo porq ue o José Pereira não exigia pagamento de assinatura. E apontou com o dedo. qual nada seu besta!" Daí a pouco também ressonava com a respiração leve como uma carícia. um jornaleco imundo que falava da vida alheia e que por duas vezes trouxer a sujidades contra João da Mata. num arrebatamento.. O dia seguinte era domingo. Certo aquilo era com ela. Espocavam foguetes e replicavam sinos.E. Meninos apregoavam numa voz cantada a Matraca a 40 réis! . Maria deu um pulo até a casa da viúva Campelo e aí pode comprar a Matraca. Ali só lhe entrava a Província.htm 23/12/2012 . Eram uns versos de pé de viola que contavam o recente namoro do Zuza: A normalista do Trilho ex-irmã de caridade http://www. Mais que depressa correu a mostrar a Lídia. Qual olhos de madona!"". Todos em casa do amanuense acordaram muito bem dispo stos. O padrinho estava no ban ho.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. levantou-se e guardou a carta na caixinha de fitas.

. chiando......... Que Guedes? .. Dizem até que está feito redator principal da M atraca. Eis porque. Lídia achou graça na versalhada.. Chegou a escrever-me uma carta muito errada e piegas. .. pedindo uma entrevista. Que fiz eu? Ri-me muito das asneiras do bicho. Estavam à janela.... No fim da rua.. minha filha? Ninguém está livre destas coisas no Ceará moleque. .... Ela também já saíra na Matraca.. Chegavam espaçados sons de música que o vento trazia. . soltou um guincho rápido e voltou estralejando sobre os trilhos. E que mal fiz eu a este Guedes que nem sequer me conhece? . .... frente a frente... Que se há de fazer.. Juan feito estudante a namorar uma freira. Não val nada.... Sabem lá qual é a "normalista do Trilho!" A propósito Maria contou a ocorrência da véspera... o Guedes.... não achas? perguntou a normalista indignada. Falem baixo.. a chubata chia!. Amanda andava para os fundos da casa a mourejar. . . Não se pode conversar com um rapaz. . um do Correio.. .. a carta do Zuza... troceio a valer e mandei-o pastar bem. .... a cólera do padrinho. porque não faltam alcoviteiros... O Guedes andou a querer me namorar.... do lado da Estrada de Ferro. E os sinos a repicarem na Sé e girândolas de foguetes estourando no ar. Ó mulher..... é o que é. em pé. Eu te digo.... minhas flores Senão.A NORMALISTA Page 14 of 96 ge 14 of 96 está caída pelo filho d um titular da cidade O rapazola é galante e usa flor na botoeira D.. Ora o Guedes sabe que nós somos muito amigas e talvez queira vingar-se indi retamente. uma locomotiva fazia manobras. eu aposto em como isto que aqu i está saiu da cachola do Guedes... a deitar va por fora... muito vexada. Chegou até a frente da casa da viúva..... Um desaforo. que isto não vale nada.. eu digo como o Bahia: . .. Olha.. mas toda a gente lê e acredita... D.... Manda-o plantar couves e rasga essa baboseira.. Aí está o que é menina.. caros leitores.

htm 23/12/2012 . Nisso de amor quanto mais depressa melhor. Não tem mas nem meio mas. De forma que tens um compromisso a satisfazer. . T u é que tens a lucrar.. agora é responder... Ele com certeza vem ho je para o víspora. não sejas criança. O homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem. O http://www. Decide-te a namorar o rapaz e deixa-te de meninices. . porque quem cala consente.Não sei si deva responder.. Sim. disse Maria dando a carta à amiga. Compromisso? . escrever para um homem? .br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Eu pel o menos o entendo assim.com. Mas. tolinha.. . Eu. Aceitaste a carta. Diz-lhe qu e o amas também e que desde já o consideras teu noivo. Queres que eu faço a minuta? .. Tola! Que crime há nisso? Eles não escrevem para nós? Olha. .biblio.

Era o Zuza montad o numa alazão reluzente ao sol. como nos figurinos. luva.A NORMALISTA Page 15 of 96 ge 15 of 96 Zuza tem fortuna. O que é que esperas de teu padrinho. uma grande rosa branca no peito.. muito vistoso com seus óculos de ouro e seu bigodinho retorcido para cima. mas não tinha certo aprumo. Queria-o mai s por um capricho. Era hora do almoço. encarand o a vida por um mesmo prisma: passeios a cavalo. Tudo menos ficar para tia. um phaetom para virem à cidade. Terezinha chamou Maria do outro lado da rua. Entretanto possuía seu cabedal em casas e apólices da dívida pública. com c hácara no Benfica. . de cauda aparada e arreios de prata. . aos requintes da vida aristocrática que ela ambicionava tanto. muito indi ferente a essas cousas de bom gosto. eele já fala em tirar-te da Escola. Lídia interrompeu-se para cumprimentar um cavaleiro que passava. toilletes de verão e d inverno. um sujeito estúpido e usurário como um urso? Já não t ens pai nem mãe. e é muito certo. Fazia o costumado passeio matinal e lembrara-se de passar à porta do amanuense. lá diz o ditado. Tinha o seu Loureiro. O ama nuense estava apressado porque tinha de ir à praia ao embarque do conselheiro Castro e Silva que seguia pa ra o Rio de Janeiro. o Loureiro não era um sujeito ignorante pobre que lhe fizesse vergonha. Uma simples ques tão de temperamento. Escreve logo essa carta e faze com eu: marca o dia do casamento. Ao passo que o outro. . hein. Verdade. vacas de leite.. um maná!.. Sabia de s ua má fama e agarravase ao Loureiro como a uma tábua de salvação. Assim é que se faz. Não sejas tola!... Maria ocultou-se envergonhada atrás do postigo olhando por entre as gretas. A voz de D. Que queres tu que eu faça? . verdade. aferrava-se à calça e ao colete branco.. c erta elegância ao trajar. . rebenque. passeando como um príncipe. e ninguém o demovia daquele v elho hábito. trajando bem.. Cu mprimentou rasgadamente a Campelinho. porque não encontrava outro homem em melhores condições que desejasse casar com ela. E tu ainda queres mais. invariavelmente. Atira-te minha tola. o Zuza. sabia empregar seu dinheiro divertindo-se. mas o guarda-livros parecia-lhe muito casmurro. O estudante trajava flanela e meias botas de polimento. chapéu castor desabado. Quem pensa não casa. É muito homem para botar-te a coz inhar.. Adorável! fez Lídia. minha tola? Como sentia não ser ela a querida do Zuza! Ambos com vinte anos de idade. está a formar-se e com mais um ano pode ser teu marido e fazer-t e muito feliz. Aproveita enquanto o Braz é tesoureiro.

htm 23/12/2012 . enfiando-se n o inseparável e já velho chapéu chile. Seriam onze horas pouco mais ou menos. marinheiros da Capitania.João da Mata almoçou às carreiras. cheio de atenções. Era uma maçada ir à bordo com a maré cheia e um vento com o aquele. cortejando à direita e à esquerda. A maré d enchente crispada pela ventania de sudoeste. Muita gente ao embarque do Conselheiro. de fardet a e boné. cheio de si. esbaforidos. confundiam-se numa promiscuidade interessante. A cada fluxo do mar havia gritos e assobios. guardas d Alfândega e oficiais de descarga com ar autoritário. trabalhadores aduaneiros de jaqueta azul. iam armando a vela às ja ngadas. mostrando o peito robusto e cabeludo.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Um alvoroço! Jangadas iam e vinham em direção ao nacional que tombava como um ébrio aproado ao vento. metido numa sobrecasaca muito comprida. Não vale a pena a gente se sacrificar co m um calor d este! Lá adiante encontrou o Loureiro que vinha de despachar uma fatura no Trapiche. pintadinhos de fresco na popa d uma barca italiana . formada à porta do quartel. Um mormação de fornalha abafava os transeunte s que desciam e subiam a rua de Baixo a pé. mui to apressado com sua calça http://www. No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava simultanea mente. muito ancho. . Já o esperavam os amigos receosos de que o vapor suspendesse sem "o homem". Pílulas! fez João da Mata limpando a testa. Reluzia em caracteres garrafais. O vapor apitou pedindo mala.com. alagava o areal seco e faiscante. Jangadeiros arregaçados até aos joelhos. A música da Polícia. bracejando. como quem vai tomar o trem. Um carro parou à porta da Escola de Aprendizes de Marinheiro s: era o Conselheiro. Apenas quatro navios mercantes fundeados e uma canhoneira argentina. chapéu de palha de carnaúba.biblio. gaguejou o Hino Nacional e o Conselhe iro. e abalou. num contínuo vaivém. Demais o sol estava de rachar. falando alto. seguiu a tomar o escaler d Alfândega. "Civita Vecchia". Curiosos de todas as classes.

saboreando-lhe o cheiro bom das carnes. Diabos levem conselheiros e tudo!" dizia ele ma l humorado. furioso. Uma lufada de poeira redemoinhou a dois passos dos interlocutores derrubando bru scamente o chapéu da amanuense. Que há de novo? tornou o Loureiro. . É verdade. filho? A política. muito calmo. Nada. . boa para a gente levar a vida inteira a beij . automático. naquela deliciosa boquinha fresca e rosada. a política. João da Mata caminhava devagar. Qual política. de papo para o ar na red e. como quem vai com uma idéia fixa. pondo-lhe a calava à mostra. Canalha! resmungava o homem. Que seca ! Podia muito bem estar em casa àquela hora. . À porta do Quartel de Linha um soldado soprava a todo pulmão num corn eta muito bem areada. Que queres. Com os diabos! vociferou João da Mata abaixando-se mais que depressa para apanha r seu chile que rodava sobre as abas numa disparada vertiginosa por ali fora. O amanuense encavacou deveras ". E dali mesmo voltou à casa. Não lhe contassem para outra. homem! Com um solão deste não havia quem me fizesse ir a embarque de filho d mãe nenhum. O conselheiro tinha chegado ao Trapiche com o seu préstito oficioso de amigos. . . Vou aqui ao embarque do Conselheiro. . maldizendo-se por haver deixado os seus cômodos por uma estopad a inútil d aquela. entretanto ali vinha ofegante como um boi e suado como dois burros.. tinha ido a negócio. sacudindo com a ponta dos dedos a poeira do paletó.. . Pílulas! Mal lhe chegava o tempo para pensar na Ma ria do Carmo. cobrindo a calva com um lenço para não constipar.A NORMALISTA Page 16 of 96 ge 16 of 96 branca lustrosa de gome sem uma dobra. metido na sua camisola fresca. . Por ali? . . Já tinha pensado mesmo em abandonar para sempre a política... ao conchego morno da afilhada. todo emporcalhado da poeira. piscando os olhos desesperadamente por trás dos óculos escuros. Fiau! Fiau! Pega! pega! prorrompeu a garotada numa vaia estrepitosa de gritos e assobios. enquanto o Loureiro escafedia-se daquela situação grote sca. Dava meio-dia. Hás de ganhar muito com isto.

. Nunca se preocupara tanto com Maria do Carmo. E quem melhor do que Maria do Carmo. Achava a Teté uma mulher gasta: queria uma rapariga nova e fresca.. Demais. sem que ninguém sou besse.. receava agora que a menina se deixasse lev ar pelas gabolices do estudante e então lá se iam os seus belos projetos águas abaixo. fosse ele. A própria D. ad eus! não havia ente ele e a menina o menor grau de consangüinidade.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Toda a questão era de oportunidade. Àquela hora a normalista arrastava ao piano a valsa Minha esperança. cheirando a lei te. . Si Maria houvesse de cair nas garras de algum bacharelete safado. a quem ele pudesse ensinar certos segredos do amor. João da Mata.biblio. portanto. E ia parafusando um meio simples e natural de conquistar o coração de Maria.. uma normalista exemplar e recatada. poderia satisfazer os caprichos de seu temperamento impetuoso? Era sua afilhada. Terezinha por vezes tinha estranhad o seus modos para com a menina. podia arranjar tudo sem que ninguém soubesse. argumentava de si para si. mas.. virgem das impurezas do século. ocultamente.ar.. O Zuza tinha lhe acordado o instinto. Desde que o Zuza começou a freqüentar a rua do Trilho não lhe saia mais da cabeça a afilhada.htm 23/12/2012 . O segredo ficaria entre ele e a afilhada. Nunca experimentara o contato aveludado do corpo de uma mulher educada.. não podia haver crime nas suas int enções. cuja cadência pun ha uma monotonia http://www.com.. inviolável como a sepultura de um santo. sem pecados torpes. Estava farto do "amor conjugal". o primeiro a abrir caminho.

As revelações da Matraca sobre o namoro do Trilho de Ferro deram que falar à cidade in teira. arrostando grandeza e bom gosto. nunca descera de sua dignidade para tirar o chapéu ou aper tar a mão a indivíduos que não tivessem uma posição social definida. tão nobres quanto respeitados no Ceará. homem de costumes severos que sabia dar aos filhos uma educação esmerada. incis ivos como ferroadas de maribondos. filha de . que ele. um rapaz de certa categoria não se deixa iludir por uma simples normalista sem eira nem beira. ou simplesmente o Zuza. O Zuza. O Zuza dava-se muito com o presidente. . roupa de flanela. botas. percucientes. Não era a Lídia mas dava no mesmo. Aprendera isso em pequeno com o pai. passava uma vida regalada. Afinal sempre se veio a verdade e espalhou-s e logo que a afilhada de João da Mata estava com um namoro pulha mais o estudante. pensava ele. Queria-o assim mesmo com todas as suas manias aristocráticas e afidalgadas. O coronel franqueava a burra ao filho com uma generosidade verdadeiramente p aternal. atirava seu conceito à boca pequena. um rapagão alegre. O que não admitia é que o filho s e metesse com gente de laia ruim. E toda gente dizia sua pilhéria. 4 O futuro bacharel em leis. uma r apariga sem juízo. coronel. eram dignas uma da outra. Ma s a Campelinho nunca fora religiosa. doutrinava o coronel. Não era possível. dizia-se: ambas estudavam na mesma escola. não era mais do que uma vergôntea digna desse belo tronco genealógico dos legítimos Souza Nunes. chapéu mole desa bado.A NORMALISTA Page 17 of 96 ge 17 of 96 irritante na quietação morna da rua do Trilho. tal qual o presidente da província de quem se dizia amigo. Nas rodas de calçada o fato propalou-se imediatamente à guisa d escândalo. O Zuza era incapaz de semelhante crian cice. Era um orgulho para o coronel ver o filho passar a cavalo com o presidente. ". como era conhecido em Fortale za o filho do coronel Souza Nunes. usufruindo largamente a fortuna do pai avaliad a em cerca e cem contos de réis. qua se principesca. quanto mais freira. A princípio ninguém sabia ao c erto qual era a tal "normalista ex-irmã de caridade". dizia ele. que também pertencia a uma alta linhagem de fidalgos de São Paulo e fora educado na Europa. com os seus gestos el egantes. amador de cavalos de raça. "Cada qual com seu igual". ilustrado e am igo de mulheres. o finad o desembargador Souza Nunes. pilhérias e conceitos que chegavam até aos ouvidos do coronel Souza Nunes. com risadinhas sublinhadas . alvo de olhar bisbilhoteiro do mulherio elegante em trajes de montaria. Que havia de ser a Lídia Campelo afirmavam uns.

sem luxo. que ficava à esquerda. na limpidez dos cristais. até certo ponto. de "fazer figura". à velha moda portuguesa. na colocação dos quadros.com. Talvez o filho tivesse mesmo a estroinice pueril de desfrutar a ra pariga. escolher bric-à-bracs. muito lustroso. http://www. educada em casa d amanuense reles. e. sobre o qual assentavam estatuetas de biscuit. v arandas. Fazia gosto a sala de visitas. Ao fundo. Ia falar-lhe decididamente. descansando sobre grandes pregos dourados. o Zuza não devia tardar. sem ostentação. o retrato a óleo do coronel com sua barba em ponta. forrada a papel-veludo. em simetria com o da a esposa. O corredor da entrada separava a sala de visitas do gabinete do Zuza.htm 23/12/2012 . Era hora do almoço. claro com ramagens cinzen ta. um pouco orgulhosos e d uma susceptibilidade à toda a prova em matéria de dignidade pessoal: irrepreensível e capr ichoso na intimidade doméstica como na vida pública. Era o que se pode chamar "um homem de bons costumes". aparando as unhas. À dire ita. muito sério. e dois ananazes de louça no alto da cimalha. mobiliada com inexcedível graça. . sabia mesmo aquilatar objetos de arte.pais incógnitos. numa casa assobradada e vistosa com frontaria d azulejos. aquela histór ia do namoro não lhe cheirava bem. Em casa usava calças brancas . paletó de seda amarelo e sapatos de entrada baixa com flores no rosto de lã. O coronel gostava de passar bem. sempre mudo. "Não faltava mais nada!" repetia mentalmente o coronel estendido na espreguiçadeir a de lona. Quem. pernas trançadas.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. ficava o piano. um Pleyel novo. um jornaleco imundo como uma cloaca!" Morava na rua Formosa. olhav a para o piano. mas onde se notava logo certa correção no arranjo dos móvei s. defronte da varanda. revelava u ma natureza delicada que não era indiferente ao aspecto exterior das coisas. Ninguém o excedia.biblio. o Zuza? Pois não viam logo a monstruosidade do absurdo? Era uma calúnia levantada a seu filho. entre as duas portas altas e esguias que diziam para o interior da cas a. Que esta! Não faltava mais nada senão ver o nome do rapaz em letra redonda estampado na Matraca.

Cresceu o assombro do rapaz. muito alegre.. . . lá.. Ora dize uma coisa: leste o últ imo número da Matraca? Zuza franziu o sobrolhos desconfiado. E repetia muito alegre: ..A NORMALISTA Page 18 of 96 ge 18 of 96 Daí a pouco entrou o estudante Vinha muito jovial. Ainda bem. E polindo as unhas. fez o coronel num tom desusado.. . . cantarolando o Bocácio: Si acaso algum de nós tiver por sina atróz mulher que se não cale que a toda hora fale. Juro-te que não. sem erguer a cabeça.. Um jornaleco imoral que andava por aí? Não. ... hein. Por que? . Vou a Baturité com o presidente. enquanto o filho ia desabafando suas cóleras contra a sociedade cearense.. não tinha lido. Meu pai está gracejando. "Uma sociedade que lê a Matraca e gosta!" http://www... . Zuza tinha entrado para o gabinete e começava a despir-se . . . . Mas olha. A criada anunciou que o almoço estava na mesa. Como ainda bem? inquiriu o estudante aproximando-se.. no teu nome. . lá. continuou Zuza. Eis aí porque fazes bem indo passar uns dias em Baturité. . Eu!?.. Vejamos. um canalhismo de província? .br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. porque.. . quem diz é a Matraca e alguém afirmou-o particularmente q ue a rua está cheia. O que é certo é que não te fica bem a brincadeira.com. Apenas trocava o fraque por um paletó de brim branco.. . "Não tinha lido a Mat raca.. preciso saber. E esta! fez o Zuza cruzando os braços admirado.biblio. Trá. lá. Porque. .. Absolutamente não.. não. Sim. Pois o meu pai não vê logo que isto é um gracejo de mau gosto.. com um risinho seco. meu filho? interrompeu o coronel da sala.. Trago uma novidade. Vens.. vou informar-me.. Que história é uma de namoro no Trilho de Ferros? Fala-se em ti.. grave como um após tolo do bem.. numa normalista... e eu preciso saber quem é o autor do pasquim.. Eu precisava mesmo falar-te. Ah! meu pai estava aí? E logo. ainda bem.htm . o coronel dirigiu-se para a sala de jantar. .

23/12/2012 .

num badalar contínuo. Estava tudo acabado. hein? disse a Campelinho. O Exmo. S. ver passar o trem através da vidraça. Embora! O dever dele era me participar. muito cedo. . Como querias tu que ele avisasse se ainda não lhe respondeste a carta? Maria esteve pensando com o jornal na mão. Dr. que fosse bugiar! M oças havia muitas no Ceará: que procurasse uma lá a seu jeito e ela por sua vez trataria de arranjar noivo.A NORMALISTA Page 19 of 96 ge 19 of 96 No outro dia. presidente do Ceará. Zuza estava doido por ela! Ir-se embora sem ao menos lhe comunicar! Ne m sequer deixava um bilhetinho.. a fim de visitar a importante fábrica Proença. soltando rolos de fumo e fagulhas que pareciam uma irrisão aos olhos da normalista. E na manhã seguinte. lendo e relendo os versos. era o título e vinha na terceira página da Província. Sr. Acompanham o ilustre amigo do Ceará os nossos distintos ami gos e correligionários Srs. José de Souza Nunes e José Pereira nosso colega de redação. e. um cartão com duas palavras. . acordava os moradores do Tril ho. ainda nos lençóis.. Nem ao menos teve a lembrança de me avisar! . Maria não tinha feito reparo na despedida do Zuza. pela manhã. Vou e volto ? Zangara-se deveras. Adeus . Era desse modo que o Sr. Certamente. Lia-se na Província: "Segue amanhã. meio arru fada. um soneto endecassíla bo. duas somente! Que custava escrever num pe daço de papel . confirmou Maria. àquela hora. não lhe escrevia. Presidente da Província. pretende demor ar-se alguns dias naquela cidade". com sílabas de mais num versos e de menos noutros. furiosa. trombuda. Castro. atirando a folha para um lado. com efeito. Maria do Carmo leu com surpresa a notícia da Província e não pode conter um gesto de d espeito. . A locomotiva disparou numa rapidez crescente. Depois é que viu. A sineta. o futuro bacharel seguia no expresso para Baturité em co mpanhia do Dr. não falaria mais no Zuza. noivo sério. Já estavas fazendo mau juízo do rapaz. Excia. noivo de bem! Entretanto. embrulhada no lençol. com destino a Baturité. O homem é que faz tudo. meio risonha: . pulou da rede e foi no bico dos pés. ma s noivo para casar. porque a Lídia mostrou-lhe.

c aminho da serra que se via ao longe.htm 23/12/2012 . Sentou-se na rede. tomando leite fresco na estação ao lado do president e. Teve um consolo.com... ai! ai! .. ".. lá ia outra vez por aqueles descampados fora. na mesma rede. muito amável. lembrou-se: .." . com um peso no coração. Não. Lá fora recomeçava a labuta cotidiana. corpo a corpo. Voltou para a tepidez do seu quarto e lá deixou-se ficar até sair o sol. Espreguiçou-se toda com estalinhos de juntas e. que ia...biblio.. deixou escapar um .. esfregando os olhos como se tivesse acordado de um pesadelo. o cargueiro d água potável enchia os http://www." Ia adormecendo quando lhe veio à mente esta idéia. sertão a dentro! Começou então a sentir-se só. como aquelas cadeias colossais de montanhas onde há gelos eternos e que na geografia tem o nome de Alpes. e.. já devia ter chegado a Mondubi. teve vontade de abrir num choro histérico como si lhe houvessem feito uma grande injust iça. Havia u m movimento rápido de gente que embarcava às pressas...Maria viu passar a enfiada de vagões estralejando sobre os trilhos e esteve muito tempo em pé ouvindo sino longínquo da locomotiva. Se o trem desencarilhasse o presidente morreria também. muito lânguid o e prolongado. Depois o trem apitava. Aquela hora onde estaria ele? Talvez em Arronches. desejando um quer que era vago e extraordinário que lhe punha arrepio s intermitentes na pele.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. rindo.. maquinalmente.. A criada puxava água da cacimba. Que bom se o Zuza estivesse ali com ela. não. sem ânimo para levantar-se.. tirando do bolso da calça um maço de notas de banco. encolhida na red e.. De repente.. Ima ginava-o metido num comprido guarda-pó de brim pardo. aquecendo-a c om seu calor. "E se o trem desencarilhasse?.. como uma coisa doida. rente com as nuvens.. o trem havia de chegar em paz com todos os passageiros.

Terezinha tinha ido à casa da viúva mostrar um c orte de fazenda que o Janjão lhe comprara. lá não punha os pés.. Lídia." E largou-se para a Repartição. mandou que mostrasse a língua. A Lídia. fechou o volume que estivera lendo. cegos cantavam na rua uma lenga-lenga maçante. a Campelinho lembrou mulheres casadas que tinham aman tes e que viviam muito bem na sociedade. palitando os dentes. Queres que te diga uma coisa? Isso de casamento é uma cantilena. Havia um ruído matinal de cidade grande que desperta . No Ceará basta um rapaz ir duas vezes à casa de uma moça para que se diga logo que o namoro está feio. Tinham muito que conversar. Maria. na sala do amanuense. "Ah! porque já não é mais moça. hein? começou a Campelinho. e nós é que somos prejud icadas. num assomo de despeito. calúnias". D. Ora! ora! ora!. já andavam inventando histórias.. uma defluxeira.. Estavam sós. Não. Mendes..A NORMALISTA Page 20 of 96 ge 20 of 96 potes. Nem um castigo. . D. e tola é quem se ilude. Não te importes. em pleno Passeio Público! Quem não sabia? Ninguém! Entretan to freqüentava as melhores famílias da capital . e com u m bocejo: . "Não era nada. é o que dizem. era a Sra. as coisas não são como tu pensas. que é um escândalo. Nesse dia Maria do Carmo não foi à Escola Normal: que estava incomodada com uma enxa queca muito forte. Deixou-se ficar também com a Maria. derreada na cadeira de balanço.. o diabo do rapaz não lhe saía da lembrança. João da Mata tomou-lhe o pulso. Isso a gente faz ouvidos de mercado r e vai para adiante. se lh e convinha. Que saudades. ia à escola quando queria e. juiz municipal. vendedores ambulantes ofereciam cajus. . E. "É verdade. porque é uma sem-vergonha". Pois olha. muito solícito.. Mas estava muito desgostad a da vida. . . minha tola. A vida é esta... com cui dados de pais: . . Amélia! Queria outro exemplo! . citou a mulher do Dr. esta aqui há-de namorar até não poder mais... pedindo esmola numa voz chor ada . Estava ali uma q ue fora encontrada aos beijos com José Pereira da Província. essa tinha liberdade plena em casa da mãe.

minha tola. queijo. A canalha fala de invejam invejosos é o que não faltam nesta terra.. Dão licença? disse uma voz fora.. . mulher do Dr. mulher! Eu é porque já tenho o meu. disse.htm 23/12/2012 . E tudo é assim.. caso o Zuza me pregue um taboca. na rua.. Amélia. Maria foi abrir a rótula. Amor com amor se paga. queijo. pão. silenciosa. achas que devo continuar o namoro? . Mendes. .. Sou muito franca . .. Não. Disfarçou com um risinho seco. Então. Terezin ha é amigada com teu padrinho. Aqui mesmo em casa o tens.. Eu estive pensando. ..com. Nada mais simples: prega-lhe outra casando com o primeiro bilontra que aparece r. . Que dúvida.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. falemos sério. Era Da. pão. Maria sentiu uma pontinha de ciúmes roçar-lhe o coração. Ninguém ignora neste mundo que D. querida Maria. Assim mesmo. disse ela por fim. .E abaixando a voz: .. Maria prestava atenção.. http://www. Que queres tu que se diga? Eu cá não costumo enganar ninguém.biblio.

. bamboleando-se toda.. o Mendes. que solão! Lídia. meninas. Ela até já se aborrecia. . mesmo porque eu não sou mulher de muitos medeixes. um mosca-morta. Terezinha não se fez esperar. Diabo é quem os poupa! Também.. Uf! que solão. muito prendada. disse D. Felizmente não tenho queixa dele. Vestidos ela via-os de ano em ano. tirando o chapéu defronte do espelho. Qual passeios! Quem tem filhos pode lá passear? D.. É verdade. Todos os meses é p r ali um vestido. . Oh! por ali?. . Qual casório! fez Maria com um rubor nas faces.. venho duma seca. vestidos. Pois. Amélia. Diz que volta sábado de Baturité. com a língua pegada.. Sofria de uma erisipela na perna direita que o proibia de trabalhar meses inteir os. Boa vida! Não há como ser moça. Já sei que não foram hoje à escola. Amélia queixou-se do marido: um homem sem gosto. Um indiferente. . Invenções. muito desleixa do... um horror! Ao que parece temos casório. Amélia muito afogueada. D. Amanda ia bem? E sentando-se: . chique a valer. Pois olha. Seria até uma felicida de. Lídia pediu a D. fora e dentro de casa. . . Terezinha . minha filha. ajudou a desatar o véu e tirar as luvas. o meu faz-me as vontades. dou-lhe t oda a liberdade. que a viúva Campelo achara de m uito bom gosto. Amélia que tocasse alguma coisa. Entrou sacudindo os quadris. a Juanita. que era a valsa da moda . rindo. com venetas de doido. porque o Mendes tinha o mau costume de beber aguarde nte.. disse D. A propósito D. Sabem quem esteve ontem conosco? O Zuza. às vezes chegava tropeçando.. Como estava a Teté? perguntou Da. Amélia perguntou se já tinham ido ao teatro. Terezinha... muito expedita e pronta. Maria tinha ido chamar a madrinha. Falaram de modas.A NORMALISTA Page 21 of 96 ge 21 of 96 . Isso é que é boa vida. meninas. Da. disse a Campelinho: passeios. Deus o permita. gabando-se. Não havia de ser contra minha vontade. D. Terezinha alardeou o seu rico vestido de cetim. como tem passado? Que milagre! Agora todas falavam a um tempo. Ora viva! disse atirando-se nos braços de Da. Como vai. Gabou mui to a Maria: que é uma cearense distinta. O grupo lírico da Naghel . venho morta de calor.. .... Que fossem. sem poder falar. Fui ali à casa da costureira experimentar o meu vestido de cetim. . que era um pulo. que fossem.

A Bellegrandi era um mulherão capaz de arrebatar uma platéia inteira! Que modos. Enquanto são moças s. é para o teatro. morrem p r aí em qualquer pocilga. atalhou a Campelinho. Que fossem .. Eu é para que tenho jeito.. menina.. nem se lembre d http://www. por sinal tinha sido representada cem vezes na Corte! A benefic iada ia fazer o papel de Juanita.. . depoi real para a mortalha. a esmolas.htm 23/12/2012 .. menina. diz que é uma vida imoral. Tolice! Há tanta gente boa nos teatros. Sabe Deus quanto lhes custa uma noite nalgum quarto d hotel. sem um e tal coisa! disse D. ainda encontram quem lhes estenda a mão. Deve ser uma vid a tão cheia de sensações a das atrizes.. porém. jóias. recebem presentes ricos. Vestem-se de todas as formas.com. rifícios. Eu já disse à mamãe. mas ela não quer por coisa algu ma.biblio. coitadas..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. É o que você pensa. Essas pobres mulheres fazem um ror de sac de espetáculo! Acabam quase sempre miseráveis.estava fazendo sucesso. ainda.. Tibis. são aplaudidas e ainda por cima ganham dinheiro à ufa. A última vez que fui ao cir co fiquei encantada pela Estrela do Mar. anéis d e brilhante. que requebros! Domingo ia a Juanita pela última vez em benefício da Aliverti. Era uma opereta interessantíssima... . Amélia.

uma ponta de saudade sincer a. fazer-lhe todas as vo ntades. a qualquer lojista usurário e safado. a preocupação única de seu espírito. a mulher fez-se para o homem e o homem para a mulher. levantando-se muito desconfiada. ela não havia de ser nenhuma freira que ficasse p r aí solteirona . O Zuza preocupava-a como um sonho d ouro. .A NORMALISTA Page 22 of 96 ge 22 of 96 Maria. certo desejo de ter um marido a quem pudesse entregar-se corpo e alma. E lembrava-se do padrinho. depois. Via-se nos braços dele. Comparav a-se com Lídia e sentiase outra. tratá-lo com mais carinho. foi juntar-se às outras que palravam por quantas juntas tinham.. era um rapaz conceituado. E. sempre casta como uma vestal. sen tando-se ao piano. Acharam deliciosa a valsa da Juanita. Ah! o padrinho queria tanto mal ao Zuza. a fim de que ele não ralhasse por causa do estudante. Começava a sentir o que nunca sentira por homem algum. pensava no estudante. Ninguém se lembraria. uma como abstração do resto da humanidade. começou a tocar a Juanita. estimada. a um canto do sofá.. um cheiro . Era sempre melhor aceitar a cartada que se lhe oferecia do que entregar-se aí a qualquer caixeiro do armarinho . ce rta sentimentalidade sem causa positiva. D ora avante ia agradar muito a João. Pela janela aberta entrava uma poeira sutil que punha uma camada muito tênue e pardacenta no verniz gasto dos móveis. Fazia sombra na calçada. muito outra. As últimas notas do piano produziram-lhe uma comoçãozinha. porque.. sem pensar nas horas que iam passando ra pidamente. querida por todos. d envolta com o fumaceiro d a cozinha. com uma languidez no olhar vago. "E quando Da. que ia ensaiá-la. o seu alter e go. voando quase leve com um floco d algodão. quase sem tocar o chão. adulá-lo. Sim. Maria também deu o seu parecer: que era lind a. numa intimidade de amigas velhas. um arrepio na epiderme. de sua origem humilde. de resto. como uma coisa ideal aérea. Que tola não ter escrito logo ao Zuza.. rodopiando numa valsa entontecedora até cansar. A voz da Campelinho timbrava muito fina e metálica. dar-lhe muitos cafunés. Amélia.. Vinha lá de dentro. Dr.. veio-lhe um vago e esquisito desejo de ir-se pelo mundo fora nos braços do "seu" Zuza. Falavam alto. José de Sou za Nunes! Começava mesmo a sentir uma grande afeição pelo Zuza. como uma pena. àq uele Zuza que era agora a quantidade constante dos seus cálculos. arqu ejando ao compasso da música. Ao menos o Zuza tinha dinheiro e posição. perdida num labirinto de reflexões. traduzindo todo um temperament o nervoso e irrequieto.. todo mundo a respeitaria como esposa do Sr. A Lídia tinha razão . noiva de um moço elegante.

. não posso. Amélia.. que entregou à outra. Foi depressa à alcova.biblio.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. engrossando a voz. mas é segredo. disse D. um que emprestava dinheiro a juros. que as despesas eram muito grandes. quase em frangalhos.. abriu com estrondo a gaveta da cômoda e d aí a pouco voltou com u ma nota de 5$000. Um horror! Não se podia num tempo d aquele comer com pouco dinheiro. Não. que pr ecisava de dez mil réis para pagar a costureira e vinha pedir-lhos até o fim do mês. mas sempre se passa. Terezinha compungida.. Também estava muito "quebrada". Em todo caso sempre ia ver se arranjava p ra cinco mil réis. Deram três horas. Era um instantinho. Terezinha. disse muito baixo. Nada de cerimônias. e. o Mendes me espera.com. A Teté não imaginava: tinha em c asa o essencial para a feira do dia seguinte! O Mendes pouco se importava que houvesse ou não dinheiro. A Mendes pediu água. . quase ao ouvido. no fim do mês. de rendas. solicitou D. Três horas! Vou-me chegando. . sim? Pagava sem falta. Disse que os meninos andavam descalços.. . alegou o preço da carne.... Agora fique para o jantar. Jesus! fez D.. é comida de pobre. Tivesse paciência . Terezinha. Só ao velho Teixeira. meninas. O Janjão tinha feito um ror de despesas naquele mês. Tetezinha de minh alma.htm 23/12/2012 . . dando estalinhos c om a língua. Não sobrava nem para um vestido. muito velha e ruça. acariciando a mão de D.gorduroso e excitante de guisados. erguendo-se admirada. Oh! filha. Vim somente para pedir um favorzinho. aquilo é um estouvado. dava graças a Deus quando lhe vinha um dinheirinho do Pará... Era só o que tinha para servi-la. deviam duzentos mil réis. Entraram as duas para a sala de jantar... o Janjão não tarda. http://www. Ora fique.. Jesus! .

Amor com amor se paga. como um foguete na esquina. que o padrinho lhe beijava m ch eio na face. às voltas com a cozinheira. beijou-a perto da orelha. "Padrinho!" agarrando-se à cadeira de mola..A NORMALISTA Page 23 of 96 ge 23 of 96 . teve um ódio imenso àq uele homem nojento que abusava de sua autoridade sobre ela para beijá-la! Fosse outro. continuando cinicamente a ass obiar. Muito obrigada. agora. não sabe quanto lhe agradeço. Qual filha. . de mão p ra trás. guardando o dinheiro na velha bolsinha de couro da Rússia: . não posso.. Apareçam. Ela apenas pode dizer . hein? disse da rua. depois que saíra da Imaculada Conceição. Agora deixe-me ir. nas profundezas de sua alma. porém. tinha a o brigação de submeter-se. ralhando. E desapareceu. e o papai lhe pedira muito que o respeitasse. O Mendes é muito enjoado: fica para outra vez. que uma espécie de instinto ir . D. Às quatro horas entrou o amanuense com a papelada debaixo do braço.. e um bafo insuportável de álcool tomoulhe as narinas. muito suado. . mande um recadinho ao Dr.. comia de seus pirões. provando as pan elas. de repente tomando-lhe a cabeça entre as mãos fedorentas a cigarro. porque estava em sua casa.. Por que não fica p ra jantar? insistiu D. sim? Beijaram-se depressa e a mulher do juiz municipal retirou-se com o seu passo miu dinho. No fim do mês sem falta . ass obiando a Mascote. A princípio até o estimava. . Mendes. Mas. arrepanhando o vestido. . João apenas sacudiu os papeis sobre o sofá foi direto à afilhada. A santa está tocando Juanita? Que mimo. pôs-lhe um grande beijo na face. Jesus! Como se pode ser bonita assim? E sem dar tempo a Maria defender-se. essa andava para dentro. O Janjão está chegando. e. Terezinha. não o achava mau completamente. Maria do Carmo sentara-se ao piano e ensaiava a Juanita. ela teria corr espondido com uma bofetada na cara. Ficou muito séri a a limpar o rosto com a manga do casaco. A normalista sentiu um braseiro no rosto ao contato da barba espinhenta do amanuense. A Campelinho tinha se escapulido: que eram horas de jantar. que fazer? Era seu padrinho. E. devia aturá-lo. Era a primeira vez. O amanuense tinha se aproximado devagarinho. minha santa. Ah! mas dentro.. quase seu pai. Terezinha.

. hein! nada de gritos. debruçada sobre o pi ano. e. que também gostava da pinga e escrevia versos para o Judeu Errante.. Não podia chegar-se a ele.. vê-lo de perto. curvando-se para a frente sobre ela. Eu sou seu padrinho. num movimento abrutalhado. agora que o estudante ocupava um lugar no seu coração enchendo-o quase. sem dar palavra . tapando-lhe a boca.com. porque lá estava o Perneta. desandou a chorar nervosamente. cambaleando. agora na boca.htm 23/12/2012 . dando encontrõe s nos móveis. que usava muleta. ameaçou. aproximou-se outra vez da afilhada. Nada de gritos. que não se banhava. um beijo úmido. com os lábios muito vermelhos. Um homem que não cuidava dos dentes. tomando em demasia. abraçando-a por trás. encará-lo frente a frente. um d os correios. porém.biblio. o padrinho ia-se-lhe tornando repugnante e desprezível. como a polpa d uma fruta. Ele. sem se mexer. selvagem . está ouvindo? Nada de gritos! E Maria. chimpou-lhe outro beijo.. mas o amanuense. .resistível a impelia para o Zuza. sem um profundo e oculto frenesi. Maria quis gritar sufocada. esperando que João se retirasse da sala. posso lhe beijar onde e quando quiser.. http://www.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. babando-a como um alucinado. bateu o postigo com força.. João da Mata tinha bebido sofrivelmente na bodega do Zé Gato onde costumava aquecer os pulmões ao voltar da Repartição. Nesse dia excedeu-se. um bêbedo! Esteve folheando o livro de músicas automaticamente.

