HISTORIA

DO
DESCOBRIMENTO
E
CONQVIST A DA INDIA
PELOS
PORTVGVESES
POR
FERNÃO LOPEZ DE dASTANHEDA.
KOV.A EDIÇÃO ...
LIVRO VI.
L IS BOA. M.DCCC.XXXIII.
NA T Y P O G R A P B I A R O L L A· N D I A· N A.
POR OBDEM SUP.EBii)ll: ~ - ~ / . / J .. lo ~ ~ : :
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HO LIVRO SEX'ro
DA
HISTORIA DO DESCOBRIMENTO

E
CONQVIST A DA lN DIA
.
.. .
PELOS P-ORTVGVESES: .
Em que se -conte o que eles fizerlo no tempo q-ue a
. gouernarão dõ Duarte de meneses, Dom V asco da.
·gama conde _da Vidigueira & alrnirante do ·mar Indico.
E dom Anrrique de per mandado do inui-
.: Rey dom M.anuel·de gloriosa memoria: & -do
· .lbuyto alto·& muyto poderoso ·rey dom -loão seu tilho
ho terceyro ·-desté nome senhor. · · .
Feyto por- FerntJo Lopes:. de CastQJnheda.
. . . C A. . P I 'r O L O I.
( - .. . .
De como dom Luys de meneses capitâfJ mór do mar ·da
India foy socorrer a fortaleza Dormuz ' de C()m.O
partia per.a ·Malaca Martim Afonso de 'file/o ·Coutinho.
P articlo Diogo lopt'z de siqueyra pera :Portugal , par-
tiose o gouernador· pera a cidade de Goa J)era da hi
mandar em socorro· da fortaleza Dormuz a dom Luys de
meneses seu irmão êj estaua fazendo a fortaleza ê Chaul.
E -chegado a Goa rnãdoulbe ho galeão sam Dinis em
. auia dir a Ormuz, & mandou lhe ho regimêto do que a··
· uia de fazer. E porque a capitania deste galeão era
Francisco· de sonsa tauares, de que"vatta' fjz.,Jlle.nçãó:,
deulhe ho gouernafh>r em
Ll V R O V l. A .. . w .. ... •
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t J)A. HISTORIA DA IRDIA.
galé real em que ho mnndiJU a Chaul pera ldar darmada
ate Dabul por capitllo mór de dez ou doze fustaa: & in ..
do de caaninho quein1ou no rio de Zinguizara & no do
Betele algilas naos & cotias, htlaa varadas & outras car-
de n1antimentos. E chegado Frilcisco de sousa
a Chaul , parliose dõ Luys pera Ormuz , &t forão coele
Rui vaz pereyra, Manuel de ma cedo, Anrrique de roa-
cedo, c_apitães de galeões & .dataide, da-
zeuedo &. Pero vaz traua<ias cap1tles dai llaos. E ele
partido, partiose pera Goa Martim Afonso de melo cou-
tinho que ajudaua a fazer a fortaleza·, & partiose por
ter a viagê da China pera onde auia dir. E chegado a
Goa despaebou bo gouernador & partio ae ·pera Cocla.im
Jeuãc.Jo debaixo de sua capitania Vasco ferDidez coati-
Dho & Diogo de melo seus irmãos, &, Pedromê innio de
Francisco homê estribeiro mór, & coestes 1e auia dajü-
tar em Cochim Ambrosio do rego que auia dir; eo1 htl
jungo: & de ae partio Martim pera Ma-
laca em Abril de mil it quinheoto1 k "Vinte doua. . .
C A P I T V L o· ·. II.
como Ao gouer'IJIJdor itu a de Chaul a Si-
mão dandrade, tnádou goardar a costa de Camhaya •
..
Ho li estaua em Goa onde auia
despois f)Ue mãdou ho galeão sam Dinis a seu irmllo
dom Luys pera ir nele a Ormuz como disse , deu a ea-
pitania· de Chaul a Simão dandrade que era YiDdo da
China, & ca1ara per palauras de futuro com bua·sua fi-
.]ha bastarda, & deulhe aquela capitania em oasameato :
o qoe nlo podia fazer poJa ter Anrrique de meneses hõ
ba fidalgo que lha dera Diogo Iopez de seq.ueira sendo
gouernador, & polo regimento lba podia dar os priruey-
ros tres Anos por ele ·ser o ·que a. fizera & não se Jhe po-
dia nlo .por erros. E dada a capitania a Simão
···itabS!rmle ;· ·"-át:&iitt Chaul. cõ hiia armada de obra
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LIVllO VI. 11. 8
de doze fuataa que auia de goardar aquela c·osta das fus-
tas de Dia, &. auia dandar repartida ê capitanias, de
.htla ·auia de ser capitilo mór Frãcisco· de sousa tauares,
doutra dom Vaeoo de lima de San tarem, & Mar ...
tim correa do : & ate Chaul auia dir Simão
dandrade por cap1tAo m6r, & hiAo nesta frota
ltomens. E de caminho quisera Simlo dandrade deaem-
baccar em . Da hui &. pelejar com sete mil homês q esta-
uão nela por lhe ho tanadar nlo querer dar duas.galés
que hi fizerão turcos: & estando ja nos bateys .cõ sua
gente pera -saltar em terra ouue ho tanadar tamanho
·medo que lhe mãdou dar as galés com q seguio seu ca-
minho pera Qhaul. · E chegado .lá Anrrique de meneses
lhe entregou a capitania da fortaleza poJa prouisam do
gouernador,. porque vio q nft. auia d-e poder fazer outra
-eousa, & a este têpo tres mil pardaos que gasta-
ra ·na fortaleaa .eom -dar de comer & outras cousas de
.eruiço dei rey de Portugal. E metido Simão dandrade
aa capitania da fortaleza, repartio as capitanias das
fustas como trazia por regimento: & os capitães n16res
ee forio a goardar a costa, em que fizerão muyto dlno
por todos aqueles rios. E acertando Martim corre a den-
trar no rio do Betele que he muyto fresco sayo em ter-
ra com obra de ·lint-e .cinco dos nossos: & n1etedose por
h.tl espesso palmar foy a!si ate chegar diante de hils
paços de muytos· patios., jardis & varãdas: &
diante da porta do primeyro patio estauio ass@tados no
ehlo muytos homês & molberes pobres. E saindo de
dentro bii .Jeuantaranse todos muyto de l>ressa, a
quA primeyro. chegaria a ele: mas ele deixou todos &
foyse a Marti -correa, :& fazendolhe sua co·rtesía como
mouro q .era assentouse e hü poyal: &a-li em pra-
ticando deu conta como aljles paços e-rão de hfi grit-
cle senhor mouro, que auorrecido das cousas do mudo
viuia ali apartado & gastaua ho seu com aqueles pobres
que auia & cotn outros, a ·q continuamente daua esmo-
lã de dinhe-iro, trigo .. & arroz: de que ele era o esmoler.
A 2
.
' I
(
...
4 DA BISTOJliA DA IND.IA.
E nisto sayo ho 'proprio senhor mouro-, & mostrou· fol·gar
muyto ·de ver os nossos, & fazêdoJbes muyto gasalbado:
se assentou cõ Martim com q.uê esteue prati-
cando ate que foy horas de se tornar á su·a fusta, onde
lhe mãdou d·uas vacas., galidhas & fruJ.ta. E.nesta pra ...
tica perguntando Marli· correa ao mouro a causa porque
fazia aquelas esmolas, ou esperaua delas.
Res,õdeo que era tanto de sua condição fazer bê 9•
. ho fazia· polo gosto que nisso Jeuaua. .
C A P I 'r V L O J.ll.
Do que aconteceo a correa andando elarmtulG-.
E ou_lra vez Jhe acooteceo 'i foy ter a hiia fortaleza
despouoada onde achou hurn Bra1neDe velho que os nos ..
aos catiuarão, & poJo não quererem soltar _despois que.
foy nas .fustas- rogou a Martim correa que ho
por dez pardaos, & que lhe desse licellCia pera ir por
eles. E ele lha deu. j-urãdolhe ho Bramene poJas linhas
que trazia ao peseo<to que tornaria, & a ele não lhe· da ..
ua de não tornar por ser velho & nlo lhe pedio ho re ...
gate se não zombando.:. a:uas ele jurara de verdade
não ho teue E aueodo hü pedaQo que era partido·
tornou cõ oyto galinhas ás costas: & quando os nossos
ho virão ficarão espãtados ho ver tornar , & ele pe-
dio a Martim correa muyto perdão de não poder tornar
mais cedo: & que lhe perdoase de.Jhe aão po-
der dar todos os pardaos que lhe prometera, porque
por sua pobreza não podia dar mais que seys que logo
tirou, & polo resto trazia aquelas oyto galinhas. E es-
pantado Martim correa da grande verdade do Bramene,
& de Goardar tam bem seu juramento: lhe não quis to-
Dlar ho dinheiro, & poJas gaJin.bas lhe deu d·Qus panos
pet·a se vestir, & mais hu seguro assinado por ele pera
que nenhu Portugues q ho tomasse lhe fizesse n1al. E
- coisto se foy ho Bramene muyto & ele se foy
LIVRO ·vt. .. C.&PftVLO lftl'. 3'
recoJheDdn pera Chaul, & na enseada doB.Bramenes so-
bre ·hua8 vaca& que os noisos quiaerlo· por não le-
'BareBi oarne ouu& hila peleja eom. bem. cvytocenooa mou-
ros, que os aonos ouuerlo a Jlitoria·&. oi fizerJo- fu-
gir: & despois fóy aobme hil·Jugar que- ae eom:·
medo dos asei' a iriuer-·.
aat, onde tambem 1e ·os outros. cap)tAn recolherãc •
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Be 'como OOIR -bays: de àia ,. 10ep'r1f0 Do'l'-:
: . • ckegou.lá!, dO que ··. · · '
Dom. Luys de. ch.e.
gou .laa na etrada::de Mayo :: & porque dom Garcia coo•
linho. que • por capitit.J Dormuz tel'
acabada . ho .. tempo de sua capitania. h o· tirou dom Luys
dela; &·a entregou .a· ·hti chamado mão roilriguea
noroaha: a tinha·· JJQi ei rey de P.crtugal, &
pois eoteudeo. eJI) .. fazer .qu·e se ·tornass·e a poU:oar Or ..
muz., (X)rque · 'ino Dio .st- .pcidia soster a fortaleza
por Jbé faltare·:es mantimento& ·que ·por nãa
auer aa· cidaôe. E t)ue Dão. se ·poctrs
isto faaer 'YÕtade:dei. tiauaJhou . poJa
aqttirir oa-recendolhe p..rdão de ·tudo -o. q· ·linha fey·to no
leuantamea:to dei rêy· 'ruruaá· & .em sua morte:· & assi
todos aqueles fóseean: culcpados: & que se tor\.
nasse a poueat a cidade ·Dormuz. Mas cotno Raix· xa-
rafo 4e nlo toraar a peder Portu-
gu.esea, .poeto. q-ae ·nisso se perdesse ametatle ·da renda
do reyno nuca quis:. não ree-pond-eJ1do pGrem'cJaramçate
a don1 Luys (} não queria se não desapegadamente, &
mais porqu-e lhe parecia que dom Luys não trazia .tanta
gente que ousasse de pelejar e111 terra. E sabendo os
capitães d.a frota & outros fidalgos como Raix xarafo
temporizaua com dom Luys, eonselhauãlhe que não cu-
rasse de mais diJaçaes, &, que pelejasse com Raix xa-
;
I
I
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6' •& ·mS'I'Otl.l7 DA .riMDl.l
rafo: pol'que :certo estaua que pois tinha em seu poder
el rey Dormaz, .&· gouemaua ho reyno nlo auia de
querer tornar a poder\ dos Portugueses que lhe at1iilo de
tirar todo ho .mando· que tinha. O que dom Luys nlo
quis fazer, nem menos poer isto em c3telho pera se de·
terminar o que parecesse melhor. E vêdo que era eacu-
sado perfiar mais com Raix xarafo que fizease o que lhe
requeria, determinou de lhe procu·rar a morte: porq ele
morto el rey Doranuz poüoaria a cidade, & muyto se-
cretamente mandou eometer q ho matasse a Raix xa-
mixir o que matara ei rey 'ruraxá.:: maadldolhe ofFre.
cer ho goazilado Dormuz se ho fizease, porque sabia
que posto que Xamixir era parente & capitAo de Raix
xarafo, que era a aua ·lealdade tão quebradiça q.ue por
qualquer peita a quebraria mais -por tamanha
como era ho ·goazilado Dormuz. E asei foy que Raix xa ..
mixir aceitou de boa vontade a em pressa, mas ·nlo
poderia matar logo a Raix xarafo por andar .JII.uyto are.
Gado que se ·temia de dom Luys. · E despois .de .ele ido
se obrigou a fazelo per hl assinado que ·lhe d-iaso mã•
cioo: & fica11do ·dom L,ya-deacaasado mandou di-
z.er ·a Raix xarafo, que poia queria mudar a -eidade Dor ..
muz ·aa ilha de Qúeixome·t llle aio daua disso porque
tambem de tá aaia. ai reJ l>ormuz de- pagar as ·pareai
qae obrigado a .pagar a el r.ey de Portugal como se
esteuesse na ilha dormuz··: .por isso as .pagasse & a va-
lia da fazenda que fora tomada a el rey de Portugal & a
seus vassalos. ·Do que ele foy conte.nte, & aasi ho fez.
E oom quãto Raix xarafo· n® quer-ia .tornar ·para Orn1uz
.pão deixaua dauer paz antte os Portugue&el & 01 mou•
I'Oa, .ck tinbAo tr:ato hüs cqm ()8 o_utros .•
. .
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LITRO .,,, c.a..nwne r;,
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• .. • ti &. I '
• - • l ... .. s
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Ik como 1M Garáo
5ar8o ás· ilha• de Bmadti, da •srip_çáo «•• ilhllstr ·
Jorge oapitlo de 'fndo el rey
Bintão afroxaua da gt.Jerra qae lhe cQIDeqoo de fazer.,
lt q podia ese•aar algõà gente .da que ti•ba :. detern•i:-
aou mahdar por capitão. á· itha de a deln Gatt ...
aia am-rique:& seti· cu11bd8 ·pér.sa· aqaeJa. capitaniu .
aa de muyto proueito, de hü nauio redondo em
i} ÍOIB• com. a gente que pédia escusa-r •. E despaehado
dom Garcia, partiose pera Banda lia ltrada 4e Ianeyro
U & quinbentos & vinte dou a:. & Ido de camiRho
péla ilha. Dajaoa achou ainda .. A de. brito no porto
k cômo ··bia de se guio sua rota & A n ..
tonie de hrito partio ap01 e,Je pe.a as de Banda,. q,
eat4o em quatro graos & btl· terço da banda do sul , ·tt
que fazem todas an(t.re si hum rnuyto bõ porto
& redondo COM& a .Juayor delas se ttbama. Bã-
da , mel Mira·, Jt a maís Gunuape ,. qu-e na
)ingoa da terra quer dizer serra de fogo: & at.sli ho he·
ela que arde continuamente , & por isso he desabitada.
E Banda como ·digo# he a principal, & Àa neJa muytas-
aruores que dão a noz & a. maça & nacem polos matos·
eoíno outras a·rllores:. sam taman.ho de grandes pe- ·
reyras, ic, .aasi-. tem as folhas rala a & os esgalho&, & os.-
pés sam lisEl& .como os das Jarãgeiras & na1 fothas se.pa-
reci! com pessegueiros, & a-ssi dão a frol como a sua.·
Ho ·fr.1:1íto que· dilo estas· aroores be a noz q chamamos
Dozeada que naee como hfi penego, && DO tamanlu> &
Da cor se parece eeeJe :· it · d.espois de ter de •ez .a C9-
lhê & a deitilo a 1ecar ao sol , & Assi coiRO. vay secãdo
se yay abrindo.&, Jaaqâ biiu :folhinha•· que sam a maça.
E tiradas todas eàtaa tblhinhas fica. ho dea&e- )lo..;
mo que h e a que cleapoi1. de_ tbe ·llr 14rada. 1\ maça
11 IJ.& BII'I'OU.l D.l DfmA.
fica ainda coberto de hüa caspa preta de cor de casta-
Ilha, que despoie de aer muylo 1eca ae espede por ai
da noz. Este pomo ho fazem em verde em cooaerua da-
çucar: & he muyto· estimado em toda parte por aet
tnuyto meàic.inal & aaiJ.er muylo bem, &tambem fazem
dele olio que aproueita muyto pera frialdade. Apanhada
esta noz & maCia a dlo os da terra aes mercadores ea ..
traageiro1 a troco de .paaos baixos : lt por hila corja de-
] es .q na ilha valera a dinheiro tres cruzado• lae dão hA.
babar de maça ii· aã quatro quiataes, & da ·DOZ lhe dãa
sete babares. Esta ilba he pouoada de .geo.tios homêa
pobres & pouco polidos, .& prese•ça despriziU.f'l, n&o
tem rey a que obedeção, tem cada pouoa«ilo h ii rege,..
dor a que chamlo Xabaodar, ailo lhes obedecê .se
Dão por amizade. As pouoações sam casa.- terreaa
euberlas doia: a prioci pai se cham·a .luta tão. Ao :porte
·ilha ohegou A.atonio de -brito em .& hi
ja cloro .Garcia aorri<Juez, que lhe disse cbm.o bi
eoubera de certa certeza que forão ter ás de Ma-
luco duas naos .de Castelhanos que carregarão de erauo
& se tornarão., deixãdo dez ou doze homês na ilha de
'fi dor e a modo de feytoria : &. .ho como es.tas naoslá •
rã ter foy adsi. ·
.. • fo • ..•
. ·C A P I T. V L ·O· ·V·I.
.
De como Fernão fez crer ao Emperador
·rey àe -Castela que. ar .tlhas de ·Msluoo eriJo ·tU
sua conquis·la ck como IJ8 fDY de1cobrir. ·
. .
ReyoanJG dom Ma.nuel 'de Portugal .se foy pera
Caatela ·hil Feroio de magalhA:es, que fiz menC(ão no
liuro .terceyro quando Francisco de ·sá & Bastião de sou-
sa se perderão nos baixos de Paclua que ficou no ilheo.
Este :por se vingar dei rey dom Manuel , mostrãdose a-
grauado·. dele lhe .fez .hua g.rãde que foy dizer
to E1Pperador Gatlos quinto nome que ·da
LIVRO V!. 'VI. 9
Óast-ela, ·qué pola .repartiqlo da c()nqoista que se come-
Çou de fazer entre el rey dô lo4o ho segundo de (Jortu-
gai, & el rey dom de Caste-Ja que não cuue
eWeyto.: erio de sea descobrimento·& cooqu.ista as·
tle Blda & .as de Maluco, dandoHle petta isso algüas re-
z6es: que como fll ·ouue quem as contrariasse por par-
te .dei rey de Portugal, & ertlo em fauor .fio emperador.,
& pera seu prouei to J.he parecerão bem & ho creo sem
mais examiaar a verdade do que lhe dizia Fer.nio de
•agalbães, & aai a hum Ruy faleyro que .tambe-m ·h ia
soele mais por .fazer treyção a el rey de Portugal que
por causa & faziasse g.raode askologo, n1as não
•ábia nada: & tudo o que fingia que sabia era JX>r h i
•pirito ·famiJiar ·que tinha seguado se despois soube. E
eatea dbus fizerlo crer ao Emperador qu·e eatas il-has
que.digo erlo do se• descobria1ento & conquista, & .se
J.be. offrecerJlo a lhas descobrir por .fora da 11auegaçAo da
Judia: & pera este descobrimento se concertou ho Em-
perador eom n1ereadores que lhe armassem ci-nc<t
Dao& em Seúilba, de que deu a capitania mór a FerRão
fie &t ·mldou coele a ·hü astro1ogo chamado
And.res· de sam Martim, pera que por ·astrologia visse.
ae pocüa .alcAçar.a saber a altura de leste a oestede·que
18 esperaua mayto dajúdar pera ho -dereito deste ·desco-
J,rimRto. ·'E .fóy astrelogo -com FernAo (le ma·ga-
lbãee, porRoe. ao_ tipo· de sua partida se escusou Ruy
faleyrô àir coele : porque parece que soube polo seu .fa ..
müiar qulo mal auia de suceder aquela viagem. aos que
a fizessem, &. deu a Fer.JJ4o. de .magalhães hil grande
regime& to de tri.IMa capiiuloe, per.a· (j ·por· tres n•aney-
ras podesse c;onbeeer a. distancia & deferença .que aÁ•
classe de a -oes-Ge: ·ll ele .fagia.;se:r cousa muy faeil
de saber porque sabeodose se poderia. s-aber se es-
tas ilhas de Maluco & Bãda erlo do descobrin1ento &
conquista de Castela ou não. E caeste regimêto se rar-
tio· Fernlo de magalhãea em laneyro de mil & quinhê- :.
tos & vinte por capitão mór. da frota· do Ena.perador, de
LIVRO VI. B
1.0 Bt&TOaiA; DI'.- llfOIA -
que forlo por capilles ele oa nao Trindade & por sed
Jli.ioto h ii EsteuiQ goauez Portuguea, l:uys de mldoça
degradado da nao vitoria·, & lolo de cartajena aatural
de Burgos .da-nao. eanc'o Antonio, & Joio serrio Jl8tu•
ral de Freixioal da Sitiago, & Gaspar da queixada
da nao conceiç4o k piloto Joio Carualbo PortuS'ues.
H ião nesta frota ate duzêtoe &· ciocoeftl& homAa, em ll
entrauão trinta & tantos Portugueses de ' aouba eatea
nomes, Aluaro de mezquita destremoz, & hi da 1iiua
de Coimbra, Martim de magalhlea aatu.ral de Lisboa
& moço d-a dei rey de Portugal , Esteulo diaa
filho du abade da beira, Gonçalo rodriguez ferreyro na•
tu r ai de Leyria, A fooso gooçaluez natural da •rra da
estrela, Nuno criado do conde de Yila ·noua, & hum
Rabelo. Partido Fern§o de magalblea eoesta . trota do
porto de Seu ilha foy ter áa Ca.oariaa, & dali leuou aro.
ta do Brasil , & Corão ter ·ao- porto de saacta· Luzia •
de fizerão a·goada. E dali iDdo ao lo da· costa .contrá
ào aul 'omario ho de aan.cta Maria & pa1Sarlo ·ho
eabo frio & ho rio doce que he hla gra.nde e11188tl& a
qoe uão virão cabo, & p01eriD seya dias em panar dtla
:ponta a outra & sempre por agoa doce, de que fiurilb
agoada. E vendo oa capitães da frota que Feroio
galhies queria pastar deste rio· doee fizeranlhe·· graadee
requerimentqs que olo passasse, & que .ho des.ooi»risle!
porque assi ho Jeuaua por regimento 00 Emperador, a
que se desobedecesse, sou.bene que lhe não &Uilo cJo..
eedecer. E ele. lhes respondeo por bou palauras, que a
aeruiço do EmrJerador compria passaE ele auaote: pot'
qae doutra· maaeyra n!o pódia dar fim a sua en1presa.;
E passou ficaadQ os capitães Castelhanos., & asai qs pi ..
lotos &. mestres muyto descontentes dele, ta ato q de-
terminarão de ho matar ou leuãtarselhe, dizend·o ·que
nAo sabião onde os leuaua. Porem Fernão de magathles
não soube disto nada: & naaegando por sua viagem
a vista de terra cõtra ho sul foy ter 11a
DabriJ a rio grande a q poa nome do sam Iulilo o11
...
I.IVRO OAPITVLO 'fi, f i
do1 ·patos l} está em eorenta & noue grnos, & a
era toda esealuada sem aruoredo nem erua·s & muyto
fria, & a gente defa vestida de peles-& muyto pobre:
& portJ. entraua ja ho inuerno que ali em Abril
& dura ate Oyt•bro , determinou de inuernar ali , pera
o que meteo a frota no rio que mãoou des-cobrir por
Joio sarrlo, & em quaato foy descobri1o fizerão os tres ·
aapitães conjuraçlo cõ algils outros de. matar Fernão de
magalhles & torn·arse pera SeuiJha , determinando de
dizer ao EmperadoY· que ho fizerão por ele n.ao querer
!oardar aeu regimento & fazia caminflo muyto fora do
que ibe &te mldara. E sendo isto sábido por ele , teue
maaeyra cOliJO se -sayo logo pera fora do rio com sua
aao, não lem sabedor do lJ.se the ordenaua,
aatea diasiJnOJando· grildemente. E saydo fora comuni ..
oou a couaa eõ ho ouuidor d!oolbe miudamen·
te as razões poPl} alo quisera descobrir ho rio doce. E
.eoato por rio esperaua de it ter ao verdadeyro
aaarinbo de ·Maldeô: &. isto auer éffeyto c·&pria
moyto ·fazere& daljlét capitlea·, porque doutrA
maoeyra de atfilo dcaaseaaegar Empetador.
E porfl se nlo podia fazer deles justi«ta sem grli:l'e aluoa
mço & perigo da gente tia frota , era necessftrio vsarse
dalgta •·attha pera ae Luys de mendoça que era
a o&b• da QOJijtiraçilo; & a quem lodos seguião, porq
morto .·este logo todos ficarião assessegados .& não aue•
ria maia amotinações·: & ho Emperador seria seruido
como ele desejaua. E concertouse que ho mesmo ouui-
dor ho matasse ás punhaladas, fingindo que lhe leuaua
bum requerimento de Fernão de magalhlea que sayse
pera fora do rio onde ele estaua, & fosse de noyte por-
que ouuesse menos reboli"o & os outros capitães lhe não
acodissem. E indo ho ouuidor aa sua nao coesta dissi-
mulaçlo cõ companhia apercebida pera ho caso, estan-
dGihe fazendo ho requerimento ho matou ás punhaladas
ajudando ho a isso os ·que hião com ele. E Jogo ho ou-
uidor & os .seus começarão de bradar _que. viuesse ho
B 2
1 t Dâ BII'J.tORIÃ DA IRDJa
Emperador & morressl os que Jhe erãó tred'>re•• E to-
mAdo posse da nao polo Em perador mandou aos mari-
nheiros que saysen1 pera fora com a nao & fossem sur-
gir junto de Fernão de· magalhães, & asai. ho fizerão. E
como foy manhal m.andou ele dizer aos outros dous ca-
pitães que se dessem se não que lhes meteri.a. as naoa
no fii.do. E sabido isto polos marinheiros da nao de loào
de cartagena alargarão. as an1a-rras & forão ter sobre a
nao de Fernão de magalhães ,. em ele logo entrou
& prendeo a Fernão de cartagena elll ferros, & despeia
a Gaspar de queixada,. a que no mesmo dia mandou de-
golar & esquartejar com. pregão qu.e pubrÂ(:aua a cau1a
potque: &. outro tanto. mandou fazer a, Luy& de
ça ainda que estana J& morto ,. & .a· loão de car.tageaa
se achou que. nJo .. tinha tanta. degradou. ho
pera sempre pera: aquelas partes.; & .. ass1. a hum· clemgo
culpado neste maleficio. E. est·a sopita &. aspei'a, justiqa
pos espanto- na. gente da frotJL, &. dali· por diite
foy Fernão de magalhães IIWY temido. E niato chegou
lolo serrão que fora descobrir ho rio onde se lhe perdeo
a nao, & ele escapou com quantos. hião.coele & se
nou pera onde estaua Fernão de magalhães., que
dou logo tirar. as quatro oaos. a monte pera se correge-
rem, porque ao.dauão muyto abertas & dane.ficadas.&
não poderião sofrer a comprida qJ&e eateua por
fazer.
# .
LIV&O· VI. vrr. ti

C A· P I T .O• L. O: Y.ll.
De amao Femáo de· mtJgalh/Us hum regimento
. fMe ltuaua do 1-alayro ·per a se conhecer a altura de
te· a eeste. E do que hum a1wologo que Iria na frota
os· pilotos dela· scor-dtwáo •.
.
aa · naos Femio de mostroU'
aos pilotos & ao astrologo Andres de sam Martim lio
gimento que leuaua de R:uy faleyro acerca de se poder
saber a ai tu r a. de a oeste ·como j" disse. E visto ho ·
regimento por todos, mandoulhes Fernão de anagalhãea
·que· diasesse· Cadá n·um O que·aJc&R((RU&'· 8 saber·, & &e
podi.ao aproueitar. dEMe oaueg.aqaa, ·E 01 pi-fo-
.tos· l'espooder«o ppr escripto. que nlo·'se podia da-
quele regimento, nem aproueitaua pera se
ele. E assi ho assinarão: & ho astrologo
mesmo a· todos os eapitoloa db regimi!to qll& erilo tfilità
1alao ao quarto que dizia qee que a ln•
tem com as estrela-s· n.xas , & com ·-ho sol !se pode· sabe c
o .que hõa terra. dista. da outra ua .. altura de Jeste a oes ...
t-e •. E disse a este capitulo que nAQ auia·•oatro.c!liDinha
per.a alcaaqar a· deferêqa d• altura- de: ·BOI ;a de
leste a· oeste se não aquele nem E· acte•
eentou . conjunçõf!s & 8d
pera mor claree disso fez so}jriss& hft·tr,.tado·em que
• muyta &;. disse q.. aquel"á· regra era
muy sabida per· todes· bs astrologos coamografo&. E
per ela estando ele·oaquele po1ts .no mesmo anno a de-'
ho do sol'vira & notara
pelo. eo)i.pae que aJi,tomou, que· Iro meridiano daquele
porto dis,aua do de Seuilba• doDde partir«u sessenta &
hum g.raos de norte ·a sul. O· que sabidp. por Fe!rnão de
magalbães & peios pilotos;:; fo1 por todós · aprouado por
bõ, & . quando virão que a distancia des. graos era tãta
quisea:lna & eacurtar· 4' llerrota que aleli
. 1' DA. RIS'l'G:al• DA INDIÃ"
rão, porque se temiào de sair do lemite de Castela, &
poserão ho mesmo porto em alglltts aartas que leuaulo
arrumadas em branco, & hils ho poserlo em corenta &
tres outros. em. corenta &.seys: maa a verdade
foy, posta nos papeis & Jiuros .em (} as eacriuilo ,_
dando que. nãq auião nunca dapareeer comQ detpois pa-
recerão & · vierão ter as rnãos doa DOISO&, peJos quaes se
mostrou q as ilhas de Banda & de Maluco sam do dei-
cobrimento de Portagal , & ai-nda alem de &ada .treze
graos & meyo , ·& de .Maluco dezasse.ys.
C A P .I T O L O VIII.
. .
De corno Fernão de mag«lhiks paaou ho .atrcilo todo.
os fOJJ ter á ilha de Cubo: de como foy
mono em .h'lia ./Jai,Q/,ha, .t»m .dou. ouara
. gente.
· ho •• DoutubrÕ que se acahaua ho inuerno
partes, determin111do .Ferolo de magalbãea de
prosseguir aqu•le-descobrimento que .fazia com,-tamanba
falsidade & deu a capitania da 880 de loAa
(le cartag.ena f.':&ell prilll.O •Iaaro de me1quita, & ·a .de
· 4e a seu conhade Duarte barbosa., & a
.de Gaspar d:e queixada a serrão. E feyto isto par-
ao .Doutubró:: ia do ao longo da de
dahi' 4' & ·tantas .legou se .achou metido
&Qa frota. eaa -hüa g.rande--:enseada ·& não po.-
dêdo tornar pem 'ras .foy por ,ela ·ate chegar . .õde hotmar
.se .. metia. poJa te .. l!a ., &. :Ferailo .de magalbias •ãdou ·IO:-
go soa dar a hoca dele., & .polo grande fundo .q se :achou
.conheceo que .era estreito.·q se fazia do mesmo -111ar e-
eoQio faz bo de gibraltar: pelo .que,4iooa
mu.yto ledo, .porque IJae -pareeeo .que aquele.estreito a-
uia de cortar toda a do Brasil ate chegar ao mar
por õde ele cria ·q\le poderia nauegar· pera Mamem> eem
te.; necessidade ele ir pala -DOMa .o
I

LI·Vao· CAPl"LU.
receanà muyto por não topar Dauios &
·terminou de descobrir aqle estreito ·pera ver se chegaua·
a outro mar,· porque se chegasse daua a suá nauegação
por muyto boa. E nisto pos lhe nomé a baya
de todos os sunctos por chegar ali em tal dia. E dàndo
eonta de sua aos Portugu-eses ·começou de
nauegar por este estreyto, & entrãdo por·· ele era a beca
de largura ho q ton1auAo duas naos hila jftto da
autra, & despois se alargaua ate hüa &-de cada
vez de 1n6r fundo q,ue lho nllo achaulo,- & de hüa parle
&, doutra auia muy altas serranias· cobertas dé neu-e. E-
era terra desabi-tada & sem. verdura Item aruoredo, nem
parecia Benhfí gado nem a-limarias .. E indo assi-
que h9· estreita se fazia em duas, boc-as.' O· que
vendo Fernãe de mag·alhães· mtldou a A·Joaro de
ta que fosse pOr hila delaa ate ho oabo·, & despois stt
tornasse aJi , & que ele faria outro tAto: & quem coe··
ptimeyro ·pera saberem que
verê o que anrão de, •.. ·E ooeste cocerto part1ri:o •.
k ·Fera&o. àe, magálhãé& segui o por sua-.. r.ota a diante·:
por. grandes &· altaa-·serranias cuber-làs de
aeue · ate q.ue daehar outra terra ém que au)a,
lltu amdres altae q: parecião cedros & assi· outro amo-:
redo: & asar fby •te ho cabo· daquele estreito q'ué v"io" ..
que te acabaua no mar· oceano, & que ·a terra por onde
se fazia. aquele estreito ficaua cercada de mar de
partes. O q viste por ele torno use a pare.gem donde 'se
apartara DaJuaro de mez·quita pera saber ·dele o que a·
ehara. por sua derrota. E· chegado nlo ho &
peraodo por ele a)glls dias nüca veo, J)()rqne seg1ido sé ,
despois soube h-o seu piloto eon1 a gente da· nao se Je-
uaal.tou· eontrele, &· ho prendeo. porque nlo fossem·
auante & se t-orna·ssem: como tornarão pm-a Iro rio de
aam lulifto, onde recelherão a loi"O de cartajena que h i
ficara degradado & ·se tornarão· pera Seuilha, dizendo
que Fern§o de magalbães f'ra doudo, & que n1intira ao
Emperador,. porque nlo sabia nem Ma-
J& I)A.· HIS,ORIÀ:: DA INDIA-
loco. E vedo ·Feroio de magalhles que .Aiuaro de
quita não itinba não ho quis mais esper.ar .por·se lhe,não
gastarem ;OI mantimento•, & tor.oouse _por aqle estreitg
por õde saio ao mar oceano.: & a boca .por õde sayo a-
pliou ll estaua em cincoêta & ,cinco graos de norte a sul
pera a parte do ·.sul , & dali mldou Fernão de magalbãea
q fossem buscar a linha sabia ;pelas
partas ·DJesiu.as de. Francisco ;& pelas eartas .ao.,
de marear: que jazia Daquele paralelo .da
· equ.inociaJ :. aa. altura ate se poel' de baixe
por ele ci.qeQ meses sen1.acbar Maluco.,
"fl que .assi · ele coruo ,os aeu,s pilotos & ho astroJogo se
p.uyto., porque se despois achou pe-
los .quando tomarão h.üa deatas aaos na ilha .de
rrernate.. Affirp1oase FernAo magalbães -com ho. aa-
ttÇ)Iogo & da frota que· .. tanto andadC? de
fea.te a despois que ·sayrão que erlo
do" Jimite de Castela, & que entrau-ão ja ·D:JUJ10
polo de E com terpolt de ... toparem -gente nONa,
& com muyta necessida<le dagoa, .acordarlo· de
deixar a derrota q leuauão, & na'-'egarão ·pera
do ate qJJe se. po$erão em dez g-raos ,.t& ali- a elia-
rito de muytas ilhas :.J& :témido terra
a tinba em nauegaua, &
muyto. 014ro nos _bra9os & orelhaa, &: qoe ·.be
resgatauão .por ferro: a legoas forlo
ter a ilpa chamada tinha re.y., que ·fa·
muyta hoorra 4t gasalpado :OS .Jeaou ·8 .outro
:tey c.hawada Cubo ç41jo vassalo .era, .que
cebeo muyta hoor:ra a de m•galbães, & lhe
rnuy bõ .tratamento:: despois que sou-
como era .capitlo mór dõ. seobor tamaQho· eomo ·ho
Emperador, .de Fernão :de magalhães. fez que se
fizrsse vassalo, .& mais .ho fez tornar Christão & a aoa
molhe r, & a seus filhos com muytoe do seu reyno, &
pQs .Jpe nome doQl : & por seu
foy _igreja da de -oosea
·LIVRO VI.- CA.PI'I'VI.O· nt. 17
·da vitoria. em que se celebraua bo ofli•io di ui no. E ea-
. t-endo nesta amizade, el :rey. rogou a Fernlo de maga-
. JhAes que ho ajud3sse contra outro rey seu vezinho
. Dhor de hua ilha' chamada Ma tio que Jhe oito queria o-
. bedecer, & sobrisso tinbAo ambos guerra. E por el rey
ser vassalo do Emperador, Fernlo de lhe
detl a ajuda que lhe pedia, pelejou duas vezes
.ho rey de Matio, & dambas lhe matou muyta geate ..
. E nlo querendo com tudo obedecer a el de Cube
pelejou ooele outra vez , & desta foy morto &
tado: porque el rey de Matlo tinha mandado
mpytas couas cheas destrepes no'Jugar onde a.uia de ser
a ·batalha, que em se eomec(&ndo d-e dar fez que fugia
com sua gente. E Fernlo . de magaJhães contêtandose
eoisso os não seguio, & -recolhendo sua ·dãQ os
immi-goa nele, &. dio coele nos estre-pes onde mataTilo a
ele & a Duarte barbosa, & a João serrlo com vio·te
tantos & ·os out.ros se recolherão aos bateys, &
met.endose ·nas naoa se tornarlo pera a .ilha ·de Culto.
C A P I T V L O
.
.
• .I
DtJ treyfáo que el rty de Cubo fe• -aos {X,•tellumos t:m
Íjue matou muyt& dt:lu, de cmno escapar&J fugin-
ile. E do que paa8llrlio ate tMJ ilhs ·de Tiilóre
· hútl às ilhas de Maluco. ·
Temados. os aa ilha.de Cubo, & vendose
desemparadoa do seu capitlo moor, & de -quem os guias-
se pera oode.aui:to de i'r- ·quisflran_se tornar dali. Ao que
Joio carualho piloto da nao 11e .. JOOo serrA:o aeodio., d·i-
zeodo que não hüa eouard•'B tamanha como a-
quela., & que oulhasse·m. em quanta lhPs fica-
ria ho Emperador. se lhe & Maluco:
por isso que ho ·desàobrisaem· ·que ele os leaaria lá. ·E :a·
nimados todoe·:eoisto, determina'lto de prosseguir au;an•
te, & der•nlbe a: capitaQia: ela E aperoe•
LIVRO VI. C
18 »A· BII'I'ORLl -:..&, JNBIA
llendo pera tornar a eua viagem, maadou el rey de lia-
tio &me&'flr el rey de Cuho que iria sobrele, & ho de8-
truyria ee nio mataaee oa Castelhanus & lhe. aão tomaa-
ae as naos. E como ele eata&a ao1edrontado pola-morle
de Fernão de magallaãea & dos ootroe ouue medo ao a-
meaço, &c, prometeo a e1 rey de Malão de ihe fazer o
que queria ; o que logo pos em obra, & pera fingio
ia&er h.Qa grande festa em que conuidou o• capi Ules da
frota & os principaia dpla, pera Jhea dar hum
porque doutra w.aoeyra os n4o podia tomar juntoe, por-
-que de1pois d.a morte de Fernão de gagalbles pou--
vezes a terra por conselho de loão earualho: que
qu4do aoube que erio conuidadoe pe&-a bo baaquete, Ir.
que ho querião receber lhes .rogou muyto que bo niofi-
aesaem, porque tinha por. sem duuida que aquijo era
&reiçio. E por muytaa rezões que lhes pera ho ser.,
.ao quiserao ae não ir a terra: mas de não quis ir, nem
'fll8 nioguem da sua oao, &. •aDdou le41ar aa Ao-
coral, aaluo hüa aobre que ficou, & esta apique pen.
se leuar Jogo se fosse necessario. E estando os Caste-
lhanos con1endo debaixo de hüas aruores com grande
festa & el rey coeles, da neles a gente dei rey armada
16 Jnatarlo 'rio ta tk taolos, & os 9\ltros 8tt acoJIMv.IG ás
Dáos que eataulo perto. E poderaooo Jazer porque l()!o
••rualbo mandou deeparar alguaa pec;aa dartelbaria, de_
que os imn1igos auendo medo olo seguirio os Castelha-
nos, que despois dembarcados por se vere que erão
poucoa que oào abaetauão pera tre1 8801 queimariohGa
tlelaa , baldeaado. Qls eutra1 o que Jeuauão, & parliran-
18 por esse mar desesperado. de aaluaçio, porque loio
carul'lho OOIB quaoto Jhea prometera que os Jeuaria a
Jlaluce, oem -.bia oocleataua, aem pera onde a ui a de
aauegar : .&r. seta leuar eerta rota nem via se foy por
esee lll&.r oade a weatura ho leuasae , & foy ter a büa
illaa chamada PuiQt•do senilorio del rey de Boroeo, ell•
tle tQinarllo doaa que o. leuado aa illla de Bor·
•eo: & ••-'•do 4iur a e& rey cuJ• erl& aqael•a na•

LIY&e W. CIIPIY.Vt.D m.
· k q.ae trazilo muyta1 mercadoria& pen tmtar d lhe•
de•e per a 1airem em· 'erra, & coe la sairM,
mãdldo el rey reeelaer os· capi.t.Aes hõrradamete ·&
aõ grilde festa. ·E meraaàoriee a. aii&Jita.-
•le feytorla, & cta hi a deWI clias· . .amanàtrcerão de.rreder
du naoa trneaio•· & tantos paraós ,. k. pareei a q,. pera
làe tem..-5 as naos. O q eo.tettàeRdo· se fl1erio logo
á vala·, & claJ:io em eineo jang01 qae eataaão no porte
de que torMrio. trea em que aeharã& • riq,ueza q.i:le
leuaulo de Malaca dids enlo ,. k eatigaràUte ·toda a g!.
te. E feyto iato baJJte a- ilha, despoueada está
ataatada; dOr porto . ., onde lhe .el t:f11 àe: DorJMO· ·mando·•
_ Jogo ped4r oa ca..tiuoa,. msndantlolhe ._,i.Ja Caalelha001, Ja
fe}'tofi:a :. diZendo ·que ·lhe nãe.mandaua fW1't
que .fioattlo 0\llhando poJa f.uendra da fey!oria. E fl.eran ..
lhe o& cati1101, cliss-ttue lhe mand811e .01
eastelltaooa· quàrlá ·-e•tatJfie:· & per ho recado tardat.hl
dia .ow. €astelbaa(IJ ·que! llle querilo faHr t"a,.
'req.,.eJteriio·a We oarualbo .lf ae par,tif ..
• assi hG fizenl& ·deixaod.,! tJI; aompa.laewos "•
ten'a eom ·a, f:azemta:,.&t: forão ter a JtiiB üba lieapoueada
'""de· d.wlo. ·pador. ás· naos por· aaô•retn nw'to abenu.
E dali forão ter a .outra ilha ehamada Miftdaoao ..
pois a outra que auia nome Sanguim. E andando perdi-
dos & sem sabâr rietu de ho saber
nunca! & crendo que -se sua fim toparão com
il6 jligo h Obiaa .. &. auleo fala. ddTe
per aa••• M&herile • .auiãe. de r- affttl.tla devo-
ll•e· )Qwauio, q,ua os lttuamu• 'i! h a
de Tidore-, hil-a de Maluco, .ande .. na
fi.m Doutubr1> de mH & & hil: cujo ..,.
08 ttecebe. beDJi,·,a, aek\s;·Jh. ·gttandlfllt Jlf8-
88Dt.a., d»i.Adu. f108 ariiJ, •a•ah>s.deJ! rey. de.
lle mó•· •da · pbr. setl_. midadtJ i• ião
•acobri•:ttquelaa ilbas1 pn-a, ter: traoo • dis+
.o • • grã.rle:ptotteito.. B .
••oi•:. diúa•fll•.
c z
t0 DA HIITOill.l DA INDIA
elle & sua terra er4o dei rey de Castela , & que lha eu-
tregaua: · & que soubera por seus feyticeiroe que erio
parLidas cinco naos pera· ilha JlOr mandado de hii
grande rey , & por i880 ele era vassalo del rey de Cas-
lela, & lhe obedecia como a senbor: & &jue lhe rogaua
f{Ue esperassem doul meaes & que lhe daria crauo nouo.
Ao que eles responderio que nl podiio esperar por se-
rem as naos veJbae , & por isso se querião logo tornar :
mas que dali a do·u& annos lhe prometião de tornar ca
eincoêta na01 carregadas de mercadoria: & preguDta:.
ranlhe le bioo os Portugueses a eatas ilhas. E sabendo
lJ. 'si ,- diiaerão mal ·deles cbamãdo os ladrões, &
prometendo que lhe auilo de tomar Malaca, porli dela
ate Maluco tudo era dei rey de Castela,·& a
el rey que Jbe fize11e veoder e&Stf crauo que ae acbasse
Da ilha que fosse· Yelho porque eoess.e irilo conteo-
-es •. o ·li· faziJo por se aooJber ·q· t:emiãG q' foasê 08 Por-
taguel88, & ·l} os trataaê:mal: I} bêt aahião q Dio era
Maluco de seu descobri meato pelo,que··tinhio.
tado naquela &· bem tom&rló por
tornarean a sua& terras com·a uida: & em quaotq se.a-
juntaua ho orauo q.ue .auiãa. de Jeuar ficarão. cõ, el :r.eJ
í,&zeDdo veniaga de suas mercadorias. · · · · i
.
. '
• • t •
• •. t
•• C·· A P I T V L O·· ·iX •
"· .


De eomo rey· Daternate fog éor.1tido do1 étJatel/iaJtol
com smisade, a não quir,- t de BOmG earregaráe
d'IUls ntJOs de criiUJO · AU,., /GY ter a ·ei[Jaflha ,. outrtJ
despois d' paf'tir arribou a .lftlaluco. · · · . , · ,
aqui· mldarlo ol'recer amizade a el rey de
Terna te ca.tNd.aodo li o com presentes per.a iaso. E como
ele era seruidor dei, rey de Port11gal auia ·muytos annos
B·âo a quis aceitar, antes Jhe mandou di2er que· era Ya&•
aàlo · deJ· rey de· Por.tuga·l·, ,& que· a· eJe. q.aeria *-r por
& . não outro t & apaadou recado a' Jorge da),.
.
. '
_j
LIVIlO wt. CA.Pm-t..o X. Zl
b_oquerque capitão de Malaca, em que Jhe escriuia ·o
que passaua : & asai bo escreueo ao ln ..
dia ·& a el· rey de Portugal. E estas cartas mandou en1
hü jungo que mãdaua a Malaca, pedindo. a elrey {jUe
mandasse prouer aquela terra pois era sua, & que lllan-
dasse fazer neJa hüa fortaleza. E vendo os Castelhanos
Como el rey Dã queria sua aoJizade disserão a el rey de
rridore q quando tornassem com a armada q diziâo
fariãe vassalo do Emperador posto que oão. quisesse. E.
el rey de Tidore vendo como se eles querião ir , ma_n-
dou apanhar todo ho crauo q.ue se pode auer com que
carregarão as duas naos q tinbã •. E a· 1noor JJarte deste
crauo era dei rey de Portugal., & dos que Já fi ..
cara-do anuo de mil & quinhentos & vinte de tres jun-
goa de Malaca que na ilha de Bachilg
por nAo terem tempo peta irem a Malaca, & hu deJes
era·de Curia deua hií mercador em que hia a carga del
ny· de Portugal, do r.etorno da fazenda que Gaspar rOr
driguez feytor ma11dou quando Já foy .dom Tristão de
meneses. E muytos fardos deste crauo leuauão os no-
mes dos nossos de cujos erão, & coJD a. pressa que ti.-
nhão de carregar este crauo cõ medo que não fosse ter·
ooelea algüa àtmaEia 110ssa & os tomasse , eõpr-auão
báhâr· a·dez doze dobrões, & ruais cosê ta barretes
vermelhos : com prãdo os noss.os h o babar a cruzado & a
menos. E carregadas as naos deixarão os
feytoria Desta iJba de com tfiK!cs seus otticiaes,
ii tl·'Dearão. wuyto cgbre &·outras & dei-.
xarALhe coreDta bombardas & muytas béstas & espigar·
das & outras a.rmas prometendo a eJ rey de Tidore que
qaa•do' toroauem auião de fazer ·hiia fortaleza .. E con1
ist'O se· par tio hüa das uaos·, de que eta eapitão &
to·loãu ea.rualho em de mil & ')Uinbeptos &
• te · hil: ·& lvy. auer via la I da ilha Damboino
que ·atraues da tle. Baada·,. de que ta111bem · ooue
vista·; & ·aui fia costa da. jaoa-·& dabi· foy á i.lha de 'f,i,.
\ IDQr lde.lhe. fugirão doua' q despois Corão ter·
,
I
'
'

I
t

lt Dl RII!'ORIA DA IMIJI'
a Malaca co111 df!se•peração de. se a aao do poder aaJ-
uar, porque h ia tão aberta q•• a .eada .relagio ·dauio á
bomba qaatm ve1es, & por i110 • tir.arãe ali a mAta &
a no que •• deteuelib ate Feuereywo 4e
mil & quinhento&· k \finte. dous, As dali oortoo poJa U.
tura do oaho fie boa Es.perauça. E fazendoaa aaaita dele
cuydando que ho. &iGha dohlaclo, aortldo. daii ao. •uae•
te foy daar AO· Pio do lfante que eat& .lego• de
Moçamb4que. E nieto ae QJostrou qde pouco aattilo par
oltde à mo, por qeant01 graos ac.yoi- errarlo claltQ'I'a ele
leste· a oeate, & daqui forlo poJo nouo e.amiabo. ate
Ba·rem a Seoilha : & a ou,ra, nao caatelhanoa· qae
partia ilha de 'Fiilore despoia deatoU(•a Jeuou aoadert-
rota pera a terra do fl he detrae da terra das aoa--
tilhas. E auendo doua meses que nauegaua, foratihe 01
ventas· tão oontrairos a 1ua lhe foy forçado
arribar áiJ ilhes de Malueo, k quando chegou ac-àoo· a.
nossos fazendo hüa fortaleza na. ilha de 'furoate , ·eome
direy a diant&. . · . _ ..
C A P I T V L O XI. o ••
• o •
De como Antonio dtJ brito. tlom GaNia anrriq.,. ••
P!Jrtiráo pera as lk· .M.lueo , .ela
aeltas ilhas. .
Sabide per Antonio de bl'ito cemo- e&ta.11io. ...
ê Maluco, & como tiahlo. aaaeotot na terra:. teiiMilclO il
teuessem mais forqa da que tinhio., requereo a Iii· a ..
cia anrriquez dà parte· de.l Rey de ·que por
qu&nt& Jeuaua pouea gêtu .. pera pelejar oom .o•Cai.c.J-..
nos 8t; ee•n, os tiA toen-a- & oa fio•, f0111e coei.
eom a gente ft ttinha .perta\ ho ajudar. E. •iMo por dma
Gar-cia· como .. aquilo era seruiço delrey a®ytou. ele aiUJ'-
tt? boa võtade sem Jlle lembNY ho m1l)'to. qae p&fj-
dJa tle sue laajda por não flc:af\ etn· Rida, em que, A•
te ai. de brite- 8SJeDtOU amiM<» U.to CQft os.· dá , ..
..
1119.0 tTI. Cal.ft'R.O D. t3
ra : & pcar m .. oria di111o ·Jl'l8 àft de pedra cem
as -armas reaes, & aobriuo os da terra coele
«O a defere11ça, & 1teMiu.IG OQele & lhe ferirão aJgua
llolllis, & por derredeJre fioarAG amigos. E 'iodo bo
mes de Mayo 'l era a moufi&G pera perlirã&e
Aatoaio de brito & ·dõ Garcia com sua armada q ae era
de oylo veJas , & leuauio nela trezeDtoe homea. E se-
guiado por viagõ chegarlo a estu ilbas que estão
cem Jegou de BAda : &, estio eoela-s noroeatesut-ste, &,
.sam cinco a fora outru • de que ae faz hil gran-
de que ocup«o graodiasima diBtaueia de mar.
E esta• ciaoo que digo que propriamente se cbamào as
de Maluco sam as q dão ho crauo, que be tio estimado
per todas. aa partes do mildo. E aam 01 aeua nomes es-
te•,· Bachl, Moutel, 'fidore & 'fernate:
est4o todas debaixo da equinocial, & aotre a de 'fel'-
aate & a de Baeh&o estão as outras tre1. E a .de Ter-
nate que he n1ayor que todas eetá em hum grao da ban-
da do sul. Toda• estas ilhas aam cbils polas lratdaa do
mar, & daJi se vay a terra aleuantaDdo aJgU. tanto ate
duaa legoas pelo sert4o: mas dali por diãte sam ae
raaias tão gràJes & as rochas tão altas & os aruoredoa
&ão bastos & que nã se podem habitar. E I to-
das eataa aerraa ha Yieiroa denxofre : & em hua da ilha
de Ternate está hüa boca que contiauamente lanf(a es-
pantosas labareda• 4e fogo. Todas per estas duas legoaa
que digo sam cubertae de muyto aruoredo brauo, & ao-
trela nacem aa aruorea que dão· ho crauo t de ·que prin-
"'" eipalmente ba mais em Moutel & Maquiem que em ne-
,_ mhl\a da• outras. A a aruore& que dão ho crauo sam do
tamanho das que dlo a noz, & em lerem os troncos Ji-
eoa & a rama copada se pareeem com laraajeiras: porem
as fulbu pareeêee llom as do loureyro. N ace ho crauo
por todas elas en1 pinhotaa como madre aiJua, & quãdo
lle d.e vez eatá verde. Os q ho apanhão se 1obem nesta•
aruorea & com hflas canas de forquilha. bo colhem &
deitlo em h\la cea,iohoa que lrazl na ciata, &

"2 t ·DA R:YS,.ORIA ·IM ·tNDIA
-qu_ebrão todos 08 ramiROOS & gomos qae ar.uorea
· n1etem d·e ·nouo, pelo que ·ficilo tão daneficadas que nã
·-dão crauo ho ·anno seguinte & se refarmlo nele pera d;t-
ho crauo ao outro ao no! de modo que pol• mayor
·parte nlo- dã nouidade inteira os ãnos. Â panhado
ho crauo ho dei tão ao sol a curar, onde-anda muy .. tos
dias & se torna· roxo, & despois negro oomo ho vemos ,
·-de ho borrifarem com agoa salgada. taml»ê outras
:aruores que se cbamlo de cujo miolo ae faE pie:
··despois d·e tirado ho jarras com salgada,
-& passados algiis dias bo seclo ao sol, & seco ho m·oe
& d·a farinha ou p6 pio, ·que segundo eu vi be da
·cor ·do nosso pio de ra·Ja, & sahe cemo pilo. Oot,as ar-
·uores diuersas ba nestas que hüas dJo vinho ou-
.• -tras. azeite, outras fruytas: & isto .. que
-não ten1 tem·pe limitado, & por isso noo falecê attca.
··Ha tamhem grandes canaueaes de canas de boa gr018u-
··ra q cbeas dagoa muyto boa, & quem polo
mato. & ha -sede faz hn furo em hü canudo destas & be- .
1
·be: outras de que se-serue a gete pera acar-
. retarem agoa & vinho & a-zeite & fazerem de comer.&
-sam da g-resaura dü braC(O & de biia coxa, & os eàau-
dos sam comiim·ente de comprimento dtl couado & eo-
.uadó & m.eo·: & Jeuão sete, eyto oanadàs. Nestas
·ha poucos mãtime11tos, & quasi que .voo -todos .de :
& isto po·r·ser a gente muyto ·guerl'eira &.nlo se ocupar
se nilo em guerras : pore a terra fte fertil_ , & tio viqo•a
que em caindo a folha ao araoredo Jogo lhe· nace oatra
& nunca está. sem ela: & as ·cabras que vem .defora pa-.
t'em duas vezes .no ann·o, & as mais dous filh01 de cada
·vez, & rnuytas tres & algnas quatro, & as porcas ta.Qt-
bê. parê duas vezes· no anno, & as cabritas & Jeytoa•
ainda mamão Jogo emprenhão: &.he a
fertilidade de&"ta . terra que se .vão molheres doutra q-ue
eejão auidas por ma ninhas logo emprenhlo ne)a. · Ha
. tamhê nestas hüs bichos como ·Coelhos que tê
barrigas bols'oa como aljabeiras, & quãdo parem
I.IV&O VI. CAPITVLO XI. 96
metem neles os filhos, & coeles dentro sem lhe cairem
corrê & saltllo poJas aruores dumas em outr:as : estes se
cbaatao cuços na lingoa da· terra & muyto bõs pera
cOn;Jer. Ha ao mar muyto peacado· & anuyto bõ., & hüs
cangrej<>s do tamanho de centolas, 8t assi &
tem büs holsos como 1>escoços de lagostas. E est-es saem
do mar pera ho mato $ comer flüa que ha na ter-
ra que se chama Canaria & he como amendoas, & asai
tem & eles a q.uebrão co1n .os det.es: estes sam
·gordos & muyto gostosos per a eomer, to1n·ãnos
candea despois que de noyt'e saetn &JD & co.- .
tll9 •ê ho fogo estão quedos k per a l()S terem
4ias os metem ·em hüa jarra & os mantem com
que come. ·E com <)4Janto ba nestas ilhas poucos maflti-
mentos, esses que ha nunca faleeen1 nem ha flelas
porque vay a gente buscar cada ·dia ao Rlato ho
-come.- de que te1n necessidade, & viuem oomo pri-
mitiua idade. Todas estas ilhas sam muyl-o fortses
ÍJatul'eza & & .tem ·portos en1 ·que ·O!i nauios
-estrãgeiros podem entrar ntuy por-te-
l'.em todos fe·ytos -á ·milo. Suas pauoa"ões sam
eomo ·digo pola fralda do mar ate duas leg()as pelo ser-
tio, & as mais delas ou todas sant muyto for-tes cõ cer:-
eas de· trlqueyras, & cauas k _fortalezas de
.As ,casas sam de paredes de terra cobertas doia., ·som&-
te as tnezqoitas sarn de pedra: os morad-ores sam ·mou::.
& auia pouco que ·tomarão a seyta de Mafamede '1.
dantes er4o gentios. He geate lilê desposta & lweta
9ue baça assi con1o· molheres-: tem ·todos l&üa li o;.
goa &. tratanse muyto bem dos atauios ·do 'leU corpO;
comümen·te não sam pem trabalhar macaBica111ente : p<r.
sam holl:lêS eBgenhosos e1n carpentaTia de macena.ria
laurar de bastidor. Sã •muyto guerreiros & valetes
Ba ·guerra & muyto crue1s nela '\ ho pay mata ho filho,
& ·ho filho ho pay, & aos imm1gos,. q ma tão cort.ão as
que podem & pendurãnas polos ca..:.
siaal de, bas caualeyros., & sem isso não
LIVRO VI. . D . ·
'/
.
Zti DA BIB'l'OdiiA ll& liTDU
I& te111 por. \aea D6 gallhio Jaoarra. Quaado quer& tàaer
. algua de suatancia ajuntanae mo_ytoa a ço.ólw
l) se embebe<hlo & d.eapoia de. bebados usea..tiQ o, lj hAo
Je fa.ze.r, & h.o mais bebadq ti por mais lwnrrado 1 aio
tê nauios se aão pera guer-ra, & aam de re80 : Q& IIJaJfOr-
rea 1e chamão co.ra.s coras & joãgaa, & sa• tio CQmpPÍ ..
dos qtte cento &. oytenta 1emoa bida., & sam
muylo bem feytos. Não ti jungoa o"tros aauiOM
bo.rdo, pgrque Dão h a aD lreJ.e• nenhiia mercaW.a, aem
ha aotrelea outra que ieuar pera. fora se. ai
uauo , -& es•e oão ho le:uauão pot não lere nauioa pera
ÍSIQ : &, 08 da ilha Bàda ho hiào Já bvtoar e 8fUS j\ír
·fos & ho oamprauão n1uyto i,aFa.tQ a lroco de paDQI da
ndia pe•a se vesti ri, q leuauio l\ Bao.Ja os mercadf>-
res de Malaea: &, tamM a trooo. delos co.Atpt:auio. eaa
Bàda a aoz, maça & crauo & qu•riio ir eh\ a
M,Juco porlJ. g.astauão na tiage quaai hD tiobro teu.-.
'Jl8 que de Malaoa a Blda ida por vinda, que
,erão aeys mese1 que pariião de MaJaca em laney•o &. ê·
Feuefeyro cbegauio . a Bãda, & carresau.ão lulhe
em que partião pera Malaea & càegauão ew Agoata, &
pera Maluco auiào de partir·deBanda em Mayo, &.c.ho--
lauão aele por não ser ha oa10inhe 4e mais de oeap lo.-
goas, & port amor da anouçilo dos leuantes nio podiãe-
toraar de Maluco se aio em Iaaeiro se aehaolo earga,
jr, se nã anião despuar hü anno, & em Banda auião
deaperar .ate- Iulhq per a puti1em pera Mala.e•. & pQr
esta rezão aão es me.tcadores de Nlalaea paasar
.a Maluco & aehauàe em. Bãda ho aFau&: qae U.poil
oa Po1tugueses eeteaetão •• Maluco aão trouuorãe oe
maia a BaDda. Os reya deetas ilhas tein •·
seyta de Mafamede, &, cenforme a ela easam eQm muy--
t·as moÜleres & sempre lew hiia per priucipaJ: eles &
01 fidalgos de sua eorte a que chaoJão •
ti ao modo malayo & os bajus sam de. seda rica co•
llotõ.es douro, & ped-raria polas diaotei.-as &
Trazem arrecadas· aas grelhas , &· ao peeeeço colara•
• •
Livao • f:Attl'l',f'.fl • IV
douro & cadeas, & nos manilhas, & assi se ves-
tê as molhares t & nas goarnecidos
douro & pedraria & nas festas coroas douro , & por dt$
ttazê pãaoe braacos que eàamtlo &ás /eytos dan·tre o-mr-
cas deruotes? & BOS brac;?S mMilbas tl-e de Benga-
la q sam caaJnbas delg·al!Jhbas; & rapão qu-atos.
tem em seu corpo, & vntanse dolios cheirosos, & tra-
llê DBI ea.béÇa• lêços -atatlos. Séru&nse eom· muyto
àe é.alado poato t}llé nlo te JJeOhia reda; que cadA ld-
gar he obrigado a darlbe hü taalo pera comere_nl certo•
dias cõ toda sua casa , & isto em abastança. E a mes-
ma maneyra tê os senhores vassalos, que se cba.:.
mão Sangages, & asai os regedores: flOrque eada rey
.tem seu regedor que tem euydado das cd\Jsas do reyno,
aasi na paz como na guerra. E cõ quanto estes re:ys hão
tem renda sam tão veneradoà asai dos seus naturais cO-
mo do1 estrangeires doutros reynos & tidos por hüa cou-
•• tio sagrada, posto q estem antre seus i1ni.gos a.,
dizê eu soa tal rey .afastaose logo & & ti
por oostume se saan vencidos em algüa batalh-a de nãe
.verem ho rosto ao Yêeedor se nfi dali a seys ou sete me·
eei. A gête baixa os tem por tão diuinos que passando
por diante deles taplo os olhos & deitãse no chão de
.bruços por ulo ousarem de lhes ver ho rosto, nl os no-
meio ee 11ilo por sol , Jüa ou por nomes de eousas q ti
pot muyto grãdes. E de todos os reys destas ilhas el rey
de 'fernate somente era amigo dei rey de Portugal , &
Jhe mandou pedir que fizesse· fortaleza e sua terra, &
flio quis amizade oom. os Cutelhauos.
D 2
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I
I
•i
. '
DA BIJTOBI! DA INDIA
C A P I T V L O· XII.
De corno Antonio de brito tJIBmtou amܫltk c6 a mliy
del reg· de Ternate com outros : de como eo-
mq:ou· a fortale.a. de sam João de Temau.
Chegado Antonio de brito a estas ilhas q foy na fim
de Mayo, porq sabia q Da ilha de ·Tidore estaulo «MM
Castelhanos <t tiearão hi cõ feytoria das duas naoa da
mada de Fernã de n1agalbàe1 quis ir lá primeyro q a de
Ternate pera tirar dali afila feytoria poJo grãde perjuy-
zo q faria á dei Rey de Portugal. E indo lá cõ toda a
armada ouue e seu ))Oder o8 Caslelhauos ll ja não tinhão
lj feytorizar, & fezlhe. tão bõ gasalhado como l} forã Por-
tugueses : & leuãdo 08 dali se foy aa _ilha de 'fernate ,
cujo rey era falecido, & sospei tau ase l} el rey de 'fido-
re seu sogro ho n1atara cô ê hü bàquete por
llio qrer ser amigo dos Castelhanos ele era: ·& a
raynha gouernaua ho reyno por hii seu filho erdeiro nãe
ser mais de sete ãnos. E quando a raynba soube i}: An-
tonio de brito eslaua na barra da sua cidade, mãdoulbe
·a boa hora d-e ·sua vinda polo regedor do reyno, &
zerlhe i): el rey seu marido era falecido, & f!Uaodo fate-
lhe deixara encomêdado. q se os Portugueses ali
\'iesse pera fazer fortaleza q os agasalhasse muylo bê,
·& lba de·ixasse fazer õde quisesst;, & lhes dease toda a
. ·aju.dà de lj teuessê necessidade: & q assi ho áuia de Ía•
zer. O lj lhe Ant-onio: de brito ·mAdou agradecer, & pllr
a boa võtade q achou na raynha determinou cõ conse-
lhG de dõ GarcJa.lrriquez & dos outros capitães de fa-
zer a fortaleza naqla ilha, & pera ver bo lugar em q se-
ria· bõ fazela mãdou pedir licêça á raynha pera desem·
barcar: q lbe ela deu de muyto boa võtade, & mãdou-
lhe fazer grãde recebimeto per seus mandaria. E visto
por Antonio de brito ho lugar per a fazer a fortaleza,
começou de fazer hüa trãqueira pera ae recolher cõ a
• r..
LIVRO CA.PITVLO :J:f.J. ·2'9
fazêda & artelharia em quaóto fazia a f.ortaleza, ma.JJ
·assentou cõ a raynhà & eõ outros ê nome do
·rey· da terra q ele era eõtente de dar hü lugar a el rey
"d·e Portugal jO.t.o da sua cidade em l} auia de ter büa
feytoria ca roupa· & outras cousas q os Bandaneses · tra-
zião de modo q a terra esteuesse ·abastada das tais mer-
cadorias cõ côdiçlo q ho crauo nilo se vede·sse a outros
·estriigeiros & a troco de roupas l} valessem mil rs se ·ca-
:praria na feytoria o Babar do crauo q sam quatro quin-
·taes q ·saya ho quiotal a cc. rs. E de ludo iito se pas-
earAo escripturas assinadas por as parles:. &·porque·
Antonio de brito nã se ·fiaua da raynha por ser filha del-
rey de Tidore q tinha por muyto sospeita na amizade
dei rey de Portugal pola n1uyta q tinha cõ os CasteJha-
nos, quis ter da sua parle alg.ü da terra ·pera q ho aju-
& se .a fazer algtia
:- &· este foy hn Cachtl Daroês fiJho bastardo do
rey q {()r a de Terna te pay do ·m·enioo q reynaua. E cõ--
eertãdo eoele q ho ajudasse se ho fizesse regedor ·do
reyno: trabalhou tãto ·q fez l} ho fosse, p.ost"o q, tltra
-võtade da raynha & dos de sua Yalia ·q lhe querião
&·por amor Danlonio de· brito·& de Cachil Dareés lj tr-
Bha muytos de sua bãda ho dissimularà & mostrarfto fol-
gar de Cachil tlaroés ser regedor: porem· a raynha quis
-dali por diltte mal a Antonio de brito,·& esperaua tean.-
po pera lhe poder fazer 1nal, & ·assi ho eõcertaua secre-
tamêle cô seu pay el rey de Tidore, tt.nha grande
-magoa ·de ver regedor Cachil Daroés ·q lhe tiraua ho
mldo ·ll· tiBha E ele ·eõ ho .fauor Dãtonio· de bri'-
:to se f}ria 'absolutamlle senhor do "reyno & ê tud&
·o i} podia ·ao seruia, dAdoJbe aui11os do fi auia de fazer,
'k do q: se a':Jia de goarflar. E··ae este bomê nã fera se-
gildo .'88 guerras (}'deapois aoce4erJio a Antoaio de bri•
lt 'as aeeeasidafles ·em ll se vio nilea fizera a forta-
·leza ·na sofrera estar ferra como esteue. E feyto re-
·gedor & aéabada a ·trãqoeyra·,. & ·metida ·dêtro toda ·a
arteiharia f1 recolhida a ·armada deo--
80 D& IIIS'l'O.IA DA INDfA·
·1ro no· pórto começou de edificar a fortaleza .. ê laolm
dia de sarn João. bautista dG &no de mil & quinbeloe &
vinte doas. E e•tido hi el rey tleTeraale & lodoa seus
Sãgages & mãdaris cõ muyta gente elo pono, deepois
de dita hui ca a mayor solenidade q pode· aer fa-
rão abertos os aliaeces & aa1entáda1 as primeiras pedras
ca grãde attroido da arteJbaria q dtsparou toda & muyti)
tiger de trõbetaa. A o q el rey de Teroate deu gride
cõ iodo• o• seus Sangagea, & a.a1 el rey de Gei-
lolo: porl. nã aproueitaua por a glte n&o aer pera traba-
lho, & o1 Portugueses bo tiDhio muy grlde na obra
faziio , & na l} acbauão aos mitimltoa da ter-
ra aoa q erão oostuwadoL ·
C A P I T V L O XIII.
Dg como Martf 4fonso de cottlinho eltgou 4lr.l Clli-
na a achou .U yuura.
Seguindo Martim Afaso de me1o coutinho pe1a Malaca
foy ter a & hi deixou dõ Andre anrriquea porca-
pitlo de fortaleza q bo era por el.rey de Portugal, & le-
uou dõ Sancho anrriquez pera Malaca õde chegou ê lu-
lho: & ac8ãdo nouae do leuãtameto da China partio Jo-
go pera J' & (oy a aua conaerua Ouar&e coelho em hG.
jugo, & de caminho .fizerão -os -ao•so• muytes & muy
l'icas presas. E chegido a vieta das ilha• da China ao
mea Dagoato do ioo de •iote doua Jhee deu hO.a tDruoa-
da com C} payrarl. E pauada esta borriscada apareceo
a armada doa Chios de muytos j-ügoe & oalaluzee oheoa
de gête de peleja, q por a terra estar leuàtada cõt.ra 01
nos10s os !daua ·eeperido. E auido os vista Ã
nossa frota logo se poaerio I eom de pelejar cbeg ãdoee
muyto pareia , 8t deapàrldo suas b6bardiobu , & tirldo
muy tae frechadas. E Mar ti Afonso porq ja eataua aui•
eado de lUas rebolaria& & queria paz nlo boi ia Oõligo &
deixauue ir. O lj 01 aeus aapitlel Dlo quilerlo faaer,
VI• lOQII. 8 1
& vldo q oa q.- muylo midario al-
güs desparar sua artelbar·ia, ptiaeipalm.lte Ambr()sio do
·re§O q algls aauioa & OUltarão
gête, pelo elea s.e oauerão de ve.pdo ho dãna fl
reedlião.. E do 1ego eoll\eçe,u de. aeguir, do q
Martirp Afo1t10 ouue grãàe me.nieoria, & muyto mais
ào dãno li fora feyto aoe Chia, &. fez reoolber AIUhro-
sio do rego. E ho ir â t..a aao se aqueixou
muyto eoeJe , & l.lle diut1 palaur•s &SJJ8UI : & per •
4e boa eõdiqão ho ai caati1ou doutra 01ane,ra. E· ae-
•-e.u ·camiahq foy· i\ltgir aa i.lha Dabeni•ga e à.ua
baya de fora. ào õde tibA eurgio a armada Q()fl
Chis ao mar, &. afas,Jda da aoaaa pori tiaAa-a cerca-
da, q nã:o poàia . aayr q nio paaaa&iie por i trela. E QÕ
').Uà'\l os Chia dites alcõ dine · aouoa nl
•ixa.uã& de. Jhel tirar.
0 A I' I T V L O XIIII •
.
De come .. 4f1111so 4k melo tuüera tornar • ,.,_
.fo-rmfl/1' t:QfJ.\ Ql. Chills sJ- . .W pctde,.
V e"Q 1\larti t os Chis iqftÍSliio ê moalJar 11
ea\auâo QQ • •®(dou eõ aeua eapitles q l0111Bit-
aem atia aoyte pe.ra sa8N' a. de.tt1rmiQatt.ão- doa
Càina, & ie.eado. D\6r da c·auu
poJi CQ· Qtl tQeltt etlfi:do t\ãte' O taata
pu, &r. .qM Ql uus_. e.iueo, C.bis ·q h.iãP
ao lõgo. Q hií\ JllliçluM\ de eatuio. Po,.
ri e•lea eonto e-.rao • it .eão Qlais q
-caruã6, Rio iQI.lMrio d-iaer Pa.da QQ q lhes Afoer-
.ao k ei 'u4o eJe. os Yelclio muyto bê, & •
-44w OM • n* àoB cõ rec.a.Jg.: diz6do q ele
1-inba ·de paz, " cõ w•,•• • • pera tratar,
.-chMJa g•erra. li • • q lae mu,to ,
llia & ele c .. rJa toda a enme4a q: foue ///
JlOUÍ.IMl!, aa a_gqe.cra por e»Jpt\ <k>a • • do q
. . ..
....
.31 · .A BII'NRIA' DA INDIA
·lhe pedia li a rrlo· quisesse '008les.,.& tl a páz
q estaua Coes te recado- Corão estes cinco
& Dão tornarllo ca reposta, ãtes os Ch1s tirarlo
muyto mais lj dAtes, por(j_ tiohlo recado seu rey· lJ.
não consentissê oa nossos nenbtl porto seu. E Martim
Afonso ainda se sosteue sem r§ per a guerra .a'lle dia,
por<t lhe pareceo q os cinco por rusticos nAo
trião dar seu recado: & na segui-te mãdeu tomar
outra vez Jingoa, & leuarlibe dous bom6J <1 forlo to.ma-
·dos em terra. E destes soube como el rey da China es-
taua muyto mal oõ os noasos, & o q tinha mldado: por
isso li, nl cu·rasse de recados nê de falar ê paz ·per(\ to-
do era debalde. E sabido isto par Afonao, os
mandou ·'& -tornar a terra= & .na mesma noyte. em
aque isto foy soube por cinco dos nossos do jugo ·de
Duarte coelho que ficara a tras .como aurgira detraa de
büa põta por. auer vista da dos imigos .q auia
medo l} ho tomasse, l} ou por ou lhe desse
per a se t.ornar. E Martim A fõso. mildou dous ba-
armados que poderão paBSar. pe.-
louros com tirauão os i.u1igos-: & cQ moytos fçridos &
quatro mortos se tornarão a recolher pera a nossa
E Martim Afonso o8 tno88os feridos & morto1 q h ii
-nos bateys ·ficou muyto. sentidG: k de
·Jejar cõ os Chios pois eles queriãe g.erra a con-
·•elho, em f} dos & pe18088· q ·est·aul(o.BO COMe-
foy muyto cõtrari·ado li não pelejasa.e porq era .ciou-
·dice: mas :q fizessem agoada auia disso neoéslida-
.cJe, & t} eotretãto ho dil!ia ll farião. Isto da..
tern1inado foyse M.artim Afoneo .a terra cõ os bateys da
·frota muyto bê , & sayo ê terra a mlldar faraer
-agoada, ·& er, -hü pouco apartado donde estaua arma ...
-da : o ii Vêdo ·08 imigos .'a·partarãae logo trhtta ..
Juzes :&, & derAo sobeJos ba1eys. as
.. & foy a oousa tãO de pressa q escassamête Afon-
so _tê.j».pera se recolher ·ao•· bateys cõ 01 seus, dei-
ê terra pi-pas & jarras por &ber.il E CCQ
LIVRO: VI;- CAP-rTVtO' x-.. S.l
.. " . . . . .
muytà- a(;õta aos· bateys ae f<fy clJ outra muyto mayo"'
ás naos jugldo sempre as oõ Cl imigos q ho·
seguirão ale perto delas, & nfJo ·chega rio porll a nossa
artelharia começou ·de jogar a q eles auilo grãde medo·
por ser muyto· mais furiosa t} a sua, & por este medo
nA ·ousaullo eles de rCJper de todo a batalha cõ os 001101,
se· nlo ladrauAthe de Jege pera ver se os (anão ir.·
, ·C A P I T V L O XV.
-De como ardm a t1m de Diogo de melo , M· Chfs to··
· marilo -a nao de Ptdromé a a qulitos·
- · estauáó derr'rfJ. · E oDmo Ma11tim .Afonso partao pe- ·
· · rtt MalactJ. ·
Vendo -de todo dà
ra·, & mais por· mãdado do seu ·rey, & q tinhão muyto·
pouco poder.··pera os .sugigar, aconselharão a
Afonsó se fosse q·uãto·se podia 'ir sem •mór afronta;
porlJ. des'pois não p6f1eria. "'E feyto de tudo auto q totloa
aesinarão, de se ·partir: & ao outro dia se leuo-11·
eõ os· capit!es, & em desferindo -as veias
çarlo os ChinS de se chegar pareies dãdo gr!dea
& -coelas da sua artelh'aria, & müytaa ·nuuh
tfe · freebas. & Oiogo de melo q ltles t;cauitó '
mais· perto se demdiAo cõ muytas bõbardadaa. "R nialo
acendeose fogo ê hü barril de pofuora na nao de Diogo=
melo, -com l} se ho fogo ateou de modo q nõea se po-
de apagàr & a nao atrebêtou & ·se foy ao fundo. E vê.
& como muyta da ficou sobre a na.-
·dflfle, ·mildoulhe acodi-r poJo seu ·batel leuaua fora, oa
imigos acodirilo k>go ê muytos jügoa soore Pedromem (1
eomo ficaua cõ pouca gete por amor da ll bia no batel
teuerlo os irnigos Ju.gar de lhe aferrar a nao por todas
as & eutrariio dêtro tantos q por maia
damête que se os noS808 defêderlo todos forlo mortos ,
saluo hü q se aco]heo á gauea : & assi forlo mortos os
LIVRO VI. E
U JtA BltrrGatal DA· ltfDJA
do batel poJos lmicoa q aadeuio llQI calai'ICtl, - -oa- i-
migos aio eurarlo de Kartl A40aeo nA .de V ueo ferni-
fiez, oern Dãbrosio do .rego polos CbtlflOI tirGS 4
E oa i} matar.& os nOI&Q& n.a nao de P-aàromê, delpeis
de mortos Jóes cortarie as· cabeça•· k ·a& &
raaàarão a nao de quaato ti.-.ha ate da.asarcia k ao.
coras, & callos ll·Dâe âce11 nada. E dido gritas
& tocãdo seus iostromêtos de guerra se afastar4o, & e-
les afastados bo ela •ao de· Pedrcnaew que se acolheo á
gauea começou de capear, & Marti Afõso •nAdou por
ele ·& lrouúerãlbo no)"te., por' fGy grãde · kabalh9 aue-
rlno por •tter &!areia por &le eobi11em á naa. E.es-
'• ,cõtou a .Mart.;m Afon10 ·como paeaara bG.feyto, &lo-
go em conselho Martim Afonso fez hõa fala aos Ot.lt..ros
capitães sobre a vingãça dos mortos, d_ãdo pera isso u
rezões. 11 a paids mais que a J1Yt iasina.ua; qae
Jbe todos -eontradisserãQ, 4aado ou t,..a mais. •i pqr ..
que era cbA que Dão peJejuabm, se, qae Jogo .. foaae
metide ·DO fuado a ·r1ao .que fora de Pedrom-: me•-
ma noyte te partiaseo1 pera .Malaca, ·por.qu.e,, os .Cb.'M
nAo o..uessem vista deJ&s peri:go que .Lbea ·r.esuiLa·
ua. E .pera •aa delic.al.pa Qel\lartim fez hü
auto 4t»'81 par.eoeras tedes assinarãO,. &, ·dele pedi4i>
ete Jri1 eetormeoto ae e11crillão da nao pera aua goarda"'
& m11yto contra ·&Ua vatade por ser de grandsa -19irit01
mldou o que acordado no conselho.
a oao Jl8 fundo partio cõ 01 ()Utr.os &
aendo ainda ê AgMo que a monção de M.laa.
pera a China pera sua vj.apm lbe eca -ko ve&A.Q .,
trairo, quis ·D088o 1e11hor q !he seruisae. E iudo PQr tsua
•·iage tomou a ·via de çamatra pera ir ·ver tinqa a
taleza de ·Pacê aeceuidade dalgtla ooi.ISa. , .



C .A. P. I T V L O XVI.
De. mmo el r•y JJGckcm t'IIQnclou a /orla lua
Paam
7
4- como UM. I«<OT• .Mar,im .Afonso rk
melo.
Et rey Dachém despoia . ..- foy a IIJOrte de Jorge. ele
brito. & d• outros qtae morrel'ão coele, ficou. t.-. lober-
bo li determiDoa de destruyr os ooiaoe onde podeaae,
Dlo dar -,ida a neahii. E aabeBdo que- es(aua nos•a for-
taJeza em Pacean, & q\lem era ho & qtli pol\-
ea gente tiaf1a: delermJoou de a tomar. Q-
bra de doua mil bom&· de peJeja mandou hum seu ca-
pitão aobrela, & mandoulhe que a queymasae pwque e-
ra de madeira. E eomo ho caminho era curto & por ter-
ra, em breue tempo derio sobre a fortaleza: em que 11
.Bile teapo eslauio ate setenta. porque os outros
.e lorlo com dom Sanello quando foy pera Malaca,
& com muyto poucos .mantimentos, ma• com bQa ar te-
lharia & outras com que se os QOIIOI
rlo tloa immigoa, & 01 nlo deixarln chegar aa
sa.: poJo lj eles trabalharão muyto · pera a queymarem
qoe esae era ho seu intêlo. E lambem oe nossoa tinh.ão
de 110yte vigia, & fazião fogos porque vissem •e
chegaulo aa fortaleza, & tioblo muyto
graade trabalho, & est•uão em. grande perigo por os
mantimentos serem mu1to poucos se bo· cerco durasse.
E estando neata fadiga ehegou Martim A fõso de melo
que Yioba da Cbioa, &t auendo os vista da frq-
--ta qae traia, que era de cineo velas grosf!as,
eeado qoe era dos oouos leuantarfto bo eerco me-
. do & fu.girão hum .dia antes que Martim Afonso ehe-
. gaBae: &.ae ele nãó chegara ülo eeclo dom Andre ae vi-
.ra eaa .grande. aperto •
. .

.

.

