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INFORMATIVO

Agrofloresta
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BOLETIM

Retenção de Água
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Editorial
Compatibilizar as actividades humanas com a defesa da Natureza não é apenas uma questão ética é também uma questão de sobrevivência. Após décadas de um modelo de sociedade industrial em que a tecnologia é olhada como a “salvação” da humanidade são cada vez mais os que compreendem que a cooperação com a Natureza tem de voltar a ser valorizada, e estão a surgir vários projectos onde se exploram, por exemplo, novas práticas agrícolas ou de construção de habitações inspiradas em práticas tradicionais com melhorias à luz de conhecimentos recentes. A partilha de saberes, a divulgação de actividades, notícias e factos sobre a actualidade com um olhar para o futuro continuará a ser a principal modelo inspirador do nosso boletim. A Presidente da Direcção

Nesta edição:
ÚLTIMAS ACTIVIDADES MILHO OGM CAUSA TUMORES E MORTE BREVES
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Ano 8, N.º 27

Alexandra Azevedo

Dezembro de 2012

www.mpica.info

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ÚLTIMAS ACTIVIDADES

Alexandra Azevedo

OFICINA DE PRESERVAÇÃO DE SEMENTES DE VARIEDADES TRADICIONAIS O uso e livre troca de sementes de variedades tradicionais estão a ser restringidos por patentes e outras imposições legais, situação de profunda injustiça, pois a semente é o primeiro elo da cadeia alimentar, ou seja, representa novas culturas, alimentos, a Vida. Quem controlar as sementes controla a produção de alimentos! Assim, um pouco por todo o mundo multiplicam-se as iniciativas de recuperação da herança milenar da humanidade, o património genético, através da livre troca de sementes, tendo surgido em 2012 a Quinzena de Acção Mundial pelas Sementes Livres que decorreu na primeira quinzena de Outubro, com centenas de eventos por todo o mundo, em Portugal foram organizados 17 eventos de Norte a Sul. À Campanha pelas Sementes Livres (nacional, subsidiária da campanha europeia) junta-se agora o Movimento Global pelas Sementes Livres. Integrado também na actividade do CREIAS Oeste, com a LOURAMBI, realizou-se na Lourinhã uma oficina de preparação e preservação de sementes de variedades hortícolas tradicionais. Teve início às 16.00 para a projecção do excelente documentário "As Nossas Sementes" na Junta de Freguesia da Lourinhã a que se seguiu um debate e parte prática no pátio do Museu da Lourinhã, onde foram demonstradas a técnica húmida e por maceração para a separação e limpeza das sementes de alface e couve nabiça e tomate, respectivamente.

Fotos: Lívia Vieira Campanha pelas Sementes Livres: www.sosementes.gaia.org.pt Campanha Europeia: www.seed-sovereignty.org Movimento global para a Liberdade da Semente: www.seedfreedom.in

SESSÃO SOBRE ECO-GASTRONOMIA NA ESCOLA SECUNDÁRIA HENRIQUES NOGUEIRA (TORRES VEDRAS)
Integrada na actividade do CREIAS Oeste realizou-se uma sessão sobre eco-gastronomia dia 20 de Novembro. A plateia estava repleta, previa-se que estivessem presentes cerca de 60 alunos e o número acabou por ser de 103!, pertencentes aos cursos de Educação e Formação de Adultos de nível secundário e de nível básico, Educação e Formação de Adultos dupla certificação de Auxiliares de Educação, Auxiliares de Saúde e Contabilidade. Após uma apresentação de diapositivos alertando para uma série de factos relacionados com o actual modo de consumo e de produção de alimentos, e, claro, abordando as alternativas e o que podemos fazer, seguiu-se uma demonstração de algumas iguarias eco-gastronómicas: maionese de linhaça e revolto de urtigas, e a plateia pode ainda degustar pão de lêveda natural, bolachas de bolota e bebida de roseira brava. Foram os participantes que felicitaram pelo conteúdo e pelas provas de deliciosas receitas. Foi ainda notório que para alguns mais sépticos a prova permitiu dissipar algumas desconfianças.