.. Queriam alguma coisa? veio perguntar o caixeiro... falando sempre com certo ar dogmático. sujeito pretensioso e pernóstico. Não.. Terminou cansado. "Somente os fregueses de c erta ordem". era Barbosa de Freitas. disse: o que havia era uma troça de malandros e de pedantes muito bestas. onde os fregueses tomavam bebidas. dignos de Victor Hugo. com as paredes e ncardidas. que verve. O João queria que recitasse? .. Foi entusiasmo... prevenia o Zé Gato. Conhecera-o pe ssoalmente... numa saleta escura.. Pois é isto.. O pobre Barbosa de Freitas acabou como o grand e Luiz de Camões na enxerga d um hospital.. que escrevinhavam para a Província coisas tão ruins que até faziam vergonha aos manes do glorioso José de Alencar. Recita lá. . um rapazinho magro... Um boêmio! Fazia gosto ouvi-lo. úmida......... continuou o Perneta.. Estavam no fundo da bodega.... .. recitou de um fôlego o Êxtase Quando às horas silentes da noite.. c om olheiras. e nisto.... E o Perneta. com a voz cavernosa. uma súcia de imitadores que se limitavam a copiar dos jornais da Corte. senhor! fez João da Mata com um murro na mesa. Isto é que é ser poeta! .... O Perneta.. "esse poema de amor". Sim. metido a literato. fez o amanuense emborcando o cálice. sem saída por trás. Na sua opinião o Ceará só possuía um poeta verdadeiramente inspirado .. Doce flauta descanta no ar... doente. que talento! Sabia de cor muitas poesias d ele. cheirando a cachaça. Esse. Quando as vagas soluçam baixinho Sobre a praia que alveja o luar . Que não tínhamos poeta. os cotovelos sobre a mesinha de ferro pintada de amarelo.. menino. sim. que valia por todas as poesias de Juven al Galeno. ventilou uma questão de literatura cearense . Que eloqüência. cantava o que sentia em versos magistrais. mas nenhuma se comparava ao Êxtase. com um acesso de tosse. . disse o amanuense.. . penso eu.A NORMALISTA Page 24 of 96 ge 24 of 96 Num momento deram cabo d uma garrafa em cujo rótulo lia-se este reclame atraente com o visgo: Cumbe legítima. E que loquacidade! Falaram por três deputados brasileiros sobre poesia e política. está a sua maior glória.. cuspindo para o lado. está acesa a lanterna por ora.

mas entendo que o Sr. Não me fales em semelhante gente. Apoiado! .com. que estava cansado de trabalhar gratuitamente para a política. Aquilo só presta mesmo para capacho do presidente.htm 23/12/2012 . Que tal achas o Zuza como poeta? perguntou o amanuense.. . E que tal o presidente? perguntou o Perneta. Os Alvares de Azevedo e os Barbosa de Freitas são gênios que aparecem de século em século.biblio. . E o que se vê hoje? Pedantismo somente. Acha que fará alguma coisa em benefíc io do Ceará? . homem. como sabes. gravata de seda e polainas. no céu da literatura. nunca leu o nosso Barbosa de Freitas. fazem política. Que a política era a desgraça do Ceará. A conversa encaminhou-se para a política e João da Mata tomou a palavra. nada mais.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Os poetas e hoje usam fraque. http://www. escrevem crônicas elegantes. Carlos é um grandíssimo pândego. eu sou governista. porque infelizmente sou funcionário público. Dr. . Q uem chama o Zuza poeta não sabe o que é ser poeta. Homem. . O que queria a gora era dinheiro para acabar de levantar uma casinha no Outeiro. Aquilo é pior do que um cano de esgoto. O Zuza empor calha papel . como certos cometas.

. a Maria? . o lápis d etrás da orelha . a este gov erno sem patriotismo e sem critério! E com esta me vou. Aqui p ra nós..... . ninguém reage. mas.. E adeusinho. seu Perneta. Isto é uma ter ra em que os estranhos fazem o que querem e ninguém protesta. erguendose: . . . Safa! O tempo voa! O Zé. Paulo. Ela só há-de casar co m quem o padrinho quiser. dentro d uma capa de camurça. nós queremos gente séria! Contou então que na seca tinha ganho muito dinheiro à custa dos cofres públicos. Nós precisamos é de homens sérios. . o atual presidente não é . isto é fazer pouco caso do Ceará. limpando os óculos: . explicou João da Mata E saíram pisando em falso. abaixando a voz. . a menina casa sempre com o tipo? . . é muito bem feito para não sermos bestas. Na conta do Perneta.. Que horas tens? O outro puxou um relógio de plaquê desbotado. muito sujo. Mas olha que é um casamentão! . que f ora comissário de socorros. Sim. e. . acrescentou cauteloso. Casa. Quatro menos cinco minutos. acudiu o Zé Gato. . e que os presidentes do Ceará eram uns urubus que vinham beber o sangue ao emigrante cearense. Nós só sabemos ser maus para os no ssos patrícios. a continuar como vai. adeusinho. . Mas olha que o Cearense tem comido o couro ao homem. c os diabos! . É embarcar muita g ente para o sul. arrastando os chinelos. Olha que demos cabo d uma garrafa! Nem mais uma gota. just iça lhe seja . menino. um homem sem juízo.. um idiota. Já cá está. dentro em pouco transforma esta terra numa espécie de feitoria de S. . que isso de política fede. perguntou na rua o aleijado. com um dedo amarrado num pano preto. um leigo. É bem feito! disse o Perneta.A NORMALISTA Page 25 of 96 ge 25 of 96 E noutro tom. por entre fardos de carne seca e caixas de cebola. bota na conta isto: uma gar rafa de branca. forçando a emigração pa ra o sul. Queres mais alguma c oisa? . Tinha assistido a muita ladroeira na seca de 77. Nem que ele viesse coberto de ouro num palanque de diamante. Quem. mas há-de-ser com o diabo! Sujeitos daquela ordem não me entram em casa. Ó João. Qual comido o couro! O povo é que devia dar uma lição de mestre ao governo. seu compadre! Já lá foram quatorze mil e tantos! Isso é despovoar p Ceará.

de chapéu na mão. de preto. Na frente caminhava um padre. marchavam a passo e passo. tac iturnos. indiferente.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. conduzia m o caixão cujos galões cor de fogo luziam ao sol.com. A terra lhe seja leve. Quatro gatos-pingados. Gente chegava às janelas para ver p assar o préstito. abando a cabeça com um ar triste.htm 23/12/2012 . . olhando para os lados. O sino da Sé dobrava a finados melancolicamente. http://www. de estola e sobrepeliz. De quem é? Quem morreu? perguntava-se com mistério. mais um menino de cor de batina encarnada carregando a cruz. Pouca gente acompanhando: uns dez homens cabisbaixos.biblio. fez o Zé Gato.Separaram-se. . Passava um enterro caminho do cemitério.

como se fosse uma grande coisa ela casar com o Zuza! Era melhor que fossem plantar batat as e não estivessem encafifando-a . l onge d aquela gente e d aquela casa. mas o seu desejo. menina. seu coração era livre como as andorinhas. sem que ninguém visse. de calças arregaçadas até os joelhos. Tudo a contrariava agora. enfadando-se por dá cá aquela palha. longe de todo o ruído. alto e bom som. estava cansada de ouvir pilhérias e risinhos tolos. o mai s leve transtorno nos seus planos fazia-lhe vontade de chorar. equilibrando-se. passava muito bêbado fazendo curvas.. Mas. . E. o cabelo carapinha sujo de poeira. tudo o que lhe viesse à cabeça. o negro Romão que fazia a limpeza da cidade. . tímida e nervosa como uma histérica. mas à primeira que lhe dissesse tanto a . pendido p ra frente.. gritando numa voz forte e aguardentada: . não era da conta de ninguém. Quem morreria? pensava . como zumbir d uma vespa enorme que a perseguisse constantemente. 5 Um tédio invencível. para evitar desconfianças. completamente só. tropeçando. a definhar. O ruído que se levantou em torno de seu nome incomodava-a horrivelmen te. Que inferno! Todo o mundo metia -se com sua vida. Começou a emagrecer. Oh!. Ia à Escola para não contrarias os padrinhos. Eu sempre te aconsel hei que o melhor partido era aceitar o amor do estudante. Arre corno!. n ervoso . as brutas. quem diz o contrário? perguntava a Campelinho. baixo. o seu único desejo ser viver só. cabeça baix a. pardacento. Arre corno! e que repercutia como uma verdade na tristeza calma da rua. encostando-se às paredes . num choro silencioso. ziguezagueando. porque queria. um desânimo infinito. o estribilho que todo o Ceará estava acostumado a ouvir-lhe . foi-se apoderando de Maria do Carmo a ponto de lhe alterar os hábitos e as feições. que nem sequer sabiam conj ugar um verbo. numa espécie de deserto. Estava-se tornando insociável como uma freira. assim que o préstito passou. de recolher-se ao seu quarto e desabafar con sigo mesma. No outro lado da rua. foi andando devagar. tinha momentos de completo abandono de si mesma. num lugar onde ela pudesse ver o Zuza todos os dias e dizer-lhe tud o que quisesse. Havia de casar com Zuza. Mas o negro. repetia insistentemente. eram as outras. peito à mostra.A NORMALISTA Page 26 of 96 ge 26 of 96 João da Mata parou à beira da calçada afagando a pêra com os dedos magros e compridos. torto. maldizendo-se. Um garoto atirou-lhe uma pedra. as invejosas. Não era a Lídia. com um desprezo quase subl ime por tudo e por todos.. o Romão..

passeando a cavalo. perguntar-lhe-ia se gos tara da serra. mandasse plantar favas. Nessa noite fez-se muito boa para o padrinho.. num doming o. caçando.biblio. e mais era um imperador! E Maria do Carmo passava noites sem dormir. Cada qual namora com quem quer. Agora. amando-o de longe. umas sem-v ergonhas! Havia de mostrar! Ela é que era uma tola. dando-lhe cafunés no alto da http://www.htm 23/12/2012 . e.. tomando banhos de cachoeira. Durante o víspora es teve perto dele. divertindo-se . mais amável talvez. sem dar a entender o seu grande contentamento. a ver se encontrava alg uma notícia dos excursionistas.com. Mas nada! No domingo seguinte. as normalistas falavam de invejosas. a pensar no futuro bacharel. dizia a Lídia. mais nutrido. que excelente vida! . ia esperar a Província na janela. Oito dias! Tê-la-ia esquecido? Oito dias na serra.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. . se tencionava partir logo para o Recife. Todos os dias. contando-lhe as minudências da viagem. Já era tempo de terem voltado. a folha oficial noticiou que "os ilustres touristes" d eviam regressar à capital no dia imediato. Maria do Carmo sentiu uma alegria deliciosa ao saber que d aí a vinte quatro horas o Zuza estaria de volta. ela. acaricio u-lhe os bigodes. a sua grande felicidade. Que custo. não era nenhuma admiração a Maria casar com o Zuza. se pretendia casar no Ceará. acompanhando-lhe o jogo. Havia já seis dias que ele seguira com o presidente. que viagem sem fim! Aquela demora impacientava-a. lembrando quando ele esquecia marcar um número. demais. Umas namoradeiras que punham-se a dar escândalos com os estudantes do Liceu.. Maria. porém. retrata ndo-o na imaginação. à noitinha. P or quê? Porque ele era rico e ela era pobre? Muito obrigada! Napoleão! tinha-se casado com uma simples camponesa. saberia responder na ponta da língua . chamou-o "padrinhozinho". sim. conversaria com ele.. à primeira que abusasse da sua paciência. mais gordo e mais bonito.ssim (e indicava o tamanho da unha).

Queria tu que estivéssemos a gritar como doidos? fez o amanuense ainda trêmulo da comoção. João esbravejara mu ito contra a rapariga. Maria entregara-se sem um grito. João sentiu logo o sangue subir-lhe à cabeça. mas notou que hav ia no olhar da afilhada um como ressentimento novo. ameaçando-a espancar se ela ousasse "pensar" no estudante. De certo alguma coisa se passava ente eles. por ninharia. Grande foi a admiração e a luxúria do amanuense. D. . Quando os habitués do víspora retiraram-se. perseguindo-a mesmo e notava que a raparig a ultimamente já não era a mesma para ele. como se fossem velhos namorados. olhando o céu. João da Mata chamou a afilhada à alcova. ao voltar da Repartição ou pela manhã antes de ir. . João pôs-se a assobiar de mãos para trás. a o seu temperamento .. Tão calados!. vendo-a triste a uma canto. .. de momento. e. sem um esforço! E suspendendo-a pela cintura. Maria oferece u-lhe os lábios com uma passividade de escrava. Um dia.A NORMALISTA Page 27 of 96 ge 27 of 96 cabeça. Talvez fosse desconfiança. disfarçava na janela. sem a menor resistência. pediu-lhe um beijo na "boquinha". Terezinh a. Terezinha quis atribuir aquele estado à ausência do Zuza. Terezi nha ali vinha pelo corredor. Entretanto. porque João era muito alto. justamente. D. Desde então começaram as su speitas de D. numa exci tação violentíssima. arrastando os velhos sapatos achinelados. Maria conservou-s e calada e séria. às pressas. rilhando os dentes. D. sem dizer palavra. evitava-o. . com força. num ímpeto de carnalidade indomável. nervoso. . Porque? . essas arrelias. antes que viesse D. Esses sobressaltos. num daqueles ímpetos de raiva que lhe eram tão comuns devido à sua natureza irascível. Estavam jogando o sério? perguntou a mulher. e deixou que ele sugasse-os em dois tempos. sem moti vo. fugia de sua presença. bambas as pernas. e. E o mais curioso é que o João agora tinha rusgas consecutivas com a mulher. perguntou-lhe o que tinha. sem erguer a cabeça.. apertou-a contra si . o coração aos pulos. esquivava-se como uma gatinha co rrida pelo macho. com uma solicitude ingênua. pondo-se nos bicos dos pés. Não. Via-o agora muito baba do pela Maria. muito em segredo. sem dizer nada.. Um belo dia rompeu deveras. deixava as coisas no mesmo pé. Terezinha começara a desconfiar das intenções de João da Mata. enquanto Maria. mas soltou-a logo. convidando-a sempre para junto de si. Nesse dia. Terezinha que conhecia certas tendências instintivas de João.

Não acabou a palavra. tresvariado. acrescentou com sua vozinha estridente. sem saber o que fizesse. na sua autorid ade de chefe da casa. O padrinho tinha e nlouquecido.com. Nos seus magníficos olhos cor de azeitona perpassou a sombra d uma desgraça. fulo de cólera. Defronte. em casa da viúva Campelo.htm 23/12/2012 . desandou furioso contra D. Você o que quer é abusar da menina e plantar-lhe um filho no buxo. como petrificada. possessa. cego. arremetendo com a mão fechada.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. ouviu? Se duvidar. qua nto mais dela que não tinha nada com sua vida! . Maria ficou perplexa.bilioso. seu grandis. manquejando com a mão no queixo. os braços em arco e as mãos nas ilhargas: . Eram quase nove horas da noite. na rua. http://www.. . o Lour eiro. E sa. D . E um pavor infantil tomou-a toda. Terezinha foi estenderse lá dentro na alcova. muito trêmula. ferido no seu amor próprio. ponhorua! Palavras não era ditas. cosida à janela. desesperada. ficasse sabendo! Não aturava desaforos de mulher alguma. que lhe fique você Fique você uma mulher no olho da sabendo. pensou. encheu-lhe a boca com uma formidável bofetada que fê-la rodar. dando murros na me sabendo amigada é como se fosse uma fêmea qualquer.biblio. D. Terezinha. Naquela casa quem mandava era ele. soluçando tão alto que se ouvia fora . porque o amanuense. muda. titubeante. estava formada a panelinha do costume . os olhos acesos d um fulgor fosforescente.. Terezinha saltou como uma fera congestionada. a viúva e a afilhada. Mal acordada dos efeitos da agressão.

. Maria do Carmo foi recebida na Escola Normal com um chuveiro i mprevisto de . no vestíbulo que separava a sala de música do gabinete de ciências naturais. bom dia! .. Não era nada. a pujança outonal dos cajueiro s em flor que os liceistas castigavam a pedradas.. . frente a frente. verdeescuras e eternamente frescas.. A praça permanecia numa inquietação abençoada. Mas ao entrar na Escola desapontou deveras. o que sucedera. O diretor ainda não havia chegado. Se precisassem de alguma cosa. Tinha m combinado saudá-la pela chegada do Zuza com esse espírito irrequieto de colegial despeitado que se ap raz em chacotear outro. Maria estava radiante! Que extraordinária alegria infiltrava-se-lhe na alma.. fo rmando grupos. Raparigas de todos os tamanhos. muito curiosa. que e xcelente disposição moral! Acordara mais cedo que nos outros dias. . Seriam onze horas. que as normalistas lhe davam à guisa de presentes de ano. azul e rosa conversavam animadas de livro na mão. espanejando-se toda numa delícia incomensurável. de braço com a Lídia. com as janelas abertas à claridade forte do dia. a desafiar. tinha o aspecto alegre d uma casa de noivos acabada de cri ar-se. . . no pavimento superior. parabéns . trajando branco. era o doido do amanuense que andava aos pontapés.A NORMALISTA Page 28 of 96 ge 28 of 96 A Lídia com um pulo veio saber. abrindo alas. Mas o amanuense tranqüilizou-a: que não era nada. Gente canalha! fez o guarda-livros inalterável. com seus renques de mungubeiras muito som brias. e talvez com uma ponta de inveja a mordicá-las por dentro. uma segunda feira luminosa de Outubro. Loteria do Pará. como se cortejassem uma princesa. coisas de mulher . a um canto do quadrilátero. que fina educação. feliz como uma ave que solta o primeiro vôo. cinze nto. Que educação.. A Campelinho compreendeu que se tratava de assuntos íntimos e rodou nos calcanhare s. Parabéns! Parabéns! repetiam arrastando os pés para trás. pintadinho de fresco. 30 contos! O edifício da Escola Normal. dando . com irradiações no granito das calçadas e uma aragem insensível quase a arrepiar a fronde es pessa dos arvoredos da praça do Patrocínio . muito azul no alto. recebia -se naquela casa! Logo no dia seguinte à chegada do Zuza . coisas de mulher. tinha ouvido choro. como se tivesse de ir a alguma festa mat inal. Maria entrou vivamente alegre. Meninos apregoavam numa voz clara e vibrante: . a algum passeio no campo. .

clamorosa e prolongada.. aquela queria ser madrinho do "primeiro f ilho". da grinalda. Havia um jogo contínuo de ditinhos picantes acompanhado de risad inhas sublinhadas. . sem ver nada diante dos olhos. http://www. cara fechad a.htm 23/12/2012 . Olha a baronesa! . Mas a sua delicada susceptibilida de estremeceu ante a insólita manifestação que se lhe fazia. Começaram a atirar-lhe bolinhas de papel. outra desejava apenas um c opito de aluá. Maria a custo pôde abafar a raiva que lhe sacudia os nervos. . "Aceitava os parabéns.biblio. trombuda. Como ela está grande! . Sua incelência.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. furiosa. coloriram-lhe o moreno claro das faces. muitíssimo obrigada! Queriam debicá-la? Corujas! Fossem debicar a avó!" Uma gargalhada irrompeu do grupo indiscreto. .. mordiscando a pelo dos beiços.com. e uns tons de rosa desmaiados.. Isso são modos! .às colegas. apertada por uma cinta. um ligeiro rubor . Continuava o ruído.. Meninas! fez a Lídia. Uma queria um botão de flor de laranjeira. Maria marcava o compasso com o pé. . Sentou-se à varanda que dizia para uns terrenos devolutos do lado de Benfica. como não? Muito obrigada. uma bonita orquídea no peito. a olhar o arvoredo com um ar afetado de absoluta indiferença. ess outra contentava-se com um beijo na "noiva". toda de branco.

extre mamente bela com o seu vestidinho de cassa. quase todas de livro abe rto sobre as carteiras. Foi como se tivesse dito para um bando de crianças traquinas: . espadaúdo. V ocês estão se excedendo. vagarosamente. carrancuda. a princípio baixinho. Umas ignorantes! saltou Maria acordando. à espera do professor. O diretor. Já basta! disse a Lídia abrindo os braços para afastar as outras. grosso e trigueiro. tal um pastor d ovelhas a velar o casto rebanho. A sala era bastante larga para comportar outras tantas discípulas. Umas idiotas que querem levar a gente a ridículo por uma coisa atoa. olhos pequenos e concupiscentes. Ao entrar o Berredo.. com s inais de bexiga no rosto. E consultando o relógio: .A NORMALISTA Page 29 of 96 ge 29 of 96 . passeando o olhar na sala. cara lar ga e cheia com uma pronunciada cavidade na caixa do queixo. Meio dia! São horas e dar o meu recado. apertado na cinta delgada.. outras pela de ciência s. e o il ustre preceptor sentou-se. deixaram-se ficar em pé.. entrando para o seu gabinete. Ergueu-se e foi para a aula. pontualmente. .. . testa inteligente. O sol obrigou-a a fechar o livro. muito afetuoso. Fez-se um silêncio respeitoso. o Berredo. um sujeito baixo. o diretor! veio avisar a Jacintinha. limpando o suor da testa. e daí a pouco surgiu no alto da escada a figura antipática do diretor. venta excessivamente grande e chata dil atando a um sestro especial. outras. com bonomia p aternal . Ainda hei de mostrar!. depois num crescendo. Com licença... recomeçou o z umzum de vozes. na forma do louvável costume. um homenz arrão alto. olhos m iúdos e vivos. uma feiosa. cabelo grisalho descendo pelas têmporas em costeletas compactas e brancas. barba espessa e rente. lendo a meia voz muito sérias. chegou o professor de geografia. todas simularam levantar-se. Ao meio dia. Maria respirou com alívio. houve um arrastar de pés. e que estava acabando de decorar alto a lição de geografia. quase cobrindo o rosto. d olho vazado. finalmente. Maria ocupava um dos bancos da primeira fila. Tudo tem limite. silenciosas agora. Contavam-se na sala d aula pouco mais de umas dez alunas. com janelas par . Mas assim que o diretor deu as costas. Aí vemo tutu! Houve uma debandada: umas embarafustaram pela sala de música. Cumprimentou o diretor.

Diga-me..htm 23/12/2012 . o seu clima. pilhas elétricas de Bunsen. redomas de vidro bojudas e reluzentes. Somente uma parte da Oceania pode ser considerada um continente. explicou demoradamente e categoricamente a natureza das ilhas australianas. fitando o mestre. em horas diferentes das de geografia. O professor pediu um compêndio que folheou de relance.biblio. muito ventilada. velhas máquinas pneumáticas nunca servi das. com um risinho: . uma só carta geográfica na paredes. muito embaraçada. onde punham sombras escuras peles de animais selvagens colocadas por cima de vidraças que guardavam. porém. no fundo da sala. . Não se via um só mapa.. intactos aparelhos de química e física. senhora Da. os condutores pendentes num abandon o glacial. radiante. as riquezas do seu solo. .a a rua e para os terrenos devolutos. com entusiasmo de touriste. elogiando as belas paisagens claras da Nova Zelândia. batendo com os dedos na carteira. animando-se pouco e pouco. Maria do Carmo: A Oceania é ilha ou continente? Maria fechou depressa o compêndio que estivera lendo. numerados em caixinhas.com. de esfera terrestre. N enhum indício. incompletas. sem o amálgamas de zinco. dando pulinhos intermitentes na cadeira de braços que gemia ao peso de seu corpo. como se chama essa parte da Oceania que pode ser consider ada continente. a sua vegetação opulenta. coleções de minerais. e. a sua f auna..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.. em prateleiras volantes. http://www. Qual era a lição? A Oceania? Pois bem. Era ali que funcionavam as aulas de ciência físicas e na turais. . Perfeitamente bem! E perguntou.

e muito delicado. o Berredo tornava-a mais interessante ainda. menina. Lessem Júlio Verne nas horas d ócio. sem mover-se. um sábio consumado. nem por isso. "Atualmente existem poucos. . disse baixinho. passando a mão cabeluda na barba. "E note-se. ." ." . muito séria. a de geografia.. admirando-o. por trás de Maria do Carmo. com a mesma voracidade. era s empre melhor do que . comendo -se com a mesma satisfação. O pedagogo sorriu." . civili zados. e . Agora se o Zuza te come. explícito. . num tom benév olo: ... sabia atrair a atenção das alunas com descrições pitorescas e pilhérias encaixadas a jeito no fio do discurso.. o bicho tem cara de antropófago. explican do a vida e costumes dos selvagens da Nova Zelândia. "Imaginem as senhoras. Decididamente era um talento. uma moçoila d e pincenez. que horror! Homens devorando-se uns aos outros. são habitadas por selvagens an tropófagos.. capaz de prender um auditório ilustrado. "Muitas ilhas da Oceania.." E continuou a falar com a loquacidade de um sacerdote a pregar a moral." Houve um casquinada de risos à surdina. dizia ele. estirando o pescoço. E no Brasil há desses selvagens? perguntou estouvadamente uma loura que se escon dia na última fila. Credo! fizeram muitas a uma voz. coçando a barba. adeus... Era a sua aula predileta. ouvia com atenção.. Os outros. "As senhoras com certeza preferem viver n o Ceará a habitar a Papuásia.. Virgem! fez Maria com espanto. trinchamos um beef-steak ao almoço.. até amanhã. bebendo-lhe as palavras.. claro. Toma cuidado. o professor de francês e o de ciências . O Berredo. com o mesmo canibalismo com que nós outros. como os da América antes de sua descoberta. achava-o eloqüente. davam sua lição como papagaios. as próprias mulheres não escapam à fúria das tribos i nimigas: devoram-se também. continuou o Berredo. não senhores. . adorando-o quase como se visse nele um doutor em ciências. . Restos de tribos extintas. cujas obras recomendava às normalista s com um "precioso tesouro de conhecimentos úteis e agradáveis"... o Berredo! Gostava imenso de o ouvi r falar. o olhar fixo nos olhos do Berredo . . citando Júlio Verne.A NORMALISTA Page 30 of 96 ge 30 of 96 Maria. um grande espírito. tinha um excelente mét odo de ensino...

. convicto. murmurou a Lídia. "... de conhecimentos práticos. como de costume... o propagandista das ciências.... derreado na larga cadeira de espaldar. Dias depois o Berredo lecionava. fazendo uma mesura. . Excia. muitas vezes impróprias de uma moça de família . mostrando a esplendida dentadura num sorriso fidalgo. . anunciou: "S..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. . . Comprem a Viagem ao Centro da Terra.. rigorosamente. que não significam absolutamente coisa alguma e só servem de transtornar o espírito às incautas. "Eu estou certo. e enc ontrarão neles alta soma de ensinamentos valiosos.perder tempo com leituras sem proveito.. dizia o Berredo.. a seu bel-prazer. Os filhos do Capitão Grant e tantos outros romances úteis. com o http://www. Aposto em como quase todas as senhoras conhecem a Dama das camélias. de que as senhoras não lêem livro ob scenos.biblio.. umas historiazi nhas fúteis de amores galantes. são péssimos exemplos. a Lucíola. o Sr.." Tomou um gole d água. e imediatamente assomou à porta da sala o ilustre personagem. mas refiro-me a esses romances sentimentais que as moças geralmente gostam de ler." O contínuo veio anunciar que estava terminada a hora.. Presidente da Pr ovíncia"." Quase todas conheciam.com.htm 23/12/2012 . .. Vá esperando. e continuando: . quando o contínuo.Entretanto. "Nada! As moças deviam ler somente o grande Júlio Verne.

leste. bigodes torcidos imperiosamente: um belíssim o tipo de sulista aristocrata. verdadeiro tipo d e cearense: queixo fino. inalterável: . imóveis quase. Todas as alunas ergueram-se. embatucada. fria. fria. quantos são os pólos da Terra? Veja como resp onde. o José Pereira e o Zuza. Não se acanhe. Norte. oeste. como se tivesse diante de um juiz inflexível. S. Está acanhada. fronte estreita. bem? Estava agora mesmo... Sofia de Oliveira. Pode continuar. E para s discípulas: . D.. ao dar com os olhos do estudante. Neste caso. Até é uma das minh . Quatro? Pelo amor de Deus! Tenha a bondade de nomeá-los .. que continuasse. Excia. Maria. Estava um pouco queimado da viagem a Baturité. olhos negros e inteligentes. é uma pequena recapitulação. ficou branca. desculpou o Berredo voltando-se para o presidente. Os pólos?. sul. um calafrio gelou-lhe a e spinha.. . As alunas tinham-se formalizado. como sempre. colarinhos muito altos e tesos. V. O presidente pediu que não se incomodasse. Excia. Acompanhavam-no. E este. morena. Diga-me a Sra. gravatas de seda cor de creme. tomou assento entre o professor e o diretor. Não. não deseja argumentar? . . . Obrigado. disse o presidente para o Berredo.A NORMALISTA Page 31 of 96 ge 31 of 96 peito da camisa deslumbrante de alvura. . Como passa V.. . Nova hilaridade . Houve um silêncio.. Risos . não. onde reluzia uma ferradura de ouro polido. José Pereira e o Zuza senta ram-se nas extremidades da mesa. Quantos são os pólos da Terra? O Berredo lembrou-se de fazer uma ligeira recapitulação para dar idéia do adiantamento de suas alunas.. O Berredo desceu logo do estrado a cumprimentá-lo com o seu característico aprumo d ho mem que viajara a Europa. muito respeitosas. de livro aberto . em angulo reto. Quantos são os pólos da Terra? fez ela olhando para o teto como procurando a respo sta. baixou a cabeça. Os pólos são quatro. Sofia de Oliveira era uma pequerrucha de olhos acesos. com medo à chamada. Excia.

. Há uma infinidade de pólos. sufocada. Maria estremeceu. Ora! Adiante.. sua fisionomia transformou-se. que a fixa va. A presença do Zuz a anestesiava-a. embatucando também. Não confunda. tornou para a normalista.biblio. Olhe que são pólos e não pontos cardeais... . Outro disparate: . sem dizer palavra. .br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista..as melhores alunas. Maria do Carmo. incomodava-lhe atrozmente.. Sob a pressão do olhar magnético do estudante.com.htm 23/12/2012 . D. http://www.

. Maria do Carmo? São os dois pólos d a Terra! .A NORMALISTA Page 32 of 96 ge 32 of 96 . O Berredo passou a mão no bigode. e encontrando o olhar faiscante de Lídia: . Maria?. que é o extremo norte da linha imaginária que passa pelo centro da Terra.. Duas lágrimas rorejaram nas faces da normalista ciando com um sonzinho seco sobre a carteira. minhas senhoras. grave. Os seus óculos de ouro.. . Maria! Olhe. A senhora. desesperada. Tenha a bondade de le vantar a cabeça. murmurou o diretor.. vieram out ras. mordiscando a ponta do lenço. Isso acontece. . . Pudores de donzela. muito límpido e translúcidos. desatou a chorar escandalosamente. . com uma lágrima retardada a tremeluzir-lhe na asa do nariz. pediu o Zuza. Perfeitamente! confirmou o professor batendo com o pé no estrado e esfregando as mãos satisfeito. tinham um brilho de cristal puro.. correto e calmo.. dois! O pólo norte . Arrastar de cadeiras e pés. Também está acanhada? . Sempre correto! Maria deixou-se ficar sucumbida. disse o presidente com o seu belo ar de céptico elegante. disse o presidente.. que vergonha. D. Dois: o pólo norte e o pólo sul.. O Zuza ferrou em Maria do Carmo um olhar tão demorado e comovido que chegava a met er pena. Está nervosa. retirou-se com o seu estadomaior. D. zunzum de vozes. Estava numa das suas crises nervosas. Passe adiante. e Maria.. D. que não so ubera responder uma coisa tão simples. que humilhação! pensava. Sofia? Está ouvindo D.. de cabeça baixa. a outra extremi dade diametralmente oposta. Alguém murmurou ao vê-lo passar: . Sente-se incomodada? tornou o Berredo. desapontado.. disse mostrando os dois dedos abertos em ângulo. e o pólo sul.. Estou satisfeito. compadecido. revoltada contra si mesma. Quantos são os pólos da Terra? . erguendo-se. outras. e S. Dois. Outras duas lágrimas acompanharam a primeira. Trazia na b otoeira do redingote claro (o Zuza gostava de roupas claras) uma flor microscópica. Excia. isto é. . cobrindo o rosto com seu lencinho de rendas. Então. eis aqui está! Está ouvindo.

com o futuro mais ou menos garantido. http://www. obrigada a suportar os desaforos d u m padrinho muito grosseiro que até a proibia de casar. que estava na parede.. logo a Lídia! O Zuza agora ficava fazendo um juízo muito triste a seu respeito e não a procuraria mais. sem ver. e ela? Era como uma gata borralheira. Ah! era muit o tola decididamente! E jurava consigo "não ter mais vergonha de homem algum"..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. desabotoando os colchetes com espalhafato. amando. Sim. hipócrita. sozinha. impaciente. gozando. está visto que h avia de ter um fim muito triste. e atirou-se à rede sol tando um grande suspiro. bateu a porta com força. com o olhar. A Lídia essa parecia-lhe uma desleal. e m mil outras coisas por associação de idéias. Todas tinham seus namorados. fugir para for a do Ceará..htm 23/12/2012 . suspirava tomada de desânimo. numa velha oleografia do "Cristo abrindo o s braços e mostrando o coração à humanidade". na "figura triste" que fizera na aula. Nem amigas tinha. sem pai nem mãe. Uma vez no seu discreto quartinho.Não saber quantos pólos tem a Terra! E quem havia de responder? A Lídia.. Estava cansada de viver naquela casa. inconsolável. voltando à casa sem Lídia.. Pediu licença ao professor e retirou-se antes de findar a aula para evitar os grac ejos das colegas. aos empuxões.. não viram como ela tinha dado o quinau na aula? Uma ingrata. Era uma desgraçada.. Esteve muito tempo a pensar no acadêmico. vivia m felizes. acaçapada. fingida. despindo-se às carreiras . O verdadeiro era fugir com o primeiro sujeito que lhe aparecesse.com. todas tinham seu dia de felicid ade. ir de uma vez..biblio... até ficar em camisa.

respirando levemente. contra Deus. No Ceará não havia outro homem que usasse flor na lapela. pensamentos de colegial estou vada. como o entrudo. custasse o que custasse. simples. custe o que custar. Estava claro. Começou a sentir uma ponta de enxaqueca e caiu numa madorna. que a diatribe. ansiando-se por uma vida feliz. Conclusão: o redator da Matraca não só ia engolir o papelucho.. idéias extravagantes. com a mesma facilidade com que tomam uma xícara de café. é preciso que alguém se levante! .. ameaçando urbi et orbi fazê-lo engolir o número do pasquim que trazia versalh ada torpe sobre o namoro do Trilho de Ferro. num desespero febril. Se é costume desta terra os indivíd uos se insultarem mutuamente. A camisa fina. ora m ergulhando a vista numa telha de vidro. Cada cidadão aqui é uma verdadeira Matr aca. a infâmia. independente. Acudiram-lhe reflexões absurdas. O insulto nesta terra é um div ertimento como qualquer outro. mostrav a toda a perna roliça. sem depressão. o insulto. não precisava de aprender em colégio. que andava a cavalo mais o presidente da província. arqueando-se no joelho. os braços cruzados sobre a cabeça. livre de cuidados ao lado de um ho mem que a soubesse compreender. arregaçada por descuido até a parte superior da coxa esquerda. e através da qual brilhava um pe daço do céu sem nuvens. por exemplo. inquieta na rede. meu Zuza. referia-se à sua pessoa. que havia no telhado. . Isto dizia-lhe o José Pereira na redação da Província. Estava muito bem e ducada.. virando-se revirando-se. claríssimo. dizia. deitada de costas. cheia. pílulas! é preciso dar ensino. que lhe fizesse todas as vontades. fácil e positivo. ora fitando com olhar piedoso a imagem de Cristo. contra a sociedade. já não era criança. espécie de clarabóia. morena. e o único meio. contra tudo . era ele. Não te importes. Por seu gosto não iria mais à Escola Normal para coisíssima alguma.. Grandíssimo canalha! Mas no Ceará não se faz reparo nessas coisas. mas o Zuza recalcitrava: Eu?! Hei de tomar um desforço. mas também apanhar de rebenque no focinho. de se ensinar um p atife é dar-lhe de rebenque na cara. quase transparente. Zuza.A NORMALISTA Page 33 of 96 ge 33 of 96 E revoltava-se contra os padrinhos. 6 O primeiro cuidado de Zuza ao regressar da excursão presidencial a Baturité foi ajus tar contas com o redator da Matraca. o estudante. não te dês cuidado. filho de titular. como uma criança. traindo a penugem rala das axilas.

dizendo-se "contempo râneo de Rocha Lima". Aos sábados publicava no rodapé do jornal fantasias literárias. sempre trazendo a mesmíssima sobrecasaca! E o chapéu? Sempre o mesmo também.. comprar um fato novo? Então.É bobagem. Toda a gente toma a defesa do réu e aí fica a vítima do insulto com ca ra de besta. Pois o Sr. Começara vida pública no Correio. Esse José Pereira. Dele é que se dizia que fora surpreendido em flagrante adultério com a mulher do juiz municipal no Passeio Público. fisicamente. como carteiro. José Pereira não podia. ficasse em casa. filho.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Que diabo! um sujeito inteligente. a mesma barba espessa negra cobrindo quase todo o rosto. Lá diz o rifão: quem não quer ser lobo. capaz. sem grandes sacrifícios. e aquilo assim. certo aprumo pedante que não condizia com sua velh a sobrecasaca de diagonal cujo estado incomodava deveras a alta sociedade cearense. que o público digeri a à guisa de pastilhas de Detan. em cujo caráter tornou-se geralmente admirado por seus folhetins alambicados. com ares de fidalgo avarento.htm 23/12/2012 .com. na opinião da http://www.biblio. É o que é. e agora aí estava feito redator da Pr ovíncia. cheio de corpo. os mesmíssimos olhinhos vivos e concupiscentes. redator de um j ornal. Cedo José Pereira começou a inchar como a rã de La Fontaine e a julgar-se. que diabo! não aparecesse entre as pessoas de certa ordem. olá! muitíssimo capaz de fazer as delícias de qualquer sociedade inte ligente e ilustrada. um escândalo que por muitos dias serviu de pastos a boticários e b odegueiros. fosse mais modesto. mesmo com certa gula pelo mulherio elegant e e pela burguesia sentimental e piegas. com efeito. "um talento".. dir-se-ia irmão gêmeo do Berredo da Escola Normal. contos feminino s em estilo 1830. certa prosápia que ele afetava em toda a parte. um grande escritor. aquela sobrecasaca sórdida escandalizava-a como se escandaliza uma donzela diante d uma estát ua nua. porque todo ho mem de talento. "amigo de Capistrano de Abreu". Daí certo ar autoritário. trigueiro. Sim. Alt o. um triste chapéu de feltro co m manchas oleosas! Oh! a respeitável sociedade cearense exigia primeiro que tudo decência no t rajar. histórias dissolutas que eram lidas com avidez.

levava sempre. o . José Pereira era casado. Dizia-se "aí vai o José Pereira! quem diz "aí gênio!" E ele saudava a todos convictamente. declarando-se hugólatra incondicional em uma apreciação que fizera do grande poeta. cento e cinqüenta mil réis por mês. rebentasse uma revolução. é o Sol da Humanidade. defr onte do abajur de papelão. Pereira sabia dar um laço na gravata. quer fosse a uma festa inaugural. A fama " como vai um chapéu de José Pereira encheu depressa toda a cidade. A literatura é que o absorvia. Nesse tempo o redator da Província ainda era calouro em política. e também não ignorava como se calça uma luva. Em fins de 1886 José Pereira conservava-se ainda na Província. invariavelment e. propunham-lhe abrir uma subscrição para a compra de um paletó novo e de um chapéu idem. lá isto sabia. a mesma sobrecasaca surrada e o mesmo chapéu ruço! Um homem de talento. deve ter sempre uma casaca à ultima moda. Conhecia Dumas pai de cor e salteado. às vezes. ele conservava-se a ler. com uma pequena e insignificante diferença é que ele já não e ra simplesmente um "talento fecundo". no seu modesto gabinete de escritor pobre. o Mestre. O artigo concluía deste modo: "Vitor Hugo é o Cristo da legenda transfigurado em profeta moderno. deve ser enfim um sujeito "correto" na acepção mais lata da palavra. A sociedad e cearense. O Sr. porém. mas também um fecundíssimo canalha. Amemo-lo como a um Deus!" Isso produziu efeito entre os literatos contemporâneos. conforme os figurinos. Depois entregou-se a ler os Miseráveis. ignorava que o Sr. sem gosto. Tudo nele é grande como a natureza.A NORMALISTA Page 34 of 96 ge 34 of 96 sociedade cearense. mas (e isto é que preocupava a sociedade cearense) o Sr. tinha filhos e ganhava apenas o essenc ial para o seu sustento e o da família. Os Miseráveis são a apoteose de todas as misérias humanas. em todos os seus requintes. tocando de leve a aba mole do preto de massa. deve acompanhar a moda em todas as suas nuances. virando páginas. fora o seu primeiro "mestre". era a mesma. Os seus amigos. que não dispensaram elogios ao "valente folhetinista" da Província. mu dando logo o rumo da conversa. Dava o seu voto e nada mais. como um dos principai s redatores. quer fosse a um bail e de primeira ordem. Vitor Hugo . gracejando. tinha espírito e respondia-lhes ao pé da letra. José Pereira. quer fosse ao teatro. um requintado "sedutor de mulheres casadas". Um livro novo era para ele a melhor novidade: caísse embora o ministério . uma ninharia. o que não se admite. devorando a obra como um alucinado. A sua fama não decrescera. Ele é todo um sécu lo. José Pereira. para os "momentos solenes" . porém.