B I
. ..
O A P I T O L () XVII.
·De· como 'a. tUJO·:tk Dwlru da,IIJit* ,. mede ele
mtJrreo com·,oulrOI •. E tÜ foa'Nr•dDr de.Moz-
cate acodio oos nossos.
Retbrmada paz· camo desJioi• l} Veyo
tlespachou dom· Luy• as tres aaoa pera a Iodia com ho-
dinheiro das pareaa &!outro que se fizera da fazenda dei
rey de Portugal : & pdrque Pero. taz. traua'ios hum· ct.
eapitles destas naos estaua doête deu dom Luys a ca-
pitania da oao a Manóel v·elbo ate a Iodia. E partidos
Dormuz chegarão a agoada que se chama de Cojeatar
·junto ·de Mazcale pera fazerem agoada. E estando ali
surtos dia de··sam Mateus aa noyte acodio hüa tormen-
'ta de vento trauessam tão furioso & esforçado que le-
tJou hüas naos de mouros que estauão em picadeiros hü
grande espaço dü cabo pera ho outro, & arrancou ea-
sas, & dali a doze Jegoas fez perda que foy aualiada ein
eincoenta mil xerafins. E este vento deu aa costa com
a nao de Duarte datai de em htl.s penedos, em que se
·fez em nio ter mais que büa ancora., &
morrerlo algüs dos nossos: antre os quaes forio Duarte
dataide, & hii seu filho, dom Garcia coalillho hia
:coele· pera a India, Vasco martiz de melo & lolo rabe-
lo. E q o ando a nao foy aa costa deu pela na o. de Lopo
dazeuedo & é}broulhe bo garoupez: que a tora este dan-
no recebeo outro anoyto mayor de dous oamelos, que
assi como a nao jugaoa de bum cabo pera ho oatroju- '
gauAo eles tambem & desfaziãna toda. E. sabendo Ma-
nuel velho a fadiga em que estaua Lopo dazeqedo eom
quanto era noyte se meteo no seu batel com .algna k
·foylbe acodir: & ·despoia ho deixou eeguro :se tor-
Do o aa sua nao andando ho mar tio 'que qaasi:se
Dão pode embarcar. E tornado aa nao achou toda a gen-
te aluoroçada pera fugir com medo de darem aa costa:
L'IVJtO: VI. C'A:PITYL& )f.Vil. at_
& eJe to·m·ou -as. arn1aa a tvdos, por-
·que se não defeadessem se es quisesse por força fazer
-estar na. nao dizendo q.ue auiãg lodos de morrer ou sal-
uala. O que fez ajudandolhe seus criados que todos ti- ..
·nhio armas. E fazendo assessegar a gente, & mandan-
do fazer a1 ancoras portantes. -com a popa da nao por
.. diante foy alargando as amarras , & gouernando .a bom-
. bordo & a estribordo se sayo da enseada da agoada &
foyse meter 110 por'o de Mazcate que estaua hi Jogo,
-Gnde se saluou. E ao outro dia Xeque Reyxil Xeque de
Mazcate a requerimento de ·Manuel velho 1nandou lan-
preglo que nenbii mouro sopena de morte nã:o to-
masse neohtla cousa daquela nao que se perdera. E is-
to fez ele por ser grãde seruidor deJrey de Portugal &
amigo dos nossos: & por isso mãdou tirar toda a fazen-
da que hia na nao , assi dei rey como das partes & ar-
telharia por mergulbadore• que naquela terra se
chamão caroás. E a fazenda dei rey erão dous cofres
em que hia ho dinheiro das pareas deJ rey Dormuz, hum
com_ tangas, outro com xerafins :· & neste h ia hõa ada-
ga & terçado douro pera el rey de Portugal, que el rey
Dormuz Jhe mandaua de fJresente com hüa cinta douro
de largura de maia de dou& dedos & hum tio de perolas
per a a ray oh a , & muytos fardos de seda solta , & da fa-
zenda partes se deu ao Xeque a cineo por ·cento,
que coesaa coudiCilo a 1nandou tirar, & poJa dei rey não
quie aada. E todos os corpos dos mortos forào achados
k enterrados. Feyta esta deJigencia com que se cobrou
toila a fazenda deJ rey por industria de Manuel velho es- .
tando ele aaquele po1to lhe íoy dito pelo Xeque de Maa-
eate qae a agoatla de Cojeatar era chegado bum criado
. de Raix xarafo & aeu capilão eom gente darmas .em hüa
.terrada: que se temia que fosse per- llo. matar, por
q.uaoto como anlea de dõ Luys chegar j\ Orrnuz
uidara Rai:x. xara.fo a deJamixá seu irmão por goa-
:·lil de Calay,ate. E iodo por terra: cõ da uossa ar-
aada paaaara .a Yi&ta. Mazcate, õde lhe ele Xeq uyra
,,
18 . DA JIII'I'OBI& D.l IRDI•
tiS gente ao @dtro, por ser amigo dw oossoa &
del rey Dormuz ror ter eoeJea : 1:. aeate lcõlro
nü dos noSBos q h ia coei e ma tua Raia delamiú ai. hUa
eSJlingardada, & por isao tenl)a lj hocapitle.de Raix x•
rafo fosse pera ho matar, q lbe •ale••• pois fora sempre
leal aoa nosso&, & por e•a. eaoaa. lae qrião fazer mal. E
sal>ido isto por velho fey DO seu batel com mu,--
tos dos nossos ondesta1J& a terrada: & di do de .. pito
nela prendeo ho capi tio de Raix :aarafo il h i eataua com
os remeyros, somêle porque a outra glte era I terra.. E
preso ho capitlo cô todes ()I at1 leuoa á swa
tnto, & h i fez amigo be capitlo com .. ho Xectue.. E i1t.o
feyto tfJYae caminho da Judia cem Lopo da..,.edo, lt
forão &urgir no porto de Goa onde ae eatregou a fazenda
··dei rey que leoauão.
Ç A P. I T O L O XVIII.
.
lk com& dom Luys 1e pera. a Inllia , f dD maU
qtJe pt.aou-
Verrdo os capitles & fidalgos da armada de da Lu,s
que nllo se· podia acabar Raix sarafo que tornasae a
pouoar Ormuz , indinaranse muJto cltr.ele, & diziio <t
·nAo ae lhe déuia de pasaa·r bila eo•a tio mal feyta, &
em q tanto· n1ostraua ho mal q queria aos Portuguea•,
& q ho deuia de pagar mu,to bê, céi dom Luys deaem-
barcar em- Queixome & destruir toda a terra & quando
nll podesae logo fazerlhe ·gaerra , guorreala ate ll a dea-
truyse , & l} dõ Luys de.lJia de poer i1to em eouelho.
E pore ele eõ quAto sabia o di&ilo nA bo qui• poer
conselho- k C!Õtentoose eõ ho assinado li tinba de Raix
xamixir lj mataria Raix xarafo ·como f011e tempo. E de
ele Di dar ·I Queizome ')Derer tomar a cerea diaao .o
pareeer dos fidalgos & capitlea da frota, ae desc6tenta-
eles & aasi a outra & 119bretudo por
-ho achâl'ê muyto solto no falar, & Dlo &ee em epa&a di-

LJV-RQ, VJ. ClA.P!TVI..O XIX. .89.
zer a· ai b.omê o lt lhe vinha á võ.tad.e: & Wer 1nais
A .Ormuz l} o l} dig.o se tornou pera a lndiA, & tle .ca-
mi:UtllO foy ter á de Diu peta fazer bi es·
perando polas na..os ,em q ae .aüia ·de fazer 'lhe .de.a h.ü t.ã·
po.ral cõ li. po·r Í<Vfia arribou .a Chaul cõ sua .armada., &
da Ri ae roy .a Goa: de tãbe a gente .estaua mu·y des-
eontéte do porq dissimwa.ua muytas cou'Saa
mal leytas .q fazia- Frãcisco pere1ra pestana, & diziãv
ii por lhe dar lnuytos & pefCas ricas. E Ulo a--
preasados se Ni;io oa catados df' Goa cõ a ÍQ.rte oõdiCião
de Faicie.co pereyra .q .algüs se forão {ora de .Goa , k
outros se liçarão na :terr• .firme,.& auda-r!o -cõ 01 mou.-
ros .quasi todo ho tempo de sua capitania;, & .nlo
aeahia justiça. E poJo g.o.ue.rpador ho pouco q
dõ Luys &era e Ormuz, determ.ino.u de· ir lá, as-
JbQ eacre.uera •loã .r<Miriguez de DOtonha & màdou dõ
LHJS .a per a fazer a .carrega naos q de
Prortupl., -de f(} aqle ãno parti-rão ao mais de tra. sem
mór; de l} forAo capitães dõ Pedro de
Diogo de melo '1 h ia por capitão Dormuz, & dõ .Pedro
de ca.stelo ãog passou á India & outros
dons i&uerdlarao ê JKoriàbJq. ·
C Ã P I T V L O •
.
De .como por fii.Orte de Bai$ zabadim , Raiz zarafo se
· tJCOI/Itl) IÍ no,ua ;forttJle:ta eiJ IMcJo de Âo mGtCJré 01
miJIWOs .: ·de .COJIIQ t.ornou a po'Utt){l,r .a cidade
Dormv/8.
Partido .dom Luya Dormuz teuesse Raix xarafo por ,
1eg·u1o h a gouernança do reyDQ, ·porq como ele -éra pru ...
dête .b.f toobee.eo ll nl.era &(}le bo têpo em i} por força
lhe ·•uiA :de ·.lazer fazer o q AJào quiseJWe. E eomp hon1ê
fJUe fazia- eõta Q a .se auia de m.odar a
Queixo.me, nãp .a.uia .de ler quê lbe coatrariasse
•eu .PÇI' Aear .a ior.taleaa apar.t•da comeqo"


4.0 D.t SISTORIA DA IRDIA:
de ie descuydar. da grAde goar·dll trA'Zia em lUa pes-
Boa, ll dos mouros nllo ae temia, porll Miramahmet mo-
rado seu tmigo ja era deitado do mfldo, & os q estauão
na eorte seus parentes & criados a que fazia muy-
to be. E por isso lhe pareceo q estaua seguro & esfriou
de todo da goarda de sua pessoa: & o mesmo fez Raix
xabadim seu cunhado. O que Raix xamixir que
por seu assinado tinha prometido a dõ Luys de os ma-
tar não quis mais esperar, & achAdo de melhor llcco
Raix xabadim mldou ho Jogo matar por hfta freeheiros
fllhe tirarAo á & o matar« , & nl quis tomalo
ca Raix xarafo por(\ ·lhe pareeeo t1
os matnr1a melhor: no q errou, por(} quldo R.a1x sarafo
•io morto seu cunhado Jogo se goardou, & foy tamanho
ho seu medo l} eõ quanto tinha dous rn;l homês de pe-
·Jeja, &. Raix xamixir no maia de tfuinbentoa nflo se fiou
deles nê de seus pareatPs parecendolhe que todos erilo
cõtrele, & n!o se atreuêdo a satuar em Queisome fugie
-ê ·hüa terrada & acolheose á nossa for tale-·
-za, porque hem sabi-a quil teays os nonos er!o, & que
mais seguro auia de8far a·ntre eles que anlre os mourO&.
Raix xamixir que soube como ele laa estaua·, mandou·
Jogo requerer a loão de nóronha que ho pren-
desse, porque ele era t-redoro tirano lf fizera l?uitar
Ormuz, & mandara m.atar el rey Tuxurd, & fazJa que
·se niio pouoasse & porl} isto sabia como
seruidor t} dél rey de Portugal promet-era a dom
Luys por btl assinado de ho matar, & a seu cunhado
Raix :xabadim, o l} posera quanto lhe (orll possi-
uel. E pois Raix ê seu podt'r ll ho
desse poJas cousas. sobre ditas. O que. visto por folio r-o-
driguez bo pr@deG, & ·ele .preso passouse fogo e) rey a
Ormuz cõ todos os seus· ·E lo!o rodriguez JlJ. ·
sabia o l} dom Luys tinha a R·aix xami·xi-r
pri<f lho dãndo lhe o goazilado Dormtlz.- O·q vede· ·
xarafo prometeo inuito dinhei-ro a Foilo rodriguez q· JM)
soltasse· & llie tornasse dar E isto.
LIVRO VI. CAPITVLO XX. 41
era hüa cousa taman.ha .não se atreueo loão rodri guez a fa-
ze) o, & prometeolhe 'i faria cõ o góuernador i} ho fizes-
se : & pera ho fazer vir a Ormuz Jhé escreueo a prisam
de Raix xarafo, & como a cidade Dormuz era pouoada:
& q. era muyto necessario ir assentar a(jlas cousas,.& q
não fosse coeJ_e Manuel velho ne Ruy vareJa: por(} asat
compria a dei rey •. E isto foy instruçl de Raix xa-
rafo q · eomo sabia quã bê estes dous sabitlo as oou1as Dor- ; .
muz , & os males -êj ele .tinha feytos aão os <}r.ja Já porq
ho não E v,ista poto gouernador esta ea.-ta assê-
tou de todo ê ir a Or.muz pera o lj se .de fazer·
prestes.
C A P I T V L O XX. ·

·De como dom Luys de meneses tkspachou é Cochí ctrta1
tJelas pera diuersas partes despoi1 se par.tio pera ho

Dom ·Luys de meneses despoia li foy ê Coebi despa-
as naos da carrega auiló .-di r pera Portugal , 8t
ass·i Loureço de melo pera ir á China ja -do tem-·
po tle Diogo Iopez tinha hila viagê pera lá, ·&-ele o nl
quis deixar ir·-: ·&deu a Marti Afõso -de nlelo ju-
.arte li fosse e bü jügo 1JU8 cõpahia. E tãbê despa-
ehou pera Malaca a ·hü A·ndre de brito que fosse tratar-
por· a<}Jas partes ê hüa nao sua l} .fizera á sua custa: &·
-estes todos ·partirão diuersos têpos. E isto des.poebado,.
i.ornouee dom Luy-s per a Goa, d&le o gouernador ho des-
pachou ·CÕ hila armada de galeões, asai per a as presa·s do
estr-eito eomo pera .. jr ·ao porto de Maçuá & t-razer dom
Rodrigo ·de lima t} fora por ao Pres-te joio! &·
mildou-lhe .q .aeabado isto· se fosse iuuel'nar .a Or-
muz. ·E -eGeste ·se parti o di ·pera ho -es-
·treito: & a· fora ele que h ia no galeão sam Dinis forilo oa
ca-pitães da sua armada, Nuno.feraãdez·de macedo, Boy
·'Vaz pereira, ·Fernão gomez· de·lemos;·Anrriq de ·mace-
Go ,. & Lopo de me1quita tedoa-capitles de·galec1es •...
LIVRO VI. F
••
DA Kln'O&U .A lll'OIA
. C A P I T V L o· XXI.
-
. -
Di . como indo o Ormu.c tornoráo Jra.
. mouro• cú Diu h1MJ gaW a de noronha.
Partido Luys despois li ho gouernador deu despa-
cho a algüaa cousas q ficaua fazendo , partioae pera Or-
muz leuando büa arlliada de seys galés, de que forão ca--
pitàes Bastião de noronha, lolo fogaça, Dinis fernan-
dez de. Frãcisco de mêdoça, dõ Vasco de lima,
Frãcisco de sousa tauares : & assi algíis nauiott de ga-
uea, a cujos capitães nà soube OJJ QoQles. E atrauessàdo
o golfão foy vista hüa oao de mouros q hia pera Diu :
& oa primeyros capit&es que a virão forão Bastião de
aorooba & loão i} lhe derão & Bastião de
noronha por a .s.ua gale ser mais veleira que a de loão
fogaCf' a alcan'iou quasi ooyte, & por essa causa não
quia pelejar cõ 01 mouros, mas midou amarrar muyto
bê a galé cG a nao porfi se Jbe não fosse de ooyte , p&
r.a i} em amaahecMo pelejasse cõ os mouros, q vêdo ho
vagAr do capitão teuerãno e pouco, & síntido q oã bia
mais i} ele só coeles, & q a outra galé de-
terminarAo de tomar aqJa , & nmarrãna polos mastoa cõ
cabos muy grossos sem ho sintirê os Portugueses q 8.P
dormecerão: & tãto q amanbeceo não. esperaroo os mou-
NI lj os· Portugueses os comete88ê, & acodirio logo
.cõ muytas pedradas com li os desatinarão q temerA
trar a oao: & tãbê o capitão os nã animaua a is-
80. E vedo os mouros sua fraqza, comtKjarã algüs de
l}rer decer á galé poJa proa da nao, & não ouué ãtre os
Portugueses que lho ousasse de defeder poJas muytas
pedradas · & zagücaada• q vinhã decima se aio hu aulr-
eebo filho do Coudel mór , eujo oome me oã
dizer certo, & este foy ali morto poloa mouros aem lbe
-aiogue aeodir :. o. q vedo eles decerlo liuremlte .á galé
aem auer quê lho defêdesse: 01 fortugue1ea & ho
LJ?ae· w. itlil
eapit.lo ca medo •• reooJherle ao tldal da gale' & dali
por nlo terl maia colheita derlo cliligo ao mar, & ho
capitlo despio as eoir•• pera pocler melhor nadar, &
ouuerilee 01 maia. dafogar se do aobreuiera lolo fogaça
na sua gale de lj os ldarlo apanhAdo. E po1to i} loilo
fogaça tinha glte ê abattlça pera pelejar oé5 08 motJrOI
"tt tiohlo tomada a gale de Baslilo de noronha alo quia,
fasêdo. ae A outra volta deixou a gale ê poder doa moa-
roa ll a a Diu , k a derlo a Meliqjaz eõ. quãta
artelharia leuaua ll era muyta & muyto boa. Ei1to pu
80U tio lõge das outras •elas da armada qlhe alo pocl•
1tA. aoodir, de ll todos 011 capitãe1 da armada ficarlo muy
:eac«<Jalizados, & se ftuuerAo por muyto injuriados·: ·por4
ll·ftca outra tal se acõteeera na Indta, nê acõteceo de8-
·pois. E bo gouemador mldoo prender lolo lt
Bastilo de noronha & da bi a algtla dia· os mãdou •Di-
tRr. E Meliquiaz cotno a gale fora tomada, te-
ue.ho gouern·ador ê tio pou.ca cõta q nlo quis paz"Coele
& tornou a mldar sua armada de fuataa ao lago
·ta de Clbaya, & mãdou l'arar a gale: & quildo algO.
eatrlgeiroe biio a Diu a·mostraualba, 8t c&taualhe eomo
oa flloare• a· tomaroo. E a tomada tiesta gale deu IDUJ'-
ta ouaadia aos mouros da Jadia pera t-erê os ·PortQgue-
•• pouea conta.
.
I
·C A P I T V L O XXll.
De o gouerrttJilor elatgado a Ormu• soltou RN
$tlrafo. ·
P ro.eguindo daqui ho gouemador 1JU-a pe,..
·Onnu:m , chegou lá cõ sua chegada .folga rio muyto ,
•••i Ohrit1tilos O()fl)() mouros crido ll pagaria Rais xara-
fo fl estaua preao os muytos .& muyto grldea ma1ea
ti11ha feytos., ·8811 ·a ·hftl eoiiM> aos eutro•. Aoa Christb
-no trahalho & fadiga em é}, os po1 bo Jeuitaml&o Dol'-
·zr•z A, :-Oei'CO ela fortaleaa, & a perda l} det a·IDUJta&
F Z
44. · DA a•ft»JIIA DA I I I D I ~ ·
de 11111 fazldae, k· em aer causa da morte ctalgl• leu•
amigos & parêtes. E aoa mouros ê lhes matar seu rey
·& 01 desassegar c6 a guerra Ir, darlbea muy&oe tarabalbo1
eoela, & ê os tiraniaar sem nenbtia piedaoo , lom4do-
lhea quito tinhlo de cada vez q queria. E pois estaua
preso por calpas tio pubrieas eomo auia tio pouco q co-
metera, esperauã todos que pagasse com a vid-a aque-
las & oulraa secretas. E chegado ho gouernador a Or-
.muz íoy por tree wezes a hi\a torre ondeetaua preso &
.falou coele peran.te loão rodriguez de oorooba capitào
da ·fort&leza que ter'(aua grãdemente por Raix sarafe
-eom ho gouernador pera que ho soltasse & fizesae goa-
zil , & tirasse· os officiaes Portugoeses da alfandega de
Ormuz & das outras alfandegas, & que pagaria a el rey
.de Portugal mais corenta mil xerafins que faz.iãQ sea-
aeota mil cõ os l} pagaua dites, de que pagaria logo a-
·metade: & pagaria a valia da fazêda ~ se tomara a el
= ~ e y de .Portugal na feytoria: & assi pagaria as partes e
i} lhe tomara no aleuiltamêto da cidade eõtra a for,ale-
za. E ali! dis-so daria duzêtos miJ xerafins, .pera o q ào
.goueroador quisesse. O q pareceo bê ao gouernad.or,
rnas reeeaua dô Luys seu irmlo.q lhe Dilo auia aquilo
de parecer bê , porq queria mal a Raix sarafo & dese-
jaua de se vingar porq por seu rogo nãO' quisera pouoar
Ormuz : & mais ll auia de qrer soster no goazilado a
Raix xamixir pola pr&messa i} lhe tinba feyto, & poria-
ao determinou de soltar Raix xarafo & fazelo goazil Ates
·da vinda de dõ Luya pera o q íéz conselho cõ ho capi-
tão da furtaleza & aJgii& capitães da frota, a il disse o l).
Raix xarafo lhe cometia: & i} a ele lhe parecia bl,
porl} era êformado q Raix xamixir i} seruia de goazil
era muyto doudo & nã:o sabia gouernar, & os morado-
res estaolo muy descõtêtea deJe, & asai bo hilo os mer-
cadores i} viohà de fora,.& q ol daua a el rey seb se-
flor de pareas mais de \fite mi! xerafina,. & Raix xara,fo
-daua lx. miJ & bê pagos, & era homê antigo na lerra:
.&. c6. 111a prudêcia & silo a sabia bê gouernar, & t.iaha
LIVRO 'VI. DIIJ. ;416
Dela credito: que lhe parecia é} este deu ia de ler goazil
Ir. al o q o era. E AtAd&do totlos no goueruador q q ueuia
fazer aquilo, a todos pareeeo ·bê: saluo a de
·&ousa tauarea ll era capitão mór do. mar Dorm.uz q ·disse
.q lhe ·nã parecia bê, por(} auia mU.yt98 .ãuoa q conuer-
saua Raix xarafo, & sempre lhe· conhecera ser irnigo
mortal dos Portugueses & ter desejo .de os lan"ar fora
Dormuz: do ll era muyto boa testen1uoha a que
.. lhes fizera no leuanlameoto Dormuz· t-e·ndo seu pay ·, -&
·ele·, & ·seus ·irmãos recebido tanto bem dos Portugue-
ses, & assi ê não querer q se pouoasse per-
dõ Luys ho passado , & por isso dizia i} .B4o
aomete ho nl deuião de soltar· nê darlàe ho goaziJado,
.mas q ho matassem se querião ter seguro Ormuz, &c, se
Dio que sempre aueria .. nele reuoltas. E deste parecei'
Dinis fernaodez de n1eJo : porem como não erão mais
4e dous preualeceFão os Qutros coan quem foy hQ ·gouer-
-nador. ·E detern•inado isto de q foy feyto assinado· por
todoa .foy solto Raix xar•fo & -restiluydo no goazilado-,
& Raix :xami:r.ir & Raix .noradim deitados fora
i} derão tão boa mostra de serui4ores dei rey de Portu-
·«al & damigos doa na·morte de -Raix. xaba&im &
·Da de Raix xarafo pera que olo ouue têpo por aua fugi-
da. E eates doos s.e ·fotão Dormuz em hiia terJ'ada·, k
·secretameote lhe ·foy dado tüdo por mandado de Raix
xarafo : & esta ouuerãe por quererA &e r &li r a eJ rey
·de Portugal: & este foy. ho goazilado que lhe dõ Luy.s
Do q os nosBOS; ficarão · 4it
aasi os mouros & de lperderão ho credito dos aosaoa,
·&: dizião. quefl) teuesse muyto din.àeiro em Ormu.z
.sempre v1u1rJa, posto que lodos os males do··roun-
·E me,ido Raix xarafa ê posse do gouilado pagou-
.logo -dos mil xarafis & das pareaa ao
-goueroador, & pola outra ametade ficou em arre&as hG.
.AiJbo de Raix .xara:fo. E na paga das partes. se teue eata
maaeyra·qae dauà(l.jurameato peNO& do que pe•
..dora & pagauãlbe qo hií &, jurau'o maã. do
(
M; 'DA. HIITGRIA. D& ."llfDI.& .
. que' parderllo , & tudo. lbe• pagrarfto .deapoi• de maneyra
que muytoa flcarlo riooa. E &'fora iato que Raix.xar.afG
deu ao godernador. lhe fazia cada dia muytos aeruiçoa
de muytae o&eruaa' fruytas, carne• & , & d ...
goae cheil'o•••: .COQI leuou altle iuerno muyto boa vida.
C A P I T V L O XXIII.
D1 como dJJ Luys indo pera dtw t1t1 ciOOtk· de Xatl.lla
08 tnourOB, do maU ij fes Gle tomar tJs
t
P artldo dlJ Luya de Goa sua. armada pio •
rota pera bo cabo de Goardafum, ·onde ê poucos d1aa
()U8 eeteue esperAdo polaa naos de mouros tomarão •
DO&IOI capitles cineo. E dali:seguindo sua rota foy
·ao ·rorto Da dê onde achou quatro na o• que mldou quey-
mar, & daJi determinou de ir·sobre·htllugar de mouroa
ehamado Xael qu·e está na mea1na eosta Darabia cio-
.eoeata & cinco legoas Dadê iRdo pera ho eatreit.O: está
em quatorze graos & hü eoarto situado em eosta braua
em que ho mar de eontino anda rolado. He lugar grlr-
de , abastado & viçoso de todaa at fruytas que ba em
Espanha: be de grawde ·trato por auet nele muytos c-..
ualos & encenso que leolio aJ mourc>s do Malabar & de
q leollo ali -suas • a 4Vender. Ne•
te ·lugar iouernão a• naos 9ue 'vlo pera ho mar roxo ae
til podê JJa&I&T por irem Ja tarde, & ventarem oa po-
nentes ·que Jhe eam por daoante, & d5 Luya determi-
fiOtl '()e .ir sobN este lugar 'f1a obedi&ia dei rey
:D8fliê. E ·oo eottbe auia nele muyta & no
·-porto anda na eempre ho mar de léuadia quis ir dar nele
porque aodaGa .-ag.aatado de o lo ter ainda feyto ,aada na
lu dia , · & aqui de ·ho fazer f mas es mourM bo
titarlo tles&e· ouydadó, porq ou sabNo ou adiu i nht1do ao
4 ele laia ·he lugar, asei·da oomo da m6r
:pawte de que di Luy• teue • ..


LIYao VI. CAR ITVLG XQIII. 4l1
da que fazer. E com tutlo desembarcou com sua gente,
que aaqoeou ho lugar disso que auia aeJe q ainda fe• .
algtls ricos. E estando aqui. leWlnlouse hiia tormêla th
lvaua ll ouuerão de dar-01 galeõee á QOtta,.k alijarão
ao mar a arteJbaria que eetaua sobre eu.berta, &.
brouse hü esquife: & pola miser.icordia de oosao senhor
aayo dali dõ Luy• eli a .armada & ae par tio pera Maçuá.,
& deapois queimou grandes uaoa de mouros l} estauie
varadas ê terra. E prQsseguiodo sua viagê pera Maquá
despoia de pasar· aJguas tormêtas com q_ se vio ê perigo
foy •urgir no 1eu porlo: & dali por jntercessam do ca--
pitão Darquico mandou recado a dõ Rodrigo de Jima
ho esperaua ate dia de Pascoa que auia de ser ate quize
Dabril, & se eatão nlo foae coele que se auia Jogo de
partir, porque não podja mais esperar , & ficou espe-
rando. · .
C A P I T V L O XXJIIJ. ·
De dom Rodrigo de lima parlio caminho da oork
· . do Prute. .
No quioto liuro fica dito como quãdo Diogo Iopez.
JJiqueyra sendo gpueroador da lndia foy ao eatreito,
JDidou do lugar de Maçuá por embaixador ao. Preste
joio h ii fidalgo chamado dõ Rodrigo de lima, em cuja
cõpaobia Corão treze Portugueses. a. lorge dabreu , Lo-
po da gama, João escolar escriuão da en1baixada, lole
feytor & liogoa dela, Francisco aluarez clerige
de mi11a & ou troa q fazião ho. numero que digo. Dea.-
pachado dõ Rodrigo parliose do lugar Darquieo aos t.ria·
.ta dia& DabriJ leuãdo em sua comJl8Dhia ho embaixador
Mateus que .faleceo no do caminho, per que ea.-
miohando chegou a bü lugar chamado Barua a01 vio--
&oik» de Iuoho. E este era do aeoborio do
aagaia aquele que fpy falar a Diogo Iopez de •iqueyra a
Maçuá .como dieae4no liuro. qJJiato. E. este aome de.Bar•
qllec dizer rv do ...... , • .aagail tpaer 6\izeJ:,r.eJ
,
.S. B.A ·BIS'MBIA DA ·INDIA·
na lingo·a al>exim & bar mar, & assi be ele como rey &
tem coroa douro ·que ·lhe da bo Preste: k tê debaixo
de seu senhorio sete senhoréa·.-de grandes terras·de fl -
muytos em campo -quinze de lanqu k
-escudos • & todos leuão ttiante de si atahalea, lJ. nio po-
dê trazer se nAo grAdes senberes: &asai outros muy-
.tos mas nlo tamanhos ..seftores ·nomo .eatoutrol, &; todo•
·seruê eõ bo BarBagais na guen'a , & ele & eles -aam- so-
ao Preste l} os despõe das senhariae quafldo
·& lhes pagão ·mtt·y grãdea dereytos: eom acodê ao
·Barnagais ·& ele os paga ao Pf'este. E Reates dereyto1
entrlo -cl. eauatos. A este ·lttgar de Barua chegou .di
Rodrigo dôde achou que ·no mesmo dia partira ho BH-
nagais doente dos othos pera outro Jogar chamado Bar-
ra; a dom f()y pera ·lbe lealdo coosigo
cinco Portugueses ll hillo em mulas por9 nelas caminlla-_
uilo todos. E fleste dia ftly ()om Rodrtgo pera falar ao
Barnagais, mas nlo pode: ou não quis ele que lhe fa-
-& foy aquela ·aoyte muyto &.ao
outro dia lhe falou. Es-taua· ele ·'f!m bila casa terrea dei-
tado em hü catle, & sua molher assentada á eabeceira:
&. aproueitou -poooo falarlhe dom Rodrigo, ·lt :pecfirlhe
auiamento per• ho eaminho ·porque lho deu bem .mao ;
posto q. tinha· pron1etido ao -gouerna<lor de lho dar ·ha.
Rodrigo & os de sua companhia comprada• algGas
mulas l}· lhes ·faleciio por bo Barnagaia lhas nlo querer
dar , se part-io : & ••pois de passar n1u·ytos trabalhos &
perigos que noo clJto por breu idade, chegou .bfta legoa)
da cOPte .do ·Preste, que como disse no liuro
anda n·o , & agasalhasse en1 tendas , de
·que a.ntre. boa& .&t outras somenos ·auera seys .mil. He
.Preate be tamanho senhor como -disse no mesmo .li oro,
aBSi de como de ·gête ..& de teaouroa: andlo o• sua
-corte muytos. reys & grandes senhores. ·Cbriatlo. &
oom. pouco eatado, porque bo nlo vê.se.nloseue
priuados., .. nA se mostra. a todos mais de .. no
s • .dia. di• doe dia da da
. ..... -. ..... ·-
VI. CAPI!'V:tO '49
·Cruz de :Setembro. ·E quKdo earninha tambem vay cu-
·berto que ningtíe ho ·não ve: & quando lhe falão algfls
-êbaixadores posto q estê õde efe está ·falãlhe por ter-
ceira pessoa. ·
C A P I T V L O XXV.
De como dó Rodrigo chegou á corte do Pres·te joá.
Rodrigo ·chegou como digo a hüa Jegoa do
rayal do Preste hiia segunda feyra dezasete Doutnbro
& ali foy ter coe·Je per mãdado do Preste ·ho seu mórdo-
mo mór que na lingoa Abexim se chama Adugraz, &
hia ·pera gosrdar dom Rodrigo & darlhe o ti lhe ·fosse
necessario. E logo partirão dali <} ·assi 1ho djsse ho mór-
domo mór, & ê :vez de irem por diante tornarão 1lera
tTas bem büa 'Jegoa: dizendo ho Adugraz a dom Rodri·
go q n!o se agastasse por<} hó Preste di r pera ·a-
quela parte ·a que eles h ião. E chegados· detras dhüs c-a-
beços deceranse & apousentara·nse em tendas que lhes
hi armariio: ·& fogo ho Preste se fo·y apousentar· per•
to ê suas tendas: & por s-eu mãdado foy ·dada a dorri
Rodrigo hfta boa t@da pera pousar com ··sua
& quem lha leuou ihe disse q era da pessoa do ·Preste,
& q t&l como aqln não a tinha· ninguem no a·rraynl: &
que ·es1a honrra lhe fszia ho Preste por -ser êbaixaclor
de rey · Christão. E na sesta feyra ·-segtiinte vinte dias
·Doutuhr6 ·foy dom· R()drigo chamado da parte do presta
por bu ·frade· que lhe di8se ll lhe ]eú-asse 'ho prese·nte &
todo ·h(j ·fato'& ho dos dP, sua companhi-a porq ó·que-
ria ver. ·E por mãdado do Preste foy muyta gente··pera'
acom-panhar dõ Rodrigo, l} nã quis ieuar ·n1ais ·q ·o pre-:
sente leuaua. E ;·ndo assi acõpanb·atlo ·chegou a
hõs arcos ·q_ se fazião diãte das tedas do·
00 Pre.ste, & os arcos estauão duas & l! cada·
hiia auer4a- bê xx. ·cobertos todos de pano ·brãco &'"roxo
antresaohados litl·:cle hüa cor·& outro-doutra .. :· & "de hüal
LIVRO VI. G
60 ·.D.Ir BJ.II\ORJA,. DA· INDIA
ordê a·JOutra a11eria bu de cê_ pa1101·: &t eates ar-
eoa .forão feytos PQr-.fazer feiita ap êbaixador, porq a11i
dali t&las d.o Pret1le .. b,-ãcas estaua hüa ro-
xa que dizião não seruir se não en1 grandes feetu 011
recebimentos. A qui onde estauão estes arcos aueria
bem vinte n1il homeqs postos em renque. de hua parte
& da outra, & pelo meyo ticaua hila larga rua. E todos
estea· sayão a d.Qm Rodrigo & de sua companhia
· '-- que bião todos bê vestidos & arrayados de ouro, & os
.A beaios se ef1Jl41llauão ·pqr: ho trajo dos Portugue_aes ser
muy differen'e do.seu. destes arcos estauão qua-
tro caualos, dous. de parlQ 11elados de selas ricas,
& os outros jaezes,. & com de borcado a
modo, de cpbertas dar!llas, & graades pe-
nachos & abaiXQ estauão oqlrQs muytos tàmbê
,elados, Qlaa nilo com .jaezes ricos como oe oulros. E
i41do dã.Rodrigo. pelo anoyo -desta gete chegarão a ele
•e.s•eota homês todos veatiqos, & h ião quasi corren-
do,: porque assi hp leuã9 recados do
Jt; q de1ão hü a dom Ro-
• :.r&, hü J,tes dQ8 arcoa
• quatro- leões /por cadeas ijUe bo Preste li
po.- ealad():, .dos. arcos estaulo as-
sentados Qs, quatro maypres que andauão na
do .Preste., que os l} l1ião com dom Rodrigo fi-
spa repçrencia, Q he abaixar a mão dereyta ale
cbBo. b9 4om .Rodrigo 8.t os Por,ugueses
que .. parou .. ali .. 'fom o• q hiiQ coele: &,auendo bu
peda<io, ali..estaua qhe,ou b.u clerig9 velho parête do
Preste & seu cl" tãta valia & credito coele q
era , a segiída pessoa e. seu senorio. despoia dele &
Cabeatí\. E estç sayo. da teda roxa e q· ho
estau.a •. Este .pergütqu a dõ Rodrigo ·q ljria &
& ele lhe q da lndia, & êbaj ...
ao joão 4o ·cé\pitàq moor gou_ernador dae
I.odiaa:·por e_l rey de. Portugfll. .repost- fle foy ho
Cabeata, & .,prqou 4uaa .. a prc:tgütar a_
.
...
LIYaê VI. a.:.J'n'IlO bl
Bie11ha pregüta: & da .térradeir• Rodrigo. tãe
aga.tado por Dão saber ·ho coa LVIII e da t,erra;q :lhe diue s
Nio·sey q diga. E ele·Jite dis1e q di11E111e o (j quiselila
i} tado d·iria ao Preste-. E dom Rodri8'> nio quis dizer
mais i} o l} ttoha ditó, dizêdo q ni diria •ais a
embaixada f1 leuaua nio a auia· de dar -a .outrem ae ·não
ao Pre•te, ê} midou dizer a dõ· R.odrigo pelo Jneamo.Ca.
beata fi lhe mldasse o\ l} lhe· gauerna.dor. ·O
lj da Rodrigo fez ca parecer de :os ·Portugueaea l}
estaulo coele, & êtregoo ao Cabeata bo presente.l} Dia.
go Iopez mandaua Preste em eokauão estaa pe ..
ças , hüa e1pada & hum pouha·J ricos , .quatro pano1
dar.mu deras, ·büas. couraças. rieaa com todo· 1et1t oom-
primento, dous berços de metal, quatro cama.raa
Jes, & algüs pelouros & dous barris de poluora, hüs or-
glloa & hum Dlàpamundi. E este era .. ho:preeente de Dio-
go Iopez, & do1n Rodrigo acrecentou quatro fardos de
pimêta da.' .qoe· leoaua pera su& despeaa .. E .. de. pois :..de
ho Cabeata ho ir mostrar ao Preate tornou coele onde
estauilo os arcos, & mandou estender tudo sobreles. E
faseado oalat todoá, disse ·ho justiça mór em voz alt..a,
detpois de nomear cada hila das pec;a• do preaen.te, que
toda. dessem inuytas graC(&I a .senhor por se ajft ..
tarem os Cbristilos, & se bi auia algus a qu• pesasse
que chorassem , & os que folgauão que. cantassem •. E
em acabando de dizer iato deu a· gente hiía gr.i.
ta dando a· Deos. E (oy despedido dom Ro.-
drigo descontête por n!o falar AQ Prf'ste ,: & asai ho
foy por lhe nilo fa2erem ho gasalbado que esperaua,
soube per algiis Christãos da Europa; que andauAo na
eorte que auia quem dissesse aos graades aeJJhores d.eJa
que conaelhasaem ao Preste que .ho iflA& deixasse ir ne&ll
aos de sua companhia, porque aesi coatum@ da
terra. E neste teanpo IJe ·tnud&u ho ·Preste doo de· estau-a;.
& a dom Rodrigo conueo comprar •m.ula• em. que
fosse,_& buso-ar quem l'h·e teuaaae .bo oilo
fJUerer m'dtlr f•uar· bo mordómo.;m6f .nem ciarllte
G I
\
·6S DA HISTORIA· DA· I!fDf.&"
E veyo a coúsa a tanto que donde dantes lhe- daulo de
comer aa custa do Preate paasarão. algus dias que lho
nlo derilo, assi que em ·onze dias que ·auia que era
chegado passou muytos desgostos, & não lhe apro'ueita·
ua aqueixarse deles, nean mandar pedir ao Preste que
ho ouuisse, & parecia que todos bo desprezauão:
bo Preste estimou ho presente . que lhe foy dado , &
mandou logo dar tudo. a igrejas & a pobres ' porque 01
eriados de Mateus lhe disserão que aquele não era hó
pl'esente que lhe el Rey de Portugal maodaua, & que
ho · tomara ho gouernador, & que lhe mandaua aqueJe.
E despois teue dom Rodrigo bem q fazer em tirar isto
da cabeQa ao Preste porq ho cria, &, pore deu sobristo
muytos achaques.
C A P I 'r V L O ··XX V I. t
. . -
Ik como ho Preste mandou chamar ho !J-
náo lM falou. . ·
Áuendo onze dias que dom eslaua na
hiía quarta feyra que foy ho primeyro .dia de Nouembro
pássadas duas horas da noyte l1o anandou chamar ho
PrtlSte: & cuydando ele· q.ue era pera ho ouuir foy logo
caminho .das. tendas do llreste que estauão dentro de
hn.a cerca de sebe,, ean que tambem diante das tendas.
estaua h ii a casa grande terrea cuberta de hü colmo que
ha na terra ·que muyto, & estaua armada sobre
grossos· esleos d.acipreste forrada de tauoas mal pintadas.
Na entrada desta casa estauão armadas quatro c,orredi·
ças de cortinas, a do meyo de borcado as outras de se-
da. E diante desta· casa se fazião dous patios, os quaes
erão cercados tambem de sebe, & na porta do
estauão ·certos porteiros, & estes deteuerão dom. R9-
drigo & ho não deixarão entrar, per espaço de hüa·:ho-
ra, posto que fazia grande. vento & muyto fria, .. & .de ..
enfadados. de esperar os da: com·panhia de dom
LIVRO C.APITVLO :XX'tl. 63
tirarlo duns espingardada&: & Jogo lhe pergunta rito da
)'>arte do Preste porque nlo traziã:o n•ais espingardas:
respondeo que porque não hião pera guerra. E nisto veo
ho mórdomo co1n outros quatro principais da corte : &
dizendo a dom Rodrigo que fossean pera dentro , abala-
rio indo ele diAte coan os outros quatro em fieira, &
nos cabos dous homens com duas veJas acesas nas ntãos.
E entrando pelo primeyro patio ate que forão no segun ...
do, detinhãse de quaodo em quando: & dizia cada bum
por si em alta voz. Senhor o que 1ne mandastes aqui
ho trago, & de dentro respondiào tan1ben1 ern voz muy-
to alta. A nday pera dentro. a esta palaura por ·ser do
Preste & licença sua abaixaúão todos as cabe<ias, &
nhão as milos dereytas no chilo por reuerencia. Feyta
esta cirimonia muytas vezes pelo modo sobredito, disse
ho mórdomo n1ór & os outros quatro. Os frftgues ll se-
nhor me mandastes aqui os trago. E da casa respondião
que entrassem pera dentro, & assi ho fizerão despois de
ditas estas palauras muytas vezes, & ali acharão feyto
hum estrado rico, & diàte dele estauão cento & sessen-
ta hon1ens com velas acesas nas n1ãos oytenta de cada
band.a: ·& todos tio hão as velas eru igoal con1passo. To·
do ho chão da casa estaua cuberto de esteiras pintadas,
& aqui se deteuerão. E estando assi de dentro ·das cor-
ridiças, foy hü page com hum recado do Preste a dom
Rodrigo: en1 que dizia que ele não Mateus a
Portugal, & posto que fora sem sua licença, que el
Rey de Portugal lhe mandaua por ele muytas cousas, &
pois lhas mandaua porque lhas não dauão. E dom Ro--
drigo respondeo que por Lopo soarez não poder ir a
çuá, & por falecer Duarte galuão que el Rey de Portu-
gal lhe mandaua por t-mbaixador: mas que as que
lhe el rey mandaua estaulo goardadas ua lndia, & não
aa leuara Diogo Lopez pera lhas mandar por não ser cer.,
to de poder tomar bo porto de Maçuá , nem Jeuaua Ma-
teus se não per a· ho deitar em qualquer porto que to-
maase da pera que despois que ho soul}eaae
1• BA Dll'fOBIA· DA ·I»JR.a\ ·
mandasse bo presente .que lhe el Rey liJan•
daua, & quando ho Deos leuRra a por
de ho visitar,· mandara a ele dom Rodrigq com aquelas
peças que 1be dera, & pera saber ho caminho quildo
fosse embaixador dei Rey de Portugal. E ooeata.
ta lhe mandotl ped;r que ho ouuine & 8&beria a
de: & Jhe <l·it·ia por eacripto o que ho •
dor lhe mandaua dizer alem da earla. E sem ho. Prest ..
·responder a isto ho "'andou despedir, & dali a .• doWI
dias as anesmas horas da noyte mandgu.ho· cba·
mar dom Rodrigo , que foy & achou a casa. disact
aparan1êtada de borcados, & atauiada. de cousea mais
ricas que dantes & mais gente &.. muyto.luzi.da • &
mais velas & entrou com as cerimonias Jl8ssadas: & oe
homens que ali estauão a fora os .que tinhilo a• velas
estauão em ordem, büs de hiia parte outro• de outra
com espadas nuas na mão. E deapois de ho Preate
dar pregtitar a dooJ Rodrigo poJo Cabeala & pelo seu
moor muytas cousas· sem propoeito, lbe; mandou
dizer que jogassem dous Pottugueae•· despada & adarga.
E despois de sayrem dous mandou dizer que aaysem ou.,.
troa dous : & por dous primeyros bo nio fazereQI 4
vontade de dom Rodrigo, sayo ·ele con1 Jorge dabreu.
E acabando de jugar mandou dizer.·ao Prea-'e que fizera
aquilo poJo se ruir, nem bo- fizera. por outro nen)Jii rrin-:
eipe ainda que lhe dera mil cruzados, pedio-
dolbe muyto que bo ouuisse & saberia o que lhe man-t
daua dizer ho gouernador, k que he despacha,se pera
poder ir tomar a tempo a armada dos que
auia de ir ao estreito. A ·isto lhe respondeo (ho Preste
{jue. ainda então chegara, & que alo tinha· yisto hum
terço das suas terras _qne· & ·que iri.a bo
nador a Maçuá, & que Jbe anãda.ria.recado & ·eat.ãD-stt
iria: & mais que faria ho souernador fortaler&as .em
fiUá' çuaqueol & em Zeila que eJe
tios os mantimentes E per· fim dà.tudo l&lo
41uis daquela vez ouuir---dóia Rodrip; &. maadolllhe qua
LIV.O VI. C.&PITYLO XXVII. 6i·
lhe mandaa1e- por· eacripto na Jingoa Abexim o que ho
puemador lbe mandaua O que dom Rodrigo fez
pera Yer ae se podia despachar, & desesperado de lhe
aio poder: falu. · .. · . #
C A P I T O L O XXV I I.
' . ..
De .como dom Rodrigo falou ao joáo.
Rodrigo chamado do Pres-
te algtia• vezes··& de aenhiia . .ho ouuio, & mãdou pergõ-
tar a- Frãeiseo aluarez n1uytas cousas das cerimonias da
igreja acerca do eulto diuino: de que lhe soube dar tão
boa rezio que ho ·Preste fieou contente, & n1andou ir
perante si Franciaoo·aloarez, &. mandou ho reuestir eo.
mo pera dizer o1issa, & perguntoulbe. boa sioificados de
todas as pee;as das veat.imentas, .& ele Jhos disse. E dali
por diante foy dom Rodrigo & oa de sua companhia
meJ,hor . prouidos de mantimentos que dantes, & foylhe
dada lltla tenda em .que se lhe .dissesse n1iasa ao modo
da igreja de Roma, porque oa A bexins. não a dizem assi.
E ho Preste mondou a todos esses senhores da corte que
a ouuissem •. ·O que elea fizerão ·de. boa vontade: & ho
Pre1ter & todoa tio hão Francisco aluarez por homem san·
to, & pediaulhe que rogasse a Deos por eles. E hüa
terça feyra.·dezanoue de Nouembro bem DOJ'te foy dom
Rodrigo do Preste pera lhe falar. E ele foy
eom ·todos os de sua companhia, & no primeyro palio
eneoe graoàes·tres horas primeyro que entrasse, & des-
poia .entrou na casa que disse com as mesmas cerirno-
Dia• que dante1 eDtrou, & desta vez achou muyto mais
.gente que das & muyta dela com armas, & asai
eetauJlo moyto maia v.elas, & a casa alcatifada de ricas
abtifas, I& a·a cortinas de borcado, & os estrados de
panos de· aeda: de modo l1 tu.do estaua muyto daulta.-
gem ·.ta primeyra. E dom R.odrigo entrou nesta ca-
aa com mail de noae peuoas d, au" companhia, & ea
66 DA HISTORIA DA INDJA
outros ficarllo de fora. E ·entrado don1 Rodrigo forio a·
·hertas duas corrediças, de que dom Rodrigo.&· os que
hião coele estarião conlprimento de lan'ias que .ali
os mandarão estar. E abertas estas corrediças .. apareeeo
ho Preste que estaua detras delas homem de meaã es-
tatura, !}Ue parecia de idade de vinte tres annos, & de
tantos era: de cor de n1açaã bayones não muyto parda,
ho rosto redondo & magro, os olhos grandes , ho nariz
a) to no meyo: de nacer a barba. E com
tudo tinha no rosto hüa grauidade de tamanho senhor
con1o era: tioba '?estida hüa opa de borcado sobre hü:''
roupa de sed·a, -na cabeça tinha hüa coroa alta, hüa pe-
"a de ouro outra de prata,- & poJo rosto tinha bum tafeta
azul como rebuqo que Jhe -cobria· a boca·& a barba que
hu1n paje abaixaua de quando e.m quando que Jhe pare-
cia todo ho rosto,· & despois bo toroaua a aleuan.tar .&
ficaualhe meyo cuberto. 'finha ·na mão hüa Cruz-de· pra-
ta laurada ao boril! eslaua assentado em hiia cadeira
real sobre hum estrado alto de seys degraos cuberto de
panos ricos, aa sua rnão ·dereyta estaua àü paje que ti-
·nha hüa Cruz de prata, & de cada parte da cadeira dou&
coan espadas nüas nas mãos, . & nos cantos do estrado
. estauão .quatro que tinhão senhas velas acesas. Em ho
Preste aparecP.ndo dom Rodrigo lhe fez sua reuereoci·a
abaixando a "Cabeça & poenrlo a mão dereyta no chão:
& ho Preste oulhou pareie, & l<>go lhe mandou
tar pelo ta corn·o se achaua ·naquela terra, & se
folgaua nela. Ao que respondeo que bem, & fol-ga-
ua muyto nela por ser de Christãos, & se ·auia por muy-
to ditoso de ser ho prin1eyro que ·a ela fora com embai-
xada. E despois desta reposta lhe. mandou pelo .mesmo
Cabeata as cartas que leu:lua pareie do gouern·ador., &
ho regimento que lhe dera, tudo na lingoa Abexim, que
ho Prest-e leo per si. E despois disse que daua .muytaa
graças a .Deos poJa merce que lbe fizera em ver o,que
seus antecessores nunca ele. cuydara .de ver.
E que muyto que· el.rey de Portugal maadasae
LIVRO VJ. C.API'MlLO b7
·fazer fortalezas em Zeila, Maçuá, &. porEJue
·.temia que os rumes se fizessen1. fortes. naquelealugaret,
& fazendose dariAo grande opressam a ele & aos Porto,.
guesf's. E querendo el rey de Portugal fazer aquelas
fortalezas, ele daria todos os n1aotimentos que se ou-
uessem de gastar nelas. E dom Rodrigo disse que si fil-
-ria, porque lambem desejaua de as fazer: & sobre isto
praticarão hum pedaço. E dom Rodrigo se "foy pera sua
ten.da muyto contente de ter falado ao Preste: & ho
Preste tambe.m ho ficou de sua embaixada, & de ter
doa Portugt1eses de que ouuia contar tan ..
tas factAnhas. E logo ao outro dia mandou chamar Fran-
-cisco aloarez, & lbe perguntou por m_uytas co.usas da
igreja Romana, & polaa vidas de saro Hieronimo & de
outros sant011,. & folgou muyto de as saber, & de·ae ver
em hum Fios sanolorum que lhe Francisco Aluarez man-
-dou. E no domingo seguinte mandou hum feruJoso .ca,.
ualo a dom Rodrigo : & , aquela noyte despois de estar
.dormindo com todos os de sua companhia bo maodoa
·chamar: & ele foy, & eotrou o a casa oade ho Prest.e
estaua com outra tal magestade C()Rlo da outra vez: &
diante das primeyras corrediças forão dados yestidos a
todos 01 da companhia do embaixador da parte do Pres-
te, de que se logo ali vestirão: & a dom Rodrigo de ..
rão outro vestido das corrediças pera dentro. E vesti doa
todos onde ho Preste estaua: & ele lhes
· dou dizer pelo Cabeata que se podi& ir embora com to;.
dos os de na companhia, & que bum fraogue
dos (JUe dant·es estauão na corte, & por ele lhe manda•
ria oo caminho as cartas que ainda es-tauão por
uer. E dom R-odrigo disse que não auia de partir sem
reposta, & ·que esperaria quanto eJe mandasse, mas que
lhe pedia que bo despachasse a tempo que podease ir
tomar a nossa armada a Maçuá. E ho Preste respondeo
per sua boca que lbe prazia, & se auia ele de. ficar por
e&f'ilão em Maçuá. E ele respondeo que posto que
aejaua muyto .. de I!' ·ir. per a que o
LIV&O VI. B

88 IJA IUI'IO.ü · DA .... IRDI\\ • .
lbe manfia11e, porqlW sabia que. aia• aeraitia a·el Re)"
de Portugal seu aealaor. E ooiato hca deepedio ào PnatB.
11 &orbeuee pera ... tenda.. ·
. •
C A P I 'r O L O XXVIII •.
. .
·Dtu bri§as qu1 oa&ltB antre hwgc dabreu !J- dona Rodrigo.
:Ao outro dia que fotão finte 18)'1 .Nouêbfo.
tié ·bo Preste •upita111eote daquela Jl&tte·.pera outr.a, &
tlodda dantee aia encuberto que . niogueaa 8o aio via
-partto en&Ao descoberto eneima di caualo ac(lpanhado
de doua paje• & pa.seu pot diaa.t,e da teD-
'da de dom Rodrigo: & 10!0 se Jeua11tou. a geatG toda &
11e foy apoa ele, k dom Rodrigo taanbtm. E aoles de
-partir 1e foy pareie hü aellor dlamado lue rafael , ctue
•ra elerigo, &. assi hü capitio ·do Preste IJera· ho
tlar, & mandaranlbe dar ei11coenta muJas & eaerauoa
peta Jeuarem farinha Yinbo, .& ol.llroa eecrauos peta
th• leu arem ho ia lo, & da1 ciocoenta não. lbe forào da,-.
da• .maia de trinta k cinco, & das --outru ao mais de
• & &Ugiia eacrauo1. E de tudo WDlOU clõ Rodrjge
ho D1elhor &. hb mais, .dizendo qu-e. tudo, era aeu: do
-que ae todos eacãdalizanto • principaJmête lozge
àabtea & Lopo õa .gama parque oàô deu &'01 outrgs se
Bilo as peores mulas·& peerea esorauos ·&c. que não abaa-
uule peta Jàea leuarem he fat'O. E porem 'dissi·mular.ão.,
tt !-lespoia qtre cbegarão aal corte, mandaMo ho Preate
perguatar .per hum &ade a dGm Rodri8'0 OGald bia a ele
& . aos de sua com,panhia, & ae lhes derão ludo o que
lhes maodara dar. E respondendo dom q·ue
do, di•e lor.ge da breu que não diaease &qlliJo que lhe
nAo de•Ao todas ·as mu·las : & as que derão erão lor.tas &
eegaa, & os escraaoà velaos & não valiio nada. PoreM
t} Jllli como tudo era bo tomara dom Rodrigo seao ·dar
JaBda a aioguetD. E dir:eudo dom Rodrigo que não dia.-
-.e ·aquilo, porll tudG era per.feyto: respondee
. .
LIWRO VI. :XXVIII.. 61
forre , iiabreu ' que 88 todo era pm-feyto que ele ma ti·
•ha , & a ele bo du•ão, mas que «<ati por aio
aeria a•i. E ào fmde se espantou 'mayto flouuir isto, &t
por nlo ouuir maia se foy cõtalo ao Preste. E despoi1
-de ele ido ouuerlo Jorge dabreu & Lopo da garna tais
palauraa que -vierio ás JanQadas & ás cutiladas, & Fraa ..
-cisco aluarez os apartou, &t lorg.e dabreu ouue hüa JlB•
,quaaa eutiladn ê hüa perna: & ele & Lopo da gama fo.-
do deitad<11 fora da ten&ta. E bo Preste dellla'
brigaa lt ho aobre que fara, maDdoo dizer a d8 Redrigo
-que entregasse .aa mulas & 01 eaerauos a h'll homem que
mãdou ,ij euyd&OD de leuar h o fato . dos
guewe, & que e)ea Dão fizessem maia que can1inhar. E
uom Rodrigo bo fez assi , & aquela noyte (oy chamada
-do Preste pera ho amigo eom Jorge dabreo. E por
mais que lbo ·ho Preate· rogou uortca quis , ant:e1 lhe
die que IJo. maa,duse apartar· de aua tenda & a Lopo da
-gama. E bo Preste ho fez -888i, & mandou fl& apouse·n ..
tar na tenda de hum aenbor da corte. E esta·ooo aqui
ebegouae ·a festa elo Natal, em que ho Preste maiMiou a
Franoiseo Aloaawz que Jhe dissesse miaa,. q.ae the ele
-disse eeguado bo Jl()IJSO costume , que ho Preste louuo•
Duyto, & disse que lhe pàrecia que eataua no parai10,
&, vio caafeaur, k ootnfigar os Portugueses, o que I h•
pareceo em -eslremB bem : & ass.i ele como f)l gN.de• &r.
DUtroa de sua eorte estaulo muyto -eoateatea do eul·to
4tiuino doa Portugueaes & diziio er!o homh san-
etOB. E tambem ouuirão todos as matinas do Natal que
os diHerilo mu,yto bem : & na no.yt:e •e g-uio-
te á·mea noyte tornou ho Pre1te a caminhar, &: parti•
asai por p.s1ar .sê bie p-808 muylo rois & estrei•
toa qtae tinha pem passar·, & ond(l muytaa
las & gke. E passsdos estea p&SIGB mãdou dizer bo
Preste a dom Rodri8o, lj ele tot•aua a seu ca.mi'llho.;
que· nlo camiabaase mais do -que lhe nnld·asee. fi com
quanto coa ciiea atraa •inguem aabia onde ele ·h ia, & a
1eme pMUua acàaua hüa têda brloa aNilada, a
HI
,
60 ·DA BIST.OBIA DA: 1NDI.& ·
que se fazia cerimonia como ae bi esteuease bo l>reete':
começou entlo de caminhar desta maneira: metido em
.hüas cortinas de seda roxa sem corridiças de diante &
tão altas que ho cobrião a callálo-. E estas erlo leuada•
per homês cõ varas que h ião da parte de fora, ele ves.-
tido destado, & na hiia coroa douro & de prata;
eaualgando ê hiia mula ageazada de ri0os goarneeiml!-
tos com hü rico cabresto de dous cabos sobre ho freo,
por onde dous pajes leuauão a mula: leuaua mais outro•
quatro, doua de cada parle , htls com as mãos sobre he
pescoço da mula, outros sobre aa ancas. Diante das cor-
·tinas Jogo pegados coelas leuaua vite pajes dos princi,..
pais , & estes a pé & diante dele• hião seys cau&Jos a-
destro, & diante dos caualos seys muJas cõ ricos. jaezes
& goarnianeotos, & cõ cada caualo & mula quatro tno-
4iOI desporas cõ bõ8 vestidos, & dous os leuauão pelo
·cabresto , & dous hião com as mloa sobre as selas cada
bQ de seu cabo. Diãte destas mulà&· hião Jogo vinte se•
ahores dos principais da corte, & estes em muJas 'esti ..
dos de marlotas de seda & bedês, & diaote destes fi ..
dalgos hia dom Rodrigo & os de sua eompanbia por
mandado do Preste por 1he fazer honrra: & dali a gran-
de espa'i<> não bia outra gente de pé nem de caualo,
àião corredores diante que fazilo apartar todos. Leuaua
mais bo Preste dous capitães da goarda l} na sua lingoa
ae chamlo Betudetes & sam gràdes senhores , & cada
hü leuaua seys mil ho1nens darmas, hü da mio ezquer•
da outro da dereyla, & ambos fora do caaninbo & bem
do Preste, & se caminhão por terra que he
forçado irem todos por .hü carninbo, vay hü muyto atrai
do Preste & outro muylo a diante, & ca ho diãtei·ro via
aempre quatro leões presgs por fortes cadeas. Hião maia
eõ bo Preste detras. dele duzentos de que Gl
cento Jeuão cem jarras de viobo de mel cada hüa de
ae-ys canadas, & outros cento com cestos cbeos de pio:
& ·coeates vão seys homes detras deles li os goardão. E
este maoumento ae recolhe uas tendas do em el,

,
LrtRO. VI ... CAPITTLO' X)(O:. 61
deaeauatgando : hilo tambem diante desta gente as te.
.das das igrej-as da corte do Presle ·qu.e B&Rl treze, & as
·pedras dar a de toda• :. & eada pedra leuào quatro cleri-
·gos de missa em hua cousa como padiola que aos
,hõbros cabertas de panos de ieda, & vio outros cleri-
gos de sobresalente pera· quando ea·tes cansarem.
.te cada htla hilo tres homês dordês , com htla
·cruz aleuantada, outro com· hil turibolo encensando, &
·outro diante tanji!do hiía campain.ba, &t toda pe•oa que
,yay pelo eanlialao em euui&do acApainha se afasta pera
.fora, &, se vay a oaualo decesse, em tanta venera·çAo
·tem aquela ped·ra onde •e põe bo. sacrameDto do altar.
A gente que h.ia com ho Preste não tinha cõto, pori}
• espaço de quatro legoas não auia· quem rompesse
-pelo caminho, aê por fora dele: seria a decima parte
desta gente toda Jimpa & bê tratada, & a outra gente
comü em lj ha muytos pobres. E nesta gente não en-
·trão os grandes senhores & fidalgos, porque com cada
IJO. aa quantidade ela gente com que abaUlo pouoarlo
hna boa cidade ou tdla Despanba,. & hiri&o bem ·cem
mi·l em eaualgaduraa de mulas a fora as que hião adee-.
. tro que seriio tres tãta1 , & . a fora as de earr.ega que
não tem coo·to: & a fora os caualos ·que erãe muyto&.
-E era cousa fermosa de ver tlto nun1ero de gête & da-
limarias: & eousa muyto pera espantar como auia terra
que os- maoteuesse, porque a corte do Preste he muyto.
-abastada de maotimeatos.
C A P I T O L O XXlX ..
De come ho Preste dupaehou dom Rodrigo de lima •.
Ássi camiabou ho Preste ehegar Jtlto de hüa grar.-
de i-greja da auocação da sanctissima 'frindade per& a
fazer eoosagrar, & . pesa muda·r a ela a ossada de sea
pay que estaua em outra pequena· junto daquela: & aqui
chegou primeyro·'dia; de laneyro do ãao de vinte hGc,;·
f)l DAí IKDI'l ·
..nde fay rf'eebido de olerip & &dn qae paMarilo tle
·•inte m11.. E aqai ho Pre1ta •eu arrayal em Wla
pratica q teue co.m .àa Rodrigo· JlB' peseoa Jhe
alglls achaques sobre lbe nio dare• o que lhe elrey
de Portugal mãdara quldo làe ·•ldaua Duarte galuão
-pot' embaixador., 8t na me1ma pratica lae mãdou dizer t
se fora no tempo dos reys pa•ad01 ·& •lo leoara muyla
YOupa que lhe nio fiaerão ·neabua hoarra: & que ele llie
faz.ia 1nuyta. A q.ue dom Rodrigo Napoadeo q tinha re..
cebidos ê suas terra• n•uytoa agP81108, a•i de desprezoa
& de roubarem a ele, lt aos de aua companhia v.estidQB
.& quanto .leuaufto pera eomer, Bt tra ou quatro vezea
as quiaerio matar: & que se IJIOIIreslf.m naqaela terra
auião dir .ao par.aiao, porque ·raorrilo Qlartyres, porque
tudo sofrilo por aeruirem a Deos k a el Rey de Parta-
gal. E que doutra maaeira tora Mateus honrrado. em
-Portugal , por di•er que era· seu eaabaixaior, & que
.doutra era ele, ped.indolbe que bo ·despacha•ee pera ae
E o Preste respondeo 1f bem 1abia a ltonrra que
.Mateus recebera aaai n• I adia eo1a0 eta
-que nlo oau·e11e menencorea l}logo ho despacharia &
·muyto ll •ua ,ontade, .Jt .coiato lao dBipedio. E no dia
.do• Reys seguinte, se hautiaou ho Preste com ••a mo-
-lhar., k sua may & bo Pat-riarca.: outm muyta p.o-
te, assi sP toroio a bautiJar ·oaqoole ae ..
. IH'U costume •. E ho bautisqo :foy em hft tanque
grande forrado de tauoado coberto ele pano IHii-
eerado: & despois que está cheo dagoa l1 hü clerigo
benze & lhe dei la oleo, entra ho tlque per
bus degraos que tem: & hü ciPrigo que foy seu mestre
homé de §Nade idade., lhe trea vezea a
debaixo dágoa: Eu te bautizo, em nome do pa-
êre, do filho, & do •pi rito santo. E 8pm• de baati-
•ado, ee foy a bü cadaiallo q estaua junto do
eercatlo de ··corre di <(As !cie taleU, pera que dali ·•em ·ho
werem ·11isae quilto• se bauii&anlo., E bautizado el'! :&
ndaer .&aua lllay .& lab ht.i•ca,.•·hltutúoa,cranr
LIVAO VI. :XZIX'.- 61
lle numero de gente: & tambem n1àdoo eonnidar os
Portugueses,. per a .se· bautizarA. Dias nlo quisserào. Des-
pois disto sem mais passar cousa l1 de contar sttja, ten-
,., bo_ ·Preste deapacàado a dom Rodrigo , mãdouo cha-
mar pera ho faaer amigo oõ Jorge & por mais ll
lho rogou nunca quis, antes lhe pedio dõ Rodrigo, que
.Jx> deteoeaae dou• despoi• de sua partida porque
JJão fo•e coele, q•e era certo que bo fJUeria o1atar. E
.ho Preste &ou muyto de dom Rodrigo
")uerer fazea: bG .que. Jhe J'Ogaua: & dea.pedioh9 sê oo
'querer & cõ rneaeaooria lhe não qllis dar ve.stid()t
de borcado que tinha pareJe ,. & pera 01 outros. E per
hü doa Betudetes, mandou a F1·anciBCO aJuarez bua
.Cruz de prata, & hü. cajado da mesma Jaurado de
pia., por posse da -aeahoria que lhe tinha dada : q era
faael.o IHipo daq·uele• lugares do mar Roxo. E despois
iie dõ Rodrigo ae ir pera sua tenda, lh,e mãdou ho
te trinta õças douro , & cincoenta pera os de soa
pnhia, mãdaudo qae destas ouuess.e Iorge dabreu, &
-os que ·eatauão cõ ele sua parte, & assi dessem.carre ..
.ga• d·e far.ia-àa que mandou, & oyto mulas, de trinta que
mãdaua: & r>era eJ Rey de Portugal mãdou per
.A bdeaagó seu paje; hüa coroa de iUa pessoa -dou.ro & de
prata: & que disaessem a el Rey de Portugal qtle lha
ma-adaua ·eo•o de filho a pay, & que Jha mandaua co.-
IDO cousa prezada, & por ela lhe apreseotaua todo fauor
ajuda,& socorJO de dinheiro, gentes, & n1antimentos que
lhe fu.em pera fortalezas & ar toadas ij fi.,.
aene no eatreito do mar ·Roxo. E assi forâo dados a dG-
Rodrige cineo saquinhos de borcado, & nos tres bião
·ires earta1, pera el Rey de Portugal : scriptas em per-
gaolioho, em Jiogoa Abexim, Ara bica, & Portuguesa, &
duas pes-a ho goueroador da lnd.ia:. & estes mettdos em
hü cesto furrado de paDO & coberto de ouuro, & as-sela-
do ho fecho:.& disse ao embaixador que se podia ir quan-
do quí:se11e que de todo E ele quisera
lalar .. ao & Dão pode -por a madrugada.
passada pera outro lugar.
DA.. BISTOR1A DA lii•DIA :
.
C A P I T V L O XXX.
5 : 1
,
.
De como dó Rodrigo • da corte de Prute , da
causa porque .tornou a ela.
Despachado dõ Rodrigo da maneyra qoe digo, partio.-
se dia de Cinza t-reze dias de FE'ut-reiro. E ·forio coele
dous filhos deCabeata, ;por cujas terras au-ia de pa1sar,
per-a ho goardarem lhe darem pelo caminllo bo.neces-
ea·rio ., & fi·ia tambem bu.m frade. E coestea bia Iorge
da breu., ·& ficauio atras de dom Rodrigo. E logo nas
primeiras jornadas, lobão gõctaluez feytor da embaixa.-
·da, sobre palauras que ouu-e cõ hu lohlo feroãdez que
bo aeruia lhe deu com hü pao na cabeça: do que ag.-a-
uàdo lobão. quis ir ma;s eom he feytor,
& meteoae com dõ Rodrigo. E dabi a poucos dias, cami-
nhando ho feytor só, saltou coele Jeuldo hiia lança com
.que lhe d-eu duas lançadas em hila mão., &, nos. peito•,
-onde bo ouuera de passar ao vão; se a não se de-
teuera ê büa costa: & sobrislo foy loJ.Iio f-ernLJez pre-
so por .Rodrigo, & . hüa noy·te fugio pera Iorr:e da.-
llreu & ass·J ·escapou. E proseguindo por seu cam1Bbo .,
ter com dom Rodrigo bo mordon1o IRÓr do
& outro senbo.r, que lhe d·iaserão que os maadana pera
fazerem au1izades antrele & Jorge pori} ticaua
muyto descontente de partirem itnmigos, & irem assi
apartados polo caminho: rogandolhe da aua parte que
fosse seu .an1igo, & fossem juntos: & tAto Jhe d;saerio
.q se ouue de fazer. E feyta a amizade, deri a cada
Portuguea -sua mula da fJarte do Preste. E continuarão
aqueles dous senhores cõ elee seu caminho, dizendo que
assi Jbo Blandara ho Preste, pera os apresentarê ao ca ..
pitão mór da armada dos porque ho Bar-
nagaeis que ho ouuera de fazer ficaua na corte: & asai
caminharão ate chegarem ao lugar de Barua, onoe se
tanto ho tempo,. em que a .arma.
LIVRO vr; CA:PITVLO 86
. ,a d<>S Portugueses· aula di r Maçua pera os leu ar ·a
'(lndia. E passado ho tempo, dom Rodri«o contra a ami-
-2ade que tinha feyta com lorp dabreo, mandou ao fey-
1.or que nãe desse mantim@to nem· aos de sua com-
J>anàia. Sobre ho que ·Jorge dabreu se queixou ao mor-
domo m6r do Preste, & ao outro senhor: poJo que maa-
darl o chamai', & ·lhe afearão muyto ho que fazia, ro-
gandolhe que desse ho mantimento a Jorge da breu, mas
mio bo pederão acabar eoele: & cada h& se foy pera
sua ficando oa Abexis muyto agrauados de
-dom Rodtigo, & espantados de sua crueza. E como
JQ_rge da breu era não quis vsar de mais ro-
da Rodrigo, & determinou de tomar bo manti-
por Corça, pera q a tempo que todos dorn1iAo.,
ealtou --ean casa de dom Rodrigo ondestaua ho feytor q,
tinha mantimento, & com os de sua companhia ar-
mados , de,spi ngardas ., Jãças , & espadas : começou de
"flbrar as JlO'rtas cõ hü vay & vem: & foy a cousa a ta·n-
to, que hü criado de dom Luys fuy ferido de hüa. -es-
pingarda dr,· & ele se acolbeo por büa porta falsa á pou-
aada do m rdomo mór & do outro, que ãbos forão pren-
der· Jorge abreu : & os seus por não terem poi•Jora nlo
1e defenderão com as espingardas: & presos -os :ma·nda-
t'IO a outro lugar eõ goardas· que os goardasse1n. E nes-
te tempo quiseril ho mordomo tnór & bo outro, fazer a-
migos da Ro.drigo & lorge dabreu mas nilo poderão: &
tJOr isso & ser passada a mouçfio de se irem na ar-
mada da determinarão de os tornará certe: &
eaminhando ;era Já acharlo bo Barnagaejs, qoe sabetJ·
do bo ·caso que era acontecido, repreDdeo muyto ho
mordomo m "r & bo ootro de leuarem os Portugueses á
·eorte, & di selbes que IIH»s deixassem, & bradou muy-
to com do . Rodrigo , & coro ·Jorge dabreu , ·pelo que
fizerlo, q airi'4a perantele 'Ouuerão m·uyto mas palat.tras,
do que ho se espantou, & de ver quam pou-
eo amor se tinb4o em terra estrangeira onde ha-
uilo ·eer muyto_ amig()8 : & -tomou a 4otn Rodrigo a
LIVRO VI. I
88 IJI&10&1A DA. .•
eoroa &, os .cart.aa do Preste ll leuaua pera el rey de
Portugal, & leuouos c&igo. a suas terras, & deixou dcl
Rodrigo no lugar de Baru' , foysae Jugar de Barr•
cõ lorge dabre.u: doode ele & dow Corão
despoi" leuados á do Preste. Mas conw nlo JJo: pude
. &ttber. . . .. .. .
C A P I T V O XXXI.
. .
De corno dqm Luys 1e tornou q, partir da oorte do Prelte,
E estando Da aos dias .Da.bril , da.
das a. dom Rodrigo as q lhe dom Luys de mene-
aes scriuia, que uaqueJe dia fosse com eJe eQJ Ma«cua,
porque não podia esperar 1nais por .amor da moução: &
•ssi lhe daua conta do falecimento deJ Rey .dom Manuel,
& escreuia tambem ao Preste, pedindoJbe que ho. des-
pacbase E vendo don1 Rodrigo & outros coo•e
naqoeJe dia se acabaua ho prazo· que Jhe dom Luys pu·
uha l} fossem em ficarão muyto tristes, .por
.,ereQl que auiào ainda de ficar h.ií anuo JJ&quefa terra;
& muyto mais lristes, polo faleci»lento deJ Rey do111 •
Manuel. E acordarão em conselho de ho dizerem ao
Preste: & logo de rapar as hüs· ao•
outros .que naquela lerra se faz por dó, & vestireQl
nos pretos : & estando os Portugueses neste officio leua-
ran.lbes ho jantar, & os ho leuaulo vendo ho que fa ..
zião deixarão ho comer sem faJar.em , & farão ao
q.ue Jogo maod.ou preguotar per dous frades a
dom Rodrigo que lbes acõtecera. E ele não pode ..
der com choro : & Fraocisco aluarez ll1o disse pelo cos-
tume da terra dizendo. Cairam os estrelas & a lüa, &
ho sol escureceo & perdeo aua claridade , & n!o temos
quem DOS cubra nem q:uem nos ernpare, neo1 pay oem
may que por nos seja, se não Deos que he pay de to-
dos. El rey dom Manuel nosso senhor he falecido da vi-
da deste mu.ndo ,. & nas 6eamos orfàos & desempara-
dos , & a esta derradeira plllaura q quui uãe pode dir
Lf\1&0 VI. CAPl'I'VJ.O IW
·"2er com choro, 1!-leuantarão todos hü dorido prAto: & os
frades se forllo tambtam cb.orándo a dizelo ao Preste,
,que triste com aquela noua. E em sinal de
tristeza mandou apregoar, que por tres dias nam ae a-
brissem as tendas onde se veodia pio, vinho , & carne,
& outras mercadorias, & assi se fez. E passados os tres
diaa mldou chamar dom Rodrigo & os outros Portugue-
.ses, & todos entrarão onde ho Preste eataua. E ele pr•
guntou a dom Rodrigo quem herdara hos Reyno1 dei.Rey
de Portugal seu padre, & ele diste que bo Principe
dom lohlo seu filbo, & resr.K1deo ho Preste q nlo ouuea-.
.sê medo i} A terra de ori1tlos eatauft, q bõ fora bo pay,
·& seria ho filho, & <t ele Jhesereueria: & dõ Ro-
. drigo -lhe pedio q_ ho de8pachasse, porque bo eaperaU&
no ma:r lao capitlo mór da armada dos Portugueses, 8t
. -que assi ho escreuia a aaa ai teia: & ele'·disse que logo
:entenderia em aeo df'spacho, que lhe CDrnaí&em eal'-
1&8 de dõ Luys na sua li·ngoa: & dom Rt>drigo ho fez
.asai. E· coiDO sabia ho •agar q ho Preaie tinha no• des-
-pachos , logo 110 l'ortugues de sua e8panhia
-chamado A.yres dinz, bü A be:xim cê cartas a dom
·R(Jdrigo: dandoJhe a rezfto porfl nl .. fora en1 ·Maqua ae
prazo q lhe po81era: pedindoJ·he q pera ho ãao tomasse
1*' ele. E nisto· part.1ose ho Preste pera outra parte, &
dto que· foy apousentado dom Rodrigo lbe
'Ç& ·ptera ·ae ·ir, & .ho Préste lhe disse que ·.nfto ouuease
.medo, qoe ja tinha mldado recado a dõ Lu.ys .que es-
perasse-: & por importunaçfto de dom Rodrigo, mandou
·Joblo bo feytor com cartas & de dõ
·drigo perà dom Luys, & deulhe hila boa mula & v·est).
rieoa lt dez onças douro , & mandou cõ ele do0'8
tCJriados seos : & dali ·a lin · mes ·& meo despachou ·da Ro-
·drigo, & df'u ricamete ·de vestir aele & aos outros, &.a
quatro deu cadeas douro ca cruzes & a cada hil -.ua ma-
la , & pera todes tlouro &, cem pa·aos de .ae-
rda : & dãdolbea a sua 08 deepedio.
I I
68 DA HII'IORIA DA INDJ• ·
C A P I T V L o. XXXII •
.
De como foram morto• quotro Portuguetu l Arquico. E
de como dó Luys de menaa se parti" de MOfUa.
Ficando dom de Mene1ea no porto de Maçua I
quanto forão chamar dom Rodrigo á corte do Preste,
hião os Portugueses muytas vezes a terra & tratauão cõ
os Abexis àtre os quaeie morauão obra de quareata
Rumes : q como qrião mal aos Portugueeea não podii
sofrer . veios antresi, & não ousauão de lhes fazer mal
porque erão muytos, porem dauãlhe diasimuladamente
grandes encontros, & fazianlhe muytos desprezos : ho q_
eles entendendo ajuntaraose büs doze; & sem ho do&u
buys saber se íorão ·a terra armados de chu"as , &
delas, & desafia rio os Rumes todos juntos: que não
eusaodo de sair ao desafio, lhe disserão que
nio queriilo oada coeles : do que ficarão muy
.& desacreditados com a gente da- terra que vio ho
.safio. E logo ao outro dia que isto foy , ferio sete sol,.
dados a A rqaico em hil paraó: que não sabendo ho que
·era passado antre os outros & os Run1es, não Jeuaram
mai-s t} suas espadu. E vendoos os Rumes daquela ma-
aeyra, virilo que linhio tem1)0 pera se 'ingar: & ajun.
tando algiis o1ouros derão sobre os sete , de i} matarilo
fjUalro, & isto co1n grãde eatrõdo &. arroido: & l} cõ
'luãto QS Portugueses erio CristiOI, nuca Xumagali soJ..
.tão, l1. era a da terra quiB ·Já acodir :. sabendo I}
.os Rumes- & mouros matawlo os Portugueses: nem me-
aos A rraiz jacob regedor das terras de B.arnagaeis. E
aomeate hii fidalgo Abexim que auia non1e Gabrizesua
.acodio ao arroido mas oit fez nada, nem trabalhou por
.valer aos Portugueses.: & despois de mortos estes qu·a-
tro fugirlo oa. tres, & acolb.i<Jos ae paraó· forio dar· a no-
ua a dõ Luys. E. os rumes & mouros. temendo que fosse
dom Luys tomar viogiCfi da morte dos Portugueses aco-
VI. XXlilll. 69
IJJetlse ao sen·horio de hü·Abexin• chamado Dar feia, que
eom quãto soube ho mal que deixauão feyto os .nio
prendeo. E sabêdo dom Luys a morte dos fgrtugueses,
maodouae aqueixar ao Xumagali, di&endo q.ue se ho lllr'
gat nã fora do Preste que el Rey de Portugal tinha por
irmio q ele ho destruyra pela morte dos Portugueses.,
&· por isso bo deixaua de fazer & lhe fazia. E Xumagali
lho mandou agardecer , desculpãdo se lhe de não
gar os rumes &· turcos porque os não podera prender.
Isto ))assado vendo dõ Luys que não. hia dõ Rodrigo ag
prazo que Jbe posera, & q se Jhe gastaua a ntoução pe--
ra sayr do estreito: partiose deixando escritas cartas a
-dom Rodrigo, em que dizia a rezão porque oilo espe.-a-
ra por ele, & auiaaado ho que nio se fosse de junto do
mar , que per a ho ãno toroaria por ele : & t} se q uei-
•asse ao P1este da morte dos portugueses.. .
C A P 1 T V L. O XXXIII.
·De come dom Rodrigo se tonaou á cor.le do Preste H
tomou a partir.
P arlido dõ Rodrigo da do Preste p.era ho porto
de Maçuá não andou muyto q não achou Ayres diaz &
·:bo João goDfi&luez com 88 cartas de dõ Luys de
meneses. E quando dom Rodrigo soube '1· era partid0
Dlo deixou de prosseguir seu caminho, .& mais poJo que
lbe dõ Luys dizia q não se apartasse de do mar li
pera ào àno tornaria por ele. E chegado a A.rquico a,..
chou hi muytos fardos de pimenta & de roupa q.ue lhe
dom Luys deixara pera seu gasto & dos de sua cQnlpa,..
Dhia, & porque ti.ohão que gaslar por lhes ho Preste
midar dar todo bo necessario ale ll se fossem: acordou
cõ parecer de todos que mandasse ao Preste a
da p.imeota & da r.oupa, &. que Jha leuasse ho ft!y.tor, &
fosse coele Francisco aluarez pera Jer. a carta de dom
Luy,s ao Preste, em que as lhe Dlidaua da mor..--
10 !tA bA 1NMA
te do& Port"gueaea, & pera ambo1 requererem ao Prea·
que fizesse E isto nssi assentado parecendo
a dom Rodrigo que ho Preite faria muytas mercea a
quem leuasse a ·piment&, d .. terminou dé lha IPuar ele
mesmo & leuarlha toda pera ho obrigar a fazftrlhe m6rea
rnercea. E quando FrancisctJ a·tuarPz soube cotno queria
ir & leu ar toda a pitnenta, estranhou·the nfto ·dei!Car af.
güa t\08 que ficauio, maa ele não quis dPi.tarlhn: & par-
tiose hó primeyro dia de Setembro, & na flm de No-
1lembro chegou á eorte do Preste que estau" em bü seu
reyno chamado Fatigar. E apousentado dom Rodrigo
foy falar ao Preste, & lbl! deu ho que lhe Je-
uaua dizêdo que não bia a mais q a leuarlho, & deulhe
a carta de dõ Luys de meneses que lbe es-criuia A-êérc•
dos Portugueses que lhe matarilo em Arquico eaoriptá
e:m lingoa A·bexim que ho Preste leo. E despois di1ae
the pesaua muyto de dom Luys nlo vingar Jogo altles
Portuguesea, & matar a quãt()s tnouros-au;a em Arqui-
·Co! & que ele mandaria fazer justiça, & assi o fez.
da hi a algiis dias despAchou dom R«lrigo; & A élé & a
Franciseo aluarez deu trintà nquias douro & panos,
& mãdoulhea d·ar de vHtir: & disselhes ll fossem de và-
gar porque âuia de <lespachar bü embaixador que qu@-
ria mldar a el Rey de Portugal, p-erft ll soubesse qullt-ó
desejaua: & que auia dtr eoele ate MâçuA ho juetfça
mór de sua cort.e pera fazer justiça sobre ft morte dos
Portugueses , & perãte dõ Rodrigo disse A-o justiça b\Ót'
que prend.esse todos os .rumes, turcos & mouros, ·8t
Christitos <} nehasse que ·esta o lo em A rquieo no
que hi matarão os Portugueses, & os lJ. achasse cufpa ..
dos em &ua trJorte ou em nAo prender@ aqu_eles que M
rn:atarão, que os entregasse a qualquer cap;tão nlÓr da
armada do9 Portugueses, pera q fizesse deles e&-
·rno ·the parecesse. E coest·e se part1o d3
Rodrigo , & no caminho ho ·alcanç·arão ho just.iça m6r,
& despois ho -ernbaixador que ma·ndaua a Portugal que
auia DOme Zagazabo ·que fora jà lá , :& iHIÕia:-àe• •·lia-

,
LI"V:l\0 VI. eAPITVt.O XXXJIII-...
goa Portuguesa. E indo todos por seu caminho·cbegarã a
Barua t} era perto 4o mar, &. po.r não aehare nenhüa no-
- ua da armada dos Portugueses· se deixarão estar .ate ser.
• moução de pod&t vir. E neste·tempa foy ho jus:-
nlór a Arquico, & Jlreodeo Xuma.gali soltão, & Ga,.
_ bri jesus & Arraiz jacob & Dafela palas cousas- q diüe
atras, & leuou os preaoa á corte, õde disse ao Preste co ...
mo aquele aono nã fora a armada dos Portugueses ao
atreito,.& que os eJnbaixadores ficauão no lugar de Bar ...
ua: & ele Jhes mandou logo recado que se fossem ao Jugar
ele Aquaxumo que era UJeJhor Jugar ho de Barua, &
hi mandou &ar aos Portugueses quinhentas carregAs d.., ..
trigo·; çem ·vacas, cem carneiros, cen1 paneJas de mel
outra&·tantas' de manteiga: & ao seu embaixador
dou dar ·Viote carregas .de trigo & outras t&tas vacas &
, & outras iltas· panela$. de u1el & de mantei•
ga •. E. usi esteuerãG aJi_ esperaodo ate q foy a armada da.
lDd1a. _ _
C A P I 'r V L O XXXIII.l._
.
Da como c1D Luys de saqutou Dofar-, g chf!JO'U:
. -a Orrnuz •.
' -
Partido dõ Luys -de Maçuá foy sobre Dofar htllugar
no estreito grande & de grande trato pouoado de muy·
ta gente todos mouros,. que v.endo a armada de dw11l
Luys fizerão mostra de se t]uer.erê defender, mas oomo·
\'irão desembarcar os fugirão, &. ho lugar.
foy saqado & queymado. E deste lugar seguio dom Luya.
aua .rota· pera Ormuz, õde chegou: & qoàdo .soube que
Raix xar.afo era perdoado & fey.to goazil ,. & Raix. xa·
mixir fug·ido, estranhou ho muyto ao gouernador n1os-
,rldo grande u1enecoria ,. & não podia ver Raix xa.rafo,.
& poJo não ver se partio logo em A gosto sen1 querer ir ..
eõ ho gouernador. E chegãdo á ponta de Diu aoaou ho·
tempo ainda tão verde que Jhe foy arribar a Or"!"
muz & hi eeperou , & .parLioae pera .a Ind.ia com bo go•·
uernador.
DA· Brt'P81tiA J)A tNDft '
C A P I 'f V L O XXXV.
·De como Antonio jaleyro se leuátot& cem diairnulaf'o de
ir Ja•r presas ao ca6o de GtJllrdafum.
' .
Como quer 'li neste têro as lioeoccas pera tratar & fa-
2er presas se dauã na lndia liberalml!te ,- auia muyto
poucos li as nilo pedissem, & por isso antes 'll dom Luys
de menesf's · partiHe pera ·ho estreito desta vez q digo
htl Anton-io fa1eyro que aodaoa na India: com ser aa
· vezes Chat1m & outras lascarim, pedio licenc;a a Fran-
cisco pereyra pestana capitlo de ·Goa pera ir fazer ·pre-
11as ao cabo de Goardafum, dizêdct q !dauilo (M>f ali
muytos mouros ao long-o _da ·terra em terradaa peqaasem
lJ. passaolo muyto dinheiro düs lugares pe.-a os
& isto parecedoJbe que andau11o ses-uroa doa Portugue-
ses de lJ. nã serião vistos por anda rê assi ao lago da c:o&-
ta. E pera Franc·isco pereyra lbe dar & de me-
lhor võtade, lhe prometeo parte da presa , ou lhe deg
. logo cousa certa: & por isso lba deu , & mais lhe man•
dou dar do almazem de Goa quatro berços & hü falclo
de tnetal que assi. foy no partido. E a t!çlo Dantonio
fAieyro, següdo despois pareceo queria coesta cor de li-
'Cêça per a· fazer estas prPsas êcobrir a maldade q- auia
dosar ê se fazer cossayro de teda roupa. E a· fora ter
pera isso ·grande al1elidade & ousadia, sabia muyto bê a
Jingoa Arabica & Persiana & outra·s. R auida a JicAça
de Frlci1co pereyra &, os berços & falcão , artilhou h(ia
fusta de cayro que tinha & hü paraó pequeno: & lcon-
uocou pera irean eoele ate vinte Portugueses, hüs ome.
ziados & outrQs ·pobres, a que ·prometeo de 1-bes f.azer
as barbas douro, contãdol-he ho -modo de que auia de fa ...
zer as .-presas. E .. certos este$ soldados, eõcertouse
cõ certos Chat:is Portugueses casados ê Goa <} tinhiio
hüa tert'ada Dormuz & hü huquer de Cananor q auião
de·leuar carregados de fazeda pera ê Calayate &

