A Filosoa da Composição

Edgar Allan Poe 1985

Em uma nota que neste momento tenho à vista, Charles Dickens diz o seguinte, referindo-se a uma análise que z do mecanismo de Barnaby Rudge: Sabe que Godwin escreveu seu Caleb Williams de trás para frente? Começou emaranhando a matéria do segundo livro e logo, para compor o primeiro, pensou nos meios de justicar o que havia feito. Parece-me difícil de acreditar que esse fora precisamente o método de composição de Godwin e, de fato, o que o mesmo confessa não está de acordo, de modo algum, com a ideia do Sr. Dickens. Mas o autor de Caleb Williams era um artista demasiado entendido para deixar de compreender as vantagens que pode obter com algum procedimento semelhante. Eis algo evidente: um plano qualquer que seja digno desse nome só pode ser traçado visando o desenlace antes que a pena ataque o papel. Só quando se tem continuamente presente a ideia do desenlace é que podemos conferir a um plano a sua indispensável aparência lógica e de causalidade, procurando fazer com que todas as incidências e, especialmente, o tom geral tendam a desenvolver a intenção estabelecida. Creio que existe um erro radical no método empregado para se construir um conto. Algumas vezes, a história nos proporciona uma tese; outras vezes, o escritor é inspirado por um acontecimento contemporâneo; ou, no melhor dos casos, senta-se para combinar os feitos surpreendentes que hão de formar a base de sua narrativa, procurando introduzir as descrições, o diálogo ou o seu comentário pessoal onde quer que um resquício no tecido da ação lhe force a fazê-lo. Eu prero começar com a consideração de um efeito. Tendo sempre em vista a originalidade (porque é falso consigo mesmo quem se atreve a desprezar um meio de interesse tão evidente e fácil), digo-me, antes de tudo: Dentre os inumeráveis efeitos ou impressões que é capaz de receber o coração, a inteligência ou, falando em termos mais gerais, a alma, qual será o único que eu deva eleger no presente caso? Tendo já elegido um tema novelesco e, depois, um vigoroso efeito, indago se vale mais evidenciar os incidentes ou o tom  ou os incidentes vulgares e um tom particular ou a singularidade tanto dos incidentes, quanto do tom ; logo procuro, em torno de mim, ou melhor, em mim mesmo, as combinações de acontecimentos ou de tons que podem ser mais adequados para criar o efeito em questão. Tenho pensado quão interessante seria um artigo escrito por um autor que quisesse e que pudesse descrever, passo a passo, a marcha progressiva seguida em qualquer uma de suas obras até chegar ao término denitivo de sua realização. Seria, para mim, impossível explicar por que ainda não foi oferecido ao público um trabalho semelhante; mas talvez a vaidade dos autores seja a causa mais poderosa para justicarmos essa lacuna literária. Muitos escritores, especialmente os poetas, preferem deixar que acreditemos que escrevem graças a uma espécie de sutil frenesi ou de intuição extática; teriam verdadeiros calafrios se tivessem que permitir ao público dar uma olhadela por trás da cortina, para contemplar os trabalhosos e vacilantes embriões de pensamentos, a verdadeira decisão adotada no último momento, os relances de ideias que durante muito tempo resistem a mostrar-se, o pensamento plenamente maduro mas rejeitado por ser inaproveitável, a eleição prudente e os arrependimentos, as dolorosas emendas e interpolações; em suma, os rolamentos e as rodas, os artifícios para a troca de decoração, as escadas e os alçapões, as penas de galo, as cores, os disfarces e todos os enfeites que em noventa e nove por cento dos casos são o peculiar do histrião literário. No entanto, sei que não é frequente um autor estar disposto a reconstruir o caminho por onde chegou a seu desenlace. Geralmente, as ideias surgem mescladas; logo são seguidas e nalmente esquecidas da mesma maneira.