Mendes. queres quebrar a cara ao redator da Matraca! dizia ele ao Zu za. José Pereira podia ser um rapaz alegre. Demais. não pode compreender a vida sem o amor. decididamente. disti nguiam-se a mulher de João da Mata e a do Dr. divertidíssimo. jovial e espirituoso. Então. é. Porque o fato d um homem apaixonar-se facilmente por muitas mulheres ao mesmo tempo ou em épo cas diferentes não quer significar que esse homem seja um sedutor e um patife. ao contrário.. Qual desprezo! Não se mata com desprezo um réptil venenoso. Havia as viúva s. tanto ao homem como à mulher.htm 23/12/2012 . Eu é como tenho res olvido as questões desta natureza. escultor ou poeta.com. pintor ou músico. o diabo não é tão feio quanto o pintam. um excelente rapaz e um belo caráter. plena liberdade de amar ao próxim o como a si mesmo. em suma. mas o casamento. e o artistas.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.. longe de ser um atentado contra o livre arbítrio da s partes. -. mas. Mas que dúvida! Quem quer que fosse o verrinista havia de ficar sabendo de quantos paus se faz u ma jangada. E demonstrava que o casamento. pisa-se-o.que afinal de contas não o prejudicava assaz no conceito do mulherio. José Pereira e ra artista. casadas e solteiras que o defendiam tenazmente.. homem.Bem. uma instituição que concede. Entre as que adotavam a prática destas teorias tão abstrusas quanto originais. reduz-se-o a papas. diziam elas. Isto é o que fazem os espíritos superiores. Mas olhas que é uma imprudência pueril. Quando o insulto vem de baixo a gente deve responder com o desprezo. Sabes quem é o biltre? http://www. O desprezo é a arma invencível dos espíritos superiores.. Não. amigo das mulheres vá. --Mas é um homem casado. profligavam as outras.biblio.

Ia concluir o curso. A vida é uma comédia. mas tão depravada. àquelas horas esta ria talvez às voltas com o minotauro de que fala Balzac. Aquele arzinho ingênuo. disse que estava aborrecido de mulheres que se entregavam facilmente. acendendo um cigarro. Dizem ser um tal Guedes. Onde fica tipografia do jorna leco? Na rua de São Bernardo. uma verdadeira exceção no meio d e uma sociedade roída por quanto vício há no mundo. retorquiu o outro. Aquilo é para a gente namorar. encher de beijos e pernas p ra que te quero! És muito calouro ainda nisso de amores. Ora. Era uma rapariga esplêndida. estudam anatomia humana e tomam cerveja nos cafés.. pobres ou ricas. vulgo P ombinha. sem essa tendência fatal das mulheres modernas para o adultério. Há de cair como mosca. uma menina que até chorava na aula simplesmente por não ter respondido a um a pergunta do professor! Uma rapariga assim era um caso esporádico. guardando-o resolutamente. menino.. um trocatintas. A Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha. tão di ssoluta que acabou fugindo com um jóquei do Prado Pernambucano. To das elas sabem mais do que nós outros. mas inocente. tinha gasto muito dinheiro. Lêem Zola. homem? . com ares de latrina Guedes (Pombinha) . detestava-as. É dedicado à mesma? Certamente. porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonh a e menos bandalheira. um sujeito reles.A NORMALISTA Page 35 of 96 ge 35 of 96 Homem . Maria do Carmo parecia-lhe uma criatura simples. se não fosse esperto. pensar ia seriamente no caso. uma espécie de toca imunda. Sabes que eu sempre fui muito correto nos meus amores... aqueles olhos de madona tradu zindo uma alma cheia de sentimentos bons. Aproveita a tua mocidade. rua de São Bernardo. e... Mas é uma pobretona. agrada-me. como lá diz o outro. francamente. um negro! Quanto às mulheres de vida alegre. creio eu. hein? Não. filho. um miserável que nem vale a pena de um escândalo. Então a s tais normalistas. mas. enfim. Não vale a pena? Quebro-lhe a cara. tudo nela. casar com uma menina ingênua e pobre. A pequena está pelo beicinho. Em Pernambuco namorara a filha de um barão e.. benza-as Deus. eu te garanto. É o que tu pensas. quando voltasse ao Ceará. O que. deixa-te de piegu ismo. Diabos me levem se eu não faço uma estralada hoje. Hoje não há que fiar em moças. Se i de uma que foi encontrada pelo professor de história natural a debuxar um grandíssimo falo com todo s os seus petrechos. são verdadeiras doutoras de borla e capelo em negócios de namoros. confesso-te que não o conheço. Então o Zuza. Um divertimento... ora se quebro.. Mudando de tom: Quero que publiques hoje o meu soneto A volta. Muito bem! E o Zuza tomou nota no seu canhenho.... sou muito capaz de casar.. preci sava casar. deve sair hoje infalivelmente.

Oh! Senhor. os tipógrafos compunham atarefados a matéria do dia. O escritório da Província estava quase deserto. Por cá também se dão escândalos como em Pernambuc escândalos de pasmar a um sacerdote da moral. enquanto lá dentro. cavalgando o pincenez.biblio. Pois olha eu supunha isto aqui uma s antidade..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. A calor abafava. Creio até que já tem filhos.com. por sinal acabou amigando-se com um bodegueiro de Arronc hes e lá vive muito bem com o sujeito. É que há muito tempo não vinhas ao Ceará. como o filho de meu pai. fumando. Apenas o José Pereira e o estudante co nversavam amigavelmente..É o que estou a dizer-te. Seriam duas horas da tarde. nos fundos onde ficavam as oficinas. http://www.htm 23/12/2012 . então ao que me vai parecendo. sentados um defronte do outro à mesa dos redatores. está muito adiantada a nossa pequena soci edade! Exclamou o Zuza muito admirado.

um velho traste que fora da Persev erança e Porvir. disse o outro. Já te falo. depois de acender a ponta do c igarro. outro colaborador da Província. todas as asserções do meu invej oso contendor. E retirou-se fazendo piruetas com a bengala no ar. do Amazonas. Bem. Hei-de convencer ao zoilo do Cearense. recomendou o redator. como quem toma o peso a alguma cousa: Aqui está: hei de rebater uma a uma. "Não sabia.. levantando-se. Plagiador.. Falta matéria? Perguntou José Pereira.. Tem paciência um pouquinho. não senhor. Addio. disse o Castrinho entregando a papelada. Vinha trazer a resposta ao crítico do Cearense que o chamara plagiador de obras alheias. Guedes.A NORMALISTA Page 36 of 96 ge 36 of 96 Um rapazinho raquítico. A coisa é simples. que estava à . continuando o trabalho. Um jornal d o Sul O Cometa comparara-o até a Olavo Bilac e a Raimundo Corrêa. e eu o poeta consciencioso e moderno que não se limita a cantar Elviras e a copiar Lamartine. não vás fazer asneiras. não. murmurou José Pereira molhando a pena. também poeta e ami go particular de José Pereira. Porque não? Hei de provar à evidência que não preciso plagiar a ninguém. com manchas de tinta no rosto e um ar amolentado. por a+b que ele é quem é plagiador. Mas olha. que tinha talento para dar e emprestar a toda a caterva de verse jadores cearenses? Havia de provar o contrário. não te quero interromper. a besta. "atestado eloqüente de uma luta de heróis" como dizia o Zuza e. José Pereira derreou-se na cadeira de espaldar. Aqui está o primei o artigo. veio trazer as provas do expediente do governo. ia ver". Imediatamente entrou o Castrinho. hein? Não. O dia bo das provas. murmurou José Pereira. ele.. em mangas de camisa. sobre as Flores Agrestes. Preciso acabar com iss o. encarando-o. o ignorante. porque desse modo o público ficaria sabendo quem eram os imitadores. É de arromba! O Castrinho sacou do bolso do paletó de alpaca um calhamaço de tiras de papel gordur osas e sacudindo-as. do Prata. autor das Flores Agrestes publicadas há dias e que tinham sido muito bem recebidas pela crítica indígena. O verdadeiro talento é sempre vítima do despeito das me diocridades. Então temos polêmica? Perguntou José Pereira sem levantar a cabeça. o invejoso. sem dó nem piedade. Sim. disse o Zuza. porque tanto sabia burilar um soneto como manejar a prosa. É um criançola esse Zuza. os parasitas da poesia nacional. Até estimara a provocação do Cearense. revendo as provas. Inveja. E s aiu voltando imediatamente: que o jornal estava completo. ali e stava o juízo de toda a imprensa do Brasil. E terminando a revisão: Vejamos isto. continua. Ali estavam o juízo da imprensa fluminense. vou à casa do Sr.

Olha que quem escreveu vale o que escreveu. que ti ve o aplauso da quase totalidade da imprensa brasileira. E estreitando o Castrinho contra o peito: Tens talento como um bruto. menino. que ainda hás de vir a ser um grande poeta.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.biblio. Tinha a epígrafe As Flores Agr estes e a Inveja Furiosa. Homem.com. devorou com olhar protetor a série de argumentos mais ou menos esma gadores com que o outro pretendia aniquilar o articulista da folha adversa. Magnífico! Exclamou José Pereira. eu. Desta massa é que s e fazem os Byron e os http://www. que pretendeu obscure cer o meu merecimento". continua. ou o zoilo do Cearense. Castrinho.beira da mesa. Dá cá um abraço. caramba! Continua. e concluía nestes termos: "Voltarei à questão para esmagar com a lógica irrefutável da verda de o ousado e néscio criticista que me acoimou de plagiador.htm 23/12/2012 . O público verá qual de nós tem razão. levantando-se.

linfáticos. o abocanhasse outra vez. O melh or era.. em mangas d e camisa. todo inteirinh o. Não valia a pena abrir luta com um pasquineiro. Apelava para a reincidência do foliculário. Se ele.. Vieram-lhe saudades do Recife. mordendo cigarros Lopes Sá. o Prado aos domingos. com uma bola de vidro n o alto. os passeios. Absolutamente não. de cididamente. e já se ouvia o barulho do prelo lá dentro imprimindo a folha governis ta. então. metido no inseparáv el gorro de veludo bordado a ouro e retrós.. em forma de quiosque chinês. inquietos. unicame nte dele. Afinal de contas era provocar um escândalo inútil. com um nojo do Ceará. impreterivelmente. um ou o utro transeunte macambúzio. debaixo d uma atmosfera equatorial. também em arame. hein? Adeuzinho. à espera que o bonde passasse. Vendedores de jornais esperavam a Província. em que necessariamente um dos dois havia de sai r ferido. como aconselhara o José Pereira. uma espanhola com quem estive . defronte da casinha de banhos. Estalava à distância. a questionar por dá cá aquela palha. Uma vidinha estúpida aquela! Pensava o estudante estendendo-se na rede. acabrunhadora. e esteve considerando um instante.. Suava-se por todos os poros e respirava-se a custo. De que lhe servia ir onde estava o Guedes e quebrar-lhe as costelas a bengaladas ? O rapaz podia repetir a agressão e aí estava o conflito sério. porém. Adeus. e alguns pobres diabos arrastando-se a pedir esmola. quebravalhe a cara. Lembrou-se da sua última conquista amorosa a Rosita. de chapéu de sol. dar o desprezo ao cão. amarelos. Zuza. O coronel divertia-se tranqüilamente com a passarada do viveiro. caixeiros que atravessavam a rua ligeiros. colocado no quintal. turbulentos. Amanhã. Morria-se de tédio e calor.. paternalmente: Queres jantar comigo? Obrigado. Não esqueças o artigo. Oh! O Recife. em sobrecasacas sórdidas. um rapaz de posição. os belos pi queniques a Caxangá. num ritmo cad enciado e monótono. Era amigo de pássaros e tinha-os magníficos em gaiolas de arame pendu radas na sala de jantar. o canto estridente e metálico d uma araponga. bocejando preguiçosamente de braços cruzados. além do viveiro. vinha a polícia e a vergonha era dele. A cidade permanecia na sua costumada quietação provinciana. E àquilo é que se chamava terra da luz! Seguiu para casa preocupado com essas idéias. ve-lo-ás na segunda página. Ao dobrar a rua da Assembléia o Zuza parou. Empregados públicos voltavam das repartições taciturnos. Pouco movimento na rua do Major Facundo. à porta da redação.. cujo eco repercutia em todo o âmbito da pe quena capital cearense. E logo. amigo do presidente. Província estúpida! Estava doído por s e ver livre de semelhante canalhismo. muito cheia de claridade . Hás de permitir que te agradeça. à espera do Progresso. o estômago a dar horas.A NORMALISTA Page 37 of 96 ge 37 of 96 Vítor Hugo.

. a cearense do Trilho de Ferro.biblio. quadros do paganismo. "passa da" por todos os estudantes da academia. Começou então a fazer considerações sobre Maria. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Ham burgo. Um peixão! Morava na Madalena. Levantou-se em ceroulas. A rapa riga compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. t oda ternura cobrindo-o de beijos.. um chalezinho de porta e janela com varanda. anéis de brilhante. E a alcova? Um ninho.. Um horror! No Ceará não se encontravam mulheres públicas de certa ordem. assim como apalermada. Os rapazes viviam se queixando de moléstias secret as. esplên dida: era argentina.ra seguramente uns seis meses. mas uma tola que não sabia tratar com rapazes educados. saudades dos banhos de mar em Olinda. baixinha e sem vergonha..htm 23/12/2012 . Além disso um nome de matuta Maria do Carmo. legre de rapazes endinheirados e limpos. Achava-a até parecida com a Franzina. não. mas Maria do Carmo!. Ainda se fosse Maria Luiza.com. com um rico leque de plumas. uma rapariga de Pernambuco. muito bem vestida. A sala de visitas era um mimo com sua mobília mignon de assento estufado. Tudo era uma récua de meretri zes imundas. um perfeito ninho de amores. sem colarinho um deboche! E uma saudade imensa invadia-o. saudade da república.. na Madalena. forrado a papel sangue de boi e jar dinzinho na frente. Mas mesmo muito parecida. também morena e d olhos cor de azeitona. agora é que se lembrava: era a F ranzina. Uma noite deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela. sozinha num camarote. em mangas de camisa. http://www. Que de cerveja e ceiatas e passeios de carros e pagodeiras nos hotéis! Relembrava a primeira noite que passara com Rosita. espreguiçando-se.. sentando-o no colo ela de pegnoir de fustão com fitinhas azuis. carregadas de sífilis até os olhos. suspendendo-o nos braços como se levantasse uma criança. bibelots. indiferente a tudo. uma troça a Depois veio-lhe à mente a normalista. Muito bonitin ha. uns olhos matadores úmidos de sensualidade. Zuzinha era como ela o tratava. piano. Lá por ser pobre. é verdade. mas parecia-lhe tão at rasadinha. e ele à frescat a. tinha feito um figurão. saudade da Rosita. para acender um cigarro.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. por sinal tinha tomado muita champanhe.

um sujeito inimigo do Brasil. no asseio do corpo. Tal o "gabinete" do Zuza. como no das ações. em sentidos opostos. a seu ver. Em política era o seu ídolo. um livro que revelava o grau de adiantamento da literatura brasileira. um sofá e uma mesinha redonda. Um livro importante. "Não queria. o seu remanso de estudante cuidadoso. não deixando a desejar o s melhores dos escritores naturalistas portugueses. como em muitas outras coisas. dizia ele. acentuando mu ito o é. Certas palavras tinham um encanto particular a seus ouvidos. Preferia um churrasco à baiana ao "tal" Sr. mas a boêmia que não cospe no assoalho e que toma banho ao menos uma vez por dia. em tom de recitativo. Uma obra de arte reconhecidamente boa era. No papel claro das paredes destacavam-se lit ografias encaxilhadas de poetas célebres e o retrato de Gambetta. Em cima da mesa números avulsos da Revista Jurídica confundindo-se com jornais ilustrados. e. isso mesmo porque o grande épico era uma "glória universal". era correto e o pai o louvava por essa qualidade especial de se p ortar com a máxima inteireza. Ma cab ine à coucher. sacudindo o romance sobre uma cadeira. dizia o Zuza mostrando aos amigos esse interior confortável de boêmio rico. cadeiras. g abava. O estudante. De Portugal. colocada no centro e coberta c om um pano azul. na postura habitual em que o grande orado r falava ao povo. seu Z uza" como se fosse ele próprio o autor do livro. Os Lu síadas? eram uma "epopéia imortal". olhando para os lados. Depois. no auge do entusiasmo. pausadamente. Gostava de frases cheias e retumbantes. uma epopéia. Nisto de assei. dizia o estudante. colocava-o acima de Mirabeau. e um port a-retratos com as fotografias do coronel e da esposa. Adora va a boêmia.A NORMALISTA Page 38 of 96 ge 38 of 96 O quarto era pequeno. Tudo dele era arrumado e limpo. Tinha aberto ao acaso seu romance querido A Casa de Pensão. aplaudindo o romancista com entusiasmo. porém. Toda a mobília do pequeno compartimento consistia numa estante envidraçada. mas arranjado com certo decoro e bom gosto. levantou- . nunca passara a vista sequer num romance de Eça ou numa crítica de Ramalho. O C risto e a adúltera de Bernadelli? Uma epopéia nacional! Começou a ler A Casa e Pensão em voz alta. não podia tragar coisas que lhe provocassem vômitos". fosse qual fosse o gênero d ela. O Zuza herdara essa qualidade característica dos Souza Nunes o amor à ordem. exclamando de vez em vez: "Bonito. Camões exclusivamente. de lã. Comunicava com outro quarto menor onde estava a cama de ferro e uma rede. Este exagero do Zuza deve se levar a conta do ódio injus to que ele votava a tudo quanto cheirasse a lusitanismo. repet indo frases inteiras. que não pedia a ocasião de nos ridicul arizar. Pronunciava a palavra epopéia com a boca cheia. Camilo Castelo Branco. A claridade entrava p ela varanda e ia morrerem penumbra lá dentro no segundo quarto.

O Zuca enfiou a sobrecasaca às pressas. Era como se foss e de casa. dava muita honra à Sra. pudera! Ia enfim ver-se livre do perigo de ficar para tia. tolerante em extremo e senhor de seu nariz. e que lhe deixava para mais de cinqüenta por cento. pois não? Era o que faltava. De repente: a normalista que não lhe tinha respondido a carta!" Muito atrasadinhas as cearenses. João da Mata lhe dissera uma vez. não podia consentir que ninguém a difamasse impunem ente. vira muit as vezes. surdo como uma pedra aos boatos mais ou menos mentirosos que cor riam sobre a vida privada de D. O mais eram palanfrórios. como se já fizesse parte da família. perfumou-se. Que m ais queria ela? E defronte do espelho. excelente empregado. Conhecia bem o gênio e a vida de D. Em suma. 7 "E À proporção que se aproximava o dia do casamento de Lídia com o guarda-livros. vivendo modestamente do minguado montepio de seu finado marido. escancarando a boca num bocejo largo. a viúva era um modelo de mãe de família.se espreguiçando-se com estalinhos nas articulações. Amanda. no caráter de futuro genro da viúva. A Campelinho não cabia em si de c ontentamento. natural de bom gênio. E concluía: " Por amor de Deus . Até então só tinha motivos para louvar o procedimento da sua futura sogra. De resto o Loureiro era um ótim o rapaz. Absolutamente não acreditava em tais boatos. D. mesmo porque o seu emprego não lhe deixava temp o para isso. que a Campelo recebia fora de horas o Batista da feira. Que horas seriam? O despertador de níquelmarcava quatro e meia. batendo-lhe amigavelmente no ombro. afora um negociozinho de rendas que tinha no Pará. o negociante entrar cosido à parede. Estava convidado para jantar com o presidente às cinco pontualmente. senhor. Maria do Carmo não lhe dar atenção! Mas havia de cair por força.. com os próprios olhos. Histórias! O amanuense fazia mal andar propalando suspeitas que podiam prejudicar muito os créditos da pobre senhora. Tomé: ver para crer . pensava. ao ouvido. Começou a vestir-se assobiando trechos de música seródia. Era uma questão de tempo". e ele. Maria do Carmo escrevendo-lhe uma carta amorosa. endireitou a gra vata e até logo foi-se como um raio. q ue não se iludisse. a Sra. as visita s d este à casa da viúva Campelo iam-se tornando de mais a mais freqüentes. como um gato. Cinco horas. alta noite. era da escola de S. Ô diabo! Tinha-se descuidado. Amanda para desprezar semelhantes falsidades. que ele. Não. dizia ele. se por ventura alguém procurar abrir-lhe os olhos. pondo a gravata: "Era um rapaz chic. João da Mata. Nunca se dera ao trabalho de averiguar se efetivamente o procedime nto de sua futura sogra merecia censuras da gente honesta. coitada. D.

biblio.http://www.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012 .com.

vago e in distinto quase. assanhando-os para tornar a alisá-los. com ar de surpresa. num aconchego muito íntimo. lá ia ele dar seu dedo de palestra com a noiva.. quase abraçados. com hesitações trêmulas na voz embargada pela sensuali dade. toda cautelosa. Apenas. Todas as noites. D. Houve um fru-fru de vestidos machucados e o baque de uma cadeira. ao longe. caminho do H OTEL DRAGOT.. pisando devagar. que era muito feio entre noivos. ela apoiada sobre seus ombros. que tem? Perguntou ele com a voz trêmula.. tornou a Campelinho. Oh! não. Tem paciência. isso não! Fez ela esquivando-se. tinham mu ito tempo depois. tão natural!. Não fazia mal. ficavam os dois horas e horas na calçada.A NORMALISTA Page 39 of 96 ge 39 of 96 não falassem mais em tais coisas. Deixa. nem o vôo pesado de um morcego: tudo silên cio. Amanda entrava propositadamente para os deix ar à vontade naquele arrebatamento de noivos sadios e vigorosos.. ele babando-se de satisfação ao contato palpi tante das carnes rijas e abundantes da sua futura mulher. isso não. Desde então começou a retirar-se muito tarde. Momentos depois o Loureiro despedia-se triunfante. beijou-o na face áspera de espinhas. fazendo-se meiga e apaixonada. estendia a mão por baixo. devagarinho. Deixasse d aquilo. Não havia necessidade.. Era um instantinho. um fluído estranho no olhar terno. Com os lábios pregados à boca da Lídia. arregaçand o-os. Não. Ora! Uma coisa tão simples. e uns restos de luar a extinguir-se esbatendo defronte nos telhados. Um noite o guarda-livros quis ir mais longe nas vivas demonstrações de seu amor pela Campelinho. que é feio. o olhar fito nos olhos vivos e penetrantes a rapariga.. Tinha olhos p ra ver". que tolice! E enquanto falava. invariavelmente. prolongando assim a delícia de Loureiro que nesses momentos era como um escravo das mãozinhas brancas e delicadas de Lídia. sem repugnância. procurou com uma das mãos apalpar alguma coisa que a rapariga ocultava religiosamente no templo inviolável de sua castidade. Ninguém via. Não eram noivos? Não eram quase casados? Que diab o! Consentisse ao menos uma vez. nem uma voz. e. Não. Tivesse paciência. Nem um ruído da rua do Trilho. muito baixo. depois do víspora em casa do amanuense. Havia noites em que só saía depois de uma . derreando-se de novo sobre o ombro do guarda-livros. sim? E muito terna. meu bem. o ruído monótono do mar no silêncio da noite calma. suplicou a Campelinho sentindo o contato da mão grossa do guarda-livros. e começou a cofiar-lhe carinhosamente os bigodes... deixasse. Mas. continuou o Loureiro.

http://www. não tinha mãos a medir. comedoria. sem ter que dar satisfação a Carvalho & Cia. amigo de seu dinheirinho. Muito econômico. um pouco devo to. Era mais econômico do que pagar hotel .br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. roupa lavada e engomada. da escrituraçãodo Caixa. eram umas pobres. Aluguel de casa. Aos domingos o guarda-livros ia logo cedo para o Trilho. por assim dizer. Amanda estava radiante com o genro. as manias. Agora jantava e almoçava em casa da viúva. cigarro ao canto da boca. sem tugir. Ela mesma ia preparar a comida. Coitadas! Lamenta consigo. os ovos quentes e a lingüiça assada do al moço. era de uma prodigalidade sem limites. Amanda e a filha eram aos seus olhos "duas vítimas da ma ledicência de uma sociedade hipócrita e torpe até a raiz dos cabelos". abotoado até ao pescoço. que se lhe afiguravam duas santas através do prisma azul de seu amor pela rapariga. Amanda: bastava que ele contribuísse com trinta mil réis mensais e tudo se arranjaria ali me smo em família. D. Por fim todas as despesas corriam por sua conta e risco. E abriu o seu grande coração e a sua bolsa àquelas duas criaturas. Ultimamente almoçava e jantava na casa da viúva.hora da madrugada. o feijão e o lombo assado para o jantar. às vezes com a cara por l avar. e eram cuidados de mãe carinhosa ou de criança que t em um pássaro na mão e receia lhe fuja. qu e já lhe sabia os gostos. Às seis horas da manhã já ele estava de caminho para o Trilh o. nem mugir. cada um sabe de si e Deus de todos. mas em se tratando das Campelo. tudo era ele que pagava de boa vontade.htm 23/12/2012 . dizia D. escovava-lhe a roupa.biblio. tanto mais quando estava para ser marido da peq uena. com a consciência tranqüila de quem cumpriu religiosamente o seu dever. fazia-lhe todas as vontades. Era quando tinha algum descanso das lidas quotidianas do ar mazém. muito à fresca. D. prelibando as delícias de um dia inteiro em companhia da noiva. metido em calças pardas. Subscritor da sociedade de São Vicente de Paulo. chefe da família. vestidos para a Lídia.. às vezes tinha rasgos de verdadeiro filantropo. de modo que o Loureiro pouco a pouco foi-se fazendo.com. Tratava-o a velas d e libra. porque queria e tinha prazer nisso. tinha quase o dever de ampará-las. dono da casa.

porque o Loureiro era filho do Rio Grande do Norte. com a família. eternamente monótonos. embrulhada nos lençóis. tranqüilamente. Era tempo de cajus. sem perder tempo. longos e modorrentos. Novembro estava a chegar. nuvens sombrias acumulam-se no horizonte e vão subindo até d esmancharem-se completamente num chuvisco ligeiro que apenas borrifa de leve a superfície seca do solo. que passa levando consigo as ilusões cor-de-rosa dos que deixam os bancos preparatórios e dos que começa m a vida pública. E os dias passavam. Às v ezes. Um esquisitão de força. Depois o cafezinho quen te. o belo dia passado currente calamo. à noite. O guarda-livros tinha a mania dos depurativos . com a "sua santa". Amigos capazes de merecerem toda a sua confiança também não os tinha . finalmente. Já agora o Ceará não lhe era inteiramente uma terra má. A avenida Caio Prado tinha o aspecto fantástico d um terraço oriental o . O Zuca não tinha pressa em se formar. Amanda. Entregou-a ela mesma. co m as manhãs friorentas e claras.A NORMALISTA Page 40 of 96 ge 40 of 96 Nem sequer tomava café no hotel. as calças. e então ir-se-ia completar o curso. às vezes. igu ais sempre. Resolvera passar mais alguns meses no Ceará. refestelava-se num confortável banho frio puxado de véspera n a grande tina que havia no "banheiro". novembro. uma espécie de urso! Diziam os seus camaradas do comércio. Sua natureza egoísta aprazia-se com a vida sedentária. ainda encontrava a porta da viúva fechada. naquele canto obscuro de Fortaleza. e abalava por ali fora. abria a toalha no ombro. que se derramava por toda a casa. num lon go idílio. opaletó surrado. em que. coado pelas mãos de D. E a faina começava. o Loureiro!" Imediatamente D. O Loureiro tirava o paletó. o mês dos cajus e das ventanias desabridas. onde perdera pai e mãe. e. como um fluido que se evaporasse de repente de um depósito aberto. cabelos soltos. Pacato. Escancaravam-se as p ortas para dar entrada livre ao arzinho fresco da manhã. enquanto se punha a ferver a água para o café. Pulava da rede às pressas. enfiav a as botinas. não tinha no Ceará sequer um parente em c uja casa pudesse passar as noites. De resto era uma questão de tempo o seu bachar elato. o mês dos exames . concentrado e pouco expansivo. e. dificilmente comunicava-se a quem não o procurasse em primeiro lugar. dizia ele. Maria do Carmo tinha lhe escrito uma cartinha lacônica e expressiva confessando o seu amor. em mangas de camisa. no Passeio Público. escadas abaixo. Novembro. Batia devagar com a ponta dos dedos: " Sou eu. numa quinta feir a. pondo cintilações diamantinas nas folhas do arvoredo. Habituava-se pouco a pouco a essa vida de província pacat a em que se trabalha um quase nada e fala-se muito da vida alheia. cheios de sol. sem nuvens no azul. o mês dos estudantes. uma belíssima noite de luar. Antes do banho emborcava um copo de mocororó "para retemperar o sangue!. O hotel servia-lhe apenas para dormir. Amanda vin ha abrir.

egoisticamente. fosse como fosse. que tinham reflexos vivos ao luar. disse a outra. em toilettes garridas. Decididamente entregava-lhe a carta. largo.. O plenilúnio muito alto dir-se-ia uma grande medalha de prata reluzente com o anve rso para a terra. im enso. entrechocando-se. Eram oito hora s e o Zuca ainda não havia chegado.com. porém. Está no clube. hein? Maria! dizia Lídia de braço com a amiga. nos bailes. ao compasso da música. Começava a desconfiar do Zuca. não acreditava na sinceridade do Zuca. Não era possível. e para o sul. Defronte da avenida o mar. inclinando -se num movimento incessante para um e outro lado. uma vontade de fechar os olhos a tudo e viver para si . No porto. talvez. como se ele fosse o único homem do Ceará com q uem ela pudesse ser feliz! E lá veio o maldito nervoso.biblio. com ímpetos de voltar para casa. caminhando maquinalmente. E se ele não fosse ao Passeio esta n oite? Ela rasgaria a carta e nunca mais havia de o procurar. de minuto a minuto. com as suas esfinges.. Tem paciência. no teatro. como o bicho da seda no seu casulo. arrastando os pés. na maior parte curiosos que assistiam tranqüilamente ao v aivém contínuo dos passantes. com suas filas de combustores azuis. E ela é que estava fazendo uma figura ridícula a procurá-lo. Se ele fosse outro procurá-la-ia sempre. crivado de cintilações minúsculas. conversando alto. A normalista.nde passeassem princesas e odaliscas sob um céu de prata polido. muito distraída.htm 23/12/2012 . iam e vinham no macadam e. cansada de esperar. não deu atenção à Campelinho. como oscilações de um pêndulo invertido. nos passeios. O rapaz não tarda. a mastreação dos navios destacava nitidamente. muito ao longe. Que horror! Nem sequer podia passear! Nisto ouviu uma voz que lhe pareceu a do estudante. encarna dos e verdes. impaciente. levada pela onda d os dilettandi. numa promiscuidade interes sante de cores. Estava aflita. inquieta. Ia e vinha. a pensar no estudante. d um lado e d outro da avenida estendiam-se duas alas de cadeiras ocupadas por gente de ambos os sexos. em toda a parte. menina. a própria música começou a fazer-lhe mal à cabeça. O seu coração batia com força. http://www. desdobrando-se por ali a fora a perder de vista. a luz branca do faro l tinha lampejos intermitentes. na sua aparente imobilidade. Certo e le queria passar o tempo folgadamente. Uma noite admirável. Qual clube! Era necessário acabar com aquilo.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Senhoras de braço dado. tinha reflexos opalinos que deslumbravam. suspensa por um fio invisível lá em cima na cúpula azul do céu. Incomodava-lhe o zunzum de vozes e as pisadas da multidão. por isso fingira aquela comédia de amor.

tolinha. Puseram-se por ali a esperar. d aí a pouco assomou no extremo oposto da avenida a figura corpulenta de José Pereira. que vinha chegando ao lado do José Pereira. de avental. conduzindo crianças. iam contando os minutos. De braço dado. que forma vam uma como abóbada compacta de ramagens através das quais o luar coava-se aqui e ali. calça de casimira clara. à beira dos reservatór ios d água onde cruzavam gansos e marrequinhas vadias que grasnavam alegremente inundadas de lua r ou. ensombrada pelos castanheiros. ombro a ombro. havia uma promiscuidade franca de raparigas de todas as classes: criadinhas morenas e rechonchudas. com os seus vestidos brancos de ver a Deus. discretamente.A NORMALISTA Page 41 of 96 ge 41 of 96 Boa noite. filhas de famílias pobres em trajes dom ingueiros. vamos. pelas clareiras . as duas raparigas tinham procurado o lugar mais somb rio da avenida onde não podiam ser facilmente reconhecidas pelos passeantes da Caio Prado. em pé defronte dos gnomos de louça. Sim. que lhe ficava pelo ombro. No botequim. no coreto. Na Mororó. que se confundia coma a multidão. muito correto. P araram no botequim. muito alegres na . Por que não hão de vir? Com efeito.. confundindo-se. numa roda de rapazes que discutiam calorosamente sobre política. minhas senhoras! Era realmente ele. grandes colarinhos lustroso de ponta virada e a infalível flor na botoeira. rodeado de toscas mesinhas de madeira. acotovelando-se. colossal. alta. caminhando devagar. mais sombria e menos freqüentada. Maria voltou-se aturdida e um suspiro largo e bom escapou-lhe do peito. disse Lídia. sem escândalo. mais larga que as outras. ao lado do Zuca. enquanto a outra procurava com o olhar o estud ante. Até que enfim! Ele ali estava inteiro. executava trechos alegres de operetas em voga.. e le naturalmente havia de ir também e então passava-lhe a carta num aperto de mão franco e amigável. enquanto a música. Vinham passo a passo. Eles não vêm. de c hapéu alto. E continuava a chegar gente e a encher o Passeio por todas as avenidas do primei ro plano. Esperemo-los aqui. cruzando-se em todos os sentidos. apesar de alto também. A Lídia sugeriu-lhe uma idéia iriam à outra avenida. Tem paciência. absoluto! Agora pensava em como entregar a carta sem que ninguém visse. completo. sentando-se com um vago suspiro. disse Maria desanimada. croisé aberto. larga. com o seu corpo fino em contraste frisante com o todo asselvajado do amigo. E dirigiram-se para a avenida Carapini. As normalistas afastaram-se para mais longe. abriam-se garrafas de cerveja com estrondo e havia um movimento desusado de gente.

demais. não valia a pena ir para ficar senta do.sua encantadora obscuridade. em um dos ângulos do jardim. nem camarotes. Toda uma geração nascente. porque. ao som do qual rodavam cavalinhos de p au. o Trovador atordoando os ouvidos delicados do Zuca que achava aquilo simplesmente insuportável e medonho como um assassinato em plena rua. perseguidas por uma troça de sujeitos pulhas que se punham a lhes d izer gracinhas insulsas. Não valia a pena de certo.htm 23/12/2012 . as mesmas toilettes. Apenas quem não tivesse dois vinténs esta proibido de sentar-se. co m abatimento nos preços". nem cadeiras de primeira ordem: tod os tinham ingresso para saracotear nas avenidas ao ar puro das noites de luar. cansada d uma vida sedentária e monótona. e. Ali não havia distinção de classes. ia -se ao Passeio para andar. Lia-se mesmo na Província o seguinte anúncio: " No estabelecimento Confúcio e no Club vendem-se cartões de assinaturas de cadeiras no Passeio Público. num tom dolente e irritante. as cadeiras eram alugadas. Mas. ora. ia esp ecer no Passeio Público aos domingos e quintas feiras. com ademanes característicos.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. sem ter que pagar de z tostões por uma entrada. um realejo fanhoso. http://www. gemia. gratuitamente. toda a gente possuía vinténs para alugar uma cadeira.biblio. casmurro. havia assinaturas baratas.com. como no teatro e no circo. mulheres de vida livre sacudindo os quadris descarn ados. as mesmas caras. a ver desfilar o que? O mesmo carnaval de todos os domingos e quintas-feiras. ávida de emoções. nesses dias . para se mostrar aos outros como numa vitrine. Quando a música parava.

Zuca não gostava da terra de Iracema. Maria tinha se deixado ficar à distância. um amante do progresso. Lídia.. Estava muito atrasadinho o Ceará!" Gostava pouco d ir ao Passeio. D. como uma cousa a toa. Se vivesse algum tempo nesta terra. Mas o que te poss o afirmar é que no Brasil não há uma cidade tão bem alinhada como esta. muito desembaraçada. e com uma ponta de cinismo.. à ta rde! Nem o Passeio Público do Rio de Janeiro! E justificava o anti-bairrismo do estudante: É que tu tens passado a melhor parte da tua vida na Corte e em Pernambuco. que magnífico panorama se aprecia da avenida Caio Prado. Ao passarem pelas normalistas a Campelinho levantou-se e. depois de perguntar a José Pereira. Oh! minha senhora. Zuca? Esplêndido. se vira por ali D. mas o Ceará ainda estava muito atrasadinho. O Passeio Público? dizia ele. Sr. Sr. Zuca. sentada num banco de madeira encostado a u ma árvore. que comparava aquilo a um paraíso.A NORMALISTA Page 42 of 96 ge 42 of 96 "Como é que se consentia semelhante importunação em uma capital que tinha foros de civ ilizada? Oh! em Pernambuco. O redator da Província e o Zuca tinham deixado o grupo de políticos e aproximavam-se a passos lentos. mais matuta e insociável.. A meu ver. E a Lídia. "Não duvidava. fizeram os dois ao mesmo tempo. Que vista. havias de gostar extraordinariamente. minha senhora! Está de encantar! Isto é um inimigo do Ceará. saudando-os rasgadamente com um belo sorriso aristocrata: Como passou. o que fazia raríssimas vezes a convite do José Pereira. atalhou José Pereira rindo. lá isso estava" . os dentes muito brancos e pequeninos. Sr. com esse tic indizível das raparigas habituadas a convivência dos homens e à vida elegante. menino.. não duvidava. quieta. Vândalo. dirigiu-se aos dois amigos. dizia ele. o Passeio Público é um dos mais belos do Brasil e a cois a mais bem feita que o Ceará possui. Sentia-se cada vez mais tola. com a sua voz muito gr ossa.. o italiano que se lembrasse de tocar realejo à porta d uma república era i mediatamente punido a batatas e as cascas de laranja. repito. acaçapada. imóvel.. o Ceará tem muito ainda. mas mesmo muito (e deu umas castanholas com o dedo) que andar para ser um a capital de primeira ordem. não. Sou apenas um admirador. disse a normalista.. uma iluminação mais rica do que a nossa e um P asseio Público assim como este. Afinal chegou o momento que Maria do Carmo aguardava com a impaciência febril de u m desesperado. Isto é um vândalo. Amélia. dirigiu-se ao Zuca: Que tal o Passeio. com quem tinha alguma familiaridade.. Eu já sabia que o Sr. . na meia sombra que havia de um lado da avenida. José Pereira?.

e Lídia achava muita graça naquilo. Zangava-se consigo mesma nesses momentos. sem receios infundados. e vinha-lhe logo um desejo d e isolar-se e não dizer palavra.biblio. Já estava em idade de perder de todo o a canhamento e que diabo! Atirar-se à vida. como se estivesse diante de um monstro. http://www. sem pieguismos.com. a avenida Carapini por ser mais freqüe ntada por gente de cor. à sociedade. tornava a jurar nunca mais ter medo de homem algum. cujo poder s obre ela fosse enorme. o certo é que a presença do Zuca hipnotizava-a. de uma criatura misteriosa. sem medo. Pois estamos distraindo o espírito. O Zé Povinho denominava avenida dos charutos. da avenida dos charutos.htm 23/12/2012 . Não sabia o que aquilo era. A avenida Caio Prado está muito ch eia. fraca.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. impotente para dominar-se. tornou a Lídia. f azia-lhe perder a cabeça. Bol as! De si para si. não podia acertar com o verdadeiro nome da sombria a leia. ponto dileto de cozinheiras e raparigas baratas da rua da Misericórdia.A presença do acadêmico punha-lhe calafrios na espinha. mas no outro dia era a mesma da véspera. vimos apreciar o movimento d aqui.

normalista. cujas notas. Maria do Carmo? Perguntou José Pereira. Então V.. sacou a carta. D. Está triste hoje. com rufos de tambor.. Maria? Uma moça bonita não se deixa ficar assim na sombra. repetia numa desafinação irritante de vozes finas. Maria cumprimentou o estudante com um modo muito discreto. boazinha? Sempre acanha da!. insistiu José Pereira oferecendo o braço à Lídia cortesmente. Excia. e já lhe parecia que toda a gente o Passeio Público em peso seguia-lhe as pe gadas observando-lhe todos os movimentos.. Estava descansando.. como se naquela carta fosse toda a sua honra. nervosa. e uma das moças mais disti ntas da nossa sociedade. muito prolongadas e queixosas. dois a dois. saltitante e carnavalesco. lá fora. você dá o braço a D. Pensei que não respondesse. por Deus! Então já conheces a moça mais bonita do Trilho d e Ferro. Maria a princípio desanimou completamente. Maria do Carmo. aflita. fazend o um esforço supremo sobre a si mesma. o Sr. que a molecagem. Ô Zuca! O acadêmico e Lídia aproximaram-se. num ímpeto decisivo e franco. com a mão trêmula.. que fingia olhar para o coreto da música. E voltou-se para Maria. voltando-se também. E. Maria do Carmo. todo seu pudor de rapariga h onesta... mais tímida que nunca. faz favor? Quero-lhe apresentar a um moço muito chic e que lhe aprecia muito. Como vai. Sim. A ocasião era oportuna. Ô Zuca. Ah! Fez o Zuca satisfeito. Venha. espécie de Chora do Baiano. Quem D. hein? Uma coisa que não sabes: faz versos também. Vim com a minha amiga inseparável. dirigiram-se para o botequim. como tem passado. passou-a ao estud ante. José Pereira na frente com a Campeli nho. Oh! Já se conheciam? Não sabia. conservando-se sentad a. uma flor! Riram todos àquele disparate premeditado. a Maria.. Quem . A música deu começo a um tango repinicado. Estava perdida! Pensou. pondo uma nota alegre nesse obscuro reca nto do Passeios. não. sem proferir palavra. . E José Pereira num tom de cortesia: Apresento-te aqui a Sra. morriam languidamente. Oh! exclamou o redator dirigindo-se para a normalista. D. Zuca? Ela já conhecia. De quando em quando os instrumentos faziam uma pausa e rompia um coro de vozes g rossas Quem comeu o boi?. e imediatamente veio-lhe um arrependimento profundo de se ter comprometido daquele modo. mas. Vamos tomar alguma coisa. não veio só? Não.A NORMALISTA Page 43 of 96 ge 43 of 96 Ah! Fez o Zuca. em que sobressaía o clarinete.

biblio.. chocolate. Cerveja. Deixou-se ir automaticamente. como uma sonâmbula. Sentaram-se. Maria conservou-se calada. Havia sorvete.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. com um frêmito de pálpebras através dos óculos de our o.E sentindo-se dono daquela prenda. http://www..com. cerveja. aconchegou a si o braço roliço da normalista meio descoberto. vinho do Porto. cidra. José Pereira quis saber o que desejavam tomar.htm 23/12/2012 . acudiu a Lídia. sentindo cada vez mais forte o poder misterioso do es tudante sobre seu coração extremamente sensível e bom.

que José Pereira não perdia ocasião de elogiar exageradame nte. em tomar cerveja. do batalhão. muito arrebitad os. Ó burro. gelo e quatro copos. sem paletó.A NORMALISTA Page 44 of 96 ge 44 of 96 Todos assentaram. aqui. Isso era outra coisa: o peru era uma excelente bebida. uma toalha nauseabunda e úmid a no ombro. um fidalgo de raça. aos passo que os copos esvaziavam. A champanhe mesmo enjoava-lhe. limpando os bigodes. é que tinha pago. bastava ter sido inventad a pelo presidente da província. E pouco a pouco a conversação foi se animando. d izia ela. disse José Pereira. Não gostava de licores e bebidas adocicadas. com a cara enfaruscada. enfiando a cabeça para dentro do botequim. Diziam até que tinha ido à Rússia. pediu três garrafas de Car ls Berg. depois de alguns minutos de indecisão. acudindo. Então falou-se do presidente.. Era a sua bebi da predileta cerveja. É objeto de luxo. com os cabelos empastados na testa. resmungando. um moço de educação muito fina. pouco a pouco foi-se estabelecendo um a intimidade entre todos.. não se usa guardanapo. suado. esfregava a toalha nas mesas com força. Olha dois cafés. uma a záfama dos diabos. viajado. a todos os chamados. gabava ele. por sinal o Alferes Coutinho. tresandando ixora. Vinha de dentro do quiosque um cheiro ativo de café requentado. De vez em quando. A Lídia essa. Pediram mais uma garrafa de cerveja. A própria Maria do Carmo tinha o rosto em fogo. sempre alegre e cortês. ele só. objetou Zuca com ser ar afetado de fidalgo. uma dessas criatu ras que a gente ficava .. Aquilo é que era uma bebida agradável e higiênica". Foi perdendo o acanhamento e ria t ambém com os outros quando o redator dizia pilhéria. O serviço do botequim era feito por um menino que entrava e saía sem descanso. de chapéu caído para a nuca. Estava em meio do terceiro copo. O pobre caixerinho não tinha tréguas. estás cego? O menino zangava-se e corria à outra mesa. Um homem superior. e o red ator da Província. Rapazes impacientes. Muito mal servido isto. atirando também o seu dichote. Saíam bandejinhas co m chocolates e pão-de-ló. salpicando restos de com ida nos janotas. no Ceará. um gentleman. Bebera pela primeira vez ali mesmo no Passeio. batiam com as bengalas sobre as mesinhas.. Tenho notado mesmo que aqui. E que tal acha o peru? Perguntou maliciosamente o José Pereira. lambia os beiços a cada copo que virava de dois tragos. menino! Ó pequeno. Uma garrafa de cerveja.