LJ.aO VI. XXXV. 73
Mazcate dllde auião de trazer caualos ê retorno: & ê
quãto se ho b.oquer & a terrada acabauã de carregar
n1ãdou diAte a hii Frãcisco faleyro de Setuuel q se fosse
ma fosta- & na terrada oo oa outros Lascarins espefalo a
Chaul , & assi o fez: & êtrãdo Do rio de Cbau cõ a
fusta pera fazer agoada, 1nidoulhe Sim Ao dãdrade capi-
tão da fortaleza tomar ho leme & a veJa , .q Frlcisco
faleyro teu e maoeyra pera a auer & sayoee Jogo. E dea-
pois de vido A ntooio faleyro c.õ a terrada .& buquer lo-
rã fazer agoada á ilha das vaeas : & estãdo h i forã ter
coeles hQs dous mercadores hüa cotia q ilo
de Diu pera Persia, & leuauAo roupa fina de CAbaya 'l
valeria seya mil pardaos, <} Antonio faleyro lhes r:oubou
cõ quãto leuauào aeg·uro. E de oa meter a tor•
meto pera eõfessal'ê se tiohio maia, -os catiuou aoa
seruidores ·Cl midou meter a bieo na fusta -&
no paraó .pera remare. E despejada a -eotia .& metida ne
lOdo, part.iose pera a outra costa .c3 aa velas de ·SUa cõ-
ia<Jo ele na terrada, &. como ainda Já era·
eraJiaea. ho quasi · poc- daulte, & achaulo ho mar
muy grosso em tã1.o lj com .os grandes mares lhe _salloti
fora .ho Jeme da terrada, & andaroo tres dias sem bo
poderê meter, & nisto paasarJo nwyto grMlde perigo
de se perderê eõ se vere 1nil •ezes alagados. E tornado
ho leme a meter passarA ai.Jante & forão aferrar terr.a na
·costa Darabia obra de treze legoas de Calayate, &. ju.n-
tamente eõ a terrada, a fu.sta & ho para6, & ho .ftuttuet
descayo & foy ter perto tle Dofar & h i se perdeo oõ quã·
to leuaua , saluo noue homês tcdoa Chatis sobre logo
acodirão muytos mouros pera os matare -sabendo q -erio
Christàos, mas eles se demderio .eom as espi·n-.
gardas que Jeuauão q ee saluarão & for.ão ter a· -Dofat
cujo XE-que por ser a&uigo dos Portugueses lhes ·•nuy-
to gaaalbado & lhes deu com q se cobrissem & pouaa•
das, & lhes disse q ficassê coele ate q ali _fosse ter algil
aauio de em q se fossem, & .assi .00 fizerãoJ
LIVRO Vt.
C A P I T V L O XXXVI.
.
De como btonio ftJleyro foy ter tJ Ca'-Jau dupoú t1
Dofar: g do que fcz.
Conhecido por A otonio faleyro oodeetaua tirou per a
Calaya te , onde foy surgir & bi vendeo a fazêda q rou-
bara aos mouros na ilha das Yacas, & eles se Jbe resga-
'arão por dinheiro q lhes foy emprestado por outros ll
coohecilo. E como ele determinasse «Je executar ho ma!
I} bia fazer, disse aos Lascaria i} ião coele q bo Xeq
de CaJayale Jbe deuia eerta soma de dinheiro q lhe ni
quisera pagar, ãtes sobrisso lhe fizera algüa offenaa, pgr
isao q se ao ia de vingar dele.: & isto sendo ho Xeq grà•
de arnígo doa Portugueses.& vassalo dei rey Dormuz,
dei rey de Portugal , & se se queixara a el rey
Dormuz ou ao capitão da forlaleza eles lhe fizerio Jueti•
por& aegftdo outras maldades q este Aotooio faley.
ro deapoi• cometeo , maia he ·de crer il ele qberia rog.
bar ai}le Xeque por •ber que tinha dinheiro que por Jho
deuer. E dada eôta aos seus Lascaria do q determinaua,
infiou a fusta & ho paraó diante da porta das casas do
Xeque que estaulo na praya perto do mar, & daJi lha
tirou tAta bombardada, lj ho Xeque por não se ver des.
truido lhe màdou quinbftos com q se contêtou
& bo deixou ; & tendo perto de seys mil xerafios cõ o•
da roupa l} roubara aos mouros & coestes recolheos aem
partir cõ os Lascaria: do q eles oomeçarie de murmu-.,
rar ãtre si, & aJgüs q estauio desembaraçado& dom.izios
nã quiaerio ir mais coele , & se forio na terrada il foy
a oulro· porto carregar de caualol, & antrestes q se fa-
rão foy hii Manuel sardinha Deuora, & os outros fica ..
rão, asai por sere oo1iziados .eomo JlOr esperare lj aida
aueriã aJgiia cousa. E. ficãdo coesles q digo, se fuy. ca ..
minbo de Dofar, porq ali esperaua deocber as mãos se.
gundo ho dizia aos Lascarins , & ia por capitlo da fus-
. .
LIYRO VI. CAfPI7VLO X:S:SVr. 7.6
ta & Fraaeiseo faleyro no para6. E estãdo surto perto
de Dofar pera to1nar a Goa , foy ter coele de madruga.
da hüa nao de mouros do estreito l} ia carregada da I o-
dia: & sintindo. os mouros lj ati estauã Portugueses fi-
zerã volta ao mar. E Antonio faleyro os segui o na fus-
ta. a. J)() paraó, & oa alelçoa par fattar ho v·e-:a
to: & os mO·uros Dão pelejar nê lãçarse ao mar
q se resgatarião Dofar, & por isso A rtto•
aio !aleyro oa tGraoo todo•,. & erio muytoa & deles ca-
sadoe l) leuauão suas molberes & &.Jhos: & daqui se foy
ao por lo de Dofar , & .surto mãdou dizer ao Xeque lj se
Jhe qri.a caprar a'! la oao a•i como ia, & mais l) qu·ãto
Jhe qria dar por ni qoeymar quatro grãdes n.aos de mer-
cadores mouros q es&auão no porto meaa descarregadas.
E sabid. este rec.Jo polos noue Portugueses q di•e i}
estaulo cão Xeque forlse logo a Antonio faleyro, & cõ-
a piedade de i} ho Xeq vsara .coeles e seu.
tuoio rogllloihe q não fizesse oenbü mal ê seu porto· ae
menG& a'e 01· alo recolher, do· lJ. ele. foy cate te .. E cuy.-
dãào ho ttne A•tenio faleyro lbe agradecia ilo DI
qwe fizera aos ooue, & auêdo q eataua •eguro deulbe.
q, ee Coa&. O q lhe ele& agradecerlo mal ,. lt
recolhidos cem A ntooio faleyro lhe acreel!tarlo· ho dNe-
j& ij tioba de roubar as qt1atro naos q estauão no porto,
& tornou a mldar eomete-r a.o Xeq se Jbaa ()ria cõp«a.r.
Do lj se ele espltou muytG, & respõdeo q não espera ..a
e galardão do l} fizera aos Portoguesea, pedindo-
que· oã fizftwe mal aos lJ. estauito ao seu fJOr.to. E
JSto reapldeo bo Xel) pera. q êt.retãto q andauão nt.es
reeatlos ... fizesa.e Íf>rle eõ.laila traoqneJra li mãdou r.
zer: if. bê vio· a r() idade DãtOI)io & () nl
auia de gou4iar .amizade. E feyta a tranqueyra tl.uran,-
tlo ainda oa recados não·e•perou qaeAntonio fal'eito·co-
meqaeee primei-ro a peleja, & ele a come<(OO nlandando-
Jae tirar c& algilas bõbardadaa, & por iseo Ant:ooio {..,.
.Jeim ·não poà -roaba.t as naos como quisera , & poalb6
fogo-: &. cOma .afl bõbardadae eri muyto &
K I
'16 DA HISTORIA DA INDIA. •
ele. Dilo podia fazer nada cõ aa auas, afaalouae perà bo
mar porque bo não matassem.
C A P I T V L O XXXVII.
. .
Do éj acótecto aos sete portuguues ij i&J na nao 1j Anto-
nio foleiro t1&áclaua pua CaltJiate •
. Vendo Antonio faleiro que não tinha ali mais ll
deleraninou de se h ir pera outra parte, & porll a nao
dos mouros ho não pejasse, mandou a pera (JaJaiate a
'i§derse hi a fazenda, & mâdou por capitão dela hü
A fõso de ·soure, & deu lhe seis llortugueses per a sua cõ-
panhia , & algüs dos remeiros Canaris , porl} não se fia-
ua dos mouros: & praticãdo õde fariã agoada por a nao
não ter agoa, disse bo anes1no piloto, q de caminho
.. lo1narião ê hua agoada q ele sabia <1 estaua perto, &
eoisto se partia a nao indo perto de lerra: & como na-
quela costa Darabia as serras sã muyto altas, & ho
:fica eoelas abrigado do vento, & fazia calmaria, sing;a-
ua a nao m11yto menos do q sofria a pouca agoa flleua-
ua, & pera (} abastasse ate chegar@ a agoada, nlo
bia a gente mais q a fiá por dia cada pessoa, & como
as cal1nas erão grãdes morriã muytos mouros de sede,
& cada dia os deitauão mortos ao mar : & coeste traba-
Jho forã ate q hii dia disse ho piloto da nao q ja esta-
uào de frõte da agoada q mãdassê tomar agoa: & estariã
quatro Jegoas de terra següdo seu ,,arecer, lJ. cõ a
mari-a nA podia a nao mais chegar. E como a ida a terra
era perigosa, por ela ser de mouros & imigos dos por-
tugueses, nA ouue nhil dos q ião na Dao i} quises1e i·r
fora se ntlo se lhe caisse por sorte: & deitadas sairlo q
foaa& fazer a agoada hií Afõso da veiga, & hn lohãu
sirgoeiro c bati, & outro, & saidos estes deu lhes Lou-
renço de soure a}giias teadas & outros panos baixos, cõ
f} afagasse a gete da terra se fosse neeessario : & c6
auaa espingardaa se ebarcarão no paraó da nao, de
I •
.. . ..
. ..
LIVRO VI. XXXVII. 77
parti rio as ·oyto oras do dia. E como cõ a. calmaria q
fazia as agoas corresse: muyto: não poderã os q rema-
uão ho paraó remar cõ tãta li não descaisse muy-
to, & tlto ll cheg·arão a terra duas oras ãtes de sol pos-
to, & oulhãdo pera a nao acharão i} ficara muyto acima
dõde forão ter : & chegados a terra nl'4darilo os mari-
nheiros auer se achauão agoa, ll sai dos e terra forã sal-
teadQs dalgtls mouros q os esperau4o ê cilada, porq os .
vir! das serras quãdo ião: & dando sobre)es pera os
matar ferirão aJgus, & logo se ·acolherã todos ao para6:
& recolhidos os remeiros forão mais pera baixo õde não
acharã nbüa cõtradi"ão, & fizerã ê hiias fõtes
solobras <} estauão Atre certas ao lõgo do mar,
& sol posto se partirã caminho da nao, indo todos bean
cansados do trabalho, de remar & de fazerem agoada,
& de quasi não comerem aque.Je dia, & assi da grande
calrna que fazia. E tudo isto causa de os remeiros ·
enfral}cerê t!to q de todo não poderão ren1ar por mais
pãcadas l} lhes os Portugueses dauio & por mais amea-
ços da morte q lhe faziào, pelo- êJ. cõueo aos Portugueses
rema rê : & parecêdolhea l} seriilo perto da nao porl} a
não vião cõ ho grãde escuro <} fazia coa1eçarão de bra-
dar pera '1 ouuindoos ·na nao lhes fizessem algü fogo· a q
alinas&em , mas como a nao estaua muyto mais longe
do· q cuydaulo pefo muyto que tinbão descayd!J nilca os
· ouuirão: o q lhes quebrou muyto os spiritos que erão
os q ajudauão a reinar éi as for'ias ho anuyto remar lhas
tioha quasi gastadas, & as mãos esfoladas de q lhes
eorria aaogue, & como .deseapera'ilo de não chegarem
14o cedo á nao o8 debilitasse "'muito começarão de dor-
ln ir descansados & tristes : porê. ho cuydado os acorda-
ua, & ás vezes remãdo , & as vezes dor1nido amanhe-
eeo sê chegarê á nao ne a verê: nen1 quasi q ·podião
"\'er a terra, dõde partirio ao dia dâtes , pelo q conhe-
eE-rlo que tinbão rnuyto deseaydo: cõ o q
rio tàto q nê os Portugueses nern os Cana ris podiào re•
••r· E. .q a D&9 Dio parecia,· aeordarào q ae
7 I - »A Blln'Oftl& DA. J.NDL\ ·
naasê a terra pera verf s.e a podião ver daa aerrae &.
marcandose coela ae tornarião: como ãdauão cansa-
dos & fracos de não coMere não poderão cllegar a terra
se nã quasi sol posto, .& deitarão fateixa afastatiQJ.
la, por'} se algüa mouros eateueaaê eiD cilada nilo dessa
sob reles & os. posenê. ê peri«o & dali foy A fõso da
ueiga a terra a nado leuldo hüa lãça diante de ai , &
não aehãdo nenbü impedimêto se sobio na aerra, & ou·
lbaudo pera büas parles & oulras quanto podia aloaDfiar
a vista nuca pode ver a nao.· E coesta triste noua se
tornou ao paraó, cõ que loio sirgueiro qoaei ficou mor-
to: ho outro PortugQell foy &ambe a terra em ee poado
bo aol , & aobido Da aerra bo maia q pode tão pouco vio
a aao. E eatãdo aB&á oudbãdo vio pasu.r a frota em q cJij
Luya. de meneaes· pera Xael como disse atraa, pelo
coaheoeo q se & nao eateuera .ade a dei·n.rão é) a eser-
!&ra OOfJlQ laeJrgou. oa, .galeões, & ela eataaa ai «ia lá,
maa tinhie tan t() d.eacaido o6 bo· paraó 1J era f.a!Pelftlla
.diataacia Midesta.taio á Da& r, a nio. podião en•ergat. E
veado de; •ure .. q ho paraó- nlo·l«a:uua
eeoiM q fora tomado de· .aouc:.: &. deaeaperãdo de ior-
oar partio.ae ao. outro. tlia pol& auêdo doas li. e•
peraua per ele. E. inflo c•miobG de Cala,ate aaltarle
coele Noutaqs l} sam. bis .. sair• molll'OIJ q aodio por
ali, & matãdo oa Portugueaea t ... ar.io a
C A P 'r V L O .XXXVIlla
. .·
lN cmno.fag ter ,.,.... OIJ wa Pvrt,.usca ij. AW•
uáo no ·p•nao, da remGs; que /Ae d.dus 7WJSIG •nlaor
pera tiBtlopMn'fll. a• . ..
V eodo a.t'*e qoe. fera 81 ·4 :era por da mais GU·
lhar pola ·•• t01'1NJDSe ao paraa, k ctiilae aoa · elp•heit-
ros ho pouco reoado '}.i traaia : do lj1 todoa 6cuão.· tie
tristes ·coma requeria taJDanão deaaatre,. per.qu.e eat.auãe
.em. perWGI-dr& ..,.te pm: teli 'III• GOJP8r, Bem\ em·q.M
LIVRO "ti. '19
JJBuegar & pera uyrem .em terra era pouoada de Dlooroe
immigoa dos Portugueaes, prinelpaimête poJo difto 4.
Âatonio faJeyro fizera-& faaia ·por allla Ctllta. 1intindo
01 remeyrós bo mao remediu fi auia· fugirlo aque"
Ja noyte, &·quando amaolleeeo enaoào oa tree eomp!a.
Dheiro• tio fraeoa dauer d0111 dias que nll quaal
nada qutt eatauã pera eapirar, & coea&a neee11ldade lan-
filltAo enzolos ao mar com que pesearlo alg11 li cc>-
merão cozido em bü ealdeirilo em ll ho coterlo ê
E veod01e como digo aem aerabf1 remedio , acordarão
que espera111em ate bo dia segainte pera "er 1e tilo a
nau que por veatura se mudaria d6de a deixarlo, 8c
quAdo nAo, .que entlo 18 auenturasaem a ir8 no para6
ao lligo ·de terra ate Mazeate, lt ·eomerião trigo colido
dia qoatrG alqaeyrN q acertarão de ter em Jttl fardo
que deitarão Do paraõ pera Jaetto: &,. al8i corneri!tJ a.lgfl
pescado i) tomasllí.. E aasentadOii:ois&o Yigiarl paraó;
8t de quando'ê··qoando hilo a·terra a •er se parecia a
nao t ·& eate mesmo dia deapoia de horas de •espera es ..
tando outhatJdo ptara terra -irão supitaruête •ayr ·detrntt
dil penedo h ii mouro mlcebo da te dtatóyto anoos cõ hüa
lota na 'cá.beCia, & bit pano encachado & naa mios hila
mea ·Eauydando Afonso daueiga·lj era oilada de84
parou •lia eapingarda q tioba eeuada, & se ho n1oura
Dlo ·•e baqara a1atara bo, & em bo pelouro passando
}t'uantase & dido efisigo no traar nadou cO muyto gtllde
preua ate chegar ao para6 broda.ndo como que dizia
que lhe mtlo 6zessem mal: & em chegAdo ao paraó
•eaido déotro, & despoia que tornou a h o JOie-
go q linha· quaai perdido eô medo da espingardada, co-
meccou de falar & ll bo DOO entêdilo ajudauase tam•
dacenoa. E quia nosso 1eftor dar grafia aos cõpanhei•
roa i} o q dizia, q era <} ete andldo encima ·
tia serra ande goardaua gado os .vira da aao che-
gar a letfa ·& le>rnar pera ·despo19 pera terra·,
& nao ae partira aqla manltaA, por auer dó deles
ÜG liaà• dizer peral} Dão eepuraaal por ela, & l1 sede-
tl6 . ·. DA BI870.1A DA tNDI&
·uião d.fr a htla pouoação de mouros chamada Mete
taua dali perto, eujo Xeque era amigo dos Portugueses
& os ae:asalbaria, &· q se quisesse é1 lhes hesae algüa
eousa q ho faria de boa võtade. E · oa ..
. nbeiroa o que bo mouro dizia alegrar41ae cr!do tl DOISO
seflor era o (}lho midaua pera se saluarê & deràlhe por
isso muytaa graças, & rogarãlbe q Jhes fosse busear al-
gu pera o qlhe derlo quatro tãgas prome-
têdolõe se lho leuasse de lhe darê teadas & espadas q
Jhe mostrarão , & prometeo de tornar ao outro dia
as mesmas horas , & asai toroou oo . hil fardo dapaa ll
saro hüs bolos de farinha de .trigo .(J 01 mowos comê, &
JJii caba((o eheo de mel brico & cinoo .. & .diase
lhes ·da parte do Xeq de Mete q se fOMe pareJ&i porij
folgaria muyto de os agasalhar & i} os teria ate ·auerlt
algi:i remedio pera -se -tornarA .JJtdU,. o.a ire pera Or-
muz. E dldo eles ao .mouro quanto 1M prometeria.. lhe
rogarlo fosse di3U ao Xeq que Jhe :regaulo muyto q
midasae por eles .porft por niG aaberê a •erra nilo-.pode--
aceitar a pouoação, & .tibê tio fracoa l)
aão se atreuião a .remar: & que se .mandasse .por eles
lhe dariãe 1lara6 & quaalo tioWo .. nele. E Jle mou·
ro lhes prometeo .fi aquela noyte ho . .Xeq por
eles: & mãdou que duae· ou tres horu I te" a1anbai
a eles quatro Cafres ê biia almadia catiuGs.4o
Xeq que hiilo por eles, &, eitildo ao -seu rDQdo ·em ai...:
Qal dalegria os tomarão de toa & se forã, & de. madr.u-
gada ch.egarão dflfrõte da ;agoada q. ho Jli.Joto mouro di-
zia, q era bQa leuada dagoa q sayá da serra & caya aa
praya .. E tomAdo ali os Cafres agoa tornarlo a aeu .. .ca-
' minho., & i! elw-garao· a & eru4d.o
fuy ao looo sirgueiro não qtwria sair I terra,
dizedo .q lhe par.eéja q ho Xeq lhes aui.a de .fazer. trei-
ção. E f.JOII ois'o .auer . & ho Xeil ser hõ·
hom! & discreto pa.receolhe o-q ·e-ra' k por· ieso se ro,
ê hua almadia ao pllraó hilas· na mio per q
•.. ao fJ!Rraó., d.i•eJhe I.
'
LIVRO VI. ·CAPI,'vLO ·XXXIX. 81
Jingoa q viessem @bora , & q folgaua muyto
.cõ sua vinda: q fizessê cõta ll estauão àtre Portugue-
IP8, & (a.zêdo os desembarcar os Jeuou pera as suas ca.
sas que erào muyto boas & sobradadas & os apousentou
.em hüa em que esteuessem apartados, & aJi for:lo muy-
to ben1 agasalhados, & asai ficarl.o naquela .
.c A P I T V L O XXXJX.
·De eomo Antonio faleyro se tornou pera a lnditJ , do
1ftt6 aos tres companheiros estatúio com ho
· Xeque de Mete. .
Antonio faleyro despois que mandou a mio Ca •
. Jayate foy se por a(lla costa em que fez algüas presasde
dinheiro q Jilto cõ o q ja tinha determinou de se tornar
á I ndia, por<t por os n•ales q tinha feyto por aqiA cosfa
nilo ousou· dinuernar ê nenhü lugar dela, menos t
Ormuz JlOr amor do gouf'rnador lj fora sem sua licêça'
& ·porl} ele nã queria tornar a Goa por nilo dar parte
das presas a Frãcisco pereyra q sabia q lhas .auia de to-
mar se lhas nA desse, foyse dereyto á ilha de Dada
está antre Chaul & Dabul, & ali inuernou , & despoi1
ouue perdlo do gouernador: & assi ficou sê castigo de
tamanha maldade & treição como aljla foy, porq sendo
muytos lugares da costa Darabitt amigos dos Portugut)..
. ses escãdalizou de tal modo cõ os dãnos & n1ales q hi
fez li fi cario mort.ais imigos dos Portuguesf's, & dese-
jauilo de se vingar deles: pelo fl hfts Xeques vezinhoa
do Xel} de Mete <1 tinha em sua easa os trea
Po.rtu!Cueses q forão da companhia Dantonio faleyro, Jhe
estranhar niuyto agasalha los, requerendolhe
que lhos desse sen!o que iriAo sobrele & ho de-struyriio.
temendo ele que ho fizessem assi por serem muyto
poderosos & ele poucQ, contou o que passaua aos •
eompauhPiros, mostrandose· muyto triste de os noo ro-
der ter rogandolhes que oi ouuess(4 por. mal de OJi ma-
Livao VI. L

-
81 JtA RI8Yeala. t)A tNBIA ·
dar pera casa doutro Xectsee parlte, q moraaa
las legoas , & q este os midaria a Ca1sf!, cujo era
grãde an•igo doa PorLugueee., & dali aueril seu rerne-
dio. E mãdou hil seu primo I outro paraó bê ea•
qui pado, & asai hia bu 1eu. E Wo por •eu caminho ao
lõgo de terra lhe sayrio triLa atwadiu carregadas de
mouros armados pera os tomarê, de q 1e liurarào cõ da-
rê ú velas dus paraós : & ·como bo vê tO era fresco dei-
xarA as alanadias atadas. E despois disLo foy ter coeles
:bü "aa.uio de Porluguesea · que era da· conàerua dG
Luys meneaes, & h ia por capitão dele hü Coame pin-
to criado do dõ Luys: a quê 011 tres cõpaaheiros
côtario o l} acõtecera, & a obrigação t'ID q erào -ao
Xeque, pediudojbe l} os Jeuaase oo oauto! 4o que ele
loy cõl-ête, & por isao deixarão bo caminho que leuaul
k se espedirào do primo do Xeque a quê mandarlo por
ele ho seu paraó, & hüa arroba despeciaria «1 pedirão
Jlera i11o: & assi algilas pec(88 que poderào auer, _ma o ..
daodolbe muytos agradecimetos pelo bA que lbes fizera;
J»edindolhe perdlo de ho nil pode rê mel bOI' seruir, &
.ho aauio ae foy a Caixe, cujo porto eatàdo aurto
breueo taJnanha tormela de veto & cbuua q quàtatt oaos
eatauão no porto se perderão feylas ê pedaçoaew terra'
assi outru que auia pouco que partirão que arribarão,
aui ae acolherão ali que se acolbiào de Cora;
.& os mares erão ti grossos & altos q quãdo aa õdas ql"'
brauão e terra êtraullo por ela dêtro grãdespaço: &
.eayrão no Jugar mil & quinbêtas casas jütamente q se
aaaasearão todas. E foy a destruyção tão espantosa .&
:medonha que não auia quê não paso1asse de a ver: &
.et; tudo ho nauio de Coso1e pinto ficou ê saluo & sêpre
•e teue sobre as ãcoras. E cessando a tormela foyse a
Ormuz , & aasi se saluarào os tres cõpanbeiros , saluo
.João sirgueiro que cõ a lornlêla que digo arribou a Cai-
sem en1 hü oauio de CbaLis a q se mudou pera se tor•
.uar á lodia, & quando arribou ho nauio deu aa costa
em que ae eapedaçou com morte de quantos hiào nele.
.
LIVIIO 'YL CAPI'n'LO Z&.
. C. A P I T V L O· XL.,
as
I

..
1k com. o• , .... ga'tllwM S. DI ttmadaria• de Poru14
· de
fio Hidal:eão 1t ti.nba grade de Yer .posAir
tanaduias à PWá & cte Salsete &· el rey cJe. Pgrtogal
andaua &empre eaperldo tlpQ pera as cobrar , & o
goueroador &. déS Luys seu irmAo fora da ln dia qtae em
Goa Dlo fieaaa. mais glte l} 01 ordenados á fortaleza ,
deter•i.oou de as tomar, & pera isso mld«>u hií·-seu ca-
pitio k seu parête cõ cinco m.iJ bomi1 de p' & de
uaJo,. l} e11trldo pela comarea daa taAadariaa eumeçou
darreeadar as pera ho Hidalcla, & foy ter a hüa
aldea ldestaua hil Andre pinto ta•adar· peltno cõ aete
• o' to Portugue1e1 ll tod.os forlo mortolaaluo efe, que
escapou muyto ferido & se acolheo ao Pagode de Ban•
tforá ,. ondestaua hum fidalgo chamado .Fernle e aDes de
Souto mayor, que era Taoadar m6r I} tinha ali &lia e•
tlcia, por ho Pagode ser forte & cereado de ·mUFo de
pedra k . cal : & tinba o & cinquoêta Por,ugue•ea;
de que 011 trinta erilo de caualo., & trezltOtt piles da
terra. E como Fernão eanes muy&o esforçado, em
os immigos sobre ho Pagede sayolt.e• Ao· eneo,..
'tro, k foy desbaratado por desarraajo doa •eu&: & el
muytos feridos se reeolbeo Pa«ode. E os
migos por i1110 muyto soberbos, ho teuerfto tereado fiou•
dias- E oeste teanpo foy nona a Goa a pPre,..
ra, que e.rfto mortfJI q·uantfll estaul.o no Pagode!
maudou Ioga Antoaio eorr•a d'e Gt>a cõ certas .fustaa
pera • que escaparAo .. Com cuja chf'gada
eaaea folgrtJe mayto: & ,.-ndose e& algua
te que Antonio traaia '.que rodiiJo metPr no Ju•
gar da· q ti aba ferida:, determinou oorn. conselho de it
buecar ol imigoe & fora da te·rr .. , perR bro q"
maadoa' aua buaea.: .k do ·Jbe deJea outra na.
. . .
LI
-
8-6 DA BJI'I'ORIA Dk
ua , 1e nl que passarão por bQa aldea chamada Verná
da hi a legoa & mtaa, mas que não se sabia onde esta-
uão. E como Ftarnâo eaoes era muyto esfor«i'ldo, & lhe
parecia que sabia be1n da guerra: asaentou que- 01 im-
DJigos hião fugindo com Dledo ,. & l} com qualquer
os poderia desbaratar: & partio logo apo8 eles,
Yintecinco Portugueses de caualo, & cêto & vintecioco
de pé, & treaêtos piães da terra: & ao outro dia a oral
de veapera passou hü rio que se· chama ho do Sal ( trea
legoas donde partira) & no cabo de hna grand.,· & fer·
IJ)Osa veiga que se faz da banda dalem : a tiro de bom·
barda ouue vista dos immigos, li. estauão
ao pé de hum oyteiro. Que em vendo 08 Porlugueses se
leuãtarào Iugo: & como estauão espalhados & erlo clco
mil, pareciào muyto toais do, que erào: ho· que crendo
Ql Portugueses se & dizião que· aqueles
e rio muylo mais dos. que forão sobre ho f>agode. E.
do FernAo eanes este espanlo, deteueos pera os eafor·
c;ar & disseJhtJs. Senhores de que vos espantaeis! por-
que nAo erãQ maitt o8 imigos que nos cercarão êl es-
tes são, que se ho forà não Jeuantarão tão asinha bo
cerco, & de se auerê por poucos, pera contra nossas
forças nos alargar-lo: & atsi espero em nosso Senhor
que Jhes·ha· agora de parecer pera oos fugirem, &coes-
ta esperaD((a q todos aut'moa de ter. con1o Cbristlos,
auen1os de dar neles, posto que· fossem mais do
que vos paressern , não temos melhor remedio q .pelejar
ij se nos i)rtanJol recolher nio temos se não· ho Pagode
que he muy longe·, & se voltamos estes perros hào ele
crer .que he cõ oledo, & por isso oos hão dapertar, de
maneyra que ma·is dano nos hã de fazer aem pelejarmos
(} & lj nos nlo sigi, corremos mu,to perigo
ê • este rio é} temos ·paa1ado, porque a maré en-
& ele be estreito, & os de pé esta certo· não aeba·
v ao, & os de caualo duuido,: & pois em voltar & em
pelejar ha perigo, auenturemooos antes ao da
que be com hoorra, que_. ao do. fogir· que pera
JA\faor ctAPmlicr xc. 16
ses he tio: vetgónboso & de Ul.la· cteaonta·: Jt párecêdo
i ato ben1 a todos acordarilb que· se asai. ·E estàdo
aesta pratica· euydantlo- oS· i•migoa que se ·õe-t·inhão
Gom medo deles- torãnos cooieter, feytos em duas bata ..
lbaa· l} auia muytos ·de caualo & hua
dejas comet.eo -os l
1
ortugueses de rosto, & -a outra lhes
tonaoa a traseira . pera ficarem cercados de todo & ·nfta
teri! por fogir, Jlorl} das· ilhargas tinblo ho rio &.ho
Dlar. E vêdo Fernão eanes que ho querião ct'rcar, an-
tes de ho disse aos seus q nllo àuia· n1a1s que
esperar ll desse Santiago nos immigos & assi ho fizerâo,
& abalâdo fugi"r!o os· piães da· terra: &·os Portugueses
ficario·· cento &·cinquoêta· ,- que não era nada pera ta-
manha JIJultidão !de· n1ouros: & parece qo·e fóy n•iJa·gre
de Jwsso Senhor óão se sun1irl todos antreJes de ntuytas
feridas que tod·os reeeberilo ·primeiros· eneontros' &
forlo OlOr tos cinco d;e caualo, &· quasi ·todos os outro•
feridos., & antrele"· eaoes ·c'om· ht'l dar-
remeso lj lbe· pa114trAo ào cor«iiiete pela· ilharga· ezquer-
da & bo ferirão·, & a bit· Diogo de criado -do
Duq·ue ·de Barga.n<ca. cor·tar4 de bii pé q·ilanto lhe sayá
fora do·· estribo·, & pFOU&Jef-A•I)(JI80 Sea·hor por· SUA pie•
dade que· ainda q, Fer-não -eanea foy ·tão mal
por isso desacorçoou, ···àtea muyto··estur<io· nol
immigos, ajudando os seus·como bo1n con1panbeiro;· dom
que.. os esforsou que· nAu pE»Jejauãó. ot.,n'Jo. ee-nto &
quarenta & cinquo, se não con1o que forào cinquo mil,
ferindo & ntatàdo muytos doa anouros: & antreles foy
ho seu eapitão, que os desta prin1eira batalha per-
dido ho esforço se desbaratarà Jogo & fogirão: & con1
ho in1peto q leuauão derlo na aegüda batalha que vinha
pera ton1ar aa costas aos & desbaratarão
os que estauão nela, que tanabt'm fugirão cuydando q
erilo os (>ortugut'ses que dauAo neles, & assi fugirão
hüs & outros: & era muyto pera Jouuar a nosso Senhor
Yer cumo fogião SE'Ddo tantos: FPrnlo eanes não os
quia 1eguir_ por eslar taiD mal ferido coo1o estaua, &
•• •• ••a•u IJâ;
ter toda sda ·gente Dluy.to ferida, & os eavalot. mottoa:
& ttuis nosso que lhe nlo ma,ario mail oa eira.
quo que disse, & dos •oures segitdo ae deapois 10uhe
forão morlos mil, &t, os maia dele• hom&J e8Dolhidaa, co.
mo se vio na riqueza das Cabaiae daa .toucas. & dM ter•
que lhe forAo tomados pelos Portugueaea deapoil
que ficarão seguros no campo: õde por ser ja pecto· da
noyle Fernlo eanes se deixou eatar ate que ama.nheceo
q bus aos outro• como melhor poderão se Jeuar!o õd•
Antonio correa estaua com a1 fustas: em que se em·
barcarão muyto fracos, & se oa mouroa acertarão de
tornar nam escapara nenbih E Anlenio··correa os.leaoa
pera Goa onde muytos morr.erh de1poia d.aa feritiM •.
como Fraaciteo pereyra· nlo teoe gente que mãda•e á
terra firme , pera acabar de deitar dela os Mourea : te-
uerão 6lea tempo vendo. q•e nãó bia aiO<•em to.111anão
aquelas tanadariaa que rendiilo cine.nta mil pardao1
douro. pera el Rey de PGitugal: o q.oe mo KQnlecera
ae o gou.eraadQr rra IDdia ... -po•qrue ouuera di o·
uernar em Goa donde Ioga sccorrt'ra com gente•, & 1a
acodi r a em q-uente teuer.a pouco q ve. {azer em deitar 01
mouros. fora btatlo, pPiejar
doe Portugueses. E gan.badaa ea6aa·ta-badariaa
7
mandou
bo .Hidalcilo outro capitão fJUe fez .aeu· aaeeate. em Poa•
dá: &. porlj, este tolhia .qae não f01ee• a Go.a
tos da terr• firme,. fez. Fraaoiaco pnayraJ paa ooele ..
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C A .p I T V L O ·XLI.
I
De OOJM i'lla. doii1QQS Jla da FerrMiD tÜ .mag•
lll4es 9ue IWI p_ertJ E11JN1riha arriMI a Ml,tluco , jO,
tcn.JaatJa Porttlf"CIU. ·
Fazendo A-nloaio de { eomo diaae atras) a (orta-
kza de MalueQ eOfQO os .aree erão diferentes doi da 1-.
dia' .&. aasi ()8 adoecialhe a ceote' do que .
ide tDmaua muyta & aesi por não achar
faciiidade··.que eMperaua pera lazer a furtaleza, oem a--
fDi.zade Ba ra-,nha tle 'feraate. E misto adoeceo lamb&,
Dão que eais1e eau cama :-• mas bOa roim diaposi((lo do
deaeonteotaalento que tinha, & arrepBdiase bl de ter
aceitada al}la empresa.· E aodaado asai soube que
«o da eosla de büa ilha chamada Bataehina ·.cincoeota
legoae da .de 'fernate aodkua . b.üa das duas naos doi
CasteJbaoo1 q partirão .de Tidore, que &1'ribara do ca•
minbo por fazer muyta agoa & oã poder sotr.er ho mar;
i, de trazer doêle toda a geote andaua como perdida
1ea1 poder toma. .lerra. O que •abêdo A atonio brito,
pedio a dom Garcia que foue por ela, & ele
foy no seu aa.uio iodo em aua cõserua Uachil Daroes em
bta corara, & em outra hia hl Duarte de nsende
eriUão da íezy toria de Maluco; que ·despois foy fey tor &
leua•a desaaseya· llortugueses. E chegado dum Garcia
oode ,a nau an.daua achouha surta, & nlildou a ela Duar ..
te de reaende que chegado a ela bradou , & a gêt..e es ..
taua .tio te & ·lào fraca que ninguê lbe resp<Jdeo,
pelo. Duarte de reseude entrou dêtro com a gête
armada. E cuydãdo os Castelhanos que os querião
tar }Jedirão misericordia, & ho seu capitão que se cha-
maua Gõ<ialo gomez da espinhosa foy falar a Duarte de.
resflode, & lhe contou sua desaueolura: & ele ho segu-
rou & leuou a dõ Garcia , em cujo podE'r se meleo co1n
quantos estauão Da Dao, & dali se tornou a Teroale, &
88 J)A RIS'M'RIA DA INDJA ·
a entregou a Antonio de brito com todos os Castelhanos
que forào curados & ft1!'&lafhadcs· como Portugueses, &
na· nao furão achados liuros do astroJogo san1 Martin• q
·hia cõ Fernio de magalhlles &. falt,ceo na wiagem ; &
,ssi dous planispherios de Fernl ele magalhles feytos
. pnr Pero reynel, & outras .cartas grnndes <to caminho
do$ Portugueses ate a I ndia, & quarteiroês dela ate
Maluco, & todos errados : & assi forão achados os. li-
u·ros de _todos os pilo lo$ das naos da<'tla armada, & doa
verdadeiro• pareceres daqla viagiJ: em q se achou por
eles mesmos ser Maluco & DAda do descobrimêto dei
rey da Portugal: & todos ·liuroa & inatromêtoe fo.
rão entregues. por Antonio de brito ao feytor: & tlbl
foy achado DP&ta nao bil Gaspar rodriguez Portugoes, lJ.
·estando em Ternate por feytor de "'uytoa
ao tempo que os Castelhaao1 cbegarilo a Tidóre fugio
.pareies, .com a fazenda que tinha das partea, & se hia
-eo•n eles pera Castela : . poJo q·ue Antonio ·de hri·t• h o
mandou degolar, cõ pre.glo que pubricaua sua culpa.
E estando esta nao a-qui surta deu á coaf.a assi como
estaua ear.regada. com btla trouoada f1Ue sohreuoo, &
perdeose com quanto t-iaha: & esta fita ouue a armad•
de Fernllo de magalhaês & ele, q foy juizo de nosso
Senhor poJa treiçlo l} fez a seu rey em lbe qrer falsa-
·mête tirar ho que era a.eu, & posauya cõ tãto justo ti•
tu lo, & ter gastada nisso tãta parte de IUR fadda.
E despoia 4 estes castelhanos forJo sãos, oa mldou A O•
tonio de brito per a Malaca : & leuouoa dõ Garcia ãrriqz
(i parlio pera lá na entrada de Janeiro, de mil & qui-
& vinte tres: onde. foy. ter .em Setêbro do •
mo aanà. E dahi os mandou lorge dalbuquerq pera a
lo dia, de Jhea fo-y dada pera PortusaJ.
• I
•' ' . '
... . • J
LIIIRO CAPI'I'VLO XLII. 89
C A P I T V L O XLII.
De · amao os mouros dtJ ilha 'l'idore , matarão vinte
iantos • Pelo se a guerra átre
.Antonto de el Rey de Tidore •
.
Ao tãpo Antonio de brito começou de làzer a f'Or-
taleza ,. andaua hum tio dei ·Rey. de Ternate degradado
da . mesma ilha, ja do tempo de quando. seu j.ran«o .era
Yiuo, que ho degradara por causas. que pera ·isso teue.
E eomo este I fite soube que el Rey seu jrn•ão.sira mor-
to, qui·aera .que lhe fora leuantado ho degredo, .& t·or-
Barse a. sua terra: bo que Caeh.il. daroes .estrouou, te-
metido que .se. ho outro tornaaae; que lhe tiraria
mando que tinha Da terra que ·era o1uyto grilde. E \'tê-
dose este lfante sem r.emed;o., ·despois que ileube An-
toaio de brito fazia a ·fortaleza , qruis ver se por ele se
. podia tornar a sua terra : pera h o lj se foy a ·de·
Terna'e & se meteo na mezq·uita; donde mAdou dizer
a Antonio de brito q se queria tornar Chriati9, oõ al-
güs .outros, qoe Jbe desse seguro pera entrar ria cidade,
:porque &e· temia de Cacbil daroes que logo foy disto .a-
oisado. E se fey a Afltoaio ·de brito & lhe disse : i} por
nen.flü modo aquele homê .auia ·Da .cidade , .por
ser nela muy odfoso, & .se querer .)euafltar -contra ho
Rey passado , lJUe. -por eausa bo ele gradara ; assi
eutr.as muytas rezões:. por onde nlo er.a bem que to·r-
naaae, dando cor -lj se e1e consentisse que t.or.nasse, &
qoe -se 1euantaria a t-erra contrele: ho que Antonio de
brito ·temeo. .como ainda tinha .a cerca da fortaleza
pm ·fazer, ·& tinha maytos doentes, nlo oueou de bolir
consigo·:.& polt() q·ue lhe pesou muyto de não fazer a-
qle bomê Chri&tlo·., · mAdoulhe que se fosse, porque lhe
nio podia valer , 8t ele se foy. E se este homA se fiz.f'ra.
Chris:tlo, ·em poueo têpo bo forft6 todos os daquela ilha,
aegildq au1a poucp que erlo. IJlOUros: & .desta _vez fiepu
biVRO· VI. M
90 DA. HISTORIA DA. INDIA. ·
a terra tão aluoroçada, l} Antonio de brito teue asaz
que fazer em a tornar a .. pacificai, & assi tinha muy lo
trabalho em nio auer na feytoria nenbüa roupa ll gastar
pera auer por ela marltimen(ói &cousas nec6ssarial
ra se fazer a fortaleza, & muyto maior ho teuera, se
não chegara de Malaca hii fidalgo chamado dõ Rodrigo
da silua e hu nauio, en• que leuaua fazeda pera a fey-
toria, com q se remedeou dalgiias necessidades que ti-
a.ha, & coeste nauio vierio tambê algiís jungoa de Ma•
laca, ·&·de Banda; & doutras partes, .a buscar Crauo
como acostutnauão: bo que sabedo Antonio de brito;
determinou de ho não consentir, porque queria q fosse
todo ho Crauo pera el rey de Portugal , por esse ser .. ho
_fim pera q mandaua ali fazer aquela fortaleza: & mã-
clou pedir aos reya comarcãos em cujos senhorios auia
Crauo, que ho não cõsintiasenJ vender a outrern se não
ao feytor dei Rey de Portugal, & isto mandou especial--
mente dizer a el Rey de Tidore, porque soube que es-
tauão ê seu porto juogos de Bàda, que com seu
fauor seus donos de carregar, & isto Jhe
mandou pedir & requerer por hií Antonao tauares, que
foy ein hüa com vinte tant.os {Jortugueses ' &
maodoulhe ··que quando el rey não quisesse mandar ir os
jungos ·de seu porto,· que os fizesse ir ás bonbardadas:
ho q A ntooio tauares fez· con1 .tanta exorbitancia que el
Rey & a sua gête ficou enJ extremo escandalizada dele,
mas pOr. Antonio tauares estar no mar & ter artelharia,
nlo ousou el Rey de bolir coeJe: · & estando ele no por-
to pera acabar de outros jungos se bi fos1em
deu lhe hüa toruoada ·com que a Custa deu a
costa, & Antonio ·taua.-es & os outros se saJuarão em
terra com muyto perigo: mas _ aproueitoulbes pouco,
porque como a gente estaua escandalizada,- como os Yio
assi desbaratados , remeteo aeles cõ suas armas , & ma-
tarãonos a todos: & tón1arão a Custa· & artelaaria. Ho
que sabendo Antonio de brito, mandou, Jogo prender
aJgüs carpinleiroâ de! Rey de qucp JJie êpreata- ·
..
• . .
- I
LIVRO VI. 91
ra pera fazer h ii que lhe de os
prêder, mandou a el Rey de 'fidore bo porque os
prendera, requeredolhe que lhe mandasse logo as ar-
mas dos Portugueses, a fusta, & que lhes
fora tomada , & os. mouros li os matarão pera fazer j-us-
tiça deles, ·ao que não satisfazendo el Rey, determinou
Antonio de brito de·Jhe fazer guerra: ho que Jhe Caçbil
daroes cõselhaua que fizesse, pera ter dele mais •
· sidade do- q tinha, & dizialhe q se d.eixa$8e assi passar
- ·aquele dei rey d.e 'fi.dore que cada aia ho
teria ho .otfeder: & que a raynba & seu .filho ho
ajudarião posto que_ ela fosse filha dei rey de Tidore &
..ele seu neto: o q. era contra rezão, nem a rainha ho
quis fazer, & posto que não fosse de praça secretamen-
te mãdaua aos seus que não ajudassê a Antonio de bri:-
to cõtra rey pay, & que se leuantassem contra
Portug.ueses. Do q Cachil auis«:>u Jogo Anta:-
de brito, & lhe que metesse a raynha &
.seu filho na fortaleza, & que. coisso seguraria a. terra de
todo. E sobristo ouue Antonio de brito conselhp
aes fidalgos· & caualeyros q. estauão coei e, &_ os · mais
deles lhe aconselharão q por nenhil modo bolisse co·u• a
raynha nem cõ el rey , metendo os na fortaleza
se Jeuantaria a gepte contreles & Cachil Daroes não
seria poderoilo pera os apacificar, qu·e melhor seria
uar a raynha por be. E. Antonio de brito não quis
1nar este cõselho poJa i_nstrução que tinha de Cachil
roes: & queredo ho poer em obra soubeho a raynha &
fugio pera hüa serra & dali se passou per.a se.u pay & bo
rey ficou & porque não fugisse lambê recoJheo o A
tonio de brito na fortaleza tratãdoho como queera
cõ todo se.u estado sen1 Jbe faltar cousa nenhüa. E
tudo ven.do. a g@te da ilha coano ho seu rey tue ..
tido. na fortaleza/ & _ho não deixau3o sayr deJa ficarão
muy de1contentes. parecedolhe que era ·preso, &. Quue
algüs em algiis que Cacbil ·Daroes apagou,
mas· não que a gente ficasse de todo be com Antonio de
K2
92 DA HISTORIA DA INDJA
brito nem bo querillo ajudar na guerra e8tra el rey de
Tidore por ser pay da sua raynha :· do que Antonio de
. brito estaua n1uy agastado, porque por ter poueos Por-
tugueses & doentes, & tinha a fortaleza por aeabar nlo
ousaua de os apartar de si, nem de os auenturar águer-
ra: & a que queria fazer a el rey de 'fidore l}rialha fa-
zer com os 'fernates cõ proposito de lhe derrabar coeles
seu poder: per a que quaado os Portugueses fossem te-
nessem anenos que fazer, pera o fJUe conselho a
Cacbil Daroes que lho deu m·uyto bõ, &. foy (} màdasse
pregoar polas da ilha que_ qualquer pessoa
que leuasse cabeça de 'fidore a Antonio de brito., o a
lho Jeuasse catiuo que lhe daria por cadabií hü pa.Oo fi... .
no. E como eriio por ganbaren1 · pre«io
eomeçariilo logo de fazer saltos na itha de .Tidore, co-
.mo começarão, & tantos os l} mataul·e .que não
auia que. abastassem pera lhos pagar, & tambe
dos Ternates morrião n1uytos , & deseja·rem seus paren-
tes & amigos de vingarem suas mortes foy causa de a
guerra se atear, & comefiOtJSe de fazer muy erll'a dal&-
bas as partes, & os da ilha de Bachã & de Geilole aju-
dauilo aos 'fernates por amor de ganha·r& os pa ..
nos. E. com· toda esta gente que era contra el rey de
Tidore desejaua ele tão pouco paz nem amizade com os
PorJ,uguesea }leio escandalo ·que tinha. deles ·que n-unca
a ped:io· a Antonio de brito, nA se lhe deseuJpott do
·passado. E neste tepo mandou Aatonio de brito desco-
brir outra Bauegac;A pera Mafaéa po}a via da ilha de Bor·
neo, que lhe âisserão que- era mais breue que a da }Jba
de Banda, ·& mãdou a isso hü nauio hü Similo dabreu
seo parente que par,io de Ternate em lunbo: & por-
que não soube o que lhe sueedeo na olo direy
mas se nlo que chegou a Malaca em N ou&bro h ii mes
despois de dom Garcia an·rri-quez q-ue fora poJa via de
Banda, & auia onze meses que partira ·de 'fernate.


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LIVRO VI• CA»I1'Vt;O XL)ll.
C A ·p I T·.v L· O XLIII.
De como d)j Pedro de castro pOs a obtiliencia dos reys
ZanNar Pemba as ilhas Querimha que lhe de·
sohed.aão.
lno8rnando dom Pedro de castro & Diogo de melo em
Moçambique cotna atras fica dit0 chegarão ao
mór da· fortaleza htls ebaixadores d·as ilhas de Zanzibar
& PAba.: pedindolhe que pois erão vassalos dei rey de
Portugal lhes desse ajuda pera sugigarem a seu senho-
rio as iJhas de Querimba que sendo suas selbes reuela-
rilo cõ fauor dei de Mombaça, & nelas lhes tinbão
tomados hfls zanlbucos & morta algi'ia gête. Ouuida es-
ta embaixada pelo alcayde mór por quanto não era po-
·deroso pera dar l1o socorro q lhe pedião requereo aDio-
go de melo & a dom Pedro de castro que socorressem
aqueles reys, porque seria grãde serui<io dei Rey de
Portllgal. E por Diogo de melo não poder ir foy dõ Pe-
dro sem & foy ·no batel da sua nao arrombadas,
& ·escolheo per a ir nô esqujfe ChristouAo de sousa , de
·.que faley nos liuros atras q hia por passageira & Jeuaua
-a capitania de·Chaul, & coele & com dõ Pedro forilo
outros fidalgos & gen.te darmas em paraós da terra , &
aerião por todos· passilte de eê· dos nessos. E in- ·
do ao longo da costa chegarão· a htla das principais ilhas
das de Querimba hü M antes d:e sel posto, em
ij auia hüa de mouros & estaua em goarda.
dela hti sobrinho dei rey de Mombafia eom g!te· de goar-
& coela ajuntou toda a ,Ja terra que era muyta:
& vendo vir os nossos euydando fl 68 enganassem say-
rllo ' praya cõ mostra de paz, mas q·uiltia virão os nos-
soa armados reeolberaft8e pera a k poêdo em
saluo as mol_herea & filbos com outTa gente qáe nAo po-
-dia pelejar, & assi ho mais que deixaril se ea--
:tar OOD) suas armas· per a • terra. B D·isto che-
9.4 -: D..4, I{!J}fl\.;
garão os nossos a terra , & dom Pedro fez deles dous
esquadrões, & com de sousa cõ
outro entrarã na pouoaçito cada hil por seu cabo em que
acharão. grande· resistecia: pQr.que. ho ·sobrinho dei rey
de Mombaça era esforça;do .& çõ a gete tinha de-
fendiase bem, & assi se a pelejfl
espalhandose dõ Pedro & Christouão de sousa cõ os seus
poJa pouoação: & durando a bil fid4llg9
-chamado, A ntoraio galuão. filho que fora de. Du•4'te
u!o, que ia coan «Jom. Pedr-o .se per:deo de •ua .. çompa-
nhia, & buseandoo com ho acomp3obauão
foy ter cõ sete ou oyto dos o.ossoe- , que pelejaulo
muytos mou.ros, por sere muytos. os. tratauão .muy
mal com . muylilS que. lhes tirJhão dado. ,E
gãdo Antonio gul\JãO, fez
os mouro•, & foy ajudar a Christouão de. sousa, .. qui!
estaua em grãde aperto cõ mouros, <teatro em büa
c;asa, ho Christouão ,de sousa JPUJ .esfQrçadl.\-
mente matãdo muytos, .mas fic;ou ferido. E nes.te teui-
·JlO. na parle onde Pedro., :foy mo.rto ho. BQ-
bri nho dei rey de M9baça , que qs. mouros • dea-
ba·ratarão & fugirão, ficãdo muytqa .&.dos. Dwt-
sos , forão feridos a fora Christoqil ·So!)sa·, Gaspa.r
preto seu er1ado, Nuno freirt; ,,. ... IQ-cb.edo, .& ou.-
tros de noyte a
colheo dom PedrQ os hila. do
mar eateue aque'a noyte. ante manb&,
que. entré;lua gente da . na a se ajütar
com os mouros, & IJ:o qoe ·'·' .po.dia fa.-
zer cõ a _,maré .. vaz;ia., .a Ap\ooiy q.ue .fos-
se cõ algüs dos. nçssos a J h o .eJJt.rouar., & .. n4o. pode
ir logo, por com febre, & foy bem de
dia se foy aj.untar Anlon,iq _galuão, & nos
mouros & muylptf., & OQ_tr.(}S. E
.roubada a em que se_ despojo, que .. va-
Jeri a duzetos m ii cruzados , foy pos.to fqgp
dõ __ lbe.RI
..
LIVRO ·cAPJTVLO :XLIII. · 9()
mouros dauão porque ho não fizesse, & ele nAo quis
porque ficassem. eséaráine.taaos :; & não se leuantassem
01ais contra os reys de Zanzibar-, &, Pêba, a cuja obe-
diencia \>a· totrmu '· &; assi· '01 outros ·das outras iJ·has'
que vendo estes desbaTatados & castigados, se torna-
Jilo a obediêcia doa reya : & Elstãdo ainda aqui dõ Pedro
alagarão se oa páraós·, em ·que os nossos tinhão carre-
gado bo despojo que- ouuerã dos imigos & perdeose to-
do: feyto isto partiose dõ Pedro pera tedo
mildado diante Chriitou&o de sousa & os o'utros feridos.:
E partiilo daJi por ho· batel ser ·pesado & mao de
remar '& dar muyto trabalho, determinou de ho man.dar
a Merliode, pera õde ho veto era a. popa, & por ho ba-
tel aer grande sofria h·o mar, & ele iria no e&quife ao
Jongo da terra pera & deu a capitania· do
batel ·.a Antonio galuão, & con1e"àndo dé caminhar, es-
tàdo dom Pedro surto ê hila 11equena enseada, estando
ele dormindo des.pois de saiose dõ Christoulo de
oastro seu primo, & assi os outros ean terra, oDde ou-
uerão hum recõtro ·com muytos Caíres, que os tratario
mal , que os fizerã recolher ao t'Squife muyto feri- •
doa, & isto .por lhe• acodir :dom ·Pedro que acordou ao
arroido, & ae não ·aeodira todoa furflo morto,: & v en-
dose assi dom Pedro tornouse pera lio lugar de q parti-
r-a, õde achou ainda Aotohio· gái9Ao que não era parti-
do, & aquela noyte morreo? dõ CbristouA de castro , fi-
lho dP. Felipe de castro, que fo'l hil dos feridos. E ·por
dom Pedro ser parente Dãtonio- galuAo·& muyto seu a·
migo, rogoolhe qué deixasse hó batel, & fosse eoele no
esq ú ife , & assi ho fez : & ·o o batel rnldou por capitão
a ·dom Roq·ue de castro seu jrinlo: & ele tornou a seu
Moçãbil}.
..
·DA BIII'GiliA DA INDIJ.
C A P I T V L O XLIIII.
Do que Antonio golu4o fe• t"': C'AJtangon' • per4
'MOftJmbtqu,. ·
E indo aO longo ·da costa foy ter coele htl zAbooo
regado de mantimêlos, em que ião Portugueses, .& por
algüs respeitos que pera isso .oaue, mudou dom .. Pedro
ho conselho de ir no esquife! & deixãdo nele por capi-
tl a Antonio galuão, foyse diãte ne E Antonio
galuilo ficou no esquife , e q pas1ou aaaz de trabalho, ·
de fome & de sede , com todos oa de sua eompaobia : &
estando trea legoas de Moçãbiq parece" biia legoa ao
inar, que· era- hü zlbuco, a que clerão caça cõ ho es-
quife a vela , & fizerãna varar _em terra, na praya de
hila pouoaçl chamada . pouoada de mouro&
que estauio de guerra cõ os nossos. E quando Antonio
galuão a terra, jo. os· moradores dela desoarrega-
ulo h o zãbuco que logo deixarão, & remeterAo aos oos-
•oa .ê desembarcãdo ·: & trauouse antreles hüa peleja, ê
que os ngasos ào fizeroo tambê, que ·teuarão os imigos
ate bo Jug4r .a que logo poserão bo fogo: & por lhe 08
immigos acodirem deixarlo -es .nossos, com leuerão
tempo de toraar ao zambuoo & dei talo ao mar, & acha-
rão nele al·giia maot·imêtos., & aasi tomarlo paraós
g estauão no porto. Isto acabado que os nossos eetauào
no mar, ex vê de terra hü. para6 cl sete. ou -oyto· homês
que ehe.garão a bordo do. zambuco ade estaua Antonio
a .que hfi. velho que vinha no paraó apresi!tou
bu presente de·ga1inhas·& fruy-tae·àa terra,- & diaelhe
· por hü lingoa qúe trazia que era .«:fe Moç·ambique_, ··que
ho ia ver & aos de aua cõpanhia: pera ver homês ·que ·
sendo tão poucos teuerão tamanha ousadia que sayrão
terra a pelejar com tamanho numero dirnigos, & iJ. assi
.lhe tomarão o zambuco sem nenhü perigo: & assi .lbe ia
pedir .que lhe .fizesse merce daquele zambuco &· dos pa-
LIVRO VI.· C..lPITVLO XLIIII. 17
raós ll tomara naquele porto, & que ficarilo por seus
pera sempre. E dizia isto de maneyra que Antonio gal-
uão entêdeo que dissimulaua pera lhe fazer algiia trei-
entedendo isto fez que os . queria preader , &
disse ao velho q ele tinha sabido como os daquela po-
erão imigos dos nossos, & lhes tinblo feytos aJ-
gils 1nales. E poia ele sendo dela lhe fora falar sem se-
g.uro & pera ho enganar que bo engano auia de ficar
·coele, & ho auia de catiuar cõ os mais de.sua compa ..
nbia: do que bo & os outros que erão maDCeboa
.ficar.ão trespassados de ntedo , & deitaranselhe aos pés
pedindo misericordia, & confessando que vendo que por
força ho não poderão vêcer quiserão prouar de ho Cazer
por .manha com ho deter ate que vazasse a maré, que
'Yazaaa tanto que lhe auia de ficar· bo nauio em seco, &
êtão detern1inauão de ho tomar: pedindolhe que
Portugueses erão piedosos, & quanto mayores erros lhea
fazião, tanto mais perdoauio, & essa fama tinbão, q·ue
lhes pt-rdoasse, & que eles ficarião obri.gados a seruirem
quaesquer Portugueses que ali fossem ter quanto·vi-
uessem , & lhes acod irião ean suas necessidades : & asai
ho deixarão encomêdado a seus decêdetes <} ho fizes8ê.
E Antonio galuão lhes perdoou com .que.Jhe
vendessem algil.s mantimentos & que ho sol.taria & aoa
outros. E prometendo ho velho que si os .man-
cebos -e1n arrefens, & ele foy polos mantimentos, .. com
que tornou trazendo muyta gente carregada de ·cabras,
capados' galinhas, ouos & outras. muytas cousas pera
comer. E entregue tudo a Antonio galuão soltou ar-
., & ficou ai i dons dias refrescando & ne.J.es fez
paz .com .os da pouoação, pera que agasalhaesea1 os nos-
sos ali f{)s&em .ter & lhf's dessem ho necessario,
& pe.ra ·isso ·lhes alargou bo zãbuco & os .paraós que lhes
tomara. E deixando a terra pacifica se ·fo.y pera Mo«iam-
bique, õde achou dom Pedro & os outros que ali il)uer ...
nauAo fa2endo hüa .casa de nossá senhora que se.cba-
Jna do baloarte. r'

LIVRO VI. N
98
. C ·A P I T O L O XLV.
. .
De -como dona PtM:o àe ctlllr& "' !f' 11! pudes
a 611à tuJo na barr.a.
Vinda a moucc«o pera a lndia ee partirlo estes capi-
tães que ali inuernauio, Diogo de melo pera,Orm·az,
soube que estaua lao goueroaEior ., & dom Pedro de
·castro pera a lndia & chegoa aa barra de Goa em A goa-
·to. E estando a gente toda e1n terra, vespera da As-
'BUDJpçã de nossa senhora se leuantou hi'ia tão braua &
·medonha tormenta no mar que parecia que tudo se fan-
i.lia, & a nao de dom Pedro que se chamaua a Nazaré
.:por ser velha começou dabrir & fazer· agoa per muytas
partes : o que sabido por dom Pedro acodio logo oom al-
giia ·gente com quanto aoia m·uyto perigo ao sayr da
barra por os mares muy grossos, & por a nao
ter necesaidade de gente que lhe aoodisse fazia a Fran-
cisco pereyra pestana capitão da cidade ir por for'tl. E
Antonio galuão ae embarcou em hum batel com seus
eriados k amigos, & seys ou sete que forão de seu pay,
& foy dos primeyros que acodio, & era tao1anho ho ana-
rolho que anda.ua no rio por onde hia quf:' não hião a-
goardaado se Bão quando bo batel auia de ço"ohrar, pe-
Jo que bam Simão vaz· pedio a Antonio galuão que Jw
mandasse poer e·m terra, & ele ho fez coua dó dele, &
eRt me •• saltarão outros dous' &t se acolheram.
-E não ·fie de$·pantar, plrque segundo muytos me. conta--
rio bo ••ar & ·bo rio ·andauão tão espao·tosos ogw bo fu,..
vento que •• reuoluia, que parecia que querião
.deatrayr. tudo: ·&que era hum dos sinais dantes do dia
do juyzo, & asai Antonio galuão aoendo vis-
ta da barra·ea que ao8auão os mares tão altos.que pa-
qae e.hegauão -ás O que vendo mo-
radores de Goa :que ião no batel, requererão a ·Antonio
galuilo que não sayse do rio porque .se perderia. Ao que
LJV.M. VI•· CAI'I'l!\'l-0
ele respondeo, que não cuydassem que ia a nao por ter
la a fazenda & a silluar que rd.ió.tirtha, & não ia se
não ajudar a aom Pedro a saluar aquela nao que era
del Rey de Portugal. eom que;m viuia, ·por isao q não
auia de deixar dir por mayor tormenta que fizesse que
nosso senhor os ajudaria, & eles insistião que não podia
ir nem auia dir porque ae perderia. E insistindo nisto
o que. gouerna.ua ho btttel encaminhou para ;(erra, &
A n to aio ff&luão h o fez gpuernar p.era a nao .alueaqt ndo ...
ho q ho mataria, & a que di1s.esst! não foseem por·
& valeoJhe os que leuaua d.a sua parte, porque
ae i&80·-não fora fizerãno tornar p.era terra, & poendo a
proa·· na·quelea mares & rompendo por eles eom muyto
_ perig() de sua vida por as-ondas comerem ho batel, che.
go.u ·.tão perto da nao que lhe lançarão dei• hüa beta
onde bate I . foy ala·do a bordo , onde 'Qão podia
e.hega·r eOBJ ·grande .reeaea que etnpuxaulo
ho bat.eL muy Jõge •. E· entrado Antonio ga)uão na oao
eom os, seus dom Pedro (:Om os que estauão na
nao em muyto grande afronta, por não podRrem veooer
a .muyta agaa fa.zia, nem prestou a ajuda qu11
ele &.os seus Jhe derão. E vendo dom Pedr9 que·a,
nio tinha remedio se não perderse mandou. aeodir a ra ...
lenda dei rey que lhe Jembraoa mais de .saiu ar (ue a
e11a., porque vendo hum seu criado quà pouco J.he e1a
lembr.aua a respeito da dei rey Jbe.disse q·ue a -naau.
daase oulhar porque se perdia toda. Ao que.ele respon ..
4leo muyto meneoeorio :· A dei rey queria eu salo.a, que
da minha Dão me dá nada que 12 .pe-rca. E asai ho fez
que deixou perder muyta parte dela por s.aluar a dei rey
em que leuou de. tmbalho. I E ·vendo }lDr derrad·ei ..
ro que ·a nao J)Qdia etca·par, aa vela &
:varou em terra· que era a maré obea.: &, ardi:) se
aproueyteu muyto do· que ia na oao, & ela acabou alt ,
&em :da eid·ade ousar :nlnguem qacodir eõ n1edol do -mar
ae não Antbnio ;gaJuão. .
• - .
o •
N Z
100
DÂ Bll-rORIA DA ll'fDIA
C A P I T O L O XLV I.
De como ko g6uerntJdor· m,andou Btiltaar peBI«J ·por em-
baixador ao Xeque ismael.
Estalido ho gouernador em Ormuz foy Raix J:arafo cer-
tificado que algiís capitiles do Xeque ismael não deixa-
uão passar as cafilas que .ji() com mercadorias pMa 01'-
m·uz, dizendo que bo faziélo porque e! rey Dormu& de-
. ui-a ao Xeque is1nael cinco n1il xarafins de que
lhe nAo querião pagar. E porque desta repreaal'ia perdia
el rey Dor1nuz n1uyto em suas rendas, xa-
rafo ao gouernador que mandasse rogar ao :Xeque isanael
que fizesse alargar as el.rey Dormuz era vas-
aato· d.eJ de Portugal com quem boXequ.e iamael ti-
nha· paz & amizade: & quaRto ao que lhe el rey Dor-
muz deuia farião conta & lho ?pagaria: & sobristo man-
dou ho gouernador bfta erDbaixada ao Xeque ismael com
que foy hum Balttasar pessoa caualeyro da Ordem de
Santiago· que foy bem acompanhado dalgfts Portugueses
de- cauato, & piles pera 01 eeruirem, &,, foy em sua com-
panhia Abedala califa embaixador do Xeque ismael que
nuea se· mais fora da· I ndia. E partido Baltesar pessoa
Dormuz foy ter a ·bua cidade cbaanada Lara em t.erra
de Persia que era de hum senhor mouro que se c:bama-
ua rey eomo disse no Jiuro terceyro: & era vassalo dei
rey Dorm·uz. E por ele nlo ser rey ·verdadeyro , Balta-
sar pessoa nilo fez dele tanta conta como ouuera de fa.
zer, & mandoulhe hum presente que por ser de pouca
cousa el rey oilo quis tomar. E com quãto B:altesar pes-
soa determinou ém .conselho de se lhe ir mostrar, pera
que et rey visse ·ho aparato que leuaua: & a mostra a-
ui a· de ser, ailo que ho fosse· ver a sua cata se n·lo pas-
sarlbe póla porta. O que AbedeJa califa· eónlra disse:
dizendo tjUe não deuia de ir porll sentia ll el. rey eataua
escãdalizado dele, & que lhe podia acontecer algum pe-
LntRO VI. 'CAPITVLO XLVI. 101
rigo. E Baltesar pessoa por conselho dos ne>ssos nlo quis
., se nlo ir, & ele & os de suá companhia forão muy bem
atauiados & acompanhados despingardeyros. E sendo
perto das casas dei rey em htla rua estreita sayolhe hu1u
corpo de mouros ao· encõtro, & hum mouro lhe deu com
hüa porra de ferro na cabe"a cõ que o deitou n1uyte fe-
rido do caualo abaixo. E nisto forão as pedradas tantas
das geoelas & as frechadas & zagilchadas, que por pou-
co.· que os nossos n§o forlo mortos & todos por
õde melhor poderão, & despois que se ajuntarão foy cu-
rado Baltesar pessoa & outros, & partiranse & furão por
suas jornadas ao campo do Xeque ismael, em fJUe
moytas & n1uy notaueis cidades, assi como .a de Xira1
que he de lx. mil vezinhos & foy tamanha em .outro
tempo q era muyto mayor do q agora be ho Cayro, &
daqui dizerem os mouros da Persia que qu.ando X i-.
ráz era Xiraz , era ho Cayro sua aldea, & tornou assi
por amor das guerras com que foy dcstruyda, & a ci-
dade de 'fabriz da mes1na grandeza, & assi outras muy-
tas de muy nobres & sumptuosos edificios, & pouoadas
gente muy Juzida, como Antonio tenrreyro conta era
ho seu ltenerario, em que esereue toda esta
terra. E daqui foy p<>r seu caminho ate chegar a hiia
jornada do arrayal do Xeque , onde hum
_recado a· Baltesar pessoa do mórdonio da casa do Xeque
que em lingoa Persianà chamão Vaquil , que se
deixasse ali estar ate lhe mandar recado flUe fosse. E
isto era segundo se despois soube, porque naquele tem-
po fazia ho Xeque ismael hiia festa que na sua lingoa se.
Nou()ruz, que quer dizer festa da primauera,
em que se de ajutar quantos capitles & senhores
auia em seu senhorio: .& por querer que Baltesar pes ...
soa & os outros nosso1 os vissern, os rnandaua ali espe-
rar por seJ passo por onde todos anião de passar. E por
este recado do Vaquil se ali Baltesar pea;soa dez
ou doze dias,. que tanto se deteu.erão os. que digo em
passar asai de noyte como. de dia: & fay. cousa· despaa-
I 01 DA Rll'l'O.IA DA llfDU
to a gente que passou de caualo, & os camelos c arre ..
gados de fato. E passada esta ·gente, & alojada no ar-
rayal, ho Vaquil mandou dizer a Baltesar pessoa q fos-.
se., & assi o fez. E ltes de chegar ao arrayal obra de
hõa legoa ho forão receber certos capitles com ate cio-.
coenta de caualo lodos vestidos de festa, & por fazerem
honrra aos nossos conuidaulnos de quando em quildo
muytas caixas de confeytos & outra& fruytaa verdes
& com vinho que lhes lrazião em garrafas de t>rata, &
assi .forão ate ho arrayal , .onde alojados os aosaos em
suas tendas , foy visitado Baltesar pessoa da parte do
Xeque ismael: a que mandou dizer que sua vioda foa.
1e boa, &. ·que descansasse porque lhe auia de fazer
quanto lhe requeresse, & alem disso muyta merce, por·
que queria grande bem aos frangues por aparecerem na
Jndia, & a conquistarem quando se ele leuantara por
.rey. ean Persia.
C A P I T O L O XLVII.
De como faltceo ho Xeque i.wmtJel sem dar de!paeho a
Baltesar pessoa : como hum filho q ·lhe su.cedetJ
ho despachou.
P asaados algüs dias deapoia da eh.egoada de Balteaar
f·,esso!l ao arrayal , veyo ho dia da ·festa da prianauera q
ho Xeque isrnael auia de fazer , em amanhecendo foy
alcatifado hum grande espa<(o de chio diante das ten-
das do Xeque ismaeJ que tomaria dous tiros de bésta,
& sobre as alcatifas muyt.as fotas de seda em lugar de
toalhas, em que forão postas muytas & muy di.ueraas
jgoarias & grande soma de garrafas douro & de prata
cbeaa de ·vinho. E· isto porque bo Xeque iamael daoa
aquele dia banquete geral a todos os mouros l}
no arrayal. E primeyro que se as•entassem a con1er .fo.
rào dados da sua parte aos reys & capitães restidos de
b.oroados, oetio•, •eludos & outras forr.adae de
. LIVIlO VI. CAPITVLO Xl?fll. )03
forros de pelo rnu·y.to finos, &, espadas goarneeidas dou-
ro & ped.raria, no que .ho Xeque iamael gastou treaea-
tos mil cruzadoa, & nà os tinha em estima por ser muy-
to liberal. E destas peças forlo tambem dadas a Balte-
sar pessoa & aos de sua companhia. E vestidos tod.os
destes atabios, a con1er: & Baltesar pes-
soa com os nossos comerão em hüa mesa hum jogo de
malbão da do Xeque iamaeJ, que tambem comeo no
quete, & estaua ·vestido em hüa de oetim bran-
co bordada de t.ela douro, & hum roupão encin1a de ce-
tim laranjado bordado do mesmo. E ho e1trado que era
muy rico estaua cuberto de & Qe todas as igoa•
,rias que lhe Corão postas maudou aos no&sos por lhes f•
zer hoa1rra. Acabado ho bãquete que durou anuyto gran-
fle espaCio, pa-ssouse ho Xeque ismaeJ a l1un1 pauelhã'>
de borcado, junto do qual estaua aruorado hu111 _ n1asto
que tinha na .ponta biía ·guindarasa pera sobirem· & de•
cerem hua que e&taua aruorad.a so-bre este masto"
& tinha na ponta biia n1açaã douro vazada tamanha eo._
n1o hua laranja que tinha trinta cruzados. E a este mas.;.
to arre1neterão certos ca·pitães & fidalg·os qlle estauão -&
eaualo em aeus postos düa parte & doutra,· & isto a0
som de muytas trombetas. E chegando quasi ao p·é do
mas to pararão & tirarão a maça·ã -que digo .seus ar•
Gos, & o a derribou .se rdeceo do eaualo &. a tomou;
& por bonrra Jbe mandou ho Xeque ismael dat de be•
ber, & despoi.s .tornou a caua.Jgar & a com ()S ou-
tros .a outra maçai <J.Ue Jogo foy posta, de que se gas•
tarão muytas, &. asai acabou a festa da pri1nauera. .E
despois disto por bo Xeque ismael ser muyto de
epelensia ou por cu,tra eausa que se não soube ele nun-
ca ouuio BaJtesa.r pessoa antes bu andou detendo ate
EJDe morreo da dle&ala doe11ça, & .por sua morte se foy
Balteaar pesa)a .aa eidade de 'fabriz, ·porque 110 arrayat
oã.o esta.ua seguro de ·morto & roubado, nem en1 Tabrii
bo não esteue se nlo em ·hfaas eusas muyto fortfla. E se•
pultade ho Xeque secedeo e- seta. seahotlo Jmm
l 04 BJSTOIIA DA llfDIA
.soo fi.lho que tinha Thamaz de idade de
·.quinze annos ·: & este despachou despois Baltreaar pessoa
sem lhe conceder nada do que pedia nem fazer deJe ae-
n.hfi caso, & assi se tornou descontente.
C A P I T O L O XLVIII.
De como se partia ho JtJuernador pera a India , de
como chega1·ao as naos de Por,ugal.
Despachado o êbaixador Baltesar peasoa, partiose ho
gouernador pera a lndia, & ho primeyro lugar dela a
c:hegou foy Goa, onde achou Eytor da silueira fiJbo
d·o Coudel -otór que partira aquele ãno de Portugal por
capitão mór da armada pera a lndia, & forão seus ca-
pitães Manuel de macedo, Simão sodré, dom Antonio
. dalmeida, Francisco da coo Pero dafonsequa, Vi-
cente gil : & quatro destes capitães inuernario & Eytor
da silueira passou cõ os outros: & de Goa ae foy ho go-
uernador con1 hüa grande arn1ada a Cochim, & de cami-
nho foy visitando as fortalezas da costa, que toda an-
daua chea de· paraós de dar1nada & roubauão
os que achauão desapercebidos. E a causa
disto era que como os reys & senhores da lndia estauão
de paz, & os Portugueses nã tinhão guerra em q. se o-·
cu par tratauão todos, & ho gouernador lhes daua per a
isso liceo'ia, dizendolhes quãdo lha daua que fossem a·
recado, porque os não matassem .oa mouros, de q não
s_e deuião.de fiar posto que ouuesse pazes: porque quan-
do as ania viogauão eles do aual que -recehiào na
guerra. E isto sabia ele por experiencia: & destas Ji-
se seguio muylo maJ, porque os Portugueses se
desauergonhar.ão tanto que não se conlentauão com tra·
tar, mas quando achauão· naos de mouros nossos amigos
pediãlhes dinheiro porque os nã roubassem, & eles Jbo
dauão por escapar. E tanto foy isto em crecimeoto que
.os .de CaJicu t se queixarão a· seu. rey q não era N
LIVRO VI. O.APITVl .. O XI-IX. 10.6
.bendarim que auia pouco q-ue falecera, & o que·Jhe
eed·eo queria grande mal aos P·ortugue6cs , & por isso
..& por ver quão 0181 se lhe goardaua a determinou
.de se vingar dos Portugueses, & mandou arm.ar e.1n .to,.
seus portos, & fazer muytos paraós que seruissem
.Je Jeuar pimenta a Meca quando não pelejasse.m, &
andauão os Portugueses tão dissolutos qu.e -os Jnouros os
tomauã.o desapercebidos & matauãnos .: o que nlo se sa-
bia ateli por os Portugueses cuydarem ·t)ue os mouros
auião de .goardar .a paz & eles não.
C A P I T O L O XLIX.
Do q aconteceo a .dom Pedro de castro a Antonio gal-
uáo en& Calt"cut. .
. E indo ho gouemador visitando as da .costa
Joy ter a Calieut ondestaua dõ loão de lima por capitão
da nossa tortaleza. E estando no porto forito algüs
.gos jantar coeJe., & antre estes foy dom Pedro de cas.-
.tro, que despoie de comer ·se foy aa ·cidade dos mouros
.com seys ou sete Portugueses. E andando Jaa coano .o,
mouros andauão daleuanto, & tinhlo dissimuladamente
.mortos algua , quiserão fazer bo mesmo a dom .Pedro:
.«Juerendo arn1ar brigas com os que bião coeJe. E eJe fa.,
.zendo que os não entendia dabaJar pera .a for.,
.. taleza: o ·que vendo os nJouros apertarão coeJe &
tres ou quatro, que Jogo deitarão a fu.gir. ·E ia,
asai acertouse que Antonio galuão ia em busoa de
.do.m Pedro, acompanhado de quatro· homês seus cria-
Ges : & quando vio os feridos conhecendo que ·erão de
dom Pedro, pareceolhe questaua em .periga pois os ·Bf'·U.s
-assi. Yin.hão., & por isso abalou cor.rendo, pera ho socor ..
rer oq n1orrer coei e, & a poucas passadas ho achou. ro-r
deado de muytos mouros armados: & dom Pedro os de-
tinha que n!o pelejassem , dizendol·bes que porque não
goardauão a paz. E com a chegada ·galuilo se
LJVJlO VI. O
\
)06 DA HISTORIA DA INDIA
pode dom Pedro retirar pera a fortaleza por hila rua es-
treita, leuando os seus diante & ficando detras cõ ho
rosto pera os mouros, que oa seguião batendo os eacu ..
dos & brandindo as agornias, & dando grandes cuquia-
das conl o que os afrontauão muyto: & nisto pauou a
diante hií mouro grande de corpo acompanhado doutros
muytos, & com muyta soberba se chegou a dom Pedro
pera ho ferir, & deteue a ngottlia por dom Pedro, &
Antonio galuão & os outros leuaren1 de suas espadas:
& porem assoberbauaos tanto que Antonio galuâo com
Jicentta de dom (>edro bo desafiou que ele & outro se
matassem coele soo. Mas ho mouro que •io tanta con-
crusam·, respoodeo fora de preposilo, d i z ~ d o que no
mar se os fossem buscar sabe1·ião pera quanto erlo. E
dom Pedro lhe disse q ho saberia Jogo se ele passasse
dondestaua: & ho mouro se calou & deixouse ficar com
os outros, & dom Pedro ae foy em paz. E com quanto
ho gouernador isto soube nAo fez sobrisso cousa nenht\a,
& foyse a Cochim, & leuou toda a armada sem dei:x-ar
nenbila na costa. O C} vêdo os mouros de Calicut &e em-
barcarão logo darmada & passarilo a vista de Cochi: &
. posto q bo gouernador ho soube dissirnulou , cõ o l} 01
mouros leuerA tamanha ousadia que entrarlo no rio de
Coohim dando caça a algtla1 nao& de Portugueses mer-
eadores , sem ho gouernador ter de ver coisso , k dizia
i} queria entregar a )adia de paz ao gouernador l} •ies ..
ee no Ano 1eguinte: pelo 11· os mouros se atreuerilo a
matar tantos l)or,uguese8 q nllca ' t ~ p o doutro gouer-
Dador matarà til toa. E como ho gouernador foy ê Cocbi
despachou Baatiao de 1oasa & Mar&l correa a q tinha
dada htla viagê pera BAtia , pera <Sde se partitão & foy
por capililo m6r de tres nau.ios Ba.stifi·o de Sousa que foy
e hü, & Marli eorrea em outro &. Aires coelho em f>tr
tro.
.
. -
LIVItO VJ. CAPJTVLO Le
107
C A P I T · O L O L.
De tl rey D«nem comhauo a de Pacct)a.
EJ rey Oachê como atras fie" dito tamanho mal
Portugueses i} todo seu era em fazerlhee
h·o mal que podesae, & em tomar a de Pace111
pera se fazer rey daquele reyno·, & de toda a ilha de
Çaraatra .pera dali conquistar Malaca:, & deapois que
por da· ebegada de Martim Afonso de melo couli-
nho a Pacem Jeuantou ho cerco tia fortateza, como tam-
hê tlflee tornou a aju-ntar gente ; & foy eerear a forla-
leaa de Paceoi onde dõ Andre anrriquez eslaua ainda
por capitão eõ a roais da gente que tinha doe te, & a
aal, & que era muyt.o JlOUca , & por nlo
saber he mrmero dela ne ho oos immigos ho não digo:
Jtem menos he modo que el rey Daebem nesta
goerra ,. pocque ho não JlUde saber per or-dê: aaluo
estando el re' sobre a fortaleza eàegoa Bastião de Sflll•
aa eom oa capitães d·e sua conaeroa, & •n·rgio na boca
do rio de Pae@ qae he h fia Jegoa da fortaleza,- nlo sa.
beudo como dõ Andre eatnua cercado, & por ser tarde
não deaembarcou. E sendo el rey aui88do de sua cbe.
gada, euytlou i} era aoeorro que 'Vinha á lortale2.'l :. k
ames que enlrasae nela d.P.terminoa de a tomar aljr.aela
aoyte eonfiado na muyta gente que linha, &_ assi ho
diase. aos seu eapitlles, encomentlãdolhei que esforça&*
&em sua gête pera isso, Jepresea,ãOOthea q como os mu-
ros & baluartes da fortaleza erão de ntade·y-ra &. au=ia
dias que se fizerão auião destar pod,res ·& com pouco
trabalho os derriharião, & derribado ·qualqu-er lari<to
go era etrada & os Portugueses mor-tos por se·rem m.uy-
to poucos. E coes te esforço forão os imn1igos cometer a
fortaleza despois que foy noyte, &, deles com escopr-os
& macetes .trabalhauão por cortar ho muro pelo pé , ou-
.tros punbão escadas & sobiã ao _.muro & balua·rtes, ti-
.o I

\
\
iOà DA HISTORIA :I)A JNrtiA.
rando -n1uylas frecbadas, outros lrazião_ alifantes: .pera
despois de cortado ho muro com os escopros lhe poerê
as & ho derribaren1. E a esta grãde reuolta aco·
dio d·om A·ndre, assi con1 os sãos con1o con1 os doentes-:
& pera ver o que os imigos fazião, mandou aceder muy-
tas bombas de fogo polos muros & baluartes, cG que os
Portugueses enxergarlo 01uy bem o que os imigos fa-
2ião, & todos muyto esforccados ll1es começarão de- resis-
tir, hüs lAçando sobreles panelas de poluora & ou-troa
m-uytos arteficios de fogo, & outros tirando. muytas. es•
pi·n·gardadas: mas co·mo os im1nigos er!o sem contG pe-
ra os poucos Portugueses q se defendilo, quasi q nã
· auia defensam pareies, porl} os nlo podiio eaber poJas
escadas ·qriã:o entrar palas bocas das bõbardeiraa a que
os nossos Jogo acodirilo & os fazião tornar as estocadas
& lançadas, assi durou -a peleja hü grãde pedaço, em
qu9 foy morto hun1 dos Alifantes, & tltos do• immi.
que os outros ouuerão por bê de ho combate;
assio por ver& ho grande numero dos mortos como pore•
tarem muytos feridos: & dos Portugue1e1 não morreo
mais que hüa molber que foy morta por desastre eom
llfta frecha heruada , & forão feridos algDa, & hü deles
foy Man·ueJ mi!dez de vascõcelos, & os outros homi!l
_baixos. B esta vitoria foy milagre .de nosso Senhor, por•
fjue segundo 01 Portugueses erão poucos, & os imigos
muytos, se· ele não acodira com sua misericordia JJio
poderão eles eseapar, porque afora . os imigos serem
muytos erão muyto esforçados, & auezados a peJejàr:
& esforçados por seu rey, q-ue ficou muyto ·espamtado·de
oa Portmguesea se lhe poderem defe11der.

I


LIVRO vr. CAPI'IVLD Lt;.
.-

C A· P I .T V L O LI •
·De ctmw dom A.ndre anrriquez· ckspejou a for&aleza de
· Pacem. . .
Ao outro dia dom Aodre li os tor ..
.Jlassem a outro eõbate, em an1anheeendo foy ·vi si•
tar a gente que ·estaua nos baluartes & muro da forta•
leza, á q vio encostadas muytas esquadas que G& ianigo'
deixarão cõ pressa noyte passada , & dõ A ndre IIJB&•
dou a mão toscano feytor que aJgüs Porlugueses ai·
.fosse quebrar, & assi ho fez. E nisto ebegou Bastião de
aousa com os cap_itaês de sua cõserua, q•e iio nos ba-
teis com a mais de sua gete : .& desêbareados êtriirãe
na fortaleza , & apartando dom A odre Bastião de sousa
& os outros capitães, lhes eontoil a grande mingoa que
tinha de gente, & de mantianentos, que erà tã poucos,
que lhe não ·abaatarião dous mese1, & que não lbe pfh.
·dião. ir outros dahi a seis meses, & que a íorlaleza era
de madeira cousa muyto fraca, & que os imigos a po-
dião queimar hua noyte. E porque não pude saber par-
t;cuJarménte a eoncruaão que se nisto tomou·, ·nem ho
eon1elho que sobrislo fizerão, nê as rezoêa que derão
ho nlo digo: se não que sendo taotos Portugueses que
podiio bem defender a fortaleza,. a maior poder que ae
delrey Dacbê, ·& teado mantimentvs narmada de Bas-
-tião de sonsa pera ho te1npo que ho cerco podera durar,
despejarão a Jortalt'za & a deixarão aos a1ooroa: & ta.
manha foy a preasa de se irem, que· deixarão ioda a ar•
telharia, cuydãda que corriã muyto perigo e1n a embar-
-carê, poJa deten"a que Di1so podião fazer:. & assi dei-
sarã a casa da poluora chea dela , sem lhe poeri ho f&-
go primeiro p<>r os ialJigus uão sua ida: posto q
I se querêdo ebarear posea'â bo fogo á hfts ·formi·g"eirol
.ele poluora li ilo da' o a do alcnazê dela,'
de arder.:: maa ga mo.urua _ho ;logo! E q oãclq vt.
l JO JtA BIITO.IA D.& INDIA
1·ão a pressa que os Portugueses leuauão poJo rio abàt-
xo , como hom!s que fugião, derão fogo a àrtelharia
que lhes ficaua & tirarãolbe coela, dãdo coisso grandes
apupadas:· .& usi elrey pacificamente
nhor daquP)a fortaleza, lêdo ê muyto pouca cõta os Por-
tugueses : & ficou tão soberbo , que dali a poucos dias
tomou ho reyno de Pacem , porq.ue ho gouerDadQr dei"'
vendo ir os Portugueses Dão ousou de ficar sem eles a&
terra & Jeuoo c.õsigo el rey q.ue era ainda JDOfiO. E des.-
.pois gaDhou elrey Dacbem ho reino Dauru. comarcão
,Jes'e: & elrey Daaru fugio peta. Malaca, onde ele &
ho de Pacê viuião muy pobr.emenle. E ch•ado dom
A .. nd.re &. Bastião. de sousa.Ofldeataoão .os nattioa., det&
uerãose tres dias :: & deapoia forãote pera .Malaca oade ·
chegarão a &aluamento.
C A. P I T V .Li .0· UI.
De eamo el '('fJ de Binláa rnliJJdau. faaar 4 Mi&
laca-:. de como foy t11DI1Q Anr-rüpw lant •
.
captUíls.
E1 rey da BirrtJo. que er11 imigo mortal das
ses,. não cuydaoa nüca .. se não. eomo lhe· faria: g..,r.a pe•
ra os. destrui-r & desarre-igar de Malaca,. pera o qae ele
cõtiao. se apercebia. E tedG: Jitae oyteata & cinco lan-
Clhara•· forDeeidas de moyta & boa gl;te
7
&. dalte19·aria
as ent1egou. !lO seUt almirante. Laliximtma, pera que fos.-
ae sabre Malaca, & lbe fizesse a. mais guerra que pede.
se: & ele se partio ao E- iDdo. hila tarde com saa
armada &Ot ligo· da cosla: o't.G ie§'oa• tletl\lalan,. 1:0-,· vis ..
to de Dll8rte; coeJho que ia ê ·hQa naueta sua a. fazer
.presas á dCJf raypo· cilt Pdane-. E porque sabia que
eJB Malaca auia aoepata daquela arnlada porque
lllri tomasse GS Portugueses clesapercebiilos.,. coma foy
vDOy·te ae fez .. yojt;a, de Malaea :'· ida ohep,oado cõtou a
lorp ae!·. ia. O ! .. abitlo: F eJ. Í8l
LfVltO fMPrrf'I.O Lfl. 11 I
ê que todos forio dacordo que se ·logo
pelejar com aquela armada: porque .não a desbaratando
daria muyta opresslo 4 fortaJeza andàdo no mar, & lhe
tolhetia os maatimltoa &. mercador.iaa que ido de fora':
pera Jlo que Jogo parlio dom Sabclm anrriquez capitl0
mór do mar de Malaca, que foy em hO gaJeão d,e que
capitão seu jrmao dõ Aatooio ·anrriquez, & íorão
coele Duarte coelho na su·a naueta, 8t Manuel de bera-
redo I hila galeota, & stia capita·ê1 oulros em seis .Jan•
chara•, que se chamauão Anrriqoe leme, Francisco
fogaça, Diogo Joureqo, Fernio daluarea cassado•, lobão
de soria, & Afonso lúys, & 1)artio do rio de
Muar onde estaua Laqueximena cõ toda sua armada, &
dõ Sàcho, Duarte coelho, & Manuel de benedo, pol"-
que os seus nauioB er·ão grandes ião ao mar, &, ·as
ebaras muyto perto da terra , & indo assi arme use .bua
toruoada d·o noroeste lhes seruia a popa: o vend•
dom Sancho amainou 5t fez ainal de conselho. E juto•
os capitAes, lhes propgs dom Sancho como aquelas t.or--
uoadas vinhão com muyto grande vento,·& pera entra•
rem no rio de Muar que .era largo & fundo., se a ago•
decesse faria tamanho eaearceo que os lneleria no. fun-
do , & n1ais q era tarde : por isso lhe parecia bA meter-
no rio de Ca"AO· que era pequeno, & estaua pri'-
meyro ho de Muar. Os erão ãtigos naqla terra &
'abilo bl\ da guerrá fori todos daquele & dii.
'} Se fizesse assi : & ()S outros que auia pduCo l} 'i8'-
tlo de Portugal & aao sabillo da guerra disserão, q
lo era medo & que nfto ee auia de fazer. E por serl
lnais que os outros &t terem mais \'O!es, se aísentou em
toruarem seu parecer: dizêdoJba ós outros que quande
1e Yissem cõ os imanigcs, enllo saberia quê auia 1ne ..
do. E em & seddo iheâ Jeg()a do rio de Muar
a torue>ada Ir, dá na nossa frút&: dom
fllanuel de berredo k Duatte tot?lho que bião de Jarg:e.
-ànlAinarlo, & os capitaiS das cllsigG
demro JIO rio fie M-uar, k. tres ião diante tom a fot'Jâ
,.;
'
11 I DA Rlft'ORIA· DA INDI! •
.do vea to rompendo pela grande marulbada .. que bo rio
fazia, forão dar antre a armada dos ·i•nmigos ,. de que
logo algüs os aferrarão, & como erã o'uylos & os Por·
tugueses poucos matarãnos a todos: &, -CÕ bo prazer que
os mouros receberão de ver 08 Portugueses daqu-ela Jna ..
nt'yra & tere por certa sua morte, leulltarão tamanha
grita q retenia por tudo (lerredor: & apos ela desfe,.
-charão seus sinos, bacias., & outros ios.trotnetos, que
isso abastara pera alagar o8 Portugueses, quanto mai•
, ho grande esearceo da agoa que alagou a Janchara de
Francisco fogaça, & Dãrrique leme, que com quiltos
ilo cõ ele forão afogados , & i os de Frãcisco fogaça
.aaluo ele , & oulroa tres : & a outra foy varar e hüa va-
-sa onde se meteo toda , & valeolhe l} erà ja noyt.e & fa·
.zia eseur.o, & por isso os mouros os não forão acabar de
matar: &quis nosso8eQhor. dar tamanho esfortto a Fran,
. cisco fogaça.& aos outros trea., .que se pegarão na
eh ara encomendandose a nossa Senhora , & assi como a
.chamarão com muyta deuação assi ela ·valeo, que
.as mesmas ondas que alag.arão a lanchara, a leuarão a
borda da vasa e que a outra fora varar, & ajuntandose
Francisco fogaça & seus cõpanheiros que estauão nela,
"'azarllo a .sua da agoa l} tinba,. .& eõ trabalho i•nenso a
flOSerlo em nado estando ja ho rio manso, & fizeranae
prestes' per a que e.m se fossem pera boga-
Jeão de dom Sancbo, porque . doutro modo nio tinhãQ
segiido a 1nultidão imigos: que
.como estes Portugueses estauio no rio a Jerta
per a em amanbeoêdo da rê- eobreles,, . & assi ho fizerJio:
que e saindo do ri9 com a luz do d·ia, esped:ense cinco
Jãcharas dos mou-ros depoa a boga arrarJ•
.cada , & alcan«(ãdos no mar o.s a_\laJrroarAo, aeometen•
doos. com brauo impeto de gritas,&,_ sõ de instrometos,
muytas ,. & arremesos' a que os
Portugueses re$istirão e.sfqrço, &
nando fadiga grandíssima em. se defender, matãdo &
.IUUJtQa. :JI)9Utof,_j{, algils & fi,
IAVItO: VI. l l 3·
ca-na o feri(los ·muytfos, se dos mouros &
se acolherlo ao galeio de dõ Sancho, que sabendo bo
que passaua mandou reagJhe.r ao galeão· os feridos,. de
llü foy Fra.ncisco E querendo dom Sancho
. aquele dano, sem mais c&relf1o mandou a Ma-
nuel de berre do,. & ao da lanchara de Francis-·
co fogaça, que fossem na .boca do rio de Muar,
parecendolhe .que pera deterê os imigos que
nlo saissem .do & que entretanto veria veto (por-
q·ue era- calma) & ele, & Duarte coelho se i ri! ajuntar
coeles , & defenderião os immigos que nilo saissem do
rio , & mãdaria recado a Jorge dalbu(}rque , que lhe.
mandasse socorro per a pelejar coeles : & Manuet de ber-
redo & ho outro ca·pitão, com quito virAo que· dom Sàu-·
cho lhes anandaua cousa. muyto desarrez<>ada, porqne
pera a grãde multidão dos immigos, c)aro estaua
bo perigo era muyto certo, & porque nlo parecesse
bo temião. forJo, porem ainda bem nilo chegamo a bo_,
ca. do rio' sem lhe os .mouros darê lugar pera
oa. aferraria, & en1 muyto pouco ·espa«io· os sumirlo maJ
tandoos a todos, & toma rã a galeota & a lanchara : &·
coestes, & com os que morrerão dentro no rio
&. a ferro, forlo por todos sesenta & cinquo Portugue-'
ses, & Atreles morreo. afogado Anrrique leme muyto es_;
for<(ado caualeyro como· atrns disse, & dqa das fustn(
que se alagarão se a nado bum lobo, qu&
se foy por terra- a Malaca, & pos noue dias no caminhO'
por andar de ooyte sómente, & ainda pouco cou• medo:.
doa Reymões, & doutras muytas & feras alimarias que
lia poJa. terra: & poJa ocupação que os mouros
em matar Manuel de berredo & os outros
1
nlo entende.J
tio em dom Sancho, & em Duarte coelho, que se ow
cometerlo ouuerão de passar mal, ou perder as vidai
segumlo os mouros estaulo vitorio101. E vendo dom·
Sancho a cousa como passaua, ·& que nlo podia fazer
Dacla q-ue ptestaue contra oa immigos, acolbeoae pera·
Malaca com ho que lhe sobreueo. E Laqueximea.
LlV&O VI. P
114 :N\ ])a\;
con1o era. sabedor na guerra, & coahecia qne hn dano
que fizera aos nossos fora mais por desastre de. 111ao- re-
gimento, qua por çouardia dos Porluguesea, &. esforço
da sua geo&e contenlouse oom ho & não queren-.
do esperar a vingança q11e os Portugueses- quorerião lo·
mar do passado, partioso pera Bintam,
C A P I T V L O Lili.
. .
como- foy tumado hú nauio na cidtUle da Pão-, otaltJ
( · forúo ntorúJs algús Porwguasea.
T dom Saaeho a Malaea quisera tornar • bu ..
e.a-r os , & .por saber que erào idos 86 de.isou es-
1,ar. E Jorge dalbuquerque deu !ieen<(a a hü Ant.anio de
pisa , 1noço da eaurara. dal Rey de· Portugal, que fDaae
·em l1fi jungo seu á ilha de Jaoa, a fazer fazenda aua &
de partes, &,.. forào eaa sua eornpanb.ia trea P{)r,ugaese•,.
de que hu se cbamaua Bernaluo drago homi antigo·-em
Malaca. E torna·ndose da laoa per a MaJaca, arribou
oom tempo á cidade de Pão situada na CQS!a perlo_de
Malaca,. eujo rey seo·do alnigQ doeJ. Portugueses., el rey
de Biotão totnara por genrro dando1he ltia sua 6lba por
Dlolher: & a causa que bo m()Ueo a este parentesco foy
porque esle rey guerra aos Portugueses i) eõti-
»uéauão auuyto ht> IIIU porlo & coa-ta do seu reyno. E
es'e foy lllllJlo seereto, porque em qu.ãto
»4o ae soubesse rey de. Pão muy·to· dJoo aos
seerelame4.e. E sem eles saberem· a eaasa
eotllO pasaaua· foy Ant&nio de pina ter ao ·porto desta ai·
da de de Pão. E. ele q el era aanigo dos: Por·
_ lugueses como dãtes , mãdou a terra bu•car màtimêtos.
·-·E sahêdo el rey eomo ho jugo eslau·a no ... porto, màdou
pregutar a Antonw de pina, se lhe era neeeaaaàa de
JlQa c idade anais ·algiia oousa , & q· l_ba mãdaria tdar do
boa & midcluJhe muyto refreaeo : aflJa· ooyte
clttepacàou. ateie Jãgharas cõ & o.ytenbl homll.
... • __ ·v
---
VI. O.A.P.I'nJ.LO LIIII. , I lfJ
·peleja, afora 011 :remeir()l qtl8 erio Do ,aohro: ·que .ettl
.amanhecendo abalrre>ATàn bo jungo per teclas ss parte1.
E Antonio de pi na, .Bera:mldo d4'ago, &, os ou troa doua
·Portugueses pelejarão ate que mais do poderio, &
-despo-is de matarA algõs dos imigos, foy morto ho scri-
não do juogo : & .A akMMe de pi na, Bernaldo ·drago, &
outros dous Portugueses forlo eatiuos, & bo jungo to.-
.Jnado co1n quanto tinha, & todé foy entregue a eJ rey
·de Pão, que muyto,. J.edo ·mandou logo os catiuos a el
·rey .de Bintãê: que despois l.bes cometeo <1. se tornasa8
mouros, faze.ndolhes grandes se ho nlo quisefJ- ·
sen.• ae.r. ·E eles com. ·muyta. coustaneia lhe responder§&
qt1e fizesse ho q·ue porque noo aut·ãe de dei-
xar a sua Jey q era. a verdadeiTa, por tomarem a sua
.seita que era toda fAlsidade. E vendo el rey q estaailb
-iUDea A seu proposi(o mãd·ou meter cada- hil por·si
hiia . bõbawda & desparar coelee ,. & asei forão e&'f>&daf(&L-
AIMJ por· eonferasarem ·a nosea :santa fé , & m·()rrerão
.tires •. E disto não se soube em Malaca da hi -a hU bo-M
•mpo.
C A I? J;.tr V L O LIIII.
• • • :
·De eorM foy 1t10rlo bryto no porio·de
·· · . . ttJtii,DI ·pqrmyueses.
E antes de ser sabido mildou lorge.
Slcho que fosse .fazer presas á cwsta·àe Patane, ·& foy
no galei c;le que era capitão dom A·ntonio seu jrmlg_,
que leuaria bem trinta ·I•ortugueaes: ·& outro nà-
-uio.,- foy. do rego., que outrosJ tantos:
& ele partido, chegou da lndia a Mala.ca A· odre de bri-
to, que ia na sua nao que ja disse atras. E ;como leua-
·ua laGa:lioença do goueraador ·qua trata11e por onde qui-
118818-, de IClrge dalbaquerque se partio
-pera•fiiã&,· t)eoa.&o"'CDIIIigo em eua .companhia ate d01e

4
&· 4• ,.4:8miiJho tornando de ·Silo aurgio
E. sabendoo el Pey·,
p z
.J·l'G · D& B1870&U DA IKDIA ·
mandou aobrele 1uu Jaocharu, de q amanheceo hii dia
cercado : & por 011 Portugueses aerem JlOUcos, forã Jogo
.abalrroadoa, mas sobre a eatrada doa anouros na nao,
.foy cousa eepaotoaa ver como oa Portugueses a defen-
diilo, ferindo bOa , & matãdo outr01, & não au&do par-
.te na nao a l} não acudissem eom presteza auarauilbotJa:
como erào poucos , & os mouros sem conto, que
·podião pelejar em roda viua, porq cansando hOs etrauio
.outros, ho que os Portugueses .não podiio fazer,
çarAo de cair hQs mortos, outros .quasi, das muyto grl•
des feridas que ·tinhilo, & asai forã poucos & poucos,
.ate que não ficou mais que hü jrmão Dandre. de brito
(a que oào soube ho nome) 'I pelejaua com hõ.a espada
.dambas as mãos, eom que fez .. couaas tão marauilhoau,
.q os imigos cuydauão que era diabo, porque duas yezea
-axorou a nao deJea com espãlosa matao91, & da aeguo.-
da vêdoae tão desfalecido das for9M1 & tio causado, que
aio se atreueo a defederse mais,. & por nio aer
pu morrer a mitos dos n1ouros, a.tou muyto depressa aos
pés duas camaras falcA:o & deitouse ao mar: & det-
tado, os mouros a nao. E jato ;soube despois
por hum_ Francisco de brito Chriatão da terra, que ia
Da mesma nao por feytor & lingoa de brito, que
por ser da terra h9 não matarão QB mouros, & foy des-
pois ter a Malaca.
C A P I T V L O LV.