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como se supõe. pois. a partir dessa intenção. por causa de sua extensão excessiva. Por isso. passo a passo. dessa análise ou reconstrução. cento e oito. não entendem precisamente uma qualidade. em certa medida. têm presente a violenta e pura elevação da alma  não do intelecto ou do coração . que compense a perda da unidade. O prazer mais intenso. Iria longe demais se eu demonstrasse. nunca será conveniente traspassá-lo em um poema. direi umas palavras para apresentar meu verdadeiro pensamento. estejam 2 . esqueçamos a circunstância ou a necessidade de que nasceu a intenção de compor um poema que satiszesse ao mesmo tempo o gosto popular e o gosto crítico.Quanto a mim. Esta regra só tem uma condição restrita. Se uma obra literária é muito extensa para ser lida de uma só assentada. há. a extensão de um poema deve ser muito bem pensada. Escolhi O Corvo por ser esta a mais conhecida de todas. No mesmo limite. soberanamente decisivo. tive sempre presente a vontade de criar uma obra universalmente apreciável. interpõem-se entre elas os assuntos do mundo. Tendo em vista essas considerações. com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático. Ora. Contudo. e o objetivo paixão. Na realidade. não compartilho com a repugnância do que acabo de falar. Mas. considero a beleza como o âmbito da poesia porque é uma regra evidente da arte que os efeitos deveriam brotar necessariamente de causas diretas. não poderei ser censurado se revelo aqui o modus operandi utilizado para construir uma de minha obras. Aqui creio que convém observar que. e que resulta da contemplação do belo. como em Robinson Crusoe. De nada nos serve demonstrar que um poema só o é quando eleva a alma e lhe traz uma excitação intensa: por uma necessidade psíquica. porque quando são necessárias duas assentadas. carece daquele elemento artístico tão decisivamente importante: a totalidade ou a unidade de efeito. Meu pensamento se xou seguidamente na elevação de uma impressão ou de um efeito que pudesse causar. o que tenho insistido muitas vezes: que o belo é o único âmbito legítimo da poesia. no presente tratado. da unidade de impressão. Sem embargo. com a quantidade de autêntico efeito poético com que possa impressionar as almas. todas as excitações intensas são de curta duração. assim como aquele grau de excitação que eu não situava acima do gosto popular nem abaixo do gosto crítico. é inteiramente independente Posto que o interesse de qualquer interesse real ou imaginário na coisa analisada. com a elevação ou a excitação que comporta. devemos resignar-nos a eliminar o efeito. nenhum poeta pode renunciar a tudo o que contribui para que alcance seu propósito. isto é. qualquer que seja. e o que chamamos de conjunto ou totalidade cai por terra. que os objetivos deveriam ser alcançados com os meios mais apropriados para tal  já que nenhum homem chegou a ser tão estúpido para negar que a elevação singular de que estou tratando se encontra mais facilmente ao alcance da poesia. Quando os homens falam de beleza. através desse trabalho de construção. ou satisfação do intelecto. tendo em vista que. A obra. mas uma impressão: em suma. nem encontro a menor diculdade em recordar a marcha progressiva de todas as minhas composições. Meu propósito consiste em demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte. Respondo logo negativamente. porque aquele limite pode ser traspassado. é importante examinar se há na extensão alguma vantagem. mais elevado e mais puro não se encontra  segundo creio  mais que na contemplação do belo. como já falei. O que chamamos de poema extenso nada mais é do que uma sucessão de poemas curtos. Minha análise começa. que alguns de meus amigos se apressaram a dissimular. ou excitação do coração. A consideração inicial foi esta: a dimensão. que tenho considerado como um desideratum. No entanto. um limite positivo para todas as obras literárias: o limite de uma só sessão. não se exige a unidade. para manter uma relação matemática com o mérito do mesmo. É certo que em alguns gêneros da prosa. Posto que não responde diretamente à questão poética. coeteris paribus. em outras palavras. No que se refere às dimensões. pelo menos a metade do Paraíso Perdido não é mais que pura prosa: há nele uma série de excitações poéticas salpicadas inevitavelmente de depressões. são muito mais fáceis de se alcançar por meio da prosa  embora. qualquer que seja. de efeitos poéticos breves. e que aquela avançou até seu término. a saber: que uma relativa duração é absolutamente indispensável para causar um efeito. o objetivo verdade. concebi antes de tudo uma ideia sobre a extensão idônea para o poema projetado: uns cem versos aproximadamente. evidentemente.