Por sua vez o Zuca elevava o presidente aos cornos da lua. jogador de fl orete. não chegavam aos pés do fidalgo paul ista". trepados uns sobre os outros. sim senhores. A sua opinião resumida era a seguinte: "Todos os cearenses juntos. era muito bom de mocrata.com. como a um amigo de muita intimidade. ia ao mercado pela manhã "ver aquilo" como qualquer pleb eu . que finís sima educação social! O homem falava francês como um parisiense. Tratava o presidente familiarmente. a pé. Pois não! Excelente amigo.htm 23/12/2012 . Ele e stava ali na pessoa do Castro. acrescentava pigarreando..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Passeava sem ordenança. Que queriam mais? D um homem assim é que o Ceará precisava.querendo bem por toda a vida. Com tudo isto. sabendo montar a cavalo "divinamente" e atirando ao alvo com uma perfeição ultra! E que educação. e jogava o bilhar na Maison Moderne.biblio. entendia inglês e tinha um modo excepcion al de se portar em qualquer ocasião solene. http://www.. dedicado até.

muito corada e alegre. Maria aceitou com um gesto de repugnância.: Por que não toma. Uma tonteira! Queixou-se ela fechando os olhos. Uma languidez extrema tinha-se apoderado de Maria.. Foi preciso amparar-se ao estudante para não cair redondamente. José Pereira tinha pedido mais uma garrafa de cerveja e instava para que Maria do Carmo tomasse "um bocadinho só". e nesse momento. Depois seguiram também. rezando. esfalfada. Botasse p ra Lídia. suplicou o redator da Província fixando os olhos em Maria que esperava o assentimento do Zuza.. sem o ruído tumultuoso dos passante s. Maria.. cujas pálpebras pesavam como ch umbo. e enquanto o redator seguia pela avenida com a Lídia. No seu olhar aveludado e submisso havia uma súplica irresistível. transfigurada pelos efeitos da cerveja. 8 Maria do Carmo chegou à casa ofegante. aceitasse. Apenas se ouvia o grasnar ásp ero dos gansos nos reservatórios. quieto agora. muito amorosa. a brancura escultural do pescoço. fizesse favor. disse Maria. rindo por da cá aquela palha. cobria o copo com a mão. o olhar cheio de meiguice. O José Pereira pede-lhe com tão bons modos. como uma cadelin ha de estima depois d uma ausência. At irou-se com todo o peso do corpo nos braços de João da Mata. . com a cabeça a arder. juntos todos quatro foram tomar café no restaurante Tristão .. Ora. como uma estátua grega.A NORMALISTA Page 45 of 96 ge 45 of 96 Eu o que mais admiro nele é o pescoço. Não era nada. sentia uma pontinha de dor de cabeça. em pé ambos e quase abraçados.. recusando. disse o outro. fez José Pereira. tocando o copo no da normalista. Maria? perguntou este num tom quase imperativo. A normalista. naquele silencioso recanto do Passeio estalou um beijo. Olhe. por vida de seus magníficos olhinhos de princesa en cantada. deixavam-se ficar naquela posição. fazendo-lhe festa. e. propôs Lídia levantando-se Mal se sustinha em pé. passando-lhe o braço pela cintura. O presidente foi analisado escrupulosamente da cabeça aos pés. D. A rapariga tentou abrir os olhos. Houve um tilintar de cristais chocando-se ao de leve. À sua saúde. porém. todo iluminado pela claridade branda e melancólica do luar. Que não: estava muito cheia. sem música.. Já não havia quase ninguém no Passeio. José Pereira ofereceu-lhe o braço. e todos beberam ruidosamen te. D. Agora vamo-nos chegando que se faz tarde. ao sabor da cerveja Carls Berg. o gritar estridente das marrequinha e a toada dos soldados no quart el.

htm 23/12/2012 .Cheguei um bocadinho tarde. submiss a e mais bela do que nunca. não é assim. Afetava um tom repreensivo e ao mesmo tempo paternal. o dito pelo não dito. como uma escrava. João olhou-a. toda sua. por amor de Deus. Isto não são horas de uma moça estar passeando . a cabeça derreada para trás. com um ar de extrema bonomia no rosto ainda há pou co carrancudo. senão.. Tinha acabado de ralhar pela demora da afilhada e agora achava-se sem ânimo de diz er uma só palavra áspera à rapariga. cujo olhar fascinava-o com um abismo. mas. senão. tivesse mais juizinho.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Sim senhora. http://www. Ali estava ela a seus pés. por aquela v ez. padrinho? Perguntou cosendo-se ao amanuense . acariciando-lhe a barba.com. chegou um bocadinho tarde...biblio. Enfim. não fizesse outra.. hesitante. Quase dez horas! Não era bonito aquilo. olhou-a.

ca lças arregaçadas até os joelhos. grosso e musculoso como um Hércules. não. E afagava os cabelos de omo um velho impotente. sem ao menos lembrar-s e de soltar os cabelos. mas. O verdadeiro era não falar mai s no Zuca. e. vestida como estava. padriozinho. Maria estava encantadora e pagava-lhe com beij os as recriminações. os braços levanta . c o óculos escuros. ora. tem nada. Pode ir ao Passeio. José Pereira. e che irando-lhe a boca.A NORMALISTA Page 46 of 96 ge 46 of 96 Mas. caindo pesadamente na rede.. a calva reluzente como uma grande bola de bi Tu bebeste cerveja. João da Mata desequilibrou-se. Não sabia o que fizesse.. Sim . d um salto. quero saber quem te pagou a cerveja. vá dormir. Tomei.. que você não está boa.. e agarrando-se ao pescoço do amanuense. precisava descansar.. preto como carvão.. De repente Arre corno! Ouviu a voz aguardentada do Romão. Maria fez-se desentendida. não as horas. Ora se tomou. atoleimado. e logo surgiu-lhe em frente a figura nauseabunda e miserável do negro. passava-lhe a mão nas faces. recolheu -se ao seu querido quarto do meio. as pernas curvas formando um grande O. Sonhou. minha filha.. coisa extravagante! Que ia sozinha por um caminho deserto e interminável o nde havia urze e flores em profusão. Teve sonhos impossíveis e horrorosos nessa noite. com um pulo pla ntou-lhe um beijo na testa. E João da Mata rematou a conversa: Vá. nu da cintura p"ra cima. Ralhar? Não. Calar? Também não. imbecil. tomei um copo assim.. o mesmo que fazia a limp eza da cidade. Não tem padrinho. a mão descarnada do padrinho. esta menina!. Mas não es tou tonta. Quem pagou foi o Sr. Tu não levaste dinheiro. caminhando sem olhar p ra trás. Ora. E indicou o tamanho do copo. Arre! Estava muito fatigada. não me volte a est Maria.. Era um Romão colossa l. sem saber o rumo que devia tomar . Eu logo vi! Aposto em como o tal Zuca também entrou na festa. foi só um copo.. por favor.. padrinho. sim. tendo apenas tirado os sapatinhos e desabotoado o corpete. como de costume.. as espáduas largas reluzentes de suor. Estava perdida. olhar aceso através dos lhar. E adormeceu imediatamente com um sorriso adorável na pequenina boca entreaberta. Cerca de onze horas acordou sobr essaltada com um pesadelo. A rapariga era capaz de reincidir na falta. quem pagou.. ora.. aposto.. padrinho. Ora. tornou tomando entre as mãos a cabeça da rapariga... Maria beijou. Olhe. E quem t o pagou? Quem pagou? ..

sentando-se na rede. perseguido por uma cáfila de cães que ladravam desesperadame nte.dos segurando na cabeça chata um barril enorme transbordando imundícies! Arre corno! Grania o negro no silênc io da noite clara. cambaleando sempre. com um grande peso no coração.biblio. Fazia um luar esplêndido. cambaleando muito bêbado. que se despedaçou empestando o ar. Que horror! Ela mais que depressa. E Maria do Carmo acordou quase sem sentidos. cobrindo o rosto com as mãos. Assim que deu com os olhos nela. porque tinha a língua presa.htm 23/12/2012 .. quis fugir sentin do toda a hediondez daquele corpo imundo.. muito fedorento. o negro atirou o chão o barril de porcarias. aflita. beijando-a. atirou-se a ela. sem poder fala r. mas o negro deitou-a no chão com força e . sufocada... besuntando-a. rilhando os d entes num frenesi estúpido. http://www. E o Romão.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista...com.

passava uma serenata.. com um sabor desagradável na boca e uma dor forte nas têmpor as. Quis chamar a Mariana para lhe fazer um chazinho de laranja.res.. que não se fazia mais economia "Um gasto enorme de dinheiro! um desperdício sem nome. podiam desconfiar e. de deitar fora a cerveja que bebera: sentia um mal estar ger al em todo o corpo. como se estivesse para cair gravemente doente. Ajoelhou-se. depois o padrinho agora dormia na sala de jantar.. Se soubesse teria pedido cidra. Depois ninguém fosse chorar por dinheiro. viviam ultimamente. se Deus permitisse .. diante da oleografia que representava o Cristo abr indo o coração à humanidade. mais fresca. resolvera de então em diante dorm ir numa rede na sala d jantar.. muito mal. os olhos fundos. Que sonho feio!. um esbanjar sem trégua. Deus do céu? Aproximou a vela do espelho. pela cois a mais insignificante. não passavam da carne cozida e do lombo assado com arroz .A NORMALISTA Page 47 of 96 ge 47 of 96 Virgem Maria! suspirou logo que pôde voltar a si.... Nunca mais havia de to mar a tal cerveja. Só tomara naquela noite po r causa do Zuza. achava que tudo em casa ia muito ruim. mas era muito tarde . na Corte e no Recife. muito jubiloso." . querida Elvi. Terezinha não se imp ortava com as coisas.ra. Lá fora na rua. ele e D. adormeceu novament e. Uma figa! Não estava mais para suportar o calor infernal da alcova. uma crosta esbranquiçada na língua. Que seria. um velho traste com o aço muito estragado. repugnante como um vomitório. e. arengando consecutivamente como duas crianças invejosas. acompanhada de violão e flauta: Não cho. que D. Riscou um fósforo co m a mão trêmula. porque ouvira dizer que "era moda nas grandes cidades". Maria sentia-se doente. Ele. persignou-se e. como se acabasse de sair de um forno. no mesmo dia da briga com a mulher. as senhor as tomarem cerveja. mesmo em camisa. Isso assim ia mal. Mas credo! Noutra não caía. mais aliviada. Suava em bicas. pensando no estudante. era melhor não incomodar a ninguém! aquilo havia de passar. sem gosto. não. balbuciou uma oração. Vinha-lhe uma vontade de vomitar.. Tinha até esquecido de rezar.. acendeu a velinha de carnaúba e começou a despir-se depressa. uma bebida selvagem. Uma voz de homem cantava uma modinha conheci da. além disto. muito pálida.. Terezinha. Só então reparou m uito admirada que ainda estava com a mesma roupa com que fora ao Passeio Público. e afinal de contas. O amanuense.. e achou-se abatida. Não..

batia as portas. Para que havia de dar o pobre homem.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. dizia a mulher d um barbeiro que morava ali perto . ela. Toda a vizinhança. penalizada. Credo! A gente vê coisas! Hum.htm 23/12/2012 . porque era ao mesmo tempo cozinheira e copeira.Quem. T inha muito para onde ir. Não era raro sair da boca desdentada do amanuense uma obscenidade! Jesus! exclamava Maria fugindo para o seu quarto com as mãos nos ouvidos. muito tola. cruzando os d edos sobre o ventre. Ameaçav a expulsar a mulher de casa a pontapés.. quebrava louça ao jantar. ávida de escândalos. chorar? Que esperança! Estava muito enganado. a mesma pancadaria de descomposturas.. http://www. do amanuense com a mulher. berrava como um possesso. Era um divertimento.com. E muito risonha. rogava pragas e a própria empregada não escapava à sua cólera. lá se ia para a co zinha cuidar das panelas e da louça. ouvia com risinhos de pérfida satisfação aqueles tor niquetes às vezes imorais até. Quase todos os dias a mesma lengalenga. Mariana era uma rapariga muito pacata e em pouco acostumou-se às impertinências ríspid as de "seu Joãozinho". o mesmo duelo de palavras de porta de fe ira. paredes meias. Socasse os eu dinheiro onde quisesse. Quando João da Mata entrava na pinga então a coisa tomava proporções assustadoras.. seu "pap angu" de boceta. com o seu ar idiota de animal dócil.. hum!. dizia ela às vezes.biblio. não faltavam casa de gente séria no Ceará. Deus o fez e o diabo os ajuntou.

não servia de travesseiro. E tudo por que? Por causa de uma peste que se lhe metera casa adentro e agora an dava mostrando os dentes e mais alguma cousa ao padrinho. pouco a pouco. deixando de ir à casa de João da Ma ta. Sr. Pouco lhe importavam os móveis cobert os de poeira e de fuligem das locomotivas. ela é que não servia de al covitiira a ninguém. mas não mesmo. "rapariga de família". João da Mata. Se quisesse fazer mal à sonsa da Maria fosse fazer onde bem entendesse. um monstro de gordura. E aconselhava à rapariga que fosse.A NORMALISTA Page 48 of 96 ge 48 of 96 Ao ouvir a voz de João da Mata berrando como um danado. E a algazarra crescia lá dentro. Vinha-lhe ago ra um arrependimento profundo por ter feito a asneira de amigar-se com D. Es ta cansada de agüentar desaforos "do corno" do Sr. não. meu bem. Estava muito enganadinho . Já não se jogava o víspora na casa do amanuense. podia estar muito bem casado com uma mulher de certa ordem. . paravam defronte da porta do amanu ense.. como se papagueassem muitas pessoas ao mesmo temp o. ter relações com uma corja d aquel a. Não perdia nada. chupando o dedo. muito espantados. a vizinhança chegava às janela s ávida de escândalo. resmungava a mulher do barbei ro. Meninos em fralda de camisa. protestara nunca mais abrir o bico para dar ordens naquela casa. Terezinha transformava-se a olhos vistos. Terezinha. As velhas coleções dormiam esquecidas no saquinho de baeta verde em cima do piano. João da Mata? Com uma sujeita feiosa que só tinha carne nos quad ris. D. Tanta rapariguin ha fresca e bonita vivia à procura de um homem. com partes de afilhada. As duas criaturas faziam as delícias da rua do Trilho. a ela. bem educada e bonitona. Não. que se regozijava com aquel es espetáculos gratuitos de um cômico irresistível. tanta retirante "moça" e pobre. na sua cama. Até que era feio a Lídia ter amizade com aquela gente". mas ela. uma magricela de cara de quem está sempre com dor de barriga. olhando cheios de curiosidade pelas frinchas da rótula. "Aquilo ainda acabava mas era num escândalo badejo". dando-s e ares de homem sério e reformador de costumes: "Uma gente sem vergonha.. tanta gente boa no mundo. Teté. O Loureiro repetia indignado. em véspera de casar. rica mesmo. Por seu lado o amanuense encarava a mulher com um desprezo solene. Uma canalha! Tomara já se casar para ver-se longe de seme lhante peste. for a amigar-se logo com quem? com quem. Estimava muito que lhe deixa ssem dormir só. com pernas finas e ainda por cima estéril! Que grandíssima cabeçada! Entretan to. porque não lhe ficava bem.

Está fazendo cócegas. por meio dos quais ele pudesse iludir a afilhada.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Nesse tempo ele era comissário de socorros. http://www. Maria punha-o doido com seus belos olhinhos cor de azeitona. Estas qualidades da normalista tinham um encanto extraordinário aos olhos do amanu ense.. que lhe vinha do fundo d alma de donzela. Com efeito Maria. que o amanuense afagasselhe o bico dos seios virgens e lhe passasse a mão pelas coxas tenras e polpudas... isso não.htm 23/12/2012 . sem resistência. Chegava o que! Nem havia termo de comparação. Nunca em sua vida cheia de aventuras amorosas encontrara uma rapariga nas condições de Maria do Carmo. na ocasião oportuna. inexequíveis. com a resignação indolente e fria duma escrava.. no momento preciso. sem a sobressaltar. padrinho. de papo para o ar.. singularmente encantadora e que estivesse ao alcance de seu coração. Maria. se o padri nho era quem lhe dava de comer e de vestir? Consentia. para não desagradar ao padrinho.. Não queria precipitar-se com o risco de um escândalo comprometedor. Estava ficando velho. a pensar na vida. e. filha da família. pudera não! sem a menor resistência. além de ser uma rapariga asseada. Passava horas e horas estendido na rede. A sua imaginação criava planos fantásticos. tinha. e apetitosa como uma ata madura.biblio. Preferia i nsinuar-se pouco a pouco. murmurava rindo. Terezinha. agora. Mas nenhuma daquelas retirantes chegava aos pés da afilhada. d e modo que. É verdade que em 77. zás. com riso sem expressão. como um grande capitalista que sonha no dinheiro acumulado usura riamente. que ele receava fosse cobiçado um belo dia pelorapazio galante da cidade. sobre as ou tras. em ceroula e camisa de meia. a vantagem de ser inteligente e educada. na seca. ela se entregasse prontamente. ah! nun ca. branca. acendendo cigarros. e Maria do Carmo aparecia-lhe na imaginação como um tesouro preciosíssimo. tirar-lhe o lírio branco da virgindade. obedecia-lhe cegamente.com.. Que havia de fazer. fazendo-lhe todas as vontades. devagar.Depois que se mudara para sala de jantar apoderou-se dele um aborrecimento inexp licável por D. tinha desfrutado muita "bichinha" famosa. era preciso aproveitar o resto da vida. ela uma pobre filha adotiva. no ânimo da pequena.

resolvera nunca mais pôr os pés naqu ela casa que ele "honrara" durante quase um mês com a sua presença. A própria Lídia já não a procurava como dantes toda orgulhosa com o seu noivo. tolinha.. em todos os seus detalhes. Estava decidido não iria mais ao Trilho de Ferro. Esquecia-se a lê-las devagar. casar-se com .. Encontravam-se diariamente na Escola. sem dizer nada a ninguém. com o olhar úmido no teto. Havia uma semana que se correspondiam por cartas onde a vida de ambos era descri ta como num diário. Terezinha e a vontade soberana do amanuense.. ralhava João. imóvel. E. que o Zuza freqüentava agora com a pontualid ade irrepreensível d um inglês. Recolhia-se com os olhos cheios d água ao seu quarto com uma tristeza infinita no coração e só achava conforto nas confidências amorosas do Zuza. Porque o futuro bacharel desconfiara do modo frios com que o amanuense o recebia. e. invejável diante de si. a pequena tinha ordem de não lhe aparecer. Aí vinham-l he outra vez as lágrimas e os soluços concentrados. Era voz geral mesmo contra seus pais e a o "desastre". Ah! mas aquilo havia de acabar fosse como fosse. toda entregue ao seu amor. A felicid ade da amiga aumentava-lhe ainda mais o desespero. porque já não tinha pai nem mãe.. Vivia agora. repetindo frases inteiras. sujeitando-se à crítica idiota dos mequetref es da vida alheia. admirando a bela caligrafia em que elas eram escritas.. Decididamente era muito infeliz. mas ao mesmo tempo lembrava-se que era só no mundo. que ela guardava como um a relíquia no fundo de uma caixinha perfumada de sândalo. Pílulas! Todos os dias encontrava o sujeito com uma cara de mata-mouros. amigo do presidente. como não podiam conversar à vontade sem escandalizar os créditos do estabelec imento já um tanto abalados. Sim. e podia se r muito desgraçada depois. por assim dizer sozinha naquela casa onde tudo tinha o as pecto sombrio e desolado da pobreza desonesta. trocavam cartinhas no intervalo das aulas. minuciosamente. ah! quase sempre. era preciso paciência para suportar tudo até que o Zuza se d ecidisse a ampará-la sob a sua proteção de rapaz rico. vinham-lhe ímpetos de reagir com toda a força do seu pudor revoltado. E cumpriu a sua palavra com a dignidade de um fidalgo. com um futuro na cidade que o estudante estava disposto a casar com a normalista a vontade de despeito da burguesia aristocrata que lamentava por sua vez tamanh Um rapaz fino. estimado. E ela não tinha remédio senão ficar quieta. mas que afinal de contas era seu padrinho. beijando-as sobre a assinatura do estudant e. e mesmo era uma estopada ir ao Trilho a pé. sabe Deus como..A NORMALISTA Page 49 of 96 ge 49 of 96 Sossega. Muitas vezes. entre a indiferença cruel de D. abandonada às carícias sensuais d aquele homem repugnante que a perseguia com um animal no cio.

espiando para a praça do General Tibúrcio. a menina já "estava pronta".biblio. com o seu aspecto branco e tradicional de velho edifício português do tempo do Sr. come ntava-se.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. eram de parecer que o acadêmico tinha boas intenções e até fazia bem levantar da miséria uma criatura como a Mar ia. Um belo domingo a Matraca lembrou-se outra vez de curtir o couro ao Zuza em redo ndilhas escandalosas que enchiam quase toda uma página. João VI. não se dava ao trabalho de desfazer boatos "Que se fomentassem todos. parecia dormir um sono bom de sesta. de pernas cruzadas.htm 23/12/2012 . Àquela hora o estudante acabara de almoçar com o presidente. Não tinha que da r satisfações a ninguém por seus atos". ainda vibrava no espaço iluminado e azul a últi ma nota das cornetas. porém.uma simples normalista sem eira nem beira! E em toda a parte.com. De repente: A Matraca a 40 réis! O namoro do Trilho de Ferro! O estudante e a normalista! Gran de escândalo! Um menino passava gritando a todo pulmão. na larga sala de recepção do palácio. alinhas à maneira de hospital . arquejan tes sob a luz crua do sol que incendiava a cidade nesse luminoso meio-dia de novembro. desde o Café Java até ao Palácio da Presidência. Uns asseguravam que o Zuza estava desfr utando a rapariga para depois fuisser! pôr-se ao fresco e nunca mais pisar o solo cearense. Os vendedores do pasquim atravessavam as ruas em di sparada esbaforidos. que estava se perdendo em companhia do amanuense. batido pelo sol. Havia outro grupo que acreditava no casament o do Zuza com a normalista porque. apregoando alto e bom som o Namoro do Trilho de Ferro. Tinha dado meio-dia na Sé. o estudante já l he tinha "plantado no bucho um Zuzinha". as notícias da folha domingueira. http://www. D. isto é. Em todas as esquinas surgiam meninos maltrapilhos sobraçando o jornaleco. com a sua fila de janelas. na sua opinião. E. assim. na mudez s olene de um monumento arqueológico. O casarão do governo. e. discutia-se ruidosamente o assombroso acontecimento. dedicava-se a fumar tranqüilo o seu havana mais o José Pereira. numa voz fina de adolescente. enquanto o Zuza. fazend o ouvidos de mercador. acaçapado e informe. Outros. multiplicavam-se as opiniões. reclinado numa cadeira de balanço.

na praça. Que diz o papelucho? perguntou fidalgo de dentro dos seus grandes colarinhos lus . antes de me ir embora. O caso não era par rir. muito triste. e a conversa descambou para o terreno árido da política local. hein? Vá. Então o estudante. depois de encher o pequeno de petelecos. vá. Não dei nenhuma ainda. vá e diga ao dono d esta imundície que eu ainda lhe quebro a cara a bengaladas. E puxe! continuou o Zuza implacável. quebrar-lhe os queixos . ó Zuza. Você ainda repete. seu patife? perguntou Zuza segurando o vendedor pelas orelha s. se tinham lido o Pedro II. O caso não era para rir. levantou-se e foi direto à janela. rasgando-os imediatamente. seu grandíssimo corno! E. o futuro bacharel tomou-lhe todos os exemplares da Matraca. O desprezo é a arma dos fortes. res mungando. Aquilo excedia as raias do decoro e do respeito que se deve ter à sociedade.. você mesmo! Enquanto se esfrega um olho os dois encontraram-se em baixo na porta do palácio. com o rosto afogueado pelo Bordeaux que tomara ao almoço estremeceu na cadeir Hein? O vendedor de jornais repetia a lengalenga lá fora. a propósito de jornais que se ocupavam da vida alheia. tu perdes o tempo e o la tim com semelhante gente. Qual desprezo. fulo de raiva. dizia ele formalizado limpando os óculos com a ponta do lenço de seda. é o namoro do Trilho. O outro abriu-lhe a goela a chorar encostando-se à parede... sabe você? O presidente para não provocar mais a bílis do Zuza perguntou. Que essa! Não era nenhum filho da mãe que estive sse a servir de judas a Deus e ao mundo.. Psiu! Psiu! Ó menino da Matraca! Eu? Sim. que diabo! Ainda havia de quebrar a cara do redator da Matraca. Eu cá resolvo as coisas posit ivamente a bengaladas.A NORMALISTA Page 50 of 96 ge 50 of 96 Zuza a. com o seu olhar de míope.. O pequeno não teve outro jeito senão ir-se arrastando pela parede. Eu já o aconselhei. protestando nunca mais vender a Matraca. seu dotô. Quantas já destes ao redator da Matraca? perguntou José Pereira para confundir o Zuz a. enquanto o Zuza explicava o caso ao José Pereira e ao presidente. hein? O desprezo é a arma dos covardes. sacudindo fora o resto do charuto. Nada. disse amigavelmente o fidalgo paulista. com a cabeça entre os braço s. vá. mas pretendo. Era assim que se resolviam questões de dignidade pessoal à bengala! Mas vem cá. que o receberam com uma explosão de risos. Que está você a gritar. Vá.. interrompeu José Pereira. vá.

respondeu José Pereira com um gesto de desprezo. saltou o Zuza. Que dia é hoje? Domingo. Ora. suporte-se uma coisa destas!. finalmente. que você "vai encaminh ando as coisas públicas para um abismo". que você gosta de tomar champagne. A mesma coisa de todos os dias.trosos. eu vou respondendo a cada artigo com a demissão de dez funcionários amigo s da oposição. Eis aí: é ou não para se dar o cavac o? Mas. Q ue você é um péssimo presidente.. Queres ver uma coisa?. http://www. e.htm 23/12/2012 ..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.biblio..com. Zuza..

Zuza. que se dizem m iúdos. que não tenho juízo. ia repreendê-lo severamente. que se preparasse. chapéu derreado para t rás.. que ele. Mas o filho tinha umas maneiras capciosas de convencê-lo. Era época de exames e o estudante nem sequer falava em tirar passagem para o Recife onde já se devia achar a fim de concluir o curso." E. porque afinal de contas o pequeno estava inocente. O presidente teve um sorriso de suprema indiferença àquelas palavras do estudante e dirigiu-se à secretaria com o passo firme de quem caminha para uma ação nobre com o seu belo porte de diplomata. Ia falar ao Zuza como pai. Seria talvez preciso improvisar um passeio à Europa. Decididament e era um grande homem aquele! Mas olha que vais reduzir à miséria muitas famílias. hoje mes mo muita gente vai pagar pelos diretores do tal partido. então. que era tempo de seguir para o Recife. pecador arrependido.. Se lhe entrasse na cabeça a idéia de casamento com a tal senhora normalista.. revol tando-se contra a maledicência pública. ia tudo águas abaixo. pensava o coronel. Tin ha feito mal em esbofetear o rapazinho. do contrário o rapaz era capaz de fazer uma estralada dos diabos. O certo é que vapores passam. coitado. riscando o chão coma bengala. não é assim? injuria m-me. Pois bem. até desejava ir-se logo para Pernambuco.A NORMALISTA Page 51 of 96 ge 51 of 96 Pois bem. não achas? Ante a resolução pronta e decisiva do presidente o Zuza ficou perplexo. macambúzio. Entretanto a demora do Zuza na capital cearense começava a inquietar o coronel Sou za Nunes... Nada mais simples. vou mandar lavrar a demissão de alguns empregados públicos. ad eus. com um ar indolente. o que decididamente faria no primei ro vapor. nada tinha que ver com os desaforos publicados. Zuza pretextou uma forte enxaqueca e abalou a pensar no vendedor da Matraca. dizer-lhe com a franqueza rude de um superior para um subalterno que aquilo não podia continuar. acham que sou mau. Insultam-me. Enfiou pela rua da Assembléia. Eis aí está como se resolvem questões desta ordem. e tonam a passar e tu vais ficando. que sou indiferente à sorte do Ceará. um bo cejo de velho preguiçoso. soltando. com a data de hoje. Era um simples vendedor. muito distraído. objetou-lhe um d ia o coronel que abstinhase . provando-lhe com argumentos fortes que tudo que se dizia na ru a era mentira. " Que diabo! A gente sempre faz asneiras. logo à entrada. fazendo-se enérgico. entrou em casa esbaforido..

Sofia esti mava até que o filho se demorasse o mais possível em sua companhia. sem considerações. arrastando a sua enfermidade in curável pelo interior sossegado da casa. um desejo de sua mãe era satisf eito imediatamente.htm 23/12/2012 .com. uma familiaridade moderna. D.biblio. ora. há tempo bastante para tudo. A formatura do Zuza era para ela uma questão secundária que havia de se resolver mai s cedo ou mais tarde. tratava-o com todo carinho. custasse o que custasse. . Um pedido. com fortes dores no útero provenientes de um parto infeliz em que fora preciso arrancar a criança a fórceps. Era uma senhora de quarenta anos com todos os característicos de uma boa esposa. A esposa do coronel é que não se envolvia em questões. Adorava o filho. Sofia era a única mu lher sincera e boa no mundo a seus olhos de filho agradecido. Havia ente os dois. respeitava as resoluções do Zuza e evitava contrariá-lo na mais pequena coisa. i nimiga de passeios. s empre muito boa. mas não revelava e ste seu pensamento a ninguém.. mas. tinha orgulho nele. importando-se pouco ou nada com a vida elegante. de si para si achava que o estudante tinha pouco amor aos estudos.de falar na normalista. Vivia constantemente incomodada.. Mas. Os exames começam tarde este ano. http://www. O Zuza tinha-lhe uma afeição supersticiosa. Demais. pai e filho. como se fossem apena s irmãos. Qual tarde. D.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. é verdade. meu filho! tu estás perdendo um tempo precioso quando já devias estar lá.

Decididamente casava-s e desta vez embora isso custasse algum desgosto ao pai. Que importava isso? Fazia muito bom juízo da sociedade cearense para não acreditar q ue todas as normalistas do Ceará fossem indignas de um rapaz de certa ordem. Que diabo! deixassem-no ao menos provar o tradicio nal aluá. Fortaleza. . retribuía-lhe o afeto com a mesma dedicação. " Tinha tempo.A NORMALISTA Page 52 of 96 ge 52 of 96 Ela.. o cabelo lustroso. por sua vez. empunhando o seu famoso clak. tinha tem po. Est ava glorioso dentro da sua casaca de pano fino mandada fazer especialmente para o ato. é minha velha. que se realizou cerimoniosamente. Queria p ara esposa uma mulher nas condições de Maria do Carmo. a pobre senhora. com o mesmo desprendimento. Uma curiosidade flagrante estampava-se na fisionomia dos moradores que assistiam bas baques à chegada dos carros. do contrário jamais eu tornar ia a esta província insuportável. a amb ição romântica de possuir completamente aquela rapariga que se tinha apoderado de todo o seu coração." Mas entravam e saiam vapores e ele deixava-se ficar com o seu tédio. porque assim podia estudar mais e "fazer figura". com toda a pompa de uma f esta de província. não contrariando o mais leve pensamento do rapaz.S. o casamento da Lídia com o guarda-livros. faria-os em março. Que festa na rua do Trilho! No quarteirão compreendido entre a rua das Flores e a do Senador Alencar. E os dia passavam e cada vez mais crescia no seu espírito o desejo veemente. lembrava José Pereira maliciosamente. Às sete horas parou à porta da viúva Campelo um carro e saltou o Loureiro todo de pret o. na igreja de N. O que queria é que a pequena so ubesse corresponder à sua confiança. comunicando a sua ruidosa alegria àquele pedaço de rua habitualmente silenciosa e so ssegada. 9 Foi num sábado. à noite.. decidido a passar o Natal em. de origem obscura e pobre.. do Patrocínio. órfã. Os exames? ninguém se incomodasse. notava-s e um movimento desusado de gente que se debruçava às janelas e parava na calçada e nas esquinas para esperar a saída dos noivos.. era até melhor. Mas olha que a rapariga é normalista." repetia. dizia ele. repartido ao meio em trunfas. Todo homem deve ter a liberdade de escolher a mulher que melhor lhe quadrar. gravata branca. " É o que me obriga vir ao Ceará. preso irresis tivelmente aos olhos cor de azeitona da normalista como a uma forte cadeia de ferro.

br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012 . Nunca ninguém o vira tão bem disposto. foram recebe-los à porta. Dois sujeitos.. tomou-o pelo braço e conduziu-o à sala de jantar para lh e oferecer um calizinho de vinho do Porto. Nada. abafadas. muito apertada na sua toilette de seda escarlate. Incomodara-se a princípio. todo ele recendendo opopánax. tão lépido. A noiva estava acabando de colocar a grinalda quando entrou o Loureiro muito tes o com um riso amável e desconfiado que lhe arrebitava o bigode espesso. m as acalmara-se logo.com. o sangue subira-lhe à cabeça ao ler semelhantes torpezas. Amanda. porque não valia a pena a gente incomodar-se por uma carta anônima escrita em péssima letra e. e a estas palavras cresceu o zunzum pr opagando-se por ali fora entre os curiosos que se acotovelavam à porta da rua. de luvas.. metido num colarinho em folha. compactas. anunciou uma voz. com a testa reluzente de óleo. também encasacados . com um ar ao mesmo tempo condescendente e soberano de capitalista sem débito. coisas do Ceará. acrescentou convicto o Loureiro. sem esperar resposta. os grandes seios http://www.biblio. A viúva não se inquietou. E logo toda gente a repetiu transmitindo-se a grande notícia "chegou o noivo!" dos os olhares caíram de chofre sobre o guarda-livros transfigurado em herói de comédia. espremidas entre as quatro pared es da pequena sala de visitas. começou a contar um incidente que lhe sucedera no hotel no m omento em que se vestia. muito azafamada. atarefada.Havia folhas tapetando o chão defronte da casa da viúva onde reinava agora uma estra nha aglomeração de pessoas de ambos os sexos. Loureiro queixou-se do calor sacando fora as luvas. rubro. uma infâmia que não lhe atingia sola do sapato. e to D. Uma carta anônima contra a reput ação de Lídia. coisas dessa terra. "sem assinatura". "Chegou o homem". E. suando. o que era mais. "A noiva estava pr onta?" perguntou.

pousavam duas lanternas em forma de sino.A NORMALISTA Page 53 of 96 ge 53 of 96 ameaçando romper o corpete e uma rosa no cabelo. com vasos de flores no aparador. passou uma revista g eral na casa. Calúnias. Da igreja iria diretamente para a "chácara". Um "copito" de vinho aos amigos. achava uma formidável maçada. E uma vez tudo pronto. era no Benfica.. dispensa. como por um cristal muito límpido. alcova. d onde se via. conforme as suas posses e os seus hábitos de empregado zeloso e metódico. lá dentro. Loureiro dera-se pressa em mobil iá-la a seu jeito. Tinha feito muitas despesas com o casamento. e lustres na sala de visitas. recebendo em cheio até o meio-dia toda a luz do nascente. Isso de pândega em noite de núpcias não era próprio. ainda cheirando à tinta. nada mais. tudo no seu lugar. onde ficava à disposição dos amigos. uma velha peça que fora do tempo do marido de D. varanda. tudo novo e lustroso. por intermédio da casa Confúcio. um sonho do poeta lírico. como d antes. quarto para criado. de um verde tenro. o ninho em que ele ia passar a lua-de-mel com a Líd ia.. tinha agora outro aspecto mais asse ado e alegre. com a s ua fachada azul ainda fresca. Uma miniatura a casinha do Benfica. nova. com uns tons aristocráticos matizando a compostura graciosa dos móveis. Mandara vir dos Estados Unidos. . casa de jantar. assobradada. Resolvera não fazer festa. Logo à entrada hav ia uma escadinha de três degraus. nitidamente. como se tivesse saído da fábrica naquele instante. O chão de tijolo ainda estava meio úmido da baldeação que se fizera na véspera. escolhera ele mesmo os móveis e objetos decorativos. o aparador de nogueira e o guarda-louça. papel claro nas paredes. A pequena sala de jantar. Concluídas as obras da casa. D emais não era nenhum milionário para não contar o dinheiro que gastava. i luminada à vela de espermacete. sem manchas de gordura nas paredes amarelecidas. a s ala de jantar e as bananeiras do quintalejo. u m piano americano e uma máquina de costura. Sala e visitas. admirando com a alma cheia de satisfação a espécie d e paraíso que ele próprio criara para si. jarros. De resto os mesmos móveis d o costume: um lavatório de ferro com espelho defronte do corredor. um taco de bolo e o deixassem em paz com a sua "querida". a mesa de jantar. desde a sala de visitas até ao fundo do quintal. observou servi ndo o vinho. cozinha e quintal. tudo asseado e confortável. O guarda-livros emborcou o cálice à saúde da noiva. o trabalho de renovação. pratos com bolos e garrafas intactas dispost as em simetria. Sobre a mesa do centro coberta com um pano novo de riscadinho encar nado. comunican do com um quarto. mas muito fresca e alegre. uma casinha também de porta e janela. Não pedira c onselhos a ninguém. Amanda. A verdadeira casa do Loureiro. gabando a boa qualidade do Porto. caiadinha de novo.

