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24 - outubro de 2008

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Ano IX nº 24 - outubro 2008

Currículo Escolar: algumas reflexões
Editorial
“... As disputas pelo currículo – sobre quais experiências serão representadas como válidas ou qual língua ou história será ensinada – são inquestionavelmente permanentes.” (Michel W. Apple*)

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este Suplemento, optamos pela reflexão sobre o Currículo Escolar, por entender que, no momento atual da educação paulista, ela é oportuna e necessária. Contamos com os artigos A história da educação e o currículo escolar, de José Luís Sanfelice;Políticas para o Currículo Escolar: Significados e

Implicações para a Escola, de Mara Regina Martins Jacomeli; Reforma do Estado e política educacional: o contexto para a reforma curricular em tempos neoliberais, de Lalo Watanabe Minto; Currículo e Histórias de Vida, de Belmira Oliveira Bueno, Daiane Antunes Vieira Pincinato, Márcia Maria Brandão Santos; Escola e Currículo - A Discussão Necessária, de

Helena Machado de Paula Albuquerque; que abordam variadas questões sobre o currículo. Ainda, temos uma entrevista com Supervisor de Ensino sobre suas concepções de currículo e seu importante trabalho na Diretoria de Ensino. Finalmente, as resenhas de três obras sobre o assunto e sugestões de livros. Boa leitura!

Comissão organizadora: Albino Astolfi Neto Eliene Bonetti Jairo de Carvalho Maria Antonia de O. Vedovato Maria Cecília Melo Sarno Maria de Lourdes de Cápua Maria José A. Rocha R. da Costa Rosângela Aparecida Ferini

*APPLE, Michael W. e colaboradores – Currículo, Poder e Lutas Educacionais, Porto Alegre: Artmed, 2008.

Abordagem

A história da educação e o currículo escolar
José Luís Sanfelice (*)
enti a necessidade de relacionar o tema central – currículo escolarcom a história da educação, em especial a história da educação brasileira, para não perder a dimensão de historicidade que a abordagem exige. Minha preocupação estará centrada no entendimento do currículo escolar como uma produção histórica intencional. Desde as origens da educação, entendida sob a ótica da prática formal escolar, discutiuse, mesmo que sob outras nomenclaturas e não necessariamente usando um conceito de currículo, quais conhecimentos, valores, comportamentos e habilidades aquela instituição deveria disponibilizar (impor?) aos educandos. Então, através do percurso histórico, é possível constatar-se como as propostas curriculares foram se alterando nos seus fundamentos filosóficos, quanto aos ideais pedagógicos, em relação à concepção de homem e, principalmente, no que diz respeito aos conhecimentos a serem

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socializados. Bastaria lembrar, sem ter que entrar em detalhes, quanto é antiga a discussão travada entre os defensores de uma orientação curricular voltada para a formação mais humanística e os adeptos de uma formação mais de caráter científico. Quanto já não se escreveu, também, sobre uma formação mais generalista ou uma formação mais especializada dos educandos? E a educação religiosa? Deve ou não fazer parte do currículo escolar (em especial da escola pública)? Desde quando esse debate está em pauta? Hoje se discute formação profissional, formação técnica, tecnológica e formação para o mercado. E qual currículo? É razoável lembrar também que os jesuítas, ardorosos combatentes da Reforma Protestante e ativos participantes da empresa colonial portuguesa no Brasil, discutiram durante muitos anos o conjunto das suas ações pedagógicas, o eixo do seu currículo de ensino, até que universalizaram seus procedimentos pela edição do Ratio Studiorum. Pode-se dizer

que os jesuítas tinham bastante clareza do que queriam na educação e na catequese, dentro do processo da Contra-Reforma e de conquista européia sobre a América e os povos indígenas: formar cristãos, quadros da própria ordem religiosa e ilustrar parte das elites. Os propósitos jesuíticos junto à Coroa portuguesa, em certo momento, não foram mais partilhados integralmente pelo ministro Pombal (ilustração abaixo). Pombal não só expulsou os jesuítas do reino, mas também fundou escolas renovadas, reformulou outras, mudou currículos, tornou obrigatória a língua portuguesa e, no Brasil, instaurou as AulasRégias. Pode-se dizer que os objetivos do déspota esclarecido não visavam mais somente à formação de um homem cristão, mas sim do nobre de Estado, pelo menos na Metrópole. Em última instância era o Estado e a nacionalidade que deveriam sair fortalecidos, sob o comando das classes dominantes. Mais um exemplo e sem ser exaustivo: na história bem recente da educação brasileira, a

ditadura civil-militar do capital, que ocupou o poder de Estado com o movimento golpista de 1964, fez profundas incursões na legislação e organização escolar, nos currículos e nos fins a serem alcançados pelos diferentes níveis e modalidades de ensino. Daquelas ações resultaram a Reforma Universitária de 1968 (Lei 5540/68) e a Lei de Diretrizes e Bases de n. 5692/71, dentre outras iniciativas. Os currículos de profissionalização compulsória, por exemplo, foram logo

com grande ônus de custos/investimentos em prédios. O empenho do Estado em prover a educação formal de escolas estatais. dentro de um processo mais geral de permanências e mudanças da sociedade como um todo. E diferenças curriculares muito mais profundas marcaram sempre a separação entre a “escola para os pobres” e “a escola para as elites”. sempre. Resta constatar que uma sociedade com tais características é incompatível com um regime político de democracia plena e menos ainda para a justiça social. tendencialmente. desde os meados do século XVI. deve permanecer como está. em tais circunstâncias. Veja-se. É preciso considerar que desde sempre. os múltiplos sistemas de avaliação do aluno. portanto. ainda muito jovens. com grande freqüência. Mas. Na história da educação brasileira mais recente. foram bem distintos. mais formal do que real. como um dos exemplos possíveis. os Temas Transversais. diferentemente do que imaginam alguns educadores. na concepção em torno da criança. por sua vez refletem. desde a ditadura civil-militar de 1964 até os dias de hoje. mas sim tendencialmente. aconteceu quer em decorrência das determinações externas. Os governos.outubro de 2008 história da educação e constatar que se torna inevitável formular indagações. A nossa História da Educação. reformulam. que vivenciou três séculos de práticas escravistas. No campo econômico. nas quais a educação formal se institucionalizou nas instituições escolares. influenciado pela religião católica e. o Estado foi moldado. consolidar a sociedade capitalista. as classificações comparativas de desempenho entre as unidades escolares. os conteúdos curriculares voltados à formação de cidadãos que. que os currículos escolares não são desinteressados. Nesse empenho teve que superar as influências até então hegemônicas da Igreja Católica. os desfechos práticos do Movimento da Escola Nova por aqui e por lá. nos seus conteúdos curriculares disciplinares. Sabe-se também que a realidade brasileira não era exatamente a realidade européia e que. Evidentemente. Os discursos oficiais podem não revelar ou não referendar a constatação. Os currículos escolares aqui ministrados.2 veículo de execução da referida tarefa. substituem. é considerado um marco da expressão daquele novo ideário educacional por estas terras. visa também outros objetivos de controle sobre o próprio município. Era. A educação foi “revolucionada” nos seus pressupostos e métodos. ganhou legitimidade para praticar a violência em certas situações. já podemos expressar uma consideração: o currículo escolar é sempre produto de um contexto histórico determinado que. o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. A escola estatal brasileira teve que responder às necessidades que foram se impondo para um país de economia subalterna. da gratuidade. no papel do professor. bem como das determinações postas pelas especificidades locais. gradativamente. também por um processo de contradições intrínsecas. Com a produção histórica da escola estatal. conjunturalmente estiverem na hegemonia . instalam-se nele por caminhos considerados democráticos ou não e aí. o Brasil atrelou-se à economia capitalista mundial. julga. Ele é uma instituição mais permanente e de grande alcance sobre a sociedade. Em última instância: era preciso encontrar as formas pelas quais as classes trabalhadoras seriam preparadas para atenderem de forma pacífica e disciplinada às determinações do mundo do trabalho. para constituir-se no principal articulador da educação para o povo. com o pretexto de se superar a legislação do arbítrio. não de forma mecânica. ao mercado de trabalho? É porque as relações do capital com o trabalho. no âmbito das sociedades capitalistas. de profundas desigualdades sociais. na busca de cientificidade. todas as alterações curriculares feitas no transcorrer dos governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula. na ótica burguesa. mediadas pelo Estado. sólidos em conteúdos. que a educação foi sendo pensada para esse tipo de sociedade que se caracteriza por determinado modo de produção. mas de uma realidade sócio-econômica e cultural desigual. claramente. “teimaram” durante muito tempo em diferenciar as disciplinas e os conteúdos ofertados (impostos?) aos meninos e meninas que passaram a freqüentar escolas. produzidas por outros interesses de ideologias. por exemplo. a reforma do ensino profissional. Em educação. sob a égide do capital. pois ela tão somente foi. da sociedade. Não obteve sucesso. E. em busca dos seus interesses de classe e que não são exatamente os interesses de toda a sociedade ou de todas as classes. mas ela é um fato. do professor. tornou-se estratégico. determinam em última instância. da escola. É preciso ter clareza que. funções e papéis numa sociedade que. radicalizam em diferentes direções a orientação dos seus currículos escolares. formação de pessoal e gastos de consumo não pode limitar-se a um mero processo civilizatório. O Estado não é uma instituição que se confunda com o governo de plantão. O Estado. O Estado educa. dos grupos ou das classes sociais que. É claro que não foi esse o único mecanismo utilizado para se proceder à sujeição do povo à nova ordem sócioeconômica e cultural. da escola única e gratuita para todos. pois era preciso. fosse ela católica ou reformada. os aparelhos do Estado não se movem em abstrato. será alterado quando as conjunturas sócioeconômicas e políticoculturais se transformarem. atende aos interesses das pessoas. as inúmeras situações históricas em que as sociedades modernas. Não se pode acusar a burguesia de ter agido com má-fé. naquele contexto. na universalização da escola estatal primária com facilidade. a busca de superação da considerada educação tradicional sob a influência religiosa. o denominado Movimento da Escola Nova nos países centrais do movimento capitalista mundial. as metas “sugeridas” pelas agências multilaterais de financiamento e a imposição unificada de . no desenrolar da construção histórica das sociedades capitalistas. no limite. Não é necessário continuar apontando. É sempre possível dizer que não poderia ser de outra forma. o Estado passou a discursar em prol da formação de um cidadão. alicerçados em bases filosóficas e científicas para as escolas consideradas formadoras de parte das elites? Escolas que circulam nos noticiários como sendo as melhores do país? E. se alterou profundamente o quadro institucional da escola estatal. O Estado tem seus interesses para além disso. em especial pelo ideário burguês. Consagraram-se. mesmo que os representantes de ambos os gêneros pertencessem às elites. Mas. estão “destinados” socialmente a ocuparem diferentes postos. igualdade e fraternidade universais. salários. de certa forma. que desenvolveu uma sociedade patriarcal. o FUNDEF/FUNDEB. sem contestações ou sem superar adversidades e contradições intrínsecas. Os exemplos retirados da História da Educação mostram. pune e. por exemplo. mais muito mesmo. Para não arrolar todos os indicadores que levam à constatação acima. conseqüentemente. as determinações externas sobre o país e a sociedade foram e são ainda infinitas. sendo considerados formalmente iguais perante a lei. Em muitas situações há confrontos e. portanto. pode-se dizer que o Estado consolidouse no papel de educador do povo. Teríamos ainda como sinalizadores mais próximos de nós. os princípios da laicidade. esta situação histórica. os PCNs. os bônus salariais vinculados à produtividade. Por que temos currículos escolares considerados abrangentes. usando a educação formal da instituição escolar como o de controle sobre a escola estatal foram cada vez mais ampliados. em especial quando defende a propriedade privada dos meios de produção em mãos do capital. qual seria o currículo escolar mais adequado para se formar um cidadão? Cidadãos considerados iguais perante a lei. Os currículos escolares. que usurpou e ignorou a proposta de projeto de lei que se produzia na sociedade civil. pois eles são acionados por seres humanos com identidade. de 1932. grupos não hegemônicos acabam por alcançar alguns dos seus interesses. aponto apenas alguns: o golpe dado para a aprovação da LDB de 1996. na organização escolar e. por que temos currículos de aligeirado treinamento para uma precária formação profissional de jovens que irão. após o processo de colonização portuguesa. Mas não se tratava de continuar a revolução rumo à liberdade. o Estado que não existe em abstrato. os mecanismos impostos. É só olhar pela janela que dá acesso à 24 . a anuência para que se adquira e consuma apostilas produzidas pelas empresas de ensino privado. a municipalização do ensino estatal que sem ter apenas o propósito de deslocar a vigilância para o poder mais local. quer como colônia ou após sua “autonomia” política. Sabe-se dos reflexos do Movimento da Escola Nova no Brasil e. na ótica dos mais privilegiados. por complexos mecanismos histórico-sociais. mais passageiros do que o Estado. pois civilizar as novas gerações é o mínimo que se espera em termos de sobrevivência da própria sociedade. sob o comando da revolução burguesa e já quando com a burguesia no poder. muito. A educação formal escolar e os currículos escolares precisavam atrelar-se a tais propósitos. dos gestores. cuja essência estrutural está baseada na exploração do trabalho pelo capital. grupos ou classes sociais. repensam. Depois da ditadura e. vigia. Tornou-se uma necessidade histórica pensar a escola estatal e o currículo escolar de forma intencional. bem como para tudo que decorre de tal especificidade.