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ESTUDO CIENTÍFICO DEMONSTRA QUE MILHO TRANSGÉNICO CAUSA TUMORES E MORTE

Alexandra Azevedo

Em comunicado de 19/9/2012 a Plataforma Transgénicos Fora comenta que face ao estudo (1) publicado na prestigiada revista internacional Food and Chemical Toxicology sobre milho geneticamente modificado que aponta para efeitos tóxicos "alarmantes"(3) até agora desconhecidos, todos os transgénicos estão em causa, pelo que o Governo tem de tomar medidas de emergência e precaução (previstas aliás na directiva quadro dos transgénicos 2001/18): - Suspensão imediata de todos os transgénicos em uso na alimentação e nas rações animais; e - Proibição imediata do cultivo de milho transgénico em Portugal. Este estudo é particularmente importante, porque é a primeira vez a nível mundial que são investigados os efeitos de longo prazo dos transgénicos na saúde. O milho estudado foi o NK603 da multinacional Monsanto, tolerante ao herbicida Roundup, foi considerado seguro e autorizado para a alimentação humana pela Comissão Europeia já em 3 de Março de 2005 e tem circulado na Europa desde então. Os investigadores, liderados pelo Prof Séralini da universidade francesa de Caen,verificaram que os animais alimentados por este milho transgénico (num regime alimentar oficialmente considerado seguro) sofreram de morte prematura, para além de tumores e danos em múltiplos órgãos vitais. Este estudo despoletou inúmeras reacções, destacaremos aqui apenas algumas. Como se poderia prever o estudo sofreu ataques não só da empresa Monsanto, produtora do milho transgénico e do Roundup, mas também de cientistas defensores dos transgénicos, tal como todos os estudos que que apontaram evidências de efeitos negativos dos transgénicos para a saúde ou o meio ambiente: as críticas, que começam imediatamente a correr mundo, buscam desqualificar a pesquisa por completo, com alegações do tipo "o estudo carece de qualquer base científica", "o estudo não atende as normas mínimas aceitáveis para esse tipo de pesquisa científica", ou ainda "os dados apresentados não suportam as interpretações do autor". É preciso dizer que a pesquisa em questão foi peer reviewed, ou seja, revista por pares - outros cientistas que compõem o comité editorial das revistas científicas para avaliar a qualidade dos dados e das análises. Mais que isso, dada a importância que tem para os pesquisadores (académicos em geral) a publicação em revistas bem conceituadas em suas áreas de estudo, existe actualmente uma enorme competição por publicações e só chegam a ser publicados os estudos que atendem, rigorosamente, a todos os padrões de qualidade exigidos. Ao contrário desta pesquisa, os estudos que suportaram as autorizações comerciais de transgénicos pelo mundo a fora NÃO foram publicados em revistas científicas. Esses estudos, em sua maioria esmagadora conduzidos ao longo de no máximo 3 meses, são realizados pelas próprias empresas que desenvolveram os produtos, não são "revistos por pares" e, mais ainda, comumente não têm seus dados tornados públicos, contendo partes importantes declaradas como sigilosas! Ou seja, os cientistas que dizem duvidar da qualidade da ciência que aponta problemas no milho transgénico e no agrotóxico usam sua autoridade científica para tentar desmerecer o mecanismo de validação que é aceite no meio científico - a publicação - e conferir legitimidade a resultados de pesquisas cujo rigor não é avaliado por comités independentes. Solidariedade a Séralini no meio científico Perante este ataque ao estudo de Gilles-Eric Seralini, surgiu uma onda de resistência em defesa da ciência e da equipa do pesquisador francês. Uma carta aberta foi assinada por um grande membro de académicos de todo o mundo e uma declaração “Ciência e Consciência” foi assinada por 140 cientistas franceses (e vários não assinaram com receio de represálias) e foram enviadas cartas individuais por 160 cientistas. Na carta aberta os cientistas recordam o histórico de ataques e perseguições e alertam para as críticas enganosas e falsas normalmente amplamente difundidos no sentido de desqualificar, sistematicamente, as pesquisas que evidenciam os riscos dos transgénicos. Criticam ainda os protocolos dos experimentos exigidos para a aprovação de transgénicos nos EUA e na Europa, que apresentam pouco ou nenhum potencial para detectar as suas consequências negativas. Agência Europeia para Segurança Alimentar critica estudo A Agência Europeia para Segurança Alimentar (EFSA, sigla da denominação em inglês), que ainda não rejeitou nenhum transgénico e como tal havia aprovado esta variedade de milho considerando-a segura para consumo, concluiu que o estudo é de qualidade científica insuficiente para ser considerado válido como avaliação de risco. Em vez de, no mínimo, assumir uma posição de precaução e considerar a necessidade de se realizarem

