O JUDEU

ROMANCE HISTORICO
POli
CAMILLO CASTELLO-BRANCO
!a.o VOLUME
a>CI)t&VCI)
EM CASA DE VIUVA MORÉ-EDITORA
PRAÇA DB Do PEDRO
1866
P(Y·I.t ~ C J ~ 5": c:c /. ~ 5 -
.;
HARVARD COLLEGE LIBRARY
FROM THE LIBRARY OF
FERNANDO PALHA
OECEMBER 3, 1928
f
O JUDEU
PARTE TERCEIRA
CAPITULO I
;Coucluiu formatura em ·caoones Antonio José da
Sil.a 1por t'7i6. Seu pae, o mBinente jurisoonsulto
Joao Mendes da Silva, contava setenta annos feitos,
-e VSIJMl· .ao peso cia idade e ela moita e principal
·ólitldila .que pmsean com o seu talento jor:idicG -e
destremada boarada. Chamou, por isso, o filbo
a lfiOHjo'lfloe pa11a, mais t a r d ~ , o ficar !Substituiado.
'F'OIIÇaftBo " i8JlBOibo e reposnmcia que .os aatoB
6 , (HUDIU
lhe faziam, o reoonte bacharel abantou no escripto-
rio de seu pae, coagindo o espirita inquieto a pres-
tar attenção ás enfadosas exposições consultivas, e
ás aridas respostas do velho, que era um poço nas
Institutas de Justiniano e Decretaes.
As tres horas, que Antonio José sacrificava de
cada dia ã pratica forense, eram-lhe remuneradas
com a plena liberdade das outras. O uso, que elle
fazia do seu tempo, com quanto desagradasse ao pae,
não lhe era contrariado. Escrevia comedias, vesiia de
melhor linguagem umas que tinha urdido no mais
verde dos annos, e architectava outras para refazer
mais tarde. Propensão aprazível para estudos tinha
uma só : era o theatro, nãO já modelado pela escó-
la franceza, que então dava ao mundo policiado as
regras dramaticas ; mas acostado algum tanto á fei-
ção comica de Gil Vicente, com as inverosímeis pe-
ripecias de Lopo de Vega e dos filiados â grande e
ainda vividoura escóla castelhana. . Ponderar e des-
criminar a índole litteraria de Antonio José, cogno-
minado co judeu» seria impertinencia n'esta narra-
tiva, onde raro leitor antepõe o lucro da instruC(.'iO
ao deleite da curiosidade.
A seu tempo, farei conhecidos, de relanee, al-
guns passos da breve carreira litteraria do filho ·de
Lourença Coutinho. Então julgará o leitor do mere-
cimento d'elle, sem que o ensinem a destrin(iar sys-
&emas; escólas, metbodos, e centenares de subtilezas
ROMANCK BIBTORICO 7
improprias d'.este eseripto, e aliás importantes a quem
estuda e de mui lustroso tracto para quem as pro-
-fessa .eompetErt&emente.
É jã sabido que o mais familiar amigo de Anto-
.Dio José da Silva era, desde os alvores da mocidade,
Francisco. Xavier de Oliveira, o filho da dilecta ami-
p de Looreoça Coutinho.
. Silva tinha vinte e um annos quando se formou,
e Oliveira oorria entao nos dezanove.
O bacharel fioou maravilhado, quando de volta
de Coimbra, encontrou o seu amigo, não mais des-
.moralisado que os mancebos da soa geração, mas
muitíssimo mais desempoado que todos, em matarias
de crença religiosa. Era muito n'este espanto o caso
de ter sido Francisco Xavier educado pelo devotissi-
mo fr. Francisco do Menino Jesus, tio d'elle, e mui-
to a miudo confessado com o oratoriano Ignacio Fer-
reira, e com o coneso de Santo Agostinho padre Lou-
renço Justiniano, como Lourença Coutinho referia ·
n'uma das cartas a Sára, escriptas treze annos antes.
Desde os dezeseis a n n o s ~ o filho do eontador-
JilÓJ' José de Oliveira revelou imperiosa vocação para
a vida dissoluta ; sem embargo, a piedade, os acces-
sos de fervor cbristão, entremettiam-se nas -extrava-
gancias do rapaz. Ainda entao Francisco Xavier se
eQ.nfessava todos os mezes, aproveitava quantos jubi-
leus a magnanima Santa Sé. proporciona-ça á salvação
das almas, e não consentia a Antonio José a mini-
IIJUDIU
JDa plllofa das oousas da igreja ·eatbo-
-ica...af)QStoliea-rom;pl&.
N'esse tempo ainda, época do seu primeiro a-
..am, dle om irrefrapvel teatemuullo -4e.ueo-
deim ·piada&. Contava elle, .cinooellta .-s dapoit,
-que tinha, o'aquelle .tempo jmeoil, um onWrio toa
umas vinte imaieos de Santos ·de sua particular •
·.taa. Entre todoJ, es .ais .rogados e
eram Santo Antonio e S. Gonçalo •. 1Jma
I'M:, lhes pediu que tclcae8em o -helle-
-za ·rebelde. -cOa dons Santos, -dw -elle, premaelm•
1te ooou,pados em aegooio -de mail ·impPI11Beia, 818
meram aso- OOs •us requerimentos. Despllitaclo
oom o -meoospreço, a&ei-ts um ·ao .owtro, -e pai--os
fóra do santuario, destemad&-OS -pan -debaixo da
minha .eama. Come, perém, os Dlo seosibilisasle
oca Cil mau traetamento, •isto que a minha -deidade
coDtiJ:Ulava em seus rigores, eoodemnei-os a desce-
rem ao fOÇO ; -e logo os -fui baixaado, com ellleiÇI6
.de afopl-os, se me dle fizessem e favor. Acooteoen
eotle .qge a MOÇa me respondeu a muitas eartas,
6fue lbe .eu tinha esoripto, e assim salvoo as chRs
imagens do naufragio; e -eu aoreditei que delia aos
dons Sansos a minha fGnnna. • 1
t O extracto é da obra de Francisco Xavier de Oliveira jã mal-
tas Yllze& citada: Amwemmt f'ér4oàúl•· O mais que se fOr diJeDdo
respeito á vida particular de Oliveira e ;aeus eoritempoi'BIIe08, ainda que
se não demarque o lugar em que a noticia foi colhida, tenha o leitor a
certeza que é quasi sempre exacta cópia do que retere aque1la obra.
ROMAiflm JIJ8TORICO
signal de sua ,piedade: Francisco
x.a.ier -eoibarooo n'um bote ·para ir á P"oa, ciDeo
ieps 6Mante de üeboa, á marse&a • Tejo. Sv-
DIBI IJorruGI, deffoate de .Sita118111. 8
iM1co '88tna já .em ..-os tle mOih'ar a "fUillla. Fraa-
filoo aj8elha e ·m.oea a IJIÜalrOSI Seàoaa 4a Penha.
...... o 'Yéo&o, fi coosepe l() mrco abioar a tei'IL
qtte obegoa a 'Lisboa, o ID8ÇO fli á Peoha •
trnmça eom 'Ieda a parentela agradeoer i Senhora o
·milaF,e. llez ·dizer moi&as miaus em aaçlo de p
(.lU. Deo dinheiro aos frades da casa, e pendurou um
painel que represeota.a o c Este painel,-
diz elle, e DÓS 1rlsladiiMOs as palrwas do devoto pa-
ra que algum curiose pusa -amda vér na capella da
SeQhora da Penha ·O •·•M1o 8o ,mWJbeiro d'Olivei-
n-este painel foi pendurado Óo muro da igreja, e
«eeo que ainda lá. eRiri. , 1
Estes e outros easos &OOnnam o espanto de Aa-
tcmio :José ·da Sil,a, qaando, 'Da volta de Coimbra,
lhe· pergontna-:
-Que é feito da tua fé, meu Fraacisw '!
- Perpata-me antes o que feE a min1aa razão.
almoiada pelo estodo·-·respoodia Franeiséo Xavier.
- Pois que te disse a tua razão a respeito d'a-
paúl.el wu.e e.u le. vj levar â igeja t1a 'Penha'
Lembras-te que me chamaste iapio (iQique .eu .me
ri do caso·? ... 'Como foi gue a tua raz!o te falloo 'I
t EMreria - 1751.
to O IUDBU
-Disse-me que os ehristAos imitavam os idoAa.·
tras n'estes votos de paioeis e qaejandas otfereodas. É
a mesma historia do templo d' Apollp na. ilha de Nao.-
fio, eregido por Jason, depois que os a r ~ u t a s se ·
salvaram d'uma tempestade, ao recolherem* de Col--
chos. É a mesma usança dos ex-votos no .templo
de Hierapolis, o mais milagroso .dos de.nses.syriacos.
É a meama necedade dos enfermo.s curados q ~ pea-
doravam paineis no templo de Esculapio. Já Hora-
eio fallou d'esta costumeira, como sabes da ode 5.• :
•.. Me tabula saoer
Votiva parles itJdicat humida
Suspendisse potenti
Vestimema maris Deo. t
Tibullo tambem costumava, como eu, recorrer
á Deusa em cujo templo se penduravam paineis. i
-Sabes tu- continuou o moço Oliveira -o
que respondeu o philosopbo Diãgoras a ·.um sujeito.?
-Nada, nlo sei.
-O sujeito, apontando-lhe para muitos paineis
de· naufragios, â imitação do meu, disse-lhe : « Pre-
t A 16{/rada parede de que pmde o meu votado painel, tule-
trnmha que eu alli pendurei as minhas VfJIIU humidas, em honra
llo poaante Devs do ttUW.
li Nune Dea, nune succurre mUai, nam posu mederl
Piela docet Templi& multa tabella tui&.
Eieg. 111, lif. 1.
ROIIAIIGB HIR'ORICO til
somes que os deuses nao fazem caso dos negocias da
humanidade. Ora Dlo vês tu este grande numero de
peineis, provando que tanta gente se salvou de na.
frapry em virtude dos lotos feitos aos deuses 't • -
Sim, respondeu Diágoras, vejo isso; mas tambem
vejo que os afogados 'nAo se fizeram pintar.
-Mas .•• - redarguiu o bacharel Silva - a
que se deve a transformação moral em que te encon-
tro? Quando c o m ~ r a m as tuas duvidas sobre a fé
cega de teu tio fr. Francisco do Menino Jesus'!
-Eu te conto. Um dia fui de peregrinação a
Nossa Senhora do Cabo com o padre Antonio Go-
mes, e com o doutor José Antunes Cardoso. O pa-
drn gostava igualmente do bom e do mau vinho ;
porém, um Yinbo, que lã lhe deram para dizer a
missa, era tao mau, que o padre, quando estava a
desparamentar-se na sacristia, soltou estas colericas
palavras : c O vinho do calix tinha um sabor de to-
dos os diabos I Meus amigos, recommendo-vos que
niQ..bebaes vinho ao jantar, a não vos darem algum
que não seja d'aquelle que eu consagrei. • Aqui tens
tu conw e quando principiaram as minhas duvidas
sobre o dogma da transubstanciação. Parece incrível
que ta.o pouco ar levantasse tamanha tempestade no
meu espírito! Entrei a pensar como aquelle vinho,
que era vinagre, se transformára em sangue de Cbris-
to I Confessei-me d'isto, porque me atormentavam
os escropulos. Os confessores, todos â uma, medis-
••
• IIUH1J
_._ qoe o clemon•anrán·IIB
oQuado a wspeita·de·que
e ·engolia um hocado À >ctbreia I De,ois. quando
leekaVI • cartas, pnbNie a dlhlr 'PIRl as obreias, .
"' a dizer: . c Quanto '90s a-tote, 1111inbas p9bres
obreias I Um padn em Deus, -e
•es torollria objeãos de ._. 1miverSII; 110 pas-
• !fUe ·eu vos mollo de ·satita., •e "VIB obrigo atfecbar
cartas t Sois tod&S da mesma especie e da mesma fa-
rinha ; ptJI'ém, o 'VOSSO destino varia até ao infitJi..
&61 ••• etc. • D'est.es desalentos, d!este 'btm"ivel des-
-arer, :ainda eu pude algom tempo arrancar -a miuha
.tum, e ·submEfttêl-a ãs -consolações reanimadoras dos
.pedres .,.e me oomm e combatiam as dmidas. Lia

'JM terminantemente me diáa : t
preciso no .dofMa ·dtJ ...,.
ftlltMr ent«ulel-o. E eu ]ia muito Mallebrandle -pa-
n aada •ez eotewler menos o dogma e o aotàor.
Ealfim, meo caro Antonio José, para te nao enfatler
hastl ·dim--ae qoe, ptriida a fé n'om dota&,
-perdi·a -em todos. Depois, vienm aqoeUes terri\18is
ilGIDIMltes com a hypoorisGI, em que sahi mortaknen-
:te ferido no cor.açao. A roorte de Catharina .•• bem
le lembras. • • ha IODOS •••
O leitor precisa saber qoe morte foi eMit de Ga-
hiBa. Será propriamente Francisco Xavier fi Oli-
1llila .-em lb'a re6ra: c O conde de PovQJide e
•ia doas familiaNS do Sl8l6 officiG qulli me .. rno-
• u.. a-* qee eo atDMa sae-.
·tMIDB.in:·arM.,...npde.vinte HDOS,
p8hiea do que :bella, e. tio espirituosa qaaoto belr
feia. Bn mBa diriMA exagerada em sou
dnotões como eo ·o liat. sido. lia á llli818, ao 0011-
fessionario e á OODUDanhio; orava á Virgem e aos.
Simtos; e as almu do pargatorio eram as 801&
pàs predilectas. Comia de todo, gostava de pre-
saato, e muito de chouriças de porco. N'oma pat.
..., a moça guardava o domingo, nonea abrira a Di·
btia ; e bem longe de saber o que era aab6rath e ja ..
dias, iBDorava qoe tivesse existido o' este mondo mD
Moisés. Como baTia de· saber Catharina qne Moisés·
legislára '! Ora, todo isto, junto ao amor que eo lhe-
tinha<, fez que eu despropositasse em bndos contra
semelhante· prislo. Impozeram .. me silencio, e os meoa
amigO& traetaram de me vexar por me verem
x.uadto por uma judia encarcerada no saato otBciOI.
Duóito mer;es depois, fez•se auto da fé em qoe a.
rapoip devia appareoer, e oo'rir lêr soa sentel)\!8
piiWioament&. Claro é qoe nao faltei ao
Qual foi, porém, meu espanto, quando oovi & presa
ceJJfessar qae' tinha guardado inviolavelmente o sab-
btldt. qoe Dto havia comido carne de porco, e qoe
se-absti• d& certas oomidas, que eu lhe vira- eo--
...,.. a• lllilhlo• de WJEes eom· furioso appetite I A
minha surprer;a redobrou ao ouvir lêr a- sentença,
que a• mandoU.'I' queimar, porque tinha sido dimi,.
la na oonftsslo, quer dizer, qoe nao tinha podido
aebar ou •divinhar os nomes du fllsas testemunhas
qae depozeram contra ella I . . . Ás dez horas da
noite, como a condemnada fosse entregue ao braoo
secular, conduziram-na á Relaçao, ·cujos ministros
até hoje usaram sempre a covardia de confirmar ce-
gamente as sentenças todas da inquisiçAo, sem que
peçam ou revejam os processos dos condemnados. ·
Como aqui me era permittido fallar á desgraçada,
perguntei-lhe como podéra ella mentir tanto para
provavelmente salvar a vida, e se deixava morrer
por nao querer denunciar os cumplices, ou antes os
aecosadores. Respondeu-me : ·a: Sondo os meus aeco-
sadores falsas testemunhas, que eu nunca vi talvez,
era-me impossível nomeai-os. Deus me é testemu-
nha de que morro innocente; tu melhor que nin-
guem sabes que eu soo christa, e todo o mundo o
ficará sabendo pelo formal desmentido que dou ago-
ra a tudo que confessei na inquisiçlo, a respeito do
meu judaísmo, protestando diante d'este juiz que já
mais professei fé que nao fosse a de Jesus Christo,
na sua santa religião quero morrer.
a: Pouco depois, entraram os ministros a interro-
gai-a. Publicamente sustentou que morria na lei de
Jesus Christo, nem soubera nunca da existencia d'oo-
ti'B. Esta confissao não a salvava de morrer, e assás
o sabia ella. Não obstante, insistiu o' este sentimento·
até ao derradeiro momento de sua vida, que lhe foi
ROIIANCK BISTOIUCO ta
tirada da meia ooite para uma hora, sendo estran-
gulada por mio do carrasco, e logo lhe levaram o
cadaver para ser queimado no local em Lisboa des-
tinado a semelhantes execuções. •
Continua o cavalheiro de Oliveira, com a sere-
nidade dolorosa em que a desgraça de longos annos
lhe tinha congelado o coração:
c Bem que eu n'aquelle tempo respeitasse o tri-
bunal da inquisição, nem por isso deixei de me ex-
pôr a toda a ferocidade de seus ministros, bradando
altamente contra a barbaridade do seu proceder. Se-
jam-me testemunhas dous inquisidores ainda vivos,
os snrs. Silva e Gomes, a quem eu fiz severas cen-
suras, e os quaes, como bons amigos, me aconse-
lharam silencio, figurando-me o perigo a que a mi-
nha imprudencia me exponha. Segui o conselho
acompanhado das ameaças d'aqoelles senhorei. Ca-
lei meus queixumes; todavia, os meus amigos sabem
que, desde aquelle dia, formei pessima opiniao do
processar d' este maldito santo officio. •
CAPITULO II
-Outra cousa I - perguntou Antonio José -
Tu eras sebastianista, ha um anno. Esperas ainda o rei?
-Não me falles n'isso, que é a minha grande
Tergooha I Imaginas ·tu que amizades perdi de pa-
rentes, e graves amigos que endeusavam o meu ta-
lento, e lhe queimavam incensos no altar do Bandar-
ra? Minha mãe ainda hoje chora, quando se lembra
· que eu já não sou sebastianista I E eu choro, quan-
do me lembro que. me deixei seduzir por aquelle
~ franciscano Vioonte Duarte, cujas ·historias toa
mãe ouvia com uma fingida dôr de dentes para que
J.be. não vissem o impio riso I
- Entao agora em que crês'! - perguntou o
hebreu.
{8 O JUDEU
-Na vinda do Messias, de certo nao-respon-
deu com chocarreiro riso Francisco Xavier - E tu
esperas"!
- Espero que não venha confundir-se com os
patifes d'este globo; mas que elle não veio é cer-
to;
- D'accordo comtigo. Não veio, com o nome que
lhe deram. Jã tinha vindo, e chamava-se Socrates;
tornou a vir, e chamou-se Luthero.
- Estás protestante 'l
- Sim I protesto contra todos os embusteiros e
hypocritas ; protesto, em nome de Deus, contra to-
dos os que lhe infamam o nome.
-Isso é justo. E d'amores, como te corre a
vida 'l quem amas 'l Dura ainda o reinado da Joanna
. Victorina ? A cigana de certo deslumbrou a memoriá
da pobre estrangulada da inquisição, e d'aquella An-
tonia Clara ... t
t Os amores d' Antonia Clara devem ser contados por elle :
« D. Antonio Manoel, irmão do conde de Villa-Flôr possuiu, tres
annos completos, a encantadora Antonia. Um transporte de ciume ia-
dispôl-os a ponto de ser despedida a formosa manceba por D. Antonio.
Cahiu-me em sorte; e, posto que D. Antonio se arrependesse de a ter
assim tractado, o mal já não tinha remedio. Antoninha não quiz mais ou-
vir fallar d'elle, e elle não ousava nem podia reclamar um bem, cujo lejp-
timo possuidor eu era, porque lh'a não tirei por força ou velhacaria.
« Antonia, como fosse um dia confessar-se ao cura da sua freguezia,
o confessor propoz-lhe que me abandonasse, e consentisse em fazer u
pazes com D. Antonio. A moça extremamente magoada com tal conselho
no confessionario, negou-se a aceitai-o, e de volta revelou-me tudÕ. Cus-
tou-me a Cl'êl-a, porque o confessor era pessoa muito de meu lOOnheci-
ROIIANG 49
.,
__ A Joanoa é fatal ! - disse Oliveira - Fatal
eomo todas as da soa tribo.: . Traz-me o coraçao de-
baixo dos pés. É a mais vergonhosa e mais dôee es-
cravidão da minha vida. Minha mAe chora muito por
mim ; porém as lagrimas que eu tenho chorado pela
mento •• Além de que suspeitei que Antonía me estava encarecendo os
favores, querendo mostrar-me que por amor de mim desprezava um pie-'
gas suspiroso da estofa e meritos de D. Antonio. Sem embargo, como
eu sabia que este homem era particular amigo do cura dos Anjos, quiz
convencer-me da verdade da que a moça com juramento me
cerlificava. N'este proposito, mandei-a, dias, procurar o padre,
e dizer-lhe, que estando de mal commigo, e reflectindo no que lhe convi-
nha, resolvera aceitar o seu conselho, e voltar para D: Antonio ; e por
isso pedia ao cora que fosse a casa d'eDa ao outro dia ·entre dez e onze
horas da manhã, asseverando-lhe que eu, a tal hÕra, estava no tribunal • •. ·
O pobre cura · cahiu na esparrela, chegou á hora combinada, e decla-
rou a Antoninba qual era a fÔrça. da paixão que D. Antonio por ella con-
servava, acre5centando que ninguem J!lelhor do que elle a merecia, e d'al6 ,
se ia logo a levar-lhe a hoa e nova.
N'isto, sahi eu d'nm escondrijo, e disse-lhe que para ir mais· depres-
sa, saltasse pela janella, o infame recoveiro ! Um raio, se cahisse sobre
o padre, de certo o mataria; mas atarantai-o tanto como elle ficou de certo
não. Ajoelhou-se-me aos pés, pedindo-me em nome de Jesus Christo e de
sua Santíssima Mãe que lhe perdoasse o nltrage e desgosto que me elle
queria dar. Eu estava iradissimo, e resolvera castigai-o deveras, porque
estava em minha mão perdêl-o. Não obstante, deixei-o ; e d'isso me não
arrependo. Quatro annos depois fez-me uma grosseria na sua igreja, of-
fendeu-me, e deu aso a que en contasse o r.aso a dons amigos d'elle:
logo que o soube, tractou de reconciliar-se commigo. Desprezei-o então, e
ainda o desprezo se está vivo, muito mais por sua ingratidão que por o8
seus outros desregramentos. • ·
Amusement périodique- 2.• vol. pag. 389 e seguintes,
' era o oura da parochia de · Nossa Senhora dos A'!ios de
Lisboa, situada na estrada de Arroyos.
• • Ett servia então o rei no tribunal de contas, do qual meu
pae era contàdor ou conselheiro.
.......
t)ipaa • • . sAo inoomparavelmeme maia. l!llobe-me o
pejto de brazas a maldita com os ciumes que me faz !
...-..Olha lá •.• - atalftou Aatonio José .... Coomo
foi aqaella passagem de expulsares o diabo do. corpo
4a-. mAe d'ella ? ... Fanaram-me n'isso em Coimbra •..
Crês, ao menos, que o diabo entra nos corpos'!
-Entra, e sabe facilmente pelo processo que eu
na mãe d.e Joanna. Ahi. v.aj a rece,ta,.
f..orria como cousa aiVeriguada que a Yelha estan in-.
cliba.da de demonio. tregeitos e desternpêros,
que ella em casa, eram pavorosos. Nao ma
deixava parar meia hQra socegado com a filha. De
fitlE!Dle, come(lava a. esenmar, a rolar os olhos, a
ranger com os dentes, e a caretear visagens d·e ta-
m,anho horror, que se me arrepiavam os cabellos.