é urgente a articulação de um amplo movimento dos educadores para entender as propostas de determinadas políticas educacionais que chegam nas escolas. Nessa retórica. o aumento do desemprego estrutural. A educação. os estágios não remunerados pontuados nos currículos e outros mecanismos estão demonstrando sua eficiência. seria outro indicador. por exemplo. Esse “novo” momento social. É com esse objetivo que debaterei com essa categoria profissional. que a “base” teórica é dada pelo liberalismo. por não se viver sob um mandato governamental resultante de nenhuma ditadura política. tendem a diminuir o poder das tensões sociais geradas pelo desespero. que é a adoção das perspectivas e bandeiras do multiculturalismo pela escola. O Estado. econômicos e culturais do presente momento histórico. Meio Ambiente. na explicitação de tais políticas. as conquistas e o desenvolvimento da sociedade não se dariam pelas transformações das formas de produzir. pede um novo conjunto de conhecimentos que expressem a complexidade da sociedade globalizada. E isso pode ser verificado nas propostas escolanovistas do começo do século XX. perceberemos uma reorganização do discurso liberal. No meu entendimento. mas essa “base” sempre foi reorganizada. na capacidade de “vencer” de cada um. no âmbito das ideologias educacionais liberais. mas. A análise das aproximações dos PCNs e Temas Transversais. os Amigos da Escola. O marco da articulação de tais agências internacionais. fortemente impregnado de conhecimentos valorativos. e nós? Campinas. em que. Participar de tais programas virou sinônimo de cidadania e conscientização política. passou a ser uma meta. foi dado pela Conferência Mundial de Educação para Todos. em grande parte. chamada por mim de liberal-escolanovista. Para tanto. por exemplo. mesmo sendo paliativos. inverno de 2008 (*) Prof.HISTEDBR. como é o caso da proposta dos PCNs. O fenômeno da privatização dos serviços públicos. Nesse sentido os Estados cumprem agendas às quais aderem. as políticas para o currículo escolar são mecanismos fundamentais para a construção do consenso e da hegemonia do projeto de sociedade sob o capitalismo. sendo que suas causas não teriam raízes nas questões de classes sociais. ou seja. e-mail: sanfelice00@hotmail. Sociedade e Educação no Brasil . é um bom indicador. Titular em História da Educação no DEFHE/FE/UNICAMP. na Tailândia. os Temas Transversais. passou a ser necessário um maior controle. para nela se posicionar como um sujeito da história. o Estado vem executando a sua tarefa? Bem. pela promoção via escola. os PCNs implementados nos anos seguintes após a promulgação da LDBEN de 1996. busca-se o consentimento da sociedade para as ações que são empreendidas. sim. mas pela competência. Educar a mão-de-obra potencial que transita pela escola estatal. pelo controle da escola estatal e pelo controle do currículo de toda a educação nacional. Uma parte infinitamente menor dos trabalhadores chegará à formação técnica e tecnológica para o trabalho mais complexo. via currículo escolar. pelos escolanovistas. segundo muitos de seus defensores. dentre eles: Ética.. Que fique claro: O Estado capitalistaburguês não nos ajudará a sairmos de tal situação. o Adote uma Escola. da atuação do Estado sobre a sociedade local. Do ponto de vista interno. a partir de questões e características próprias de cada tempo histórico e demandas sociais. no intuito de colaborar com a questão. Orientação Sexual. Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas “História. na educação. Na abordagem liberal-escolanovista. que foi reproduzida pelo documento conhecido como Relatório Delors. Se fizermos uma análise mais detida sobre a legislação e os documentos que legitimam. E por que aumentou o controle? Mostra a história que os Estados nacionais periféricos da globalização econômica ficaram menores e mais frágeis perante o movimento do capital transnacional. se enfatiza que o papel da escola deve ser o de formar o “cidadão” para atuar numa sociedade democrática e globalizada. o voluntariado. Essa reorganização é que está por trás de propostas como aquela expressa por um “novo” currículo para o ensino fundamental. sim. precisa gerenciar. Os países periféricos da globalização econômica se tornam praticamente obrigados a formar muitos trabalhadores para o trabalho simples e que se constituirão em mão-de-obra barata para o capital transnacional que aqui implanta suas indústrias ou subsidiárias. Trabalho e Consumo e o da Pluralidade Cultural. mas sim. como Banco Mundial. não pelo privilégio de sangue ou outros. tornouse uma pauta presente nas discussões das cúpulas que comandam a nova organização mundial do trabalho. A perda dos direitos sociais conseguidos com muita luta dos trabalhadores no passado. a miséria. a sociedade foi acionado. em 1990. Enquanto 3 isso. entender e explicar a própria realidade. A principal prova contra ele é a precarização que vem fazendo das políticas de formação de professores. Finalmente cabe indagar: como. Em tempo de ventos neoliberais.outubro de 2008 material didático-pedagógico produzido pelas Secretarias Estaduais de Educação. Em todos os momentos de crise do capitalismo. Estamos diante de um desafio. mas sim da ditadura do capital. Saúde. com uma oferta crescente de mão de obra feminina e juvenil. conseqüentemente.com Políticas para o Currículo Escolar: Significados e Implicações para a Escola Mara Regina Martins Jacomeli (*) M uito oportuna a iniciativa do Sindicato-APASE em problematizar a temática do currículo escolar. elucida como o liberalismo sempre utiliza a retórica salvacionista da sociedade por meio da escola. com as propostas escolanovistas. UNESCO etc. com ações e programas que. por sua vez. A Conferência de Jomtiem teve como resultado a assinatura da Declaração Mundial sobre Educação para Todos e o Marco de Ação para a Satisfação das Necessidades Básicas de Aprendizagem. no Brasil. sem grandes chances de resistências e com o consentimento das elites locais que se beneficiam do processo. como já dito. não é chegada a hora de educarmos o Estado e de tornarmos realmente pública. O Brasil foi signatário desses documentos e está . Vale a pena enfatizar que o discurso “oficial” brasileiro está em sintonia com as políticas mundiais adotadas em âmbitos sociais. Implica entender. o discurso de transformação da escola como forma de mudar os homens e. conforme o talento de cada um. realizada em Jomtien. em educação. FMI. O trabalho solidário. de interesse publico.24 . ou “pós-modernas”. O controle está agora induzindo que cada docente da escola estatal seja um vigilante da produtividade e do desempenho dos demais docentes da sua unidade escolar. ou neoliberal. estão sendo ditadas por organismos multilaterais. na área educacional. revivendo o mito da escola redentora e salvadora da humanidade. é fundamental a formação de “valores”. os currículos escolares vão se esvaziando em conteúdos. substituídos por práticas e saberes que cada vez auxiliam menos a pensar. Uma escolarização básica e uma formação profissional média respondem a isso. já que primeiro o indivíduo deve ser “convencido” de que não há nada mais possível e melhor de se fazer e acreditar. ou dos temas sociais. por exemplo. E a orquestração de todo o propósito do capital. a Escola Aberta. o primeiro emprego e o acesso à escolaridade. a escola estatal? O Estado sabe muito bem o que está fazendo. se realiza. Entretanto. desde as últimas décadas do século XX. dentre outras mazelas. Fazer esse tipo de afirmação e análise não implica assumir uma visão anacrônica de história. sob a égide do neoliberalismo e do discurso de globalização da sociedade capitalista. a função da escola é de redistribuir os indivíduos. elas são meramente uma adequação do que já foi discutido. por exemplo. a não ser aquilo que é veiculado pela escola. na conjuntura atual. apesar da ênfase na concepção de que estamos compartilhando políticas educacionais extremamente “novas”. Como isso está se dando hoje? Como podemos entender as políticas em educação adotadas aqui para nossas escolas? No caso do Brasil e no caso da maioria dos países ocidentais. diretrizes das políticas educacionais. A supervalorização do indivíduo escamoteia o fracasso.

nos vários conhecimentos das chamadas “competências”. problemática de que os conhecimentos produzidos pelas ciências modernas. b) os conceitos chaves associados com o paradigma: ordem. Do ponto de vista ideológico. da Física. agora sob a égide da globalização do mundo. De acordo com um dos mais importantes documentos sobre a política educacional mundial. dos sentimentos humanos e outros. com sua necessidade de explicações lógicas e certas. D. na interpretação teórica. verificadas nas décadas de 60 e 70 do séc. como os conhecimentos ligados ao trabalho manual. com determinações e indeterminações. resumidamente.. sem discordâncias. dessa forma. O. a incerteza no pensar e fazer científico de maneira multidimensional”. um grande problema. Tanto os PCNs como as teorizações de Morin estão em sintonia. portanto. da cultura e dos valores dos homens. através das políticas educacionais brasileiras. incompletude. portanto. I. transpenetração (relação todo parte segundo Pascal). é a conformação de todos para uma mesma realidade. em que poucos detêm o controle econômico. da Matemática. da História. são faces de uma mesma moeda representativa da sociedade capitalista. Isso pode gerar. a crítica feita às ciências modernas que são responsabilizadas por todos os “males” sociais e ambientais verificados ao longo do século XX. portanto. sem distinção de países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Bohm – A ordem implícita e a ordem superimplícita -. A reestruturação produtiva partiu da necessidade de instaurar modelos organizacionais alternativos que dessem respostas satisfatórias para superar a crise financeira. Sua perspectiva é uma das fontes teóricas inspiradora da visão de conhecimento. que expressam a discussão de rompimento paradigmático das ciências. H. conhecimento que deve ser ministrado pelas escolas estão presentes em reformas educacionais pelo mundo afora. Esse debate faz parte do embate posto pela chamada “crise de paradigmas”. a partir de teorizações de Morin. tem por pressuposto que o modelo de ciência até então vigente na sociedade está superado. como é o caso do “Relatório Delors”. conhecida como teoria da complexidade1. na qual se convive com processos dinâmicos reversíveis e irreversíveis. de uma abordagem metodológica que abarque tanta complexidade. as reformas curriculares aplicam-se para todos. Pósmodernidade e globalização. organização. especialmente na área educacional. têm influenciado as políticas educacionais. a eliminação do entendimento das “relações sociais que individualizam e integram a chamada “complexidade”. c) a filiação teórica: princípio dialógico e translógico (“integração da lógica clássica levando-se em conta os seus limites”). fazem parte de uma seleção curricular que atendia aos interesses de uma pequena classe social da Grécia: os cidadãos gregos. Afirmando que nós somos herdeiros da “racionalidade” e da cultura grega clássica.4 claro que o Banco Mundial foi o grande financiador das propostas educacionais para os países em desenvolvimento. pois muitos pesquisadores correm o risco de fragmentar a realidade em vários aspectos particulares e isolados. O discurso liberal dessas políticas educacionais acaba utilizando-se da antiga idéia de progresso econômico e social pela via de acesso à escola para todos os presente nas nossas reformas curriculares. É isso que justifica a necessidade de “inversão” de valores e conteúdos a serem ministrados pela escola. Segundo essa mesma falácia. também. a valorização do subjetivo. acaso. em função das grandes transformações econômicas. o atual momento da sociedade expresso pela globalização. reducionista e simplificador e promover uma via que considera a confusão. de nosso cotidiano. e principalmente.35) afirma que o paradigma da complexidade. às mulheres. pensamento complexo. Cremos. principalmente a necessidade de reformulação dos currículos. precisa. parte do princípio 1 Outros autores que comungam do entendimento sobre o “paradigma da complexidade”: L. Noronha (2002. não há mais a possibilidade de uma sociedade socialista. os quais afirmam que. não dão conta de explicitar a “complexidade do real”. A presença de um discurso próximo das abordagens pós-modernas é bastante evidente. A necessidade de uma nova forma de entender o conhecimento produzido pelas ciências é usada como justificativa para o empreendimento das reformas educacionais que vêm ocorrendo por todo o planeta. Morin teria como objetivos: “romper com o conhecimento parcelar. concentrando a maior parte das riquezas produzidas e relegando a maioria dos homens a uma miséria material extrema. da economia. Tal postura é referendada por adeptos da chamada pós-modernidade. com forte ênfase. p. Não atendiam aos interesses do homem comum. XX. Também as reformas educacionais. no meu entendimento. em que aponta: a) as expressões/frases associadas com a abordagem: complexidade. Ao enfatizar o modelo japonês de trabalho como orientador das reformas curriculares. aos interesses cotidianos da maioria da população. posto que não dá para conciliarem realidades sócioeconômicas e culturais tão diferentes. em que se defende uma “nova” forma de conhecer e “construir” conhecimentos. antropossociologia. que esse tipo de interpretação acaba por esconder as verdadeiras causas da crise que assola o capitalismo no atual momento histórico da sociedade. p. teoria da informação. A proposta teórica de Edgar Morin. incertezas. têm enfatizado que um dos seus maiores objetivos é preparar o trabalhador para que ele saiba atuar num mundo marcado pelas transformações econômicas e sociais da atual fase de globalização do capitalismo. de acordo com a autora. 24 . É aí que se encontra. junção/ligar/religar. as políticas educacionais acabam cumprindo com um papel de desserviço na preparação do trabalhador. já que. Está configurado. principalmente conhecimentos com ênfase na formação social e ética e que prepare o indivíduo para ser “cidadão do mundo”. a defesa de um conhecimento parcial e relativo. tendo como pressuposto uma realidade complexa. A noção de “complexidade” discutida aqui no Brasil. por exemplo. o fato da sociedade ser estruturada em classes sociais distintas e antagônicas. A questão que se coloca quanto ao conhecimento que deve ser ministrado na escola hoje. com a mudança de paradigma organizacional do taylorismo/fordismo para o toyotismo. as ciências e o conhecimento decorrentes estão passando por um processo de superação. a partir do fim da “guerra fria” e do “fim” dos embates ideológicos. tecnológicas. de uma maneira geral. A “nova” visão de currículo e. transdisciplinaridade. auto-eco-organização. 73) apresenta um quadro explicativo das relações do pensamento de Morin. não existe mais história. Não atendem hoje. Nas análises desse autor vislumbramos muitas das justificativas do movimento da pós-modernidade. da Unesco. Prigogine e I. principalmente as do Ocidente. via alteração curricular. evidencia que o conhecimento especializado não serve mais como referencial de aprendizagem. princípio da Unitas Multiplex (“escapando à Unidade abstrata do alto (holismo) e do baixo (reducionismo)”).outubro de 2008 que vivencia uma “viragem paradigmática”: a falência das grandes narrativas. A pós-modernidade é entendida como um “paradigma” que reflete os anseios de “todos” na sociedade globalizada. tem encontrado grande simpatia nos meios acadêmicos. Os conhecimentos advindos de conteúdos da Biologia. teoria dos sistemas. já que o discurso de expansão e de alteração do currículo da educação básica parte do pressuposto de que a escola precisa acompanhar tais mudanças para oportunizar escolarização adequada aos trabalhadores. de mercado (de expansão e concorrência intercapitalista) e a crise social (conflitos políticos e capitaltrabalho). pede um “novo” conjunto de conhecimentos. conceito de auto-organização. entre os quais se encontra o Brasil. por outro lado. divulgada pelos PCNs. vivemos a supremacia da sociedade capitalista e com ela há de se ministrar os conhecimentos de valores para (con) formar os homens. conseqüente. Carvajal – Historia de las civilizaciones -. negando que a totalidade histórica possa ser apreendida e que o conhecimento desta totalidade possa ser construído. . por exemplo. multidimensional. desordem. A sociedade capitalista. já que por trás de tais defesas está o que se camufla: entre outras coisas. alguns defensores dessa perspectiva acreditam que tal herança deve ser repensada. As transformações que estão ocorrendo no mundo do trabalho. culturais etc. por seu caráter extremamente elitista. uma das estratégias de consolidação da hegemonia burguesa. com o universo de interpretação dos ideólogos da sociedade capitalista. a substituição do “antigo” conceito de totalidade defendida por teorias como o marxismo. segundo o discurso neoliberal. agora. ao cotidiano. Se as agências internacionais ditam o quê e como devem os países em desenvolvimento investir para oferecer educação básica a todos. A impressão que nos causa é a de que há uma proposta comum de conhecimento que deve ser divulgada em todas as escolas. Também estão presentes nas suas interpretações as assertivas que a pós-modernidade utiliza para referendar o “novo” momento da sociedade. no nosso entendimento. Stengers – A nova aliança: metamorfoses da ciência. Uma das características das teorizações pós-modernas é a valorização do conhecimento que está mais próximo de nosso viver. Lima (2003.