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mais estudos, limita-se a denegrir a imagem de prestigiados investigadores e revista científica. A conclusão óbvia é a de que a saúde pública não é minimamente defendida por quem supostamente é a autoridade reguladora competente!
(1) Séralini, G.-E., et al. Long term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize. Food Chem. Toxicol. (2012)

O HOMEM QUE FAZ NASCER RIOS
Rajendra Singh, 52 anos, presidente da Tarun Bharat Sangh (TBS), uma organização não-governamental indiana, teve um papel central na suspensão da construção de uma megabarragem, no rio Bhagirathi, um dos principais afluentes do Ganges. Em 2010, o Governo indiano aceitou desmantelar a obra até aí erigida. Depois de uma luta aguerrida, nos anos 1990, o Supremo Tribunal Indiano obrigou 470 minas de mármore a encerrarem, no ParqueNacional de Sariska. Graças este homem, hoje, em todo o Rajastão, um dos mais pobres e áridos Estados indianos, existem mais de 10 mil johads construções que retêm as chuvas das monções, erguidas pelas comunidades rurais, em centenas de aldeias. Através da sua política de conservação e gestão da água e das florestas, onde antes havia zonas desérticas, agora há campos agrícolas; onde havia leitos secos, de pó e pedra, há hoje correntes fortes e peixes; onde havia aldeias sem gente, voltou a haver escolas e serviços de saúde. Pode um homem mudar o mundo? Parece que sim. Quando o líder da comunidade de Golpalpura, Maangu Meena, chamou Rajendra Singh, estava com cara de poucos amigos. Disse-lhe: "Você e os seus companheiros são boas pessoas, mas estão a fazer tudo mal! Nós não precisamos dos vossos medicamentos, nem da vossa educação. Podemos ter tudo isso na cidade. Se querem fazer algo útil, resolvam o problema da falta de água!" DE MÉDICO A CAVADOR Foi um choque. Como podiam voluntários com cursos superiores ser tratados assim? Singh, então com 26 anos, era licenciado em medicina e tinha uma pós-graduação em literatura hindu e os seus amigos também eram "doutores". Haviam largado tudo, abandonado os empregos e as famílias, e há sete meses que se dedicavam às populações daquele distrito. "Vínhamos para fazer a revolução, combater as injustiças, não para tratar da água", recorda. Os outros foram-se embora, desiludidos. Ele ficou. Aprendeu com os velhos camponeses a construir uma johad, um reservatório tradicional de recolha de chuva, usado durante séculos nas aldeias rurais da Índia. Construídas nos declives naturais, em forma de pequenos lagos ou barragens, as johads serviam para armazenar, durante o ano, a água que caía nas monções. Além de ser usada para usos domésticos e agrícolas, a água capturada ia-se infiltrando e recarregava os lençóis freáticos. Mas já nada disto acontecia, em que nos anos 1980, as mulheres passaram a ser obrigadas a caminhar durante sete ou oito horas para recolherem cerca de 30 litros. Os homens tinham abandonado as aldeias para procurar trabalho na cidade, porque as terras eram tão áridas que não havia agricultura. Com o seu voluntariado, a johad que construiu recolheu tanta água que algumas nascentes de poços secos começaram a correr. O fenómeno não era visto há décadas e isso revelou a Singh a sua verdadeira missão. Decidido a espalhar a boa nova, organizou uma peregrinação para divulgar a sua forma de combater a seca: palmilhou as povoações que viviam nas margens do rio Arvari, morto há mais de 60 anos. A condição que impôs para ensinar os aldeões a construir johads foi a de que uma assembleia local, onde cada família tivesse o seu representante. Além disso, todas as decisões relativas ao uso da água e à gestão das florestas e das pastagens tinham de ser tomadas em conjunto. Conseguiu assim que fosse toda a comunidade a colaborar na resolução dos problemas que mais a afectavam: a seca extrema, a erosão dos solos, a desertificação. Nos anos seguintes, as populações ribeirinhas, com a ajuda da organização criada por Rajendra, construíram 375 estruturas, ao longo do rio e recuperado os caudais dos rios!

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JOHAD: construção que retém as chuvas das monções, erguidas pelas comunidades rurais, em centenas de aldeias.