· Os criados andavam de dia e de noite a chamar con-
fessores e ex.orcistas. Eatrei a suspeitar que a ener-
gomeaa era uma perversissima impostora. Entendi-
D,le com a filha, communiquei-lhe as mesmas descon-
fianças, e ella concordou. « Havemos de coral-a»
«tisse eu a Joanna. Vespera de natal, entra o tal de-
DJDnio com ella por volta de ooze horas da noite.
Escàbujava nos braços da filha, dava pontapés de
dei,'rear um elepbante, colleava-se como serpente e
pinchava como uma cegonha no soprado. Depois. ca-
biu e.m lethargia.. apparentemente mortal. Eu jã me
tinha preparado para a cora. Levava commigo dons ti-
jolos que mandei aquecer até os abrazear , e depois
ROIIA!ICI -.oRJCO
ordenei a Jclaflna ·-.e os 1ohlpsse ris solls dos pis
da mie, os quaes· es&anm ooa e fón do lei&b, onde
ea a par. Parece que o demo&io d'eJia •
tava ·âlérJa; porqoe asaim -qt.a ea fallei em tijiiM
quentes, recobrou os sentidos de golpe, seawa-sea
fAIIII, barblato algGZt • disee OOiilr.t a fi·
lha ioeoleneias diabolioas. O eet10 é, amiso Antoaio.
qat i veltla DUnea mais 6H vexada de diabo neahum.
e passa regularmente. Aqui tens como foi.
-E CObl a loanoa, eoano te •ae& dandp 't ·
-Já te 4i518 : 5empre trasplseado das aanlllu
do ciume.· .Agora, eslá abi e• Lisbóa um castelhano
'fDt me dá que faMr. Já .lhe segoi de noite o vulto
para o atravessar com a espada; mas as mortificações,
que' eu tenho causado a meus paes, são já tantas, que
1M elo i)OUO .resol-v.er·• _,.r u 'homem. loauna já &eve
o dêsamtrJ de tne dlter que o nlb attta feio nem
zàvel. Eu quiz ·Be93r li'eLla a minha ,r:aiv.a .mas deo-
3 mgcm' é Wtôltier dê faca, e dlt)
eDsalàiia ein .mim se me estaqneasse, porque o exem-
pt& jâ • '<let1 oom nm dos meus
na posse d'aquélle 'formoso seio, cofre d•um pessimó
...
-'! á'tnàs a·s-sim 1111111 '1-··a'tàibou Ah-
teoia JOié da Sil'VI.
-Amo, amo miseravelmente r 'àb ft
11
que de Cadaval porque . ama elle a Paulina que o
atraiçoa todos . os dias ; f*ililll&a te «Hldt de Arouca
O.lt!DEU
porque ama aquella impodentissima Rocha, que o
oobre de · irrisoria igoominia ; pergunta ao rei porque
amou com tao cega paixao a dissoluta Margarida do
.Gnte que ftoeira no convento ·da. Rosa, . o
anno passado I t · ..
· - Teos um sestro 'fataU - obserfOU Antonio
JoSé-E quando tu, ha tres annos; faUnas êm mor-
rer ethico d'amores pela aetriz bespanbola 2Jabel Ga-
marra I
- E' verdade .• ' • Já sabes que ella professou
nas Agostinhas no eonvenlo de Santa Monieà '/
, -Já sei. E o marido professou tambem '/
-Não: foi-se embora, de receber-· seis
l O amante de Paulina . era D. Jaime Pereira, cunhado de el-rei
D. João v. Tirante a miseriá d·aquelles escandalosos amores, o duque
foi um dos Jllais respeitaveis. e respe4ados fidalgos do seu . tempo, A man-
ceba do conde de Tarouca, mulher da iiÍfima plebe, chamava-se a PelÍes
de alcunha ; mas como casasse com um fulano Rocha, criado do conde de
Tarouca, tomou-lhe o appellido.· Como .BOII ·homem, que era este mori-
do, diz o r.avalheiro de 'Oliveira, comeguíu ser criado supranumerario
da imperatrí5 Amelia •. O canlheiro referia-se á imperatriz d'Austria,
oode o conde de Tarouca pae do conde em questão foi ministro portu-
cuez. A tal Rocha ou Pelles fugiu ao conde para os braços do padre Do-
mingos rl'Araujo Soares, capellão particular, que tinha sido, do conde.
Este padre, diz Oliveira, nunca disse missa : uníca virttulc que eUe
pmJicou. um sceler!ldo de profUsão .. Cumpre saber que o conde
tinha tirado a Rocha ao pae, insulto de que o padre vingou o velho. O
chronista, a respeito d'esta balburdia de perlidlas, eulama· com UJ
po5a francez :
..
·· Amour, amour, quand tu nous tiem,
Onpeut bfen dfre, adfeu, Prudence I
llOIIAl'fOI. IUSTOIUCO
Jlil, enuades, q&·lba.deu em troca da o
•NJUtz -iJe GCHWêa. '· ·,.
· "; -* • t3al'l' disse An&onio José - Quanto
acbas;to qoe.laJQO de ljlor.tupl aqoella Petronilla do
D.,Jolo "'
-. ·.-·É UDloolaMI. O libido e é que ella
._,. .de Lisl»a. fliala •tas carregadas, e que as
damps .da .p-iaeira plena de Hespanba, quando a vi-
• mi'Npda de· joias no tbeatro de Madrid, asaom
llnraiiHe do •M> . dQs · brilban&es. Vê tu onde
fôram eahir .as .joias das .rainhas de Portugal, e as
mais precioaas, CJile vieram do Oriente no reinado
de D. Dr ..... :Volt.aodo .á Gamam, deixa-me
oootar-:-t.e episodios que iam desca.mbando
em tngedia, e póde. ser. qwt a final disparem em ter-
rival catastrophe. O marquez de Gouvêa bebe os
-..UJs pela qolher, principalmente depois que a
metteu no. eonven&o e lhe o. habito. Soror Isa-
IJBl {olga de ter acorrentado as srades do mosteiro o
pde seDbor. Aconteceu, ba mezes, mandai-o cba-
IUr à ;Gamarra, ao mesmo tempo que o rei. O mar-
qnez vacillava affiicLIImeDCe, sem saber decidir-se.
Sabe. o marquez. entr.a no ®ehe,. e diz ao cocheiro que
o leve á côrte ; oaas, a maio caminho, manda desan-
dlr.pqra o. convento Santa. Monica. Para encarecer
o eeu amor, diz. á freira que el-rei o estava esperan-
do; porém, antes ao rei que ã sua ama-
da. c Se nao procedesses assim, nao me verias mais •
.. ._.
disleolbe soror IAbeL. - .._. •
calculas arrisco por IIDOf Ide â 't - •
111'iar- relalgaiu ella -- -..;qtli ,,._, IIIi
ajuntou ena, em àespaáboJ,.cOIIl:o 1ilulo da
comedia de Calderon -· Quem s.e nlo satlifillr:.l*'
mim nAo -me ama, nefll • .agllllda. • :.--se dar-
làe o marquu o· sem cftttlto _,.Mido. amt!ciroalo
de brilbantas, e .. jQrar ekli.a ........ Oepoil.
com o oooaentimento d'ella 110 .iei. .&te ·dialoft
ouri'-0 eu da grade pran., ,_.. eu· en.. ·la
ella quando se annoooiGo ó marqaez. • • · · ·
- Entao é certo qwe ·a aJD18· e él.. .• .. 'IDMG.
como os outros ..• _._ io!aerrompeo ·' ·
- NAo. Soo coofidellte t1t Uliioo 'boiMill .qoe
ella 8inceramente ama. Goubeoes o aneu imigo V.
lentim da Costa Noronba 't
.-Tambem esse I casado I pae de q1Mltro iRldu8
filbos f espose d'oma 'VirtOosissima senhora f ....
-Tudo lhe 4 fooe&t:l aolller I· EBtl
sem amigos, sem ooasi4eraçAo, sem sema ..
lber, e reoeio muito que Jwmt esteja sem a
duas vezes os tioarios do ·mtrquez III!& 'fUizeNIIl
Nllbar. D'.ama ve2 o ajadei eu 1
quatro assassinos. Se 6 DAO btmla,mais bêje mail
amanha., algtma 'OI'dein do 1'ei o() tnabdl .fechar bW.
pa torre ••• A despejada IDUiber,
quez sabiu da grade, f8HIIê portador elo T81111to é

M bri1h31MB doo aiDIIIlet eomo presente a Valeolia ·
de Nottollba f • .• • t
-Agora, faDemos de ai. A jucfilsiDlta teaHa
Coula·me atpma da l,ed.
ner dOJ..teu& soiJbaa ••• Que .-..d'e&&a 't Vem para
Pottugal't. ·
- V81B A ultima' car&a· de SáN
para minha mãe diz que por esties seis •
t Estas DDtieiu, extrahldas dos d1adoslimJ& 4e Ftalldsco Jatilr
de Oliveira, deYem ser aqui competentemente encerradas COBl o remate ·
da biographia da freira agostiuha. Com referencia ao merito d' eila como
aelril, · eSCM'e·e tiMIIheiro: ir GctMN'a éloit 14 plu ,...
le actrla !fU4 qom tiÜ eur le thiatre de Li&llotW; elle _ez.u
jeune, enjoueé, engageante: elle avoit beaucoup d'uprlt, de vi.va-
dté, et · de grand& channe1 d1J11t toutu au tniJ!Iibu. Acerca do&
se. cos'umes• diz: .EJle CffOit wa m4rl et wn galant üclaré. :eu.
n'avmt donc qu'un seul défaut, c'étoil celui d'être ou atfÚtée, ou
infidek : elk trahissmt également et son marl et ron gàlant: elle
cVfit fie pow l'rm, et seuletnent de l'ulime poar la.
tre •..
O amigo de Antonio Jostl da Silva previra o desliDo de Valentim de
NorOilha em uma das duas hypothtl!es. Por ordeaa retla, NOI'Oiba foi
110 Limoeiro, a pedido do rnanJUel de Gouvêa. Ao fina de
nove mezes de prisão rigorosa, teve o preso a boa sorte de ·morrer o
marquez no vigor da idade. Não obatante, D. Gaspar 4e lloscoso e 8t:.
"" lio do e sullillter da corliaa de eJ.ni D. Joio v,
embargou por muito tempo o fivraménto do preso, para assim vinpr o
amontado sobrmho. ' '
A freira, assim. .-e o.J181118U eqiÜ'IMI, qail vollar P.,.o maridr,
que representava nos theatros de Hespanba. Obstaram-lhe as leis á re-
nunciação dos votos com que professãra. Gamarrà tomou o mais sl1lllllla-
rio dos expedieott!$. 4o !MaveDto, ligoHe ao Blll'ido que tlllll
ido furtivamente a Lisboa, passou a Hespanba, e voltou á vida antip
do theatro. Eis aqui uma creatura á espera d'um romance em ·tres volu-
mes, sraças ás illformações de Francisco Xavier d'Ofiveira.
O IIJDlU
:um a nevada Hollaoda em que o coração da pobre
menina morre de frio I Olha que ainda me não es-
ereveo palavra que não venha entanguida do frio lá
da terra I Aos vensos responde na mais chan e so-
"fina prosa que inventaram. mulheres veis.
-To és um tolo sincero I -exclamou de gol-
pe Francisco Xavier-..:. Pois tu pódes amar seria-
mente a moça, qo.e nunca viste, só por que te dis-
se toa mãe que ena, muitos annos antes de nascer,
ji era destinada tua mulher'!
-Posso e amo -disse Antonio José- Phanta-
siei-a. Não sabes tu ó que é pbantasiar oieu sebastia-
nista'! Pois tn não imaginavas,· ha·poueo tempo, um
Ni D. Sebastião que tinhá morrido seculo e
antes '! Entao tem que eu espere a felicidade
d'tima rnulher, que vive, e se veste das· cOres celes-
tes que a minha phantasia lhe dá ? Sei que ella é
formosa : · que tem que eu a . imagine formosíssima'?
Sei qÚe é inslrnida : que faz que e.o. a pbant;lsie uma
das irmãs Sigeas '! Se os meus sonhos baode aca-
bar, quando me e lia aPJ>arecer poucp perdi : os
adornos, que a minha imaginativa lhe deu, sãO pro-
priedade minha ; posso dâl-os a quem eu. quizer de-
pois. Isto que tem de extraordinario '! .
-Pois- tornou Oliveira - se não queres ser
· lolo extraordinario, serás um tolo vulgal'.
CAPITULO III
Antonio José da Stlft gnaceara fama de abali-
zado engenho. As soas jocosidades metricas andavam
mánoscriptas. por mlos dos entendidos, que as en-
careeiam, ·por mm OU meDOS aquinhoarem das g r a ~
ças litterarias da época, em nossos dias consideradas
aleijões.contagiosos das escólas italiana e bespanbola.
D. Fnooisco Xavier de Meaezes, quarto conde d8
Ericeira, o mais fecundo e menos contaminado es-
. eriptor portuguez d'aqoelle tempo, recebia Antonio
José em sua casa, folgava d'ouvil-o recitar as suas
eomedias entremeadas de chistosas arias, recitava-lhe
cantos· da soa iosolsiiSima Henriqoeida, e aconselha-
9.0 a· transviar.:.ae da imitação senil dos bespanhoes
em composiqUes thntraes, e dos trocadilhos de <JoD.
gora DOS poemas grives, em que apenas· o bacharel
por aea10 se.-eotretiohl.-
!8 O JUDEU
Francisco Xavier de Oliveira, reputado mancebo
de rara inventiva e copiosa leitura nas intercadencias
das notorias travessuras, era tambem das palestras
e saráos litterarios do conde da Ericeira.
Um dia, Antonio José e Francisco Xavier en-
contraram na livraria do conde; folheando nos livros,
em quanto o fidalgo nllo entrava, um Bartbolomeu
Lobo sujeito dado ãs letras, com o infortn-
nio deploravel de se DiiiO darem: 11s letras com elle.
O conde, como amigo de gente ledôra, ou porque
nllo estremasse os incapazes,· ou por se compadecer
dos inintelligentes, acolhia Bartbolomeu, dizendo aos
mais íntimos qoo e f'Cà'e ejeito nAe ·tillM ·culpa de
sabir milagrosamente mais l!lodea :q'Ue • pae'
O pae d'este !B&rtiiM>Iemeo·&ioba·sido um hJra
LobO Corria-· Mt1rmo • oontadoria :geral, :flllooWo
eaa i 108 •. Jlste stajeilo eatnira ·no temp1o ·das .lttras
CCill o. off«tor.io d'um li.Yro de. swt lnra, in&notado
fidtz de AQão e 'conlra a1 tmnpêMadet. O
&Kulo sóm•te. ··sem ajnda dM :parvoioadas intfricril
· do livro, tinha eidG o epiüpbie do litttrato•
ao 11ascedonro.. ·
Passados armos, oomo a paitlo das :1etl'88 o •
pioaça81e, dea-se ·a tradoclor do oe sahio
a mais .OOito tnoae com o NUJiaB'IItOi vida -t
fiM1Iie ünirtlnil do grande 1ert10 de Deus Gregn ·
tops, '*urcU·d• UMa à ÜIIIMrf!l: ·OOIIIptWIO pilo
licmceado Francisco Losa, t,...:ido M pw•

' (ttjim a tent&IIO 4o. dem&-
nio da originalidade !) o e primeiro capitulo .. Ora.
& fim e fll'imairo, capiqalo do llvro era sobre modo
telb\
Além d'outras tr.atioeQÕeS, Pedro Lobo, queren-
do ctar test.emnnho publico de sua piedade, das ex-
celleaeias- do seu christianismo, e assanhado rancor
á raça hebraica, traduziu do castelhano um livro re-
wlsivo,. intitulado: Sentit2ella contra posta
em a torre da igreja de fc. Feito isto, e mais
alguns seniços á religiao da caridade e ás letras por-
togoezas, morreu Pedro Lobo, deixando ainda um
o peor e mais brutal de todos, que era o
filho Bartbolomeu.
Estava, pois, Bartholomeu Lobo folheando os
preciosos livros do conde da Ericeira, quando entra- •
ram Antonio José da Silva e Francisco Xavier. De-
pós estes, entrou o padre I..uiz Alvares d'Aguiar,
·prior de S. Jorge, homem de sessenta annos e ale-
gre sombra de v.elbo em cujos olhos lampejavam
ainda os clarões da juventude.
Antonio José, que sinceramente odiava Bartho-
lomeu, já pela estopideE herdada já pela propria,
nao perdia lanco de o metter a riso com salgadas
galhofas na presença da fina e algum tanto livre so-
ciedade do conde. Casualmente, relançando os olhos
ã livraria, o hebreu enxergou o livro em s.•, intitu-
30 o liDA'
lado: SentineUa conwa «c. Tirou Q livro,. e
disse:
-ú Francisco Xavier, já Jêste um
livrinho traduzido pelo pae aqui do snr. Bartholo-
meu?. A sentinella contra judeus I
-Oh t ••• oh t ••• - cacarejou gargalhando o
padre Luiz Alvares- Isso é uma obra que faz co-
cegas nos pés ã gente.
- Entao porquê"/- perguntou o abespinhado
filho do defunto traductor.
-Porque? 1-tomou o padre- porque é obra
recheada de saqdices, e immoralmente porca e torpe:
- Que outro dissesse isso ... -retorquiu Bar-
tholomeu-mas vm.oe, que é padre, e homem bem.
nascido I ...
-Quer vm. oe-tornou. o presbytero- que os
padres e homens bem nascidos sejam tão alarves co ..
mo o senhor seu pae, que Deus haja na bemaventu-
rança dos pobres de espirito ?
Antonio José e Francisco Xavier riram. Bartho-
lomeu, em harmonia com a sua costumada parvoice,
riu tambem ; todavia, o onagro, que fareja a femea
nas brizas de Maio, ri com mais espirito.
O filho de Joao Mendes abriu ao acaso o livro,
leu mentalmente algumas linhas, e disse:
- Ú snr. Bartholomeu, vm. c• estará na persua- ·
são em que morreu seu engenhoso pae a respeito
das doutrinas d'este livro?
ROKAND-IIIS'I'ORICO
-Eu enio todo em que meu pae creu. Tudo
qu.e elte escreveu ou traduziu sio verdades- res-
pondeu o sujeito.
-Bem. :Então defende o que se diz aqui, res-
peito á raca hebraica?
-Defendo, sim, senhor. São as doutrinas da
igreja ; e por assim o entender, mandei reimprimir
esse livro ba quinze annos.
-. Fez vm. c• muito bem, snr. BartboJomeu-·
obtemperou Francisco Xavier d'Oiiveira -Estamos
n•um paiz em que o livrinho de seu pae· ser
ainda terceira vez impresso 1 • ·
- Merece-o 1-ajuntou Antonio José da Silva ·
-Ora digam-me, se a immortaJidade· não é pequeno
galardão para um livro, ·onde se leem estas cousas.
Attendam : . . . Se os hume:ns cuidado em
si'IW.lar os judeus, ptJra que fossem conhecidos por
suas traições, não menos cuidou Deus de os sinalar
para confusão sua, e castigo do que mer:eceram
antepassados. Não são em alguns mui patentes os
signaes que por sua mão lhes põe a natureza; mtJB
em outros se descobrem claros e evidentes, sem f[!1B
á geme os possa seu cuidado esconder ou
Digo pois que ha muitos sinalados pela mão :de Deus ..
depois que crucificaram a sua divina . magestade;
uns •••
t Foi etrectivamente reimpresso em 1748.

· -Deparem o'isto I - exoiamou Antooio José·
interrompendo a leitura -Reparem, por hoora 4la
historia natural e do defunto Lobo mert.o, e do Lobo
moi
E proseguiu na leitura : Uns tem uns rahinlws
gue lhes soltem do seu corpo do remate do espinha-
PJ; outros lançam e derramam sangue . ••
-Alto lã l -atalhou o padre Luiz Alvares-
Estão na sala proxima: quem quizer, vã
lêr ã rua o restante da immnndieia t.
-Eu já li -disse Francisco Xavier apertando
as cartilagens do nariz - Isto vapora miasmas de
latrina.
-E com que então -repetiu o hebreu - está
vm. ce persuadido, snr. Lobo, que alguns judeus tem
uns rabinhos que lhes sabem do seu corpo do re-
mate do espinhaço?
-Estou, sim, senhor.
- Jã viu d'essas cousas com os seus olhos pe-
netrantes? Agora vejo eu tambem que não é chime-
rico o anexim respectivo aos entendidos que 'mettem
o nariz em tudo f Que grande alcance e que profun-
das investigações por lugares tão desfrequentados
tem feito o seu nariz de sabio, snr. Bartholomeu!
O padre Luiz Alvares de Aguiar, desabafados
t O leitor, se não prescinde de o restante da immundicia, como
judiciosamente dizia o prior de S. Jorge, veja a pag. 171, da ediç. de
161U.
ROMANCE IIISIORICO
33
os impulsos de riso, (lompoz o semblante, e disse:
-É grandíssimo. desdouro para Portugal que
esae e quejandos monstros da Joucura humana cor-
um impressos. Lastimo, sor. Lobo, que vm.ce ande
a fazer ganancia com estes excrementos das pobres
e servis vigilias de seu pae, cuja capacidade intelle-
etual estã medida por esta producçao, que elle foi
buscar, para traduzir, aos escoadouros de Castella.
Veja, por honra sua, amigo e snr. Bartholomeu, se
póde chamar a si todos os exemplares d'esta vergo-
nhosa obra, e queime-os; queime este opprobrio de
seu pae e seu. Queime-os ...
- Ou d ê ~ o s - acrescentou Antonio José- para
alimentar as fogueiras d'algum judeu ...
-Póde ser ... -murmurou Bartholomeu, a
ponto que vinha entrando o jovial conde da Ericeira,
pedindo desculpa da demora. .
-Que livro lê o nosso moderno Gil Vicente 'l
- perguntou o conde- Ah I. . . SentineUa contra
judeus. . . Isso é 'galante livro, que prova o adianta-
mento da historia natural nas Hespanhas. Falia abi
d'uns rabinhos ...
-Com elles nos entretínhamos-acudiu o prior
de S. Jorge.
-E viram, tornou o conde, o porquê de terem
rabinbos alguns israelitas 'l A explicaçao está duas
paginas adiante.
-Cá estã -disse Antonio José, e leu : Os que
3
• llJDBU
tem os rabifWJI no remale do espiMaço, são por li-
nha direittJ descendenlieS d' aqNilles que entre elles
eram mestres, a quem chamtJvam e nós no-
meamos rabinos; esus se tentarom a julgar. e lwje
ensinam sua lei como mestres e jNizes, e para pena
sua, e sentados não possam estar sem fiUJlestia e tra-
balho, lhes sahem aquelles rahinhos no proprio lugar
que lhe póde causar penalidade.
-Parece que o snr. Bartbolomeu Lobo esti
com azeda sombra I -atalhou o conde- ú
amigo, seu pae não tem que vêr com a nossa criti-
ca. A um traductor tão sómente se pede contas da
lealdade da versão; e, a meu vêr, esta versão do
hespanbol é fidelissima. Da má substancia do livro
estã seu pae inculpado, amigo Lobo.
-Meu pae, snr. conde-disse Bartholomeu-
não pede desculpa de ter feito um bom serviço ã
religião. Aos judeus é que elle não fez grande favor,
traduzindo este religioso livro, de que estes senho-
res estão zombando.
