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O PUDOR

DR. HAVELOCK ELLIS

DR. HAVELOCK ELLIS

O PUDOR

TRADUÇÃO E NOTAS DO

DR. ALVARO ESTON
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S. A.
RUA SETE DE SETEMBRO, 161 RIO DE JANEIRO

PREFÁCIO GERAL AOS ESTUDOS DE PSICOLOGIA SEXUAL

O comêço dos presentes Estudos data de muitos anos. Desde a juventude encontrei-me, como acontece com todos, em presença dos problemas sexuais. Vivia então na Austrália, ora na cidade, ande as formas da vida se manifestam com nitidez, ora só no mato. Podia assim, ao mesmo tempo, observar muitas coisas, e meditar a respeito delas. E pouco a pouco se formulou em mim esta resolução: consagrar a parte mais importante da minha vida á resolução dos problemas sexuais. Mais de vinte anos já decorreram. E posso dizer sinceramente que, através de todas as vicissitudes, nunca perdi de vista a minha resolução. Sempre, lentamente, trabalhei nesta questão fundamental. E há três anos, no meu livro "Man and Woman", expus o que me parecia ser como que a introdução ao estudo dos problemas fundamentais da questão sexual. Agora, que atingi enfim o momento de começar a publicação dos resultados obtidos, estes não me parecem muito consideráveis. Jovem, tinha a esperança de apresentar aos meus sucessores soluções definitivas; hoje, sentir-me-ei feliz se puder fazer algo mais do que simplesmente formulá-las. Até isto me parece muito, pois formular o problema é vencer meio caminho do conhecimento. Neste domínio particular, o mal que a ignorância causa é aumentado pelos nossos esforços em suprimir tudo o que não pode ser suprimido, esforços que, em todo caso, deformam. Tentei pelo menos descrever os fatos, tanto nos seres normais, como nos anormais, papel que pertence sem dúvida ao médico, o qual, entretanto, em geral, só lida com fatos normais, que, por consequência, pouco esclarecem. Pus-me á cata dos fatos e, alcançando-os, procurei considerá-los com simplicidade e sinceridade. Se não chego a abrir a fechadura, contribuo, pelo menos, com a única chave que lhe convém: a franqueza. É a minha única panacéia: a franqueza.

Sei que muitos dos nossos amigos preferem outra palavra: a reticência. É um erro, dizem eles, tentar levantar o véu dessas coisas; deixem agir os instintos sexuais, deixem-nos desenvolver-se, integralmente. Mas é precisamente o que não fazemos, e nunca haveremos de fazer. Há muito poucos homens e mulheres, adultos, capazes de descrever claramente os fatos que lhes urdiram a vida e de afirmar, com toda a franqueza, que os seus instintos sexuais se desenvolveram fácil e integralmente. E não é fácil verificar porque, isto não se dá. Transportem os meus amigos as suas sensações e teorias do domínio da reprodução para o domínio da nutrição, o único a que pode ser comparado, quanto á sua importância. Suponham que se não falasse nunca abertamente de comer e beber, a não ser em linguagem figurada e poética, e que ninguém comesse em público, porque seria considerado imoral e impudico levantar o véu dos mistérios desta função natural. Sabemos o que aconteceria... Grande parte da comunidade, e sobretudo os moços, impelidos por curiosidade instintiva e legitima concentrariam os pensamentos neste assunto. Haveria tantos problemas a resolver! Quantas vezes posso comer? Que devo comer? Será mal comer um fruto de que gosto? Devo comer ervas, de que não gosto? Apesar do instinto, só uma pequena minoria conseguiria comer de modo razoável e satisfatório. O segredo da vida sexual é muito mais desastroso do que o seria o segredo nutritivo, em parte porque empregamos quantidade considerável de energia moral para a dirigir, bem ou mal; em parte porque a impulsão sexual se desenvolve normalmente ao mesmo tempo que a impulsão intelectual, mas não no começo da vida, quando poderiam ser adquiridos hábitos instintivos úteis. E há sempre algum amigo ignorante e desassisado pronto para complicar ainda mais as coisas. Coma de tal prato dia sim, dia não! Coma doze pratos per dia! Não coma nunca frutas! Coma sempre verduras! Os conselhos dados em matéria sexual não são, em geral, menos absurdos. É certo que quando existe a livre escolha, os problemas da nutrição

não ficam, sem dúvida, completamente resolvidos; mas cada um pode, com auxílio dos companheiros, obter uma solução que convenha ao seu caso pessoal. E quando o segredo desaparece, toda reticência contra o que é são e natural se torna, desde logo, impossível. Nem sempre foi este segredo guardado. Quando a Igreja Católica chegou ao apogeu do poder e da influência, compreendeu plenamente o alcance dos problemas sexuais e interessou-se, de modo ativo e preciso, por todos os pormenores da sensualidade normal e anormal. Mesmo hoje, há fenômenos de ordem sexual, cujas descrições exatas quase que só se encontram em tratados teológicos. Como tipo desses tratados citarei o grasso volume de Sanchez, "De Matrimônio". Aí se acha analisada toda a vida sexual do homem e da mulher em sua relação com o pecado. Tudo é dito, com toda a clareza e concisão possíveis, sem recatos ridículos ou sentimentalidade mórbida, numa linguagem de rigor científico; a consequência verdadeira dos atos está indicada em todos os casos que possam apresentar-se, e explica-se-nos o que é pecado venial, o que é pecado mortal e o que é permitido. Ora, julgo que as questões sexuais não são da alçada exclusiva dos teólogos, e, mais ainda, nego que sejam eles competentes no assunto. Nas suas mãos, essas questões se tornam excitantes, por vezes, porque é difícil evitara tendência anti-natural do ascetismo e submetê-las á luz crua da ciência. Mas devemos reconhecer o cuidado com que os teólogos católicos falaram dessas coisas, como se expressaram razoavelmente e com que espírito de admirável franqueza tentaram descobrir-lhes a explicação. Cumpre-nos hoje aplicar esse mesmo espírito e esse mesmo temperamento, colocando-nos em outro ponto de vista. Todos estão interessados nessas questões, tanto o fisiologista ou o psicólogo como o moralista. Temos de entrar na posse de fatos exatos de onde partir para determinar o que é justo e o que é falso para a fisiologia, a psicologia e a ética. Queremos saber o que é naturalmente permitido nas contingências diversas da vida sexual do

homem, olhado não como um ser contaminado pelo pecado original, mas como um animal social; queremos distinguir o pecado venial do pecado mortal contra a natureza. As respostas serão menos fáceis de formular do que o são para os teólogos; mas ao menos nos será possível adotar a atitude conveniente. Talvez ande errado em mostrar tão cruamente desde o começo que não me ocupo sem tendência moral do que pareceria um problema unicamente psicológico; mas não quero deixar subsistir nenhuma indecisão. Encaro a sexualidade como o problema central da vida. E como o problema religioso ficou Praticamente resolvido, como o problema do trabalho está pelo menos assentado sobre um fundamento prático, resta ás gerações futuras, conto problema principal a resolver, o problema sexual, com as questões de raça que a êle se prendem. A sexualidade está na própria raiz da vida e não honraremos a vida senão na medida em que soubermos compreender a sexualidade. Essa, pelo Menos, é a minha opinião. Apresentarei, portanto, ao leitor os resultados das minhas pesquisas á luz fria e crua que é a única que permite ver na sua realidade a meta do conhecimento.

HAVELOCK ELLIS Julho, 1895.

PREFÁCIO DA EDIÇÃO FRANCESA

A primeira edição completa deste volume apareceu em Filadélfia, em 1899. A que apresento hoje ao público difere consideravelmente dela, tanto a respeito da documentação como da discussão dos pontos de detalhe teórico. Mas a minha atitude e conclusões essenciais permaneceram as mesmas.
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Sinto-me no dever de agradecer aqui, pela sua tradução, ao Sr. A. von Gennep, Diretor da "Revue d'Ethnographie et. De Sociologie". HAVELOCK ELLIS Corbis Bay — Junho, 1908.

PREFACIO DO PRIMEIRO VOLUME

O presente volume encerra três Estudos que me parecem ser os prolegômenos necessários para a análise aprofundada da sexualidade, fenômeno que constitui o próprio núcleo de minhas pesquisas. O primeiro esboça os traços gerais de um estado emocional complexo que apresenta importância capital na psicologia sexual; o segundo, pelo aproveitamento de documentos provenientes de regiões mui diversas, contém uma tentativa de explicação de fatos até agora mal conhecidos; o terceiro aconselha suspender o nosso juízo e adotar atitude prudente em domínios que acreditávamos conhecer bem. Cada um desses estudos forma um todo. Como introdução a uma análise mais compreensiva dos fenômenos sexuais, apresentam, sob vários dos seus aspectos, um fator por demais ignorado, embora de primeira importância para inteligência exata dos fatos sexuais: a tendência da impulsão sexual pára se manifestar de maneira espontânea e, até certo ponto, periódica, e isso mais na mulher do que no homem. É essa uma tendência que conto tornar mais visível ainda ulteriormente, por causa dos seus efeitos tanto práticos e sociais como psicológicos. Aqui — e sobretudo no estudo consagrado ao auto-erotismo —, tentei aplanar o terreno e indicar as grandes linhas segundo as quais será mais fácil chegar a um conhecimento cada vez mais aprofundado desses fenômenos.
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Muitos médicos, sem dúvida, admirar-se-ão, lendo o terceiro estudo, de eu me ocupar pouco, e isso mesmo incidentemente, de tratamentos e prevenção. Esta omissão é propositada. Pode-se assegurar que não existe domínio da atividade humana onde tenha reinado tão violentamente um moralismo didático fundado sobre base

real muito frágil. Na maioria dos outros domínios, constatase ao menos o desígnio de aprender a lição dos fatos antes de querer ensinar; no domínio sexual, contentam-se com um mínimo de informações, das mais vagas, muitas vezes de segunda mão e em geral indignas de confiança. Quero insistir nisto: antes de poder, com segurança, sequer falar em tratar ou prevenir as manifestações de ordem sexual, cumpre-nos saber muitíssimo mais do que sabemos neste momento, sobre a sua distribuição, etiologia e sintomatologia; e devemos considerá-las, com a mesma serenidade e com a mesma prudência — se queremos que a nossa obra seja fecunda — como se se tratasse de fatos pertencendo a qualquer outro, domínio científico. Devemos, relativamente a essas manifestações, tomar não somente a atitude do médico, sem dúvida, mas também a do psicólogo, que estuda esses fenômenos tais como se apresentam em indivíduos sãos e normais. Um juiz da câmara dos divórcios que escrevesse um tratado sobre o casamento far-nos-ia rir; ora é igualmente absurdo que um médico, cujos conhecimentos se limitem ás doenças, escreva sobre a sexualidade em geral. Fosse qual fosse o valor que pudessem apresentar os fatos por ele expostos, esses fatos não poderiam servir de base para uma generalização. E parece-me que já possuímos bastantes descrições de perversões sexuais brutais, fornecidas pelo asilo ou o bordel. Só são instrutivas quando as deixamos no seu verdadeiro plano, como elementos raros e extremos de toda uma série de fenômenos, que será mais útil estudar sob a sua forma ordinária. Entretanto, embora estejamos cercados de todos os lados pelas manifestações normais da sexualidade, tanto conscientes como inconscientes, essas manifestações são muito difíceis de investigar; e nos casos em que a observação é mais fácil, acontece muitas vezes que não podemos fazer uso dos nossos conhecimentos. Além disso, mesmo quando conhecidos os fatos, restam, pelo menos para um inglês, dificuldades a vencer: pode-se, por exemplo, estar antecipadamente certo de que um estudo

sério e preciso do instinto sexual não encontrará a aprovação geral; a obra será mal compreendida; criticarão os motivos; e o autor só encontrará indiferença entre aqueles mesmos para os quais especialmente escreveu. Certo, neste domínio poderá julgar-se feliz o primeiro que não esbarrar com coisa pior que a indiferença. Eis a razão por que este volume não foi publicado na Inglaterra, e sim nos Estados-Unidos, onde, pela menos, contava com simpatias generosas e podia agir sobre um público numeroso, não só entre os homens de ciência em geral, como entre os médicos. Em matéria de fé, "a liberdade de profetizar" foi, há séculos, reclamada eloquentemente pelos ingleses; mas a liberdade das pesquisas científicas não foi ainda absolutamente conseguida, sob um pretexto ou outra; e entregar-se ao estudo dos problemas fundamentais da existência é ainda, na Inglaterra, empresa temerária. Sinto-me no dever de agradecer aos numerosos amigos e correspondentes, vivendo alguns bastante longe, que me auxiliaram na obra, comunicando-me informes e narrativas pessoais; minha divida é reconhecida com precisão em nota ou no texto. E principalmente sinto-me no dever de agradecer a inúmeras damas a bondade que tiveram, comunicando-me recordações pessoais, e submetendo-se aos meus inquéritos de controle. Direi, desde já, repeti-lo-ei nos volumes ulteriores mais pormenorizadamente, que, sem o auxílio que me deram damas de clara inteligência e firme caráter, a minha obra teria sido impossível; e lamento não poder agradecer-lhes mais significativamente. HAVELOCK ELLIS Carbis Bay. — Lelant. Cornouailles. Inglaterra.

O PUDOR

I

Definição do pudor — Significação do pudor — Dificuldades da análise da noção de pudor — As diversas manifestações do pudor nos diferentes povos e em várias épocas.

O pudor pode ser definido provisoriamente como um temor quase instintivo (que leva o indivíduo a se ocultar, e está ordinariamente em relação direta com os processos sexuais. É comum aos dois sexos, porém mais acentuado no sexo feminino, de sorte que pode ser encarado como o caráter secundário principal das mulheres sob o ponto de vista psicológico. A mulher que não apresenta esta espécie de temor não atrai sexualmente o homem normal e médio. As exceções aparentes parecem confirmar esta regra. Pois verifica-se geralmente que as mulheres que são, não impudicas (a impudicícia está mais aproximada do pudor que a ausência completa de todo pudor), mas destituídas desse temor, que a existência de uma organização emocional complexa digna de proteção impõe, só influem sexualmente com alguma força nos homens que não apresentam qualidades masculinas correspondentes. Como caráter sexual secundário de ordem psíquica de primeiro grau, o pudor deve ser nitidamente definido antes que o possa ser a psicologia sexual. A ação poderosa que o pudor exerce sobre a gênese da paixão masculina é evidente. Entretanto citarei as observações de dois escritores cuja opinião apresenta algum valor nesta matéria. Casanova conta como, encontrando-se em Berne, foi numa casa de banhos servido por uma moça que, conforme o costume, ele escolhera entre as empregadas do

estabelecimento. Ela despiu-o, despiu-se também, entrou na banheira com ele e esfregou-o cuidadosamente, muito séria e sem pronunciar palavra. Terminado o banho, constatou Casanova que a moça esperava tentativas amorosas por parte dele. E descrevendo a sua indiferença naquele momento, observa: "Ainda que sem me demorar num exame das formas dessa rapariga, vi o bastante para reconhecer que tinha tudo o que um homem pode desejar encontrar numa mulher belo rosto, olhos vivos e rasgados, linda boca primorosamente guarnecida, uma tez sadia, seio bem arredondado, quadris amplos, pronunciados, e o resto no mesmo diapasão. É verdade que sentira que as mãos teriam podido ser mais macias; mas só podia atribuir a aspereza ao trabalho. Além disso, a minha suíça tinha apenas dezoito anos; e no entanto fiquei frio. Qual o motivo? Era a pergunta que a mim mesmo fazia".1 "É claro, escrevia Stendhal, que três quartas partes do pudor são coisa aprendida. É talvez a única lei, filha da civilização, que não produz senão felicidade. Observam que as aves de rapina se ocultam para beber; é que, obrigadas a mergulhar a cabeça na água, ficam sem defesa nesse momento. Depois de ter considerado o que se passa em Taiti, não vejo outra base natural para o pudor. O amor é o milagre da civilização. Só se encontra amor físico, e dos mais grosseiros, entre os povos selvagens ou demasiado bárbaros. E o pudor empresta ao amor o auxílio da imaginação; é dar-lhe a vida. O pudor é cedo ensinado ás meninas pelas mães, e com zelo extremo, dir-se-ia que por espírito de solidariedade; é que as mulheres cuidam antecipadamente da felicidade do amante que terão. Para uma mulher tímida e terna, não haverá suplício pior que o haver ousado, em presença de um homem, praticar qualquer ato de que tenha de corar; estou convencido de que uma mulher um pouco altiva preferiria a morte, mil vezes. Uma leve liberdade tomada pelo homem amado dá um momento de prazer vivo; se ele tem o ar de a censurar ou mesmo de não gozar com transporte, essa liberdade deve deixar na alma uma dúvida terrível. Para uma mulher

acima do vulgar, há tudo a ganhar em guardar maneiras muito recatadas. O jogo não é igual; ela arrisca, por um pequeno prazer, ou pela vantagem de parecer um pouco amável, o perigo de um remorso amargo e de um sentimento de vergonha que deve mesmo tornar, menos querido, o amante. Uma noite passada alegremente, irrefletidamente e sem pensar em nada, sai cara, por tal preço. A vista de um amante com o qual se receia ter tido esse gênero de leviandades deve tornar-se odiosa, durante muitos dias. Podemos admirar-nos da força de um hábito cujas infrações mais leves são punidas pela vergonha mais atroz? Quanto á utilidade do pudor, basta dizer que é o pai do amor; não se lhe poderia contestar mais nada. Para o mecanismo do sentimento, nada mais simples; a alma ocupa-se em ter vergonha em vez de se ocupar em desejar; interdizem-se os desejos, e os desejos conduzem ás ações. É evidente que toda mulher terna e altiva, e essas duas coisas, sendo causa e efeito, dificilmente andam separadas, deve contrair hábitos de frieza que as pessoas por elas desconcertadas chamam afetação de recato... O império do pudor é tal que uma mulher terna chega a trair-se com o amante, antes por fatos do que por palavras... A única coisa que julgo censurável no pudor é levar ao hábito de mentir".2 Uma prova interessante do papel importante que desempenha o pudor na união dos sexos é este fato, muitas vezes citado, que o pudor especial das mulheres tende a desaparecer em geral no momento da satisfação completa da impulsão sexual. Isto é verdadeiro tanto para os semi-civilizados, como para os civilizados, e Viazzi3, segundo Sergi, é de opinião que os homens são sempre mais pudicos do que as mulheres; mas os fatos que cita, se bem que muitas vezes exatos, não autorizam tal conclusão. Se a virgem moça, entretanto, é mais modesta e mais tímida que o rapaz da mesma idade, a mulher casada, pelo contrário, o é em geral menos que o marido4; e os pudores não existem para as mães.5 De fato, a mulher rejeita uma veste que agora lhe é inútil, e até seria incômoda e

prejudicial, da mesma maneira que um pássaro perde a plumagem sexual uma vez passada a estação dos amores 6. E Mme. C. Renooz diz também que o pudor não é um caráter essencialmente feminino7. Para demonstrar a sua opinião, a autora observa que o decote se encontra sempre no vestuário feminino, e nunca no masculino; que os missionários experimentam grandes dificuldades em persuadir as mulheres a cobrirem-se; que as mulheres se deixam com facilidade examinar pelos médicos, ao passo que os homens não o querem ser pelas médicas, etc. Esses argumentos e outros semelhantes já tinham sido propostos por Sergi.8 Não se poderá dizer que todos os argumentos de lime. Renooz resistam ao exame: mas o seu ponto de vista não é bastante admitido, em geral, embora contenha uma parte de verdade; aliás, trata-se apenas de um dos elementos do complicado problema de que nos ocupamos. Os fatos inúmeros que se apresentam no curso de um estudo sobre o pudor não podem ser postos de lado sob protesto de artificialidade imposta. Ganham, pelo contrário, mais do que perdem em importância se constatamos que o recato durante o namoro acarreta nas mulheres a supressão temporária de outro instinto orgânico, contrário, embora aparentado. A importância desta pesquisa aumenta, se recordarmos que o recato exigido pelo pudor sexual, apurou e desenvolveu, com o seu progresso, expansão e complexidade, as emoções sexuais —"o pudor civilizou o amor", diz Guyau — e fez o instinto sexual desempenhar papel considerável na evolução de toda a civilização humana. Stanley Hall e Allin observam: "É certo que o que há de melhor na religião, na arte e na vida vem da irradiação progressiva do sentimento sexual. Sem dúvida, a repugnância da fêmea exacerbou primitivamente as sensações agradáveis ligadas aos órgãos sexuais e

contribuiu para as momices do cortejamento9 animal e humano. Ao passo que o recato teve por função fisiológica desenvolver as cores, as plumas, a atividade exagerada e a exuberância de vida durante a estação do amor. O fato de cobrir certas partes do corpo irradiou o sentido da beleza para os olhos, a cabeleira, o rosto, a estatura, o vestuário, a forma, etc.; e o número de dansas, de costumes e de gestos são, nos semi-civilizados, irradiações do ato sexual. Assim a recusa e a castidade são condições de primeira ordem da religião e da civilização".10 Groos11 atribui a maior violência do amor nos pássaros ao fato de o macho procurar vencer a recusa da fêmea, mostrando-lhe as próprias belezas e habilidade. "E na humanidade o mesmo acontece", diz êle. "Sem a reserva pudica da mulher, que em muitos casos deve ser vencida por qualidades amáveis, as relações sexuais teriam dificuldade de encontrar um poeta para incorporar ao amor os movimentos mais elevados da alma humana." É exato, como disse Stendhal, que o pudor é em grande parte "aprendido". Desde os primeiros anos, a menina aprende a mostrar um pudor que dentro de pouco tempo fica reduzido á metade. Isto impressiona quem quer que leia a história de pseudo-hermafroditas, isto é, de homens educados desde a infância na idéia de que eram meninas e que revelaram e experimentaram o recato e o pudor do sexo oposto. Mas reconhecido o erro e reintegrados no verdadeiro sexo, dá-se neles uma mudança radical de modos; e mostram então toda a audácia da masculinidade12. Não pude, entretanto, descobrir que o pudor tenha sido objeto de um estudo algo compreensivo por parte dos psicólogos. Ainda que os fisiologistas, os psicólogos e os etnógrafos tenham feito conhecer fatos importantes e expressado teorias interessantes sobre as emoções sexuais, a aversão, as origens da tatuagem, a ornamentação, o vestuário, todavia esses fatos só raramente foram utilizados do ponto de vista de uma

síntese geral. Sem dúvida, numerosos são os esforços isolados ou incompletos que foram tentados para determinar a essência ou a base dessa emoção. Vários psicólogos encararam simplesmente o pudor como a consequência do vestuário. Mas esta opinião é refutada pelo fato bem estabelecido de que muitos povos que andam inteiramente nus possuem um senso muito desenvolvido de pudor. Esses teóricos não tomaram em consideração que o pudor fisiológico aparece antes da pudor anatômico. Uma contribuição parcial á análise do pudor é devida ao professor James que, com a sua peculiar acuidade de visão, definiu vários dos seus caracteres, notadamente o elemento devido á "aplicação a nós mesmos de juízos primitivamente dispensados aos nossos camaradas". Depois Westermarck, seguido por Grosse, definiu mui claramente certos fatores da gênese da ornamentação e do vestuário, que muitos sábios acreditam constituir todo o domínio do pudor. Mais recentemente, Ribot descreveu muito vagamente vários fatores do pudor, e sem apresentar um apanhado coerente das suas origens e relações. Notemos ainda que Guyau tinha, na Irréligion de l'Avenir (cap. VII) compreendido a importância considerável do pudor, e expressado algumas palavras a respeito dos principais elementos. Depois da primeira edição do presente livro, Hohenemser, que julga insuficiente a minha análise do pudor, tentou definir o mecanismo psicológico do pejo. 13 Encara o pejo (Scham) como um fenômeno psico-físico geral, como "uma tensão definida de toda a alma" á qual se acrescenta uma emoção. "O estado de pejo consiste numa certa fadiga psíquica ou inibição", ás ,vezes acompanhada dos fenômenos físicos de paralisia, como de abaixar a cabeça ou não poder sustentar o olhar. É um caso especial da estase psíquica de Lipps, que se produz sempre que as atividades psíquicas tendem ao mesmo tempo para duas ou mais direções diferentes. Há sempre no pejo alguma coisa presente na consciência que entra em conflito com o