DEMOCRACIA VERDE Quando chegou a água, chegou também o Governo, pronto a concessionar a exploração pesqueira no rio, agora com peixe em abundância. Mas as populações opuseram-se fortemente. Criaram o Parlamento do rio Arvari, uma assembleia constituída por representantes das 72 aldeias sediadas nas margens do curso de água … e reivindicaram para si a gestão do rio. "Quanta água podemos tirar? Que culturas se devem plantar? Quanta madeira se pode cortar das árvores? Foi este tipo de responsabilidade que os habitantes assumiram", explica Singh. Mais: a TBS fomentou uma política de igualdade de género, criando concelhos específicos em que os pareceres das mulheres são vinculativos. Estas batalhas culturais são difíceis mas comparando-as com as tentativas de assassínio por parte de industriais das pedreiras ou com os processos judiciais movidos pelo Estado contra si ou a sua organização (377 acusações, das quais foi sempre absolvido), parecem muito simples. "Se vives para a natureza, ela dá-te sempre a protecção de que precisas." É a máxima deste activista agora convidado pelo primeiro-ministro para integrar a Autoridade Nacional para a Bacia do Ganges, uma agência estatal autónoma, com plenos poderes e meios financeiros, cuja missão é despoluir o rio sagrado. Adaptado do artigo Pedro Miguel Santos, 9/7/2012, em http://visao.sapo.pt/o-homem-que-faz-nascer-rios=f673705#ixzz209QH8NUv Nota da redacção: É notável o que o activista indicado, Rajendra Singh, conseguiu e está a fazer! Igualmente notável é a sua humildade que “descendo” do seu pedestal de licenciado ousou ouvir as populações rurais e atender aos seus problemas! Prova que afinal um homem (ou mulher) pode mesmo mudar o mundo! Agora que se fala tanto em economia verde, deveria sim ser considerado o conceito de "Democracia verde".

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AGROFLORESTA

Nuno Carvalho

Uma floresta é um organismo vivo. É uma rede interdependente de seres que cooperam para gerar cada vez mais recursos, mais vida, mais complexidade e mais biodiversidade. Trata-se de uma entidade em constante transformação em que o todo é maior do que a soma das suas partes. Cada ser tem uma função específica e o seu papel é indispensável para a saúde de todo o sistema. A agrofloresta (ou floresta de alimentos) é um método de produção que propõe, não a criação de um novo ambiente produtivo, mas que o homem, e a produção agrícola da qual tira proveito, integrem um ambiente florestal. A agricultura deixa assim de ser uma agro-mineração que, ao sugar recursos, promove a degradação dos solos e se torna dependente da aplicação de químicos poluentes. Torna-se num processo regenerativo com uma grande capacidade produtiva de uma vasta gama de produtos alimentares e florestais, que promovendo ecossistemas cada vez mais férteis e abundantes é capaz de recuperar solos totalmente degradados em curtos espaços de tempo. É uma prática agrícola de carácter micro regional, e por isso capaz de dinamizar economias locais e de vizinhança. Uma vez que se evitam todo o tipo de fertilizantes, pesticidas, herbicidas, maquinaria pesada e tarefas de mão-de-obra intensiva, esta prática é orientada para pequenos produtores e ideal para uma lógica de autosustentabilidade. O método é, na sua essência, uma tentativa de imitar a natureza. Na natureza a maioria das plantas vive em associação com outras espécies, das quais necessita para um crescimento pleno. Estas associações, ou consórcios, sucedem-se de forma dinâmica e contínua, processo a que se chama Sucessão Natural. Estas são as forças motrizes que asseguram a saúde das plantas e dos solos. Ernst Gotsch Ernst Gotsch nasceu na Suíça em 1948. Trabalhou, na década de 70, no melhoramento genético de espécies vegetais. Esta pesquisa permitiu-lhe concluir que, em vez de adaptar as plantas cultivadas, podia obter melhores resultados se criasse agro-ecossistemas em que as plantas, num sistema de cooperação, se desenvolviam vigorosamente sem inputs químicos. Depois de obter os primeiros resultados na Suíça, mudou-se em 1979 para a Costa Rica, onde realizou trabalhos de recuperação de terrenos degradados. Implantou inúmeros sistemas complexos e altamente produtivos que dispensavam todo o tipo de adubos e pesticidas. Em 1982 fixou-se no Brasil. Começou por fazer consultoria a várias fazendas e, em 1984, iniciou um projecto de recuperação de uma área de 500ha extremamente degradada no sul da Bahia. Ao fim de 15 anos, a mata atlântica (ecossistema da região hoje muito ameaçado), estava recriada e toda a fauna característica reinstalada ao mesmo tempo que se tornou extremamente produtiva com um grande número de espécies incluindo o cacau e a banana. Grande parte deste espaço de 500ha é agora Reserva Particular do Património Natural. Desde 1993, depois de alcançar resultados extraordinários, tem-se dedicado ao ensino e transmissão dos seus métodos em todo o mundo. Hoje, Ernst presta assessoria a organizações não-governamentais, universidades e órgãos de assistência técnica rural em quase todas as regiões do Brasil assim como a organizações da Europa e da América Latina. A semente da abundância Uma agricultura realmente sustentável pressupõe uma nova relação ser humano-natureza, onde se deve buscar optimizar e não maximizar os recursos. Parte-se do princípio de que é mais gratificante enriquecer o lugar do que explorá-lo, pois quando o lugar fica rico em vida, há excedentes, que gerará recursos para o(a) próprio(a) agricultor(a). Observar e estar aberto para aprender é a grande dica, pois nesses sistemas, acabamos por ser aprendizes da própria natureza. Entendendo que a agricultura, para ser sustentável, deverá estar fundamentada em fortes bases ecológicas, partiremos do princípio que mais sustentável será um agro-ecossistema quanto mais semelhante for, em estrutura e função, ao ecossistema original do lugar, pois replicará os mesmos mecanismos ecológicos existentes, adaptados evolutivamente para que a vida seja perpetuada sob aquelas condições. Portanto, o primeiro passo para a construção de agro-ecossistemas mais sustentáveis é procurar no ecossistema do lugar, os fundamentos para a construção dos agro-ecossistemas. Uma floresta não é estática. Ela segue a dinâmica da sucessão natural, onde os consórcios das plantas são substituídos pelos subsequentes. Assim, a construção de uma agrofloresta deverá seguir esses mesmos preceitos, onde os consórcios das plantas agrícolas, combinadas com outras plantas de interesse económico ou não, nativas