era evidente que o estribilho em questão teria que ser breve. sobre todos os meios de efeito  no sentido cênico . induz às lágrimas. dotada de palavra: como é lógico. mais propriamente. deixando que este fosse quase sempre parecido. Seria impossível não se deparar com a palavra esta foi a primeira que me veio à mente. sem embargo. com o aroma da beleza. procurei causar uma série contínua de efeitos novos com uma série de variadas aplicações do estribilho. consoante mais vigorosa. perguntei-me: Qual é o tom para a sua manifestação mais alta?. pois encontraria diculdades insuperáveis para variar frequentemente as aplicações de uma frase um pouco extensa. não se pode deduzir. ademais. como a força da impressão que deve causar depende do vigor da monotonia no som e na ideia. era preciso. este foi imediatamente substituído por um corvo. eleger uma palavra que o contivesse e. associada ao r. eu não o considerava. O desideratum seguinte foi este: qual seria o pretexto útil para empregar continuamente a palavra nevermore ? Ao ver a diculdade que se me apresentava para encontrar uma razão válida dessa repetição contínua. inevitavelmente. já que podem servir para aclarar ou para potencializar o efeito global. Assim. sobre o caráter daquela palavra. Isto me conduziu a adotar como estribilho ideal uma única palavra. a beleza. o terreno e o tom do meu trabalho. e toda a experiência humana nos leva a crer que esse tom é o da tristeza. Qualquer que seja seu parentesco. Já bem determinado o som do estribilho. porque esta é a nevermore (nunca mais). estivesse harmoniosamente de acordo com a melancolia que eu havia adotado como tom geral do poema. com a nalidade de acrescentá-lo. Reeti. uma familiaridade (os homens verdadeiramente apaixonados me compreenderão). ao mesmo tempo. Assim. Tendo decidido que haveria um estribilho. como as dissonâncias na música. em um papagaio. Reetindo sobre todos os efeitos conhecidos pela arte ou. que também é dotado de palavra e. que não é senão a excitação  rearmo  ou o embriagador arrebatamento da alma. ave de mau agouro. Mas o autêntico artista há de se esforçar sempre. não poderia deixar de compreender que nenhum havia sido empregado com tanta frequência quanto o do estribilho. no entanto. Em resumo: a diculdade consistia em conciliar a monotonia aludida com o exercício da razão na criatura chamada para repetir a palavra. pensei. desse modo.também ao alcance da poesia. De tudo o que foi dito até agora. repetida tão obstinada e monotonamente. e a paixão. de início. em reduzi-las a um papel propício ao objetivo pretendido. a melancolia é o mais idôneo dos tons poéticos. considerando o belo como o meu terreno próprio. preocupei-me com a natureza do meu estribilho: posto que sua aplicação tinha de ser variada com frequência. Surgiu então a possibilidade de uma criatura não racional e. pelo contraste. que nem a paixão nem a verdade possam ser introduzidas em um poema. Por consequência. Resolvi. variar o efeito. seria proferida por um ser humano. 3 . Na verdade. depois. pois o estribilho constitui a conclusão de cada estrofe. dediquei-me a buscar alguma curiosidade artística de alto grau que pudesse atuar como chave na construção do poema. senão com benefícios para este. Não havia dúvida para mim que semelhante conclusão ou término. que é a atmosfera e a essência do poema. pois. Este seria o tema de minha seguinte meditação. a divisão do poema em estâncias surgia como um corolário necessário. O corvo. a facilidade de variação estaria em proporção à brevidade da frase. a verdade requer uma precisão. não deixei de observar que essa diculdade surgia tão só de que tal palavra. Uma vez determinados a dimensão. radicalmente contrárias àquela beleza. Em resumo. e Tal como habitualmente é tão logo pude perceber que ainda se encontrava em um estado primitivo. em seguida. tanto quanto possível. mas alterando continuamente o da ideia: em outras palavras. o estribilho não só é limitado às composições líricas. permanecendo el à monotonia do som. Havendo já xado esses pontos. empregado. que é a vogal mais sonora. Só se pode extrair o prazer mediante a sensação de identidade ou de repetição. as almas sensíveis. de modo algum. evitando a necessidade de submetê-lo a uma análise. e depois torneá-las. havia chegado à concepção de um corvo. está innitamente mais de acordo com o tom desejado. para possuir força. repetindo Aquelas considerações me conduziram inevitavelmente ao o prolongado. Por outro lado. A universalidade deste bastava para me convencer acerca de seu intrínseco valor. antes de tudo. senão enquanto suscetível de aperfeiçoamento. deveria ser necessariamente sonora e suscetível de uma ênfase prolongada. De qualquer modo. de algum eixo sobre o qual toda a máquina pudesse girar. em seu desenvolvimento supremo.