resto da personalidade e não pode ser harmonizada com ela, isto é, não pode ser introduzida numa relação moral (não relação lógica) com toda a personalidade. Um rapaz apaixonado fica "envergonhado" quando lhe dizem que aspa, porque o respeito por alguém que ele encara como superior não pode ser posto em relação com a sua própria personalidade, que julga inferior. Da mesma forma, uma criança sente vergonha ao aproximar-se de uma pessoa grande, que lhe parece ser um ente superior. As vezes ainda sentimos vergonha ao nos aproximarmos de um estranho, porque uma pessoa desconhecida aparece facilmente como superior a nós e mais interessante. Não se dá o mesmo, em face de um fenômeno natural novo, porque não o comparamos a nós mesmos. Outra sorte de pejo se constata no caso em que essa discussão mental fica abaixo da nossa personalidade e por conseguinte entra em conflito com ela, como quando temos vergonha de pensamentos sexuais. As idéias sexuais tendem a causar vergonha, observa Hohenemser, porque tendem facilmente a se transformar em sentimentos sexuais; senão, como por exemplo nas discussões científicas, não a provocam. Vê-se que, para uma determinação do que é pudor, toda a exposição de Hohenemser é demasiado abstrata e geral; só trata do mecanismo formal do processo. Hohenemser admite que o medo seja uma forma de estase psíquica, e eu procurei demonstrar que o pudor é um complexo de medos. Pode-se muito bem admitir a teoria da estase psíquica como teoria inicial; mas para uma análise do pudor, cumpre ir mais longe. A análise do pudor é complicada pela dificuldade inelutável que se apresenta de excluir as emoções conexas, tais como a vergonha, a timidez, o recato, a modéstia, que, todas, seja qual for a maneira por que as definamos, se prendem ao pudor14. Não é, no entanto, impossível isolar o verdadeiro núcleo da emoção chamada pudor, levando em consideração a sua conexão especial com a consciência inteira do sexo. Tentarei primeiramente esboçar uma

análise tão completa quão possível, e determinar-lhe a evolução. Neste ponto ser-nos-á de grande auxílio o estudo das diversas formas que toma o pudor, tais corno nos apresentam grande número de documentos, de que citarei apenas os mais típicos. Os indígenas das ilhas Salomão, que desconhecem as louças e os tecidos, têm, quando se refere á decência, "as mesmas opiniões que nós a respeito de atos que não devem ser praticados e partes do corpo que não devem ser mostradas", de maneira que é difícil caber se praticam ou não a "circuncisão"15. Os da ilha de Nias16, na Indonésia, são "naturalmente pudicos"; não prestam a menor atenção nem á própria nudez nem á alheia e reprovam vivamente todo ato que vá além dos limites impostos pelo costume. Passando perto de um lugar em que há mulheres tomando banho, os homens falam alto com o fim de adverti-las, e ainda que os rapazes não tenham receio de falar ás mulheres e estas de lhes responder, entretanto não se aproximam; qualquer ato deste gênero seria severamente punido pelo chefe da aldeia17. Man diz, referindo-se aos Andamaneses, que, a respeito de pudor e decência, são superiores a muitos civilizados: "As mulheres são tão pudicas que não mudam os aventais de folhagem em presença umas das outras; para isso vão a um lugar retirado. E mesmo ao dar como presente a uma, amiga um dos seus bod (espécie de faixa de folhagem presa á cintura), têm, ao desatá-lo em presença de outrem, um modo que lembra a afetação de recato; no entanto não usam vestes no sentido comum da palavra."18 Salvo faixas para os seios e a cabeça, colares e braceletes, e mais uma faixa para o pubis ou uma concha, os Australianos do centro andam nus19. E Stirling diz a respeito desses mesmos Australianos: "Os homens não demonstraram nenhum sentimento de pudor ao retirar os pequeninos objetos que lhes servem, por convenção, de vestuário; tiravam-nos publicamente e os trocavam por outros objetos

sem a menor hesitação. Entretanto foi preciso discutir algum tempo para os persuadir a consentir que examinássemos os efeitos causados no penis pela subincisão, exame que só permitiram depois de ter ordenado ás mulheres e ás crianças que se afastassem. Quanto ás mulheres, observamos que, enquanto se encontravam no acampamento, a atitude delas, embora estivessem nuas, e principalmente se eram moças, exprimia: nitidamente sentimento de pudor, se assim se pode chamar a consciência da nudez. Para fotografar um grupo de mulheres jovens, tínhamos dificuldade em fazê-las retirar os poucos objetos que lhes serviam de vestuário, coisa que só faziam em lugar retirado; mas, uma vez nuas, não se recusavam absolutamente a deixar-se fotografar." 20 Os indígenas do Queensland do norte usam bolsas falocriptas de conchas ou de pele de sarigueia; os dois sexos entretanto não cobrem as partes sexuais senão no decorrer das cerimônias ou na proximidade das residências dos Brancos. 21 A. C. Haddon assim se expressa a respeito das tribus do estreito de Torres: "Outrora os homens andavam nus e as mulheres usavam um vestuário de folhagem, e entretanto eram decentes; hoje fingem recato. Nunca os homens quiseram ficar nus diante de mim; e as mulheres receavam até mostrar o peito aos Brancos; o mesmo se dá com as meninas, um pouco menos com as velhas. Entre eles, sem dúvida, são um pouco menos reservados, mas entretanto tendem a se tornar assim. Outrora, a linguagem deles era franca; hoje é muito comedida; assim os homens mostravam sempre vergonha quando lhes perguntava o nome das partes sexuais da mulher." 22 Depois da sua segunda expedição ás mesmas regiões, Haddon repete que "os homens se tornaram ridiculamente pudicos"; atribui isto á influência dos missionários, á qual estão sujeitas as próprias crianças: "Em Mabuiag, umas crianças brincavam dentro da água; um menino de dez anos repreendeu uma menina de cinco ou seis anos porque ela levantava muito o vestidinho." 23

Se bem que as mulheres da Nova-Guiné andem muito pouco vestidas, apresentam certo pudor; se, por exemplo, notam que alguém lhes repara a nudez com atenção, têm vergonha e se afastam. 24 C. Semper conta que nas ilhas Palaos o lugar em que as mulheres se banham é sagrado, e nenhum homem tem o direito de por ali passar sem ter primeiramente obtido permissão,25 "o princípio de castidade", diz Forster, que visitou a Oceânia há cerca de dois séculos, "foi por nós encontrado em diversas famílias: vi mulheres muito lindas recusar com pudor amável os oferecimentos bastante tentadores dos nossos rapazes; algumas se contentavam em dizer : "Sou casada"; outras diziam sorrindo epia, não... Essas virtuosas mulheres não mostram nenhuma emoção quando ouvem gracejos que entre nós encalistrariam até os homens. Não demonstram então estranheza ou cólera, nem alegria ou prazer; mas um sorriso modesto, cheio de dignidade, ilumina-lhes o semblante e parece repelir o galanteador demasiado livre." 27 Cook assistiu, em 1769, em Taiti, "a vésperas singulares: um jovem de cerca de seis pés de altura praticou o rito de Venus com uma menina de onze ja doze anos, na presença de alguns europeus e de grande número de indígenas, sem o menor receio de parecer indecente, e isto de conformidade com o costume local. Entre os espectadores achavam-se várias mulheres de alta categoria e que tomaram parte na cerimônia, pois deram indicações á menina sobre a maneira de se comportar, menina que, apesar dos poucos anos, parecia não ter absolutamente necessidade dos conselhos 28. Em Taiti, segundo Cook, satisfaziam-se todos os desejos e todas as paixões diante de testemunhas; e "na conversação, a fonte principal de todos os seus prazeres e o assunto preferido; todas as coisas são ditas sem restrições e em termos diretos pelos dois sexos"29. "Observei", acrescenta Cook, "que os nossos amigos dos mares do Sul não têm mesmo a idéia de indecência quanto a certos atos ou objetos, idéia

que se encontra entretanto entre os Neo-Zelandeses, que são também mais reservados de maneiras e linguagem, a propósito de atos que, entretanto, não lhes parecem mais criminosos do que ás pessoas mais bem educadas da Europa. As mulheres não eram esquivas, mas a sua maneira de ser era tão decente como, entre nós, a de pessoas casadas; e, segundo as suas idéias, a coisa era inocente. Quando um de nós fazia uma proposta a uma mulher moça, ela lhe dava a entender ser necessário o consentimento dos seus amigos, consentimento fácil de obter com o auxílio de um presente adequado. Terminados esses preliminares, era preciso tratar essa mulher de uma noite da mesma maneira que uma mulher para toda a vida; e o amante que quisesse tomar liberdades além das conveniências, podia ficar certo de ser repelido. 30 Cook notou que os Neo-Zelandeses "esticam o prepúcio por cima da glande e, afim de evitar que volte á posição primitiva, o ligam com um cordel preso ao cinto. A glande parece ser a única parte do corpo que fazem questão de esconder, pois acontece muitas vezes que rejeitam, com indiferença, todas as vestes, salvo o cinto e o cordel; mas mostraram sempre acanhamento quando lhes. pedíamos que desatassem o cordel e só aquiesciam com hesitação e pejo." As vestes de baixo, femininas "eram sempre justas no corpo, salvo quando entravam na água para apanhar lagostas, e neste caso tinham grande cuidado em não ser vistas pelos homens31." Nas Novas-Hébridas, "há um grande cuidado em ocultar o penis, não por pudor, mas para evitar Narak32, sendo mesmo a vista do penis de outro homem encarada como perigosa. Os indígenas envolvem bem o penis com tecido de algodão e outras fazendas, enrolando e dobrando o pano até fazer um embrulho enorme, do comprimento de 18 polegadas ou 2 pés (60 cm.) e diâmetro de 2 polegadas ou mais, mantido em seguida verticalmente á custa de uma faixa enfeitada com ervas, flores, etc. Os testículos ficam a descoberto33."

Nas ilhas Palaos, diz Kubary, citado por Bastian, acreditam que quando o deus Irakaderugel e sua mulher criaram a homem e a mulher, e chegaram aos órgãos sexuais, o deus quis ver a obra da mulher: esta, entretanto, não consentiu absolutamente e ocultou o que tinha feito. Depois disso, os homens andaram sempre nus e as mulheres usaram um avental de folhas de pandano.34 Os Maoris, obrigados pelo clima a se cobrirem bem, não viam nada repreensível em que as moças se pusessem nuas em público para nadar; os homens só iam para o trabalho ou para a guerra nus. 35 Em Rotuma, na Polinésia, onde as mulheres gozam de grande liberdade, mas onde, pelo menos outrora, os casais eram fiéis, "a linguagem não é casta do nosso ponto de vista, e fala-se livremente dos atos imorais. Assim um homem e sua mulher falarão dessas coisas publicamente, e mesmo gracejarão. Entretanto os comerciantes europeus me informam que há matizes na linguagem e que certas frases grosseiras nunca são dirigidas a mulheres decentes; de sorte que possuem igualmente uma espécie de pudor, mas que não podemos avaliar." 36 Existe mesmo no Queensland um vocabulário decente e um vocabulário indecente; enquanto certo nome da vulva pode ser empregado na melhor sociedade indígena, outro, com o mesmo sentido, é considerado como insultante.37 Homens e mulheres são, em Rotuma, muito asseados e banham-se duas vezes, ao dia no mar; mas usam sempre neste caso o vestuário comum que cobre o peito e o quadril; retirá-lo seria grave falta.38 Em Taiti, a nudez era por assim dizer um gesto religioso. A dansa dos funerais e a do casamento se praticavam no estado de nudez; e no dia das núpcias, a consumação do casamento se realizava publicamente.39 Outrora, em Samoa, a única vestimenta indispensável tanto aos homens como ás mulheres era um avental de

folhagem, e durante o banho um cinto de folhas ou de outro material.40 Passada a infância, nunca se vê andarem nus os índios da Guiana; para mudar de vestimenta, afastam-se para onde não possam ser vistos. As mulheres usam pequenos aventais, geralmente de contas; mas os Varraus ainda os fabricam de cascas de árvores e ás vezes sementes.41 As mulheres Mandurucús (Brasil) andam nuas, mas evitam tomar atitudes consideradas indecentes, coisa que fazem com tanta habilidade que é impossível determinar em que momento têm as regras.42 Os índios do Brasil central não têm "partes secretas". O cinto dos homens, que, muitas vezes é apenas uma corda envolvendo a parte inferior do abdomen, não oculta nada; usa-se após a puberdade e a ela prendem muitas vezes o penis afim de alongar o prepúcio. As mulheres utilizam uma faixa de fibras que segue as virilhas e passa entre as coxas. Em algumas tribus (Caraíbas, Tupi, NuArauac), as mulheres usam uma espécie de lencinho de casca triangular, feito com arte, e que termina em baixo do monte de Venus; tem a largura de alguns centímetros apenas e é denominado ulurí. Nos dois sexos, a mucosa sexual, fica escondida; mas isso não é vestuário: o fio vermelho dos Trumai, da mesma forma que o elegante ulurí e a bandeirinha de várias côres dos Bororós, chamam a atenção, como qualquer enfeite, em vez de a afastar. Von den Steinen pensa que tais objetos têm por fim preservar dos insetos, cuja picada é muitas vezes perigosa no Brasil, e que, além disso, o pudor está localizado na glande.13 Outros exploradores dizem que em algumas tribus do Amazonas os homens andam nus e as mulheres cobertas: é o caso dos Guaicurús; entre os Uaupás, ao contrário, os homens usam uma faixa e as mulheres andam nuas. "O sentimento do pudor está muito desenvolvido entre os Fueguinos, habituados a viver nus. Manifestam-no na atitude, nó desembaraço com que se mostram sem vestes,

em contraste com o acanhamento, o rubor das faces, o pejo que experimentam, homens e mulheres, se fixamos o olhar sobre certas partes do corpo, coisa que entre eles nunca praticam, mesmo se quisermos levar a observação de peio ao extremo, nas relações entre esposos. O pudor não tem nome especial entre os fueguinos, talvez porque este sentimento seja geral entre eles. Têm, todavia, palavras para designar a vergonha: por exemplo unuciú significa ter vergonha; unuci çapanata, ruborizar-se. A timidez não poderá ser considerada como pudor : os Fueguinos ignoram aquele sentimento. A frieza, a reserva em presença dos estrangeiros se prendem a uma desconfiança muito pronunciada, mas esta atitude é absolutamente independente da timidez. As mulheres usam além disso uma pequena vestimenta de pudor destinada a ocultar as partes genitais, consistindo num triângulo muito curto e estreito suspenso entre as coxas, feita de pele de guanaco, com o pêlo virado para dentro. Não tiram nunca, ou quasi nunca, essa vestimenta, que lembra exatamente, pela situação e dimensões, a folha de parreira colocada em certas estátuas; durante o ato conjugal, limitam-se a levantá-la para o abdomen. Nunca, tão pouco, essa vestimenta é lavada." 44 Entre os índios Crow de Montana, escreve o Dr. HoIder, que viveu entre eles durante muitos anos, "certo sentimento de pudor interdiz a presença de um homem por ocasião do parto, seja ele branco ou índio, médico ou não. Essa repugnância em receber os cuidados de um médico desaparece com os progressos da civilização e cumpre notar que os mestiços sempre recorrem ao médico." Uma mulher moça, depois de se ter recusado durante muito tempo, ainda que em perigo de morte, acabou por aceitar os cuidados do dr. Holder, mas depois de ter coberto os lábios vulvares e as virilhas com pedaços de fazenda, de maneira a só deixar visível o orifício. "Esse pudor não seria tão digno de reparo se não fosse o fato de, nessa tribu, quasi todas as mulheres serem prostitutas, dando-se a qualquer homem, mediante pagamento." 45

"Em todas as tribus da América do Norte, a vestimenta da mulher é mais comprida que a dos homens. Entre os Esquimós, o partia de pele de gamo e de foca vai até os joelhos; na América do Norte central, a vestimenta feminina de pele de bisão atinge os tornozelos. As mulheres da costa do Pacifico, do Oregon ao Golfo de Califórnia, usam uma vestimenta de cascas, ervas trançadas ou cordéis a que estão fixados centenas de grãos. Mesmo nas regiões tropicais, a mesma regra prevalece, e prevalecia também outrora, como o demonstram os códices pictográficos antigos." 46 Descrevendo o avental dos Nicobarianos, Man diz: "A negligência com que os homens prendem essa vestimenta, precisando reajustar a cada instante as pregas, faz pensar que o uso dela não é de rigor, mas tão só reservado para certas ocasiões, por exemplo para receber estrangeiros ou fazer-lhes visita." 47 Dalton diz das mulheres Garo de Bengala: "O seu único vestuário é um pedaço de fazenda, da largura de um pé, que se prende ás cadeiras, de maneira a não embaraçar os movimentos das pernas. Não há, por conseguinte, senão poucas posições que as raparigas possam tomar sem ferir o pudor, mas este se considera ressalvado se, quando a rapariga está sentada ou de joelhos, aperta uma perna contra a outra." 48 As mulheres Naga do Assam "não usam quase vestimentas, e entretanto demonstram quase mais verdadeira decência e pudor que nós. Ibn Mohammed Wali já tinha notado, na sua história da conquista do Assam (1662-1663), que as mulheres Naga só cobrem os seios. Declaram ser absurdo cobrir as partes do corpo que todo o mundo pôde ver desde o nascimento, mas que é mister cobrir com cuidado o que surgiu mais tarde, a saber: os seios." Dalton acrescenta que na presença de estranhos as mulheres Naga cruzara os braços no peito sem tratar de ocultar os outros encantos. Certos clans de Naga-Nus têm ainda esse costume.49 "No Ceilão, as mulheres se banham publicamente nos

rios, mas não tiram nunca todas as vestes. Lavam o corpo por partes, sob as vestes, depois põem a tanga, deixando escorregar por baixo a que está molhada. É esse um costume geral na Índia e na Malásia. Os seios estão sempre desnudos em casa, mas cobertos na rua ou em presença de europeus. A vulva nunca está descoberta. Dizem que um diabo, branco e muito peludo, poderia entrar ali." 50 Em Bornéus, o sirat é uma faixa de pano, ás vezes muito comprida, que cerca as cadeiras e passa entre as pernas de maneira a ocultar as partes pudendas e o perineu.51 "Parece que entre eles os Pigmeus andam nus; mas quando saem das florestas para se aproximar das aldeias dos negros, usam sempre um pedaço de casca ou de pele, ou um ramalhete de folhas sobre as partes pudendas. O único caso, na Africa, de desprezo geral por qualquer pudor foi observado no Velho Calabar. A nudez das mulheres é outra questão. Em certas regiões da Africa ocidental, entre o Niger e o Gabon, sobretudo na região do rio Camerum, no Velho Calabar e no delta do Niger, as raparigas andam — ou andavam — nuas antes do casamento. Em Swaziland, até os últimos tempos, as raparigas e ás vezes as mulheres andavam nuas. Mesmo entre os pudicos Bagandas, que puniam todo homem que mostrasse o corpo acima dos joelhos, as mulheres do rei compareciam ás reuniões inteiramente nuas. Entre os Cavirondos, todas as raparigas andam nuas, e se as mulheres que se tornaram mães devem usar uma veste fina adiante e atrás, cumpre confessar que o esquecerão quase sempre quando estão na própria aldeia. Entretanto, de uma maneira geral, podese dizer que entre os Negros Nilóticos e ainda mais entre os Hamitas e os Massaiós, as mulheres têm um cuidado particular em ocultar as partes pudendas, ao passo que os homens andam nus, com ostentação. Os Bagandas olham a nudez do macho como coisa tão abominável que, desde séculos, apelidaram, com nojo e desprezo, os Negros Nilóticos de "Gente-Nua". A nudez dos homens encontra-se

no Noroeste, até cerca de 200 milhas de Kartum, isto é, na região habitada pelos Negros Nilóticos do grupo DincaAcholí." 52 Dos Ja-huo, igualmente Nilóticos, Johnston diz que "os homens solteiros andam nus; os casados que têm filhos usam um pedacinho de pele de cabra, que, embora não encubra grande coisa, desempenha papel importante na etiqueta; pois um homem casado, que tem filho, não deve, sob nenhum protesto, falar á, sogra sem esse pedaço de pele de cabra; falar-lhe em estado de nudez completa seria insulto grave, que deveria ser reparado com o pagamento de cabras. Mesmo se estiver munido, conforme a nova moda, de calças á européia, deve trazer por debaixo o pedacinho de pele de cabra. Quanto ás mulheres casadas, usam uma cauda de cordéis, que é de rigor trazer no momento de dar de comer aos maridos." 53 Mine. French-Sheldon nota que as mulheres dos Massaiós e outras populações da Africa oriental observam no que respeita á menstruação "a maior reserva e são mais que modestas"54; ao mesmo tempo os Massaiós, que têm um penis enorme, consideram vergonhoso ocultar este membro e, pelo contrário, acham muito honesto mostrá-lo, e até ostensi-vamente55. Entre os Dincas da Africa, que são muito asseados e escrupulosos (cobrem-se de bosta de vaca, seca, e se lavam todos os dias com urina de vaca), e que são excelentes cozinheiros e atingem, segundo a opinião de Schweinfurth, sob muitos pontos de vista, um grau mais elevado de civilização que as outras tribus africanas, só as mulheres usam avental. As tribus vizinhas, Bongo, Mitoo, Niam-Niam, etc., são chamadas "mulheres", porque os homens usam avental, ao passo que as mulheres recusam cobrir-se56. Lombroso e Carrara, estudando alguns Dincas trazidos para a Europa, observam: "Com referência á sua psicologia, o que impressionava á primeira vista era a exageração do pudor. Em caso algum os homens quiseram consentir que lhes examinassemos os órgãos sexuais, nem as mulheres os seios; examinamos as tatuagens do ombro

de uma e ela ficou de mau humor durante dois dias"; os observadores acrescentam que do ponto de vista sexual e de outros, essa gente é de uma grande moralidade. 57 "É raro que o Negro seja conscientemente indecente ou lúbrico", diz Sir H. H. Johnston. "Neste país da nudez, onde vivi sete anos, não vi nem uma só vez um gesto indecente praticado por homem ou mulher e até mui raramente por meninos." As dansas indígenas constituem apenas exceção aparente, pois, indecentes do nosso ponto de vista, são graves e sérias, visto que são cerimônias religiosas. "A única dança da Africa central que se pode reputar indecente é a que representa o coito, mas os elementos são tão deformados que é difícil reconhecer-lhe a significação, a não ser com explicações, que os indígenas só dão com certa timidez." Pode-se afirmar que os negros da Africa central são muito mais pudicos e destituidos de vícios reais que a maioria dos europeus. Nem os rapazes, nem as raparigas usam qualquer vestuário (exceção feita dos filhos de chefes) antes da puberdade. Entre os Vacondos, os homens não usam outro vestuário senão um anel de fio de latão em volta do peito; as mulheres vacondas andam também inteiramente nuas, salvo aventalzinho de contas que cobre as partes pudendas; é muitas vezes um verdadeiro objeto de arte, semelhante aos das mulheres cafres. Mesma nudez entre os Avenhas, os Alungús, os Batumbucos e os Angonís. Entretanto muitos homens angonís cobrem, como os Zulús, a glande do penis com um tubozinho de madeira ou uma casca de fruto. Os Vaiaus são muito pudicos neste ponto, o que é tanto mais curioso quanto as dansas e os ritos são mais obcenos que os das outras tribus da região. Entre os Iaus, os homens e as mulheres não gostam de se submeter a inspeções médicas. Os Atongas e muitos Aniangas, e todas as tribus a oeste do Niassa (exceto talvez os Alundas) não têm os mesmos escrúpulos dos Iaus: os homens não receiam deixar-se ver nus; entretanto as mulheres são muito reservadas neste ponto." 58