desenvolvem e implementam as políticas públicas sociais. aprender a viver juntos. como: reformas curriculares. além de elaborarem guias didáticos para estes últimos. e seria necessário desmantelar a ideologia por uma prática política nascida dos próprios explorados.. recomenda investir nos primeiros e. que para esses expoentes só pode ser entendida em relação ao mundo do trabalho. Como então fazer que a educação seja capaz de evitar os conflitos e resolvê-los pacificamente? E a Comissão responde que é por meio de projetos comuns. de respeito e de valorização do sentimento de pertencimento de grupo. Entretanto. numa questão que faz parte da configuração cultural do povo brasileiro. ajuda os educadores a “desvelar” as retóricas oficiais e fazer com que os mesmos percebam o fato de que muitas “novidades” no âmbito da educação não passam de “velhas e gastas” ideologias. travestidas e cumprindo com o papel de hegemonizar a sociedade capitalista.. ANDRADE. através da prolongação do ano escolar. Recomenda aos países que deixem a produção e distribuição dos livros didáticos em mãos do setor privado. por exemplo) a encobrir a realidade. ensejando a questão da tolerância. O Estado brasileiro. p. que capacitem os professores na sua utilização. que obstaculiza essa nova “visão de mundo” do sistema produtivo. É interessante perceber que por trás dessa proposta está explícita a relação de incentivo à iniciativa privada. deve o Estado investir para alcançar a educação de qualidade... expandindo a aceitação dessa cultura. Que vivemos um momento de construção de um consenso em torno das bandeiras sociais da ideologia neoliberal e a escola é um dos espaços de sua divulgação. outra medida. (3) tarefas de casa. desde a década de 1990.. Daí a importância da escola em passar determinados valores e comportamentos que ressignificariam o sentido de uma coesão social e cultural. o Instituto Euvaldo Lodi (IEL). Dentre tais iniciativas. por exemplo.72). (. fazer com que as pessoas compreendam suas semelhanças e a interdependência de todos os seres do planeta. 2000. salários docentes e redução do tamanho da classe -. Tal modelo. o mesmo documento do IEL aponta que é fundamental o conhecimento da cultura oriental. na realidade. A idéia do “apostilamento” também está de acordo com as políticas do Banco Mundial para a Educação Básica. Todas essas políticas para a educação brasileira convergem para chegarmos a algumas conclusões: 1. (9) tamanho da classe. E em uma prática desse tipo seria fundamental a crítica da ideologia. pois. entre outros. aquela que detém o controle dos meios de produção e de poder político. 2005.com. quebrando as resistências dos trabalhadores. 2. bem como conflitos por toda parte. da sociedade civil para garantir unidade e harmonia entre as classes sociais. ao separar trabalho intelectual do manual. (7) laboratórios. livros didáticos integrados.): (1) bibliotecas. 207). a compreensão teórica dos PCNs e de outras várias reformas curriculares que “pipocam” pelo Brasil. (5) conhecimentos do professor. da Confederação Nacional das Indústrias.24 . Vejamos: A qualidade educativa. (. processos de avaliação dos sistemas de ensino. na administração da escola. 55)”. desumanizam. principalmente pelos conhecimentos transmitidos. (8) salário do professor. entre outras medidas que mostram a relação pervertida que se estabeleceu entre o que se entende por política pública e setor privado. ou seja. tal ideologia afirma que a educação é um direito de todos. muitas ações foram efetivadas. Da mesma maneira. enquanto se oculta que ele é um instrumento de uma classe particular (a dominante). escondendo que as condições reais de trabalho. pois assim as diferenças e os conflitos tendem a desaparecer. na sociedade capitalista. Marilena Chauí nos ajuda a entender essa discussão quando aponta a necessidade de “desmascarar” a ideologia burguesa. um centro de pesquisa. Segundo.. as contradições do Capitalismo não permitem a realização dessa “idéia”. Sendo assim. vistos como expressão operativa do currículo e contando com eles para compensadores dos baixos níveis de formação docente. Ao abordar os quatro pilares da educação. visam configurar e rearranjar o modelo de sociedade a uma pedagogia de hegemonia e de consenso em torno do ideário neoliberal de homem.) cumprem um importante papel: o de contribuir para a melhoria da aprendizagem dos alunos (p. Explicitando a afirmação acima. uma forma de manutenção da divisão e das contradições de classe. de parcerias estabelecidas com Ongs. mecanismo interessante para não se discutir as diferenças sócioeconômicas.. na geração de renda e desenvolvimento do mercado editorial. E quais são esses valores e comportamentos ligados a uma nova perspectiva cultural? Aqueles que desenvolvam laços de solidariedade. Sob o discurso de implantação de uma educação de qualidade que visa emancipar os “cidadãos”. especificamente. Sua propaganda tem enfatizado que sua proposta de apostilamento “revolucionará” o sistema educacional que o adotar. a grande diversidade cultural. 51. primeiro. Uma das editoras que tem feito ampla divulgação de parceria com os sistemas de ensino de redes municipais.br . qual seja. em que estão presentes esses ingredientes na formação do indivíduo (Cf. tal qual uma empresa privada. É o que diz o Relatório Delors. O terceiro. que diz contar com mais de 200 educadores “qualificados”. justamente se encontra. mas. essa sim deve ser conhecida para que acabem as intolerâncias entre os homens. Nele está posto que o mundo atual convive com a esperança no progresso da humanidade e com seu oposto. entorpecem o homem. em três deles: a) aumentar o tempo de instrução.. que busca atender aos anseios e ao discurso de mais qualidade para a escola estatal. À educação fica a responsabilidade de transmitir conhecimentos sobre a diversidade cultural humana e. 1995. uma que tem chamado muito a atenção de educadores das redes públicas de ensino.. na concepção do BM seria o resultado da presença de determinados “insumos” que intervêm na escolaridade. 2000. (. a violência. b) proporcionar livros didáticos. o entrave para a realização desse novo projeto de formação para o trabalhador. é aquela que afirma um novo modelo de gestão escolar. tal qual todos os estados sob o capitalismo.editorapositivo. oferece no pacote “Sistema de Ensino Aprende Brasil (SABE)”. quanto ao terceiro pilar. (2) tempo de instrução. e não poderia ser de outro jeito. ou melhor das redes estatais de ensino. apud SILVA E SILVA. é a adoção do chamado “apostilamento” das redes de ensino bancadas com recursos públicos. .. p.. p. preenchendo os silêncios e as lacunas do discurso ideológico (CHAUÌ. a idéia burguesa afirma que o Estado é um consenso da comunidade. da flexibilização e adequação dos horários. a idéia burguesa de trabalho afirma que este dignifica o homem.outubro de 2008 trabalhadores. consideram-se nove fatores como determinantes de um aprendizado efetivo (. Sendo assim. pois. e c) melhorar o conhecimento dos professores (privilegiando a capacitação em serviço sobre a formação inicial e estimulando as modalidades a distância) (BM. Para o caso da escola de 5 primeiro grau. tal qual os países mais desenvolvidos economicamente. É o caso.) Haveria ainda numerosas outras “máscaras” (a democracia. (4) livros didáticos. já que esse documento é o norteador das políticas educacionais pensadas para o século XXI. Nessas estratégias do Banco Mundial estão explicitadas em qual “rubrica”. formação de professores. as Ongs: “atuando em áreas diversas e trazendo soluções para os problemas que afetam o diaa-dia da direção e de professores. De acordo com a Revista Nova Escola de junho/julho de 2007. p. O século XX apontou em sua história um potencial destruidor sem precedentes. incorpora o discurso salvacionista da sociedade via escola. apud Torres. A mesma idéia está presente no Relatório Delors. assessorias pedagógicas e um portal exclusivo com homepage personalizada para o município 2. tem apostado em parcerias com a sociedade civil. Para tanto. Para pensar as políticas educacionais no Brasil e em São Paulo É importante ressaltar que as medidas legais adotadas para a educação brasileira. 134). é a Editora Positivo. (6) experiência do professor. o documento afirma que ele representa um dos maiores desafios para a educação. está a implementação de atividades econômicas que subsidiam a 2 Verificar essas informações em www. Para isso. 3. brutalizam. afirma que é via escola e via Pedagogia da Qualidade que serão repassados os novos valores e atitudes pelo Brasil. In: NEVES. visando ao interesse de determinada classe social.. Surge então a idéia da diversidade cultural. ao mesmo tempo. e da distribuição de tarefas de casa. ao não ter as condições objetivas para se projetar na divisão internacional do trabalho como país produtor de tecnologias em larga escala.) ao mesmo tempo que desestimula a investir nos três últimos – laboratórios. em consonância com a minimização do Estado no que diz respeito ao repasse de recursos financeiros. de acordo com muitas falas do empresariado nacional.

). (*) Professora do Departamento de Filosofia e História da Educação da Faculdade de Educação da Unicamp e pesquisadora do Grupo de Pesquisa “História. O. Introdução ao estudo de filosofia. Ele.outubro de 2008 Editora Alínea. A educação como política social no Estado contemporâneo O contexto histórico no qual se produz a contradição citada no início. M. H. L. No interior dessa lógica. XXI. por outro. pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homensmassa. da formação por ela proposta e praticada. 2000. e a de cunho curricular (conteúdos e tipo de formação demandados na nova fase do capital). In: De TOMMASI.. poderíamos dizer que nessa determinação da educação pela sociedade capitalista destacam-se duas questões: a da abrangência da educação escolar e a do conteúdo desta escola. M. que postula a necessidade do Estado ser mais eficiente. Tendências paradigmáticas na pesquisa educacional. Artur Nogueira/SP: Amil. portanto. Cadernos do cárcere.) Criticar a própria concepção de mundo. nela. PCNs e Temas Transversais: análise histórica das políticas educacionais brasileiras. 2005 TORRES. L. ao passo que as políticas efetivamente implantadas expressam o descontrole e o descaso efetivos do Estado para com os mais urgentes problemas educacionais. Dicionário de conceitos históricos. Pensemos nisso. que assume um tom de caridade e voluntarismo. via formulação de diretrizes e estratégias1. Sabemos também que a atividade educativa é fundamental em qualquer formação social humana.. posteriormente. e seu objetivo inadiável: tornar o Estado mais eficaz e funcional às demandas do capital. NORONHA. É a educação de que necessita um país capitalista periférico. O tipo de educação que hoje se pratica expressa as condições objetivas da sociedade em que vivemos. e outros (Orgs. 2002. a educação é duramente atingida pelos interesses do capital e os organismos internacionais atuam como porta-vozes de tais interesses: por um lado. com isso. O Banco Mundial e as políticas educacionais. fatores limitadores de uma política efetivamente preocupada com a educação. sobretudo no que se refere aos gastos sociais. Inicialmente. uma vez feito o “saneamento fiscal do Estado”. 2007. na questão do modo como o currículo hoje expressa as dimensões mais gerais de uma dada formação social e. Ao contrário. o que se desvela à medida que o complexo educacional é desvelado. nós – os educadores – se queremos ser emancipadores ou homens-massa. P. em especial. É sobre esta educação em sentido estrito – que. Reinventa-se esta promessa agora. R. 3ª ed. disseminando a idéia de que é necessário reformar (“modernizar”). como um de seus requisitos básicos. como no sentido estrito das necessidades específicas de qualificação dos indivíduos. 23). (SAVIANI. que vem do povo. Revista Nova Escola. é dinheiro público. Dispensa-se. Ao indivíduo cabe concorrer para que tenha a chance de ser “incluído” no seleto grupo que ainda conseguirá “ascender socialmente”. Em termos gerais. permeado por contradições que permitem a convivência tranqüila entre um discurso demagógico em prol da educação e o imperativo de “honrar os compromissos” com o capital internacional que são. São Paulo: Cortez. reduzindo a esfera dos direitos sociais. transformou-se em sinônimo de escola – que vamos tratar aqui. 1. ao discutir a filosofia da práxis.. mas como aparato de acumulação do capital. o processo no qual o capital se apropria de setores não inteiramente dominados por sua lógica reprodutiva (a do lucro crescente). Na reforma educacional brasileira dois processos são indissociáveis: a reforma de cunho organizacional (promoção da gestão “eficiente”. do homem-massa do qual fazemos parte?” Quando a concepção de mundo não é crítica e coerente. fiscal.. esta reestruturação decorre das mudanças no mundo da produção e das relações de trabalho ocorridas a partir dos anos de 1960. A. preconceitos de todas as fases históricas passadas (. contudo. mas para o simples desenvolvimento. JACOMELI. v. A filosofia de Benedetto Croce. é o da destruição das bases objetivas das sociedades capitalistas do pós-2a Guerra Mundial. não mais como política social para o desenvolvimento nacional.l a unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído (Gramsci. privatização e controle via avaliação etc. reservando a si o papel de “avaliador” e “fiscalizador”. educação etc. mas em seu sentido social (historicamente produzido). resultam das condições sociais efetivamente existentes num certo período histórico. precisamente. Com o neoliberalismo busca-se construir um Estado máximo para o capital. p o r t a n t o . Reforma do Estado e política educacional: o contexto para a reforma curricular em tempos neoliberais Lalo Watanabe Minto (*) U ma contradição ronda a educação brasileira hoje: nunca foi tão pronunciado o discurso que alça a educação à condição de solução para todos os problemas sociais. de uma maneira bizarra: nela se encontram os elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista. 1999. no qual se impõe um novo tipo de política social de caráter assistencialista. caps. conhecimento e educação. mediado pela sua mercantilização crescente. mas ocasional e desagregada. Nada mais injusto numa sociedade que prega a igualdade entre todos. ampliarse-ia a capacidade de investir em políticas sociais. Estas duas dimensões. A educação tem de ser promovida não como política de Estado.. Campinas/SP: 24 . R. nos deparamos com o problema do currículo. da gente comum. ver MINTO (2006. M. O que vem ocorrendo efetivamente é o inverso disso: um processo de privatização cuja lógica é retirar os gastos sociais do orçamento estatal. não são determinadas a priori. W. Neste último. a promessa integradora da educação dos tempos do pós-2ª Guerra. 2003. gerida como atividade privada.6 iniciativa privada. enxugamento dos gastos públicos e direcionamento de recursos ao setor privado. foi basicamente a Reforma do Estado que promoveu essa adequação jurídica-política à nova realidade do mundo da produção e da acumulação capitalistas. M. financiando e solidificando as empresas capitalistas. já apontava para a seguinte pergunta: “qual é o tipo de conformismo. Sociedade e Educação no Brasil – HISTEDBR”. Educação e Política no limiar do séc.. quando educar-se era garantir ‘ascensão social’. Ambas 1 Para uma visão ampliada da reforma do Estado e da educação no Brasil. junho/julho de 2007. SILVA.. nas sociedades modernas. p. Suas dimensões foram dadas por reformas parciais: previdenciária. tornam- se assim grandes oportunidades de negócios. impondo politicamente tais medidas. s i g n i f i c a t o r n á. NEVES. Melhorar a qualidade da educação básica? As estratégias do Banco Mundial.). 2 e 5). tributária. tanto no sentido mais geral do seu caráter humanizador. Por isso. Campinas/SP: Alínea. Na forma histórica contemporânea do capital. expansão econômica associada a altos níveis de desemprego é plenamente possível. . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. adentrando. No caso brasileiro. A síntese ideológica desta necessidade é o neoliberalismo. Os serviços estatais de interesse público. em vista da necessidade do capital expandir-se e acumular-se em escala mundial. Faremos então uma síntese dos principais processos aqui implicados. 2002. LIMA. K. A reestruturação capitalista tem. o discurso reformista mistificou a idéia de que. Mas vale o alerta: não se trata de pensar o currículo de forma “especializada”. Campinas: Autores Associados. bem como as políticas sociais. p. M. Referências Bibliográficas: GRAMSCI. expressão genérica da condição subordinada do país aos ditames do capital mundializado. G. O Estado passa a ser o gestor dos serviços que delega ao setor privado (ou à “sociedade civil”). 1999. trabalhista e social (saúde. Políticas neoliberais. de uma política educacional específica. 2000. 94). M. SILVA. nossa própria personalidade é compósita. mas de uma avaliação e controle feitos por meio de critérios como os da gestão eficiente e do mercado. Mudanças concretizadas no processo permanente de transformação das forças produtivas. o que implica transferência de responsabilidades: deixa de financiar atividades como a educação.). São Paulo: Contexto. Também tomo Gramsci para pensarmos.

2) para piorar. Mas isso tem de seguir os conteúdos básicos” (CASTRO. lembremos de algumas das recomendações do Banco Mundial (BM): 1) o professor é considerado apenas o quinto fator de importância na qualidade do ensino. em seguida. Não significa que a escola não tenha autonomia. Na educação observa-se um “deslocamento do ensinar para o aprender e do formar para o treinar. Isto porque. p. quem não pode. Nesta perspectiva ideológica. Se. compondo um único processo2. que anteriormente eram em grande parte realizadas pelo capital” (ANTUNES. é tomada como sinônimo de “livro didático”. por um lado. portanto. Impera a lógica da mercadoria: quem pode pagar. ademais. bastando a cada um ‘acessá-lo’” (NORONHA. Juntos. oferecendo verdadeiros pacotes educacionais aos ditos “países em desenvolvimento”. é correto dizer que o domínio do instrumental é necessário. que se complementa com a construção dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e das Diretrizes Curriculares dos ensinos médio e superior. o que favorece o setor privado. 2002. p. visa promover justamente este deslocamento para o indivíduo. empregabilidade significa “transferir aos trabalhadores a necessidade de sua qualificação. articulado ao processo de reorganização das políticas sociais de modo a torná-las mais “afetas” ao mercado. MEC. legitimar as desigualdades numa formação social altamente excludente. é preciso que o cidadão seja. de disciplinas e as expectativas de aprendizagem. sobretudo após o marco legal da LDB/1996. 435). Currículo: renovação pedagógica ou esvaziamento do ensino? Numa sociedade que privatiza crescentemente a educação. um consumidor de sua própria condição cidadã. que se caracteriza pelo desemprego estrutural e pela crescente precarização das condições de trabalho. 3 . tornam-se. ampla e profunda. atemporal e aistórico. a concepção de ensino e de formação necessárias para uma plena adequação dos indivíduos. 2003. somadas estas poucas recomendações. 70-1). sua lógica não é mais do que aquela que prevê a simples ‘adaptação’. O discurso da educação como solução para todos os problemas. A legislação educacional brasileira incorporou essas noções e esse discurso tecnicista. cujo intuito é oferecer uma formação criativa: criatividade que “não deve ser confundida com busca de transformações 7 radicais na realidade social. Por ideologia neoliberal denominamos todo o amplo conjunto de ideologias conservadoras – não só econômicas – que se desenvolvem nesta fase do capitalismo. e. somados a uma política de financiamento restritiva. ampara-se na idéia de um deslocamento dos conteúdos para os métodos e práticas. cujo objetivo é. Isso se completa com a crítica das “pedagogias do aprender a aprender” e seu caráter adaptativo. É dessa forma que a ideologia neoliberal3 propõe novas funções para a educação. que acrescenta: a “pedagogia das competências” tem como objetivo “dotar os indivíduos de comportamentos flexíveis que lhes permitam ajustar-se às condições de uma sociedade em que as próprias necessidades de sobrevivência não estão garantidas”. Política “social” neoliberal. como que atribuindo dois níveis de “responsabilidade” pelos problemas educacionais: do currículo. efetivamente. teoria de prática. o qual deve ser reformulado. é torná-lo absoluto. a educação se transforma num campo altamente rentável. da disposição para uma constante e infatigável adaptação à sociedade regida pelo capital” (DUARTE. Nesta fase do capital. tendo como base os conhecimentos socialmente significativos produzidos e acumulados pela humanidade. discurso salvacionista da educação e privatização do ensino completam-se. p. está ‘excluído’. 2003. ao qual se confere hegemonia por ser “insumo de baixo custo” e de “alto retorno” (relação custo-benefício). com a questão do conteúdo (ou esvaziamento) do ensino. as escolas agora sabem o que devem ensinar aos alunos. pelo tipo de mercadoria (o conhecimento) que se está consumindo. referente à qualidade do ensino. nos indivíduos. de um lado. 79-80). à educação. Também não se reporta às condições de trabalho e remuneração dos docentes. recolocar em pauta uma linguagem salvacionista. por onde ele pode navegar e acessar a qualquer momento o estoque de informações disponíveis de modo ‘democrático’ e. tem ‘acesso’. aquelas que se referem à política de formação de professores. antes de tudo. 11) e as competências são a sua outra face: mantém-se a idéia de fundo do construtivismo – de esquemas adaptativos construídos pelo sujeito na interação com o ambiente –. Por isso. 13). Organismos como o BM e a Unesco 5 tornaram-se os grandes arautos das reformas educacionais porque traduziram tais necessidades em termos de diretrizes políticas gerais. 2002. o conceito de cidadania (e de educar para a cidadania) será o grande articulador das Diretrizes Curriculares Nacionais e dos PCNs. uma vez que a política educacional oficial desqualifica o público (estatal) e beneficia o mercado. anunciados como uma proposta flexível (BRASIL. também não podem ser considerados em si mesmos. de modo que as condições mais gerais de sua própria existência jamais sejam anunciadas como problema. É separar forma de conteúdo. A ilusão de que estaríamos vivendo numa “sociedade do conhecimento”. Se a cidadania pressupõe o atendimento de condições objetivas mínimas (acesso à saúde. mas sim (. conhecimento/ saber que se demanda numa sociedade como esta? Estaríamos vivendo na “sociedade do conhecimento”? DUARTE (2003. de outro lado. “Agora a questão da verdade é elidida”. o aprender a aprender “sintetiza uma concepção educacional voltada para a formação. permitem observar que o processo de privatização não é senão a própria expressão da reforma em curso: quando se desqualifica a ação do Estado na educação e se impõe uma ideologia que converte esta última em meio exclusivo de inserção no mercado de trabalho. Eis porque se concebe para a educação um papel em que: “Não basta visar à capacitação dos estudantes para futuras habilitações em abrangem todos os níveis de ensino.outubro de 2008 (TORRES. O discurso da educação como solução para todos os males Vimos que a sociedade capitalista contemporânea se organiza de modo a tornar as determinações do capital (produção e realização do lucro) o único horizonte possível da reprodução social. 1997. já empobrecida. não se está longe de concluir que o professor é desnecessário no processo educativo. 4 Não vamos tratar dessas mudanças em geral. Todo o constructo pós-moderno que dá suporte às teorias pedagógicas e que se refletem em propostas educacionais novidadeiras. p. esta condição é duplamente articulada: de um lado. apenas obscurece o sentido de tal transformação. verdadeiros mecanismos de aprisionamento dos conteúdos que compõe o currículo escolar. inicialmente. pois visto apenas como mais um dos “insumos” que dele participa. de outro. Ela continua escolhendo seus livros e seu projeto pedagógico. bem como do domínio dos recursos (meios) fundamentais do ensino. compor sua ‘cesta básica’ de informações e de conhecimentos” (NORONHA. da gestão. 11-2) responde negativamente a essa questão e destaca seu caráter ilusório. Igualmente. O conhecimento estaria sintetizado e disponível a todos na rede. cuja expressão máxima é o construtivismo. 2008). que operam numa lógica de padronização. “não é preciso que os indivíduos desenvolvam uma formação sistemática.24 . com isso..) em termos da capacidade de encontrar novas formas de ação que permitam melhor adaptação aos ditames da sociedade capitalista”. No caso da educação. Esse tecnicismo requentado. Para que a reforma educacional atendesse às demandas do mundo da produção e da reprodução sociais foi preciso. mas enfatizar a proposta dos PCNs e. p. 2 Os diagnósticos que vêm orientando as reformas enfatizam essas duas dimensões. para a qual privatizar é a solução. 5 Tomamos como base o documento conhecido como Relatório Jacques Delors (DELORS. aprender a aprender e competências torna-se central no campo educacional. passível de grandes investimentos capitalistas.131). 2001).. considerada cara e ineficiente. disseminado pelos organismos internacionais. à moradia etc. como consumo do serviço educacional (o acesso à escola). bem como pela reforma da educação profissional4. com um tipo de ensino centrado no estudante e nas redes de educação à distância.. Ou seja.. Nesse contexto a difusão de noções como empregabilidade. p. é resumida a uma noção de “domínio de conteúdos” que enfatiza a formação em serviço (especialmente em programas de formação à distância) e não a formação inicial. Vê-se que. ampliar a lógica dual de uma educação que atende de forma diferenciada a diferentes segmentos da sociedade (as classes sociais). mas reelaboradas à luz da necessidade premente de adaptação que não pressupõe mais o domínio de conhecimentos mínimos sobre o meio ao qual se adapta o sujeito. e. elevá-lo à condição de único (ou principal) suporte do processo educativo. 6 Vejamos a compreensão da atual Secretária de Educação de São Paulo: “Estamos enfrentando a desorganização pedagógica com várias ações (. formam o universo em que as mudanças no campo educacional tornam-se compreensíveis. diz SAVIANI (2007. a uma idéia de ‘autonomia’ escolar desvencilhada de recursos e infra-estrutura6. Para isso. Os PCNs.) como a criação de um currículo para todas as séries. Ao que nos leva novamente à problemática do currículo: qual é o tipo de formação/treinamento. 2000).) e estas estão organizadas fundamentalmente na forma de mercadorias/ serviços no vasto mercado brasileiro. bem como a uma política de avaliação centralizadora e quantificadora de uma série de “índices” de qualidade da educação. Em grande medida isso foi cumprido pelos organismos internacionais. que. esta visão de conteúdo. Nem mesmo é preciso que a escola propicie tal tipo de formação. p. Interessa-nos destacar um dos elementos essenciais desses “pacotes”. por suposto.