para mim. plena de dor e sofrimento. ser maligno. até que por último o amante. de modo que nenhuma a ultrapassasse em seu efeito rítmico. ave ou demônio. eu as debilitaria. o tema mais poético do mundo. Abraçar a bela e rara jovem a quem os anjos chamam Leonora. falei. Teria que combinar. para xar o ponto supremo e poder. aproximadamente. perguntas que dessem a medida exata da superstição e do singular desespero que encontra o prazer em sua própria tortura. no trabalho de composição que deveria seguir. o espírito de invenção participa menos que o de negação para chegarmos até ela. durante séculos. não por crer o amante na índole profética ou diabólica da ave (que. as perguntas anteriores do amante. Só então escrevi essa estância. pela sua freqüente repetição e pela fama sinistra do pássaro. que se me impunha no transcurso do meu trabalho. o entende universalmente a humanidade? perfeição em todos os pontos. é também o mais poético?. pelo Deus que nós dois adoramos. o mais claramente possível. O certo é que a originalidade  excetuando os espíritos de uma força insólita  não é. arrancado de sua indolência pela índole melancólica da palavra. Aqui eu bem posso falar algo sobre a versicação. para decidir denitivamente o ritmo. assim como para graduar as que deveriam antecedê-la. em segundo lugar. variar. 4 . loucamente. nevermore . eu houvesse sido tão imprudente a ponto de escrever estâncias mais vigorosas. o efeito da variação da aplicação. da terceira. isto é. melhor dizendo. não faz mais que repetir algo aprendido mecanicamente). segundo Resposta inevitável: A morte. sem embargo. a pergunta denitiva. da versicação tem sido tratada com descaso. o Segundo o já explicado com bastante amplitude. a extensão e a disposição geral da estrofe. precisamente nesse ponto de minhas meditações. como teria que Então pude variar a aplicação da palavra repetida. Se. Compreendi que poderia formular a primeira pergunta feita que desta primeira pergunta poderia fazer uma espécie de lugar-comum. de modo que não interferissem no efeito do crescendo. De um modo geral. a qual o corvo responderia tirar vantagem da facilidade que se me oferecia para o efeito do qual meu poema estava dependendo. sem dúvida alguma. Meu primeiro objetivo era  como sempre Uma das coisas mais absurdas do mundo é. algo menos comum ainda. mas apaixonadamente interessantes ao seu coração. e parece-me óbvio que a boca mais apta para desenvolver o tema é a do amante privado de seu tesouro. Logo a morte de uma bela mulher é. como deveriam começar todas as obras de arte. questão de instinto ou de intuição. decidi primeiro formular a pergunta nal. e. da segunda. sempre profeta. e assim sucessivamente. mas por experimentar um prazer inusitado ao formulá-las daquele modo. é evidente que as variedades em matéria de metro e estância são innitas. ver como a originalidade Mesmo reconhecendo que no ritmo puro exista pouca possibilidade de variação. segundo sua gravidade e importância. recebendo do nevermore sempre esperado uma ferida deliciosa e insuportável. Fala a esta pobre alma angustiada se no Éden distante Poderá abraçar a jovem a quem os anjos chamam Leonora. resposta me veio facilmente: Quando ele se alia intimamente com a beleza. de maneira alguma. aquelas duas ideias: um amante que chora a sua amada morta e um corvo que repete continuamente a palavra nevermore.  a originalidade. e embora seja um mérito positivo da mais alta categoria. formulasse perguntas diversas. fosse lançado a uma agitação supersticiosa e. o metro. Vendo semelhante facilidade que se me oferecia ou. algo menos comum. em seguida. perguntei-me: Dentre todos os temas melancólicos.obstinadamente a palavra nevermore ao nal de cada estância em um poema de tom melancólico e Então. sem perder de vista o superlativo ou a extensão de cerca de cem versos. qual é o maior. Aqui posso armar que meu poema começara pelo m. nem sequer algo parecido. primeiro. nenhum homem fez alguma coisa de original a respeito da versicação. conscientemente e sem vacilação alguma. O Corvo disse: Nunca mais. mas o único meio possível para semelhante combinação consistia em imaginar um corvo que aplicasse a palavra para responder as perguntas do amante. a mais triste de todos. como muitos acreditam. E quando esse assunto. Então. a mais desesperada. pelo amante. só através de muito trabalho pode-se encontrá-la. para a qual o nevermore seria a última resposta. Pelo céu que nos rodeia. Não só teria que combiná-las. segundo lhe demonstra a razão. tomei da pena pela primeira vez e compus a seguinte estância: Profeta!.