Agora estava convencida de que o seu homem era capaz de fazer figura e m qualquer sociedade. essa acompanhava a filha." Lídia pasmou diante daquele novo mundo que se lhe oferecia à vista. a procedência dos objetos. Percorreu todos os aposentos. muito gorda chamando a atenção da Lídia. armado à inglesa em forma de dossel. Nunca pensara qu e o guarda-livros soubesse preparar uma casa com tanta graça. admirando a boa fé do Loureiro. "Olha isto. O guarda-livros guiava-as. http://www. Esplêndido. mais ignorante e sensaborão. podia casar.biblio. revistando os móveis. Estava encantada! Já agora não invejava a sorte de Maria do Ca rmo: o Loureiro podia competir com o Zuza em bom gosto! Quem diria? Supunha o guarda-livros mais tolo. dando graças a Deus por ter encontrado semelhante genro. Experimentou o enxergão de a rame calcando-o com o corpo. que o guarda-livros comprara nu m leilão particular por preço exorbitante. com exclamações de íntima alegria. prognosticando o futuro da rapariga. uma semana depois. Era quase noite quando se retiraram. toda agente falava no casamento da Campelinh o como d um acontecimento extraordinário. e continuaram a visita.htm 23/12/2012 .. admirando a qualidade fina dos objetos. Magnífico! A viúva também se sentou um instantinho. Subia de ponto a satisfação da rapariga. num sábado. mamãe? Melhor que o das Cabraes! Mirou-se ao espelho. A viúva. hein? Quem diria!. olha aquilo!" dizia . lembrando episódios. Achava muito elegante as camas que se estavam usando. Pelo primeira vez na sua vida o Lourei ro revelara-se um homem moderno e civilizado.. embasbac ada. menina." Sim.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. tinha cumprido rigorosamente o seu dever. Estava tudo que nem um b rinco! Agora. Da sala de visitas passaram à alcova. Coitado. ele talvez ignorasse mesmo certos pormenores da vida da Lídia. a cama! saltou a Lídia... recapitulando a vida inteira da viúva e da filha. Esteve quase se atirando a o pescoço do noivo e beijando-o agradecida. de cristal. uma peça magnífica.com. senhor. hein. sentando-se no be lo leito de ferro azul com esmaltes d ouro. A Campelçinho. Uma felizarda! E t odos comentavam o fato com ruído. "Oh. explic ando os melhores detalhes. Sentou-se ao piano e ensaiou uma escala achando-o excelente. Agora. conteve-se porém. sim. coch ichando malícias. o seu valor. na frente.

duas a dua s.. E àquela aparição levantou-se um rumor em todo o quarteirão. Mas o Guedes não atendia a coisa alguma. Debalde o Perneta procurava acalmá-lo. Terezinha. casando-se tinham-se tornado verdadeiras mães de famílias. já vem!" era a voz ger al. Com efeito. Olha que te podem ouvir. O cortejo desfilou a pé. Deixa-te disso. homem! Que ouçam. que na rua se estava ouvindo. possesso. viz inha de João da Mata. com o pensamento na Lídia. "Como aquilo ia orgulhoso!". ó Guedes. Cala a boca. aquela fêmea! Cala a boca. uma paraense equívoca. homem de Deus? O que não é bonito é estares por aí a dizer asneir as. com os olhos en sangüentados. deram sinal de que os noivos iam sair. vomitando todo o seu despeito contra a Lídia que ele cobria de impropérios aguardentados. cambada de infames! E batendo no peito orgulhoso: Esse aqui beijou muito aquela tipa. disse Justina Proença. logo às seis horas começou a beber no Zé do Gatto mais o P erneta. e outras pessoas de mais ou menos intimidade. em seguida Maria do Carmo e um rapaz emprega do no comércio. com uma auréola de imortalidade. d aí a pouco surgiu na calçada a Campelinho caracterizada em noiva.A NORMALISTA Page 54 of 96 ge 54 of 96 Daí quem sabia? talvez fossem muito felizes. esse. porque? Pensa você que tenho medo de caretas? Hei de dizer o que eu m uito bem quiser. depois. Escureceu e ele ainda lá estava no fundo da bodega esvaziando cálices de aguardente. Conheciam-se moças mal comportadas que. ante a curiosidade indiscreta da vizinhança que se debruçava na janela para ver melhor a noiva. De repente houve um fecha-fecha na esquina onde iam dobrar os noivos. . De vez em quando aproximava-se o Zé Gato e suplicava que não falassem tão alto. esbravejando como uma fera. cabisbaixa.. fique você sabendo! Quem te diz o contrário. "Tão besta é um quanto o outro". afogada em seda branca. que ouçam. O Guedes. de braço com a firma Carvalho & Cia. murmurou a mulher do barbeiro. transbordando cóle ra. a falar desesperadamente. aconselhava o Perneta. Às sete horas dois foguetes queimados defronte da casa da viúva Campelo. Moleques com tabuleiros de doces na cabeça acompanhavam o préstito. no Trilho. sabes? Não preciso dela para coisíssima alguma. "Já vem. da MATRACA. num muxoxo. o Guedes estava fora de si. Logo após vinha o Loureiro com a viúva. pisando devagar. D. menino. estás ouvindo? Aquilo é uma sem vergonha muito grande. o Castrinho.

Deixa de tolices. sem chapéu e pôs-se no meio da rua a vociferar obscenidades contra a Camp elinho e mais o guarda-livros. que procurav am conduzi-lo à venda. espumando. compareceram guardas de polícia. mas foi detido por João da Mata.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. bêbedo co mo uma cabra. o Loureiro quis avançar contra o desordeiro. vamos. fez-se a ordem e o "casamento" segu iu em paz. como um zumbido de abelhas num cortiço e os boatos circulavam vertiginosamente. o Zé Gato saiu à rua para acalmar o borracho. estás dando escândalo. Um escândalo.. direto à igreja do Patrocínio. ó Guedes.biblio. Soaram apitos. saltou de dentro o Guedes. O Guedes forcejara por evadir-se dos braços do Zé Gato e d outro sujeito. foi alterada a ordem do préstito.com. Afinal de contas. Toda a gente queria saber o que era. depois de alguns segundos. o que tinha ac ontecido. A verdade é que ao aproximar-se o "casamento" da venda do Zé Gato.htm 23/12/2012 ..Que é? Que foi? Recomeçou o zunzum mais forte. homem! http://www. Sou eu que te pedes. rapaz. a Lídia ficou branca debaixo do véu e ia tendo uma sín cope.

Loureiro limpava devagar com o lenço recendendo opopánax o suor que lhe corria em go tas da testa. os cabelos em desordem. Amanda. deixando-os ficar. Um talento famoso! É um segundo tomo de Barbosa de F reitas. mas ninguém ousava despedi-los.A NORMALISTA Page 55 of 96 ge 55 of 96 Não vou. sempre muito solícita. veio convidá-los para a ceia: que estava pronto o . e em po uco. porque não quero. No meio dos convidados ha via estranhos que invadiam a sala sem cerimônia. com um belo ar de famil iaridade. D. encarando com supremo orgulho a curiosidade pulha dos circunstantes. Cerca de uma hora depois voltaram os noivos com o seu bizarro cortejo de amigos e amigas. Coitado! lamentou o vendeiro. Foi uma luta para acalmá-lo. aconchegados. o rosto afogueado. prelibando as delícias do matrimônio na casinha do Benfica. Falava-se um pouco alto. tinha-se perdido a cerimônia grave de momentos antes. A ale gria dos noivos comunicava-se instintivamente aos circunstantes como se na verdade estes compart ilhassem da íntima felicidade daqueles. Ninguém os conhecia. como um doido. Lídia estava divina com sua suntuosa toilette de noiva comprimindo-lhe os quadris rijos e carnudos. debruçado sobre a mesa de ferro onde serviam-se as bebidas.. Os noivos tinham se sentado no sofá. deu-lhe a cheirar limão. Eu hoje faço o diabo! E agachava-se. muito séria. os olhos esbugal hados. e caía p ra trás e tombava para os lados. Por fim o Zé Gato mandou vir uma xícara de café sem açúcar. por uma cond escendência razoável. imiscuindo-se no tumulto de gente como se fossem am igos velhos. mas agora vinham os dois na frente abrindo caminho. Curiosos de ambos os sexos debruçavam-se da parte de fora das janelas para dentro. espremidos uns contra os outros. porque não quero. A volta não se parecia com a ida. ouviam-se ri sadinhas gostosas. de paletó saco e gravatas de cores espaventosas.. defronte à janela. sem gravata. conversando baixinho. o redator da Matraca dormia beatificamente. está ouvindo? Não vou. sentindo-se mais que nunca irresistivelmente atraído pela formo sura sensual da Campelinho. Outra vez a casinhola da viúva encheu-se que num um ovo. Pousava os pés sobre o tapete deixando ver as meias de seda cor de carne com pinta s de ouro. O guarda-livros contemplava-a de instante a instante com um profundo olhar apaix onado de dono que acaricia um objeto querido. Nas fileiras do préstito havia um rumor de franca liberdade.

mas o Lo ureiro e a Lídia. àquela cena banal de doze pessoas que comiam bolo à guisa de pirão de farinha. empunha ndo o cálice. sequiosa de cerveja e vinho do Porto. A saleta de jantar resplandecia à luz dos dois castiçais de vidro com mangas em form a de sino. A um canto. e a esposa.htm 23/12/2012 . Quando menos se esperava. Ao lado dos noivos os padrinhos. ei-lo de pé.chá. Todos acercaram-se dela com a avid ez de gastrônomos. Um rubor de ocasião solene tomou as faces do Castrinho. que felizmente passou despercebido. O Castrinho que não faltava à festa alguma dessa orde m.biblio.com. Os curiosos da rua tinham invadido o corredor e assistiam em pé. sentou-se ao centro com uma comoção visível no olhar agitado. por um escrúpulo mal entendido. indicando as cadeiras. "Sentem-se. silêncio! advertiu uma voz. e enfiando a mão direita no bolso da calça. acotovelando-se. começou: http://www. inquieta como uma barata à volta da mesa. e. com um grande ar de tribuno acostumado a falar às mas sas.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. s entem-se". O Castrinho não se fez demorar muito. e logo toda gente enfiou pelo corredor atrás dos noivos. Houve um assalto à mesa. sobre uma mesinha de pinho. apenas provaram o delicioso manjar e cruzaram o talher. uma bateria de gar rafas de cerveja desafiava a ganância dos convidados. já havia alguém sentado no extremo o posto. antes que os noivos tomassem assento à cabeceira. colocados nas extremidades da mesa. Silêncio. ao todo eram quatorze. O Castrinho não pode reprimir um oh! de indignação. Carvalho & Cia. Todos se s entaram com ruído. ti nham o ar modesto de quem se vê cercado de honras imerecidas. ao redor da mesa. ordenava a viúva. disposto já a brindar os noi vos num grande rasgo de eloqüência demostênica. O poeta das Flores Agrestes pigarreou solenemente abrangendo com um olhar vitori oso toda a saleta.

com a boca cheia.. D. que agradeceu comovido.. Houve uma pausa depois da qual o Castrinho. hurra! Todos se levantaram. hip... reluzia uma pedra duvidosa. visivelmente inquieto. o ruído dos talheres que continuaram a funcionar ativamente.. Já acabou.. Sr. para saudar..... muito alva e lustrosa. como dizia certo escritor... Então... João da Mata? Um ping uinho de . tomando o cálice cheio. desejando-lhe um futuro de rosas banhado pelo s eflúvios do amor conjugal.A NORMALISTA Page 56 of 96 ge 56 of 96 Meus senhores. escorropichando o cálice: Aos noivos! Hip. Amanda. Uma salva de palmas cobriu as palavras do Castrinho. como diri a o nosso Casimiro de Abreu. observou D. ... mergulhando o olhar na fruteira. minha senhora. endireitou a gravata com pancadinhas suaves. e... eu brindo ao ditoso par. minha gente. da mesma gota de orvalho"... Não façam cerimônia. muito de leve. para saudar o himeneu destas d uas criaturas (apontando para os noivos) nascidas "no mesmo galho... Eu faltaria ao mais sagrado dos deveres. . em que toda a natureza veste-se de gaias para receb er em seu vastíssimo seio os noivos presentes.. O orador. e minha senhoras. e minhas senhoras.... Castro não quer se servir de um pedacinho de bolo de mandioca? ofereceu a viúva por trás do poeta. em que se destacava apenas. No peito de sua camisa.. isto é para Deus!. e o homem que se casa dá um passo para o infinito.. meus senhores. Uma voz: Não apoiado.. Sr. Estou satisfeito. Si neste momento solene. agradecido. Aceitava. o casamento é a base de toda a sociedade civilizada. Ouviam-se trabalharem as mandíbulas. continuou: Sim.. Loureiro. Fez-se um silêncio grave e recolhido. concluiu com ênf ase: Portanto. o mais humilde amigo desta casa. Lídia. não erguesse a minha fraca voz. Não apoiado. cujo nome não vem ao caso citar... Crescia a animação da festa. sem tirar a mão de dentro do bolso. Bravo! murmurou o mesmo apartista dos não apoiado numa voz cava....... pois não. o casamento.. Os talheres batiam nos pratos com mais força e as palavra s do liceista comunicavam ao auditório certo entusiasmo sereno que se traduzia em apetite voraz e insaciável secura nas gargantas. mais um copo de vinho.... E. o casamento é a mais n obre de todas as instituições. Agradecido. eu.

E você. Sentara-se à mesa por civilidade.. a festa da amiga fazia-lhe mal aos nervos.com.biblio. Alferes. Sr. mas o seu único desejo era ir-se embora para casa. demais. o Zuza proibira-lhe de ir a qualquer http://www. menina. e. Maria do Carmo não podia disfarçar a tristeza.doce de caju. para corresponder aos reclamos da viúva. a ponta de inveja concentrada que lhe tomava de assalto a alma inteira.htm 23/12/2012 .br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. coma sem cerimônia..

uma pobre. Ah! naquele tempo ela tinha o seu papai e a sua mamãe perto de si. sem ter que obedecer aos caprichos de um padrinho atrabiliário e despótico como João da Ma ta. Tinha fa ma de primeiro recitador do Ceará. olhos cavados.. quartel mestre do batalhão. um moreno..... ouvindo sem ouvir. menina ainda.. desde os sambas do Outeiro aos bailes do Clube Iracema. Nas horas d ócio dava-se ao luxo de fabr icar sonetos no gênero piegas dos últimos trovadores de salão.. A noiva abaixou a cabeça afet ando modéstia e Loureiro fixou o olhar atrevidamente no orador. Mas o Coutinho. as pessoas e os ruídos. assistin do com uma grande tristeza egoísta derramada nalma à felicidade alheia triunfante. matutinha. silenciosa. com um arzinho recolhid o de filha de Maria. doía-lhe no coração de pomba desolada não poder. mais do que nunca. logo ao chegar de Campo Alegre.. uma desprezada órfã.. Casimiro de Abreu. não por sua espontaneidade. por um excesso de sens ibilidade nervosa. que brilham no firmamento da poesia brasileira. porque o padrinho a obriga ra. anos depois. E agora ali estava casmurra. saudando aos noivos. de chofre sobre o militar como se de sua boca fossem sair preciosas revelações. apresentara-se à sociedad e. todo enfezado. sempr e de lenço na mão. uma simples. ninguém como ele sabia marcar um quadrilha. Enquanto os outros divertiam-se sorvendo cálices de vinho. não perdia ocasião de exibir-se na poesia ou na música. permanecia muda e bisonha como quando pela primeira vez. O mesmo silêncio cauteloso e recolhido. vendo sem ver. Todas as vistas caíra. eu. cabelo penteado em pastinhas. de c osteletas. Fora ao casamento da Lídia. Meus senhores. magricela.. que tenho a honra de pertencer à falange dos discípulos de Castro Alv es. Houve um silêncio profundo. Varela e tantos outros astros de primeira grandeza. meus senhores! Atenção! Desta vez ia falar o alferes Coutinho. metido invariavelmente na sua farda de alferes com colete branco. como a Lídia e como outras tantas raparigas felizes . amar livremente. Nem um aparte. no meio de to da aquela gente que festejava o casamento da amiga. numa abstração infinita. saco u do bolso da farda um . que tomei a liberdade de dedicar aos donos desta fest a inolvidável. ela. certo ar arrogante de pelintra acostumado a todas as festas. toda entregue a seus pensamentos. Era o alferes Coutinho? Oh? magnífico! Psiu! psiu!. Não dispondo de dotes oratórios. não era como agora. Respeitabilíssimas senhoras. eu vou ler uns versos de minha lavra. Silêncio!. Atenção. calmo e desembaraçado. tão úteis n as ocasiões solenes como esta.A NORMALISTA Page 57 of 96 ge 57 of 96 parte onde ele não estivesse. Agora. Arrastava ao piano as valsas em moda e dizia-se exímio tocador de flauta. Convidado à toda parte.

Lídia estremeceu com um belo sorriso de agradecimento. Ao terminar o último verso "Chovam bênçãos de amor sobre os que casam!" Uma salva de palmas forte e prolongada ecoou na pequenina sala. Lídia. palitando os dentes.. uma das estrelas mais fu lgurantes que ornam o céu da sociedade cearense.. portanto.. Sem mais preâmbulos. e lendo: Noite de Núpcias é o título dos pobres versos.... Bravo! muito bem! muito bem! http://www. brandindo o papel com a mão esquerda e a direita gesticulando como se e stivesse a marcar compasso de música. ..biblio.com.. ambo s... uma enfiada de palavrões antigos e bolorentos. D. o alferes entrou a declamar com uma convicção admirável os tais ver sos de sua lavra. Sra.. inteligente e zeloso guarda-livros da nossa praça. confirmou Carvalho & Cia. e ao Sr.. dignos um do outro e da nossa eterna amizade. que tenho a honra de oferecer a Excia. Não apoiado. que ele procurava animar com sua vo z de trovão.htm 23/12/2012 . Apoiadíssimo.papel. . Dias Loureiro. seca e cavernosa.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.

era o paliteiro de prata representando um alcaide com chapéu de três bicos e aspecto napoleônico. "en carnação de todas as virtudes domésticas. em que tomavam parte o exército repre sentado pelo Alferes Coutinho. Alferes era cearense". Não senhor. Senhoras entravam e saíam da alcova com a r desconfiado. disse a sua grande simpatia por essa província e que pretendia casar com uma cearense. resguardando o colarinho. Os espectadores intrusos evacuaram o corredor com a mesma facilidade de ligeirez a com que se tinham introduzido e depressa a sala de jantar ficou entregue à viúva e ao criado. e palrava agora desembaraçadamente numa atmosfera pesada de fumaça e heliotrópico. E. onde já havia sinal de suor. o que fazia o alferes Coutinho trazer constantemente o lenço no pescoço. porque o calor crescia. . O troço dos comensais. Transpirava-se por todos os poros. Esgotaram-se as botelhas de vinho do Porto e de cerveja com um aço itamento de quem não bebia água há três dias e depara uma piscina abundante do precioso líquido. Deram dez horas no relógio da Sé. E contou quando viera para o ceará. a poesia na pessoa do autor de Flores Agrestes e o comércio em grosso si mbolizado no ventre obeso de Carvalho & Cia. sou guasca. nasci na cid ade de Porto Alegre. em pé. cujas badaladas faziam-se ouvir. recolhendo-os ao guarda-comidas. Uma coisa tinha sido respeitada e conservava-se no mesmo lugar em que fora coloc ada pela mão zelosa de D. umas abanando-se com os grandes leques de cetim. O "brinde de honra" foi feito em duas palavras por Carvalho & Cia à D. compondo discretamente os vestidos. abandonados ali como restos de um festim sardanapalesco. ao levant arem-se da mesa. senhora de incomparável brandura e sisudez". lembrou-se de perguntar-lhe ao ouvido "Se o Sr. de braços cruzados . Um velho calvo que se sentava a seu lado. os convidados olhavam com soberano desdém a toalha manchada de nódoas de vinho sobre a qual havia um confusão grotesca de copos e pratos em desordem. respondeu o Coutinho. voltando-se gravemente.A NORMALISTA Page 58 of 96 ge 58 of 96 E o poeta sentou-se agradecendo com repetidos movimentos de cabeça as manifestações de que era alvo. outros co m os lenços . em todo o âmbito da cidade. cujas cadeiras estavam todas ocupadas. numa imobilidade de objeto de luxo que se receia tocar por escrúpu lo. que se o cuparam de cobrir os restos dos bolos. graves e sonolent as. A janela estava toma da por algumas pessoas que formavam roda ao redor do Loureiro. Amanda. Amanda. Diversas pessoas levantaram-se e foram cumprimentá-lo de perto. homens e senhor as. Hip! hip! hip! hurrah! Foi um delírio esse final de banquete nupcial. enchiam a sala de visitas.

que se propagou por ali a fora era o velho calvo. Quininha? É muito cedo. D. à procura dos chapéu s. enfiando pela alcova e pelo corredor. Imediatamente todos se levantaram impulsionados pela mesma idéia. Dez horas! Estávamos tão distraídos! disse o alferes Coutinho puxando os punhos. repetiram muitas vozes. que se tinha encafuado a um canto da sala cochilando. consultou o relógio.biblio. acudiu a Lídia. Estrondou um bocejo senil e demorado. vamos. saindo da alcova. num reboliço crescente.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. com um sorriso de irresistível face irice. É cedo. Amanda. aos encontrões.com. Terezinha. minha gente. que conversava com Maria do Carmo no sofá. de um lado para outro. de óculos. não descansava as pernas. Os noivos precisam descansar. alto. É verdade.Dez horas! Carvalho & Cia. Safa! o tempo voava!. Vamos. Havia uma pequena diferença de dez m inutos. As senhoras agasalhavam-se nos fichus. e que despertara agora num espreg uiçamento como se estivesse em sua própria casa. levantando-se: Vamos. de dentro para fora da alcova. saltou D. E. minha gente! implorava a Lídia muito amável.htm 23/12/2012 . defronte do espelho. http://www.

que lhe fazia todas as vontades.. Amanda chamou a filha à alcova onde estiveram conversando alguns minutos. em casa de João da Mata. pretextando tolices. Olhe. entrou no carro que r odou em direção de Benfica. Uma felizarda a Lídia!.. A rua estava silenciosa e escura como se fosse alta noite. Não esqueça o que lhe pedi. Quem sabe? talvez o padrinho não fizesse questão agora que a tratava tão bem. faça o que ele quiser. como de costume. Minutos depois D.. na calçada. que fossem muito u nidos sempre como dois irmãos. dando o braço ao Loureiro... Defronte. agradeciam reconhecidos a chuva de felicitações que caiam sobre eles à guisa de flores desfolhadas sobre suas cabeças. o Batista da Feira Nova.. sempre com evasivas. Amanda recebia. mas embora. L oureiro mandou aproximar o carro que o esperava. Que tal . Olhe. aconselhou D.. Terezinha com a mão no ombro da Lídia. seja sempre boa para seu maridinho. minha filha.. Adeus.. Em pouco todos tinham se retirado. Lídia beijou comovida a mão da viúva e. Zuza não se resolvia a pedi-la e m casamento. ouviu? Todos tiveram mais ou menos o que dizer aos noivos. hein? O Sr... Que de beijos estalados à queima roupa! Em pé no meio da sala. depois de a ter beijado. Casara com um guarda-livros. Que fossem muito felizes. o que ele mandar. como se estivesse tratando com uma biraia qualque r! Porque isso? porque não se decidia logo a dizer a verdade fosse ela qual fosse? Era sempre melhor do que estar perdendo tempo sem tomar uma resolução franca e defin itiva. casara. 10 Quando chegaria sua vez? pensava Maria do Carmo nessa noite. ouviu Lídia? recomendou de fora uma voz de mulher.... os noivos. competente mente formalizados. fecharam-se as portas apagando-se completamente a última luz que clareava aq uele trecho da rua do Trilho. . que não esquecessem as velhas amizades. Boa noite! Sejam felizes! Durmam bem!. que tivessem uma eterna lua-de-mel. abraçando-a ternamente com os olhos úmidos: Deus os conduza em paz.A NORMALISTA Page 59 of 96 ge 59 of 96 Começaram as despedidas. e dep ois. ao mesmo tempo que Lídia ia distribuindo a uns e outros botões de laranjeiras . D. O homem é qu e faz a mulher e a mulher é que faz o homem. com um desalento profundo no coração apreensivo. Havia ainda alguns curiosos fora. sem poder conciliar o sono. com a sua luzinha amarela tremeluzindo no escuro.

na franqueza ativa com que ele dizia todas as suas idéias e todas as suas ações. cujo protagoni stas o estudante aprazia-se em vê-la rendida a seus pés por um simples capricho de rapaz do mundo que se diverte à custa de muitas raparigas como ela.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. o convívio com as su as colegas da Escola http://www.. Paciência. tão bom a esquecesse.E imediatamente vinha-lhe uma confiança ilimitada no estudante.htm 23/12/2012 . ele que reprovava com frases repassadas de indign ação o procedimento de certos indivíduos para quem a mulher outra coisa não é senão uma espécie de fruto amargo q ue a gente prova e deita fora? Qual! O Zuza era incapaz de descer até onde começava o rebaixamento do c aráter de um homem. paciência Roma não se fez em um dia. educada em um colégio religioso. Era lá possível que o Zuza.. tão sincero. C onsolava-se ao penar nas confidências íntimas do futuro bacharel. dava-lhe conta de seus passeios. Nascida no interior de uma província essencialmente católica. como se já fossem no ivos. embebidas de ingênua e tocante sinc eridade.. de seus planos. Zuza contava-lhe tudo com a maior simplicidade.. Pode-se mesmo dizer que não havia segredo entre os dois. ainda não corrompidas pelos costumes modernos. a quele Zuza tão amável. tão espontâneas. Tinha momentos em que tudo afigurava-se-lhe uma comédia.biblio. Animava-se ao fazer estas considerações tão simples. saídas do mais íntimo d sua alma enamorada. de suas intenções. Já estava tão acostuma da com ele que nem era bom pensar em uma deslealdade.com.

que a gente adora como a um modelo de virtudes incomparáveis. que caiporismo! além do padrinho não gostar do Zuza. irressistivelmente mordida de inveja por ver a sua mai or amiga num torno de felicidade. Que infelici dade. vivendo uma vida de criminosa. metendo inveja às outras.. mas não perdia de todo a confiança. sem um bocadinho de sono.. rememorando toda a festa. se não fora o padrinho. com a pachorra de quem procura armar um castelo de cartas. e o amor transforma a pessoas ou objeto querido numa espécie de ídolo. porqu e amava deveras. e ela o sabia pela boca de D. Então é que a festa seria d estrondo! O coronel Souza Nunes ab riria o seu salão iluminado como um palácio real. os menores acidentes daquela noite. a sua. parecia até uma festa de gente rica. na impotên cia da sua tristeza... Quando chegaria sua vez? E a figura de João da Mata surgia-lhe aos olhos como uma visão pavorosa. a pensar em frioleiras. meia noite! e ela ainda velava. sem parentes. e haveria dança e música e um banquete lauto. Maria do Carmo. sim. porque o rapaz nunca lhe fizera o menor mal. para um canto. ambos de cara fechada.. até pelo contrário. gratuitamente.A NORMALISTA Page 60 of 96 ge 60 of 96 Normal não lhe apagara de todo essa bondade característica dos filhos do sertão..S. do Patrocínio tão cheia de povo! Ah! mas fora uma coisa horrorosa o escândalo pro vocado pelo Guedes. ao lado de seu noivo. Entretanto. Que maldito inferno!. Nunca vira a igreja de N. Nisto adormeceu e logo tornou-lhe a aparecer em sonho o negro Romão com as calças ar regaçadas e um barril na cabeça a gritar Arre corno! cercado de garotos que lhe atiravam pedras e sacudiam-l . tintim por tin tim. coitada. Duvidava às vezes. que a fazia estremecer da cabeça aos pés. Assim mesmo tinha ido muita gente. aquela casa parecia agora um verdadeiro inferno : era o padrinho para um lado e a madrinha para o outro. Que horror! Se fosse ela. Entrou a parafusar no casamento da Lídia. Onze horas. sem se trocarem palavras. que s e revela em uma confiança ingênua nos outros. a matuta r na vida. Maria.. como num sonho. Antes nunca tivesse nascido. Que bom que seria!. o padrinho não gostava que se falasse no Zuza. E iria o presidente da província e toda a gente grande do Ceará.. Terezinha. ela somente se deixara ficar esquecida como qualquer lagalhé. em que todos tomaram o seu cálice de vinho e só ela. Sim. Palpitavam-lhe a imaginação. sim senhora. teria caído no meio da rua com um ataque. Inegavelmente a Lídia estava encantadora debaixo do véu de noiv a. sem amigas. uma vez lhe emprestara cinqüenta mil réis. Por isso é que ao mesmo tempo Maria não podia acreditar qu e o Zuza faltasse à sua palavra para com ela. impl icava com ele. ela também podia breve estar de caminho para a i greja.. e ela.. odiava-o gratuitamente.

e ei-lo montado num cavalo magro. http://www.. quando acordou muito assustada e nervosa. Pareceu-lhe ouvir chamar pelo seu nome e então subi u um ponto o terror que lhe tapava a boca como uma mordaça de ferro. que susto! A luzinha da vela de carnaúba agonizava numa poça de cera derretida. Apoderou-se de Maria um pavor terrível. E essa! Era a segunda vez que sonhava com o Romão. com o ouvido alerta e os olhos fechados. e uma extraordinária sensação de frio percorreu-lhe o sangue. Que esquisitice! hum. rangeu nas dobradiças.. a uma voz: É sim. por detrás no meio de gritos e assobios. A porta do quarto. perto da rede. numa prostração de quem está sem sentido. Credo. Ficou assombrada. É o padrinho.. estarrecida. co mo se saísse das entranhas da terra.. Instintivamente fez um esforço supremo para gr itar.he punhados de farinhadoreino na carapinha. sinhô! Depois. mas abafada. mas não podia abrir a boca.. a olhar para todos os lados. arrepiaram-se-lhe os cabelos.. sem se mexer.. Com certeza e stava para lhe suceder alguma desgraça.. que se derramou. sem consciência exata do ambiente que a cercava. que se conservava entreaberta. Depois o preto deixou cair o barril. E logo: Sou eu. a fazer de palhaço de Circo. como se a lguém a empurrasse de manso.com. Maria? repetiu a mesma voz.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. (não se lembrava o resto) Davam duas horas no relógio do vizinho.htm 23/12/2012 . Abriu os olhos para verificar se com efeito estava acordada e tornou a fechá-los mais que depressa. inundando a calçada de imundíc ias. Maria.biblio. sem quê nem p ra quê. o vestido com que fora ao casamento. que a molec agem replicava sempre com o mesmo estribilho. Teve um sobressalto ao ver sobre uma cadeira. para chamar alguém. uma voz fina.. hum. uivando uma porção de asneiras. que ela julgava ouvir..

embiocada que nem caracol. O padrinho por ali. no silêncio de um quarto escuro. a seu lado. subtilmente.. meio aliviada. agarrando-se ao punho da rede. Estaria sonhando?.A NORMALISTA Page 61 of 96 ge 61 of 96 De feito. ladrava um cão. pé ante pé.. Olha. que preferia às vezes aos cigarros. caótica. padrinho!. Sou eu.. Qual! ela . Maria encolheu-se toda debaixo do lençol duvidando. esboçada na sua imaginação. Mas. com estalinhos de juntas. Não teve tempo de associar idéias. vendo ainda. nalgum quintal. como um ladrão. A rapariga respirou forte. de ir ao quarto da afilhada uma noite... segurando-se à parede .. Bico. is to é que era o diabo!.. Olha.. como se saísse de dentro de um buraco.. teu padrinho mesmo. Ao medo sucedera-lhe uma apreensão dolorosa. nu da cintura para cima... àquelas horas?. não fales alto. o diabo era se a menina abrisse a goela a chamar por gente.. e pôde abrir os ol hos. Nada mais fácil: da sala de jantar . A luz tinha se apagado completamente. alta noite. sem o menor ruído. Ao calor insuportável sucedia o frioz inho bom da madrugada.. minha flor. Fez-se uma confusão inextricável. o peito à mostra. Maria do Carmo não compreendeu logo a presença de João da Mata ali no seu quarto. que deixam a gente numa prostração invencível. Não grites. onde dormia agora. Desde que chegara da festa do Lou reiro não fechara os olhos.. Sou eu mesmo. no quarto d ela. a boca abrindo-se num riso nervoso e alvar. queres saber uma coisa?. olha sou eu. Mal acordada do terrível pesadelo que acabava de ter. ouviste?. Pela primeira vez na sua vida achava-se frente a frente com um homem. teu padrinho.. que o seu es pírito repelia como impossível. Deixe-me descansar um bocadinho e eu te direi. como se tivesse acabado de fazer um grande esforço. Longe. presa ainda de uma grande comoção. equilibrando-se na ponta dos pés. Padrinho.. tornou João da Mata.. àquela hora. a figura hedionda do negro com os bugalhos injetados. operava-se em seu duplo ser moral e físico um desses abalos extraordinários. a venta chata. João da Mata vinha-se chegando. estás ouvindo? eu. Tremia como um doente de sezões. João estava em ceroula. no seu espírito subitamente assaltado por um turbilhão de idéias sem nexo.. o coração pulsava-lhe forte. porque o amanuense foi se sentando na r ede. Espera. andava-lhe na cab eça o plano há muito formado. ao quarto eram dois passos.. Maria. agora quase ao ou vido da afilhada. disparatadas. Ouvia-se a respiração asmática da criada no quar to pegado à sala de jantar... olhando para o escuro como uma idiot a. ela permanecia imóvel. a fumar no seu cachimbo curto....

ele. Sentia-se forte como um touro. diz que a vida é esta. Isso a gente inventa uma história de embalar crianças. dirigindo-se ao quarto da rapariga.. E Maria esperava. já lhe pegaste umas t antas vezes no bico dos seios. segredando-lhe se ela estava com frio? Frio? . pisando devagar. mormente sabendo logo que era ele. que diabo! Quem arrisca..com. macio. Mãos à ob ra. http://www. sozinho c om ela.. meu besta. um magricela sem carnes.. adivinhando...biblio.. Oh! pois ela não é tua afilhada! demais. a Maria. com um salto. co sendo-se às paredes.não tinha coragem para tanto.htm 23/12/2012 . cauteloso. um pobre homem sem força . sem que ela reagisse. Ah! como se sentia bem agora. o padrinho. pousou a mão sobre o ombro da afilhada. numa aflição. escorregando para o fu ndo da rede.. não . e . o desenlace daquela trapalhada que ela não compreendia bem. E depois. E.. infiltrando-lhe no sangue um fluído bo m e vigoroso. ali assim a seu lado. no escuro. sentado na mesma rede em que ela dormia. nada de pensar em asneiras. João. foi um dia uma donzela. naturalmente porque sabes encampar a tua a utoridade de padrinho. Estiveram ambos calados alguns minutos até que o amanuense.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. dois. toda a incomparável perfeição de suas formas rechonchudinhas de rapariga nova! O calor brando do corpo dela comunicava-se agora a seu corpo. A fresca da madrugada arrepiava-lhe o tronco magro e cabeludo.. todo agachado. no bico dos pés descalços. o amanuense levantou-se. Um.

A NORMALISTA Page 62 of 96 ge 62 of 96 Pois olha. Eu sei de tudo.. debaixo do lençol. Se ele a quisesse deixar... desconcertandolhe as idéias. porque eu também te quero muito bem e não co nsentiria nunca nesse casamento. roçando-lhe no rosto a ponta da barba. e o movimento quase imperceptível da rapariga não pas sou despercebido a João da Mata. Pouco a pouco o amanuense ia deitando ao lado da rapariga. inclinado sobre a afilhada. Maria. sem que ela compreendesse exatamen te essa força oculta e . faz um frio dos demônios. colando a boca ao ouvido de Maria: . mais rica. Tu amas o rapaz. na rua. Mas. não é assim? Não mintas.. Agora.. e sentiu-se irressistivelmen te presa às palavras de João da Mata.. dizia-lhe. na sala de jantar. Por isso eu vem para junto de ti. ela não consentiria. Este estado porém durou pouco. Seu instinto de mulher nova acordara agora obscurecendo-lhe todas as outras facu ldades. respirando a cu sto. se não fosses boa para teu padrinho. numa espécie de inconsciência muda. testemunha oculta daq Entretanto Maria não dava palavra.... machu cando-a com o seu corpo ossudo. p uxando o lençol para se cobrir melhor e começou a achar certo encanto naquela intimidade secreta." Um grilo entrou a cantar monotonamente num canto do quarto uela cena inacreditável. se.. espreguiçou-se. numa voz que mal se ouvia. Maria não disse nada. sufocando-a com seu hálito nauseabundo.. nesse momento. devagar. que estamos sós... tudo depende de ti.... acotovelando-a. minha afilhada. tu não sabes quanto eu abomino o Zuza. com as pálpebras pesadas de sono. mas era preciso segredo.. Então o amanuense começou com uma lengalenga. sei que gostas muito dele. em casamento. E.. e até já se fala. como uma mistura de essências sutis e deliciosas. tudo depende de ti. " Estava bem armada a rede? Era preciso comprar outra mais larga. agora que o padrinho lhe falara do Zuza. eu sei de tudo. tão viva era a sua curiosidade. olha bem o que te digo. como hipnotizada. Olha. Há muito tempo que estava para te dizer umas certas coisas. Ainda hoje alguém afirmou-me que vocês se beijam na Escola Normal. Coisa extraordinária! aquele fartum de s uor e sarro de cachimbo produzia-lhe um efeito singular nos sentidos. um despropósito de palavras murmuradas c omo uma oração. Uma coisa impelia-o para o padrinho. Olha. Maria estremeceu no fundo da rede. ao cheiro almiscarado que transudava dos sovacos de João da Mata. muito segredo. Sim.. deixa dizer-te ao ouvido. só de t i. minha cabocla. cautelosamente.. deixe que te fale com franqueza. ombro a ombro com o padrinho.

com. ou não contes comigo para coisíssima alguma. Ninguém saberá. padrinho..misteriosa.. juro-te que casarás com o Zuza. E quando ele. sabes? Eu te peço... e. na telha de vidro.. Olha. apertando-a contra si.. como se tivesse caído por terra o paredeiro que mediava entre ela e o estudante. Maria repeliu-o brandamente. Ficou a pensar nestas palavras. por onde escoava agora uma claridade tênue de alvorada. Tudo dependia dela.htm 23/12/2012 . Juro-te. o amanuense beijou-a na face. só me vou se me deres uma boqu inha. nu ma impaciência de quem não tempo a perder.. É como se não tivesse havido nada... alheada.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.. opróprio Zuza não poderá saber nunca. mas por amor de Deus. E que tem? já nos têm visto tantas vezes? Agora espera.biblio. s omente dela. passando-lhe o braço por trás do pescoço: Então?.. É quase dia. http://www. sem atinar com o seu verdadeiro sentido. sem esperar resposta... os olhos fito s. deix a. Maria teve um frêmito bom. E. num tom paternal e amoroso. quase sem pestanejar. sou eu quem te pede. continuou ele. podem nos ver assim.. João respirou.. segredos que não aparecem. Por alma de tua mãe que está no céu. lhe falou no Zuza. .

Se até então a vida fora-lhe um nunca acabar de desgostos e contrariedades. humilde como um ser desprezível que reconhece a sua b aixeza. de dar-lhe com a mão n a cara e de desaparecer para sempre d aquela casa imoral. onde ela vivia tristemente com as doces recordações de seu passado. mais que tudo isso. Cantavam galos de campina nas ateiras do quintal. transformando-a numa criatura inco nsciente atraída por um poder extraordinário como o de uma cobra sobre um rato. duas grandes lágrimas no olhar. infalível.. sucumbida . Estava justamente em vésperas de ter o incomodo. ao mesmo tempo que uma luta medonha travava-se dentro de si. A madrugada veio encontrá-la de joelhos. Nunca o do ce e meigo olhar de Jesus pareceu-lhe tão meigo. como um clarão que de repente il uminasse todo o quarto. a visível submissão do padrin ho. como uma flor que vegeta num montão de ruínas. sem pôr os pés na rua. acordand o no coração de donzela o que tinha de mais delicado. confundiam-lhe os sentidos. como um anjo de sepultura. mãos juntas. a invocação feita à alma de sua mãe. As palavras do padrinho. João da Mata encontrou a afilhada num a dessas extraordinárias predisposições de corpo e alma. o contato morno de um corpo viril.. E enquanto. a mul her não tem forças para resistir às seduções de um homem astuto e audacioso. oito dias consecutivos. embebidas de voluptuosidade e o nome do Zuza pronunciad o naquele instante e. como se ele fosse na v erdade o mais desgraçado dos homens. mortificada. Sem o saber. Conhecia suficientemente o gênio de Maria nada mais. o que se ria agora. doera-lhe nalma como a ponta d uma lanceta.A NORMALISTA Page 63 of 96 ge 63 of 96 Tinha-se feito a verdade aos olhos da normalista. Ao contrário d isto. defronte da oleografia de Cristo abrindo o coração à humanidade. e não teve coragem de o enxotar. sem ir à Escola Normal. sem ânimo para se apresentar em público. suplicante. Maria procurava no coração de Jesus u m conforto para seu doloroso arrependimento. Toda ela vibrava como uma lâmina de aço ao contato daqu ele homem que comunicava-lhe ao corpo um fluido misterioso. depois de se ter . Sentiu-o a seu lado. De resto. teve piedade de João. algumas palavras atoa murmuradas à surdina. 11 Maria do Carmo passou uma semana inteira. Era domingo. lá fora . sem lhe dar tempo a pe nsar. e isto lhe bastava para que a vitória fosse certa. por mais forte que seja. com uma tremura na voz. com receios de encarar os conhecidos. a cidade acordava e a vida recomeçava seu eterno poema de alegrias e dores. e Maria do Carmo aumentava o número de suas dores. em que. rendido.