pela Unesco. incorporada pelos PCNs. e que relega ao mercado a tarefa de oferecer os “bens” necessários à cidadania? Trata-se de um conteúdo escasso. Já ARCE (2000. mas antes trata-se de ter em vista a formação dos estudantes em termos de sua capacitação para a aquisição e o desenvolvimento de novas competências. Nesta visão. Nas Diretrizes Curriculares do governo brasileiro. retirá-la das universidades. da ‘individualidade inata’ do sujeito e da ‘liberdade democrática’ de uma sociedade extremamente mercantilizada. pela via punitiva da avaliação. Os conteúdos preconizados pelos PCNs dizem respeito à participação dos indivíduos na sociedade contemporânea e à sua plena adaptação a ela. como processo de simplificação dos conteúdos que compõem os currículos escolares. pela CEPAL. É necessário. reduzida a um “processo de desenvolvimento de competências para lidar com as técnicas e os instrumentais do ensino (tecnologia) e da ciência aplicada no campo do ensino e da aprendizagem” (idem. retorno mesmo é aquele que beneficia aos grandes empresários. mais do que nunca. do currículo) corresponde às necessidades imanentes ao modo de produção capitalista hoje. que currículo. Direito social converte-se em serviço. Por isso. 102-3). p. A tradução disso encontra-se na noção de equidade. Urge definir uma política educacional adequada a esse fim e não subordinada aos ditames da acumulação de capital em escala global. as noções mais emblemáticas são: “aprender ao longo da vida”. terreno da luta de classes e das relações sociais realmente existentes9.. em função de novos saberes que se produzem e demandam um novo tipo de profissional. proclamada na hipótese de que as “grandes questões políticas” devem ser resolvidas “no campo do fluxo de informações”. da subjetividade do educador. Duas das tendências mais expressivas disso são: a) o esvaziamento em geral. 1997. como uma simples determinação do pensamento. ao que se convencionou chamar de “exercício da cidadania”.. 2000. Formação de professores Uma das formas básicas de operacionalizar o esvaziamento da educação é mediante uma política de formação de professores também esvaziada. naturalizando as determinações materiais do capital e as relações sociais por ela constituídas como as únicas possíveis: fazendo-as senso comum. ao sabor das novas relações de trabalho.. b) o esvaziamento no sentido da educação dominada pela lógica da mercadoria. portanto. Algumas conclusões: que escola. agora. Ou seja. MEC. preparado para poder lidar com novas tecnologias e linguagens. em nome da ‘autonomia’ escolar. que sociedade? Como pensar numa outra forma de organização da educação? Como escapar de uma política que se autodenomina flexível. Uma política que quebre o círculo vicioso da exigência de eficiência. isto é. a discussão dos conteúdos e métodos das disciplinas é deslocada de modo restritivo. atentando para não isolá-las e para enfatizar o exercício da cidadania” (JACOMELI. atendimento em oferta. e que tenha nesta um mecanismo de efetiva melhora da qualidade. Não por acaso. Para poder oferecer a todo o amplo quadro da organização da educação brasileira um formato definido – ainda que ‘flexível’. qual é o tipo de conteúdo que prepara para o exercício dessa cidadania. vigora a tendência de individualização. torna-se necessário apelar a um suposto “modelo ideal”. É uma das formas pelas quais se busca (des)educar os indivíduos. atendendo apenas aos ditames da nova ordem econômica. para o usufruto de direitos sociais numa sociedade que restringe cada vez mais as já escassas conquistas do século XX. “educação permanente”. agora imbuídos da “responsabilidade social” de promover a conquista da cidadania. que desvia recursos públicos em montantes crescentes para remunerar o capital financeiro e que. 8 7 . 2008). o que só pode ser formulado quando se despreza que a produção do conhecimento também tem uma história. o que inclui renomadas instituições e não apenas aquelas reconhecidas por seu pouco rigor na seleção dos estudantes. os PCNs só se tornam funcionais quando apresentados como algo acima das relações sociais. não servindo apenas para Nada mais emblemático do que o “Compromisso Todos pela Educação”. mas não deixa de aproximar-se dela em pelo menos dois aspectos: o caráter meramente adaptativo da educação e o distanciamento para com a realidade histórica. “facilitador”). Essas novas relações entre conhecimento e trabalho exigem capacidade de iniciativa e inovação e. Nota-se aqui que. O documento desloca o debate do conteúdo a ser ensinado para a forma de ser ensinado. o que 24 . Aos extratos do capital que investem no ensino importa “servir aos poucos e sempre” a educação. com ela. Mas. o que nos leva aos problemas da fragmentação/especialização e do aligeiramento da formação inicial. Paulo apresenta dados que atestam a ampliação da prática de oferecer “reforço” – sobretudo em português e matemática – nas instituições de ensino superior particulares do país. numa formação social tão desigual como a brasileira7. vinculada necessariamente às condições objetivas das sociedades humanas. que mais apela à própria utilidade social (do certificado) do que promove qualquer tipo de retorno para os indivíduos (domínio de conteúdos). resgatar uma concepção educacional e pedagógica que preze pelo aprendizado dos conteúdos historicamente produzidos e acumulados pela humanidade. qualidade em eficiência. do ponto de vista curricular. As noções de “pedagogia das competências” e “aprender a aprender” são alguns dos artifícios ideológicos associados a esta tendência. impõe condições limitantes e castradoras para a educação? Sabendo que a educação não se constitui num problema em si mesmo.8 termos das especializações tradicionais.). donde se vê que a ênfase conferida a isso nas propostas educacionais oficiais não é fortuita. forçando-o a tornar-se responsável pela própria formação/qualificação. Ao professor. Por essa razão. A Folha de S. facilmente produzido e pouco dispendioso. Com isso. p. a qualidade da educação passa a ser medida apenas pelos “indicadores da educação”. igualdade em equidade. que afirma suas diferenças para com a proposta dos PCNs. Mas não se trata apenas disso: o significado e a importância de uma pedagogia de tal natureza residem na possibilidade de reverter o sentido de uma política educacional que vem promovendo a destruição das formas sistemáticas de transmissão dos saberes e conhecimentos e. o “BM recomenda enfaticamente a elaboração e desenvolvimento do currículo como uma tarefa restrita ao poder central ou regional. que adotam a perspectiva tecnicista do custo-benefício. Não é de estranhar. impõe formatos pretensamente flexíveis. Para alguns de seus defensores nota-se até a tentativa de sobrepor a noção de transversalidade à realidade. Conhecimentos básicos que antes eram ensinados na escola básica passam a fazer parte dos currículos de cursos superiores (FACULDADES dão ‘supletivo’. 10 A indicação de que os alunos que chegam ao nível superior apresentam lacunas essenciais de formação é emblemática. p. 156). na qual: “os Temas Tranversais são os conhecimentos principais e os conteúdos das várias áreas devem servir para o trabalho com eles. 156). 2004. que o atual Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) reforce duas tendências que vêm promovendo o esvaziamento: tornar a educação à distância base dos cursos de formação de professores e. capaz de responder a novos ritmos e processos. claro. afinal. esta última referente ao pragmatismo e às propostas novidadeiras que assolam a educação. também para o professor. 55) critica a perspectiva construtivista na qual se postula que o professor deve ter “subtraídos da sua formação os conteúdos escolares em prol do desenvolvimento de habilidades que o levem a gerar autonomia do aluno”. cabe a tarefa de organizar os conteúdos das várias áreas em torno de temáticas escolhidas. entendemos que o esvaziamento do conteúdo escolar é altamente prejudicial para a formação das futuras gerações. ser cidadão significa: a) dominar certas ferramentas cognitivas para adaptar-se – nunca para transformar – à realidade vigente (a “cesta de informações”). a possibilidade de fazer com que cada um dos indivíduos seja também um portador da humanidade produzida ao longo da história. uma redução ao mesmo tempo absoluta e relativa. porém uniformizantes tanto quanto alienantes. p. p. mas muito rentável quando associado a um discurso hegemônico que valoriza a educação10. Nessa lógica. acordo empresarial que serviu de base para muitas das proposições do atual Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). então. mas que. pode-se afirmar que o esvaziamento da escola (conseqüentemente. p. 9 Ver. “qualidade total” e “pedagogia de resultados”. analogia à qual denominou de “mcdonaldização” da escola. ‘aprender a aprender’” (BRASIL. 148) alerta que as atuais políticas para a graduação e pósgraduação pretendem retirar a formação de professores do campo científico e acadêmico próprio da educação. sem participação local e sem formar parte do pacote de funções delegadas pela descentralização” (TORRES. associando formação com o que se pensa ser o “rendimento” do processo educativo. p. simplificado. 34-5). este se dá pela via da padronização e do esvaziamento8.. neste sentido. distancia-se de qualquer noção de projeto global de formação. este é um tema sempre enfatizado pelos organismos internacionais.outubro de 2008 converge plenamente com o aligeiramento da formação e a redução dos conteúdos: a lógica é oferecer um serviço simplificado. localizando-a no “campo” da “epistemologia da prática”. Os imperativos de padronização. FREITAS (2002. das práticas educativas. No fundo. Neste caso. que pressupõe profissionais pouco qualificados (professor torna-se “tutor”. Eis o sentido da visão de currículo apresentada pelos PCNs.. Nesse sentido. e b) consumir os bens e serviços mínimos necessários à sobrevivência material. a formulação de GALLO (2001. E tal como no formato mais adequado e coerente com a mercantilização da educação. Em síntese. 34). pelo MEC. na esteira da diversificação institucional do ensino superior. pronunciada regularmente pelo BM. (. flexibilização e produtividade funcionais ao capital no campo educacional levaram GENTILI (1996) a comparar a educação com o funcionamento das lanchonetes de tipo fast food. e.