No país dos Azimbas, conforme testemunho de H. Crawford Angus, que ali viveu muitos anos, "quanto mais despidas estão as pessoas, quanto mais os seus costumes e hábitos nos parecem obcenos e impudicos, tanto mais as regras de proceder em matéria sexual são morais e estritas". Tendo dado uma descrição do chensamwali, cerimônias de iniciação das raparigas, nas quais são instruirias a respeito de todos os segredos da vida sexual, observa: "Tudo isto é encarado como fato comum, que se não deve ocultar, nem de que se deva ter pejo; e como não se oculta, acontece que nesta tribu as mulheres são muito virtuosas. Desde logo, sabem tudo o que é necessário saber e não vêem motivo para conservar secretas leis naturais ou prazeres sensuais que lhes pertencem desde a nascença." 59 "As mulheres de Upoto não usam vestes de todo, e se aproximaram de nós sem mostrar nenhum pudor. Observamos uma modificação gradual interessante do vestuário de tribo a tribo; subindo o Congo, desaparece pouco a pouco, até chegarem ao estado de nudez absoluta que constatamos hoje."60 Entretanto, no Congo, há um sentimento acentuado de decência e de pudor com referência aos atos privados, diz H. Ward; e como se admirasse da nudez das mulheres em Upoto, um chefe indígena lhe observou que "ocultar e alimentar a curiosidade." 61 Na Costa do Ouro e países vizinhos, a nudez completa e muito rara, salvo em caso de necessidade; neste caso, despem-se sem hesitação. "Várias vezes", diz o dr. Freeman, "vi mulheres, em Acra, irem inteiramente nuas da baía onde acabavam de se banhar até a casa, para secarem o corpo e então se vestirem; e, enquanto e banham, conversam sem o menor constrangimento com os homens sentados na margem. Um corpo nu não lhes parece indecente. De fato, a indecência e o impudor lhes são desconhecidos." Acrescenta que o zelo excessivo dos missionários em fazê-los adotar o vestuário europeu é

muito lastimável, pois essas vestes colantes são muito mais indecentes que as vestes amplas e frouxas dos indígenas 62 . Em Loango, diz Pechuel-Loesche, a negra de raça pura cobre os seios e receia a curiosidade dos olhares masculinos ; se encontra um europeu, puxa a tanga, e toma, não sem coquetismo, a pose da Venus de Médicis. Os homens e as mulheres banham-se separadamente e ocultam-se uns dos outros quando estão nus. As mulheres demonstram igualmente pudor quando têm de se descobrir para amamentar os bêbês63. O Alcorão proíbe (surata XXIV) mostrar os órgãos sexuais, assim como o rosto; não obstante, uma muçulmana velada pára bruscamente nas ruas de Constantinopla64 e levanta o vestido para coçar-se num lugar secreto; em Beirut, Stern viu prostitutas turcas tomarem a posição do coito, mas conservando o rosto velado65. "Um Inglês surpreendeu uma mulher que se banhava no Eufrates; ela pôs as mãos no rosto sem se ocupar com o resto que o estrangeiro via; vi o mesmo gesto executado por moças no Egito66." Quando Helfer foi levado, no palácio do Imame de Mascate em Bucheir, á presença das mulheres, encontrouas todas com o rosto coberto de máscaras pretas, e o resto do corpo apenas oculto por véus transparentes. Ver um rosto descoberto parecia causar a essas mulheres verdadeira dor; as próprias mães só raramente retiravam a máscara ás filhas, ato reservado ao futuro marido. "Observei que as mulheres temiam olhar-me e em seguida abaixavam os olhos com pejo. Informei-me e soube que o meu rosto descoberto era indecente, tal qual como o seria entre nós um corpo nu. Pediram-me que pusesse também uma máscara, e quando urna criada me colocou urna admiravelmente ornada, exclamaram todas : tahip, tahip! belo, belo!"67 Na Argélia, os Árabes e os Cabilas não gostam muito de se apresentar nus : o que pode ser devido, ou a pudor nativo, ou aos hábitos de pederastia ativa; seja como for,

cobrem sempre os órgãos sexuais com as mãos e repugnalhes ser tocado pelo médico68. "O pudor entre os muçulmanos", observa Wellhausen, "era muito rigoroso, sendo proibido todo vestuário insuficiente. Isso acontecia tanto entre os Árabes pagãos como entre os Semitas; é mister não nos deixarmos enganar pelos casos de impudor individual. A Suna proíbe ao homem pôr-se nu, mesmo estando só, e lavar-se nu, por temor de Deus e dos Djins; Job o fez e por isso foi punido severamente. Se na antiguidade árabe os adultos se mostravam nus em público, era em circunstâncias extraordinárias e para alcançarem um fim especial... As mulheres de luto descobriam, não somente o rosto e o peito, mas todo o corpo. O mensageiro que trazia más notícias despia todas as vestes. A mãe que desejava agir sobre o filho punha-se nua. Um homem a quem era interdita a vingança demonstrava o desespero descobrindo o traseiro e espalhando terra sobre a cabeça, ou levantando por detrás as vestes para cobrir a cabeça; isto se fazia também para satisfazer necessidades naturais." 69 Mantegazza conta que uma Lapônia recusou, mesmo por 150 francos, deixar-se fotografar nua, se bem que os homens consentissem fazê-lo por uma pequena soma; os viajantes do séc. XVIII tiveram muita dificuldade em persuadir as mulheres samoiedas a se mostrarem nuas.70 Entre as mulheres chinesas, o pudor parece localizarse especialmente no pé; só o mostram nu ao marido, e dificilmente mesmo a outras mulheres71. Esta mesma localização do pudor no pé existe ainda na Rússia central (entre os Tchuvaches, os Teheremisses, etc.), na Armênia e na França meridional; era muito acentuada na Espanha no século XVIII. 72 O capitão X... disse-me que tio Japão "nas piscinas das mulheres a entrada era livre e os ingleses podiam penetrar ali sem encontrar obstáculos nem provocar desagrado ; raparigas passavam nuas diante deles, como para fazer admirar, em completa inocência, as cabeleiras; e isto durou

até o momento em que vários compatriotas nossos, em consequência de risadas e gestos importunos, forçaram as mulheres a se esconderem. É assim que a corrupção se espalha e o paganismo se deforma ao nosso contacto". O dr. Carl Davidsohn assistiu a uma dança nacional em que as mulheres aparecem nuas e nota que os Japoneses não tem senso estético para o nu; na exposição de Kioto, um quadro representando Psique nua, provocou primeiramente espanto, depois nojo; ao passo que a nudez viva não os melindra absolutamente73. As mulheres Aïno, pelo contrário, sentem grande repugnância em se mostrar nuas74. Enfim, entre os Iacutas da Sibéria, o pudor parece localizar-se principalmente na planta do pé e na perna75. Os Gregos, os Etruscos e os Romanos tinham o costume de cobrir o prepúcio com uma faixa (kynodesme) ou um anel (fibula), decori causa, diz Celso.76 Entre os Lídios, e os Bárbaros em geral, era vergonhoso, mesmo para um homem, ser Visto nu.77 Tucídides pretende que "os Lacedemônios foram Os primeiros a lutar nus e a se untar com óleo nos jogos atléticos; outrora, os atletas usavam um cinto, costume que ainda se encontra na Ásia." 78 Platão diz a mesma coisa; e, falando da nudez das mulheres no ginásio, diz que um homem que zombasse delas porque mostram o que há de mais perfeito "colheria unicamente um fruto verde da árvore da sabedoria."79 Plutarco, entretanto, afirma que os Lacedemônios admitiam a nudez das mulheres por Ocasião dos jogos públicos; o vestuário consistia numa túnica curta que deixava livres o ombro e o seio direitos e só atingia ao terço superior das coxas80. Entre os Gregos propensos a aceitar as doutrinas cínicas, considerava-se que, embora o pudor fosse coisa desarrazoada, tudo o que está bem pode ser realizado em público; várias autoridades afirmam que Crates e Hiparquia consumaram o casamento na presença de numerosos espectadores; Lactáncio (Inst. III, 15) afirma que essa prática ora comum; mas Zeller inclina-se a duvidar disso81.

Sabe-se que Ateneu, fundando-se em Timeu, diz dos Tirrênios (Etruscos) — que não consideravam a nudez das mulheres nem o ato sexual como contrários ao pudor, e tinham grande cuidado com as suas pessoas82. Dennis duvida dessa passagem e observa que as mulheres etruscas são representadas vestidas nos túmulos, A nudez, diz ele, é um característico dos Gregos, mas não dos Etruscos; é assim que as mulheres assistiam nuas aos banquetes entre os Tessálios no ginásio de Chio, etc.83 Em Roma, as casas de banhos eram comuns aos dois sexos, e, se bem que cada sexo tivesse a sua piscina separada, podiam ver-se, falar-se, combinar entrevistas e adultérios. Primitivamente obscuras, as piscinas foram depois munidas de aberturas permitindo a penetração da claridade do dia. Adriano interdisse essa promiscuidade dos sexos e ordenou que tivessem lavacra84 separadas; Marco Aurélio e Alexandre Severo renovaram esse edito, mas Heliogábalo, no governo intermediário, o tinha derrogado85. O costume antigo determinava que os atores usassem uma faixa (subligaculum) afim de salvaguardar o pudor das matronas; parece que as mulheres respeitáveis tinham também o costume de usar sempre uma espécie de subligaculum, ás vezes até no banho; a palavra se aplicava também a um cinto de couro preso por detrás e servindo ás vezes de cinto de castidade86. Certo número de casos em que as mulheres guardam o pudor mesmo no momento de serem condenadas á morte, tanto entre os pagãos como entre os cristãos, foram reunidos por Lecky87. O cristianismo parece ter profundamente agido sobre as maneiras de pensar e proceder unindo a emoção natural do recato sexual á virtude masculina da modéstia, de "um lado, e, de outro, á prescrição da abstinência sexual. Tertuliano expõe muito bem essa confusão nos seu tratados De Pudicitia e De Cultu Femiuarum. Neste (livro ir, cap. I), observa ele: " A salvação, e não só a das mulheres, mas também a dos homens, depende principalmente do pudor. Como tortos

nós somos o templo de Deus, o pudor é o sacristão e a sacerdotisa deste templo, impedindo a entrada de todas as coisas impuras ou profanas, por temer que Deus, que ai habita, seja ofendido... Muitas mulheres, quer por, ignorância de fato, quer por dissimulação, ousam deambular como se o pudor consistisse apenas na integridade da carne e na recusa da fornicação, e corno se não fosse indispensável, além disso, outra coisa, no vestuário, na compostura, nos encantos adornados da fornia, de sorte que elas apresentam o mesmo aspecto que as mulheres dos povos a que falta o senso do verdadeiro pudor." O mais antigo ideal cristão de pudor, que não durou muito tempo, está bem expresso numa epístola que parece ser devida a Clemente de Roma: aí descreve as mulheres e as crianças cuidadosamente envoltas nas vestes, as mãos encobertas88. E Clemente de Alexandria, pelo fim do século segundo, censura as mulheres por se mostrarem nuas nos banhos públicos e até por andarem nuas em casa, diante dos membros da família e dos escravos, por quem se fazem esfregar e manipular de toda a sorte de maneiras contrárias ao pudor 89. Os banhos em comum foram interditos pelas constituições apostólicas mais antigas. E Cipriano, bispo de Cartago, julgou necessário, no terceiro século, ordenar ás virgens votadas á castidade que se não banhassem nuas: não é apenas a intenção que è preciso considerar, mas este fato — "que retirando as vestes, o pudor também é retirado, a virgindade' fica exposta a ser apontada com o dedo e a ser manuseada90: A Igreja levou o mesmo espírito aos bárbaros da Europa setentrional e as ordenações contra os banhos comuns aos dois sexos me multiplicaram. O costume, entretanto, persistiu em várias regiões da Europa até o fim do século XVIII, e se encontra ainda na Rússia91. Enfim Procópio recorda que em Bizâncio92 Teodora

se mostrou nua em cena; e Crisóstomo lembra que Arcádio tentou, no fim do século IV, suprimir as Festas de Augusto em que as mulheres apareciam nuas nos teatros. "Na idade-média, as damas, tais tomo as representam os poetas, não afetavam absolutamente recato. Méleranz surpreende uma dama tomando banho sob uma tília; as criadas fogem, e ela lhe ordena que as substitua; ele a auxilia a vestir-se; ela se estende sobre um leito de marfim cercado de magníficas tapeçarias e lhe diz que espante as moscas enquanto ela dorme." Coisa estranha: os homens são representados como mais pudicos que as mulheres. "Quando duas criadas, tendo preparado o banho para Perceval, se oferecem para o auxiliar, o cavaleiro tem vergonha e não consente em se banhar senão depois de terem saído; de outra vez, mete-se depressa na cama vendo entrar criadas no quarto. Quando Wolfdíeterich se despe, pede ás damas deixá-lo um instante, pois não deseja mostrar-se inteiramente nu. Quando Amphons de Espanha, metamorfoseado pela mãe em lobishomem, retoma a forma primitiva e se encontra nu diante dela, sente imensa vergonha. As raparigas que cuidam de Ivam respeitam-lhe o pudor; pois, tendo, num acesso de loucura, passeado e depois adormecido nu, na floresta, elas o untaram com bálsamo, mas ocultaram-se no momento em que despertou. De urna maneira geral, entretanto, as damas não receavam absolutamente banhar-se com os cavaleiros e punham neste caso as saias na cabeça; não sei se existem miniaturas dos séculos XII e XIII representando tais cenas, mas há muitas do século XV." 93 Em 1450-1470 espalhou-se o uso dos botões, muitas vezes de cor diferente do resto do vestuário e ornados de fitas; acentuavam as partes viris e chamavam a atenção para elas94. É digno de nota que na Alemanha, no século XVI, a vista da nudez fosse coisa comum para o povo, cada qual se despindo completamente para se deitar e estando espalhados por toda parte os banhos de vapor; as danças populares se caracterizavam por saltos em que as saias das dançarinas se erguiam; as mulheres não usavam calças, e

sabemos que o pudor não existia para elas, segundo testemunhos dos séculos XV e XVI. Mesmo no século XVII, as calças que as mulheres italianas usavam era uma coisa singular. "O desaparecimento dos banhos e o uso de roupa branca influíram fortemente sobre o pudor"95. Em 1461, por ocasião da entrada em Paris de Luiz XI, três lindas raparigas nuas, representando Sereias, declamaram poemas e foram muito admiradas pelo público. Em 1468, houve em Lille, em honra de Carlos o Temerário, uma representação do Julgamento de Paris, em que as três deusas estavam nuas. Quando Carlos V entrou em Antuérpia, as mais lindas raparigas da cidade dançavam diante dele envoltas em gazes e foram observadas de perto por Dürer, que narrou isso ao seu amigo Melanchton96. Passek, oficial polaco, na narração que faz das suas campanhas, admira as damas da Dinamarca, em 1658, mas julga-lhes os costumes muito impudicos: "Cada qual se deita nua como no dia do nascimento e não experimenta o menor escrúpulo em despir-se diante de outrem. Nenhuma se ocupa absolutamente com a presença do hóspede e retiram, diante dele, em plena claridade, todas as peças do vestuário, até a camisa, que penduram á parede. Depois afastam as cobertas da cama, apagam a luz e metem-se no leito. Como censurássemos tais costumes, dizendo que entre nós as damas não se punham nuas mesmo diante do marido, responderam que elas ignoravam essa vergonha e que não havia nenhuma razão para ocultar membros que Deus tinha feito. Por outro lado, era mais saudável dormir sem vestes, pois estas são demasiado usadas durante o dia; por que levar consigo para o leito pulgas e outros insetos? Apesar das nossas ponderações, não quiseram absolutamente mudar de hábito97." Até o fim do século XVII, na Inglaterra como na França, as mulheres estiveram em grande perigo por ocasião do parto, em consequência da ignorância das parteiras e das concepções especiais a respeito do pudor, que impediam

os médicos de prestar auxílio. O dr. Willoughby, de Derby, conta que em 1658 teve de penetrar de gatinhas no quarto de uma parturiente para não ser visto por ela. Em França, Clément, encarregado de partejar as amantes de Luiz XIV, era conduzido á presença delas de olhos vendados; o rei ocultava-se por detrás das cortinas e o rosto da parturiente era coberto por uma máscara98. Até á Revolução, em caso de rapto ou de estupro, o exame das mulheres era praticado por um juri de matronas. Os antigos manuais ingleses de obstetricia, mesmo do começo do século XIX, insistem sôbre as regras de pudor. É assim que o dr. John Burns, de Glascow, nas suas Regras do parto, diz que algumas mulheres, por motivos de falso pudor, recusam deixar-se examinar por ocasião das grandes dores"; e acrescenta: "Em geral, tornam escuro o quarto e cerram as cortinas durante o exame." Winckler diz que em 1861 dormiu muitas vezes, na Islândia, no mesmo quarto com toda a família e viu todos se despirem, ficando nus, antes de ir para o leito99. Outrora, na Irlanda, nas famílias abastadas e nobres existia mesmo o costume de, em casa, só usarem uma capa; Fynes Moryson, em 1617, conta que viu em Cook raparigas amassar pão inteiramente nuas e que um senhor da Boêmia, recebido dessa maneira, ficou muito admirado de tais costumes100. Coryat, viajando na Itália no começo do século XVII, viu ria Lombardia a mor parte das crianças e das mulheres só usar no verão uma espécie de camisa; viu em Veneza e em Padua as mulheres, as viuvas e as raparigas, passearem com o peito e o ombros nus101. Notarse-á que a moda do decote só começai na Europa no século XIV; antes, as mulheres cobriam o peito e o pescoço. Enfim, dorme-se ainda nu, segundo Lippert, na Jutlândia, na Islândia, em certas regiões da Noruega e ás vezes mesmo em Berlim.

Lady Mary Wortley Montagne escreveu em 1717 a respeito das mulheres turcas nos banhos de Sofia: "Os primeiros sofás102 estavam cobertos de almofadas e ricos tapetes, sobre os quais se sentavam as damas e sôbre os outros, atrás, as suas escravas, mas sem nenhum vestuário, pois todas estavam inteiramente nuas, sem ocultar nenhuma beleza ou defeito. Entretanto, não observei o mais leve sorriso ou gesto impudico. Deambulavam com tanta graça majestosa como a nossa mãe Eva, segundo a descrição de Milton. Convenci-me então da verdade da reflexão que fizera muitas vezes — se a moda fosse de passear nu, ninguém se preocuparia com o rosto103." Em S. Petersburgo104, em 1774, sir Nicholas Wraxall observou a promiscuidade, num banho público, de mais de duzentas pessoas de ambos os sexos. "Há vários banhos públicos em S. Petersburgo, e cada um paga alguns kopeks de entrada. Existe, sem dúvida, locais separados para os dois sexos, mas ninguém se preocupa com isso e todos se banham ou se sentam uns ao lado dos outros, num estado de nudez completa105. Em 1790, Wedgwood escreveu a Hoxman: "O nu está tão espalhado nas obras dos antigos que será mui difícil evitar a introdução de estátuas nuas106; por outro lado, é absolutamente necessário fazer, ou guardar, esses objetos para nosso uso pessoal; pois nenhum homem ou mulher da geração atual os comparará ou os utilizará como móveis se as estátuas estiverem nuas107." Maria Wallstonicraft escreve: "A dama que perguntou se se pode e ensinar ás mulheres o sistema moderno da botânica foi ausada de falso recato ridículo; entretanto, se ela me tivesse feito essa pergunta, responderia certamente: não. E cita a passagem seguinte de um livro de educação: "Será inútil recomendar-vos que não passeis as mãos por debaixo do vosso "fichu": 108 pois uma mulher pudica nunca o faz109." Atualmente, o conhecimento da fisiologia vegetal não é geralmente considerado como

melindrando o pudor, mas o da fisiologia animal o é ainda por muita gente. O dr. H. R. Hopkins, de Nova York, escreve em 1895 a esse respeito: "Como poderíamos ensinar ás meninas as funções das diversas partes do corpo humano sem lhes molestar o pudor? Tal é o problema prático que me inquietou durante muitos anos110." O uso das calças era ainda desconhecido na Inglaterra há meio século, e encarado como contrário ao pudor e á feminilidade. O ginecologista Tilt tomou, por questões de higiene, a defesa das calças feitas de tecido de algodão fino e não descendo abaixo do joelho: "Compreendida assim, diz ele, a adoção das calças se espalhou neste país, e, visto que o transeunte não as vê, ninguém as censurará como sendo uma usurpação dos atributos masculinos." Dufour encara as calças de mulher como essencialmente francesas e pretende que tenham sido inventadas no fim do século XIV, espalhando-se no século XVI, graças á nova moda das vertugales111. Cumpre notar que em Londres, em meados do século XVII, a jovem Mrs. Pepys, filha de pais franceses, usou geralmente calças provavelmente 112 fechadas . Entretanto as calças não parecem ter feito parte do costume em geral, mesmo na França, onde, no século XVIII, as dançarinas de teatro não as usavam em cena. A Camargo foi sempre muito pudica, nunca mostrando as pernas acima dos joelhos; como lhe perguntassem porque usava calças, respondeu que essa "precaução" era necessária; mas as suas colegas não as usavam sempre, pois em 1727, em seguida a um acidente acontecido a uma jovem bailarina, a policia publicou uma ordem tornando obrigatório o uso das calças para as atrizes e as dançarinas. Parece que não foi aplicada com muito rigor; entretanto o era, certamente, em 1791113. O prof. Irving Rosse, de Washington, fala da afetação recato no estado de Nova-Inglaterra e conta que, no Massachussets, um lojista foi obrigado a cobrir com um pano uma estatueta que entretanto nada apresentava de obceno114. Informaram-me que os Africanos do sul não

permitem nem sequer a exposição de estátuas nuas no Museu de Arte da Cidade do Cabo. Mesmo na Itália, as estátuas são desfiguradas pela folha de parreira e encontram-se manifestações esporádicas contra o nu das estátuas clássicas em França e na Alemanha115. Em 1898, o Ladie's Home Journal, publicado em Filadélfia, decidiu não falar mais em roupas de interior, "esse assunto, tratado numa revista, acarretando pormenores que podem ás vezes, com razão, melindrar o pudor das damas delicadas e sensíveis". Lombroso e Ferrero observam "a repugnância das prostitutas em deixar examinar os órgãos sexuais quando não estão limpos ou durante o período menstrual, demonstrando assim mais pudor do que muitas mulheres respeitáveis116." "Um homem casado há vinte anos disse-me nunca ter visto a mulher inteiramente nua. Essa discrição das pessoas casadas, evitando mostrar os órgãos sexuais, parece comum nos casais. A julgar pelas minhas pesquisas, muito poucas mulheres desejam ver a 'nudez masculina e muitas, bem que não sejam desprovidas de senso estético, não encontram nela beleza alguma. Pelo contrário, a mor parte dos homens gostam de ver mulheres nuas. Parece que só mulheres muito cultas e dotadas de imaginação experimentam prazer em ver um homem bem feito (principalmente se seguiram cursos de belas-artes e desenharam segundo modelo nu, conforme me disse uma dama artista). Ou então a maioria das mulheres dissimulam a curiosidade e a admiração. Uma mulher de idade, de 70 anos, mãe de vários filhos, disse a uma jovem minha conhecida: "Nunca vi homem nu." A irmã dessa velha senhora confessou que nunca tinha olhado a própria nudez, dizendo "que tinha medo". Era mãe de três filhos. Uma mocinha da mesma família disse á sobrinha que as mulheres eram "nojentas porque tinham perdas mensais". A sobrinha respondeu que as mulheres não podiam obstálo, ao que a tia replicou: "Sei; mas isso não as torna menos

nojentas." Ouvi falar de uma menina, a morrer de hemorragia uterina, que recusou por pudor revelar o mal á família. A aflição que experimentam certas mulheres, antecipadamente, em se deixar examinar, parece muito aguda. Maridos falaram-me de noivas que tremem e se recusam na noite de nupcias, sendo as crises de nervos ás vezes violentíssimas117. E.., de 25 anos de idade, recusouse ao marido durante seis semanas após o casamento, demonstrando extremo terror ás suas tentativas. A ignorância do mecanismo das relações sexuais é muitas vezes a causa desses alarmas exagerados. Em Jersey contaram-me muitas vezes a história de uma recém-casada que se atirou pela janela, pedindo socorro, na noite de núpcias118." Uma dama de uma cidadezinha da Itália meridional contou a Paula Lombroso que as meninas das classes médias não podem sair de casa senão para ir á missa, e que lhes proibem chegar á janela; entretanto despem-se nas praias mesmo sem cabine e se banham sem vestes, inteiramente nuas119. O comprimento das calças de banho tem sido objeto de numerosas e fastidiosas discussões por parte dos clubes de natação ingleses119. "Uma mulher me referiu que um homem veio procurála para lhe confiar que temia ter corrompido a espôsa, porque, tendo ela entrado no banho, em sua presença, com o bêbê, percebera que êle experimentava prazer vendo-a recrear-se na água. Estava profundamente emocionado, acreditava ter-lhe feito mal, destruindo-lhe o pudor. A esposa, a quem isso foi comunicado, ficou naturalmente muito indignada; mas teve também a sensação de que todo homem despreza secretamente a mulher em consequência das coisas que lhe ensinou, e, se ela lhe confessa o prazer, só experimenta arrependimento ou desprazer120." No seu estudo de 125 jovens americanas de escolas superiores, a doutora Helena Kennedy observa que "o pudor" impede que as mães e as filhas falem naturalmente

das coisas relativas á menstruação. "36 jovens atingiram a puberdade sem nenhuma noção exata sôbre a mulher; 39 pouco mais sabiam, pois, reconhecendo que se se lhes havia ministrado algum conhecimento, não tinham podido falar livremente ás mães sôbre essas coisas. De fato, aquelas que eram curiosas não puderam falar do que as interessava; deram-lhes algumas indicações concernentes a cuidados pessoais e uma repreensão pela curiosidade. Menos da metade das raparigas puderam explicar-se francamente com a mãe a respeito dêste assunto121." O mesmo acontecia na Inglaterra há alguns anos e talvez ainda agora aconteça. É assim que Tilt, após inquérito sobre o aparecimento das primeiras regras em cerca de 1000 mulheres, verificou que "25 por cento não estavam absolutamente preparadas para esse fenômeno; 13 lesas 25 experimentaram grande susto e tiveram ataques de nervos; e 6 das 13 acreditaram estar feridas e lavaram-se com água fria. Em todas as que tiveram medo... a saúde geral foi atingida profundamente 122." A mesma situação se constata também em muitos outros povos. Assim, com relação á França, Edmond de Goncourt descreve em Chérie (pp. 137-139) o terror da heroína do romance por ocasião do aparecimento das primeiras regras, para o que nunca a tinham preparado. "É muito raro que as mulheres falem desse fenômeno. As mães temem prevenir as filhas, as irmãs mais velhas não gostam absolutamente de fazer confidências ás mais moças, as governantas se mostram geralmente discretas com as jovens que não têm mãe." A escolha precedente de fatos relativos á sexualidade poderia ser indefinidamente aumentada, pois não citei, em geral, os que já se acham publicados nas coleções anteriores de Ploss e Bartels123, de Herbert Spencer124, de Rudeck125, de Mantegazza126, de Westermarck127, de Letourneau128, de G. Mortirner129, e nos grandes manuais etnográficos de Waitz e Gerland130, de Peschel131, de Ratzel132, etc.