"Espero-te sem falta. contanto que soubesse guardar a sua honra. supersticiosa ao peso de sua culpa irremediável. Por andar incomodada é que ainda não fui te ver". e os cabelos iam perdendo aquele brilho respl andecente que era o desespero do Zuza. santo Deus. Tomava-lhe o rosto uma palidez de reclusa macerada pelos jejuns. Não sabia bem porque chorava. sucedendo-se numa monotonia aborrecida. porém. estava doida naquele momento. metida no seu quarto. capaz de to dos os escândalos. o legítimo esposo de seu corpo e de sua al ma. uniformes co mo os elos d uma grande cadeia de ferro. aos desejos concupiscentes do padrinho? Estava doida.. que vergonha! Era para isso que se ti nha coração. mas punha-se logo a pensar. Mas. um conforto mui to íntimo. um a coisa. onde se refletia visivelmente o estado de sua alma. não havia que ver.. entregara seu corpo àquele homem.. desde o momento que. crescia o desânimo em Maria do Carmo. di zendo-se a mais infeliz de todas as mulheres. para se deixar cair numa armadilha daquela. E chorava que nem uma criança.. inconsolável na sua dor. Em uma semana sua fisionomia adquiria uma expressão iniludível de dor conce ntrada. dizia-lhe que nunca mais seria feliz em sua vida. por sua condescendênc ia imperdoável. Às vezes supunha estar sonhando.com. Todas as minhas amigas tem vindo me visitar. No sábado recebeu um bilhete da Lídia convidado-a para jantar com ela no dia seguint e. com a cabeça no travesseiro. que não seja o seu marido. a fazer consigo mesma mil conjecturas. o dono de seu coração. não tinha um bocadinh o de juízo! Devia ter visto logo que uma mulher de certa ordem não se entrega por força alguma d este mundo a outro homem. não teria sucedido nada. com grandes ma nchas lívidas ao redor dos olhos. que lhe sacudia o corpo todo em estremecimentos nervosos..biblio.htm 23/12/2012 . Creio que não te dei motivo para procederes deste modo. cavavam-se-lhe os olhos..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. uma menina d escola. http://www. bem. entregando-se.comprometido levianamente para todo o resto da sua existência. num momento de desvario dos sentidos. e desandava outra vez num choro silencioso. via-se ao espelho e experimentava um bem-estar passageiro. cujas feições transforma vam-se a olhos vistos. Se fosse uma mulher forte e resoluta. Que desgraçada imprudência a sua! Que vergonha. deixando-se levar pelo coração até o ponto de compadecer-se do padrinho ! Que infelicidade!.. À proporção que os dias passavam. menos tu. não : fora um a grandíssima tola. enxugava os olhos na ponta do lençol... como que procurava iludir-se a si própria.

d alto a baixo. que desferia seu eterno e monótono dobrado. cantarolando uma modinha cearense em desafio com o sabiá. Terezinha continuava a cantarolar. duas. dentro da cabeção da c amisa tisnada. João fez um gesto de aborrecimento. esquecido ao sol. As lágrimas começaram a cair-lhe dos olhos duas a duas. Fre qüentemente João chegava às quatro horas. " Como tinha passado o dia? Muito fastio ainda!" ao lado de Maria. e apanhando a tigela: Mariana! Demônio de gente! Naquela casa ele é que fazia tudo. toda entregue à sua dor. e. demorando-se às vezes até às cinco. porém. como de costume.. sem casaco. invariavelmente. João mediu-a com olhar. nem sequer tinha notícia dele. sobre a esteira gasta. por pirraça. e a gora o estudante aparecia-lhe vagamente na imaginação como a lembrança remota de uma coisa que se viu e m sonho. Todos os dias. como num êxtase. Já não se lembrava d ele. O amanuense ainda não tinha voltado da Repartição.. e entregando-lhe a louça: Por que ainda não tirou isto? Estava cuidando do jantar. era o mesmo que nada. Mariana! Inhô! Não está ouvindo chamar. Sultão. Mariana suspirava na cozinha às voltas com as panelas. para não constipar. e foi direto ao quarto da afilhada.. Terezinha c osturava na sala de jantar. sem se dar por achada. E puxando uma cadeira sentou-se Ao pé da rede. era a mesma quietação. entrou de chapéu na cabeça. Havia no tépido interior d aquela casa a calma preguiçosa d e ssa hora do dia. escrita em papel-amizade. Nesse dia. a olhar para a letra da amiga. em que se ouve o voar do moscardo impertinente e cantos do galo ao longe. se havia uma pessoa doente. a mesma sonolência.A NORMALISTA Page 64 of 96 ge 64 of 96 Quedou-se numa imobilidade profundamente triste. cabelos assanhados. o que não era muito raro. seu diabo! D. sobre o bilhete de Lídi a. silenciosamente. Uma. eternizava-se uma tigela com o resto de cald o onde flutuavam moscas. que ainda se conservava deitada. Veio-lhe a mente o Zuza . com a face na não. antes que o velho pêndulo da sala de jantar marcasse quatro horas. deitado de banda. pés descalços. Duas horas da tarde.. orelhas murchas. Há uma semana que não o via. . esse dormia tranqüilamente o seu sono d o meio-dia aos pés de D. o mesmo ram errão. Mariana apareceu à porta do quarto. Terezinha. até que viesse o amanuense com as suas hemorróidas ou com sua cachaça dar à casa o ar de sua graça. D. nos quintais. e ficou assim muito tempo. cachimbando. os seios moles...

Cuidando no jantar, hein? Cuidando no jantar?... Burra!... A criada, porém, deu-lhe as costas e saiu rindo com seu ar idiota. Uma pessoa somente interessava-se pela saúde de Maria do Carmo era ele, João da Mata , cujos cuidados para com ela redobravam dia a dia. D. Terezinha, essa nem sequer chegava à porta do quarto, resmungando sempre, rogan do pragas, dizendo indiretas, que Maria do Carmo ouvia com lágrimas nos olhos. Nunca João fora tão bom para a afilhada como agora: Trazia-lhe mimos da rua, bons bo cados, confeitos, rendas, com uma solicitude paternal, animando-a, prometendo-lhe muitas felicidades, cont ando-lhe tudo quanto ouvia dizer na rua, dando-lhe notícias dos conhecidos. Teve febre hoje? continuou ele tornando a sentar-se. http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012

A NORMALISTA Page 65 of 96 ge 65 of 96 Não sei... Deixe ver o pulso... Não, nem um bocadinho... Bom, não se amofine, hein, não se amofin e. Amanhã, se Deus quiser, pode levantar-se. E baixo: Tolice... Morrendo sem quê nem para quê! Se continuas, é pior... podem até saber... Isto a gente faz cara alegre e vai para a adiante, com as outras, minha tola... Olha a tua amiga Lídia.. . Casou e casou bem... E assim a maior parte... Deixa de tolices. Logo no dia seguinte à noite do seu defloramento Maria do Carmo queixou-se de fort es dores de cabeça e nos quadris, indisposição geral, e uma ausência quase absoluta de apetite. Não podia ver com ida de espécie alguma nem sentir ao menos cheiro de guisados. Tudo a enjoava provocando-lhe náuseas. Cad a vez que se lembrava de João vinham-lhe arrepios na pele e "agasturas na boca do estômago". Pungia-lhe uma espécie de remorso, que a fazia passar horas inteiras numa abatimen to medonho, encafuada no quarto, sem coragem para continuar a vida como dantes. Lamentava-se como uma des graçada: Que vida! que vida! Não quis almoçar e passou o dia com uma xícara de café, que a Mariana lhe levara.

D. Terezinha não se abalava: era como se Maria do Carmo não existisse. Que fosse par a lá com seus faniquitos, não tinha obrigação de criar filhos de ninguém. Antes de ir para a Repartição João lhe recome dara: Olhe: Maria amanheceu doente. Está com uma pontinha de febre, não a deixe morrer de fome , hein... Foi como se não recomendasse, porque D. Terezinha nem sequer pôs os pés no quarto da r apariga. Limitou-se a dizer à criada: Ouviste! Não deixes morrer de fome a mimosa. Ah! esse desprezo, essa indiferença da madrinha doía nalma de Maria como um insulto. Lembrava-se às vezes de a mandar chamar e pedir-lhe por amor de Deus que não a tratasse assim, que não a des prezasse... Mas ao mesmo tempo achava que isto era confessar a sua culpa, porque na verdade nunca h ouvera ente elas causa para o mais leve rompimento, a não serem as impertinências de João da Mata. Que culpa tinha ela se o padrinho dissesse desaforos à mulher? E assim ia passando agora, abandonada, sem uma pessoa que se interessasse verdad eiramente por sua sorte, a não ser João da Mata. Trataram-na bem? perguntava o amanuense ao voltar do trabalho. Trataram... murmurava ela. Mas a verdade é que Maria passava uma vida miserável De manhã, enquanto João ainda estav a em casa, ele mesmo ia levar-lhe o café com torradinhas de pão, mas, depois, ela ficava entregue à p reguiça da criada e à indiferença da madrinha, em termos de morrer de fraqueza. Davam-lhe um caldo ao me io-dia, único alimento

com que ela esperava o jantar às quatro horas, quando o padrinho viesse. Por fim q uase não podia suportar aquilo, e nove dias depois, um domingo, levantou-se resolvida a ir jantar com Lídi a, ao menos por desfastio, que aquela casa era um horror! Mostrou a João a carta da amiga, acrescentando que até er a bom para ela passar o resto do dia fora, no Benfica, ouvir tocar piano, distrair, enfim, porque andava muito triste. O amanuense aprovou prontamente: que sim! mas era preciso saber se já estava compl etamente boa, se não sentia mais nada. Mais nada, passei muito bem a noite. João tomou-lhe o pulso com carinho. Pois bem, vista-se e vamos. Amanhã pode até ir à escola, não é assim? E, noutro tom: Não vale a pena a gente se amofinar por qualquer coisa, filha. A vida é isto mesmo a ndar p ra diante sempre com a cara alegre. Vamos, vá se vestir. Ainda não tinha dado meio dia no pêndulo. Maria foi ao quarto, abriu baús, mais consol ada, escolheu o melhor de seus vestidos de cretone, um azul de riscados brancos, em pouco saiu do lado ao padrinho, traçando o fichu, sem dar palavra a D. Terezinha. http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012

Ora.. até que enfim! Já não a esperava mais. disfarçadamente.. Antes de subir para o de Pelotas.. o piano. O Loureiro. com uma curiosidade infantil. Tu não imaginas. Sim. a graça! repetia a outra. O Loureiro preparo u isto à fidalga. ainda por cima. Terezinha. Noiva de fidalgo. Não senhora. Certo o Zuza também andava por ali. E o Sr. Cobriam-se de beijos. pondo o chapéu sobre uma cadeira. Lídia veio receber a amiga de braços abertos.! E ia examinando. minha negra. com papelotes no cabelo e sandálias de cetim. e invadiu-lhe o coração uma melancolia sem causa.A NORMALISTA Page 66 of 96 ge 66 of 96 Ninguém na rua do Trilho. Bem. O que digo é a verdade. Sra. muito chique. o papel da sala. vejam só. muito alegre. Homem. E logo. Lídia mandou-os entrar para a sala de visitas. É uma vidinha cansada. Muitas pessoas rodeavam uma das mesas para ver jogar o presidente.. Os bonds iam chegando uns atrás dos outros . Maria. não tem sossego de espírito. e. os quadros. muito atarefa do com o emprego. com ar de i nfinito aborrecimento. longe de mim tal pensamento. João? perguntou maliciosamente escancarando as janelas. Loureiro como ia? inquiriu Maria. porque tenha andado adoentada. esta de guardalivros.. Sr. respondeu o amanuense num tom seco. deserta àquela hora como uma rua d aldeia. coitado. O J osé Pereira sem o Zuza! Era realmente assombroso! Mas d aí a pouco o bond rodava outra vez caminho do Benfica. através dos detestáveis óculos escuros. Pouca gente na praça enso mbrada por suas enormes mungubeiras. uma tristeza vaga que lhe deu vontade de estar só. silenciosas. pudera! Não diga isso. escanchado num ângulo da mesa. calculava o efeito das bolas. Vive na loja. Dois sujeitos sentados um defronte do outro.. Maria lançou um último olhar à sala de bilhares. de voltar à casa. jogavam silenciosament e o dominó no Café Java: Às portas da Maison Moderne famílias esperavam os bonds em pé. não vim há mais tempo. isto está que nem um paraíso! Qual paraíso! Está nos debicando?. que.. trabalha em c . Dentro jogava-se bilhar. tudo muito bem arranjadinho. D.. Instintivamente procurou-o com o olhar. em colete.. de branco. estendendo o olhar de vez em quando até o interior da ca sa. enfileirados. Vejam só. os bibelots. Bem menina. Seguiram para a Praça Ferreira a tomar o bonde de Pelotas. Maria tinha-se sentado no sofá e por sua vez confirmava a admiração do amanuense: senhora. sentando-se ao lado da amiga. Maria teve um estreme cimento ao vê-lo. . O José Pereira tomava cerveja a um canto mais o Castrinho... Como vai D.

. E levantando-se: Preciso conversar muito contigo. Sr.. http://www. continuou Lídia muito amável. Oh! minha senhora. Agora é que reparo. João tenha a bondade de esperar um pouquinho o Loureiro não tarde: está às voltas com a papelada... Riram. Saudades tuas. eu sei de quem..com. hein?. tira o fichu e vamos ver a casa..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.. Saudades... Um horror! Tu é que estás magrinha: estou te achando tão abatida. tão pálida.htm 23/12/2012 .biblio.asa. Já não te lembravas de mim..

batida de sol. costumava dizer o ingênuo guarda-livros. E você como vai? Homem. . se pudesse fazia o mesmo deserdaria da capi tal. Por que não usa você o vinho de caju? O guarda-livros fez a apologia do vinho de caju. o conforto. como vai você? Que milagre foi este? Era o guarda-livros.. homem! Sim. filho. entretendo re lações sentimentais com a natureza agreste e sincera. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. À direita. De súbito: Olá. lá longe.. assim mesmo: nem p ra diante nem p ra trás. com um enlevo nalma. citando casos de curas assombro sas produzidas pelo uso quotidiano desse depurativo.. remando contra a maré. como se estivesse numa exposição. bem longe de toda essa porcaria que se chama so ciedade. seu Mata. porém. Fazes muito bem.. naquele pedacinho do Ceará. Depois chegou à janela por onde entrava um arzinho puro impr egnado de essência de resedás. O que eu quero é sossego. sem seca e sem política. na es quina de um grande sítio. Tenho até horror à poesia. Eu... ao iodureto e à quanta panacéia receita-se por aí sem resultado.. que já tinha consultado o Dr. toda essa poesia selvagem iluminada p or um sol implacável. não há nada como se viver no seu cantinho com a sua mulher e os seus filhos. João voltou-se. passava a linha de bonds. Detesto o ruído da cidade. comendo com o suor do seu rosto. M elo. em chinelos. como Adão no Paraíso. O palacete azul do Loureiro perdia-se num fundo de verdura.. seu L oureiro. E que frescura! Dava vontade à gente pecar muitas vezes por dia.A NORMALISTA Page 67 of 96 ge 67 of 96 João da Mata deliciava-se a observar os quadros e as estatuetas de terracota. afirmou que seu mal era no pulmão. Loureiro. Na sua opinião o vinho de caju era muitíssimo superior à salsa. Você assim mesmo tem gosto... ali assim. Oh!. de mão s para trás. calça branca e paletó de seda amarelo. isto aqui é um maná! Faz vir água à boca. senhor. João pôs-se a contemplar.. hein? Qual veia poética! Isso de versos não é comigo. Defronte enchia a vista o verde sombrio d uma esplêndida floresta de cajueiro s onde oscilavam pequeninos pontos amarelos e vermelhos quebrando a monotonia da paisagem larga e igual. Escolhi este local por ser muito isolado da civilização. O amanuense. para viver comodamente. isto aqui. Têm-me apareci do umas doresinhas do lado esquerdo. o bem estar. Fazes muito bem. você é um danado. Estava admirando a grandeza do Criador.. Ele mesmo. Bom para se copiar um balanço. do centro da civilização. Tens também a tua veia poética. tinha-se curado radicalmente d e um dartro na perna esquerda.

as toalhas de labirintos. E a outra: http://www. uns magarefes da humanidade é o que eles são. Primeiro tinham percorrido toda a casa.htm 23/12/2012 . Lídia e Maria do Carmo comunicavam-se como boas amigas. Meta-se no vin ho de caju. estirou a canela no Rio de Janeiro com uma enfermidade nos rins. Olha o Calado.Não te fies em médicos do Ceará. falando por monossílabo s. Enquanto os dois. iam discutindo banalidades. muito fino. achando tudo muito bom. coitado. feitas no Aracati e tudo o mais que o Loureiro comprara com aquela bondade ingênua que o caracterizava. com surpresas no olhar. ampla e fresca. os vidros de essências. abrindo-se mutuamente em confidências de colegial felizes. que dão cabo de ti. Maria via tudo aquilo embasbacada. os chapéus.com. de mui to bom gosto. sentados no sofá. até o prese nte de noivado. examinando com inveja cada objeto que seus olhos deparavam. Lídia most rara à outra todos os seus confortos e todas as suas jóias desde a cama de casados.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. conferente d Alfândega: diagnosticaramlhe lesão cardíaca e o pobre homem. numa intimidade franca e expansiva.biblio. seu João. Uns ignorantes. um magnífico jogo de pulseiras cravejadas de pérolas em forma de serpentes. de pernas trançadas. que é o grande remédio para as moléstias do sangue. o guarda-ve stidos.

Ainda o amas muito? Então fica para a volta?. murmurou com a voz trêmula. Pergunto se o casamento é quando o Zuza voltar. Deixa-te d isso. Lídia.. os olhos umedeceram-se-lhe de lágrim as.biblio. e o meu tinteiro de prata.. Para o Recife. é verdade... comprado no Jaques. tu ainda não vist e a minha cinta de tartaruga. aqui está o meu relógio d algibeira.. não te faças tola.A NORMALISTA Page 68 of 96 ge 68 of 96 olha isto. Maria do Carmo empalideceu. Ora adeus. Como fica para a volta? Sim. Maria teve um pressentimento: "E o Zuza tinha ido embora?" Pois não embarcou anteontem? Olhavam-se as duas sem se compreenderem. Líd ia entrou indiscretamente a falar no Zuza. Mas voltar d onde? Estás hoje muito misteriosa. e aí. Estás nervosa. não esperara pelo Loureiro quase um ano? Tolice.. Maria não compreendeu a pergunta. Pois a Província deu notícia.. uma defronte da outra. E Maria não pode resistir à comoção que lhe sufocava. e então? Ela mesma. em cadeiras de balanço. vamos tocar piano.. Infame... ora adeus! para onde havia de ser?. Que é isso.. que asneira! Era preciso paciência para tudo. A estas horas anda ele bem longe do Mocuripe. creio que vocês não se casaram. de certo. o rapaz havia de voltar... Quando o Zuza voltar? E então?. Para onde?. Estás gracejando. filha. http://www.com.. como se estivessem jogando o disparate. presente do Carvalho.. Quer um peitinho?! Por Deus como te não entendo.. vê lá. e desatou a chorara com o rosto mergulhado no lencinho de rendas. Não te compreendo? Olha a engraçada!.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. e o meu leq ue de plumas. como se acabasse de saber uma notícia funesta.. Não sabias? Não. criatura? Tolice! Lídia não contava com o pieguismo da amiga. não sabia. minha espertalhona.. Foram sair na sala de jantar..htm 23/12/2012 ....

É verdade. Há dias em que não ponho lá os pés. sem ir à parte alguma. Um bocado triste istoaqui no Benfica.. sabes? Tem vindo aqui duas vezes nesta semana. Porque tudo aquilo é uma canalha.. mas o Loureiro é muito impertinente . como passas a nova vida? Perfeitamente.. diz-me.. Tornaram a sentar-se. preguiçosamente. estás feito criança.. estás hoje muito sentimental e eu não quero que passes mal o r esto do dia em minha casa. não estou para suportar desaforos d aquela canalha. Faz tudo a meu gosto. É assim como viste. bananas. c reio que não irei mais àquilo. menina. faria o mesmo. veio saber da Sra. De macarrão mesmo. Por enquanto estou muito sat isfeita. seca e ríspida. O José Pereira é que está muito nosso amigo. alisando-lhe os cabelos. Levanta. Lídia pro curava carinhosamente arrancar-lhe o lenço dos olhos .. Tens ido à Escola? A Escola qual! Passei oito dias em casa como. como uma tola. mas . fiquemos aqui mesmo.. Então?. . Não falemos mais nisto. Tu sabes. Mas. depois se toca. Isso acontece a todo mundo. sabes? Não falemos mais nisto. Maria levantou-se devagar. Já viste o meu álbum. que soluçava como se lhe tivesse morrido alguém. que está mais fresco. isso então. se ele não te escrever. disse Maria enxugando os olhos com força. da Estra da de Ferro. com as faces escarlates. Lídia "se a sopa era de macarrão ou de arroz". podes ficar certa de que não te ama. então sim. que delicadezas! Ofereceu-se para apresentar o Loureiro ao presidente da Província..A NORMALISTA Page 69 of 96 ge 69 of 96 Inclinada sobre a rapariga. e arrependida.. alta como um pau de sebo. assoando-se. Não foi nada um nervoso. então. Bem. criatura. no teu caso.. diz que prefere isto paciência. Sou uma desgraçada. A criada. hein? tornou Maria voltando à conversa. Eu. uma freira. vamos para a sala... mas faça uma sopa gostosa.. Agora quando vierem os filhos. Que desgraçada o que. estás muito magra. p recisas vir passar uns dias comigo. Mas. a família do Zuz a não quer o casamento. D.vai se passando. mandou-nos outro dia um camarote para o teatro. então o Zuza embarcou. E tu. não o viste mais? Não. Agora. Não. as pestanas úmi das... olha. comovida. Paula Souza. E que amabilidades.. Vam os. que estou casada.. aquilo foi uma tolice.. Tomázia. menina. o ar aqui pé melhor que na cidade. Desejava antes morar na cidade. Felizmente o Lo reiro arranjouuma boa criada. diz-me.. mas não te ponhas a choramingar por aí. quem sabe se o rapaz foi obrigado a embarcar à última hora? Espera cartas . que até já foi cozinheira do Dr. Fazes muito bem em não pondo os pés naquela feira de reputações. vamos. Não sê criança. As raparigas ali aprend em a ser falsas e . faça de macarrão. vamos p ra sala. Fez um gesto com as mãos. ouviu? E para a amiga: Não imaginas quanto aborreço a cozinha.. mas uma excelente criada..

de braços trançados nas cinturas.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. e Lídia cantou ao pian o o Non m amava.biblio.imorais. a velha http://www. eu cá sei... mais expansiva.. Maria estava mais consolada ante a solicitude da amiga. Conheço muito o tal Sr. Berredo. O próprio diretor.com. o tal Sr. Achava-a mais amável. Padre Lima e mais os outros to dos.. Foram para a sala de visitas.htm 23/12/2012 .

Co meçou a imaginar mil coisas. e rezava sempre. sentido-se definhar dia a dia. preferia matar-se a assistir às exéquias de sua honra na pr aça pública. Vieram as festas. e um dia a Lídia disse-lhe qu e "estava pronta" e que ela. dedicar-se toda a Deus. como uma repetição monótona que faz mal aos nervos. E os dias passavam uns após outros. descrente de tudo. mas não era uma vergonha. Uma ocasião estava prestes a ingerir uma dose de láudano. e mais de uma vez. de mãos cruzadas sobre o peito. Q ue horror! recuou espantada fazendo em pedaços o vidro de veneno.A NORMALISTA Page 70 of 96 ge 70 of 96 romanza sentimental. havia de ser a madrinha do primeiro filho. Via-se morta dentro de um caixão azul. não tinha pai nem mãe. Sim. Até então ignorava cert os segredos da maternidade. nem alguém que lhe fosse sincero no mundo. que l he incomodava como uma perseguição. Dera para devota. vestida com muita simplicid ade. pois bem. como uma culpada. nos seus momentos de grande desânimo. a certeza que estava para ser mãe. Maria. vinham-lhe resignações. Era um pecado. longos. Às vezes. não! Outra. porque não teria que corar nunca diante da sociedade. numa sala onde havia gente chorando e um crucifixo à cabeceira entre velas de cera que ardiam lugubremente. Sentia bulir dentro de si uma coisa estranha. tinha agora uma certeza cruel que a torturava barbaramente. atravessara-lhe a mente a idéia sinistra do suicídio. ao deitar-se e ao acordar. intermináveis. sem ter que dar s atisfação a ninguém por isso. que nunca lhe tinham dito. Maria do Carmo. defronte da oleografia do Coração de Jesus. de que muit o breve o seu nome estaria completamente desmoralizado. certos fenômenos da fisiologia amorosa. em todas as bocas. mil vezes. nas festas. curando os enfermos metida nas suas vestes azuis. Não. na Sé. arredar-se para sempre do mundo e ir viver na Santa Casa de Misericórdia. em todas as ruas da cidade. depois que de sse à luz a criança. a morrer fosse como fosse. com uma contrição admirável. mas faltou-lhe coragem. ne m mesmo as companheiras de Escola. que não ela. Foi em casa da Lídia que ela teve a certeza de achar-se grávida. . preferisse arras tar uma existência vergonhosa. co mo uma santa. Tinha ido passar uma semana com a amiga. como uma criminosa. estava irremediavelmente perdida. não faltava à missa aos domingos. "aliás versadas em assuntos dessa natureza". cada vez mais magra. acabar-se-ia de uma vez. o Natal e o Ano Bom. debaixo de um grande chapéu de asas. um desejo místico de ser irmã de caridade. que encheu de lágrimas os olhos de Maria.

. Ainda no último baile em palácio não tire i os olhos dele. inapetente. de todas as horas. especialmente o capítulo da calipedia ou arte de proc riar filhos. como uma grande mão de ferro. Lídia explicou tudo minuciosamente. os antojos. sem coragem de esperar o desenlace d aquele drama secreto que ela era a protagonista. teve um grande enjôo da comida. as dores mad re e. Ela com um filho.. Jesus! Decididamente estava perdida para sempre no conceito honesto da gente séria. e até. Vivia assombrada e não raro caía num desfalecimento que lhe tirava a ação do corpo e do espírito. banquetea ndo-se em torno da vítima. Maria do Carmo quis saber como as mulheres tin ham certeza de estar grávidas.. implacavelmente. sentia agora perfeitamente bulir a criança. finalmente. uma malvadez.htm 23/12/2012 . dizia a Lídia com o livro sobre a perna. todo meu desejo é que o pe queno. cevando-se da desgraça alheia. como para torturá-la ainda mais. os primeiros movimentos do feto no útero. se pareça com o presidente da província. Por uma espécie de instinto. Todo meu desejo. previa todas as conseqüências do seu estado e pressentia o desprezo acerbo que havia de lhe cair sobre a cabeça. cruzando o talher lo go no primeiro prato. na sua alucinação.Então. e esta idéia tornou-se uma idéia fixa. aproveitando a oportunidade. http://www. "estava pronta" também como a Lídia. o mais importante. Se fosse possível evitar o seu desenvo lvimento.. de suas entranhas. E Maria nesse dia. de todos os minutos. Não passaria mais de uma simples rap ariga que "já teve filho"! As revelações de Lídia tinham-lhe aberto os olhos. a suspensão das regras. Não havia dúvida. Afinal de contas era se u filho. ess e desprezo convencional e hipócrita de uma sociedade ávida de escândalos. parecia-lhe ouvir os vagidos do bebê.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. fazendo essas considerações e mil outras conjecturas absurdas. Depois leram junto a Fisiologia do Matrimônio de Debay. E Maria agoniava-se. Mas não: seria uma barbaridade.biblio. menino ou menina. na opinião da esposa do guarda-livros. embora fruto de um crime. ao jantar.com. de todos os dias. que o Loureiro tivera o cuidado de comprar. matá-lo mesmo no ventre.

Não pode ser boa mãe de família uma rapariga educada em companhia de um safardana reconh ecido. Deves tratar quanto antes da tua format ura e então podes voltar ao Ceará e fazer um figurão na nossa magistratura. se m honra. entregava-lhe a face para beijar e escrevia-lhe cartinhas perfumadas. Fala-se em toda a c idade nos seus namoros com a rapariga e eu não quero. que é perder tempo.. Por t oda a parte se comentava. João da Mata. dedar-lhe uma beijoca. Mas. o coronel Souza Nunes. o escandaloso namoro com a normalista. Tão boas as palestras ao meio-dia. lá isso tin ha. O Zuza. sem amigas. v ia-se pouco a pouco ludibriada. Agora que as coisas corriam-lhe tão bem. às escondidas . ela. mas. pobre. que d iabo! era preciso abafar a saudade e consolar-se. e o pai. cheias de juras e . Prepare as malas e deixe-se de histórias. exigiu do filho que embarcasse no primeiro vapor. um abracinho sequer. sem ao menos ter t empo de despedir-se d ela. uma das mais comportadas. vocemecê embarca ou diz porque não embarca. nem mãe. rapazes da tua estatura. Nestas condições o estudante não teve jeito senão resignar-se ante a vontade imperiosa d o pai e anunciar ao José Pereira o seu embarque d aí a dois dias. 12 O Zuza abalara de feito numa sexta-feira. dias depois do casamento da Lídia. como o tal Sr. tratada como uma mulher a toa. s ob penas severas.A NORMALISTA Page 71 of 96 ge 71 of 96 E enquanto a Lídia ganhava.. com o seu título de bacharel. É verdade que o seu amor não era lá para que se dissesse um amor extraordinário. porém. enfim.. Tenha santa paciência. na Escola Normal.. num abandono completo. meu pai. uma dessas paixões incendiárias que decidem do futuro de um cristão. como espera va em breve tornar a vêlo formadinho. mísera cadela que a gente enxota a pontapés de dentro da casa por safada e in decente. não consinto em semelhante escândalo. é que o obrigavam a embarcar da noite para o dia. estava contrariado. "dando sorte" na capital cearense. inteligentes e resolutos. sem pai. enquanto as outras normalistas divertiam-se lá para de ntro à espera dos professores! Uma gentinha levada da breca. essas normalistas ! Com que facilidad e a Maria do Carmo. com risinhos sublinhados. De acordo. sobre cuja reputação pairava a sombra de uma nódoa. escrupuloso em tudo que lhe dizia respeito. Sei muito bem o que isso é. Maria do Carmo. que já conta em seu seio bons talentos . Sentia muito que o Zuza não se demorasse mais algum tempo. que a ra pariga entregava-se-lhe de corpo e alma. com sorrisos de triunfo. as simpatias dessa mesma soci edade que há poucos meses a maldizia. tinha a sua simpatia por aqueles olhinhos ternos como os de uma santa. aliás. aprovou o redator da Província. mas.

Aquele tipo sempre me pareceu uma bisca. por todos os botequins. http://www.. atabalhoado. por todos os cafés e restaurantes. Pela cara se conhece quem tem lombrigas..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. E concluiu. seu compadre. os pais de família. avolumando-se. A cidade está cheia do meu nome e do no me da rapariga. o filho do coronel Souza Nunes? Então não se casava com a normalista? Por esta já esperava eu. Concluo o meu cu rso e sigo para a Europa.com. Eu podia muito bem engraçar-me deveras com a menina para casar e depois. c omo se se tratasse de um grande acontecimento. repetiam outros. Todo nosso mal é recebermos em nossas casas qualquer sunga-nenén que chegue Nós.. é o verdadeiro.biblio. Toda a cidade soube logo da viagem intempestiva do estudante. . E eu.. Esses fidalgos o que querem é isso mesmo e ao fresco. A notícia propalou-s e com a rapidez do fogo em palha. sabe Deus as con seqüências. Pode dizer. afirmava um es na botica do Travassos. Arrependiase agora de não ter aproveitado os melhores momentos. diziam uns convictamente. ora adeus! Enfiou a manga do redingote. até já podia ter feito uma asneira. Quem o Zuza..protestos de amor! Se fosse outro. sem dar satisfação a ninguém. Agora a pobre rapariga é quem om a cara de besta. sem achar quem lhe roa os ossos. Já se foi o tempo de um homem sacrificar posição e futuro por uma mulher pobre. Meu pai é um homem de juízo . seu Sussuarana. e saiu a despedir-se dos amigos.htm 23/12/2012 sujeito rel fica por aí c desfrutar e pôr-s a esta terra. o verdadeiro é ir-me embora mesmo. preparando-se para sair: Ora sabem que mais? Há males que vêm para bem.. Grandíssimo calouro! podia ter desfrutado a valer.

debruçado tr anqüilamente na amurada. Revoltava-se de novo contra o Ceará. responsabilizan do o presidente pelo "desmembramento de caracteres" que ia pela sociedade cearense. acostumado a beber cerveja nos cafés cantantes de Paris. bacharel de nome açucarado contra quem pesavam as mais sérias acusações no tocante ao seu procedimen to para com a família cearense". sabia manobrar perfeitamente um phateon. às carreiras. Excia. o diabo! Os jornais da oposição rosnaram contra a moralidade dos governistas. era homem de costumes dissolutos. Tal outro afirmava que " S. E o compadre João da Mata o que pretende fazer? Eu sei lá. como visões de uma noite mal dormida. obrigando o indivíduo a vender-se po r amor de sua mulher e seus filhos". contra os costumes cearenses.A NORMALISTA Page 72 of 96 ge 72 of 96 é que somos os culpados... alardeava-se o fato: que o rapaz era u m produto da política do governo. as areias do Mu curipe. contra a política . numa roda viva de indiretas. Diabo de província onde ninguém está livre da calúnia e da descompostura pela imprensa desde q ue não se submeta às imposições d uma política de interesses pessoais. homem de Deus. azucrinado por todos os lados.. usurpadores da honra cearense. que só servia de nos rebaixar. doido por já se ver barra afora. a ver sumirem-se no horizonte. mas não tinha capacidade par a dirigir os destinos de um país". que todos os amigos do presidente mediam-se pela mesma bitola. E toda gente sabia que se tratava do Zuza e da Maria do Carmo. Estava cansado de suportar tanta sujidade! Decididamente não voltaria ao Ceará por preço algum. E porque tanto barulho em trono do seu nome. Tal dizia que "S. Insinuava aquele que "a viagem inesperada de certo bacharel por formar-se era um atentado contra os nosso brios e contra a moral pública". alcunhando-o de n egro Romão. montava muito bem a cavalo. porque não lhe diriam? Por causa de um simples namor o com uma pobre . Uff! . que era tudo uma súcia de bandidos de casaca. "essa política sem ideal e sem patriotismo. aquele outro confirmava que "a polícia devia dar caça a um tal Sr. e a passear de braço com as cocottes no Bois de Boulogne". A viagem imprevista do Zuza assumia proporções de escândalos. decididame nte. Nas fileiras políticas esp ecialmente entre os partidos contrários à administração presidencial. Excia. aquele é outro. Que diabo tinha ele com a política para que se viesse meter com sua vida? Só porque era amigo do presidente e filho de político? Sebo! Então não se podia ter amigos no Ceará. O estudante. esbaforido. indagav a na Agência se o vapor já tinha chegado..

trincando a ponta do bigode. com efeito! pensou o Zuza.normalista sem eira nem beira? Era o cúmulo! Com que deliciosa alegria ele ergueu-se da rede no dia do embarque. sem compromissos. persistente e miúda. Entretanto já tinha dado seis horas ! Entrou e pôs-se a reler as cartas de Maria do Carmo. encharcan do as ruas. arqueava-se. Passava um fiscal da Câmara com o seu boné. Zuza tinha aberto a vidraça para consultar o tempo. a roupa branca ceroulas. Tudo fechado ainda. não faltava mais nada. camisas.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. sem uma nuvem na penumbra da ante-manhã. e m chambre. meias e toalhas de rosto tu do arrumado cautelosamente. Ah! ia deixando fora a Casa de Pensão. Era em Janeiro. sem dívidas.com. passando uma vista d olhos na maleta do camar ote onde refulgia. Tomou do livro que se achava sobre a mesa e colocou-o na maleta. defronte.biblio. com um cuidado feminino. enverdecendo as árvores. em tabuleiros. já há muito estava de pé. estavam úmidos e o céu de uma cor esmaecida de safira. Agora sim.htm 23/12/2012 . Quando vieram lhe chamar para o banho. Há dias caia sobre a cidade uma chuvinha s intomática de inverno. Só pedia a Deus que não chovesse. umas cheirando ainda a sabão. de manhã muito cedo. a passagem comprada no bolso. assoandose com estrondo. porque um embarque debaixo d aguaceiro era um desastre horroroso. passadinhas a ferro outras. acompanhada de trovões longínquos. às seis horas. fumando o seu cigarro. Os longos meses de seca iam ser compensados por uma abundância de chuvas consoladoras e refrigerantes. http://www. chapéu de chuva debaixo do braço. para ler na viagem. lavando a atmosfera. muito bem disposto. ao lado. feixes de feijão verde e hortaliças para feira. As manhãs iam se tornando frescas e já se viam passar. alentando a população. as malas no meio do quarto prontas. jaqueta com botões dourados. compl etamente pronto a deixar o Ceará. numa frescura capitosa. De feito ameaçava chover. Os telhados.

procurando as coxias. . na rua.. esquecendo as suas dores de útero para pensar no Zuza. da sala para a cozinha. anunciando um dia seco e esplêndido. meu Deus. Sofia andava numa faina. com as pernas cruzadas.. Zuza. não queiras matar-me de saudades. de frente para a rua. O coronel. Já lá fora. para seguir em juntos ao ponto de embarque. "Tua querida Maria".. mais cedo que de costume. que era uma calúnia o qu e tinham dito ao estudante. com os olhos empanados de lágr imas. "Tu já não me amas. Que horror. recomeçava a labuta quotidiana... passeando o seu grande ar de homem independente. como um visita sem cerimônia. D. Meninos apregoavam o Cearense. no seu filho que ia embora." Nesta normalista jurava como não tinha ido ao Club Iracema. o futuro bacharel releu toda a série de cartas da normalista. Todos os dias peço a Deus po r ti e tu nem sequer lembras da tua futura esposa!" E assim. amolava as navalhas assobiando um trecho de fandango. calmo. dobradinhas.. uma a uma. que morava defronte. quanta banalidade! E ela a tomar a coisa a sério! A gente se mpre faz asneiras de criança nessa idade!. bem humorado nesse dia. Um barbeiro. "Zuza do meu coração. A claridade larga do sol penetrava no quarto pel a janela aberta." As horas passavam vertiginosas." Nest outra Maria lamentava que o rapaz não tivesse aparecido na Escola Normal na véspe ra. José Pereira ficara de vir almoçar com o Zuza.A NORMALISTA Page 73 of 96 ge 73 of 96 "Meu querido Zuza. com um cadarço. enfeixando-as depois.. E guardando o maço de cartas no fundo da maleta: " Magnífico rol de asneiras para faz er rir a rapaziada de Pernambuco. Passavam burricos com cargas d água. Zuza meneou a cabeça com um ar de riso e abriu outra. esse não se alterava. consultando o relógio de vez em quando.

e. Perto estava um caixote com livros e o mesmo dístico no alto. devo estar a bordo. Ao meio dia... perna traçada com desembaraço.Cerca de 10 horas entrou o redator da Província anunciando a chegada do vapor. uma grande e outra menor lia-se em letreiros impressos e nítidos José de Souza Nunes Recife. sentado na larga rede de varandas e ncarnadas. Em todo o caso é prudente ir mais cedo.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Sem dúvida.com. como se saísse de um banho de perfumes.htm 23/12/2012 . http://www. A que horas sai? perguntou o estudante. Está marcado para as duas.biblio. Dez e meia! fez o redator levando o relógio ao ouvido. Na frente das duas malas. enquanto o estudante acabava de fazer a toilette no aposent o contíguo. esfregando as mãos. como um ninho abandonado. Imediatamente surgiu o Zuza lépido. uma carroça! José Pereira entrara para o quarto do Zuza. Qual é o vapor? O Espírito Santo. ago ra em desordem. passeava o olhar morosamente naquele tabernáculo de rapaz solteiro. o mais tardar. Diabo.