L. O sentido da escola. et al. GENTILI. In: SILVA. A história dessa abordagem também teve seus percalços e os modos de entender e usar essa abordagem é. e currículo e supervisão . Sobre o construtivismo: contribuições a uma análise crítica. Campinas: Autores Associados. urge ser enfrentada. Cotidiano. Folha de S. Com as reformas educacionais que ocorrem na década de 1960. p. SAVIANI. aos conhecimentos (separados por disciplina. (Pierre Dominicé) C urrículo e histórias de vida têm bem mais em comum do que a primeira vista se poderia pensar. M. 2003. Paulo. um novo profissional especializado passa a atuar no interior das escolas: o orientador pedagógico. P . ARCE. Educação: um tesouro a descobrir. (Org. In: LOMBARDI. uma instituição criada nas sociedades européias dos séculos XVII e XVIII. não há como pensar numa outra política educacional. A escola é uma produção histórica forjada em outro momento. séries) e. 2002. A proposta deste texto é a de oferecer alguns elementos que possam contribuir com essa reflexão. L. essa perda desencadeou um movimento que já dura algumas décadas. Brasília. horários e períodos préfixados) – é uma invenção relativamente recente. C. Secretaria de Educação Fundamental. HISTEDBR. G. pode-se dizer que os guardiões da tradição foram substituídos pelos guardiões do currículo. de reinventar a roda. a saber. Brasília. 23.. Trata-se antes de mais nada de reexaminar sua função social e seu papel. Brasília: MEC/SEF. 2001. com pouco mais de dois séculos de história. aqui. As reformas do ensino 9 superior no Brasil: o público e o privado em questão. quando começa a figurar como parte integrante da organização escolar burocrática. por outro lado. aquelas historicamente produzidas e acumuladas pela humanidade11. por mais difícil que se apresente. No campo da educação. Partir desse ponto parece-nos importante. p. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. RJ: DP&A. In: DUARTE. nas comunidades primitivas. 17-41. É preciso construir uma saída educacional que. Contudo. na cobrança ao cumprimento do programa oficial. NORONHA.: quem ganha e quem perde no mercado educacional do neoliberalismo. Ambos dizem respeito a percursos e experiências de vida. 13-24. Aos orientadores pedagógicos cabia o trabalho de viabilizar o currículo. 09-49. indivíduo. W. de um lado. (*) Doutorando em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp/HISTEDBR. Na década de 1970. N. R. uma reinvenção dessa instituição. N. acabamos muitas vezes por perder seus significados. 21 a 27/ago. Espera-se que tais elementos possam ajudar a compreender mais as tantas vidas e histórias que se cruzam na escola. Políticas neoliberais. 41-62. Para tanto. ainda hoje. Jornal da Unicamp. (Orgs. uma ênfase sobre os aspectos instrumentais e técnicos do currículo. Supervisão escolar e currículo: os (des)encontros de duas histórias A trajetória da supervisão escolar. n. Eram considerados os guardiões da tradição. hoje. supervisão do ensino na escola primária.) Escola S. cultura etc. não repita o erro de pensar a educação como algo acima das relações sociais dadas e que a pense. sobretudo. M. Campinas: Autores Associados. pois. 24/08/2008. Márcia Maria Brandão Santos (***) A história de vida é outra maneira de considerar a educação. como campo de estudos no Brasil.currículo na escola elementar. 2003. Sociedade do conhecimento ou sociedade das ilusões?: quatro ensaios críticodialéticos em filosofia da educação. H. interpretar as determinações legais e oferecer soluções criativas para as situações pedagógicas propostas. A. BRASIL. e GARCIA. esse processo se dá com o desenvolvimento dos sistemas formais de ensino. todos preocupados em compreender os caminhos e descaminhos dessa área e dessa função no magistério. Entendemos que sua apropriação na área da educação tem uma relação muito estreita com movimentos que visam promover mudanças na escola. R. turmas. J. já que acostumados demais às palavras. Brasil. São Paulo: Cortez. é com ele que nasce a supervisão escolar como um dos componentes da tríade supervisão/currículo/avaliação. et. conhecimento e educação.. DF: MEC: UNESCO.. no âmbito da história da educação. A associação entre currículo e supervisão assinala. já deu provas exaustivas de sua obsolescência e desajuste às demandas da sociedade contemporânea. também exerciam as funções administrativas de fiscalização e vigilância burocrática. JACOMELI. M. na profissão ou ao longo de toda uma existência. pois.). 1997. no que diz respeito aos alunos (separados por classes. e ampliada.) mas de considerar a vida como o espaço de formação. mas que seja ponto de apoio para o avanço contínuo e progressivo. p. Campinas: Alínea. 2000. também. In: De TOMMASI. DF: CNTE. Campinas: Autores Associados. ver SAVIANI (2003). set. J. No que tange às práticas docentes.todas enfatizando o como planejar e desenvolver currículos. a supervisão foi exercida pelos inspetores escolares que. Mas não se trata. Já não se trata de aproximar a educação da vida. Esse departamento oferecia três disciplinas . cujo propósito foi o de analisar e recriar o seu sentido na escola. não apenas como reprodução destas mesmas relações. 80: 137-68. 5ª ed. A. 2006. p. H. CASTRO.). notadamente no Estado de São Paulo. Embora se possa considerar que a função supervisora tem sua origem na própria gênese da prática educativa. o controle recaía. 2002. 3ª ed. cuja tarefa. marcou o lugar da supervisão em sua relação com o currículo escolar. portanto. e outros (Orgs.outubro de 2008 atestar o dado. FREITAS. seja na escola. J. (Orgs). retomamos alguns momentos do percurso que. àquilo que documenta e testemunha o que alguém realizou. Além de realizarem a função supervisora de orientação pedagógica. Uma educação que. 3ª ed. o consolidado. bem como a vida que se produz em cada escola. bem como o da entrada das histórias de vida na cena educacional. 2006. ________. MINTO. (entrevista) Folha de S. assunto para polêmicas. A escola que viemos a conhecer – com sua organização. de. 2003. Referências Bibiográficas ANTUNES. De início. R. Currículo e Histórias de Vida Belmira Oliveira Bueno (*). como balizadores do exercício da orientação do ensino. Dentre seus oito departamentos.. DELORS. trabalho e educação. 25/02/2008. Campinas: Autores Associados. 8ª ed. Numa sociedade que já vive os sinais de uma crescente barbárie social. GALLO. os inspetores escolares gozavam de respeito e legitimidade. LOMBARDI. C7. T. é com o desenvolvimento das sociedades e aumento de sua complexidade que essa função se dissemina como forma de controle das práticas educativas informais. ministrados em dias. Melhorar a qualidade da educação básica? As estratégias do Banco Mundial. ________. assim como a concepção que dela fazemos e o que desejamos para nossos alunos e as gerações que estão por vir. O velho discurso que rege a história da educação. São Paulo: Cortez. já foi contada e recontada por importantes educadores. a influência americana no campo do currículo permanece com fortes . A formação de professores sob a ótica construtivista: primeiras aproximações e alguns questionamentos. Formação de profes-sores no Brasil: dez anos de embates entre projetos de formação. O Banco Mundial e as políticas educacionais. Com as histórias de vida algo semelhante também se deu. Faculdade de Educação da Unicamp. exerceu significativa influência no desenvolvimento do currículo no país. Em outras palavras. Neoliberalismo e educação: manual do usuário. LOMBARDI (2006) e ARCE (2000). S. O. 1996. a trajetos percorridos. a Currículo e Supervisão. São Paulo: Boitempo. Ed. O Programa de Assistência BrasileiroAmericana ao Ensino (PABAEE). Tese (Doutorado). TORRES. Campinas: Autores Associados. Transversalidade e educação: pensando uma educação não-disciplinar. em que a educação se dava de forma difusa e indiferenciada. nos finais do século XIX e início do XX. subdivididos em conteúdos. M. seja direcionada para produzir em cada um dos indivíduos. acompanhamento e controle das práticas docentes. In: ALVES. MEC. Daiane Antunes Vieira Pincinato (**). a partir de outras referências espaçostemporais e concepções. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. Dos estudos sociais aos temas transversais: uma abordagem histórica dos fundamentos teóricos das práticas educacionais brasileiras (1971-2000).) Capitalismo. Transformações do capitalismo. especificamente.) A educação é assim feita de momentos que só adquirem o seu sentido na história de uma vida. Esse foi o primeiro supervisor no sistema de ensino paulista. al. e GENTILI. assumindo seus elementos de contradição. Os sentidos do trabalho. esta tarefa é inadiável. 334. Com efeito. tinham uma atuação voltada à transmissão e garantia de manutenção das normas de funcionamento da organização escolar. Campinas: Autores Associados. (. DUARTE. um dizia respeito. 2000. No caso do currículo. História das idéias pedagógicas no Brasil. (Orgs. ou mesmo. Paulo. o máximo desenvolvimento de seus conhecimentos e capacidades. Sem reordenar as prioridades desta sociedade. R.24 . FACULDADES dão ‘supletivo’ para calouros. do mundo do trabalho e da educação. (. seriação e divisão de espaço e tempo. de sociedade. Por deterem os saberes da experiência acumulada. v. acordo assinado em 1956. 2007. rev. P. Campinas: Educação & Sociedade. 2004. D. 11 Sobre o sentido dessa educação com base em conteúdos. 2001. o de sermos capazes de reinventar a instituição escolar. de 2002. N. O desafio hoje é.

Ao recusar o tom técnico e apolítico que prevalecia até então. No terreno da educação. viu-se em ebulição. as mudanças foram sentidas. acompanhamento e monitoramento dos processos de gestão. quanto mais idoso. Com isso. O estudo desenvolvido por Pincinato a propósito da experiência de homens que fizeram suas carreiras no magistério. de seus contextos sócio-culturais. especialmente quanto à organização curricular”. as escolhas feitas. amplia suas dimensões vinculando-se à formação dos docentes. por exemplo. empregada a fim de se contrapor aos modelos quantitativos. Com isso. Acredita-se que a solução é aumentar os conteúdos. as aspirações experimentadas. Marcadas por um forte espírito de renovação. Quanto aos caminhos tomados pela supervisão escolar. que contemple uma análise sobre as mudanças históricas e os modos como estas se articulam na instituição escolar. todavia. Por meio de relatos orais podemse apreender sentimentos e pontos de vista vividos e construídos em certos momentos da vida. Na forma oral e escrita. ou. Tendo em vista a implementação da nova proposta curricular vinculada pelo atual governo estadual. dirigindo críticas severas à escola e ao seu funcionamento. O caráter subjetivo dos relatos orais. os modos de enfrentamento de uma pessoa ou um grupo nos momentos de crise. rompem silêncios provenientes do cotidiano. sobretudo de orientações neomarxistas. seu processo de rememoração e auto-representação. de Ecléia Bosi. por conseguinte. A visão tecnicista se propunha a garantir a eficiência e a produtividade. uma vez que ficou “alojado” na burocracia. que propugnavam pela extinção dessa função no sistema de ensino. as histórias de vida têm se firmado como um dos mais valiosos instrumentos para a valorização do passado. desagregava e enfraquecia a escola. Esse caso ilustra bem uma tendência e uma atitude recorrente de pensar os problemas da educação como resultado de um funcionamento deficitário da instituição escolar. a busca por uma nova concepção de currículo. o supervisor acabou por se tornar um técnico que. sim. o que deve ser ressaltado é o caráter formativo do método. cabe a esse profissional atuar no desenvolvimento do trabalho curricular na escola. ao resgatar a memória.outubro de 2008 O primeiro faz um resgate do funcionamento do sistema de ensino por meio das histórias de vida de professores idosos. econômica e ideológica no país. e Memória e sociedade: lembranças de velhos. carregam de forma inevitável suas visões a propósito dos fatos. as que focalizam a questão do conhecimento no processo pedagógico. especialmente. a supervisão ganha novas dimensões. Assim sendo. pela ênfase que é dada ao supervisor como estimulador do trabalho docente. avaliação e controle das proposições curriculares na área de sua jurisdição e zelar pela integração do sistema. à ação supervisora construir espaços coletivos de discussão. todo e qualquer documento – impresso ou oral – é produzido por pessoas e grupos. propondo discussões de novos temas. bem como as decepções. Com isso. focalizando suas experiências e trajetórias profissionais. Os estudos com histórias de vida podem também nos ajudar a compreender. A supervisão escolar torna-se um dos alvos dessas críticas. projeto pedagógico e trabalho coletivo. os professores e a profissão do magistério. de fato. As histórias de vida e currículo: ampliando perspectivas Várias têm sido as formas pelas quais as histórias de vida adentraram a área da educação. Entre as alternativas que podem estimular esse trabalho encontram-se as histórias de vida ou autobiográficas pois. Pode-se então compreender que os caminhos profissionais. ao buscar conhecer os problemas educacionais em áreas rurais de São Paulo. que passaram a explicitar o lugar dessa profissão . mas. a despeito de todos os questionamentos. Trata-se de perspectivas distintas. contada e registrada pela elite. tanto no plano individual como no coletivo. econômicos. torna-se evidente que o idoso é aquele que guarda e conserva a memória de um grupo e de sua época. estaria usando a técnica sem contexto. dois merecem ser mencionados por seu pioneirismo. Dentre a diversidade de trabalhos que contamos nessa perspectiva. Com efeito. Atentar para os riscos de uma ampliação exagerada do conceito de currículo que. Trabalhar com as histórias de vida e autobiografias é uma forma de acesso à subjetividade. aquele que relata sua vida exercita uma reflexão que o leva a uma tomada de consciência. Em momentos de crise é fundamental intensificar a preocupação com as práticas que ocorrem no interior das escolas. sua história veio a mostrar que. progressivamente. Na verdade. A influência de autores estrangeiros. No entanto. passando a ser inserida no sistema de ensino com expectativas de uma atuação mais democrática. O segundo assume uma importância muito especial porque mostra a riqueza e potencialidade das narrativas de pessoas idosas que. De fato. ora de seus agentes. vem surgindo um interesse cada vez maior pelo uso das histórias de vida na formação de professores. evidenciando que a história da profissão docente acha-se entrelaçada com a história da própria sociedade. presentes nas reformas educacionais propostas pelos diferentes governos que marcaram esse período. é importante assinalar quatro pontos que nos parecem importantes. de fato. de uma desconsideração pela prática. por isso. a cultura do magistério. torna-se patente a espontaneidade que caracteriza os depoimentos autobiográficos de pessoas que se situam em uma faixa etária a partir dos cinqüenta anos. nesse caso. não se encontram nos documentos escritos e nas versões oficiais da historiografia. notadamente. do fazer anônimo. Pois. culturais – em cada momento e etapa da vida. ao lado dessa primeira perspectiva.10 características tecnicistas. Isso marca a passagem do supervisor guardião do currículo para o supervisor guardião da proposição legal. Cabe. à qualidade e avaliação do ensino. porém. são o produto do entrecruzamento de fatores de ordem diversa familiares. a partir da reforma estabelecida pela Lei 5692/71. visto que o supervisor. bem como as experiências e carreiras de antigos professores. de outro. Atualmente. bem como das relações entre o currículo e o mundo exterior à escola. de Zeila Demartini. submetendo-a aos interesses da política sócio-econômica vigente. baseando-se em três princípios: autonomia da escola. na profissão e na vida dos professores. ora dos pais e da comunidade. ao lidarem com aquilo que fala mais de perto e mais forte com aquilo que é mais caro a cada um de nós – nossa vida – favorecem modos diversos de levar os professores se verem a frente a si mesmos e à profissão. De início. que passa a formular novos temas e novas questões para pensar a escola. aquilo que o depoente escolhe para fazer perpetuar na história de sua vida. as influências recebidas. os teóricos do currículo se voltam para a compreensão do processo curricular. tanto de indivíduos como de grupos e. em especial. das relações entre as mesmas. também podem ser encontrados na história oficial. pois. Não se tratava. indicando leituras. Com isso. mais modificações sua história de vida terá sofrido e. de um redimensionamento de sua importância. se distanciou das questões curriculares essenciais. o Decreto n° 5. O que se observa nesse período dos anos setenta é a presença de dois movimentos reagentes: de um lado. igualmente. ainda. como “especialista”. sobre os trabalhos que aqui foram produzidos nesse momento. poder compreender como se dão as relações entre os sujeitos e entre estes e o meio social do qual participam ou participaram. Em tempos mais recentes. essa área acaba por se tornar um instrumento necessário para a implementação das mudanças. no limiar do século XX. é por meio de seu acompanhamento que novas questões e novos horizontes poderão surgir. A recuperação da memória pela oralidade vem sendo utilizada principalmente no estudo e análise social de minorias culturais. assim. coordenando encontros de trabalho. A cultura escolar e. ambas muito férteis para fazer suscitar questões e favorecer novas compreensões sobre a escola. quando. O foco desse estudo recai sobre a participação dos homens na construção da cultura escolar. Velhos mestres de novas escolas: professores primários rurais na 1ª República. uma vez que ao voltar-se para o passado e reconstituir seu percurso de vida. que provocou profundas alterações na organização do sistema de ensino e. o surgimento da supervisão de tom tecnicista. ordenando a reflexão educativa. de modo que tais reflexões possam se expandir e criar elos mais fortes e efetivos entre os professores. Além disso. Nessa direção. É fundamental que esse trabalho seja desenvolvido junto e com os professores. visto serem eles os principais atores desse processo. predominou o uso de depoimentos orais com vistas ao estudo do passado das escolas. ora dos alunos. de testemunho vivo à reconstituição histórica. provocam um novo movimento que tem como foco a escola e seu papel na sociedade. como os professores fizeram seus percursos e carreiras em íntima relação com a história do seu tempo. revelando acontecimentos. experiências e concepções que. levam também a um esclarecimento sobre seus processos de escolha face às contingências com as quais tiveram de se deparar. poderá comprometer o estabelecimento de prioridades para a instituição escolar. sobretudo. o que interessa à história oral e aos estudos com histórias de vida é o que é lembrado. cobrar maior envolvimento dos pais. as discussões teóricas e as produções críticas dos anos 80 sobre o currículo provocam uma ruptura com essa visão tecnicista predominante. tais discussões afetaram o pensamento pedagógico. também evidencia as potencialidades dos estudos com histórias de vida. muitas vezes apontado por certos críticos. 24 . Isso porque. a complexidade da escola exige uma visão mais abrangente. esclarecendo conceitos. dentre os quais encontravam-se vários supervisores. com isso. possibilitando a construção de uma outra história. trazendo à tona disputas entre antigas e novas representações. longe de serem préestabelecidos. preparar mais os professores e administradores. o que implica no exame das disciplinas escolares. diferente da história oficial. no decorrer das décadas 1950 a 1980. Retomar as discussões sobre o conceito de currículo. na carreira. período marcado por grandes mudanças de ordem política. ao invés de ajudar. tinham mais de setenta anos. com isso dividia.586/75 estabeleceu que ao supervisor compete “orientar o acompanhamento.