NOTAS AO CAPITULO I 1 Casanova, Mémoires, ed. Garnier, t. IV, pp. 393-4. 2 Stendhal, De l´Amour, cap. XXVI. Cf. Stendhal (Collection des plus belles pages), Société du Mercure de France, pág. 468, seg. 3 Pudore nell´uomo e nella donna, Rivista mensile di psichiatria forense, 1898. 4 Emile Zola, em La Faute de l´abbé Mouret, pinta admiravelmente a primeira cópula de dois entes perfeitamente castos. A consumação do ato se realiza Paradous, porque semelhante ao Eden bíblico. No comêço a mulher mostra-se audaciosa, provocadora, e o homem tímido, irresoluto. Após o ato, regista-se o contrário: a mulher se apresenta recatada e o homem arrogante, dominador. A Eva de Zola, no princípio, ignora completamente o pudor, mas este se manifesta, depois, instintivamente. (N. do T.) 5 Journal des Goncourt, t. III, p. 5. 6 Este desaparecimento do pudor levou a dizer (Venturi, Degenerazioni psico-sessuali, pp. 92-93) que o pudor só pertence ás mulheres, ao passo que os homens só têm a decência, que persiste pouco mais ou menos, coro a mesma intensidade, durante toda a vida. 7 C. Renooz, Psychologie comparée de l´homme et de la femme, 1898, pp. 85-87. 8 Archivio di Psichiatria, t. XIII, 1892. 9 Neologismo que se impõe. Precisamos de um substantivo correspondente ao verbo cortejar, a fazer a corte, a procurar cativar ou seduzir. E por isso não trepidamos em usar, nesse sentido, a palavra cortejamento, Infelizmente não registrada nos dicionários que compulsámos. (N. do T.)

10 Stanley Hall e Allin, The psychology of tickling, American Journal of Psychology, 1897, p. 31. 11 K. Groos, Die Spiele der Meuschen, p. 341. 12 Neugebauer, Beobachtungen aus dem Gebiete der Scheinzwittertums, Jahrbuch für sexuelle Zwischenstufen, t. IV, 1902, p. 92.

13 Hohenemser, Versuch einer Analyse der Scham, Archiv. für die gesammte Psychologie, t. II (1903). liv. 2-3. 14 Cf. as definições de Dugas; e as de H. Campbell, British Medical Journal, de 26 set. 1896.

15 Somerville, Journal of the Anthropological Institute, 1897, p. 394. 16 Modigliani, Un viaggio a Nias, p. 460. 17 Man, Journal Anthr. Inst., 1883, pp. 94 e 331. 18 B. Spencer e F. G. Gillen, The Native Tribes of Central Australia, p. 572. 19 Report of the Horn Expedition, 1896, t. IV, p. 37. 20 W. E. Roth, Ethnological Studies, etc., Brisbane, 1897, pp. 114-115. 21 A.-C. Haddon, Journal Anthr. Inst., 1890, p. 336. 22 Reports of the Cambridge Torres Straits Expedition, t. V, p. 272. 23 Schnee (segundo Vahness), Verhandlungen, 1900, p. 415. Zeitschrift, für Ethnologie,

24 C. Semper, Die Palau-Inseln, 1873, p. 68. 25 J.-R. Forster, Observations nade during a voyage round the world, 1728, p. 392. 26 J. Hawkesworth, Account of the voyages, etc., 1775, t. I, p. 469. 27 Ibidem, t. II, p. 45. 28 J. Hawkesworth, Account of the voyages, etc., 1775 t. II, p. 254. 29 Ibidem, t. II, pp. 257-8. 30 O demônio. (N. do T.) 31 Somerville, Journ. Anthrop. Inst., 1894, p. 368. 32 A. Bastian, Inselgruppen in Oceanien, p. 112. 33 A. Sutherland, Moral Instinct, t. I, p. 206. 34 J. Stanley Gardiner, Journal Anthrop. Inst., 1898, p. 481. 35 Roth, loc. cit., p. 184. 36 Stanley Gardiner, loc. cit., p. 410. 37 Tautain, na Anthropologie, 1896, p. 546. 38 Turner, Samoa, a hundred years ago, p. 121. 39 Im Tthurn, Among the Indians of Guiana, 1883. 40 Mantegazza, Fisiologia della donna, cap. 9. 41 K. von den Steinen, Unter den Naturvölkern Zentral-Brasiliens, 1894, pp. 190 e seguintes. 42 Hyades e Deniker, Mission scientifique du cap Horn, t. VII, pp. 239,

309 e 347. 43 A.-B. Holder, em American Journal of Obstetrics, t. XXV (1892), n. 6. 44 Otis T. Mason, Woman's share in primitive culture, p. 237. 46 E.-T. Dalton, Ethnology of Bengal, 1872, p. 66. 45 E.-H. Man, Journal of the Anthropological Institute, 1886, p. 442. 47 K. Klemm, Peal's Ausflug nach Banpara, Zeitschrift für Ethnologie, 1898, p. 334; Dalton, Journal Asiatic Society Bengal, 41, 84. 48 Comunicação particular. 49 H. Ling Roth, Journ. Anthrop. Inst., 1892, p. 36. 50 Sir H.-H. Johnston, The Uganda Protectora te, t. II, pp. 669-672. 51 Sir H.-H. Johnston, The Uganda Protectorate, t. II, p. 781. 52 Journ. Anthrop. Inst., 1894, p. 383. 53 Sir H.-H. Johnston, Kilima-njaro Expedition, p. 413, 54 Schweinfurth, Heart of Africa, t. I, pp. 152-59. 55 Lombroso e Carrara, Archivio di Psichiatria, t XVII, 1896, fasc. 4. 56 H.-H. Johnston, British Central Africa, 1897, pp. 408-419. 57 H.-C. Angus, Zeitschrift für Ethnologie, 1898, p. 479. 58 T.-H. Parke, My personal experiences in Equatorial Africa, 1891, p. 61. 59 Herbert Ward, Journ. Anthrop. Inst., 1895, p. 293. 60 R.-A. Freeman, Travels and Life in Ashanti and Jaman, 1898, p. 379. 61 Zeitschrift für Ethnologie, 1878, pp. 27-31. 62 Hoje Kemalie. Atualmente foi abolido o véu na Turquia. (N. do T.) 63 B. Stern, Medizin und Aberglaube, etc., in der Türkei, t. II, p. 162. 64 C. Niebuhr, Reisebeschreibung nach Arabien, 1774, t. I, p. 165. 65 J.-W. Helfer, Reisen in Vorderasien und Indien, t. II, p. 12. 66 Batut, Archives d'Anthropologie criminnlle, 15 jan. 1893. 67 Wellhausen, Reste arabischen Heidentums, 1897, pp. 173, 195-6. 68 Mantegazza, La donna, cap. IV. 69 J. Matignon, Archives d'Anthropologie criminelle, 1898, p. 445. 70 A. Yen Gennep, La Pudeur du Pied, Dépêche de Toulouse de 24 de

out 1905. 71 C. Davidsohn, Das Nackte bei den Japanern, Globus, 1896, a. 16. 72 Boelz, Die Aïno, etc., Zeitschr. f. Ethnologie, 1901, p. 178. 73 Sieroshewski, The Yakuts, Journ. Anthrop. Inst., 1901, g. 93. 74 L. Stieda, Anatomische Hefte, t. XIX, 1902. 75 Heródoto, liv. I, Cap. X. 76 Tucídides, liv. I, cap. VI. 77 Platão, República, liv. V. 78 M.-M. Evans, Clapters on greek dress, p. 34. 79 Zeller, Socrate et les écoles socratiques, trad. ingl. 1897. 80 Ateneu, Deipnosophistes, trad. Yonge, t. III, p. 830. 81 G. Dennis, Cities and cemeterries of Etruria, 1883, t.1, p. 321. 82 Salas de banho. (N. do T.) 83 Dufour, Histoire de la prostitution, t. II, cap. XVIII. 84 Ibidem, t. II, p. 150. 85 Lecky, History of moral:, t. II, p. 318; cf. ainda Aretoeus, Sur les causes et les symptomes des maladies aigues, liv. II, cap. X; Apulcu, Metamorphoses, trad. Th. Taylor, p. 28. 86 Ante-Nicene Christian Library, vol. XIV, g. 384. 87 Poedagogus, liv. II, cap. V; cf. Migne, Patrolagioe cursus completus, vol. VII, e liv. II, cap. V. 88 Cipriano, De Habita Virginum, cap. XIX, 21; ver ainda para os primeiros séculos do cristianismo: Wright, Apocryphal Acts, trad. do sírio: Remarks on Ecclesiastical History, t. III, g. 4. 89 Cf. Rudeck, Geschichte der õffentlichen Sittlichkeit in Deutschtand, e Max Bauer, Das Geschlechtsleben in der Deutschen Vergangenheit, pp. 216-265. 90 Bizâncio, depois Constantinopla e hoje Kemalie. (N. do T.) 91 A. Schultz, Das höfische Leben zoar Zeit der Minnesänger, t. I, p. 225. 92 Rudeck, Geschichte der öffentlichen Sittlichkeit in Deutschland, pp, 45-48; Dufour, Histoire de la prostitution, t. VI, pp. 21-23; K. Groos, Spiele der Menschen, p. 337. 93 Rudeck, op. cit., pp. 57-339, etc.

94 Cf. B. Ritter, Nuditäten an Mittelalter, Jahrb. für Wissensehaft und Kunst, 1855, p. 227; Fahne, Der Carneval, p. 249; Dulaure, Des Divinités Génératrices, cap. XIV, edition nouvelle, Société du Mercure de France. 95 Passek, Denkwürdigkeiten, trad, alemã, p, 14. 96 E Malins, Midwifery and Midwifes, British Medical Journal, 22 de junho de 1901 ; Witkowski, Histoire des Accouchements, 1887, pp. 689 e seguintes. 97 G. Winckler, Island, seine Bewohner, etc., pp. 107, 110. 98 Moryson, Itinerary, part. III, liv. III, cap. V e liv. IV, cap. II. 99 Coryat, Crudities, 1611. 100 Estrado elevado, usado pelos turcos. (N. do T.) 101 Letters and Works, 1866, t. I, p. 285. 102 Hoje, Leningrado. (N. do T.) 103 A toar through some of the northern parts of Europe, 3.ª ed., 1776, n. 248. 104 No palácio do Vaticano, as galerias de estatuária estão repletas de estátuas antigas nuas. Na capela Sixtina o teto, pintado por Miguel Angelo, representa cenas bíblicas, em que as figuras se apresentam inteiramente nuas, bem patentes as partes pudendas. A parede do fundo, junto á qual está o altar-pontifical, representa o Juizo Final, em que todas as figuras se apresentam inteiramente nuas. Observado pelo papa de então, a respeito de toda aquela nudez, dizem que Miguel Angelo, mal humorado, respondera que não lhe constava haver roupas no céu. Um outro papa mandou esfumar as partes pudendas do quadro, com uma espécie de véu. Mas, apesar disso, a nudez resplende. As outras pinturas conservam a nudez integral. (N. do T.) 105 Metcyard, Life of Wedgwood, t. II, p. 589. 106 Fichu — lenço de pescoço, écharpe. Antigamente na França fichu indicava também negligência. E passar as mãos por debaixo do fichu queria dizer praticar uma negligência (N. do T.) 107 Mary Wallstonecraft, The Rights of Woman, 1792, pp. 277, 289. 108 Tilt, Elements of health, 1852, p. 193. 109 Dufour, Hist. de la prostitution, t. VI, p. 28. 110 Diary of S. Pepys, ed. Wheatley, t. III, 15 maio 1663. 111 Schulz, Ueber Paris und die Pariser, pag. 145.

112 Irving Rosse, Virginia Medical Monthly, out. 1892. 113 Cf. Sexualreform, Gesellschaft. apêndices periódicos de Geschecht und

114 La donna delinquente, p. 540; cf. ainda British Medical Journ., 24 set. 1898. 115 Conheço um caso de uma senhora jovem, cerca de 20 anos de idade, que durante três meses se recusou a consumar o casamento. Na noite de núpcias teve verdadeira crise nervosa. Só depois de muito carinho, paciência e doçura o marido conseguiu encaminhá-la para o cumprimento do dever conjugal. (N. do T.) 116 Comunicação particular. 117 P. Lombroso, Archivio di Psichiatria, 1901, p. 306. 118 Cf. jornais ingleses de 26 set. 1898. 119 Comunicação particular. 120 Helena Kennedy, Effects of High-School work upon girls during adolescence, Pedagogical Seminary, junho 1896. 121 Elements of health, p. 183; Engelmann diz que na América as suas experiências confirmaram as de Tilt; The Health of the american girl, Transactions, Southern Surgical and Gynecological Society, 1890. 122 Das Weib, 8ª edição, 1906. 123 Sociologie Descriptive, sobretudo os capítulos sôbre o vestuário, o Sentimento moral e as produções estéticas. 124 Geschichte der öffenttichen Sittlichkeit in Deutschland. 125 Amori degli uomini, cap. II. 126 Origine du mariage dans l'espèce humaine. 127 Évolution de la morale. 128 Chapters ou human love, cap. VI. 129 Anthropologie der Naturvölker. 130 Allgemeine Völkerkunde. 131 Völkerkunde, 2.ª edição, 2 volumes.

II

O pudor como aglomeração de temores — As crianças sob o ponto de vista do pudor — O pudor no animal — A atitude da Venus de Médicis — O fator sexual do pudor baseado sobre a periodicidade e sobre os fenômenos primitivos do namoro — A necessidade da reclusão nas relações sexuais primitivas — A significação do coquetismo — O encanto sexual do pudor — O pudor como expressão da impulsão erótica feminina — O receio de causar nojo como fator do pudor — O pudor dos selvagens em matéria de refeição diante de outrem — A região sacro-púbica como foco de nojo — A idéia de impureza cerimonial — O costume de cobrir o rosto, — Ornamentos e vestuário — O pudor localizado no vestuário — O fator econômico do pudor — O com que concorreu a civilização para o pudor. A elaboração do ritual social.

Que o pudor seja, assim como as emoções que a ele se prendem, fundado sobre o temor, emoção propriamente primitiva, e coisa por demais evidente1. A relação entre o medo e o pudor foi mesmo observada de há muito e encontra-se expressa nos fragmentos de Epicarmo; e uma das definições mais recentes e a de que "o pudor é a timidez do corpo". Na realidade, o pudor é uma aglomeração de temores e sobretudo, espero demonstrá-lo, de dois medos importantes distintos um bem anterior á espécie humana e que só se encontra na fêmea; outro de caráter mais especialmente 'humano e de origem mais social que sexual. Uma criança criada á vontade, embora tímida, não tem absolutamente pudor2. Todos conhecem as "inconveniências", em palavras e atos, das crianças e a maneira ingenuamente encantadora com que desprezam as convenções que os mais velhos querem impor-lhes ou como, no desejo de proceder bem, fazem tudo torto ao

executar as ordens. Por exemplo: a criança que imagina que para se cobrir com pudor basta pôr qualquer pedaço de fazenda em volta do pescoço. No estado de civilização, a convenção do pudor precede de muito o desenvolvimento real dele. Bell verificou que, até á idade de nove anos, as meninas são muito mais agressivas que os rapazinhos e que nesse momento começam a se tornar pudicas3. Podese dizer que o desenvolvimento completo pudor se produz no momento da puberdade4; e podemos admitir, com Perez5, um dos raros autores que, trataram da evolução desta emoção, que o pudor aparece mais cedo se o desejo sexual aparece igualmente mais cedo. Contudo não teremos o direito de pretender que o pudor seja uma emoção de ordem unicamente sexual. As impulsões sociais se desenvolvem, também, no momento da puberdade, e é a essa coincidência que é devida, em maior parte, a natureza complexa do pudor. O fator sexual, entretanto, é o elemento mais simples e mais primitivo do pudor e pode, por conseguinte, ser mencionado em primeiro lugar. Quem quer que examine uma cadela que não esteja no cio quando dela se aproxima um macho, com a cauda a bater galhardamente, perecebe os começos do pudor. Se os gestos do cão se tornam um pouco insistentes, a cadela dobra as pernas traseiras e apoia-se com força sobre as dianteiras: senta-se, isto é, toma uma atitude que equivale exatamente aquela que, para a espécie humana, é caracterizada pelo gesto da Venus de Médicis, desviando o pélvis e protegendo com uma das mãos o púbis, e com a outra os seios6. Nos dois casos, o gesto tem por fim proteger os centros sexuais contra os ataques, não desejados, do macho7. Stratz, fazendo a crítica desta passagem, pretende, com o apóio de fotografias de mulheres nuas, que a atitude normal da européia surpreendida consiste em cruzar os braços sôbre os seios, região sexualmente a mais atraente, em apertar as coxas, cruzando-as, em levantar os ombros e em desviar ligeiramente o dorso; ás vezes, acrescenta ele,

os braços são cruzados sobre o peito e as mãos tapam o rosto. A Venus de Médicis seria tão somente uma linda mulher coquete, ao passo que a Venus de Canova (Pitti), com a sua túnica e os seus braços cruzados, exprime com muito mais exatidão o pudor. Mas Stratz admite que uma mulher surpreendida, olhada durante algum tempo, desvia a cabeça, baixa as pálpebras, cobre com uma das mãos o pubis ou qualquer outra parte que estejam a olhar com atenção e com a outra mão os seios ou o rosto ; isto, segundo Stratz, seria a expressão secundária do pudor 8. É exato que a Venus de Médicis exprime apenas uma convenção artística, uma tradição generalizada de modo algum buscada na observação precisa dos gestos do pudor. E é igualmente verdade que os movimentos instintivos notados por Stratz são em geral os das mulheres surpreendidas no estado de nudez. Mas na ausência de séries de observações feitas com cuidado, não poderíamos decidir se a atitude encarada por Stratz como secundária não é antes primária num grande número de casos. O gesto primitivo de uma mulher surpreendida deve ser o de defender os centros de atrações sexuais, isto é, os seios, sem dúvida, mas em primeiro lugar o púbis. A atitude exata e o gesto particular das mãos diante de um fim idêntico podem variar com os indivíduos e as circunstâncias. Pode acontecer que a mão não seja utilizada como obstáculo, como o ato de virar as costas ante o agressor. A mulher fueguina fotografada por Hyades e Deniker, que protege o púbis da objetiva, é um paralelo exato desta Venus romana descrita por Ovídio 9 Ipsa Venus pubem quoties velanima ponit, Protegitur loeva semireducta manus. Acrescentarei que os homens jovens das classes inferiores, pelo menos da Inglaterra, quando se banham nus no mar, cobrem os órgãos sexuais com uma mão ao sair da água e ao entrar na praia. O pudor sexual do animal fêmeo tem raízes na

periodicidade sexual e é uma expressão involuntária deste fato orgânico de que o momento dos amores não chegou. Como acontece o mesmo na mor parte dos animais inferiores ao homem, essa expressão de pudor se torna um gesto habitual executado mesmo quando não há razão de ser. É assim que a cadela em estado de cio corre atrás do macho, depois foge e não se deixa cobrir senão depois de ter oposto certa defesa. Assim o pudor se torna alguma coisa mais do que a recusa do macho: torna-se um envite e mistura-se com tudo o que é sexualmente desejável na mulher. Isto já bastaria para explicar a existência do pudor como caráter sexual secundário de ordem psíquica. É neste sentido, e somente neste sentido, que se pode dizer com Colin Scott que "o sentimento de pejo deve ser vencido". O pudor está assim em relação com a sua representação física, o hímen, cuja ruptura, conforme a observação de Groos, acarreta também até certo ponto uma, "ruptura de pudor". O pudor sexual da fêmea é um produto secundário inevitável da atitude forçosamente agressiva do macho e da atitude naturalmente defensiva das fêmeas; e essas atitudes por seu turno estão em conexão com o fato de que, num certo número de espécies, o homem compreendido, a função sexual das fêmeas é periódica e deve ser protegida contra o sexo oposto, ao passo que no macho não tem, ou pelo menos só o tem raramente, necessidade de proteção. Sem dúvida, o próprio macho humano está submetido a certa periodicidade, mas esta não acarreta nenhum elemento de medo sexual. O macho e a fêmea devem ambos acautelar-se durante a consumação do ato sexual, dos rivais ciumentos ou dos inimigos que se podem valer da sua posição para os atacar. É muito provável que ai esteja um fator importante na formação do pudor; contribui para explicar por que motivo o macho tem, tanto como a fêmea, pudor, e receia praticar em público as funções sexuais. Northcote insi. tiu especialmente sobre este elemento provindo do temor dos rivais: "Que o desejo de se colocar ao abrigo de qualquer motivo de temor tenha feito nascer um sentimento

instintivo de que o ato sexual deva sempre ser praticado secretamente, é fato de ordem natural. E como não vai muita distância idéia de que um ato deva ser secreto á idéia de que é mau, compreende-se facilmente que as relações sexuais tenham podido Chegar a ser encaradas como um prazer roubado, e por conseguinte, até certo ponto, pecaminoso10. Os animais em estado livre têm forte tendência para se ocultarem afim de praticar o ato sexual; essa tendência é r. entre os animais domésticos. Os selvagens mais atrasados procuram a solidão das florestas ou a proteção das choças; os raros casos em que o coito se pratica em público apresentam caráter cerimonial ou social de preferência a ato puramente individual. Em Loango, por exemplo, seria considerado como vergonhoso copular num lugar em que o público pudesse ver; devem retirar-se para a choça, fechá-la e tomar cuidado para que ninguém esteja presente11. É sobre o fator sexual do pudor, tão acentuado até nos animais, que repousa o coquetismo. Sinto-me feliz por ter o mesmo ponto de vista do prof. Groos, que, no seu estudo aprofundado do instinto da requestação 12, chegou á mesma conclusão. Longe de ser um jogo cruel, pelo qual a mulher demonstra o seu poder sobre o homem, o coquetismo apresenta "uma grande importância biológica e psicológica; pois tem raízes no antagonismo entre o instinto, sexual e o pudor inato". K. Groos cita o caso da corça, que foge diante do cervo... mas descrevendo uma circunferência13. "É bem verdade, escreve-me uma dama, que o coquetismo não vale grande coisa, podendo qualquer criada praticá-lo: luas é para as mulheres uma excelente arma defensiva, por lhes permitir ajuizar do homem". Isto concorda com a observação de Marro, de que o pudor permite á mulher "submeter os galanteadores á prova, afim de escolher aquele que é o mais capaz de servir ao fim natural do amor."É, sem dúvida alguma, a necessidade