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ou não, vão se seguindo, de acordo com o tempo de vida das plantas, ocupando da melhor maneira possível o espaço vertical, ou seja, de forma que haja diferentes estratos. Numa floresta encontram-se plantas bem próximas umas das outras, desenvolvendo-se muito bem, donde concluímos que as plantas não competem entre si desde que a combinação delas seja adequada. Utilizando o importante ensinamento da própria natureza, conclui-se que é importante, na implantação das agroflorestas, que as espécies sejam introduzidas em alta densidade e alta biodiversidade. A introdução de árvores em alta densidade, em conjunto com as espécies de ciclo de vida curto e médio, reduz inclusive a mão-deobra e viabiliza o bom desenvolvimento das plantas, caso contrário, poderá haver um combate insano contra as “ervas daninhas”, que indubitavelmente surgirão para ocupar o espaço desocupado. Manter o solo sempre protegido, coberto, é fundamental. A protecção da terra com plantas vivas e com a cobertura morta de matéria orgânica é imprescindível para manter a fertilidade da terra de forma sustentável. Para que a terra se mantenha sempre coberta, devemos aproveitar as plantas que surgem espontaneamente, em vez de serem consideradas plantas indesejadas, devem ser consideradas importantes, pois elas poderão, através da poda, contribuir para o desenvolvimento das plantas de interesse económico, protegendo a terra e ajudando também a manter a fertilidade do solo, ao aumentar a reciclagem de nutrientes. Nas agroflorestas, as espécies de interesse económico são componentes que interagem com muitas outras espécies da própria regeneração natural, que embora muitas vezes não apresentem interesse económico directo, como fonte de algum produto, são fundamentais para a manutenção do sistema e garantia do bom desenvolvimento das espécies economicamente importantes. A disponibilidade de água também segue a lógica de minimização de introdução de elementos externos ao sistema. A água não é um factor a ser introduzido no sistema de produção por meio de irrigação. Sabe-se que, quando se reduz a vida de um lugar, a água torna-se escassa. Precisamos agir no sentido de construirmos agroecossistemas hidrofílicos (que atraem água). De destacar que o uso de plantas “especialistas” em reter água é uma abordagem inicial importante em locais debilitados de recursos hídricos. Podemos olhar para a Agrofloresta como um modelo com futuro e grande candidato a ser uma das maiores ferramentas para tornar o território numa grande floresta, diversa e abundante, tornando o nosso habitat num local cada vez mais agradável, para nós e para todas as espécies que nos acompanham. Para começar - cercas vivas As cercas vivas, além de sua finalidade imediata (materializar limites; embelezar limites), podem actuar eventualmente como abrigo para aves e local de nidificação, com efeitos benéficos sobre o controle de insetos indesejados. Cercas vivas densas podem diminuir os efeitos nocivos do vento, actuando como corta-vento. Para este efeitos podemos usar Ciprestes (Cupressus lusitanica) e outras espécies dos gêneros Cupressus, (Thuya, Cha maecyparis, e Thuy opsis) (Cupressáceas). Usando plantas jovens que podem ser adquiridas a preço económico em viveiros da especialidade, podem ser criadas cercas vivas com maior eficácia e rapidez. É recomendada a prática de podas periódicas de forma a potenciar a formação tipo “muro”. Para começar - tutores vivos Podemos guiar a videira (ou outras espécies trepadeiras) através de um tutor vivo, normalmente uma árvore resistente aos cortes profundos da poda, como um choupo, carvalho ou castanheiro (conhecido como uveira ou vinha do enforcado é o sistema de condução mais antigo usado na produção de vinhos verdes, mas em desuso hoje em dia).
Parte do texto adaptado de: http://www.sitiocoop.com/workshops/agrofloresta/ http://media0.agrofloresta.net/static/artigos/agrofloresta_sucessional_sergipe_peneireiro.pdf