De como dó Sácho árriques, dó .J.ntonio fo-
. ráo mortos no porto de Pão , §- lhe1 foy totnaclo I*
galeão. ·
Dom Sãcbo que parti o de pera Pataoe eõ
Ambrosio do rego chegou lá em paa, & de1pois de .fa- ·
ao que ia, que ·não -eenlo ·por .,eat.aiO· polo alo H-
bar, tornouse cOJtl Ambrosio- do .. reg•, & leuaado a rota
M4hlca: apartaranse com IJ4 ·temporal que deu,
LIVRO· vt. CAPITVLO LY. , 119'
& Ambrosio do rego que ia mais ao mar que dõ Sãcho
seguio & dom Sancho que ia n1ais á terra arri-
bou, & foy tomar a barra de Pão õde.surgio, cuydldo
que el rey era ainda amigo. dos , & se dei-
xou estar ate ho outro dia que abonançaae ho te1>o. E
estAdo ali ho mandou el rey visitar com bií presente pe ..
ra saber quem et'a, & sabendoho ho tornou a o1ãdar vi-
-sitar cõ mais n1agestade, muodandolhe a boa ora de sua .
'Vinda· com muytoa offrecimentos damizade, & alguas va-
cas &: bufaras· & ou troa maotimêtos, & tudo isto foy ce-·
·Uo pera ho tomar. E foy acerto que ao dia dantes fora
ali ter Laqueximeoa , & determinando de tomar aJgüe
nauioa nossos que sabia que ton1auão aquele porto, me·
te01e dentro no rio & tinha escondida sua armada, que
era de trinta lancharas: & sendo auisado por el rey, de
dõ eslaua na barra , sayolhe em amanhe•
eendo leuando em sua companhia dez.laocharas dei rey
que erão eoreota em que ilo mil & duzentos homês de
peleja, & os Port.ugueaea erAo ·trintà. E quldo dom San·
cbo vio tanta gête sobresi & que não tinha nenhtl reme-
aio se DOO pelejar' disse aos Portugueses: Cõpanheiros
com a esperança em aosao Seubor que nos dara esforfiO ,
nilo temos outra se nlo pelejar bem, & da sua
parle vos pe«io que queirais Ates morte cõ honrra que
eatiueiro cõ vituperio. E coisto repartio al}lea trinta ê
ambos os bordos do oauio, & a proa deu a seu jrmlo, &
-ele ficou na popa, & em cada parte destas auia sele ho-
m@s , aaluo. na proa &: JlOpa que auia oyto ê cada hiia ,
& os .imigos que mr virão. tio poueos de gri-
tar. eom prazer de os terem por mortos : & apartandose
quatro lancharas cercarlo ho nauio poJas quatro partes
que digo, aferrado por todaa eJas, & hila-me-
donba peleja., os mour0t1 por entrar·, & 01 flortuguesea
por lbo defender : & estas quatro lancharas esteuerão
hom ·pedaço· aferradas sem a: gête· delas poder entrar no
nauio , & foy morta algfta parle dela, & dos nosso•
GUJ to feljdol & . algiia mortos : & . alo podendo 01 mou-

116 .lt.& RlftO .. I A .D. IRDIA
ros mais sofrer a batalha apartarão se pera cltegareni o ri·
tros de refresco. E dõ Sancho veado ae oa seus es-
teuessem .assi repartjdos q os auiio os mtfuroa de desba-
ratar mais asinha, recolbeoa todos á tolda, porque ali
tinhão mais com que se fortalecer, & .se vingariie m&'!-
lbor dos immigoa antes que morre11A, & asai foy, que
matarão tantos que eatauão hils sobre os outros: ma•
como os mouro• erão sem cõto, &êtrauão laií1 de refres--
.co cada vez t} outros clsauão, & eles não podiào fazer
outro tãto: carregarão sobre ele• tãtaa ferida& q muita.
mortos delas, & outros de fracos do muyto aãgue q ti·
nhão perdido, & elssadoe do imêso trabalho da peleja
cairão todos, & assi teuerlo os mouros lugar de os.etrar,
& acabarfto de. matar os ll estauão Dieos viuos·, que a
·nenbtl perdoarão poJo grAde. dano que tinhão feyto DOI
imigos: ã cujo poder fie011 ho oauio eõ·mu,-ta & boa ar-
telharia q leuaua. ·
C A P I T· V L O LVI .. ·
..
..
.
De como Jorge mandou IDfJorro ae
. da buliu ll&o· mondou. E .de corno iltl
.. gouernador foy ínuernar a Ormwz. · ,
.A mbrosio do rego com ba tempot"al que disse. (j_ dera
a ele & a dom Sancho indo de Patane arribou comedia,.
.se, & foy por outro cabo ter ao ·eatreyto ele Cincapu-
ra, onde e&pef1?11 sete ou oyto. dias por· dom Saoeho, &
.vendo que não ia pareceolhe . qU.e seria panado , & q_
passaria de noyte, & por isso ae foy per a Malaca' onde
:tão pouco não achou ooua dele: pelo que Iorge dalbu· ·
qtter.que, & dom Gorei& aorriqoez, qne era chegado de
Maluco pres1amitão q11e aer.ia morto. E nisto ebego.a. Bas-
.ti4o de eoua, & dt>m Andre Arriquez, com todos os ·ou·
troa que ião de Pacem : & :cõ a noua da perda daquela
fortaleza foy graade tristeza em Malaca, por .as cousas
elos irem :·em tifa declinação .. naquelas .ptm-
LIVRO VI. CA.n'VLO L\"1. Jlt
tea ,. & aa dos mouros em tanto crecimento, & por el
rey Dache ae ir fazendo tio poderoso que era qoasi ou ..
tro rey de· Binlão, & ãbos es.taua. certo dare1n muyta
opreaào a MaJaca. E porque IQrge daJbu.querque 1e te-
meo que el rey de Biotão maada1se sua armada cvrret
a MaJaoa, co1n que lhe tolheria os- maatiaentos,
àou a dõGarcia que se fosse Jlller eobre a bar•
ra de Bintão, & que Jhe fizase todo ho·mal qu.e podes ..
se, & trabalba1ae porq.ue a. sua armada não saisae, &
cleuJhe quatro velas, (le que fe11se por capitio mór. s-
dous nauios ele eapitão dam, & A.irea coejho do outro
1
& doua carauelões , a cujos capitaês não soube os no-
mes. neste. tempo por. ser bo mes .te Dezembro que
era pera lndia, se partirlo a)gtls nauios pera
em que Jorge dalbaqueJ:que 1ereoeo ao gouer-
nador a que auia. Malaaa·, & a Dtaoessidade
em que ticaua, assi de gente, como de nauios, & tQi-
tó ko mM ·que acuatecíeta ·aquele anao e-ID Malaca: &
aa1i Jhe e1ereueo como· AJitenio de brito Dia queria
1ar mais I Da capitania .de Maluco
1
pedindolhe que lha
tlesse peta dDm Sancho sen ou pera dem
cia seu eunbado, ae .ele Ítl81e morto:. & .tio bem }he
mandoa hü maço ele eartas Dantonio fle brito, em que
lhe pedia q prouesse Maluco .te capitão , por ele se a-
ehar doente, & enfadado naquela &erra .. E partidos oa
aaaios que leuauão este recado, cbegarã<> a Coebtltl on•
&te acharão bo geuernador apHcebend0se pera t.ornar a
Ormuz. E sabendo a Df>1la de Malaca, & bo que lhe lor-
ge dalhuqamque acreuia., deu a C8'pitaaia mór do mail
4e Malaea a awn fidalgo cbama.do Martim afonso de
aousa, jrmão de leblo de seusa., senhor da Ericeira, & I
erdeta011lhe bfla. armada que leuasse de sele velas. s. lres
mauios. red011doe, de que lorão eapita!a- ele , A odre de
varg.as·, Aluaro de ·brito, & quatro faetas, ea·pitah A.n.
tomo melo , A odre· d·iaa ,. V nst!o , & ou trG
aq\Ml oiO soabe ho oome, & leulbe Portug.uew
181.: E .. àeapaeaMla .. , •. armada. pattiese bo •
120 DA BliTO.IA DA INDJA
pera Ormuz onde auia dir inuernar, pera areeadar ·ho
dioheyro que B.aix xarafo ficara deueodo a el rey de·
Portugal & ás partes , &, leuou os galeões que nlo ser.-
uião na India ho teanpo que auia destar em Ormuz por
ser nela i.nuerno: & deixou a armada de remo que era
aeeessaria pera goardar a costa, que não ae 9aza11e a:
pi meta da costa do Malauar: & esta deixou a d0111 Luy•
de meneaes seu jrmão, com os poderes de gouernador.
e1n sua regimen-to que inuernasse ACochim,:
por estar. mais perto de Calicut : de cujo rey aoia algU.
e;ospP-yta l}.se Jeuaota1se cõtra a fortaleza.
. C A P I T V L ·O LVII.
De come paniráo oyto naos , eormta , de Ca•
licut carregildo• dupccitlria p•ra Meca. . . ·
VeDdo 08 Calicut ho deaauydo
gou·ernador, que os nio eastigaua por aenhüa cousa. de.
quantas fazilo, cobrario m·uylo mais esforço do .q ti ..
ahilo pera fazer guerra aos Portugueses, & co•selh&Wio
a el Rey -<iue .se Jeultasae cõtrelea..& .a paz f
per a ho que. tizerlo acabar .muytos paraóe , & oyto JJaoa
muyto grandes, que aí.aiAo de carregar pera
quela moução: & auilo di r em sua goarda cOT.enta· pa•
ra6s tambern. carregados, & isto. pedirem .licença a
dom Luys , o q era cõtra o cõtzato .das .pues & .a fora
isso d.eterminaua el rey de Cal.icu-t de .mãdar hüa ·.grAda
arnlada a peleJar cõ os. Christãos. de Criganor : &r, da
sendo .tempo ir sobre Cocbi, k auia di o por terra
pera tornar a cidade a el rey de Cocbi ·como e.outro
po fizera hü seu ileeesaor como -disse,no liuro p·rimey. ...
ro. E nosso· seabor q tudo isto toy sabido por dc1
João d.a silueira capitão de Cana.oor q ho eeereueo a d&
Joio de lima capitão da .fortaleza de Calicut q logo mã-t
dou chamar Cogebequi & ®le soube q era oerto·, & ll;
ltS Daps &. • i} . lf.Uiio. dir A Meea awão .de .la)Cl pelfi
• • •

. . LI.RO VI. CAPI!'VLO 'L'Yitl. lll
rlo ·de Ch·ale (·l} faz a terra ilha) ·por nlo vistas
da nossa .fortaleza. E pera mais credito foy mostrar es-
tes ·nauios ao feytor de Calicut: & coesta cert.eza ho
mãdou dõ Ioilo de lima dizer a el rey de Ca)icut
nbanflolho ·granden1ête pois era cõtra as pazes. E ·el rey·
lho negou justi6candose muyto. E cõ tudo dõ loã<> m&.
dou sõdar ho rio de C bale, & achando q tinha fundo &
largura pera nele galés n·auios, es·cr&r·
ueo todo o q passaua a üõ Luys, -eonseJbãdolhe ·q antes
d·e ·sayr ho inuerno se metesse no rio de Ch·ale &
se as naos:& paraós quando saysem: porq fazedo·ho as-.
si atalharia aos q el rey de Calicut tinha de·
faz-er guerra á fortaleza. Mas dõ Lu·ys nãe quis to·mar.
este eõselho, posto l} era tnuyto bõ, & as naos & paraós
partirão pera Meca, onde forão ter carregadas de .muy-
t1\ ·especia·ria & droga, & assi forao outras muytas naos·
de todos esses .portos ile Calicut sem auer -que·m lbes

contrarJasse.
C A ·P I T V L O LVIII.
o ,
De como os de !Jintoo _queymtJráo ·no·porto
· Malaca ho nauw de S1máo dabreu matarão quanlos
·estauáo coele. ..
Como, ii· todos os moUl'OB de Mala-ea
fossem muyto amigos deJ rey ·de Bintão na hora li. ele
f"Bzia guerra a Malaca, se leuantauão Jogo & não leua-
u§o m·ais-o mantimentos ·lÍ fortaleza, nem os de fora ·li_
}hos 'leuauãe ousauão de lhos }euar cõ medo ·da armad·a
dei rey de Bintão q os rrã tomasse: & por isso como el
rey de Bitão começou a guerra, Jogõ ·de fal-
tar os mãtimetos. E porque quanto a guerra fosse ·en1
mayor estaua certo faltarem mais, & n·ão os
poderem ir buscar por amor dos immigos andauão
Bo quis Jorge da)buquerque mandalos buscar cõ
& como dõ Gare ia q ho ouuera ·d-e fazer era a Biil-;
LIVRO VI. Q
1 DA .HISTORIA DA INDI6
tio, pedi o Jorge dalbuquerq a Garcia chainho leytor q
ho fizesse, asai por ser cauafeyro muyto esforçado, co-
mo por ser despois dele a aeguda peaaoa na fortaleza. O
l} ele aceilou de n1uyto boa võtade posto q .a ida era pe-
. rigrosa, & por oào auer nauios em Malaca mais que ho
em q Simão dabreu fora de Maluco, & hü jugo dei rey
que não seruiio per a a ida, leuou quanta• maochuaa &
balões auia e1n Malaca que saru como boas almadias, &
neslas acompanhado de algus Portugueaes se foy ao lon-
·go da costa ate ho rio de Muar cinco legou de Malaca
onde auia de busear 01 Blantimentos. E andãdo os bus-
oãdo de chegar a Malaca quaLorze Jancbaraa
dei rey de Bintão, cujo capitão mór sabendo quão de-
aapercebida eslaua a fortaleza, a11i de gête como de
todo genero de nauios. de remo: & q no por Lo eat.allão
algiis oauios grãdee , dete1·minou de os queymar, pera
o. q entrou em rõpêdo a alua seata feyra na
baya da ilha das naos, a cuja sombra ho nauio de Si-
mão dabreu estaua surto, & ele estaua detro cõ treze
Portugueses ll cada no)te. ya dormir ao nauio. E como
era ja no quarto dalua em q ele & os seus estauão des·
uelados doa outros quartos adorrnecerão, parecãdolhes q
•auão aeguroa de rebates dioJigoB, & por isso não ein ..
tir4o os mouros, q se os sintirão cõ a ar te-
lharia que lhes não chegassem como chegarão, & os f.o.
rl.o aferrar quatro grandes lãeharaa. E nisto .forã sinti-.
dos por Si1não dabreu q bradou aos seus q acodiuem"
& todos cõ suas espiagardas acodirão muy prestes, &
os as não linhào reu1eterão aos berços. do nauio &. des-
parãnos nos mouros que assomauão ja aos bordos, & dão.
coeles nas soas lancharas feytos em peda"os, &. ea-
carrneotarno os outros de tal maoeyra que não prouarão.
mais dentrar no nauio, & das suas lao(:haraa
com os· Portugueses muy brauaJJ)êle. E foy Dlilagre e--
uideGte de nosso aenhor não os e11trare1n Jogo segiil»
erélo 1nuytos & eles ! & asai durou a peleja hi.i.
pedaço e111 que morrerão algüs doa mo111-
Ltvtto. vt. CA·Pi'l'fLó. L\Jlll. l2S
·tot muytoti. O l} vendo· ho seu capit:lió moor; & l} se a
peleja fo8se auante daquela maneyra que lhoa matarião
todos buscou outro ardil pera acabar mais asinha de ma-
tar os Portugueses & queymar ho nauio, & foy n1ãdar
poer ho fogo a hü jtigo que estaua sem & sem car-
rega:· & ho fogo bP.m aceso como a maré vazaua m·an-.
douJhe eortar as amarrai & sostelo cõ cabos q· lhe ti-
dados ate ho ajuntarem ao nauio de Simão dabre-11,
·sem· ele nê o.s de sua companbin poderem resistir l} n!
·chegasse a· eles. E despois de chegado os i111n1igos ho
·atoar&o á m·era da goarniçllo do natíio, & a outras
·te&· pera que se sosteuease : & lhe os Portugueses
poderilo contr-ariar por amor das 1nuytas frechada"8·& é•
pingardadas ll lhes os immigos tirau·!o! & ta·mbe por a ..
--mor delas os Portugueses não )Jôderão cortar as abalrroas
com q ho nau i o estaua· abalrroado, posto q sobrisso ·n1or._
rerl quasi todos: ll foy tnuy pit!dosa cousa de ver
lerem assi :hlis bom@& sem se podere. defender·: 8t mu-y'-
to mai•· despois lJ ho nauio começou darder juntarne·nte
eô ho jongo que fazião hila espantdsa &·medonha lab&-
reda com soarem detro os grandes gritos· que dauão a1.:.
·güs Portugueses que ai'nda estauão· viuos :· a q·ue lorg·e
·dalbuquerque não podia m·andlir socorrer por nlio ter em
que fosse· ho· socorro, quê· tudo o que em que podia ir
era fora. tomoJ disse:· pe)() que éle estaua· mnylo ttiBte
tin·hase por' mofino de lhe matarem assi âq_ueles hóm·l!tJ
-diante do• olhos sem lhes JM)derertl •aler. E cômo a· ·ma-
goa: l} tinha· era gr·ande, pareêeolhe ll; lhes poderia· ma o-
rlar: soeorro em· hil giropanco nauio da laoa (que· &eru·é·
-de mantiml!toa) lie tinha· .masto· nem· ·v·elas,
·&· oom a pres&a do socorro ·sem· lhe mandar meter árte-
·lharia' nem lhe ·JembraT tJue· estaua desaparelhado
-dou embarcar nele obra de de seten!.
que· teria, &. mlldouJbes que foàBem socorrer nal.
Ulo que começaua darder: & eles como obed1enfes
& por não parecer que por medo ho deixauão de ·fazer
se embarcarlo com quanto viilo ho perigo em que yão
.Q z
_j
124 DA· HISTORIA DA INDIA ·
por nAo J.euare-m artelharia & bo GiroJlãco .ir· ·tão desa-
parelhado como ya, & que estaua. matarênos os
wouros seJn poderetn socorrer ao nau1o: o q enteoden- .
-do la1nbeo1 hfís· dous capelães da forlaleza, reqrerão a
.Jorge dalbuquerq da parte deJ rey q oão-mãdasse.os ho-
mes q mãdaua no giropãco, dãdolhe as rezões q digo
pera os não n1andar, & mais que ficaua. tão pouca gele
_na fortaleza q mortos aqueles a gente da terra a toma-
.ria & a daria a eJ rey de Biotão. E ele estaua tão agas-
tado que não queria ouuir nem eotenqer nioguê, & fez
.embarcar o8 trinta cõ grãdes brados. O que eles fize-
rão, & como ho giropanco, nem tinha vela nem re1nos
acodia mal ao le1ne & fazia muytos lós, & com hii que
fez foy dar e1n seco que parece que foy cousa de nosso
senhor fJOrque se chegara ondestauão os im1nigos todos
ouuerão de ser n1ortos. E Jorge ho
giropanco em seco desembarcar 08 q yão nele:
& eutre tanto os que estauão no nauio que 'ardia
que não podião escapar lan"aranse ao mar cuydando que
se sal.uarião, & nele farão mortos polos immigos, & ho
escriuão do nauio que auia nome Francisco fernandez
cuydando de lhe ir socorro, & que escaparia não se
.quis. deitar ao mar & sobiose na gauea & da hi ao mas-
·.tareo, donde 11or derradeyro. se deitou ao n1ar & foy
_.morto polos im1nigos que com ho prazer da morte dos
}lorlug.ueses fazião grandes alegrias, & assi com verem
.arder ho. nauio & ho jugo que arderlo ate horas deves-
pera sem ficar nada deles do que parecia sobre a agoa:
do que os mouros ficarão muyto soberbos & teuerão os
Portugueses em. muyto pouca. conta por lhe não pode-
_rem acodir. E isto ganhou lorge dalbuquerq de mandar
fora. toda a gente que tinha em tempo que lhe corrião
os immigos, & por derradeyro Garcia chainho não trou-
.ue que matassem a fome dez dias & a sua
ida fez tamanha.perda .•
:t.IVRO CAPITVLO LIX.

C A P I T O L O LIX.
·De como Laquexime11a· tomou na barra tk Bintáo dous
carauelóes · da: conseruci de dom Garcia anrriquez.
;Jndo as. cousas Portugueses de cada vez peor.
1,artes do1n Garcia anrriquez que estaua sobre a bar-
.ra de Bintilo faziaJhe quãto mal podia , & nã s-aya nê
.entraua vela nenhüa q ele· nã tomasse , & fazia algüs
.saltos ê terra·, o que el rey de Bintão muyto &
·se ·auia por muy injuriado, & tinha por mayor feyto es-
te de dõ Garcia que quãtos os seus tinhão feytos con-
,tra os Portugueses, & aqueixauase cõ Laquexitnena. de
.nao· tomar aqueles quatro nauios, & ele lhe dizia que
.não auia ainda tempo: porque era necessaria muyta i-n-
pera os tomar.; porque por força não podia· ser
-por os Portugueses terem muyta auantagem aos Ma-
layos , & que as suas vitorias forlo por desastre &. »i
por eles serem tão bõs homês de peleja como os Portu-
gueses. E Laqueximena trazia grandes espias sobre dom
pera ver se ho podia loY!ar em discuberto, ate
-que bü dia soube que fazia agoada en1 hiia i·Jba junto da
-boca do rio de Bintão, & que os naoios grAdes erão oa
-que tomauilo agoa, & os carauelões estauão em l'igia:
& como bo soube. sayo do rio eom aJgiíaS' lãcharas de
sua armada, mandando aoa seus eapitães que ae por
-'Ventura os· doua carauelões· os cometessen1 que fizessê
-que fugião ate os leuarem perto da boca do rio onde fi-
,eaua a outra· armada com que os tomaria. E lao fi-
·Zerão, .& eome os capitães dos earauelões vi.rão que aa
lancharas erão poucas, & estauA costumados a leua·rem
·ho melhor delas, euydario de ser assi d·aquela vez. E
dãdo ás remeterão a elett-; tirandolbes com _sua ar-
& os mouros como estauão auisados de Laque-
:llmena fizerilo volta como que fugião. E os Portugue-
ses cuydãdo que era asai aeguiãnos, & com hu vento
126 . Dai Bli'FO.ü lU ltmrA
que era fresco chegarilo maia· asinha do que quiserlo á
boca do rio ondeataua Laqueximena, que logo aayo
as outras lãcharas a remo com que cercou os carauelaes
& os aferroa & entrou com· sua gente, d,e que se os
Portugueses come9'rlo de defender com muyto esfor-
mas aproueitoulhes pouco: porque temendo Laque-
·:Ximena q·ue acodin·e dõ Garcia & qae lhos tirasse das
"Wnhaa se os acbaue fora do rio : em se a pe-
Jeja mandou a. eertaa lancharas que rebocassem os
uellies &-os meteaee.m no rio, pemque polos. baixos q
nha bem sabia que dom Garcia nãD auia de· pode., eo-
trar nele com os. nauiol por serem. dalto bordo:,. & os
·Pontugueses. com bo tento da peleja nio aínt·irlf> que C&
)euauão se não quãdo se acbario· dentr.o no· rio. E isto
·se. fez tão dep-ressa q dom. Garcia lhes nio pode valer·,
posto que logo acodio, mas deteuease algü tanto em.le-
·.uar a. aqcora IObN fi estaua aur.to : & isto foy causa. de
.ele nem A.irea coelho chegarem a tempo, & ele.ae agas-
tou tanto de· ver·le.aar oa caraual3es, "ue. aisi co1no ia
á "ela mandou meter ho oauio poJa boca do- rio- bl cou-
tra vont.ade do piloto,. q dizia que se perderia ,. & usi
ouuera de ser JlQr. ho rio ler. muyto estreitos &
-em voltas & ter: raetingae & arrecifes em l) logo ho· na-
uio foy & por grãde.milagre.sayo.
simeaa. não temera aj sua artelharia., tam bem bo toma-
·ra ,. ma• Yingouse ê tomar OS• do os carauelõea oom· mor>-
te de quantos estauão dentro qae dderlo muyto bl /
suas vidas com. morteJ de muytoa mouros: mas ho pra- t
zer dos v:iuoa. foy tama nbo de. tomarem asai estes cara•
quãtQ8 yão dentro, que não estimarle
mortos. E el re:y. do Biotio mando• fazer por· iSIO
g.randee fe•tas .. dom.Garcia com afJBelea\dool
.oar.auelões: perdidos-, não quis. ali mais aadar & tornouse
a. MaJaoa ooda.achoo.feyto·ho grãde dãno ·que diaae.
LIVtG VJ, C4PITYIIO LX. 127
C A P I T V L O LX.
De como tl reg tk Bltáo • c•car Malaca por
V por ·Cerra. .
Veado el rey de Bintão quã bê lhe socedia a guerra
q tinha cõ o• Portuguesea , determi,nou de lha fazer
mais apertada por mar & por terra: ll
deria tomar a fortaleza, pera o q mAdou vite DJdl
mês, quatro mil l} auião daadK por mar cõ Laqximerta,
& desaseys mil q aui49 -de cercar Malaca por terra , de
que deu a mór a .bü Porluguea arrenegado q
aodaua coe)e q se cbamaua Auelar dalcunha. E chega-:
dos estes a Malaca desembarcou ho AueJar IHupe, õde
assentou suaa estãcia1: & Laque.ximeua .ficou Do mar
goardando ho porto que oão ea.lrassem nenhüs manti-
mentos nem nenbüs outroa. E lorge dalbuquer·
que oão lhe podia re&ia,ir por uão ter mais de doua na ..
· uioa , nem me aos tinha gete, porq nlo aueria mais q_
ate oiteta Portugueses: posto que auia moytoa piles da
terra a soldo dei rey de Portugal : mas dos Portugueaes
se faf'i& ooota pera cousa de feito • .E per eles repartio-
lorge dalbuquerque as eslancias pera as defenderê , &
estas erão da pouoaçio tio. Portugueses q estaua fora
da JOrtaJeza aaLrela & a põte por oode se seruiio pera
a pouoaçã dos quelins. E porq não .soube como estas e•·
ticias Corão repartidas ho Dilo digo. E erão os Portugue-
-&el tão pou001 pera goar.dare a fortaleza & as e8lãcias,
que em algiias não auia mais que tres Portugueses, se
Dio que tinhão eonaigo muytos piães tia terra. E com
quanto erão laJD poucos eetauão muyto esfor<tados per&
reaisLir aos iwigos. E na cidade dos Quelins olo pos
lorge dalbuque6que ·estàciu, usi por nilo ter gele pe-
ra isae , como por ser cereada de muro• de pao J)ol&
parle por oade os imigoa a podião cometer: &. eataa a
gea'e da terra aa vigiaua de no i t.e. E • de hu.
}.2.8 I)"A 8Jit'ORtA ' DA. INBIA.
Auelar assentar suas estilcias, tnandaua cada dia corrPr
á cidade dos Q.uelins: & cada. di-a tinbão peleja coro os
Portugueses, em que morriã muytos dos in1igos: & os
Portugueses tinhão imenso trahaJbo com pelejarem cada-
dia, & vigiarê cada noyte, & de fome, que
não com ião mais ll arroz cozido ê agoa: & quasi todos
estauão doetes assi do- trabalho & da fome, -como de fe-
ridas.. E .era cousa de milagre poderem peleja!', & de-
fenderse aos imigos, q_ erio tantos & tão folgados. E
porq o Auelar isto s.abia -se queixaua n1uyto cõ os seus
como nll fazião .nada cõtra tio desbaratados.: &·
hüa.noy&e determinou detrftr á cidade dos Quelins, e·u-
jos ·muros sabia q estauã podres, & mãdàdo Jeuar muy-
tos escopros & 1naços foy cometer ho muro no quarto da
modorra, de l} cõ os escopros foy derribado hü lãço do-
bra de sesseta passos: & coano fazia escuro nã forão vis-
tos das vig-ias, nlo quido virão cair ho pedaço do
muro -l} cayo cõ grande· arroido: & ê caindo entrarão·
logo os imigos, & muytoa doa da terra ll acodi-
rào ao estrõdo do cair do muro, & estes forão todos
mortos, & dali se metel'ào algüs a roubar. E ·nisto foy
dado repill ma pouoaqão dos Portugueses, & dos primey-·
ros q acodirã foy Nicolao de aá ll agora ·lte contador dos
cõtos dei rey nosso.aenhor, que pousaua junto da ponte
& leuaua cõsigo tres espigardeyros Portugueses, & assi
acodio A ires coelho, & quãdo chegarão os piães
da terra pelejando c6 os immigos, & deJediilo· q ·nio ã-·
trassPm ·por at}le portal n1aia dos (\ tinhão entrado, &·
os Portuguesea Cl digo ·01 ajudarAo cõ suas espinga.-das, ·
de RJodo l} os deteuerão q nao entrassem , -& acodio a
gente que e&taua nas estãcias. E con1o os immigos sin-
tir.Ao a gete que acodia, foranse leuando algüs ca 'liuos,•
& os que .ficaoão. nas casas a roubar forão despois todos
mortos. E asei Jiurou nosso senhor a fortaleza de ser to.
mada, que ho fora se os immigos entrarão· todos na -po-·
ooaçlo doe Quelia. E como foy manhaã .Jorge
que ma.ndQII .refaze-r ho boq ueyrão do E cleapol4.
Lffao VI. OAPt'ttLO· 1,9
diatõ toraarlÓ os immigos a perfi ar· se ,pOderíão
mas -nlo poderio, porque os P-ortagueses lbo defendiào,.
& durou este eereo ainda hum mes: lt porq.ue dali por
diante pedia chega-r socorro da fndia Jeuantartlo os im- ·
migos ho cerco da terra & foranse a Biatão, & oa de
mar ficaria ainda algüs dias ate que tarabem ae forio.
C A P I TV L O LXf.
.
como Martim .Afonso de soustJ foy fastr guerra ·a d
reg de BinUie , -aos reys -de Plio de
Martim Afonso de sousa que ia pem Malaca chegou
lá na fim de ·I unho, oftde achou que valia hOa galinha
cinco cruzados & bü ouo dous vintê& & bila ·gAta
hü cmzado , & 08 honlêS ·q parecillo de. DI.·
terê cor , & sua ida deu grãcle alegria , asai aos Portu-
gueses como· á gête da tt'rr!l: & Jogo Jorge dalbuquerlt
lhe a capitania mór do mar de Malaca, & a ti·
roo a -dom Garcia anrriqtJez léU cunhado' a que a dera
por morte de dom Sancho. E Marli Afonso lhe deu bfla
prottisam ·do gouernaoor em (} lhe da·ua a capitania de.
Maluco pera hü de seus cunhados. E por se Jorge daJ..
buquerll desapressar da guerra de) rey mãdou
a Marti Afõso l} se foSBe cõ -(:ince velas J>Oer sobre a
<!e l;Jintao dõde não sayr a ...
& tolheria t1 não ·entrassem ·por mar 'ba ·ci-
dade.: & partio de Malaca f!Õ b.üa arn1adn de cinco ve-
Jas, de cujos capitães nã pude saber os nõnies tnai& que
a E á barra de estetle
Bo-brela tres meses em fi llie deu muyto grande opreà-
aam, tolhendo nlo n1antimêtos nem
mercadorias·' & que: olo say-se de dentro ·cousa
que nem! oa pese adorei ousaulo ele· sayr a pescar: E em
este tempo · nuuea Laqoeximena de wayr a
pelejar eoele: & ·neate ·tempo que<Martiai :A·,mici ali
dot( lhe nl'orreQ lalgüa gente· ·pOf .aer. -aqaela. paragelll'
LIV.IlO VI. R
) 30 DA BII'TONA ll• INDI4 ·
. doentia, & por eua causa aão quis •'i andar maia & a&
(oy a fazer guerra a el de Pão pera viugar ho mal
que tinha feyto aos Portugueses, & ali 'lueymou muy-
los jungos assi de Pão como da Iaoa, em que forão
mortos bem .1eys tnil mouros: & çatiuou lAtos q nã ou-
ue Portugues que a seu quinhão não dez cati-
uos. E despois de fazer destruyção espantosa foyse aa
cidade de Patane , cujo tey era tãbem immigo dos Por-
tugueses, & no porto achou algiis jungos que tambem
queyiDC)o & antreles hum muyto graade que nf;\queJa
hor' ehegaua da Jaoa, & vinha nele bo mes1110 rey de
Patane, que com b(; duzentos mouros saltou ao mar
eom medo do fogo & tod01 forão rqortos as pe-
los Portugueses. E vedo os 4a eidade este deslroço no
mar temerãse de ser ou'ro em & por despe-
jarão a cidade· assi da mór, toãa
a, gete: pejo q Martim quando sayo em terra
114o .achou com quem pelejar, & c1ueymo-u a cidade to.
da ate não ficar mais que ho campo em que esteuera,
& quantas ortas & palmares auia ao derredor. E dei-
:xan4o ho nome dos com muJto .credito &
10uyto temido por aqlas parles se tornou pela .Malaea t
que esleue por hu tepo lllU)Ito prospera. .
C A P I T V L O LXII.
De como foy eomtçada a guerra átre .A.n&Qnio d' bri#D
. el rey de Tidore : de oomo foy morto
da silua outros, . . - ·
Atraa ficã. dito eomo Baatião de aou.ia & Martim cor-
rea partirão de Malaea pera a ilba de Bauda., õde. che-
gar4o ap Jugar de. Bori-Dté & 4i acharãG Martl a{oDSo de
meJo ju,tarte q auia_qàfttro meses q S&taua de.guerra eõ
a -da terr..a .em · ij se defeadeo por
mais de. sele Iaoe & Cbil
k imigoa mu-,\o&. E por pgder aaber par·
!.IV., CAtiPILG 2SJ
o l} •ueet.leo netta guerra a nlo ••ereuo,
oe imigos eomo Butilo de sousa eb.egou alargarão Jogo
ho ceroo. E ficlldo Marti afonso rnegoado da afrõta ll
recebera dos imjgos, ·pedio a Bastilo de •ou1a ho aju,.
dasse a vigar deles do i} se eJe escusou , dizêdo q ia
fazer sua fa.zêda , & sobristo se J.boe q Baa.-
tiã de aou1a te apartou pera a DaJutafi & hj u
.apouaêtou eõ Marti correa em bOa que fiw ..
rão. E eetaodo a•i ebe.go. a Banda hum Gaspar galo !
bila carauela de Maluco, que por mandado Dantonio de
brito ia pedir a .Martim AfonSo algila fazeada & manti-
mentos de que tinàa muyta 1.-or amor da
guerra q começaua cotn el rey de Tidone, ·pera o 41ue
·lhe pedia q ho foaae ajudar eõ os maM Portugueses que
esteue11em em Bida, & ll larião em Maluco muylo pro.-
ueito por auer aquele aaDO DMJyto crauo, & quando nio
-teuesee RJaDtimentoa que os tomasse a quantos mer.ca-
·dorea eateueasem em Banda , pera o que lhe mandou a
dos aeus podere•, em que lhe .daua elrey a jurdi-
·çlo da iiJaa de Banda : & da h i a poucos dias ll Gaspa..-
galo ebegoa Caleceo. E 'Vagando a capitania à caraueJa,
lJastiilo de aouaa a quiser.a tomar & dala a hft. Franeiseo
de 10118& •ea sobrinho , dizendo ele tinha jurdição
por eatar por mldado do gouernador da lndia, & Mar.-
tira Afoa10 ho nlo consentio & tornou ho leme & • ve-
Jae ·da .e.araueJa pera se ir nela .a Maluco: eomo ftlty &
·leuou c&tgo outros dous ou jtlgoe de ·portugueses.,
& foy coele Martim correa. E chegados ' ilha de
na te forilo muyto bê recebidos Dantonio de brito, que
tinlaa despaehado hil idaJgo ailceho chamado lorge pito
da silua nat.a1al DeJuaa pera ir fazer .a guLerra a el rey
de 'fidore em qult.o ee ajuntauão os r·eys St saaga.}es ll
AatoDio .de brito tiDa mldado chamar a socorro., & ee-
taua embarcado para partir, & por Marti correa. ser seu
pa._,te •e loy coele a terra, & deixl4o :ho apouseDtado
.&e partio em hil oauio, & ia coele em out·ro hil Lionel
de ÜJna parete da brilo, &. JEIIOU .hü batel Jk
R 2
.13'1 . .. Jji &181'0111 A."' DÃ.·" IMDtA.: •.
hü catafuz- bê eaquipados pera fazere &
··nestas velas· iri;ão bent corenta Portuguelfel. ·E partido
Jorge pito foy sargir sobre ho porto da cidade de Tido- -
re' & efll pouco tepO lhe. fez muyta guerra' tolbêdolhe
es , & saindo ·1nuytas vezes ê terra: a fazer
-&altos de J·be eatiuar gente & tomar gado. O q el Fey
sentia- principalm@te a tomada dos mantimentos
-de q tinha grAde necessidade por a muyta gl\te i} esta-
esperaua.: a .fora os sell1J
'l'as=aalos , muytos vi oh lo. por h o te rê por homê sa-nto. E
·9l!dole el rey assi perseguido de Jorge pinto,
hf1 · ard·il · pera ver se ho podia·. tonlar, & foy meter em·
th-iia- calheta lJ: hd pouco afastada da cidade hüa
·boa armada de paraós que ficaua encoberta cõ grande
-&.basto· aruoredo q a cobria' & de ooyte despedio hüa
-eoracora perâ ho tJ1ar, ·q em amanhecêdo aparecesse da
·parte· doutra ilha cbamada·Geilolo dõde Jbe trazilo man-
.timêtos :· pera q euydlldo. lorge pia to q a cGracora os
·leuaua s_e fosse a ela, & ela fugiria ·pera a calbeta,
·cuja entrada atrauessaua büa raslinga em q de
.Iorge pirrto por· ser pesado encalharia, & aayrilo ·as·q
estau•ão d3tro & ho rnatarião. E posto is.to ê obra ama-
·nbeeeo à coraeora ao mar, & vedoa Jorge pito cuydou
·(} er&. de· mãiimltos determinou de a tomar como tinha
·tamade. outras, pera bo q se foy e1n hu.calaluz em que
.:fazia aqles saltos, &. ·leuaua consigo .seis Portugueses,
A nlo q.uis dar rebate a Li.onel de Jyma parecMolhe que
ele s6 abastaua, & vend<»ho os .,da coracora ir pareies,
fingirA<> <} virauão as velas pera fugirem. & que semba-
raqauão, & nisto· se dete.uerâo ate que Iorge pinto ff)y
··perto:· & entlo ren1aodó a. boga arrancada se acolherão
á calheta onde estaua a cilada, & ·en-trou sem tocar Da
·res·tinga por-demandar pouco fuOdo: & ho ealaluz·que .
. demldaoa Dl6ÍS por .a111or dá artel.haria. que leuaua e-n-
·calooo em entrando. E em os· moaros .da cidade ho .YeD·
do asei .dão sobrele cõ grandes grítas, & .cerea•dobo per
as. parta muytu
1
me- _
LIVRO- VI.--: C.lPIT.LO" LXIII. 13 3
sos seni· conto. E com quanto se efe via em famanho
perigo, nlo lhe ho grande que tinha, &
. esforqando os seus os· ajudou a defender tirando todos
·muytas lançadas & espingardada&, mas não Jhes apro-
ueitou nada: porque os mouros erlo tãtos que os feri-
rito tio brauamente q do muyto sangue que lhe saia da.s
feridas enfraquecerão, de maneyra que ora·· bus,-. ora
outros, eairão todos sem se poderem ter. E nisto che-
gou Lioae) Ele lyma em bil. batel bem armado dartelha-
ria, & fornecido de gête : & venda ào ealaluz aaqle es-
tado não se alreueo a socorrelo; & toraouse pera ondes-
tauilo· os naoios. E se apertára os immigos com a arte-
lharia que leuaua, ainda saluara algiís dos Portugueses
-que estauão Yiuoa. E vendo os mouros a· pouca defensfto
tio calaiuz entrarão dentro, & cortarão· as aos
&·a cincoenta ou sesenta mouros de 'fer-
Bate que andaulo cem eles, & com as cabeças de todos
enrramarão os seus paraós: & cõ grande prazer se forão
ao porto· da cidade, onde forão recebidos del rey com
outro lao.to, por se ver-liure de•tamanha opzessao.
c A p I T I v L o LXIII.
Do que aconltceo · a Mortim afonso de melo , ca·
metendo. hú lugar de mouros
Sabido este desastre por Antonio :de brito,. ficou tio
agastado q.ue mandou logo chamar Lionel de Jyma &t
que leuasse os nau i os, & assi ho· fez.· E se neste têpo
llão esteuera junta· na fortaleza a gête que ·era chamada
pera a guerra; A otonio de brito de&istira del·a, mas por
ser j.unta proseguio nuante. E ê quàlo se Cacbil daroes
embarcaua coela, f-oy assenta;do que Martim afonso de
melo jusarte, fosse ·com os nauios Portugueses surgir
·IObre a barra de ·'fidore 1 & forAo seus capita@s ,- Lionel
de Jyma , & Martim :correa : & partindo. hiía uoyte do
·porio.de .'falaogaae· cltegou· em amanbeceado.-a 1"ideJe
1
_

J 34 DA Rll'rGRIA lU IXDIA
& surgi o na caJheta onde matarlo lorge pynto & os ou--
troa-: & como ·ao ião ali destar sem fazer nada ate ir Ca-
chil daroe1, determinou Martim afonao oom conselho doa
capitaêa & fidalgos, de ir dar em hO.a pouoaçlo de mou--
ros, que di1se hil Gaspar dalmeida qae -eslaaa dali a
btla legoa ao Jõgo do mar i\ se poderia queimar facil-
mente, & partio pera lá no quarto da modorra por não
passar de dia a vista de Tidore, & se soubesse onde ia,
& com quanto partio aai cedo por ir contra vento &
·maré , era ja de dia quando passou a vista da cidade.
Donde sospeita·ndo oa immigoa ao que ia lhe sairlo em
Dloytos para6s, que os no8so8 fizerão tornar voltando a
eles ás bombardadas, & deaapreaados doa immigos Co-
rão surgir na pouoaqAo, que nlto era mais de dez ou do-
ze casas com büa mezquita, & os mais IDGradores dea-
pois que Gaspar dalmeida vira aquela pouoaçlo, se mu-
da·rio pera bo pico de büa rocha muyto alta, cõ· medo
da guerra dos Portuguesea , & ali se fortaleceria : &
.ra estrouarem a 1obida aquem lá quiaeae sobir contra
.Sua. Yonlade, atraueasarlo dou• para6a em dous pas808
de hüa vereda, que se fazia muyto ingreme do pé da
rocha ate o lugar, pera darem coele1 pela rocha abaixo,
& leoa rem dencontro quantos sobisse1n. E cõ quito Mar-
ti afonso vio que ho .lugar era de muyto perigo aa sobi-
da, determinou de sobir )16i& ali estaua, porque nlo
parecesse aos_.mouros que ho deixaufto de fazer com me-
do: & porque ho tirar os paraós donde estaufto era ho
mais., & quanto ·me.oos fossem a iaao tanto era mais se-
guro , acor4arlo que hü só homem os fosse tirar, & es-
te foy Martim correa que 1e ofereceo pera ho fazer, &
foy: & por ho lagar .estar muyto alto, & os mouros te-
· rem tento no crepo da gente oão ho virão sobir, & an-
tes de chegar ao prymeiro paraó, foy ter ooele h.ü. cleri-
go que cbamaulo Gomez botelho, que desforQ&do bu1eoo
. ma·neyra pel!a ir ter coeJe, & ajudalo a derribar ho pry-
: meiro paraó, & ho mesmo fez hü Franeiieo Iopez bu-
Jh&o, .que oa ajacloa a. derri.Uz ho & como . ..-
LIVRO \fi •. C:AriYVI..O LXIIII. I 86
ie estaua mAia perto do lugar, & ho estrondo ll fez in·
do pola roeàa abaixo foy ·tnuy graade, eiotirlonoos mou-
ros & acodirlo a ver ho que era t Yendo os tres poJa ro-
cha & Martim· afoaao eô 01 outros ao pé dela
per a ·r , comeftio de aacodir muylas pedradas , & de
deitar grandes galgas, de que Martin• correa, & os
do_u ae ealuarão em hüa lapa que se fazia na mesma ro-e
cha: & ia to das galgas acabou Jogo, porque em se o&
mouros mostrando, começão os espiagardeiroa de Mar-
1.im afooso de tirar SUBI com que OS fizerão
recolher detras de hii muro q tinblo daquela banda: &
deaembara"ado ho caminho, Martim afonao de
aobir iodo diante com aeis ou sete homês & os outros
apos ele. E vendo os mouro• sua determinação, torna•
ranse a descobrir pera defenderem a sobida, & os es-
pingardeiros tornarlo a tirar, & bü .que ia de,raa de
Martim. afonso tirou tão certo, que Jhe deu pola eapa-
doa dereita, & passando ho pelouro as armas êtrou
tro no corpo, & íoy a ferida tão má que caio logo desa ..
cordado. E por eate tamanho não forlo os Por•
tuguese1 mais por diante, & ·se tornarão pera os nauioe
em que se embarcarão com Martim afonso, queimando
primeyro a mezquila, & as casas que estauão oa praya.
E dabi se forão pera Terna&e, por mandado Danlonio da
hrilo.
C A P I 'f V L O LXIJII.
De oomo foy fer* Francisco de IOUIG, outr01 Por·
tugues•.
Que cJacasta4o de quam mal lhe soeedia a guerra a
tjuisera de todo deixar, ae nlo fora por amor de Cachil.
daroes, que Ye•dobo aesi Jlae dis&e que ele queria fazer
a auerra eom a genle da terra' &6meate. maudaase hli.
era pitão PortugQe&, com ate vinte Portugut!&el de que
se fi.zene eabefêa: k que iria Jogo tomar hu lugar qu•
la ahamaua Mâriaco , priacipallugar da ilka _de Tidore :
1 a.a . DA . BA .
pera ho ·que lhe deu btt fidalgo chamado Francisco de-
sousa, & :vinte Portugueses,-& partirlo todos com gran•
Ele frota, em que yão mil & qoinbêtoa homês da terra;
em que. enlraulo muytos Man4aris, & os Portu-
gueses. E chegados onde auiio de desembarcar desem-
barcarão, & forlose cami.ubo ele Mariaco, que he hii
Jogar muyto gtta.nde situado em hüa serra quasi no meo
&a ilha, onde antigamente r-esidtão os reys de 'f·idore:
& despois por se pouoa-r a fralda do mar, fizerão assen•
to na cidade que agora tem. Este ·lugar era cercado de
traoqueiras de ·htla f.ace, :& a lugares t1nba algua caua,
& com isto estaua algtl tanto fortificado. E chegados ·a·
este lagar' totnoulhe Cachil daroes as ·Seruentias e que·
pos algüa da sua gente, por lhe nllo poder yr socorro:
& disse a Francisco de sousa que ficasse de hüa bãda
ao pé do lugar, & ele iria pola outra que era mais alta:·
& tanto que fosse em todo .cima, daria a sua gent-e hüa
grita a que ele aoodiria oo.m .-os ·Portugueses, & darião:
JtO lugar & ho tomari.ão. E proseguindo. Cachil daroes
rera ·ho lugar, sem ser -visto nem sentido dos morado-
res, por a terra ser cuberta de muyto basto aruoredo,
sairão ·algüs do lugar cuydando. que ho podiAo fazer sem
·perigo, & estes forl logo sentido& dos que goardaulo as
seruentias, que deitarão apos eles dando algfias gritas:
com que se Francisco de sousa enganou, cuydando ser·
Cachil daroes. que daua no .lugar. pela banda por oode
fora, ao que .acodio logo pola sua com pressa.
E -como Cachtl Doo era. ain4a. chega<lo . ao, seu.
combate, nem os mouros opressão, acodi-
rlo todos onde Francisco de sousa cometia, & ás pe-
dradas & fr.eebadas .se defenderão de tal maDeyra que
Portugueaea forfto j,odos feridos. E ·bo mesmo
4 fer·ira a Martin' .af.onao, ferio ali a Fran-:
eisco de s.ousa pGr h-ila .coxa & ieto de desacordado, po- ·
Jo que -lbe foy necessario afastar se. pera ho -lugar em 4.
ho deixou Cacbil daroes : qu_e . sabido o (} passaua .lhe.
foy. & muyto ·d,quele.
LPI'•o ClPtTTLO: LXV. • JS7
em sua·ley de -.cose pàrlir ate olo tomqr ào lngu;
& asai ho sereaeo a Antonio de brito, pedi.ndolbe que
nio· se poJo que sucedera; porqae •
de guerra , & que Jbe mãdasse Martim oorrea com vin·
te Portugueses, .porl} ho tinha por tio esforçado &
-bedor na guerra, que com ele acabaria m.uyto
ilonrra : &, oom -este recado.·mandoa .Fraaci&co d.e 1011• ·
1a & os feridos-. •
C A P I T-V L O LXV. ·
,
-De como por indust·ria de Marcim corres , fmJ tomade
· · ·ho lugar de MtJritM:o. • · · t
Vendo· de brito
eilo naquela guerra, 'determinou· de a· dt!ixar dtr todo;
.&, ·Dito ·mandar a ela nenb\l i»ortugues., & êctarrartJe na
com ·ce,Jto & ttinta Portugueses que ti•ha., &
esperaT ate ire 09 jungOB de Malaca: & não quis tnan•
dar.-Martim· correa que·.fosae ajudar a Cachil daroea,
·JJem ho mandara se bo mesmo Cachit daroes lhe ri Ao
1'a pedir' que ho mandasse, & por isso· lhe deu
·que fosse cõ vinte- E escreueo de
·Jim·a que estaua no porto .. 'l'idotte' que ·.hq· fOlie aeõ-
eorn a mais genttfqüe }lbdease,.tirando a· do
·nauio que deixaria a· recado: &,. dizia em büa. carta fl
se Marti. correa ·se quieesse meter etn algüa
perigo, 'i} ele· lhe requereHe da parte' dei Rey. que ht
n4ó fizesse, & rillo quérendo ·&e rrlo lhe
·l!le aquela carta; & requerease da -SUA parte aos que ho
acõpanbauilo que ho não 1lju\Jaaaem. E reeebioos ror
nel de lima estes recados Jogo se foy ajumar eõ Ma.rti
cor-rea, leuildo cõsigo quinae Portugueses, que 01
·que Martinl corre& tinha erAo trinta & cinco, lj vendo·
11e eoelee·, ea a gettte de& CachiJ .. daroes -aprei&Quho
que ho Ju·gat;· palo ver estar muyto frio llis-
so: &. e·Je lhe disse que bo ·fatia quando llle vieise 'OD
91
LIVRO VI. S
(

188 .. DA Bllt'ORIA D4·1MM.t•
.; pórque ainda Jbe nlo vinha. E por taao
•op Martim· cqrrea de ào cQrneter oom os. ..
cõ q·•e ·Yeodo Cac,hil. daroes a couaa aco--
de ria corn. aua gêLe. E dando disso conta L\Qotti
lima, ele. lhe reqaereo da parte Dãtooio de brito $lq•
ho não fizesse: & ·aos outros que ho não ajudassem. mos-
trandolhe a çarta de A ntenio de brito, em . qq.e manda ..
ua que lhe não obedecessem: & eles bo fizer4p aasi
uo hü lane mendez caualeiro muyto esfor"ado, que se
lhe offreceo ao ajudar cojn •ua _pessoa;. o q lbe Martim
correa agardeceo. E dando a entender a gente que não
queria cometer ho lugar pois ho nio querião ajudar, fa-
lou aquela noyte com lóape & co11certou coeJe
que ao outro dia poJa menhaã comelellem a
pet biia 'parte, _que ele sabia. que estaua fraca:·. & que
JriAo· ambotJ .. d&us criados:
dos. de· qaahil. daroee, que conhecia pQr esf9r-çadoa·,
como '.fOssem· dentro quer a gete .. acodiria, &
desta maneira -se despach'J.l!ilo dali. E porque .Martim
correat sabia 'll po• .. auia hílaa de
lóra da traoquejra :- ;t·nãdou·aos. q as
J,IP_,. .. & .viue.m. os ,muy-
«to naquela. r •s caniçadas-. ec:ão
feitas k, que outro dia em, 4-a...
·fey d•. ·sua · .a cõpanqia que
,ligo: ·que erão .·p<lt, doze
1
& obegados á
jraoqueira virão· au.ia pouca :eente
f>C)r .. aue.r de ·fora mato &, má, seruentia JJera se
· ellégar@ a·.elà :· & estaua .. d.a. banda de delro ·cas!'
4errea·cõprida, & dereito.,do meo dela da
traliqueita.raloa & Qttrtos •. assi v.endo por on-
de· aui4o de· comet-er; aparecto bü mandarilil vt)àfUe
em.: ·hua roppeta de graã.,,. c:õ hua -gorra do mesmo: &
aeJa hiira piUIPI\: morto cõ hüa· esp1farda-
_da:que lbe.tiGOAl Inane meJtdez •. E a4odirão.-.lg;Ua
homês ··a· •Di&! q .esiaua.sobre aqla pariS·-,'· düde
Jhe• tirado pedradas & QutrO.f arrespes1o1: ·&lhe- tltti--
.
'.. t .... , ( .IA. f j ..
LIVJlO vt. CAPITVLO t.XV. 139
taalo tlta spma de terra que fazia tamaDha poeira que
do se enxergabl<rhi'la aos .. 0111n>a. E eomo os de deatro
•i lo êf os de fora etão, talb p(meoa , par.eciallaes .que •r a
impossiuel poder& entraasem·q erãotl
poucos, que' eles1 abastaulo. pera oa matar: & por isso
faz ião a ee.u1a .. oaladamête, que uio ;ae sen-!o naa
eatancias · vezinhas &·· tirauão .suas pedras & nrremes-
eo&;· & deitauilo a term cuydand·f1 de cegar os Port.ugue·
ses.: que .-cuydauãa que: lhes\ faziio :mayor. dano os
apron&Jtarão:,mais := como da terra q.ue caya se
&eaeem grandes.,& grossas nuuêa de p6, que cobriAo
Martim eorrea ;& os· outros,, teue eJe. tem.po., de .com
sua ajuda ·arr81Rea-r hti pao da , tranqueira ·que tão
• -que .. pote Jog.ar que ®apaua pode Martim cor.
rea caber ditha;rga &: a pos &Je Ioaae· , & despoi1
es · to mario hü: terreiro que se ·faai.a diante
da casa·, que 'eltaua ap :tr.anqoeirá. E como. oi
01 tio dentro eome((ouse. &ntr.elas 'DltJY grenGe
aluOfoço, ndo· .1,1go·, os .. àas e&taqobuJ- vezinhas .da.n•
gl'andes. gritas porque:·os .. ouuisaem :polb 'lugar-· .E ·ca-
lDo -Lionel e8tau.a perto,-:em.;ouuindo.a\.grita.•a-
codio ·logo com! todos os • ho·ll
era';, &· entTOo -portal al{ ·achou• fey.to ::. &,ajuoto.uee
·Martim correa todoa.mar.aoilbosamute,
porque os .mouros creoijk).;rnuyto: ·& ouue.itreJn hüa
braua peleja, ·que durou hü pedaço· primeyro. qué ehe.
gaese Caehil· .daroes ·.por· estar .muylo descaDsado,,:.ck
cnydar que nA& se auia.dentrar tio aainha. ·E como· .ele
ehegou. sua gente·-por:t.od.aa as paries1 & de ..
DE>&· mouros de fJU8 matarão saluo obra de
eento que se acolherio. sobre btlas i5de gs Ca'-
daroes· mftdauo ntRtar· as .. espingardada a., se não.
Martim correa que lhe pedio as vidas,.'& de!J
muyto pesadamente , dizendo que era seu costume in-
uiolauel, que em toda a batalha onde ya el rey ou quA
representasse sua pessoa, de n1orrere todos os imtnigos
que Dio se querilo dar a merce antea da batalha, 011
8 2
i.
. '
140 -Dg- BII'I'ORIA DA. IKDI.&. · -
do combate •. E em sinaJ que Cachil daroee. perdbaua aos
que estaulo sobre- as aruorea, bebeo agoa pola põta do
seu cris, que be sinal de perdio: &.com isto se dece-
ião os mouros, ·que como djsse erão. cêto, & os mortos
forllo trezentos. E dos Portugueses não morreo 11enhü,
nem doa q os ajodauilo: & Martim correa foy ferido em
hila perna de hü arremesso.: & ·os mortos· todos Corão
mãdaa·is & os mais parentes dei rey de·. Tidore: & outra
gente não auia_ no lugar, porque tanto que lhe foy pos-
to cerco ho _despejarão dela &-.das· fazedas & por isso
·não se achou cousa que fosso de roubar. E deípois do
feito acabado estando Martim .oorrea descasando vio ir
contra si dous homea bií deJes Mandari.m & -veJbo, & ho
outro de menos idade eomitre de hü paraó, & este
uana dependuradas duas de. mouros, & fugia do
· outro lj lha ueria to1nar ,. & chegãd& a: Martim
ihe fez , ueixume daquilo: & . porq bo •velho cõ muyta
insticia pedia a Martim correa ·q lhe desse·hiía daqlu
eabeças pera a depi!durar em hü paraó de q .era capitã:
& !q'uiseraJha tomar -& ho outro .. as aferrou gritAdo q lhe
não totn:asse sua honrra q gaohara com muyto trabalho
· pera a dar ao mandarim,- que en1 quanto durara a pe-
Nja·do lugar ·dOI'mido ee·foy. E ali
Martim oorrea que todo aquele.qn.e apresentar ao
rey sete cabettas despois de d-r algüa batalha
que ho faz ·caualeiro, & ho faz· fidalgo, a ij cbamão
mandarim' se. bo não he' & hão por muyto grande
honrra .apanhar muy,as cabeças. E ·acabada a matãça
dos tnoradores do Jugat foyJhe. p<W19 fogo,. & .ardeo todo
aem ·ficar ceusa algüa. &·da fortaleza vio
4
Antonio. de
brito, & '"os. que estau4o coele as-cban1as -do -fogo: &
porisso & por recado -de Marttm correa foy certificado
Jl o lugàr era destruido.·
..
,
,
.
. , -
,

l.a.
'
'•
'I·
...
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LIVRO VI. CAPITVLO LXVI. '141
' o
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.C A P I T V L O LXVI.
De como prossegu2·ndo correa !f- Cachit Da·roes
. a. g-uerra tontaráo muytos lp,gares _que el rey de Tt'dore
tinha na ilha de Maquiem.
Destruido. este lugar ouue Cachil· daroes conselho cl5
Martim correa que tossem aa ilha de de q ·era
delrey de 'fidore &. a. dei rey ·de
te & a & assi .ho. fizerão. E ao primeyro lu-
gar dei rey de 'fidore que chegarão, estando no inar
.& tão ·perto. de terra que se poderia. ouuir: de use. hü .
. pregão na coracora do que eo1 sua lingoa
:dizer almi.rante , que soubessem os moradores do lugar
q .naquela. frota certo

'd4::' ·que
-yão de ferFp· ( & isto polas _armas) &. que
.1.1ão os paraós cheos de cabeças 4us Mãdarins de ..
re, que be podião pore que deuião dar o.-
ao rege<lor daroes que ali ya,. porque
lhes não fizessetn outro tanto como aos de 'fidore. ·E a
• • o
.este pregão sa.irão todos os do lugar á praya, & quando
.. "Virão à mul.tidão das _cabeças dos mortos mostrarãose
:muy. espantados, & deter1ninarão. de se entregar, & as-
.. si ho_fizerão logo ao outro dia pola manhaã, & cada hü
.)euaua algüa que apresentaua ao regedor,: & isl.9
:de .sua yontade, & não : & dada obedioocia
,ao .regedor, se tornauão pera suas casas , ficãdo
Jos del rey de Teroate : & desta n1aneira se entregarão
·todos os Jugares el rey de 'fidC?re tinba·nesta .. ilha •
. E a .causa de lbe darem primeyro ho pregão li disse,
.era por ser costume da terra , que quando auiâo de {a-
.zer guerra a algüa gente pera que não dissesse despois
.que 08 tomauãa ar trei'ião' lhe auião de noteficar como
Jhes querião fazer guerra, & a ·gente que tinbão, & as
.armas que leuauão, assi coo1o & se
então 3quela.li peçaJI de -võta:-
. .
.,. o
-
142 ·DÀ ·HiSTORI-A DA ·INDIA .
de, & nAo lhes fazião mal. se que nAo a-
uião medo & estauão · preetea pera se defenderem , dali
por di.ante os podiào & tomar por &
por todos os ardijs ll podesaA sem lerem nisso culpa. E
não tendo mais que fazer naquela ilha , se tornarlo a
nossa fortaleza. . · · · · · · ·! :
C A P I T V L O LXVII •
.
Dt, como Martim corretJ , · Ctzchil dm-ou tkslruirlio le
lugar Dogane , se tornarão a Terttate •
. Vendo brito·
ri', nA quis deixar de a proseguir. E porque ainda- tica-
ua hií lugar a el rey de Tidore, ·que tinha na iJba
de Batochina sessenta ·leg-oas de Terna te,.· tornou a
mandar Martim correa eom corenta Portugueses,
te foy Cac·hil daroes:, & ho .. , que forAo .pala ilha
·de Cajoa se ajuntar ·com e)eft bo rey dela:, :como
ajuntou: & dali se fer§o f.odos a ilha ·de Batechina sebre
hi1·1ugar .chamado Gane, lj seria de bê duzêtoa veziobos,
& as caeaa todas soMe esteos de madeira· cujas p;tredes
erlo de barrotes' &. em lugar de tinhão por .ci-
ms esteiras de canas & por de baixo das
casas· auia algõ& assentos pera· se a gente assentar de
dia , & estas casas erão iissi. feytas , pera flUe no tempo
da guerra defendessem rnelhor dos immigos, porque
sobem ás casas per h fias esçadas leuadi«eas de canas ,
que corno aão e·nl cin1a as poe ao longo das paredes &
ficão seguros: & pera· offenderem aos immigos
se lhes ho lugar, enrolão as esteiras pPrB as i-
lhargas das paredes , .& tirão per ant_re os aos
que por baixo, paos tostados, & pedras, &
frechas , .& com hüs ·arpões de ferro, a que cbamão tãr-
, · muytas braças de. cordel
no bra'io dere1 to. per a· que lhes fique sempre
1lo cordel na mão, & se acertAo, puxão .pelo cordel- ate
LI}'RO. CAliTVI.O Ll'::\'11. ·148
Po. hamê a f.\i , a. &
armas 11\UYr t & perig9sa,.; d.e quf,' se
aer.uG_. P.)uyto. ps en.trãQ.. Qtt
PQflj_. engenho. q: Sé;lbê cortar OJI
.casas & , nem: che-
ga.r: jupto t delas cõ. me4,o, ,destes .doutrps
.e,te .. b;wda,de bOa
valf' mqy;to p.er onde enlraua. ho mar t ho aJaga:-
ua. q\lãdo era : . & por ou lras. er.a
eado. & de .vasa, .de m.odo que estaua muyto
& tinha a entrada . muyto· perigo,a. E cõ tudo
Martim eorrea disse a Cachil daroes ·que ho
& pera entrar pola da • que nlo
podi4o as corascoraa nadar· por parte, mas logo
passar auãte cõ ll os
moJJros ali por onde as
1
que
1ão grandes nlo podiilo caber: o '1 os
muy de p.ressa em paraos pequenos, & se che-
per anlre as estacas ho mais perto que dos
llqa,sos, ti.rauãlhes írechadas , & arremessos.,
.& dissjmulauão por rogo de Cachil daroes que
te mais & tiras.sem com as
de· imigoa nlo sabião nada por terem· nunca
·Yisto P-ortugueses. E os M·artim correa bê chega-
-dos desparou a sua espingarda ,_ & mesn1o fez Cachil
daroes, & outros que as tinhão: cpm que
mortos' muytos dos imigos: & 0$ outros como
rio bo jogo fugirão, indo ê seu alcan"o muytos .
roa .. de berqo, que lhes despararão nas costas, 'que' ma--
tario & ferirfto esses ·i\. alcan'f'rão: & despejada a
.ea4a Í9Y logo· cortada & arrancada. E as c.orasco.-
l:aá ·lugar per a se ehegario tam perto dàs easas que
lhes· cbPgauão com os ber'ios, mas como nlo lbé podia
·dali ·lazer muyto nojo, saltou Martim eorrea ern terra
com ·dez. P.ortugue1ea que yàD. na çar
matao, que tatnbê desembarcou ·com • su-a
capitania, & porem acbarão.tanta vaaa, .. &. ali dela h'
.....
, ,. .. . .
)44 DA·HIS'l'OitiA DA INDJA
4 11 • c
esteiro tão alto que nAo poderão cheg_ar ao & foy
forçado embarcarense oulra vez, por<} Cachil daroes não
estaua ali, & ya por outrà banda, &, de lá mandou eha•
Martim Correa, que se foy pareie. E polo achar
frio em cometer ho· lugar ale os imigós gastarern os ar-
tinhão ;· remeteo a eles eõ esses Portugue-
ses & o1ouros que leuaua, ás espingardadas,
pola vasa, em que auia muytos strepes; de que hft bo
ferio en1 hu pé, mas ele nllo ·deixou de ir por diante ate
:chegar a hüa tranqueira que estaua daquela parte que
lJespejou dos imigos ás espingardadas eom os outros: &
·despejada entrarão no Jug1lr, ele Cachil daroes
·cõ os de suà capitania. E vêdo ·os imigos <1 nã tinhã:_
outro retnedio, derão cõsig·o encima nas casas leuãdo
·apos si as eseadas , cuid·ãdo q se auiiio ·de defender co-
lno outras vezes, mas· lhes derilo os Portugueses
esse vagar, que logo at&ndo· bisalhos de ·poJoora nas
·pontas das lanças encima dos telhados eona
'murrões acesos , & se pegaua ho f<lgo nos telha-
dos que e·rão doia seca, em ·que logo ae acendeo muy
·brauamente & ateandose de -hüas casas ·outras:· a-
cendeose .hum espantoso fogo per toda a · cidàde, · &
coela: per toda ela se a·leuantou hüa grandé &· dorida
.grita ·que dauão as molh.eres & me'ftinos de .que ·aa casas
cheas. E querendose Jiurar do fogo remetiiloaas
·poTtas pera se Jnnçare-1n abaixo onde viio estar··OB Por--
1.tigueses · c0 as leuãtadas per a os receberê nelas·,
-& côtudo . .se deytauão: & ass; · tnuytos quey-
_-ma=dos·:tJo fogo; & outros a ferro: &f·for3o·tatiuaa be1n
-dozentas aln1ae, a·ntrelas bo fqy ·tambe ho mel!mo_ se-
-nhor ® lugar, com toda sua E como teue-rãd de&
truydo· este Jogar de todo, emharcarãoàe Martim Cor-
lrea, & Cachil -daroes & tornaril-ose a 'fernate, onde
·Antonio d\1.brito deu a Mar-tim correa a mor
-ela ,. 8t 'R· oapitania- mór :do mar' porqt.Mt :fioaese
. eoele. tem·po,.·por ver quanto··era peracseruir e) rey
· seu · k. vale o tia. IJ • • ,
LIVRO VI. CAP:iTVLO LXVIII. 146
C A P I T V L O LXVIII.
como el.·rey de Tidore mtmdou pedir pa%es tJ Antonio
de brikJ: tle quis dar.
· Com a destroyçlo deste lugar. Do gane fieou el rey de
Tidore muyto l}brado da soberba que tiuera contra os·
Portugueses, & bê arrependido de ter guerra coeles, .
eobroulbes tamanho ·medo, ê} nio se linha por seguro
en1 nenbua parle : poJo que mandou ht\ embaixador a·
Antonio de brito, pedindolhe pazes, offrecendose a pa-·
gar a el rey de Portugal toda a perda & dãno que te.
uesse recebido por sua causa: & lhe daria a Artelharia·
que tomara na fusta: o que Antonio de brito rtilo quis:
& respõdeo que ainda não estaua bê ''ingado dele. E
dali a algOs d;as forio tomados no mar pelos Portugue-
ses duzentos homens vassalos dei rPy de Tid{)re, l} Ari:-
tonio de brito mandou matar de n1uy cruas mortes. O
que nio punha grande ten1or em el rey de Ti-·
dore , mas em outros reJ'S comarcãos daquele arct'pela-
go: & todos se liaulo por an1izade com Antonio de br.i-
to, & antresles foy ho da ilha chamada Grambocanora;
q-ue mandou a Antonio de brito bOs doze homês ê hü
paraó, a q nal}la terra chamão Ourão soãgue q quer di-
zer home diabo. E isto porq por arfe diabolica se fazê
inuisiueis' & etrão por õde querê & fazt! muyto mal!
& por isso hão aqlas getes grandissio1o medo deles, &
se os logo os matão. E porque es·teEJ ou·raes
aoangues se fazem inoisiueis os mãdou el rey da Gril-
bocanora a Antonio de brito· pera q lhe. fossem fazer
saltos á· ilha de Tidore, & matassem neJa mu_yta
do que Antonio de brito tez t'scarnio, & forão por
seys ou sete vezes fa-zer -saltos 'fidore, donde trou-
uerãó' de cada muytns cabe"as de homens que ma-
do que a gente de Tidore andaun muyto
tada & atormentada , & bOa noyte onde dei-
LIVRO VI. . T ·