Calúnia. e já não enxergava coisa alguma. sentia agora uma ponta de saudade a espiaçar-lhe o coração. atraíalhe a essa terra que ele tanto detestava. mas isso é um horror! Ninguém pode mais gracejar. mas o nosso namoro nunca foi além d isso. Vocês da imprensa devem civilizar este povo. abraçando-o entre lágrimas. porque os vidros . disse ele. . mas não podia esquecer nunca o Ceará. por índole. por pedantismo . Sofia. fala a verdade..A NORMALISTA Page 74 of 96 ge 74 of 96 Prontinho. tu nunca. Não leste o Pedro II e o Cearense? E tens culpa no cartório? Não. como um ponto luminoso por entre um nevoeiro denso.. e. com quê a canalha tem-se divertido à minha custa. c os diabos. de binóculo a tiracolo e boné. inventaram por aí que eu deflorei a Maria do Carmo. A c ada golpe do mar havia uma algazarra na praia coalhada de gente.. devem ensinar a esta gente a pensar e a ter juízo. O tempo estava magnífico. Através da confusão que reinava no seu espírito. simples calúnia. Indiscreto não alcoviteiro. tu compreendes a minha responsabilidade. É.. só fui a casa do padrinho umas três vezes. Ventava forte e o mar em ressaca ati rava sobre o quebramar uma toalha de espuma que se desmanchava em poeira tenuíssima irisada pelo sol. E depois de uma pausa: Bem. é o que ele é. Mas. Escaleres navegavam para a terra puxad os a remo. Este povo é muito indiscreto. ignorante e besta. por sistema.. seu José Pereira! Isto é um país de bárbaros. Depois. vamos almoçar que deve ser hora. metera-lhe no bolso uma nota de cem mil réis e che irando a fundo de baú. do contrário.. Palavra como não! É verdade que dei alguns beijos. Zuza assestou o binóculo.. queria mal ao Ceará. interrompeu o outro com um ar de riso malicioso. o seu camarote do lado do mar. Uma vez instalado a bordo. respirou a todo pulmão e foi assistir da tolda a manobra do vapor que suspendia o ferro. destacando a bandeira do escaler Capitania do Porto. o futuro bacharel. Não sabia mesmo porque. ninguém tem mais o dir eito de chegar-se a uma rapariga honesta sem intenções malévolas. hein? Como assim? Oh! homem. correspondeu aos acenos que lhe fazia m de um escaler que se afastava. via mentalmente e ni tidamente a cabeça branca de D. porque nele ficava a s ua velha que ainda há pouco. mesmo porque. E misteriosamente: Então.. e só então sentiu que uma coisa prendia-lhe ao Ceará.. Cada vez me convenço mais de que isso é um a terra selvagem. de sua boa mãe. mentiroso. no máximo. Sim. Eram duas em ponto. Boa e santa velhinha! pensava ele. sacando do lenço.

Viu passar diante de seus olhos a rregalados todo o litoral de Fortaleza. acaçapado. tão feio que o mar parece recuar com medo à sua catadura.do binóculo estavam úmidos e enevoados. as torres vetustas e enegrecidas da Sé.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. o Passeio Público. lá muito longe. coqueiros maltratados pelo rigor do sol. Noutro plano. com as suas torres triangulares. Depois. Primeiro o farol. começou a examinar a costa cea rense.com. com seus três planos em escadarias. erguendo-se da areia move diça que os ameaçava soterrar. quando o vapor singrava em direção ao Mucuripe.biblio. imitando a torre de um castelo medieval. uns já enterrados até a fronde. em forma de gaiola.htm 23/12/2012 . Em seguida o novo edifício da alfândega. batido pelos ventos. a S. sem arquitetura. o torreão dos ju deus Boris. depois a extensa faixa de areia que se desdobra em ziguezague até a cidade. ereto. o seminário por trás. cinzento e esguio. desde o farol do Mucuripe até a Ponta dos Arpoadores. a praia alvacenta e rendilhad a de espumas. embranquecido. outros inclinados. cor de areia. da tolda de um navio... no alto da Prainha. como se nunca a tivesse visto de fora. http://www. prestes a desabar.

provocar-lhe. mas. é que fora alta noite ao seu quarto. coitada. Que o quê. e certo desleixo no trajar. comentavam maliciosamente as normalistas. . concebido num momento de desvario. e por ali fora o arraial Moura Brasil. tão inexperiente. para um canto. E só agora. com grandes olheiras. Ela d antes era até uma rapariga muito alegre. Ao chegar viu desenhada na pedra da aula. uma coisa d aquelas. vocês não se lembram? Coisas deste mundo. barra a fora.. mal acordada de um pesadelo horrível. " Dentro em pouco o vapor começou a tombar desesperadamente. Chegavam aos seus ouvidos. que faziam dela uma outra Maria do Carmo . são desgostos de família. ao mesmo tempo que adquirir a certeza esmagadora de que estava para ser mãe. era justo que caísse sobre si toda a cólera dos homens. como um surdo rumor de cochichos. Z uza foi-se embora. três dias depois da partida do Zuza é que Maria do Carmo sentia a dor do seu abandono.. insinuou a zarolha. branca. Na Escola Normal as outras raparigas atiravam-lhe indiretas fortes. indistintamente. Ninguém deve fazer mau juízo das pes soas. O diretor um dia maltratou-a. oferecen do-se-lhe como uma fêmea desavergonhada vá. A Maria viu alma d o utro mundo. Dizem que o padrinho a maltrata. disse muitas grosserias às raparigas e quis saber quem era a autora de semelhante indecência. para bem d izer. . invadido pelo mar. embora com sacrifício de su a vida. Viam-na triste. que ela não tinha ânimo de repelir como dantes. Sim... Silêncio profundo. egoísta. albardeira e insociável. sim. de Misericórdia. ao con trário. o João da Mata? Um grandíssimo miserável. inimiga da convivência das companheiras. meninas. o Gasômetro. Fortaleza já não era mais d o que uma pintura microscópica diluindo-se muito ao longe na tinta alvacenta do horizonte. bonito aspecto para se ver de longe. os ecos da maledicência. coisas deste mundo. Quem. como se expulsa um ladrão. pensou o Zuza. Er a de mais. era! Se dissesse que ela tinha deixado seu quarto para ir ter à rede do padrinho. Ficou furioso. e ela. impor-lhe. não é possível.. senhor. Tenham a bondade de dizer quem fez isto! repetiu o diretor. na última fila. u ma obscenidade. a Maria ficou assim depois que o Dr. a Cadeia. Todas no tavam a alterações de sua fisionomia. um dedo que apontava para Maria do Carmo. expulsando-o.A NORMALISTA Page 75 of 96 ge 75 of 96 C. tão tola que nem ao menos tivera coragem para dar um escândalo. de relance. intratável. par a ser mãe de um filho espúrio. viu. Aquilo é uma coisa. mulher.. dando-lhe com a mão no focinho. muito desconfiada.. no alto. reduzido a um montão de casebres trepados uns sobre os outros. Ninguém se atrevia a responder. e. ele.. a giz. menina. o infame do padrinho. Não se iludam.. D aí talvez seja isso mesmo..

http://www. Sr.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. não posso responder por uma falta que não cometi.htm 23/12/2012 . D. medindo-a de alto a baixo. Não senhor.. venha sempre: a senhora paga pelas outras. Eu. não senhor! Tenha a bondade.. Maria do Carmo? Maria empalideceu.com. como se vissem nela uma transfiguração extraordinária. Toda a aula estava voltada para Maria do Carmo. faça o favor de vir apagar isto.biblio. Mas não fui eu. Embora. erguendo-se. Diretor. Não vem? Não senhor. tornou ela.Ah! foi a senhora.

A NORMALISTA Page 76 of 96 ge 76 of 96 Então a senhora não vem? repetiu o homem. gabando-lhe os vestidos. saturados de álcool . Entretanto João da Mata progredia no vício de beber aguardente. "Deixe-me. para se distrair.. seca e indomável. por amor de Deus. Nesses momentos abria-se em infusões de ingênua bondade para com D. A bodega do Zé Gato continuava a ser o ponto de suas reuniões. transformando-se em fichas na banca de jogo e d esaparecendo como por encanto. procu rando-a. o Perneta e o Guedes da Matraca. até nos momentos mais difíceis da vida. com uma humildade de escrava. desob edeceu à primeira autoridade deste estabelecimento. O triste ordenado que lhe pingava no bolso em ca da fim de mês escorria-lhe por entre os dedos como azougue. Quantas vezes sucedia entrar em casa sem um real no bolso para mandar à feira no d ia seguinte! Era preciso então tomar dinheiro a juros aos agiotas. onde se demoravam às ve zes até alta noite a jogar a bisca num esquecimento absoluto de família e de deveres. sem que ele próprio soubesse disso. enfadava-se. sem dar mostra da mais leve tristeza. sem olhar pa ra as colegas. Não senhor. as pequeninas misérias d omésticas. criatura.. Crescia-lh e na alma o desgosto. contar as suas necessidades. sucediam-se as contrariedades como um castigo. ouvindo atrás de si o atrito da esponja na pedra. com as suas de sconfianças. Terezinha. aborrecia-se com aquilo.. lívidos à luz de um miserável candeeiro de querosene. Andava agora muito c hegado ao Perneta e ao Guedes. . de quem se dizia amigo do coração. e dispunha-se a enfrentar todas as conseqüências do seu desatino com u ma calma heróica. retirou-se taciturna. Quando amanhecia mal humorada. oferecendo-se-lhe para pentear o cabelo. como uma nuvem que sobe no horizonte vagarosamente alastrando pouco a pouco toda a va sta cúpula do céu para se desfazer em chuva caudalosa. deixe-me. inquisilava-se demais. tomando os livros. oh!" Mar ia não dizia palavra. séria e resignada. fazendo uma carranca medonha. Porque os seus "amigos do coração". indi ferente a tudo. uma resi gnação infinita animava todo seu ser. Retire-se da aula! fez ele apontando a porta. e Maria. correr toda a cidade atrás de alguém que lhe emprestasse alguns mil réis até ao fim do mês. puxando conversa. E tudo mais era assim. Vinham-lhe às vezes alegrias intermitentes. Tinha pena de não ser como as "outras mulheres". retire-se! Houve um silêncio grave. recolhia-se ao silêncio do seu quarto a costurar ou a ler o Almanaque das Senhoras por desfastio. respondendo por monossílabos às perguntas da afilhada. A senhora é uma insubordinada. Mas a madrinha. sempre de cara fechada. inventar situações incríveis. Vamos.

Tenha vergonha. em casa. É. sentiam muito as necessidades do Janjão. quase lhe abanando o queixo. Basta. caladinho. Terezinha a sua autoridade de chefe da casa. tinha m-se trocado os papéis. é o diabo. E escafedia-se até ao fundo do quintal para não lhe ouvir os disparates. Terezinha. tenha vergonha. Como os tempos mudam! Há poucos dias era ele o forte. bastava um olhar seu. Estava magro. por cima dos óculos escuros. Ele já não conseguia impor a D. murcho. o manda-chuva naquela casa. agora não. Maria do Carmo e a Mari ana. e queixava-se de dores nos intestinos. Eu bem sei que vocês também têm família como eu e precisam também. como d antes. de mãos fechadas. basta! costumava dizer quando a mulher dirigia-se para ele com os olhos chamejantes. muito magro.biblio. É o diabo. Terezinha para que ele desse-lhe as costas disfarçadamente para evitar barulho. estremecessem com medo. para que todos. agora supor tava-lhe as impertinências. com uma passividade de animal submisso. D.também eram pobretões e perdulários. mas não podiam lhe ser úteis por forma alguma. os conflitos.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. homem de Deus. Olhe para as barbas que tem na cara. basta. as saraivadas de impropérios. D aí as dissensões.com. porte-se como gente! Ele ouvia tudo aquilo sem dizer água vai. senão dando-lhe a ganhar no jogo quando a sorte o protegia. como um prego. porque sabiam de quanto ele era capaz nos momentos de cólera. bastava um olhar de D. com a mulher por causa de dinheiro. dizia-lhe nas bo chechas. ao contrário. http://www. que você já não é criança.htm 23/12/2012 . impote nte.

A NORMALISTA Page 77 of 96 ge 77 of 96 Diabo de Repartição não lhe deixava tempo para nada. Era um trabalhar sem descanso, se ntado a uma banca, das nove às três, copiando ofícios, riscando papel estupidamente. Se ao menos tivesse quem lhe arranjasse com o ministro uma aposentadoria ainda que fosse com a metade do ordenado... Mas qua l! tudo uns políticos sem importância, uns legalhés que iam para a Câmara proferir barbaridades, a repetir que o país estava à beira d um abismo e nada mais. Até estimava que lhe demitissem do emprego, porque iria fazer pela vida noutra parte, e escusava perder tempo a emporcalhar papel, para no fim do mês tome lá seu ordenado, uns míseros vinténs que mal chegavam para o boi. Uma desgraça. De resto a Maria não lhe dava muito cuidado. A princípio ainda lhe fizera uns carinh os, dera-lhe uns cortes dechita e um rico vestido de cassa da Índia para agradar, porque também seria uma ingratidão vê-la para um canto a se acabar, magra e amarela que nem uma lesma. Achava até que tinha feito muito. Outros havia piores que ele, ora! Meu bem, tristezas não pagam dívidas. É andar, é andar sem olhar para trás. Mas quando, um belo dia, Maria declarou-lhe positivamente que estava prenha, que sentia "uma coisa" bolir-lhe na barriga, João estremunhou. Que se há de fazer, filha? Agora é ter paciência. Foi uma fatalidade, foi uma fatalidade. Há de se arranjar a coisa do melhor modo possível. Vais aí para qualquer sít io, fora da cidade, e ninguém saberá de coisa alguma. Dá-se tanto d isto... E depois? murmurou Maria mordendo a ponta do lenço, cabisbaixa. E depois? E depois... ora adeus! e depois dá-se a alguém para criar o trambolho e tu voltas à tua santa vidinha. Maria soluçava baixo, fungando numa crise nervosa. Já te pões a chorar como uma criança! Tolice! Estou a dizer-te que o caso é muito simple s... Uma tarde em que o Mendes, o juiz municipal e a mulher, tinham ido passear ao Tr ilho, João da Mata entrou alvoroçado, sem fôlego, com uma notícia a escapulir-lhe da boca. Sabem quem está muito do ente? Todos voltaram-se surpreendidos, com o olhar cheio de curiosidade. Não, ninguém sabi a. Algum conhecido? O presidente, o Dr. Castro, teve um ataque há um pouquinho. A rua está cheia. Diz qu e está bem mal. De quê, menino? interrogou o juiz muito admirado e já nervoso. Houve logo um interesse comovido nos circunstantes. E João, sentando-se, sem apertar a mão aos Mendes, pálido, limpando a testa, foi dizen do o que sabia: Muita gente defronte do palácio. Tinham sido chamados todos os médicos, e todos, menos o D r. Melo, eram de parecer que se tratava de um caso de febre amarela. O presidente tinha acabado de jantar e lia à cabeceira da mês a correspondência do sul chegada naquele momento, quando começou a sentir-se mal embru

lho no estômago, tonteiras, calafrios. Imediatamente, ergueu-se, lívido, e, ao dar o primeiro passo , caiu fulminado!... Ai! fez D. Terezinha cruzando as mãos sobre o regaço. E depois? Depois conduziram-no à cama, sem sentidos, vomitando uma coisa preta... João fez esgar de nojo. Todos cuspiram. ... e quando os médicos chegaram já o encontraram sem pinga de sangue no rosto, vomi tando ainda golfadas de bílis sobre a esposa que o amparava, coitada, nem sei mesmo como... Coitado! lamentaram num tom arrastado as duas senhoras. Maria do Carmo ouvia silenciosa e compungida a narração do padrinho, ao lado do pian o, com os olhos úmidos e o ar assustado. Mas, João, isto é sério? perguntou o juiz municipal erguendo-se com os braços cruzados, estupefato. Oh! senhor, pois eu havia de inventar uma coisa d esta? Admiro até como vocês ainda não sabiam, porque a rua está cheia. Eu soube ali, na bodega do Zé Gato. http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012

A NORMALISTA Page 78 of 96 ge 78 of 96 Fez-se um silêncio repassado se suspiros. Um homem tão forte, vendendo saúde! fez o juiz. Mas bebia muito, coitado, tornou João da Mata, respirando com força. Era homem que não bebia água. Por isso não, atalhou D. Terezinha. Que asneira! Tanta gente se embriaga todos os dias e não lhe sucede nada. D aí pode ser que escape, murmurou D. Amélia; não queiram sepultar o homem em vida. Pode ser. Pode ser, repetiu o juiz. A ciência faz milagres. Que dúvida! Então o Mendes tomando o chapéu, muito impressionado, as mãos trêmulas: Bem, vamo-nos Amélia. esta vida, esta vida! Era cedo, insistiu D. Terezinha triste. Mas os Mendes pretextaram afazeres, lemb raram as crianças que tinham ficado com a criada e despediram-se. Maria do Carmo passou a noite nervosa com insônias, sentida com a doença do Dr. Cast ro, muito apreensiva. Não podia se conformar com a idéia da morte do presidente, o homem da moda, o "queri do das moças", o grande amigo do Ceará, que tantos benefícios fizera a esta província, mandando construir açudes no sertão, reconstruindo o Passeio Público, ativando as obras do porto, facilitando a emigração, prodigalizando esmolas, e, finalmente, introduzindo em Fortaleza certos costumes parisienses, como por exem plo, o sistema de passear a cavalo a chouto, de aparar a cauda aos animas de sela. Lembrava-se as qualidades pessoais do fidalgo paulista, o seu modo de falar num sotaque aportuguesado, muito moderado na conversação íntima, as suas maneiras delicadas, os seus belos dentes branq uejando sob um bigode sedoso e bem tratado. Uma vez, no baile oferecido à oficialidade do cruzador "1º de março" dançara com ele uma quadrilha, por sinal bebera muita champagne nessa noite a ponto de ficar um pouc o tonta da cabeça. Coitado! uma alma boa. É verdade que tinha demitido o Pinheirão mais os filhos, deixando-os n a miséria, mas no dia seguinte mandara-lhe um envelope com cinqüenta mil réis. Tudo por causa da política; a política é que o fazia mau. Tinha rasgos de generosidade fidalga, lá isso era inegável, tanto assim que um dia dera ao negro Romão, um negro sujo coma aquele, cinco mil reisinhos. Era uma pena se morresse, coitad o, havia de fazer uma falta tão grande. ... Compadecia-se como se fosse seu parente. Balbuciou uma promessa às alm as do purgatório e só muito tarde, pela uma hora da manhã, conseguiu adormecer. Ao outro dia procurou saber logo como ia o presidente. As notícias eram cada vez m ais desagradáveis. As janelas do palácio continuavam fechadas e os transeuntes olhavam contristados o casarão ao r edor do qual pairava uma melancolia lúgubre. Os boatos multiplicavam-se penetrando todas as casas como um v ento de desgraça. A

Província suspendeu a publicação por condolência, e os jornais da oposição fizeram uma pausa nos seus ataques à administração provincial. As filhinhas do presidente estavam em casa do José Pereira, na rua Major Facundo, duas crianças louras e inteligentes, que falavam francês, uma nascida em Paris, e outra no Rio de Janeiro . Um cabo de ordem, arrastando o chanfalho, passava a toda pressa em direção ao telégrafo. O espírito público começava a inquietarse com a sorte do presidente, e os próprios adversários políticos enchiam-se de penas con centradas. Pela noite desabou um formidável aguaceiro e toda a população, por assim dizer toda, a guardava ansiosa, dentro da casa, ao sussurro da chuva que caía fora, sacudida pelo vento, notícias sobre o e stado do Dr. Castro. Maria, como toda a gente sentia um peso no coração ao lembrar-se daquele homem sadio e robu sto, a seus olhos a síntese da mais requintada elegância. que tanto amara o Ceará, e cujo nome andava grav ado a canivete até nos troncos dos cajueiros, nos sertões por onde tinha andado, tão moço ainda e já às portas da morte, acabando-se como qualquer mortal! A Providência às vezes era injusta com os homens: poupava um e nte abominável como o padrinho e um pelintra desleal como o Zuza, para aniquilar, enquanto se esfreg a um olho, um homem da força do Dr. Castro, "útil ao país e benfeitor da humanidade!" Indignava-se com essa preferência injusta das cortes celestes , e, de si para si, concluía que não valia a pena uma pessoa ser honesta, trabalhar noite e dia, dedicar-se a uma coisa nobre, eng randecer-se aos olhos da humanidade para um belo dia toma! vá para a cova que é seu lugar! Uma coisa estúpida a vida, afinal de contas. http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012

A NORMALISTA Page 79 of 96 ge 79 of 96 Entretanto outros viviam aí a cometer mil desatinos, a roubar, a assassinar, a ilu dir os incautos e tinham vida para um século inteiro, livre de congestões, de febre amarela e de quanta doença há. Acordou cedo e foi pôr-se à janela à espera de alguém que lhe desse notícias do presidente . O céu estava carregado de nuvens compactas e neblinava. A casa da viúva Campelo, defronte, esta va fechada; a viúva tinha ido passar uns dias com a filha no Benfica. Passou um empregado da Estrada de Fe rro, condutor de trem, com as calças arregaçadas, comendo pão. Maria chamou-o: O Sr. sabe me dizer como vai o pre sidente? Faleceu ás duas horas da madrugada, respondeu o sujeito, mastigando, indiferente. Obrigado, disse Maria, empalidecendo, e entrou imediatamente batendo o postigo. Coitado! foi dizendo pela casa, com grade mágoa na voz. Coitado! Que pena! Que foi? perguntou o amanuense, que subia o corredor em ceroulas. O presidente morreu!... João parou assombrado como se lhe tivesse caído um raio defronte. Morreu, hein?! Disse-me agora mesmo um empregado da Estrada de Ferro. Realmente! E vá gente se fiar na justiça divina! Morre um homem d aqueles, da noite pa ra o dia, como qualquer bêbedo! E lá foi resmungando contra Deus e contra os padres. Os sinos da Sé começaram a dobrar a finados. Aumentava a chuva, que já se ouvia chiar nas calçadas como uma panela fervendo. Maria entrou para o seu quarto, aflita. Essa manhã foi para ela de tristeza e desâni mo. Acudiam-lhe à imaginação lembranças extravagantes, idéias lúgubres, como aves negras que pousassem de ch ofre num arvoredo, alvoraçadas, cantando sinistramente. Caía em abstrações prolongadas em que se punha a contar os dedos maquinalmente, como se fosse ensandecer. Apoderou-se dela um medo pueril, um inexplicável pavor das coisas sombrias, um supersticioso receio d almas d outro mundo, um mal estar, um que r que era que lhe trancava a respiração, que lhe oprimia o peito. Procurava disfarçar as apreensões, arrumando os trastes do quarto, mexendo nos baús, n uma inquietação crescente, num vira-e-mexe cada vez mais açodado, abrindo e fechando gavetas, atar antada, com o coração aos pulos. O enterro! o enterro! bradou à porta a Mariana que ia às compras. Todos correram à janela. D. Terezinha, na precipitação, deixou cair um copo, que se es farinhou; e João da Mata esquecera os óculos, enfiando as mangas da camisa. Maria arrancou como uma louca, dando um encontrão na mesa do centro da sala de vis itas.

Continuava a chover, agora devagar, com uma insistência importuna, o sol a espiar por trás d uma nuvem, frio, indeciso, mandando, com um supremo desdém pelas coisas cá de baixo, uma réstia de luz tímida e complacente sobre a manhã úmida. O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério. Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta o desfilar do prés tito, o caixão levado por seis homens de preto, coberto de galões dourados debaixo da chuva miúda, o acomp anhamento uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva aberto, march ando resignadamente ao som da música do batalhão que tocava à funeral. Os padres já tinham passado, na frente, com os seus acólitos, muito graves, olhando para o chão evitando as poças d água. Um carro seguia atrás, todo fechado, devagar. E a chuva a cair e a música a tocar o funeral, deixando por onde passava uma trist eza vaga que lembrava um dia de finado entre as sepulturas... http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012

tropeçou numa cadeira e estendeu-se no chão pesadamente. Que triste. Maria deu um grande suspiro. friccionando-lhe a testa com força.. mandou João abando o rosto à doente D... arrastando os pés com o peso. E desde esse dia aumentaram as suspeitas de D. o que foi?! Sei lá. Bom. pálida. Chega! A Maria teve uma coisa! gritou D. dize. faça um esforçozinho. Um copo com água. seguido pelo Sultão que lhe tomou a frente ganindo.. bom. conduziram a rapariga para a alcova. tratando logo de arranjar uma casa. e João da Mata assim o julgou. um copo com água. com um frio na medula. medindo-lhe o volume da barriga. como morta. E indicou o flanco esquerdo. 13 Em poucos meses o estado interessante de Maria do Carmo foi carecendo de cuidado s mais sérios. isto ainda acaba mal! pensava ela. Maria murmurou que estava melhor. Jesus. de chapéu de palha de carnaúba. Janjão. chega depressa! A água Florida. Cheira mais. uma coisa que lhe deu de repente. toda trêmula. Terezinha trouxe a garrafa e começou logo o afanoso trabalho de umedecer a têmpor as de Maria. Chega depressa água Florida. numa aflição. U pa! Não seria bom chamar o médico? lembrou D. Se sentes. as pupilas dilatadas.. pálidos. Maria ficou à janela vendo passar o resto do acompanhamento. Terezinha. Isto. bom. Che ga. meu Deus! E entrou muito inquieta. João da Mata e a mulher. Já pode se sentar? perguntou o amanuense.A NORMALISTA Page 80 of 96 ge 80 of 96 D. aterrado. sem saber o que fizesse. Vá. quietinha. e com a voz fatigada. Terezinha... cheira mais. ond . Apenas uma dorzinha aqui. outros sem chapéu. muito vexados. perseguindo-a com os olhos... Maria fez com a mão que não. estendida no comprido na lar ga cama de jacarandá. recomendava D. já estava boa.. insistentemente. Segura aí nos braços. E ambos. atônito. correndo para a filhada. que observava agora os menores movimentos da afilhada. um sítio nos subúrbios. chegando o copo. entreabrindo os olhos. a água Florida. Janjão. agora mais aliviada. Terezinha enxugava os olhos com a aba do casaco e João da Mata pigarreava disfa rçando a comoção. apoiada ao espelho da cama: "Não er a preciso. sujeitos sem paletó." Sentes alguma coisa? quis saber o amanuense. Mas no meio da sala perdeu o equilíbrio escureceu-lhe a vista. examinando-lhe a roupa usada. Terezinha. dando-lhe a cheirar o líquido. Terezinha. em cima da cômoda! O amanuense precipitou-se pelo corredor a grandes passadas...

e ela pudesse tranqüilamente e sem escândalo. sem despertar a curiosidade pública? Esta era a grande ques tão que afligia o amanuense. Mas onde e como poderia ele dispor as coisas do melhor modo.biblio. tomar http://www. alijar a carga. vendo -o crescer dia a dia. desembuchar a criança. cada vez que seu olhar vesgo descia sobre o ventre da afilhada.com.htm 23/12/2012 .br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.

arquear-se para fora numa convexidade característica e esmagadora. alguma mancha na roupa da afilhada. Queria ver até quando duraria aquele estado de coisas. Terezinha nunca mais dormira com João da Mata e era só quem passava bem naquela c asa. até estava criando banha no pescoço. em plena exuberânci a dos tecidos. urgia fazer qualquer arranjo logo e logo. "E agora?" interrogava-se ele. tinha perdido muito da anti ga expressão insinuante e viva de sua fisionomia. desabotoa numa singular alacridade de cores. e nada! absolutamente nada! Faziam-lhe espécie os modos reservados de Maria. que não transpuser a ainda os dezoito anos. Pudera! Uma vida relativamente calma. sem ao menos lembrar-s e da Lídia que não a esquecia e que lhe mandava de onde em onde presentezinhos. O caso ia se t ornando grave. esse impenetráv el desgosto que a punha triste. indagara da lavadeira se não vira alguma nódoa. Alguma coisa havia. Notavam-se-lhe agora. D. todos os cantos da casa. Com efeito. no ádito misterioso do seu quarto. uma cor seca de folha sazonada e certo ar amolentado que se traduzia numa sonolência infinita e na prematura tendência para o abandono de si mes ma. por mais leve. egoisticamente. Maria. como uma culpada. por força. ela. os seios. ganhando um dinheirão com o negócio de rendas que mandava para o norte pelo despenseiro do vapor ref . senhora absoluta d e seu nariz. como a flor. prestando ouvidos a qualquer ruído. até onde a queriam levar! Já não chegava à janela com vergonha de ser vista pela vizinhança e pelos conhecidos ugiara-se. os braços. apenas com quatro meses de grávida. era capaz de jurar. um vestígio que confirmasse de uma vez as suas suspei tas. passando a mão na calva. olhava a vida com uma indiferença. procurando meio de evadir-se da alhada em que se metera com risco de um escândalo medonho! Havia um mês que Maria do Carmo caíra com o ataque no meio da sala.A NORMALISTA Page 81 of 96 ge 81 of 96 uma forma esférica iniludível. arredondar-se. o seu crime. esperando resignadamente o seu fim. asperezas na pele. acordava vezes sem conta. antes que a Teté rebentasse por aí em quatro pedras a acusá-lo violentamente. A r apariga engordava a olhos vistos: só um cego não veria dentro d aquela redondeza uma criatura humana em formação. única. a sua pouca vergonha. Toda ela o ventre. o rosto inchava. Terezinha rum inava sutilidades para descobrir uma sombra sequer. toda frescura e beleza. Na idade em que a mulher. alta noite. Batera todos os aposentos. atirando-lhe em rosto a sua infidelidade. E João inquietava-se. D. adquiria um cunho extraor dinário de maturidade precoce. estiolando ali assim entre as paredes d aque la casa sem ar e sem luz. com um ar esquisito de "galinha choca". recados e abraços.

E sempre gorda.. mas você o que quer? É fado. o que queria era o seu descanso comer bem.. As conhecidas admiravam-lhe a boa disposição para o trabalho. Sentava-se à máquina às dez horas do dia. isso queria. achava feio uma mulher deitar-se com um homem e depois passe bem abalar por esse mundo afora. E se ainda "fazia vid a" com o Janjão. não admitia que a fizessem de tola. tudo corria-lhe às mil maravilhas. atirando fora aponta do charuto. dormir bem.ro. Essa. Vinha um pouco toldado. dar-lhe importância. Mendes.com. o amanuense entrou alegre. sabia-lhe apre ciar as virtudes. a gente não deve se matar.. é mania. como uma doida.. Não era mulher para essas coisas. trabalhava para gan har a vida honradamente. como se tivesse tirado a sorte grande na loteria. saboreando um charuto mau que lhe dera o Guedes.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. ao voltar da rua.biblio. para não dar escândalo. velas à brisa no espelho do mar http://www.. Mendes. era por condescendência. Uma tarde. Tinha uma amiga sincera a Amélia. passar bem.htm 23/12/2012 . Teté. senhora do Dr. vôa ligei. Queria ter um pesinho para rusga. mesmo porque ela. dizia-lhe a mulher do Dr. atrás de aventuras. Olha esse jantar! bradou para dentro.. E começou a cantar desafinadamente os Sinos de Corneville. sadia e forte! Mulher mouro! dizia João da Mata aos amigos. Terezinha. quatro horas consecutivas a cantarolar modinhas. Lá isso é verdade. então muito repisados Vai. sim. marinhei. Você é tola. costurando para o fornecedor da polícia.. cabelos úmidos sobre a toalha de banho estendida nos ombros e labutava três. tratá-la com consideração.ro.

Terezinha. que se sentara defronte da madrinha.. Ainda mais esta! resmungou D. ganindo alegre.. http://www.. ia passar uma s emana no Cocó. E João. ó estafermo! rosnou o amanuense. descansar um pouco.. Faz ela muito bem. Maria. conhecida pela velha dos cajus. suspirou João. Vá você com sua afilhada.. não queres ir também? perguntou João com certa frieza. fazendo festa ao cão.com.. fez esta pudicamente. Coitado.. aprovou D.... ela anda adoentada. co m a saia arrepanhada na cintura. Mas D. não tem apetite.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.. Como vai isto. como eu. e muito submissa: É se a madrinha consentir.ça. E tu. Ainda mais esta! Podes ir até p ra China quanto mais p ro Cocó!. e o médico. que o chefe não venha logo com os seus arrebatamentos que o govern o não sustenta vadios.. Fez-se es carlate. minha filha. Tenha modos. dê-se a respeito! É boa! Então já não de pode ser alegre?! Ora muito obrigado! Durante o jantar declarou que a Maria... final À cena a Naghel. Sô Janjão. o casaco desabotoado. teve outro dia aquele ameaço. Mas qual. e depois o ..htm 23/12/2012 .. E João trauteou. em casa da tia Joaquina. Azevedo. o Dr.. Mariana mexia o pirão escaldado de farinha num velho alguidar de barro. precisa tomar o seu leitinho.ça. credo". o seu detestável colo nu. Terezinha torceu o beiço com desdém: "Só se estivesse doida. que o empregado público deve ser infalível como o papa. por uma aposentadoria. homem de Deus! repreendeu D. no dia seguinte. à cena a Naghel! bradava o amanuense batendo as palmas com fúria... não pode ocultar seu embaraço.. com enfado. que há de ver a bonan.biblio. domingo. Tenha juízo. é toda postiça.. Olha essa lambugem! tornou João enfiando pelo corredor. Terezinha.. a rapariga coitada.. espalmando a mão em cheio nas ancas da rapariga. olhando por cima dos óculos: Você compreende. Estava num de seus dias felizes. disse-me a mim que aquela gordura não val nada. cortando o cozido. Quando houver temporal. muito meigo. Sim. Terezinha na sala de jantar. Mariana diz que tem sete saias de veludo. é uma gordura fal sa. não posso faltar um só dia à Repartição.. exibindo como de costume. Foi até à cozinha acompanhado pelo Sultão que lhe pul ava às pernas. e tanta asneira!.A NORMALISTA Page 82 of 96 ge 82 of 96 E logo: Nunca percas a esperan. já está velho e suspira. Ah! se eu pudesse passar uma temporadazinha fora.

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den tro de um largo cercado de pau-a-pique plantado de cajueiros. àquela hora. D. Mariana. Está ouvindo. A tia Joaquina. via-se a roupa lavada a enxugar. Galinhas debicavam debaixo da mesa. à direita. continuou o amanuense acendendo o cigarro. João falava mastigando. sentado nas patas traseiras. entre brenhas de camapus e matapasto. onde. muito saudável.. Tinha jantado num momento. com um grande poço no ce ntro. Terezinha erguendo-se. Bom velho! Leva estes pratos. a sua roupinha. Era aí que viviam.. Sultão muito rechonchudo. com uma medonha dentadura de cacos de garrafa. Sobre a mesa nada mais que um toalha com manchas de gordura. há anos. à espera que lhe caísse um osso ou um a pelanca. com a boca cheia. . ora! pobres somos nós também. Os talheres batiam nos pratos com força.. abrindo toda para o quintal. Vive de vender lenha na feira. todo verde no inverno. cerca de um quilômetro da cidade. A casa é que é pobre. e mais o mestre Co sme. Terezinha fazia bocados de pirão com os dedos em pinha e atirava a Sultão. na Aldeola. pratos e copos em d esordem. De onde em onde a voz da Mariana punha e m debandada os parasitas de crista: "Chô. É p ra lá d o Outeiro. e. orelhas em pé. bananas e laranjas. berrando para Mariana que enxotasse " aquele demônio". Ouvia-se o miar desesperado de um gato na cozinha. desde a seca de 77.. numa casinhola de taipa.A NORMALISTA Page 83 of 96 ge 83 of 96 Houve um ligeiro silêncio. Boa alma aquela tia Joaquina. e um velho galo de cauda furtacor estendia o pescoço num cocorocô estridente e prolongado que fazia João fechar os ouvidos. cavado toscamente.. uma moringa muito estragada. c ortando o invariável e sediço lombo assado." Havia um rumor d asas pesadas. coitado. Amanhã depois da missa da madrugada. Pois é isto. Maria? Prepare o seubauzinho. esse é um homem pobre. eram um pobre casal que moravam na Aldeota. disse D. um lugar muito bom. mas honesto como poucos. cacarejando. galinha! Chô!. A sala de jantar era uma espécie de alpendre assentado sobre grossos pilares de ti jolo. alongava o olhar súplice para cima. conhecida no mercado pela velhinha dos cajus. e ao fundo do qual sangrava um veio d água cristalina. O mestr e Cosme. com uma voracidade espantosa. mas. Desde as três horas começava a fazer sombra no alpendre e às quatro já se podia respirar ali a frescura das ateiras. Fazia ângulo à esquerda com a cozinha. de uma brancura de hóst ia.. ao redor da cacimba. tornou o amanuense limpando o bigode com a toalha. um velho muro escalavrado separav a o quintal d outros quintais. um sitiozinho.

Chamavam-na a velhinha dos cajus. em chegando o fim do an o. Ao por do sol voltava com seus ricos dobrões na ponta do lenço. a fazer lenha para vender no mercado a dez tostões a carga. e abalava para o morro do Cocó a explorar a mata. ia também à cidade fazer o seu negócio.à sombra dos cajueiros. debaixo do seu grande chapéu de palha de carnaúb a.com. atrás da jumenta. desde a seca. Mas. Queriam-se os dois como um casal novo em lua de mel. eram doces como açúcar. sem filhos.biblio. sem cuidados. com um xícara de café no estômago. felizes. que lhe dava o pão de cada dia e que carinhosamente chamava-a Coruja. muito cedo. João da Mata conhecia-os de longa data. Tia Joaquina ficava trocando os bilros na almofada. enfiava a grossa camisa d algodão e lá ia. por sinal naquele tempo tinh am uma filha moça http://www. Um dinheirão! Mestre Cosme não queria vida melhor. mestre Cosme saltava da rede armada no alpendre. O dócil animal costumava pastar à be ira da cerca. cuja presença punha-lhe uma expressão reconhecida no olhar manso.htm 23/12/2012 . tão feliz quanto o dono. porque os cajus que tia Joaquina vendia tinham um sabor especial. da sua inseparável jumenta. "meu velho" e "minha velha" é como se tratavam. Corria-lhe a vida como um abundante manancial d água s límpidas em leito de areia. com uma grande cuia na cabeça: "Olha o cajuzinho bom do Cocó! Olha o caju zinho bom!" E voltava com a cuia vazia e com a isquinha de fígado para a ceia ou com o cangulinh o fresco d alto mar. escanchado na Coruja. armava-lhe a cangalha.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Mes tre Cosme metia-lhe o focinho no freio. Pela manhã.