Bartbolomen feriu com os olhos as costas de
Antonio José da Silva, quando proferiu as palavras:
aos judeus •..
O filho de Lourença Coutinho apanhou-lhe no
ar o tiro, volveu-se rapido para elle, e disse :
-Os judeus que tiveram a desventura de nas-
cerem em territorio portuguez tem quinhão na igno-
minia d'este livro, por estar em linguagem que se
ROIIANCB HISTOIUCO 31
parece tanto ou quanto eom a portugueza ; em quan-
to ao mais, Deus nos livre que o santo officio acre-
ditasse na existencia dos rabinbos t • • • A penersi-
dade, em geral, costuma ser menos estupida. Hoje
nao haveria ninguem que quizesse inspeccionar as
taes excreeencias a nlo ser vm. ce, snr. Bartholo-
meu t. ..
O conde fez a Antonio José um expressivo gesto
de silencio.
Bartholomeu deteve-se alguns instantes, e pediu
licença para retirar-se, comprimentando profunda-
mente o padre, o judeu e o filho do contador-mór.
-Faz mal, snr. Silva- disse o conde grave-
mente depois que Bartholomeu sahiu - faz mal em
disparar tão certeiras flechas contra a cabeça dura
d'este homem I Vm.ce esquece-se de que ha no Ro-
cio um palacio, que se chamou dos Estãos, e hoje
se chama vuleao de fogueiras. Tenha prudeocia.
Diante de mim, diga o que quizer a favor de Moisés
e contra S. Paulo ; mas do maior numero de sujei-
tos, que entram n'estas salas, guarde-se.
CAPITULO IV
Quinze dias volvidos, aos 6 d' Agosto de 17i6,
entrava Antonio José da Silva, segundo o seu. costu-
mo quotidiano, no escriptorio de seu pae, quando
tres familiares do santo offioio lhe ordenaram que os
seguisse ao tribunal. O hebreu hesitou alguns instan-
tes, meditando no mais facil meio de escapar-se. Um
dos familiares, entrando-lhe no animo, descerrou um
riso -de escarneo, e disse :
-Nilo pense em. fugir, que as avenidas da soa
casa estio vigiadas. Em toda a parte ha sentinellas
COfltra judeas.
Antonio José ·da Silva entendeu a allosllo. Pediu
que o d e i x a s ~ despedir de seu velho pae e de sua
llllle, obrigando-se a subir acompanhado. Negaram-
lhe a licenÇa, solicitada com lagrimas.
38 O JCD&U
Antonio José sahiu na frente dos tres familiares,
e pediu ao mercieiro visinho que avisasse seus pa<'s
de que elle ia preso.
No mesmo dia e á mesma hora, foi tambem pre-
soo prior de S. Jorge, Luiz Alvares d'Aguiar, e con-
duzido aos carceres da inquisição.
A captura do filho de · Lourença Coutinho Dlo
fez estranheza. A· inquisição e os devotos lembravam-
se ainda da judia, que sabira absolta d'onde a pieda-
de requeria que sabisse de r.arooba e sambenito.
Grande parte do publico estava escandalisado d'aquelle
singular caso de indulgencia, que, até certo ponto,
amooçava quebranto na inteireza dos inquisidores.
Por isso, com a noticia da prislo de Antonio José
da Silva, os pios e.scandalisados sentiram a satisraoao
desaggravante.
Em quanto ao prior de S. Jorge, m.uita e •
gente se espantou. O padre Alvares d' Aguiar, orian-
do de mui illustre familia, em limpeJa de sape por-
dia pleitear antiguidade com a mais primorosa ~
de christãos. Corria fama de qoe elle, desde os quia-
ze até .aos sessenta e tantos anoos que tinha então,
se diatiJlinira em fetueaes muadanidades, amaDdo as
mais formosas e fidalgas com requintado e veraa&il
amor nem sempre ideal. Á volta d'eUe. DO diz,r do
seu amigo Fraooisoo Xavier d'Oliveira, floreeia. 1Ql
especie de t.rem espiritual, composto de tearas •
juvenis bellezas, das q o a ~ ~ S elle SQ danolillinava ~
1\0MANCa MIS1'01Ut:O .
3t
SfJIMlo, ao JDeStDO tempo. dono e galan. Este bom pa-
dre- diz o cootempoi'HdC) -. que outra quebra não
liaha senão a paillo db amor, .olo de.ixava ressomar
a soa &endeoeia D8lll por obras nem por palavras.
Apenas sustentava. que o amor to complememo e epi-
IDnte de toda a lei; e qw • chamada caridade nas
_,lJS' acriptums lião t lmOO a amw, lfgtmdo S.
Jeronymo. Bem que amasse idolatricamente as mu-
lheres formosas e as de. mais loslrosa raça, nunca
fallua senle do amor de Deus; e d'este amor pare-
cia desbordal'-lhe o oora(.llo, se atten&armos nas ma-
IRBS obras de caridade que elle eonstaotemente exer-
àeiYa. Diz mais o cavalheiro d'Oliveira :· c Eu vivi
muito na sol intimidade. Tio exceJlentes no amago
eram as qualidades d'eUe, QIIB toda geote o estimava,
sem distincçao das mais gradas pessoas de Portugal,
quer pela qualidade de soa fidalguia, quer por seu
eopioso saber •.
Todos, pois, se maravilharam e condoeram. Nin-
pem sabia conjeetorar o motivo de semelhante pri-
slo. Quem, com effeito, mais cabalmente podia in-
formar a curiosidade do publico, seria o filho do tra-
ductor da Sentinllla cuntra judetu.
Esperemosoolhe a sentença.
loAo Mendes da ~ v a , IAo depreasa pôde trans-
portar ao leito soa mulher· desmaiada e como morta
pelo golpe da noticia, correa a casa do conde da
Ericeira a pedir a redempçAo ·de seu ilho. O cOlide
ouviu a t e r ~ d o a nova. e disse :
- Eu previ isto. • • Sei d'onde ptrtia a denun-
cia •.• Vá com Deus, que e11 começodesde·jA a tra-
balhar na salvação do pobre mocn.
D'aqui, foi Joao Mendes em cata do contador.
pae de Francisco Xavier d'Oiivein. Encontrou-o af-
fticto.
- Tambem meu filho, disse José d'Oiivein .e
Sousa, esteve em risco de ser boje preso. Salwoo-o
hontem sua mle, ajoelhada aos pés do inquisidor,
porque um conselheiro do santo officio se apiedou .
das minhas ·cans, e me avisou. Não sei que beide
fazer em seu auxilio, snr. Joao MendesJ ... Eu já
sou tambem suspeito. Quando a inquisição prendeu
o _prior .de S. Jorge, nAo sei que haja ninguem defê-
so I. ..
João Mendes sahiu desanimado. Foi ainda soo-
correr-se d'aque11e Diogo de Barros, santo valador de
infelizes. O ancião algumas esperaocas verteu no co-
ração do septagenario, dizendo-lhe que ainda era fa-
miliar.
- E entao agora - ajuntou Diogo de Barros
- agora que vinha ahi a filha do meu Jorge para se
effectuar o casamento ! É . preciso salvarmol-o antes
que ella chegue. Eu nao lh'o faço saber a e)la nem
a Sára. Recommende á snr.• Lourença Coutinhoqoo
ROKALIICa JIISTORJCO
nio diga nada pan Ãmsterdam; ou, a diaer-lb·o,qoe
as dissuada de lirem a Portugal .
. Antooio .losé·da Silva foi coodozülo:ao chlmado
IIIBÍHIOOO. wcere numero seis.
Ao oitavo dia foi levado a perguntas á chamada
tntlt.l do Estava adiantada a instaunçlo
do proeesao. Lenm-lhe o depoimento das teslelllu-
nbas que o capitulavam de judaisante. Antonio Joaé
dine francamente que nlo tinha vivido como cbri&-
Uo nem éomo israelita ; mas, se lhe concedessem
vida pàra o arrependimento, faria inteira abjoraçiO
de seus erros.
* Aceitaram-lhe o abjurar ; todavia, como elle nao
confessasse que em casa de seus paes se jodaisaa,
pozeram-no a tractos, chamados do torniquete. A
tortura exerceram-lh'a nas maos, até lhes esbrnpr
a carne dos ossos. O padecente, consoante consta ·da
ooosignação dos autos, no mais cruel remoer do tor-
no sobre os dedos, invocava Deus, e nao a Virgem,
nem algum Santo do reino do céo.
Ao tempo d'este supplicio lento, CC)m intercaden-
cia de trevas na masmorra, que fazia Francisco Xa-
vier d'Oliveira '!
Padecia traetos d'outra natureza .
. AqueJla Joanna Vietorina, tao da sua alma, a ci:-
gana requestada pelo fatídico hespanhol, desappare-
oeu·lbe um dia, fiixando a mae com a condiçio de
a mandar buscar. Francisco Xavier, com dons
••
o .IUD8U
bradeis oriados, aprroo da velha. a ameaçou-a de a
pôr a tormentos até lbe arrancar o segredo do dei-
tiDO da filha. A demoniaca d'011tr'bra. ao lembrar-se
dos tijolos ardentes, revelou que a sua Joonoa fugi-
ra p1r3 Valhadolid com um hespanhol, que lhe pro-
..Uera palacios na sua terra e a Dilo de esposo.
O allucinado moço esqueeeu o pobre amigo pre-
so, a mãe angustiada, o pae que de puro medo da
inquisiçao cahira enfermo, ludo esqueeeu, porqoe a
serpente do ciume se lhe enroscou no peito, e ver-
teo peçonha aos seios da alma até lhe queimar as
febras todas da amizade e filial amor.
Pediu o dinheiro que não pôde furtar dos conta-
dores paternos, e foi caminho de Hespanha. Entrou
em Valhadolid, onde não conhecia ninguem; mas a
seu pae ouvira dizer que D. Rapbael Hernándes de
Bobadilha, alcaide de Valhadolid, era seu amigo, e
parente do marido de uma sua irmã, casada em Bar-
celona.
Apresentou-se ao alcaide : disse-lhe quem era e
ao -que ia. D. Raphael acolheu-o com benignas risa-
du, exclamando :
- Eu sei onde pára a cigana, meu ditoso ra-
paz!
-E o covarde que m'a roubou? - acudin
Xatier.
-Esse foi hontem preso: estâ no castello, e
de lá veremos para onde as leis mandam os cau ..
I
ROIIANCI. BISIOaJCO
dühos de Sll&tadores. Fioa vm. • aabealo qae a
sua htaoDa tete a halra. de hospedlr no largo peito
o eoraoao- dG atis temeroso bandido das A8lllriaL
Agora r.;. li ae lhe •• a creatura eof8f'I'UICadl
CQJD tAo àjactos IIDOreB.
- ODde a eocoatro 't - disse cem vebeDilDiil
o portuguez.
-Na estaialem onde o salteador foi pnao. Que
qaer nu. oe fazer á mulher 't
-Matal!'ll
-É muito bem feito I - accedeu gravememe o
alcaide- Vã matal-at qoe é uma devassa a mulher!
Faz um serviço ã D. Fnnciaeo I Ea.
se DAo tivesse que fazer, ia tambem dar..Jbe uma eu.
ehiJada DO pescoço. ••
- D. 1\aphael es&ã a zombar eom a miaba -..
ventura 't -interrompeu o moço.
-Nilo senhor. Es&ou a recrear-me eom Tm. o•,
em quanto nao chega o chocolate que mandei pre.
par.ar ••• Abi "em o chocolate. Sente-se pal'f aqui,
rapu.. Merende, e depois irá perpetrar o cipnicidio,
a DUI8 hora proptia d'essas atrocidades .. Deixe DISto
cer a lua, para os poetas de Hespan'ba terem azo de
fallarem na lua, 81.1 cantarem·. em funerea dlacara a
DlOI'te da cigau ãs maoa do. trabido paladill D. Fran-
ciseo- o portaguez I Ai I que grilharia Dlo vto fazer
as musas I que poemas a pingar sangue nao Tio •
hir .. peito 81fafiiJNdo de JOIDill r Que lm a bre-
O 'ODIU
ca tal noaae r Nunca vi Joaona em Teno ! É pena
que ella se nlo possa ehrismar ames de lllOriW, ea--
talheiro r Se me dá licença, D. Francisco, ainda 'fOU, ·
por IIBor di poesia castelhana, entender-me com o
bispo, a vêr se a podemos obr.ismar. Faça-me o fa-
vor de nao matar a rapariga até ãmanhA por estas
horas r
F.raociaoo Xavier tomava o chocolate, e ria-se,
quando nao cravejava os dentes no beiço inferier.
a refeição, D. ·Rapbael Hernandes de
Bobadilba apitou o aspeito gravemente, e disse:
-Foi, sou e serei amigo de seo pae. Estivemos
em·Fiandres ba trinta annos: aramos ambos secretarios
dos ministros de nossas patrias. Seu pae era honra-
do, e fidalgo da velha estõfa. V m. ce ainda eotao se
gerava ou entranhas do nada, snr. D. Francisco. O
resultado é estar vm. ce ahi quasi imberbe, e ea co-
berto de neve. Estas caos devem-lhe incutir a idéa
de que eu jã tive cabellos pretos, e experimentei
tantas paixões quantos cabei los tenho. Estã vm. ce
diante d'um velho que lê nos refolhos do
A eig3DI, que o trouxe a Valhadolid, é mais aiB8da
boje do que era antes de lhe fugir .••
- Ob r - atalhou Francisco Xavier.
-Nada de rhetoricas nem de theatro, D. Fran-
cisco. Pergunto: quer levar a cigana 't Vamos: res-
ponda r
-Preciso vinpr-me r quero mataJ..a, amando-a r
ROMANCE BISTOIICO
--N'esse caso, mate-a!- tomou o alcaide, no
tom da primeira galhofa- Eu vou mandar comsigo
- á estalagem quem lh'a ensine. Morra embora a Joan-
na, e fiquem os poetas tolhidos por causa do mais
villao nome que ainda se ouviu em tragedias I Vã,
vã, dom assassino f
Ergueu-se o alcaide, chamou da janella um qua-
drilheiro, e ordenou-lhe que conduzisse o seu hos-
pede ã estalagem que indicou.
CAPITULO V
É minha opinião que ha umas lagrimas, que tem
a mirifica virtude de lavarem as manchas da perfidia
BO rosto da mulher amada.
Estas lagrimas são magicas, são os filtros do sor-
tilegio com que a sciencia de nossos antepassados
andou ãs voltas e com que a piedade alimentou a vo-
racidade das fogueiras. São lagrimas. que tem e en-
cerram virtudes luciferinas : sahiram de laboratorio
infernal; não sao o sangue d'alma, como o padre
Bernardes as definia. '
loanna Victorina, quando Francisco Xavier en-
trou ao quarto em que ella estava escrevendo, tinha
o rosto aljofrado d'aquellas lagrimas. A ira do moço
afogou-se n'ellas. Cruzados os braços, crispantes os
beiços, accendidos os olhos, Francisco Xavier d'Oli-
.&8 O JUDEU
veira parou no limiar do quarto. Joanna ergueu-se,
lançou mAo do punhal que estava sobre um. bofete,
despiu-o da bainha, tomou-o pela ponta, caminhou
solemne para o cavalheiro com os olhos no pavimen-
to, offereceu-lh'o, e disse-lhe:
-Mata-me, que é um beneficio matar uma mu-
lber que os remorsos hàode matar vagarosamente.
Francisco Xavier passou por diante d'ella, apro-
ximou-se da mesa em que ella estava escrevendo,
cun·ou-se sobre o papel, e leu.
Era carta que a dgana escrevia ã mae, pedindo-
lhe que a mandasse buscar, porque se via desampa-
rada em Valhadolid. Do homem, com quem fugira,
apenas dizia que fôra atrozmente illudida por um
infame. Está vingado, escrevia ella, o bom moço que
eu sacrifiquei; se o vir, que me não deseje
maior desventura ..
Francisco Xavier, lido aquillo, voltou o rosto ã
cigana, que ainda permanecia queda com o punha].
Depois, sentou-se, a chorar, arquejante, affiicto, com
o rosto abafado entre as mAos. Joanna abeirou-se
d'elle, e ajoelhou, com o rosto pendido para o seio,
braços pendentes, e o punhal na mao direita. Fran-
cisco Xavier viu-a assim ; ergueu-se de golpe; quiz •
fugir impetuosamente. Ninguem lhe estorvou o pas-
so; podia fugir ã sua vontade; mas.. . o fatal enli-
ço, a cadeia magnetica parecia arrancar-lhe o coraçao
pelas costas, quando elle ia fugindo. Era a cigana!...
BOIWfCB BISTORICO 49
o amor infernal d'aquella raça maldita de Deus, que
tem por si a omnipotencia de Lucifer.
O moço girou sobre os calcanhares como mane-
quim. Parecia nma cousa phantastiea : de real ape-
nas se sentia, n'aqueUe quadro, a ridiculez dos olha-
res, das posturas e do silencio. Estava isto assim
n'este curioso lance de se deverem rir um do outro,
quando Joanna se lhe atirou ao peito, espedindo um
ai estridulo, um como grito do coração que morre.
Se a nAo amparassem, cabiria ; mas n:ID eahiu. Os
braços d'elle apertavam-na muito, muito ; e, se os
braços não bastassem a sustei-a, creio que elles se
segurariam um n'outro pela identificação dos labios.
Como se amavam I
E, depois, não ha mais que dizer no tocante á
reconciliação. O alcaide chegou a lançar o jantar com
o riso, quando o portugoez lhe contava a passagem
com os tregeitos e transportes que deram em resul-
tado o jurarem-se reciprocamente um eterno amor
de mais algumas semanas.
No dia seguinte, quando Francisc.o Xavier anda-
va curando dos aprestos para a jornada, é que elle
se encontrou com as duas perseguidas bebreas no
adro da igreja. O leitor póde recordar-se.
Deteve-se ainda tres dias em Valhadolid Fran-
cisco Xavier de Oliveira á espera d'alguma boa nova,
com referencia ás presas. Com as boas esperanças
4
1J8 tUUifi,
(\e D. Raphael, sabia Ó moco, da
na, para Lisboa.
SoCQgado de cor&ÇAo, •· tMibar no
salvamento de Antonio José da. Siw•·· prQ,
tecção seria a d'eUe, já · raal visto do santo 6
cio, que os paes, incessantemoote lhe pediam que fu-.
gisse de Portugal. Diogo de Barros despersoadiu-o
de solicitar a miserieordia de S. Dominp a fal81'
do seu amigo, como patronato inconveniente ao pre--
so, a menos que o não quizesse sobrecarregar.
Os valadores do filho de João· Mendes, com quan•
to poderosos, ignoravam e temiam a sentença no fa'!'
tal dia 13 de Outubro, designado para o auto da fé.
Contavam Diogo de Barros e o conde da Ericeira com
as favoraveis allegações dos qualificadores do santo
officio ; desconfiavam, porém, do inquisidor geral.
Soaram os sinos á chamada dos fieis para assis-
tirem ás sentenças na igreja de S. Domingos. Entre
os réos da vanguarda ia Antonio José com o sambe-
oito, descalço, cabeça rapada, ao lado do padrinho
que lhe fôra nomeado. Ir elle entre os primeiros
réos, era já signal de grande jubilo para os seus. Os
que marchavam depós o Crucificado, erguido em
meio da procissão, esses já podiam de antemão con-
tar com as agonias da fogueira, porque jã não viam
a face do Christo. Antonio José da Silva ouviu o ser-
mão dos labios piedosos d'um frade dominicano, que
se esteve sempre em extasis diante da misericordia
OOID que a aan&a iDqoisiçlo aadna em· Cita das al-
11118 tresmalhadas do caminho da gloria. para as re&-
ti&air ao seu creador.
ConeluidG o sermAo, dons frades subiram ao
palpito para lerem a summa dos proeesaos, e decla·
nr as penas em que haviam sido eon4emnados ..
A primeira sentença lida foi a do padre Loiz
Alvares d'Agoiar, accosado de prostituir as suas de-
votas no eonfessionario, crime que na tortura confes-
sãra. Privado do exercício das funcções ecelesiasti·
cas, foi condemoado a desterro perpetuo.
Antonio José da Silva, n'esta occasião sómente,
soube que o prior de S. Jorge fôra lambem vietima
da denuncia de Bartbolomeu Lobo Corrêa.
Seguiram-se outros réos.
Depois, um familiar conduziu pela mão Antonio
José ao meio das galerias, occupadas por frades, bis-
pos, qualificadores. e famiJiares. Ouviu lêr o proces-
so, que o aceusava de ter bebraisado. A sentença
era absolutoria, visto que o réo confésso abjurava as
doutrinas dos dogmas judaicos. Em seguida leva-
ram-no ao tope do altar, onde o fizeram ajoelhar, e
pôr a mão sobre um ~ i s s a J . N'esta postura, recitou
um protesto de fé, e esperou que o inquisidor o .
absolvesse da excommunhão e lhe impozesse a pe-
nitencia.
1
t Estes pormenores das oeremonias dos autos da fé, e outros
que vierem ao intento n'este livro, encontrei-os authorisadamente escri-
11
.o.JUDIU
Ultimada a ltitura das ll88leDÇas, Antonio José,
ao s:ihir do templo para entrar na oaBIHiJrll4, 1 -cir-
cumvagou os olhos pela multidão, e viu Francisco
Xavier de Oliveira, -ao par de sua mae, que cobria
o rosto.·e as lagrimas com a mantilha. Entrou no
tribunal, despiu o sambenito, os ..Galções e a jaque-
ta parda listrada de raios brancos : entregou ao al-
caide da inquisição a vestimenta, e esperou que o
inquisidor, duas horas depois, lhe designasse em
lista manuscripta os artigos da penitencia, e lhecm-
zasse a ultima benção misericordiosa.
Ao anoitecer, o filho de João Mendes entrou na
liteira do contador-mór, e foi conduzido a casa de
seus paes. Lourença Coutinho, quando lhe viu os
dedos macerados, e as articulações das phalanges
ainda chagadas da tortura, perdeu os sentidos nos
braços do filho. O ancião, com as mãos
abafava de soluços, desviando os olhos das mal fe-
chadas cicatrizes, que o moço mostrava. Francisco
Xavier, a praguejar, blasphemava da Providencia,
ptos n'um raro livrinho da excellente livraria do meu douto amigo José
Gomes Monteiro. Intitula-se o livro, escripto em francez, e impresso flDl
1688, Relation de l'lnquisition de Goa. O narrador foi um medico
francez que lã padeceu dous annos de carcere como herege, e veio para
Portugal condemnado a cinco annos de galés, d'onde o salvou um medico
francez, que o era da rainha D. Maria Francisca de Saboya, mulher de
D. Pel]ro n. Opportnnamente darei mais ampla noticia do contexto do
livro,
t: Era assim denominado o tribunal da inquisição.
dd'riftandô qae ella mstisse, e illlpl88ivelmeote se
refiJse· nas atrocidades d'este .. odo.
Antonio ·Jolé da Silva, nos primeiros dia de li·
herdade, fez suspeitar desooneer&o de juizo, A eonta
d'11DS ares SGIDbrios e semblante empedernido •
que se deixan estar, loops bons, n'am tenivel
quietismo. Á primeira vez que sabia de casa, foi ao
CODfeoto de S. Domingos tna&ar eoaaas espiritoaes
oom ftldes de boa nomeada em virtude e 1aber. F....-
gia os seus antigos conhecidos, e nomeadamente Fra•
cisco Xavier d'Oiivein, que IDii& que todos· se com-
padecia da estrapJa cabeça do pobre Antonio. Quan-
do oallllllte de Joanna Vie&orioa tbe queria contar os
successos de Valhadolid, Antonio José cortava a nar-
rativa, pedindo que lhe nlo desnorteasse o espírito.