'
141 .DA BIIT081A DA INDIA
:xaulo ho seu paraó & tomaranlho & eles ficarlo embre-
nhados poJa iJb-, & cada noyte fazião fogos.aos deTer-
Date que estaulo defrõte que f011em por eles, & por is-
lO f11rão aeh':'r'o J)llze, & ho outro nuaca ·•aia
ceo, pelo que de brito fez di88o muyto mais es--
eaa·nio que dantes, ainda que lhe Cachil Daroes afirma-
ua que era asai , & que se fazilo iouisiueis. E por Ao·
tonio de brito dizer que se ele metesse oo .troaco hum
dal'}lea que ele nã se sayria Cachil Daroea
hum .que lhe leuarão pera justiçar. E Antonio de brito
llo mandou o1eter etn hum tronco pola dize
que se se dali aayaae que creria fazerse inuisiuel ;· &
mandou ho goardar muy;to bem hüa _noyte. E quaf\dC»:
foy ao outro dia ndo ho a:eharil9 .no tr.onco, do que
tooio de brito ficou espantado. E porque el
'fi(Jore oão que lh., a guerra çom artQ
diabolica, -não <Jue fossem Já mais Qti
gues , & anaodauaUll\ polotl
gueses com o que rey viuia muy ·
Ç A P I 'r 0: L O LXIX.
.
. .
p, qoJno el rey de COfli6fOU de faze.r gy,errA
_ .. dissimulada.méte.
P estas cou.sas em Maluco, el rey de Calicut:
CJUe determinado <le guerra á
apercebiasse podia_, as_.
a.i os de todo qJJe aj_unlarão qqasi ..
zentos paraQs de que. corenla auião. dir. carre-
gados de espeeiaria a Meca e1u goarda das oyto naos.
gue disse atras, & assi outros muytos ate os .)loereau.de
mar fora da cqsta do l\lalabar. E ho capitão
era bulo v.alen.te chama<lQ
'faoor. E desta que (py: logo n•
entrada do v_erão foy auisado dom de lima capitão.
· da de Calicut, per hum
LntiiO VI. CAPITtt.O 1.&'1%. 147
tJUe andan e& os· mourt>s chamado Baeliio, filho de hum
ouriue& de Lisboa que fora da capela ®J rey clolil
Manuel, & por ser muyto ao1igo d·e dom (ainda
que era mouro) Jheacreueo biia carta da partitla deata
araada, Bt que auia de passar ao longo da fortaleza
peta. a ton1ar se eateuesse ·pera isso: o que Jogo dom
·Joio eomo isto soube eícreueo a d6 Luys que eataua etn
Cocbin1 , pedindolbe ·q mandasse hüa. atinada a goatdat
a costa: o que ele nlo quis, nem sayo de Cocbim se
nlo em Ouiubro iudtlle dereyto a Goá onde esperAua
que .. ho gouernador foeae ter Dorinufl. E vendo dom
Joio de lima corno lhe acodião de Cocbim, segurou
a .fortaleza do combate que se lhe podia clar por
00111 hum baluarte de madey-ra com que a porta
da fortaleza ficaua lambem em parada da banda do mar :
pera o que -mandou pedir carpinteyros ao regedor da ci•
dade, que cgm·o sabia a guerra ê} el rey determinaua de
fazer a a fortalezá nlo queria dar·os carpinteyros. E dom
loio poJa pressa que tinha começou ho baluarte oom ho
condestabre da fortaleza l) era muyto ltgenbQso &· inai-
Daua algO• Portugueses a laurar a madeyra. O <t visto
)JOio regedor, por dom loilo não aospeitar algüa cousa
da guerra que estaua determinada lhe deu os carpintey.-
ros cõ que ho baluarte foy 1nuy asinha acabado. E não
tardou nada que apareceo a ftota dos mouros, & hum
paraó dela se chegou a terra pera ver se poderião tomar
a fortaleza: o que vendo dom João lhe anandou tirar coiJâ.
tres tiros grossos, & hum esried8'tau ho paraó: &, 01 ou-
tros arrombarão algiis dos que yão ao mar. E ·vendo Cu-
tiale quanto dãno recebia sem deseJnbarcar, oonbeceo é
que receberia desembarcando, & por i aso passou auan•
te. E dom loão se mandou queixar ao regedor de Cali-
cut da ·vista que esta armada deu aa fortale%a: dizendo-
que se el rey de Calicut queria gue.rra que lbo deera-
raue, porque asai bo fazillo os caualeyros. Do que ho·
regedor se lhe foy diseulpar: & el re' de Calic.ut qui-
do 1011be que dbm IGio ào mandoa & bum
- T 2
..
J 48 DA BII'IO&IA DA I!IDI• ·
Nayre que lho fusae matar. E como elea aam muyto o-
.bedieotes a seu rey, determinou de bo fazer: fiDgiado
.que leuaua hum recado dei rey a dom lolo. E iodo bo
Nayre coesle. proposito achou bo assentado na ramada
dn fortaleza com algüs fidalgos seus parentes, & io6ou-
ae tanto querendo chegar a ele que bo eotendeo dom
Vasco de Ji1na que hi estaua, & dis11e a dom lolo que
ho anatassem. E ele não quis·, mas mandou aos alabar-
deyros da goarda que lho tomassem. E assi ho fizerão,
& queixnndose ho Nayre que Jeuaua hum recado dei rey
a dom loão, .que lho deixassem dar, diaselbe ele que
bern sabia que não leuaua recado, se não que ya pera
ho matar, & que ho não malaua como lhe merecia por
nlo quebrar a paz, & mandou ho pera CaJicul. E aio·
outra vez inL@tou el rey de bo mandar matar por tre1
.Nayres que fingirão leuarlhe outro recado: porê como
ele ja andaua de sobre auiso enteodeo os, & lambem
os mandou prêder por os seus alabardeyros, & disselhes
que dissessem a el rey que soubesse certo que ho não
auia de poder n1atar JlOr n1ais que fizesse : & ae queria
guerra coele que lha declarasse & que ele se defende-
ria, & se não fora J>Qr quebrar a paz que ele lhe come-
çara ja de fazer guerra pelo que e11lendia nele.
"'
C A P I T O L O LXX.
De como os mouros Nayru de Calicut COfllefaráo a
guerra có dó João de capitão da furtale%a.
Com quanto a guerra assi andaua bazcolejada , nilo
deixaua dauer conuersactão ãtre os Portugueses & os da
cidade: nem os Nayres da feytoria não deixauão de aer-
uir nela, & comümêle a de Calicut desejaua a paz,
& sós os mouros a oão querião poJo grãde odio que. ti·
Dhlo aos Portugoeaes ,. & conselbauão a eJ rey de Cali·
cut que fizesse a guerra. E ele• matarão neste
hum Gonçalo tauares que dom loào mandaua com hum
LIVRO VI. OAI»I,YLO LZX. 149
recado ao de Calicut, & aasi outros dous Por ..
tugueses que ylo eoele: sobre que ào regetlor nlo
nada, posto que 1e dom loão mandou queixar dos me>u--
·ros •. E vendo esses fidalgos que esta.uão com dom loAo,
& asai ho feytor & alc:a,de mór & oa mais tle essoutra
gente este desauergonhamento: & que auia dous meaes
.que em Parangale lugar de) rey de Calicut matarAo ou-
·lroa mouros doze Portugueses, conselhauilo a dom João
que fizesse guerra a e)rey de Calicut, pois lha ele fazia:
porque que mais guerra fJOdia ser que matarJhe os l
1
or-
·toguesea poucos & poueoa, & "que em guerra discuber-
ta Dilo lhe matara tantos, que não esperasse 1m ais cau-
••• pera quebrar a paz, que nã podilo ser mais-. E pos-
.to que a dom loilo lhe não falecia esfor'io pera a guer-
ra, nlo ousaua de quebrar a paz ate os ima1igos nlo
oometerem a fortaleza , porque assi ho tinha por regi-
Dlêto: & por isso sofria todas estas cousas. E sabendo
-llo regedor & ho Catual da cidade polos Nayrea da fey-
toria o que os fidalgos conselhaulo a dom lolo, teme o ..
do qae quebrasse a paz poJo por esforçado , forã-
·Bo 'er por. dissimular : & a vista foy na ramada da for-
-taleza. E queixandose)bes dom Joio das cousas pana-
·das, & eles dando suas disculpas, tirarão dantre a sua
-gente eertas espingardada& : do que eles auendo grande
vergoaha bradarão com a gente, dizendo que eles sabe-
rião os que fizerão aquilo, & os castigarião muyto bem·:
& porque não fizessem outra tal mandarão toda a
pera a cidade, & eles fi cario sós com dom loão, a que
fizerão muylas mostras de lhes pesar. do passado com
.proole&sa .de ho eom castigo, que ele creo
que seria aasi: mas como tudo era fingido, logo dali a
do11e ou. tres dias tomarão hüs mouros cerlas molheres
da terra Ch.ristàas que anorauão na cidade, 8t leuauan-
·Daa a Coulete. E nlo querendf) elas ir com os mouros
por. serern Christaãs bradauão polos Portugueses l!lhes
E foy sobristo a oniào tamanha qse bo.soube
dom ·loão, & mandou rogar aos mouros que as não Je-
180 aWiliau tJtom.·
-11assem, pois erio CilriilliBL B riiia el• n
Dlo alas: ma.touse ·fJueyxar disso regedor,. & ao
-Catual quaJ deles &e achasse, mas •enbuan achou,
.Dem JJayres da feitoria, pera que defeodesaem aoaMou--
ros que não leuaasem a• molberes : o que vencio dom
João maadou certos a defender estas mo-
Jherea' & o.uuer4o peleja ca 08 mouros & aa tomaria..
Sobre o qjue se a)uoroqou a .gente da cidade, usi moG-
roa como Nayrea: & coauo linhão determinado de faze-
Tem guerra aa fortaleza ., na mesma hora ae dei soo i,-
correndo pera a fortaleza hum eorpo .de gente, que ae-
rião trezentos homeaa ·oe .mais deles espiogarcleyros, &
por serem tão pouco• ·-maodoulhes dom loio ao eneont ..
hum eaualeyro chamado ManueJ de faria escriuão da
feytoria cõ vinte ci11co maa.aioda esta
trezentos não cbegauão fortaleza, quando todo lte
resto da gente da cidade. ya janta poeta em a-rmas., &
com grandes alaridos se forão corrêdo aa praya pera d ..
rem de. sopito na porta da: fortaJen·.& totaarêaa .. O que
receãdo dom lolo sayo logo fora.\çom algüa pet.a
recolher Manuel de faria, & mandou desparar- •lglis ·tiP
por alto porque nilo fizessem. mal .. ,. pwque ainda nle
·queria quebrar a [JAZ. E ho taed() ·.de1tea .tires fizemo
deter 01 immigos, peJo que Manuel. de. reCGiheo
sem afronta: & dom Joio fazia grandfls.· proteataçõea
perante- hum tabalião pubrico que ele uão mandaua ti ..
rar aqueles tiros senão por· se defender & aJo por que-
brar a paz. E coisto se recolheo aa fortaleza : & reco-
) h ido tornarão os immigos a prosseguir pera a forialeza,
& chegarlo ate büs pardieiro• que estauilo perto dela.
E vendo os dom Ioão ali estar sayo a dar neles
bra de cem homes, dando a dianteira a hum Aluaro da
cunha seu sobrinho, que leuaua cincoenta, & do1n Joio
com os outros lhe hi:l nas costas : & dando htla arrem&-
tida aos immigoa de que matario algüs, se tornou a r ..
colher na fortaleza: a que os immigoa tira ri todo aque-
Je dia muytas eapiagardadaa & frecbadu. E ao dia se-
LWBO ·V.f• 1.)'.. l6l
guinte esteuerão quedos sem fazer nenhil reboli'io de
guerra. E por illlO. J>aaa..óa: hil nayre cunhado dei' rey
de Calicut, que tinha tenC(a cada anno dei Rey
de Portugal ; porq.ue . .aoe Portugue1e'S da.
que eJ'a ·g·raode ... ,. te$,po per& ·Í( a um
loão, que ho ·deixou :eh.•gaJ' á ... Q.Ode
lbe falou. E Púnacha lhe disse com o rosto muyto
\e, Dlo 16 fia- deJ rey de € poa1que sem.
duuida lhe auia de fazer guerra, & ialo.jbf). dea.iQ PJl1•
que tinha de aeruir a el Rey de. Portugal. &
6s()8diose de doan loãp & asai os nayres qu•
eerui4o na feytoria que hilo coele: & deitandoselbe aoa
pés lhe pedirão. perdlo. de ho não ,poàereBJ: seruir
ta guerra.,. se comwcou dali .por! diante : & a dora
lolo nlo Jhe· daua nada. del4· por· ser oa do v e ....
rão,, que. qqe .fosae de Por:tu-
gal que- I socorreria: &. ,pPr isso. mandou recado a.
6lõ Luys de .. meaesea eata.ua em Cocbim , & como
os immigos se lbe,.metilo aotre que ea-
taulo per.to da s.ayo alguae. vezea a dar oelt»a
eul lJ. matou & ferio alg:usi, & hjia. vez: pos logo aa cida .. ·
de., de .que queyn1ou hil grande de cuas: & ao-.
hrieto teue hiia braua peleja con1 oa iinigos que fica-.
rio muytos mortos & ferido• , & dos-.Porlugueaes-. htl soo
foy ferido. O.que parecia: milagre por seri! os Portugue-;
a.ea.Qlu.y poucQS & os muytoa em demasia
quanto. eJ rey. não esta.ua na cidade, que se
ÍQrlo sem .& dali por diãte auia muytos rebates.
dhia & da outra, & sempre oos&o senhor seja lou"!'·
uatlo os Portugueses leuauão o melhor.
lb2
C A P I T V L O LXXI.
De como dó Y asco dtJ gama· conde da Yidigtteira al-
. do mar :indico partio de Poreugal por viso rey
da India , de eomo chegou lá.
Sendo ho tempo chPgado de dom Duarte de meneses
que gouernaua a lndia· se ir ,,era Portugal, n1Adou ho
muyto alto & muyto poderoso rey dom lollo.ho terceyro
deste nom·e d-e Portugal que então reynaua quem gouer-
nasse a lndia. E este foy dom Vasco da garoa cõde da
Vidigueira.& al·n1irante do mar indico, a que deu a go-
aernãt(a da lndi·a eom titulo -de viso rey, & deulhe hüa
armada de quatorze velas. a. sete naos grossas , trea
galooes & quatro earauelas. Das naos a fora ele fGrilo
capitAes dom AnrriQ de menesea filho de dom Fernando
de men·eses que cliamarfto ho roxo que 'Ya por capitão
Dormuz, & na primeyra subcessam da gouernãça da
Jodia per morte do viso rey , Pero mazcarenhas que ya
na segiida & leuaua a capitania de ·Malaca, Lopo. vaz
de san1 Payo que ya aa terceyra, ·Jeuaua a capitania
de Cochitn, ·Francisco de sá que teuaua a capitania que
auia dir fazer na ilha de ·ÇUBda, Francisco de brjto que · !
auia de ser capitão das tres uaos do trato de Baticalâ
pera Ormuz, &. Antonio da sil·u-Pira. Dos galeões· forlo
capitiles dõ Jorge .de tnenesea fiJho de donl Rodrigo ·de
meneses de que faley no li oro quinto, dõ Fernando de·
mõrroi, & Afonso mexia que ya por védor da fazenda·
da lndia. Os capitiles das ·carauelas for§ o I ... opo lobo,
Gaspar malhorquim, Christouio rosado, & Ru1 gon-
çaluez. E fornecida esta arn1ada de muyta & boa gen-
te, armas & mantimentos, part.iose bo viso rey coela a
noue Dabril do anno de mil & quinhentos & vinte qua-
tro,·& leuou muyto roim viagem de tormêtas, com que
-se perderito da sua cõserua Francisco de brito, Cbri•to-
ulo rosado, & Gaspar maJborquim que nuDca mail pa-
LIVRO VI. CAPI'I'VLO , )63
recerlo. E bo Galeão em que ya dom Fernando de monr-
roi se perdeo em Melinde, & nas outras velas morreo
muyta gente & forão sempre espalhadas, & quem che:-
gaua primeyro a Moçambique partiasse logo pera a ln-
dia: & perto da costa dela hüa noite dos seys dias
Setembro ao quarto da a)ua tremeo ho anar muyto
jo, & por bõ espaço: & poJa primeyra se cuydou na
frota ii daoa em aJgüs baixos de penedia ale que cayrlo
no que era. E dali a pOucos dias aparf'ceo hüa nao de
mouros que yão Dadem per a a lndia :. & Jorge de
.meneses a tomou sem outra ajuda quas.1 a v1sta da
ta , & oa mouros se lhe renderão cõ medo, & ele a fe-
uou ao visorey q logo rnãdou aneter nela hii quad'fil·hei-
1'0 & hií, eseriulo pera verem o que tinha & oulhareo1
por ela: & acharan)he sessenta mil cruzados em dinhei-
ro & duzêtoa n1il em mercadoria. E daqui a alg·ü& dias
íoy surgir na barra de Chaul , & hi se declarou por vi-
sorey que usi ho leuaua por &. aqui ·este-
ue. trea dias sem sayr _ê terra, nem consentir que pes-
soa algõa saysse, saluo ho licenciado lo!o de soi·ro do
desembargo na casa da que. ya coe·le ·J)Or ou-·
ui dor geral da I ndia, & Bastião Luys lJ. Jeuaua a escre-
uaninba da matricula de Cochin1 que ho viso mildou
que fossean visitar por ele a fortaleza de ChaQi, & lJ.
mldassem apregoar em seu nome, c1ue tir.ande ·os frõ-
teiros & casados todos os outros se em·bareassem logo &
fossem coele sope116 de serem riscados do so1do & man-
timento: & mais lhes que dissessem a Christo-
uAo de sousa q era capitão da fortaleza, -q chegando ali
dom Duarte de meneses que era e·m Or1nuz q·uildo de lá
tornasse que ho não consentisse desembarcar, nem lhe
.lesse mantimento mais que pera quatro o que
foy todo feyto. E assi. eomo ho viso rey não quis que
ninguem f"Oise .. a terra, nllo quis tampouco que pessoa
algtla tirasse nenhüa fazenda da q·ue trazia, no que deu
muyta perda a muytos, porq gaahario muyto em a ven-
. der.ê ali , nê menos quis. deixar ficar nenbil doente de
LIVRO VI. U
1 6.. . ·»â BJH'ORU D4· IRDIA ·
muyLoa que :Jio na armada, a que de1• muyta parte .da
aaude verenae em terra : & bo requererio,
mas não lhes aproueitou. E daqui parlio pera Goa, &
porque auia de desembarcar pera ver a cidade, & fazer
aJgüas cousas que comprião a dei Rey, & fey.,
taa ir se a Cochim, encomendou gna.rda da frota a
dorn lorge de anenesea, que fico\! nela. E deaembarca·
do no cays de Goa foy recebido com a
tumada: & aqui em Goa Jhe fizerão queyxume de Fran-
cisco .pestana, que estaua, por capitão da forta·
leza, de n1uylas injurias que linha feitas á mayor parte
dos ciJadãos, & de n1uytaa diu.\qa. qutl deui-··qu.& -oão
queria pagar. Pelo que ho Viso rey lhe tirou logo
pitaoia, & a deu a dom dizendo-
lhe que c,9mpria .. rey :M64'Uila •
fosse .prou1do d_a l)çrmu'ft Jleretra naãdea
ho· faMlr : ; __ &._ fazia :paaar o
«jUe deuia, cQm »o .. jtlra-
do •. V F,mncjAoo. perti1a.: r&
que muytos lhe-. • :mar.td"u )&!
uar a casa dQ ·reJ oQde .. ele eetaua, esse di.,Peiro
que pediolhe 1\1«> desae juraml!Lo a niog.ul
se lhtt nlo, fW, nàQ ·que • .prepar que
quê< 4in.l}eiro de • ... lbo
se (.\018 .tude>1bo YJSO
J:ey ... ft-iz muy,f;a .parte .tio q .deu ia:., por.que. de
SJJ'\ .fra t&Ato .que sabêdo
q_ue forão na frot.a dQas solteiras as mandou
em isto. p&rq.uerfo..
rio f Cfi>Dlra · s.ua;: d_e{t\Sa, .q mandou. apregoar .em BeJeJB
I antes que parLisse pera a lodia: que .nenbüa mol.her
solteira fosse sopena da<(olites, JlOr· eu1ta1
·muylos que 'se seguem de as Jeuarem eomoetl
vi. E não ·regarem .ao viso rey que não .fize•
ee _esta. , __ porfi doua homes pera eas&J
com aquelas molheres, k que não easarião.·se· aa ..
tassem , & aão quis.. E , por Jhe · usi parecei
I.IYRO VI. CA.ft'VI.G LXXII. 166
defldeo q nio se recolhesse no spirit.al de Goa ne•
Dhü dos doentes que yAo na (rota, dizeftdo qoe el rq
seu senhor. nã·tinbm necessidade de ter na India apiri ...
tais : porque aueodoos se farião os homé!a sen1pre doen·
tea, & per esta causa morrerlo muytoa á mingoa, &
&utros que nlo tinblo de que se mlter pedião por amor
de ·Deos: e que ·ateli 'Dilo se vira na lndia, & por isso
ho eatranbaullo tedos muyto._ · .
' .
1
••
De mmo 1w vilo rey -a (J(Jch.im, do quefe•.
N que viso rey ·fez se lhe co--
meçou \hüa doença de que de$p·ois morreo, & que
fosse- em crecimento se partio CochftiJ :, ·deixando
por regimento a dom Anrrique ·de rneneses que todo ho-
mem :que ficasse. em Goa & não fosse coe'le tirando os
casados· &. • á fortaleza riscado do soldo
&. do mantimento. E que sua partida a dous meses
todos os Portugueses que morauão no arrabnlde fossem
morar á cidade sopena de morte, & n1andou aos des-
penaeiros dos nauioa de sua armada q a cada ·dous ho-
rnês nAo dessem mais por dia q hft arratel de bjzeoito,
& mandou aos capitães dos nauios dalto bordo que nti·o
deixassem meter a cada dous · mais q hüa arca do
compriineto de btla espada. E logo ao mar dt' ·Goa a-
chou dom Luys. de menesea que- ya pera Goâ esperar
seu irmfto, & Jeuou ho consigo pera Cochi.m , õde che-
gou na fim Doutubro, & foy recebido cõ grande solêni-
dade, & hi lhe· entregou ho doutor Pero nunez ho offi-
cio de védor da fazenda, em que auia aey-s Anos que
seruia, & polo el rey·dom Manu·el ae.bar muyto M, fiel·
& diligête seru;idor não qui• mandar outro redor da fa-
zenda despois que acabou os .tres Iaos, que he ho tem-
po costumado, antes·· ho deixou estar mAis outros trea·
aaaoa. E·. porque ele lhe requeria lie(l;ça pera se ir por
v I
'
101 · DA · BISTOBI& n• .IRDij,. . -
ser seu teínpo acabado, ho deteue cõ muytai éarla1 de
rogo, fauor: & fazendolbe muytaa mereee, & aasi bo
muyto allo & muyto poderoeo rey dom loão nosso se-
nhor, que a ambos eerúio muylo bem & lhes aproueitOu
sua fazenda muyta prudea1cia sem lhes.encarregar
.. ooscienciaa ' DI esqandalizar as partes ' & donde claa ..
tes a pimêta quebraua en1 Portugal de trinta ate core.n-
ta quintais por cento, por I& oa mouros.darem álhacJa,
& cõ muyta terra &--.rea de mestura. Ele vêclo isto·.lllá
não quis tomar, & mildou chamar os Cbristãoa- de Cran•
gaoor que e•ta pimenta aos mouros, & a-
fagos & dadiuas .&· muyto boas obra• 4'j lhe. fazia fez
coeles que não vendessem a aos mouros, & Jba
trouueasem polo • .. & quinze rs como eataua ·
'assentado, & eles lha limpa & seca: pelo que
·dali por diãte em todo seu tempo não quebrou a pim8ft-.
ta em Portugal 1nai• que :a Mele por. ceata, qae acleei-
tou muyto no ganho da E assi seruia e)rey em-
lhe emprestar dinheiro· por vezes; usi pera a
·carrega , coa1o pera eu tras de. pesas , & a1si em outras
·muytas cousas que não pude saber partieuJarmite. O il
sabendo ho viso rey, lhe fez muyta honrra & fauor, &
entregou ho officio de védor da fazenda aAíeDIO
que ho Jeuaua de ·
'
C A P I T V L O LXXIII.
Deaembarcado _Yiso rey .. Cochim , porque
çou dauer bandos an·tre os muytos Portugueses qu.e auia
na cidade, mandou por eseusar os males i} se deles se-
guem que 'nioguem deaae mesa: do que se seguio auer
forne antre os soldados, aasi por lhes ser mal pâgo seu
soldo & maotimêto, como por auer na terra·poucoaman ..
timêtos. ·E por· élta causa he muyto·necessarió darem
I
Llfà() Lltí.lll. i 6't
os· éapltlês &'fidalgos mesaa,. nê se podem os soldados
da lndia so&ter sem cuo1o a gente andaua indi•
nada: cõtra ho •iso rey ae&bou de lhe mal
por. tolher as·mesas: & rnuytos por se • dele se
yão pera Chóramll-üdel , & ()Uttas. partes em lj andauilo
·fora ·do dei wey, & ate os mouros auião tamanho
medo', dele que treá·iAo·-quand6 bo Df)meáuão. E tantbê
se ylo· de Cochim -onde aura muyto têm·po que
·E .,.raâdo h(ji.viso··rey- de ir sohre Caliet1t & de.struy-
la = que :td rey ti Ilha cê os ·: &
em. actã·baua algtlas:couààs mandou diante ·a
dar a\ coa a Ieronin1o 2d·e sousa h·ü fidalgo de q faley
1-ktrt>IO&'fml poat m6r!de hna· armada de na·
remo· em fqutt E che-
gado ao11ea' lebre achou dêtro do
arrecife· edt@ta i pa1·aós de .: de que era ca pi-
tão moor t1ti- Cutiale ·de Capaca-
1e; • yAé"por mar aa·for..:
tale;aa. seu·&&· .Vista: desta armada
foy pelejar c<5 que
tambem os mouros· ·Jogo· como hómêá ·de feyto:
& ·erlo as babardàdae • de .sua- parté, ·que nunca ne-
nhtl dos ·nauioa da armada dte de sousa pOde
aferrar nhõ dos cõtrairos por mais que :nisso trabalha ..
rio. E asai eateuerio duas ou tres horas ate q sobreueo
a uoyte que es apartou: & leronimo ·de sousa se deixou
estar no mar eom determina<(ão de ao outro dia aferrar
· eom os ·lmigos uu os ·fuglt, & assi ho disse aps ou·
tro1 E acordados nisto, ao outro dia eomo a-
manheeeo asai os. C() mo os mouros tornar lo
a eomeccar a· peleJa conto ao dia diltes. Porem os Portu-
gueaea ·aasi"etJIII'IO··tirauAo, assi remaulo pera se cbega-
aos. tom pendo pó! antre aqut!Jes pelouros.
E ·venclo moutos .sua determ1 naçio, .. nio· ousa rio· des-
perar com medo d«* ··Portugueses & foranse retirando
pera· Coulete: cõ ·as proae: Deles,, mas· os Portugueses os
· aperlarlo de·· maneyra .; que •irariio as popas ·& fugir lo
.
16, Bllt'el\1& DA III_.
quaJJto CQIID: a pteua de fugitellt alo poderia
ton1ar Coulete. & passario a C.aaaner: & os Pertug1ieP
ses que os eeguião 01 acabarilo &Ji de desbaratar com
muyto grande dãon de mortos & feridos & para6a ar-
rombados , & QS outros forlo .varar na praya de q11e ·a
gente fugio pera a cidade, cujQB molll'o& ficarlo mmyto
tristes, p9r terem persuadido a el f8J' de· Caoanor que
a fortaleza: que !Veado e1ta titoria desistia
dessa deteraninattão. E leroo.imo de sousa desbar•tadós
os imigos, ãdoCJ goardldo a eo1ta: vis i tido ás vezes a
fortaleza de C:alicut, ·& prouendoa·. de mtltiml.tol•
C A P I T V L O LXXII.II •
..
De Wuas witQrial que:. dom Iorge l,t/,o. ouue doi
mouroa de, Calicul. ·
Co"'o os mOurQS do· reyao .. ele Caliout andaneJD tilct
dissoi\Itos e.w"Qo disae atraa. JlQlo que auiãG
aos Portug·u.eses, nã lhes abastaua Meca qul\-
ta pimeata leua.uio, mae ainda que Já não podi!o
& cada dia paaaaulo cõ.moy-
to grande soJ>erba a vi1ta da ilha: de Goa, õcle nib auia
quê lhes contrariasse, porque· bU Luya.maobado filho
do d9\ltor Lopo que. tinha a.g-oarda· dattuela co••
ta, ho viso rey a Cocbi., .& por isto nlo auia
(quem do éi dõ A orrique de rpe..
•neses estaua cquyto agastado&. o auia por grande. it·
ria. E .estando assi foy h i ter hU. mereador ê hila· fua ;
qu.e lhe dõ Anrrique comprou., &·armada dartelbaria·,
mldot.t nela por'capitlo·a
· te.Jo seu so.brinhQ Jilho .. de dô loão telo, que.foasa eapa.
·OS .paraós de M·âlabares q.ue ·yio eo.tn pimêta. pera
Cambaya. E dõ Jorge e·r" dos. eslorft8dos & v
Jetes. aodauão ·ua· India,
as•i eõ tão .. cousa comp l}ilda-t
ua,, ap,J que .. al&liaua.e.le
LIVJl8 V.J. · OAPITVLO LXUIII. ) 5t
por aquela paragem : & cou•o ya quantidade deles com
que se atreu.ia persegu·iaos ás· tiombardádas, & a hüs ar-
rombaua ao lume dagoa, a outros desaparelbaua de anas-
tos jc,·dêxarcias matando em todos &ferindu rnuyta gen-
te::& eoJl)O «iraoão a··ele fa-ciJmete se. lhe escoaua dan-
tre as mãos pola ligeireza da fusta. Ê sabêdo os
ros- de Calioút· c9mo dom· Iorge ali andaua, determina-
rio· • pera· o que arn1arão tr·inta & oyto pa·
raót ·que carregarão de .pimenta & ·de gête, & por ca•
111ouro .olJamaàol China' cut:iale pera tomat
dom lorge, que a leste trazia ja· duas fustas &i
tre1 bargantins, a cujos capitães não soube os nomes,
& traria nesta• cinco v.elás ate bomês os maia
deJes espingardeyros. E andando aos ilheos queyrnadoa
fo) China ter coele com toda sua armada: &
porque nlo pude saber a :nlaneyra que dom Jorge teue
em dar a batalha aos mouro& ho nà digo se não em
ma , flUe oom eafortp ·sobre natural os cometeo , & eO a
ajuda :de oosao. senhor 01 desb·aratoú màtando os Porto•
gueees rnuytoa mouros· em "&&te pa·raós q 'tomariló car·re-
@adoa de pimêC;a & darlelbaria , & dous que tizerão dar
á coala & os outros· fugirão, & dos (>ortugueses nllo;
morreo nenbü &·.forio· algus· feridos. E recolhendo dom
Jorge os sete paraós que se foy coeles a Goa : &
deiDade· ali a- presa Be tornóu ·ao mar, onde dali a ai·
§Ü& diaa topou aom hüa nao de m·ouros de Calicut, em
euja goarda ylo noue paraós .muyto armados darte-
)baria & fornidos de gente, & do1n IC!rge pelejou coeles
& matou com ·os seus tantos doi mouros qtie vararão cõ
os paraós em terra, de que dom Jorge tomou tres. E
tambem tomou a Dao zt· aio se pode saio ar, & t1oela &
eolll os paraós se foy a Goa, ondP foy D1U}'to festejado
JlOl duae vitorias tamaobas: de que os mouros· do Ma-
Jabar oouerão tamanho medo q nílo óusar4o de tornar
tão asinha ao·mar: & 81&i· eorueçatão de temer 01 Pbr-
tagueaee. ' ·
,
. .
160 . DA BlftOBIA DA IR-j,
.
C A P I T V L O LXXV.
De como crumdo 1.1 domp do vilo rey mamundou a go-
uerntJnftJ tJ Lopo ma de 1am P11yo capitão de Cockim.
Ápercebêdoae ho vieo rey pera ir a Calicut, creceo-·
lhe tanto sua doença que lhe tolheo entêder nos nego-
cios da gouernança: & por isao a encomêdou a Lopo
\faz de sam Payo capitlo de Cochim' rorque tiDha De-
le confiança que ho faria bem. E tambem porfl eom a
autoridAde de sua peasoa & de eeu cargo, apaeifica888
as dicêsões que se começauilo antre dom Luy-s & .da Ea·
teuilo da ganJa filho do viao rey que era eapitlo m6r do
mar sobre a goueroaoça da lodia , porque· dizia .dom
Luya que viodo eeu irrnão dom Duarte ele auia ele go-
aeroar a lndia & nlo outrem poia era goueroador: &.
que nl se auia di r pera Portugal em quan«o .ho .viso rey
esteues1e doente, porque se morr.eaae. fieana gouerna-
dor como dites. E como a geale da ladia afeiçoa-
da a dom Luys tomaua por ele bando contra a que
aquele anno de Portugal que era oom de Esteullo , que
.dizia que alo auia de gouernar se ·Dão quem ho V·iso rey
quisesse, & que dom Duarte se aui-a dir pera Portugal
como chegas•e Dormuz : & sobristo auia ajuntaanêtos &
perfias, a que Lopo vaz de sam payo acodia .corrAdo a
. c.idade de dia, & de noyte: & impedia alo auer brigas.
C A P I T V L O LXXVI.
n, COJHO dom DrMJrte tU mmesu' tJ Coekim.
Entre tanto que isto na Índia, ho
dom Duarte de meoesea que. estaua ê Ormuz se partto
a lndia
1
.& sem lhe acooteeer cousa que seja de
· contar foy ter a Cbaul, onde Cristouio de souaa polo
l"eJimêto que tinha do Viso rey não consentio queaayase
LIYR() VII.""'CA.PITVLO ltil
em terra : &· aasi lho mandou dizer: & em Goa lhe
teeeo ho m·esmo com da Anri.qoe, pelo que se foy a Co-
chim. E sabendo ho viso rey como estaua na barra lhe
mandou Jogo mostrar a prouiaam de Vieo rey da
per Lopo ·vaz de sampayo; & lhe mldou por eJe hüa
· ·carta n1essiua q lhe leuaua dei rey de Portugal : & assi
Jhe · que A em seu nome lhe entrega da
· :lodia, porque por sua doéoça lha não ya tomar; nen1
ele dõ Duarte podia ir a ·terra darlba, por eJ ·rey de Por·
tugal .. Jhe defender que não desembarcasse por ho auer
assi. por seu ileruiço, & que do mar dondestaua se
deria prouer .do necessa:ria: & m4dou com Lopo vaz de
são:.paio ,. Afonso mexia, védor da fazenda, & ho
ciado lobão de soiro oouidor geral d·a lndia. E chega-
dos a dom Duarte, Lopo vaz de sam payo lhe .d.e,u a
carta· lllésaiua ·del Rey de Portugal que dizia ..
# li • i ..
per graça de . Oeos Rey de Portugal , &
do& daquem., & dalem mar, em A.frica, se-
bhor de 'guiné, ··& da Conquista, Nauegàção,
ciô, de Etbio)lia, Arahia, Persia, & da .. Faze.:.
mos saber a ·vos dom Du·arte d·e meaesea capitão, & go-
ueroador da nossa -cidade de 'fangere, & nosso
·mór, & goueroador nas· partes da lndia: que nos vos
screuemos por outra carta, que auen1os por beque vos
venhais ê bóra per a estes ·rey nos nesta armada. Porem
voà lnldamos que tanto que vos esta for aprese11tada,
entregueis a dita capitania m6r, & gouernança, a dom
Vasco da gama conde da Vidiguei-ra, & Almirante do
mar Indico, q enuiamos por nosso Viso rey a essas par-
tes da lndia: & não vsareis n1ais da dita capitania m6r
& gouern&DC(8, nem das COUSaS da jusli<ia, & de 0088&
fazenda, ne·m doutra aJgia de qualquer qualidade &
condiqão que seja que ao dito carrego toque &
ça, & que dãtes vaaueis por virtude do poder, ju.rdi"ão,
& aÜ(adà que , auemotf por & nossó
LIVRO VI. X
161 .D& Bllt'OB1& 'DA ·IN81A
seruÍCif>, eomo ·por outra carta vos escreuemoa, -qae he
dito viso rey seja logo metido de poase de tudo, & Yse
Jogo do podtt·r, ·alçada que leu& per .nossa
palite, aem auis voa.ealenderdes em cousa algiia.
Po·rem que ho tempo ti} ·esteu"rdes na I ndia
ate vos êbareardea po18Bis -en.1 Cochi ou ê Cananor
qual vos mais aprouuer, & qtte acerca de vossos cria-
do• & pessoas de YO&sa cu-a , & dos criados do conde ·
\'OSSO pay qtJe CODUOICO Íot'ào, ·& ·dos criados de dOID
Luys vosso irmão, & de vosses cunhados & pessoas
suas : que ho di to conde não entenda coeles em Dlaney-
ra algila, nem tenha sobreles neo1 sobre cada bii deles
mã:do nem & aleflda que tínheis pela carta de
-vosso poder & alçada: resaluando porem que se vos ou
os tais por algiias pessoas assi nossos nat.uraE-s coano·doa
mercadores da terra, & quaesquer outros de qualquer
estado & condição que sejão, que Já ouuerem de ficar
& nã ouuerean de vir nesta armada en1 que vos aueis
de •ir fordes requeridos,· citados·& demandados, asai
en1 casos ciueis. como crimes .vos possam a vos &. a e)ea
de.mandar perante ho dito cõc.le & ouuidor que coeJe ha
de ficar, & não perante vos. pera se fazer coMprimento
-de E seado·onso q ·quando ho di-to conde che-
gar ·á lndia vos não ache neJa por aerdes fora dela a ·pro-
uer algüas cousas de nosso seruic;o: Df'sle caso aue·moa
por bem que ele coode yse ·Jogo de to-
do poder, jurditêàO· &. aJ'(ada que de nos leua como faria
&e vos achasse,.& vos apresentasse esta cllrta pera Jben-
tregardes a capitania moor··& porq asai bo
auemos por nosso. seruiço ,;& sendo easo que por impe-
dirnento de doença •os dom Duarte vos nilo possais
embarcar & \'ir nesta armada & ficasseis na lodia: nes-
te caso a-uetuos por bê que vos fiqueis, & vos recolhais
com todos vossos criados-& pessoas. de vossa casa&-
eriados dos sobreditos vosso irmão & aunha,los que fica-
re·m conuosco em a nossa fortaleza da cidade de Cana-
Dor: & esteis nela ate a .vossa partida da· lndia &
\
LlY•o VI• CA.Pft'YLD 163
'Vseia de tado ho poder, jurdiçlo & alçada fJ. leades- de
ca(Jitão moor &. gouernador da [Ddia aobreles, &. soMe
·h o capitilo, alcayde moor, feytor & escriolea da. feyto,.
ria da dita fortaleza. E de tod01 seus casos c;.ueie & cri-
tnes conhecereis & os julgarei& como vos parecer juati-
"a, sem sobre os dito& nem sobre cousa sua. que Jhe to-
que seja dantre partes bo dilo conde poder vsar do
dito officio de vi1o rey, nem poder·, jurdiçil & alça·da
que lhe lemos dada, porl} queremos· que todo fique·&
vos dõ Duarte ate a v·ossa parflida da I ndia, & Dlanda-
·mos ao capitilo, & ao alcayde moor, feytor & escriuilea
-da feytoria & a todas as pesso-as que temos· ordenadaa
na dita fortaleza de Cananor que vos obedeçOO, &
prflo voisos req·uerimentos & mandados como a nosso ea•
pitilo n1oor & gouernador sobre as pena-s qu-e lhe pos6lt-
dea, assi nos corpos como nas as quaes a ue-
mos por bem que deis a execuçAo naqueles que nelas
emcorrerem segundo forrna do poder, & akiada
•o• ten1os d'ad.a, & h·e na carta do poder
:Ja. E. assi auemos por bê q se: entenda &. ho ·façais· no
-caso ll vos fosseis fora da lndia por nosso· ser\liGO, &
viesseis a é)a despois da partida das naos pera estes rey-
nos·, desta artnada q leua ho dito viso rey pera trazer8
as especiarias, na qual vos aueis de vir. llesaluando
que ho dito poder & alçada que vos damos sobre
1od·os ôs acima decl-arados se entenderá em c·ousa
que toq a nossa fazenda & tratos da ln dia: porque no
que a e&taa causas tocar·nAo aueis de nem·vsar
da dita alçada, & poder que vos ·d"PixamoB nos casos
breditos, por<'i isto ha de ficar ao dito ;yjso rey- pera -ne-
les fazer con1o Yir que he·justiça & nos8o ser·uiço, &
'sar- de todo seu poder & a.l<t8da. E dA entrega:.q:uP Ré
dito visorey fizerdes da difa capitania mór &;
ça, como ·por esta vos mandamos cobrareis
pubrico, em que se declare as naos &
entregastes, & a arfelharia & a·rmas que andã neles., &
ass·i as fortalezas & arm.as &. artelharia &,. maatimGntoa
X I

l6.j, DA. HISTOJU& DA INDIA
que nelas auia, & gente que andaua neaaaa partes, &
declarando a sorte & qualidade dela , & todu aa outras
cousas que ao carrego de· capitlo mór & goueroador to-
care pera todo podermos ver. E come uai Jbe entregar-
·des a dita capitania mór & gouernaocca, & cobrardes ho
dito estormento da dita entrega no modo que dito he,
vos auemos por desobrigado de toda a obrigaC41o em que
aOs sejays poJa dita capitania mór & goueroaoça: & vos
damos por quite & Jiure dágora pera em todolos tem-
pOs. E esta carta per nos assinada & asselada do selo
redOndo de nossas arn1as cõ ho dito estorme11to tereis
pera vossa goarda. Dada em a nossa cidade de Euora
a xxv. dias de Feuereiro. Bertolameu fernandez a fez,
anno do oacimento de nosso senhor lesu Christo de miJ
& quinbl!toe & xxiiij.
,
C A P I 'f V L O LXXVII.
De como d6 DutJrt1 de mmesu a India a Lfypo
tNJS de payo em do viso rey : !J- de como ht
viso · rey faleceo.
Vista por dom Duarte esta carta, & assi a outra •
lhe el rey esereuia, Lopo vaz de sa1n payo lhe deu ho
recado do Viso rey que desembarcasse, do que se
dom Duarte agaatou muyto: & disse a Lopo vaz que
nio deoera de ser ho messageiro daquele reçado, poys
ho coode prior seu pay fora o que ho armara caualeiro:
peJo que nilo podia ser contreJe, nem contra eousassuas-.
E Iopo Yaz se dese·uJpou cõ aquilo não ser cõtrele pois
era seruifto deJ rey de Portugal, cujo· va1salo ele era. E
•obre -a entrega da lndia teue dõ Duarte muitas duuj..
das, pareceadolbe lj por ho viso rey estar tio doête po-
deria morrer, & ele ficaria ainda go\leruador da lnqia:
E ho ouuidor gera) a estas duuidaM per vira d.e
seu ofücio dô Duarte lhe ehamou bacharel. E ho ouu•-
dor reepondeo que BachareJ & doutor&. caualeyro o auia
LI'YAO VI. CAPITVLO· LXXYJI. 166.
eJe dachar pera o que comprisae ao seruiço dei rey. Ao
que Lopo de sam Payo acodio com b.o .védor da fa-
zenda, eatranbàdo a dõ Duarte o que fazia. E despois
de todas as duuidas que poa , entregou a lndia a Lopo
'az de sam Payo & ao védor da fazenda, eoi nome do
viso· rey, & ho védor da fazenda lhe deu hil pubrico es-
tormento de. conhecimento assinado poJo viso rey & por
.testemunhas que dizia.
Sayblo este. de l'Í·
: que no. anno do nacimêto de noiso senbor lesa
Cbristo de mil & quinhentos & vinte quatro Ano&, aos
quatro· dias do. mes de Dezembro do dilo anno, em a
cidade. de santa Cruz de Cochim ê a fortaleza del Rey
nosso senhor: estando hi don1 Vasco da gama conde da
Vidigueira , almirante . do mar indico, &. viso rey das
lndias :. disse que eJe recebia de do1n Duarte de meoe-
aea gouernador q.ue foy · nelas antes dele viso rey a go-
ueroiça -das.ditas lndias do tempo que a elas chegou &
as começou de gouernar , següdo por suas prouisões &
patentes lhe mandado por el Rey noss? senhor qu•
as., recebesse & goueroasse. As quaes lnd1as ele
beo, & disse ter recebidas, assi & da maneyra que as
aqbQtl. elas agora estão : & se ouue por ol:lri·gado de
dar conta delas a sua alteza,· & ouue por
ao dito don1 Duarte da obriga"ão que tinha de dar con·
ta delas. E em testemqnho de verdade Jbe mandou deJo
feyto este estormento do recebimento delas. Teste-
munhas· ·'1 estauão presentes Lo-po vaz de sam Payo ea-
pitão .desta fortaleza, Fernão martinz sousa, 9om
Pedro de Castelo branco, Afonso mE':xia védor da fazen-
dAt da; , Pero mazcarenhas : & ho ljceociado Ioão
soiro _ouuidor gera). da lndi.a. E e11 ·loio .nunez escri-
uilo dita cidade por especial mandado do dt-
to senhor .viso rey que esto escreui ,. & aqui meu sinal
fiz.
161 1M WlftGltJJ& INMM
· Entíegue: d4 Duart& deste conheei•nlm, tornoase
Lopo vaz d'e d Payo· c,m ow ou troa pera Cochim, owde
:ae tambem tornotr dom Luyw de meneses irmlo de dom
Duarle., & disserlo que pera estar lá com cor de se fa·
zer preste• pera a de Portugal, mas que'a Yerda-
·de era pera que se. :ho viso rey morresse aposmrse da
.gouernança da Iadia pera dõ Du·a.rte pois rtlo polia
1á estar. E sendo Lopo vaz de sa•n Payo cenificado dia.a
-..to, polo de Deos & dei Rey que disso se po-
dia seguir se foy a casa de dom Luys cõ ho védor da
:fazenda & ho oUtridor , & lhe pedio •n·yto cort-ea-
;ruête que se embarcasse .Jogo, porque assi compria a
-seruiço dei R.ey. E· porque do·m Luys não. queria, lhe
:mldou ·da parte dei· Rey de Portugal que. se emparcn-
·&.o, se nio que &o fa·ria -.embarcar: eatlo se embarcou,
& coisso cessarão moytos aruoroços que se ordenauio.
E porq·úe bo viso rey aaltia isto: & v-êdo que crecia sea
mal, & que de eu-a aavde k- Yida, nloquia
q per s-ua morte ouuesse aJ.gua reaolta ale o abrir dai
:&ttcessões : & por isso pedi o a tecros o• fi dalcgos &t
t3.es que obedeces•em por gouernador •a Lopo Yaz dé
•anl payo ate li foetem abertas: & eles thp prometerlo.
E despo-is disto faleceo ho Viso rey em vespera de na·
tal do anno de mil &. qui·nhentos & viate quatro.: fazê'·
do todos os autos de verdadeiro .& fiel' Cbrist!o, & fo1
enterrado ua See de Cocbim. ·
C ·A P I 'f Y L O
De comtJ fOtJ li subcessam: f· 1e tJ·
chou dOm ÂnrUJr:te par· gouerntJáor. ·
E Jogo ao dia seguinte despois de missa ajuntarlse na
-see de Cocbim com Lop() vaz de sam payo, ho védor
da faz.,nda , ho ouuidor geral : & asai todas os fidalgos,
capitães, &t outra gente boorrada pera se abrtr a pri-
meira subcessam: & logo a mostrou ho véder da fa-zen·
LIVRO V·I. CAPITVIJ6 'UX.IIr. ·) 6'
da: Ci&rrada cõ cinco sinetes:· & deaia. ·Esta prO\lisam
mlldamos ·que •e abra ho eõde almirante dõ
Vasco da gama viso .rey dalnd-ia, que nosso senhor nlo
mande. E is lo er.a assinado por el rey. E aberta esta
prouisam leese em voz ai ta JlOio secretario : ar, dez..i a •
. Nos eJ Rey fa.ze1nos saber a todos os nossos
das· oaos & fortalezas da Judia, capitles das naos & n.&t-
uioa ll vfto pera vir com a carrega pera est.es reynos, fi-
dalgos, cauaJeiros, gele darmas, que trazemos nas di-
tas partes da India: & a todas & a quaesquer outra•
pessoas & ofticiaes a l} este nosso aluara for mostrado:
que nos pola muyta q temos de dõ A orique de
meoeses fidalgo de nossa casa, que Das cousas que ho
encârregarmos nos sabera muy bem ·seruir, & nos dara
de ai toda boa eõta & recado. Q·uerem.os &, nos praz.
que falecendo dom V asco da gama ·conde da vidigueira
lt almirãte do mar .Jndico .aosso viso rey da lndia, que
aosso senhor não m4de: bo dito dõ A n1·ique au.eeda &
entre na eapitaoia mór & goueralça da Jndia pera noa
aela ee.ruir c6 aquele poder, jurdição ·& al((ada q tinha-
mos dadD ao dito viso i>orê volo notificamos assi ,.
& l'os mãdamos a todos e.m ge,al , &. a ·cad.a bü em es-
picial, 'que vindo ho dito easo ho r.ecebais p{)r-vosso ca.-
pitão mér goueroador nessas partes,.&. lhe :obede,-
çaeia, ·& ·cumpraeis &eus reqrimentos lt ann11dados, assi
como bo fazieia ao dito Viso rey, & eomo soi·s obr.igados
de o fazer .ao nosso ·capitão o·Jór ·& gouernador, & em
todo ho deixeis vsar do .poder, jurdiçlo, & que
ao dito Viso rey tinhamos dada por oossa carta: .sem.
duuidá nem eo•bargo a elo poerdes, porque asai he nos-
sa merce: & de ho fazerdes asai bem eoano de vos es-
peramos, fareis ·ho sois obrigados, & volo·
teremos mu1to em seruiço. Feyto em Euora a dez de
Feuereyro, ho secretario ho fe.z, de mil & quinh.êtos.·&
•inte quatro. aluara era assinado por eJ Rey .dom
loio de Portugal. E com quanto d6 Aarrique foy auido·
por #gouernador de ali. ea&a·uào, plla p_romessa
) 68 . ·DA RIST011.1A: DA- INDIA
q fizerlo ao viao rey , não dei.xarllo dobedeeer ·por go·
uernador a Lopo •az de sam Payo ate que dom Aorique
viesse de Goa, que logo mandarlo chamar, & maodou-
Jhe Lopo vaz de sam Payo bOa gale sotil com duas Cus·
tas & dous bargantia em que viesse. E as1i foy dom
Jorge de menesea capitio do galeio sam leronimo. E
·Lopo vaz de sam Payo ficou fazendo prestes as naos 4
auião di r pera Portugal que erão cinco, 8t teue bê que
fazer em aoster Cochim em paz, porque auia nela pas-
aanle de quatro mil homêe Portugueses em l} auia par-
cialidades pola imizade que auia antre dom Duarte &
seu irmão com os filhos do viso rey que hi estaulo. E
por esta i111izade auia tarDbem outras anlre algtls fidal·
gos & caualeyros q erão de cada h ii deste• bãdos: &
-porque de noyte oio fizessem algü mao reeado de pele-
jas, Lopo vaz de sã Payo DI' dormia aeobila: CMrldo
a cidade com ho ouuidor geral , & acõpanhado de ·muy-
tos homês armados. E de dia lambem atalhaua a brigas
com pala.uras corteses, de maaeyra que nunca:em 'ta•
manho -ajuntamento as ouue: &. em quanto .for.lo
-mar. do1n Anrrique de meaeses, mandou por capitão
mór de hüa armada ás ilhas de Maldiua a· hil fidalgo
chatnado Simão sodré, asai a fazer presas , como pera
dar goarda ao Cayro que dela vinha: & aaai
Ormuz quatro naos carregadas de fazenda del Rey ·de
J>ortugal per a a feytoria, & fez capitão mór Antonio .de
miranda dazeuedo de hüa armada que maadou ao eabo
de Goardafum pera fazer presas, que assi bo tioha ho vi-
ao rey ordenado, & leuou tres galeões hüa carauela =
& dos galeêJea forão capitães ele, Ruy pereyra, Fernão go-
mez de lemos. E mandou em hü nauio doytenta toneis a
Fernlo martinz de sousa q fos1e bll8car breu a Melinde. E
despachado ludo isto ate vinte de laoeyro, partiose tam·
bem dom Duarte per a Portugal com cinco naos: & a nao
em ya dom Luys de 1neneses deaapareceo no cami ..
nho, que nunca se soube dela, &dom Duartechegod
a flortugal .com as quatro & fnyae P!Jrder em Cezimbra oo•
onde a sua deu á costa.
. .
_ LIYilO 171. CA·P.JTVLO LXXIX. 169
' ..
' .
C A P I 'f V L O LXX IX.
De cnmo dó A.nrrilj sabendo que era gouernador., se par-
tio pera Cochim: que fez primeyro.
Üs capitães leuau!o ho recado a da A nrrique de co-
mo ·era gouernador chegados a Goa lho derã:o, com qu'il
ele deu muyt.as gra<(aS a ·nosso senhor pedindolhe q fos-
se pera seu seruiço: porem aqueixouse de Lopo vaz de
san1 Payo, & do védor da fazenda quãdo soube das ve-
Jas que tinhão despachadas pera fora aui!do na India .tã-
ta necessidade delas, & da gête que leuauito por ·atnor
da guerra de Calicot & doutros reynos. & tãh., se quei-·
:xou de- Jbe. nilo mãdare toda a armada que estaua em
Cochim pera. se defender de quãtos paraós de mo·uros
andauão pela costa: quãto mais q de caminho qQiser•
darlhe busca, & q_ lhe bo mal (]_ tinhlo feyto
aos Portugueses: & apos estes capitães l} yão por dom
A nrril} chegou a Goa h ii ebaixador de Meliija-z pera bo
viso rey. E este era hu ·mouro q auia nome Cid i ale, &
cõ a gente q ho acompanhaua ya em seys ntalayas das
de Meliqnz: & este etnbaixador n1ãdaua · Meliqaz pe.ra
descobrir. se ·era ho viso rey assi corno soaua a fama,
porque assi como visse assi faria: mandandose todauia
por. seruidor dei lley de Portugal , & desejoso
·de sua amizade, & em sinal disso lhe 1nlldaua hü
de peç..'ls. darn1as , cuberlas de caualos & outras
oousaa ricas .. E sabendo Citliale q ho viso rey era faleci•
do & .dõ Anrrique lhe sucedia, deu-lhe a embaixada. que
leuaua, & quiseralhe <lar bo present-e, l} do.m A nrriqua
não quis tomar, escusandose q nilo ya pareie. E quãto
á en1baixada disse <1 despois· responderia! & isto porfl
ben1 entendeo a tenção de MeJiqueaz q era descobrir
terra, & tan1Qã porlj não queria ter paz coele por ele
n1esmo a <}brar em têpo de Diogo Iopez de siqlleyra_ &
desejaua de ho castigar por isso: & 1nais porque soube
LIVB.O VI. Y
170 :DA BISTOal• DA fN .. A ·
de dous Portuguese1 él ylo com Cidiale ll ' aaa partida
de Diu ficaulo bi duas naoa carregadas de madeira que
Meliqueaz mldaua a ludá pera das galés
dos run1es Q bi estaullo. E nl querêdo dõ A órrique de-
clararse cõ Meliqueaz, se nlo vsar de maoha·s como ele
vsaua: determinou de nA ao seu êbaixador &.
detelo tãto ale l} se enfadasse & se fosse eem reposta,
& leualo a Cocbim. E isto aasentou com conselho de
Frãcisco de sá, Eytor da silueira, Antonio da ailueira
& outros fidalgos. E pOrque as naos da madeira l} eata-
uilo em Di o pera Iodá Já nlo fossern, midou logo a dous
eapi tlles de dous nauios l} eatauão no porto de Goa q se
fossem a Cbaul & dissessem a Manuel de macedo l} hi
estaua q se fosse coeles em bo galeão em l} aodaua , &
tambem a hu capi,Ao de hüa carauela, & q todos qua·
tro fossem esperar as duas naos de· madeira que yào de
Diu pera ludá & as tomassem, porque não se desse aos
rumes tamanha ajuda como aquela era. E logo estes ca ..
pitles partirão, & dom Anrriqae dett Jogo a capitania
de Goa a Francisco de sá por ser hii fidalgo ãtigo na
lndia, & de ·muyto seruiço & homê de grlde cootiãça.
E tedo prestes sua partida pera Cocbim, se partio I
duaa ·galés & btla galeota, & se não fora Jeronimo de
sousa que se foy a pera o acõpanhar cõ algàs pa-
raós q trazia darmad11 aa costa do MaJabar ele fora bê
porê nessas YeJas q leuaua ra bê
de fidalgos & de caualey ros, & aas1 ya coele C1U1ale ·
nas &t'ys ataJayas, mas este o aeõpaobou porq
logo Ates de chegarê a Baticalá se pera Diu sê. Jicê-
de dõ A n.rriq , & foy di2er a MeJiqac tais QOUSas 4
ele Dão quis mais falar· em paz.
\
LI:VIlO 1'le CA·J!trvLO LXXX. 171
C A P I T V L O LXXX.
De romo t/6 .Â.nrriij de mme1t1 com h·úa armada
de Calicut 4- tomou detoyto paraós, tnádou
. enforcar Mamtle em CànafWr.
F azêdo dõ Anrrill aua viap hOa. manhall} se Cideale
achou menos forã ouuido1 na frota muytos tiros de bõ-
bardadaa , & estes tirauão trita paraós de mouros Mala-
bares l} tinhlo cercado dõ lorge de meneses em hü
em q eetaua na barra de Bati calá, & trabalhauJo.
polo meter po fundo & ele se defêdia muyto be: & co-
mo dõ A nrrill ya perto chegou Jogo : 08 mouros q ou ue-
rio ·vista dele como tio hão. perdido ho medo aos Portu-
gueses deixarlo ho galeio & fizerAihe rosto desparildo
sua artelharia & o8 Portugueses fizerlo ho mesmo. E
nlo pude saber como foy esta pe-
Jeja' niQ direy mais se não q os mouros forão desbara-
tados & perderão dezoyto Jl&raos ll os Portugueses to-
marão cõ muyta artelharia & .catiuos, a fora out.ros li..
metidos no füdo, & Corão mortos muytos mouros.
& dos nossos algüs feridos. E prosseguindo daqui dom
Anrrill pera Cananor achou Antonio de mirãda l} ya.
pera bo cabo de Goardafuan, & por lhe parecer assi ser-
uiço dei Rey de Portugal lhe tirou os capitães q leuaua.
& mãdou l} ficas.sem na India saluo ho da carau.ela, com,
q q prosseguisse pera ho cabo de Goardafum &.
lá se recolhesse á sua bandeira os quatro nauios q tinha
mãdados a esperar as duas· naos de madeira _l} auiilo dir
de Diu pera I uda, & cõ as outras velas se foy a Cana-
Dor: onde desen1barcado soube do capitão da fortaleza
como tinha preso Mamale ho mouro l} disse no liuro
quinto q el rey de Cananor por dissimular entregara
preso na fortaleza : & q sabia certo q el rey ho auia
go dir ver pera lho pedir por muyto dinheiro q lhe os
outros mouros de ·CaoaQor dauio por i•so. E saben.do
. Y2

• I
172 . ··DA BIST01l1A ·nA· ·.JNDIA ••
dom Anrrique a tençlo corn q ho el rey prendera &en·
tregara preso na fortaleza, não quis l} viesse a efeyto
cousa tão fea: & que soubesse1n os mouros q ja aquele
'ti!po passara, & quê fizesse ·O que nlo deu ia ·l} ·auia de
&far muyto be castigado. E pera saber se Mamale mere-
cia de bo ser, pos as culpas q tinha em conselho logo
naquele dia q_ chegou, & achando q erio muyto gran-
des na propria hora ho mandou enforcar na mesma for·
taleza , porque lho el rey de Cananor nio pedisse & se
pusese em duuida se erraua não lho dldo ou dãdolho. E
ror não ser atentado ·com peitas como sabia que auia
'de ser, & fez conta que despois apazigoaria el rey com
buas palau ras. .
C .A P I T V L O LXXXI.
De como a requerimtto del rey de Cananor mádou o go-·
uernador queymar hfJa ·pouOOfáO de tnoltros de Calicut
· ·por Eytor da silueira.
E quasi q nio era ho mouro acabado dêfOrcar quãdo
·chegou htl messegeiro _dei rey de Cananor per l} nJan-
daua visitar ho gouernador & fazerJhe saber que ao ou-
tro dia ho visitaria por sua pessoa. O que ele não fez
· sabenJo que Mau1ale. era enforcado: & ho gouernador
·por dissimular coele, lhe hil rf'cado em anodo
de querer saber como tardaua. Ao que respõdeo que ho
·não auia de ir ver flOÍs lhe matara aquele n1ouro, por-
que não parecesse aos outros que ho consentira. Ao que
ho gouernador respondeo, estranhandolbe muyto
lhe da rnorte de hü mouro tão culfJado en1 deserui((os·del
Rey de Portugal seu senhor, cujo amigo & seruidor· ele
dizia li. era: ãtes deuia de folgar :de ·o e) e· mandar ma-·
tar por lhe os outros mouros não rogarem que lho pedis-
se, & ·que outras cousas áueria· e que ho seruisse·se Jhe
pesar naquela : & assi lhe mãdeu fazer outros
muytos comprimentos' com que el rey. ficou·satisfeyto:.
LIVlto··tJ! <cAit'ITVLO ·LXtXI. i7S
pore teue dali por ho gouernador em muyto gran ..
de conta, porque tendo preso hun1 mouro tão principal
como Mamale, & que· lhe podera render muyto se ho
posera em preço, quis mais atentar ao ·que deuia ao
seruiço dei Rey de ·Portugal seu senhor que a seu pro-
prio proueito. E· betn que não era bo tempo
que soya, & assi ho conhecerão os mouros que ficarão
muy cortados & abatidos cotn a morte de Mamale: &
virão q lhes era necessário mudarem os costutnes que
tinbão dantes, porque ho gouernador nio auia de sofrer
.Denbõa cousa mal feyta, & que auia de castigar quem
ho merecesse , & mandarão Jogo esta noua aos mouros
de Calicut, que cõ os de Cocbi ficarão assombrados com
a morte de Mamale , & teue('ão por muy grande feyto
ser sua morte daquela maneyra, & não querer ho go-
uer·nador quito podera auer por ele. -E entendendo por
elta mostra que não era co·bi<(oso, lügo ho por
bõ ·ho1nem, & · que auia de fazer muyta· guerra: & ho
mttsmo teue el rey de Calicut a quem foy esta noua. E
eJrey de ·cananor quando vio que não podia restaurar a
morte de Mamale, quis aproueitarse dos offrecio)etoa
que Jhe ho gouernador fizera, & ntandouJhe rogar que
lhe mandasse queymar hü'a po,uoaçãu de .mouros chama-
da Marauia, que estaua aJen1 de hii rio que apartaua
ho seu reyno do de Calicu t. E isto JJorque estes DI OU-
ros nlo queriilo morar no reyno de Cananor morAdo nele
dantes. E ho gouernador por con1 prazer a el rey & fa,
zer n1al aos rnouros que erão aanigos rlel rey de
mãdou a Eytor da silueira a esta emrJresa com triuta·ho-
nlens que foy em dous bargantins com que
queymasse a pouoaGão se1u tinyr ean terra. E Eytor da
silueira foy Já , & Janqou em tPrra certos .marinheiros
pera qut-yn1arem ho Jogar, a que tendo posto ho fogo
aayrào tantos mouros Cl os embaractarAo, & puubão os _
en1 apPrto: em tanto fuy necessario a Eytor da sil-
ueira desembarcar com quantos leuaua ,·posto que con-
tra ho regimêto do gouernador. E os mouros como er!o
J71t Bllt'Oili.A D• .IWDJA
muytos quiseranse defender & pelejarlo 00111 01 Porta.
h ii. , & p>r (ugirio ficldo
giis mortos, 4t a polloaç!o foy toda qaJeJmada, & assi
'Vinte dou• paraós & zambucQs li 01 tnooros vara ..
dos. E isto feyto recolbeose da silueira, & tor ..
- Canauor, cujo ficou muyto ledo por lhe ho
gouernador mandar fazer o que pedi.ra.
C A P I T V L O LXXXII.
De como rey de Calicuc mal llu sucedia a
guerra pas a dom loáo tk lima.
Durando a guerra que el rey de Calieut fazia a dõ
loil"o de lima capitlp da· fortaleza tinha ele & os q est,-
uão coei e muyto grande trabalho , porque a fora os imr-
gos serem muytos em demasia corrião cada dia duas ve-
zes ã fortaleza pera queymare&D a feytoria & alo1azem
que estaulo fora dela & assi a.,casa da poluora' & de
cada vez que vinhão saya dom_loão a: pelejar qoeles, &
sempre 08 nossos matauão no q leuauão muyto
grande trabalho, porque estauão armados, que
nê de noyte deixauão ós immigos & lhe· dauão reba-
tes porque nã dormissem. E .q.uaado dom lolo saya a
sempre ya na diãteira & ao recolher na traseira,
porque estes dous Jugares nio os fiaua doutrem se não
de si , posto que tinha consigo muytos de
que por seu os podia fiar aasi con1o dom Vasco
de lima, Antonio de sá & Ruy de melo seu irmão & to--
d_os de San tare: Jorge de lima, Lionel de melo, Fer--
não de Diogo de sá & dõ Miguel de lima que to-
dos er3o muy esfor<tados, & nesta guer-ra fizerão feytos
de muy assinada valetia & matarão muytos mouros. E
continuandose a guerra sem el rey de Calicut estar na
cidade , maodoú a ela ho senhor da serra & hü seu so-.
, brinbo, & ho capitão do campo dei rey de Calicut que
auia nome Teninchiriledo todos .. tres capitães,
Ll\fJIO .... CAPJ•rvr.G? I "/6
& lJ el rey tiaha grande confianqa, & Jéuarlo muy-
ta & muy luzida gente de peleja todos Nayrea de que
muytos erlo espingardeyros: & coestes creo et rey de
Calicut q·ue os no88ol auilo de 1er muyto &
eles assi lho prometer-o, & como for lo em CaJicu t
rio na noyte seguinte vista aa fortaleza dando
de sua espingardaria que fizerl tirar,. & dom loAo em
elea acabando mao.doo tanjer •• trombetas , & despoiat
deu mostra: da sua, & a pos isso mandou tirar a arte-
lharia, & ouue muyta1 gritas parte & da outra. R
logo estes tres capitães com a soberba que trat:ilo -pet
amor do numero da· gente que os deter-:-
minarão de queymar a feytoria, caaa da poluora & ai·
mazem. E coes ta determinaçlo remete rio hil- dia a a for4*
com toda sua gente que fazta moatra de quinze"
mil homla , & ·dom .loão lhe sayo .eom obra de ·CÍAooen- .
ta, ele cõ Yinte cinco por hiia parte & dom Vas(!o de
Jima por outra coo• outros tantos, & clerlo aa tliantei-
ta dos imigos, & comeC(ouse a peleja muy ass-
despiogardadas como de lãçadas & euliladae. E .andAdo
a cousa bem trauada & ferida, bu dos capitães dos iani-
gos que era ho soliribho do"senbor aa setra; remeteo a
Antonio de sá, & ele Jbe arremessou hüa lan"a eom que
llo paSBO·u & deu coele morto. E lorge de·Jima.es.tldo-
cercado de muytos immigoa, & may • tratacJo de hüa
pedrada q lbe de rio, acodiolhe dom Vasco de lima i:
liurou -ho com morte de muytos. E todo isto ·coy em hüa
ccojõqão: & com a morte deste capitão INlbrioho. do se..l
lor da serra q era esforfiado, .os imi-
gos de modo que fugirão. E dõ loão se recolbeo cõ
dey.xãdu muytos mortes dos imigos, & dos noa-
loa forlo algüs feridos, prineipalmente lorge de litna ll
bo foy muyto ·: porque lambi ele feTio & matou muy·
t.;. E vendo el rey de ·Calieut qulo n1al lbe esla guer•
ra sucedia, & lendo por certo .. dõ Anrrique era
uernador k oar pará que desbaratara indo de.Goa
CoihiiD, peiCMIÃe'àeLa ler- etimeiada: &. fieaejãdo a paa
r
17f w DA. BII'POR14 BA. iiNDIA ·
que tinha dántes maodou pedir. tregoaa a dom lollo atà
lJ. ele mãdaase recado ao gouernador ·como quPria paz;
estas tregoas mãdou pedir por Punacha seu cunhado,
& por Carná ho regedor de Calicut, & poJo seu Catual:
q falarão todos tres cotn dõ loilo, lj lhe reapõdeo que
era contêle das lregoas: & aceitaria a paz em nome do
goueroador ate a e)e cõfirmar , & q auia de ser cõ con-
dição q lhe foue entregue Patemarec'r hü mouro priA-
cipal de Cocbi : q despoia deata guerr,a se leuãtara ·cõ-
tra os nossos sendo vasaalo dei rey de Cocbim, & lhe
fazia guerra por .atoor dei rey de Calieut cõ certas fus-
tas ll trazia por mar : & assi lhe etregaria toda a arte-
lharia l} fora nossa , & assi a sua , & todos os paraos q
auia .no reyoo de Calicut , & assi pagaria todos· os dã-
D08 & perdas que el rey de Portugal & seus vassalos ti-
nhão recebidos por causa daqla guerr.a. E os trea disse-
rio il el rey faria tudo aquilo q o gouernador mildasse:
& em seu nome passarão hü assi.uado & ficou ·a tregoa
a te ir recado ao gouernador & ele mãdar o ll
queria, & assi ce11ou a guerra.
C A P I T O L O LXXXIII. .
De· co1no o gouwnatlor foy a Cal1cut, soube a·po•
. que .el rey l[tUria : do .que resptJndeo. · ·
Estando ho gouernaflor em Ca.nanor soube como no rio
de Mãgalor, auAte de Cananor indo pera. Goa estauào
eenlo &. tàlos paraos de Malahares de guerra.(} t.or.nauã
de Cãbaya_ oode forilo· -carregados de -pin1êla, & trazil
arroz &
7
outros mãtia1Atos, &t li esperaullo .q bo
r partisse pera i rê apos .ele. E. por !1o goueroador
não poder entlo ir pelejaf' eoeles, porlj se l.be .nlo.foa-
senJ mandou êi lhes fosse çarrar a boea do rio a FernAo
goa11ez i} for, em hü · galello & leuou debaixo de
sua capttanaa duas galeotas, & fvy capitio de ·hfta A n-
da & 12&la.rj:a oincoltaPDrtugueaes! Ja&o fey,
..
LIVrtO '\'l. ·LXXXIII. 177
to paltioie ho gooernador, deixando por capitlo da fcr-
taleza· Eytor. da.- silueira & lêu()u consigo dõ Similo de
meu.eses cuja a capitania era. E isto J'or lho o mesmp
dõ Simão parecedolhe que andando cõ ho go-
uernador seria capitão mór do mar, ou ao n1enos leoa-
ria ho seu Do <1 bo gouernador ho desenga-
. nou Jogo , d1zêdo que lho não auia de dar: & cõ tudo
não quis se não ir. E. partido o gouernador de Cananor
foy ter hüa noyte a Cal_icut, onde dom João de lima bo
foy ver ao· mar & lhe disse a a pazes q el rey queria fa-.
zer & com q condições. E l} se esteuesse ali ao out4'o
dia ho regedor lhe .leuaria ho mesmo recado dei rey. E
eomo ho gouernador sabia as mi! tiras dei rey & dos nlOu-
ros: .& q tudo o lJ. cometiAo era pera estoruarem ll
quele pedaço de verão lhes não fizesse guerrA, & que no
inuerno seguinte se fortalecerilo mais, disse a dom loão
q ·d-issesse ao regedor que e-le ya depressa pera tornar
lo·go pe·Ja costa a fazer guerra a fogo & a sangue, que
ae el rey de Calicut queria paz auia de ser com enmêda
do mal q tinha feyto & obra do ·l} prometia, que teues ..
se prestes todo o que ao ia de dar & tendo ho falariito na
paz , porq se não ouuesse de comprir como fizera muy-'
1at1 vezes l} elle não auia- de perJer ho tempo-d·e fazer a
guerra. E porq ho regedor ho nilo achasse aH ao oulro
dia & ho deteuesse com palauras, partiose 1ogo acaban-
do de falar com dom loão, que ao outro dia deu està
repos·ta ao regedor, que a rnandou a e1 rey que se agas-
tou coela poT ver quanto ho gou-ernador era de concru•
sam, & ele não esperaua de tomar nenhüa por amor
dos n1ou·ros que ho estoruauilo, nem queria mais que
antretelo que lhe não fizesse guerra aqle pedaço de ve..a
rio: ·porq·ue no inuerno seguinte esperaua de tomar a
fortaleza com quantos E'stau-ão dentro. E peri mais dis-'
aimular cõ ho gouernador-lhe escreueo comofoy em·Co·
chi, dizendo que tudo tinha prestes pera comprir coele;
pedindolhe q-ue se fosse logo a Calicut q hi acharia tu..1
do. o que lhe auia de dar enlregue. a dpm .. loio- de
LIVRO VI. Z
178 DA RII-TORIA D• llfDIA
1t aasi ho fizera el rey, maa os mouroa como digo ho a.
toruaulo por lhes pesar muyto da paz: porque sabião
que 1e a fizesse que nlo auiio maia de morarem CaJicut.
C A P I T V L O LXXXIIII.
De como ho gouernador deu em Panane, diJ tlalruy-
f4o 9U'fea.
Partido ho gouernador de Calicut foy ter a C-oehim ,
onde foy recebido com toda a aoJftnidade & cerimonias,
& da gouernãcta da lodia. E como Jeuaua muy-
to cuydado de tornar Jogo poJa coe la de Calicut a fazer·
lhe a mais braua guerra que podesae, não se quis deter
em Cochi mais de dezaaeya dia1. E deixando outras
muytas cousas que auia que fazer acodio a esta da guer-
ra q ele auia por mais principal & importante que to-
das pera restaurar ho erediLo q os Portugueses tinbào
perdido na lndia. E fazendose prealta& Jhe foy dada a
carta dei rey de Calicu t. sobre as pazes , otferecêdose
111uy largan1ele a comprir logo as cõdições com lf as pe·
dia. Etn tàto q Jogo dali a tres ou quatro dias bD rege..
àor da vila de Paoane lhe DJâdQu dizer ao gouernador
que podia mãdar rec:eber certos paraós q e1tauão oaqle
rio q el rey de Calicut lhe mãdaua entregar. E Jlorq
ainda ho guuernador tinha nisto duuida pvr saber quão
incõstãles eJes erão nã quis mldar receber os paraós se
mã por sua pessoa, Jlera q se fosse mêtira co1Ue'(ar loge
a guerra. E partiu de Cocbim apercebido cõ hüa frota
àe lvj. veJas. s. duas .galés, quatro nauios de gauea,
cinco bareaGas,. dtazaooue catures do Arei de Porquá,
k vinte seys paraós, & bargantis da armada da
ordenà«(a da lndi-a. E os capities desta arn1ada furão
loão de melo da si}ua (\ fora capitlo de Coulão, & por
ter acabado se quisera ir pera l
1
ortugal, & por
o senl1r & eonbeeer dele l} por seu esforço,
bêdade & deacri"ão ·era pe110a de muyta & pe•
.LIVRO Yl. O.API1'VLO LXXXJIII. 179
ra ae lhe encomfdar ho seruiço dei rey senhor &, ter
neceuidade doa bom As dai)la qualidade pera iaao: Jbe
rogou l} ficaa1e na lndia;, & deulbe hõa das galéa l} di-
go em que andasse & ya na sua galé. Os outros capi-
tães forã Pero mazcarenhas, Simão de meneses, Ruy
vaz pereyra, dõ Jorge de noronha, Geronimo de sousa,
Antonio pessoa, dom Afonso de meneses, Rodrigo ara-
nha, Ayres da cunha, dõ Jorge telo, Jorge cabra I, A n•
tonio da silqeira, Go1nez de souto mayor, Frãcisco de
vaseõcelos , Pero velho, dotn Jorge de aneoeses, A nto-
nio dazeuPdo, cabral, Diogo da silueira, Nuno
fernãdtaz freyre & outros a q nl soube os nomes. E ao
outro dia q furlo vinte cico de Feuereyro de mil & qui-
nbêtos & xxv .• surgio na boca de Panane lJ. he. da lar-
gura & altura q disse atras,no liuro segundo. E surto
bo gouernador mAdou recado ao regedor de Panane pe-
ra lhe entregar os para6s lj lhe escreuE'ra. E ho regedor
lhe resplJdeo com : o <l ho gouernador ,
··porll lhe con1eçaua de falecer a agoa, mãdou fazer a-
goada dêtro no rio, por(} não auia outra parte õde .se fi-
&esse. E como a gl!le do lugar os rnouros;
·sabião lJ. el rey nilo queria paz cõ ho gouernador, quãdo
virao oa Portugueses entrar no rio a fazer agoada , co--
meçarAo de lhe tirar ás bõbardadas de hna estlcia <} ti•
nhão feyta ja cõ (Jroposito de terê guerra cõ o gouerna-
dor, & defêderlhe a desembarcaç§o se quisesse desell1'-
barcar. Quildo ho gouernador vio ho grãde desauergo-
doa mouros, determinou de lhe fon1ar as
bardas l1 tinhilo na estâ:cia & destruylos. chamados ol
capitles & pe11oas pricipaea da frota lho disse, & todos
disaerAo l} era muyto bê , & porq a não recebesse
-dãno diA te da estttcia , a1sêtouse <l fossê
a em hüa pata <l se fazia antrP .ho mar
& ho rio, li ficaua n esC.a põta da bãda do norte, & he
mar da bftda do sul: & isto porq ealaua abaixo da es-
& q ho gouern3dor & _Pero mazcarenbas cõ ca•
da btl •eu eacoadrão de duzêtos oomla de
' z z
18.0 . . DA HISTOBIA .. D1 IKDIA.. •
·desta põta no -rio , ir. dom Similo cõ outro eséoadrlo de
trezêtos em l). entrauio muytoa espigardeyroa dese-.
barcasae na costa & costas da estlcia despois q o go-
uernador desembarcasae. E isto conto por lbe a
telharia dos imigos nã fazer dàoo. Isto asselado DO mes..
mo dia l} forlo vinte aeys di.as de Feuereyro se ·ebarcou
o gouernador & os outros eapitàes nos bateys &· nauios
.sotis em q auião de desêbarcar. E o goueroador & Pe-
ro n1azcarenhas desebarcarão primeyro cõ sua glte õde
lhes era as si nado acõpanhados de muy tos fidalgos. E da-
do sinal a dõ Simão como ho goueroador era desebarca-
do, logo na costa cõ sua gête· dõ golpe, a
ij logo acodirã aJgiis 1nouros & Nayres, & nã digo quan ..
tos por oã poder saber ho numero dos q auia Do lugar:
mas bê certo he q s.erião mais quatro vezes lj. os Portu-
gueses. E estes q sayrlo· a receber dõ Simão fizerão
mostra de defender sua stlcia, peJejãdo valetetnete cõ
suas làças & frecbas & espingardas, DJas afroxarào lo-
go como lhe os nossos es.pigardeyros o,atarão algils, &
acelh·eranse á sua estancia õde fizer.ão roslo a dõ Simão
lj cõ os seus comett'O a estAcia cõ tamaaho impeto (j os
imig:0s ho nã poderão sofrer, & mais por Jbe matare &
feri rê- m.uytos , & desbaratldose fugirão pera ho sertão,
& a estãci.a '"Y entrada por dõ Simão. E nisto chegou o
g-oueroa.d"r cõ Pero JJJazcarellhas , &, reformãdo ho es-
eoadrl àe· dõ Simão cõ ge'" de refresco, ho mãdou pas-
lar baada du rio, & a Pero mazcarenbas da bãda da
egsta ide dõ· Si•»ào. df:1si8arcara ,. poliq a ãbas estas
prayas ehegaua. o '-•gar & s.e estldia daLi pera ho sertão
& he gouernador ficou DO meyo pera asai etrar ho Jugat
"' ho tjueymar,. & aã quis fi os llortuguf'scs ho roubas..
11- .por se nio deter, & màdüubo roubar por esses Nay-
Jes i) yão d.iãte, & ele eõ aua gête queymãdo easas &
certldp· pela1eiras. E .Corão al.giis Portugueses q
ae desmldatl, & hü destes foy large de J.ima i} peJej.ou
aliJe dia cõ muyto. e1forço. E des-truydo bo lugar & re-
colhida a artelharia á eslãda, Jeeol.beue· ho gouernador
.
LIJ'IlO Vle ·'CA'PITVJ:.O tJ,:XRXV. 181
. . .. r '
C A P I T V O LXXX V •.
• • I
De eotino· o gouerraader mtmdou f}ueymar Caliettt por
dDm João de lima·, V do que lke a,·ontf:ceo.. .
Daqui se foy bo gouernador a , . õde soube d4P
dõ loão de .lima ·q os regedores não eõprirão o q lhes· el
rey mãdara pronlet.er a Coch_i, .de. lhe ter os paraós· &
artelharia prestei. E yf!do q tudo erão palauras; deter•
minou de Jbe n1oetrar as obras .cõ lhe qymar algüa· paPte
da cidade , porq soubesse q nã estimaua a sua guerra.
E dãdo cõta 4disso aos capitãet, asseniouse q ele cõ a
bãdeira real & corpo da gête ficasse na praya·, & di
loão de lima cõ a gêle q tinha posesae ho fago á cidade
4aljla bãda &.nã entras&e detro ,. & lto fogo be ateado
.ae recolhesse. E assi se ao outro dia: algis fidal-
gos de dõ João q yão cõ ho gouérn.ador forA0 eoele,. & I
eon1e<cldo de poer ho fogo lhe sayo ho regedor eõ muy-
tes· Na1res, de q aJgils .erã espingardeyros. E dom loão
como era esforçado remeteo a eles & Dão podendo e)_ea
sofrer ho grande impeto dos nossos se retirarão pera dê-
tro da cidade fazedo voltas a eles. E como nelas os Por-
tugueses matassem algua, gastou dõ. loão disso tanto
que não lbe lembrando he regimelo do gouernador que
não entrasse 11a cidade, se meteo pgr ela làlo que
.do &e quis recolher foy cõ sràd.e afronta & perigo: por.q
os imigos como forão dentro na cidade se espalharão mec-
tedose por lrao.esaaa ·k paredes. f}Uebraeas, por onde os
Por.tugueses auião de tornar,. &, loroãdose· o• freeha,uão
.claji &, lbes lirauãQ muytas espingar.dadaa. E nisto che-
garA a hia mez'l.uiLa, vnde os esperauãe be
<J& mais deles espi&gardeyroa: k dõ;Vaseo ·lima ll· ya
na di4teira ·primeyr• a ·ela, & em sna cõpanhia
Aatoaio de sá de Santarem, Aatenio dazeuedo.& Ma-
a.uel., de macedo. E oa imigos de
Ü!ar de .. • • ,,·& aceroo11 a di
J 81 . .Jl& BIS'J'OIIJA DA.
Vasco de lima hüa coxa, & ferirao se nlo fora hüa
fralda de malha dobrada que Jeuaua: maa alormêtou ho,
& assi atorm@tado era tio esforçado ll remeteo ao Nay-
1'8 & matou bo atrauessando ho o6 a UIQa, & logo ea.-
toutros ll digo tambê aos imigos. E nisto che-
gou dõ loão, & disse l} não se deteuessê mais, & foy
por diãte: & os imigoe yão apo• eles tirilduJbes ho mais
que podião, & oa de dõ loão tambem lhes tirauão de
quando em quãdo, & asai forAo. ate a praya õdest aua
ho gouernador, que ouue grAde menAcoria de dõ loAo
passar seu regimêto & entrar na cidade: cõ quanto lhe
ele & outros muytos jurarão q não podera fazer menos,
& que lhe não matarão nenbü dos q leuaua, ites matara
muytos imn1igos & fizera grande dAJJO em queimar muy-
·tas casas: & assi foy. E este foy hU. feyto honrrado, &
de. q el rey de Caljcut ficou muyto corrido. por nlo se
poder vingar. E cõ tudo ho gouernador nã-perdeo a me•
nAcoria <1 tinha, dizêdo que assi como dõ loão eseapa-
ra assi se poder a perder cõ quantos leuaua, & que Dlo
quisera fazer o q lhe mildara: & sem mais 81perar ae
foy lo-go embarcar.
C A P I T V L O
4
LXXXVI.
Da como o gouemador chegou o, Coukte.
ho gOuernador c3 d.eterrriinaql de prosse-
guir a guerra .contra el rey de CaJicut, determinou de
ir a hum lugar muyto grAde de seu reyno chatnado Cou-
lete ,· & ho principal porto dele, & õde auia .mais gen-
te, mais para6s & mais naos (} em. outro nenbõ. E pa-
ra ser anelhor enformado do sitio do lugar &. dos oáuioa
i) hi .estauilo mAndou a, João de mélo da si lua que ho
fosse saber & forilo .coele do-e Catures do arei de Por-
quá, & cinco ou seys outros doa:Portoguaaes. E coesla
eo•npanbia se foy! loJo de melo a CooJete, ê cujo r1orto
se faz htla. bay.a .ele. pray- daréa, & ·du pGtas da baya
I
LIV&D "\'!. CAPI'IYLO LXXKVI. l8S
ao lugar lJ está metido por bü rio ha bü pedacto: & ê
hfta parte da baya da·haoda do suJ eetalilo tres trãquey-
ras, hõa na põta da baya outra mais acima, õde
aembarcauão & outra DO meyo fornecida•· de 1nuyta ar ...
telharia, & no porto estauão corêta grandes paraos muy-
to bê armados & esquipados, & ne)es & E'm terra aue-
ria bem mil mouros & Nayres de peleja, & anlre-
les muytos espingardeyroa, & estauão assi fortes pera
resittirem ao goueraador se· quiaease pelejar eoeles. H
sabedo be gouernador desta fcr.ça q aqtJi estaua , deter.
minou de a destruyr, & mãdou d1ãte loão de melo pe-
ra ver o sitio do lugar & partio a·pos e;le ja noyte, .&
João de chegou á baya de Coute-te ·pola n1anbal,
dõde Jogo sayrio os 'COfenta paraós q digo, & 'como ele
es l'io tãtos, & 1ambê armados &, c6 tanta gente, .&
leuaua muylo poucos Portugu11sea : nào os quis oometer
por lhe parecer doudice, & 1pôdo neles as proas dos seu•
Catures, & tirãdolhe muytas bt\bardadas se f,,y fázêdo
pera ho· mar cO ceavoga , cõ de os afastar da
terra. E como 'isse àlgiis llauio& da armada do gouer•
Dador comete los de verdade, &t a ar111ada do gouerna•
dor oio parecia ainda porq se fizera de neyte na -.olta
do mar c6 bo terrenho. E os imigos q a não v.iào, n!
cuydauão i} erão mais q os Catures os seguião,
lhes tlbê eua artelharia-, aenio quando aparece a galé
eo1 q bo gooeroador ya, & ooela outros nauios que ylo
demadar a tena. O li v@do os i1nigos nA quiserA maia
seguir os k voltarão peta E chegados á
baya poserãae em ala antre as estancias, cO as popas ê
terra & 81 rroas no· mar & apelidarão logo a terra ' &
toda a gltP de lj era a q disse acodio ás esticias,
& aaai os de terra oomo os do m-ar se poserào em som
de pe'Jf'jar , fazldo grande estrõdo cõ sens ata bales &
outros instorn•llos de gue·rra &. e6 suas gritas, q tudo
ho gouernador ouuia. ·
--
18f ' '!tA "BIII'OitlA.' DA IKDI&. I
., .
... . .. " -
C A.-P I T V L 0 LXXXVII •
.

De como o gouemtJtlor aatwu c6 o• CtJpiUJes da jrottJ de
. pelt;iar em Coulete. . :
E ele sua determinaçAo aurgio.defrõte deles·pera
esperar a outra frota, i} quando chegou era tão tarde fi
mandou (j surgi11e por odo ser lêpo pera fazer nada. g
aurtos os C3fli tães , os mAdou chamar cõ todos os fidal-
gos & peasoaa principais da frota: & jiitoslhea pregü-
tou a cada htl a maoeyra de ll deu ia de cometer os imi-
gos, & hiis .disserão q deuia de cometer somête os i}
eslaulo no mar coU1 ll podia pelejar se1u desembarcar:
porl} pera aair em terra tinha pouc&t.gête, & a doa imi-
gos era n1uyta endemaaia, & poato ·q .matassê. algO a ho
reeolbimêlo auia de ser oõ perigo, & no ioar ,. ..
lejarilo mais a ieu saluo, ·porlt· não.auia de pelejar mais
que com os do. mar, porq os da t-erra não·.tiohão.Jugar
per a que lbes ajudasaem por não .caberem coeles BOS pa·
raós: outros diseerão q.ue deu ia de .pelejar .. em terra,
pa.rque pelejando no mar ·somente todos oe·4a t,rra auião
dlijudar aos paraós, .'& os dos paraós nil anião daju·
dar QS terra posto que <lelembarc.asse, porque auião
de cuy4ar. que deixaua gête na frota, de <i se auião de
te.mer Jhes queymasse os paraós, &. por isso os não
auilo de desemparar, nl! auilo dajudar aos .. terra:
pelo Cj deu ia de pelejar nela. E vêcidos .os da terra aue•
ria pouc.o. fazer nos do anar, outros. disserão gue se
ia de deixar aquela empresa per a quãdo .ha.
Jlador tornasse dos rios de cle•Maogalor .a .que _
Ja tomar os paraós que lá estauão, & despois de toma-.
ajuntaria a sun armada .tous gale6ea. & bü &
tres galeolas & bü bargltim.: .com que.estauào en1 sua
goarda Fernão go1nez de letnos & Gowez martioz·,de le-
mos seu irmio, em ll andaulo rnais de cento & cincoen·
t.a bomês, que fazilo muyta miogoa pera os ajudarem
LIVAO l'J •. CIAPI'!Vr..D. ) 86
.. naquela peleja, & Pero mazcarelrhas foy hü deate• :. ·.di,.
Lzendo mais que não se auilo d·e cometer cousas
-parecia que se nosso E como h? gouer ..
·nadOI' não fc;>sse de nenhü destes pareceres, d1sselhes.
Bem vejo senhores q vossos pareceres neste feyto sam
-de tio esforçados cauaJeyros & too na
guerra como todos sois, & se neles foreis conformes que
não tinha eu mais lj dizer se não mas como
·soys diuersos & cada hií diz. o lj entede, fica me· lugar
pera tambê dizer o que entendo, q he nio .fazermos
-t-odo em todo de pelejar no mar corrJ 01 im-
migos, porq tenho sabido por algüas pessoas que ho
õde estio seus paraos he aparcelado, & os. podem
ter encalhados na vasa , & nii. poderemos bê chegar a
·eles com os nossos ba-teys & ca·tures por a.mor. do par-
eei : pelo qu.e os nl· poderemos aferrar, & farnos hão
nojo cõ a artelharia & nosso eontetimeto por mar
sera de balde , & por isso os não deuemos de cometer
··DO· mar somente, nê menos· de todo em todo em terra
naquela praya darea .. que vedes, q pare-·
-ce se.r Jogar de boa desembarcação, · porq se os paraós
-dos ·Ím;gos esteuerem em nado & nl for parcel--eomo·IH
-dize, irse hão como nos vire :. o que eu
-muyto receo pelo medo que adiuinho· que nos. 'lê: ou sey
.certo. que h e assi , que se h o não ouuerão,. eles acaba,.
.rão .de seguir a loão de melo quãdo lhe vindo ver
a d·isposição· desta bay a, & em me vendo se tornarão a
recolher, o que não fizerão se. não ouuerão n1edo, pon-
que a tantos mouros & tão cheos .de.soberba .cQmo est.es
andão & que nos tinhão dãtes fltn tãó pouea conta, pou.-
ca gente era a· com q Jhes podia resistir quãdo me ·v·i-
rão, & se recolherito se não ··fora llo medo t & por isto
receo eu q v@donos em terra ·se v·ão se esteuere em na-
do, & indo se farllo algü dãno na frota, em ·que poJa
pouca gente que ten:ho nfto posso se não rnuy
pouco. E por esta causa me parece que os não deue-
mos de cometer somête por terra , se não por terra &
LIVRO VI. AA
18G •. ·.D.( 'Hift'ORI1&: DA ._DIA.' "
por juntamête. E isto logo & quando 'tornar-
mos dos rios 8t esperar que se ajüte cõnosco a gente
que lá está, que h.e tllo pouea que rnuyto mais nos po-
de danar esperar por sua ajuda que pelejar agora sem
ela: porque agora temos aqui os que como di-
go he certo que nos hão medo, & aem ouearea1 de re'-
lejar nos bAo de fugir, & vendo nos ir sem os eoaueter
crerllo que he por lhe auermoa medo,- & sent aos vPoce-
rem fiearilo eom a que-dirão de palaura q ouue-
'rÀo de nos. E como aê}les a· q11e ·ho ·hão dé sam
noêso!i ·tmigoa hãolhe de dar credito, porque be Pm nos-
ao perjuyzo: & sem ser vecidos por obra ho seren1os por
fan1a. E vede que tais ficaretnos 'tiizendo estes mouros q
Jlo goúernador da lndia nlo ousou de pelejar coeles.,
que data ousadia a todoa os· ·de Calicut r..era nos ire
·buscar a Cocb!, &. ·se leuaotarem contra nos todos os
que tem paz cõnosco: & por. isso ey por' escusado dei-
xar a peleja pera quãdo tornar, se n!o con1o digo logo
C! amnJhecendo con1 ajuda de nosso se11hor, em que to-
dós deuernoe ·da ter eonfian<(B· qu·e por sua sacratissima
·pai·xão ooa ajudara ·como sempre ajudou , & dom·Simão
teom. trezentos· homh cometera a praya li digo, em que
:- ·& '1
1
ero mazeàrenbas & eu cõ ho resto da
· ·gente os paraós dos ·i migo&. E deste pare-
_.er lby. loão de melo da silua, & disse ao gouernad01.
·q.ue pôr· ne»htla eóusa bo deuta de ·de .seguir : &
')Ue ass·i lho requeria da parte dei Rey ·seu senhor, por4,
mór pa.tte d'os gutros erão contra ele. ··E com·o ho go-
·uernador ·tittba muyta prudecia & esforço
ile foão de mel.o, insistio e1tl seu pareoer t@do ho sua
1»àrte. E todus assentarão qu.e asai se fizesse, posto
lhes do ·pamceo ben1.
• • ' '
LIVJ.P W•
C A P I T V L O LXXXVIII.
De como M go&eernador desba.ratou os mouros que esta-
uáo em C!AJuleee.
assi determinado mldou bo gouernador chegar as
galés a terra ho mais é} pode ser, pera tambi! ajudarem
con1 sua artelharia. E ate a madrugada gastarão os Por-
tugueses em se confessar & encon1êd1lr a nosso senhor,
& aparelhar suas armas: & despois de foliar
& cantar & fazer grandes alegrias, quebrassem os
cora<iÕes aos i•nn1igos, que toda a noyte derão muytas
gritas. & tangerão seus instormentos, q
coisto fazião medo aos Põrtuguesea, & desparãdo tam-
bê suas bõbardas. E em amanhecendo aparecerão os
seus Jlaraós toldados & erubandeiradps, & da outra par-
te os Portugueses embarcados ê seus bateys, paraós,
catures & bargantis armados de suas armas. Dom Si-
mito & Pero mazcarenbas defronte dõde de come-
ter, & ho gouernador no meyo cõ a &
&omêdapdo os a Deos arrancarão büs & outros pera os
lugares que lhes erão assinados que cometessem : ho go-
uernador & Pero maz.carenbas contra os paraós dos im-
migos que estauão da ponta da baya pera dentro, &
dom Simão pera a praya, onde auia de desem.barcar,
re.mãdo todos cõ a mayor pressa que podião, por esca-
parem das bombardadas dos irnigos, l.JUe erão tantas que
parecia que chouião, assi dos paraos como das est.an-
cias, porem a anayor furia doa pelouros era sobre os que
acompanhauão. ho gouernador, porque lhes tirauão duas
das estãcias & os paraós jütamete. E sedo os pelouros
tãtos conJo digo, muytos dos capitães do do
gouernador & do de J>ero MazcarPnhas Jhes auião rpedo
& se passauão ao de dõ Simão por lá não ser ho perigo
tamanho. Ao que ho gouernador atalhou ho melhor q
pode: remetêdo 808 dos DlQUro& , pradando
AA Z
188 DA HISTORIA DA •
Portugueses q não se desmandassem. E nisto algüs dos
q yão auiados per a chegar .. aos paraós chegarão a eles,
& o primeyro que aferrou logo hn dos paraos foy hii Ro-
drigo aranha cat>itão de híl bem pequeno catur em que
irião ate oyto Portugueses, & os mouros que serião be
sessenta acodirão Jogo a bordo pera lhes defenderem a
entrada: & com quãto erio tãtos, & pelejauão
mente não poderão defender a Redrigo araaha; i} os não
·entrasse J'rin1eyro que tJenhii de seus corrJpan·heirosque
entrarilo apos ele, & meteranse com os DloUr()S ás euti-
Jadas & espingardadas :- & ais to aferrarão com eutros
J)araós , dom I urge de noronha , Geronimo de sousa,
pessoa, dom Afonsa de meuesPs, filbo do coo·
do1n Pedro , dom 'fristão de noronha, & todos em
aferrando entrarão. dentro cõ sua gente pelejando todos
eom muy·to esforço como muyto especiais caualeyros que
"e rio. Neste têpe eon1· a grande reuolta lj ya, & cõ os
capitães q se passarão do escoadrão do gouernador pera
lio de dõ Simão ficarão tão longe hü do outro que Jbe
não podia ho gout-rnador dizer que deseo1barcasse, porq
Jhe tinha ntandado que ho não fi-zesse ate Jha não dizer,
& despois l} dese1nbarcasse fosse ao lõgo da praya ate
os par aos pera ho ajudar por terra aos desbaratar, & dõ
Sin·•ão não· desen1 barca ua por esta causa & es tau a espe-
rãdo. O q. vendo bo goueroador, determinou de lho
mandar d·izer por terra, porq. por mar não podia ·ser po-
Ja grãde reuolta q ya·, pera o qu-e D)àdou ·saltar en1 ter·
ra dous ou tres que derão recado a dõ Simão
que E ele deseanbareou logo, & en1 de-
sen1barcãdo furão tãtos os mouros dos da terra q a.codi-
rão sobre.te· qiJe por n1ais q peJejou com
os <l: ho acom.paohaufto nunca flOde passar aos ·paraos e::o-
·mo lhe bo gouernador tinha màdado. E pelejando assi
dos capitães do escoadrão do q. esta-
junto. ooele quando sair em tf!rra os tres ho-
mf!s porque màdoo ho recado a dõ Simãe não se pode-
,rlo sofrer ii. ho· alo· tneasem pqsto que ho gouernadQr
'
LIVRO Vf .. CAPI.TYLO LJ::XXVIII. 1.89
lhes linha defes0 que não dese·mbarcassê,. porque auiào
de pelejar· no mar cõ os par-aos , & estes q saJtarào ean
forão Diogo pereyra de sam payo, Manuel da ga-
ma, R.uy da costa .de Goes, Fernão de moura·, filho
bastardo de dotn Pedro de n1oura, Gomez de souto anajor, '
lobão de betãcor, da ilha da madeira & outros ate vin-
te ou· tri·nta aque nao soube os nomes. ]i_; co·mo os mou!-
ros erio sem conto, & eco cada cabo auia deJea assaz.,
;lcodirão ali logo muytos : & como os i
1
ortuguestaa erãe
poucos posto que pelejarão setn medo,· & Jbes fizer.ãe
muylo dano cõ feriren1 & matarê 1nuytos, tàbe ho re-
ceberllo, porq Diogo pereyra foy ruorlo, & forã feridos
mortalmente q n1orrerào despois, Ruy da. cus la,
uão de moura , lobão de , & outroB cinco ho-
mês baixos, & tambem foy ferido da gan1a, &
outros nilo podendo sofrer· ho grãde impeto dos n1ouros,
se desbaratarão se não lhes acodira Ioão de melo, &
lorge ca.bral, & out..ros dous fidaJ.gos a que não soube
os· nomf's que estauão cã ho mesmo loão de melo no seu
barganti: & loão de· melo bo de.sbarato· dos que
pelejauão em terra, saltou nela coestes .que digo & com
cutros, & sosteuerà os que y:lo desbaratados,. & tornã ....
àose a .peleja a refrt-scar, erão tantos os mouros que
recrecião, (jUe fuy necessario ao gouPrnador acodir lhe·,
sallando em terra cõ algüs fidalgos & ques-
tauão cõ ele, & ja a este tempo tudo era baralhado, &
todos pelejauào, assi na terra con1o no mar, & auja
muytos feridos de hfta part-e & doutra. E sabendo ho
gouernador como dõ Simão bo não podia ajudar-, r,or
grande resistencia qut! achaua nos mouros, que
necessario mudar ho conselho que teuera: no o1odo de
eomo auia de pelejar· com os 1nouros : & pois ja era em
terra, que lhe eon1pria de tomar a outra e&tãcia que os
mouros tinhão· no cabo dos paraós per-a ho Jugar, pera
ho que tinha necessidade de mais gente: & foy
sario mandar a Pero cõ algüs dos Heus ca-
pitães· ho que logo· fez:. & foy. oom ho goueroador
190 DA RIS'I'O.IA DA lltDIA.
n1eter a estancia que digo, de que se 01 mouro& defen-
derão hii pouco & despoia fugirão , & com tudo os do
mar se defendião valentemente, como que espe.
_ rauã a vitoria, porque podendose 1aluar em terra não
ho querião fazer: & parece que era ror aebar algü va.
gar nos Portugueses, porque como dos que eslauão li-
tnitados pera pelejar no mar desembarcarão muytos, nlo
auja quean auiuasse a peleja de nouo: & pelejauão &OP
mente os que primeiro disse que aferrarlo. E assi hii
loão segurado criado de dom Fernãdo jrrnão do conde
de Farailo, que ya por capitão dum dos caturee de Por.
quá, que aferrou con1 hum dos paraós que estaua bem
cheo . de n1ouros, & em aferrando saltou dentro só, &
parece que os Naires que yão tambem no catur, de roi1
fizerilo afastar ho catur antes que os outros Portuguese1
entrassem, & loão segurado como digo ficou só antre
tantos mouros de que não se podia valer se não lançao-
dosse ao mar, ho que ele nlo quis fazer como verd.,
deiro Portugues , antes se arremesou ãtre 01 mouros <t
estauã na popa do parao por onde ferindo por õde
aua espada podia alcançar, & como erão tantos em de-
masia quasi Cj ho afogarão & lbe leuarão a eapada da1
mãos, não ho seu brauo coração com que andou
tanto coeles abraqos que se lhe sayo dãtre as mãos bem
ferido & recolheose á proa do paraó seguindo ho os mou,.
ros & ferindo ho: & tão apertado se •io que virou a eles
& remeteo a hõ que ho mais perseguia, & chegouae tã,.
to a ele que ho Jeuou nos braços. E neste tamanho a ..
perto foy socorrido por outro n1uyto valente caualeyro
chamado Pero lorge capitão doutro Catur-: & bo gouer-
nador ll vio de terra o que Jbe ho mldou
tambem socorre·r JlOr outros, a que Pero Jorge tirou
deaae trabalho com despejar os mouros do para6, büa
mortos & outros feridos. vendo ho gouernador como
os que pelejauão no mar tiohão oecessidade de socorro,
mandou a algils dos capitães que estauão coele em ter-
ra que ho fizessem: & & com sua ajuda tardarão
.
LIV&O ..-r. ·cAPI'M'LO LXXXVIII. I 91
os mouros pouco em se desbaratar de que saluarllo muy
poucos, quasi todos quiaerlo 1norrer: & dos Por-
tugueses q· pelejarão no mar não morrerão quasi nenhüs
& os mais furão feri·dos .. E ho mestno àconteceo ·a dom
Simão, que despois de se lhe os mouros defenderem va-
lentissimamente quanto lhes foy possiuel não podendo
resistir á furia dus (lortugueses ficando muytos feridos
& algüs mortos se recolherão pera ho sertão, & eJe se
foy pera bo gouernador, que deu ·muytas graças a nos-
fiO senhor por aquPia vitoria, & abraçou a loão de tt1eJo
p<)r quão ·bê ho fizera· aquele dia, & por quão bõ cÕSe'-
lho lhe E assi ficou de posse das estancias & do&
paraós, ·em q forào tomadas duzentas & ein·coeta bom•
grossas & oriudas, & delas que forão tomadna
aos (>ortugueses, &· muytas oamaras & infiod.os pelou ..
ros de ferro coado & moyta poluora, & grande soma
darteficios de fogo. E tudo isto foy recolhido na nossa
frota & assi os eorlta .paraós, & entre tanto h.o gouer--
Jl.ador fez algüs caualeyros·estando muylo de vagar sem
01 mouros ousare-o1 de tornar .sobrele eomo
E despois de queymadas b.õas dez nao8 de carga que
-estauAo 1'&Tadas se recol·heo o gouernador 1nuyto ·a 1e11
prazer. E coeste feyto q. os mouros ouuerão por muyto
grande eobl'arão os Portu.gueses ho credito que liohã&
perdido &a ln.d.ia: & el rey d.e Calicut comeqou de per--
der o qoe tin.ba aqu:irido, & ·come«((U ·de se eatt'nder·
pola IDdia a fama do ·gouerD&dor, .& 01 .mou.ros lhe co-
meçarão · dauer medo.
19t DA DA IRDI.&
C A P I T V L O LXXXIX.
De como tlmla1 cartas ao del rey Dor-
mu.t: de Raix xarafo: de. de Diogo de
melo.
Embarcado 'ho gouernador foyse a Oananor., onde che-
gou a õze de MarQO, cujos mouros achou muyto que·
brados poJo desbarato dos paraÓli de Coulete & dos ou·
troa l} eles tio hão por inuenciueis, & .cuyda.uão q auião
de desbaratar de todo a nossa armada, & derilse por
gast11dos quando os virão tomados. E el rey se deu por
·destruydo, em. Cananor auia algfls paraós, & co-
mo soube que ho gouernad<•r chegou lhe mandou a boa
hera de sua chegada, \& .hil eolar douro,& pedraria de
preço ·t} ho gouernador não quisera tomar, & tomou bo
·por lhe dizerem todos que ho tomasse, porque era el
Jey tão descõfiado que se lho não tomasse, cuydari.a que
estaua coei e de guerra, & por isso ho tomou & ho deu
despois ao spirital de Cananor pera se gastar- cotn os
doêtes ·& em outras cousas necessarias , & mandou
2e·r .a el rey .q lhe tom.aua ho ·Colar -porque não .cuydasse
q n.Ao era ·seu seruidor, & que não faria .por ele quãto
cõprisse pera se goardar a an1i.zade . .q tinha com e) Rey
de Portugal seu senhor, o .que ele faria sfpre sê dadi-
uas ·nê presentes, .& nunc.a bo -contrair.o ainda .que lhe
desse quanto auia no mundo, por isso q sem prese-ntes
Jhe podia requerer o· que fosse seruiço dei rey seu se-
nhor, & qu·e ele ho faria logo. Do q el rey ficou espan-
tado, porquP. dãtes tudo na lndia se acabaua com pei·
tas: & logo foy visitar ho gouernador á fortaleza, o que
nunca ateli fizera nenhü rey de Cananor a nenhü viso
rey nem gouernador da lndia, & vianse em hüa tenda
que sP arn1aua fora da fortaleza. E ho gouPrnador oito
fez nenhil caso daquilo: & e) rey lhe festejou muyto de
palaura a vitoria dos paraós, & disselhe que lhe entre-
LIVItO •r. CAPITVLO LXXXIX. 193
garia algils que auia em Cananor com toda a artelbaria
que tinliilo, & lhe prometeo de não se ·razereln mais ou-
tros, & n1ostroulhe htla carta q tinha dei .de Portu-
gal, em ll lhe fazia merce das ilhas de Maldiua com ccl-
que fone obrigado a darlhe tanto cairo quãco llle
fosse necesaario na lndia ao preGO que custaua nas ilbas,
de que el rey de Cananor requereo ao gouernador q lhe
desse a posse por virtude daquela carta. E ho gouerna-
dor lha daua com cõdiç«o que desse bo cairo, de que
Jhe pedia cadloo mil babares, li fazê dous 1niJ & oyto
& vintoyto quintais, -fi de lAtos era enformado
l)Ue auia·· necessidade na Ind1a. E el rey as não quia
com aquele enearrego, com o ·ll ho goilernador folgou
por ser rey de Portugal; porque sabia q
tios quintos do arroz·<} afJ naos que yão ás ilhas paga-
se eom f>raulo ·os mil babares de cairo & mais , &
pagaua màtimêto a trinta ou corenta homes que Já
estauão cél· hft feytor, & todo1 enrrequecião do 1nais que
furtaufto. E por isto l] sabia folgou dei rey não querer
as ilhas , porq ·fieasaem pera el rey seu senhor, a que
esperaua de dar nelas .. muyto proueito eõ fazer nel.as hüa
torre eercada. de muro em que se recolhesse ho cairo &
se podessê defender os que hi esteuessem. E com quã:-
to el rey de nã quis as ilhas de Maldiu.a eom
as condiç(Ses que digo, nê por isso deixou de mostrar
que ficaua muyto seroidor .dei Rey· de .Portugal & ami-
go do & entregoulhe.Jogo algtls para6a que
tinha: & os outroe lhe pedio pera aeruirem de carrega t
que bo gouernador lhe c&edeo cô tanto li lhe auia de
dar a arteJharia ·q tinhA & Jbe anião de cortar os eipo-
raes : & Jeultalos mais & tirar lhes oa remos, & assi · Íf!Y
feyto. E desta maneyra ficou Cananor aeguro , ôde ho
gouernador achou hü mouro oom cartas dei rey Dormuz
& de Raix :xarafo pera ho viao rey dcl Vasco da gama,
lj tanto q soaberão q era na lodia, crêdo q ·era homl
justo, & i} os rnãteria ê justifia lhe escreuerão logo, di-
do graças a Deos q ho leuara á lndia, Gde auia dele
LIVRO VI. BB
. .
194 DA 1118'l'OBIA DA llfDIA
tlta necessidade pera fazer justi'ia: pedindolbe moyto
q lba fosse lá fazer de muytos agrauos li tiohã recebi·
doa no tApo passado de dõ Duarle de meneses, & rece.
bilo oo preaente de Diogo de meJo. E com quanto ho
mouro que Jeuaua eatas cartas soube ê Chaul que ho vi·
MO rey era morto , deterruioou de ai dar ao gouernador
que hia buscar a Cocbim, & acbouho em Caoaoor :
dãdolbe as cartas que Jeuaua pera ho viso rey, pediu.
lhe que as ouuesse por suas, & que fizeue a
'qUe se esperaua do viso rey, pois tioba aeu carrego. E
bü preseote de hftas poucas de perolas & de pa•
nos ricos de Persia, ll ho goueroador não quisera
mar: & tomouho polas rezões que tomou bo colar a eJ
rey de Canaoor : & disse ao moqro as .mesmat palaura1
lhe mandara dizer. E Jogo ho guueroador ho despa·
choa eacreueodo a Diogo dfi melo sobre o que el rey
Dormuz & Raix xarafo se agrauauão dele, pedindoJhe
muyto por anerce da sua parle & requerendolae da del
seu senhor que ho nào 6zease, & que ho não me-
·te•se em pressa de 01 seu. trila aonos castigare os seus
aesseota. E pera que se tirasse a Diogo de melo bo azo
.de agrauar estes dous homli esereueo bo gouernador ao
euuidor da fortaleza Dormuz que lhe anaodasse preso hU
boml, por cujo conselho deziãe que Diogo de melo caya
Das culpas en1 que bo culpauão. E tudo islo escreueo a
.e) rey de Ormuz & a Rayx xarafo, affirmaodolbe ')Ue
t)Dando Diogo de melo não ae ·emmendasse, que ào ti ..
raria da JOrtaleaa: & por nenhi modo os deixaria agra·
uar, poriaso que esliuessem muyto firn1e1 na aanizade
& DO tio Portugal & lhe eaereuessem
--q.uao.to passasse, porque logo acodiria: & que Dão aco-
dia Jogo poJo mu:ylo que linha que fazer na lodia. E hQ
.meamo dine ao moure que leuaua a1 earlàs: q.ue ae
partio mu.yto eon.tite do golletnador, & mu1to eapao-
\ado de quão pouca oe oeab.Ua c&biça tialt.a.
l.t1VIl& Yl. OA.I79J,O xe_.. J96
C A P I T V· L O XÇ.
Do qllll fes Fernão ,U letnos no rio Mágalor.
E .de como ho gouerntulor se recolkeo a Cocllí ,
. poohou f.l Pera mazcarenhas ./HalaçQ.
Partido gomez tle lemos Cananor c9mo dia,..
ae atras, chegou ao rio d*' Mãgalor eõ as quatro vela1
ll disse ·pera ho goardar. E ppsto na sua boca a
q nil podeesê sayr ·dele os cenw 8{, tantos paraós de mou-
ros q estauão dãtro , q de h o fazer algõas ve.
, & nüca poderio cõ os muyto1 tiros dar telharia q_
lhe tiraua Fernão gomez & os outros capitães. E
i) sua porfia era por de mais deixarã se estar : & estlldo
Fernão gome1 nesta goarda, sobreuierão bü dia hiía boa
de paraós de· Calicut que yão ali carregar. E co-
mo os mouros virão. 0$ Portugueses na bpca do rio, &
aabiio q detro estauão os paraós , poserã,e a tiro dos
· npuos nauios & começarão de lhes tirar cõ suas bõbar-
das, & os mouros {} estauão detro acodirã aos ajudar,
& h(ls dü cabo & outros do outro comectarão dapertar
muyto os Portugueses , &. arrõbarlbes nauios princi-
palmete a Antonio da silua a <1 muytas vezes arrõbarão
a galeota. E ele como mpyto caualeyro i} era
esteue sempre qdo, ate q Fernão gomez parece li. poJo
eão Qo füdo Jeuou e.pcora & deu 6 \'ell:l pera, ir
pelejar com os paraós do mar,· & ho mesmo fizerao os
outros capitães. E ainda be eles nlo erilo Jeuados, quan-
do a mayor parle dos paraós q estauão no rio sayrão pe-
'a fora., & dãdo á vela cõ os outros se fizerão na volta
do .mar & & Fernão gomez nã!l os quis se- .
guir per a tQrnar • tomar barr• & nilo •e· ac•hassem de
aayr os q ficauão detro: pore nã lhe aproueitou , p«>rfl
os mouros desesperados doutro' acerto aqle, se
terã poJo rio acima ate õde encalharão. E esta noua (oy
ap estl\odo e Cananor : & p.orq COl
BB 2 .