informações como as aqui referidas podem ser obtidas. por um lado. Isso. Homens e masculinidades na cultura do magistério: uma escolha pelo possível. 1001). impedindo uma transferência mecânica das leis para o seu cotidiano. (Guimarães Rosa) Referências Bibliográficas BOSI. mas quase sempre não é ouvida. Professores bem formados e remunerados fizeram a diferença. 131-153. PINCINATO. Velhos mestres das novas escolas: um estudo das memórias de professores da 1ª. O papel hegemônico do intelectual. a formação de professores e o papel da ação supervisora. de prioridades e escolhas articuladas a um determinado modelo de cultura. São Paulo: Faculdade de 11 Educação da USP Tese de Doutoramento. Verdade maior. a escola pode exercer a função de simples transmissora de valores culturais e econômicos. In NÓVOA. seu conteúdo. Escola e Currículo . 1993. Quase sempre têm sido acusados de incompetentes e responsáveis pela situação. conseguindo reverter em 20 anos a porcentagem de 20% de alunos que completavam o ciclo básico para uma situação de apenas 12 alunos fora da escola em 2007. p.889910. ainda não foram terminadas. 2002. na maior parte das vezes repleta de palavras desconhecidas por estes .outubro de 2008 nas hierarquias do imaginário social. Reformas são propostas em nome da melhoria da qualidade do ensino. pelo rádio. Campinas. educador profissional. TIRAMONTI. O currículo é o instrumento por meio do qual a escola realiza o seu processo educativo. Departamento de Recursos Humanos da Saúde/ Centro de Formação e Aperfeiçoamento Profissional. em que determinados valores de masculinidade ainda contam como vantagens em relação aos de feminilidade. de significações. 1984. disciplinadamente. porém. Não é fruto de uma escolha técnica e neutra. República em São Paulo. dados estatísticos em jornais. António e FINGER. o mais importante e bonito do mundo é isto. p. sempre causam turbulência. MITRULIS. a sua representação ou apresentação. Reformas. E. o que revela o valor e importância que o governo lhes atribui (CANETTIERI. p. p. dados estatísticos nada mais são do que isso. currículo é o elemento ordenador do que se faz na escola (2004. com a finalidade de conhecer melhor os modos de trabalho. Supervisão. Todavia. muito desejada. Neste sentido é necessário focalizar o currículo que desenvolve. para atuar no Ensino Fundamental. por outros agentes. a educação e o currículo. acabaram por deter parcela significativa de poder. quando os homens se tornaram um grupo proporcionalmente menor em comparação ao das mulheres. 1994.125). afirma Apple tendo como foco a escola norte-americana (2006. A. e sim atuar sobre as causas.). A Finlândia tornou-se um modelo de excelência. já não mostram grande resistência. por derivação.A Discussão Necessária Helena Machado de Paula Albuquerque (*) Introdução . 2003.) O método autobiográfico e a formação. Ela possui um espaço de autonomia que pode usar para contribuir com a transformação positiva da educação. com isso. porém. todas as vezes que constatamos alunos das classes menos favorecidas não atendidos nas suas necessidades específicas. o desenvolvimento do processo ensinoaprendizagem com uma linguagem comum para ricos e pobres. a escola não está fadada a isso. Uma contribuição à escola primária: as práticas de Inspeção Escolar e Supervisão pedagógica. as expectativas da escola se revelam menores para a clientela que vem das classes periféricas. Afirma GIMENO SACRISTAN: O termo currículo provém da palavra currere que se refere à carreira. das Letras. São Paulo: Cia. ao tentar desvendar as representações que se explicitaram nos depoimentos de homens que fizeram suas carreiras no magistério. mas que elas vão sempre mudando. O Currículo Escolar Para SAMPAIO. combalidos pelo cansaço das imensas jornadas de trabalho às quais são obrigados pelos salários sempre insuficientes. até certo ponto assumem como verdadeiro. desde a docência até os últimos cargos administrativos assumidos. n. A. Dados de desempenho negativo como o do Brasil no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) são conhecidos e alardeados para o público e. ao fazer uma verdadeira revolução na educação. revistas científicas e populares. 8). ao conhecer. 2005.27). procuram a seu jeito atender o que é proposto pelos órgãos superiores. Memória e sociedade: lembranças de velhos.24 . a profissão de professor. . Afinam ou desafinam. Não seria mais adequado investigar o que fez a Finlândia para alcançar o primeiro lugar? Mesmo respeitando as diferenças básicas. mas também percebem que os alunos não aprendem e. nesse processo. em decorrência de certas prerrogativas adquiridas no âmbito das relações de gênero. Seria diferente a situação no Brasil? Quando observamos nossas escolas. C. mesmo a partir da promulgação da reforma estabelecida pela Lei 5692/71. a determinados valores. mas são partes integrantes e ativas de um processo de produção e criação de sentidos.Dados que chocam degradação da escola pública brasileira tem sido anunciada nos diferentes meios de comunicação. O que a vida lhes ensinou. em suas diferentes posições na hierarquia. p. São Paulo: Cortez. Educação & Sociedade. São Paulo: Faculdade de Educação da USP. DEMARTINI. em cursos de 5 a 6 anos. as mudanças que a legislação vigente à época – a versão oficial da história – provocaram no sistema de ensino. Não se indaga por que o Brasil ficou em penúltimo lugar entre 57 países. 1988. v. simploriamente. Nesse país. mesmo percebendo outros caminhos. não é um elemento transcendente e atemporal – ele tem uma história. mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. 2007. É fruto de relações de poder. não impede que crie normas e faça adaptações conforme a sua realidade. La escuela en la encrucijada del cambio epocal. também. 1950-1989). o que se buscou foi a possibilidade de uma reescrita da história. Assim. Afinal. Sabem que se dedicam. o guia de seu progresso pela escolaridade (2000. de sujeitos (p. A perspectiva foi a de oferecer a esses homens a oportunidade de falarem sobre as experiências que tiveram em cada uma das funções exercidas.21). E. É o que a vida me ensinou. formação universitária. Para transformar e melhorar a qualidade da educação não basta trabalhar para corrigir sintomas. e. Notícias. Podem obter algum resultado. o que. reforçando a tese de Bourdieu da escola reprodutora das condições econômicas e sociais. uma nova face da história é desvendada e (re) constituída. é bastante claro. G. P. (**) Doutora pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. a um percurso que deve ser realizado e. "Os últimos baluartes". Lisboa:Ministério da Saúde. São Paulo: Centro de Estudos Rurais e Urbanos. (Coord. tendo como co-autores os próprios sujeitos que vivenciaram cada uma de suas fases e sentiram cada uma de suas mudanças. (***) Supervisora de Ensino (SEESP). é feita uma análise restrita aos limites do próprio dado. Matthias (Org. lamentavelmente. Evidenciou-se que. A escola as questiona. colocando-se a a serviço de uma classe social privilegiada. 92. as representações formadas e. as táticas utilizadas para a permanência em uma profissão marcadamente feminina. DOMINICÉ. Segundo Silva e Moreira. RANGEL. Por meio do estudo das histórias de vida. a melhoria em um aspecto dilui-se no todo e a situação permanece como está. (*) Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. currículo e avaliação. SILVA Jr. Dentro de uma visão sociológica e crítica. os professores. Quando o conteúdo lhes é sonegado. M. D. Campinas: Editora Papirus. Tese de Doutoramento. exige. na televisão todas alardeiam a situação do ensino. A escolaridade é um percurso para os alunos/as. vinculada a formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação (2006. a uma visão particular de homem e sociedade. Todavia. analisadas e. Acreditamos que essa seja uma perspectiva salutar para se descobrir novas alternativas para se repensar e recriar o currículo escolar. por outro. não atuam como correias transmissoras de uma cultura produzida em um outro local.26. percebemos semelhanças. Todas as vezes que os estudantes A . Os dados não deixam indiferentes os educadores e responsáveis pelas políticas da educação. um lugar para brilhar (São Paulo. e o currículo é seu recheio. mesmo quando propostas a partir de uma visão simplificada da escola como uma organização. que é o conhecimento. Z. Conforme o currículo que desenvolve. V. p. aqueles que permaneceram na profissão. privando-a de mais um bem. especialmente na carreira administrativa. que as pessoas não estão sempre iguais. ela teria algo a ensinar. 2007). Nove olhares sobre a Supervisão.

Esta cultura de avaliação tem imposto como preocupação maior. sociais e culturais? Obviamente. outras forças que interferem nas decisões sobre o currículo: políticas educacionais. Essa reprodução pela escola de valores econômicos e sociais poderá.111). Este fato teve reflexo na percepção do próprio trabalho pelo professor. a dos educadores da escola e dos órgãos superiores do sistema educacional.outubro de 2008 e cultura afro-brasileira. afirmavam os docentes. como prática e como resultados de aprendizagem (Gimeno Sacristan. Não houve empenho no diálogo e em capacitações descoladas da tradição educacional de trabalho com alunos de classes privilegiadas para o atendimento de uma clientela diferente. além dos condicionantes econômicos e sociais. Para ele. Talvez fosse mais produtivo. A qualidade do ensino. foram difundidos como sugestão e oficializados no momento em que passaram a servir de base para as avaliações externas. a idéia do currículo comum na educação obrigatória é inerente a um projeto unificado de educação nacional (2008. os mais capazes (cultural e financeiramente) terão a possibilidade de adquirir os conhecimentos exigidos para ocupação de posições sociais mais elevadas. Isso certamente acarreta mudança no currículo da escola. de gênero. retirando do currículo a possibilidade. sob um ponto de vista sociológico. busca de consenso. mesmo que sinteticamente e em um período restrito. ideário e competência dos seus profissionais e nem diretores. percebem-se similaridades e a mesma conduta orientada por valores próprios de uma sociedade de classes. as condições estruturais da sociedade e o contexto no qual se insere a escola. o currículo consubstanciado no projeto pedagógico.31). os poderes modeladores do currículo como projeto. 145). quando há diálogo e trocas. O currículo escolar resulta da interferência dessas forças. Professores foram surpreendidos com uma nova clientela escolar. p. foi acrescentado ao artigo 26-A e indígena. A entrada da nova demanda trouxe mais explicitamente a diversidade para o interior da escola. à busca conjunta de alternativas de solução para os problemas. com referência à cor da capa. Inciso VI). ocultação de conflitos e decisões autocráticas. O princípio de gestão democrática do ensino publico é preconizado para a escola e demais órgãos do sistema. as quais agem em conjunto e simultaneamente. semelhante ao que ocorrera décadas antes com a chamada democratização do ensino. acabaram interferindo na escola e no currículo. com a chamada democratização da escola. p. nem na escola. Entretanto. as quais se influenciam mutuamente e como totalidade nele repercutem. em cultura do afro-descendente. Isso provocou não só mudanças nos conteúdos do currículo como a necessidade de prover a escola de mecanismos organizacionais que ajudassem o desapego de uma monocultura e a aquisição de novos valores no norteamento do currículo. não se abordava a cultura dos povos indígenas. a formação dos profissionais que nela atuam. alunos com deficiência deveriam ser atendidos em classes especiais. Examinaremos aspectos dessas forças. com a introdução de mudanças no currículo quanto aos conteúdos e procedimentos nas diferentes disciplinas. muitos puderam adentrar as portas das séries finais do Ensino Fundamental. sem os tais pré-requisitos para apreender os conteúdos tradicionalmente estabelecidos para aquelas séries. Tal comportamento é compreensível. nem professores. na sua linguagem. No entanto. os professores não foram motivados e consideravam os cursos mais como uma obrigação e não como oportunidade de aperfeiçoamento. onde apenas alguns.31). porém: Numa sociedade democrática tem que aglutinar os elementos de cultura comum que formam o consenso democrático sobre as necessidades culturais comuns e essenciais dessa comunidade (Idem. há a exaltação da autonomia da escola. os processos gestionários que desenvolve. mas o fato conduziu à massificação do ensino e não à diferenciação do currículo. embora tenha sido ampliada para aqueles que não freqüentavam a escola. com vistas à integração social por meio da cultura. 145). nem mesmo os alunos estavam preparados para tal mudança. Valores oriundos da classe média direcionavam a prática pedagógica. o currículo escolar privilegiava na ação e no discurso a cultura da homogeneidade e do consenso quanto ao trabalho na escola.9394 reforça e normatiza uma educação.111). Políticas Públicas Educacionais Algumas decisões da política educacional nas últimas décadas. p. O interior da escola é muito fruto da formação. com predomínio daqueles alinhados à competição e individualismo. Antes da última Constituição. Atribuir o resultado negativo do ensino a uma delas isoladamente é um equivoco que não pode conduzir a ações corretivas. antigo ginásio. que iniciou um processo de perda de identidade. as relações sociais no seu interior e com as demais instituições. ocorrer ou não e para tal concorrerá. Forças separadas. as práticas pedagógicas vivenciadas no cotidiano escolar. nem pais. capazes de assumir decisões que nela reflitam. à solidariedade. acompanhada da sua submissão a uma cultura de avaliação e que pouco ou quase nada progride na correção de dados adversos porque as causas do fracasso não são pesquisadas. ao diálogo no interior da escola e entre ela e demais órgãos da estrutura educacional. à explicitação e discussão em torno de conflitos. ou seja. públicos e privados. de descrença de si mesmo e na visão da escola pública. destituídos de conteúdos prévios. etc. com a Lei nº 11645. sobre alternativas viáveis para a melhoria do trabalho escolar e as colocassem em prática. desenvolvimento e estímulo à sua autonomia intelectual. a reflexão da escola é direcionada. especialmente. Estariam as escolas fadadas somente ao desempenho de uma função reprodutora de condições econômicas. Aceitos por uns. repetem-se na escola as contradições de uma sociedade capitalista: Capacidades críticas são necessárias para manter a sociedade dinâmica: portanto as escolas devem ensinar os estudantes a serem críticos. para adequar-se às necessidades da demanda escolar. a ação docente em sala de aula. p. leis e políticas educacionais que a regulamentam. Para Gimeno Sacristan. tornou-se cada vez pior para a elite que sempre a freqüentou. Nos anos noventa. em grande parte das escolas. a avaliação. as relações com a comunidade. 206. os professores do Estado de São Paulo foram capacitados para a utilização dos Guias Curriculares. Em 1996. sem posturas e atitudes adequadas para o processo ensino aprendizagem. coordenadores. na forma da lei (Art. poderá provocar um discurso de gestão democrática e uma prática discrepante. a organização e a inovação (2008.2008. os professores. o “Verdão”. 1989. Em 2003. Em 2008. à participação. a um trabalho coletivo. Não se falava oficialmente. pautada em valores próprios de uma sociedade de classes. com a supressão da barreira do exame de admissão. A cultura predominante nas escolas e demais órgãos. A consideração da escola como organização complexa e o estudo e compreensão do currículo são condições para uma transformação da qualidade do ensino. étnica. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional . os conteúdos mínimos do currículo nas diferentes unidades em si não é negativo. a clientela que recebe. mas não criou mecanismos organizacionais que permitissem a real inclusão dessa demanda. portanto. Ao final da década de 60 e década de 70. as escolas e os seus sujeitos: diretores. muitas vezes em conflito e contradição. não foram observadas mudanças relevantes. as forças que apóiam e direcionam o currículo escolar . As características gerais da nova clientela deveriam ser examinadas nas suas origens. exclusão escolar e novos fracassos.12 são rotulados como incapazes. a qual como todas estará sujeita às formas para operacionalização com as suas características próprias. p. a LDB seria modificada pela lei Nº 10639 a qual levou à inclusão do Artigo 26-A que determinou: Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio. controvérsias. uma base curricular obrigatória enfocada sob uma perspectiva social. Nos anos 70. essa demanda. Faltaram mais estudos que abordassem. respeitando a diversidade social econômica e cultural. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 traz a idéia do trabalho na escola com a diversidade cultural. de enriquecimento e diferenciação . A prática pedagógica orientada por esse paradigma é propícia à tomada de decisões compartilhadas. o desenvolvimento de um currículo voltado para o sucesso dos alunos nas avaliações externas e não para aquisição de cultura. p. A aceitação do instituído pela escola não implicou grandes mudanças na sua forma de construir o currículo e desenvolver o processo educativo dos alunos. ou seja. direcionadas ou não para o interior da sala de aula. não mais. Um dos princípios incluídos na Constituição de 1988 é a gestão democrática do ensino público. O entendimento do currículo exige o exame articulado dessas forças. outros e. sempre considerada de muita qualidade e agora. se dispersam e contribuem para a conservação. se educadores externos e internos dialogassem sobre as causas do fracasso. pois a escola abriu-se para a demanda antes represada. as escolas precisam ser vistas de uma forma muito mais complexa do que apenas pela simples reprodução (Aplle. A intenção era a melhoria da ação docente. como afirma Gimeno Sacristan: As instâncias de “determinação escolar” do currículo atuam com desigual poder de influência real e de ordenação explícita sobre os diferentes âmbitos do currículo: os conteúdos. as capacidades críticas podem servir também para desafiar o capital (1989. tipo de composição familiar. a metodologia. presente na Lei de Diretrizes e Bases 9394/ 1996 e legislações decorrentes. não ocorrendo mudanças significativas na prática pedagógica. É imposto o silêncio pela adaptação a pseudomodelos corretivos determinados externamente. criticados por outros. Isso demanda investigar as forças que o determinam. Definir aprendizagens exigidas para todos. Uma legislação que busque unificar a prática pedagógica da escola. A política educacional enfatiza o paradigma de gestão democrática para todas as organizações escolares. o que se propõe e medidas que adota para implantação. torna-se obrigatório o estudo da história 24 . é . Na década de 90 foram elaborados os Parâmetros Curriculares Nacionais. no dizer de Pires Azanha. oriunda das classes subalternas.