Oliveira ria-se ã socapa dos tregeitos pios do amigo,
o ~ n a l , por vezes, era na verdade irrisorio, referindo
serapbicamente as suas visões e sonhos beati&os.
Esta enfermidade cerebn1, etfeito das trevas, da
insulaçlo e tormentos da santa easa, goareceo..a leo- · ·
tameote o correr do tempo. Este melhoramento, po-
rêm, nAo impedia que Antonio José, om dia por ou-
tro, fosse ao convento de S. Domingos conversar,
instruir-se e roborar a sua piedade com os frades.
Entretanto, Loorença Coutinho e João Mendes,
grandemente auxiliados pelo tio de Jorge de Barros,
convam. incansaveis do livnmento daSára e Leonor.
Ao• principio, Antonio José ouftl faülr d'ellas.com
OIUDBIJ
uma quasi es&ranheza, .e depOis com piedadé. Dilia .
elle que a desgraça era necessaria, qoaudo nos sabia
ao.encontro fóra da eE!trada direita, porque, sem.ella,
oonoa nos rasgatariamos de atalhos perigosos e
daetores i perdição. Osalá - ajunta•a elle-oo:-
Sára e Leomor apreodam·a verdadeira religião, co.-o
a mim lll6 I
Lour.ença cborata quando isto oufia. Francisco
Xa1ier olhaM-o em rosto com sincera amarguí"a, e
de si para si dizia : « endoudeeeram-oo I •
D. Rapbael Demandes avisou o seu velba aiJÜ.
go de Oliveira 'Ne as duas presas sahiriam
fallitelmente. no primeiro auto da fé-; pelo que, es-
tavam sendo superfinos os empenhos que iam de
Portugal para o inquisidor e qualificadores do santo
o n i . ssever va- as qae o santo otlieio .em lf6t.
b it enos rigoroso que. o tribunal por·
u u z , , caso d s duas mulheres, nao huia oa-
da u s n o a prislo de mais doos mftles,
em um quar.to bem aiWDiade e provido de tudo que
etlas á sua casta mandavam procurar.
Ao aproximar-se o dia 26 de Janeiro, ·Diogo de
Barros, earrepdo de aonos e virtudes, quiz prestar
aiuda os bons offieios de parente á &lha de seu so-
brinho .Jorge, indo a Valhadolid buscar as dou se-
nhoras., para d'alli as ooaduzir para o aeie da sua
família. Franoisco Xavier d'Oiiveira, o moço roma ..
nesco, afigur-mdo-se-lbe ea•alheirosa bizarria lfpl•
MIIANCB BJSTOIICO
reeer n'uma hora feliz ás d a m a s ~ que o viram em
aftlictissimos momentos, acompanhou o anciAo, mui-
to a beneplacito do pae, que se atormentava com
medo das iras do filho contra os inquisidores.
E chegados estamos, pois, ao ponto em que Sára
e Leonor sahiram absoltas e penitenciadas da inqui-
sição de Valhadolid, no auto da fé, de 26 de Janei-
ro de t727.
CAPITULO VI
Aposentou-se Sára em casa do tio de seu ma-
rido.
Loureoça Cootinllo e a sua amip eoeannnH8
e duvidaram uma da outra. Na desfigonçlo d'estas
atormentadas mulheres só a continuada remioisceD-
cia poderia eotmer omu sombras da antip formo.
sura.
Sára quiz vêr Antonio José, o homem formado
d'aquella creancinba que andan na Covilhl com SUl
filha ao collo, e tanto chorara por ella na despedida.
O moço eooaron estupefacto em Leonor. A viagem
1110 era bem de espanto: estava alti o quer que f0188
do idiota, que se procura no seu passado a um raio
de luz, da apafclda luz da sua razao, do seu amor,
de soas esperanças.
OJUDBU
Leonor contemplava-o triste da commum tristeza
das piedosas almas. Nlo o tinha amado ; mas affize-
ra-18 a pensar n'elle. Imaginava-o moco de muitos
espíritos, de airosa presença, sympathieamente melan-
oolico ; e via alli um homem como entangoido de
frio d'alma, em spasmos de santa introversão, olhan-
do para ella com assombro, e para os outros com
certo ar de quem pede que lhes alumiem as eseuri-
dades da memoria do seu eoraçao.
Leonor, avisada .p0r Lourença, do estado lasti-
moso em que a tortura lhe transformara o filho, cha-
mava-o ãs recordações do passado, recitava-lhe os
Yersos d'elle que recebera em Amsterdam, pedia-lhe
... lhe dillseue poeaias novas ; e coavidou-o, uma
Yez, a glossar-lhe uma quadra. Antonio José da.Sij-
•.aootdeu·COIB um IOI'riao, e 4is&a:
- Uma quacki eipiritaal ••• Seja I Diga que eu
'fOU fJICI'ttêl-a. • •
Mas. áo curvar 01 dedei. para seprar a permat
soltou um leve gemido, e murmurou :
-Eaqoeoia-me.que n1o po880 wcrever ••• Te-
Ilho os illlles q•ebrados r t
._ IDfaiMS frades r -eldamou Leonor.
-Por ..- ê r ••• - uudiu AIKooio José__.,.
per q0811l é r... oao r.ue :assim. Leonor r. DiO "'-
« • • • • torturado tão cruelmente que os dedos lhe flciram em tal
lllado que por muito tempo Dão pMe 11e111 assipar o seu neme ... Cesta e
Silva- Euaio biocraph. T. to, par. 831.
llOIIAI.'fCB__.CO
le •.•• que eu posiO"&er seuaeonlldor • &ortultaL ••
Bl1 tmba desejo de IDOl'l'll'. <JtWldo me deram os w-
etos; por isso Dlt aacusei mH pea e miou ....,
mas aqueDes ct•e .Die podem COIIl a d6r .nem com .e
terror da IDOJite •• \ esses acoaum mie,
e ·filtros. • • chouncia..se a &i, Cllumai•m·se, -..
· ooad....,.. a iofemo tan ftm, ,.,.
Dlo SfDtil'elll· o repuxar e estalar de cada· fibra do
seo arpo, e o de cada gota do seu sanpe,
e o ipapNJe compassado, len&o. horreo4iasime de
cada flisàa luminosa do seu espírito •••
-E como eram as torturas.. • como foi que lhe.
pozeram as Idos n'eate estado 't-PeriQDf.ou Leoaer.
Antonio José da Silfa &ou-a como espanladô.da
pergunta, e diase:
-Nooca reme o que viu DI inquisiÇio de v ..
lbadoiid, Leonor: o1be · que Dão ha perdia para a
boeca imprudente qee cleixou passar uma pilavra.re.
veladon do que lá vai n'aqaelles infernos! •••
E, dito isto, eom torva e mysteriosa solemoiH-
de, o filho de Loarença Cou&iào sabiu impetuoea-
meote d'eotre as familias hebnieas e cbrietls que o
viam e oul'ilm com os olhos marejados ele Jagrirus.
-E aqaeUes DOIIIOS p1aDGS, Loureaça- dilae
Sclra- Vê tu como a delgraça n'ol-os .... 'teu
filho, se auim Ylti ••• podemos perder a espenll(a de
o truer a uma ngular vida em que possa reaUsar-
se o casamento ••. Elle nada diz 't
e JIDIU
-Se ea lhe faHo-n1Ma. dlHM qee esU morto
para a felioidade, e CJdO lbe n10 neta espel'ldoa· de •
restaurar Mda do que perdeu. D'1otes en triste ;·
agora esti oontinuameote cbonado. Nlo p6de M6f8oo ·
•· •• é o maior iorortunio .•• Nlo séi como beide·
diMrabil-o. Anda de convento em CODleDto. .Por abi,
chamam-lhe hypoeri1a ao meu pohre Ilho ••• O qae
el1e esti é quasi demente, se a Di•ila ProYideocia o
DIÓ socoorre. • • A minha esper1001 és to, Leonor f
-exclamou Loutença, beijando a filha de Jorge de
Barros -To é que hasde salvar o meu Antoaio, o
teu esposo I . . . Dá-lhe tu calor ao e o ~ o que se
oooceloo DO frio dos calabouços. AeonJa.o, filha; oba-
ma-o ás alegrias d'este mundo .•.
-Eu nlo as tenho •.• - balboeiou Leoaor- ·
Nlo tenho mais calor no eoraç:Ao que elle. ••
- Entlo nlo o amas'! r - replieou Lourença,
como admirada da frieza de Leonor.
-Como pedem amar-se pessoas que apenas se
viram 'Da infaneia f- tornou a ·filha de Sára-mas
com· isto, snr. • Lourença, nlo quero eu dizer que
me esquivo a ser esposa de seu filho, se tal é a •oo-
tade de minha inae, e se já esse destino me havia
dado meu .querido pae. Sem idéa de casamento, mi-
nha amiga, heide fazer quanto podér por distrabir
o Aotoninbo das suas amarguns ; creia-me •••
Lourença levou a mio de Leonor aos labios, e
reparando, disse:
ftOMAMK ...OBICO 8t
-Cá es&á ,o alei de &ea pae, menina!. • • Nlo
o--p8I'CIS. • • Dei1.11'811H' e os . da inquisi(jo '! Cã •
Portugal não é costume restituir aos absolvidos as
cousas, que lhe enooatram, quando os prendem. A
mim nunca me restituíram doos aooeis de pedras e
uma manilbá que eu trouxe do Brazil. . • i Nao liOS
oortaram os cabellos na inquisieão de Valhadolid'!
- Não, nem nos mudaram os vestidos- disae
Sára. •
-Então, filhas, não digaes que soffrestes ... A
vossa prisllo foi suave; o Deus compadecido dos in-
felizes sem culpa não vos desamparou. . . E o the-
souro '/-proseguiu Lourenca -quando havereis á
mão a vossa riqueza, filhas 'I
- Nem já pensamos em riquezas- disse Sâra
-O tio do meu Jorge presume que o cofre já não
existe.
t Quaesquer preciosidades encontradas aos réos, no acto de os
raparem, e entrajarem com a libré da inquisição, •uaca se devolviam ao
preso, propriamente livre como innocente ou reconciliado. O author e
martyr da «Inquisição de Goa» livro que, pouco ha, citei, inventariando
as ganancias dos inquisidores, diz : • Além da honra, authoridade, e lu-
cros annexos ao cargo de inquisidores, de duas diferentes maneiras lhes
cresce a pitanra; a primeira é, quando se faz leilão do espolio dos pre-
sos, em tudo que é bom mandam os inquisidores licitar por ·algum de
seus criados, lanço com que ninguem concorre, desde que o criado se
faz conhecer; e os objectos s ~ o adjudicados pelo mais baixo prero ; a se-
gunda maneira é que o producto dos bens· confiscados, posto que seja le-
vado ao erario, devolve-se logo ãs mãos dos Íl}quisidores, porque elles o
requisitam, para costeamento das despezas secretas do santo officio, e
ninguem lhes ousa pedir contas : de modo que o producto das confisca-
ções reverte n'elles. •
••
- Ha um 8DDO- tornou Loarença- que meu
Jllll'ido soube do eapellão da Bemposta que tal cousa
IM100I appareoera.
-Isso me disseste para Amsterdam.
-É verdade: bem me lembro ... E o filho do
eepeiiAo, que é o almoxarife dos infantes, se souber
que vós viestes de Hollanda, é capaz de vos proeo-
l'lr a vêr se descobre o segredo. Tende cautela
com elle, que eu nao lhe tenho muita fé, apesar de
se mostrar muito compadecido do. meu Antonio, e
me dizer que pedira por elle aos infantes. Chama-se
Duarte Cottinel Franco, andou com os meus filhos é
com o Francisquinho Xavier na escóla, e Deus sabe
que elle foi causa de muitos desgostos da minha ami-
ga D. Isabel, levando-lhe o filho para as noitadas da
Bemposta, onde vllo todos os perdularios e mulheres
perdid;ls de Lisltoa. Eu não gosto d'elle. . . Nllo sei
o que me diz o coração d'aquelle homem, que me
não fez mal nanhum I São ~ c i s m a s de quem anda
sempre a tremer de falsos amigos. . . De mais a mais
consta-me que elle é familiar do santo officio, e o
pae é qualificador. Tudo isto vos conto, filhas, para
que vos não confieis do tal Duarte Cottinel : basta-
lhe ser filho de cigana, segundo dizem. O padre,
que boje goza boa fama, foi um dos mais libertinos
clerigos de Lisboa. Agora, escolheram-no para qua-
lificar· e avaliar as culpas dos cbristãos novos, here-
ges e feiticeiros.
CAPITULO VII
Francisco Xavier de Oliveira, desde a hora em
que foram presos Antonio José e o prior de S. Jor-
ge, fez ao demonjo da vingança um tão fervoroso voto
como, annos antes, em perigo de naufragar, fizera ã
Senhora da Penha de França. A victima, que eHe
prometteu sacrificar na hecatomba do diabo, era aquel-
Ie Bartholomeu, filho do traductor da Sentinella con-
tra judeus, e propugnador dos rabinhos dos mesmos.
Era incapaz de matar traicoeiramente um homem
Francisco ~ a v i e r . A sua robustez, muitas vezes pro-
vada com grandíssimo dissabor dos seus adversarios
. deslombados, instigava-o a encarar de frente os ini-
migos, e esmagai-os, se a vietima ficava entre elle e
uma parede. Um só homem, em Lisboa, lhe dispu-
tava primazias em força : era um D. Henrique Hen-
O IDDBU
riques d' Arroyos que sustentava durante quatro mi·
natos na palma da mAo a mó d'um moinho, e, arre.
messando-a depois, a fazia rolar a distancia de dez a
quinze .passos.
Em corridas de touros, um outro homem lhe
competia em destreza e força : era o marquez d' Ale-
grete, Manoel Telles da Silva, que, n'uma festa da
Senhora da Piedade, no pateo do duque de Cadaval,
estando presente o rei, cortãra cerce a cabeca a um
touro d'uma só cutilada.
De si diz o cavalheiro de Oliveira que, aos vinte
annos, agarrava um boi e o subjugava em singu-
lar combate. Ajunta que ninguem o venceu no ati-
rar ao alto uma bala de ferro, que recebia na que-
da, e tres vezes successivas arrojava á mesma altu-
ra. Ora, um ~ m e m que assim brincava com uma
bala de ferro devia de conjecturar "que a cabeca de
Bartholomeu em suas mãos não pesaria mais que
uma avellã.
O .seu maximo cuidado era sahir-se limpamente
da empreza para nAo desgostar sua família nem in-
commodar amigos no livramento.
Bartholomeu tinha uma quinta em Oeiras, sobre
o mar, onde costumava passar o estio, em saborosa
companhia dos seus livros, relendo e commentando
as obras ineditas do pae, no intento de as estam-
par, quando a illustração publica merecesse tamanho
brinde.
ROMANCB IIISTOBICO
Franeisco Xavier a li&ta, sem
lar a niogoem o proposito com que miudamente
lopava na estrada de Pedroiços.
Uma tarde, quando se recolhia, já
enxergou na praia do Dá-fundo o pensativo Bar-
lholomeu que se passeava pbilosophando á beira-
mar. Francisco Xavier descavalgou, depois de ter
relançado os olhos por sobre a praia deserta. A visi-
nbou-se de Bartholomeu, e perguntou-lhe se achára
nas suas meditações a causa efficiente d'ons rabi-
nbos que surdiam do fim do espinhaço de certos
judeus.
Bartholomeu tremia e balbuciava. Francisco Xa-
vier, sofrego da opportunidade, perguntou-lhe se o
não abrasavam remorsos de fazer desterrar inqui-
sitorialmente um velho de sessenta e cinco annos, e
de fazer esmagar na tortura os dedos de Antonio
José da Silva. Bartholomeo preparava-se para arran-
car aJsuns gritos do peito anciado, quando Francisco
Xavier lhe disse, segurando-o pelo pescoço :
-Vm.ce precisamente arde de remorsos, e cd-
rece de refrigerio.
Dito isto, filou-o pelas roupas do costado, sacu-
diu-o para ganhar impulso com o e remes-
sou-o ao Tejo. O homem escabujou alguns segundos
á tona d'agua, sumiu-se, mostrou as pernas mais
longe onde a resaca o levou, e nAo deu mais conta
de si aos olhoS attentos de Francisco Xavier,
· VOL.D fi
66 O JUDEU
invocava as e!trellas e a lua como testemunhas d'a-
quella boa acção de sua vida. O moço canlgou pia.
cidamente, e, como quem depois d'um feito brioso
tira a l ~ m p o os eorollarios excellentissimos do acto,
ia dizendo comsigo: «Se os christãos depuram os
hereges no fogo, porque não bAode os homens ra-
cionaes depurar os fanaticos na apa 't Façamos tam-
bem aquaticamente nossos autos da fé.
Na madrugada do dia seguinte, a maré revessou
o cadaver de Bartholomeu ao sopé da torre de S.
Gião. A noticia chegou logo a Antonio José da Sil-
va, que não sabia se devia folgar, se temer-se da pas-
sivei imputação do homicídio. Francisco x_avier en-
controu-o n'esta vacillação, e disse-lhe:
-Não temas, parvo, que o infame denunciante
morreu sem a mais leve contusão. Peguei-lhe geito-
samente pelo estofo dos vestidos, e apertei-lhe o pes-
coço com tal cuidado, que o homem apenas passou
pelo incommodo de beber agua á proporção das la-
grimas que fez· chorar. Estás vingado, é o grande
caso. Se não te pude livrar da inquisição, livrei a
humanidade d'uma fera·.
- E estarei eu livre das outras'!- perguntou
Antonio José, com temeroso aspeito.
-Estás, se continuares n'essa tua hypocrisia sa-
lutar de te gastares por conventos de frades. Faz
isso que é bom; mas a mim não me enganes.

ROIIANC.B IIISTORICO 67
-Cala-te I - aeudiu o judeu- Cala-te que eu
creio em Jesus Cbristo e na Virgem. ·
-Fazes muito bem, meu amigo; diz isso a toda
a gente; diz-m'o tambem a mim. .•
-Se tu ouvisses o fr. Antonio Esteves de S.
Domingos •.. Qaeria que o ouvisses I •.• Convenceu-
me, reduziu-me ao puro christianismo com razões
inexpugoaveis. Meu amigo, torna-te á tua fé antiga.
Eu pedirei á Senhora da Penha que te illumine e
converta áquelle fervor com que lhe pediste reme-
dio quando as ondas te sossobravam ...
-Pois sim, -atalhou Francisco Xavier- pede
lá o que quizeres ; mas conta-me alguma cousa d'a-
quella peregrina Leonor, formosa a mais nao poder.
Casas ou não casas? Olha que eu, se lhe não acodes
depressa, vou galanteai-a I A fé I não me leves isto
em graça!
-Faz a tua vontade- disse triste e serenamen-
te o Silva- Eu perdi o gosto da vida. O sangue, que
me tiraram, era o do coração. Quebraram-me corpo
e alma. A luz de esperança em cousas d'esta vida,
apagaram-m'a. Não vês a minha tristeza sem inter-
mittencia de satisfação? Tudo me enfastia, cobrei te-
dio de tudo I Como heide eu ir associar á minha
desgraça aquella menina, tão de lucto já no coração
de quinze annos I . . . Para mim e para ella ha vul-
cões que nos referYem debaixo dos pés. D'um mo-
mento para outro, cahiriamos abraçados no abysmo

68
de fogo. Um inimigo basta para nos perder; um
inimigo que disponha d'algnmas eonseiencias vendi·
das I· Que se não casem homem e mulher em cuja
fronte a sociedade abriu a ferro o estigma da maldt-
çAo I Dous malditos que- se reproduzem em filhinhos
amaldiçoados do mundo I A mae- hade arrancar o
peito da bocca da creanca para seguir o enviado do
santo officio ; a creança, agonisando de fome, não
terã seio de christã que se lhe abra I Tu não vês
uns meninos esfarrapados, que se aconchegam uns
dos outros no coberto de S. Domingos 'l Sao os fi-
lhos dos hebreus, que já morreram queimados, e d'ou-
tros, cujos gemidos elles poderiam ouvir, se collas-
sem os ouvidos ás paredes negras da casa santa, e
se os guardas dos calabouços na o cortassem com um
tagante as carnes dos que gemem. Aquelles meninos
não deviam ter nascido I Foram gerados na maldi-
çao. Foi perversidade dos paes darem a este mundo
aquelles padecentes, que vão alli estender as mãosi-
nhas descarnadas . . .
-Aos verdugos de seus paes- atalhou Fran-
cisco Xavier.
Antonio José da Silva fitou com penetrantes olhos
o amigo, deixou depois cahir o rosto sobre o seio,
e murmurou:
-É assim .•. é assim. Os paes e mães d'aquel-
las creancas mataram-nos elles ; esmagaram-nos de-
baixo do madeiro do Crucificado •••
ROIAMGI.IIrNNUCO
- . K, ........ de vertiplosc) salto, exclaiMo :
- Seelerados.! scelendos r qoa mal fiz ea para
IMityrio tao kltgo r Se ta Yiaes como estes 01808
di& miOl me raQiiaa entre doas llllinas de ferro
que se queriam ajuntar llnvez das fibnls ••• E o
saosue a espirrar debaixo da pressão do torniquete ..•
Olha r •..
E mostrava-lhe as fendas da carne esphacelada,
e por entre ellas o roixo dos ossos, com laivos de
sangue e o amarellido dos tendões que pareciam
cancerados.
-E podes ainda levantar essas mlos ao Deus
de Domingos de Gusmlo r '! - perguntou ironica-
mente Francisco Xavier, voltando o rosto do espe-
ctacolo nauseento das feridas ressumando pus san-
goineo.
Antonio José pensou por momentos, e disse:
- NAo me tentes r • • • deixa-me crêr para ter
vontade d'outra vida.. . Este mondo, sem fé, sem
Mperança, é um horror inconcebível.
-Pois crê 1-voltou Xavier- mas crê como
homem que rejeita Moisés e o divino Christo. Crê
em Moisés como n'um legislador barbaro, e em Chris-
to como n'om reformador dulcificado pelas doutrinas
de Socrates e de Philon. Crê no destino do homem
para além d'esta vida. Crê na virtude sA dos secta-
rios de todas as religiões : crê que o verdadeiro Deus
está no coração do mahometano virtuoso, do hebreu
70 O .JUIBU
honradO, do christlo cuitltivo, elo brablllllll..indlen-
sivo. Sê bypocrita, se te é precisa i vida essa vil
qualidade ; mas n1o pervertas a tua intellipocia, 1110
aniquiles 68 teus dons de altissimo ensenbo, nlo
besii6qoes as tuas luminosas faculdades.
CAPITULO VIII
Francisco Xavier discorreu longo tempo.
Escoava-o silencioso Antonio José da Silva. Quan-
do o filho do oontador-mór se retirou, a razio aba·
fada do moço conflagrou-se, como o rapido alar·se da
ebamma, que rompeu subita por entre as vigas da
casa incendiada.
Resaltou-lhe a alma do quietismo lethargico em
que passava os dias, no mais recoodito e escuro de
sua easa. Agitavam-no furias blasphemas que intimi-
davam a família. Extenuado dos sacões que fazia com
os braços ainda quebrados dos jejuns e dõres do car-
eere, cabia prostrado e febril.