196 DÂ HISTORIA. DA OIDIA
os para6s l} ficauA: se arrifaua muyta gl!te por peqna vi-
toria ouue por escusado ir lá, & J10r ser ja meado Mar-
& saber l} erio vidas naos de Malaca onde era oe-
eeasario mildar cõ Pero mazcarenbas, determinou
de se recolher a Cochim , & perl} auia necessidade dar-
roz pera as fortalezas de Cananor, de Calicut & de Co-
chim, m!ldou a dõ Simão de meneses q fosse carregar
dele a Braeelor & a Baticalá , &. mãdou eoele algõs na-
ui os de carrega & hua galé & duas galeotas &. algüs ca-
tures & · paraós ligeiros, & mãdoulbe q recolhttsse eõsigo
a FernAo gooJez de lemos & a Gomez martinz de le-mos
eõ os capitães com il estauAo ê goarda doa rios: & assi
lhe mlldou l} .quando se recolhesse a Cochim deixaS&e a
dõ loão d·e lima a gête de l1 teuesse necessidade. E is-
to partiose pera Cochim, ôde chegou a dezasete
Março , & en logo ê despachar . a Pero mazca-
reahas pera Malaca, pera õde partio a oyto de Mayo,
& foy em bü galeão de q ya por capitAo Ayres da cu-
nha q auia de ser capitão luór de Malaca: & assi forão
mais em sua cõserua hn fl3Uio velho ll viera de Malaca;
& hõ & dous paraós. E nesta armada mãdou
ho gouernador trezêtos & cincoenta bomês por saber a
necessidade em li fieaua lorge dalbuquerr1ue. .
C A P I T V L O XCI •
.
Do ij fe% dó Sitnáo de mentsts a IRli , ,. de CGrM
· recolhto a Coekim.
l)om Simão de meneses despoill ll partio- de Cananor
foy a Barcelor & a Batical·á carregar co1no Jhe ho
gouernador n1àdara ·, & fez ho tnais que lhe mandou. E
indo de Batic·alá pera Cananor com noue velas darma-
da. s. a em que ya, & ho galeão de Gomez mar-
tinz de le1nos, & a galeota Dantonio da situa , & outra
galeota & hila carauela, & dous bargantins de que erilo
c_apities Antonio pes·soa & bií Doaniogos fernãdez & dou&
L1VRO VI• OAPITVLO :XeJ. 197
para6s, topóu a monte DeJi com setêta paraós de· mou.
ros· Malabares que ·yllo tambem ·buscar arroz aos rios de
Bracelor · & de Mãgalor. E como os Portugueses ouue·
rão tista dos mouros foranse a eles, & ele$ vendo os. de
•upitó, & poJo medo que Jbe linhào das vitorias passa-
das cuydarão que erào to1nados & mostraràlbes ·as po-
pas fugindo quanto mais podião. ·E dom Simão, Aoto•
·llio da ai lua ,. Doaningos feroandez & Antonio pessoa &
os outros capitlles das velas de ren1ó derão ·a pos os pa•
raóa seguindo os ás bombardadas, & cinco vendose muy-
to apressados de dom Simão, Dantonio da siJua &
troa tres que os querião aferrar vararão na cosla & hi
•e perderi &-a· gente se saJuou, & Domingos fernande1
& Antonio pessoa que leuauão os nauios mais re:meyro1
aferrarlo dous para6s·, & saltarão· dentro & matarão oe-
Jes muytos dos n1ouros, & os outros saltarão ao mar, ,
onde · tambem for lo mortos & os pa.raos lhes ficarão , &
dos outros que · yão fugindo deles se .forilo na volta do
mar, & deles se acolherão ao rio de Marauia· que
defronte: donde 1e to parlo· com dõ Simlo, que vende
Gs meter n.o -rio determinou dentrar eoeles, & logo ·.fez
·êbarcar a gête nos bateys & esquifes & n&uios ligeiros
dà ar1nada. E rem-ando a boga cometeo a
barra do rio com grandes gritas & estrondo de troanbe-
·tas, & foy· recebido eom outro mayor de muytas bõbar-
dadas &. frechadas que lhe tiraulo algils paraos que aio-
tia Blo erão de todo recolh·idos no rio: & os Portugue-
ses que estauão fauoreeidos eoa1 as vitorias passad·a•
não derfto pelos pelouros nê free-has dos mour()s , & rõ-
pêdo perãtretes trabalhauão cõ os rernos por chegar aos-
mouro&; & ê cbegãdo deitarão dêtro Oli oyto· pa-
·melas de poluora cõ q·ue lhes poserão bo fogo. De que
os mouros .auendo grande tnedo se JãçarAo ao mar,
& os paraos ficarão ardendo ate que forãe àe todo qaei-
mados. E· nesta re.uolta Domingos ferna·ndez q·ue era
muyto valente caualeyro aeguio no seu •
·panhado de hil paratl de hlla nao , ou troa paraQs que se
J 91 . BA B.I'Dal,t DA i•••
aeolhilo pBia rio acima, .te .que queymou dGae COIII ,.-
nelas de p»laora., &, tirou 01 oulroa: k temeode
dom Símio que 1e pera..ae por ir tio soo, mandou a
Gomez martina de lamoa .que ya era bü que fot.
se apoa Domingos (ernandett & lao fizesse recolher: &
.foy tão mofino que indo a is1o errou bo canal por oade
eu ia -dir, & deu em seco dõde olo pode sayr, & acodi·
rio ali sobrele mouros da terra que bo mataria
é• frecbadaa, & a dom Miguel de lima filho- de dõ A foa..-
.o de lima eom outros quatro. E Domingos feroaodes
deapoi1 que bo bargantim aio pode ·nada.- 1e recolheo
pera a barra. E porque este rio era do J'eyno de
mor mostrou el rey quando bo soube que lhe
to de1tes aeye Portugueses que aqui- matario, princi,.
-palmente polo fctzerem aeus vassalos & raeo.lherem flOSt.
so1 irr1migoa & ()jJ ajudarem. & .ae .aluoroqar&Jil cõtra 01
Portugueae.. E por castigo ID'&IIdou .despoje -.atar ai,.
.gils 1nouroa lt Nay .. el que niseo forão & man ..
dou leuar os corpos mortos doa Portug.lleses .a· Eytor da
ailueira , pera que os maa.Iaue enterrar: fazeadoJhs sa.-
ber ho caatigo que fizera por ••aa mortes ' & diseado «1.
la ria mail ae foase neceasario. E. tudo isto íaz:ia porque
11o gouernador nlo teuease dele algila aospeita & por is ...
.eo lhe fizease n1al. E per dQm Simão s•a .pn.
te, ae tornou a embarcar Da frota, & Adou po.r aqla pa-
-ragem algiía dias .pera ver ae algüs paraós de
mouros a carregar .darroz, porque. ateli por tamer que 01
rios estaudo çarradoa cõ os nauios que disse nio ousa-
do Já de â.r neobil11, nê se poderão -.uytos fornecer de
. mantimêtos como daates fazião, que foy eauaa de no
. .inuerno aeguinte au.er no Malabar a mayor fome que
·nunca ouue, principalmente no reyoo de Calicut. E ea-
.ta foy a t.D&il perjudicial guerra que ae lhe .poclia fazer,
porque eoi&O disae Do Malabar nio ha arroz que escuse
:fome se ho ntlo leuão de fora, &·se ho gouernador se
mais ced.o goarda doa rio• mayor fome
.padecera ho zayno de CaJicuL E ventlo dom Simlo ,que
VIl.- lJel• · ttl
nlo pa11auAo mais paraós, & qiie ho iouerno comeCflU&
deotrar, recolheo se a Cochllll; potque 4•spois não po-
derião co1n ·aa toruoadas & foyse a Cananor: & prouida
a fortaleaa ·de. seu q'uinhão tlarrot ser foy .. á de .Calicttt·.,
a que tãbê deu ho arroz neceasarie , & quldo foy pera
deyxar algOa gente a donJ loio de li1na de que till'hfl
»êeessidade· por se esperar oeroo aaquele inuerno, oã.e
queria ficar hornê de qualidade , porq ho gouer,
oador não os que· ficassem.,· & port)ue .enfar
dau4o do trabaJho da guerra que est.aua certa. E vende
dom Simão que oeohO. bon•em honrrado queria fiea.r,
tomou ate eeoto & •inte bom ena desses baixos , & flOr
força 01 deixou aa fortaleza, &. fico\1 a fortaleza seaa
gete de vergonha ae ·nJo a que dom .Joio ja tinha qu•
erão seus parentes , amigos· & criados, & a outr•
Je. foy 1nuernar a Cocbim , onde esteue sem fazer ne-
uhuol proueito, & po"era fazer muyto no cereo que el
rey de Calicut pos a fortaleza, com q.ue eateue
JPuyto. perto de se perder : &,. milagrosamête a saluou
11osao direy a.diaale. E prouida eat.a fertft•
leza como digo por dom Simão, foyse a CoehiD)
chegou !lo priaAt:yro Mayo. • de.muytae;tor,.
uoad.as qqe lhe, &obr_eaierão ·no eamioho. E com tudq
despo11 de ele recolhido a Cochiau os mouros de Calicul
pola graDdissima que tinhão darroz ae aueo-
&urarão ao mar, forão por ele a Bracelor & • Mao,.
1alor de q lrouuerio algls .que se isso fort
morrerão de fome. E porque. os gen.tios a pade,.
eilo por sua t:-ausa lhes querião muyto graude mal, ,sT
pecialmenle Q& Nayres: que lbet1 dizião eada dia
nio sabião maia q fazer eatar 111al a e) rey de CaliT
.cut .som os Portpgueaea: & porem que _erão per.a
liurar da guerra que lhe faaião, & que eles os faziie
padecer a fome que padecilo & auiào de fazer perder
bo reyoo a el rey: & outras eouaaa tom qae 4J8
aDdapão mPy .
IOt DA Blft'OBIA DA IKDU
C A P I T V L O XCII.
1'- como f o ~ tttorto Cla,;,walo tk briw, §- 01 ouero1 ctJ-
pit4u dubaraklr4o tJS Justas de Dabul.
Quando ho gouernador se partio de Goa pera ir aCo-
chim tomar posse da gouernanqa, deixou a Frãciaeo de
eá ·que fieaua por capitlo ·de Goa htla armada de quatro
fuataa & aeys bargantta que ·bo gouernador mldara faEer
de paraós pera goarda daqla eosta ate Dabul. E a capi-
tania m·6r desta armada se deu a bü fidalgo chamado
Christoulo de brito que era alcayde mór da fortaleza de
Goa muy esforçado caualey·ro, & por isso desejaua de
eereir n·aquela a·rmad-a lltes q estar ocioso em G o ~ . - R
andando ele em goarda daquela costa, ouue por vezes
rnuytos recontros com frotas de mouros rle Calicut à
que fez m·uyto dãao. E andando assi íoy hü dia ter aa
barra de =Dabu·l , õde senfio sabida sua chegada ho Ta-
nadar mandou ~ o g o eneher de quatro cêtoa rumes sete
grandea fuatna & hüa galeota l} estauilo muyto bem ar-
m·adas dartelharia & eaquipadas de remeyros 8t por seu
"apitlo moor. foy hü vatête turco cujo nome nit soube
que ya na galeota, & aayrlto ·con1 dtaterminação dafer-
rare•n com os Portugueses que eeriilo ate cento & ein-
coêta & n1atarênos a todos, &. asai- como eay·rilo do .rio
'e forllo dereytoa a· eles, & -bo mesmo fez ChristouAo
de brito: & com grande estrondo .de gritas & de tiros
dartelharia & espingardadas se abalrroarão as capitai·nas
8t quatro fuatas dos rumes eom ontr.as tantas no88as, &
começouse hfla braua ·peieja an·tre os Portugueses & ru•
mes ~ todos pelejaulo valentemente •. E neste cõftito fo-
TAo fiadas a Christoullo de hrito juntamêt:e duas freeba-
das no pescoço q ambas lhe J>ftttsarfto hum gorjal de ma·
lba qoe tinha ·com. quilto era· fina .j & -deranlhe por tal
parte que logo cayo morto, mas nem por isso os Portu-
gueses deaacoroçoarlo , Ates com ho pesar da morte do
L14'1t0" 'VI.':CntrtrVíA . S.Qt:
seu eapitlo moor pareee -que se esforçarão'". :per a·. a;
ITingar, ·& com hií brauo impeto derl tio rijo. aos rumes
que o8·.-traTio por (()rqa ·ma·tantlo hikl &-fazendo aaltae
outros ao mar, de que despois ·os mais mortos: 1JG
outro tanto aconteceo aos outros ·quatro capitães ·doa
quatro bargantins que aferrarão com as quatro foataa
dos rumes: q tambem os entra rito & .axorulo, & oiJ
das outras v&do isto nilo quiserão· aferra-r & voltarão, -&
por ·se dos Portpgueses q yão apos eies derão á ,
eoeta Bde.'"ae as. Costas e&pedaçarilo, & a gafeota cõ ·aa
-quatro foe&as poder dos Portuguesrs , de q-ue
aeata llàtalha forão mortos <JÕ Christouão de brito seyi
& todoa os q af.errario forão· muyto feridcs, & dos ru-
mes forão mórtos a mayor E coes ta "itoria ·ll for
muyto grãcie pera qu&o· abatido• e&taoão QB Portugueses
por aqla .. oos.ta, & quã .sobérho& 'estau!o os nióbrOB bã.
as vitorias. paasadas se tornarão aqles PO!ttJ·
gueaes pera GE>a, ,de . q. F.rkisco de ·Sá a
ao gouelioador. · . . . . . · . ::
.
..
. .
. .
. . · C A P I T V L O XCIII •

I '
. .
•.

Aú MiltJgroso ftylo ij fiseráo t1i11te PDI'tu,gueses Wtl
· . · tllttJ 4e Ceilão.
Á.tra• dito Como·desfeyta.a fortaleza
de lemf)tJ foy derribar deixou -êtl'egues ·&
el rey de Ceilão :ho • q lá ficou , & ho escriuAo .. &:
quinze Portugueaes q ficauio eoeles, aési iicaullo
mais -seguros. E tornado Fernão -gomez á lndia, soube
Baleaeê -hü mouro de Calicut & pricipal armQdor dos
paràÓI (} se faziA naquele reyno weomo a fortaleza era
derribada, & .qulo poucos Portugueseà Jll ficauilo, &
pareceolhe q1:W poia flcaulo entregues a el rey de Cei.:
Jio l} .Jhos se pedisse. ·E ·coeata determi-
naçlio partio. pera Já. em ·quatro paraós em q .Je.uou bê
fjDÍ'Iblt<p d(! peleja. E cbegado·a .ColibQ.fo.y (a;.
LIVRO VI. CC
tOt . DA BI.TalltA ·DA -INDIA ·
lar a el rey· & disaelbe q oa pará deJrey deCalicut pe-
lt!jarlu cõ a. armada do goueraaàer da lnfiia: em ll fora
desbaratado & mor.to ce quitoe Portocue888 Jlo nela ,
pelo q el rey de Cocàl &·de Cananor & tod01 oa outr011
. da lndia tiuh4o çercado• os Portugueee1 li morauio 8
•uas. lerru. E por isto ser ••i el rey ele Caltcut Jlle .mi ...
daua rogar q Jlle mand&Ae al}l• fortugueaea 'l tinha
pelo mttanlo Baleaeê. Do q t'l rey fieou muyto
k não bo creo por lhe q os nlo po.
dião ser vêcidos tão a1inba : & disse .<J. aueria seu. coa.
E ido Baleacê mãdou chamar. ho feytur .&· eseri-
uão & algüa doa ou troa, & o lhe Balead
dissera, 18 eeria verdade q ao goueroac.
·dor da lndia era desbaratado. -E dea lhe uinerào .. q em
aeohila maóey.ra podia aer, porq ia ão"s' lj não •·
jiltara 1Ata gete· na lndia como êtio : & uaaia lj.o gou.er-
aador era wuyto esfur'CG® eaualeyró; (j ho Jlào,auião
oa. mouros 4e deaJbar.atar: .& ·q os mouros pvr aerõ
imigos dos Portugueses aleuãtauão aquilo. E por asse..
gurarê mais el rey, disseràJhe q màdasse saber aa ln-
dia se era verdade o q dfl.i-· BaJaaeê :. & 1e ho fosse q
ent!o fizesse o q quisesse. E coa1o el rey era bõ homa
pafeeetJJhe,· ,- lt disse a BaMtace q o.à<t · &Mja · detre-
gar .os Purlugueses a:le nã saber- se era verdade o
(} ele dizia. E cuydãdo ele q el rey nã l}reria tâto alle-
verdade, & li· diria. aquilo por se escusar
os dí•et ii wãdaase saber á lndia
lhe tM.ia •. i eJ rey. ho fiz, aui, eaereliido ao
o pasaau;l. E quando bo meaaegeiro chegou a
,. bo, g6luernador de de1truyr Coulete, &
vio, parOOs & artelharia- q toa1ara. E vido Baleacem
Cj ft!J nà Jhe '1-"'r,ia dar os, l?ortugue1e1, determinou
4e oa le1Jl3r. Jl'lr\ coafiado q por a geto· da terra
ser fraea- Jbe pvderia reaiatir. E porq· uão pude sa·
be• • como isto foy., Dão cõto. as particolari-
dadfla 4 · nislo ovue : aào· eJ se a 1odo· risco
moQtol 'par. àe.feader oa Por&uguea., a 4

,
I.JWae !rL·te•Prn:J.e %11111.. ........
da a ajuc1a .le 4 po4e: & ela aendo vinte DO:IBaia
iodo muyto dilte da g!te c6 que • el rey ajudou, .forle
"ometer .oa inouroa erio quiahlb, & pelejarão coeles
eõ hii esfor4to tão aobre aaturaJ , (l era cousa despllo
grldisaimo defenderi!.a tio peucoa de tãtos, quito maN
offenderêaoe oo matarê bl delea, & ferirê tillOI
oa deebaratarlo & 6zerlo -como cabras , & os 11
.eacaparlo.ae aoe>Jberl a doos paraós q tinhão no mar.:_.,
.oa outros do,UB eatauão varados & finarA:. E Baleacê se
foy mnyto corrido de ser deebara,ado de tio poucO'Il Por•
.tugueses & diaculpauasse C} al)la vitoria fora milagfoea.,
& l}.Siliago os ajudara na batalha. O .que se deue de
.erer aem duuida, porq n4o era possi uel q. tão poucoe
àesbaralalll tamaabo poder de gête ficãdo todos viuoe.
-E elrey de Ceilão ficou fora de ai hüa cousa: t-le
fora de natureza, & nfto auia barra q não fizeese .-
Portugueses, & asai ho fazião os seue, principalmente
.os Q forlo oa bata.lha q mais ae ocuparão em recolher
ho que em pelejar.
C A· P I T V L O XCIIII.
. .
Do .lj Jintm&ie de •iráda dflftUtdo fe• no cabo de Gotll'-
. dDfu• on Xael. . :
Antonio de miranda dazeoedo que ya pbr capit:lo m6r
da armada l1 ya ao cabo de Goardafü , assi fJera fazer
presas tomar aa duae naos de mádeyra yllo
de Diu pera h o estreito, ldou tãto por sua viagem q
ebegou á paragê onde as auia desperar, & assi as naos
· que aayaem do estreito. E JlOSl'()S os eapitãoe eada.bü a
•eu eaoo .vigiauase ho mu tiWo t!to ppdia vir. E
·andando &Mi , hüa iu1ta de tnouro.s Mala bares
-carregad.a de l1 ya rwra do q .foj
tomada: & despoia hü zàbuco (j -saia do.eatreite.pera
Diu earregado de mercadorias., & büa terrada ca CMMt-
JOI, & todo isto tomou Jê . .peJeja. E nestes., di.u q.op
cct

,AY"fHbl:l'"
.Portúg\leieà aqui ldarlo oftca aa uaos de inaaeira pas-
ao menos· q fessê vistas. E Yêdo Antonio de mi-
.-ld• fi se lhe começaua de gaatar a mouc;fto & ·q as naoa
·ntlo y'ho, nl qois· maia esperar, & deaferio veja cami-
tnho de .Xa.el seguido ho· oa outros nauio1, porl). bo mã-
uaua lâ bo gouernador a pedir a el rey oytêta b6bardaa
fl tinha de büa oao portuguesa lJ. ali dera á costa ·& se
,srdera: & asai algtia artelbaria l}·.ali ficara a dõ
:de ·meneses. E chegado ao porto de Xael, mido• reca-
-do ao·brissa a el rey, q oê·lhe mAdou fazer nefthu reee-
bim@to, nê lhe quis dar a artelbaria por eatar ainda ma-
goado do dãoo l} ali fizera dõ ·Luys· de menesea.. . O q
Antonio de mirãda, determiaou de se vingar ê do-
ae &aos de mouros <} estau4o no porto: & ooaneteadoM
eõ os ·outros capitã:es de sua armada desbaratOu OB IDOD-
Tos q as quiserão defender, matando & ferindo muytos,
&, queimou sete Daos, & as cinco Corão tomadas a fora
·hõa q deu á costa, & nestas· se achou muy rica merca-
doria : & porq ho galeão de Manuel de macedo fazia
muyta agoa & tinha necessidade qe se tirar a mõte,
màd9uho coelta· presa a Chawl recolhida. toda ê duas das
Daos: & assi leuou a terra da dos cauaJos. E chegou a
-C.haul a salu.amento: & Antonio ·de miraoda com os c._
pitães que lhe ficaaão ·se f()y iaaernár a Mazcate.
· · , C A P I T V L· O XCV •
.
De Martim afonso de melo jmarte· cliegow, GG ilha .
. '· ······ deBaudtJ. ·
Dorido a ·guerra itre de brito & el rey
Tidnre como. atraa dislie entrou ho mes de laoeiro de
M. D. em q Antonio de brito despachou· qaatrG
jongoa pera Malaca: & foy por capitão mór Martl afim..
ao· de ·IDeio juaarte e bit galeio q oorregeo a aua custa
-peta 8:8 ir :: & foy ter a Bãda ao dé Lula tio: &
por amer· da guerra· pa•da aão folgou a g6le ·da terrà
. '

LIN.RO' ·vt ..... CAPlTYLO" XCYI. &o&
d· sua vida·; antes lhe pesou muyto: & nlo se fiauãe
.dos portugueses, De queriã SUa CÕUerSB<titO : O l} tàbê
eles fazii. E eatãdo asai soube lV.Iarti afõso q na ilha de
hna das de Bãda estaua hü jungo da cidade de
Palane. q · estaua de guerra cõ malaca : partio Jogo
lá ao seu .galeão cõ determin·a"ã de ho flymar. E no_jü-
ge eslauão muytos mouros q qu4do ho .virão se poserão
em· armas:· & oõ .quanto não leuaua· mais de ate xxx
o.u xl. por'ugueses mldou q aferrassem o jOgo : & ê ehe-
g.ãdo lhe .deitarA muytas panelas de poluora, com q llo
.fogo se acêde9- neJe: & con1eçàdo Je arder os 1nouros
se ao már: & ardeo· ho jungo cõ a fazeda q era
JBU.yta: & em tãto os nossea analarào algüs mouros tis-
g.àdoos no mar: & como Mar ti afonso estaua escãdaliza-
de deetes de Blda Jhes coine'iou de fazer guerra cõ q-ue
os tJataua, IJlUyto mal.. ·
.
.
C A P I T V L O XCVI •
Do q tX&tceo a dó Garcia snriq• : !f: tJ Marà ajóso de ·
, melo jus&r&e na ilha de Báda. ·
Âtras ·dito como dõ Duarte de menesea sl!do go-
da India .a requerimento de lorge daJbuquerq
eapitàó de 1\IJaJaca, lhe deu a capitania da de
Maluee peta cada bü de seus cunhados. E vêdo lorg•
dalbuquerque dõ Garcia ãrriquez q era hü deles nl
.pldia seruir de eapitão mór de-1\lalaca poi ser prouido
desse carrego Martl afonso de sousa. E (JOFq pola guer-
.ra. q ele fazia a lJitão·, Malaca estaua pacifica , & de
Garcia· podi.a. ir fazer seu proueilo: de&erminou de he
J»àdar ·a Maluco cõ a prouisaan q de dõ Dua·rte
pera aer .eapitlo da .fortaleza por. lhe AnLonio de brit-o
:ier d!tes escrito que a queria deixar. E porque .Poderia
eer il A·ntoDio de brile se mudasse daquela võtade; &
»ilo .. quereria alargar àü ao no que ainda ti11ha por ser· _
uir & mais por a prouiaam que leuaua aer eon{usa Bt
.

/
tOC !IA HIIYOaiA .DI 1-A
poueo firnte , mandoulbe que ee ho tal acGteeeaae: qae
ele se tor(Jaria a Banda & hi Caria bla cala forte pera
que podesae estar h i algii tempo fazendo seu proueito:
& apercebeo ho pera hüa couaa & outra, dãdolbe •
aauioa redondos & hil jungo de coberta, & hüa !fuata
em q )euaria ate sessenta Portugueaes de pelttja a fora
marinheiros & bombardeiros, & partia peraBãda ea
laaeyro de mil & qui,.bêtos &. vinte cinco. R eltegado a
Banda Martim afoDIO de melo juaarte que.eata•
ua de guerra com 08 da ilha , ·de quem rez qaeixume a
d3 Garcia pedindo1he que ho ajudane nela: o q se ele
otrreeeo a fazer de boa võtade por ser muyto esforçado,
& lhe rtarecer q Marli afõso tinha t'ezão ê fazer
guerra. E acordarão ãbos de dou1 q ton1a18A a cidade
de Lotir cabeqa de todaa.as pouaações da ilha, fJOrtl ati
erá a força da & al}la vi!cida tod• a. ilha
em paz. E isto acordado , apercebe rAse pera isso, &
hil dia saltarão ê terra perto. de c! Portugueses & posa-
rão logo ho fogo a certos jungos que estaulo varados,
que forão queyrnados, & entnldo maia a dilte pera a
cidade acharão na cercada de fortes trlqaeyraa, & aJ-
güa gente que as defendia, & dom Garcia & Martim
afonao poserjlo diante algüs espingardeyroe que leat:ntilo,
& cometerlo dêtrar a lrlqueyra, donde lhe tirauilo •
tas frechadaa, ,,edrada1 & arremessos: por.em· cbegldo
os nossos espingardeyros fizerlo deaalioa.- algla ·gfte da
traaque1ra com que os Portu«ueaes coqaeçarlo dentrar,
maa forlo muyto poucos pera a gente sem conto doa
mouros que logo , & forilo tãtas as frecbada1
aobre 01 Portugueses que era eapã·tG, & aaai muytoe ar-
remessos, & dõ foy dom Garcia fel\ido DG pe8CGC(O por
não leuar go•jal: & assi forlo feridos oatros da aua com-
panhia , & por -isto olo passarlo dali & tornarlo a
êharcar deixAdo teytG pouce dilno aos imigos, & nlo
quiseri0· · maiw say·r ê terra, & do mar fazilo bn mal li
pr)(tilo aos iam & aasi· eateueri&e ate ·a mouctlo pera
Maluco como direy .a diaotw. . . . . . . . .
LIYJlO· VI. CAPrrvt.O · 'XO'ftl. 107
C A P I T V L O XCVII.
COIIlO M.nim q/ort8o de IOUStJ eapiUío mór do mar
de Malaca pelejou oom Laquesimeaa : g· de come Joy
morto com outro& ·
Botioclo el Dey Bil.io m•yto a que
ti atoaao de IDU&á fizerà aa OOBta de Pio & Palaae,
termiaou de se vingar, &. n1aia sabeado por s1r1as espias
00100 dõ Garcia aorriljz partido pera Bida cõ parte
da armada de Ma-laca, em q tàbe leuaua cõ o q
ficou pouea ê Malaca, ao IJ)enos oã tãta como era
pera a defensam de Malaca. E por isto lhe
pareeeo a eJ rey de· Bintào q tinha tempo pera-se 'in-
gar: & determinando de ho fazer, armou vinte lancha•·
l'aa grandes em que ylo miJ & duzentos. horoeos de pe-
leja apercebidos de ·muytaa armas & petrechos de guer•
ra, & .mandou por capitão mór delas Laquexi1nena, que
jurou de· lhe leuar a cabe'ia do feytor Garcia c.bainho (q
tão aaorreeido era ·aotre os mouros de Bintão) & assi
hfi. par dos da .armada de Martim afonso. E par•
tio Laq.ue.limeaa tão secretamente que· chegou a Mala-
ea aen1 ser seo.tJdo: se n·lo quando hiia n1anhaà dia de
Dossa senhora «te Marctf> chegou de supito & desembar-
cou aa dos Quelia, onde a. sua glle começom
tie matar & roubar .uar"gente da terra, q salteados· da.,
queia maneyra: Qomeçarào de surgir aleuantando m·ur
grandes gritas, que logo forlo ouuidas de Jorge dallMJ•
«JUerque & de Martim·· afuoso de sousa & doutros qu•
estau·ào na igPt'ja ouuindo- missa; E eonhecendo q aqui-:
J.o e•a rebat:e diann)igos, l.euantouse hõ valente caualey-
ro chamado Ayrea c.uelho & disse a dalboq;uerque
qae acodiasetn a aijla glt,e que ott immigos mateu·lo: &.
}Qrge 4aUiuquerque diese que ai, & mãdou por terra
Garcia· ohainbo cGm & ànlr-el'es ferAo
da ·eá,. A.a dagúiar,. Frilcisoo·boeano, Ruy··iQ..
108 : D.l RIIJ'I'ORIA DA INeU'- '
· bo, Gaspar velho, Simlo mendez, & obra de vinte ho-
da terra, & por mar mildou que.fossem Martim
afonso de sousa & Manuel .falcão em duas fuatas que
11lo auia mais nauios de. remo & rrelaw forao setenta'
tugueaes em cada htla trinta &· cinco, em q eatrar.ão
Ayres coelho , Francisco fernandez Jeme , A luaro bate-
lho, Garcia queyn1ado, Francisco rabelo, Gaspar ba,.
hudo , A n tooio carualho, lolo eerrão, partir lo todos
a. hüa, bis. per mar outr01 per terra. Eeiotindo Laqae-
que -os Portugueses yio" recolbeo .sua gente ás
lancharas-: & porque a nossa artelharia que esta.ua e
lhe alo fizesse nojo por estar pert(), & tãbem por-
que tirasse ·Martinl afonso pera ho mar .que lhe -não po-
desse -escapar fez que fugia , não se alargando muyto
dele, ne.m tirãdo nenhua artelharia porque nlo
perasse. de l-he poder chegar & se tornasse. E· Martim
afo.nso euydando que lhe fugia ho ya seguindomuytole·
do, tirandolbe · muytas bombardad:ls & dando· com sua
·genle grandes apupadas. E sAdo afaatados de Malaca
li.üa boa ·que era_ o que I .. aqueaimena queria: fez
ele volta seus capitães a Marti-m afonso .Ma-
muel falcão , desparando neles toda sua .artel.haria :. &
assi coo1o yào tirando assi os. yão cercando de roodo·
os tomari\o no meyo: k d.ãdo_grandes gritas come-
'iarilo as bombardadas de se amiLldar mais dõ cabo &
do. outro: J)Orean como a dos immigos. era
mais, asai tiraua mais bombar.dadas , & erão tio bastas
ct,ue estando .Aot.oni9 carualho., que.agora· he faytor da
casa de Çei.ta antre João serrfto & outro forlo .eJes leoa-
fios em; pedaços de dous pelouros,·& ele ficou saluo .. E
nisto O$ immigos se chegarilo tanto aos Portugueses que
cQm .as fustas, rnetêdo as· proas ·das
·•as por antre as suas ape.Jaçôes., ficaado com os Portu-
a oo.te de la.P'ia, & a gDJpe espada: & cada·
fpsla :de qua-t110 . .Janchar.as & MartiUI
.&, ManQel falcão coiQe"arão desforçar os seus,J
qqe.ill.l'q..uelea ,per.igqa t.amanhos se v.ia ho poder
.
/
LWBO-'Vf. 'Gt
de nosso se a ele, & que os
R aRSt ioy que nunca -os mouros os poderio
entrar, & cansados büs afastauanse & chegaolo outros,
-& ·todOs titildo espigardadai frechadas de fre-
cbas eruadas, Jàcfte darremesso de trinta palmos das te
& de ferro: azagayadas de paos tostados,
-& de caou· t.tadaa grande passada. E tudo
·is&o era tanto em .clemaaia, que aa fustas dos Portugue-
·•ea I eataulo tedas asai nos m•stos eomo oaa
.'Verga•, ·&endaia;, comas &. & muytos
-eataaão.pregados nasntesmas fustaa por n1uytas partea
·do eorpo, & pé mortos que não podiito cayr
-de pregados: & foy a mais braua & espantosa peleja
que I auaca naquelas- partes nem na ln dia se vi o, nem
em 4 morre•em tntoa Portugueses, nem que duraaa·e
tanto: plrqoe durou das duas horas despois de meyo
dia ·ate horas daué Marias , & forlo mortos corenta &
àous Portugueses , & Atreles forlo Martin1 Afonso de
eousa, .Ayres eoelbo, ·A lu aro bote lho, &, .. Francisco ra-
belo, & feridos oyto·; &·destes o que menos feridas ti·
nha. erlo tres, & este foy Antonio· carualho, & os ou•
troa ate dez.,. & . dos. mouros forAo m.ortos duzentos &
Yiote, que de hum aoo ·tiro da nossa artelharia morrerle
corenta & 1lous, & foy arrombada htla das Jlcharas. B
se a frota dDs fora de mais ve)ae· -olo eaca:...
para E veado Laqueximena morta tanta gen·
te da sua &· ferida·, .. & ·a outra muyto cansada, &·es•
da. Yàlentia dos Portugueae.·, mandou que
88188 a peléja , & afastarftse pera ho .mar: & a11i liuroa
,.., aaoher os que ficaulo •iuot. ,
I

'
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c • • •• ' ..
I.IVRO VI.
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'I
C A P I T O L O XCVIII.
I
. ' •
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oa imaigos que fica..
uio viuos muyto1 Jouu&r• &'MGifK) tlenbor por.
tão* braua peleJa· ·coaw Jl<tuel• 'ÍOJ : & a ta111G tio eã-
aados os sãos 0t1 feri4oa tio fra_., q.ue nilo quem
ae podes1e bolir: & -po1a· neceuidade t:iaàão ·• ...
forçarão ho mais -que poderão}pera •e par,ireab fo•
se bem noy te , & trabalbal'ea) porq thegaaaeaa a MaJa-
ca , dõde &e &cQilrão cioeo Jegeaa 1ue tanto aa .Jeuou 1
eorrenle. E Antonio oar·ualho •taaa meaoe fericio,
disse .que goatrnaria a fu8la·ef8 que eslaua &, a outra
.iria a eJa : & asai ào. filerL· E quis DCMiso aeolmr
q·ue ae fuatas liablo as vergas daJ.to, que sem iaao nàe
poderã<> det ál vel&t·, & forlo cõ ho terreaho ate hiia
lagoa de MalaQ& eede sur.gir.lo 4 nio poderio maia aal'-
àir por amor da aaré que vazatta, & ali eateuenlo e•
peraJMio ate ho· JUy.o dia poJa viraflio. E neste tlpotor-
aou Laquextaueaa· de mandar enterrar os sea 111ortos,
que forão ·en:tetrados tia ilha & apareceo .o mar,
& -eomo .n&o 8Bbia a maneyra de i} 01 das ·fwila·aticarão,
a& ouso.. de lornar a pelejar ooelea, temeoão que be
aoabclssebl de deat-ru7r : & 4da.aa balrrauêleldo a \lida
deles, com ·que lorge aa agaatou. muyto por
•er quao p•rto ·oa 'motl108 aiKiaUI·datl =foataa "& 'Viaaa Mlf-
tas , & Dão aabia aótne o4e ee !J4o .tei\Ja • •
E flarecendolhe aquilo mal, mandara de boa vt\tade ver
o li era se leuera algu parao ou fusta , mas ulo tinha
.mais que dous aauioa redondos de gauea, que tinhão
nece88idade de muyta gente, & receaua a armada doi
mouros l} andaua a visla, & por islo nio ousaua de 01
mandar: & as duas fustaa esteuerão ean muyt.o risco de
aerem &omadaa peJoa JaOUrQII se u comelerã , mas COIDO
t. r. el I '. ' ....
'
LftfM8 :v•.- cAtf'ftLó -xea. 11 t
digo oúwauilo. ·E· vinda a •iraçlo, Manuel falclo
maiJ.Joa dat '• velas & foyae per a ho· p&rto de Malaca,
& por eonsetlu) OantoDio carualbo ya a artelharia
fuataa pera que a dettpl.traseem em chegando
ai) porl) G8 da terra vAdo este sinal daJe-gria euy- ·
cluaem. que ,ao os PoTto.guesea vitorioso• & oio ouue1•
·• antreles· de se quererem Jéueotar. E
gaado as fustaa ao pottG que deepararlo a ar telharia ; _
aeedio· hge & bG aiOàyde moor t:om oa•
"troa euydando que ya ·Martim· Afettso muyto viwrieso,
se nlo qaaado vio t-anto• DJertos, & lhe conta rio como
paaara e feyto , & Yio as. fustas eemo· yão pregadas,
ehoroo com tristeea & magoa de tamanho desastre co-
mo aquele le'fa. E JlOrque a 'ente da terra euydasse
JliH) cu,OOu &S· Portugueses fiearãe .eom a vitoria, ·n!d
4fDi& que titnesem os mortos das fustas se não á mea
& for«o soterrados de·ntro· na ig·reja. E eoest-e
attdil ae encobrio ho desbarato dos· Portugueses aos d•
terra, ·a li dtzilo que Martim AfonsO' de ·sou·&a & outro•
·coRbeeidos qtte falecerio e&tauão doentes,· por-
fl&e es ·alo achassem menos.. ·
C A P I T V L O XCIX •
..
Do ij Laqueximena fez no : 4- de como se fo!l
. pera B1.ntáo. ·
Vendo que os Portugueses nã queriãQ
sayt màis· a ·pelejar , tletermiooú de se vi·ngàr tio-
mal. q.ae receberá na. gêt.e da. terra ' & royse· á hüa po-
de Mal.aca afastada hü pouco. do corpo. da .
de que se ebarnn Co4ascai' & ·desémbaroou ·ati ()lJ t()da
eua. gAta- E quaRdo-os tnôrad"res do
gêtios v.irflo fls mouros· sobre si,: rf'eeando ()·De os matas.-J
se&J , &e lhe· toa. eõdiç«o ·qae J,bee dêsseor·
u -.idaa & ·as· & ee ·irifto· eoe·Jes
quiaesM•· t1aaar. E
DD I
Zlt
sua armada eom molheres , filhos' & fazenda. E ·deep&
jãdose ho Colaecar foy lorge dalbuquerque auisadó dis-
so por htl Cbrist4o· da terra chamado )aoó'me, & · Jorge
dalbuquerque Rl4dou a Garcia ;,chainhp que foue com
&elela Portugueses & dease oo rabo imigofl se visse
tempo pera isao: o l} veria e.tD a hü regato
que corria por·a:ntre·.a cidade & ho:Colaaoar, · &
4
partio.
anoyteceod.o. & chegando ao.reg•to donde auia de
·terra., os Portugqelês tamao'o dese-
jo de pelejar· que Garcia··c,.âioho 08 · p6de
pera saber o os itnip: &t
to foràse. dereytos ao lugar dõde os 111ouroe &e
de sayr J& 08 gêtios embarcados. E quãdp sttnlirào
os Portugueses cuydando lj fossean mais, embarearanse
eõ muy la pressa & afastaranse pere· bo largo.· E ludo is-
to virão o8 com -ho grande lü'-r que fazia,
& não pode1·ão oenhü dãno ao1 O que ve-
do Garcia chainho , mandou ho Jogar a saco , em
lj foy achado alg\1 arroz com que se aJegrarlo muyto
por auer grande falta dele ê Malaca & ser muy caro:.
8t assi Corão achados algüs espigardõea & berq01, & . .hã
pouco de gado & assi algiía n1_ercadoria. E coesta presà
se tornou Garcia cbainao ·a Malaca , õde á mea
noyte, & Laquexin1ena se foy a Bintão deixaado feyta
em taiJ)aob.a· perdaa . . .... ·?
• o •
CAP I TV L O C.
. . '
De como · Bal'f'D"' rodriguu rapose Altuwo · brito-.
. Laque.simfna el de Draguam.
D:aqui oÍo sabeado el rey Biotão 00
gride dãno ·ii a sua gête fizera aos Porlugueses, & coy-
dltlo ela somêt.e bo rec;ebera deles, determinou de se
:el.rey de Linga .vezjnho de Malaca por ser
amigo ,4ol Por.tug411eses , & the· soeorrer cõ mãtimeatos,.
-mã,.loq IIQbr.,Je el· reJ 4• Drag·uim: seq · geDrro & Lai}-·
' . , " .I
... '
-
r,rv.«< •r. eA-Mnm c.' \ 21 r
simeaa- (W)fn •cento • &I l6888fttà' lanchara•: em 'que iriào
oyto mil mouros :bem armadóa & de nluyta
ar telharia· &·fde anuytas mlftlit(ôieJt.' E e&tes·
tâes ·cercarão el rey de Uga· por· 111ar· & o apert·auio
muy to. E· nil: se 41lreaêdo eia 'a ti da opreasam qae
lhe dauão 1 mãdou pedir sgeorro:.·a· Iorge datbuquerque,_
alegaodolhe 81 boas obras.q··Jhe tinha feytas em 'HII& oe-.
eessidade-.· E cotDO por· essa· causa· el rey de Bitão Jbe
fazia ··aquela guerra: & poeto que lorge dalbuquerque
és tau a. · tanta de por quão pouca ti-
nha· & em aioda ferida. E· cansada a nJayor parte de-
la:,· determinou (I e· Jbe socorrer pola lo en1 que
lhe era: & ·porque ·fosse exemplo aos outros a111igos dos
Portugueses que folgassem de os ajudar quando lhes fos-
se necessario, pore como em Malaca se sabia a grande
frota que··estaua sobre el rey de Linga, & os (lortugue-
sea·estauão cansados &·enfadados de tàta guerra: com
1nuyta achou quê lá quisesse ir. E ·com tu-
do forão cincoenta Portugueses nos dous nauios que dis-
àe, em· que forlo por capitães hum Aluaro de brito &
llü BaJtesar rodrrguez raposo natural de Beja. E naue-
gando por sua ui age , chegarão a hilas ilhas que estio
a tiro de falcão da de Linga, & ali surgirão por vazar
a maré & as an1arras das ancoras com q surgirão eata-
uão forradas de cadeae de ferro , porq lhas não podes-
sem ós ioiigos cortar. Laqximena & el rey de Draguim
q virão ·os nauios dos Portuglleses ficarA muylo ledos,
parecendol-bes l} lhes nAo podião escapar, & n1andarão
:fazer grã.des alegrias por tuda a· frota.· E ás duas horas
despoia 'de meyo dia DJildarão saber se era baixa mar de
todo pera irem pelejar cõ os Portugueses: o que eles
eoteuderão logo wendo hil balão que ho ya saber , & fi-
aerause pre1tes pera a peleja com muylas panelas de
poluora & roca a de fogo ·& eeuarlo suas esp1gardas l}
todos ti-nbà, & porq os mouros os não podessl· aferrar
cobrirA os · àauios cõ htlae esteiras de rota d·e gala
das ate a agoa·, & somente .as popas .
t t t J)A ••• ,..... •• .,.....
k proa. :8ctaalo•.d.eia•ber4M. E 1eade a
·os imm,goe oe Port.ueaea 6 Maa
batalhas cada eom gricle arroi--t
cio de instQrmeatDI de guerra,. que woaulo de 'filando
em • E Da i-aator.meatos aleultaulo oe
(&Ouroa g'ldea gritas., & a p01 ela canta•lo em
lia«oa ·maLaJa eo'Rr dot Ia YGI jazedea peisa•
aas redes:. porll a-ii .sem. duuida que· ai&Í estau4e
Portuguel88 , q\le cõ quãto vilo ir c8trel81 tamaabaa
sauuêa de aauios 4 oobrtlb o mar, ca tamanho estmõdo
Jao ,fazião, ... Estaulo todo• muyto e•farçadGs. aa
a esperlça em aoaso aeebor: k lao ptimeyró· iloml cp18
po1: tOgo a hu f-.lcllo foi A Dtonio earualhe que atraa ao..
meey·. E qws Deoa que acerlou em büa lancbera k ar ..
1omltou a , & l{ 01 Pottugueae• 4erlo hila gnlde. gtita ,.
dizendo. VilQria , vitoria.; li De01. lte cÕoMeo. E J.go
tira-rão outros quatro tiro•, & ar.rombar.ID .&
lhariD outras õae, em li íor4o "nortoa mUJtos mmatUJ. O
êj quebrou grandemete ()EJ •piritos aoa Oltir.as •. LacJaem ...
& el rey da Dragww. müado pQer' á
sua artelharia l} er& mttytos falooes· de • atai, &.faztlo
remar muyt.o rijo pera chegarê aQS· Portugueses & ee
ferrare: q eoiuo • • de os., matar a todos &. aiG
cõ a actelbarja ,. & quido forio .. pera ho. fazer DIIBDa po..
deriD apegar os por .amor· t1u estei.as: q aqle
dia detpoit • noseo .wahor do1 Porta-.
E W! parece él aUsericordiatlllea ina.-
piroll a41e ·ardi J1, por'-q. se os os •egl.do
erão muylos &· elt'l· pouce.• o §o •s.-para nbiL 8 •Aclo
Lalj.x.imeaa. & f>l. rey de Draguim () ole ·potlil alel'rat oa
Portu·gueses: 4eahonrr.aufto· as ·teut. de ·OouaiMios .. 8& fracoa
CQm q eles -.e: em tirar. fraohadaa 88111 oõto· de
,. &. muytas eepigardadps ,,k titoa arae-
meaaos. dtt «. aaagayes.fl cobrii:o ho ár, .peJca 4 ne.-
libiia .ficou ,oorpoa .. dos D'-oa ,oauios nA do8
111astos, ·nf· vagas .. l} 11aa fosse JWSA'* deles. que
ue011
4tWO t1A\tMi.b if. llô
·E os Portugueaes eom
·quar.to .. erlotcomtJaôdt)tJ n&> perdillo ho
aesfor,o· :tte ,,,&·. q IJ'f)ssG'senhór
.Jbe de chda··têz majs, titãito-:htrs· inuytas
..apingardadAs, · eati'0_8 pbl1ldta: '& 'OutróS
tCODI :roeu. os·
!lAto• não ·pent;lo·ll'énittl· t.iro, qwe cotn todos· fázioo inuY-
·to ·mal· aowr · ilirigoâ: ·ern· tanto· que desparitfo tri1 c a- ··
•llo: llb dezafiete. em _·qu·é mor-
reFio·bam lladtCMJ mou:ros :' •. que da Portugtleses der!b .
tbfta gri·nd·e· ·apupada. que eorridos· Laqueximena ·&
.e4 cte Dragufltl ,. ãpettarh eotn os seus qu·e se ehé'-
anats _aos nossos nauios.f & assi ho fizerllõ
-ate se pega ri C!Jeles de· totlo. E a batajba se renouou se
& pte:sea · tamtiê se 'BeTeeeótou no&
:etn. 'E' to mana o i\ nlunió
ôlftu•thõ- .. popa dü 'dós hOà paneJà
fioiUJ)YI ·per a a· hatr Jlcharas ·q a· teres-
da r rogõttthe ht\ gil qtJe J.ha· tie1sasse deitar por
mais :a\ ti r&·, tele lha 8t em·· A·fonso giJ· a
d . da parte dos immi:gos h tia ·
& qoebratidotha··cay<>lhe amf pês ,. & aeendeose: h o
eom· t} ·foy· queyn1ailo ·em· q·uantas partes
tuado, :&: o fogo•11e 'tJli" do nauio. E euy-
dãdo tjue àrdia ho naoi() derão htta grande
«rita, remetend& peta peJas duas f1ortinl1olas que
Jeinre, a: qu1t dós :Portugueses acodirllél
J6go ,'-& i.Coeles::ho· eont!estabre dO naliio que se passou.
diante de todoa flera dar fogo a d·ous ber"os que esta-
uão nas portinholas. E con1o ja os i1nigos estaulto sobre
os & f'rão muytos. não podia ho condestabre poer
ho fogo, & cô menencoria apanhou pol()s cabelos hü de-
les que-acbou mais á mão, & eom ho punho da espada
lhe quebrou os dêtes & vs beic;os, & d·eu coele entre os.
outros él estauão nas lancb.aras pera entrar poJas porli-
Dholas, CJUe vendo al}le tão 1nal tratado nA qu,iserã etrar,. ··
& os que entrauão despejarão: cõ o q ho .:oadestabre
cQfJII ..
tellje pQe,, hp
·bua , • llt:t\1 leuldo
• • · aü
k oulrt:t•.·ficl\flo ,{,.rW,..& J&letja-
do•·, co411 ·EJ'lt! tedQS .• tama.-
nho oaedp q .afaa,arlo .&. '"girilp • ·o•
brado• de .nê pera:que
a peleju; :. que. • c» .prouocare
a isso se a.fast&r4o, :& ae .fqrão· r•cebetndo taJB&-
uha perda,como &
arrombadas, .&. GWrtqs .&.fttridosaem
conto, SeD.J dos q hü •' auja
qoQJe Luys pirez mercl\dqr .. &•
dezasete. E fugi4oa os. iiJiigoa ficou despe-
jado, entrarão ()8 ap Jl&l P'lllQ. com muy·
to gride de gritas_. & &,a\lr(QS {jjy
el. rey de Linga com ,.eu. fifho g.Arto aos o•uioe.
tãta. de. sé .. ;e.t. &. df a sobre
patural tiio· q c;ho-
lhe diz\lo qpe·nlo
pantasse, seu
,krqUP. a . .cJe•e aa
de-: como .• fora.
fez & 4eixãdo 9•·· -eeguao {or-se pera
Malaca cõ muytas lhe, .. ele ·& cõ lhes
.c.ar.regar .os nauios de Slfg.u .h& hü PflO. de q se faz
pão, corno. diise, que pera aqJe \ t'IJ}pq era .a
cousa que ser pola grãde fome que· em Ma·
laca. . . . ...
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A. •
De eonul Binl8o 'ornou a jaZer guWra a lJfa-
. laca : do que fiseráD seys Portugueses.
P <:el· de BinUio recebesse· tamanha i\hra lb
eua disse·, nem· por isso·desistio da guer-
ra.l} M-alaca, porque fazia .conta que aioda ,que
alo. fizeae mais. mal aos Portugueses que tolberlhes os
mantimentos q e1te .era grande. E não contente
o.) Laqueximena por anar cõ htla armada, por
terra foy .ho,arrenegado que auia nome ·Auela.r coan o-
bra ·quatro mil q assentou seu arrayal obra de
mea )egGa.detMalaca: o-que muyto tornlêto a lor- '
ge dalbuquerque., porq não tinha mais .que ate cê Por- ,
tugoeaea & IIUlytos deles doentes·, & assi doentes os pu-
Ilha naa estanc.ias l} ordenou pera se defender dos imi-
g01l, porll· .dali auião·de pelejar a pé quedo. E estando
•i a derão os imigos hüa noyte de supito na
cidade doa.Quelins pola.banda q se chamaCampuchina
q de muro de madeyra, que por auer dias
que. feyto apodrecera a niadeyra de comida do bi-
.eho., & AlS imigos q isto sabião arro1nbarão hü lanço de- ·
Je.:dQbra ,de sessenta p.anos, &.quando cayo fez tama-
mbo -•rondo gente que dormia, a ll
pera vere o que era, & cõ os im.
migos que entrar§o por aqle boqueyrão matarão es-
tes acbarlo. diante & assi outros: & porq a grita
ertl g4rande ·pareceolhes q: acodirião os Portugueses, &
po' .. isso • recolberllo. pera fora leuãdo catiuos _os que
podeclo •. E . niato acodirlo· . os. Portugueses , . & dos pri-
meyros, .forão Nicolao de: sá, &. dous .outros l} vigiauão
coele a.poate: & assi.acodio Garcip cbainho, & outrO$
W\lytos.· E fazêdose _em no
não tornassem oa .. imigos-a q vendo ·q não
dil.o .. fqer nada e.e 1orão per a aeu c)lai:- · .
. .. .
LlVBO VI. EB
t 18 BA BIITblliA .. DA. IRDIA.
nbo ficou goardando aflle boqueyrlo ate ll foy manhal,
que Jorge dalbuqueril .fto mandou .rettaurar. E despoia
disto corriJo os tmigos muytas vezes á cidade, aasi de
dia como de noyte, pelo qu• erl oec.._ario estarem o•
Porlugueses sempre tigiãdo ·IlM das armas
vestidas, quasi nl dormindo nunca, & comendo may-
to mal pola grande falta de maatimêf.OII lJ e.ta ... E se
Garcia ehainho oAo ,f(jra q daua ele comer a aauytoa .de
todo 11!o come rio , porque comG era moyto ·ricG aã 5•
tin1aua dinheito por auer ma•timeartoa, & ho!••mof_.
zia Jorge dalbuquerque, que auia muyto grande d6 dai
Portugueses: a que chamaua martirea poAo gr.aatle tra•
ba.lho que leuaulo, & dizialàes que JM1o aabia cem q tbea
el rey pagaria tA to aeruit;.o, & quido oa wia .fendo• e&.
solauaos muylo, & dizial•he1 fl prouu•ra a·f>ees·\que fo-
ra ele o que recebera ferida• ·por aeruiÇG ela
Deos & del rey. E coislo 1e esfofti8ulo wdoa it eolrit.
'JUan ta fadiga padecilo, & petejauio de mode C!JUB van•
do A uel.ar quão pouco fazia se recolheo pera IJemagia
Jlü lugar sete iegoas de Malaca, &. faaia ás. Ye-ta
1uas corridas. E durldo aui e&la guerra deu ho A.UeJar
hü. bãq.uete geral em que oa·princtpai& ·de ura"al•seem-
bebed:artlo , & despois de bebadol ·•e tomàrào a.: miloa,
it se derão a fé de izrem correr a MaJaea & a ca•
Garcia c & .a polo g.raD·
de odJo .ll: the ti n blo pola eauaa ·qae üae; · iFeyta esta
proanessa , ·embarea·Jfise este• que -di.gto eolb OlllP4llfl 'q ...
forilo por l'od·os ·J.uzentos & &eS8eDt'a M-mêa 6 cloze -.eJ ••
•· lant:hanbl , para6s -& ealaluzes. E ohe81do a ·Jdl <ri•
tluas legoas de Malaca , meteraase Jrele· por aer :muyt.
•ubct.to & deixa,ndo ali ·sua ,frota
i>ranse â Nafa:ea., ·& postos em \cilada INadario •orrer
tnooçles '(. q.ue assi ehamào .a-lmO§&uern) ·11.
fites forão matar eenas vacaa ·que a:ndau&1) pacendo,
pera. ôs PortuglJieses I h@ aayrem &·eles .os Jeuar.@ ;á ci-
E· ré bate· 'ila Jfortafeza, sa,.o·&di'Cia ·tbainbe
Vi 'éleea ·qtte · peclerlo .&, 01 ·CÕ· aede 'f•
•.
- IJIY&O 5119
C)S Por1upeses os n&o virllo: & tAmberO
!CÕ bastidAo do mato. E veado Garcia cbainbo
,que ·n&o ninguê·, tornouee & os outros
&fl18· que antes que ele fizesse volta se apart.arãp
'"-do cor.po· da geate per hiia vereda, & por isso não
tirlo torraar Garcia chainho & paNarão aullte, & este11
Fr&Beiaoo correa, Ruy lobo & ·OUtros qoat.ro a que
os aomn. E indo por aquela vereda .fQ-
.. r.ão •. dar na cilatla,.& velido.tanta gete como disse l} era,
...quiaerl fugir .1e não fora por Francisco CêrreR, aJem
;de ser ,m.uy esforçado caualeyro ya doente & fraco & vio
-que .se. os-outros fugi1sem que ele nlo auia de poder fu-
gi!' · & q b() ao ião de matar, & por isso fez coeles. que
·Dio· · fugiuê & pelejassem : dizendo lhe• q se eles este-
-uerlo d••canaado1 que fora bA fug;rem porque ho pode-
<l'ID maa tão canl8dos coiQQ yão q era escusado ,
:porq os imigoa os anião logo de seguir & os auião dai ..
-el4far & ma talos : por isso q melhor seria pelejar fazen-
-dose .Cnrtea debaixo datllas •ruores, & que ser
lhe& acodiria a outra gente. E parecendo isto bê
:aos :aatros, meterlse todos. debaixo de hüas aruores l}
·ehamie ·ramhosteiras que se parec@ cõ larãgeiras & asai
.aam çarradaa, & dali comec(arão de tirar aoe imigos com
espiagardas tinhlo, antre os quaes & fica-
.xaa. hü· peqno escampado. E os. imigos q vjrão aqu·eles
-poaeoa tirarlhe., orerão que; ho corpo da outra ;gente
tdeaia 'distar: ali k ·que. se encobria cõ ho
.-caiato q.. ortDilo 11ilo quaarlo de sayr todos .a eles ,. &
·tirauilhee muytas frechadas, & :de lhes
a .oooiça .de .os matarPm. say.ão de quando
·quando· DQra sete oyto -desses que se linhão por
. .meJhoees·;oauaJey.ros ... E. os que 01 v ião tiD
:peaeea:.memetião a.peiejaruooeJes & sempre matauão al-
gia· aã 8. danças eolli as ,etpin.g.arda&. E em espat)l
!de. hüa. nota(' que .duraràq estes .cometimetos , .. forlo JDDJi-
JtOI'"'JJZe: dm .. Jlriraoipai$ dos a fora ootr01 mu,-
:que feridos, & ôos mouao huJP
EE 2
· 220 \DA HISTORIA ·nA ·JtmiA
.que era· bombardeyro & foy morto por ·eril
• que quisera tomar o a bum doa mortos & pregariao eó01
hüa azagaya e1n cjma do mgrlo., & foy ferido Frlciaco
·correa de hü.a frecha que lhe atrauetsou ·ho pe'JIOOfjG, &
assi pelf'jou sempre muyto eaforc;adameote.· ·E vendo 01
·immigos quão mal os tratauio, ouuer&o ·pOT seu barato
·de se ir , & idos foranse lambem 01 Portupeaea pera a
-fortaleza leuãdo Fr.anciaeo correa: & eõtarão
a lorge dalbuquerque o que lhes .. ac;ootecera, & a ele
·lhe pareceo bem que fossem apoa oa immigos, &· mao-
dou a Garcia c bainho, q foy Jeuando algüs
& gente da terra, & poJo rasto do sangue que eramay-
·to foy apos os immigos ate sayr do mato á praya onde
estauão, & tanto que virão Garcia cbaioho poael'àae em
som de pelejar , parecêdolbes que Garcia chainllo ou-
.uesse medo & que os. não cometeria: ma• ele que aio
desejaua outra cousa se não pelejar coeles, ordenou sua
gente pera i r dar que eles vêdo fugirão ao lõ-
go da pray a & nlo forão per a ho rio porque os· nlo eu-
tendessem que tinbào ali armada: porem os Portuguo-
ses os entenderia & a buscarlo, & aeltandoa. mandou
Garcia chaioho arrõhar os mais dos nauios, & ·oe peque.
aos mandou os para a cidade com a gente __da terra. E
isto feyto tornouse pera a fortaleza por tena em anoy-
teeendo, onde chegarão ao outro dia pola manha&, o&
dali por diante fazilo os immigoa suas cerrid'as aa eida-
.Je , aasi por terra como por mar:- porem nl& .. (ez mait
notauel que os que digo, & 41uroa a gaerra ate a
ehegada de Pero em fJUe. os PertUgue•es
passarão tanto trabalho & fadiga "JU-to \Dfte ae pede
o contar, •igianodo sempre de aoyte, & alo.àeimindo de
dia, & eatando de contiDo armados· ás ehwaas·& Y-Mm
& outras vezes ao sQI = k aem comerem maie-queuJ'81·:
&· carne ou peecado de marauiJha , por.que 'poJa estereli·
dade dos n•an time·Dtoa nlo se podiào ao e r-, &, valia. h (la
galir1&a tres er.uaados & ttuatro,. it faaia! cinco· que• a
• aoa quartos porque daua !'- deacaida .... par JJoy.& 11
DINRO YI' GAPIT\'1.11 Clf. -tt-1
datbuftueJJttue &tGarcia'"cbainho qut da-
·-a&o: Jlle&& · quui •
aioda •i ·mõrt:erle:tlblzaototi: &. -çoreqta
.a· feiTo;·-& da foiDe•; doeaqa de1poia
;C)•• Martim. ••o r8Qtll&( ÍOJ'. em , Malaoa. . : ..
r I •
• ( • •• ,' • • I 1• • • 'f ) "'' ,, '.· '
- .
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• • a
. .
. . .
t 14 I ., ... ,.. (f :. • •
. ..... , ..
••

-De • Jhro. ·foy· otwegud da· copüanifl
. . .... , .. . • . ' .,.., .... \ . . •
... , - f I • • ' t Plí .. ' c • : • • • •
·p a
·da que di•e D&ue!'aDdo · por· sua Viagem (opOtt CÕ hüa
·uao inoúroa de <Jambaya que foy tomada •pelos Por-
-tugueaés, em my achada m1;tyta E Pero
dela al2-Mafaca. a Diogo chai-
..ahe' que .. ya; pór feytor de! Malaca, a. que chegou pri-
·meyro que Peró mazcarenhas. E sabido· per Garcia ehai-
•nho seu •irllriJo. ·como estaua no ·pottó foy por ele á nao
'ém hum calaluz ac9mpaohado de treze homens boDrra-
·dea,. & jaiYeitido.tAo'ricamête que 'a espada·que }eua-
oa·.cdm.aa'·cintaa·tioha dous mil cruzados dovio. E em
·iaiodca do· rio · ·ho calalu%' & morrerão quantos
yiO ·neta Jalue,h.'f.t neg110.:! & acabou Gare ia ehainho
tenllo · feyto tan lo ; aerui'io a Deos & a el rey, & ficou· por
fsua! DH>rte groaeilaima· faaenda: & de tudo Diogo cbai:-
-•ho. tomOu· E. uiato Pero mazcare.aha• _&
·per• •írtukle da prouiam que Jeuaua lhe ... entregou ·lorge
.d .. qiJUIIIKJIIB a:capitaaia de Malaca\ k eomo··fo1 oapi-
·tlo,:JDindQu Diogo· ebaiDbo por se meter JK>I-
tíe .. dá•lazenda de seu irmão sem majs.autoridade de j.ua-
& eéJi"o aae ·fazenda. obrigada a el Rey pelo ofl-
feiet •l) tiaJta, ate ·dar eõta. E ·despois. ho màndeu preso aa
CJUaoto tinha, em ·•e Jiarar •. ·E passa-
de• deiJIOia· de Pero estar de
• • CI;)ÍD01el·rey .de ·Bi'átio lto aoube,. &
giM "''•••·•• Malaca, porque DA
Di\ IIJWICJ.M) DM IJtiWW
oa· Por•agueeee ·to• ele ·par seu ·m·edo: disi•
tia da guerra tOinou·.t•ge·a ele; m .. daMoigête·porm•
& por terra que· f01tau. Coatalcla t. 'Ma
zillo. E oa portvga,-.;loenariO aóa .itabaibos1 da
ra, & continuamlte ·ellt•Ao arae61ôs .quão contUaos
erã:o os rebates que os immigos· lhes daulo, com que
sayilo a pelejar quasi"tada dia. E
muytas vezes a estas pelejas: & sempre Deos seja lou-
·.uado leuaua ho MiJID>r dos··lmtgo&i qttã •h muy·
to n1ais que os Portug.aeséa.· :hfí dia saindo Pero maz·
carenhas a pelejar prendeo hO dos capitftes dos in1igoe,
& a11si outro had, q!MJ ambua
mente: &. deapoie de pr.esoa· eapifdl() def:iiatar
·a Pero mazcarenba1 cõ bií crjs, . .e lhe. não· bradu-llo ,que
se guardasae: pelo que logo Pero maacareG.IIas. ho mal')w
dou deitar. fio. terraclo torre :baim.. i
ho outro l}rêdoo meter· em lM1a pera .. a. deepa-
1'arem· c·oele 8t m.atoo ho & ea-
tlê lto E durando asai esta. por • Pero
-mazearenhaa liurar ·dela,· & dar .que faáet.a el . .ey de
Bintilo mldou • Ayres· da cunha !capitle·'-'! mir
-que =se· foste peer aa .sua .barr• coin· hald&,galeio.&·cel'-
:taa. fustas com que 1:beí tol:h ia mantilyieo ln&• &1. ai .mef-
·eadorias, & ,anaz a 4ambe.m
1
•tempo chegou .,a
da ilba de Banda. darifJe ... iat.ie!nara .:· ··ia: F.ero
mazc:5reabaa .lhe. pedio: .que} ,OiiJ,jJól na-
·quele ·tempo. q· fosse. faJJer :guatra ·a· ef rey: da.
-que, estaua; lellfiniado: ,or)mo ·diaae .... E•OOID• .quaaw
·Marum··afo•so 4ó ·que,iara.fe-
-rido .e ui .Maluco, por. tey. Mleátour:a jdâ, &
·:lby • JGoor de
lBaltesar :MDrigaezJ .Jín ·nauude gaflia,
·lt·ilil: Uuya.·br.án.dão. que. ya em. hqa .&, d•atros
:quatro C8fJitiee .qoe·!Yãn, titl &nehar...., I
=&ot& dazeil tos: l?ortogueaes se·íny) to ·a> df!
_.Ó.Widaaep jtin!ôí •
CâPJrYLQ· Cllf· ,11·
t:e .,. esat .da .terra: ®mo .dQ1.ttrae part.ea,
todoe- G& por- furça dar•nas ma bando &, .lerindu
immigoa tfern dQS mor1-er ne-
Bilu•. ·E el rey de PatBue aasj apertado, m-·
dou pedir .pazes a Marti2.u" af()OjjO: :Otfreee&•dose a
wdaa as ;perdas ·que QB,Potlugut!lmi rt,jobào em-
aea po»to, & obrigaoOOse·.a olaad&r aMaJaoa· os.manti ..
meatos ;que· capitib de .Malaea quiaesse de &Ua ter-
ra:.& • 1l$··eascos
tomados •. E i•Ló jurado .&.·affirmado, cour.
pl'io tudo: & Martim·,àfonso. se toroeu .a Malaca, doo·
4e ·se foy des.poia aa,.India •.
. . .
.
C 'A P I .T O L .0-- .CIII.
f • • • ., -.,a I :
De o.mp dó .Gmtad .eáegou. á jorlaleza .de Ma-.
· · luco.
q er.a· a mouç1io pera Malu-
co., 4fl1'ltAPI8 II91D. Gar.:ia aorriitz da ilha de. Banda oo ..
deatawa· . à. melp E indo \por
tY4age •heg.eu a•: ilha àe 'fez na lo a tempo que An·
.tonio Jle bri.Lo.qu-enia.>mliDdar dlobre bo.lugatt de Damafo
f. era.deJ: aay; de :riuore..· E .surio • no por lo
de .que· he ho JlGI1&io tios joagm. & naos, dua1
Jegoas da fort.alt'za, mandou notificar a Antonio de bri-
to sua chegada-' & eoaDo ya iJOI! capitão de Maluco, por
iaso que lhe despejasse a fortaleza porque não auia de
lieillalllaaaar.ate tlão. fel .deapejada",,E-. .. A.ntooio de !>rito
\'e o do est.e reladn 1Lão •co ·ea;, lhe não dar a for-
taleza. E cõ tu.do auandoulhe dizer que fosse a ela k
EJDe •reta. odCJ'*" lo11e ietuiço . .te'J r•!Y· E dom.
GaNia .llio ,dir·sem primeyra Ao·tonio de ·briLct
lhe ee.pej;Ji.a • • r.eeeaua. que
aaoàe .all&e8 de .aer .. deapejMaa .:Uaa: ,nio en·tregasae, &
••i• • • armada. 'fD8 hwa&Ja., &, por isto não·
dae • · • .. 'ho oi aeg.ur.aaaAa,.,
tl4 J).l BU'I'ORI&:,
tonio .éle brito, ·que, ho. ·receoo.,....,, muJ*D.
ta & bo· Jeuou a .eémer. coele,· .., feytess &..aloay;
de moor. E acabaado de oomer quite.rá dclm que
1'ira logo Autoaio de brito as IJ(Jaa :prooie6ea, & lqua Jhe
entregara a fortaleza, & Aatonio de • E
despois de dormirem aa virio-:aeacio •
& ·alcayde moor & o•ti'OI oficiaei da .. foftlatm,. E lidas.
as· ·prouisões, diaae· Aatoriio de·.IHitp;\ .,ae .q..Uo
ele podera nio entregar a Cortaleáa. a dõ.Gareia per: •·
quelas proui&aea leuarem algilae. Jop·apoa.•
too , que era contente de lbe: eb.tre§ar a .. CortaJeza,, •
que não auia de ser se não no Ianeyro ...
a pera se ir pera Malaca. E porque dali a la· ·
neyro auia oyLo mesea; disse OOm Gaéia não que-
ria entrega, & requereo .ao & feytor
que- lhe ·fisessetP • fortaleza. ,E .pak» Dil
quererem fazer, & ver dom Garcia que era tempo per-
dido estar ali mais , fez suas pro.tea,ações & foyse perp
sua arllladfli E. deapojs dJt 'lãa • • ile .• Jx.ito.sa
coele, que.' por q.uanto •
meçado que se acaba ri• nó· A.go&to ••guiill.e,(I.Jae·
gari a a fortalma, & "fJ•e:.êawe tao:to.ae·.(Oise p&!
ra efa, & eat·ariilo: ambos • que dõ
O areia foy. lt bgo. s8Jfo'i pera·a·(forfJaleza ,,&
eatiaerio m.oyto .. a•j§o• em tptiO elde .. : 1 '
' . -
6 • I I
1• I , 4o I •• ,
I. .. • ,J • I I! • .. J ' I j • ' • J
_c. A· P I T O ·L O.,·CIIIIt. •. · 1
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1k · como .. IJNtr.atlo Jw,, inuet;nti 1.8 '"Clzliait ·•••
· fa•n guer,..a Jó Iello·*'litaa•·t ·· .· J '· .• •
E rey itin.ha
ra. aa nos1a. fertaleza &. tomafa como ·dis&e ,.t,..,; ptW··.a+
segurar dom lolo. que· perde•e • pta•dou
kü mouro chamado. LambeptapMim··.oom. bh.tcar.ta. de
crença ao pame•, •
• coadiçõea com que .u fát:er'
' .
'
'
..
'
,j

LI"-RO \71. Ct.ttt. 226
pera ·que ho gouernador perdeese algü receo se lío. tinha
da guerra, & .se descuydasse de prouer· a fortaleza co-.
era necessario. ·E este mouro chegou a ·na .fim
de Mayo, & deu ao gouernador a carta de creocta q.ue
Jhe Jeuaua dei rey de Calicut, & di88elbe. o .que leuau&
por as pazes. De que ho gouerttador. foy
contente por da. guerra que esperaua de faze.r a
el rey deClbaya, & disse ao Lambeamorian: lj ele não.
faria pazes com el rey de Calicut se não coestas condi-
que au·ia ·cte ·tornar toda· a artelharia que tinha
dos Portugueses, & lhe auia dentregar quantos paraóa
auia em seu ·reyno, & nunca mais se auião de fazer
tros. E assi lhe auia dêtregar certos mouros que •
nomeaua, que forilo causa de certas trei<tões & mortes
que fizerlo a Portugueses , & queymarão a igreja de
'&am_ Thome de Crang_anor , & que auião de pagar ho
dinheiro que· custasse a redeficar. E que hü •
gêtio chamado Calurte e·anaire que ajudaua el rey de
Cocbim na guerra q tinha cõ el rey de Calicut, auia
ficar amigo dei rey de Cochi eomo era,·& bo au·ia dN-
j-udar.como ajudaoa. Coesta reposta se partio Lãbeamo.,_
:rim pera el rey de Calicut auer de confirmar ;est.as ·pa..-_
zea , & mild·ar disso hfi eontrato -assinado por ele ao
uernador.! & como tudo era fingido não ho mAdou el
mais nê nenhii recado {)fltro, antes parecêdolhe q·tJe ti_;
mha tempo para começ3r a· guerra por ser eatrado .ho in.,
em que fazia cõta de nilo poder ir socorro a
João, mãdou sobrele ho seu capiuto do eampo & ·ho ae-.
mhor da serra com doze,m·il-bomAs de·pel.eja, ·pera que
entre tanto que· ele ya cingire-m a fortalezA de caua-qu•
ehegasse de mar a mar, & assi htla trincha,
gente de suas .estlcias se emparasae nelas da artelbaria;
dos Portugueees , & coeles mandou hü Cezi1iano arre .. ·
Dttgado mestre de ea-mpo que era grAde official dartefi.:
çioa de guerra, & andara no campo do turr,o quando
esteue sobre Rhodes. E chegada esta gente a Calicub
foy hü,_ dia dar viata aa fortale1a, :tirandolhe muytas a.-:
LI\'BO VI. FI'
126 DA fiiS'I'ORIA .D4 INDI.& .
pingardàdas k frechadas. E. por amor da art.elharia d•
fortaleza q·..e começou de varejar nio se ousou de des-
cobrir muyto, & tirau4o daotre casas derribadas & pa-
redes velbas que estauAo perto da iOrtaleza. E dom Joio
fiOmo era diase ao• principais que es-
tauão coele que aay•em ao& mouros,· porque cuydaasem,
que os não ternião : & aasi ho fea Jeuaodo diãte os es·
pingarde,ros que tioba, & deu tio rijo neles que 68 fez
recolher pera dêtro da cidade, & ele tornouae aa _forta-
leza , que tinha bem. prouida com receo da guerra de
muyto caruão pera poluora, & leoba pera fazer outro,
de muyta pedra & madeira pera repayrar oa .muroa s•
tlisso ouueue oeces·sidade.
C A P I T V L O CV.
. . .
Ik· awNA 01 tmmrp de. cercar tJ forllilaa tle
· caw,u aBsen,arem· sUGs
E loge ao dia ante manba4 oa imigoa
com muyta gente de seruiço q41e tinhão dabrir hüa ea-
ua q.ue Da· guerra pa•ada comet4arlo dabrtr; i) da ban-
da da cidade· da rua dos toroeyroa & y.a, de-
Eyta. á"' casas de Oqarte .barboaa : & asai começariD da-
brir· b4laa trincha q.ue he eaua em \loltas, qoe
do càllO. dos.·naainatos & ya dereita á rua da China cota,
li na Jargura .. d.eJa. cabia bíia fieira. doyto bomêa queca-
uauék>:: .&. com ee1110 diue de cingi-
li a tVJtL4Ieza de.a.ar .&i mar. loão que ho eoten-
tMo ,. por Jbo estoruar: dando-
11161 · dia •Qytoe rebates, ê qutt- seatpre os Portu-
IUa&.es. aJgüa :· & porem. eomo eles erio muytos
INl d.e leu.ar sQ& obra auaote. E ealeodêdo
q. Q(a pera. lhe tolh-erem ho socorro que lhe ilaae,
W.& hua ·DOJ(te Qoa c;:onse1he dos fidalgos &, oaualeyroa
estauão coel·e Q:üa de pipas ebéaa de· terra· que
d·a. fortaleza ebtgaua. ate: ho mar,. & por oi-.
-- ---- ---
LIVRO VJ. Cl'. 2,7
ma de1as liüa trãqueyra muyto forte. ·E dali·.por diãte
mandaua di·lolo vigiar de noite _esta couraça porq lha
Dão quei.massê: & despois dela feira ,porq a feitoria ea-
taua fora da fortaleza , & assi bo almazê & casa da pol-
uora : & tudo o l} estaua datro corri.a risco de ser
1Jlado., recolbeo dõ loão ·tudo na fortaléza, sobre o q te-
ue grãde peleja cõ 91 imie;os lllhe querião resistir : mas
sen1pre Jeuauão ho pior.- E despejadas estas casas fazião
dali os fJOrtugueses muyto dãno aos itnigos, tirandolhes
por espingardeira& muytas espingardada& quando corriA
a fortaleza, ij era quasi c·ada dia: & acabado de se a-
fastar@ saltaua dom loão nas cauas l} os in1igo1 faz ião,
leuldo os seus muytas panelas de poluora. conl q quej-
mauã muytos. E coestes reba.tea fazia dilatar l} não le-
uassem as cauas de mar a mar. E a fora este mal rece-
biã os iinigos outro.s .da nossa ar telharia , . que lhes fazi_a
· muyto .dãno. O. ll ho Ceziliano q disse , mãdou
, cobr-ir de vig·as muyto grossas, o q era aberto das
·uas : k assi como vã.o abrindo assi ho cobrião: & isto
.,
porq a artelharia da fortaleza não podesse fazer mal aos
imigos: nem oa Portugueses lhe não fa-
zer tãto dàno como dantes com as panelas de poluora.
Porem . dõ João não· deixaua de os .saltear cada dia , &
ae teuera mais gente da q tinha següdo era esforçad.o
dera batalha aos imigos, .& os fizera de todo deixar as
eauas , mas nil tinha mais de trezfttos homes. E como
cõ tão pouca gente rulo podia fazer mais q pica-·
·das , leuauã os imigos a trincha ale a rua da China co-
ta õde acabou, & ,ficaua da bãdR do sul. E por indus-
tria ·do Ceziliano começa rio logo de fazer· ali hií repa iro
·pera nele· hü trabuco com q deitassem pedras
n1uyto grãdes na fortalesa em quanto lhe não dessem
bateria. E posto qtJe dõ Joio não presumisse ho fim pe-
ratq era ho repairo,. pareoeolbe bã com cõselho i} sobris-
so ouue de estoruar ·ii bo repairo não por di à te:
pera q aayo fora-da fortaleza cõ duzelos Portugueses-.
E Wdo- •• coin os . .cento, mandou a. V asco
FF 2