desse período de prova das qualidades masculinas que faz que as mulheres repilam instintivamente um adorador de demasiada impaciência e demasiado ardor. Pois, como observa Arthur Macdonald, "parece ser instinto nas mulheres jovens o repelir um galanteador impetuoso, sem levar absolutamente em conta o seu caráter, a sua habilidade e aptidões". Este elemento essencial do namoro, esta atitude fundamental do perseguidor e da perseguida, se vê nitidamente nos animais é nos selvagens. É igualmente muito pronunciado na mor parte das mulheres e dos homens civilizados e manifesta-se sob formas ao mesmo tempo brutais e apuradas. O "Angelo" de Shakespeare, cuja virtude tinha resistido a todas as tentativas do vício, descobriu afinal que "o pudor das mulheres pode mais facilmente enganar-nos os sentidos que a sua leviandade". "Para quê, pergunta o prudente Montaigne, serve a arte desse pejo virginal, essa frieza calculada, essa atitude severa, essa profissão de ignorância das coisas que elas, conhecem melhor do que nós que as instruimos, senão para nos aumentar o desejo de vencer, dobrar, dominar á vontade, toda essa cerimônia, e seus obstáculos? Pois há não somente prazer, mas glória também, em aloucar e perverter essa branda doçura e esse pudor infantil, e pôr á discrição do nosso ardor uma gravidade fria e soberana14." A atitude do macho em presença da reserva feminina pode facilmente se transformar em uma espécie de sadismo; mas não e menos, na origem, uma impressão inocente e instintiva.. Restif de la Bretonne, descrevendo a própria timidez quando, rapaz bonito, as raparigas o perseguiam para beijá-lo, acrescenta: "Mas o que deve admirar é que eu imaginava que teria prazer em beijar uma rapariga contra a vontade dela, em inspirar-lhe timidez; em obrigá-la a fugir, e em persegui-la: sentia que era esse o meu papel, e ardia por desempenhá-lo15." Isto é o instinto do ingênuo e do libertino, ao mesmo tempo. Os Arabes elaboraram um ideal erótico de sensualidade, atribuindo

extrema importância ao pudor feminino; declaram que a melhor mulher é "aquela que não vê os homens e que os homens não vêem"16. Esse pudor das mulheres em face dos homens por ocasião do namoro está intimamente ligado aos costumes do casamento e aos ritos mágicos dos semi-civilizados; e sobrevivem em inúmeras práticas modernas17. A prostituta deve saber simular o pudor que está longe, o mais das vezes, de experimentar, e a imensa vantagem erótica da inocente sobre aquela que o não é, se caracteriza sobretudo por serem fortes e frescos os seus reflexos pudicos. Cumpre notar que, na paixão erótica, tanto normal como anormal, o desejo te dirige antes a mulheres inocentes do que a mulheres viciosas, e que os favores desejados, para serem verdadeiramente apreciados, devem ser obtidos antes por surpresa do que por consentimento mútuo. Um fetichista do pé escreve-me: "É a vista furtiva de um lindo pé ou de um lindo tornozelo que me causa o maior efeito." Um simbolista urolágnico18 ficava principalmente excitado pela vista de uma mulher que urinava sem suspeitar que fosse observada. Um admirador fetichista das nádegas só desejava ver essa região em meninas, mas não em prostitutas. O exibicionista só se mostra a moças aparentemente respeitáveis. Mas a mulher não pede tanta inocência ao homem. Não podia, aliás, ser de outra maneira. Esta emoção só faz parte do papel da perseguida, não acrescentando nenhum atrativo ao papel do perseguidor. Não obstante, existe um desejo análogo na mulher, mais ou menos expresso; um desejo pelo prazer roubado ou proibido. É um erro crer que haja nisso indício de vício ou de perversidade. É, de fato, urna impulsão que se apresenta muito naturalmente em mulheres perfeitamente inocentes. O encanto excitante do risco e do perigo se opõe, no fundo da alma feminina, ao medo e á timidez. Encontramos já a expressão disso no mito de Eva e do fruto proibido, tão frequentemente interpretado como o símbolo dos órgãos genitais

masculinos. Levando em conta essa tendência é que muitas vezes têm sido tachadas de insensatas as restrições impostas ás mulheres em matéria de amor. Citando o grande escritor italiano que se tornou o papa Pio II, Robert Burton observa: "Sou da opinião de Aeneas Sylvius, de que esses italianos ciumentos andam mui errados encerrando as mulheres, pois é da natureza das mulheres desejar justamente o que lhes proibem, procedendo menos mal quando têm toda a liberdade de ação19." É instinto espontâneo e natural no apaixonado querer a. amante pudica; não é absolutamente de sua parte urna opinião refletida a de que o pudor seja uma emoção sexual. É verdade, contudo, que o pudor é a expressão de uma impulsão erótica feminina. Temos aqui um caso (há muitos outros) dessa harmonia previamente disposta e instintiva por meio da qual a natureza procurou atingir com a maior eficácia a meta do namoro. Quanto ao próprio fato, não poderá deixar nenhuma dúvida. Apresenta-se continuamente aos observadores cuidadosos e foi constatado de ha muito por aqueles que se ocuparam especialmente desta questão. Venette, um dos primeiros que tratou da psicologia sexual, discute a questão a fundo e conclui dizendo que a mulher tímida é uma apaixonada mais ardente que a mulher audaciosa20. Restif de la Bretonne, que bem conhecia as mulheres, diz da mesma forma: "Por isso devemos encarar a donzela mais pudibunda, que cora mais, como a mais talhada para os prazeres do amor"; acrescenta que, tanto nos rapazes como nas donzelas, a timidez é uma consciência prematura da sexualidade21. Esta observação chegou a constituir até um provérbio: Faz como as donzelas, diz não, mas aceita", adágio escocês que corresponde ao adágio gaulês: "Quanto mais recato finge, menos casta é 22." Não se percebe muito bem á primeira vista como uma atitude extremamente tímida e pudica se transforma em seguida em ardor por ocasião da intimidade sexual com o homem, e muitas vezes acusam então a mulher de

hipocrisia. Todavia, não há nisso nenhuma hipocrisia. A mulher tímida e reservada se recusa á intimidade na amizade comum, porque é muito sensível aos juízos de outrem e teme que a menor ação impudica contribua para que se forme uma opinião desfavorável a seu respeito23. Mas com um amante, estando segura de que os seus atos serão interpretados favoravelmente, essa barreira de pudor cai e a intimidade que daí resulta se torna tanto mais agradável á mulher quanto ela é obrigada a constranger-se diante de estranhos. Acontece assim que mulheres mui pudicas na vida comum são incapazes de guardar moderação quando estão com o homem em que depositaram confiança. O mesmo acontece com os homens pudicos e sensíveis. Sem dúvida este fator propriamente animal, e que faz parte da vida sexual de todos os mamíferos superiores, não poderia, por si só, explicar todos os fenômenos do pudor. Cumpre-nos, portanto, examinar outro fator, igualmente importante, o fator social. Não se poderia duvidar de que uma das características sociais Mais primitivas e espalhadas do homem seja a aptidão para o nojo; é baseada numa aptidão mais primitiva ainda, puramente animal, mas que tem pouca importância social. Em quase todos os povos encontra-se essa aptidão para o nojo em presença de certos atos de outrem, emoção que reage naturalmente sobre os atos do indivíduo que a experimenta e por conseguinte regula a sua conduta social24. Os objetos de nojo variam infinitamente segundo as circunstâncias e os hábitos dos diferentes povos, mas por toda parte a reação do nojo é fundamental. O melhor estudo que conheço do fenômeno do nojo é o de Ch. Richet25. Conclui dizendo que é o que é perigoso e o que é inútil que provoca o nojo. Sendo as excreções e as secreções digestivas e sexuais quer inúteis, quer, segundo opiniões mais ou menos universais, mui perigosas, a região genito-anal se tornou um centro de repugnância26. É, sem a

menor dúvida, por esse motivo que os homens, entre os selvagens, demonstram pudor, não somente com respeito as mulheres, mas também com relação ao próprio sexo, e tantos semi-civilizados tomam precauções minuciosas para executar as funções naturais. A afirmação tantas vezes repetida, de que o fim primário das vestes é antes o de chamar a atenção do que o de ocultar, contém sem dúvida uma parcela de verdade, mas nada mais. Parece difícil não admitir que exista, paralelamente á impulsão de acentuar as diferenças sexuais, nos semi-civilizados, uma impulsão nativa, nos dois sexos, de ocultar esses órgãos; e não poderíamos explicar só pela teoria da atração sexual a repugnância que experimentam os selvagens em retirar a cinta ou a tanga. Parecerá útil expor aqui algumas práticas colhidas em diferentes povos. Falarei primeiramente do pudor manifestado no momento da refeição. Onde esse pudor existe, melindra-se o pudor comendo em público: o homem pudico se oculta para comer. A indecência, diz Cook, era desconhecida entre os Taitianos; mas não comiam juntos; até irmãos e irmãs tinham cada um seu cesto de provisões e de ordinário se sentavam distanciados uns dos outros, dando as costas27. Os Varruas da África central, segundo Cameron, cobriam o rosto para beber e não permitiam que ninguém os olhasse quando bebiam ou comiam, de sorte que cada homem ou mulher devia ter sua morada particular28. K. von den Steinen diz dos Bacairis do Brasil central que. não têm pejo de se mostrar nus em público, mas sim de comer em público; Hrolf Vaughan Stevens constatou que uma mulher Orang-Laut (Malásia) não queria comer diante do marido nem mesmo diante de qualquer homem e preferia sair ou dar o alimento aos filhos29. Assim o ato de comer em público ocasiona aqui os mesmos sentimentos que entre nós o fato de se mostrar nu diante de todos30. É fácil explicar a gênese desse sentimento. Desde que há falta de meios de subsistência, como é o caso

frequentemente nas populações semi-civilizadas, deve despertar no indivíduo uma emoção profunda e complexa de desejo e de desprazer ver outrem pôr na boca o que de bom grado poria na sua31. A reclusão especial ás vezes observada pelas mulheres é provavelmente devida ao fato das mulheres resistirem menos ás emoções despertadas em outrem, vendo-as comer. No decorrer do desenvolvimento dos sentimentos sociais, o homem não somente deseja comer com segurança, mas quer também evitar tornar-se objeto de desprazer e poupar aos amigos emoções desagradáveis. Daí essa regra de decôro de comer na própria casa; e aquele que come em público se torna objeto de nojo e de desprezo. Há muito tempo, quando era interno das maternidades londrinas, observei que entre as mulheres pobres, sobretudo naquelas que haviam passado da primeira mocidade, o pudor consistia a princípio no receio de parecerem repugnantes. Antes de mais nada, esforçavamse, apesar das dores e das moléstias, por não parecerem repugnantes aos olhos do médico. Este desejo expressavase pelos sintomas comuns do pudor. Mas desde que uma mulher tivesse percebido que eu nada via de repugnante no que as circunstâncias exigiam que se fizesse, todo sinal de pudor desaparecia32. Nas condições especiais e elementares da parturição, o pudor fica reduzido tão somente a este receio de causar repugnância. De sorte que, se esta possibilidade é afastada, a emoção desaparece e a paciente se torna, sem esforço, reta e natural como uma criancinha. Um amigo meu, que fizera a mesma observação, a saber, que se tivesse cuidado em resguardar o pudor da mulher, esta ficaria pudica, senão, não, falou-me a respeito com azedume: parecia-lhe que poder ele mesmo fixar os limites do pudor da mulher era uma diminuição desta33. Pensei então, e ainda penso assim, que aqui se trata antes de uma perversão e que uma coisa não "diminue" pela razão de lhe termos apreendido o mecanismo. Estou convencido mais do que nunca que o mêdo de causar repugnância, medo muito diferente

daquele que se tem de perder um atrativo sexual ou faltar a etiqueta social, ocupa lugar importante no pudor do sexo mais pudico e no pudor em geral. As nossas Venus, como Lucrécio notou há muito tempo, e Montaigne depois dele, têm o cuidado de ocultar aios amantes as vitoe postscenia, e esse destino fantasista que colocou lado a lado o foco principal de atração física e o da repulsão, muito contribuiu para a formação dos coquetismos mais sutis durante o namôro. Tudo o que estimula a confiança e afasta o mêdo de provocar repugnância, seja a presença de uma pessoa amada, seja a influência de uma intoxicação ligeira, afasta também automaticamente a emoção de pudor34. asse mêdo social de causar repugnância parece-me tão essencial, na constituição do pudor, corno o fator animal da recusa sexual. É sem dúvida impossível pretender que esse fato, o da região sacro-púbica ser o centro principal a ocultar, prove a importância desse fator do pudor. Mas pode-se ousadamente sustentar que essa posição é devida a estar essa região próxima ao mesmo tempo do centro principal de excreção. Mesmo entre os mamíferos inferiores, bem como entre os insetos e os pássaros, constata-se o horror bem acentuado á imundície, dependendo, é claro, da maneira por que cada espécie define a "imundície". Muitos animais empregam mais tempo e trabalho para se conservarem limpos que a espécie humana e apressam-se a afastar os excrementos ou a afastarem-se deles35. Podese, pois, dizer que esse elemento do pudor tem também uma base animal. É sôbre ele que se baseia o medo humano e social de provocar nojo. A Sua grande extensão se revela não só pelo poderoso sentimento que leva a ocultar de preferência essa parte do corpo, com o auxílio de enfeites ou de vestes propriamente ditas, mas também pela repugnância quasi geral dos selvagens mesmo inf eriores em satisfazer em público as suas necessidades naturais, repugnância que tem por consequência um asseio superior ao dos

civilizados36. Cumpre observar que, em certos povos, é a parte posterior que é coberta, de preferência á anterior; este fato, entretanto, pode ser interpretado de várias maneiras. Nos povos civilizados, igualmente a sede final e invencível do pudor não é, ás vezes, o pubis, mas o anus; isto quer dizer que neste caso o mêdo de causar asco é o elemento fundamental do pudor37. A concentração do pudor em tôrno do anus é ás vezes muito acentuada. Muitas mulheres experimentam tal vergonha a respeito do que concerne a esta região que se tornam relativamente indiferentes ao exame da região anterior38. Esse sentimento encontra-se ás vezes no homem. Um correspondente escreve-me: "Permitiria um exame das minhas partes genitais por um médico sem nenhum sentimento desagradável, mas preferiria morrer a sujeitar-me a um exame anal." Conhecem-se médicos que sofreram durante anos desordens retais dolorosas, preferindo isso a deixarem-se examinar. "Observei muitas vezes, escreve-me um médico, entre as donzelas inglesas, que o pejo e a repugnância pelas relações sexuais depois do casamento são simplesmente devidos ao fato de estar a abertura sexual muito próxima do anus e da bexiga. Se a vulva e a vagina estivessem situadas entre os omoplatas e se o homem tivesse um membro especial para o coito, não servindo a nenhuma função de excreção, as mulheres, creio, não experimentariam a respeito do ato sexual os sentimentos que tão comumente manifestam. Além disso, em consequência da sua ignorância em anatomia, as mulheres acreditam frequentemente que a vagina e o útero são uma parte dos intestinos e um conduto de saída destes; dirão, por exemplo, inflamação dos intestinos em vez de útero. E mais, amor parte das mulheres acreditam que a urina passa pela vagina e ignoram a existência de um orificio uretral especial. Depois, as mulheres associam a vulva ao anus e, por consequência, ficam envergonhadas, ao falar desse assunto, seja ao marido, ao médico, seja em

conversa entre elas; não têm expressão especial para vulva (refiro-me ás mulheres das classes superiores e médias) e dizem down below ou low, down, o que fica bem em baixo39." Ainda que esse sentimento repouse, na mor parte, em idéias errôneas, cumpre reconhecer que é até certo ponto natural e inevitável. "Como, exclama Dugas, não estaria o pudor sempre alerta e inquieto? Que mulher poderia repetir sem risco o gesto tranquilo de Frinéia? E nesse próprio gesto, quem sabe? quanta Insolência profissional não entraria40." Schurtz observa41: "O homem e a mulher têm certamente o poder de se completar e de se enriquecer mutuamente; mas se isto não é possível, a diferença acarreta uma poderosa antipatia"; e expõe a considerável significação desse fato psíquico. Insisti sôbre a proximidade dos centros de excreção e do centro sexual porque, analisando uma emoção tão complexa e tão fugidia como o pudor, devemos chegar a definir, o mais exatamente possível, os fatos essenciais e fundamentais sôbre que repousa. Mal é mister indicar que, nas sociedades civilizadas, esses fatos não estão ordinariamente presentes na superfície da conciéncia e até podem faltar; é deles, entretanto, que podem provir todas as espécies de mêdo, de reservas delicadas, de requintes estéticos, á medida que as emoções do, amor se complicam e se sutilizam e que a simplicidade brutal, que lhes constitue a basç, necessariamente se atenua. Outro fator do pudor que se apresenta sob uma forma muito desenvolvida nas sociedades selvagens é a idéia de impureza cerimonial. Ela se baseia no terror das influências sobrenaturais que se supõe exercerem as funções e órgãos sexuais. Esta idéia provém talvez em parte dos elementos que acabam de ser analisados, mas nos arrasta a um domínio muito mais vasto que o do pudor. Foi estudado a fundo por J.-G. Frazer42 e por E. Crawley43, e só falarei dele

aqui rapidamente. O mêdo de contravir ao ritual, embora mais grave do que o de faltar ao recato sexual ou que o de causar repugnância, é tão aproximado destes que se reforçam todos uns aos outros e não podem ser dissociados facilmente. Quasi em todos os povos que se acham num estádio relativamente primitivo do desenvolvimento sexual, e mesmo, até certo ponto, nas civilizações mais avançadas, a vista dos órgãos sexuais ou do ato sexual e a representação ou mesmo o nome das partes sexuais do homem como da mulher são encarados como possuindo uma influência particularmente poderosa, ás vezes benfazeja, mas o mais das vezes maléfica. Essas duas qualidades de influência podem ser combinadas e Riedel, citado por Ploss e Bartels44 narra que, nas ilhas de Ambon e de Uliase (Arquipélago indico), os indígenas gravam na casca das árvores frutíferas a representação de uma vulva, ao mesmo tempo para aumentar a fecundidade dessas árvores e para manter á distância os ladrões. As prescrições citadas acima relativas ao coito nos negros de Loango estão evidentemente associadas a terrores religiosos. Da mesma forma, em Ceilão, segundo me escreve um correspondente médico, onde encaram o penis como sagrado, nenhum indígena mostrará esse órgão, salvo forçado, a um médico e nenhuma mulher deve tocálo, nem pedir o ato, ainda que a este se deva submeter tanto quanto o desejar seu marido. Todos os povos selvagens ou bárbaros que elaboraram um sistema ritual, integraram-no com as funções não somente sexuais, mas também de excreção, com maior ou menor precisão45. Bastar-me-á lembrar os livros rituais dos Judeus, Hesiodo e os costumes das populações muçulmanas. O pudor durante a refeição se baseia, também, não somente no medo de provocar repugnância, mas em grande parte também nessa sorte de ritual, e Crawley demonstrou, com o auxílio de numerosos exemplos, quais são, nos povos semi-civilizados, as

regulamentações religiosas do beber e do comer46. Tão poderoso é esse mêdo do mistério sexual, e tão espalhado o ritual que lhe diz respeito, que alguns acreditaram encontrar ai a explicação completa do pudor. É assim que Salomão Reinach declara "que na origem do pudor se encontra um tabú47." Durkheim48 pensa que a repugnância que as mulheres inspiram deve localizar-se forçosamente no pubis, que em consequência fica submetido ao tabú mais poderoso e propõe, de passagem, ver-se aí a origem do pudor: "Os órgãos sexuais devem ser cobertos muito cedo para prevenir os eflúvios perigosos que deles se escapam. O véu é muitas vezes um meio para interceptar a ação mágica. Uma vez inventada, esta prática deve manter-se e transformar-se." Foi sem dúvida alguma em consequência de uma transformação secundária que o véu se tornou entre os Romanos e na Igreja Católica o sinal da consagração aos deuses49. A interdição moisaica50 de descobrir uma mulher durante as regras está em relação com esta mesma idéia de impureza, mas, desta vez baseada na idéia de que o processo da menstruação é uma expulsão perigosa de humores viciados. Daí o termo katharsis aplicado a esse processo pelos Gregos e o aforismo de Boécio: mulier speciosa templum oedificatum super cloacam. É provável que o costume muçulmano de cobrir o rosto ou a cabeça nada mais seja que outro aspecto desse ritual do pudor. Cumpre recordar que esse costume não é de origem muçulmana, pois existia entre os Árabes ante-islâmicos e foi descrito por Tertuliano51. Na antiga Arábia, os homens muito belos cobriam igualmente com um véu o rosto, afim de se preservarem do mau olhado e supôs-se, com razão, que o costume feminino provém dessa precaução mágicoreligiosa52. Pode ser também que a injunção de S. Paulo53 ás mulheres para que cubram a cabeça "por causa dos anjos" signifique que, se não a cobrem, ficam expostas aos ataques das potências más, assim como as mulheres de. Ceilão acreditam que lhes cumpre conservar a vulva coberta, com medo que os demônios por ali penetrem.