Esta agitaÇio d'alguns dias acabou em socegado
repouso e .lutido entendimento. Era, jã conversavel
e judicioso em suas praticas. Ia com seu pae ao escri-
7! O llJDEU
ptorio, e applicava-se ao estudo da jurisprudeneia com
tenacidade. Descontinuou as visitas aos mosteiros;
mas, tal qual vez, escrevia a dons frades, que se lhe
tinham figurado mais doutos que o commum, e es-
tranhos aos processos inquisitoriaes, e talvez avessos
e censores do procedimento do santo offieio em gran-
de parte dos seus actos. Ao diante, os dons frades
Mode dar de si tão boa conta que a posteridade haja
de os louvar como honrados amigos e defensores do
talentoso hebreu. ·
A longos termos, Antonio José da Silva visitava
Sára, nos primeiros mezes. Depois, . amiudaram-se
as visitas. Por fim, ao cabo de um anno, o coraÇIO
do moço não estava soeegado na presença nem na
ausencia de Leonor. ·Esperança inquieta ou inquieta
saudade divertiam-lhe a idéa do estudo, mormente
do arido estudo do direito, posto que elle, vasta ea-
pacidade para tudo, despachava os feitos que ·seu
pae considerava dignos de mais habil e engenhoso
articulado.
Já o bacharel, quando Oliveira lhe pedia veoia
para galantear a judia adoravel, sorria ao requeri-
mento jocoso do amigo, e aconselhava-o que dissesse
de soa jostica no tribunal d' ella, por ser o competente.
Com as alvoradas do amor, diloeidoo-se a eseo-
reza de suas cogitações, desnoitou-se-lbe o eoração,
repontaram idéas claras e alegres, e, a poucas voltas,
80NAIII811 IIISTOBICO
leMe. dia esple8iitlissimoj Tida nova no intimo e •
aterior do mooo.
. Renaseeo o gosto e vooaçlo da comedia. Rebust.oa
os seus papeis esquecidos ; ons poucos existiam aiD-
da, que o maior namero d'elles rasgara-os Joio Men-
des, reoeiafldo que o santo officio fizesse busca e lhes
espremesse a herelica peçonha qoe elles,
entre Jnlos de inquisidores, gottejariam certameol8.
A opera, ou comedia, que Antonio José predile-
otamenle pohra e repolira em Coimbra, como
oom· que tencionava estrear-se, era a Yid!J do grtM-
de D. QuitJiwte d8 la Mcmcha e do Gordo San6io
Plmf'lJ. Esta, e mais outras com que, mais tarde, o
hebreu levantou a meio a qúebrada columna de sae
gloria, lia elle á numerosa assembléa de fidalgos que
Diogo de Barros convidava em honra · do engenhoso
moço. Estas leituras, por onde o seu nome se divat..
gara até ás camadas inferiores da cidade, ser-lhe·biam
. de muito desprazer, se Leonor as não agradecesse,
como favor e brinde feito especialmente a ella. De
certo era ; que a indole melancolica de Antonio José
da Silva desdizia das gargalhadas com que o audito-
rio victoriava as scenas ridentissimas do D.
da &opaida e do Amphilrião. E todavia, Leonor,
ceremoniosamente, e não do coraçJo lhe agradecia.
Do D. Qwchote, especialmente, uma seena das mais
comicas, sem ser das menos urbanas em linguagem
- esmêro pouco usado dos dramaturgos francos e
· OI&IH ·
pepulares d'aquelle tempo-repetiaJD..na de JDeiBO.
ria os admiradores de Antonio José da Siln. i a
scena viu. D. ()Nichote declama em soliloqaio n'uma
flores&a, e diz :
« Ha dias que trago no pensamento uma ooosa
que me tem causado grande euidado I Dar-se-ba caso
flUe os meus inimigos eneantadores U'IHim transfor-
mada a beileza da senhora Duleinêa em a figura de
Saoobo Pança I E os motivos que tenho para isso é
fêr a pacieooia com que este escudeiro me atura as
minhas impertinencias sem salario nenhum ; e vêr
que jámais foi possivel vêr eu Dulcinéa no seu ori-
Jinal e nativo esplendor. Tudo póde ser que seja;
po;s se leem, nos antigos livros de cavalfaria andante,
outras transformações de nymphas, ainda em mais
ruins figuras, qual a de Sancho Paça, e porque este
pensamento nlo é fóra de conta, bom serã averi-
goal-o, que a diligencia é mãe da boa vontade. Err
Ira Sancho.
«Senhor, o rocinante está esperando que vm."
o cavalgue, e tem dado taes relinchos, pulos e. • • t
que sopponho nos prognostica alguma boa ventura.
t N'aquelle tempo, usavam-se. pouquissimo as reticeacias. Boje,
devo presumir que alguns termos populares das comedias do judeu, se
os eu trasladasse, fariam que o livro cahisse da mão enluvada e meliB-
drosa que o abriu.
ROMANCJa· 818181JCO 7B
D. {}a;dtote
"
c E, se bem reparo agora nas feições d'este S a ~
ebo, lã tem alguns lai•os dé Dnleinéa ; porque, sem
duvida, Sancho, ás. vezes, o vejo eom o rosto mais
afeÓüoado, que q'uasi me persuado está Dulcinéa trans-
formada n'elle.
Sancho
c Meu amo está no espaço imaginaria r á parle.
Ah t senhor, toca a caTalgar, que o rocinante estã sei·
lado e o borro albardado. Senhor, VIII • .,. ouve 't

D. Quichote
c· Sim, ouço. Que seja possivel- prodigioso eni·
p do amor r - gallaarda Dolcioéa dei Toboso, que
os magiCQs antagoniüas de meu valor te transformas·
sem em Sancho Pança I
Sancho
« AiDda ewa me faltava para ouvir e que atu-
rar r á parle. Que diz, senhor? está loueo't com
quem falia vm. ••?
D. Quichote
c Fallo eomtigo, Sancho tingido, e com Dulcinéa
transformada.
Sancho
a Se vm . .,. algum dia tivesse juizo, dissera que
76 •. .JID'III .
o tinha perdido. Que fingido ou que Dulci-
néa transformáda é esta '!
D. (}tlidwle
« Não sei como agora falle, se como a Sancho,
se como a Dulcinéa I Vã como quer que fôr: Sabe-
rãs que os encantadores tem transformado em tua
vil e sordida pessoa a sem igual Dulcinéa I Vê tu,
Sancho amigo, se ba maior desafôro, se ba. maior
iosolencia d'estes feiticeiros, que em
blante puro e rubicundo de Dulcinéa co,n .a IQ8jCIII'J
horrenda da tua torpe cara '·
Sancho
c Diga-me, senhor, por onde sabe vm." que a
snr. • Dulcinéa estã transformada em mim"/
D. (Juichole
c Isso é o que tu nAo alcanças, simples Sancho;
pois sabe que nós, os cavalleiros andantes, temos cã
um tal instincto que nos é permittido oonbecer onde
estã o engano e transformação pelos emuvios, que
exhala o corpo, e pela pbysionomia do rosto.
Sancho
c ••• Que parentesco carnal tem a minha cara
com a da snr.• Dulcinéa '! Ora eu até aqui nAo cui-
77
dei que vm." era tiO louco r Cuido que nem na rida
de vm. ce se conta semelhante desaveDtura r
D. (}uichote
• Quanto mais te desconjuras ·mais te inculcas
que és Dulcinéa ; deixa-me beijar-te os ãtomos anima-
dos d'esses pés, jã que me nao permittes tocar com
os meus Jabios o jasmin d'essa mao, dulcissima Dul-
cinéa r Chega-se D. ()uickote para abraçar Sancho.
Sancho
« Áqui d'el-rei que não sou Dulcinéa r Tire-se.
lã I olhe que lhe dou uma canellada I
D. Quichote
« Ora, meu Sancho, diz-me aqui em segredo se
és Dulcinéa, que eu te promett9 um premio.
Sancho
«Como, senhor, lh'o heide dizer? Sou tão ma-
cho· como vm. ce
D. Quichote
«Sancho, n'esse mesmo dengue agora confirmo
mais que és Dulci11éa.
.. ! •· J
Sancho
« Ora leve o diabo o dengue r Que queira vm. ce
78 o RJDBD
que i força seja eu Dulcinéa ensancbada, oo Sancho
endulcinado I Ora pois, já que quer que eu seja Dol-
cinéa, chegue-se para cá que lhe quero dar dous
oouces.
D. Quichote
« Tu me queres dar oouces 'I Agora vejo que
nto és Dulcinéa ; pois Dulcinéa tão formosa e tão dis-
ereta, nunca podia ser besta, nem ainda transforma-
da para dar o que me offereces com a lua grosseria .
• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • t
• t José Maria da Costa e Silva, na parte do seu diccionario biblio-
gra.phico que diz respeito a Antonio José, escreve o seguinte: • Bocage
fazia grande apreço das comedias de Antonio José, e a respeito de D.
Quichote referirei uma anedocta sua, que mostra que elle lia estes dra-
mas com reftexão, e sabia investigar suas bellezas. Indo eu uma vez vi-
sitai-o, durante a sua ultima enfermidade, achei-o deitado de bruços so-
bre a cama, com um livro na mão, e rindo como um doudo. • Que livro é
esse, lhe perguntei, que te provoca tanta hilaridade? -São, respondeu,
as operas do judeu, e achei aqui no D. Quiclwte uma idéa tão bufona,
tão extravagante que admira haver escapado a Cervantes. • E depois d'al-
gumas gargalhadas leu o seguinte. . • (É a scena vm que trasladéi.)
u Acabada esta leitura -pro segue Costa e Silva - algumas vezes
interrompida pelo riso, Bocage proseguiu : « Então? que te parece? não
é isto uma lembrança bem original, bem graciosa e bem propria? e o ju-
deu não soube tirar d'ella um grande partido produzindo uma seena bem
comica? Oh ! esta idéa devia ter o e c ~ r r i d o a Miguel de Cervantes ! •
Até aqui o amigo de Bocage. ·
Que outra ordem de considerações mais litterarias e philosopbicas
do faria Elmanó, ponderando o ingente infortunio do engenhoso hebreu,
mormente nos dias que passou no carcere da inquisição ! Manoel Maria
Barbosa do Bocage, se lá tivesse entrado cincoenta annos antes; não sahL
ria para mais longa vida que Antonio José da Silva. As feras de Domin-
ros de Gusmão, na época de Bocage, rugiam apenas, acorrentadas ã
jurisprudencia civil. O marquez de Pombal arrancara-lhes os dentes, e
emprestara-lh'os uma vez para. despedaçarem o padre Malagrida.
CAPITULO IX
Lourenca Coutinho, como visse restaurar-se ·o
amor ao estudo, o gosto das comedias, e o contente
viver do filho, entendeu activamente no COJ;ISOrcio
almejado e promettido de tão longe. Contava ella
com a vontade do seu Antonio, e tinha como segu-
ra a condescendencia de Leonor.
Enganou-se na mais importante parte dos seu.'l
calculos.
Leonor, assim que sua mãe formalmente lhe lem-
brou os antigos compromissos, respondeu que sem-
pre considerára brincadeira de sua mãe com a mãe
de Antonio o contracto de união eterna entre duas
pessoas, uma das quaes nascen alguns annos depois.
Ajuntou que aceitára a correspondencia de Antonio
José, para não desagradar a sua mãe, e na esperan-
ça de, alguma hora, se aproximar e senti1· por elle
80 OJUDBU
o interesse que a distancia não podia inspirar-lhe.
Acrescentou e concluiu dizendo que o facto de se
aproximarem não era bastante a resolvei-a a cásar-
se, nem a soa idade era ainda propria de tão grave
decisão. Pedia, pois, cinco annos de espera ; e, aos
vinte, se decidiria.
Estas razões, litteralmente traduzidas, queriam
dizer que o não amava. Isto não é censoravel nem
extraC?rdinario. O que a mim me quer parecer loo-
vavel pouco menos de nada é que Leonor, farta de
ouvir contar as travessuras, os escandalos e a liber-
tinagem do amante de Joanna Victorina e d'ootras do
mesmo jaez, não obstante, sentisse e escondesse de
todos profunda e devoradora paixão por Francisco
Xavier d'Oliveira, desde que, á sabida do tribunal
de Valhadolid, viu de novo o gentil moço que a ti-
nha querido salvar, e a sua ma.e, pela porta da sa-
cristia I O caso não se recommenda aos louvores de
quem lê, repito; mas não é estupendo nem culpa-
vel. Leonor vira a anciedade inutil d'aquelle portu-
goez, soubera depois que a rogos d'elle sahira pelas
desamparadas presas o alc.aide; via-se livre; e, ape-
nas livre, dava d'olhos e de curaçao reconhecido nos
olhos e talvez no coraçao do oello rapaz, que sahira
de sua terra para, ao lado do velho Barros, lhe ser
guia e companheiro. Raros amores e até poucas pai-
xões nascem e flammejam Ulo desculpaveis e boni-
tas I
ROMANa Bl!n'OBICO 8t
Franeiseo Xavier, posto que não por amor, an-
1es por cavalheirismo e obsequio ao seu amigo en-
carcerado, fosse a Valhadolid, durante a jornada te-
ve uns vislumbres do sentimento que fizera nascer.
Fechou os olhos da alma para não vêl-os; todavia,
o coraçao não se retrahia de todo em todo aos h<r
nestos commettimentos da lindíssima judia. Francis-
co Xavier dizia entre si: • Se elle a não amasse ! ... »
e ella provavelmente· iria dizendo: • Se elles se não
estimassem .•. »
Ambos comprehenderam e como em silencio se
oommunicaram o melindre de suas posições.
Ora é certo que Francisco Xavier estava mania-
tado áquelle baixo amor da cigana ; estava, e com
pejo de si pesava entre mãos o gravame de tão ver-
gonhosos ferros; póde ser, porém, que os quebras-
se de impetuoso · empuxão, se Leonor lhe dissesse :
• Tenho liberdade para ser tua; podes amar-me sem
deshonra. »
Viam-se frequentes vezes na sala de Diogo de
Barros. O rosto i!e Leonor alumiava-se, quando o j<r
"fiai rapaz entrava, contando bruscamentE! aventuras
da devassa camarilha do Salomão portugnez, ou ras-
gadamente verberava a hypocrita devassidão do cle-
ro, sem que os brados da mãe o cohibissem. Leonor
antes queria este arrojo que o assustadisso acanha-
mento de Antonio Jose; antes as risadas estridu-
las do ainante das ciganas que as deplorativas Jamen-
voL. u 6
li
tações, e concentrada amargura do flagellado dos car-
ceres; antes a descripçl\o energica e fogosa de uma
péga de touro que a leitora d'uma comedia.
Uma vez, bem se lembram, perguntava Francis-
co Xavier ao seu amigo se amava Leonor. A respos-
ta foi de feitio que o mancebo poderia, sem desdou-
ro, aceitar a alma que se lhe offerecia sem grandes
rodeios. Não o fez assim. Viram que elle curou de
arastar as nuvens de sobre o coração do amigo, para
que o amor da israelita podesse lá chegar com o ca-
lor da esperança e das alegrias. Depois, ao passo que
Antonio José cobrava alento e se reanimava debai-
xo do olhar menos amoravel que piedoso de Leonor,
Francisco Xavier afastava-se, pretextava jornadas, oe-
capações, divertimentos, e,- Deus e elle sabiam a
dôr do sacrificio! -contava na sala de Diogo de Bar-
ros, em presença da pallida menina, as suas paixões
passadas, os seus amores presentes, e as suas e s ~
ranças em designadas mulheres da melhor fidalguia,
umas para amantes, e outras para d'entre d'ellas ele-
ger a esposa, a companheira da vid&.
E, no entanto, I..ourença Coutinho admirava-se e
off.endia-se das hesitações de Sára, toda vez que ella.
a interrogava não já sobre a vontade da filha, senao
sobre o tempo de se casarem os promettidos noivos.
-Pois tu nao sabes-1 ..• -perguntava Loureo-
ça.- Nao sabes quando será 1 I
-Não sei ..• - respondeu Sára emfim muito
.. .
llOIIANCB BISTORICO
/
83
apertada pelas importunações da amiga. - Não sei,
porque Leonor nao declara quando, e eu, obedecen-
do ã vontade do. meu Jorge, não a obrigo a declarar-
se; o mais que posso é aconselhai-a ; e muitas vezes
lhe tenho inculcado as vantagens d'este enlace; mas,
se ella me diz que só dos vinte annos ein diante se
hade resolver, que queres que eu lhe f a ç a ~ Espere-
mos, Lourença. Teu filho estã novo; ella estã uma
creança; os haveres de parte a parte sao por em
quanto poucos ... Esperemos, minha amiga, e goze-
mos com a felicidade de vêr que elles se amam tran-
quillamente, e não desconfiam da lealdade um do
outro ...
- Mas o meu Antonio não cessa . de pergun- .
tar ... -atalhou Lourença.
- Responde-lhe isto mesmo. Diz-lhe que se go-
ze da sua liberdade n'estes cinco ou seis anilos, que
lhe não hade faltar tempo de viver captivo dos en-
cargos de marido e pae. Quanto mais cedo se casa-
rem, maior numero de filhos ha.ode deixar para ahi
provavelmente pobres.
Esta resposta ·espinhou vivamente o amor pro-
prio e o coraçao tambem de Antonio José. Delibe-
rou-se a interrogar Leonor, suspeitoso de que, por
acanhada modestia, e melindre talvez inconveniente,
desmerecesse no conceito da energica filha de Jorge
de Barros. Mais dolorosa suspeita o feria, e era te-
mer-se de que a bisneta do contador-mór, e a des-
84 O JtJDEU
candente dos Telles por sua avó materna, se quize&-
se esquivar ao desdouro de alliar-se a um homem da
classe mean, neto de fazendeiros e bisneto de po-
bres colonos judeus, que tinham ido de Portugal
para a capitania do Rio de Janeiro.
Resolvido a desenganar-se por si, procurou o
lanço de estar a sós com Leonor. Foi mais lastima-
vel que eloquente. Almas aquecidas ao fogo mystioo
do ideal, são as menos idoneas para expressarem af-
fectos grandes sem se apoucarem n'alguma baixeza,
de que raras mulheres levantam o homem. Convi-
nha-lhe um airoso orgulho; o amor abateu-o ã hu-
mildade. A mulher que ama não conhece isto; a que
é tão sómente amada chama-lhe impertinencia e sem-
. saboria.
Não obstante, Leonor dava-lhe a compensação da
delicadeza ; e â poesia da paixão respondia-lhe com
a poesia da esperança. Era cedo, dizia ella, cedo para
si e cedo para elle.
-Eu tenho sido desgraçada- ajuntava Leonor
-Fiquei triste, muito mais triste do que era, desde
a prisão de Valhadolid. Estou a convalescer das tor-
turas da alma, que principiaram com o fallecimento
de meu bom pae. As lagrimas ainda hoje me afogam,
quando me lembra, que é para sempre, a irreme-
diavel perda que sofTri. É preciso muito coração
para a gente passar d'estas tristezas ao contentamen-
to de esposa ; e aquelles que se casam, na esperan-
IOIIAllfCI mSTORICO 83
Ça de despirem depois os tuctos da alma, vão enaa-
nados: é o que eu penso, e nem meu tio Diogo nem
minha mie sustentam o contrario.
-Sustento-o eu-disse Antonio José da Silva.
-Com aquella decima jocosa que sua mãe man-
dou para Amsterdam '!
-Nilo, Leonor. Não fallemos gracejando. O ho-
mem, que escrevia aquellas trovas, acabou. D'ellas
me recordo escassamente ..•. Vejo-as como folhas
seccas da minha primavera. O que cu hoje lhe de-
veria dizer em verso, não sei eu dizei-o. Lagrimas
não se escrevem: ou as decifra a mulher que ama,
ou, senão, Deus. Porque me não ama, Leonor'!
-Quando lhe disse eu que o nao amava, snr.
Silva? •••
- Snr. Silva. • . Que urbano tratamento ! -
acudiu o hebreu, com dilacerante sorriso - Que
desengano I que calumnia eu lhe assacava quando á
minha consciencia dizia que a snr.• D. Leonor de
Barros me amava .••
-Eu não sou D. Leonor de Barros- atalhou
a filha de Sãra -Sou Leonor Maria de Carvalho.
Meus avós maternos appellidavam-se Carvalhos. O no-
me de meu pae tenho-o no coracao; mas não careço
d'elle nem para venerar sua memoria, nem para me
fazer respeitai' do mundo. Meu pae tem illustres
parentes em Lisboa. Não quero que elles o maldi-
gam porque deu os seus fidalgos appellidos á filha de
86 O llJDBD
.. 1 v-. • •
á neta d'uos judeus, que as
ram ha cincoenta annos em Lishoa.
Leonor Maria de Carvalho, que eu
mente assim morrer. · ·
Antonio José da Silva a
mão de Leonor, e disse-lhe com mavioso enterneci-
'
mento:
-Abra-me com esta mão a porta do paraíso.
- Quando fOr tempo, se Deus assim o
destinado.
-Diga-me, ao menos ... que não chore. . .
-Não chore, que os homens a chorar não pa-
recem bem.
-Que· fria .alma I -murmurou Antonio José.
Entraram pessoas á casa onde correu este dialO:
go. Vinha entre ellas Francisco Xavier d'Oiiveira,
relanceou olhos suspeitos ao semblante do seu
amigo, e viu lagrimas. Ao mesmo tempo, encarou
em Leonor, e traduziu a vehemente satisfação que a
alvoroçára, no instante em que o vira.
Tomou o braço de Antonio José da Silva, e pas-
sou com elle ao jardim do palacete. Pediu-lhe expli-
caçao das lagrimas. Silva carecia de respirar no seip.
do seu melhor amigo. Abriu.ose, expandiu-se, des:
aiou novos prantos dos olhos injectados, e referiu
summariamente a pratica dolorosa que tivera com·
. Leonor.
.,
Fraoeiseo Xav*' eseutoo-o silencioso ; fez com
eUe alplDS giros no jardim, e voltou á saia.
-Que novidades coo&a, snr. Xavier d'Oliveira 't
-perguntou uma das damas da wa.
- NAo 1ei quasi nada, minha senhora.
-Teremos brevemente touros? - perguntou
um neto de Diogo de Barros.
-Provavelmente teremos, porque chegou a no-
ticia de se ter celebrado o casamento do principe D.
José com a infanta de Hespanba. Logo ouvirão o re-
picar dos sinos que pedem luminarias. No dia t3
vai o nosso amigo coade da Ericeira ao paço recitar
um discurso panegyrico sobre os desposorios da prin-
ceza das Asturias, e o marquez de Valença recita o
panegyrico do príncipe. Estes dons sujeitos, de quem
aliás somos amicíssimos, se lhes fecharem a valvula
dos panegyricos morrem entouridos. Andam ha vinte
annos a esmoucar as paredes do templo da meiOOI'il
a vêr se lá se enfiam por uma fenda. Parece-me que
os viodow-os não lhes hAode dar mais importancia
do que a mim. I •
-Cala-te, má linsua I -disse o ancião Diogo
de Barros - Deixa lã os nossos sabios trabalhar na
F e d ~ o · das letras pak'ias. Nem todos haode fa-
zerr versos. . . e travessuras, eomo tu.
-Verses e travessuras, meu presado amigo,
está tnd0. por nm fie. lis rapaziadas· cedem o passo ã
eiNomspecQio, que vai abrir-me o seu pbcido abri8D.
