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Resumo Por Pamela Marques PAPANEK, Victor.

Design for the real world: human ecology and social change. Segunda Edição. Chicago: Academy Chicago Publishers, 1984 Parte um: Como é (Part One: How it is) 1. O que é design? Uma definição do complexo funcional Todos os homens são designers. Tudo que fazemos, o tempo todo, é design, porque design é básico a toda atividade humana. Qualquer tentativa de separar design, de torná-lo uma coisaem-si, contraria o fato de que o design é a matriz primária e subjacente da vida. Design é compor um poema épico, executar um mural, pintar uma obra-prima, escrever um concerto. Mas design também é limpar e reorganizar uma gaveta, arrancar um dente danificado, cozinhar uma torta, escolher os times para um jogo no quintal e educar uma criança. Design é o esforço consciente e intuitivo para impor ordem significativa. Apenas recentemente adicionei o trecho “e intuitivo” a minha definição. Consciência implica intelectualização, pesquisa e análise. Já pelo insight intuitivo trazemos para o jogo impressões, idéias e pensamentos que coletamos num nível consciente, subconsciente ou pré-consciente. Nosso deleite na ordem que encontramos em flores congeladas em uma janela, na perfeição hexagonal de um favo de mel, em folhas ou na arquitetura de uma rosa reflete a preocupação do homem com padronização. Tentamos constantemente entender nossa existência mutável e altamente complexa buscando pela ordem que há nela. E o que procuramos, achamos. Mas nenhum desses modelos naturais, ricos em padrões, ordem e beleza, é resultado de decisões humanas e, portanto, estão além de nossa definição. Podemos chamá-los de “design”, como se falássemos de um artefato humano. Mas apenas falsearíamos a questão, uma vez que a beleza natural depende de processos que às vezes não entendemos. Design deve ser significativo. E significativo substitui palavras semanticamente carregadas como “belo”, “feio”, “fofo”, “repugnante”, “realista”, “obscuro”, rótulos convenientes para uma mente falida após ser confrontada com Guernica de Picasso, Fallingwater de Frank Lloyd Wright, Finnegan’s Wake de Joyce. Em todos esses casos, respondemos àquilo que tem significado. O modo de ação pelo qual um design preenche seu propósito é a sua função. Horatio Greenough disse em 1739 que “a forma segue a função”.100 anos depois, Louis Sullivan a reafirmou e F. Lloyd Wright a reformulou como “forma e função são uma só coisa”. Ambas as declarações contribuíram para um aparente divorcio entre o que funciona bem e o que é belo. A implicação em “a forma segue a função” é de que desde que os requisitos funcionais sejam satisfeitos, a forma vai seguir e parecer agradável. Outros põem o carro na frente dos bois e confundem estas frases para implicar que a forma “ideal” sempre funcionará bem.

tecnológicas. ferramentas ou artefatos de uma cultura para a outra e então esperar que funcionem. nunca o fazendo parecer algo que não é. É a questão mais ouvida. Já que. psicológicas e econômicas de uma pessoa são normalmente mais difíceis de suprir do que os “desejos” cuidadosamente desenvolvidos e inculcados pela moda. Um uso honesto do material. espirituais. são apenas dois dos muitos aspectos da função. mas seu valor parece estar precisamente no fato de que são exóticos —em outras palavras. Os estudantes perguntam: “Devo criá-lo para ser funcional ou esteticamente agradável?”. veja os martelos: eles diferem em peso. em qualquer casa racionalmente conduzida. sociais. As necessidades intelectuais. Mas não é possível pegar objetos cotidianos e sem preocupação com o contexto esperar que funcionem numa sociedade diferente. Uma garrafa de tinta não pode virar. freqüentemente baseados em . O Estilo Internacional e a Nova Objetividade nos deixaram na mão em termos de valor humano.A idéia de que aquilo que funciona bem necessariamente terá boa aparência foi a desculpa esfarrapada para toda a mobília com cara de sala de operações dos anos 1930. despertadores raramente viajam pelo ar a 500 milhas por hora. na verdade. Não é possível apenas mudar objetos. colocar uma tapeçaria no chão. mais eficiência ou ambos. é um bom método. Telesis: “A utilização determinada e propositada de processos da natureza e sociedade para atingir metas particulares. processos e materiais. material e forma de acordo com seu uso. enquanto as necessidades genuínas do homem foram negligenciadas. Associação: Nosso condicionamento psicológico. nunca usando um material onde outro poderia cumprir a função com menos