.
ttB . "DA 1118'1'URIA JrA
de lima·& ·a .. Jorge de lima q eada htl com cincoêta de•
sean por 8U8 parte DOI tmigol q eatauio em goarda dos
i} fazi4o ho repairo l} seriio·bê oyto E uai ho
úzerão com ta&nanbo impeto il derlo logo no chão e5
muytos mortos deapingardadas, & outros queimados cõ
panelas de poluora, & os viuoe se acolherão fugindo : &
Portugueses aprouue a nosao aenbor que não morreo
& ·sós dous forão feridos. E lornãdo os imigos á
prosseguir no repairo cõ quasi gête em goarda
do q dantes estaua: tornou dõ·loão a dar ·neles pela o.rdA
·que dera da outra vez, & forlo escarmêtados de tal ma-
q Dão ousarã.o de tornar mais ao repa1ro & ho dei-
xar ao.
C A P I T O L O CVI.
. . .
D6 cDmo despoil ele el rty. de Calicut ser na cidade dom
Iooo ele lima queimou tJS CGit.IB da jtyloria ·
Grande contentamêto era bo dos de -CaJieut
de v·er.ê eomo bo cerco da fortaJeza ya por diite, porl}
eles erilo os que conselhauAo a el rey que fizesse esta
guerra, & ho_ ajudauão muyto neJa evm determinação
de ton>arem a fortaleza, pera coisa& toroarem a cobrar
ho credito l} tinhão perdido na lndia, porque nio ousa-
uão de falar perante os Nayres lj Jhea dizião mil injurias,
& que nfto sabião mais l} meter a el rey na guerra, &
que l}o nlo sabião liurar dela, &. por terem guerra cõ oa
Portugueses não tinhito lj comer & morrião de fome. E
cõ tud·u rey de Calicut ·fauoreeia os mouros poJo pro-
ueilo ·que recebia deJes & por isso fazia a guerra, & por
&e não irê de Calieut ne1n de seu reyoo que eem eles fi-
caua de todo pobre: assi que por os mouros cobrarl ho
credito que tinbão fazião com el rey q fizesse·esta guer-
ra, ern quasi todo hO gasto era á sua custá deles. E
·porque sabião·q coJn a vinda·.del rey de Calieut ho cer ...
co da fortalt'za auia de ser mais ·apertado, foraalhe al-
giía que se fosse pera Calicut: .&· co•o ele eeLaua
. LIVRO VI. CAPJTVLO C'VI. 229
apercebido do ruais de que tinha necessidade pera a guer-
ra, & acompanhado de muytos reys & que ho
ajudauào foyse Jogo a Calicut, onde chegou na entrada ·
de Junho, & achou que tinha nouenta miJ homens de
peleja antre mouros & Nayres, & antrestes auia doua
mil espingardeyros & artelbaria grossa & miuda q abas-
taua pera dar bateria á fortalt'za. E quãdo el rey che-
gou foy dissimuladamente aa fortaleza sem nenbtl esta-
do por não ser conhecido , & lhe não tirar a
& vendo a fortaleza quão pequena era, disse que pera
que era mais se nlo lomaJa logo. E bo seu ca-
pitão do campo Jbe que não se fJOdia aquela forta· .
leza tomar llo leuen1ête como Jhe parecia, porq os Por-
·tliguta,es a defendiào lambem, qqe se a eJe tomasse por
de tempO cresse que acabaua hum grandissimo
feyto. A que el rey respondeo, que ele a tomaria: por-
que não ajütara tamanho poder de gente se não pera a .
·tomar. E coisto se foy a seus pafiOS: & este dia deu
vista aa fortaleza htla boa soma de gente, dando gran-
des gritas. E dom loão lhe sayo ate a feytoria, donde
lhe os Portugueses tirarilo muytas espingardadas, & coe-
las & com a artelharia ficarão no campo bem ciocoenta
dos immigos. E bo Ceziliano por quebrar ho coração a .
dom loão, lhe disse aquele dia que el rey de Calicut
era na eidade, fazendolbe a sua gente mais do que era,
lt engrandecendo muyto seu poder. E dom João lhe dis-
se q foJgaua muyto com sua vindat porque dali por diao ..
te peJejaria com gosto, & asai os que ealauão eoele, &
moetrarião pera 'JDanto erão: porque ateJi como lhes pa-
recia que pelejauão com os capitães dtaJ rPy de CalicuL
auianse por de1bonrrado1 & não pelejau&o pera mais que
per• se defender. Do que ho Ceziliaoo ficou muyto es-
pantado por eTer que era asai. E dõ lolo posto que lhe
oá immigos não corressem saya cotn os seus a d·ar nos
que aadaoio nas caoos, assi de dia como de aoyle, &
isto lào que os fazia espantar d!3 como com tão
pouea gea'e como tialla laaLo , & porem feriàJbe
130 !tA BIIYORIA IJA llfDIA
muyta g8te,•pelo ll nlo qui• maia ir dar nas ea1iil: mas
punhase naa casas da feytoria & almasem , & dali lhes
mandaua tirar quldo corrilo a fOrtaleza.. E vendo ho ca-
·pitlo do campo isto, correo J1üa tarde cli algiía gente,
.& como vio que os Portugueses e1tauio nas casa• que
-digo· manda chegar todos 01 seas eapingardeyro•, pera
-que combatessem as eaaas com espingardada&: & durou
-ho combate todo o l} estaua por paaaar do dia & toda a
uoyte seguinte, reuezldoae oe eapingardeyroa de m._
ueyra que eontinuamête tiraulo as • que
·de •erem n1uyt.aa quebrarão ae nossas espingardeira&,
& se não fora bü traués de madeira de que htls tiros
varejauJo os immigos, os Portugueses se virAo em grao-
·.de aperto: && for<i&da.meote esteuerão tanto tempo usa-
tas casas, porl} corrião muyto graade risco se sayrlo.
·E por derradeyro quis noao senhor, que asai c:om as
espingardas como com a artelharia matarlo tantos dos
in1igoa que os tizerão afastar: do que dom Joio deu muy-
. tas graças a nosso senhor de ho liúrar dal}le trabalho
que teue muyto_ grãde de ver ho aperto em que os aeua
esteuerão. E logo pos em contelho se se poderilo aoster
aquelas casas da feytoria & almnem. E por todos foy
acordado que não por amor do grãde poder de geote
que os immigos tinhilo, que ho maia seguro seria quey-
& recolherense aa fortaleza. E aquela tarde
-foy logo feyto, sern Jbe os immigo1 cõtradizerem, por.
que folgarão anuyto de verem queymar aquela• casas de
que recebião tanto dãoo: & porque era caminho de os
•. Portugueses não q·uererem sayr mais ·da fortaleza, com
que não receberiào estoruo em. fazer as cauas & aa aca-
bariilo. E recolhido dom lolo na fortaleza, fez alardo &
· aehou que tinha perto de trezentos bom!•, algüs
erAo mortos k outros estau4o ferido•, &. antresta gAte
auia algiis fidalgos seus parentes tQdos muyto esforçadoa
& de grande confi·aocca. E por(\ Alom lolo .conhecia ho
esforço destes &, dos outros, tinha esper&BC(& em. nos10
que hp liuraria daquele cerco com sua hoorra, •
LIVRO VI. C.&PITVJb-CYII. 131·
mandou fechar· bii po'io dagoa nadiueJ l} a Cortale.
za, em q auia agoa pera hü aono sem beberê por regra.
E fechou bo porque os escrauos oã deitassem nele pe-
"onha, & tinha a chaue porque soubesse quando se ·a•
bria: & achou que auia na fortaleza tanto que a•
bastaria hií ao no, posto que comessenl largamente,
rem doutros manlitnenlos não auia se· não pera poucos
dias. Ordenou tambê donl João as eatancias que auia
dauer na pera dela que forão seys, eu ..
jos capitães forão dom Vasco de Jima, Jorge de lima,
Antonio de sá, Ruy de melo seu irmão, loão rabelo
feytor , A o tonio de serpa , & M anue) de (aria escriuães
da feytoria. E dõ loão com alg\ls parent.es seus, & ho
:resto da que sobejou das eatancias ficou por sobre
pera acodir áa partes mais fracas, & por ser a for-
taleza conch.egada podiãse todos ajudar hiis aos outros
que foy ·grãde bi pera qui pouco& erã.
C A P I . T V L O C V li.
De como tlapoü de se Ioáo reeolher n·a fortalem ,
tUientaf'i!o 01 immigos 1ua1 estancios comefa"á de
bakr a jorlfJleaa.
Reeotàido àõ lolo lima aa fortaleza & queymadas
aa estanGias que lioba.Cora deJa: foy grande prazer. nos
mouros cuyda·ado que aquilo· era eom medo, & assi ho
disserlo a el rey, eertifieaudolhe i} auião de tomaT a for•·
t.aleaa, & muytes· feros contra os Portugueses fa-
aendO deles muyto pouea ceusa· •. E logo na noyte ae-
8uiote derão tamanha preasa na caua' & na trincha q,
ff8-rrario coelaa DO mas- aasi da. bãda do sul eomo do
DOrte, & erlo dal,ura de hiía & ficaufto· da for•
U.leu a tiro de pedra , & podiào andar. p_or elas sem a·
artelbarja da foJtaleza lhes fà2er nojo. ·E a rezã por que
eerearlo a. íorlaleza. deetas· eauaa & as no mar,.-
pare oDde 9&rr&Uào· usentasseta duaa·estaocia•'

23t DA RIS'I'OB.IA DA JNDIA
dartelbaria 'pera tolherê bo socorro ll fdlae aa
por. mar. E estas assentarlo logo em em
que a ui a tiros ençarrados, que quando uão fosse tepo
de jogarem pera bo mar tirassê á fortaleza, & asseata-
rão hna est!cia da banda do norte em que assestarão
dous tiros grossós com que começariio de tirar á fortale-
za, & dali por diante começarlo de assentar outras es-
tilcias pera· baterem a fortaleza: & forão estas •. No lu-
gar ondesteuerão as casas da feytoria assentarão hü ea-
melo que fora dos cuberto com hüa mant.a
& ao ia de bater a torre da poluora, & mais afastada
desta 110 mesmo lugar estaua outra estãcia com outra
manta em que auia .quatro tiros de metal de camara1
que tiraua cada hií pelouro· de ferro. coado tamanho co-
mo de bü.a espera, 8t deste tamanho os tirauão todos os
que tirauilo pelouro de ferro coado. E esta eslan-
cia auia de bater ho pano do muro quE' eorria baluar-
te da fortaleza ate a torre da poluora: fizerão outra da
banda do sul, de que auião de jugar sete tiros quatro q
deitauão pelouro tle pedra de tres palano1 de roda, & os
outros de ferro coado: & esta auia de bater ho ttano do
muro dantre ho baluarte do feytor. & ho do almazem, &
aos mesmos baluartes. Da banda de leste fizerão outra
dentro na cidade, em que auia outras sete peças gros-
aas & tiaco deitauão pelouro de pedra, hna de sete pal-
mos de roda & quatro de tres, & as duas de ferro coa-
do: & esta de bater ho ,pano do muro dantre ho
baluarte do feytor & a torre da poluora, & á mesma tor-
re, & _ho baluarte, & a torre da E á fowa es-'
tas estancias auia outras duas da banda do norte & da
do sul cada hüa de seys tiros que podião
j.ugar pera h o mar se fosse socorro á fortaleza, & ho ou-
tro tempo auião de bater os baluartes do alcaide mór &
do almo.xarife que eatauão daqlas ·bandas. E todas estas
estancias estauio a tiro de pedra da fortaleza, a que
começarão de dar a treze de I unho poJa manbal :
que foy hõ.a cousa. bem espantola quando comec;Du:
' . . . •
LI\'.RO VI. CAPITVLO CVIII. 133
a muyto grossa fumaça que se leuantou de htla par-
1e & da outra , & ho medonho estrondo dartelharia que
faz;a tremer a terra & bo mar, & parecia qae tudo auia
de ficar destruydo: & quasi todo ho dia que a bateria
durou nilo se enxergou nada com fumo, & des11ois que
descobrio apareceo a nossa fortaleza saã & a sua
lbaria inteira & sem aleijão, que aprouue a nosso senhor
que nunca lhe os imrnigoa poderão aeertar com a sua
pera a cegarem: & errarão todos os tiros dando pores·
ses muros & baluartes, & outro mal não fizerlo: & a
nossa artelbaria que tirou todo este lhes fez
muyto dãno, porque como eles cuydauão que logo a Bos-
sa artelharia auia de ser cega , descobriranse 1nuyt.o &
por isso os tiros pescarão muytos. Do que el rey ficoú
muyto triste quando ho soube: & assi os mouros ·vendo
-que os eeus bombardeyros erão tão pouco certeiros. E
dom João & os .seus fica·rio muyto ledos, derão ·muy-
tos louuores a nosso -senhor & se muyto mais
que dantes pera se defenderem vendo a n1erce que lhett
hOSSo senhor fazia , & ·na noyte segui te fizf'rlo grandes
alegrias de folias & tangeres pera que os itnm1gos sou-
bessem que os ·não tinhão em conta., que estauão disso
muyto espantados .•
C A P I T O L O CVIIf.
De como 01 immigos comefarlio de h'úa albarrada.
Com qoa11to -os monros virlo quilo pouco dilno os
bontbardeyros fizeril na artelharia·da fortal-taza, nlt·dei.
·xarlo de prosseguir a bateria pera ver se a podião ce-
gar: mas quis nosso senhor que setnpre a errarão, &
dauão por esses muros & baluartes, a que de
fazer dAno, & de dia deixauão apontada a artelbaria pe-
ra a de noyte: & hfta·noyte ao quarto da prima
tirou da· banda da cidade bum tiro que tiraua pelouro
de pPAira de sete palmos ·de roda & leuou duas ameai
LIVRO VI. GG ·
13t , D.l BI8T01ll.l DA INDIA
do muró, & leuou ho sino da vigia em pedaqoa. E dom
loão acodio logo ás ameas com seus sobre s&lentea que
as refizerào: & estes trabalhos erão continos despois que
1e começou a bateria. E vendo ho Ceziliano quão agas-
tado el rey de Calicut estaua por não se poder cegar a
nossa arteJharia: disselhe que não se agastasse, que eJe
faria hun1 arteficia eõ que·os seus tomassem a fortaleza
& oã tardarião mais en1 a tomar que em quanto se aca-
basse. E este artificio foy hiía albarrada a que por ou-
tro non1e chaaoão montanha, de q o turco vsou no cer-
co de Rbodes oode este Ceziliano se achou como di1se.
E estas albarradas são serras darea, de pedras, .& de
raana, tudo nJesturado q e1 gastadores q andã nos cam•
pos Jeuil() diante de ai coan pás & euxadas ate a1 igoa-
larê com os muros das fortalezas. ou cidades que tecer-
cadas t &, isto pera lhes embaraçarem os pelouros da ar-
telharia & eles sobirem a seu saJuo, ou ao aneoos .sem
tamanho perigo como correm sob iodo por: e.scadat por
amor das· pandas de poluora & outros artefici4il& de.fogo
que os i1nmigos lànção decio1a aos que sobem. E nesta
albarrada que digo come'(arA logo de trabalhar tres mil '
homês de seruiço que chamio gastadores, fazendo hum
dos pés onde forão 38 casas da feytorja, & ho outro juDt-
to da casa que foy da poluora, & an1bos a tiro de pe-
dra da fortaleza. E quando dom lolo vie1 começar esta
·obra, cuydou que era entulho con1 que os imn1igos que-
rião entulhar a (aua da fortale&a com de
a escalarem, & por isso se percebeo logo de anuytas
panelas de poluora & dgutros artefieioa de fogo. E esta
sospeyta pos do11 loão em grande euydado & assi aoa
.que ·elitauiio coele, por saberem de certo a grossa gen-
te dos immigos que estaua sobreles , & que se prouas-
sem de sobir ao muro corrião muyto risco de os entra ..
rea1, & por isso todos que don1 loão mandas-
se pedir socorro de cem homens ao gouernador, & assi
de poluora: daodolhe conta do que Jlassaua. :E este re-
cado foy em hüa almadia que não auia eutra eótl8a em
que fosse. :· · . : ...
,
LIVRO VI. CAPITVLO Cl%. 236
C A P I T O L O CIX.
. .
. '
-.De amw diJ João de ltfna mondou •ocorro tio go-
. . turnad6r mandDu. .
Ás do desta fortaleza. de Calicut forilo ter
1lO ·gouern&dor, estãdo ele esperando poJa
das pazes /que lhe auia de mandar el rey de Calicut. E
era ja inuerno & a barra de Cocbim estaua çarra-
'da, & ·as ·teruoadas erão muy grandes & perigosas na
·costa nllt> se atreueo a mandar nenhum· socorro: pore·m
tedo -apos· esta nooa outra que dom lolo mais a-
pertado,. & que os imn1igos ho combatião mais rijo que
Malabares, eomeçou de mitdar fazer prestes duas cara-
11elas latinas qtte foy enformado &erem nauios, que me·
:Jhor que ·outros sayrião·pekl barra. E nato aos dez dias
de Jutbo·chegou· a· Cochím a aimadia em que ya ho re-
cada de· ·dom loão, que por de .110180 senhor
.teapou dos muyto grossos mares' & muy furiosos & 1'l•
jos -ventos que achou com que mil \'ezes esteue çoçobta-
da :& -mergulhou por ·debaixo dagea: & porque não sou-
be hn nome do que foy ho nfto digo, mas ele pas-
•rtu ·ho mayor perigo que se podia passar por E
bo gouernador a •erdade ·do cerco pM flste re-
eado de dom Iooo, & a nPeessidade que tin·àa de lhe
socorrer com gente, começou de a mand·ar fazer. E sa-
bendose entre os que ali então estauão, ho pera que
era , se lhe offrecerão algüs fidalgos pera irem socorrer
a fortaleza, & antre estes forão Manuel cernije, Chris-
touão jus arte, & DuartP dafonseca, porque como
muyto esforçados & desttjosos de seruiren1 el rey não re-
cearão ho perigo que Pstaua muyto certo, ·assi no mar
como na terra: o que lhe ho gouernador agardeceo muy-
to, porque estes animarão outros a irem de boa vont.a-
de, & ajonlarãse cento & corenta homens que s·p em-
barcarão nas duas carauelas que estaulo prestes, de que
GG 2
..
2 36 DA .. R·ISTOJ\1* DA'!· INDI·A ·
foy por capitão moor Christouão jusarte, & na outra ea-
. rauela foy Duarte dafons·eo'a fitbo do doutor Fernão da-
fonseca, & ambos say·rão pela barra de Cochim com
grande perigo a de lulbo: com regimento:do go-
uernador, que chegados sobre Calicut, chegassem ho
n1ais que podessem as carauelas a terra, àssi de hüa
parte como da outra da fortaleza ·defronte das estancias
dos immigos que nelas estauilo, a que tirarião com a ar ..
telharia das. carauelas, & entre tanto que tirasse anda-
rião eles . em dou·s paraós de naos MaJabares que Jeu.-
uão pera. desembarcare antre as carauelas, & andarião
assi ate verem recado de· dom loão, & sem ele não say·
rião em terra. E despois de partidas estas carauelas,
receando ho g.oueroador que esgarras&em com algüa tor·
uoada & não podeasem tomar Calicut, & a fortaleza fi-
. casse sem. socorro, .mãdou apos elas hõa galeotà cona. a
mais gente qtJB pode, de foJ por capitão Francisco
de vaseonceJos caualeyro 4e .muyto esforqo, a que deu
em regimento que sendo caso que -acbasse que. a forla·
leza não era socorrida se fos88 com D&Ute dafõseca a
Caoaoor, & diria da sua parte a Eytor. 'da silueira q.ue
socorresse a , porque de laa ho poderia melhor
fazer que- ·bo gooernador: a Eytor da silueira escre-
ueo po-r ler•a ho cerco da fortaJeaa , & bo socorro de
qae. lbe manclaua, pedindolbe que a socorrtlsse
_por sua pessoa com mantimentos ,. & poluora, & gente
se a que mãdaua lá aão podesae ir •

. '
I.IVRO VI. CAPI'I'\'LO CX •
237
. ,
C A P I T V L O CX.
De como os immigos de tirar com h·ú trabuce
- á fortaleia , t de como foy .
Despois de dom loAo maodar pedir socorro ao gouer-
nador vêdo os mouros que auia detença em se acabar a
ai barrada,. fizerlo por industria do Ceziliano armar htl
trabuco que ele fabricou , & foy armado nas casas de
Duarte barbosa pera deitarem coele na fortaleza pedras
muyto grandes com que lhe derribassem os baluartes &
as easas. E coeste trabuco come'(arão os imntigos de ti-
rar- ho primeyro dia Dagosto , tirando á torre da poluo-
r a pera a derribarem , parecêdoJhes que ali fariio mail
dãno q em outra Jlarte, & acertarãlhe com seys pedras
arreo & erlo as pedras tamanhas que logo lbe abrirlo
as & os imanigos co1o prazer leuantarão muy-
tas gritas. E·dom João como vio ·ho dãno ll as pedras
do trabuco fazilo na torre, ouue medo q se lhe acêdes-
tle fogo na poluf>ra , & por itJso no meso1o dia a midoa.
mudar pera outro Baluarte , & foy mu·dada com traba-
lho immeoso & grande perigo das pedras que dau!o na
torre, com que em quatro dias coo ti aos que ho ·trabuco
tirou lhe derribou hna e&')uioa, do que dom leio esta-
ua grãdemenle agastado: mas este agasta mito Jhe tirou
Diogo pirez ho côdeatabre 4a fortaleza hil bõ homê &
iJA de1tro em seu omcio, que lhe disse ll Dio &e agas-
tasse, porque eom ajuda de nosso senhor ele esperaua
de quebrar ho trabuco pera bo i} ja tinha apõlado nele
llü eamelo. E dõ Joio lhe prometeo meree se llo fizes-
• 1e. E eDComendandoae ambos muyto deuolamente a noa-
•a seahora cajo ho dia era, foraose ontlestaua ho came-
lo arJODtado no trabueo: & didolbe Diogo pirez fogo
deapara ho pelou.-o, & com seu medonho impeto foy dar
Bo trabuco que leuou em ped&C(os: & coelea &. c6aigo
matou tambl maylCJI doa imigo• lj estauio ao tlerrador
138 DA DA.
do trabuco, outhando muyto ledos a q ele
fazia na torre da poluora. O q vendo dont loAo se assen-
tou em giolhoa & chorAdo de prazer deu muytos louuo-
rea a nosso senhor , & a 1oa gloriosa madre : por cuja
intercessit tinha q lhe fizera merce tamanba & á sua
honrra disse logo a Sal_ue com os outros que tambe noo
cabião cõ pra&er: & daulo grandes apupadas aoa immi-
gos zombando deles. E dom João lhes ·mandoo .. dar re-
bate aquela noyte porque lhes pareeesse que oa tin-ha
em pouco, & forlo a darlho dom V asco de lima & Jor-
ge de lima com eorenta Portugueses q sayrllo per hO.aa
bombardeiras, como say«o outtas vezes, que pouca•
noytes passauão ll nA sayssem, de que os immigossem·
pre recebião dãno, & sempre estauAo sobre salteados,
receando quando os Portugueges dariAo neles. E com
quanto os tinblo cercados auiãlhea medo vendo sua
•adia & esforqo. · · .
. e A P I ·'r V L O CXI.
De como Cltristouáo jmarlt chtgou a Calicut tirou 7141
forttJlesa có 01 que yiJo coelt •
. Partidos jusarte & Onarte dafonseca pera
Calicut, como então era a força do inuerno acharA ho
tão forte, que por milagre d(; nosso senhor esca-
parão de ntto serê comidos do mar: & a fora a fadiga
descaparem· de tamanhos perigos, a teu·erilo tarnbem
graade coa1 todos os ll yfto coeles por lhes faltar
•goa, que nio tomarão em Cocbirn com a preasa de
partirem, cuydando q.ue ·no mar a tomariAo da a.goa do
ntonte, que nã acharão & por i&so foriio ela: & aio
teuerão outra se não a que chouia, que como era de
toruoadas não a tomauão se Aio quando vinh«o: & al-
giía que lhes fioaua· ate tomarem outra fedia tanto &
margaua em tanto estremo que quasi a niio podiio be'-
ber. E coeata afrição & angustia forlo 'Tinte ciDcG diu,
LIVRO VI •. CAPITYLO CXI. 83it
que tao-to oa viage• por amor dos contra1tea
que 'euerilo nlo sendo mais que de vinte o.u dezanoue
E com nauegaçio tão trabalhosa derão fim a seu
cao1inho, chegãdo sobre CaJicut, onde
sarte chegou primeyro a oras de vespora & cõ a
(} vê,aua entrou Jogo no arrecife, & Duarte dafonseca
chegou da h i a potiCO, & ·por a viração acaJntar não po.
de eolrl\r & ficou de fora. E cõ a vinda destas caraue·
Jas foy grande no· array,.I dos imigos
.q fosse ho socorro n1ayor: &. logo os qu.e estauão
estãcias da parte do mar se aperceberão pera receber
os que quisesse1n desembarcar, & .na fortaleza· foy ho
prazer m.uylo. grãde por verê ho socorro. E vendo dõ
Joio Christouão jusarte dêtrp no arrecife, receãdo q
quisesse desembarcar acodio á porta da fortaleza pera
lhe acenar q não desembarcasse. Jogo, porque seria
uida escapar nenhil dos que sayssem coele segiido a
multidio dos immigos era grande, & era sua fi.,.
car pera de noyte: & pore ·Christouão jusarte como era
muyto esfor((ado, & ho desejo que tinha dentrar na .for-
talez.a lhe fez entender quando vio que dõ Joio lhe ca•
peaua que lhe dizia que desen1barcasse: & tambe1a ou-
ue medo que como era inuerno sobreuiesse algüa toruoa-
da de vento trauessam q desse á costa com a carauela
& se perdesse, & por isto não quis esperar por Duarte
dafoneeca nê dilatat n1ais a E isto de•
terminado disse ho aos que y·ão coele l} erão oytenta
que vendo as muytas bombardadas que
neste tempo os ·.ianigos tirauão de terra duuidarão muy.
tos de sayr, .& requererão a Christouão jusarte q goar-
dasse ho regimelo do gouernador, porq doutra maneyra
perderseyão todos : & ele oa desenganou , q ainda que
desembarcasse só que auia de desembarcar: por i110 q
flUê quisesse deseo1barcar que se embarcasse no paraó,
que não que ficasse. ·E trinta & cinco se offrecerlo a
coele, ·foy ho primeyro Manuel cernije & os ou-
n-carã, a :q mãdou li quanto jugas-a
.. .
140 DA HISTORIA DA INDIA
&ê c3 a artelharia & saltAdo no paraó c3 01 xxx. & cin-
co tira pera a praya que. estaua coberta de imigos, fre-
cheiros & espiogardeyr01 : & ele leuaua sua bandeyra
no esporão do paraó & suas trombetas que tocauão de
quando em quando: & elas acabando daua ele eom os
_.eus hüa grande grita, & a este som remauão os remey-
ros quanto podião' gouernando dereytos á ooiraça da
fortaleza pera ali desembarcarê. E era cousa de muyto
grande espãto Yer ir tão poucos antre immigoa
que nllo tinbio conto, que todos desparauilo ntuytaa nu-
uês de ·rrechas, & tãtas espigardadas C} os pelouros cayão
tão bastos como saraiua quando caye do ceo. E nisto
começa a artelharia dos immigos de tirar á fortaleza &
a fortaleza a eles: & a reuolta era muy grande &
espantosa em todas as partes do estrõdo da artelharia &
da grita dos iroigos & dos Portugueses. E indo assi
_Christoulo jusarte, chegou a terra bum pouco desuiado
da coiraça q ho de1uiou a. grande corrente & braueza
daquela costa: pelo que os imigos teuerão tempo de ho
apertar como & não esperando que tomasse
terra de todo, nem receando as espingardadas fl tirauão
os que ylo coei e , nem nê cu til adas : remetem
paraó com bü ianpeto bé8tial, dandolhes ainda a a-
goa pelos peitos chouendo sob reles espingardadas & fre-
chadas, & arrebatão a bandeira que leuaua, & assi dous
trombetas que yilo que leuarão fora do para6,
que os leuarã hü pedaC20· arasto, & outros dauAo punha-
das nos 1
1
or(.ugueses tão est_auKo deles: porem nes-
te têpo peJP.jaulo Christouão jusarte & os outros de ma-
neyra que fizerio afastar os imoligos do. para6: & sal-
tan.do todos nagoo começarão de fazer eousas tão mila·
grosas, ll bem parecia q pelejaua nosso senhor por eles.
cõ tudo forão mortos quatro deles , dous do
n1ar & loão de macedo, & Fernã de siqueyra fifho de
Gonçalo de siqueyra de SaluatE-rra, & quasi todos os
outros forAo muyto feridos & ·antreles foy _Manuel.cerni-
je que pelejando como muyto valente caualeyro que era
Ll\'BO etl. 141
&e reeolbeo dos & por acodir a bü seu ami-
go oa mouros n1ataulo,. & ele o foy ferido em
-hiia·perna, de que faleceo da a poucos. diaa. E pele·
jãdo asai Christoulo jusa-rte tio eaf()rçadamente como di-
go, !foy por antre os imigos ate chegar á ooi·
raça o·nde bo dom lo!o estaua esperando com oyteeta
homens & coe1e dom Vasco de lima. E aqui foy a
ja moy·to braua ·em demasia, porque os i-m1nigos entra-
uão de volta com oa Portugueses pela Pntrada da coira-
cta· alo temendo neahftas feridas q sobrisso
llêJmo.rtes, & tantos .que era meado veios co-;.
mo arretoettão denodados: ·& isto com tenGliO denlraTG
· Portugueses dêuolta na , porq nio 1Ja-
_terião ·otttro.·tam· bõ temtJO eomo estP.· E d()m
João & .os outros que ho ttnteodilo fazião m·a1s do ·q·ue
·ae esperaua I no defender,. & pelejando com
esfor'(O milagreso ·recolbianse pera a pfJrta da fortalema.
E muyto pera louuar a BOSso senhor, come ·OS
Portugueses sendo tão poucos não forão todos espedaça•
dos dos immigos q erão tantos que _parecia que os-so-
mião antre si & C6ID tudo chegarilo á ·porta da forta-
ieza. onde se Tecolherifo qnasi sem "Psperança de nlo en-
trarem sem. os in1migos: & dõ loilo fOy ho
que entrou pelejando tão brauam@te que parece l}' dPs-
pois de Devs ele foy o fJ. ·resistio aos ianmigos q·oe ·rriio
& foy todo cuberto de frechas· de que ho
·ferirão quatro. E prouue a nosso senhor q·ue ·neste tão
brauo conflito nlo morrerlo· mais que os ·q disse, mas
(orlo quasi todos feridos: & dos tnrmi·gos morrerão tan•
tos q ho chJo ficou todo· cu helio, & se dõ lodo passou
fora grAde perigo em .. pouco menos achou os que ··ficaufto
na _fortaleza, porque muytos dos irnmigos vendo a bra-·
ua peleja que ya fora, ·parecêdolhe que todos os Portu-
e&tauito nela , & q não auia quem dPfendPsse a
forl_aleza poserllo as escadas ·em h ii da hãda da
eidade, & começarão de sohir por elas, mas os q· esta-
uão. nele acodirlo Jogo a defendelo Jançã·do panelas· de
LIVRO VI. BH

24.1 D.A Bla'I'GRL\ INDJa\
poluora sobre os immigoa: porem como erlo muytoa aio-
da que bus eayão queimados, outros sobiito logo. E e&•
tando Desta pressa chegou dOUJ João & foy ajudar a de-
feoder a sobida aos iaJligos que forâo tào wa! tratadoe
que deixarão a per6a de quererew sobir. E porque 01
morto• erlo muytos & se ali poderailo
ho ar com bo mandou dõ loão dizer do n1uro por
hu lingoa aos immigos que aJeguramenle J)Odiào tirar daJi
os mor.tos, que ele lhes daua sua fé do. oào
J)()f isso dàno : & aasi ho fizerlo' foy grande
pranto polos morlos. E el rey de CaJicut • muyio
ho dàno q os seua rect'berào de lio JlOUCOI PurLugut:tsel,
&. 111uyLo auais ho atreuiment.o de tereau ho po-
e1n tào pouco , que aiS i de de•ewbacçar
dianLe d"Je.
C A P T V L O CXII.
De como ho gouernador mDndou mais fQCorro (J dom .João.
Vendo Duarte dafooseca o (i· fez Christoulo jusarte,
. '
esperou ate que tornou a vJrateao, com que ao oulro
dia entrou oo arreei{" & cbegouae a terra bo wais que
pode. E porq ho dia paeaado vira ho perigo que aui•
em nã ho quis fazer aem saber de dõ loão
o- que faria, & per hi'i t'Bcrito q \i& màdou lançar Cúm hue
frecba em lho. preguolou. E 4lUÍdo ho esçrit.o pef
d-om loão, pus ero cunselho o que lbe mandaria t & pra.
licado ho- ri.sco que correrão ga anat•re.m lodos , &
lhes eGtré)reau o, imapigoa a fortaleaa. E eomo esta ..
llio muylo krW.O., assentouae l) Duarte dJtfooseca oão
porque como oào fosse de
Dbealos hou1Js Qào. podiào deseaiabarcar aem passarem
}lo. peri:gp •lu.e Jlassarão & a&si oa da furtale1*. E q per-
)ao !he ntan·dar aão podifl ser de lll&•
q de .hoatêe que lambi erão muyto ae.
9eaaarios JIUf do1 Ceridoa que a•ia, &,
LIVRO VI. OAPit'VLO C%11. '24tJ
resialirem aol fortes combates que HJJerauio cega&do..
lhe• a caua como parecia que 01 imigoa querilo fazer
com ho entulbo q ajiltaulo: & asai ho dõ Joio
ao gouernador, & tlbê Christouilo jusarte. E deitada•
.aa earta• com hõas frechae, partioae Duarte da(onaeca
.lnando a outra caraoela em soa companhia & ainda
perto de Calicut achou Francisco de va&concelos, que
-aabendo o que pauaua the deu bo r..cado que leuaua de
goueraador, pelo que Duarte dafonseca lhe dtau a outra
earauela com que se partio pera Cananor, & Duarte d ..
seguio 1ua viagem pera Cocbim , onde chegoa.
ea menos· trabalho por aer qoa•i na fim Dagosto, & ca-
tou o que pas&ara em Calieut ao rooernador, a que .dea
.as eartas q visto por ele. qui mal Christouãe
juaarte goardara seu regimento, ooue muyto graade
menencoria, mas perdoou lhe por qulo bê ho fizera. E
vendo quanto importaua ho socorro da ·fortaleza: & porl}
sê temeo doutro desarritjo no desembarcar, determinou
deacolher · algil homem de confilça pera . i&ao, & fcy
- FrAcisco pereyra peatana homê sobre os. dias , bõ caua-
Jeyro & rico que poderia leuar gente porll tinha lj gas-
tar: & mandando ho chamar lhe deu conta do aper·to
.em lj estaua a fortaleza, pediodolhe que fosae ho capi-
.tlo mór do socorro pois importaua tanto ao seruiço .dei
rey , q Frãciseo pereyra aceitou por essa causa, posto
que eataua pera aquele anno! & nã·o somlte q·uia
•eruir el rtAy nesta jornada, mas ainda lhe e•nr,restou
dez mil pardaoa douro que lhe bo gouernador & védor
da fazenda pedirão f'mprestadoe. E tendo bo gouerrta-
dor a vontade de Fritciaco pereyra pera ir, fez logo a
mayor parte dos quinhentos hom@s <i se embarc.arão na
me•ma earauela de Duarte dafonseta, & em h ii nauio
de lJ era capitão hií Ptlro Yelho, & :ê hila barcaça, &
em duas ga·teotaa .. : & ·mãdoulhe que pert'yra
fosse hüa das galeolas, ·de q era capitão Antonio da
ailueira. E sai do a galeofa poJa barra, quebrou·lhe ho
Jr.me, peJo .<1· Francisco ,pere'l'& uào q'iie ir n.ela, & dia-.
BB Z
2tW DA· BIB,.OBIA DA· INDIA
·&e ao gouernador ·que iria em· hn galeão li se deitaua ao
mar pera ir· com. soeorro a Calicut. E bo gouernador
quisera que fora na galeota q logo se concertou , n1aa
ele ol quis: & porl} o gouernador ho coahecia por de
sua eõdição não quis perfi ar coele, & deixou bo ir no
galeio: q porque estaua de vagar & bo socorro era ae-
eessario de pressa & estaua prestes,. deu a capitania mór
4ele a Antonio da silueira ate Calieut, daadolhe por re-
gimento que aueado oecesaid·ade de lançar gente ê ter-
ra · a , & q.uando 11lo q esperasse por Frlcisco
pereyra ll ya apos eJe oo galeão. E porq ho puernador
era eertiticado poJas cartas de dõ João & de Christoule
juaarte da maoeyra l} os imigos eombatiio a fortaleza,
&. dos petrechos i} tinhão : começou de se fazer prestea
pera partir apos este socorro.. . . · ·
C· A P I T V . L O OXIII.
De como. os tmigos assentar/Je dous 'rubucos , de come
joy queyfJ&Illlo kú deles.
Üs mouros ll esta-uilo cõ elrey de Calicut idauãa muya-
to corridas do pouco q fa1iào cõtra os Partuguesea, &
fizerão armar dou.s trabuegs : h\\ oos casas q Corão da
feytoria , & outro nas. da {erraria com aenhos bastiãe1
diante de cada hü., porlt· a artelbaria da fortaleza os nã
podesse desmlchar eomo ao outro, & armados
J'ào de tirar coeles á torre d& menagem & a outras par-
tes em- que fazião muyto dho: .& eõ medo das pedral
cayi a mtucie nã ousauilo- os· P·or.togueaes dldar poJa
f«taleza. E Diogo· pirez ho eóadestabre como era homl
·de e-uydado,. trabalhou. log0 de ter Jaaneyra pera os des ..
manchar, porque c& os bastiãea i} ns eacobrila ailo Jhes
podia tirar cõ neDhü tiro, k fez h is ,pelouros arteficiais
que queymassem õde dessem· cõ determinaçã de tirar ás
easas da ferraria , porl} dali via sayr algüas pedras , &
mais Yia de 11oyte ali c;:aadea, õde lhe que
LIVRO VI. CAPI'I'YLO CDIJ. -14{)
estaua hi algü dos trabucos. E apontando hü tiro, ti-
rou lhe hüa noyte -dos quinze Dagosto dia da Assunfião
de nossa senhora, ho pelouro q era de fogo arteficial
cayo. oodeàta·ua ho trabuco & pegou se_ no ·bast.iãô & dali
se ateou ao trabuco: & os immigos nuca ho poderão
pagar com as bombardadas & espingardas que Jogo co·
de jugar da fortaleza, & pescauio os que se ·
·descobriAo: & "isto· por os Portu.guesea ·os verem com
bombas de fogo que tiohão aceaas, & grandea fogueira•
que auia ao arrayal. E vendo os immigos que Dão po-
dião apagar ho fogo do trabuco, quiaeranse llingar d011
Porluguesea, & cuydando de lhes fazer dãno
com sua artelharia & e1piogardaria a toda a fortaleza.;
·a q os Portugueses responderão com a sua , & foy h\i
jogo que durou todo ho quarto da pritna, & forão
mortos & feridos .dambas as partes, principalmeDte da
dos imigos que ficarão muyto tristes. per l.bes arder ho
trabuco sem lhe podere valer, & assi ho ficou· el rey. E
pareceadoJhe que .quebraria os corações aos Portugue-
-ses lhes mandou dar mostra de .toda sua gete, aparta-
de& · büs dos outros, espingardeiros, freeheiros, & os
descudos de lãça , & despadas. E todos passarão sem
se deterê : & .. como erào tãtos como disse era medo ve-
Ios. E com quã.to. passauão de pressa , a nosea artelha-
ria que Dão fazia se .nilo tirar pescou muytos. E dom
loão a mostra que lhe dauão & a causa por.
que, porque desse a enteder a01 imigoa que os não ea-
timaua mãc:klu Jogo embàdeirar a fortaleza & as
& fazer grandes festas : do que el rey se es-
pantou muyto quando ho seube, & jurou q se tomaua
os Portugueses que ()S auia de matar a todos : & conso-
louse cõ o outro trabueo que ficaua, que este não pode
Diogo pirez nu oca q.ueimar aem desmaachar, por nie
Yer do ode estaua , & porq.ue ho não vi•se nã tinhão de
Doite caodea: mas este não podia fazer tanto d4no co-.
_mo os outros par Dão. estar em lugar pera
I

.A BlftORIA DA. . INDIA
C A P I 'r V L O CXIIII.
De romo foy queimada húa mtJnkl doi Cmigol.
T emêdo oa roouroa que e3 tam poueo eomo fazilo eon-
tra os Portuguesea, se enfadasse elrey do cereo & ho
deisasae, anciaui muyto de preaa a inueotar ardij•
eom lhe deaaem esperança de lhes fazer mal , & bo
-antreteueaaê na guerra : & por isso o.onea deixauão ho
Ceziliano, q como aabia muytoe lho• daua a miude. E
() q lhes entlo deu foy minarl\ ho baluarte do feytor
eelaua da ·banda do sul, pera lhe darem fogo eom l} bo
derribauem, & deapois de derribado eotrariio faeilme•
te. E pera bo minarA milhor por<i ao derredor da (orla·
leza era tudo area, &. nlo 1e podia fazer mini:' sem ar-
roobar: 8t maia por os Portugueses a ·nlo verem & lhes
nio tirarem, ordenou htla manta sobre seys roda·• com
.q se encobrisaem os q minaaaem, & pera ter a area Cl
nlo arrunhasae bOs payneia de li aempre anilo de
çarrnr cõ a manta. E pt'ra esta obra auer efTeyto, leua,.
rlo mio da ai barrada, & acodirão todos a ela: & como
erão muytoa forão logo acabados os payneis & a mãt.a,
& começouse a mina hüa noyte. E quis no88o senhor
.que .a outra dantes foy Bastillo ho arrenegado cãtãdo
pola caua ean .. Portugufls. Goarda debaixo, dando a eo-
aos Portugueaes q se goardassem da mina. E es-
tas pai auras entêdeo dõ lollo o que quttrilo dizer, qui-
do ao outro dia vio a manta cô 01 paineis q logo estra-
nhou porq_ os nlo via dantes. E isto entendido, pos em
·eonselho ho modo q_ ae teria pera a mina não ir auante
·pelo muyto grande pPrigo fi disso se seguia. E foy a-
·cordado .que se queymasse, & porque os imigos não
podessem apacar ho lj deitassem por bOa genela
do meamo do ffaitor htl ealabrete lj atarião em
duas rodas da manta, & dali seria alada per btl oahre•
tanta q ficaria armado no mesmo baluarte, a que ho
LIVRO Yle CA.PIT"t'LO CXIIII. 1,7
ealabrete estaria dado. E r1era fazer este feyto foy es:.
coibido dom V asco de linJa, q de noyte se poeria em
Citada cõ coreota homes pera tolher aos imanigos que
aào apagaase.m ho fogo da manta. E assi foy feyto &
àlrta 0t1 cortanta 'JUe Jeuaua dõ Vasco forão Antonio de
11á, & f'ernào de Jinta, & Jorge de Jima, & iayrão to.
dos per büa bombardeyra do muro., & recolheranse ao
dü traués ii jugaua pera ho mar:. & dõ V asco·, &
A nlooio de 8á, Fernão· de lima, Jorge de lima, ho
eondustab•·e Diogo pirez & dous bombardPyros forào a•
tar ho t:a!abrele per duas aseJbas naa duas rodas da
DJanta. E Jey&.o swal aos ll.encima ·eatauão ao cabres•
tanle q a wanla amarrada, comefiarioa daJar
pelo E tudo isto se fez si! os mouros ho 1i·Dl ..
rem , assi polo grande escuro q fazia coano por eles ea·
tarê ocupados con1 os sentido• em suas ceas que fazião
com granee fes:la, ·por não comerem maia que a ooyte
I} era oeste teatpo a sua ooresma a q·ue çbaotão renJe-
dão: & nunca 1inlirão nada se não quando a n1anta eo-
meçou darder com h o íogo artefieial que lhe foy posto,
e que acodirão Jogo· pera ho apagar, & acodiodo virão ll
lha Jeuauio sem vere 1JUi, do q ae espantario mo)' to.
E começando doulbar pera õde a lt-uauão, rewete d6
Vasco eõ os '1 estaulo coele tiràdolbt'a muytas
tladae com q 08· fizerio deter que aio passassem auao.te.
E aealo tea1po {oy a maota ialpir•ada,." os Fortugue-
•e.s ficarão quasi das muytas
dadaa & frechadas '1 01 de tirar qu&.
elo virão: 110 que durarão pouco porq os fez fugir ·a
li de jugar do traués 11 digo. E \IE',...
do dõ V aaco fi a DJàla ttstaua saluo, pela
• , JKlf õde aay{) )a q\la&i no cabo do quarto
dalua i} lilDto duTou este Ceylo:: de os mouros .ficarão
a•uyto · eorridos por ena quã pouca eoata 011 tinbão
çs Pvr·lugueae. , & quã facilmete Jbes seus ar-
dia. E ft"·Y de Calicut. espantado de tan1anbo·
etiiJr9J tlumlll,, & de quà •aliwaulo seu poder t
148 . DA RIITGRIA. DA INDIA.
que dAulo mil vezea rebates a sua gête: & parec-ia
henhü trabalho os cansaua, & dizia aoa mouros ·que fi-
zera mal de tomar guerra cô • homêe. E. eles ho cõ-
aelhaudo, dizendo que nlo se agastasse, porll, poucos
contra muytoa ntlea poderio durar muyto: & que os
Portugueses se auilo de deminuir tanto por quão pou-
cos erlo , (\ ou se lhe auião dentregar ou 08 auia de to-
mar por ndo se poderem defender, & fizerlo fazer outra
manta pera minar pela mesma maneyra ho baluarte da
JJOiuora, & Diogo pirez lbesped&C(OU a manta com hü
camelo a cujo tiro estaua. Do q el rey ficoa tio aborre-
eido por tomar nisso agoiro que nAo quis que fize1aem
JDaia minas, & mandou que toraassem a trabalhar na ai-
barrada.

C A P I T V L O CXV •
como tlom Ioáo fe• h1ia trattqueyra ho munJ
· contra hda albarrada que os • fabricauáo.
E trabalhildose nela c3 muyta diligencia, eomPÇOU lo-
ro de crecer: o que daua muyto cuydado a dom Joio,
pOri\ cuydaua q lhe queriio 01 imn1igos entulhar a eaua
da fortaleza pera lhe sobirem a ela, o que receaua por
amor da pouca gente que tinha. E porem muyto mayor
perigo se lhe aparelhaua na ai barrada seouuera elfeyto:
porq sem duuida fora entrado doa immigos, & morto
eon1 quantos estauão coele, q fora cousa com <l todos os
mouros da lndia se leultarão togo contra quAtos Portu-
gueses auia nela. E porque os de Calieut não viasent eg..
te & os Portugue&E's nlo recebessem tamanha
desonra, parece que quis nosso aenhor 'I se descobrisse
o. segredo da albarrada. & foy ·que fa1ãdo ho Ceziliano
com dõ João lhe disse como lJ. lhe pesaua que el rey de
Calicut ho auia de tomar cõ quantos eatauão coele,
lbes valer sua defensaro, o que diase em Castelhano,
do que dom loão deitou n1fto, & folgou de praticar coe-
le Yer a e podia saber por. ele- algiíà çousa ·da de Ler-
LIVRO ivr. CAPITVLO CXV. 149
tni·naçiiÓ .dos imigos:; & anuyto mais quando lhe disse
que homê era, & dali por diAte muytas vezes
eoeJe •. E ·fala·ndo bü dia ho Cemiliano· de ter por certo
que dom Joio ·au\ia -de ser· tomado com· a ai barrada lbe
disse o pera que era, mostrandose muyto triste por ia-
so. E dom João como era prudente disimulou, & rindG&e
lhe disse .que· bê sabia ho pera q a albarrada era porque
ja vira outras , & porisso a conhecera & buscara logo ho
remedio pera se (lemder dela como veria ..quando fosse
tempo: do que ho Ceziliano ficou muyto espantado: &
dõ loão deu muytaa graças a nosso senhor ·por 1be des-
cobrir -aquele segredo: & contoubo a dom Vasco & aos
outros fidalgos com grãde prazer. E logo na noite
guinte eom a mayor parte da gente da fortaleza -come-
çou de .fazer hüa tranqueira sobre bo mu.re -da ·banda
dõde se fazia a albarrada: & esta trilqueira era de duas
ordk de vigas muylo grossas metidas no entulho de
muro :CO·m outras atrauessadas das partes de fora -pr-ega-
das com pernos muyto grossos. E esta obra se fez esta
moyte cõ muyta pressa & era pera ·iobrepojar por
da albarrada , pera que os Portugueses d-efende11en1 ne-
la que não podessem os imigos entra..- polo muro, o ·que
se auia de fazer cõ hiía andai.na dartelharia que se-a·uia
dassentar nesta tranqueyra despois dentulhada. E qu-I-
do ao outro dia os immi-gos virão este dasafio derão hna
grande grita, & ho Ceziliaoo pelo que ao outro dia pas-
sara cô dom lolo Jogo entendeo o que era, ·mas não ho
quis dizer por não dar desgesto aos mottros , & .mãdou
aquele dia apontar nas vigas ·h ii tiro grosso,· -com que
lhes tirarão na noy&e seguinte andando dom "loao com
outros em pressa de a eotu·Jbar . & pelouro acertou
pela quadra de hüa das vigas , ·de· que le·aou hü. peda"o
em raclk,s, eom que .forlo escalau-:ados nos rostos dõ
João , dom V asco , Jorge de lima & A nto·nio de sá , &
foy morto htl criado .do sogro de dom leão com hua pe-
dra do trabuco que 'lambê começou de tirar cõ toda a
doa i.mmigos; q como tiaàlo muyta pol·
LIVRO VI. II
tóO DA HISTORIA DA -INDIÃ
uora nA esti·maul de a gastar nestes tiros perdidos pera
Yer se pudiào espantar coeles os Portugueses pois lhe nã
podiào fazer outro mal. E eo1n tudo deranlhe grande
fadiga toda a ooyte , mas nem por isso deixarão daca-
bar dentulhar a tranqueyra' ew que logo forão asseta-
das certas dartelba.ria ao oliuel daltura que a ai-
barrada podia ter com que dom João ficou &eguro dela.
C A P I T V L O CXVI.
I
De como quert4o 01 mouro1 combattr a fortaleza có 1-úas
manku de canapo foráo atalhados.
M agastados ficarão os mouros de vere esta tran-
queyra porq virão que era muy perjudicial pera ho ef·
íeyto que esperauão da sua albarrada. E preguotando
ao Ciziliano se aueria oulro ardil pera se a fortaleza to-
mar : ele deu Jogo ordem com que forão fabricadas duaa
mantas· quasi ao modo das de campo dal,ura do muro
da nossa fortaleza, & de largura de quize palmos feytaa
de vigas de grossura dii & dous dedos forradas de fora
t1e coiros crus porq uão se lhe podesse pegar fogo, &
estauão empinadas eada hüa sobre sua grade de vigasq
andaua doze rodas & das põtas das mãtas da bã ..
da de detro tinhão büs tirãtes de vigas que se pregaoão
nas põtas das grades, & de tirante a tirãte se fazia híi
aadaiano etD que auiào dir oylo espingardeiros pera tirar
por hüas espingardeira& feytas nas mesmas màtas ao1
que eatauesse.ro sobre ho muro da forlaleza õde auião de
chegar, & detras dela• auião dir 01 immigos em fieras
per• se e-m parare da artelharia da fortale1a, a q chega.
-· das. as mãtas auião de sobir por escadas. E. coes tas man ..
tas eertitie.ou ho Ceziliaoo q entrarião a fortaleza , porq
os e•piogardeyroa ho muro/, que ho não po--
dassem defender delles quando aobiuem . poJas escadas.
E segundo ho ardil era bõ· & bê ordeuatle, & os immi-
gOB mu)'tQs em de:.,.sia & Ql .. Porlu.gueaea lam pouco•
LIVRO Vf. CAPl1'VI .. tl crtr. tbl
-cómo erlo, parecia claramente que deu ia ser aa.si. E
os mouros tendo isto por mtty\o certo ho disaerão a el
rey que ho creo, & derã:ó porisso ao Ceziliano muy ri-
e as joyas. E logo fizerBo fabricar ·a& mantas detras de
büss casas, porque as nllo vissem os da fortaleza se não
quando fossem de todo acabadas. E crendo a as i os n1ou ..
ros que daquela vez aui§o de ser tomados dõ ·João· & 01
outros andauão muyto Jedos: & segundo a cousa estaua
ordenada assi ouuera de ser se as mantas ouuerão efrey-
to, n1as nosso senhor por sua misericordia ordenou ho
cõtrair() : & Bastião descobri o a dom loiro ho segredo
das mantas, & bo Ceziliàno não ousou porque lhas dom
loão nAo-- atalhasse como a ai barrada. E sabido is lo por
vio as pontas das mantas que sobrepojauão a alturà
das casas detras dõde se fazião, a que logo rnandou ti-
rar com hft ca•nelo que todo hil dia tirou ás casas ate '1.
deu coelas no chllo 8t as mantas ficarão descubertas, &
ht1a delas .estaua acabáda. E os Portugueses derão grll•
de8 gritas com prazer de as verem , porlJ. esperaullo de
as desmanchar, & toda a noyte jugou ho camelo & asai
a art.elbaria daquel·a b!da que tolhesse aos imigos qué
aquela noyte não andassen1 com a manta por diante, &
bo mesmo fizerfto os imigos , & nê htls nem outtos ntio
dormirão, & teuerlto toda a noyte muyto trabalho ju·
gando ás bombardadás. E como amanheceo,
aos immigoa quP. se vingarillo dos Portugueses os for!é
comet.er cl5 a mãta q tinhão aeabada postos nela os es-
pingardeyros, & eles det·ras dela em fieiras leuando
eu as escadas, & fazendo ·grandes matinadas de gritaa
& de seus instormentos ·de guerra: & coisto despararilo
toda suá· artelharia, & ho trabuco juntamênte 1&11<taua
. suas grandes pedras que quando cay5o parecia que auilo
de fundir a ·fortaleza, & começàsse hü bem l)rauo & me-
_donho combate de fantn diuersidâde de cousas pera fa-
zerem mal ·aos da fort áleza, 'CJUe se parecia goarda ..
Jos nosso ·senhor de todas, porque qual·
quer· delas aba81aua pera= os déstruyr de todo segildo
11 2
I
I

161 J)A Bll'fO&IA DA INDIA
erlo poucos , & a fortaleza estaua dane6cada doi conli.
JlOI co111bates da ar telharia, em que sen1pre dos PerLu-
gueaes Dlorritto algus , ·ou de bõbardadas ou despingar-
dadas: de que nio digo per ordê os tJUe 111orrião por-
que ho não pude aaber, se não que a este tepo erão
mortos dos Portugueses cincoeola· & eslauào feridos cê-
lo ou mais, de que alglia pelejàuão com cê to & sessen.
•a que eslauã sitos. E começélndose este temeroso eom-
bate antes q a outra artf;!lharia da fortaleza .começasse
de jugar, desparou ho coadestabre hii caJnelo com q a-
certou na nlanta, & feyta em a fez voar per
esse ar, espedaçando latnbê os e_spingardeyrOH q yão
11ela, &. os das tieiras que yão detras de que -ma•o11
Jnuytos. E festejado este tiro. eom rnuytas gritas d01
Portugueses, & muy.to tanger 'las lrõbetas., despar-ào
todos os outros com seu brauo impeto, & fazem acolher
os im1nigos que·estauão dE'scubertos, polo que ollo re-
ceberão n1ays dãno nos córpos , .mas Da outra manta. s},
'J:Ue tan1be foy feyta en1 pedaços , & assi. ho forào tam-
bê outras duas que estauão. "omeçadas, ·que foy ho
mayor mal c1ue lhe então podião fazer, porque nestas
maatas tinhão. toda sua esperauça de entrarem na iOr-
taleza :. & c&isto ficarão de todo desesperados de ho fa-
zer, principalmeate el rey que coto _vergonha quisera
leuãtar ho cerco. E tão estaua de si que
aurDC& quis que vsassern de maia. ardijs contra os Portll-
·goeses por mais que os moua:os .. ho- persuadirão pera que
l1o ,. & dizialhes q.ue era esctJeado, porq erão
grides feyticeiros, poJo. não lhes podia empecer
eousa nenhi'ía-. ·E desgosto mandou Jogo que ce•
aaase a ebra da a)barrada & sobre !\q·uele entulho man"
.fa·aer hiia tranqueyra singela de palmeiras cuberta
deatei:ras. O q.ue dõ looo t.eue -por àe sua. deaespe-
rafilo, & assi. bo disse aos- que estauà0 JJa fortaleza, di-
zendo. que se alegrassem, porque. dali• por di.ante au.ião
de desaJiuados do que padeeião. E de&:ão
todos muytaa gra.qu a 110110 aeDbOl , &
.
LIVRO VJ. CAPITVLO CX·YI. 2l>3
toda a fortaleza, & tangerão as trombetas:. d() que os
mouros se &sJM1tar4o muyto, & se virão. algus. oau.ios no
por lo pareceraJhes que era vindo socorro.: pu r terem
cartas ·dos mouros,de Cochim q11e o gouernador se fazia
preslea pera ir socorrer· a forLnleza, por tanto que .i&
apressasseoJ. em a tomar: & por isso amiudauão Janto
· os. ardijs pera a tom,.rem como E que
rey nào que .. ia que vsassem D)ais deles, coanbatião a
fortaleza cada dia, & sempre matauão & ferião algõs
Portugueses,.& Jbes dãoeficauão os baluartes & rl)uros,
& os tiohlo em sobresallos cootinps com lão aruiucJ..ados
assi de noyle como .de dia eoo1 que os. npnca
deixauão repoutJar: c:om padecerão oeste lempo tra·
llalbo incõportauel de estarem arwado.s,
& pelejando de ooyte &. dia com tantos pelouros
teJharia tão medonhos que lhe tiohão a fortaleza furada
por todas as partes, & com tão espantosas pedras de
trabucos, com tão bastos peJourQs despingarda, com tão
brauos combates de não cuydados ardijs, com que de
cada vea ae viào abraçados da morte, & .com tt-rriueia
dores das mortais feridas que recebião, & J>Or derradey-
ro coan estranha fraqueza que lhes causaua ho não co-
mer, porque em .cinco meses ·em que ya bo cerco não
comerão a o1ayor parte deste tempo se não arroz çozido
em agoa sem sal .porque ho não tiohão: &
tanto dele, que pera ho poderem comer ho wandauão
cozer aa· noyte pera ao outro dia estar azedo & lhe acha-
rem algum gosto. E estanGo dõ Joio & os ou.tros nes-te
trabalho, chegou hü dia AntoDio da siJueira sem neo.hu
dos. outros capitães que partirão coele de Cochi, que
todos se tornarão do camiDhQ .não podendo sofrer ho mar
que .os· comia: & entrando no arrecife colD a vira<cão
aurgi.o:. & cuy.dàdo i·JD.JPigos q fJUeria desembarcar,
acodirào bê. quinhentos espiogard.eiros a hiia. estaocia
junto do mar, doDde tirauão muyto rijo. Surto AntoJJ.iO
da silueira escreueo hüa carta a dom loão, em que lhe
maudaua preguotar iJ. que1ia q tizesae, ,& eata leu.ou. hil
164, DA HISTORIA DA. INDtA
homê a nado, l} nüca pode daflla vez tomar terra eom
as muytas espingardada& doa immigos, que matarloou-
tro q tornou com outra carta: & outro foy de noyt<i
tom outra; & pode sayr & deuha a dom lolo que t?s-
creueo a Antonio da silueira que nlo detembarcasê: 8&
se lhe podesse mandar algüa poluora que lha mildasse.
E ele lhe mandou tres barris dela, q fotito dados de noi•
te eom muyto perigo de peleja, 8t lhe mandou dizer que
esfor<iase que ho gouernador ficaua de caminho pera lhe
socorrer· eom o que dom Joio ficou muyto ledo, & dis-
•eo a todos, que fizerlo por isso_ n1uyt.o grlde festa. R
dada a poluora eomo Antonio da silueira ttstaua fiÓ 8&
não podia fazer nada tornouae logo pera Cochirn, onde
chegou muy asiuha, por ir eõ •êtó a popa, & contoll
ao gouernador o que fizera, & cottlo ficaua a fortaleza
& em. Cochim achou os ootros eapitiles l}
C A P I 'T V L O CXVII.
I
De como dom I?áo foy por da
despou por Francuco perttra pestana.
Com muyto perigo & trabalho ( poJa fortaleza do tem ..
po) chegou Francisco de •asconcelos a Cananor perà
onde partio de Calicut como disse, & chegado deu ho
reeado do gouernador a Eytor da silueira, que ja esta-
na prestes pera isso, & por falta dembarca«tilo de nanios
grandes não partia. E tanto l) Frliciseo de vasconceloa
ehegou , desembarcouse eõ algüa gête na· carauela & na
galeota & leuou cinco para'ós ligeiros carregados de
mantimêtos & de poloora: & deixando ft fortaleza en-
comendada ao alcaide mór se partio pera Calicut, onde
ehegou na fim Dagosto. E êtrado no arrecife surgio:
& cuydando dom loão que ·queria desernbarcar lhe nJan-
dou fazer sinal·que não desembarca-sse. E logo os. imi·
gos cuydando que.queria desembarcar lhe muytas
ltombardadas·, & aéodiri ... moytos A praya. & E·itor da
LIVRO VI. CAPITVLO CXVII. lb6
ailueira polo sinal Jhe foy feito se deixou estar ate que
foy noyte: & então rnãdou disparar sua arlelharia assi
da galeota em que hia como da carauela : & pos se áa
bombardadas cõ os imigos, per a l) com isso perdessem
bo tento dos paraós, que entre lllo partirão pera ter-
ra, & for-se dereytos á coira"a , onde os dõ loão esta-
ua esperando, acompanhado de quarenta homes : & os.
paraós for à de bizcoylo , carne pescado
em jarras, cocos, & oulros o1antimentoa necessarios ,
& poluora de bõbarda & despiogarda. E sabêdo dom João
ho aoeorro l} lhe ya, & como ho gouernador se fazia
preates pera ir logo, mãdou diz.er a Eytor da silueira
que não tinha necessidade de mais genle <JUe a que es-
taua na fortaleza pera se defe11der ale a vinda do gouer-.
Dador. E toda aquela Doite 1e gas\ou em se recolherem
os mantimentos, & em bôbardadas & espingardada&. E
por'Jue ulo era uecessario estar ali mais Ey to r da sil-
ueira tornouae ·ao outro dia pera Cananor. E dom lolo
por quebrar bo aos imigos conuidou Bastião ca
1,rn. postas de carne de saloJceira, & ires de be-
tele fresco que lhe maadou deitar .do muro. E bastião
muyto e1pantado de as ver, as mostrou aos imigos q·ae
ficarã muy lri.slea: & então conbecerlo l} dom loão fo-
I'& socorrido coan & ate·Ji não cuydauão se
não que Eytor da silueira Dão deseo1barcara per Dão se
atreuer: & estauio por isso muyto ledos : & conhecen-
do que os de JOrlaleaa estauão abastados de mantimêtos
de os poderem tomar, porque cuydaulo
que a fome os aoia de fazer être«ar, que bê·sabiiD pe-
los naires que scruião na feit{)ria que aio tinhlo ma.is ll
arroz. E se aão fora por .eJea aüca ho souberfto , porq
dom lolo teue sempre tam boa vigia na fortaleza, que
aüea Benhü eacrauo lhe pode fugir pera ()8 !·mig01. E
par lido Ey tor da eilueira ja •• fim de Se tem ltro
Franeiaeo pereira peslaaa ao galeie, que eom aehar ho
wllo por dauaDte &·os mares muyto gro1101 ae oouera
de perder., & eat.eue muykl1 .d.ias IW'lo aa foz do rio Wt·
tõ6 · .. !)A RIITOtlfa\ DA. INDIA
Chatoá, que 1e isso nio fora, perderase: & cb@.gado ·
ele a Ca·Iicut surgio defora do arrecife pera esperar pe-
los outros capitlea, que euydou que· fosaem -ter ooele,
& entre tanto como loy noyte mandou ·ho ·para6 do ga-
leBo ·a terra com mantimentos, & mon1çoês, cuydando
l} dom lo!o eataua em necessidade deles. E .sabendo
dom Joio como ho para6 ya , por fazer luar muylo claro
ho foy receber a eoiraça , a que Jogo aeodirilo os immi-
gos : & sobre ho desembarcar do paraó foy · hGa braoa
peleja, em que forlo mortos cinco Portugoeaeat:·& dom
lolo foy ferido de htla esJ>ingardada ê bOa perna·: &
eom tudo ho para6 foy descarregado, & se ,tornou pera ·
ho galeio , com recado a Francisco rereyra que aão
desembarcasse , porque como nAo fossem quinhentos
homês jun.toa, era escusado desembarcar outra
E dos· immigos morrerlo nesta peleja algiis: & forlo
feridos -tantos das nossas espingardas, & queimados de
pa.nelaa de poluora , que lhes c3ueo afastarenae. E dom
loAo se recolheo á fortaleza deaapreseado deles : & en-
tão ee achou tão manco da ft'rida li tinha (que ateJi
ale aentira com a furia do pelejar) que foy necPssario
leoalo lor.ge de lima áa eos&ae, & foylhe necessario dei-
tarse na cama porque a ferida n!o podia sarar em pé,
ho que ele sentio muyto por ser em .tal -tempo, & pola
aecessidade que tinha se deitou.
C A P I. T V L O CXV·Jll. •
.
. .
como 01 immigos tomarão o parnó do galeão com (J
carrega leuaua. E como cuydádo tl rey de Ca-
licue lj d01n Ioáo era morto ho mandou saber.
Dali a. tres ou qo&tro dias tornou Frilcisoo pereyra·a
mandar ho paraó a terra com outra barcada, & mãdou
ho pola sesta, : parecendolhe q era tempo de menos pe-
rigo porque ealarião os immigos a&sessegadoa, &
do acodiri!o por lhe• parecer que a tal tempo,
I
LI\'Jro. VI.. CX'Ytll. 107
& for.lo nele cinco marinheiros Portugueses pera bo
rnarem.· E uão esperãdo os da ;por.ele a taia
horas
4
nlo· .bo vir.Jg,,. & os ·si·: & .vedo ho perto
de :terra, & não sintindo reboli<tO na CGiraça como daa
· outras vezes , foy.se hü -dos seus capitães .oom algus de-
·les meler na ·C&it'aça , ·pera q em ho pa.ra6 e-heg.ando be
apanhassem. E a -vi.gia da eoir.aça coole((OU de bradar
que entrauão os imigos nela, ao que acodirão doan Vas-
co de lima & lor.ge de. lima com sessenta bomês, maa
.antes. que cbegassê chegou ho paraó, &t·os i.mig()S he
apanharão logo, & .ho leuaril carregado .pera dian,te da.a
suas estãcias cõ os cinco ·n1ari-t;ahe.ir.os 1} h ião nele, .bõa
Jnortos & outros feridos: .& ho capitão que digo cõ n:auy-
tos dos i=migos se pos coeles .& porta .da coyraça .quande
a vio abrir pera defender a dom Vasco & aos outros .que
não sayssem , & foy sobrisso hüa ferida peleja •. E
d·om Joio fi ou.uio a· grita chamou pera saber o q
& não lhe l'espondee mays que hua , que lhe
disse -o· que era, & q os imigos erão muytos •. O que .ele
ouuindo. não ae .pode ter que nAo se leuautasse & assea.:.
touse a hua genela .de grades de ferro, donde ·a pe-
leja . que era debaixo. E quando vio ·li 11ão podia acodir·
de tirar aos itnigos com duas espingardas qu.e
lhe a escraua atacaua, & e1n quàlo Jhe ceuaua hiía ti-·
raua com a outra. dali matou bã trinta :dos j.Jntni:gaea
em quanto .. durou a peleja, .porlj os tinha a tJro, & .ti.:.
paua a saluo. E .dom Vasco matou nesta. ·ho capi,;..
tão dos imigos , passandol:he ho escudo co.m biía lança,
& 8 ele por & cayo ·morto. -E com sua mor-·
te ·se desbaratarão os in1migos. E .dom Vasce se reco-·
J.beo indo lorge de lima, ferido de ·hlla espi-ngardada que
Jhe leuou ·a coroa .do capacete: ·& ho mesmo capacete o
ferio· hõ pouco sobre .hil olho. E.e)es recolhidos dom
João se .tor..nou a deitar.: .& a perna se ·lbe agrauou de
.maneira que lhe· ou-uerão·de saltar herpes nela. E por·
· Franciseo pereyra. não ter .paraó.não mandou.1nais. nada
a fortaleza , & deixouse estar: E os immigos fizerão
LIVRO VI. KK
168 DA HIITOB.IA DA INDIA.
grandes alegrias pola tomada do paraó: & dali tornarilo
a ter esperanqa ll tomariào a fortaleza, & combatiàna
brauameote: & mais por crerem que dõ João era mor·
lo, porque como Bastião falaua muytas vezes ooele a- ·
chauao anenos. E preguntaodo por ele, foy lhe dito que
estaua o q ele cõtou a el rey de Calicut & aos
Dtouros l} for4 coisso muy alegres: porque crerio que
cl6 lo4o era morto: & oe seus polo encobrirê dezi4o que
estaua ferido. E pera aaberem a verdade disto diuerio
a BastiAo q lhe manduae pedir licença pera ho ir Yer.
E dom loào quando lba ele mandou pedir Jhe pareceo
lvgo o q era, & por tirar aquela sospeita Jba deu : &
qu•lndo vio Baslião lhe diue o que entedia -de sua visi·
taçlo, eacõjurandoo muyto que lbe diasesse a
lt ele llu disse, & que el rey de Calicut lhe queria ta-
manho mal que nenhüa eouaa desejaua mais ll matalo,
por se auer por oauyto injuriado dele por se li1e
cler tanto le1npo com tam pouca gente, tendo ele taaoa-
Dho poder. E dom loão rogou o1uyto a Bastião que lhe
dissesse, que posto lj ele morresse, que cada hü dos
estauão na fortaleza erão pera 1er'e1n & sa-
billo da guerra mais que ele, & Jhe auiio de fazer mais-
mal do q Jbe ele tinha feyto: poriaso que nlo gaohau•
Bada em sua. morte. E porê- que se a tAlo desejaua que
c6batesse em pessoa. a. fortaleza : & poderia aer li cõ se11
fauof a eotrarião os seos mouros- tle que fazia grãde ea-
hedal , & ll. ho matariào : porq Jhe certifioaua q ho a-
uião dacbar na diant-eira o tomar 'iuo & ho mau.
dar preso a el rey de Portugal pera lá pagar suas t-rey-
qões & maldades • .E pori· que pois não auia dousar de
cõbater· em pessoa a fortaleza que lhe rogaua q não fu ...
gisse pera o-sertlo, porq. ele ho mãdaria buscar á cida-
de coro, a artelharia. E dolll João trabalhou anuyto cõ
Bastião .. que se tornaHe per·a noaeo,senhor, & que ele
l!o Jeuaria peM Portugal & lhe auer·ia perdão dei rey, &
ele alo qw1. E daudolhe di Joio 4e lw despedio.
LIYitO VI. C.&PITVLO C][IQC.
C A P I T V L O CXIX •
.
De como os ímig01 quiserão quey'DIIlr hum baluarte de
· da fortaleaa !t não poderão. ·
ee foy logo a rey d.e Calicut , & U.e
·como achara dom loão .& -deu l-he ho seu recado o qu
·el rey ee indinou muyto ·mais contre)e, .& fazia coiJiba ..
·ter a fortaleza de dia lt de noyte que uunca doo1 loã•
-nem outros ti-nhlo nenhü repouso & leuaulo tra.
·balho. E hüa noyte po6erlo 01 immigos fogo ao baluar-
te de madeyra porfl lhes im·pidia ehegarem á ·porta da
fortaleza. Dõ Vasco de lima ·ll seruia ·de eapitlo acodie
logo c3 gête ao baluarte pera matar no ."& 08 im-
migos lho defendillo, sobre o que se começou aatrelel
hüa braua peleja. E dom Joio que soube o"' pasaaua
posto que estaua ferido., mldouee leu ar ao ;baluarte aia.
da que ·contra vontade d·e todos, porque receou que ar-
desse ho baluarte, a que mandou logo leuar muyta ter ..
ra pera apagar ·bo-- fogo porque oo agoa nlo podia ser,
nem o& P.ortu·gueses tinhão muyto Jogar pera o apag·•·
-rem pola dura resistecia ·q lhe ·os imm;gos faz ião, :& ho
fogo se ya embràuecendo de cad·a- v·ez· mais. E -estando
os Portugueses nesta fadiga quis lhe noaao :&enbor lesa
·cbriato acodir com ch·egar ·naquela hora Eytor ·da siJ.
ueira, <t ·estãdo em c·ananor ·por capitão como ·disse em
ausencia de dom Sin1ão de meneses, d·esaueoee do·m Si-
mAo em Cochim do gouernador, & ·nã q·uis ·mais andar
coele & tornouse- pera sua cap·itania. E vendo Eytor da
silueira que uAo fazia nad-a em Cananor, pareceolhe
ir goardar ho JJOrto de CaJ.icut ·pera fauoreceT a fortale-
Ba , & f'speraria bi ·ho gouerna·doT sabi-a qu·e estaua
de caminho , & embarcouee na g.aleota de Fra·ncisco de
vaseoncelos, .& leeou co·nsigo a carauela & algüs paraós,
& .do mar vio ho fogo li estaua aceso no baluarte·: & co-
uheeendo que era Da fortaleza, chegouse a terra o mais
KK. I
' . I
2.60. . i»A HISTOlliA DA IMDIA.
q pode , & começou de desparar sua artelharia eom q.
fazia estrõdo. E ouyindo ho os imÔligos tão de
sopito cuydarão que era ho gouernador por terem auiso
dos mouros de· Cochim que era ja f)l:'flido pera Calicu.t
en1 socorro da fortaleza. E. com ho desta sos-
peita acodirão logo á praya, não son1ete os immigos q
tlefendiilo que não apagasse os Portugueses ho fog.o do
halu·arte, mas· outros mu,Los de todas as estaocias. E
eomo os Portugueses pelejauão forão desapressados da
peleja, apagarão Jogo ho f<igo: & os ianigos esteuerãto-
da a noyte em v·igia, euydando q os Portugueses q es- /
tauAo no· mar desembarcaseem,. roas nê entãt> nem des-
pois não desembarcarão, p.,r recado de dom J.oão que
i·he tnandou l·à<t8t_- hua carta e que l-ho escreuia. E ao
outro d·ia a Eytor da sikleira se ·pos com todos. os
11auios a- tit'ar ás ·aQS.;inlmigos ,. & entre
ta·nlo mãtlou muytos mantimentos,. & :fJoluora á fortale-
za pela. coiraça. escreueo a dom 1oão que ho gouer-
nador se fica o a aparelhando pera ho sooorrer, & por is-
SO· se não auia. di r· dali , & auia· desperar por· ele, q. se
se visse em necessitlade de gente que. lhe 1naadasse di-
/ zer & q-ue logo desembarcaria. E dali. a poucos dias che-
gou Pero de faria que ya por· ca·pitãé mór de hua
de Custas; q partio Je Go& em socorro d• fortaleza em
que yão- muytos casados. de Goa á sua custa a seruir el
rey, que· corno souberão do cerso posto q era inueroo
embaroa<tão- a Francisco de sá & partirão quasi
na fim de J.ulho , & por·_ ho · t-em.po ser muyto ferte não
ehegarà- mais cedo. E. oom .& armada de Pero de faria
· se- ajuntou ao arrecife de Calic.ut hüa arrezoada arma-
da,. cõ que os mouros se agastawão mu,to porque vi-o
')Ue daqu.ela- vez. nã poderião tomar a· forlaleza, a q a-
miudauão muyto. os· eombat·e&: ma& ja OS· que- estau lo
Bela·· os tinbão em con.ta =- & tambenl Jbes tirauão
bombardadas,. & as si os q· no- ·porto com
qu-8 im1nigos estauão n1uy afrontados,. & es mouros
muyto.- agastados-·&. enuerg"<?nhados Qe pouce tiahão
LIVRO VI. OXX. 2·6-1
. .
feyto. naquele eerco. E el rey de Calicut muyto corrido
por tomar seu. conselho: & cõ ludo. apercebeose pera
zeceber ho
. .
C A P l 'f V L Q. CXX ..
·Di! como ho gouernaàor SQcorreo a forta,lesa .de Calicut,.
. g • eosselho que teue SQbre peleJ·ar corn os mouros. ·
Salrendo ho goueraador quão bê- Wra dõ Joio
de Jima, descãsou algü tãto do cuydado q tinha de &&-
ller q estaua eercado, & dos cõbates q Jhe dauão Ql
imigos .. E determinou de ho D.ã yr socorrer se nio com
tempo feyto, porque fosse eom toda a armada ij tinha,
.& t4o poderoso como oonuinha ao goueroador da
l1o que não podia ser sem dar J1o n1ar ja-zigo, porque
mio ho dando chegaria a Calicut com a arn1ada espeda-
«rada & sem. nenbií poder, ho que pera l1o tempo era
muy perjudicial: por el rey de Calicut estar muyto po ...
-d.eroso,. & os mouros cõ grãde soberba, se vissem ho
g.ouernatlor com pequena armada nlo ho terião em con-
ta : & com grande. & bê fornecida de gente & dar telha-
I' ia acrecêtarselheya ho medo. que. tinhão dele. E
porque ele isto sabia parlio na entrada· Doutubro, em
que ja ho mar eslaua seguro cõtrastes inuetno:
Mt le.uou hüa armada e.m que forAo miJ & nouecêtos.Por.-
tugueses •. E os prlcipais capitaês forio. dom lol'ge de
meaeses, dom telo de meaeaes, dom Tristãp d'
noronba, dõ Afõso de meaeses ,\ dõ Pedro de .
branco, loilo de melo da silua, dom de Jyma, .An-
tonio da silueira ,. Manuel de macedo, Anrrique de ana-
eedo, dõ lorge de erasto, Jorge eabral.,. Aatonio daze-
B.edo irmão de Mar.ti·m Iopez dazeuedo senhor de Caures,
Duarte dafõseca, Fernão gomez de Jemos, Antonio da.
t·iJua ,. Antonio de Jemos·, lorge de vasoõceJos ,. Antonio.
pessoa, llodrigo aranha, & outros capitãjs de catures
a. .'i não: 11oube os noiJ)ea. E coe1ta· annada chegou ho>
..