· •·IIIJoiU ·
- Ahi vem uma melllira das· tuas, Francisco I
-disse Diogo- Temos o Roberto do Diabo ma-
do I é o que nos queres eneampar?
-É o que vai suceeder, snr. Diogo de Barros
-redarguitl com gravidade Francisco Xavier-Se
eu citar o respeitavel nome da senhora que vai ser
minha esposa, espero qoe me raçam a justiça de ertr
que eu nA o viria aqui zombar, associando ás minhas
brincadeiras o nome de uma menina que v. s. •, e
todos que a conhecem consideram.
-Se assim é- disse Diogo - podes dizer,
que todos te acreditaremos; mas reflexiona, Frae-
cisco I . . . NAo te responsabilises a dar explicações,
se o casamento se nAo realisar ; nem queiras que a
sociedade as dê, se as ta não deres.
- Reflecti -:- disse Xavier d'Oiiveira - A se-
nhora com quem vou casar-me é D. Anna lgnez de
Almeida.
-Nome respeitabilissimo, na verdade-acudiu
Diogo de Barros- tanto por nascimento como por
virtudes herdadas e proprias. ~ n h e c i muito de per-
to o pae d'essa menina, quando ambos eramos ouvi-
dores na India. Elle dirâ qual de nós volveu de lã
mais abastado; mas o certo, a que elle nao póde fal-
tar, é que pobres fomos e pobres voltamos. Cada
um de nós casou com sua prima, e entao tivemos
eau. Eu desisti da carreira para cuidar dos bens ;
elle sesuio os lugares, e pela esc.ta da p.,midade

snhio a desembarpder do paço. Panbens te damos,
Francisco, e a teus paes. Lips a virtude de leoS
al'ós ãs virtudes de uma estrema da familia, tio antip
eomo a lua. Sê digno do fl'for da Provideoeia Divina f
Durante o dizer de Diogo de Barros, Leonor sa-
hiu da sala, pretextaodo qualquer cousa. Francisco
Xal'ier viu sem reparar ; Antonio José da Silva viu
e reparou. As restantes pessoas olharam-se r e e ~
camente. Uma das senhóras disse:
-Eu doo-lhe os emboras, snr. Xavier; mas. .•
- Mas que, minha senhora 't- perguntou Oli-
~ i r a .
-Consta que D. Anna d' Almeida é muito doen-
te do peito, e promette pouca vida.
-Assim dizem-tornou o moço-; mas quem
tem tanta ·vida no coração darã d'ella a remanescente
para alimentar o corpo, que é o mais facil de susten-
tar. E, se a vida do eoraçao não bastar, dar-lhe-hei
da minha, que é muita e farã o milagre de resosei-
tal-a.
Annunciou-se na sala que Leonor estava em an-
eias affiictivas. Sára sahiu logo accelerada, e as da-
mas seguiram-n'a.
Antonio J()Sé da Silva ac.eroou .. se de Fraociseo
Xavier, e disse-lbe á puridade :
-Leonor amava-te.
-E eu estimava-a JDui&o a ella, e por .i4Jual a
ti. Faz de conta que DIO ·compreheudemos ·este·ilf.
" .. JfiD'Ç
·É DefA8SarjO Wla JN PQf 1··
as tuas &A,q fun4ad114.
Q; f.Onveraaram sobre (lOUsas do •
ta@. mioull;lS, Laonof na Mla
C91D risonho e COI.,posto SfQblaote. Os bomews ro-
·rp-nta com perguntas sobre Q seq estado.
- Nao foi nada- ella- Foi om•
dOr que a amizade de minhas primas eu-
gerou. Sinto-me boa.
A coQ.versaçao con,tiouoo.
Leonor nunca estivera tao animada. Fal.lou dos
portuguezes poeta! com quem travára conhecimento
ew c;a,sa de seu pae. Recitou algamas poesias d'um
judeu de Leiria chamado Manoel do Leao, que lá vi-
festas de Portugal, e lá morreu
Plf' que a patria o levasse ao capitolio d'aJgum.
aql(> da fé. Citou muitas poesias do judeu; disse,
que para si a mais dilecta era uma que prio.-
cipiAva:
Recolheram-se os fechou-se o
mas nlio se abriu a pois se via
outra manM: •.••..•• t
Muitos eomprehenderam a- aUosao.
Pobre menina r cuidou que eram todos tolos, ex-
ceptuado Francisco Xavier
t 'felil a poala 110 7WIIIllpll& luUG110 - illlpresso em Bruxellu
•.t •. moQell Alwlerdalt d• peoveeta•idade •.

CAPITULO X
Annunciou-se no portao dos Barros o almoxarife
do palacio da Bem posta, para haver de falia r â vi uva
do snr. Jorge, neto do contador-mór Luiz Pereira de
Barros.
Sára, assim que recebeu o aviso, .lembrou-se
logo do Duarte CoUinel Franco, e da mysteriosa
aversao de Lourença Coutinho ao amigo de seu fi-
lho.
,•
Duarte, entrado ã presença de Sãra, expoz dif-
fusamente o proposito da sua visita, fundada nos boa-.
tQS correntes a respeito d'um thesouro enterrado na
da Bemposta, d'um annel transmittido com o.
do tbesouro a Jorge de Barros, e da clauspla
da escriptura da dita propriedade,
do o traslado que elle Duarte fizera tirar da nota do
O IUDBU
tabeHiAo. Dito isto, declarou ser desde menino parti-
cular amigo de Antonio José da Silva, o qual, segun-
do a voz publica, brevemente esposaria a filha do snr.
Jorge de Barros. Ajuntou, com muitos recamos de
palavriado, que elle desde muito pensava em ser o
restaurador d'aquella riqueza soterrada ; e lamentava
que a viuva e filha de Jorge de Barros vivessem po-
bremente podendo gozar-se de rica independencia.
E, por tanto, concluindo ao fim de estirada parlen-
da, ia elle solicitar de Sára que consentisse em ser
rica, dignando-se confiar da probidade inteira e da
amizade extremosa do amigo de seu futuro genro,
ou o aonel, ou a declaração do local onde I..uiz Pe-
reira de Barros enterrãra o tbesouro.
Sára, sem tergiversar, como quem jã trazia de
muito urdida a resposta, disse que poderia ser que o
thesouro existisse na Bemposta, ao tempo do falleci-
mento do avô de seu marido ; sabia, porém, que o
revolvimento dos alicerces e jardins da casa, feito por
ordem de sua sogra, provavelmente descobriu o cofre,
se elle existia. Em quanto ao annel, disse que nun-
ca vira a s e ~ marido annel com tal significação, nem
lhe constava que elle o tivesse.
Redarguiu Duarte Cottinel, lastimando-se de nAo
.merecer _a confiança da senhora, e fazendo votos por
que ella se oAo fiasse d'outrem, e arriscasse o com-
pleto perdimento da riqueza ; dando assim a entender
que julgava mentirosa a negativa de Sára, e verdadei-.
ro o boato do al}nel.
A viuva de Jorge, ao outro dia, perguntou a
Antonio José se tinha em boa conta a probidade do
almoxarife da Bemposta. Respondeu Antonio que,
desde menino, o tractava, e sempre o eneontrára leal
amigo, homem de beml e dotado das excellentes quali- ·
dades que em tão verde mocidade o fizeram digno do
almoxarifado da Bemposta. Sâra referiu o que passara
com elle. Antonio José disse que a não aconselhava
em cousa de tanto melindre, bem que, se elle fosse
o senhor d'aquelle thesouro, insuspeitosamente eom-
municaria o segredo a Duarte Cottinel Franco.
A viuva ouviu o parecer de Diogo de Barros,
que foi contrario ao de Antonio José. A razão com
que o velho desabonava o almoxarife não era judi-
ciosa. « De tal arvore, dizia elle, não póde sahir bom
fructo. Eu conheci o tal capellão da Bemposta, cujo
filho é Duarte ; conheci-o espião de Castella em Por-
tugal e espião de Portugal em Castella. Foi frade, e
secularisou-se depois. Vivia em mancebia escandalo-
sa, e prégava sermões ás rainhas mulheres de D.
Pedro u. Fez-se confessor dos infantes, capellao-mór,
e qualificador flo santo officio, tendo começado sua
vida na forja do pae, que trabalhava de ferreiro á
porta do marquez de Ferreira, á custa do qual fez
frades dons rapazes e freiras tres raparigas, que em
pequenitas vendiam arféloa na praça do Terreiro do
0 JUDEu
Paço e na feira do Rocio
1
• No entanto- proseguiu
Diogo de Barros - póde ser que elle seja boa pes-
soa. Serâ; mas a occasiao, diz o proverbio, faz o la-
drão. Esperemos, minha sobrinha. Por eni quanto,
não se \'OS faz mister aquelle thesouro.
Duarte Cottinel, descoroçoado dos bons effeítos
da tentativa, procurou Antonio José, para instigai-o
a mo\'er Sára. O hebreu desculpou-se dizendo, como
sempre dissera, que nao tinha certeza de existir the-
souro nem o annel em poder de Sára.
- se casares com a filha - observou o ai-
t O mercado das substancias alimenticias fazia-se diariamente no
Terreiro do Paço, convisinbo do pa!Acio dos reis. No Roeio havia tam-
bem feira todo o anno. O author da Inquisição de Goa que esteve em
, Lisboa, por 1677, mencionando a magnifica praça do Rocio, acrescenta:
Il y a toute l'année une espece de folre dans eette place, et l'on y
volt en tout temp8 des marchands dans ces boutiques porta-
tives, á peu prés comme sont celles qu'on dresse sur le Ponte-neuf
á Pari:r.. .
Eu ainda vi reliquias d'esta feira ha trinta annos, em tempo que a
feira da Ladra principiava na extrema do Rocio, e abraçava o passeio
publico pelas duas ruas lateraes. Que saudades eu tenho d'uma nora que
alli gemia no pateo do duque, e d' aquelles pur.arinhos dos alcatruzes !
Lastimo o leitor menor de quarenta annos, que não ouviu gemer a nora,
nem l'iu aquelles alcatruzes do pateo do duque, e nem se quer apalpou, co-
mo eu, as paredes da santa-oosa que pareciam exsudar saiJBUe de he-
breus. Hoje, no lugar dos alcatruzes, está um barbeiro, que é nora de par-
voices politicas; no melhor da feira da Ladra param as seges de pra-
ça para darem idéa de que alli foi feira de farrapagem e correias revelhas;
o restante da feira foi invadido por aquelle pragal do passeio, onde a
gente goza sombra . . . de noite.
No local onde gemiam judeus, hereges e feiticeiros, uma vez por
outra, geme a arte ; e eu, desgraçadamente, d'este olficio tão santo como
o outro, lambem tenho sido inquisidor.
91
moxarife - e o annel te fôr na mao da esposa, ji
sabes que aqui estou para te desenterrar o. cofre, e
entregar-t'o sem um ceitil de menos.
- Sei que o f a r á ~ , Duarte, e de ti só confiarei o
segredo, se algum segredo existe. Mas o mais cer-
to é eu nunca possuir a mão nem o annel de Leo-
nor .•.
CAPITULO XI
Dias depois d'aquelle annuncio de
samento, Francisco Xavier de Oliveira, desquitado
da influencia magica da cigana, dava a mAo de esposo
a D. Aona Igoez d' Almeida, e logo na proxima •
mana era agraciado com a mercê de cavalleiro fidal·
go da casa real, e ciogia a espada de cavalleiro
fesso da Ordem de Cbristo.
até entao, para sustentar o fingimento,
digamol..p assim, segurou a mascara na fronte com
penetrantes agulhas. Custava-lhe tormentos indizíveis
aquella affectação de indifferença. Devia de estar-lhe
muito enraizado n'alma aquelle amor, tanto mais
lento no desengano, quanto .abafado estivera no r&-
coodito do peiw.
Sára adivinhou-a ; abriu-lhe com a chave da ter-
voL. 11 · 7
98
O IUDEtl
nora o mysterio ; achou uma fonte de lagrimas re-
prezadas. Ajudou-a a chorar, e diligenciava sempre
alliviar-lhe o eoração, chamando.lh'as á face. Leonor
pediu encarecidamente á mãe que sahissem de Por-
tugal para Amsterdam. Lembrava-lhe as prophecias
que fizera, ao separar-se dos ossos de seu pae e do
affecto extremoso da sua querida gente, dos Sás que
tantos infortunios, com suas lagrimas, lhe agoura-
ram.
Não ousava Sára contradizer a filha; senão an-
tes lhe pedia que; por piedade, a não accusasse, que
o seu arrependimento lhe bastava para castigo e fla-
gello. Instava, porém, Leonor na· volta para Hollan-
da, como meio de esconjurarem maiores infortunios,
que maiores lh'os presagiava o coração.
Queria Sára condescender ; mas não tinha força
para romper os laços com que. a boa parentela de
seu marido a soubera prender, nao tendo em vista
mais que honrar a memoria de Jorge, nas pessoas
mais queridas, por quem elle tanto soffrêra, e, ao
fim de breve e desgostosa existencia, deixára pobres.
Depois, não -saberia Sára dizer que delicias lhe era
aquelle ar e viver em Lisboa, querida de fidalgos,
ameigada de damas, que se não dedignavam de a
chamarem sua prima. De mais d'isto, a amizade de
Lourenç.a Coutinho, que não cessava de a querer
disputará posse dos parentes. Sobrevinha ainda a com-
paixao de Antonio José da Silva, o qual, a juizo
RO!IAIRlB BISTORICO
Na, era dotado de exeellencias raras, e proprias
da felicidade d'oma esposa. Como se todo isto DAo
fosse empêço aos rogos de Leonor, acrescia ainda a
esperança ambiciosa, mas razoava!, de possuir as ri-
quezas da Bemposta, com as quaes sua filha poderia
aspirar a moços de nascimento e bens de . fortuna
igoaes aos tão encarecidos e invejados dotes de Fran-
cisco Xavier d'Oiiveira.
Assim foi protrahindo Sára a decisão, até que o
tempo delin a pouco e pouco o maior da dôr, de
modo que Leonor, condoida de sua mãe, e grave-
mente reprehendida pelo tio Diogo, deixou de fallar
na ida para Amsterdam, e apparentemente vivia cou-
formada, sahindo raras vezes ás salas, e quasi nun-
ca, se lhe diziam que lá estava Antonio José da Silva.
Entrou tambem o desesperar e o desenganar-se
na clara razao do hebreu, depois que elle, com os
pés sobre a dignidade propria, lhe escreveu lamen-
~ tosas cartas ás quaes Leonor respondia com o silen-
cio ou com uma sequidão ainda peor.
N'aquelle tempo, o poeta apaixonado não desde-
nhava o soccorro da musa para expressar a sua an-
gustia. Nos tempos d'agora, seria ridiculo o malfa-
dado amante que, em vez de prosa a rever lagrimas,
enviàsse á ingrata quadrinhas de syllabas accentuadas
segundo a arte.
Nas operas de Antonio José da Silva, represen-
tadas annos depois, appareceram algumas trovas das
..
tOO o,.,._
que elle enviára a Leonor o'aquelle. pariod9 .de e ~
cnJCiante desesperaçlo. Nenhum poeta de lOillO quer
reria boje assignar, em carta escripta á sua visinba
rebelde, as seguintes quadrinhas que o hebreu man-
dava supplicar misericordia aos pés da desamorav:et
menina:
Toda a minha alma
Se ahraza amante,
E a .cada instame
Morrendo está.
Mais que os· mimaos
São ffl8US ardores ;
Nos teus rigores
Conta não ha.
Mas, ai I tyranna,
Se a quem te adora
Fosse esta hora
Hora d' amar I
1
Se ao leitor se figura que este· ver-sejar em r ~
dondilha menor era improprio de alma apaixonada
e queixosa ; se entende que o verso bendecasyllabo,
o soneto, o magestoso soneto foi sempre o respira-
douro dos grandes poetas, crucificados no amor. co-
mo o amante de Laura, e como o suspiroso cantor
de Natercia, aqui tem um dos sonetos que a impu..
sivel Leooor reeebeu e leu enfastiada :.
t As wrWadel de Pnneo-Parte 2.• s.:..a u.
-A!MI BllfOIICO
NltJ ...,...,..,
·· , Lm!roa, qtUif'Ul8 thfgo a
(}til 01 llmill1 ld fk ..ear4e
NmrctJ 01 priftdpiOitoco de qrurer-t•.
Com razão potlmt.M ofi'Mdlt'4e,
Se ambici019 cMgtltw d tNiejar-ls,
Que, ptmJ ltlf mt1i1 fttto 110 adorar-te,
Sem premio, o Baeri{tdo hlide
Amar não qun-er; .fJU' wpurs tJrdAra
dt Cupid8, 18
Fructos, aonde nulo wJ prlmtlvera;
E, se aca10, d LEONOR, ímaginára
Que na tua belleza premio houvera,
Pelo premio a belleza desprezára. t
tOt
Parece mais engenhoso que apaixonado o poema.
enmpre, porém, saber, por honra do amante desdi-
toso, que n'aquelles dias de decadencia litteraria e
de chumbo da nossa poesia, os poetas, não
só amorosos, mas ainda pendurados no triangolo, ex-
piravam proferindo trocadilhos, gongorices, marinis-
mos, uma cousa triste de lêr-se, na qual Antonio
José ainda foi o menos peccador.
4 Na mesma opera- SceDa 1 da parte i.a Leonor, na comedia, é
substi&ulda por Cyrerme.
tOt
HAode dizer os bardos mocJemos que 8111 poe-
sia do hebreu é ·!leeca; destloril.la, sepa auns, sem
borboletas. N16,·senbores. Ank>oio José da Silva tam-
bem fez á sua esquiva poesias com· borboletas. Por
exemplo:
Borboleea Mmorada
Que nas luzu
Quando expira nos incendios
Solicita o mesmo ardor •.•
Tal. ó me
Pois parece que o destino ·
Quer. por mais que tu me mtlteS,
Que appeteça o teu rigor I
Se com tudo isto, o poeta não lograva commo-
ver Leonor, o defeito não era da poesia, digamol-o
. em pró das camenas de nossos avós: defeituoso era
o coração da filha de Sára, se é que podemos arguir
maculas em objectos que sahiram das mAos de Deus,
tao primorosos quanto nos cumpre presumir que
elle se esmerasse na compostura interna do peito da
mulher. Argumentamos fundamentados na perfei-
ção exterior, feitas as excepções, que as ha deplora-
veis, por dentro e por fóra.
CAPITUW XII
Francisco Xavier forcejou por avassallar o espí-
rito dv hebreu a outra mulher. Nem Antonio José
da Silva se deixava alcançar d'olhos que poderiam
atar-lhe as azas da phantasia, nem as senhoras, pa-
rentas e conhecidas de D. Anna d' Almeida, se pres-
tavam a ser amadas d'um judeu, que, dons annos
antes, figurára no auto da fé. Francisco Xavier en-
comiava a levantada intelligencia do seu amigo; reci-
tava com enthusiasmo os versos· d'elle; abancava-o,
nos seus jantares, á direita de sua senhora. Nao era
todo bastante para que uma dama da sociedade alta
se deixasse olhar duas vezes equivocamente pelo fi.
lho da judia Lourença.
Antonio José olhou em si e comprehendeu a sua
10.& e IDDBU
posição avikada nos salões de Liaboa. llefusiou·se
na soledade do seu quarb), restabeleceu a iaaimida.
de tivera eoJB alpns frades, e comsigo e com
elles passava as horas, umas de cogitar doloroso, c.
tras de recreada palestra litteraria.
De longe em longe, visitava Leonor. Pennte ella.
nAo proferia expressão amoravel nem queixosa. Es-
cutava as conversações enfadonhas de sna mie com
a viuva ; e, se Lourença, alguma vez, de industria
ou eventualmente, fallava nos antigos projectos de ca-
samento, em de Leonor, Antonio José des-
afiava a a sorrir dos desígnios exquisitos das
duas mães.
Leonor invejava a sorte das monjas cbristas.
Aquelle quieto viver ã beira da sepultura parecia-lhe
o balsamo divino que a humanidade inventára para
remedio dos seus desgraçados. Disse-o ã mae, que
lhe respondeu soluçante. Commooicou as suas espe-
ranças e desejos ao. tio de seu pae. Diogo de Barros
achou louvavel o intento, menos a profissão, conje-
cturando de si comsigo que a raça materna lhe seria
impedimento, que só os reis e os seus parentes cos-
tumavam vencer para darem habito a comicas e ciga-
nas, umas que nao podiam ser enterradas em sagra-
do, e outras que nem · baptisadas eram. Margarida
do Monte e a Gamarro eram exemplos recentes, e
mais recente ainda o da freira de Santa Joanna,
llOIIA._ MMORICO tOI
atmDte qtte huia sido de - dos infantes, mulher
de·mais encanaos qutt tira ~ A s M a '·
· Aeeitou Leooer qoaiCJUer eoaveoto, e de qual-
quer modo. Pediu licença i mie, coadjovaodHe
dos rogos do tio. Depois de muito chorarem, 1811 e
Ilha, venceu Leonor, oom promet111 de passar al-
guns mezes de cada anoo eom a soa família. Dioso
de Barros preparou a entrada da sobrinha no ooo--
vanto da EocarnaçAo, de reli1Jiosas commeadadeins
cf Aviz. Nlo lhe foi diflioil provar que D. Leonor
Maria tinha sangue da primeira nobreza, prova coo-
dicíooal para poder entrar como pensionaria. Entrou
alegremente para lá se eogolfar nas suas tristezas.
Mt easa lhe escolheram para quem queria viver tris-
te. As commendadeiras da Encarnaçao eram senho-
ras joviaes, festeiras e dadas ao amor. As suas gra-
des eram fontes de Vauclose, onde mais felizes Pe-
ltárchas iam poetar. A liberdade, qoe estas profes-
sas benedictinas gozavam de sahir, sob a responsa-
bilidade da visita amiga ou parenta que as ia buscar
de manhã e levar á noite, era uma liberdade gera-
dora d'outras muitas, que de si e por si geravam
variados phenomenos de geraçAo, com os quaes an-
dam grandemente povoadas as genealogias dos gran-
des senhores e grandes Senhoras d'estes reinos. Aio-
t Esta relijposa de appellido Sllva morreu esmapda entre as qua-
tro paredes da sua cena no terramoto de 1755. A belleza já devia ter
morrido.
{06
da assim, o VICIO n'aquella casa tinàa fidalga libré.
S. Bento nao se honrava de taes filhas, é isso vem.
de; mas a orgaoisaçao da sooiedade de D. João v
nao as contava somenos elemento de seu luxo e po-
liciamento.
Leonor competia com as mais bellas, e primava
entre as mais discretas. Mostrou-se, deixou-se ouvir,
deixou-se admirar, deixou-se amar ; e, depois, su-
miu-se no seu cubículo. Chamaram-lhe exquisita,
louca, ingrata ás dadivas da opulenta mio da natu-
reza. Nao importou. Leonor nAo voltou aos palrato-
rios, nem faltou aos seus deveres de pensionaria.
Costurava muito, lia pouco, e nao rezava nada. A fi-
lha de Jorge, em cousas de religião, cria em Deus,
creador, todavia imperfeito, porque ella, á imitaçao
de abalizados philosophos, errava como elles, não
querendo vêr o perfeito no regirar evolusivo das har-
moniosas imperfeições. Qual foi o author que disse:
c homem solitario, das duas uma : ou santo ou de-
monio •? Da mulher sosinha, e de Leonor especial-
mente, direi que se ha santidade, sem beneplacito
de Roma, sem camaldulas e sem agua-benta, santa
era a filha da judia Sár.a.