Mesmo hoje, a injunção de S. Paulo é obedecida no Cristianismo, embora ignorem de ordinário de que crenças folclóricas ela provém. Em nenhum pais católico, urna mulher entrará numa igreja sem cobrir a cabeça com um lenço ou qualquer peça do vestuário; nos paises protestantes, essa prática desapareceu em parte, mas com grande reprovação do clero. Em 1905, um vigário de Cornouailles fechou "com pesar e vergonha" a igreja, fora das horas de serviço religioso, em consequência unicamente da "conduta desrespeitosa de inúmeras mulheres que penetram na igreja sem se cobrir e crêem que se pode entrar na casa de Deus sem pôr na cabeça um sinal de respeito e de pudor." Tomarei a Crawley um certo número de casos concernentes á significação do véu: "A timidez sexual, tanto no homem como na mulher, intensifica-se por ocasião do casamento e desempenha grande papel na formação das qualidades temidas por um e por outro. Quando é inteiramente cerimonial, essa idéia torna a forma de crer que a satisfação desses sentimentos lhes acarreta a neutralização, o que de fato acontece. Em Esparta, o noivo jantava na noite de núpcias com os homens, depois ia ver a noiva, de quem se separava antes de romper a aurora; isto se repetia todas as noites e ás vezes nasciam crianças antes que os cônjuges se tivessem visto durante o dia. Por ocasião dos esponsais, nas ilhas Barbar, o noivo deve pôrse á procura da noiva num quarto quasi escuro; isto pode durar muito tempo se a noiva fôr tímida. Na Africa do Sul, o noivo não pode ver a noiva senão depois de terminadas todas as cerimônias do casamento. Na Pérsia, um marido só vê a mulher depois da consumação do casamento. Na Arábia do Sul, os noivos devem ficar imóveis desde meiodia até meia-noite, jejuando, sentado cada qual num quarto; a noiva é atendida por mulheres e o noivo por homens; só se podem ver depois da quarta noite. Na Egito, o noivo só pode ver a fisionomia da noiva após a posse completa; depois vem a cerimônia da retirada do véu. Em Marrocos, na festa que precede o casamento, os noivos se

sentam numa espécie de trono; a noiva deve ficar com os olhos fechados e imóvel como uma estátua; o casamento efetua-se no dia seguinte; levam-na quando escurece, á nova residência, com lanternas e velas; dois parentes, segurando-lhe cada qual uma das mãos, conduzem-na 'de olhos cerrados através das ruas; uma mulher sustém-lhe a cabeça por trás; está coberta por um véu e só pode abrir os olhos quando sentada no leito conjugal, com uma amiga ao lado. Entre os Zulús, o cortejo nupcial conduz a noiva á residência do noivo, cercando-a para ocultá-la; colocam-se em face do noivo e a jovem canta uma canção; depois, derepente, todos se afastam vemo-la, de pé, no centro, com o rosto coberto por uma renda de pérolas. Nas populações de Kumann, o marido só vê a mulher após a junção das mãos. Entre os Beduínos da Africa norte-oriental, a noiva é conduzida, ao cair da tarde, pelas amigas á casa do noivo, cuidadosamente encoberta. Entre os Judeus de Jerusalém, a noiva cobre-se com o véu nupcial, com os olhos cerrados de maneira a não ver o rosto do jovem antes de ter alcançado a câmara conjugal. Na Melanésia, a noiva é carregada por homens até a morada do noivo, envolta em esteiras e com um leque de fôlhas de palmeira diante do rosto, para indicar que é tímida e pudica. Entre os Damaras, o noivo só pode ver a noiva quatro dias após o casamento; quando uma mulher damara é pedida em casamento, cobre durante algum tempo o rosto com os pendentes de um toucado especialmente feito para tal fim. Entre os Tlinquites, a noiva deve olhar para o chão e conservar a cabeça coberta durante todo o tempo do noivado; no último dia fica escondida num recanto da casa, onde o noivo não tem o direito de entrar. Por ocasião do casamento entre os Iezidís, a noiva é coberta, com um véu espêsso, dos pés á cabeça; chegada á sua nova residência, oculta-se por detrás de uma cortina num recanto quasi escuro, e ali fica três dias sem que o marido tenha o direito de a ver. Na Coréia, a noiva deve cobrir o rosto com as longas mangas do seu vestido54, ao encontrar o noivo no dia de núpcias. A noiva manchú só descobre o rosto pela

primeira vez ao descer do leito nupcial. É perigoso até ver pessoas perigosas: a vista é um meio de contágio segundo a ciência primitiva e a idéia coincide com a aversão psicológica de ver coisas perigosas assim como com a timidez sexual. Nos costumes acima referidos, podemos distinguir o sentimento de ser perigoso para a noiva que o olhar do noivo caia sôbre ela e o sentimento de pudor que a impede, a seu turno, de levantar os olhos para ele e de se deixar ver. Estas idéias explicam a origem do véu nupcial e outros processos de ocultar-se. O véu nupcial é empregado, pua citar apenas alguns exemplos, na China, na Birmânia, na Coréia, na Rússia, Bulgária, Manchúria e Pérsia e, em cada caso, cobre completamente o rosto55." Alexandre Walker, escrevendo em 1846, observa que "para as pessoas ainda fiéis aos velhos costumes, como se encontram entre os habitantes da classe média do campo na Inglaterra, é indecente mostrar-se com a cabeça descoberta. Uma mulher surpreendida nesse estado grita de terror e corre a esconder-se56." Bastou até aqui aludir á relação que liga o pudor ao vestuário. Procurei demonstrar este fato certo, mas muitas vezes olvidado, que o pudor é originalmente independente do vestuário, isto é, o pudor psicológico precede o pudor anatômico, e que os fatores primitivos do pudor existiam muito antes da invenção quer dos ornamentos quer das vestes. A invenção destas últimas fundou-se primitivamente na base psíquica primária de uma emoção já completa. Note-se que os dois fatores elementares devem naturalmente tender a se desenvolver e a se unir numa emoção ainda mais complexa, se bem que menos intensa. A impulsão que impele a fêmea animal, como certas mulheres africanas desprovidas do cinto, a sentar-se no chão, torna-se em seguida um gesto apurado e a oportunidade da invenção de ornamentos e de vestes. Importante progresso é este ato primário de defesa contra o macho tornar-se em gesto de defesa contra a vista. É assim que se explica a localização do pudor em diversos

pontos do corpo, mesmo não tomando em consideração aqui a influência do mau olhado. Os ¡cios tornam-se muito cedo um centro de pudor nas mulheres, como verificamos estudando os povos nus ou quasi nus, como os negros. A tendência de se tornarem as nádegas o centro principal do pudor em diversas regiões da África, explica-se talvez, na mor parte das vezes, por ser o desenvolvimento enorme das regiões glúteas, em geral, o maior atrativo das mulheres africanas57. A mesma causa contribue sem dúvida a fazer do rosto, em certos povos, a sede do pudor. Reconhece-se a influência desta defesa contra o olhar dos estranhos nas precauções especiais de gesto ou de vestuário, tomadas pelas mulheres em diversas regiões do mundo contra os olhares mais perigosos dos Europeus civilizados. Mas sendo essa defesa principalmente dirigida contra o olhar, mais do que contra o gesto, o pudor tende a se aproximar do coquetismo. Quando não existe nenhum perigo de ação realmente ofensiva, não há absolutamente necessidade de defesa propriamente dita e não se experimenta nenhuma ansiedade séria em face de um convite disfarçado. É assim que se abre larga via de acesso ás comédias do requestar civilizado. Da mesma forma o mêdo social de provocar repugnância combina-se muito bem com toda invenção nova de ornamentação e de vestuário que sejam atrativos sexuais. Muita vez observaram que, mesmo nos povos mais civilizados, a moda no vestuário feminino (e nos perfumes) apresenta esse duplo fim de atrair e ocultar. Já acontece assim com a pequena tanga da "beldade" selvagem. O aumento de atrativos não é, evidentemente, senão um desenvolvimento lógico do mêdo de provocar nôjo. Pode ser, como observaram alguns etnógrafos 58, que as faixas intercrurais e outras vestes primitivas se expliquem por uma razão fisica, visto que protegem as partes mais sensíveis. Citarei a respeito a observação de K.

von den Steinen que diz que entre os Brasileiros do centro o ulurí tem por fim atingir um máximo de proteção com um mínimo de -ocultação". Entre os Ésquimos, segundo Nansen, o cordel intercrural é tão delgado que mal se vê; verifica-se isso examinando as boas fotografias de Holm. Contudo, originalmente, não é por proteção que se prendem ao corpo certos objetos. É assim que os Australianos do centro não usam vestes, embora padeçam muito com o frio, mas unicamente faixas frontais, colares, braceletes, cintos finos de pele ou de cabelos e aveutaizinhos para as partes sexuais; estes, no entanto, não ocultam os órgãos, pois não são muito maiores que uma moeda e sao, além disso, brilhantemente decorados com terra branca de cachimbo; durante as cerimônias mágico-religiosas (corroborees), têm precisamente por fim chamar a atenção para os órgãos sexuais59. Quando no século XVIII Forster explorou as ilhas ainda virgens' do Oceano Pacífico, encontrou os indígenas nus, salvo as partes sexuais: "Mas ainda que todos, tanto os homens como as mulheres, tivessem cuidado de usar vestes, nada mais faziam do que acentuar o que tinham por objeto ocultar60." E acrescenta esta observação significativa: "Essas idéias de decôro e pudor não são praticadas senão a partir da maturidade sexual", da mesma forma que na Austrália central as mulheres só podem usar tanga a partir da puberdade. Há coisas, diz Montaigne, que são escondidas para melhor serem vistas. E deve-se, com Westermarck e outros, sustentar que o ornamento e o vestuário tiveram a princípio por objeto, não ocultar ou proteger o corpo, mas, na maioria dos casos, torná-lo sexualmente atraente61. Diante de tudo o que precede, não podemos olhar os ornamentos e o vestuário como a única causa do pudor, mas os sentimentos que se cristalizam em tôrno do vestuário constituem fator importante do pudor. Nalgumas tribus australianas os órgãos sexuais são

cobertos apenas, parece, durante as tansas eróticas; e, em algumas, regiões do globo, só as prostitutas andam vestidas. "Uma veste leve, observa Westermarck, foi reconhecida como sendo um. poderoso estimulante sexual." É certo que isto tanto se aplica aos selvagens como aos civilizados. Todos os observadores estão de acôrdo em reconhecer que a nudez dos selvagens, ao contrário do "decote" ou do "arregaçar" dos civilizados, não tem nenhuma ação erótica62. O Dr. Felkin diz, referindo-se' ás populações da África central, que não verificou em parte alguma tanta, indecência como no Uganda, onde a morte é infligida como sanção a todo adulto encontrado nu na rua63. O estudo dos quadros e das estátuas demonstra igualmente que a nudez total é mais casta que a nudez parcial. Du Maurier, em Tribly, dizia já: "É fato bem conhecido dos artistas que trabalharam com modelos nus (exceção feita de alguns, cujo pudor se apagou por terem olhado demais), que nada é tão cisto como a nudez. A própria Venus, deixando cair as vestes e subindo ao estrado de modêlo, deixa atrás de si, no chão, toda arma capaz de agir sôbre as paixões brutais do homem." E Burton64, depois de ter tratado longamente dos "Leurres de l'Amour"65, concluiu que os mais poderosos são os do vestuário. Os modelos femininos estão muito menos expostos aos atentados dos homens quando estão nus do que quando meio vestidos. Este elemento filosófico do vestuário foi expresso poeticamente de uma maneira admirável por Herrick, esse mestre em psicologia erótica, em "A Lily in Crystal", onde diz que um lírio num vaso de cristal, o âmbar num rio e morangos no creme ganham poderoso encanto por ficar em parte ocultos; e é assim, conclue êle, que obtemos: A rate, how far, to teach Y our nakedness must reach (Uma regra para saber até onde deverá ir a vossa nudez).

Sob éste ponto de vista também, citarei uma comunicação em que Stanley Hall, baseando-se em informes referentes a cerca de 1000 indivíduos, sobretudo preceptores, afirma que, das três funções do vestuário, proteção, ornamento e sentimento de si-próprio (Lotze), a segunda é a mais desenvolvida nas crianças 66. Isto é uma sobrevivência do ponto de vista "primitivo" a respeito do vestuário. Não se poderá dizer, entretanto, que o uso das vestes para acentuar as formas naturais do corpo se tenha desenvolvido por toda a parte. No Japão, onde a nudez não acarreta nenhuma idéia de vergonha, as vestes são usadas para abrigar e ocultar, mas não para revelar o corpo. O mesmo acontece na China. Um chinês que vivera muito tempo na Europa, disse um dia a Baelz que chegara pouco a pouco a compreender o ponto de vista curo peu, mas que mia impossível persuadir os seus compatriotas de que uma mulher que utiliza o vestuário para realçar o corpo possa ser, não obstante, uma mulher pudica67. A grande invenção estética muitas vezes posta por obra na fabricação de ornamentos ou de vestuário, mesmo mui diminutos, e o fato, ilustrado pelo ulurí dos Brasileiros do centro, de poderem servir de motivo na ornamentação geral, provam assaz que esses objetos atraem mais do que repelem a atenção. E se à mor parte dos povos experimentam grande repugnância em retirá-los, sobretudo se são muito pequenos, outras populações ignoram essa repugnância e até não se importam muito se a tanga está bem no lugar ou não. A presença ou a posse do objeto bastam para dar o sentimento do respeito a si-próprio, da dignidade humana, do atrativo sexual. É por isso que despir alguém, é humilhá-lo ; era assim desde os tempos homéricos, pois Ulisses ameaça Tiestes de o despir68. Entrado nos costumes o vestuário, um novo elemento de ordem socio-econômica vem aumentar-lhe a importância e reforçar o pudor anatômico das mulheres. Quero aludir á idéia de que a mulher é um bem que se

possue. Waitz, Schurtz, Letourneau, etc., encaram o ciúme dos maridos como a origem primeira do vestuário, e, indiretamente, do pudor. Diderot já tinha expressado essa mesma opinião. É certo que, num grande número de povos, só as mulheres casadas andam vestidas, ao passo que as solteiras, embora adultas, andam nuas. Da mesma maneira, em muitos lugares, como demonstraram Mantegazza e outros, em que os homens andam nus e as mulheres se vestem, o vestuário é considerado como uma espécie de inferioridade, sendo mui difícil fazê-lo adotar pelos homens. Antes do casamento, a mulher era livre, absolutamente não adstrita á castidade e ao mesmo tempo andava nua; depois do casamento usa vestes, e não é mais dona do seu corpo. Para o marido, o vestuário, consequentemente, aparece, contra a lógica, mas segundo a natureza, como uma proteção física, e moral contra todo ataque a esta sua propriedade69. Assim nasce um novo motivo, artificial é verdade, para atribuir á nudez das mulheres em caráter de fealdade. A idéia de propriedade aplicando-se também ao direito do pai sobre as filhas e desenvolvendo-se a noção de castidade, o motivo estendeu-se das mulheres casadas ás solteiras: é assim que uma mulher Ashanti (Dahomey) deve sempre ser casta, primeiramente como propriedade dos pais, depois como propriedade do marido70; e foi essa a razão que deu da castidade obrigatória, em pleno século XVII, o bispo Burnet71. Esse é provavelmente o elemento mais importante que os estádios bárbaros da civilização forneceram á elaboração dessa emoção tão complexa. Êsse fator econômico acarretou necessariamente a introdução no pudor de um novo elemento moral. Se a castidade de uma mulher é propriedade de outrem, é mister que ela seja pudica afim de não tentar os homens a incorrer nas sanções acarretadas por uma infração aos direitos de propriedade. O pudor é então inculcado ás mulheres em vista da salvaguarda dos homens; e, sendo o impudor desaprovado pelos homens, as mulheres aí

encontram novo motivo de pudor. No livro que escreveu no século XIV, Landry, o cavaleiro de La Tour, para a instrução das filhas, este fator do pudor está definido com ingenuidade. Narra ele os embaraços em que caiu David por culpa de Betsabé e aconselha a "cada mulher ocultarse religiosamente ao vestir-se e ao lavar-se, e nunca, por vaidade ou para chamar a atenção, mostrar os cabelos, o pescoço, o seio, ou qualquer outra parte que deve ficar coberta". Hinton chegou até a encarar o que ele chamava o "pudor corporal" como um costume unicamente imposto ás mulheres pelos homens, afim de preservar-lhes a própria virtude. Ainda que esse motivo esteja longe de ser a única fonte do pudor, não é menos verdade que deve ser considerado como uma resultante inevitável do fator econômico acima indicado. Parece que na Europa a idéia especial que, na Idade Média, formavam da cavalaria não deixou de influir sôbre as formas que, entre nós, apresenta o pudor. Quando em plena Idade Média, a familiaridade física entre os sexos parece ter sido muito maior do que o era alhures, por exemplo entre os povos bárbaros. Havia promiscuidade no banho e indiferença a respeito da nudez. Este estado de coisas, como bem o apreendeu Durkheim72, foi progressivamente modificado pelo cristianismo "que sempre considerou o comércio sexual com desfavor: toda aproximação demasiado íntima foi encarada como um passo para o pecado, e, por isso, proscrito"; além disso, "desde o tempo da cavalaria a mulher se tornou como a encarnação do ideal estético e mesmo moral, a representante por excelência de todas as elegâncias da civilização. A promiscuidade de outrora era incompatível com a dignidade de que a mulher passou, desde então, a se revestir; ela não se deixou, pois, aproximar mais com a mesma facilidade. Esta separação estabeleceu-se primeiramente na literatura, nos romances de cavalaria, depois estendeu-se á vida real. Houve assim, parece, uma curiosa reação do mundo da arte e da

imaginação sôbre o mundo da realidade". O novo matiz, não se poderia dizer o novo elemento, acrescentado ao pudor á medida que a civilização passa do estádio bárbaro ao estádio de civilização, é a elaboração do seu ritual de sociedade73. A civilização dilata o domínio do pudor e torna-o ao mesmo tempo mais variável. O século XVII francês e o século XVIII inglês representam estádios da civilização européia e ambos se consagraram especialmente a elaborar os detalhes mais minuciosos do pudor. Os frequentadores do palácio de Rambouillet, as Preciosas satirizadas por Molière, não se ocupavam apenas em apurar a linguagem: apuravam também os sentimentos e as idéias, dilatando os limites do pudor74. Na Inglaterra, escritores reputados e populares como Swift e Sterne atestam novo ardor pudibundo com as súbitas reticências e asteriscos, que pululam em suas obras. Esta nova afetação de pudor literário, de que é exemplo clássico Sterne, só podia brotar de um novo pudor então espalhado na própria sociedade. Os ociosos, principalmente as damas dos salões e dos estádios, mais ao corrente dos livros do que da vide real, estabeleceram as regras do pudor e inventaram novas sutilezas de gestos e palavras, que Rira indecoroso desprezar, mas que a própria difusão tornou vulgares. Foi então, parece, que se elaborou um vocabulário especial de palavras e frases para designar as funções e as partes do corpo consideradas impudicas. Esta gíria particular, que nasceu nas famílias e principalmente entre as mulheres e os amantes, é hoje quasi universal. Não é especial a esta ou áquela região da Europa, e Nicéf oro, que a estudou a respeito da Itália75, encara-a como uma arma de defesa social contra um meio hostil, visto permitir dizer as coisas com palavras ininteligíveis para todos os não iniciados. Sem dúvida, este costume mantém-se devido ás suas vantagens práticas, mas proveio, originariamente, do desejo de evitar o que é sentido como vulgar e impudico na linguagem precisa. Prova-o o fato de estar a gíria principalmente em relação com a região sacro-púbica;

constitue assim uma das principais contribuições da civilização ás manifestações do pudor; devíamos já ao pudor as vestes para o corpo, devemos-lhe agora as vestes para a linguagem. Mas embora esse costume date, na Europa, do começo do século XVIII, com relação á humanidade provém de muito mais longe. Como diz Dufour, "em toda parte, fazer é bem, dizer é mal". As reticências na linguagem não ficam inteiramente explicadas se dissermos que o pudor tende a irradiar dos atos para as palavras que os descrevem; pois o pudor tende a defender mais as palavras do que os atos. "As mulheres pudicas, observa com razão Kleinpaul, temem muito mais dizer coisas impudicas, do que praticá-las; pensam que a parra foi feita principalmente para a boca 76." Isso é uma tendência baseada sobre esse sentimento religioso e ritual que já encontrámos como fator do pudor e que, mesmo aplicado á linguagem, parece ser quasi instintivo, visto verificar-se nos selvagens mais primitivos, que encaram muitas vezes uma palavra como demasiado sagrada para poder ser pronunciada. Nas tribus da Austrália central, além do nome usual, cada indivíduo possue um nome sagrado que só é conhecido pelos membros iniciados do seu grupo totêmico; entre os Varramungas, as mulheres não têm nem o direito de pronunciar o nome usual de um homem, embora o saibam77. Esse sentimento é muito acentuado no que se refere á separação sexual. Em várias regiões do globo os homens têm uma linguagem que lhes é própria e as mulheres outra; a exogamia nem sempre basta para explicar este fenômeno78. Existe mais ou menos em toda parte um vocabulário especial para as funções e os órgãos sexuais. É assim que, no Queensland do Noroeste, há ao mesmo tempo um vocabulário decente e um vocabulário indecente; no dialeto mitakoodi, por exemplo, há a expressão me-ne para significar em sociedade a vulva, e Koon-ja e pukkil como termos secretos79. Entre os Malaios puki é a palavra que designa a vulva, mas muito indecente para ser pronunciada, só sendo empregada, por pessoas

em estado de exasperação80. As mulheres Swahelis (África oriental) possuem urna linguagem metafórica especial para falar de matérias sexuais81 e, em Samoa, as jovens empregam um eufemismo, analuma, para designar o penis82. O mesmo acontece hoje na Europa, mais geralmente entre as jovens camponesas do que entre as mulheres de classes mais elevadas. Pode parecer singular que os Romanos que, na literatura, nos causam a impressão de um povo vigoroso e sem santimônias, tenham revelado na vida quotidiana verdadeiro temor da linguagem obcena, superando, de muito, a atitude que se verifica na civilização atual. Esse temor baseava-se evidentemente, em última análise, em motivos religiosos. "As prostitutas de Roma, observa Dufour, tinham vergonha de pronunciar, publicamente, uma palavra indecente. As palavrinhas ternas usadas entre amantes e concubinas não eram menos corretas e inocentes quando a concubina era uma cortesã e o amante um poeta erótico. Êste chamava-a de sua rosa, sua rainha, deusa, pomba, luz, estréia e aquela, por seu turno, apelidava-o de joia, mel, pássaro, ambrosia, menina dos olhos, e nunca com uma exclamação licenciosa, mas unicamente com um Amabo, amar-te-ei! exclamação picante que resumia toda a vida e a vocação toda. Quando começavam as relações íntimas, tratavam-se mutuamente de irmão e irmã. Essas denominações eram usadas tanto entre as cortesãs mais humildes corno entre as mais orgulhosas83." Tão grande era o horror dos Romanos pela obcenidade que até os médicos eram obrigados a empregar um eufemismo para a urina, e ainda que o vas urina ruim fôsse francamente admitido á mesa84, o hóspede não podia pedi-lo pelo nome, mas tão somente com um gesto do dedo85. Na Europa moderna, a antiga literatura dramática realista de diversos paises revela que não havia horror especial pelas regiões sacro-púbicas e as suas funções até cerca do fim do século XVII. Há, todavia, uma exceção

digna de nota, com referência á menstruação. Não é difícil ver porque. Trata-se aqui de uma função peculiar a um só dos sexos. Por conseguinte, tende a exprimir-se por um vocabulário peculiar a esse sexo. O mais importante, porém, é que a crença espalhada entre os Romanos e todos os povos da terra, concernente ás propriedades perigosas e misteriosas do sangue menstrual, persiste durante a IdadeMédia86. O próprio nome menses já é um eufemismo e a mor parte dor; velhos termos científicos para designar esta função são igualmente vagos. Schurig informa-nos abundantemente sôbre a terminologia das mulheres antes do século XVIII 87; observa que, tanto em paises latinos como nos germânicos, a menstruação era comumente designada por qualquer palavra correspondente a flores, porque, diz êle, é a flor que presagia a possibilidade do fruto. As camponesas alemãs chamavam-na Rosenkranz (coroa de rosa) ; entre os outros nomes que cita, há-os que se aproximam dos atualmente usados; as italianas honravam esta função com o título de "marchese magnifico"; as damas alemãs diziam "Recebi urna carta", ou que o primo ou a tia tinha chegado. Andaríamos errados, entretanto, se supuséssemos que esse processo é um pudor intensificado; pelo contrário, é uma atenuação. O cumprimento do pudor torna-se uma parte de todo um conjunto de regras de etiqueta social. No século XVIII, coincidência significativa, com a extensão progressiva deste ritual social do pudor, desenhou-se, também, o começo de uma nova tendência filosófica, não somente para analisar, mas até para dissolver a noção de pudor. Este fato passou-se principalmente em França. A supremacia que rapidamente obteve o método lógico e racional, e ao mesmo tempo o desenvolvimento das matemáticas e sobretudo da geometria, levaram a pensar em França que os costumes e as sociedades humanas deviam fundar-se em base estritamente lógica e racional. Ignoravam as necessidades legítimas da sensibilidade, que

o século XIX estudou e desenvolveu; mas o serviço prestado á humanidade, fazendo rejeitar os preconceitos e as superstições inúteis, foi considerável e o resultado foi o conjunto das reformas da grande Revolução, reformas que tantos povos depois tentaram, e com tantos sacrifícios, obter por sua vez. O pudor oferecia aos filósofos do século XVIII um campo interessante de pesquisas. A maneira por que os espíritos mais apurados e mais originais daquele século se entregaram a este assunto não poderia ser mais bem ilustrada do que por uma conversação, referida por Mine, d'Epinay88, realizada durante um jantar em casa de Mlle. Quinault, a atriz exímia. "Bonita virtude essa", observa Duelos, "que prendemos a nós de manhã com alfinetes!" e pretende que uma lei moral deva valer em qualquer parte e sempre, fato que se não dá com o pudor. Saint-Lambert, o poeta, observa "que devemos reconhecer nada se poder dizer de bom sôbre a inocência sem se ser um pouco corrompidos"; e Duelos acrescenta: "nem sôbre o pudor sem se ser impudico". Saint-Lambert, enfim, expõe com entusiasmo quão desejável seria consumar os casamentos em público! Esta opinião sôbre o pudor, combinada á introdução das modas gregas, ganhou terreno a tal ponto que, em fins do século XVIII, as mulheres se vestiram com gazes transparentes e chegaram, até, a passear nos Campos Elíseos completamente despidas; mas isto era demais para o público89. O resultado final deste movimento não foi, como sabemos, a destruição do pudor. Mas teve por efeito fazer compreender melhor as bases orgânicas e distinguí-las das manifestações que são puramente temporárias. É tarefa mui difícil de executar e, em grande parte penosa, mesmo hoje. Um viajante inteligente como Mme. Bishop (Isabella Bird), quando da sua primeira estada no Japão, supôs que as mulheres japonesas não tivessem pudor, porque não receiam mostrar-se nuas; mas, vinte anos mais tarde, confessou ao Dr. Baelz que se enganara e que "uma mulher pode estar nua e todavia portar-se como uma dama" 90, Nos países civilizados, o pudor apresenta-se sob formas que

variam segundo 'as regiões e as classes sociais, mas, por mais diferentes que sejam essas formas, a impulsão existe por toda parte com a mesma intensidade91. Assim o pudor adquiriu a força de uma tradição, força vaga mas maciça, tornando-se mais pesada sobretudo naqueles que são incapazes de raciocinar; fixam-se as suas raizes no instinto do povo de todas as classes 92. Transformou-se principalmente numa emoção aparentada chamada pruderie93, que foi definida como "o pudor codificado sob forma de costumes sociais"; resiste, melhor do que no seu estado primitivo, a fatores mesmo poderosos. A moda, nos paises civilizados, pode facilmente inibir o pudor anatômico e fazer descobrir, alternadamente, cada parte do corpo, ao passo que a ameríndia ou a muçulmana por coisa alguma do mundo sacrificariam o pudor retirando as simples Vestes que usam, mesmo durante as dôres do parto. Até quando, nas populações semi-civilizadas, o foco do pudor é por assim dizer excêntrico e arbitrário, mantém-se todavia rigorosamente. O pudor possue então a fôrça de um instinto natural e irresistivel, Nos paises civilizados, pelo contrário, quem quer que ponha Re considerações de pudor acima de qualquer necessidade realmente humana, atrai o ridículo e o desprezo.
NOTAS AO CAPITULO II 1 Fliess, Die Beziehungen zwischen Nase und weiblichen Geschlechtsorganen, p. 194, insiste sare o fato de que, no Gênese, o pudor e o medo são representados como introduzidos neste mundo ao mesmo tempo; Adão temia Deus porque estava nu. Melinaud, Psychologie de la Pudeur, La Reme de 15 nov. 1901, pretende que a vergonha difere do pudor por não haver nela medo, mas uma espécie de pesar ou pena; mas este ponto de vista parece insustentável.

