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Corporativismo e matizes Fábio Wanderley Reis

A reflexão sobre os processos sociais da modernidade há muito inclui de maneira saliente o tema da “massificação” e da conformação da “sociedade de massas”. O exame do tema se fez sobretudo por referência ao processo de urbanização, visto como envolvendo, para muita gente, a ruptura dos vínculos com as comunidades tradicionais e do suporte social e psicológico daí resultante. A consequência seriam as "multidões solitárias” das cidades, a desorganização social e distúrbios sociopsicológicos vários, com perda do sentido da identidade pessoal, anomia e confusão de valores. A teoria da sociedade de massas elaborada sobre esse pano de fundo, preocupada com os desdobramentos políticos da massificação, destacava a importância de que os laços comunitários de tipo tradicional, agora comprometidos, viessem a ser substituídos pela participação dos indivíduos em grupos “funcionais” e voluntários de natureza diversa, que pudessem situar-se como intermediários nas relações entre os indivíduos e o Estado. Solapada a sociedade comunal, a sociedade pluralista surgiria, naquilo que alguns estudiosos conservadores chamaram “a busca da comunidade”, como a boa resposta à massificação e aos riscos de seu eventual desdobramento na sociedade totalitária, em que a dispersão e o isolamento dos indivíduos tornariam possível o excessivo fortalecimento do Estado. Dois aspectos podem ser destacados quanto à idéia desse “escudo” pluralista. De um lado, entre os grupos intermediários adquiriam importância especial os de natureza ocupacional, tendo em vista sua conexão com a produção das próprias condições materiais de vida e com a inserção das pessoas na divisão social do trabalho, além do caráter normalmente duradouro dessa inserção e sua relevância, assim, para o sentido da identidade pessoal. De outro lado, como efeito da natureza mesma dos fatores que os tornavam importantes, os grupos ou categorias ocupacionais vinham a ser pontos de referência cruciais para a atividade política, como substrato quer da percepção
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de interesses a serem promovidos, quer da conversão em termos políticos, ou político-partidários, da solução dada ao problema de identidade criado pela sociedade de massas. Apesar dos enfrentamentos e turbulências que marcaram certos momentos do processo geral, este acabou, nos países em que se achava mais avançado, por acomodar o ideal pluralista na organicidade da socialdemocracia. Ocorre que um aspecto saliente dessa acomodação se teve no condomínio de identidades e interesses ocupacionais diversos em articulação com o Estado em estruturas corporativas. “Corporativismo” foi durante muito tempo um rótulo intensamente negativo, ligado ao fascismo e assinalando por si só, em países como o Brasil, a suposta presença de importante déficit de democracia, a contrastar com a idéia de pluralismo democrático. Com isso se tornava inaceitável a descoberta, a certa altura, de que éramos todos (países desenvolvidos tanto quanto subdesenvolvidos) igualmente “corporativistas”, e analistas estadunidenses e europeus se apressaram a distinguir dois tipos presumidamente diferentes de corporativismo, um benigno corporativismo “social” e democrático (“neocorporativismo”) e outro “estatal” e autoritário. Mas a distinção é problemática, pois ambos os tipos articulam o Estado e organismos da sociedade civil, como corresponde à definição geral de corporativismo (apesar de que no Brasil a expressão indique também, confusamente, a atenção para os interesses estreitos de qualquer grupo); de toda forma, a distinção não redunda senão em apontar um corporativismo que anda em boas companhias – a aparelhagem democrática geral, com as garantias do cidadão, partidos independentes, imprensa livre etc. – e outro, em si mesmo não diferente, que anda em más companhias... E fica na sombra o fato de que o arranjo corporativo como tal pode representar um instrumento importante da democracia, assegurando, de maneira equilibrada, representação e voz em relevantes decisões de política econômica e social à diversidade de interesses ocupacionais, assimilados a identidades estáveis. Sem dúvida, a dinâmica corporativa produziu distorções, em particular as que decorrem do caráter informal e clandestino dos mecanismos de decisão em vários casos e da tendência a que o acesso mais precoce ao Estado por parte de determinados interesses (trabalhistas ou empresariais) se traduza em
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monopólios e na exclusão de interesses análogos. A receita implícita, porém, seria, de certo modo, mais corporativismo, com a abertura e a apropriada regulação da representação dos interesses, e não menos. Seja como for, observações como essas trazem matizes pertinentes à discussão que se retoma no Brasil de certos mecanismos de representação corporativa e ocupacional, tanto mais quando essa discussão se dá num contexto de reafirmação transnacional até há pouco incontestada de idéias liberais opostas à organicidade corporativa. A questão do desenraizamento e da massificação adquire tons especialmente dramáticos nas circunstâncias de nosso enorme fosso social, com a anomia e a violência em expansão como resultados. O crescimento econômico e a ampliação de oportunidades ocupacionais são parte óbvia e decisiva do receituário relevante. Mas haverá, quem sabe, sobretudo dado o efeito de aumento de aspirações e frustrações que o próprio crescimento tende a ter de imediato, espaço para a consideração mais aberta e flexível de aspectos institucionais afins ao tema do corporativismo. Embora certamente positiva, a proliferação dispersa de associações e ONGs não compensa os efeitos negativos, mesmo do ponto de vista do desiderato de uma sociedade civil forte e pluralista, da desarticulação no plano ocupacional.

Valor Econômico, 3/12/2007

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