Magoavam-na ainda as mordeduras da serpente
do primeiro amor ; soavam-lhe no seio uns reba&es
de saudades, que, por instantes, lhe ennoitavam a mais
clara luz do sol da sua cella : assim era ; mas nin-
guem lhe ouvia queixumes, a ninguem consultára so-
ROJIANa I tO'J
bre os de auas ferida4. Solria tMda e

Alegremente recebia as- visitas de sua mie e pa-
reoles. Loorença Coutinho ia á Encarnação com o
e alguma vez o filho sem a mie. Leonor re-
cordava-se das brincadeiras de ambos, na Covilba,
porque a mae lh'as eotalbára na memoria, cootaodo-
lh'as frequentemente. N'isto passavam alguns
tos, e chamavam-se irmãos.
A visita de Lourença e do filho eram-lhe causa
de dissabor, porque as fidalgas benedictinas conhe-
ciam de nome Lourença, mulher do letrado judeu
JoAo Mendes, e mae do poeta Silva já penitenciado
pela . inquisiçao.
Leonor soffria calada os remoques ; não se quei-
xava ao tio Diogo, por temer que a tirasse de lá. Aquel-
le soffrimento parecia-lhe menor que o viver e tra-
ctar com muita gente, e o não ter um cubículo seu
e defeso ás importunações.
E assim passou um anno, e cinco depós o pri-
meiro, triste sempre, sempre inflexível ás maviosas
sopplicas que lhe fazia a mãe no sentido de aceitar
o nobre e leal coração de Antonio José.
Corria o anno de t 733. Leonor tinha vinte e
om anno&. Consoante ella tinha promettido, era che-
gado o tempo de decidir-se sobre o seu futuro. Per-
guntou-lhe a mae qual era.
- Acab8r aqui- disse ella- Quando a mãe
i &8 Jleutrr
mo poder daNBe a pensao, irei ser !Mrft
senhora n'outro mosteiro. E Deus sabe que eaerif.;
cios a mie terá feito para me sustentar aqui I ...
-Nenhuns, filha. Ainda tenho algum db
ro que Simão de Sá nos deu, eomo liquidado da be-
ranca de teu pae. Decides nao casar oom Antonio?
-Nenhum de nós seria feliz. Nao defO eoga.
nal-o. Falta-me o amor que elle merece. Despenfi.
cei-o. . . mas que remedio tem 'l Eo expio a minha
e elle abrirã os olhos quando Deus lhe mos-
trar mulher mais digna.
-E por quem te apaixonaste, ffiha I ... -tor·
non Sára - Digno moço era Franeisco Xa'rier; III&
t'o posso negar, nem sei desfazer n'aqoelle brioso ca·
ncter; mas, logo que te elle deu como certa a sua
inditierença, devias esquecei-o, filha ..•
- Nao pude; fiz tudo que podia, minha mãe.
Tive o pensamento de me matar I . . .
-Deus de Israel!- exclamou Sára.
-Pensava em matar-me, quando todos me viam
rir, e fallar como toda a gente falia das cousas interes-
santes da vida. Eu sabia que, se o visse, depois, nAo po-
dia aviltar-me ; mas podia acabar commigo. Fugi-lhe
para aqui. Poderia agora vêl-o sem alterar-me. . . Po-
deria ... mas nllo quero experimentar. Ouvi dizea-
que Francisco Xavier enviuvou ha dias, e que tem
o pae a morrer ..•
-:É eerto, filba.
ROIIANCI IU&10liCO
tOO
- Poii wobo peAI d'elle, se amava a
esposa. quanto eu creio que ella o amasse. . • eo..
meça a ser infeliz ; desanda-lhe a roda. Em quanto
foi mau, tudo lhe sabia á medida do desejo ; agora,
que vivia honradamente, morre-lhe a mulher e o
pae •••.
-E já me disse que sahirá de Portugal assim
qae lhe faltar o pae, porque não póde viver entre
estes desaforados hypocritas.
- Faz bem. Quem podéra tambem fugir
qui I ... Se a mãe soubesse que sonhos. • • que pra-
sentimentos I .... Porque hei-de eu presagiar para mim
um desastrado morrer I . . .
-Como, filha 'l
-Lembro-me da inquisiçao I Tenho dias que
me não sabe do pensamento o espectacolo horren-
do I •.•
-Oh filha ! . . . por misericordia, não me as-
sustes L .. - exclamava Sãra.
E, poucas mais palavras ditas, a viuva sabiu da
grade, e entrou em casa quebrantada, queixosa, e
doente.
Poucos dias depois, Diogo de foi buscar
Leonor ao convento da Encarnaeão para assistir á
perigosa enfermidade de sua mãe. Ao principio, quan-
do Sára se queixava de dôres da alma e ligeiros acha-
ques do corpo, nAo se inquietaram extraordinaria·
mente as pessoas, que se esmeravam em dar-lhe ai-
HO OJtJD!V
Hvio n'outras iguaes doenças de espirita; mas, assim
que a febre a prostrou, já a medicina a viu com des-
confiança. A viuva dfl Jorge de Barros tinha cincoen-
ta e quatro annos; alvejavam-lhe, porém, os cabei-
los como aos setenta. Desde a morte do marido, o
envelhecer foi tão rapido que, ainda sem as angus-
tias e terrores do carcere de Valhadolid, faria es-
panto em acabar-se e desfigurar-se assim a mulher,
que aos quarenta annl's dava invejas ás formosuras
em flOr de juventude.
Leonor, abeirando-se do leito de sua mãe, com-
penetrou-se da certeza de a perder. Ajoelhou-se a
pedir-lhe perdão dos terrores que lhe incutira com
as suas visões.
-Não foi isso, filha- disse Sára - A minha
morte explicam-na os annos e as desgraças do passa-
do. Voú d'este mundo affiicta ... porque Deus te
nllo levou diante de mim.
-Oxalá ... -murmurou Leonor.
-Do mais, que é morrer? que sou eu n'este
mundo'? . . . que faço eu aqui se nem já me é con-
cedido vêr-te feliz, pobre mulher'?
A presença de Leonor parecia angustiai-a mais.
A menina retrahiu-se a um canto sombrio da alcOva
para chorar escondida de sua m5e.
O progresso rapido da doença ao seu termo fa-
tal nllo dava intermittentes á esperança.
Ao quinto dia já a febre maligna se manifestára
ROJIANCZ BIITOBICO .Ut
com os peores symptomas. Os intervallos de raziO
Incida eram curtos.
Em um d'estes, Sãra declarou que queria mor-
rer na religião christa, porque sabia que seu padri-
nho Luiz Pereira de Barros morrera como um justo,
e seu marido se confiára á Divina Providencia, em
vida, e pedira no dia final os recursos de um· padre
catbolico. Recebeu Sára os sacramentos com fervor
de cateeumena. Lourença Coutinho, israelita de cons-
ciencia, assistiu com desgosto á fraqueza intelleetual
da sua velha amiga, como ella dizia ao marido. João
Mendes da Silva, que entllo contava setenta e nove
annos, quando sua mulher escondia o rosto amargu-
rado para não vêr as ceremonias da extrema-uocçao,
disse-lhe:
-Deus sabe onde está a verdade, Lourença ! ...
Nesta religião de Jesus de Nazareth vejo- que ha
exemplos de vidas e mortes exemplares. Os christãos
morrem com uma certeza de castigo e recompen-
Sll • .• e nós ...
- Tambem - concluiu Lourença.
Um acêno de Sára, que parecia tranquilla depois
de sacramentada, fez aproximar Lourença e Antonio
José.
A moribunda pegou da mão de Leonor, e dis-
se-lhe:
-Filha, attende ã supplica de tua mãe. Pelas
UI
o..,...,
agonias d'esta hora te peço que sejas esposa d'este in·
feliz moço.
Leonor beijou-lhe a mão, e murmurou :
-Sim, minha mAe. . . serei ...
-Bem hajas do divino recompensador, filha do
meu coraçao. . . Eu vos abeoçôo ; sêde bons ; amai·
vos ... Antonio, deixo-te a filha de Jorge de Barros ...
Antonio José da Silva ajoelhou ao lado de Leo-
nor. Começou o arrancar da vida. Poucas mais pala-
vras proferiu.; foram curtos e quasi serenos os pa-
roxismos. Quando cuidavam que Sára abria olhos e
labios para vêr e consolar quem a chorava, entló
foi ella que inclinou a cabeça para o hombro da ti-
lha, e expirou.
CAPITULO XIII
Leonor manteve a promessa feita ã mãe expi-
rante. Pediu que a deixassem despir o luto de or-
pbã para vestir depois as galas de noiva. Era um
anno de impaciente esperar ; mas deliciosa impacien-
eia para o hebreu. Jã elle se não temia da quebra
do juramento. E, para cumulo de felicidade, Leonor
dissera-lhe que seria sua, tanto porque promettera,
quanto, ou mais ainda, porque o desejava ser.
Morrêra, como se esperava, José de Oliveira, pae
de Francisco Xavier. O conde de Tarouca, minis-
tro plenipotenciario em Vienna d' Austria, elegeu
Francisco Xavier d'Oiiveira para seu secretario. Era
esta a mais inquieta ambição do inimigo dos frades :
sahir de Portugal, ir para onde podesse desabafar
contra os hypocritas, escolher uma religião, ou me-
nosprezai-as todas, sem receio de ser incomn1ndado.
VOL. II ~
tU O JUDEU
Despediu-se de Antonio José da Silva vaticinando-
lhe que nunca mais se veriam, salvo se o judeu pro-
curasse terra, onde sua phantasia podasse florir ao
sol de Deus, aquecer-se ao calor das idéas novas. e
não estar sempre a recear-se do calor das fogueiras
da fé christA.
Antonio José da Silva, cego d'amor, nAo teve
olhos que vissem lagrimosos a ida do seu primeiro
amigo. Sem temor dc:ro.ffe•-lbe a memoria, aba-
lanço-me a conjecturar que o judeu folgou de vêr
sahir de Lisboa o homem, cujo nome ainda alvoro-
çava o peito de Leonor.
Sahiu de Portugal Francisco X:i"vier d'Oiiveira
em f 9 d' Abril de f 73.4. Mais tarde, iremos no en-
calço d' este homem que vai i ado sob o influxo de·
funesta estrella.
O contentamento espertou as glorias adormecidas
de Antonio José da Silva, as glorias do theatro. A
opera, que elle tinha concluída para ser posta em
scena, era a Vida do grande D. Quichote de la Maa-
cha e do gordo Sancho Pança. A companhia, que
então representava. no theatro do Bairro Alto, era
boa e amestrada pelas lições e exemplo do famoso
comico hespanhol Antonio Rodrigues, que em Lis-
boa vivia lauta vida em galardão de sua eminente
habilidade · 1.
t No Amwement pérlodfque, paB . .11 do Lo vol, Francisco Xa-
vier d'Olivein, respeito d'aquelle actor, escreve: • ADtonio Rodripes,
ROMANCE BISTttRICO HS
Foi D. Quichote para ensaios, que o autbor di- .
r ~ u , por espaço de dous mezes com incalculaveis
allicções! O leitor entendido mais ou menos em
arte dramatica, digne-se imaginar que mortificações
alancearam o pobre author, para metter em ordem
os seguintes personagens da peca :
Dom Quiehote.
Sancho Pança.
A sobrinha dll D; Quichote.
A ama do mesmo.
Thereza Pança, mulher de Sancho.
Uma filha do mesmo.
Um tabelliio vestido d'almocreve.
Uma saloia em um burro.
Sansão Carrasco.
Seu criado.
Um diabo que vem no carro.
Outro diabo com muitos cascaveis.
Um homem que vem com o leão.
Belenna.
Montesinos.
ApoDo e as musas.
Dous homens que são do moinho.
Dous homens do barco.
Um fidalgo.
Uma fidalga.
Um meirinho.
Um escrivão.
Dous homens que tocam rabecas.
Um homem que toca rahecão.
Um medico.
Um cirurgião.
Um taverneiro.
Uma mulher moça com manto.
Uma mulher velha em corpo.
Um escudeiro.
Um que está na cova. A condessa das barbas.
Caliope que vem na nuvem. Dous rebuçados.
Dous homens para a audiencia.
Ora, todos estes personagens deviam obedecer
mais ou menos ao ensino do poeta, incluindo o burro
hespanhol, sustentou-se com felicidade muitos annos no theatro de Lisboa.
Era bonissimo poeta, philosopho, historiador, e palaciano. Era tão homem
de bem quanto actor de merecimento. Do seu proceder honrado resultou-
lhe uma pensão annual de cento e vinte moedas d'ouro que lhe dava o rei.
Querido das· mulheres, estimado da nobreza, e relacionado com muitos
prelados do reino, até do povo se fez idolatrar ... »

Ht
da saloia, e o leao do homem; porém, as zangas e
desalentos de Antonio José da Silva eram iooompa-
ravelmente maiores no modo de fazer funceionar a
tempo o chamado c apparato do theatro • peças de
magnifico espectaculo, de que acintemente d o ~ 1 no-
ticia para encovar o orgulho dos maquinistas moder-
nos. Vejam:
Um carro com varias figuras dentro.
Uma capoeira sobre um carro, em que ir! um leão, que sabe fóra a
seu tempo.
Um carro em que vem Dulcinéa e varias figuras.
Dous cavallos, um de D. Quichote, e outro de Sansão Carrasco.
Dous burros, um para Sancho Panca, e outro para uma saloia.
O monte Parnaso com as musas, Apollo, e o cavallo Pegaso.
Um barco.
Um cavallo que vem pelo ar, e se lhe põe fogo.
Uma nuvem.
Um porco.
Este ultimo personagem não voltou ã scena-
digamol-o de passagem - desde Antonio. José da
Silva. Suppunha-se que o snr. Mendes Leal rehabi-
litasse o porco, aqui ha annos, quando povoou de
camêlos o theatro normal. A occasião era aquella.
Como passou, é de presumir que o porco se não
logre de pisar outra vez o palco.
Vontade de ferro e coadjuvação dos primeiros
talentos de Lisboa em tramoias theatraes, vingaram
que a opera se mostrasse ao publico ancioso na
noite de 14 de Outubro de i 733 .

H7
A ordem dos camii'Otes nobres estava adornada
com as senhoras de primeira plana, que mal se viam
por causa das gelosias. O camar01e dos frades, assim
denominado por excellencia, estava recheado de bons
e devotissimos theologos, cujos narizes robidos a
custo podiam entrever-se atravez das rotulas f. Na
platéa, a pressão era suffocante. Pagavam-se as en-
tradas a moeda d'ouro; e, quando se annuncion que
entrava em scena um porco e um cavallo que voava,
os bilhetes subiriam a peça, se appareces8em vende-
dores.
As gargalhadas atroavam compactas desde a pri-
meira scena. Riam os frades em contorsões de ju-
bilo, espirravam as damas sympathicos frouxos de
riso, ria toda a gente, menos os poetas de Lisboa,
que se tinham enfileirado, de antemão comprometti-
dos a não acharem graça á comedia do hebreu. Pa-
rece que presagiavam a trovoada eminente, e o raio
fulminante da irrisão geral!
Chegou a scena vm do' t. o acto. Ouvem-se mu-
sicas melodiosas.
« Não ouves, Sancho, uma Slla\·e harmonia 't-
pergunta D. Quicbote.
t • • • Cette loge B'IIJIP8lle en pMtugais le camarote dos frades.
Elle ut ploeée IIV-dmous de oellu qui ne sont jamais ooeupéu 1J11e
par lu dames de la prémUre quaUU. Celle-lti de m8me que lu 1111-
tru ut fuak par tlujlllotlliu, c'ut à dire, par.,. upice de grél-
les de bois, qu'on 11J1P8lle Rotas, Rotulas, ou Zelosias en portugaú.
Ammement pérlodique, (IIIi. 31. t.• vol.
H8
• É verdade f espere vm.c•, que lã vem voando
o quer que é I Desce a musa Caliope em uma nuvem,
e D. ()uichote e Sancho ajoelham.
O cavalleiro da triste figura e o gordo pagem
reverenceiam a musa, que se abre n'estes rogos ao
donoso soccorredor de affiictos :
«Valente D. Quichote de la Mancha, cavaiJeiro
dos leões, eu sou a musa Caliope, a primeira e prin-
cipal das nove, que assistem no · monte Pamaso.
Aqui venho a teus pés enviada por meu amo, o snr.
Apollo, o qual, como sabe que tens professado a
estreita religião da cavallaria andante, e tens de obri-
gaçao o desfazer aggravos, soccorrer affiictos e res-
taurar honras perdidas, por essa r.ausa te manda pe-
dii encarecidamente queiras ir ao Parnaso, aonde se
elle acha, cercado de uns poetas maledicos, que o
querem despojar do throno ; e juntamente para re-
formares a poesia, que se acha quasi arruinada;
para o que eu, da minha parte, como tão interessada
n'este desempenho, te supplico com o suave de mi-
nhas vozes, pois é certo que a musica tem virtude
para attrahir os corações mais duros.
Sancho (á pMte)
• Aqui taes uma aria ã
Caliope, de feito, cantou, em guanto o bravo
U9
dJBita no 1DOH de ,.... · ao 8018
•11idas i d8081-, qae Wts = •wtt, .arrebatando-o e
•is O esaadeiro n'd0l8 DUVeftl.
Aqui estamos já no· Pmltt». Priotipiam ;a éOn-
toroeMe ·os poetiS da pll&él. J4 l1IUita gente os teltl
:d'olho, e·qaailba a risada paralh't desfechar na tlfrl.
Apollo (a01 po6taa)
c Esperai, filho.s, que cedo virá quem
11e viope de T08SII injurias I
Poems
c Já nao te reconhecem os, ó Apollo, por deus
da poesia ; pois qualquer de nós é Apollo, e cada
· idéa nossa uma musa. •
·Ãpolft>
c Assim vos atreveis a profanar o decóro que
se deve aos meus apollineos raios? I Apparecem D.
Ouidwte, Sancho, e Caliope.
Poetas
c Toca a investir ao Parnaso I
Apollo
c Em boa hora venhas, valente D. Quichote, que
só a tua espada me póde segurar o tbrono e o lau-
l'el I Vem, Tem a •i..--me d'eetea poetaaiooos, que
tiO ......
8llll lUis armat qae a 181 preaumpeao, cparem Dlo
só compelir cem.o .eu pllctro, JnU aiDda -....
despojar-me do Pamaao; e, como as armas e as le-
tras &lo tio fieis complllheins, quea.me valer das
tuas armas para a restauraçlo de minha scieoeia ; e,
oomo esta violencia, que se me faz, oao desmerece os
empresas da tua cavallaria, peço-te que me soccorras..
D.(}uichote
c Snr. Apollo, eu tomo sobre mim ~ seu desag-
gravo; e jã, desde asora, se póde assentar bem o' es-
se throno que d'elle ninsuem o hade amncar.
c Senhor meu amo, eu cuido que estou sonhan-
do I Que vm. ce entre no Parnaso, nao é muito, porque
é louco ; porém, eu, que, sendo um isnorante, tam-
bem cã esteja, é o que mais me admira I E d'aqui
venho asora a concluir que nao ha tolo que nao en-
tre hoje no Pamaso I ·
D. Quiclwte
c Disa-me, snr. Apollo, e como se chamam os
poetas que tanto o persesuem 'l
Apollo
c Essa é a dessraça, D. Qoichote; que os poetas
ROIIAIU '8III'OaiCO III
que me penepem Dlo s1o de DOIJle; e, com todo •
. cada um cuida que é mais do que ea mesmo.
D. ()u;chote
• Dizei-me, poetas d'agoa dôee I. . . t Dizei-me,
rãs que grasnaes no charco da caballina I Dizei-me
cysnes contrafeitos, que vos banhaes no lodo da Hy-
pocrene : com que motivo quereis competir com o
deus da poesia 'l
Poetas
c Porque esse Apollo, como não inspira, não
merece o nome d'Apollo; e assim queremos tomar-
lhe o Parnaso e repartil-o entre nós.
« Senhor I não se metta a brigar com os poetas
que são peores que gigantes. Veja_ vm.ae que elles
trazem um exercito de dez mil romances, quatro
mil sonetos, duzentas decimas, oitenta madrigaes, e
um esquadrão de satyras volantes em silva que ar-
ranha. Veja bem no que se mette !
D. ()uichote
Nada me assombra ; porque eu só com esta es-
t O actor, que proferia a apostrophe, filov os olhos ua turba doi
•ates. A hilaridade mal deixa.a ouvir os brados retumbantes do eSBfOU-·
viado cavalleiro.
-ti!
pada beide vencer quaDtos .poel8s .M no ,mundo.. Sem
Hespanba! Viva Apollo I e morram os traidores I
Grande algazarra.
A.pollo
c A eDes, meu O. Quixote, que a Victoria é nos-
sal
Sanclw
«Aqui d'el-rei, que estou passado de parte a
parte com um soneto em agudos I
D. ()uichote
• lã fugiram como mosquitos I
Sancho
« Avança ! que com esta gente. sou eu gente I ...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Felizmente para os poetas, com ponco mais, bai-
xou a cortina do primeiro acto. Alguns sahiram e
nao voltaram a expor-se ãs brotaes risadas d·aquelle
selvagem publico, de todo desapparelbMJo dos meno-
res rudimentos de edueaçao. Os mais briosos propu-
nham-se chibatar o actor, e os mais covardes amea-
çavam o judeu, em tom comedido que não podia
chegar aos ouvidos de Antonio José da Silva.
Correu a comedia sempre victoriada, tirante os
taoces em que 'llppAreeiam tdiabels em soena, porque
tt3
entlo os frades do camarote resmuneavam entre si,
dizendo-se :
-Como ê que a censura deixou passar estas
galhofas, que insultam a religiao catholica?
-Bem se deixa vêr a cauda do judeu por en-
tre as farçadas da sua tramoia I . . . Queira Deus que
o author nao tenha de ir ainda purgar-se d'estas fe-
zes que lhe sujam o talento I ... - obse"ava um
leitor de theologia do convento de S. Domingos.
Sem embargo, a reputaçao de Antonio José da
Silva estava confirmada pelo delírio da mnltidao.
CAPITULO XIV
Os bens de fortuna do advogado Joao Mendes da
Silva permittiam largas ao prazer com que o velho
preparava casa com excellentes commodos parare-
ceber a esposa de seu filho.
Alugou um espaçoso predio no largo do Soccor-
ro, trastejou-o com a mobília dourada, que ainda
hoje relembra a época de D. Joao v, alcatifou os pa-
vimentos, pendurou lustres, vestiu de azulejos o pa-
teo e paredes das escadas, limpou e areou os pas-
seios do jardim, murou de vasos os alegretes, plan- ·
too trepadeiras para afestoar abobadas de folhagem ;
em tudo, com menineira alegria, cuidou afanosamen-
te o ancia.o, pedindo conselhos a Lourença, no tocan-
te aos objectos dos aposentos de Leonor.