custo. Materiais e ferramentas devem ser usados de maneira ótima. A maioria dos valores associativos são universais dentro de uma cultura. entra no jogo e nos predispõe a aceitar ou recusar um determinado valor. Uso: “Funciona?” Um frasco de vitamina deve liberar pílulas individuais. muitas vezes indo até nossas Memórias de infância. Quando culturas realmente se mesclam. então ambas se enriquecem e continuam a se beneficiar uma da outra. Agora é possível passar pelas seis partes do complexo da função e definir cada um de seus aspectos: Método: a interação de ferramentas. vistos num contexto não familiar. Acessórios decorativos exóticos e objetos de arte podem ser transplantados dessa maneira. compreensível e atrapalhada no design atual. Barricadas são erguidas entre aquilo que. comprar retratos falsos de antepassados e pendurar uma espingarda sobre a lareira. As incertezas e as novas e complexas pressões de nossa sociedade fazem com que muitos sintam que o meio mais lógico de recuperar valores perdidos é sair e comprar mobília americana antiga. relógios aerodinâmicos estão fora de lugar. Um isqueiro na forma de um “rabo de peixe” de carro cumprirá sua função mais eficientemente? Por outro lado.” O conteúdo telésico de um design deve refletir os tempos e condições que levaram a sua ascensão e devem caber na ordem socioeconômica humana geral em que ele vai operar. Necessidade: muitos designs recentes satisfizeram apenas desejos efêmeros.

O design de carros beberrões amarrou os americanos (e. artefatos. fazemos e usamos estão em suas conseqüências. Estes valores vêm de pulsões e compulsões inconscientes e profundas. sua profissão de verdade começou quando insistiu em dissecar o produto. sabemos que a estética é uma ferramenta. As dimensões avançadas do que desenvolvemos. Segundo Henry Dreyfuss. “uma teoria do belo. Nos EUA. mas isso é apenas uma tentativa de atrair status para a profissão evocando um precedente histórico plausível. mas também olham para o futuro. dispositivos de transporte e prédios têm conseqüências que se estendem até áreas diversas como política. Filogenocídio: uma história da profissão do design industrial A tarefa suprema do design é transformar o ambiente e ferramentas humanas e. O designer pode manipular essa relação. Tornou-se o primeiro fórum internacional de design porque atraiu estudantes e professores de todo o mundo. o design industrial foi filho da Grande Depressão. Todas as nossas ferramentas. Mas na America de 1980. e sua influencia viajou conforme estas pessoas fundavam escritórios e escolas em vários países. no gosto e na arte”. Foi a primeira escola a considerar o design uma parte vital da produção em vez de “arte aplicada” ou “arte industrial”. uma das mais importantes no repertorio do designer e que ajuda a moldar suas formas e cores em entidades que nos movem. por extensão.tradições dela. Há uma relação inconsciente entre as expectativas do espectador e a configuração do objeto. Ele nunca esquece que a beleza é superficial. 2. significativas. Estética: A nuvem de mistério cercando a estética pode (e deve) ser dissipada. saúde. ver o que o fazia funcionar e desenvolver meios para que o fizesse melhor. que pareciam excelentes para seu tempo e local (telesis). .” Nenhuma escola de design na historia teve maior influencia em moldar o design e os gostos como a Bauhaus. onde um jovem viveu a vida inteira numa sociedade dominada por maquinas. Para o mercado da época. excitantes. isso é um anacronismo que perpetua o infantilismo do design. ao ensinar um alemão de 1919 a experimentar a interação entre material e ferramenta. não nos deixa em situação melhor que antes. a própria humanidade. As seis partes do complexo funcional são informadas pelo passado. Não obstante. o designer industrial “surgiu eliminando decoração excessiva. renda e a biosfera. Muitos livros sobre design industrial sugerem que o design começou quando o homem começou a utilizar ferramentas. Quase toda grande escola de design nos EUA atuais ainda usam o curso básico fundamental de design desenvolvido pela Bauhaus. Já foi comprovado que a mera escolha de um material plástico e não biodegradável tem um impacto de longo alcance no ambiente. objetos. portanto seu governo) aos caprichos da política externa de países exportadores de petróleo que são freqüentemente instáveis — um claro caso de conseqüências políticas em seqüência ao ato de design. agradam e são belas. e o designer reformulava seu produto . A definição do dicionário. o fabricante precisava de um novo artifício de vendas.