2ª Edição. In WARDE. Questiona-se se está ocorrendo o processo educativo pelo menos no espaço da sala de aula. diretores e professores também foi pautada por uma cultura seletiva. planos de curso. é mais adequada à instalação do trabalho coletivo no coletivo dos docentes. direta ou indiretamente implicados com o que ocorre na sala de aula. Quem dará o primeiro passo? Referências Bibliográficas Aplle. pelo modo como se organiza para o desenvolvimento do processo ensinoaprendizagem e em todos os seus espaços. Esta experiência teve início com professores da área de Ciências. educadores. Antonio Flávio (Orgs) (2006. 2006). com o colega. São Paulo: IGLU. todavia. A escola não questiona um currículo que contemple a diversidade e a inclusão. da clientela. envolvendo todo o grupo de supervisão e buscando superar as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia da sala de aula. se perguntassem como propõe Aplle : Para quem as escolas funcionam? E ainda de acordo com ele. as oportunidades de acesso aos bens culturais são diferentes devido a fatores econômicos e sociais. consensual. por email. ética e estética. a entrevista com o Supervisor Dujardis não foi presencial. Tradução por Vinicius Figueira. Pedagogicamente ela encontra-se enclausurada nas fronteiras da modernidade. Michael W. A formação acadêmica dos Supervisores de Ensino. O sistema de ensino. NÓVOA. com o professor. uma prática voltada para objetivos educacionais que. a distância social é relevante. Seu resultado positivo motivou o grupo de Supervisão a desenvolver semelhante trabalho com os demais componentes curriculares. mais sensível à diferença. Percebe-se nesta fala disponibilidade para fazer. ______________. Evidentemente. António. para o país. A diferenciação pedagógica. Tradução de Maria Cristina Monteiro e Tomaz Tadeu da Silva. desrespeitando a autonomia intelectual dos professores. Por questões práticas. Ideologia e Currículo. São Paulo: Cortez Editora.91). . São Paulo: Entrelinhas. pelo trabalho que vem desempenhando na coordenação da Oficina Pedagógica da Diretoria de Ensino da Região de Bragança Paulista. Mas não chega. Mas quem disse que a consciência de nossa própria posição política tenha de nos deixar à vontade? (2006. (*) Professora Doutora da Faculdade deEducação da PUC e do Programa de Pós-graduação em Educação: História. o Estado só mandou implantar. planos de ensino. Não há um único contexto de aprendizagem. Tradução de Ernani F. Parece aplicar-se ao Brasil o que diz Nóvoa em relação a Portugal: A escola de hoje é infinitamente melhor do que a escola de ontem. humanos. porém. o que exige uma ação comprometida com a educação com qualidade na totalidade do ambiente escolar e desempenho coerente de todos os sujeitos da escola. ______________ (2006). para existir. explicitando os conflitos para superar as acusações mútuas entre escola e sistema. pedagogo e doutorando em Políticas Públicas e Sistemas Educativos. poderíamos acrescentar: Alguns educadores talvez se sintam bastante desconfortáveis em dar a resposta. Seria fundamental que todos os sujeitos nos diferentes âmbitos. matemático. Para Concluir Como transformar o currículo em um exercício com qualidade da função social da escola? Não há um caminho para ser seguido. SACRISTÁN. Reformas Educativas y Reforma del Currículo: Anotaciones a Partir de La Experiencia Española. Escola. Um gosto amargo de Escola: Relações entre currículo. o qual conduza à aquisição de conhecimentos. Ressaltar para a escola e seus profissionais a responsabilidade é preciso. mas à oferta de um ensino de qualidade. desconsiderando as condições do seu trabalho. Formas alternativas e transgressoras de organização dos conteúdos curriculares devem ser verificadas. os questionamentos pertinentes ao tema que foram respondidos pelo entrevistado e ilustrados com fotos de etapas do projeto em desenvolvimento. mas não nos deu nenhum apoio (Relatório de Pesquisa. da escola. o currículo não se restringe à sala de aula. A escola e seus agentes mostram disponibilidade para a prática do que lhes é solicitado pelas políticas educacionais. a sociedade não é homogênea. Seria produtiva a utilização dos espaços de encontro coletivo também para essas atividades. muitas vezes. ouvimos de uma diretora: Inclusão não consigo fazer. e não para servir de pretexto 13 (e de desculpa) à nossa incapacidade para as instruirmos (2005. em 2006. articulação entre este. Enfrentar-se al problema del cambio en educación sin considerar este supuesto es pecar de ingenuidad o tener una perspectiva equivocada sobre los sistemas sociales (1998. a qual focalizou o paradigma de gestão vivenciado em uma amostra de escolas públicas.( 2004). confirmar sua real intencionalidade”. Porto: ASA Editores AS. em diferentes órgãos educacionais. Para tal há que se cultivar o planejamento e avaliação contínuos da ação da escola. todas as crianças. ensino e fracasso escolar. está sujeita a dificuldades para implantá-lo. p. especialmente em relação à implementação das Propostas Curriculares da Secretaria de Estado da Educação. atendimento do educando nas diferentes dimensões do processo educativo: cognitiva.( 1989). exige uma ação educacional sistematizada. com todos os sujeitos da escola. Mirian Jorge (org. nas universidades. construção compartilhada do projeto pedagógico.outubro de 2008 interessante para um país onde o território nacional é extenso. não há uma transferência mecânica das leis para a escola. as prioridades do currículo não contemplavam o trabalho escolar com a diversidade. 120). E o cumpra-se pode estar acobertando todas as angústias. Biólogo. pela UNICAMP. Não se pode relegar a outros uma tarefa que é nossa. se prioritária. moral. José Gimeno. 3ª Edição. com o grupo-classe. compromisso de todos para com o aperfeiçoamento profissional. SAMPAIO.14-15). que atuamos na escola. estudadas e ousadamente praticadas. Tomaz Tadeu e MOREIRA. O aluno aprende com ele mesmo. pesquisando-a em detalhes para só então. 1998. (2005).24 . os métodos ativos ou os modelos de aprendizagem centrados nos alunos foram inventados para educar melhor as crianças. pela forma como a escola divide o seu tempo. A abordagem do conhecimento exclusivamente por meio da disciplinaridade pode reforçar o isolamento dos professores. É mais aberta. Esperar a mudança das condições culturais. SILVA. Educação e Poder. conseqüentemente. A função da escola não se restringe à oferta de vagas. econômicas da sociedade é adiar uma resposta. materiais. dificuldades e tropeços para compreender e trabalhar com ela.) II Seminário Internacional Novas Políticas Educacionais: Críticas e Perspectivas. Depoimento Uma ação prática sobre Currículo Escolar N esta edição. mas não basta. Maria das Mercês Ferreira Sampaio. Fonseca Rosa. Porto Alegre: ARTMED. Os recursos culturais. Dujardis acredita que “é preciso acompanhar a implementação curricular como dever de ofício. nos sindicatos. promovam uma educação sempre melhor para o estudante e. o interesse e a motivação. é criticada e punida porque não cultiva o hábito de levantar. Talvez um primeiro passo rumo à mudança seja a abertura ao diálogo sem resistências. Porto Alegre: ARTMED. a Comissão Organizadora deste Suplemento decidiu entrevistar o Supervisor de Ensino José Dujardis da Silva. Cultura e Sociedade. Educadores e Currículo Na escola. registrar e relatar as suas dificuldades para os Supervisores de Ensino e órgãos superiores. Os espaços organizacionais para encontro dos professores devem ser para todos. o que não significa exigir que se tenha uma ação docente igual na escola e sala de aula. com as rotinas que adota. 3ª Edição. além de firmar o paradigma de gestão democrática na escola. políticas. de fato. p. A Comissão encaminhou. A escola faz adaptações e.(2000) O Currículo Uma Reflexão sobre a Prática. abrindo a possibilidade para a busca solidária e competente de uma resposta coletiva que contribua para a melhoria da escola pelos seus legítimos responsáveis. Política e Sociedade da PUC/SP .Porto Alegre: Artes Médicas. mas não bastam. a cultura da escola e seus valores são alguns fatores impeditivos. acompanhada da mágoa pela falta de condições organizacionais para fazê-lo. 9ª Edição. A participação baseada em critérios pedagógicos. 2ª Edição. p. hegemônica em torno dos valores da classe média. Em investigação desenvolvida pelo núcleo de Pesquisa em Gestão e Políticas Públicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Currículo. mais inteligente. nós. a diversidade cultural é acentuada . Afirma GIMENO SACRISTAN: La realidad educativa es lo suficientemente compleja como para no ser controlable de forma precisa con mecanismos de intervención sobre ella. desenvolvimento de competências para produzir novos conhecimentos. Políticas públicas são necessárias.

discutir currículo é um ato complexo. crítica e construtiva com a cultura. • Fragilidade das formas de organização e gestão da escola em meio a mudanças abruptas na organização curricular. ético. provida pela ciência. tão-somente. direção para termos elementos para reflexão teórico-prática. conforme explicitado nos cadernos do aluno. etc)? Dujardis . os conteúdos e o modo de ensinar (metodologia e avaliação).outubro de 2008 destaca-se o acompanhamento das práticas dos professores. O currículo escolar. é aquela capaz de assegurar a todos. o Currículo de uma escola deve perseguir (conhecimento. há um descompasso entre o que explicita a proposta pedagógica. concepção de homem e de mundo. na sua opinião. p. Portanto. promover a qualidade da escola pública. JA . avaliá-la. advertindo que aquilo "que está prescrito não é necessariamente o que é aprendido. como formadores de formadores auxiliam os professores a melhorar o seu desempenho profissional e o seu desenvolvimento pessoal. destaca a necessidade de se discutir as propostas curriculares ou o que é chamado de currículo prescrito. coordenação. de certa maneira. é a expressão de uma determinada concepção de educação e de sociedade. em suas várias manifestações. as finalidades. • Dificuldade dos professores em adequar-se a essas mudanças. na transmissão. nessa perspectiva. quando as instruções são publicadas já vêm com alterações e não condizem com o inicialmente proposto. pois aproximadamente 40% saíram da sala de aula recentemente e sem experiência como formador de formador. seletiva e contraditória. problematizador e integrador perpassa todos os níveis de ensino. foram prescritos pelos órgãos centrais sem a participação de seus principais veiculadores. JA -Em que medida as orientações oficiais (Conselho Estadual de Educação. tendo em vista que são considerados requisitos mínimos para a participação consciente em uma sociedade cada vez mais excludente. e o que se planeja não é necessariamente o que acontece" (GOODSON [ii]. O currículo constitui o núcleo do processo institucionalizado de educação". não apenas dos Entrevista estudantes. com vistas à continuidade de sua formação no interior da escola. com clareza da função precípua e específica da função social da escola. embora importantes. relação conhecimento/educação. ainda não a conhecemos na íntegra (o material chega apenas no início de cada bimestre). • Mudanças nos processos internos de aprender dos alunos. Requer ainda. com a qual sonhamos.Acredito que a problemática de trabalho do Supervisor é a gestão da aprendizagem. A videoconferência. É preciso ressaltar que as políticas de reformulação curricular devem estar atentas aos processos de concretização do currículo. eu diria que um currículo que atenda às necessidades dos alunos deveria estar preocupado com a formação multidimensional do educando. bem como pelo cotidiano pessoal e social. Sua investigação e monitoramento significam. pais. atitudes. tudo o que os grupos sociais produzem para representar o seu jeito de viver. talvez relembrar. . mediando. • Atraso na chegada do material. apesar de tantas republicações. Cada escola está inserida em uma realidade. No entanto. o regimento escolar e o currículo em ação. • O grau de dificuldade de aprendizagem dos alunos. a partir dos registros. de entender e de "sonhar" o mundo. técnica. a seleção dos conteúdos. projetos de sociedade. uma formação cultural e científica para a vida pessoal e profissional cidadã. Por cultura entende-se. através do qual o homem se humaniza e humaniza a própria natureza. acontece antes das publicações "oficiais". JA -Que observações você faria quanto ao Currículo desenvolvido pela maioria das escolas? Ele atende às necessidades da comunidade escolar e ao projeto pedagógico da escola? Dujardis . Somente a formação permanente e o exercício do trabalho planejado coletivamente garantirão uma atuação consciente e será capaz de qualificar o supervisor. Aprendemos que a proposta curricular. interagindo. os quais lançariam mão dos fundamentos curriculares historicamente produzidos para proceder a esta seleção de conteúdos e métodos com uma intencionalidade. currículo e cultura se complementam e se refletem na prática pedagógica da escola. 78).Penso que a atuação do Estado em relação ao currículo não se limita a prescrever a seleção cultural mediante dispositivos legais. não garantiu a todos o direito do aluno aos "estudos de recuperação" conforme estabelece o Inciso IV do Artigo 13 da LDB. que vão desde a participação nas reuniões de HTPCs. intervindo. Esta ação essencialmente humana e intencional é realizada a partir do trabalho. Por isso. um dos estudiosos da história do currículo. sobretudo. p.Que objetivos. Isto exige investimento no conhecimento histórico-científico. de qualidade. Ivor Goodson (1995). via resultados. problematizando e questionando as vivências escolares.Acredito que a escola que queremos. Legislação Federal e Estadual. sem o que as orientações curriculares podem tornar-se meros discursos configurados em textos. A escola e o currículo têm sido vistos e têm realmente cumprido a tarefa de incorporação de grupos e culturas diversas ao suposto núcleo cultural comum de uma nação. 1995. Secretaria Estadual de Educação etc) influenciam. em tese. Os dispositivos legais mais dificultam do que facilitam a implementação da proposta curricular. A política curricular envolve também a elaboração de meios – material de orientação e controle –. e. mas. É preciso compreender que as concepções de educação. ouvir alunos.14 Jornal APASE . então. indistintamente. Cultura aqui se refere a toda a produção humana que se constrói a partir das interrelações do ser humano com a natureza. normalmente. repensar. com o outro e consigo mesmo. Dentre as atribuições do supervisor 24 . pensada filosófica. Definir que currículo é um ato político tenhamos nós consciência ou não dele. • O impacto dos meios de comunicação na vida escolar e na aprendizagem dos alunos. chegam com atraso às escolas e não estão sequer disponíveis no mercado. ou seja. • Descompasso entre as orientações da CENP e DRHU. • Professor-Coordenador das unidades escolares em formação. É compreender. Discutir currículo é discutir vida. estamos presentes na escola para acompanhar a implementação. político e estético. a formação em serviço de professores no espaço escolar vinculando educação e cultura. Educar é. A Resolução referente à recuperação paralela foi uma vergonha. deve ser reflexo da produção humana construída no coletivo da escola. mas das comunidades. num movimento de aprendizagem contínua e mútua. na construção dos Currículos das Escolas? Dujardis .191) especialistas na área de currículo entendem currículo como o "conjunto de todas as experiências de conhecimento proporcionadas aos estudantes – que está no centro da atividade educacional.Qual o conceito de Currículo Escolar e sua importância para a Educação? José Dujardis Silva . positiva e negativamente. e a inovação e a mudança podem se tornar. Em seu livro Currículo: teoria e história. redefinir a função social da escola e de cada profissional da educação. Portanto. acentuadas com a falta de domínio de conteúdos e metodologias das disciplinas. o trabalho de articulador. Como sabemos. Limites • Dificuldade inicial de integrar Oficina Pedagógica e Supervisão num trabalho com objetivos comuns estabelecidos em um plano escrito e monitorado permanentemente. os professores. por sua vez. JA -Como você atua junto às escolas supervisionadas em relação ao desenvolvimento de seus Currículos Escolares? Quais as possibilidades e limites encontrados? Dujardis . O supervisor contribui para a formação dos professores articulando a teoria e prática. histórica e culturalmente no projeto político-pedagógico da escola.Atualmente o currículo desenvolvido nas escolas públicas estaduais atende à implementação proposta pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. Possibilidades • A formação continuada dos Professores Coordenadores que. de forma intencional. no sentido de fazer da escola um espaço de desenvolvimento cultural. professores. porque vivemos em uma sociedade marcada por expressivas desigualdades sociais. nas reuniões pedagógicas. pois. Moreira e Silva [i] (1999. possibilitando uma relação autônoma. deveria ser construída pelos professores das disciplinas e mediada pela equipe pedagógica. que visam apresentar aos sistemas de ensino e aos professores o currículo prescrito. saberes e conhecimentos que "devem" ser democratizados para toda a população escolar. no nosso entendimento. estética e ética. • Videoconferências que mais confundem do que contribuem para a formação de profissionais da educação. como decorrência. indicando com um pouco mais de especificações. mais um exercício de retórica ecoando no imaginário pedagógico. Portanto. cultural. É prematuro afirmar que a proposta curricular atende às necessidades da escola. valores. palavras de efeito.Entendo que discutir currículo não é reduzi-lo a discussões meramente técnicas ou estratégicas. apropriação e socialização do conhecimento no espaço institucional e lhe conferindo sentido no processo de transformação. o que exige do supervisor especificidades diferenciadas. buscando fazer elo do seu saber e o conhecimento profissional dos professores. uma avaliação dos condicionantes da possibilidade que tem o Estado de provocar/influenciar mudanças na prática educativa e. pois representa desvelar relações de poder que ocorrem na escola e para além dela. especialmente à passagem do currículo prescrito ao currículo em ação. nos grupos de estudo. • Recursos materiais que. basicamente um processo de incorporação cultural. Portanto.