B6t DA BIB'I'OR.IA DA rNmA
gouernador ao porto de Calicut meado Outubro por che-
gar cô a frota jüta. E quando Yio a eataua no porto,
muyto ledo de ·Yer ·ho bõ cuydado dos Portugueses
no q cõpria a seruiCiQ dei rey. E foy bo arroido gridis-
simo da artelharia da frota lJ. eataua ·DO -porto que sal-
uou bo gouernador·, como da sua q saluou ela, & ass.i
grlde Cesta de gritas , & de muytas tr3betaa! t} foy ll-
to q cuydarA os q ho geueraador dedbar-caua:
& acodirão á ·praya: fazêdo jogar a ll
··pera ho mar. E oa Portugueses tlbA lhes t1rarlo, & ata-
to se paseou hil pedaço q estaua por paasar daljle dia :
& ao ootro dia ê por ho grãde poder q es-
taua sobre a fortaleza , a c3baterlo os imigos cõ toda a
artelharia 'l tinhlo, q toda tirou jütamête 8t o trabaco
4Wela, & passada esta primeyra çurriada, mostrarlse to-
dos na , oa adargadoa diàte , & detras oa espin-
gardeiros & frecheiroa, apartados hils doa ou troe, & asá
tirarlo pera ho mar cõ muyto c6certo, & dlde medo-
uhas gritas li foy bA pera eapãtar. E assi se eapãtario
·oa Portugueses (\ estauã no mar, de Yer tãtos imigoa
jGtoa q nilea Yi.rio litoa! & erl Rouêta mil homl§s, porq_
posto ll dos primeyr• aottêta mil muitos fosse mortos
Jogo se refaziã, & nüca faltaulo deste aumero. E ho
.goueroador folgou rnuyto de os ver JlOrque .soubesse que
aoma faz.iãa , & dei:t:andoos hã moatrar, lhes maodoo ti-
rar t1Uaado se recolherlo: & eles recolhidos toroarlo a
eõbater a fortaleza, & durou bo combate todo ho dia.
E •isto pelo gouernado·r a grãde força de gente que os
lmigoa tinhito, & quão apercebidos estaulo, nem por
isso bo esforço com q.ue partira de Coohim pera
pelejar cõ eles , antes parece que se lhe acrecentou ,
porque isto era muyto natural aeJe, quanto aa cousas
erlo de mayor perigo tanto menos as temia & desejaua
mais de aa cometer, & logo ao outro dia pelejara com
oa imigos, h& que Dão fez, por ho regimento que tinha
dei rey lhe defencler que nile cometesse as ooasas se-
mel·haotea sem fazer c&elho 1eral, & aegair a parle que
,/
J
LIVRO VI. CAPITVLO CSX. 181
teueae mai1 -.otos. E por isso juntos ao outro dia em
c:õaelbo todos os capita&J & fidalgos & pesaoas prioci.-
paie, Jhea Jlropos bo a perto ê que estaua a. fortaleza, &
a gête qutt a tinha cercada, & quão aoberbos eataulo
os mouros , & a gente ll. ele leuaua, pedindolbes seu1
pareceres. E forão que não ae deoia de pelejar com 01
io•igos , JK>rque a Jora muyto demasiado poder de·
. gente & grande força dar telharia, em cujas bocas a a ião
de deaerubarcar, & a desembarcaCilo era anuyto roi", por
1er eosla braua, & andar 1empre bo mar de Jeuada,· pe-
lo que auiào d" desen1barcar a nado, & os immigos que
logo auilo daeodir os DlatariAo a todo• 1em k
que se ho estado ll. el· rey de Portugal. tinha na ,
lodia, que importaua. maia· que fortaleza:: flOI
iBio que ho bom lt'ria fazer pouoo caso dela,. & despe•
, jala & deixala, & todos quantos· estaulo no cõselho fo-
rão dnte pareeer.,. se nà Antonio dazeuedo, Francisco
pereyra pealana ,. Eytor. da ailueir.a, Manuel de tnace·
do, & dom lolo de lima, que n1ãdou por escrito ho
ao gouernador.: & di&iào eatee quatro que no
conselho, que nuca, bo estado dt-J rey de Portugal este-
uera em tanto r.iseo de se perder pot não peiPjarem co--
DlO naquele negoeio, aem nu oca tanto
rem rwra bo "osterem eomo mais se
aão pelejando que com pelejarf, por quão perdido e&'ta-
ua ho credito dt.s Portugueses na lndia, & qulo. aleuan-
tado bo dei rey. de Calicut, que nunqua mais fora eas--
tigado, despois da morte do Marichal & do desbarato·
dafon10 daJbuquerll.: bõa ofensa tamanha pera Porltl•
goeses. E posto que bo não fosse por quilo daneficado·
fieara Calicut·, abastaua <JUe os mouros tinhão i}· era o-·
• & se então lhe deixassem passar sem eastigo ....
quela de fazere;·. guerra á fortaleza, & poer@na ean tama--
Dho aperto, que descrerião de todo dos Portugueses-, &.
cs nllo terião em conta, 6t logo se Jeuantarião
eontra as outra& fortalezas' porque \'erilo que não per-
doauão se Dilo bo que nio podiam castigar: & por is80J
'

18.1 11111'081&.., DA./ INDIA.
de neeeaaidade au,iio . de pelejar, pera qae ao menos
moatras1em que fizerAo ho que que espPras·
sem em nosso Seah<tr que os ajudaria, como ajudara a
Duart.e pacheco que lantaa Yeaes desbaratara a el rey
.de Calicut sem f«,«ente. E ,-posto que a. rezão destes
era muyto boa, & tal parecia ao goueraador, não to-
maua seu porque ho conlrairo tinba maia vozes.
E raor não se de,ermiaar de. todo que aão pelejassem
1
Jeultou llo c&tej.bo deixando a :eouaa suspensa, parec6.
dolhe que em outro cooselho se determinaria que pele.
jaasem: o que ele de8ejaua muyto pera castigar cs BIOH-
. ro8 ., porque auia por. graade injuria ••ado gouernador
cerca•em aquela. furtaleza, mas como via tantos cootra
1i & :do podia ai fazer se nã comprir ho regimento qee
tinha, .que era irse cõ os anais. pareceres não DUiaua de
se declarar: esperaodo eomo digo que em outro oonae-
lho ouueue parecere• nos que.dizião que não pe-
Jeja•em : .maa não os ouue .ciaco ou seys conselhos
_ q fez despois ·deste.· E tadauia aen1pre. o8 aleuantaua
sem ae assentar a .determinação de .o Ao pelejarem, o que
Dio .podia acabar coosigo. E neste tempo. daulo 08 im-
migas brauos .combates ·á fortaleza, por. darem a
entAder ao gouernador 4 ho nA teruilo, & ele mandaua
cada noyte mltimêtos á .fortaleza.· E iado hlla noyle
don1 lorge de menesea em hü bateJ carregado deJes &
de duzen.tos padese1 de campo, em ho deaearregaodo
cartegarão sobrele muytos doa immigos, tiraodolhe com
suas espingardas.& com muylas rocas & freebas de fo-
go, .& era n1edo velas de noyte poJo l'scuro, & mu,tos
se metilo no mar com croques com li puxauão peJo ba·
tel: mas como dotn Iorge era muyto esforçado liurouse
deles com matar & Jeuar ·feridos quantos y&J
c:oeJe. ·
. .
o o
Ll\'8.0 VI. CAPITVLO CXXI.
266
C A P I T V L O CX.XI.
I
como dom Ioáo de lima thu hú rebate no arrayal dos
immigos : de como ho gouernador assentou de ptle-
jar coeles.
,• . ' ' ... ..,.} l
. .. fltr
Continuandose estes conselhos acerca de pelejarem com
os immigos em lj os mais· como disse eriio q não pele-
jassem, Antonio ·dazeuedo a que parecia bem que ho
pesauaJhe muyto -de ver caminho pera não pe- ·
lejarem-: porqu·e tinb:l por sem duuida que _auiã-o os im-
m·ig.os de ser vencidos, & que perdião os 1
1
ortugueses
hüa muyto grande honrra se não pelejau·ão. E porque a
Dilo perdessem ' esereueo a dom Ioilo o que pàssaua:
pedindolhe muyto que se fosse possiuel desse. de dia hü.
rebate nos immigos, que esperaua E'm nosso seohor que
auiilo de fugir: & que entAo veria ho gouernador quão
errado era ho parecer dos que dizião que não
& quão bem lhe diziào os que tiohlo .ho eontrairo. E
esta carta mandou per hil seu criado que foy de noyte
nado,·& leuaua à carta metida em cera por nlo se
JhÉt molhar. E vista esta carta por dõ lollo, folgou ·muy-
to com ho conselho Dantonio dazeuedo, & toanando ho
de: aJgils desses· fidalgos que estauão coele, assentou de
dar hft rebate em hOa dos imigos q estaua onde
se chan1a a China ·cota da banda do sul em lj auia. me-
nos gente que nas outras : & ordenou que hii fid·aJgo
chamado Jorge de ·Vasconcelos que fora cõ ho gouerna-
dor &· estaua coPie, desse ao outro dia poJa sesta na es-
tnneia lj digo cineoenta espingardeyros, & se tor-
nasse Jogo a recolher: & ll ele lhe iria nas costas pera
lhe acodir. O que foy feyto ao outro dia ás horas que
digo: & entre tãto que Jorge de vasconcelos ya dar na:.
quP.Ia estancia, mandou d·õ loão aos q ficauão na
Jeza l} tirassem espingardadas ás outras: porq ocupados
immigos não sintissem Jorge de vasconcelos
LIVRO VI. LL
166 J)A HIM'ORIA PA JNDIA
quando desse nos que auia de dar, & olo lhe acodissê:
& assi foy. E como ele era muyto Hfurçado, & oa que
yclo coele escolhidos ferirão muy nos im•ni-
<os com auas espingardas , & como se vi rio conleter t4o
rijo & assi Lão de supito forào tão cortados do que
logo se acolherão & deixarão a e1tancia ficando algüs
mortos, & loanarào os Portugueses tres berços &
hua boanbarda: & ho prioaeyro que chegou a eJa bií
fidalgo anancebo cha1nado Jielcbior de brito da cidade
de Beja, que saltàdo sobre la coaneçou de bradar. A OJoP
rea, amores. E tomando os l
1
ortugueses eslas qualro
pera as leu arem fizerào 01 inlauigos volta .aobreJet
eoan outros que Jogo acodirão lirldo muy1as espingar.
dadas & rocas de fogo & dando grande• alaridus. K ••
• este tempo dQill João não eliteuera cõ lorge de vascoo ..
eeJos que se ya recolhêdo, ele se vira em grflode
ta, porque os imigos carregauão muylo, & biia espin ..
gardada deu por hü ombro a dõ João: & quia.Deos que
não lhe Cez mais mal q JeuarJhe quãto Jhe alcanç.ou do
çorçolete, & outras matar-ão ho almoxarife dos manti,..
meotos da fortaleza que auia nome Iorge diaz & l1ü amo
de doto Diogo d.e Jima. E ja neste tempo a artelharia
da fortaleza desparaua polas outras partes, & era a gri•
la muy grande: & oialo se recolbeo dõ loilo con1 algu•
E bo gouernador que vio o que dom loão fez
folgou muyto, porque vio com quilo JlOuca cousa 01 im-
migos se de desbaratar , & q se fora mai-
forGa de gente (j se bar atarão de todo: & gabou 1nuy ..
to aquele reba1e, lj bero viào todos .se
dia pelejar corn os irnigos & por isso q ele aula de pe·
lejar. Do q lodos os que erão contra iuo ficarão JDuyLo
eorridos: & na noyte seguinte eacreueu agar·
decimentos a da loào pelo que fizera, & ztssi aos q say·
rão: que lhes pareeerão todos .muy&o bo-
mes, & que Jhe mãdasse dizer se lhe parecia ainda bem
pelejassem cõ os iwig.os, Jlorq ele detertuinaua de pe-
coel'a: por iaso '}Ue Jhe mãlla&lie -.Jgil bome

LIVRO ·vt. CAPI1'YLO CXXI. 267
lbe disst'sse onde deaembarcasse. E dom lolo lhe rea.
poodeo, que ainda lhe· parecia bê que pelejassem , & ll
nOca outra cousa diria. E ho homem li lhe mãdou foy
Iorge de lima que lho pedio, & foy em hiia almadia re·
mildo ho hü marinheiro que cbamaulo ho Guisado, &a
alrna.dia foy arrôbada c"3 htl tiro dos imigos êf toda a noy·
te t1rauão, por(j pescassem os l} fossA a fortaleza, &
arrõbada a aln1adia lorge de lima & ho·marinheiro forlo
· a nado: & chegados á frota foy Jorge de lima Jeuado ao
galeilo do gouernador, que toda a noite· esteue falando
ooeJe, enf()rmandose do poder dos imigos , & assi do
passara no cerco. E ele lhe deu too boa enforma•
qão, que bo gouernador assentou de todo de pelejar.· B
ao outro dia logo pela menhall chamou a caselho, nlo
pera tomar mais pareceres, mas pera declarár a todos
como auia de pelejar cõ os imigos. E porque os <} erfto
de pare'Cer contrairo nllo ficassem disselhe1
estando todos juntos.
C,()mo quer lj muytas vezes ho nosso juyzo se en ..
gana, & julga por falso ·o verdadeiro & a verdade por
mentira: acontece outras tãtas fazermos obras muy des•
ttiada-s de nossà tenção, pelo l} esta deue sempre de eer
posta na vontade de nosso senhor, pera ll por soa mi-
sericordia guie ho efeito dela a seu seruiço & por ilfl&
JMl& neste negocio de pelejarmos cõ os imigo1
minha tençlo, na vontade daquele deos eterno todo po-
deroso·, pedindolhe que ordenasse tudo como fosse mais
seu· aerui"o: & tendo nele esta esperiCia estiue tantoa
dias sem me declarar se tomaria vossos pareceres de
Dlo pelejar com os imigos : que como sey pelo que vi &
ouui q. soys todos de muy assinada & vos achas-
tes em feytos muy façanhos01, a que c3 sobre natural
esforço destes marauilhoso fim, receaua muyto de não
tomar vossos pareceres, crendo que pois erão q não pe•
lejassemos, que vos moo ia a isso licita causa. E por ou·
tra parte pesaado bê as caU8as q1le vos 1)()(jiã mouer,
que me· alo satiafalilo per a deixarm01· de. pelejar , . pa•
LL 2

268 DA BII .. ORIA DA IJfDI.l
reei ame que como ho vo110 parecer era humano, que se
engaoaua, por<} ae vo1 fundaueis em serê os imig01
muy tos & nos poucos : por muyto menos que nos quis
nosso senhor que se ouuessem na lodia & fora dela de
quasi tlltoa n•ouroa & tambê apercebidos como estes,
tantas & ti famosas vitorias como sabei•: & porisso vo-
. las não lêbro. E de crer he que pois nos pelejamos por
exal'iamento de sua saocta fé, que assi nos ajudará co-
mo aos passados, & tendo esta fé de vencermos fica ti-
rado ho receo de sermos Vt'Dcidos & de se perder ho es-
tado da India. ·Assi que pareceodome que vos engaoa-
ueis em vossos pareceres, esperey tantos dias a ver se
me. n1ostraua nosso seftor aer isto assi , & ele seja lou·
uado que lhe aprouue de mo mostrar em os imigo1
· gire onlê tio asinha com ho rebate que lhes deu dom
lóão. E quldo tam poucos & sem ordê os lizerã fugir!
que faremos nos todos postos em ordê, & cõ a esperan-
ça ean nosso seflor que os auemos de vencer: cerlifico-
uos ·da sua parte , q ainda ey estes por poucos pera os
-vencermos, & que em nos veado lhes auemos de pare-
cer muytos mais do que eJes sam. Porisso senhores pe-
çouos q vos be pelejarmos , JJOrq eu nisso estou.
· E vendo os· q erão de parecer q não pelejassem,
sua võtade, disserão todos €)Ue pelejassem pois lhe· pa-
recia be. E dandoJhe ho gouernador por isso muytos a-
gardecimentos, assentou com ho pareeer de dvm João
de liaaa que Eytor da silueira se melene aa fortaJeza cQ
trezeutos hon1es escolhidos : & despoie de meti Elos logg
. na noyte .seguinte darião nos imigos ao quarto dalu·a, &
no começo deJe se farião na gauia da capitania quatro
fogos e cruz & tiraria hüa bõb.arda gr068a ' & despois
se farião lres· fogõs per·a que soubessen1 n·a fortaleza
que mouia o gouernaôor pera terra. E em acabando os
fogos toearião hila trombeta no baluarte de madeyra,
euja porta estaria desalupida pera saJr Jogo Fernão de
morais c6_ via te eõpanheiros .eaco!hid{)s & todos·oom pa-
de· poluora que ·dei,arião na estancia do-· trabuco

J
.
Ir


------
LIYBO· VI. CAPIT\'·LO CJIXil. . 161
·pera queymarem os immisos, & acodirê os·ou.tros ali.:
.& no mes·mo instante sayra·a Eytor da silueira, que cgm
-cs trezentos que Jeuara de refresco estaria na &
.daria nas estãcias da banda do sul. E tambem dõ
de lima com a gente da· fortaleza que daria )l61a banda
do norte: & ho gouernador ficaua da banda doeste ,
.&, pera a de Jeete auia de jugar a· artelharia da fortaleza.
C A P I T V L. O CXXll.
.
·De ·esmo ho gouernador. pelejou com os immigos q tinhtw
. cercada a fortaksa de CalKu' V os venceo •
. Isto assentado como foy noyle madou ho gouernador a
.aJgüs eapitães· q chegassem. os seus naui()s a .terra ho
.mais que · podessem, & que tiraasem com sua artelha-
porque impediHem ·aQs immigos nio acodissem
..sobre Eytor da siluflira quando desembarcasse. E .entre
.tanto q a arlelharia de•paraua d.esembarcou· ele com
4
cenlo & cincoêta homAs: q nio qu.ia bQ gouernador
:que .aquela JJoyte mais, porque ae «le&.e»e88em :
.menos em ae meter Da fortaleza, & 111ais aem
.perigo. E sinlipdo o,.. imigos a gente. que desembarca- -
·Ua, & que lhe não podião re&istir por amor tia artelba-
.ria despararão tambem a sua, &. tirarão mu:yt.aa espio-
,gardadas que aão :fizerão nada. E Eytor da silueira
-se meleo na fortaleza eõ os que y.ão aem perigo,
&· na ooyte aeguinte deliembarcarão outros- cêto & cin-
eoêta hoo1es, cujo ca.pitAo foy êõ Diogo de Jima, & &-
trarfto· na fortaleza mesma maneyra. qae QB outros .•
=E fêdo os mouros quao&os dias auia que bo gouernador
- .eataua no pgrto aem desembarcar pera pelejar coeles:
.& que no cabo deles mandaua recoJiaer al}la A"ente oa
,fortaleza, pareeeoJhes flUe era pera se ir, lt que não
ousaua de coeles , &t aesi ho .lisserão a e} rey .de
,. &. Jhg tiaerão crer, dandolbe pera issa as me-
Jhor.es rezões ·que ·poaião: & gabauanse que auião de t:o-

170 'DA HtS,.()'RtA DA IMDIA
tnar a &ttaJ.em eomo se ho gouernador por mais
gête qtae deixaeeo nela, & enaoberbecianse tanto como
que tlo teueasem feyto. E metidol estee trezentaa
mAe que digo·; logo na noyte seguinte q foy a de ve•
pera de todo• ee altos : 01 Portugueaes aesi na fortaleza
como na frota se aperceberlo pera bo feyto que espera-
uio de fazer êeomêda.odoee todos a 00110 aen.bor. E e»-
meqando ho quarto dalua, loy feyto ho primeyro sinal
na gauin da capitayiJ8, colh que Ferdo. de morais &
Eytor da se poserlo cl5 sua gente nos lugares
que lhes erlo a.ttsinadoa: & ao segundo einal
ho goueroador dabalar pera terra a boga IUrda eom mil
& seys centos homês que leuaua de q deu a dianteira&_
dõ Jorge de meneses filho de dô Rodrigo de meneses, &
a dom lorge telo filho de d<i lolo telo amhoa m•yto e•
forçados eaualeyro1 , & leuaua eada· lril a seu earge aea
senta homês oom panelas de poluora pera qqeymarem
()S. tmigos &. 08· embaraçar8 eoisto. E COM ho goueroa-
dor ylo todes el8el capiUles & fidalgos da trota ac&mpa-
bhãdo a bandeira real. E tãto ll bo eegldo aiaal (que
deofarau abalar be goueraador pera terra) .roy •isto na
Mrtaleza, mandou dem Iooo tocar hüa trlbeta ba-
luar'e .de madeira em que os imigoa olo atetar.lo
que quaei toda a noyte na fortaleza taR·gião
por festa,_ & e&taulio todos desouydados de ho
aeraador os cometer de V«dade , nem esperaoão
por mais pol01 rebates que lhes dom João daoa at-
gilas noytes·. E estAdo· coeste em
de se tlger a trombeta que digo· sae de morais
cõ os v.inte das .panelas de. Pf>luora do baluarte: & re-
metendo á estanf!ia do a·rremeuam ·88 panelas
sobre os imigoa que cansados da •igia ·da noyte passa-
da de dormir. E· ho'fogo que mpitamentese
acendeo & o• começou de queymar, os fez acordar tio
fora de si qoe eomeqarão logo de fugir,. & mais come-
çando Eytor da silueira de os ferir eom a sua gête, q
asai. como de morais- •yo &aJo ele tambê daado
VI.: ,71
ea aeua &ritas •. E <lo Jo-p cõ a tiAJha na
por ou4r• cõ mQyt.o grande iDlf•elp
despi Di•rdadas ·& Qlal i nada de·
:pauào. os in11ui&o1, q .das em il
estauâo: Qs üU(ros li. :estauão ·alojadG, nas caua•
sintido ho a.-roido que ya a4lodião euydando ll não f01stt
mai8 q. algii rebate ll loão d$ua çotno da,. outru ve.
-.ea & q ho : mae 4 não
esperauàp bp fazer "te 0111 imigv• não. &f»rl! de
co.mo q11e ·d.e
leu ar· ·auàte. -sua E deaen1barcou hq
couernador co• grand.e de & de
.. tas q n•oatra JDais gente. du li er;t a dQt
lmi_gos: & eJes assi ho cuydarão
11 -.IPho& os dõ lorg.es d.e.sewbarcarlp, lj cQ&n os das pa•
uelas de polllora remeterão ás .cauas .& der4 ooela$ df•
tzo -cõ que se acelldeo hií 1upito & ')co ant.rtt
QB de q .muytos foràfl queymadoiJ. E em se esttt
fogo -aceodencJo chega ho gouernador coan ho eorpo
Ci!le At .começà9 as espiagar4adas de desparar, ac,·
putro dar,was 00.. Portu.gu·eses de fazere suaf o-
com q Q• ficarão porque virã()
que ,aquilo era mais que , & que os Cíl&nelião
J'erdade o que não eaperauãs: &. Ct>B'lo se viã{) quey-
JJ}ar do fogo, & alrauesaar ·Oal 'apingardatla-i de
&. de cutiladas; llüa deaatinauão & fugião
putros .queriA reaistir apa Portugueses, tud.o era ebeo
gritas, de feridas & de I)Jortes. E era espantos-
eou.sa de \'er co&ll9 twkl.aQilaua • & iobre tu-
#)p ver ho grãde que nosso .1enhor (azer.
tio poucos Portugueses veneerem la o tos &Dilhares d.e
q estauã.o tão apercebidos de muDirjtett pe1a o.s
destruire: j(, i.} es.ql.\ecid()s disso & quertão ,an-.
tes morrer {tlgindo q \'encer pelej4do. E os
4j. a grãde merce q nosso senhor fazia, .sahiãs•
PJ.UJl.o be &Jl'oueitar dela, nlo. perd&lo m·omflo sen1 fe.
r - rire & laalPII 4oJ erJ e.sp,Dto
17f :D& HlftOltiÁ .DA .iNDIA .
neles medOnha· deatruyçik»; principalmente htls potJcos
lJ.· trazilo :dambas as mlos, em ll entrau&o Ior-
ge "<te ·lima, dõ Vasco de limR, da loilo de lima ho
8eu irmão, Aatonio de sa, & Ruy de melo seu irmão,
da lorge de meneses , Fern!o de morais , Belchior de.
hrito & outros a que rtl soube os nomes que estes des·
peja11io brauamenle os imm-igE>a por onde quer que cbe-
gattão fendêdo h Os pelo ftléyo ao comprido, & fa1endo
os em duas part-es ao traués, & a outros eortando bra-
rernss-' & ·a·partldolhes as dos
corpos: o que era causa de lhes pareeer que os Porto ..
gueses não erilo· homês se n!o diabos fi erl[ ali vindos
pera sua total q as&i fugi!o deles & despe-:
as cauas onde era toda ·esta peleja. H seguindo os
Portugueses sua vit.oria, vio dom J-orge de meneses pa-
la· caua & diante hfl magote doa lmigoa que tinhão cer-.
eado hiJ Portugues que se adiantara dos outros: & te•
mendo· que ho ·matassem acodio lhe o, Jlelo ll ho
alto mais de dous- Portugueses. E ele com a
espada dambas as mãos q11e leuaua feriG nos in1igos que.
se afastarllo &, ho Portugues ficou liure. E
dcl lorge ooele pera os oufr<;>s que fieaulo atras \'irarão
os irnmigos sobrele tAo-de supito ;· bo muyto ri·
jo., & cercAdo ho de modo nlo se pode seruir·da
espad·a dambas as mãos, & com·hüa adaga se defendia
tios imigos, (Jilf:' apertãdo rnüyto coele ho fe.rirão no ros-
to & em hüa ollo de q dPspeis ficou aleijado. E nisto ho
deixar!o doua dos tres Portugueses· que coele
fugindo COIIJ . de ho verem aBsÍ 8 pertado,. & O que
fteou auia nome Baltesar fernildez eriado dP ·dõ ·A o tão
capitã:o de Lisboa, qu.e nunca se apartou de jüto de dõ
Jorge ajudando ho ,qu'ilto po'dia •. :Porê dom Jorge não se
cõtetando de sua·· ajuda lhe pe·dio a sua espada & to-
mandoa collleçou de fe.rir os 1migos clJ tã brauo in1peto
l} os fpp; aJastar;· &·não tardou mu_yto q não :fugirilo. por
acodirem outros Portugueses: a dõ lorge ll nunca de1xou
ele .pelejar .. c& ferido, & por eeu graodees-
:
LIVRO· -VI i CX'Xíl. *7-j
& de os ou troa : de q não ou-
ue oenhn q ·aquele dia não fizesse cousas muyto assina-
das. E sobre tudo immensa bondade de nosso seilor
forlo os lmigos deitados cauas fugindo muy
mête. E não parando fora das cauas àcõpanhados ainda
do medo q tinhão, se espalharAo acolbendose hfís PQf
êsses palmares & outros aa cidade ficando bê doua mil
mort-os a -os q despois morrerão das feridas : & doi
Portugueses ·forio mortos eorenta 8i feridos lo
cincoenta: & ·eles es•auão t!o encarniçados oos
l} os qaiserão seguir & êtrar ila cidade. O q bo
ilador nilo quis por conhecer os Portugueses por dellmã.:
dados, &t ·recearse de quererem roubar despo·is
de ·serê ·neJa, -& os imi·gr)8 tornarê sobreles, 1t
eerthe outra tai··CORlO ao Maricbal, & por isso ·não qu·is:
q se isso nilo fora vez podera ser a cidade todâ
queimada. E ho gouernador se contentou -cõ decELrcar ·a
fortaleza, & desbaratar tamanha forGa de como a-li.
estaua. E aasi foy este hu dos mayores darmas·:q
iJe fizerao na lndia, por<t nüca em outro aenhü -se ajA..-·
tarãe tantos imigos, & tAbe apercebidos Como
E -coesta vitoria elrey de Calicut de todo
desacreditado. & os reys <la lndia se meterão ·todos por
dent'fo cõ do gouernador, a dali ·por di·ãte
.em muyto .grãde conta. E soou ta-nto a fa·ma d·es-
ta vi to ria ·<t foy ter . ao turco, l} ficou muy -eapãtado:
porl} tinha por muyto poderoso a el rey de .&
mais &abeAdo a m11y.ta gente .que tia&
...
LIVRO vr.
.
. ..
Mil
DA HIIToaJA DA INBI.A •

C A P I T V L O CXXIII. I .
De como ho gowrnador mandou tkspfjar tlerribar a
for,alaa de Calicul.
Dadas muytas graç.ts a D088o senhor pelo gouernador
por esta l4o milagroaa viloria: & a1si muytos agardeei-
mê,oa a eBSes priocipaia por quão bê ho fizerào eontra
•· imigoa alojou sua gente ao derrador fia fortaleza:
por<l era sua determinação derribala pera o lj se auia de
deter algils dias. E a cau1a de a querer derriba .. era
porq lhe noo J>arecia del auer fortaleza e
Calicut estàdo ttl rey de guerra, & ll a gente que este--
uesse nela eslaua ê muyta auetura de a Jeuarl os imi·
1os hil dia nas mãos. E sobre tudo Ler asaeotado
go, de no eabo dal}Je verão ir á boca do mar roxo es-
perar os rumes, q tinha por noua certa i} estauào de
ft&Dinho pera a lodia, & pod.iào vir a qui·oze de Mayo
ou na fi1n DabriJ : & queria ir Já pera inuernar e 1\Jaz·
cate, porq olo vindo os rurnes na mouçào Dabri1 & de
llayo, poderião ir na Dagosto & de Setembro, em q
ele esperaua de ser na põta de Diu €)Ue eles auião de
ir de111andar & pelejar coeles antes q entraseean em Diu,
& por isto era necessario ir iouernar a Mazca·te, porq
ipuernando na lndia nlo podia sayr enJ Agosto & che-
gar a Diu em Setebro por amor do tempo q era contrai•
ro, & quàdo nã ouueese rumes fazia eõta de tomar Diu
antes q os 1nercadores & gente estrangeira que ho po-
d:ião d.efêder chegassem: porq era eert1ficado que
de chegare bo podia tomar por estar em deSJlOBi'ião pe-.
ra isso. E JX>rque pera esta empresa Jhe fazia muJlo
pejo fi.car fortaleza em Calicut ficando de guerra, &
muyto- mais fieaodo de paz, porque sabia a pouca ver-
dade de) rey queria ele derribar aquela forlaleza, ho
que não d·isse a pessoa nenhüa, & fingindo que espera-
ua que el rey de Calieut lhe cometesse pazes se deli·
LJVAO 'fi. CAPit'VI..O !7,
ahR, & porlf se entre tanto 01 mouros corressem á for ...
taiPza como era certo correrem, ae· alojou com sua gen-
te ao derredor d·a fortaleza , · pera que estando ali , es•
tPuesse mays prestes pera lht-s ..-.esietir se viea.-em , &
(ortaleceo suas estaneias, com a artelharia que tomou
aos itnrnigos: .que toda lhes fico11 ean seu poder 'luanta
tiahão. E vendo eles oomo ho goueroador se alojara ao
derrfHio.r da fortaleza, se aju-nt·anlo. todos os espingar-
deiros, & for!o dar sobrele cuydido de lhe fazer dano:
& por detras de hüas balsas onde ae punhão, tir.auão
muytal esr,ingardadas 808· Porlugut"Sel' & assi por de-
tras de val08 donde os ·perseguilo, &t não lhes aprouei ... ,
tirarem aos immigns ··porque estauão êparados. E
'tendo. ho gooernàdor a opres&l que os Porluguesea re-
cebilo, determinou de • valos & balsas oom
que se ·os immigos ernparauão, & ani ho fez: & ele
mesn1o foy a isao em pessoa , & foy ho· primeyro que
ceme'(OU de cortar as bahtas com sua espada tem
das espingardadas que os i;n1migos- tirauão, & lo'-"o se
todos ehegaroo, & acabarão de as & der.ribar.ie
es v aios: & oe in1migos fugi rio, & .aõca mais ouaarle
de tornar. E como el rey de Caliout •ia isto, &·
muyto qnebrado, & vta que por mal não se podia vin-·
gar das rttftdou pedir paz ao go.uernador,
offrecendose· ·a pagàr todas as drspeasas 'i (()rio fey·tas·
naquela gtJerra , & que daria todos oa paraó• ·,quQ ao ia:
DO reyno d·.- k toda a artelharia. E ho gouer-
nador q·· tinha a que disse, & queriá der-·
rihar a fortal•za buscou maneira el rey de Calicu-t·
não fazPr a paz: & pediolhe maia que# lhe auia de-ntre-·
gar ho A rei de Porquá, que sendo an1igo do1 Portogue-
Sf'& sem causa se leuantara, 3t lançara cõ el rey .de Ca-
}icut & h0 ajtJdara naquela guPrra •. E por el de C a·•
)ieut ho mlo querer etregar, dizt'ndo que ya contra Seti·
eos,ome·, oão quis ho gouernad()r a paz,.&:
clP-&fJOi• di nê estando em eonseJbo com todos ·esses- ca- ·
.Pi'ie• & fiG•IgQI, & peasGa& principaee, lhes propoá que
'·' N.H Z
178 DA HIS'IO&IA DA. INDJA·
el rey de Calicut não queria coel4:t pazes, & pera
4
tere-.
coele guerra lhe parecia que nlo era seruiço dei rey seu
senhor estar em porque a fora nio
de nenhü proueito, & gastarse nela hil coatQ- &
zentos & vinte sete mil r&, ean ordenados do eapilAo,
feytor , & outros officiais, & mãti&Deotos dos soldados,
ocupaua gente & artelharia, que poderiAo fazer prouei-
lo ean outra parle, pelo q se deu ia de derribar, & asai
pareoeo bem :a muyt01: contra o que foy Eytor da s-il-
"eira, dom loão de li·ma, & outros algns .. Dizende que
el R.ey de Portugal reeebia muylo proueito eAl ter· aqla
fortaleza em Calicut, portjue nlo podia ser mayor
ta pera ttUa al.teza, 'Jlle esLaodo e1.rey .de Caliau.t coele
de guerra &er aquela fortaléza em Calicu.t principal ci-:
dade de todo seu reyno, & tão principal em toda a lo--
dia, & oade el rey de Calieat residia bo wais do tepo,
ê l} tinha todo seu podQr : & soster esta fortaleza
tra sua vontade era eonseruarae. de .todo, ho. credito do
poder dei Rey de Portugal· que ele restautara com ve ..
os i1umigoa. E poderse soster aquela fortaleza
claro pois se defendera. hum iuuer.oo por tão poucos
Portugueses contra. tamanho pader de que aã po-:
dia ser nem melhor apercebido de1petrec.hos· &
JP-unifiOOs pera ba,eria.s & combates: & ()Uàdo se defen-.
4erão lambem ne io-uerno em que nllo podiào ser socor-.·
que 1nuyto melhvr se defenderião no verão em
q·ue auiào cada dia d.e ser .visitados & sOCQJridos
armada que goarJasse a costa : & que Dele não se eo-
'iêdia .razer gasto po.is tinha seus fronteiras-limitados,. &
ar•el·haria que .nãu entrauão. na acanada da lndia, & coe-:
les sómente se faria la ata guerra a el· rey de Calicut,
qu.e· ou ho de tod€l,. eu se entregaria sem
nenh·ua eondit(&o, eu Jae seria. despouear a ci·.
dade & fazer sua anorad·a em owtra perte' que seria lto.
mayor que se podia fazer na Judia, peJo wuyto
credito que tinha nela d·e poderos0, &L fama e1n muytas
partes dela de seu peder ser i-nuêci-uel,. & que
LITRO· VI; CAPITVLO C:XXIII. 177
era 110 ·nlÓr proueito que se podia fazer cõ ··a get.e que
era ordenada á fortaleza, & 1nais l} olo toruaua
t]Uer outras (} se podiâo antes seria muyto grarr
de ajuda pera se fazerem , porque ho medo de vere· :a-
batido. taOlaDho poder como Jio dei rey de Calicut com
tão poucos Portugueses, ho a outros
reys pera se defenderem & terem coeles , pnte11
lhes deixarião fazer fortalezas onde quesessem : & mais
que pera durar sempre a memoria da n1uyto grande vi-
toria que lhe nosso senhor dera contra el rey d·e C·a}icôt
estando tão poderoso, era bem sosterse aque}a fortale·
. porque se apagaua de todo, & auião de.
os mouros que seu medo fora dertibada.
João de lima se offreeeo ao gouern.ador per a ser ca-
pitão dela, & a eom seus parentes &
,m quanto a guerra durasse. E ho· gouernader pola de-
terminação que tinha rtãe· qu.is se não que se derribasse
fortaleza: do que se & gente eomuü espantou muyt<>r
quando ho soube, & diz ião que não: se fizera mais se os.
vêcerão: & culpauão mu.yto he gouernador
Os ·do· conselho que tal cousa acooselhar.ão. E assentado
pelo gouernatlot que a fortalezá fosse derribada, man-
dou a logo despejar· & embar.couse, deixando em terra
Manuel de rnacedo co1n algüa gete pera que a derri-
çom m·inas que lhe mandou. fazer & aportilhala
algiias par,es. E quando se. deu. ho fogo ás min·as da
poJuora nas mais dela& n4o: pede pegar, pelo. que cayo
pouco da- & mayor parte dela ficou
}lé eom a torre da menage·. Do q pesou muyto a todo&.
68 da armada, & diz ião que não podia ser o1ayor inju-
ria, ne abatinlento .d<>& Portugueses q. assi
lrõa fortaleza sobre tamanha vitoria •. E embarcado Ma-
. '
Ruel· de eom o& q ticarão. co,le , ho gouernador·
Jlartio pera Cochim ,. dãdo licença ·a dll loào de.
fasse. a Cananor acõpanha<to de cert'Os catures pera.
recolhe-r algiia pouca de fazêda ·q Já tinha, Jlorq. ho mais•
ho. ao cerco,_ & isae bo de.
_1

111 . DA BII'NBIA lltmA
tuga1: porll eo•o qua1i todo lao tempo de sua eapitania
fuy de guerra, al_pode multiplicar sua ía&eada ae ••
.gaa.tala, pejo que ficou muyto pobre. .
C A. P I T V L O CXXIIII.
Do f'" fe• el ftfJ de Calieut dapoü de despqada a foril!
kllt•a.
Partido o gou.ernador do porto de Calieut, 01 mouros
()Ue virão cair algüs lançoa do aturo da (ortaleaa enten•
·derlo o que e-ra, & a forào E quldo a acharia dt-s-
pejada foy bo seu prazer muyto grande, & coele forio
.dar a noua a el reJ de Calicut, louuido mtayto ho con•
.aelbo que lbe derào ele faztar acuerra á fortaleza, poi8
.eoela lançarão fora da terra oa Portugut'ses, & lhes fize.
rão de1emparar a em qu• ganhara tanta hoar.
ra que mais ai podia ser. E aa1i lhe dauão outros n1uy.
tos louuores, com l1 el rey ficou muyto snbt-rho: & aa.
ai ho ficarã 01 mouros, & nAo sómete os de mM
CMI de toda a I nd ia , 1a bêdo coo• o o gouemador despe-
jara a fortaleza de Calicut. E es&PI rey• & senhores elq
cujas cidade• el Rey de Portugal tinba fortalezas, co-
meqar!o de ter esperança que as fariào & ho
primeyro foy ho Hidalcão que lhe pareceo que poderia
tomar Goa, ou que a faria dttspejar cô muyta
o que logo escreueo a el rPy de Calicut, dia&lo que
queria tomar exêplo dele: & dldolhe muytoa louuorea
pelo que fizera, pedindolhe q bo ajudaase com a sua ar-
mada pera coela a pt'r mar, porq taanb&
Meliquiaz capitlo de Diu ho ajudaua C(>m a sua arnaa ..
da: & que com poder de gente acabariilo de
deitar os Purtugue,es fora. da I ndia. Do q- el rey
licut foy cõtente, pera o q ajuntou logo· toda sua arma-
ela, de lj fez eapitlo mór hil mouro ohAmatlo. Pate mar--
·car: & entre tanto que .ho socorro alio ya maadoolhe
. que soltaua oa pará peJa. cosla Ir, que &ae•e quaa&a
LJ\f:RO VI• CAPI'I'VLO aKSV. 171
guerra podesse aoa E assi ho fizerlo, porem
quis nosso sPnhor 4 ho Hidalcão embaraçado com outras
guerras que lhe mouerão seus vezinhos não pode entender
riaqUeJa, pelo que não ouue effeyto: mas el rf'y de Calí·
cute ficou m·uyto soberbo, & mldou reformar a
que tinha em muyto grande estima, pera JlOdttr dizer a
todos como dizia que oa Porlugue8ea J.ha deixarão com
. .
C A P I T V L O CXXV.
De como /ao gouemador Eytor da silueira cio
· · cabo de Goardafom.
bo a Cochim aebou büa nao
aoia· pouco que ·de .Portugal, a cujD capitãe nl
1eube·fto nome. E este disae ao goueroador, q.ue aque-
le aaoo parti rio de Portugal tres naos pera a Jndia , de
fJUe fora capitao n1ór Felipe de craatro, de que não aa--
bia parte, nem do capitão da outra nao. E vendo he:
1ouernador que Dão yào mail oaoa de Portugal, deu f>r··
A pe-ra irem cõ a .carrega· es1as fJU8 bi· aui!a, & despoia:
ae partio pera Goa .• E como. ele determinaua de ir in·-·
aernar a Mazeate,. per a. da 'b·i tornar· cedo sobre Diu &
tomalo: despachou. de Goa Eytor da silueira cõ fama d.e·
w a Maçua por dom Rotlrigo d.e·· lima: & a ele disse em:
segrt-do, q ba esp&rase no eabo de Goardafu ate Mar·-
ço: &. nlo indo q.ue fo•e a Maçua v se aobaua dom·
Rodrigo, & deulbé quatro nauios de q a· fura e)t' forlo·
Fraoeiseo de medoça·, Fernlo de. n•orais &
Fràoisco de v.aoõcelos. E pa.rtido Eytor da sj.lueira,.
ho goueraador á oosta do Malabar, pera andar
h i darmada ate &·entrada de em il. esperaua
da ae partir pera a outra eosta: & I G{)a d.eixou
q lhe·fizessê n1uytos eestos de olpo, muyt:os picoes,. en-
:xada• ,. e1cadas , · ·eadeas , & grlde soma de poluora· de·
bõbarda, &-- despiugarda, & outras muniçoês, porque·
de 'ado •ioba Dece&Bidacle pera ho. que determinaua.. ·
180 D.l BIITORIA D.l . IKDL\
C A P I T V L O CXXV I.
Do q tJ Jorge oom ho Ar.d
Parquá.
Vinda a mouçlo .de Malaca pera a ln dia, lorge dal-
buquerque que esperaua por ela se .partio ê hn jügo seu,
porq con1o era muyto amigo do seruiço de'l nl quis
ir ê nhil nauio Portugues, (posto que lho daua Pero
a1asearenh:ts) pori\ sabia qulo neceasarioa erão em Ma-
laca: & naquele jungo fonte eoele corenta & quatro
Portugueses seus amigos & criados: & indo tanto auAte
eomo P.orquá saiolhe bo A rei grande i migo dos Portu-
gueses' & andaua darmada calrelea' com vinte cinco
caturea muyto bem armados & esquipados, & leuou
jtoa si todos os lugar ê almadias, aq cliuidou pera ho
despojo do jügo. lorge dalbuqrque ll os vio fezse pre ..
tea pera pelejar , mandando eeuar sua artelharia q
doze ber((OS & bu falcilo , & rer1artio a gente na to)da t
popa, & na proa, & estando prestes seria as noue bo-
r.as do dia quãdo chegou h o A rei cõ aua armada dando
grãdea gritas: & pos se dabalrau@to: por(\ ho jungo não
podesse arribar sobreles, & cercarAno daquela banda
pola proa & popa , & começllo de deaparar nele suas
bombardaa, & da primeyra bõbardada lhe leuarão a ce-
uadeira cõ a verga & com ho masto: & daqui forão aa
bõbardadas tão bastas que parecia q chouião •. E como
bo jungo era forte, & tinha por dêtro suas arrõbadas;
& as bõbardadas erão de tiros miudos nio Jbe fazião ne-
nhü nojo, & os Portugueses a eles muyto-, arrõbando-
lhe n1uytos catures, & aoatãdolhe perto de trezentos ho-
segundo. se despois soube con1 bombardadas&espi-
g:ardadas: & fizerllno aqui muy esforçadamente, a fora
lorgé dalbuquerque, Antonio de melo que mora em Bu·
celas, Gomez do campo & Ruy lobo, êi das portinholas
da popa matarão imigoa ás eapingardadas, &
LIVRO VI • .CAPII'VLO CXXVII. 281
F1'a·Rcisco boearro , & N iculao de sá oõtador dos cõtos
dei Rey, & Antonio caru.albo feytor da casa de Ceita,
& ho cõdestahre do ju.ogo,. que tirauão da tolda com
dous berços , & hü falcão , com que fizerio g.rande det•
tr.uição nos -catures, arrombando .os con1 morte de miuy-
tos i-migos. E frãeisco fernãtlea leme, & Bas.tião r.odri-
guez ·marufitn, & outros a que não. soube os nootee,
que 4a proa nüca estiuerio ociosos: & fazêdo dahi Ju-
gar os tiros espedaçarão muyta soma dimigos, q.ue .com
q.uanto mal recebião nunca deixaria de pelejar ate '.ho
meo dia, enllo se apartarão coesta .pertia que digo. E
.Jorge dalbuquerque nilo :recebeo .outra, se não mataren-
lhe hü eserauo -seu .porque -se descohrio n1uyto .. E nis,tQ
gast,ou quaata -poluora .& pelour-os leuaua: & assi se foy
a CociMm., ·ORde ho goueraador que hi es·taua aates q·ue
fosse pe-r a Goa, soube a fad-iga etn que estaua ho jun-
go, & lhe mandou socorrer, & ja ho aocorrD não f07

oecessarJo.
C A P I ·T V L O ·CXXV·II.
Do q aconteceo ao almoxarife da fortal-eza de MalUCtJ ,
indo pera as ·ilhas das Celebes.
Durildo a ambade ·antre dom Gal'Cia anriquez capitão
de Maluco, & Anton;o de brito que ainda lá eslaua.,
pareceolbes bê de mãda?em as ilhas dos celebes ., que
sam sessenta legoas da j·Jha. de TerBate, porq-ue ti-nha
por (ama q auia Relas rnuyto ouro, & pera saberem se
era assi mandarilo ho almoxarife da fortaleza em hila
fusta eõ ·panos & outras mercadoria-s, -com t)Ue tratas-
sem cõ os ·Celebes-: & 11artio na entrada do n1es de lu-
lho: & ebegado a hüa destas ilhas foy bê recebido dos
moradores dela, que sabendo a causa de sua ida, que
era bo ouro, recearão que por amor d:ele lhes ton1asse1n
a terra: & por isso determinarão de matar ho almoxari·
fe & quantos hiilo coele, & tomar a fusta, parecendolhe
LIVRO VI. NN

t81 DA. BIBTO&I.A. DA INDIA.
que nlo irilo lá maia outro•: & assi ho quiserio fazer
noite estando 01 Porlugueaes dormindo na Custa,
que lendo 01 imigo• mea fora da agoa aeordarlo, &de-
fenderãee. tambê q fiserã afastar os imigos. E toroada a
fus ta ao mar 1e fonto a ou lra ilha, 6de os não quiserãg
agasalhar, nê menoa em outra. E vêdo q não auia ef•
feyto ho pera que forio, determinarão de se tornar a
'fernate, pera onde os ventos lhes erio cootrairos por
1er gastada a mouqão, & por isso 1e deauiarão taaLo de
aeu eaminho q farão ter a hiías ilhas q 1e chamão aa do
Meyo, de que nlo poderão aferrar ueohiía com a tor-
DJenta que leuaulo, & cõ as n1uytas agoagês que auia
antrelas que correJo muyto cõ que a1 escorrerão todas,
& •ayrfto a h ii largo goltilo de mar <} he o que se faz
tre ho estreito de Magalhiles & as ilhas de MaJuco &
outra• muytas. E como era desabrigado· & os ventos &-
rf{o brauos corr·erilo ali muy medonha tormêta com q an-
darão trezentas legoas en1 que muytas vezes se virão
quasi Jlerdidos: & · hila noyte cõ a braueza dos 111ares
lhes saltou ho leme fora das femeas, & nunca ho pode-
rão tornar a meter, & esleuerão em muyto grande pe-
rigo ate poJa manhail que se ac:har·ão jur1to de hüa ilh•
q seria de trinta legoas, ena q sayrào dando muytos
louuores a nosso senhor por lha deparar: & ali forão bi
recebidos da geote da iJha que era ba"a & bem despos-
ta, assi homh como molberes & de fermo&os rostos , &
homh tio hão- aa barbas ·pretas & compridas, & ge-
ralmente era ho 1eu trajo bus panos cingido1 q chega·
uão ate os artelhoa & erão de hüas paJhai juncas,
ealuo q erão mais a)u()s & lã massios como olanda , &
eobrianse eom e>utro pano tal como este q lhes clJegaua
ate bo embigo: & doutro· tal pano saluo q era o1ais del·
·trazião lafias camieaa. A terra. era muyto \'it(OB&
daruoredo en1 que auia muytos eoeos, & figo1 eomo oa
da lndia & inhames. aasi auia •u,tas gaJiobas & al-
gõas cabras, & era muyto fresca de agoas, & muyto
laoas & 4aua aJgU. Jigqmes. E souberão os Portugueses
,.
LIVRO VIJ CAPITVLO ·taS
-por acenoa que auia n1uyto ouro ao J)C)Ilente desta iJh«
era tão sadia que .não auia h i oeahií doente nê alei-
jado, & auia muylos velhos, & a geate tinha paraós
em que peseauio, & nauegaulo ao Jõgo da ilha, &.cor.-
taulo a madeira cõ os osaos de peixes, & algüs
·goeses q yio doentes ·forão aqui são1. E ·vendo eles
.ho bõ gasalhado que recebião daquela gent.P., & por
serem os ventos eoDt.rairos pera tornar a Maluco se
dete:uerlo ali quatro meses, que tornarão os ponentes
cotn .que se partirilo, fazendo crer aos da terra que. &ii- --
muyto sua partida que logo auiio de tornar, q an-
-daaão deseo,bri ndo terra , & chegar·ilo a Maluco a vinte
de bneyro do- ã110 de mil·& quinhêtos & vinte seys.,
onde erio mortoa, & lbe1i ünbão
didas suas fazendas, po•que a viagean da1r iJbas dos Ce-
lebes era ao mais de mes & meyo ida & "ioda & eles
en' sete que erão partidos. ·
C A P I 'f O L O CXXVIII.
-
como A'ldlmio tk brito enlregou a, for_tiJkiKJ di. ilha
- T'rnate a .dom .
Átras fiea dito eomo Antonio de brito & dô Garcia
anrriquez se eõcertarfto, que por quãto A nt()nio de bri ..
to tinha começado hõ jungo que se poderia a-cabar ate
A gosto, esteuesse por capitão na fortaleza ate então.:
& d-A h i por diãte estaria e1n hü lugar· chamado 'foJoco
duas.Jegoas da fortaleza, & dõ Garcia ficaria por
tão Ji.ure & desembargado. E como os Portugueses que
esfaufto com Antonio de hrito, e·steuessem os mais en-
fadado& da guerra, & teueasetn junto muyto cra.uo que
..-a ho que Jhea mais.Jembrauá que ho sttruiço dei
desejauào de ·se ir daquela terra, &. por isso pedirão a
Antonio de brito que os Jeuasse etn sua con1panbia: &
ele lho promeleo. E con1o sabia que dõ Garcia se. ho
soubesse Jhes auia dimpedir a ida, & lhes auia dembar·
NN 2
!84. DA "HISTORIA DA INDlA "
gar a-s certidae. do soldo <} tinhão vencido, tirou as se--
eretanaente antes que se t<•se; & JKlUCO a pouco lhp
mà-dou lá leu ar bo seu fato, dando a entender que era
seu. E aecretamEtnt.e ruandou leuar os petrechos da fer-
ra1·ia t.la fortaleza , & f.-rro, & chumbo quanlo pode, &
mandou diante quantos carr•i-nteiros & • pode
auer.:. & assi poluora & peJouros, & tudo bo de i} lhe
pcareceo 'lue tinha necessidade, fKJ&lu que wia em quan·
ta fieaua a • do que leuaua. sen1 dõ Garcia
disto· ser labedor, pori} Como 08 fJII4e t'S•
tas cousas erão mais am·igos Dantonio de briLo •-rue do
&eru·i«co dei Rey , dauàlbae muyto seeretameme. vio ..
do ho mes em Antonio tle brt&o ae auia dir
pera ho 'Foloco, entregou a fortaleaa a dõ Garcia sem
lto muro d·a banda do mar estar de todo çarrado , & ho
da banda da terra por amear a mayor parte dele , & ·c1
hü baluarte da mesma bãda em altura de duas
& outro não tinha feyto mais q os aliceces, & a torre
da ê altura de xl. palmos cõ doas sobrados, &
do derradeyro ate ho telhado sem se não cõ ca-
de eaoas Jedid-aa forradas desteiras·, & disto e-
. rão feytos os repartioiêtoe das camaras. E eslas erão as
paredes qu.e tio hão as c·asas da feytoria, pelo ll 011 por·
cus & e-ttbns enfrauão nela-i quido queriãe &. assi se
goardaua a fazêda dei Rey, & este euydaOO 11e tioàa
dela-. E esta· tão gràde & suotuosa obra foy: Ceyta e·tres
ino&, & asai se en.tregou dõ Garcia dela. E quldo Aa-
tonio de brtlo se r,-.y' (oranse coele tetk>s aqleaJ que ea-
perauão os leuasae de Maluco fazendo que ho acom-
panhauão porq fura & que logo k>rnari-ão ..
àõ Garcia· conse•·•tio euytlandG q fosse asei, ma& ele•
despois que Corão no 'l'oJoeo não tornarão ·anais,. nem
AnLo.a·io de bFilo os maodeu, porque fulgaua de leuar
com panllia JJera· bo= mar.

LIV&O VI. CAPITYLO ·CXDX. 286
C A P I 'r V L O CXXIX.
Dt, como vm• d6 . Garcia que .Antonio de brito lia e nSo
queria dar os humens que se joráo coe/e , mclndtM
'ornar ho kme , a1 bun•ha• t tJelGI de h·úa nao •
. Vendo dô Garcia pa1ut algüs dias, & que. nÂo
uâo os que furà cô· Antonio de brito, pareceoJhe lttal:
& porisso lhe que lhos tnandasse
pois sabia que ficaull de guerra & lhe erà n1uyto nece•
sarios, co1aa o que Antonio de brito des1D1uJou, rt'SJ.,o..-
dendolhe que bê aabaa a 'lue tin·ha k
que Jboa IJJandaria: & que lhvs nào UJaada&a logo por
aerê nece•arios ate acabar ho jungo, &
Jeuarem a nao sa1acta Ofeauea 'lue lbtt ficara diante·da
fortaleza por serê agoas o1urtas, & esperaua de leuar
onde estau.a cooío fosaem viuas. não sendo doan
Garcia contente c6 al'(la repasta,. repricou pediJolbe
.mais aSJJerameote tl8 bouth q tinha:. duque Antonie de
brito se eseoaaua com palauraa wu.y frias: no que d6
Garera entendeu que lhtJs não queria dar: & tambê por
lhe algüs 'lue ficarão na fortaleza que Ao-
tonio de brito allo auia de querer dar os bomea que ti-
aba & q auia de dtasitJtular cõ pal"ll·ra& ale se ir &, Je.
_.ualos, por ittso que visse o que liMa e6pFia. E a.iada so-
bre esta certt'Za dõ Gar.ci,a teue aJ.glla comprlnJentos eõ
Antooao de brito pedinàothe muy•o pgr an·eree q·ttJ·e Jhe
mandasse os q&e tiaha, represenlanoo1he· a ne-
cessidade que t.iaha pera aetu·ir ei rey, & quito
ae perderia d.e aeu seruif(O 1-euàdo ••,. lem·brãdolhe que
JJo nio deauia de f:tzer, assi flOr sua fidalguie , co1no pcw
•er tao <Jbrigadu ae seruiço tlel· rey. E ve11do q semttlte
A D·t·on to de 8ri l(1 rttspond.ia sem effPito , deu cont•a de
'&udo ae fei.toJ, 8t &O· alca:yde mór k aos outros oiiciaea
da {Qr&a.Jeza k pessoas pFlneipais tl:eJa tlur cujo eoDSelhe
lhe fez hií tequerj.a!•o e•· '}De }be· aomeaua lodo& oa
SOO · ·: Bla'PORIA D.l' INDIA .
l
1
ortugueaea que tinha cõsigo _que erio obrigados á for-
- taleza reqreadolbe da par.te dei .rey de Portugal que I boa
desse fazendo sobri•o grandes protesta\-õea. E mãdou-
·lho per hii e1criullo da a q respondeo q togo
.mandaria os & dilatãdo de dia em dia de os
mldar: acordou <Iom Garcia eom cons.-lho dos que dis-
se da lhe mandar tomar ho leme, bõbas & velas da nao
..aanGta Offemea antes que a teuuee , porq attm ela não
11e podia ii' & por ela lhe daria as homh q lhe tinha. E
tomar soubeo A.ntonio de brito, que quando
• ·Yio assi atalhado fez ·Con1eibo com aa flUe estauão
& vendo que nio tinhlo erft que se ir, qlie Dão
auião de caber no jungo, .por serem muytos: dt'termi-
.aarlo que fossem tomar a nao por força de ar1nas, &
.que lbe fariio lente, bombaa & velas. E e1tauão todoe
·tam danados da cobiça das fazenda• que ja tinblo, que
·esquecidos da iealdade Portugueaa, com aquela vonta--
de se armurão, & tomando soas lanças &
·& outras armaa offeosiuas partirlo cftntra a fortaleza de
eeu. rey & cõtra 1eu• \'a&saloa, cô tio braao irnpeto co-
iJDo ae fora contra Mouros , fa*lo «rldea ameaça• de
-prisam a dõ Garcia , & de mortes a que•n ho quisesse
defender, &· coeate ru1nor passarlo por diante da forta-
leza: & com· muyto desacatan1ento & diabolica
ousadia se forào todos meter na nao santa oremia, c6
grandes brados de pesar de tal: quero ver quem nnla
defende., que Jbe nlo ·tiremos a vida. Dom Garcia que
-os vio passar, & vio o que yão fazer agaatouae n1uy1o,
.porqua se Jhe representou quilto mal se aparelbaua: &
.por lhe atalhar mandou htl requerim@to a Antonio de
brito & aos que estauão coele, que não belissen1 co1.n a
·nao, nem lhe desobedeeessem. pois estaua ·por capi lilo
·daquela fortaleza em lt1gar dei·Rey. f:)e llortugal cujos
vassalos erdo, & mandoulho pelo ouuidor da fortl\leza,
.com que foy hil tabaliilo pubrieo· que lbo pubncou. E
em acabando de ho ler, os que e•tAuiio co.m Antonio de
:brito ·se rirão do requeri41JeDto, d.izeodo que.aão. conhe-
LIVRO VI. CAPITVLO CIXX. 287
cilo a dõ Garcia por capitão se nlo a Antonio de brito,
eujo tempo da capitania duraua ate se ir, & q a ele o-
bedecião & nlo a outrem: & se dõ Garcia lá que
)he 'irarilo com as eapiogardas. E tornãdo ho ouuidor
.coesta reposta, foy dõ Garcia aconselhado que mãdasse
mllter a nao no füdo eon1 boo1bardadaa, pera o q seco-
meçou de fazer prestes.
C A P I T V L O CXXX.
Da gráde deltlulfa que ouue antre A.nttmio de brito §'
dom Garcia : de oomo .Jnwnio tk brito se part1o
pera BóJa.
Estando a couta nestee termos soube bo Cachil daroea'
& como ele era graode ao1igo Dãtonio de brito acodio
logo, & foy falar a dom Garcia: estranhandolhe muyto
a rotura que auia antrele & Antonio de brito: porque
deixando ser antre Portugueses que tinhão fama de se-
rem muyto cõformes no de aeu rey sobre todas
as outras nações, deuialhe Jembrar quã a parlados esta·
uão de sua natureza & ãtre homêa ditferêtes da sualey
7
& que co1neçauão de cunuersar: que lhe lembrasse _em
quão n1á conta os terião vendo os desauindos &, postos
em taaJanha rotura. Do que dõ Garcia se, Jhe discuJpou
com lhe cõtar a causa que tinba pera fazer o q fazia. E
lodauia como Cachil daroes era mayor amigo DantQnio
de brito que de dõ Garcia, & lhe vinha bê ficar dom
Garcia cõ pouca gête pera ler necessidade dele, quis
ser terceyro ·de os concertar. E despois de falar com hü
& com .outro, fez de maneyra que Antonio de brito Je-
uou a nao com prorneter de mãdar logo oa homes q es-
tauão coeJe, que ouoca mandou, porque sabia a nece ..
sidade lj tinha deles pera sua vi age, do que naceo an·
treJea mortal odio, principalmente por mexericos que
nunca falecem onde ha desauençaa. E 'êdo os Porto·
gueses esta tamanha aotre dom Garcia & Antonio de.
188 ·»A BIS'toltiA DA tNDIA
brito, trahalbaulo pela austentar asei os que eatauão
eom bi como os que estaulo cft ho outro, parecêdolhea
que terilo delea n1ais necessidade , & farilo eoisso me-
)ihor aea proueito. E corneçouse a cousa demburilhar de
maneyra que dos que eatauão com Antonio de brito fu-
«iio pera dCS f;arcia , & dos q11e estaulo eoele fugião
per a Antonio de brito : & todos leuauão nouas de hüa
parte ·a outra pera crecer ho odio ltrestes dous bomês.
E de1tes teuerlo algOs tanto poder que pro-
uoearão a Antonio de brito que matasse Garcia: pe-
ra o q bo tizerlo hil dia i-r d•••imuladarneate aa
za, & nllo podendo fazer ao que ya se tornou. E sendo
di1so dom Garcia anisado mandou logo tirar &na deuas-
sa catra Antonio de brito, & 818Í do Dlais que tiohaco-
metido contra ho seruiço dei Rey. E aabeado ho ele, &
temeftdose de lhe perjudica·r, bueeou maaeyra pera que
·Garcia lhe fieasse puhricamente por imigo, porque
a 4euassa que tirau-a nlo fo88e valiosa: & foy fazer eom
hu-m fidalgo chan1ado Lionel de lima que era seu paren-
te que se fosse pera d6 Garcia, fazendo se agrauado
.Dantonio de brito, & dizêdo muyto mal dele, & que se
-eonuidasse a dom Garcia pera lho matar: & LioneJ de
ltma o fez assi. E entendendo dotn Garcia ho ardil,
mostrouse grande amigo de Antonio de brito, & q se
algfta cousa fizera contrele fora pelo q compria ao ser-
uiço dei Rey, & não por mal lj lhe quisesse: de modo
fi Lionel de lima nlo teue êtrada coele & fieou ho ardil
perdido. E porqu.e nã passasse assi, & Antonio bri-
to soubesse q era entendido, escreueolhe da Garcia hüa
, earta sobrisso, & porque lhe nilo a sustancia,
mostrou a primeyro a Martim oorrea alcayde mór & a
outras pessoas, eontandolhe ho sobre a q escreuia, &
pedindolhe lj teuessê memoria do li dizia nela pera sua
justifieaçlo se Antonio de brito disaesae outra cousa,
porque assi ho fez ele despois q lhe foy dada a carta,
dizendo que dom Garcia ho mandaua matar por Lionel
de Jima como.seu immigo que era, & por tal.ho pubri-
LIVRO -\'1 • ..CAP·ITVLO CX'XX:J. 289
cana. E flesta desordem & descoacerto esteuerão ate.hQ
laoeyro segui-nte que. se· Antonio de brito pa.rtio pe.ra
Banda escorc-hada a fortaleza -da g·ete & do
mais que disse. E vendo doJD Garcia q.uã necessitado
de tudo, mãdou a Martim correa q-ue fosse a Bãda
& tomasse gente & fazêda _ per.a a ,nos jungqs
a quaesquer nauios de Malaca que .hi achasse, porque
nem .eoJ Malaca, ·nem na I adia não auia lembrança
mandar a Maluco nenhua cousas. .
C A P I T ·v L ·O CXXXl.-
.
])e cttmo lts gqt,ernador Jna costa do Mala bar ''
achou mal de h·úa perna, pelo qf),.e se foy .a Cananor. .,
P .o gouernadQr de Goa foy correndo .a costa ate
Jlanane sem .. achar nenhüs: paraós: porque posto que
dassen1 no mar tinhão e{n terra su.as atalayas .q.ue lhe
zião fumaças que dauão sinal dos Portugueses
na· costa , . & metiãse por. esses rios oode se·
E torn.ando ho gouf'rnadQr defr:ãte. de -Calicu t,
queymar ho lugar de ChaJe per dom Jorge de
& certas naos que hi estauão varadas: & eJe h9 f-ez as·
si. E tornando daqui. pera Cananor chegãdo ja ·pe-rto
dele vio passar quatro paraós de Malabares que _se
tarão da conserua doutros que yão buscar arroz. E qua,n:-
do os vio, sintio muyto ousarem da pa-recer sabea-
do que andaua na costa. -E auedo aquilo pol' grãde de-
sauergonhamento, determinou de castigar: per a .()
que n,ãdou deitar batel & armouse, posto que
mal tratado dua perna en1 que t.razia hüa chat.ta, & por
isso algus lhe diziào que não fosse que lhe faria mal:
quanto mais que ·ho gouernador da lndia não auia dir
pelejar cõ quatro Mala bares, que abastauão quaes<juer
capitães de catures ou bargantis. Mas ele não quis dei-
xar de ho fazer tão arnigo era de pelejar, & mais auia
de ser o que foy. E metido no batel com outros q se
LIVRO VI. 00
190 D,t B.l8'tOàfA DA I·NDtA
meteria coele, & indo virAo algõs bargaotina qUe forlo:
aferrar os paraós, & 01 tomarlo matando quaatos yão
neles. E cõ· tudo ho gouernad·or q-ui• chegar a eles dai·
uoroqado de vet a peleja , lt despots torneuae ao galeio
ftnde chegou com a perna muyto inchada & agrauada
de ir eh I pé ate os paraós, & tornar ê pé ate ho galeio
IJUe féy· ca·m·.inbo de h ii& Jegoa.: & tãbem com e ..
da& arma&- & do & loge aquela
lhe acodio. febre, k achouse tãe que -lhe foy
recolberse a Caoanor pera se curar & reeolhe0e
1e no mes de 1-a-o·eyro deixAde por capit-ão moor da coa-
ta Jorge· de aueaeses telo, que andãdo por eJa foy
ter com Pero de faria á boea de rio de Bacaoor bii lu-
gar deJ re' de Narsinga , onde estaulo carregando de
pimenta cento & cin.coêta paraós· Malabares pera Cl-
& os senhores doe paraós ajutario a-li a pimenta
pera a ca-rregarenl sem serem aeAtidos doa Portugueses,
fJUe por ser a terra delrey de Narsinga que era seu a·
m.igo não atêtarilo nisso nem os estoruarilo. E os que
estauão nos paraós- erão quatro mil homêa, de q.ue muy-
tos erfto espingardei.-os :· & tinblo oe parraóa muy bem-
artilhados. E posto que dom lorge isto soube não quis·
entrar dentro por t-er pouca gente:- & esereueo ao go-
uernàdor tl lhe mand•sae maia,. q.ue como não sabia-
quantos os. imm-igos erão mandoulbe mais algü-a gente
de q foy ea·pitào Dl()()f don). Iorg.e de meneaes, por quem
. Mcreueo a donl Inrge béJo,. que se eom a geate que lhe
mandaua podes&e pefeJar com. os immigos que pe!ejaa-
ie & se nlo ttue esperasse a.te lhe mandar mais.
LIYil'O VI• CAPfTYLO CXXEII. ftt
C A P I T O L O ·CXXXJI.
·De oo"to dom Iorge klo pelqOIU com os imrnigos t19 rie
U Bactlnor , de como 01 desbaretau.
Chegado dom Jorge de tne»eeea á OOcl de Ba ..
oodestaua doo1 Jor.ge telo deulhe ·ho regia11·ente
que lhe mandaua ·ho .gouern.ador acerca de pelejar eom
IJ8 immigos. E quldo do-tn tOTge :ho ·vio, d·isse que não
ee p9dia goardar aqude :regimento por não auer te·mr•
peta se leuar recado ao gouernador, que os im•
.migo• .pera partir ao dia seguinte, & era .for((ado pele ...
jar t:odlea & defenderlhe a sayda, & por isso ·ho. pes eot
cõselho em que se acordou que se deuia de eom
nlo erão por todos mais de seys centos 8
aquefa noyte se fizt»rAo Jlrestf's encom-êdandose todos a
fl08IO senhor, & toldando & embandeiratJdo seus bar-
gantis, calures & bateis em. que auiio dêtrar no rio t
em q entrariln ao out.ro dia .em repõ-tar a
aaré faz6do grandei alegrias .de & gritas, &
em pouco tOJ)8rão '-''<>III ()S i mmigos l} deciilo com
a vazante dagoa que acahaua então. E os l
1
ortugue•
wes os wendo comee(arão de desparar muyttts bon.barda•
das ludo de fumo & de ·toruões. E et>n•o os im·
migoa nilo esperauão ·que efe.e os .fosse-m corneter dent.ro
tio rio quando os virtlo de sopito: &t de su(lito ouuirão
espãtosa toruoarla de bomlYc&rdAdas & escurecer
ho dia cotn ho fulllo cuydarlo que os Portugne•
&ei 'hBo tinhilo c·onto, m·edo fizer·fto logo volfa ·po•
lo tio & àjudado$ da enchente & dos re•
motJ fugião quanto podilo, indo os Portugue.ses npol
elete com a mesmA pressa, liraudolbE-s coela com eua 3f•
telharia, com .que os forão ate onde ho ri·e
corneç-aua de ser baix·o, & ali começatoo dencaihAr
dos para6& como do& bargantins Portug1•eses ,
fiOMldô· hila pgr hutn c.a9o ·9Ukos pelo ·oult:C>: porem oe
00 2
192 DA BIS'I'O:aJ.& D.&: INDIA I
immigoa porlj os Portugueses os não aferrassem asai co-
mo encalhaulo fugião Jogo pera terra que não .ousauão
mais desperar. E era 11era louuar a nosso senhor de co-
mo fugião sem vere de que, porque os Portugueses erio
tio poucos .como digo. Os oauios Qlaia leues qae podião
nadar , assi dos imigos como dos Portugueses Corão re-
mando ale onde ho rio eatreitaua tanto qu·e se pauaua
·por hila poate , & ali eocal,harão- todos : & doa nauios
Portugueses oã chegarão maia que doua bateys em que
yão an1bos os dõs lorges & quatro. ea.lures, em que _auia
quasi neohüa gente pera a muyt.a dos immigos- O que
· eles vendo cobrarão coração , & fazendo rosto aos Por--
tugueses de lhes tirar -cõ sua arlelharia &
grãde suma de freehadas com q. os de ferir
priucipalmente no batel de dõ lorge 4e meneaes, que
· como vio i} os. immigoa loroauão sobre si; porque Jbe não
matassem a gente os qu.isera aferrar, & chegouse a bo-
te de .. E dom -Jorge telo que vio mal ti-
dão dos immigos & que. de eada vez auião de mais,
.porque recrectào os euiros dos paraós que ficauão atraa
encalhados , par..eceolbe que era doudice aferra los sêde
&ã po11cos como erã: & mais não Jbe socorrer oa
9Ulros Porlugueses q.ue ticauão encalhados, &
J.he n1elbor tornarse pareies pera despois tockls juntos
pelejarem eom os. immigos •. E fazêdo sinal de 1eeolher,
1ecolbeese: & ae de hua poata por vazu a ma·
ré· ficou. em seco jüto de paraós doa iaamigos que
ali eslaulo em- seco, que vend4i} os Port:ugue-
le& daquela maoey.-ra aeodirão logo coú1. sua arletbaria
por terra desr•arandoa oeJes que não se 1.KM1iào valer tão
bask)s. erào os. peklu1os,. &. hum deu ao payoJ da poluo-
la dil. catw- em: que se acendeo JOgo que bo q.ue_ymou
lodo ,. & a gete .se saAuoU: aaltãdo no rie. E esfurçaodo-
ae os. immigos coeste desastre,. pareceolaes- como erão
pera a pouq!Uida.de dos Portugueses, que não
BQmeote os podessem matar mas q os k>maasem.ás mãos:
k àado mu.1to g.raodes coquiadas,. & desparaodo laola
.
LIV.IlO ·t9t
-ioma freebas· que · tirauAo a· claridade ao .sol
.JaDCtaranse no rio, & ooo1pendo pela· agoa se
. a eles •. O .que vendo do&B lorge lelo come'iou· de esfo.r-
·ftar CJB Portug.ueses, qtte :.<fe wuyto esforçados·. n»uytóa
não quiserão esperar os in1migos nos nau-i os··&· forã.nos
receber com 111uytas espingardadas, & começouse an-
treles hüa bem aspera &L pér)gosa· petéj& péra os 1
1
ortu-
gueses -por _quão poucos erào. E se nosso. senhor Dlila.-
grosame·n.te os oão:l.itirarà," danílol.hei inarauilhó.io esfor-
ço per a se defendere_m não poderão esc a par : & túfts
.pelejarão· tão. esforc;adatnete com. à ajuda· d1uioa que fi;,.
zerão retirar os imigos perà. terra 11caado oo rio alg·ii•
. -mortos, de cujo sa.Dgue. & doulrQs íeridvs a agoa
de cor de sangue, & dos Por,ugueses- tambem forh
·muytos feridos, & postos e muyto trabalhe
... despois de cessar a· peleja,. porqae de t.erra Jhes torna.
.rão a. tirar os immigos. somo. da.ates, & fazião J.bes aouy•
· dãno tirãdoli;aes eomo a aluo, & eles flào se podião
.daJi bolir por estarem em seeo :. & se aqu.iJo durara ate
.tornar a. maré não ficara nenhum viuo: mas .. qu:is nosse
· 11QDhor. Aaquela coojii"ão acertou de chegar ali ·hum
eapitão- dei rey. _de Narsinga. ·coo• trintà mil b0mês
ya recolher a 'en.da daqYela comanca ·,.. &. ou.uindo be
estrõdo da a:rtelbaria & as grita& dos immigoa t chegou.
.se a ver o q,ue era : & com sua Gbegada\ es1íeuerào
immigos q!uedos k se furão.,. sábendo de.m lorge
.telo como aquele capitão eJa rey· de N·arsi·Rga,
doulhe. dize• que não deuia da cvnseatir q:tte .aqueles
·M.alabares pel .. jassa·an eo111 os- Portugueses na. terrà dei:
rey de Narsioga
7
pois. er.a. aaiigo dei Rey de Portugal.
A q ho capi-tà8 respondeo que assi bo faria :. & por
g-ar. naquele iaalag.te & não ·&aber ·nada: deles estauão
. 'ali. E oast;igaodo. de palau.ra os capitães pelo que
fazilo ,. os fez tneLeJ. pelo ser.tão cõ sua gente. E os
ForLugueses· ficaroo desapressados, & acharão que erão
mortos corteola deles .• E delurminando donlt lorge telo
d.e os Yingaf, eoJQo· ÍOJ tempo ... loroouse á boca do· rio &
191 B& Rft'NUA BA
eaperar 08 im .. igo• quando •ayeaem, &, r. em terra •
gflu dartelbaria, porq .. e Goelas & com a arma-
da que tinha aa boca fiaeue &CMI imtnigoa, & aaa•
doo dizer ao goueraadGr o qae paaaa•• ,
preguàtar o ctoe faria.- . ,
p
.
· C A P I 'f O L O CXXXll.f.
. .
... .

De *',. dom de Mmtflrl.
;·Q·.aando recado fbY ao tir:ha ja-
1JB' nA suA JiRrna, que Mle tirauie ll ft}da dê todo
todo. o qãe ele COIRO fiel Cbristl.o .que
era tirou &to 'sentido da1 Oousas mOdanaa; & entend.,e
-•as spiritaaea ooafeua.ndolle ·de tteua pecttadoll 0 que
em alo costumaua faser a mi.ude, E feytoa todos os ao- .
de a alma dA se despe-
. di r do corpo! & chamando h o de 1-eau, & de· sul
gloriosa madre de '}UélJa era muyto letwto íspirou Pltte
eefor((ado oaualeyro dia 4a fie nbssa see-
nhota do anno de mil & lt vinte seya, k foy
eeo eorpo ierui,ado na 'igreJa tle muyte
grande sen.tidlête> de -todo•, principaln1Dte dos que er"O
amigoi do seruiço de Deoa & dei Rey; porque ·sabilo
l)ue perdiílo nele estas dua11 coltlas htl grande êxecutor,
fJOr làbe·iu tter delas mu1to gtãda a-iiligo: & que todé
seu pensamento & cuydado era #seruir 8 Deoa & ã
e! Rey, em tanto qns isto lhe tiraua ho cmydado de
hua
4
q a..-l!do dous annoa que estauR na lndia
& oo .tdo bõs dous cargos como tPue nAu tinha de &eli
etlusa afg6a: como se vio elaramt»nte, flm ·hlll the-·at!h._
rém na sua buet.a maia que nt1oe .fattfio na
moedà portuguesa seys ·centos 8t •Retn tBenoi
ae lhe deuia dinheiro, Rem ho 'lirfhà t11aftdkdo•a olltrai
pártes empreg:tdo! que posto que ean Por,ttgal qulfl•
pàrtio Jleta a .1 ndi.a ve·Rdesse de 1JU& fa•endo &
à use suas reodaa 4ãle mio ttuaí' .b6 .elllpNio ,, cu&
.....
·- ." LI\'RO CAPITVLÓ CX.XXIIf .. -: 2!Jõ
mo foy na lndia & vio que não se podia seruir el Rey
eom ter cargo Q.e. trat.QB. <li. deixou IQgo, & g·aslou isso
q leuaua sem mais querer aquirir outro, dizendo que se
l'iuesse ·que. el ltey .. seu senhor •the. faria lnerce' & se·
morresse a faria a seus filhos. Foy muyto
•eto nenhil ·medo conto .se. ve ou batalhas & peJejN, eQI
f)Ue·se -achou .oaJadia de Sér goueraador, &em
u\frica aatea de irá lndia.: &.atai como era
era .anuy an1igo dos homes ean que auia e1forç.o, &· lou-
\taua ol pullrieameole ,. k faaiajhes· merce de •
ou de
4
oiieios .seg·uda·.era a. quaJidade do leyto que fa-
aião. E deste e1;1forcco tinha naturaln1ente lhe vinha ser
•ão amigo de til a hoarra que não ao fria fazerJhe nioguetiJ.
cousa que fosse contrela,. o que se via· claramea.te, que
dizendofà.e .llo vilo -zey dõ Vasco da· gama estaado e.fli..
Goa algüas palauras de se agasto11: .lb.e U·iese-
.que J.be nã dissene aquiro, _por-q_ue em Portugal nl'.
· auta doua bom& como eJe ·pera .bum· grande
•enhor que lhe. não f:aJaae · m.uyto bent •. E h o •iso re1
eotno· er.a prudente .& Yio· qüe ·dõ. A·arri.que ti·nha
ti estar agaatado· ·polo que lhe disaera, deitol1 ho feyto a·
&ombaria, dizeudo . a algiis l;idafgos que hi eslauio qoe·
l·he acodisaem, q'ue ho queria n1atar dom Anrriqile, &
isto rindo. Foy tão em f.aaer , nem.
e4io, oe1n teo1or, 11em. Mie t.or118rão q.ue a não·
de quaes quer pessoas. de qt•e era q:ue se fi ..
sesHe , & por isso toy .mal,quisto dalgas tiâalg.os da fn•
dia de que a fez., .li. dizião mal dele.. Foy bom.em .de· ·
boa estatura & n1embrudo, de rosto hem proporciODado
foy de & d.iworeto. Era·.sua &t.e1er.minaçãQ
toDlar D1u , .. .&L A.dern , &. fazer guerra a&B DJ.Qu-..
r()8 : & &I& i Ue&nle eJea lllUf desa.Jiuados por 8U3· mort·e •
.
.faz fim .ho · sers.to libr,o da ·historia. do descobri meto &
quis ln da Feyto .. Por Fernão lopez de Cas- .
tanheda. É línprees6 em a muyto Dobre &· semp1·e leal cidade d_,·
Coymbra per lolo de barreira empremidor· da vniuersidadv. Aca-·
\)euse aot üj. 4ial m• -de F•el'eiro de -D •. LI III.
,

' . .
. .
. .
. . .. ..
TAVO·ADA
DO P R E SENTE L I V R O ..
CAP1Tot.o r. De conN dom Luy• U mmes111 mpiláa
mór do mnr da India foy socorrer a forttllaa Dor-
.,.u.w , 4k como.·parlio pe,.tJ :Malaea Mar'i• Aloruo
de melo coutinio. - Pag. 1
-CAP. 11. Ik comt1 /ao gotttrnailor dru o capittmia ck Chaul
a :Simão . tlandrcuk, tiiÓLloll goardar .o coita de Cam·
· ba!fa. I
CAP. 11i. Do -que aconCet:eo .a Martim andando
' · 4.
CAP-. 1111. como dom Luys· de f!IMfJIUlj hia em •ocor-
ro Dormu• chegou ·IQ, tio :que fes. - .
CAP .v. De como dó. Garcaa Iorge tlolhulJ':lerqut!
chegarlio.ás ilhas de iln áilcr.iJ!pio des#LJS.illuu. 'l
CAP. VI. De como Fernllo de. magalháes foa crer ao
Emperador Carlos re.y de . CIJIIlela que 1·lhtJB de Ma.
luco eráo tk sua .conquista ckcomo foy descobrir. 8
C-AP. VII. De, oomo Fernão Ele magalháts mostrou hum
-re.qimento (/U'I! leuaua do. faleyro se ronhecer a ol-
de kate a oeste. E áo que hum astrologo que hitJ
.na frota os pilot,os de/o acordar.áo. J 3
C-AP. VIII •. n, oomo tk ,llagt!lháu passou llo
trtito de todos os Btlflotos kr á ilha tk Cubo:
,de como foy morto em lrúa batalha oom dous
· outnr .ftrNe. · 14.
CAP. 1x. D.a treyçáo que _t!l rty. Cubo fe• tJOs·Casu·
_lM'008 em que .matou muytfJ& dtJ.les., de oomo. uea-
. pama fygtini!a •. E do .que oU €1&egarem. aa i-
lha de Tidóre h'iía das ilhas de Maluco. . 17
CAP. x. De como el rey foy éometido dos cas-
. telhano.s con1 .amizade a não quis, de como car-
regarão duas naos de crauo hila foy ter tJ e'Panha,
outra . tJ4sprJ.is de _.partir arribou. fi Malucp. t 20
TAVGADAi .297
CAP, x.i. D1 txmio Antonio de britxJ dom Garcia tJnrri-
se pera as ilhas .de , da dis-
· ilata• itkm. · ·.' . - · 21
CAP. XII. De como Antonio de brito assentou có
.tJ máy dei rey lk Ternate outros reys : de co-
rno começou a fortaleza de tam Io4o de Temate. 28
CAP. XIII. como M•r&í .Afonse de mela cowiuAo o/le-
gou aa China a achou de guerra. 30
CAP. XIIII. Dt como Martim Afonso de melo quisem tpr-.
nar a a pas com os Chins .não [KJ!le. 3 1
.CAP. xv. De como ardeo a nao de Diogo Je nvlo, oa
1 Chís tomaráo a nao de Pedromt a a
· tlfUIJtos ellauáo den•ro. E de como .M4rtim Afonso par-
. "io pera Ma{llCiJ. .3 3
CAP. xvr. De como elrey Daehem cercar afor-
taleza de Pacem , de como lhe Martim
.Afonso tk melo. 3á
CAP. xvrt. De como 1e perdeo .tJ nao de dataide,
onde ele morreo com outros. E de como ho gouernador
-tk acodio 001 no1sos. . . 3 &
CAP. XVIII. De como dom Luys u Wrnou pera a htdia,
'tla ltldN que passou. . .. . . . . . 3 a.
CAP. xrx. como por morte de zabatl,·m, Raix
· ·· sarafo " 6 riosstJ forlaleiJ4 · ci) m«lo de Ao ma-
. .tarl os motcrOB : como ae ·tornou a :pouoor a ci-
. dtJxle Dormq%. . . . _ 39
C.AP. xx. De coJ1W dom Luys de éCo-
-cht cerltJ8 velas pera 4iuersl16 par&e• despoil se par-t
tio pera ho estr.eim. . . . 41
CAP. XXI. t:OinO pera kJ..
:. mariJo mouro• .de Dau .i'lla.gaW a BasiMi,o de ,.a-
ranha. . 4Z
CAP. De .como o gov,tr.rrutlor claegado a Ormuz sol-
tou .Raiz zarafo. . 43
CAP. xxr1r. De como dó .Luya inflo pere .dar. cida.de
Xaellha J,,sptjaráo mais .q fez atl;
tornar do estreito. · . 46
. .. .... .. , .
LIVRO VI.
PP

ÜAP. XXIttr. De te?IIO doa lk li.a ptlrtio- ctmtf ..
nktJ da de Pre.tc. . · 47
CAP. xxv. De como dó Rodrigo ch.J•• d QWCe cfo Pru-
jo!J. · · t-9
CAP. xxv•. De mruo ho P,.t,. m•Nt:Mu eltttrtwlr I. an-
baisudor raio 1/ad J(afru. ól
CAP. x-S\"11. Jh c.._""'"' Redrigo /Ã'IU ao PrtlltJ
. ,.
Joao. o•
C.& •• XXVIII. Dallwigat ftlC tiUI6C G8WC lf11Jt Guhrt.N lf-
lWil& Rodrigo. . D8
CAP. xx1x. De conao Ao Pr.ata flilm R«lrigo
di lima. . ti I
CAP. xsx. De aaDio dó Retlrigo • partio lle eorM .Jo
Presle, Ja causa porque 'ornou • tla. s•
CAP. xxx1. IR ·c»ato dom Lup ia carJiou • ,.rtir-114
corle do PrcJtJe. · e> a
CAP. xxxa1. De como foram morto• qumre I
E de CotnO IJIJ· Luy• tlc IMtteiCI · .1e part111 di
ti8
CAP. xxx1ar. De eomn dorA Rodrigo • 1an1011 a awNJo
P,-.u,. ,_,.., a · .
C.aP·. XXXI III. De eomo dó Luys à •enawr Mqu_,.. Do-
fa,. , eheggu, .a OrrMata; · · · - '2 1
CAP. xxxv. De lt818u -t:om
•;, jiJ.u fl'l'aGI Da 7 S
CAP. xxxv1·. Dt como httJnio faltyrofDJ ln' a Cdi!fa-
11 Dlptt: f•· ' -· i•
c* ... :lb.1J9tJ •. Do f ••aat·aDJ..ete porfMgatMt·f ... fia
t ·nno f A11tonio juleiro· mádaus perli LW&bNe. · 16
eiP. SSXf'LJa. l'SS O fotf .. iú ,...,,.. eiS' OB. trn Ptlt-•
. a.g ... t f 'NtJU- IIG pGrao, ,. á reaaiia 9"e IJw• fleu
· ttoe10 .e11hor _pero,· etcapare''' da morte. 7 8
e.aP.. 1k oomga fokY"J WnewpefPD fJ
lntlia,. do fti.C«ÚO' ao1 &Tu ·qaw c ..
flJulJo IJOM ,.. Jleq:tW · - 1)
CAP. Dt u ...,....,.,Aanío •• ,. • ..,_ Je
Pwdcí flc· &llc,e. · · .13
,
.TAV0.tM.
C.P- ZLi. Jle Ql ..... t.{a
· . tk que lt,itJ,· ptra &ponha a Ma.lu-
co , ,_.ada Portuguau., · . . 87
.C.P. x.r.1r. De a.JMO os moWYJB da ilha de Tidsre, ma-
tarão .,., tattf,OB- Pelo
o • 4trt de. briiB , . -t 11 RtJ.Y de X ido-
. re. . . . . . 89
CAP. XLIII. De como dó .,je c.Cre _Q ok,dien-
citz tios rey• iM ZqrMbar. Pcmba as &lhas de QtUJ-
. rimba que lhe . _ ... . . 93
CAP. XLIIII. Do .Antonio galuáo fes em Cok»tgone
· ·lorarStltJae f1Cr.G Jll..-bitfae- , · · . 91
C.P. XLV. De como dom P«iftt tM c(Jitro. chegou a Goa
·. +· sw f1ervlt» a Jlillt . 91
liLvr. De ccrmo lw goueraadfw fiiGIIdtlu. Bt.alwar
. pessoa _por tfnbaixado'r oo Xeque 1 00
.CAP. xLvlr. /h .como ió 1imael sem der
. · &' pes1oa ·: ele corno hum fil/to lj
. sucedefJ ho . .102
C.A·tt •. XLVIII.. D.e. ftCNIIO 18.. pJJnio 1uJ f0161naàrJ•r p_et!G a
lndia, t de &CNIIQ cáegarlig tB ,.,_ de l'ortugal • . 1 O.f.
CAP. ZLIS. Do 4 m:ontt&eo· a dem Pedro .di tXASiro w· ÍJ
'" Antonio galuáo enz Calicut. . _ . . J 06 ·
•. m. • . De .. coma el rty .awMIJatee o forttJle•
ae Paetm. . . - · · · . 1 07
.VAP. LI. Jk. eoúlti dtm&· J.nàrc a/•
lal.m de . . · ·- . · · J09 .
C.tP. Lri. el rey dtBinUío mcmdoufa.er.!}uer-
. ra· 4' ·d-e .como foy mono Anrriqtu.
· tallr.o6 : . 1 JO
CAP. LIIJ. De como foy tomado há nauio na cidlltle tk
Pio, forâo· rhaf'los. ·algdjs ·Portuguesm-. . .111.
C.P. \LII&J. De roiJtQ felf . .A.ndre. tk ne po:rto
· Pão W .aut,-,. . . 1 fi
LV. /Je COft'lfl dá $&/to f" dó .Jnfrmio ár-
r.*Jdl8 fot:áb mot:kll t&. d8 Pao., .!f- lM1 fay ((j.
· { · ·
... GT.6. :ft'"....... . . : ' . . . . . . . . ·. 116
PP 2 .


BrO 'I'A'YOADA·.
C., •• Lvr. De cmno Torgt dalbuqutrqat mandou pedir
fiO goutr11ndor dn lho ttlatldou. E de
co1ncJ lw 91JU'-rftttdor l,u,.rntlr a Orml!•· 1 18
·CAP. LVII. como partirlitJ tlfjto rttlfiB; eormta pa-
raós, dt Oilicut carregados dl'speciaria Mrca. 120
CAP. LVIII. De CtJmtJ os mfJUI'oB Binllío queyJ.,laráo
ntJ purtu ck Mala,:a ho nauio de SiJnáo dah1eu· ma-
, tar4o quatilol estaulln eMk. t2l
CAP. LIX. De crJmo lmnou no borra de
Bi,,iio duw carauelót$ do • de doln Garcia

1 2c\
·CAP. LX. De camo el rty tle BíUJo Ma-
laca por mar por terrtz. · . 12 7
CAP. LXI. De co1110 Mt,rtim Ajon10 de 10010 fiJ'f /flflt!r
guerta o cl rey de Bintáo, orM reys de PiMJ f- · de
P.atat1e. 129
CAP. LXJJ. De como foy_ eomerada G gtJerrG 4tre 4t.ro-
nio brito el rey d1 Tidort : de cetnfl foy mor-
to Jorge pir1ttJ da silua outrOB. 130
CA.P. LXIII. Do que aeotl&«t'' a .Martim aforutJ de tM/o
ju1ar'e , comeeend. hú hlgar de 133
C.&P. LXIII I De oomo fm; ftritlo Jt'mnci!ICo de IOIISII-,.
outros Portuguestl. . . J ;i()
·CAP·. LXV.· De cDmo fJO! indu11ria de Martim eorrM ;
foy tornado ho lugar de Mariaco. J .i 7
C.AP'. Lxvr. De como rwoaeguirtrlo Martim corres
·. Cachil /Jart,es a guerra tÓr11aráo tnuytos lugsrea 'Jlle
·el.rry de tinluz na ilho .de Ma9"ietn. .t4l
·CAP .. LXVII. De Martim CacAil d.rtJt•
destruirão ho lugar Doyt1ne , V se. a·
ftate. •
CAP. LXVJ.Jr. De romo tl rtg dt· Titlore pedir
pt!JH' a 4rtlowio .de !Jrito :. §- ek I hnt ntio q11iB rlar. 146
CAP. LXIX. De corno el de Calicul comq:o11 de. fa•tr
- guerra tJa_{ortalt!!lJ dU.Si,m,lndunaéte. . . t4-S
CAP. LXL De CMJlo m moaro.r N11yra tk CiJlrcatcoJtte-
fQ,ráo a guer,.a có dó lo4o de lirna copitGeáufurUJleaa.·148
TNVOADI. 101
CAP. como dó YtutxJ M gama co•tfe da Yidi-
gtleira alrnirDtlte do tnar indico ptJI'"tiO de ·Purtugal
por vrsu rey da lndta, ck corno t·hegou lá. to2
CAP.· LXXII. Dt como lw I1ÜG "J •gou a UJchim,
do que Je•. . r luÕ
CAP. LXXIII. De como GerlAiimo BOUitJ foy gfJGrdar a
aJSta do Malahar. . · J K
CAP. LXXIII I. De duas grande1 vieor;, que·dom bw§C te·
lo uuue dos mouros de Calicue. · . 1 ú 8
(.,AP. LXX\'. De (·omo creceJ-,dtJ a domfll do·viso r8y en-
. co1nend(ju a gouer11atlfa a Lopo vaa de aarn Payo·ca-
fJitáo tle CÀJcht .. ,,. J 60
CAP. LXXVI. De cou&o dom Dauwt• de mmnu, ch•gou
a· Cocl,inl. . ibid.
CAP. LXXVII. De como dó Duarte de mtnese• mtregou tJ
Jndia a Lopo vas de sam payo em norne do Wa · rty:
de cor1•o ho viso jaleceo. · 1 ti4t
·CAP. LXXVIII. De con .. o jOy aberta n, primelrtJ sullcel-
saru : e•11. q se aeluJu tlotn A:nrique de ltleRtKI por ·go-
we,·notÚJr. , 1 66
CAP. Lxxax. De como dó 1abmdo que
nador.., 1e partio pera Cochhn : do qut jn primtg·
ro. Jti9
CAP·.· LXXX. De como dó .A,.rriij de menese1 pekjou com
h·úa ar.1nada de Calicut tomou peraós,.
çomo ttiááau enjqrt:'IW Mamt.k em Canatwr., J 7:·1
C&P. LXXXI. De CtJmo·s. requeriJt11to dei rty de
m·titiou e gouert•ador queyrnar hfa peuotlfáo de tJ'UJIJ·
ros de Caliilll per Eykw da 1ilatira. 1 7 t
CAP. LXXXII. De curtto vettda el ,.ty de Calicul quão. mal
lAe §tltWtl eanleHo paa e dom .liKitJ de ti-
tna. 17•
CAP.. LXX:X:tit. cotno ..,. gertenanJor foy ttr a Calicut,. ·
BtJuhe a que rey queria·; rlo que nsptJn-
dto. · · 17.6
CAP. I.XXXIItl. De eomo Ao·gou.,.,adw da& etn Panane,
da deMruysGu '"e Jca. . 11 a
. \
101 .YAY8A11 ...
C.&P. De &Wmo e gotatrnador qutywallr
CtJ/icu& por liam leáo M li••• , *' da que l/te GGJnü-
J 81
CAP. LXXX'VJ. 181
C.&P. LXXXVII. como o gouer:ntJtlor -asli'Mu e6 .. CtJ-
tis f"*' de pelljar an C.ulde. 184
CAP. Lxxxv111. De eomo ho goua·••cltr .du6amtoa 01
•.aur01 4JU ataatlio em l.lJufae. . 187
C.&P. r.xxx1x. De como for*J Mdaa .....-.aogaucrna-
dor cltJl DGrmua tk RtM. sarafo ; Jtk · quei.rru-
IIIU tU DiiJgo de mdo. 191
CAP. xc. Do qt/:_e • de lmt01 te rie de
.E de como ho u rtJtdluo· n C..
ehí, dupaclwu a Pero mtJ•carenhtu ,,. iJialll-
1M
·CAP. xer. Do ij fa d6 Simtlo de ,. .. • ntiJtc
como 1e rt!colhco a· Cocbifll. · 19 6
CA•. Dnl. De coeno /oy morlo ClwisteulJo. de lwiiD , 4' ••
outro• dubarllltJr'- o• dt DtJbul. too
CAP. xc111. De h·ú milaqro1o q foeráo . .,. .Portu-
gauu n11 ilha à Ct!ilífo. 101
CAP. J:CIIII. Do li 4;ntonio de •• nua ,.. no
eabo de Goart.ILifum 4- Xael. fA03
·C.&P. xcv. De como Martim ajon10 de fllào.jusarte- tJM-
gou ., illuJ de Baada. 2041
CAP. xcv.r. Do ij ac4&eceo a JA GarcW anrjflr: a llar-
tí aflso de jtutwl« tUJ ilAo tk BlidG. IOf»
C.&P. xcv·ll. De como · t!fõn• de mpitlio
mór do mar de MGlaea COM ÚIJI"Simmtl :
d« eomo foy morto eom . tO'T
CAP-. xcv•••· O. como ot Portugaan que aeapanío da
hatalluJ tornarão a Malaca. 210
CAP. xca:. Do lj Laquuirluno jerl ne OJLu«r: . §- de
crnno ,,e foy pera Biratáo. . _ 211
CAP. c. como Baltesar • rtJpt!IO Alvaro
lle briJo Laque.aena .el de DriJ-
guim. . . ·. jll Z
TAVO*DA. -01
CAP. 01. De cOttHJ el rty de Bilt,áo.. ajQ""
,.il a Ma/t:H;a :· !J- CÚJ 1eys 2.1 7
C ..... Ue ctm•u Peru j()y eaLTtfJIJA da·t:a-
J'ftlJ#tW dB Mulac;(t. & z.L
C AJ'. t:lll. cw1,o .d6 Gor,'Ía anrrique• tí.jorla-
de A1âluco-
CAP. (;IIII. De çumo enWado lia tiltltnto -ti reg de Cali-
CJ.tl mar1dou jazer yuerr·a '' dó laãu de limo. · 22-4:
(;V. De· CCJfliiM l.m.tniva« de Ctf'CfJ.r. ti
jwcalaa d-e Clillal ptt·u AlGB e116ncia1. 226
CAP. cvt. lJe CCJfllfJ dtS'fJ(JIS de el r·ty dt CaliLul 1er Jla
cidade dom luluJ ll.e la'''" qauintou u11 da jtylfj'l·i4
i- 6lmazerr•. 218
CAP. cYil. Le como dclfMU de se dDM lDio reeolher 114
. Jorialt%a, us BICal CllfiiKial !J- co-
de IJt.ter a jCJrtaltza. · J3t·
CAP. cv111. De '()'''o u1 • .,,,,,,igos . ki1a
tJiilort-oda. 233
C AP. c1x. De €omo dó lfNio ·de limo pedir
1'9 flfJ 9· tltu rlaetmltM.
CA.I'. ex. De CtJ,no u1 i''''''t9os COflle{llráo de hú
. . tífortultsa, g de .f:Q»W}'Jy .. •37
C..&r. c:x1. De «1m0 Clu·ilkJu6D jlj${JTie a C,alicuc
g NG Jorlnleaa có 01 que .râD ccele. 23-B
(' rAP. •· )( ••• De '" gouerft(jÚQ1' Jnlll,fiou mau .IOCfJr-
..... --. J,JW.
CA•• Jk «J88I ·Ímigel dCJUf
,. .d• c:othO jiJy kú U'i·
C A•. àlut. IJ• COIILB jfly • pw, rnan.tQ _írn-;..
!JOI· s•&
•• csY. De eeme Jem João fes fi.D solJre
Ao '""r• ... ,,,. .. -A'-' _gue u• j'oJJri-
ecnccto. : . S48·
C••· cxYt. CtJ'RtO qtJ.erttlo tJI mo•ro1 eMnhiJ,,. ajfJr-
telao -' l&Qal ..... de E.ampo jurAo aão
(' A•. cX"Wft... De C41trW d<Jm Io6o jiJJ por
•. WIIC'fNI:.· • f#/)'t
10• TAVOADA.
C.&P. cxvtrr. 1k como os immíg01 tomar4o o partJÓdogo-
káo com tJ carrega que kuaua. E tk co-mo cuydádo el rey
tlt Calicut li dom lolio morto ·ho mane/ou 1aber. lâ&
CAP. cx1x. De como os fmigos 9ueymar hum
baluarte ck madeira daforlak•a nóo potkr4o. 169
CAP. cxx. como ho gouernador 1ocorreo a _fortaltsa
de Calicul , do conselho que teue sobre pel9ar con&
01 mouros. 261
CAP. cxxr. De como dom loáo de lima thu h.fl r1bme no
arrayal dns immigo1: de como ho gouernador Gllm-
eou de peltjar coele1. · t66
CAP. cxx 1 r. De como ho gouernador peltjou com os immi-
_901 ij tinháo aforlalesa cú Calicul venceo. tfi9
CAP. CXXIII. De como ho gouernador mandoudcgpejar4-
tkrrihar a fortaleza de Calicut. · · !7 4.
CAP. cxxrtrt. Do que fes el rey Càlicut dt.spois de
a for&alesn. . .17 8
CAP. cxxv. De. como Ao gouernador mandou Eytor da
silueira ao cabo Goardafum. 279
Ç.&P. cxxvt. Do ij aconteceo a Jorge ·dàlbuquerqu' CDm
ho .Arel de Porqua. . 180
CAP. cxxvr1. Do ij nconftcen ao almo:rarife da fortaleza
th Maluco indo pera a1 dos '181
CXXVIJI. como Antonio de brito mtrfgo'U•tJfor-
da 'ilha Ternate a dom Garcia anrritfU6%. 283
CAP. cxxtx. l)e como vendo dó Garcia que .Â.Rtortto tU brito
não queria dar os hmnttzs qut se foráo lhe man•
BfJU tomar ho ltme, bombas velas de h·úa ntro. taõ ·
CAP. cxxx. Da gráde desautra qut ouut Antonio
· de brito dom _Garcia: de como de brito
se partia ptra Blida. , · · · · t87
CAP. Dt. crJmo ho gôuert1ador anfltmliô nfl corta
· do se achou mal de húa perna , pelo
, foy a Cananor. . · · ' · · . ·ze
CAP. cxxxtt. De como dom Iorge ttlo pelejou t:om. oB tmmt-
.9os ,to rio de Bacanor, de como os desbattatou. '291
comofaleceo tlom.4nrriquule.nqaaa.St4t

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