Seu objetivo é obter formas de aceitação indubitável antes de um investimento excessivo de capital. Isto surgiu logo em meados da década de 1920 em cadeiras. Apesar de objetos inspirados em manias particulares durarem apenas um tempo curto. o artista. Com novos processos e uma lista infinita de novos materiais à disposição. artesão e em alguns casos o designer não precisa mais se preocupar com o bem do consumidor em mente. (Ironicamente.) 3.ficcional dos anos 2000 parecia voltar para ficar em 1945. A necessidade por design honesto (utilizável. ou algumas peças não são substituíveis. Estas tentativas mal encaminhadas de traduzir pinturas bidimensionais em mobília caseira têm paralelos atuais. pequenos comentários auto-terapeuticos do artista para si mesmo. A indústria apelava para a aceitação rápida de qualquer coisa nova e diferente. e que possam ser produzidas a um preço que permita larga distribuição e lucros razoáveis. eram extremamente desconfortáveis. e não vendável) impôs uma disciplina mais saudável do que a do mercado. em vez disso. persiste. material (o produto se acaba) e artificial (a taxa de mortalidade de um produto: ou o material é de baixa qualidade e vai se gastar em um tempo previsível. A miscigenação de tecnologia e consumismo artificialmente acelerado deu à luz os gêmeos malignos do estilismo e da obsolescência. banquetas e mesas influenciadas pelo de Stijl na pintura. a tentativa de traduzir garatujas modistas em objetos tridimensionais para uso diário. A definição de Harold Van Doren era apropriada: “Design Industrial é a pratica de analisar. criar e desenvolver produtos para manufatura em massa.O artista. Estas abstrações eram impossíveis de sentar. O mito do nobre preguiçoso: design. o passo acelerado do avanço tecnológico freqüentemente faz um produto ficar obsoleto antes que a obsolescência estilística ou artificial possam se voltar para ele. atropelou a maioria dos ofícios e finalmente alcançou o design. impostos por condições de combate. Desde a segunda guerra mundial nosso maior compromisso tem sido com a obsolescência artificial e estilística. As equipes encontravam requisitos reais de performance no complexo funcional. Freqüentemente essas tendências são revividas uma década ou duas depois como parte de alguma onda nostálgica. Quando tudo se torna possível e os limites .para melhorar a aparência e diminuir custos de venda e produção. a produção de suprimentos para o conflito forçou um novo senso de responsabilidade nos designers industriais. muitas manifestações criativas tornaram-se altamente individualistas. “arte” e ofícios O crescimento canceroso do individuo criativo expressando a si mesmo às expensas do espectador/ou consumidor espalhou-se a partir das artes. a tendência. Toda uma loucura nostálgica elitista elevou alguns dos mais desconfortáveis assentos já desenvolvidos pelo homem a símbolos de status caros e modernos que ficam a médio caminho entre rodas de tortura refinada e “objetos de arte”. A tecnologia cientifico . artesão e designer agora sofrem a tirania da escolha absoluta. Há três tipos de obsolescência: tecnológica (um melhor jeito de fazer algo é descoberto). A partir da Segunda Guerra Mundial.