2 A timidez das crianças foi estudada pelo prof. Baldwin no seu livro Développement mental chez l´enfant et dans la rate; cap. VI, e nas suas Interprétations sociales du développement mental, cap. VI.

3 Bell, A Preliminary study of all emotions of love between the Sexes, Am. Journal of Psychology, julho, 1902. 4 O prof. Starbuck, Psychology of Religion, cap. XXX, se baseia em pesquisas ineditas para afirmar que o reconhecimento dos direitos de outrem aumenta, súbito, nas proximidades da puberdade. 5 Perez, L'enfant de trois à sept ans, 1886, pp. 267-277. Esta mesma passagem contém algumas observações interessantes sôbre as bases naturais da propensão para a obcenidade. 6 Cumpre recordar que a Venus de Médicis é apenas uma encarnação relativamente recente e familiar de uma atitude natural muito antiga, que tinha seduzido os escultores desde época muito remota. S. Reinach pensa (La Sculpture en Europe, in L'Anthropologie, 1895) que a mão tinha sido primeiramente levada aos seios para fazer jorrar o leite; essa idéia significaria abundância, e a atitude da Venus de Médicis como símbolo de pudor só apareceria mais tarde. Observa que as duas mãos, colocadas da mesma forma, se vêem numa estatueta de Chipre, datando de 2.000 anos antes de Cristo. Isto é exato, e acrescentarei que as estatuetas da deusa babilônia da fertilidade, Istar, a representam segurando os seios com as mãos ou cobrindo com elas o regaço. 7 Se não há medo sexual, o pudor pode ficar completamente inibido. As' damas do século XVIII não sentiam absolutamente pudor diante dos criados, não lhes acudindo á idéia que eles pudessem requestá-las; assim uma dama, por exemplo, ficava inteiramente nua na banheira enquanto o criado punha água quente, despejando-a entre as pernas, abertas, da senhora; Franklin, La vie privé d'auirefois. 8 Stratz, Die Frauenkleidung, 3.ª ed., p. 23. 9 Ars amandi, liv. II. 10 H. Northcote, Christianity and the sex problem, pag. 5. Crawley tinha já sustentado, The Mystic Rose, p. 134, que essa espécie de desejo de solidão durante os atos de nutrição, de excreção e sexuais que se encontram em tantos povos é um fator que tende a dar a essas funções caráter de santidade potencial, de sorte que ocultar-se se torna neste caso dever religioso. 11 Zeitschrift für Ethnologie, 1878, p. 26. 12 Requestação — ato de requestar, namorar. Vocábulo não registado nos dicionários, e que julgo indispensável. (N. do T.) 13 K. Groos, Les Jeux des Animaux, trad. frangi., pp. 294-297; Die

Spiele der Menschen, 1899, p. 339. 14 Montaigne, Essais, livr. II, cap. XV. 15 Monsieur Nicolas, t. I, p. 89; Cf. Les plus belles pages de Rétif de la Bretonne, "Société du Mercure de France", p. 15. 16 Lane, Arabian Society in the Middle Ages, p. 228. O ponto de vista árabe sôbre a virgindade está muito bem expresso num dos contos mais encantadores das "Mil e uma noites", "História do Espêlho de Virgindade". 17 Cf. Crawley, The Mystic Rose, pp. 181, 324 e segs., 353. 18 De uron, urina e lagnos, libertino. (N. do Tr.) 19 Anatomy of Melancholy, part. III, sec. III, Marli, IV, Subs. L 20 N. Venette, La Genération de l'Homme, part. II, cap. X. 21 Monsieur Nicolas, t. I, p. 94, cf. ed. do Mercure de France, p. 19. 22 Kryptadia, t. II, pp. 26, 31; t. III, p. 162. Kryptadia — palavra grega que significa secreto, oculto. (N. do T.) 23 Talvez a principal razão resida no receio de não se sentir com fôrças para controlar devidamente os seus atos, dada a impetuosidade de sua organização, temendo assim expandir-se em demasia, e, então, sim, ficar sob a ameaça da formação de opiniões desfavoráveis. (N. do T.) 24 O pudor é, a principio, diz Renouvier, o medo que experimentamos de desagradar a outrem e de ter de corar das próprias imperfeições naturais ; Renouvier e Prat, La Nouvelle Monadologie, p. 221. 25 Ch. Richet, Les causes du dégout, em L'Homme et l'intelligence, 1884. A sua análise é uma excelente introdução ao estudo do fator social do pudor. 26 É interessante observar que, entre os Ésquimos, a urina é consérvada como coisa muito útil e o ato de urinar, mesmo á mesa, não é de forma alguma olhado como repugnante ou impudico; Bourke, Scatologie. Rites, p. 202. 27 Hawkesworth, An Account, etc., 1775, t. II, p. 52. 28 Journal of the Anthropological Institute, t. VI, p. 173. 29 Zeitschrift für Ethnologie, 1896, p. 167. Crawley, em Mystic Rose, dá inúmeros exemplos dessa ordem. Observarei que na Inglaterra as mulheres das classes inferiores não gostam de comer diante das de classes superiores. Êste sentimento é devido, sem dúvida, em

parte, á conciência de infringirem a etiqueta, mas essa própria conciencia é, por seu turno, o desenvolvimento do medo de causar repugnância, o que é uma componente do pudor. 30 A propósito disto, observarei que o pejo em relação com o ato de comer aparece ás vezes em nossa civilização como uma forma, de obsessão neurasténica e foi estudado como tal por Raymond e Janet, Les Obsessions rt la Psychasthénie, t. II, p. 386. Ver o caso de uma jovem de 24 anos que, a partir da puberdade, teve vergonha de comer em público, sob pretêsto de que isso era um ato desagradável que não deveria ser praticado senão em casa, como o ato de urinar. 31 "O desejo e o nojo, observa Crawley, The Mystic Rose, p. 139, se combinam quando vemos satisfeito por outrem um desejo que nós mesmos não podemos satisfazer; e vemos aqui começar o estádio altruista, que tem dois aspectos: o medo de causar desejo em outrem e o medo de causar nojo; nos dois casos, é o isolamento individual que é o resultado psicológico." 32 Hohenemser sustenta que o medo de causar nojo não pode ser componente do pudor. Mas diz também que o pudor é apenas uma, estame psíquica: e ver-se-á claramente, pelos casos acima citados, que o medo de causar nojo também nada mais é que uma manifestação de estue psíquica. Há um conflito no espírito da mulher entre a idéia que ela deu de si mesma e a idéia mais inferior que receia dar. Este conflito termina quando ela chega a sentir que a primeira idéia pode subsistir nas circunstâncias atuais. 33 Nenhum de nós sabia que tínhamos feito, de novo, uma velha descoberta. Casanova já citara uma observação de um amigo seu, que dizia: — a melhor maneira de vencer o pudor da mulher é a de supor que ela não possue. Lembra a passagem de Clemente de Alexandria, onde se diz que "o pudor das mulheres cai com a roupa". Cf., com efeito, Poedagogus; em seguida, Cipriano, De Habitu Feminarum; e o tratado de Jerônimo contra Joviniano, citando Heródoto, que atribue esta opinião a Gyges, liv. I, cap. VIII. Vê-se quão antiga é essa opinião que recebeu em inglês a sua expressão clássica no Prólogo da Mulher de Bath, de Chaucer, "Ele diz, uma mulher perde o pudor, Quando tira a roupa." Não tenho necessidade, dada a minha análise precedente do pudor, de afirmar que esse rifão não é nada irônico em relação ás mulheres. Aqui o pudor provém da dúvida em que estão da atitude do espectador e desaparece com essa dúvida; vimos as raparigas da Austrália Central só retirar a cinta com hesitação e repugnância, mas, feito isso, não mais experimentar nenhum receio.

34 O mesmo resultado se constata sob a influência da loucura; Grimaidi, Il manicomio moderno, 1888, achou que o pudor falia em 50 por cento dos loucos. 35 Para alguns fatos desta ordem, ver Houssay, Industries des animam., cap. VII, La Défense et l'assainissement des habitations; P. Ballion, De l'instinct de propreté chez les animaux. 36 Assim R.-V. Stevens diz, Zeitschrift für Ethnologie, 1897, p. 182, dos indígenas de Malaca: Lavam sempre os órgãos sexuais, mesmo depois de ter urinado, e com a mão esquerda; a mão esquerda é igualmente reservada ao mesmo ato entre os "Jekri", Journ. Anthr. Inst., 1898, p. 122. 37 Lombroso e Ferrero, que fazem derivar pudor de putere, repugnância causada pela decomposição das secreções vaginais, encaram o medo de causar nojo aos homens como a única forma de pudor que se encontra nas mulheres semi-civilizadas, como em certas prostitutas dos nossos países: La donna delinquente, p. 540. Não tenho necessidade de dizer que encaro essa teoria, demasiado exclusiva, como insustentável. Sôbre pudor, V. Breai, Etymologie latins.

38 A este respeito não é demais registar um fato perfeitamente observado por mim, em serviço profissional. Essa cliente, que se não apresentava aparentemente recatada, relutou, no entanto, muito em colocar-se na posição ginecológica. Permitia o. exame das partes, mas recusava-se a ocupar aquela posição. Foi preciso paciência e ponderações acertadas, procurando desviar-lhe a atenção, para poder passar, de maneira suave, da simples posição dorsal á ginecológica. Ainda assim, notei que, com a mão esquerda, procurava a região anal. Com a toalha, cobri, mais ou menos, a região, ponderando que não interessava ao exame, e portanto ficava encoberta. Isto bastou para que afastasse a mão e permitisse, sem o menor pudor, o exame da parte anterior. Em exames subsequentes, ao primeiro sinal de pudicícia, recorria ao estratagema. Interrogada, com habilidade, um dia, com referência á parte anal, confessou-me, corando, que sentia vivo mal-estar ao tratar desse assunto, pois ela própria sempre tivera horror em reparar nessa parte e por coisa nenhuma consentiria que outrem o fizesse. (N. do T.) 39 Down below ou low down quer dizer — penugem de baixo. (N. do T.) 40 Dugas, L'Absolu, p. 155. 41 Altersklassen und Männerbünde, pp. 41-51. 42 J.-G. Frazer, The' Golden Bough, 2.a ed., 1900, 3 vols.; cf. trad. francesa, t. I, Les Tabous.

43 E. Crawley, The Mystic Rose, 1902. 44 Ploss et Bartels, Das Weib, 8.ª ed., 1905, pp. 190-191. 45 Cf., entre outros, Bourke, Scatologic Rites, p. 141, 145, etc. 46 Op. cit., cap. VII. 47 S. Reinach, Cultes, Mythes et Religions, t. I, p. 172. 48 E. Durkheim, La prohibition de l´inceste et ses origines, no "Année Sociologique", 1898, p. 50. 49 Salomon Reinach, op. cit., pp. 299-311. 50 Levitico, cap. XX, 18. 51 52 De Virginibus velandis, cap. XVII; as mulheres hotentotes cobrem a cabeça com um véu que não se lhes pode fazer retirar. Fritsch, 'Die Eingeborenen Südafrikas, p. 311. 53 Wellhausen, Reste arabischen Heidentums, p. 196. 54 Primeira Epístola aos Coríntios, cap. XI, v. 5-6. 55 Crawley, The Mystic Rose, p. 328 e seg. 56 A. Walker, Beauty, p. 15; esta mesma repugnância em se deixar ver em cabelo encontra-se também em muitas regiões da França, mormente na Bretanha. 57 É assim que Emin' Bey observou que, no Alto Nilo, as mulheres andam de ordinário nuas, mas algumas usam usa revestimento de fôlhas nos nádegas. Desde que as mulheres das tribus em que este ornamento é usado não estão providas dele, deitam-se no chão, de costas, para ocultar a "nudez". 58 Cf., entre outros, Letourneau, L'évolution de la morale, p. 146. 59 Spencer e Gillen, The Northern Tribes of Central Australia, 1905, p. 683. 60 J.-B. Forster, Observations made during a voyage round the world, 1728, p. 395. 61 Westermarch, History of Human Marriage, cap. IX, apresenta provas numerosas e decisivas. 62 Ibidem, pp. 192 e seg. 63 Felkin, Edinburgh Medical Journal, abril, 1884. 64 Anatomy of Melancholy, part. III, seção II, suba. 3.

65 Negaças de Amor. (N. do T.) 66 St. Haal, The early senso of self, American Journal of Psychology, 1898, p. 366. 67 Baelz, Zeitschrift für Ethnologie, 1901, p. 179. 68 Ilíada, II, 262. Waitz dá exemplos de casos em que a nudez é um sinal de submissão (Anthropologie, ed. ingl., p. 301). 69 Entre os Celtas, esta idéia de propriedade da bastante rara; foi provavelmente entre manteve durante mais tempo, entre as elevadas, o hábito de andar nuas, como citada do Itinerário de Fynes Moryson. 70 A.-B. Ellis, The Tshi-Speaking peoples, p. 256. 71 Burnet, Life and death of Rochester, p. 110. 72 Cf. Année Sociologique, t. VII (1894), pp. 439-440. 73 Tallemant des Réaux, que começou a escrever as suas Historiettes em 1657, diz da Marquesa de Rambouillet: "Ela e um pouco delicada demais... ninguém ousaria pronunciar a palavra cul; isso chega ao excesso." Meio século mais tarde, na Inglaterra, Mandeville, nas observações acrescentadas á sua Fabula das Abelhas, faz alusão ao excessivo pudor inculcado nas crianças desde tenra idade. 74 Num dos seus desenvolvimentos civilizados, esse pudor ritualizado torna-se a pruderie (afetação de pudor) que Forel (Questão Sexual, 3.5 edição, p. 122, tradução da Companhia Editora Nacional) definiu "o pudor sexual codificado". A pruderie é o pudor petrificado e não mais reage vitalmente. O verdadeiro pudor, sob a forma civilizada inteligente, e instintivamente impressionado por motivos e circunstâncias correspondendo de maneira sensível ás suas relações. 75 Nicéforo, Il Gergo, 1897, cap. I e II. 76 Kleinpaul, Sprache ohne Worte, p. 309. 77 Spencer e Gillen, Northern Tribes, etc., p. 581. 78 Crawley, The Mystic Rose, p. 46; A. van Gennep, Reune des Idées, 1904, pp. 967-971. 79 W. E. Roth, Ethnological Studies among the N. W. C. Queensland Aborigines, 1897, p. 184. 80 W. Gilman Ellis, Latah, Journal of Mental Science, jan. 1897. mulher parece ter sido os Irlandeses que se mulheres das classes o mostra a passagem

81 H. Zache, Zeitschrift für Ethnologie, 1899, p. 70 e seg. 82 B. Friedlãnder, Zeitschrift für Ethnologie, 1899, p. 31. 83 Dufour, Histoire de la Prostitution, t. II, p. 78. 84 Costume introduzido pelos Sibaritas, segundo Ateneu, liv. XII, cap. XVII. 85 Dufour, op. cit., t. II, p. 174. 86 Ploss-Bartels, Das Weib, t. I, cap. XIV; Havelock Ellis, Man and. Woman, 4.ª ed., cap. XI. 87 Schurig, Parthenologia, 1739, pp. 27 e seg. 88 Mémoires de Mine. d'Epinay, parte I, cap. V. Trinta e três anos antes, Mandeville escrevera, na Inglaterra, que "o pudor das mulheres é o resultado do costume e da educação". 89 Concourt, Histoire de la Société Française pendant le Directoire, p. 422; as vestes transparentes e muito curtas obrigaram a rejeitar, por algum tempo, o uso da camisa como coisa antiga e fora de moda. 90 Baelz, Zeitschrift für Ethnologie, 1901, p. 179. 91 Nos distritos rurais do Hanovre, conforme o pastor Grashof, f, "as necessidades naturais são praticadas com a maior liberdade, e sem ofensa ao pudor segundo a opinião pública". Mas acrescenta esta asserção ao mesmo tempo contraditória e falsa: "O pudor é para o camponês em geral idéia estranha", Geschlechtlichsittliche Verhältnisse im Deutschen Reiche, t. II, p. 45. 92 Sustenta-se muitas vezes que as prostitutas não tem pudor, mas é um erro; possuem pudor parcial e menos intenso, permanecendo durante muito tempo natural. (Reuss, La Prostitution, p. 58). Cailari diz (La Prostituzione in Sicilia, Archivio di Psichiatria, 1903, p. 205), que as prostitutas sicilianas se deixam dificilmente persuadir a ficar nuas no exercício da profissão. As prostitutas que não têm mais pudor, o simulam muitas vezes, e Ferriani observa, nos seus Delinquenti minorenni, que em 97 menores, a mor parte meninas, acusados de ultrajes ao pudor público, 95 simularam pudor, que, segundo ele, absolutamente não existia. 93 Esta palavra francesa é como a nossa saudade: de uma significação profunda e dificilmente traduzível para outra língua. Pruderie quer dizer afetação de pudor. Não é propriamente simulação de pudor, porque este existe até certo ponto, mas exageração. É no exagero que existe propriamente a simulação. A própria palavra francesa prude já é uma corruptela de prende, caída em desuso. (N. do T.)

III

O rubor como sanção do pudor — Os fenômenos do rubor — Influências que modificam a aptidão para enrubescer — O ato de ocultar-se na sombra, esconder o rosto, etc.

É impossível passar em revista toda esta série de fenômenos tão persistentes sob formas diversas e tão constantes através os estádios de civilização sem ter a idéia de que o pudor, se não é um instinto propriamente dito, deve ter uma base fisiológica. Com efeito, é constituido pelo mecanismo vaso-motor, uma de cujas manifestações exteriores mais marcantes é o rubor. Todas as formas conexas: o medo, o pejo, a timidez, etc., dependem até certo ponto deste mecanismo, mas principalmente o fenômeno de que falamos1. O rubor é a sanção do pudor. É, sem dúvida, apenas uma parte, mesmo acidental, do tormento orgânico a que está associado. Partridge, que estudou o fenômeno do rubor em cento e vinte casos2, constatou os sintomas gerais seguintes: estremecimento do tronco, fraqueza dos membros, compressão, tremores, calor, sensação de peso ou pontadas no peito, ondas de calor vindas dos pés, frio geral seguido de calor, atordoamento, tremores dos dedos dos pés e das mãos, entorpecimento de membros, qualquer coisa que sobe á garganta, piscar dos olhos, zoada nos ouvidos, sensação de ardência no rosto, sensação de pressão na cabeça. Partridge pensa que a perturbação é no começo central, como modificação da circulação cerebral, só depois aparecendo o rubor periférico, nada mais sendo este que um elemento secundário dessa perturbação geral.

A respeito da razão de ser e da extensão do rubor do rosto muito se tem discutido. Henle3 pensava que a face se ruboriza porque todos os fenômenos consecutivos a um estado mental se manifestam primeiramente nessa região, em consequência da disposição anatômica do sistema nervoso. Darwin disse que a atenção tende parcialmente a produzir uma atividade capilar numa região determinada e o rosto é precisamente o objeto principal da atenção. Por outro lado, pretenderam também que o rubor seja um vestígio de um eretismo sexual geral, que foi a origem do pudor; que o rubor antigamente estava muito mais espalhado, o que se dá, ainda hoje, nas mulheres de raças inferiores: o fato de ficar restrito ao rosto seria consequência da seleção sexual e essa limitação um passo para a beleza. Féré teve um dia ocasião de examinar o corpo nu de um rapaz de treze anos, cujos órgãos sexuais estavam deformados; corno o acusavam de masturbação, ruborizou-se todo, rosto, pescoço, tronco e membros, pelas partes anteriores e posteriores, salvo mãos e pés; Feré pergunta se um rubor assim não é mais comum do que geralmente imaginam ou se a nudez lhe facilita a manifestação5. Acrescento que Partridge cita um caso de rubor das mãos. A relação do rubor com a sexualidade e clara. Produzse, principalmente nas mulheres, sobretudo por ocasião da puberdade e durante a adolescência. O ensejo mais comum é uma sugestão mais ou menos sexual. Em 162 causas de rubor enumeradas por Partridge, a causa mais frequente foi uma caçoada a propósito do outro sexo. "A ereção", disseram, "é o rubor do penis". Stanley Hall parece pensar que o rubor de origem sexual seja um afluxo geral de sangue desviado da região genital por inibição de mêdo, da mesma forma que nas meninas os risinhos são uma expressão anormal de pejo. O rubor sexual seria assim o resultado de um temor ancestral; seria por uma espécie de irradiação do eretismo sexual que o rubor, ás vezes, conteria um elemento de prazer6.