pois este ganha a força de uma pintura. a m de satisfazer as idéias de que já expus acerca da beleza. o sexto. que o aar do pássaro contra o postigo fosse uma chamada à sua porta era uma ideia brotada de meu desejo de aumentar a curiosidade do leitor. o propósito se manifesta ainda mais: Então a ave de ébano induziu minha triste ilusão a sorrir. como um lord ou uma lady. não parou. obtidos por uma aplicação mais ampla da rima e da aliteração. de maneira que a originalidade de O Corvo consiste na combinação dos mesmos em uma única estância. explorei igualmente a força do contraste com o objetivo de aprofundar aquela que seria a impressão nal. não é preciso armar que esta vantagem não deve ser confundida com a que se obtenha da mera unidade de lugar. é absolutamente necessário um espaço estreito. O primeiro é trocaico. também de sete e meio. em um quarto que havia santicado com as recordações da que vivera ali. Maravilhei-me ao escutar aquela ave desajeitada falar tão bem. Fiz também com que a ave pousasse sobre o busto de Palas para estabelecer um contraste entre suas plumas e o mármore. Ora. Fala-me qual é o teu nome senhorial na Noite Plutoniana! O Corvo disse: Nunca mais. que fosse precisamente um busto de Palas para. Para expressar-me sem pedantismo. Até o presente momento. o quarto. Mas. naturalmente. não duvidou.Não é preciso armar que não pretendi ser original nem no ritmo nem no metro de O Corvo. pousou sobre a minha porta Nas duas estâncias seguintes. consistem em uma sílaba longa seguida de uma breve. conferi à entrada do corvo um matiz fantástico. Fiz com que a noite parecesse tempestuosa. como a única tese verdadeira da poesia. Por sua grave postura e pela severidade de seu aspecto. situar o amante em seu quarto. um otâmetro acatalético. e que pudesse aceitar a ilusão de que o espírito de sua amada estivesse a lhe chamar. Apesar de sua resposta pouco esclarecedora e relevante. o quinto. de três e meio. repetindo-se. Decidi. o primeiro verso da estância é composto de oito pés. o segundo. Torvo. de oito. Que o amante supusesse. o terceiro. de sete e meio. no primeiro momento. Ademais. Até a metade do poema. nalizando com um tetrâmetro catalético. em seguida. em primeiro lugar. aproximando-se já do cômico. que nada mais encontraria que a escuridão. alternando-se com um heptâmetro catalético que. errando. falei. de sete e meio. O ponto seguinte a ser considerado era o modo de estabelecer a comunicação entre o amante e o corvo. oferece a vantagem moral de concentrar a atenção em um pequeno âmbito. o segundo. no lugar. 5 . veremos que já foram empregados antes. Apesar de tua crista ser lisa e rasa. Havendo determinado assim o lugar. por causa da própria sonoridade do nome Palas. O quarto é descrito como ricamente mobiliado. isolando cada um desses versos. obrigando-o a aguardar. não és covarde. primeiro para explicar o motivo do corvo buscar a hospitalidade. espectral e antigo Corvo que. Poderia parecer que devesse brotar espontaneamente a ideia de uma selva ou de um campo. era preciso introduzir então a ave: a ideia de que esta penetrasse pela janela me parecia inevitável. pelo menos até onde meu assunto o permitia. os pés empregados. que são troqueus. nada foi criado que se lho assemelhe. em segundo lugar. Compreende-se que a ideia do busto foi suscitada unicamente pela ave. vai se converter em estribilho no quinto verso. O efeito dessa combinação original se fortalece mediante alguns outros efeitos inusitados e absolutamente novos. O primeiro ponto da questão consistia. Por isso. segundo para criar o contraste com a serenidade material reinante no interior do quarto. O corvo penetra a esvoaçar tumultuosamente: Não fez nenhuma reverência. mas também do desejo de colocar o efeito incidental da porta aberta de par a par pelo amante. mas tenho sempre armado que para se criar o efeito de um incidente insulado. vens da noite. demonstrar a íntima relação com a erudição do amante e.