um modo simples de se livrar de uma ameaça é ridicularizá-la. O homem atual vive tanto no ambiente da maquina quanto a maquina no ambiente do homem. Devido às necessidades de reconstrução e redesenho de tintas. o design e a arte podem se tornar uma busca interminável pela novidade. Muito foi dito sobre a decadência de Roma quando os bárbaros chegaram aos portões. . Ferramentas. Nossa cultura Kleenex: obsolescência e valor Parece ter começado com os carros. Gostem ou não. Um terceiro modo de lidar com a máquina é fugir dela.se esvaem. Por um quarto de século as administrações nacionais foram coniventes ou apoiaram este sistema. Em uma sociedade em que a perfeição automatizada ou mesmo o modismo agradável pode ser obtido com um mínimo de esforço. um dos principais objetivos da pintura — produzir uma reprodução de alta fidelidade — pareceu parcialmente cumprido. A responsabilidade do designer deve ir muito alem destas considerações: seu juízo moral e social deve entrar no jogo ainda antes que ele comece a projetar um julgamento a priori sobre se os produtos merecem que lhe pedem para desenvolver merecem sua atenção. se seu design vai ou não estar do lado do bem social. entretanto. Assassinato faça-você-mesmo: responsabilidades sociais e morais do design O designer carrega uma responsabilidade pelo modo como seus produtos são recebidos pelo mercado. alguns como um meio de vida. outros como a salvação. Em outras palavras.Hoje a crise nos forçou a atitudes um tanto mais frugais e tentamos manter os carros por mais algum tempo. considerou o importante impacto da maquina e da perfeição automatizada. Isso proveu aos fabricantes de Detroit um cronograma para seus “ciclos de estilo”. Alguns artistas. Não há bárbaros além de nossos portões: nós nos tornamos nossos próprios bárbaros e o barbarismo virou um kit faça-você-mesmo. Assim como a super compensação. colocando nas mãos das pessoas um aparato capaz de “copiar a natureza” ao apertar de um botão. Com a mudança continua veio o acabamento malfeito e o controle de qualidade virtualmente inexistente. que privou a arte de um segundo objetivo: a “busca pela perfeição”. então. Livros de historiadores de arte sempre frisam a importância da influencia da câmera e da fotografia nas artes plásticas. pessoalmente incapaz de lidar com essa mudança no ambiente. a repulsividade distorcida e o bestial tornam-se aceitáveis como uma nova direção em mobiliário por uma pequena elite e seus curadores domesticados. o artista moderno criou uma serie de mecanismos psicológicos de fuga para si. Certamente é verdade que. uma grande mudança de estilo é feita a cada 3 anos. vêem a maquina como ameaça. ate que a novidade pela novidade se torna a única medida. 5. 4. artistas contemporâneos vivem na sociedade contemporânea. Aparentemente. Quase ninguém. Mas essa visão é ainda muito limitada e paroquial. Do fim da 2ª Grande Guerra até 1978 as montadoras venderam ao publico americano o conceito de que é “elegante” trocar de carro a cada 3 anos. Todos têm que achar um meio de viver com ela e. tintas e moldes usados na produção de automóveis se desgastam depois de 3 anos de uso.

Quando as pessoas são persuadidas a jogar fora seus carros bem antes que se desgastem. seu ambiente e. Óleo de Cobra e Talidomida: lazer em massa e modismos enganosos Certo — o designer deve ser consciente de sua responsabilidade moral e social. uma vez que a vida do designer muitas vezes foi condicionada por um sistema orientado para o marketing e direcionado para o lucro. Porque o design é a ferramenta mais poderosa já dada ao homem com o qual moldar seus produtos. Uma mudança radical desses valores é difícil de atingir. suas roupas de acordo com as ultimas exigências da moda. brinquedos e outras áreas enfatizam meu ponto: quando lidamos com nossas posses como lixo. respostas inovadoras para a questão da obsolescência deverão ser encontradas. colecionar e logo descartar lixo caro e inútil. e assim por diante. podemos passar a considerar tudo como obsoleto. Mas é obvio que. Todo design é um tipo de educação. O design tenta educar seu cliente-produtor e as pessoas do mercado. É raro que jovens superem esta doutrinação. Como na maioria dos casos o designer foi relegado à produção de “brinquedos para adultos” ou engenhocas inúteis. por extensão. a si mesmo.O risco é a expansão desta atitude. não cuidamos o bastante do design. de considerar fatores de segurança. podemos mudar para considerar tudo como um item descartável. O designer deve analisar o passado assim como as conseqüências futuras previsíveis de seus atos. os objetos e ferramentas se voltam contra nós na enorme quantidade tornada possível pela produção em massa. inclusive valores humanos. seus aparelhos de som sempre que surgir uma nova engenhoca. . adolescentes e crianças têm sido seduzidas a comprar. em um mundo de necessidades. a questão da responsabilidade é complicada. de trocar carros a cada par de anos. A questão que fazemos se o design e as estratégias de marketing podem conviver em um sistema de capitalismo privado se mantém. 6. prédios. Quando projetamos coisas para serem descartadas. Alguns exemplos tirados de campos diferentes como design de automóveis. Jovens. Isso é difícil. O que jogamos fora não valorizamos. de pensar na alienação do trabalhador/ usuário.