mas dos atuais Professores Coordenadores da Oficina Pedagógica nos encontros de pólo descentralizado.O projeto tem sido bem recebido pela equipe de supervisores. Panonica. implica também o reconhecimento e a compreensão dos determinantes históricos. hoje. Não há pulverização de projetos. • No exercício da ação supervisora percebe-se que muitos professores voltaram a preparar suas aulas. respeite a sua cultura e considere o processo de aprendizagem e não apenas o produto. coletando-se as sugestões. do pessoal escolar e comunidade.Como este projeto está sendo recebido pelos seus colegas supervisores. pois o material impresso da Secretaria exige preparo prévio não só do ponto de vista conceitual. assim como as dificuldades. Precisamos ir além de uma política educacional de resultados. Os demais projetos previstos no Plano de Gestão estão relacionados à implementação curricular. e alunos estão acostumando-se com a presença mais freqüente não só da supervisão. As equipes são bem recebidas nas escolas-pólo possibilitando a realização das sessões de estudo. O trabalho em pólos foi a proposta adotada pela Supervisão e Oficina Pedagógica para a implementação curricular. cultura e sociedade. como recuperação de alunos. culturais e simbólicos de uma dada sociedade. SILVA. • A participação de todos é um elemento político da ação e até garantia de execução e continuidade das ações. n.Creio que a implementação curricular possibilita a reflexão sobre a prática da supervisão redimensionando-a. A reunião foi desenvolvida em dois momentos: um com a supervisão e ATP onde se abordou a implementação de um novo currículo de Ciências previsto para o ano letivo de 2008. A. das influências. supervisores. formação continuada de professores a distância. possibilita melhor atendimento. pela legislação. A partir do diagnóstico das dificuldades. o dito e o feito. JA . 1990. implementadores de políticas públicas. Acredito que houve uma maior proximidade da equipe de supervisão com a Oficina Pedagógica. Referências Bibliográficas [i] MOREIRA. fazendo-se uma retrospectiva histórica a respeito Entrevista de currículos anteriores. Dujardis . Como nós. agora com um supervisor responsável. desde que houvesse a coordenação de um supervisor para dar organicidade. localização de recursos materiais. da supervisão aos alunos. formação continuada de Nestas escolas o trabalho desde o início do ano é com o mesmo grupo: PCs da OP e supervisor da escola. Currículo: teoria e história. A partir do início de março passamos. com menor número de participantes. B. os professores fizeram a sugestão à Secretaria da Educação. o tamanho do grupo (19 PCs da DE).. melhoria dos resultados no SARESP.Comente outros pontos que você considera importantes sobre o assunto. São criações específicas da escola e por isto merecem ser amplamente estudadas. Currículo. além da garantia de continuidade. Este trabalho contempla apenas as cinco escolas da região que não tiveram bom desempenho. acréscimos e ao término da oficina. não objetivando apenas o atendimento dos organismos internacionais ou a política de resultados barganhada por bônus especiais. modificar a cultura da sociedade global". Acredito que é preciso acompanhar a implementação curricular como dever de ofício. JA . a capacidade de negociação. propusemos com a ATP de Ciências uma reunião na Oficina Pedagógica com os professores para análise da proposta de Ciências. Muitas vezes somos abordados pelos professores que solicitam sugestões complementares. tipo de formação de cada um. Formação Continuada com grupos de PCs (fixo) e supervisão para melhoria do desempenho no SARESP.Que mensagem/sugestão/recomendação você daria aos seus colegas supervisores.. não basta reconhecer as . Chervel [iii]. via recompensa. interesses próprios. 1995. melhoria do índice do IDESP. JA . todas as ações passaram a ser avaliadas. No segundo momento se analisou com os professores de Ciências a versão preliminar da Secretaria. • A prioridade passou a ser a implementação curricular. certamente. F. no entanto. • Avaliação permanente do escrito. Essa formação continuada inclui: • atividades de recuperação de alunos. quando o próprio sistema pouco conhecimento tem de suas contradições.24 . objeto principal de nossa ação. A comunicação. Petrópolis: Vozes. O trabalho foi conseqüência de uma avaliação da proposta preliminar do ensino de Ciências. é acreditar na possibilidade de uma ação supervisora mais significativa. A presença da supervisão e momento do trabalho desenvolvido. mas acompanhar o desempenho de nossos alunos fazendo uma leitura crítica e melhor fundamentada. pois o que nos interessa é uma melhoria da qualidade de ensino que leve em consideração o momento histórico. São Paulo: Cortez. nem se reduzem ao que foi programado. professores 15 determinações dos organismos financeiros internacionais que atuam em países em desenvolvimento. pois se trata de um projeto da Diretoria de Ensino contando com envolvimento de todos os demais em suas respectivas atividades paralelas. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Os Diretores. A avaliação faz parte do cotidiano. o conhecimento de técnicas de diagnóstico. que se apóia basicamente na participação e na comunicação efetiva dos agentes de supervisão. favoreceram a tomada de decisões e o conhecimento da informação e se transformam em objeto de pesquisa e registro. o conhecimento da prática. Formação Continuada de Professores Coordenadores – nestes pólos os PCs da DE são fixos. com vistas à avaliação e possibilidades de alteração e/ou encaminhamento. 2. pela direção das escolas. Apesar das dificuldades. [iii] CHERVEL. a partir da década de 50 do século XX e suas possibilidades e conseqüências.outubro de 2008 em troca de idéias sobre o trabalho. • orientações específicas na área curricular exigida. estamos superando problemas iniciais e nosso trabalho organiza-se resgatando a função do supervisor-pesquisador. mas também relativo ao material sugerido.A implementação das políticas públicas depende de um aparelho estatal que corresponda e responda às demandas da sociedade e. acompanhamento e registro das ações. Ivor F. [. de análises de necessidades.A partir de março de 2008 estou na Coordenação da Oficina Pedagógica da Diretoria de Ensino da Região de Bragança Paulista (esta é uma atividade paralela da Supervisão em nossa região). entre outras atividades. não podíamos opinar (sic) isso porque somos. nem planejado por outrem. da mídia e das características das instituições do Estado brasileiro. existe algum projeto específico do qual você participa? Descreva-o.] Pensar em um trabalho mais atual da ação supervisora. da Oficina Pedagógica. [ii] GOODSON. 1999. para isso. Procuramos integrar o trabalho da Oficina Pedagógica com a Supervisão na implementação da proposta curricular da Secretaria de Estado da Educação a partir do final de 2007. As experiências bem sucedidas são socializadas na escola durante os HTPCs. entretanto. procurou-se não classificá-las ou rotulá-las. • As críticas e sugestões são registradas. elaborou-se um plano de ação que pudesse atender às dificuldades detectadas até o final deste ano letivo. Dujardis . • Orientações descentralizadas. Professores Coordenadores dentre outras. a trabalhar em conjunto com a Supervisão e Oficina Pedagógica em outras atividades integradas além da implementação curricular. moldar. supressões.Atualmente. pesquisandoa em detalhes para só então. JA . agenda intensa e não divulgada antecipadamente pela Secretaria da Educação. num trabalho conjunto com a supervisão. Este poder criativo do sistema escolar até agora não foi suficientemente valorizado e "ele desempenha na sociedade um papel o qual não se percebeu que era duplo: de fato ele forma não somente os indivíduos. pensou-se em fazer um trabalho semelhante com as demais áreas. mas também uma cultura que vem por sua vez penetrar. com registros documentais e ensaio fotográfico para avaliação de cada pólo e da Diretoria como um todo. professores e alunos? Dujardis . confirmarmos sua real intencionalidade. Tomás Tadeu da. quanto ao papel da Supervisão no desenvolvimento dos Currículos Escolares? Dujardis . bibliografias específicas dentre outros. Como o resultado foi positivo. (1990) afirma que as disciplinas escolares não são meros produtos das finalidades da educação. 2. Dividimos a região em cinco pólos para atendimento a: 1. Teoria e Educação. possibilitando a ressignificação do nosso trabalho. Porto Alegre. com vistas à melhoria da qualidade de ensino. registro para avaliação. • discussão do Cadernos do Gestor. em todos os segmentos. atenda às necessidades sociais de nossos alunos. 177-229. mas decorrentes dela.. A. as orientações são feitas em pólos distintos. disponível para avaliação dos professores no site da Secretaria da Educação em novembro de 2007.

A autora finaliza indagando sobre os movimentos que têm levado os educadores a interpretar as proposições oficiais.. ao mesmo tempo. 2008 A autora empreende a análise (fundamentada em teorias de T. As idéias e as virtudes apresentadas não têm como objetivo constituir um receituário de procedimentos. coloca as perspectivas a partir da mente incorporada. os diferentes capítulos compõem a “ linguagem do afeto”. discute o papel da teleducação e da educação permanente. ora no ambiente/objeto de conhecimento o fator preponderante de desenvolvimento de competências. “ . a capacidade de adquirir suas competências. assim como os pressupostos contidos nas avaliações nacionais do ensino básico – SAEB e ENEM. podem complementar a ação educativa para a construção perene de virtudes e valores. Aqui. Há que considerar que existem opiniões divergentes a respeito das virtudes. Maria de Lourdes de Capua Supervisora de Ensino . a colocação de teorias tradicionais da competência . As propostas. é distanciar-se – nunca separar-se – do mercado.. em particular.. 2ª edição. calcadas na certeza de que não é possível uma mudança comportamental se não houver persistência e serenidade. considerando que as escolas reconfiguram. Discorre.Marcuse. os pais devem educar seus filhos de acordo com seus critérios pessoais. um valor. Trata-se de uma relação necessária. A política social mais estratégica do futuro. A expressão formação administrada é utilizada porque a autora entende que a formação proposta no discurso oficial está sujeita ao controle e se guia por interesses externos aos indivíduos. assim como para qualquer tipo de educação. o status de semi-formação. Assim compete à educação combinar qualidade formal e política. Ainda. 1ª edição.conhecimento depende de estar no mundo que é inseparável de nossos corpos. 2001. política social do conhecimento. Quando aborda “Educação na Sociedade do Conhecimento” (capitulo V). Ela situa a reforma no momento em que o capitalismo entrava numa nova fase para manter os seus padrões de acumulação de riquezas – a chamada globalização – e se expandia aos países periféricos. entre eles o Brasil. entre educação e conhecimento persiste uma relação controversa. sobretudo quando ela está em pleno movimento. pois. SEVERINO. insuficiente e controversa DEMO. isto é. assim como outros aspectos explícitos que enfatizam o atendimento da educação aos interesses do mercado e da produção. 183 páginas. (grifo da resenhista) Obs. para garantir seu poder inovador. ainda que possa auxiliar algumas pessoas a pensarem na melhor maneira de se relacionarem com seus filhos e alunos. na medida em que a educação necessita de conhecimento. O corpo do texto abre os pensamentos do autor sobre a idéia do título e convida o leitor a aceitá-los ou rejeitá-los. não têm intenção de servir como “guia de autoajuda”. não é um “manual de pedagogia”. aqui entendida “não apenas como motivação psicológica para a aprendizagem. e FAZENDA. vêm as atividades extras que. isto é. e o conhecimento necessita de educação para ganhar condição ética e alcançar os excluídos. de fundo político eminente. ou seja. havendo divergência.Bernstein. valores e idéias aqui defendidas. 2003. “Aí reside. entre outros) dos documentos oficiais que contêm a reforma educacional do início dos anos 90. A. WEISZ. . Para esta. à luz de diversas correntes da psicologia sobre a noção de competências noção central nos documentos analisados . a formação dos professores e até para o papel dos sindicatos. 1ª Edição. . captar o modo como é apropriado pelos educadores. especialmente os referentes ao ensino médio. Também é uma relação insuficiente. este pequeno texto inspirado em avanços e descobertas recentes da neurologia. Ela entende que essa dimensão foi ignorada nos textos da reforma e isto produziu uma concepção de formação humana que oportuniza. adquirindo. No entanto. São Paulo: Ática. ainda que tenha alguns poucos fundamentos pedagógicos. em detrimento de uma formação que aproxime o indivíduo de momentos que o conduzam à diferenciação e à emancipação. Bruno e OLIVEIRA. nossa linguagem e de nossa história social – em poucas palavras. Adorno.: As Diretrizes Curriculares Nacionais para o ensino médio encontram-se no Parecer CNE/CEB 15/98. . Essas teorias. enquanto reduz o ser humano ao pensamento lógico-formal. mas dele não pode receber o sentido das coisas”. 3ª edição. Ela identificou. 192 págs. seus enunciados e suas normas que têm como objetivos definir rumos para a formação humana é imprescindível. . 138 páginas.O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. e da ingerência nas variadas associações (sindicais. eventualmente.Capital Outras sugestões ZUIN. 165 páginas. Kristen L. essencialmente. 3ª Edição. 2008. a sociolingúitica de Chomsky e o behaviorismo . diz a autora. A proposta do livro é mostrar que.ADORNO O poder educativo do pensamento crítico. mas como comprometimento”. onde o ponto mais importante é de teor ético. Ao colocarem no sujeito ou no objeto essa primazia. São Paulo: Papirus.e detecta neles sua proximidade com a idéia de competição e competitividade. seguindo-se algumas propostas de procedimentos.. 1ª Edição. de nossa incorporação”. PUCCI. H. reconstroem os dispositivos normativos.de forma ambígua e fluida. ora depositam nos sujeitos. Ivani C. Essa controvérsia atinge também o desafio da aprendizagem. Antônio Á. As finalidades e os procedimentos da reforma curricular são tomados como referência para o trabalho dos professores. tem estado atrelado ao poder. as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM) e os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM). mesmo sabendo que em todas as culturas e. dos meios de comunicação.outubro de 2008 A Linguagem do Afeto Como ensinar virtudes e transmitir valores ANTUNES. contamos com uma pobreza política. Cleide Comi Supervisora de Ensino . Florisbela Branco Supervisora de Ensino . Tradução de Ronaldo Cataldo Costa. partidárias. como não é possível ensinar sem intenso amor. (Org). pela manipulação das assistências sociais. com que precisa haver-se. Mônica Ribeiro da. pela fragilidade de descobrir que a cada instante aprendemos mais e que a cada passo podemos nos reconstruir. B. em seu acontecendo. a adaptação. BURAS. desse modo. garantida pelos políticas educacionais. já que foi escrito por um educador.16 Resenhas 24 . com certeza.. Demonstra que a reforma na educação brasileira voltou-se para atender à formação desejada pelo setor da economia. ou seja. Ela entende que o estudo da reforma. S. um conceito que o autor acredita ser possível ampliar. O conhecimento. Pedro. para expressarem a competência humana como tal. Para isso basta substituirmos a arrogância de imaginar que sabemos tudo.Capital Currículo e competências: a formação administrada SILVA. será. comunitárias. “o primeiro passo. São Paulo: Papirus. Antônio J. Mas.Currículo. sempre se acreditou em valores estabelecidos e em obrigações que são essenciais ao convívio com outras pessoas. 285 páginas. Poder e Lutas Educacionais. deixando de lado a emoção. 191 págs. reinterpretam. os eventuais conselhos e os palpites apresentados. Celso.. 3ª Edição. assim como é possível a criança aprender valores e virtudes. a condição relativa da reforma e também a riqueza do fazer educativo: a impossibilidade de que ele se submeta plenamente ao controle”. e colaboradores. . sobretudo. “ciência com consciência”. justamente. No capítulo IV – “Sociedade do Conhecimento e Aprendizagem” – mostra a tendência do conhecimento se tornar “autoridade cognitiva” para interpretar as necessidades da natureza e da própria sociedade. Newton R. na lógica neoliberal. pode-se flagrar as contradições do discurso oficial e.W.Políticas Educacionais: o ensino nacional em questão. 2006.o construtivismo piagetiano. é claro. desconsideram que a relação indivíduo-sociedade é uma relação sempre marcada por uma dimensão históricocultural. no texto do discurso oficial. Finalmente. Cada capítulo expressa um valor ou uma virtude a ser ensinado (a) e. já que se trata de formação do sujeito capaz de história própria”. APPLE. reflexões.. A inteligência humana é tipicamente incorporada. Michael W.. 2002 O autor analisa em profundidade a relação entre educação e conhecimento. por todo um passado histórico. é igualmente possível nos tornarmos melhores pais e professores. 2006 Conforme palavras do autor. cada escola tem seu tempo e seu ritmo e reage de maneira diferente às inovações. O título do livro representa uma idéia. Trata da polêmica em torno da aprendizagem com o objetivo de relevar sua marca reconstrutiva política. 133 págs. Porto Alegre: Artmed. Telma . São Paulo: Cortez. assim.os dispositivos normativos não são incorporados de forma “espelhada” pelas escolas: eles se deparam com princípios e práticas já existentes.São Paulo Educação e Conhecimento Relação necessária. “O saber pensar e o aprender a aprender deixam de ser fatores apenas técnicos. Rio de Janeiro: Vozes. etc ) que acaba por produzir a ignorância. para a aprendizagem. Adverte-se que. (contribuição do positivismo e do racionalismo). já que vivemos em plena sociedade de conhecimento. Rio de Janeiro: Vozes.