Iwan Bloch observa que o rubor é sexual porque a vermelhidão do rosto, corno a das partes sexuais, é um acessório da emoção sexual7. "Não acha", escreve-me um correspondente, "que o rubor sexual representa um efeito vaso-dilatador idêntico á ereção? O embaraço que se produz é devido á percepção dêsse fato em circunstâncias julgadas inadequadas a êste estado. Pode provir do mêdo que temos de provocar repugnância pela exibição de um gesto despropositado. Observei que esse rubor se produz quando urna mulher bastante jovem e muito sensível i cumulada de cumprimentos; este rubor é acompanhado de um prazer que nem sempre se transforma em medo ou em repugnância, mas é muito atraente. Quando o desprazer se produz, as mulheres dizem que é "porque se sentem incapazes de se dominar". Quando sentem que não há absolutamente necessidade de contrôle, não mais experimentam medo e o domínio da inibição aumenta, produzindo leve rubor geral, a ereção dos órgãos sexuais especiais, etc. Este rubor seria, pois, um equivalente sexual e permitiria a inibição dos outros efeitos sexuais graças ao aviso que dá e ao medo experimentado, sendo êle mesmo uma leve descarga de energia. Quando as condições da pessoa que se ruboriza permitem toda latitude aos estímulos sexuais especiais, como no casamento, o rubor não se produz tão a miudo e, quando se produz, não acarreta tão frequentemente o medo". É indubitável que o rubor é um atrativo sexual. É a expressão de urna tendência á fuga, que faz nascer automaticamente no espectador a tendência correspondente á perseguição, de maneira que a situação central do cortejamento, súbito, se apresenta. As mulheres têm mais ou menos conciência disso, como os homens, e aqui está mais uma fonte" de embaraço, senão de prazer. O uso já antigo do rouge8 prova a beleza do rubor e Darwin observa que, nos mercados turcos de mulheres, eram as raparigas que se ruborizavam mais facilmente aquelas que alcançavam os preços mais elevados. Fazer surgir o rubor, mesmo causando constrangimento, é um prazer a que, em

geral, os homens se mostram muito sensíveis. Os semi-civilizados, homens e mulheres, ruborizam-se, mesmo tendo a pele muito escura9, e pode acontecer que a seleção natural, tal qual a seleção sexual, tenha contribuido para o desenvolvimento do rubor. É difícil encarar como acaso o fato de os criminosos e os elementos anti-sociais, quer por motivo do gênero de vida, quer por anormalidade congênita, ruborizarem-se menos facilmente que os indivíduos normais. Kroner10 observa: "A relação entre o pejo e o rubor é o resultado de uma seleção social. Não se ruborizar é, certamente, para o homem uma vantagem imediata; indiretamente, entretanto, é uma desvantagem porque, sob outros pontos de vista, considerá-lo-ão despido de vergonha, e por isso será posto de parte. Esta seleção social exercer-se-á sobretudo a respeito do sexo feminino, e é por isso que as mulheres se ruborizam mais, e mais facilmente que os homens." A importância do rubor e do enleio corno sanções do pudor é demonstrada pelo fato significativo de, suprimindo o enleio emocional, ser possível inibir o senso do pudor. Por outras pala- vras: estamos aqui em presença de um temor, na mor parte sexual, que leva o indivíduo a esconder-se e recear ser objeto de atenção. Êste medo desaparece naturalmente, mesmo se as causas visíveis persistem, desde que se torne evidente que o medo não tem mais razão de ser.
,

Tal é a razão por que a nudez em si nada tem que ver com o pudor ou o impudor. São as condições sob as quais a nudez se apresenta que determinam se o pudor surgirá ou não. Se nenhum dos fatores do pudor é infringido, se nenhuma sensação de constrangimento se produz, se existe a conciência de uma perfeita harmonia entre o indivíduo e o espectador, a nudez é perfeitamente compatível com o pudor mais exigente. A. Duval, um dos discípulos de Ingres, narra que uma mulher-modelo" posou um dia, tranquilamente, toda nua, na Escola de Belas-Artes; de repente, estremeceu e foi, correndo, vestir-se; acabava

de perceber um operário que, do teto, a olhava com atenção através de urna vidraça11. E Paola Lombroso descreve as sensações de uma mulher de diplomata que era, numa reunião, a única em trajo de baile. Envergonhouse tanto que não pôde reter as lágrimas. Segue-se, portanto, de tudo isto, que a emoção pudica depende necessariamente dos espectadores. A ausência desta emoção não implica absolutamente impudor, contanto-que as reações pudicas sejam provocadas subitamente sob a influência do olhar do espectador reconhecido como sensual, inquisidor ou reprovador, isto está provado pelo estudo dos povos primitivos. A mulher japonesa, muitas vezes nua na vida quotidiana, fica calma porque noto desperta nenhuma atenção desagradável; mas o olhar inquisidor e indecente do Europeu enche-a logo de constrangimento. O dr. Stratz, que viveu entre Japoneses, cujas mulheres andavam muitas vezes nuas, constatou que essas Japonesas nunca se sentiam, embora nuas, constrangidas na sua presença. A curiosa influência da obscuridade sôbre o pudor, como sentiram muitos amantes, deve ser atribuida, seguramente, ao motivo de não ser então visível o rubor. Esta influência inibitória da obscuridade foi notada há muito tempo. Burton, em sua Anatomy of Melancholy, cita, segundo Dandinus, o adágio "Nox facit impudentes" e associa-o ao rubor. E Bargagli, novelista senense, escreveu no século XVI: "Comumente dizem que as mulheres, na obscuridade, fazem muitas coisas que não ousariam fazer na claridade." Sem dúvida o impudor de uma grande cidade ao cair da noite explica-se em parte pela irrupção das prostitutas nesse momento; as prostitutas, estando mais aproximadas do impudor, são mais fortemente submetidas a essa influência. Mas até as mulheres mais pudicas também sofrem a influência da obscuridade em grau apreciável. Dizem que as mulheres mostram mais verdadeiramente o que são na obscuridade do que durante o dia.

É uma forma do que Chamberlain chama "inspiração noturna". "Os indícios da inspiração noturna, da influência do firegroup12 primitivo, abundam na mulher. Melhor ainda: pode-se dizer, e isto a vida na Europa ocidental e nos Estados-Unidos demonstra, que a mulher é, em certo sentido, um ser da noite. Pois a atividade física e moral das mulheres modernas, tal como se revela na dansa, nos saraus, etc., é então notável. Pode-se até considerar repouso uma grande parte da sua atividade diurna, tecida de lugares-comuns e banalidades; o centro real da atividade feminina é a vida noturna13." Giessler, que estudou a influência geral da obscuridade sôbre a vida psíquica humana, chega a conclusões semelhantes14. Não conheço o artigo de Giessler a não ser através de um resumo: conclui ele constatando que, durante a obscuridade, a atividade psíquica está mais próxima do seu polo motor do que do seu polo sensitivo e que existe uma tendência dos fenômenos pertencentes ao período primitivo do desenvolvimento a predominar; a memória motriz funciona melhor que a memória representativa, a atenção mais que a apercepção, a imaginação mais que o pensamento lógico, o egoísmo mais que o altruismo. É interessante notar que a miopia tende naturalmente, bem que ilogicamente, a exercer a mesma influência, neste ponto de vista, que a obscuridade. Os míopes de ambos os sexos são muito mais propensos á timidez e ao pudor quando estão com lentes do que no caso contrário; a companhia de um cego parece igualmente uma boa proteção contra a timidez15. A cegueira congênita, entretanto, não impede as crianças de ser tão sensíveis ás aparências e de corar tão facilmente como as crianças normais16. Isto poderia ser devido ao fato de os cegos definitivos ajustarem de uma maneira permanente o foco mental ao das pessoas normais e reagirem da mesma maneira que estas; a cegueira não é para eles, como a miopia para os míopes desprovidos de lentes, uma

abstenção temporária e em parte inconciente de visão nítida. Sem dúvida, não é unicamente porque oculta o rubor que a obscuridade dá coragem; e porque atenua a conciência precisa da própria pessoa, conciência que é uma fonte de temores, de que o rubor é o símbolo definido e o remate visível. É ao rubor que se deve atribuir uma curiosa relação complementar entre o rosto e a região sacro-púbica como centros de pudor anatômico. As mulheres de algumas tribus africanas que, segundo Enim-Bey, andam nuas, cobrem o rosto por pudor. Marcial já observava17 que uma rapariga inocente olha o penis por entre os dedos. Onde, como entre muitos Muçulmanos, o rosto é o centro principal do pudor, a exposição do resto do corpo, incluindo a região sacro-púbica, as coxas e as pernas, torna-se indiferente18. O ato de ocultar o rosto é mais que uma convenção; tem base psicológica. Podemos observar entre nós a tendência das mulheres para ocultar o rosto, a fim de dissimular um possível rubor, e os olhos, como para atenuar a consciência de si própria, processo atribuído pela fábula á avestruz, e com o fim idêntico de se furtar á vista19. Uma mulher tímida experimentará ás vezes, com o amante, pouco acanhamento em mostrar-lhe esta ou aquela parte do corpo, com a condição de poder tapar o rosto. Nas clínicas de ginecologia, vêem-se muitas vezes as mulheres, no momento dos exames dos órgãos sexuais, esconder o rosto com as mãos; uma mulher franca, abrigada a confessar alguma coisa que lhe melindre o pudor, dará as costas ao interlocutor20. "Quando o rosto da mulher está coberto", já o disseram, "o coração está á vista". E a Igreja católica reconhece esta verdade psicológica exigindo que, no confessionário, seja invisível o rosto dos penitentes. A liberdade alegre e inocente das mulheres meridionais durante o carnaval não é tanto devida á permissão reconhecida da licença durante este período do ano ou ao disfarce da identidade individual como ao uso da máscara que oculta o rosto21. Na Inglaterra,

no reinado de Isabel e durante a Restauração, mulheres respeitáveis podiam assistir no teatro á representação das peças mais livres, porque usavam máscaras. O leque serve muitas vezes para o mesmo fim22. Todos esses fatos contribuem para mostrar que, embora possam mudar as formas do pudor, este é entretanto um elemento constitucional da natureza humana em todos os estádios de civilização, e se conserva em grande parte pelo mecanismo psicofisiológico do rubor.
NOTAS AO CAPITULO III 1 Melinaud, Pourquoi rougit-on? "Revue des Deux Mondes", 1.° de outubro, 1893, observa que o pudor está sempre associado ao medo e mostra que nos diversos casos (pudor, timidez, confusão) em que se apresenta, procuramos ocultar alguma coisa que tememos ver descoberta. " Estes fatos ", diz Partridge, "parecem levar á seguinte conclusão — que o estado mental que acompanha o rubor nada mais é senão medo. A presença deste sentimento, as palpitações de coração, a impulsão de fugir, de esconder-se, o choque, tudo confirma essa opinião." 2 Poedagogical Seminary, abril, 1897. 3 Henle, Ueber das Erröthen. 4 Darwin, Expression of Emotions. 5 Comptes-rendus de la Socicté de Biologie, 1.° de abril, 1905. 6 G. Stanley Hall, A study of years, American Journal of Psychology, 1897. 7 Iwan Bloch, Beiträge zur Aetiologie der Psychopathia Sexualis, t. II, p. 39. 8 Corante das faces, usado pelas mulheres, apresentando-se em pó ou em lapis. Intraduzível. (N. do T.) 9 Exemplos em Waitz, Anthropologie der Naturvölker, t. I, pp. 149-150. 10 Kroner, Das Körperliche Gefühl, 1887, p. 130. 11 Os homens são também muito sensíveis a toda curiosidade provinda do outro sexo. É a esse motivo, ou talvez ao receio de causar repugnância, que pode ser atribuida a relutância dos homens em se despirem diante de mulheres artistas ou médicas. Fui informado que é muitas vezes difícil encontrar modelos-homens

para posar diante das mulheres. M. Jonathan Hutchinson foi obrigado, há alguns anos, a recusar, a mulheres-médicas, permissão para assistirem ás suas demonstrações "por causa da repugnância dos doentes homens em se despirem diante delas". A recíproca é, scm dúvida, também frequente: mas as mulheres estão de há muito acostumadas com os médicos, ao passo que os homens (na Inglaterra) não estão com as médicas. 12 Grupo do fogo, reunião na lareira. (N. do T.) 13 A. F. Chamberlain, Work and Rest, Popular Science Monthly, março 1902. 14 C. M. Gessler, Der Einfluss der Dunkelheit auf das Seelenleben des Menschen, Vierteljahrsschrift für wissenschaftliche Philosophie, 1904, pp. 255-279. 15 Conheço um homem tímido escreve o dr. Harry Campbell, Morbid Shyness, British Medical Journal, 26 setembro 1896, que se sente como em casa na morada de um cego, e serve-se de bebida tranquilamente, mas volta logo á timidez só pensando em ir-se embora desde que um membro da família, que pode ver, entra no quarto. 16 Stanley Hall, Pedagogical Seminary, junho 1903, cita a êste respeito o testemunho do dr. Onagnes, do "Perkins Instituto". 17 Liv. III, 68. 18 Ver a narrativa hem conhecida de Sonnini; Voyage dans la Haute et la Basse Egypte, 1779, t. I, p. 289. Encontrando-se Casanova em Constantinopla, o conde de Bonneval, convertido ao Islamismo, assegurou-lhe que ele tinha procedido mal querendo ver o rosto de uma mulher, quando poderia obter outros favores maiores: "A mais recatada dama turca só tem pudor no rosto e desde que está com o véu, se sente segura de não ter de corar de coisa alguma"; Mémoires, t. I, p. 421. 19 Cumpre observar que esta impulsão está em germe nos atos instintivos e nas idéias da criança: Stanley Hall, na memória citada, considera os olhos ainda mais que as mãos, os pés e a bôca, como "os centros desta espécie de conciência de si próprio que age sôbre a maneira por que eu aparece a outrem"; nota a "impressão", muito espalhada entre as crianças, de que, se os olhos estão tapados ou fechados, não podem ser vistas. Algumas pensam que o corpo todo desaparece assim da vista alheia; outras, que a cabeça deixa de ser visível; e há até uma forma superior de que, nesta atitude, a alma não pode ser vista (American Journal of Psychology, t. IX, n. 3). Êsse

mesmo gesto encontra-se entre os idiotas, segundo Näcke. 20 Este fato tem sido por mim longamente observado. Colocando-se na posição ginecológica, em geral com certo desembaraço, a mulher, ás vezes, procura baixar um pouco as vestes, afim de cobrir a região pubiana, mas sempre, instintivamente, leva as mãos ou os braços ao rosto, com o fim de ocultá-lo. Propositadamente dirijolhe algumas palavras atinentes ao seu caso, procurando obrigá-la a falar e a descobrir o rosto. Quando percebe que o meu olhar lhe desvenda o semblante, um rubor, mais ou menos vivo, variando de umas para outras, lhe cobre as faces. Quando, por ocasião do interrogatório, algumas perguntas indiscretas, capazes de melindrar-lhe o pudor, são dirigidas á mulher, esta baixa instintivamente rosto ou o desvia um pouco. Isto tudo se passa com as mulheres que não desconhecem o contacto íntimo com o homem. As virgens, porém, no exame ginecológico, juntam a esses gestos os de defesa das partes pudendas, fazendo esta defesa com uma das mãos, enquanto a outra teima em encobrir o semblante. (N. do T.) 21 Quando, no Rio de Janeiro, no governo do presidente Bernardes, em pleno estado de sítio, foi proibido o uso da máscara nas ruas, durante carnaval, a alegria tradicional dos cariocas sofreu vivo colapso. Transposta a entrada dos bailes, porém, e colocadas as máscaras, a expansibilidade proverbial renascia. (N. do T) 22 Stanley Hall e T. Smith, Showing-off and bashfulness American inumai of Psychology, junho 1903.

IV

Exposição resumida dos fatores do pudor — O futuro do pudor — O pudor como elemento essencial do amor.

Vimos que os fatores do pudor são numerosos. Tentar explicar o pudor tratando-o simplesmente como caso de estase psíquica, é fugir ao problema, formulando pouco mais ou menos uma verdade banal. O pudor é um complexo de emoções, cumprindo-nos agora elucidar as idéias concomitantes. Encontrámos como fatores do pudor: 1.º o gesto animal primitivo da recusa sexual por parte da fêmea, quando não está no cio ; 2.º o receio de causar repugnância, devido originariamente á proximidade dos centros sexuais e dos lugares de excreção desagradáveis, mesmo nos animais; 3.º o medo da influência mágica dos fenômenos sexuais e as práticas cerimoniais a princípio baseadas nesse medo, depois tornando-se meras regras de polidez, indicadoras e protetoras do pudor; 4.º o desenvolvimento da ornamentação e das vestes; agem ao mesmo tempo sôbre o pudor que repele o desejo sexual do macho e sôbre o coquetismo que procura excitá-lo; 5.º a concepção da mulher como uma propriedade, dando uma sanção nova e poderosa a uma emoção natural em sua origem. É mister nunca esquecer que esses fatores não se apresentam, geralmente, isolados. Encontram-se muitas vezes todos juntos implicados numa única impulsão de pudor. Se destorcemos a corda, é para lhe estudarmos a construção, mas, na vida, as fibras estão torcidas juntas de

maneira a constituir um todo mais ou menos homogêneo. O pudor alimentará, em geral, ao mesmo tempo que a civilização? Não creio. É um engano, já o vimos, imaginar que o pudor cresce de intensidade ao mesmo tempo que de extensão. Isto, pelo contrário, é um sinal de enfraquecimento. O pudor é muito mais rigoroso e invencível nos selvagens que nos semi-civilizados. Treutler narra, a respeito das mulheres araucanianas do Chile, que são muito mais pudicas que as mulheres cristãs de raça branca; e observações semelhantes a esta poderiam ser reunidas em grande número. É numa civilização nova e tôsca, cuidadosa de acentuar o que a separa da barbaria, de onde apenas começa a sair, que se encontra uma tendência extravagante e fantástica para estender o domínio do pudor á vida, á arte e á literatura. Nas civilizações velhas e amadurecidas, como na antiguidade clássica, no Japão, na França, o pudor, exercendo, sem dúvida, influência bem real, encontra-se rigorosamente limitado. Na vida, subordina-se á utilidade; na arte, á beleza; na literatura, á expressão. Na Inglaterra nota-se que o pudor é muito mais forte nas classes baixas do que nas mais civilizadas. Isto é verdade mesmo quando o ofício pareceria dever conduzir ao laisser-aller. Contaram-me o caso de uma dansarina que considera impudicícia banhar-se no mar com a roupa que a moda prescreve; entretanto, apresenta-se assim, de maillot, todas as noites, em cena. Igualmente Fanny Kemble, nas suas Reminiscências, fala de uma atriz que preferiu morrer vítima do pudor a mostrar a um médico o joelho inchado. Certamente o pudor é um elemento do respeito de si próprio, mas no ser bem desenvolvido é precisamente o respeito de si próprio que restringe o pudor1. No entanto, há razões mais precisas para a subordinação do pudor paralelamente ao progresso da civilização. Vimos várias vezes, que os fatores do pudor são numerosos e que a mor parte deles se baseiam sôbre

emoções que só agem nos estádios selvagem e bárbaro. É assim que o nojo, como demonstrou Richet2, diminue necessariamente com a extensão do saber. Analisando e interpretando melhor as nossas experiências, estas nos causam menos repugnância. Um ovo podre causa nojo, mas o químico não tem absolutamente nojo do hidrogênio sulfurado; e uma solução de propilamina não produz a impressão de repugnância que a impureza humana provoca, sendo, no entanto, uma das suas partes componentes. À medida que analisamos a nossa sensação de nojo e que o respeito de nós mesmos tende para uma pureza física maior, este elemento do pudor diminue. Da mesma forma, o fator da impureza cerimonial não mais existe entre nós, a não ser no estado de sobrevivência, na etiqueta. Da mesma forma ainda, o fator econômico e social pertence a um estádio do desenvolvimento humano em que a mulher era uma propriedade, estádio precisamente oposto aos nossos pontos de vista atuais. Enfim a impulsão fundamental, o gesto de recusa, só é normalmente imperativo nos animais e selvagens. A civilização tende, assim, a subordinar, senão a apoucar, o pudor, a fazer dele antes um encanto da vida que urna lei fundamental. Mas é como encanto que, em suas delicadas variações, persiste, e que não podemos conceber o seu desaparecimento. Na arte de amar, todavia, é mais que um encanto: é elemento essencial. Sem dúvida, o pudor não é a última palavra no amor, mas é o ponto de partida necessário das suas audácias mais delicadas, única coisa capaz de dar valor e doçura ao que Senancour3 chama a "deliciosa impudência". Sem o pudor, não teríamos, nem poderíamos prezar pelo que vale essa candidez franca e pura que é ao mesmo tempo a revelação última do amor e a marca da sua sinceridade. Hohenemser, — para quem o homem perfeito não

poderia ter pejo, porque este provém de um conflito interior da personalidade e " o homem perfeito não está sujeito a conflitos" — aceita todavia que, visto ser imperfeita a humanidade, o pudor possua uma importância elevada e sintomática, pois "a sua presença demonstra que todo homem toma ,para medida de suas avaliações a sua própria personalidade ideal". Dugas vai mais longe e afirma que os ideais do pudor humano se desenvolvem conjuntamente com o homem e tomam formas cada vez mais novas e apuradas. Há, diz êle, uma relação muito estreita entre o natural, ou a sinceridade, e o pudor, pois, no amor, o natural é o ideal atingido e o pudor é apenas o receio de ficar aquém dêsse ideal. O natural é o indício e a prova do perfeito amor. É o indício, porque, quando o amor se pode mostrar natural e verdadeiro, podemos concluir que está livre de imperfeições e defeitos, da mescla de paixões pequenas e mesquinhas, da grosseria, dos sentimentos quiméricos, que se tornou forte e vigoroso, e sadio. É a prova, porque, para se mostrar sincero, para ser sempre verdadeiro, deve ter todas as qualidades amáveis, e tê-las sem as buscar, como uma segunda natureza. O que chamamos "o natural" é, na realidade, sem dúvida adquirido; é o benefício de uma evolução física e moral que o pudor tem por fim conservar. O pudor é o sentimento do verdadeiro, isto é, daquilo que é saudável, em amor; existe durante muito tempo como uma visão ainda não atingida, vaga e todavia bastante clara já para que seja repelido como ofensivo e penoso tudo o que dele se afasta. No começo, ideal longinquo, até inacessível; á medida que se aproxima, a visão humaniza-se, individualiza-se, sai do sonho sem cessar de ser amada como um ideal, mesmo quando é possuiria como uma realidade. "A primeira vista, é paradoxal, sem dúvida, definir o pudor como uma aspiração á verdade do amor; parece, pelo contrário, um sentimento inteiramente factício. Mas primeiro, para simplificar o problema, supomos aqui o

pudor reduzido á sua função normal; despido de superstições, da miscelânea estranha de costumes e preconceitos; temos em vista o pudor verdadeiro, o das naturezas sadias e simples, tão afastado da pudicícia exagérada quanto do impudor. Em segundo lugar, aquilo que chamamos o natural ou a verdade do amor, é o encontro singular e único de duas formas de imaginação, consideradas erradamente como incompatíveis: as aspirações ideais e o senso, o gosto das realidades da vida. Assim definido, o pudor não repudia tão somente essa crítica fria e dissolvente, que despoja o amor de toda poesia, e prepara o caminho para um realismo brutal; exclui também essa imaginação desprendida e leviana que paira acima do amor, esse idealismo dos sentimentos heróicos ou da galanteria amável, que se apega ao amor como a um sonho e passa, sem ver, ao lado do amor real e vivo, desconhecendo-lhe o preço, a dignidade e a seriedade. O verdadeiro pudor implica o amor, mas o amor que se orienta, não para heróis de romances imaginários e vãos, mas para seres reais, de carne e osso; o amor que tem tempera-Mento bastante para arrostar com a vida, gozá-la, e preferi-la ás sublimidades ou á. insipidez do romanesco, desse ideal, definido como o que não pode existir. Por outro lado, o pudor é o respeito do amor; com aceitar sem repugnância as suas necessidades físicas, com admitir as condições fisiológicas e psicológicas, consiste não obstante em manter o ideal particular de conveniências morais, fora das quais, para cada um de nós, o amor não pode ser desfrutado. É, no caso particular de um amor realmente sentido, não vagamente imaginado, a exigência de um ideal de dignidade, concebido como a própria condição deste amor. Se separamos o pudor do amor, mesmo de um amor determinado, que não flutua no ar, mas cristaliza em torno de uma pessoa real, a sua realidade psicológica, o seu caráter pungente e trágico, desaparece4." Compreendido assim, o pudor torna-se quasi idêntico á modéstia romana.

NOTAS AO CAPITULO IV 1 Freud observa que podemos muitas vezes ouvir falar de senhoras idosas, que, durante a mocidade, na província, sofreram de hemorragias uterinas, chegando a desmaiar, porque eram demasiado pudicas para se deixarem examinar; e acrescenta que tal extremo é muito raro nas jovens de hoje. (S. Freud, Zur Neurosenlehre, 1906, p. 182) Seria fácil achar provas do desaparecimento dos sinais desastrosos do pudor que outrora prevaleciam, embora esta conquista da civilização pouco se tenha ainda afirmado em nossas leis e regulamentos. 2 "O nojo", diz êle, "é uma espécie de síntese que se apega á forma total dos objetos, devendo diminuir e desaparecer á medida que a análise científica divide em partes o que repugna como um todo." 3 Senancour, De L'Amour, 1834, t. I, p. 316. Observa ele que um recato inútil e falso e devido mais á tolice que ao pudor. 4 Dugas, La Pudeur, Revue Philosophique, nov. 1903, reeditado em L'Absolu, pp. 158-160.