BREVES

Cultivo da batata transgénica pára na Europa
Devido há falta de aceitação em numerosas regiões europeias pela maioria dos consumidores, agricultores e responsáveis políticos a empresa que desenvolveu e comercializa a batata transgénica Amflora, a alemã BASF, número um mundial da indústria química, anunciou que renuncia à comercialização e desenvolvimento de novos produtos transgénicos destinados à EU e vai cessar o cultivo da batata Amflora. A empresa decidiu também transferir o departamento de investigação para os Estados Unidos. A batata foi cultivada apenas em menos de 300hectares e um dos principais motivos de preocupação é o facto de possuir um gene de resistência a antibióticos. Para além do milho Bt (MON 810) a batata Amflora era a outra cultura transgénica autorizada na Europa. O milho foi autorizado em 2005 e a batata em 2010.
Fonte: http://goo.gl/N6NZt

Vários países tomam precauções depois do recente estudo do Seralini
A Rússia suspendeu a importação e o uso de milho dos EUA. A Aústria pretende rever o processo de aprovação de transgénicos. A empresa de sementes francesa Vilmorin, reduz os campos de ensaio com transgénicos para 2013
Fonte: http://www.gmwatch.org

Peru aprova lei que proíbe o cultivo e a importação de transgénicos
O Peru aprovou a regulamentação da lei que proíbe o uso de alimentos transgénicos no país. A regulamentação prevê a destruição das plantas geneticamente modificadas e multas de até US$ 14 milhões a quem não respeitar a lei. Esta lei tinha sido aprovada o ano passado e decidiu que o Peru não cultivaria nem importaria produtos geneticamente modificados por um período de 10 anos.
Fonte: http://goo.gl/XTNQu consultada em 30/11/2012

Quénia proíbe a importação de transgénicos
A ministra da saúde pública Beth Mugo determinou a todos os agentes de saúde nos portos e gestores governamentais a implementação de proibição da importação de produtos transgénicos no país. Esta medida prossegue da decisão do governo de banir a importação desses produtos com base na inadequação das pesquisas e das evidências científicas provando a segurança desses produtos. Perante a “… incerteza sobre a segurança do alimento, o princípio da precaução deve ser adoptado para proteger a saúde das pessoas", destacou a ministra
Kenya Broadcasting Corporation, http://www.kbc.co.ke/news.asp?nid=79126, 21/11/2012.

Ficha técnica Directora: Alexandra Azevedo Paginação: Nuno Carvalho Colaboraram nesta edição: Alexandra Azevedo, Lívia Vieira e Nuno Carvalho Impressão com o apoio da Junta de Freguesia de Vilar Propriedade: MPI - Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente Largo 16 de Dezembro, 2 / Vilar / 2550-069 VILAR CDV tel:/fax: +351 262 771 060 email: mpicambiente@gmail.com Web site: http://mpica.info