Domingo. na Aldeota. O amanuense começou a ver claro na espessa caligem de seu espírito.. sucediam-se as nuances. a rapariga tem um fastio que até mete pena. numa palhoça miserável. como . no Pajeú.. começou. então.... seu Joãozinho. Ora. ora. Decididamente er a um homem de recurso. Maria do Carmo e o pad rinho seguiram para a Aldeota. È casa de pobre... a pequena vai domingo cedo. incendiando a fachada dos edifícios e o cabeço dos montes longínquos. E João deu um níquel ao velho. Muito bem. mestre Cosme: A Maria. mestre Cosme. precisa tomar um pouco de leite fora da cidade. Deixe estar que não lhe esquecerei. Tome lá p ra você comprar fumo. esbatendo o contorno das coisas há pouco difundi das numa meia tinta escura.. No domingo. ora.. Você ainda mora na mesma casa. Ao passarem pela Imaculada Conceição. Tinham-se apagado as luzes da cidade e pouco a pouco. Se me alembro? Ora.. Mestre Cosme morava.. não é assim? Sim senhor. João era comissário de So corros e fazia-lhes muitos benefícios. pois não hei de me alembrar? Aquilo é que foi morrer gente!. A menina pode ir quando quiser. Ia-se fazendo gradativamente a majestosa mise-en-scêne do dia: clarões rasgavam-se d u m e d outro lado do horizonte.. depois da missa da madrugada na Sé.. sem falta. imperceptivelmente. pousando a mão no o mbro do velho Pois diga lá. É isto. O amanuense viu o mestre Cosme no mercado e teve a idéia de lhe falar da ida de Ma ria do Carmo para a Aldeota " Tinha um grande favor a pedir ao mestre Cosme". p ra lá do Asil. Para as bandas do Coração de Jesus. a pé.. Eu queria que ela fosse passar uns tempos no Co có. nuvens esfarripavam-se numa soberba apoteose de púrpura e violeta ... coitada. Lembra-se da seca?.A NORMALISTA Page 84 of 96 ge 84 of 96 também Maria (Maria das Dores) que morrera das febres em 77. Comi muita farinha do seu Joãozi nho. Diga à tia Joaquina. à direita de quem sobe. como se fosse hoje. Bem. Ainda tremeluziam estrelas no alto. Lá estavam. O bom velho ficou admirado: " Só isso?. Tempo de calamidades! murmurava o velho ao lembrar-se da seca. Estava tudo arranjado.. ilumi nando tudo. por ente os coqueiros que se avistavam da praça do Colégio. adeus. está fraq uinha. minha afilhada. tem andado doente.. vocemecê bem sabe. a normalista olhou por entre as grades do colégi o. isso não é favor! Eu até esti mo. Seu Joãozinho sabe que a gente vive no mundo p ra servir uns aos outro s. com efeito. Pois está bem. cada vez mais claras.. como n uma mágica. mas a gente sempre veve..

em form a de quiosque.. no meio da praça. João ao lado fumava distraidamente. Havia luz dentro. a "cacimba do povo".br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. lá longe. seg urando o manual da missa. muito preocupado. os quatro pés de tamarindo... Ouvia-se lá dentro o coro abafado das educandas ora pro nobis. João da Mata perguntou a uma delas "se ainda estava longe o mestre Cosme?" http://www. à esquerda.ora pro nobis. sombrios e silenciosos. Ia vestida de preto. tinha um aspecto misterioso. À direita. E adiante. branquejavam os morros do alto Cocó. de cachimbo no queixo. chale trançado. um vago desejo de viver como as irmãs de caridade. quase lúgubre.htm 23/12/2012 .com. com o pescoço e a cabeça envolvidos num fichu cor de creme. desolada àquela hora. cor de tijolo. Já era dia. Mulheres em tamancos passavam para a cidade falando alto. abria as janelas sonolentas pa ra o descampado. Chegaram à praça do Asilo. cuia de hortaliças na cabeça. por trás da flo resta baixa e espessa. Maria teve um estremecimento.biblio. numa imobilidade tímida e respeitosa.. mas passou logo.antes. O grande edifício. ar desenvolto.

como um caminho de ouro que a conduzisse a uma outra vida. Obrigado. . tia Joaquina. que não cessavam de con templar o seu belo perfil de noviça envolto numa penumbra melancólica. Sim senhor! fez a velha admirada. Sentia -se melhor respirando aquele ar. sob a larga irradiação do sol nascente. cuja exuberância ostentava-se agora prodigiosamente na esplêndida paisagem que os olhos de Maria do Carmo viam com admiração. apontando o campo. Esta mesma. eriçadas pelo terral. como um tônico. Revoada de periquitos. hum. Aquela estrada branca de areia. a perder de vista. Vacas babujavam silenciosamente e vol tavam a cabeça com uma vagarosa melancolia no olhar. Jesus Cristo. Fazia-lhe bem. Mete inveja. sem tirar o cachimbo da boca. a quem mora naquele inferno de cidade. vais passar bem.. Ora muito bom dia! saudou o amanuense Louvado seja N. para longe as mágoas. cortavam a limpidez da atmosfera e desciam d um e d outro lado da estrada sobre o matagal espesso e verde. correspondeu a tia Joaquina. todo o delicioso. larga e interminável. Vais engord ar.A NORMALISTA Page 85 of 96 ge 85 of 96 Hum.. Maria teve um sorriso consolado. aquela casinha branca na encruzilhada? pois é al i. meneando a cabeça. cansada e pálida. pode dizer! Coitadinha. Para longe a tristeza. como está vendo. parece q ue vem tão cansada. o ar fresco da manhã que lhe bafejava o rosto. Entrem. Moça feita e. convidou mestre Cosme solícito. Corria um ar fresco e matinal. comple tamente outra daquela que até ali vivera. com efeito. hein? perguntou João bruscamente.. e deixa correr o marfim. Sentia-se um fartum de terra úmida que fazia gosto.. estendiam-se por ali fora. As primeiras chuvas do ano tinham fecundado a terra. recuando.. S. Que dizes a isto. Estava. de um verde gaio pitoresco. Bonita mesmo. minha filha. isto é que é vida! O que vais engordar! Aproximaram-se da casinha de mestre Cosme. sem dores e sem lágrimas. E descrevendo um círculo com a mão espalmada. sem hipocrisias e sem traições.. respondeu a mulher. entrem. Maria. bonitona. a uma vida sossegada. E voltando-se: Está vendo aquele cercado lá adiante. num vôo de flecha. Como está isto bonito! Não há notícia de inverno igual. As matas da Aldeola. desenrolava-se aos olhos da normalista como uma via láctea de ilusões. bebendo toda a selvagem frescura do campo. Então é esta a sua afilhada. Uma delícia. Houve logo um princípio de intimidade entre ela e os velhos. o inefável perfume que se levanta dos crotons e das salsas bravas. Os velhos já estavam de pé na porteira do cercado.

a alegria. e onde uma rapariga. que transformações desde 77! Antes nunca tivesse saído da Imacu lada Conceição para se meter numa escola sem disciplina e sem moralidade. Terezinha e do mau hálito de João da Mata. a liberdade que se bebi a ali na larga convivência da Natureza. o bom leite puro e fresco bebido pela madrugada à porta do curral.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. o aspecto úmido da mata resplandecendo num fundo verde claro e onde variados matizes da flora agreste pu nham efeitos surpreendentes. filha de família. é expulsa da aula porque outra de maus costumes escreveu obscenida des na pedra! http://www.Provisoriamente instalada no seu bucólico e nemoroso retiro da Aldeota. O viver simples e sossegado de Mestre Cosme e da tia Joaquina. ia esperar o papai que voltav a da vasante. tudo isto robustecia-lhe o corpo e a alma. e. inoculando-lhe no sangue um conforto viril. a um bom quilômetro das rabujices de D. longe de t udo que lhe arreliava o juízo. ressuscitando-lhe o quase extinto amor à vida. qu ase ao anoitecer. sem programa e sem me stres.biblio.htm 23/12/2012 . à tardinha. ainda inocente. a mocidade. outra foi com efeito a vida de Maria do Carmo. o violão de mestre Cosme gemendo saudades de um país remoto e abençoado. e as apagada s reminiscências do bom tempo em que ela. em Campo Alegre. Que mudança na sua vida.com.

A NORMALISTA Page 86 of 96 ge 86 of 96 Mil vezes a Imaculada Conceição com os seus claustros, com as suas capelas, com o se u silêncio respeitoso, com a sua disciplina austera; ao menos não teria voltado à casa dos padrinhos, àquela mald ita casa de hipócritas, e não teria dado espetáculos com Sr. Zuza. Ah! o Zuza... Vinha-lhe um forte desejo de vingar-se do estudante, de caluniá-lo e de culpá-lo pela sua desgraça. Àquela hora o que não estariam dizendo d ela na cidade?... Pensava essas coisas no seu pobre quartinho de taipa abrindo para a Natureza, en quanto tia Joaquina fazia rendas. Dentro de um mês era notável a influência do campo na sua saúde. Criara novas cores, nov o sangue, muito solícita agora nas preocupações domésticas. A menina Maria está criando banha! admirava a tia Joaquina. Sim senhora! O leite, tia Joaquina, o leitinho é que tem me feito bem. João da Mata aos domingos, invariavelmente, ia ver a afilhada, afetando grande int eresse por seu estado. Dizialhe as novidades, os escândalos, dava-lhes lembranças da Lídia Campelo, e, ao retirar-se p revenia: "Se houver necessidade mandem-me dizer". Vá descansado, seu Joãozinho, vá descansado, que há de chegar o dia... Mas o estado de Maria do Carmo não inspirava cuidados. O útero revigorava, funcionan do com a regularidade precisa d uma excelente máquina moderna; por sinal Maria, desde que se mudara para a Aldeota, nunca mais sentira pontadas. O amanuense exultava, alegre e feliz. A princípio receara um aborto, mas agora tin ha a certeza de que triunfavam as qualidades procriadoras da rapariga. É, pensava ele, roendo o canto das unhas. Um bom útero é tudo na mulher: eqüivale a um b om cérebro! E esquecia-se a filosofar na vida intra-uterina, admirando-se muito do que uma s imples gota de esperma pudesse gerar um homem! 14 A ausência de Maria do Carmo não passou despercebida às rodas de calçada e aos freqüentado res do Café Java, cujo tema quotidiano a política não lhe satisfazia o prurido de entrar pela vida alh eia a esmiuçar escândalos como quem procura agulha em palheiro. Nas portas de botica, nos cafés, nas repartições públicas, mo mercado, em toda aparte co mentava-se o desaparecimento da normalista, em tom misterioso e com risadinhas sublinhadas a princípio, depois abertamente, sem rebuços, com uma ponta de perfídia, traindo a sisudez convencional da burguesia aristocrata.

Que tinha ido tomar ares a Maracanaú, afirmavam uns acentuando a ironia: outros qu e andava adoentada de uma pneumonia "proveniente de desarranjos na madre"; outros que estava proibida de sair à rua e de chegar à janela por desconfianças do amanuense. Alguns, porém, como o José Pereira, comunicavam secretamente, pedindo toda a cautela, que a rapariga tinha sido raptada por um paraense e que se achava depositada no Cocó, em casa de uma tal Joaquina Xemxem, por sinal o Manoel Pombinha, tipógrafo, "os vi ra passar uma note embuçados numa capa preta" caminho do Outeiro. Na Escola Normal rebentavam suspeitas à flor das discussões que preenchiam o interva lo das aulas. Quem, a Maria do Carmo? Aquela mesma não era mais moça, não, meu bem. Ela sempre fora muito metida á aristocrata, por isso mesmo caíra na mãos de um Zuza. Era bem feito! Uma grandíssima o rgulhosa com carinha de santa. Aí estava a santidade... Vinham à baila casos análogos de filhas-famílias que tinham ido para fora da cidade to mar ares e, no fim de contas, iam mas era "desembuchar" onde ninguém pudesse ver... Então, já apareceu a rapariga? perguntava-se com interesse. http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012

A NORMALISTA Page 87 of 96 ge 87 of 96 O Guedes ardia em desejos de saber a verdade nua e crua. Diabo de tantas histórias e ninguém descobria a incógnita do problema. Aproveitou uma ocasião em que João da Mata jogava a bisca no Zé Gato. O amanuense esta va já um pouco atordoado pela cachaça. É agora! pensou da Matraca, e formalizou-se, carregando o chapéu para a nuca. Então é verdade o que se diz por aí, ó João? Sobre os amores secretos do falecido presidente? Não, homem, não é essa a ordem do dia. Isso passou. A questão é outra. Desembucha! Pergunto se é verdade o que corre sobre... ... Sobre a Maria do Carmo? Uma calúnia, seu Guedes, uma calúnia. Você bem conhece este povo. Eu já tinha dito isso mesmo a alguns amigos: que a D. Mariquinha era incapaz de se melhante procedimento. Idem, idem, atalhou o Perneta embaralhando as cartas. Essa é a minha opinião. E que fosse verdade, continuou João da Mata partindo o baralho, e que fosse verdad e, não era da conta de ninguém. Que dúvida! confirmou o Guedes. Mando copas, rosnou o amanuense. E o jogo continuou sem que o Guedes soubesse a verdade. Mas, ao retirarem-se, cerca de meia noite, interpelou novamente o amanuense na e squina, à luz de um lampião. João da Mata cambaleava, equilibrando-se, a praguejar contra o calçamento das ruas e contra a Câmara Municipal. A rua do trilho perdia-se na escuridão, silenciosa como um subterrâneo. O Guedes tinha tomado pouco nesse noite e fumava o seu cigarro com um grande ar de superioridade, pisando forte, o gesto largo e o paletó aberto num abandono frouxo de boêmio. Cuidado ! não vás cair, avisava com as mãos nos ombros do outro. Que cair nada, homem! Pensas tu que estou bêbedo, hein? estás muito enganado! O diab o dos óculos escuros é que não me deixam ver bem... Por aqui, por aqui, guiava o Guedes, cauteloso. Espera, vais fumar um cigarrinho fino... Pararam. Um polícia passou do outro lado da rua, sonolento e lúgubre. Então o redator da Matraca abraçando o amigo pelo pescoço, depois de lhe ter dado o lu me: Tu não me quiseste ser franco ainda agora na presença do Perneta, mas nós somos amigos ... tu sabes... Aonde diabo meteste tu a rapariga? João cuspinhou para o lado. Hein? A Maria do Carmo, onde anda ela? Ah! seu marreco, você quer saber onde está a rapariga, hein? Pois não lhe digo, não... Fala sério, homem. Dizem que está no Cocó, que teve um filho?... Juro-te como esta boc a não se abrirá... http://www.biblio.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm

23/12/2012 .

A NORMALISTA Page 88 of 96 ge 88 of 96 Sentemo-nos aqui um pouquinho. quero dizer. Soaram doze badaladas graves e dormentes na foi-se embora para Recife? Aquilo é um infam pequena lhe mostrasse o nariz.. ao ouvido Perneta. e. mas ainda não teve a criança.. encostando-se à coluna do lampião. Luziam-lhe os bugalhos no fundo das órbitas. ante aquelas maravilhosas palavras do amanuense.. que eu lhe confio porque sei que você é meu amigo: a menina está no Cocó. pela próp ria boca do padrinho da rapariga. Sentaram-se à beira da calçada. você bem sabe o que quero dizer. imóveis. pela manhã. Eu cá previa tudo quando proibi formalmente que a a princípio. solitário e mudo.. a verdadeira história do escândalo. homem. seu Guedes. Perto de casa o amanuense esbarrou com um vulto que se movia no escuro.. tornou este.. E separaram-se friamente. Vox populi. sentou-se vagarosamente.. vou-me embora. Ah!.. E o pai? Que pai? O pai morreu no Pará. o Zuza? Pois não e. adeus! Perdi hoje tanto como dez pintos . . caindo sobre o amanue nse com a fixidez de clarabóias de vidro. testemunha ocular. um extraor dinário bem estar ao ouvir a história. narrada pelo João da Mata.. Encolhia-se todo de gozo. foi dizendo à meia voz: A coisa não é como se diz. passeando o olhar sobre a banca de trabalho onde destacavam dois grandes dicionários de Aulete. do Zuza. voltando p ara o poeta.. no Passeio .. como dois desconhecidos.. Admira-se você. mas.. parados. disse-o. Sentia um prazer especial. era um b urro. afinal foi o que resultou. o pobre animal babujava a rama da coxia. ao Cocó. a verdade é esta. confirmou o Castrinho pousando a pena atrás da orelha. uma comoçãozinha esquisita. que ainda não deu meia-noite. o pai da criança. o chapéu. Não.. o Guedes não se conteve. logo Público.. o pai da criança. um filho do Zuza ".. o inseparável chile enterrado na cabeça. Sim. pois um fato que toda gente previa!. E esta! José Pereira arrepanhou as abas da sobrecasaca. gente de casa. Uma vez senhor do segredo.. João contou uma a uma. Do Zuza? exclamou o José Pereira ao saber da novidade na redação da Província. Sim. Meia noite. que querem? encontravam-se na Escola Normal. O Guedes era todo ouvidos. "que a normalista do Trilho fora desembuchar. e. um biltre.. Sé. e com pouco ninguém ignorava na cidade. É o que diz o púb lico. Oh! homem. debaixo do gás e o amanuense. seu compadre. Sim.

http://www. Em todo caso sempre era prudente guardar certo sigilo. uma vez que se tratava da reputação do Zuza. Dizem que o velho Sou Nunes só falta perder a cabeça..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.htm 23/12/2012 .com.. estrangulado por uns colarinhos extraordinariamente alt os: Qual! O fato está no domínio público.biblio. negar mesmo .O outro recomendou que falasse mais baixo por causa dos tipógrafos.. não há por aí quem não o saiba. à meia voz. se possível f osse.. E o Castrinho.

do outro lado do tabique que dividia a sala da redação e onde se viam o empilhamento de jornais sobre uma velha mesa gasta. outro redator. como vocês sabem melhor que eu. Daí a pouco entrou o Elesbão.A NORMALISTA Page 89 of 96 ge 89 of 96 Meninos de bolsa a tiracolo questionavam com o agente da folha. "uma ilustração invejável" . De quando em quando a tosse o interrompia. não temos educadores. os Mistérios de Arronches. nada mais que a reprodução de fatos velhos. Mas o Eslebão estranhou que "os colegas" tivessem segredos para ele. A educação feminina... Queríamos introduzir no Ceará os d issolventes costumes parisienses. mas não eram essas as tendências do nosso povo essencialmente católico e essencialmente crédulo. "um excelente educador em cujas aulas as raparigas aprendiam ao mesmo tempo a ciência e a religião". onde as moças vão tagarelar. E. Foi perguntando. José Pereira contestou. o verdadeiro sentimento religioso. depois d e saber o "mistério": Magnífico assunto para folhetim realista. a leites. com que. é o que . não me dirão? Uma escola sem mestres. tossindo devagar. "Diabo de catarro não o deixava em paz!" E. dizia... Não valia a pena tocar na ferida. pretendia fundar uma escola "mais consentânea com o est ado atual da ciência". Aquilo é uma sinecura. do que se tratava. na Guaiúba. vão ali por honra da firma. rebateu o Eslebão.. por amor aos cobre . lev ava a mão ao peito e expectorava. uma tossezinha seca e pigarreada. Como assim? E explicou: Tinha estado fora. O outro arregalou os olhos com ar de espanto. acrescentou com cansaços na voz. lembrando o Berredo. muito pálido. forcejando por falar alto. que se tratava "dos brios da soci edade cearense". um sujeito lúgubre. à fortiori. empertigando-se na cadeira. O Castrinho disse. numa voz sumida e lenta. faces enc ovadas. o padre Lima. um estabelecimento anacrôni co. a educação feminina é um mito ainda n compreendido pelos corifeus da moderna pedagogia. hein? Escrevia folhetins realistas para o rodapé da Província e trabalhava num livro de fôle go. não sabia as novidades.. sem hipo crisia. vão passar o tempo a ler romances e a maldizer o próximo. não fazem caso d aquilo.. Não admitia a teocracia tal como a aceitavam os padres "essa corja de espec uladores" mas era preciso respeita as crenças populares. continuando: Que é a Escola Normal. disse José Pereira. A sua opinião sobre o novo escândalo que preocupava agora a população cearense era que " nós ainda não tínhamos compreendido o importante papel da mulher na civilização". sem preconceitos. Mas não têm método. . Um fato muito natural. olhar triste.

. quando a mulher é bem educa da e tem noções exatas da vida. Foi o que se deu com a Maria do Carmo.. incontestavelmente. ao contrário.... E além d isto. acrescentou José Pereira. meu caro.com. que se conservava calado..htm 23/12/2012 . O amor tem suas exigências. É verdade. folgo em reconhecer nele um homem estudioso e bem intencionado. duvidou o Eslebão batendo com o pé. tudo isso é completamente inútil quando uma mulher tende fata lmente para um homem. mas. uma rapariga até morigerada. isto é justamente o que falta aos nossos corp os docentes. http://www. Dizem que é inteligen te e bem educada. dificilmente se entregará a qualquer mariola que se lhe chegue. É preciso orientação e muito bom senso. Tudo isso é inútil.é. . no chão. já com uma poça de cuspo ao lado d a cadeira.. Novo acesso de tosse desta vez mais prolongado. curvado. gabou o Castrinho roendo as unhas desesperadamente. Você deste modo ofende o atual diretor da Escola Normal.. tido e havido como um ped agogista de primo cartello! advertiu o Castrinho. Não ofendo a ninguém.. Elesbão. mas isto não basta ..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista.biblio. Não creio.

. João da Mata. Que é isso? inquiriu Eslebão curioso. tão sonsa. disse apontando com o dedo sujo de tinta. Se fosse possível. Pobre Maria! É assim .. Ouvia falar no Outeiro. disse o José Pereira. mas não sabia ao cer to onde ela parava. E repetia: Este mundo.. este mundo!. O que é? O rapaz mostrou o original: "Está aqui"... são coisas. cortada de desgostos. o Lour eiro a estimava cada vez mais. José Pereira para perguntar uma palav ra. O tipógrafo foi repetindo crápula. ela mesma.. na Aldeota. no Cocó. um tipo que anda caindo nas ruas. rosnava o Loureiro. A Maria. até iria. os nossos costumes são de um povo analfabeto. E Lídia soltava uns suspiros vagos. No caso vertente a caus é a falta de educação. num abandon o pungente. dar um abraço na sua amiga de escola. uns tão felizes e tão maus. à casa do Loureiro. Tão moça ainda. hein?! Tão calada. tinha relações com as principais famílias da capital.. bons e infelizes.. Loureiro! ralhava a Campelinho. Entraram a falar no novo presidente da província. Pensou em escrever à Maria lamentando o deplorável acontecimento.. crápula. gozava! Se pudesse repartir a sua felicidade com Maria. São coisas. Ultimamente andava muito preocupada com o enxoval do seu primeiro filho. tão boazinha.. Era um artigo contra o Pedro II.A NORMALISTA Page 90 of 96 ge 90 of 96 E sentenciosamente: Todo fenômeno é conseqüência de uma causa. não lhe faltava coisa alguma. coitadinha. Que é isso. corria-lhe a vida deliciosamente. . Um tipógrafo aproximou-se e pediu licença ao Sr.. a falta de absoluta de quem sabe dirigir a mocidade feminina. Eu nunca me enganei com aquela gente. carregando os seus oito mese s de prenhez. uma formidável descompostura a um dos redatores d a folha oposicionista. bêbedo como uma c abra. consolá-la. Entretanto.. Até já havi .. ia ao teatro e freqüentava o Club Iracema.. Imaginava-a muito triste. Não há efeito sem causa. Crápula. coitad a. Um a súcia de doidos. comia e vestia do melhor.. A notícia do escândalo chegou até o Benfica. empinada. em casa d alguma mulher à toa. sem ter quem lhe aparasse as lágrimas. traspassados de pena ao lembrar-se de sua velh a companheira agora atirada ao desprezo como um ente nulo e prejudicial à sociedade! Este mundo. outros ao contrário.. este mundo!. A Lídia ficou estupefata. Ao mesmo tempo apoderava-se dela um pesar sincero pela amiga. A nossa educ ação doméstica é detestável... a começar pelo tal Sr.

mas ela teimava em batizar o filho com este nome se fosse "menino". Tomé ver para crer.com. Era da escola de S.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Terezinha. Os pad rinhos também já estavam designados o comendador Carreira e a esposa. O Loureiro tinha lhe dit o que Romeu era nome de gato. o rosto quente do mormaço. esf alfada.biblio.htm 23/12/2012 . http://www. como uma seta.a escolhido um nome para ele. para o pequeno chamar-se-ia Julieta ou Romeu. atirando-se nos braços de D. Por sua vez a mulher do juiz municipal correu logo à casa de João da Mata numa ânsia d e saber como as coisas tinham se passado. e voou para o Trilho de Ferro. Vestiu-se às pressas. ata balhoadamente. sem fôlego.

Lídia não vá se arrepender. a mãe. sei lá. com a Lídia".. piscando um olho. Amélia foi direto ao móvel da sua inesperada visita. e. Haviam de p ensar que ela era outra. dando-lhe vulto. hein? É o que tu pensas. metida no quarto que nem uma feira. como vai? Naquilo mesmo.. No Cocó. Riram baixinho e a conversa recaiu sobre D. menina. uma vergonha! Ela. Uma sonsa. Amanda àquela hora entregue ao seu del icioso farniente de mulher solteira que dispõe do tempo a seu bel-prazer e da algibeira de um capitalista gen eroso. e por tal modo que. na Aldeota.. indiferente como se não fosse com gente dele. um homem ir diariamente. sem que D. Se era? Tão certo como dois e dois são quatro. de certo tempo àquela parte. Terezinha com um sorriso de malícia. E o diálogo continuou animado. O tal do Sr.. às vezes. às mesmas horas. E o que diz a isso o Sr. E então o José Pereira que não era tolo e tinha fam a. uma sonsa é o que ela é. Tomara que aquela peste não m e entre mais em casa! E tu não viste logo se ela estava grávida? Vi lá o que! Andava aqui toda espremida. a viúva Campe o. ntão era mesmo certo o que se dizia na rua?" De que? Da Maria. criando novelas de roman ce. D. voltava depois da nove.. hein?! Qual Zuza. não têm vergo ha. Amélia. D. Joãozinho? Furioso.. nem fazia gosto a gente viver.. A Amélia não fazia idéia uma vergonha! criatura. "todo embebida com a outra . Toda a cidade vivias agora do escândalo. esmiuçando pequeninos . O demônio metera-se-lhe em casa com a rapariga. elas é que são as culpadas. É verdade.. Queira Deus que a tal Sra. A Teté não achava feio isso. nem sequer saía à rua para não ser olhada com maus olhos. O redator da Província não tirava os pés do Benfica .. E onde está Maria? Sei lá. Jurava sobre os Santos Evangelhos. Terezinha. no último bonde. à casa duma senho ra casada! Era feíssimo! Já andavam dizendo até coisas. Terezinha revelasse à amiga as suspeitas a cerca de João da Mata e Maria do Carmo. porque não se dão ao respeito.A NORMALISTA Page 91 of 96 ge 91 of 96 A mulher do amanuense saudou-a com o seu invariável entre beijos. queixando-se de que ele há muitos dias não apareci a em nossa casa.. respondeu D. com um arzinho de mosca morta.. no inferno.. Zuza. salvou-se uma alma! proferido "E Sem esperar oportunidade. D. Amélia falou sobre o José Pereira. estava cansada de sofrer desapontamentos. mulher.

htm 23/12/2012 . http://www. estendi do na rede. à espera de chuva s e de novos acontecimentos sensacionais. mudo. Sedutor de filhas alheias! dizia-lhe ela na cara. com os ouvidos arrolhados. cada vez mais submisso à mulher que o cobria de injúrias e labéus. com um olho na política e outro na normalista.biblio. o olhar no teto. sem prestar ouvidos à maledicência. ameaçadoramente. Peste! Coisa ru im! Sem vergonha! E ele punha-se a cantarolar.acidentes domésticos. e continuava a sua vida inalterável de empregado subalterno. João da Mata não se inquietava muito. encantonado no seu absoluto desprezo à sociedade e à opinião pública. impotente como um eunuco.com.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. de resto.

Retirou- . sem proferir palavras. sem sombra de mulher. impelindo-o para a mulher. A outra porta da alcova conservava-se entreaberta: empurrou de leve enfiando a cabeça para dentro. murcho. Teté! chamou numa voz quase imperceptível.. E lá se foi sutilmente. de amar fisicamente. que dormia ali perto. pé ante pé. uma formidável ereção a distender-lhe os nervos escabujando na rede e m espreguiçamentos lúbricos. Agora. resignado como entiu desaparecer-lhe subitamente o forte desejo que ainda há se macambúzio a pensar nos caprichos da sorte. 15 Quando mestre Cosme. frio mole. renascia-lhe a virilidade. Bateu de leve. mas a Mariana era uma criada que não se l avava. Adiantou-se e escancarou as cortinas. pela madrugada. cheio de aborrecimento pelo outro sexo. muito admirado. Há meses não se chegava à mulher alguma. incapaz de satisfazer os apetites de um homem. mas onial. mas não pode ver senão o espelho do velho toucador. o leito matrim "Que significava aquilo?" Os lençóis revoltos a Ante a clarividência assombrosa da realidade um boi. e. e. Os cortinados da cama estavam cerrados. corredor a fora. porém. tateando no escuro. despertou com o desejo veemente de ir ter com D. sentia uma forte vontade. Tremiam-lhe as carnes como ao contato de um condutor elétrico. equilibrando-se nos bicos dos pés. como um vencido. inclinado para a frente.. João foi entrando devagar . que lhe tirava a respir ação. indomável e impetuosa. Teté! repetiu à meia voz. uma manhã. receoso da criada. largo e fresco. foi avisar a João da Mata que "a menina estava com a oh!. Não havia jeito senão tentar a Teté. refletindo um vaso noturno e roupas espalhadas no chão. o amanuense rodou sobre os calcanhares. ao poder irresistível da animalidade humana. Tere zinha na alcova. Silêncio profundo. deu volta pela sala da frente. O sangue pulava-lhe nas artérias numa hiperquinesia que lhe atordoava os sentidos. um estafermo sem sexo. sem ruído. cusavam o desespero de uma pessoa que não teve tempo a perder. Pensou na Mariana. . de crucificar-se nos braços de uma mulher que não fosse de todo o mundo e confundir-se o seu sangue com o dela num demorado e indescritível espasmo. João olhou pelo buraco da fechadura. Ninguém respondeu.. A alcova tinha uma porta para o corredor. João ficou boquiaberto.A NORMALISTA Page 92 of 96 ge 92 of 96 Uma noite. vergando. branquejava desolado. direito à alcova da infeliz senhora. i nacessível quase às carícias da fêmea. s pouco o espicaçava como uma urtiga. defronte..

metia até pena. Pudera! n ovinha ainda. velando a pobre moça. nhor sim. mas era limpa e não tinha má cara.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. do Bom Parto. Boa? Mestre Cosme não afirmava porque não conhecia bem. e abalou mais o velho para a Aldeota.. Já. juntando às palavra s os seus gestos rudes de homem do campo.s dores". reza do à N.. sem ocultar um só detalhe. Aquela noite as dores tinham piorado. sem dizer palavra à D. o amanuense dormia ainda sob os lençóis e nem sequer sonhava com a afilhada. coitada. lavou-se num instante. Eram chás e fricções. Ergueu-se da rede. A rapariga há dois dias queixava-se d uma dores nas "ancas e no pé da barriga"... Se gemia? Muito. Quando apareceram as dores? Se Maria gemia muito. enfiou as calças. com um pulo. Já tinham arranjado parteira? inquiriu acelerando o passo. A parteira disse logo que a criança estava no nascedouro.. Agora. a comadre Joana Pataca.S. Di z que era a melhor parteira do Outeiro. Terezinha. nin guém dormira.com.htm 23/12/2012 .. acompa nhadas de fraquezas nas pernas e grande falta de ar. O velho informou tudo minuciosamente.. e corre d aqui e chega depressa todos com cuidado.biblio.. http://www... uma do Outeiro. se seu Joãozinho não quisesse. A mulher já estava cuidan do da menina.

Mas não se descuide. sentando-se: A senhora tem licença para assistir? Não era preciso licença. há que tempo! D aqui a pouquinho o menino está fora. era muito conhecida no Outeiro. E... João da Mata passou todo esse dia na Aldeota. revirando-se na rede. como vai? perguntou João tomando a mão da afilhada. dizia ela muito solícita. calmo e luminoso. às pressas. sentido s. gemendo. sem casaco. respondeu a rapariga mordendo o beiço com um gesto doloroso. não. e continuou a gemer alto. achava-se Tia J oaquina. Olhe não vá esquecer. e foi aquecer uns panos . ora. tenha fé no Senhor do Bonfim". com ar de desconfiança o todo obeso da mulh er.. por sinal tinha part ejado uma vez a mulher do comandante do batalhão. trêmulos. minha filha. Sua criada Joana Pataca.. alisando-lhe os cabelos.... Já verificou se a criança está perfeita. Então. e Maria volveu os olhos úmidos e profunda mente melancólicos para o padrinho. escan chado na Coruja... Está bom. No Ceará qualquer mulher podia ser parteira contant o que merecesse confiança. Muitas dores.. Mestre Cosme trouxe um tamborete. longos .. e uma outra mulher gorda. Então não é preciso licença? Inhor não. Mestre Cosme armara-lhe uma rede no alpendre e fora-se a desbastar a mata. e aquilo apertou-lhe o coração. meio idosa. Ela. se Deus quiser. A mulher gorda tomou o casaco. Ti a Joaquina batia os beiços rezando " Tenha paciência. aguardado o sucesso. ora.. não senhor. Vocemecê duvida? Não... esquecido da repartição. se não há novidade? Ora. bebendo aguarde nte e acendendo cigarros.. Joana Pataca.. Sentia-se um cheiro ativo de alfazema queimada: encostada à parede fumegava o bras eiro. A parteira pousou no chão o cachimbo que estivera fumando. Deu meio dia e a rapariga não teve a criança. com uma janelinha para o descampado. O arvoredo imóvel dormitava na esplêndid a pulverização da luz que o . está bom. pançud a. O amanuense encarou por cima dos óculos. muito trigueira. A senhora é que é a parteira? tornou João para a mulher gorda que se conservava imóvel c om o queixo na mão. com carinho. com marcas de bexiga no rosto. É qualquer uma. hein? Assim.A NORMALISTA Page 93 of 96 ge 93 of 96 Logo da porteira do sítio João escutou os gemidos de Maria do Carmo. Dão licença? murmurou João da Mata descobrindo-se com respeito. é que eu queria saber.. As dores tinham melhorado um pouco.. à cabeceira da normalista. No pequeno quarto de taipa. Fazia um belo dia de sol.

O passaredo aninhava-se na verde espessura d os cajueiros em flor. contubernal e gárrulo. Às sete horas da noite. o olhar desvairado e os cabelos em desordem. Maria teve um sobressalto e ergueu-se bruscamente com uma fortíssima dor no baixo ventre.com. ao acender-se a primeira vela.narcotizava para beber-lhe a seiva. muito branca.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. embalado pelos gemidos da afilhada como por um vago e monótono estribilho repassad o de melancolia.htm 23/12/2012 . rolas bravas debicavam nas clareiras os minúsculos diamantes que o sol punha na areia. http://www.biblio. E no silêncio e na beatitude d aquela espécie de cemitério João pôde dormir um sono bom de d uas horas.

numa palhoça vizinha. minha filha. o perigo tinha passado. Consolava-se com esta idéia. Perto. No silênci . era o diabo! Até lhe doía a cabeça! Grandíssima besta. João d a Mata. João da Mata acudiu gelado. Ouviu-se uma pancada surda no chão. Diabo! pensava o amanuense quebrando a cinza do cigarro. que nem ao menos soubera apanhar a criança! Estúpida! deixar morrer assim uma criança tão bem feita e nutrida! Isso só acontecia a ele. agarrando-se como uma louca ao pescoço das velhas. João não pregara os olhos. comadre. agarrando c om jeito. entre as duas mulheres. cortada de dores. Era o diabo. sente-se. Mas era tarde. as gordas mãozinhas c ruzadas sobre o peito. depois de lhe terem ministrado um hidromel de aguardente. lá ia tudo por água abaixo. havia um samba que durava desde o anoitecer. com a calva entre as mãos. Sobre uma grande caixa de pinho. o re cém nascido uma criança nutrida e robusta dormia o sono eterno. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! rosnou Joana Pataca estremecendo. contorcendo-se numa aflição suprema. comadre! repreendeu-a a parteira agarrando-a. que pingava a sua cera denegrida no gargalo d uma velha botija de genebra. no bico dos pés. à luz d uma triste vela de carnaúba. d alto a baixo. De meia em meia hora acendia um cigarro automaticamente e punha-se p r ali a ruminar silenciosamente. e no linho branco da c amisa de Maria do Carmo desenhou-se larga faixa rubra. Por um lado era uma felicidade o peque no ter morrido. ao lado da afilhada. envolvido. Um caiporismo! Tantos c uidados. Sente-se. O amanuense resolveu não chamar médico que era uma asneir a. E em pé. a parteira. esbatendo ao fundo do quarto o perfil do recém-nascido. a um canto do quarto. porque isso de filho natural sempre dava que falar às más línguas e até podia-se descobrir a verdade . roxo. em camisa. A parturiente adormecera profundamente. Sente-se. como uma bandeira de guerra desdobr ada. e. a rapariga soltava gemidos estrangulados. em panos. Calma! calam! bradou estacando à porta do quarto. Passou-se a noite às voltas. repetia a outra. com um fio de sangue a escorrer-lhe do nariz. afinal de contas. com a cabeça arqueada para trás. rios de sangue jorraram aos pés da parteira. d olhos fechado. tanta aflição. Houve uma confusão extrema. Minha filha! fez a tia Joaquina. imediatamente. por amor de Deus! suplicava a parteira. e. pensativo. como a queda de um balão de barro úmido.A NORMALISTA Page 94 of 96 ge 94 of 96 Que é isso.

com. com o rosto voltado para a parede.biblio..br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. o tronco repousand o sobre chumaços de pano onde brilhavam manchas de sangue.. Cerca de onze horas moveu-se devagar. vozes aguardentadas. sapateados que estremeciam o chão. Maria ressonava docemente. abrindo os olhos e soerguendo-se . como quem acorda de um pesadelo.o da noite ecoava um alarido medonho. filha! Pois queria tu que escapasse? E em tom lamentoso: http://www. Queria alguma coisa? perguntou João. mas faltaram-lhe as forças e repousou novamente. Onde está meu filho? Não te lembres d isto agora.htm 23/12/2012 . vê se descansas. d esafios ao som d uma viola cansada. Mas onde puseram ele? está vivo? Qual vivo. cantos.

adorá-lo. mas era seu filho. E ao mirar o rosto lívido da criança.. sentindo crescer dentro de si. livre das misérias d este mundo. A criança está morta. abalando todo o seu ser.. deixe-me vê-lo. antes do sol nascer. ao menos está no céu.... Porque não me disseram logo? Já te pões a chorar! Maria do Carmo soluçava com desespero. os médicos recomendam toda a calma. " O que era?.. . Ela que desejou ver o filho. Vejam a vela. que rolaram vagarosas nas suas f aces magras. c omo depois d um trabalho penoso.A NORMALISTA Page 95 of 96 ge 95 of 96 Coitado. Pararam ao pé de um grande cajueiro. Maria não se conteve: repuxou o lençol. murmurou numa voz entrecortada de soluços: Pobrezinho! ." Nada. que ficava defronte da casa.. Até p ode lhe fazer mal. e. sem dar palavra.. nivelou o terreno com os pés e suspirou com força. como se l he tivessem arrancado um pedaço do corpo. por favor. esse inestimável desgosto que as mães sentem ao verem o filho morto.. Mau! mau! tornou João. nascido em suas entranhas. pediu Maria. com os olhos cheios d água. que se há de fazer? Continuavam os soluços.. com pouco. João acompanhou-o taciturno. E. tia Joaquina. Quero ver meu filho. Ela que desejava tan to criá-lo. mestre Cosme foi ao fundo do sítio cavar uma sepultura para o pequenino cadáver. Não pense nisto agora. como um sopro violent o e devastador. o filete de sangue escorrendo do nariz como um veio de rubim. a rapariga sentiu um calafrio e um grande vácuo no peito. João assistiu em pé. e. imediatamente. foi buscar o cadáver do filho. Que tolice! fez João agasalhando-a melhor.. Uma imprudência. mãos p ra trás. criatura. envolvida numa larga coberta de chita feita de retalhos. no íntimo de s eu coração. No dia seguinte. explicou João. Era um filho natural. que era o seu próprio sangue. um choro estugado. amá-lo.. Mestre Cosme socou bem a areia. a sua própria vida. Tia Joaquina apareceu. depondo-o carinhosamente sobre os joelhos. carn e de sua carne. interrompido por um tossezinha convulsa .. avassalandoa. com toda a força do seu coração!. Quero vê-lo. olhos cravados na terra. sangue do seu sangue. as primeiras de sua vida. o amanuense viu sumir-se debaixo da terra o corpo do seu primeiro fil ho.. toda sua delicada alma de mulher. como duas linhas cristalinas na aspereza tosca d uma rocha. havia de amá-lo muito. os bracinhos rechonchudos. E entrou a soluçar outra vez de um modo tão penoso e comovente que João da Mata não pode recalcar duas lágrimas. amamentá-lo com o seu leite. pediu aflita.

dividido metodicamente em educação fís ica. quando Maria do Carmo apresentou-se na Escola Normal o curso interrompido.. Bem.Pronto! fez o velho pousando a enxada no ombro. sobre a v erde monotonia do campo.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. educação http://www. murmurou João. " A Maria do Carmo. Até o edifício tinha-se o para recebê-la. como um toque de alvorada! Tinha-se calado o samba havia pouco. para concluir felicidade no o Houve um alarido ent pintado de novo com O programa era outro. No alto de um coqueiro que farfalhava à beira do cercado . beijos. estava nédia e desenvolta. e as notas límpidas do seu canto vibravam demoradamente na transparência do ar. hein? Nem parecia a mesma!" re as normalistas: abraços. muito corada. calados e graves.htm 23/12/2012 . A sua presença foi uma ressurreição. mais amplo. Meses depois. mais extenso. com uma estranha chama de lhar.com. Seriam seis horas da manhã.. E seguiram por entre as ateiras.biblio. cochichos. cantava uma gralha.

o horário das aulas tinha sido alterado. e que o imperador não dera uma p alavra ao saber dos acontecimentos em Petrópolis. Spencer e Pestalozzi. Os canhões La Hitte. esmurrando a mesa. é o cúmulo da ignorância e da selvageria! E Maria do Carmo. Ninguém se lembrava dos escândalos domésticos nem de pequeninos fatos particulares. guardados por alunos de patrona e gola azul. uma nação de selvagens! Expulsar do trono um Monarca da força de D. dormiam enfileirados na praça dos Mártires. def ronte do Passeio Público. Lia-se na seção teleg ráfica da Província as primeiras notícias sobre a proclamação da república brasileira. como um grande mar tranqüilo e dormente. educação religiosa. Tratava-se de depor o presidente da província a um cor onel do exército.A NORMALISTA Page 96 of 96 ge 96 of 96 intelectual. Um homem revoltava-se. da polícia. estava tudo mudado! A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a cidade.. pelo moldes de H. via diante de si um futuro largo.htm 23/12/2012 . Pedro II. mandá-lo para o est rangeiro doente e quase louco. imensamente luminoso. da fortaleza de N. indignado com o novo estado de coisas era João da Mata. ouviam-se toques de corneta no batalhão e na Escola Militar.com. Dizia-se que o barão de La dário tinha sido morto à pistola por um oficial de linha. na Praça da Aclamação. Grupos de militares cruzavam as ruas. agora noiva do alferes Coutinho.. d Assunção.biblio. É boa! bradava ele na Bodega do Zé Gato. educação nacional ou cívica. http://www.br/conteudo/AdolfoCaminha/anormalista. Isto é um país sem dignidade .S. havia uma escola anexa de aplicação. O Ceará estremecia a esses boatos.

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