Esta última quantidade é a que confere à obra de arte o ar opulento que cometemos a estupidez de confundir com o ideal. divertido pelo incidente. Até o presente. apenas aquelas. pousado no plácido busto. Dois elementos são exigidos eternamente: por um lado. Convencido disso. ao amante. ominosa ave de outrora. ainda imutável. é justamente o excesso na expressão do sentido que só deve ser insinuado. pode considerar-se concluído o poema em sua fase mais clara e natural. nada foi mostrado que ultrapasse os limites da realidade. segue pousado. ao ser interrogado. Mas só no último verso da última estância pode ver com nitidez a intenção de fazer do corvo o símbolo da recordação fúnebre e eterna: E o Corvo. afasta tua forma de minha porta! mais. Com o desenlace propriamente dito. responde com a sua palavra habitual  nevermore . Uma vez aberta a janela. por mais habilidade e mais vivas riquezas de incidentes que possua o artista. e sentia que seus feros olhos queimavam o seu coração. invisível e indenida. de combinação. com a resposta correspondente. Quero ressaltar que a expressão do meu coração encerra a primeira expressão metafórica do poema. conduzindo o espírito até uma posição propícia para o desenlace. nos temas manejados desse modo. certa quantidade de espírito sugestivo. sinistra. segue pousado O Corvo disse: Nunca 6 . tem a sua conclusão precisamente nessa tendência do coração à tortura. O que transforma em prosa (e prosa das mais chatas) a pretendida poesia dos que se denominam transcendentalistas. visível na superfície. que virá tão rápida e diretamente quanto possível. em outras palavras. e que. mas o ardor do coração humano não tarda em martirizar-se e. tendo fugido de seu dono. expressado no nevermore do corvo em resposta à última pergunta do amante  encontrará a sua amada no outro mundo? . levada ao extremo. a de simples narração. Mas. o seu nome. por outro. expressando em voz alta os pensamentos que aquela circunstância lhe sugere. o amante não mais zomba. Mas o corvo. Então o leitor começa a considerar o corvo como um ser emblemático. sem esperar resposta. em uma janela onde ainda brilha uma luz. Essa transição do pensamento e essa imaginação do amante têm como nalidade predispor o leitor a outras análogas. Estas palavras. lhe proporciona. Um corvo que aprendera mecanicamente a palavra nevermore. pergunta-lhe. leva o espírito a buscar um sentido moral em toda a narração que se desenvolvera anteriormente. a janela de um estudante ocupado em ler um livro e a sonhar com a sua amada morta. à meia-noite. e este. juntei as duas estâncias que concluem o poema. suposições que o caso lhe inspira. o intolerável nevermore. A corrente subterrânea do pensamento se mostra. também. naquilo que designei como sua primeira fase ou fase natural. A partir desse momento. tudo tem-se mantido nos limites do explicável e do real. a ave pousa o mais distante possível do estudante que. se emociona diante da repetição do nevermore. cuja resposta. o mais profundo: esta mudança de tom se inicia no primeiro verso da estância que segue a que acabo de citar: Mas o Corvo. pela primeira vez. por uma espécie de superstição. é a mania de converter a corrente subterrânea de uma obra em outra corrente. Preparado assim o efeito do desenlace. a formular perguntas à ave. etc.Porque sabemos que nenhum ser humano ou vivente Jamais se encantou ao ver um pássaro sobre a sua porta  Uma ave ou uma besta no busto esculpido sobre a sua porta  E que se chame Nunca mais. certa suma de complexidade ou. o mais horrível sofrimento. Fala dela como uma espantosa. palavra que imediatamente O estudante se entrega às suscita um eco melancólico no coração do estudante. brincando. porque sua qualidade sugestiva haveria de penetrar em toda a narração antecedente. apressei-me em abandonar o tom ngido e adotar o sério. nestes versos: Afasta teu bico do meu coração. aando. já não vê nada de ctício no comportamento da ave. A narração. Até aqui. algo assim como uma veia subterrânea de pensamento. fustigado pela fúria da tempestade. sempre mostrará um pouco da rudeza ou da nudez que repelem a leitura de uma pessoa sensível. pede abrigo.

Sobre o pálido busto de Palas. E a luz da lâmpada. lança a sua sombra no chão. nunca mais! 7 . daquela sombra que jaz utuando no chão Não se levantará. E minha alma. que o cobre. . Seus olhos se assemelham aos de um demônio que medita. . bem sobre a minha porta.

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