A noiva visitou a soa futura casa, com suas pri-
t26 O JUDEU
mas, alguns dias antes do casamento; e, como visse
o jubilo do veneravel João Mendes, de Lourença e
do filho, mais feliz e menos expansivo que elles, dis-
se entre si : « Razão tinha minha mãe ! . . . Esta fa-
milia sente e goza as alegrias das virtudes antigas do
povo escolhido. •
O dia da suprema felicidade. da família Silva foi
o vinte de Abril de t 734-. As festas do noivado foram
muito gozar na casa de João Mendes, onde apenas
se viam os Barros,. 11nioa; parentes de Jorge, que
cruzavam o limiar d'um hebreu. Muitos outros ti-
nham ido supplicantes ao escriptorio de João Men-
des pedir-lhe a sua sciencia; e esses mesmos encos- ·
tavam-se despejadamente ao telonio de qualquer ju-
deu, quando a· bolsa lhes pesava menos que a fidal-
ga soberba- e os christianissimos escrupulos. É ver-
dade que estes, depois, lançavam lenha ã fogueira
dos credores, e assim saldavam contas, convictos de
que Jesns Christo, no juizo final, sahiria em defeza
d'elles, contra as objurgatorias do diabo, e depoi-
DMloto dos. judeus roubados. Santa gente, que não
tem menos razão de ser canonisada que Pedro Ar-
~ . do qual dizem que vai rezar o calendario.
Leonor estimava profundamente. seu marido: a
consciencia não a deixava doer-se da falta d'aquelle
sentimento. A profunda estima d'ella valia mais que
a superficial paixão de muitas. Antonio José da Sil-
va não sentia necessidade de ser mais amado. Se
IOJL\NCI· BIBTOBICO tt7
elle tivesse conhecido caricias d'outras, dengoices
osuaes e convencionaes, delírios de poesia, qoe des-
fecham em um insulso prosaísmo ao terceiro mez de
vida marital, póde ser que Leonor lhe parecesse fria,
fleumatica e desamoravel; porém, como ella tinha
sido a mulher unica da sua esperança, e perdida de
sua alma a considerâra, tudo que a outrem parecera
tibieza de affecto, se lhe afigurdva a elle amor, juizo,
e póde ser qne um quebranto das amargu-
ras da vida passada.
O hebreu, aporfiando em contribuir com meta-
de das despezas necessarias ã decencia de sua casa,
trabalhava muito e de fervorosa vontade nos nego-
cios forenses, sem, com tudo, levar mão das suas
composições theatraes.
Poucos dias depois de casado, assistiu elle com
Leonor ã priméira representação da sua segunda co-
media, intitulada: Esopaida ou vida de Esopo. Nos
dias d'este nosso seculo bem creado qualquer mari-
do que escrevesse a Esopaida não levaria sua mu-
lher a vêl-a em scena, e menos lh'a recitaria em fa-
mília. E, n'aquelle tempo, de tantos frades e virtu-
des, as cousas e phrases que se figuravam e diziam
no palco eram taes que hoje a policia prende a gen-
te desbocada que as diz na rua. Aquellas senhoras
não tinham nem deviam ter mais melindroso ouvido
que a virtuosa e pia côrte de D. João m, ã qual me-
dianamente incommodavam as facecias obscenas de
tiS OIIIHU
Gil Vicente, e o recitativo lubrico e sordido do Pr•·
10 de Maria Parda.
A segunda comedia corrobo.rou o triumpho que
o judeu alcançara na primeira. Andava-lhe o empre-
zario de mãos postas rogando que lhe não desampa·
rasse o theatro e o publico para quem já nenhum
outro author portuguez ousaria escrever, sem plau-
sível susto de ser assobiado.
Em Maio de t 735, novo drama de Antonio José
acudiu á anciedade das turbas, que haviam desam-
parado o theatro. Chamava-se a opera: Os encantos
de Media. Esqueceram as victorias das anteriores
comedias, deslumbradas pela ultima. O author sahiu
nos braços da melhor gente, que frequentava o thea-
tro da Mouraria. O conde da Ericeira dignou-se vi-
sitai-o no· camarote, e chamar-lhe o Aristopbanes por-
toguez.
Em Junho d'este anno, morreu João Mendes da
Silva com oitenta e um annos de idade, abençoando
esposa e filho, e a carinhosa Leonor que lhe colheu
a ultima luz dos olhos embaciados, e se viu e s p e l ~ a ­
da n'elles atravez das lagrimas rio trespasse. Lou-
rença Coutinho exorou muito a Deus que a levasse
então; o juiz incomprensivel indeferiu o requeri-
mento.
Em Maio do anno seguinte, apesar do augmen-
to do trabalho de escriptorio, que a clientela levava
ao filho, tao famigerado como o pae, representou-se
ROIIANC& IIISIOBICO
a qurta .,._. de ·Ankloio José, denominada : O A.m-
fllàtrilo' .
{) belnu tinha inimigos, nlo poderosos para o
tiJ....-..n barba por barba, mas de sobra infames
,... o ildisporem no conceito dos piedosos. Azon-
se-lhes eoBejo na recita do Ãmphitri4o: aqui se falia
• rareares, em barbaros juizes, em patíbulos, em
polés. ·Antonio José nao estudára a pbilosophia do
•exim : c Dlo fallar de corda em casa do carrasco. •
A palavra polé ia vibrada ao camarote dos f r a d e s ~
que- diga moi-o em honra da arte -estava sempre
empithado d'elles. No drama, mÍl personagem entre
ferres reGitava os seguintes versos: ·
Sorfe tgramuJ, estrella rigorosa,
Que maligna inftues, com luz opaca,
Rigor Ião fero contm um innocente I
Que delicto fiz eu para que sinta
O peso ff esta asperrima cadeia,
N01 horrores d'um carcere penoso,
Em cuja triste lobrega morada
Habita a confusão e o susto mora I
..........................
Mas ó deuses, se sois deuses
Como assim t'!JMff:namente
A este misero imtoetnte
Chegaes hoje a castigar P t
t Amphitrião- Part. 2.• Se. vi.
YOL. II
9
UlO o JW&V
· Os poetrastos, açou&ados ao I J ~ (}fM/Nie,. ....
. ram impiedade no çuarteto ; os frades viram · dlra
allosAo á injustiça do encareeraaeato no _...ofticio.
Estas interpretações chegaram ao coab-.lldt
de Silva. Indignaram-no, e logo protes&oo Dlo ois
escrever para interpretes estupidos e makadoe. ·
Protestos de dramaturgo t A paixlo en ~
ca, e tanto que venceu luctando eom os rogos de
Leonor no sentido de manter inquebraat.uel o pro--
testo de mais se nlo expôr ils insidias de · inilaiios
invejosos.
Tanto assim, que já no mez de Novembro de
t 736, appareceu no tbeatro com o Labyrintho di
Creta. Estava cheio o tbeatro e os inimigos a postos
para notarem a lapis as phrases suspeitas. O author
esmerãra-se em não dar brecha á maledicencia. Nlo
se vos depára pbrase ambigna nem elípressAo bifron-
te no longo drama: os scelerados, porém, escava-
ram, escavaram até poderem mostrar intenção offen-
siva e attentatoria da religião cbristã. Sem embargo.
porém, da parcialidade odienta, os applausos excede-
ram as ovações passadas.
Já se não irritou Antonio José contra os biltres
diffamadores. Prometteu vingar-se com a fecundida-
de do seu talento, e preparou duas operas para o
anno seguinte. Apresentou a primeira no carnaval
de t 737, conhecida pelo titulo de Gum-as do ale-
{3("
critn e mmagsrona; e, depós esta, deu para ensaios
as V a r i e d a d e ~ de Proteu.
- NAo quero outra vingança 1-dizia elle á es-
posa- heide afastar estes cães dos calcanhares com
a nobilissima arma que elles não merecem. Provar-
lhes-hei que fundo o theatro nacional, em qua_nto
elles escavam com as garras a sepultura da soa inu-
tilidade. O conde da Ericeira encarregou-se de dis-
suadir algum inimigo dos temi veis que tenho. Os ou-
tros, os invejosos, beide esmagal.:Os debaixo do peso
da soa ignominiosa paix!o.
CAPITUL9 XV
Detiamos ter feito UIJla solemne e . festiva para-
gem no armo de t735. N'este anoo, aos einco de
OtHQbro,. Leonor foi we. Era uma menina, que. oa
pia baptismal recebeu nome de Lourença, por chamar·
aa assim sua avó e madrinba. Diogo de Barros, que
já .o lif\ba sido do casamento, foi padrinho da neta d9
seA sempre elaorado Jorge de Barros.
Eatlo se consummou a felicidade de Leonor.
ella, ao estreitar ao seio a que lá do in-
timo se deseotranhavam affeetos novos, alegrias dou-
das, oonsolaC)iies ineoarraveis. Parece que d'aq,uella
_,arabundaocia de amor, grande parte vertia ella no
coraçAo do marido. Agora, sim: amava-o, Lernamen-
te o amava, o sacrttiasimo mysterio do
alilor ésposa ou. delicias da ueraidade •

i34 O JUDEU
O primeiro anniversario de Lourencinba foi fes-
tejado com pompa. Antonio José da Silva abriu as
suas salas aos amigos que a sua reputaçAo lhe crea-
ra. A sociedade dos dignos homens de letras, que
frequentavam o palacio dos Ericeiras, gratamente se
curvou a beijar no berço a filhinha do mais festejado
e popular talento do paiz.
Agora, atemos o fio no ponto em que deixamos
este ditoso pae planejando instrumentos para aft'ronta
e completa vingança dos baixos detrahidores.
N'este tempo, recebeu Antonio José da Silva,
como em todos os paquetes, carta do seu amigo Fran-
cisco Xavier de Oliveira, respondendo na maxima
parte ãs queixas enviadas pelo hebreu das interpre-
tações calumniosas que a gentalha litteraria dava âs
suas operas, no intento de irritarem eontra ell& o
santo officio.
Francisco Xavier dizia-lhe que sahisse de Porta-
gal quanto antes ; porque se o rastilho da polv&ra
chegava á santa casa, não havia forças de conaramióa,
e a conflagraçao seria inevitavel. Lembrava-lhe Hol-
landa, Italia, Inglaterra como paizes liberrimos, e
alentadores d'altos corações e espíritos. Promettia .. Jhe;
se elle a quizesse, posição honrosa na embaiuda do
ministro conde de Tarouca, homem de boa alma qae
o bana de estimar grandemente.
Depois, con1ava-lbe a realisaçle do seu casamento
em Vienna com mademoiselle Eufrosina de Pue8b-
ber« e Dlzinr. meoiu de virtades condignas de seu
bem que desprovida de dote.
Relaaava moi de espaço e deseafadadamente um epi-
se6W qae .lhe soccedêra, quando foi ao consistorio
pns&lr juramento. de qoe sua primeira mulher tinha
morrido. Tnsladaf..o..bei como élle o reconta no seu
ÃtnuMnent périodique do mez de Julho de t75f.
Ames, porém, do extracto, o autbor que
pDI"· 110800 tempo o detenha para me ajudar n'om
averiguat;ao importante, quando se trata da biogra-
ptria, mas rapida que seja, de tao celebrado sujeito.
Dizem ·unanimemente os biograpbos de Francisco
Xavier de Oliveira que elle sahira de Lisboa, na qua-
lialde de secretario do conde de Tarouca, para Aus-
tria, ero t73.\. Uniformes as..cwvenm qoe elle ia jã
Yiovo ·de soa primeira mulher Anna Ignez d' Al-
meida. O snr. Ionoceneio Francisco da Silva, emi-
nen&e esquadrinhador dos traços principaes da vida
dos escriptores que biographa no seu valioso e pres-
IMllissimo diooionario, diz com refereocia a Francis-
co Xavier .de Oliveira, firmado no parecer unanime
de seus antecessores, o seguinte : . . . « achava-se no
estado de viovo, quando por obito de seu pae foi no-
1883do para o substituir na qualidade de secretario
do ceade de Tarouca, entao ministro plenipotencia-
rio em Vienna d' Austria. Aos t 9 d' Abril de t 73.\
sahiu a barra de Lisboa, deixando a patria, para mais
não tornai-a a vêr.,
t36
0- I
Ora, se FraooiltA) Xavier -.. viMe- ele Li ..
D 1734-, e paMOa a IWpfÃIS em Aoalril.
seria absardeza irrisoria que eHe Clllla _.
pda vez e. t 733·, isto é, que pi8IOO ·a llpDiill
nupcias antes de vim'O da primeira mulher. E, ......
tanto, o. leitor tem de julgar entre o cavalbeiro •
Oliveira e os seus biograpbos, depois de 111' aa ._.
tuaes ·palavras qoe voo copiar da nam&i•a ,...,...
aaeote d'elle: Ean 1733, siaAI résol8 de COII/INclfr
de &econdes 1Ukes à Vàenae t, je fm dr f1i*1r
era personne smnent detJanlle conliltoWB diJ UIIBAJ.
le, que ma femme etaile morte ele. • E' elle
pois quem assevera que deliberou IDitriaonitr-ee ....
gunda vez em t 733, um aono antes da sua Slhida
de Portugal, conSOAnte a data assignada pelos mog..
phos melhormente informados. Poderá eonjéctarlr-
se que a realisaçao do casamento foi posterior algoDa
annos á deliberação de casar 'l Nlo: a bypotbese é
prejudicada pela affirmativa de que elle sahia de p_..
togai para Vienna em t 734- : fôn preciso qae ele
fixasse, ao menos,- este anno, pan poder villpr a
hypotbese da distancia temporaria entre o in&eoto e
a realisaçao. N'este caso, por qual das datas se deei ..
de o leitor'! Inclina-se a crêr que todos os bio«N-
pbos se enganaram, por ser Francisco Xa'rier de
Oliveira a authoridade mais verdadeira em eoasas
t Avec Mademoiselle de Paecbkrg et Bnsing.
RONAJ.Wa• IIIRORICO tat
que lhe priDDipaiiMDte a elle· tec11a 1 Nlo COMtrda-
mos. Eu abundo ·no que está dito e ctafinlaOO ,.
lilsrepbos que deviam examinar rompetelttemeate o
-.& em que Franciseo Xavier enviuvou, • o aoao
em que -sabia de Portugal. A meu juizo, a iDCOD-
If'Uencia d'estas datas prooede d'um erro
eo na ultima letra numeriea do aooo desiJDido ·no
periodico do c.avalheiro de Oliveira. A ptlbliaa(to •
ftita em Loadres, e eu suspeito que o escriptor. n'a-
qaelle aooo de t 75t , tivesse a vista muito debiliia-
da pelo chorar, senão pela fome. Viu aal as
Wta que muitas vezes nos otrerecem es&es doas q..
lumes. Se tal suspeita se figura argumento pouq ..
simo ou nada solido, a favor dos errados biogra,._
do cavalheiro de Oliveira, entao vejamos se o ·ca-.
lheiro de Oliveira se desmente.
A pag. 349 do 2. o vol., no periodieo d'A1osto
de 1751, elogia Francisco Xavier de Oliveira eneo-
miasticamente a felicidade da vida matriaonial, e dil
o. seguinte, que vai traduzido para estlarecimento
d'alguns poucos: «No 2.
0
volume das minhas Car-
tas familiares, historicas, etc. impresso ·Da Haya eaa
174-!, dei ao publico parte do que voo aqui· referir-
lhe. Mas, áeerca d'isto, convem que eu faça •
observações: t . • que eu era solidamente ligado i
igreja romana, no tempo em que discutia com o eoo.
de de Claravino em t 735, e ainda em t 736 ... •
)
...
o . .._.
Que dileossões ema estu do eanlheiro eom o
IlUde? Deelaram-se adilme pag. 354 ..
EsereYe Francisco Xavier : - • A suprema lou-
cara, me dizia o conde de Olaravioo, é o casameo-
to, e ea DAo sei qual seja a estaçAo da vida apre-
prilda a semelhante tolice I O casamento é o JMIOI'
dos males : é uma escravidlo, um inferno I - Es&aes
• erro, seohor -lhe repliquei - O easameot&.
DO meu· mOEio de vêr, é o mais bello, ais oommo.,
do, feliz e util estado da vida. Errado andaria eu
1IIDbem se dissesse qne em todo casamento se HSO-
eilmn aqoellas excellencias; mas que ba abi casa-
meo&os em que ellas se conjunetam, isso acreditei-o
.-pre e acredito ainda. Devo pugnar por tal esta-
do. Aquelle em que eu me vejo t é tao desgraçado
que só a selvagens convem .... •
Esta pratica ou discussao com o conde de Cla-
rPioo deu-se em 1735 e ainda em t 736. Não ba
alri, pois, •is evidente cousa que a impossibilidade
de ter o cavalheiro casado segunda vez em t 733.·
AJti está, por tanto, justificada a affirmativa dos bio-
papbos em quanto ao anoo da ida do cavalheiro
pll"l a· Austria. Parece-me agora de todo aceitavel a
l q ~ t b e s e do erro typographico, porque é inadmis-
sivel a leve%1 da contradicÇio em escriptor tão r&-
ftec&ido.
t Eu estava então viuvo por falleeimento de minha primeira muJher
D. Alma lpez d'Aimeida. Nota do eaYalbeiro de 06veira.
IOIIARCI IIIM'OIUCO f 81
l8tã o-leitor enfisliad& jã d'lllls es-
garavatações. Ia4ulle-u 6quelle noeido adlaqae doi
muitos annos que inclinam os velhos a esta 00011
de peneirar a poeira dos seeulos ; d'onde resalla
sahir--se a gente com os ofbos cegos de pó, sem aobar
pedra que valha na joeira. De mais d'isso, a lllila
que, se alguem viSI8 a errada data d'•
tes livros do cavalheiro, me arguisse de inventor de
anàehrooismos ineulcadamente historioos.
Vamos agora todos melhorar de sorte, asaistindo
a um lanee, com o qual se bAode eosoberbar 01
adnaes eavalleiros da ordem de Cbristo, pelo que
já d'aqoi dou os parabens ao meu barbeiro.
Narrava, pois, Francisco Xavier enllo a sua ida
ao eonsistorio allemao para dar juramento de sua
viuvez, e continua agora :
c Á entrada do tribunal o porteiro pediu-me a
espada. Recusei-me. Deu-se parte ao bispo-presiden-
te da recusação. O prelado, que me conhecia,
mandou-me dizer por um dos eooselbeiros, que eo
devia submissao As leis do paiz, e antigos uBOS do
eonsistorio que nlo permittiam entrar algoem de
espada. Redargui que o principal adorno da minha
ordem consistia no uso da espada ; e que um dos
seus maiores privilegias era poder,. e a&é dever tra-
zei-a em todo tempo, sem exeepoJo do acto religioso
da communblo, a qual me era permittido receber
de espada ã cinta.· Fez-me o bispo saber que o conde
uo . ' Q..WQU •
48. SG8Ddorf, poucos dia& am..-. iado ao
rie, do .duvid*'a deiaar a espada
teiro ; que eu bem sabia que. elle era ®
'10518, e podia eoateatar-IM com exeeplo, e Slt
pü.o. Retolqui oo conselheiro que a ordem do. 'l'tw
SIQ, oom q113nto illustre, não froia os privilejot
que os papas e outros príncipes ba.iiam conferi®. is
erdeos militares. E, que tendo eu a bQilra de pro.
fessar uma. d'estas. nlo cabia em meu arbiario •
d'eUa, enlregaodo a espada, da qwtl nem
e rei propriamedle podia privar .. me, saho sendo e'
oulpado de crime de lesa magestade. Em fim, disse
eu gracejando, mais facilmente prescindo passar: &ell
a mulher que sem a espada : uma posso renuneial-a,
a outra nao.
« O conselheiro irritado pelo gracejo, ou cançado
de mensagens me disse de má sombra:
que o senhor pretenda ser preferido ao O.Onde de
Sinzeodorf, e Dlo distiflia entre pessoas.! Respon-
di : c As distiocções nAo estã o senhor coosetbeiro
no caso de as fazer: o4o é o cavalheiro de Oliveira
que oontende com o conde: é a ordem de Cbrislo
com a do Toslo. Faz-me muito favor se se dignar
participar i$to ao snr. bispo.
c O bispo, depois, mandou-me entrar n'wn quar-
to, onde estive sosioho uma boa hora. Em seguida,
andou-me ir ao cousistorio, e pre$1ar jupmeoto,
cem a espada á eio&f. ()e&ÇQ)pou-$e do
ROMAI'fiji' lkiroRICO Ut
dizendo que ignora'fa do se tinha esqoécido de que
-a ordem de Chtisto era militar ... »
D'esta infatoada narrativa, passava Francisco Xa-
tier a contar os escandalosos amores de D. Luiz da
Cunha, ancillo de oitenta annos, ministro de
gal em Paris, o qual se apaixonára na Haya por uma
snr.• Sal'r.ldor, judia, pertencente a uma familia he-
braica estabelecida em Hollanda, e a trazia comsigo
pelo tnundo. Conta que estivera eeando com elle e
ella, e pasmara do temperamento amoroso do decre-
pito ministro, quando lhe elle disse: • Sem amor
hlo ha vida feliz ; a paixao do amor é o mais agra ..
davel negocio da vida, e todos os prazeres são en-
foativos, se o amor os não aduba. , E, dito isto, to-
mára a mllo da bella, e exclamâra :
Est-il risn de p1us beau que finnoeente ftarrie,
Qu'un mmte altume dans une ame?
Et serait-ce un bonheur de respirer le j&ur,
Si d' entte 168 mm-te1s on bannissait f amour ?
Non, non, toos 168 plaisirs se gdutent à 1e $Uit>re,
Et vivre sans aimer n' 68t pas proprement vivre.
E, depois, a Salvador, por sua vez, tomou a
mão do velhinho, e declamou :
Aroàr un amant d'un merite achevé,
Et s' en voir cMrement aimée;
tU o J1IDIU
Cest un IKmh.fur si Aaut, si rel8vé,
Que sa grandeur ne p6t1t e:eprltnéf!.
Francisco Xavier mostrava-se vivamente compa-
decido da senil miseria de D. Luiz da Cunha, aliás
babilissimo ministro ; porém, o que elle nlo podia
perdoar-lhe era o eseandalo de conferir a ordem de
Christo â Salvador, ao pescoço o cordAo
e a cruz que ella usava publicamente, denominando-
se cavalleira da ordem real de Portugal!
c Como quer qne seja, termioava Francisco Xa-
vier escrevendo a Antonio José da Silva - sabe
d'abi, vem para este grande mundo, onde ha ridico-
lesas d'este taiJ}anho; vem gozar a vida, repartindo-a
entre a seriedade do estudo, e as brilhantes futilida-
des, de que a gente se póde rir impunemente. En-
fardeta a trouxa, e parte o mais breve que possas •.• •
- Que te parece?- perguntou Antonio José a
Leonor.
-Vamos I -exclamou ella- mas o thesouro
da Bemposta ? I •••
PARTE QUARTA
CAPITULO I
O expediente de vingança, que mais nobre •
offerecera ao honrado animo de Antonio José da Sil-
va, nAo dava os esperados effeitos. A gneiTa, pri-
meiro surda, já rumorejava nas praças, nos concla-
ves pios, e peor que tudo nas cavernas do SJDlo ol-
ficio.
·Duarte Cottinel Franco procurou, eom magoado
aspeito, o seu amigo de infancia para lhe recommea-
dar precauções vigilaotissimas, assegurando-lhe que
de seu pae, qualificador do santo officio, soubera
que uma pavorosa tempestade se estava formando •
bre a cabeça do innoeente author das operas ; e, COIIl
immenso desgosto, era elle inefficaz a conjurai-a C08l
o raciocinio.
Disse Antonio José a Doarte Cottioel que se dis-
, I,
1
ponha a sahir de Portugal, tao depressa liquidasse o
wlor dos poucos bens que herdára.
-E o thesouro da Bemposta fica ? - pergun-
tou Duarte.
-Se fica ! . . . Sei eu, por ventura, se tal the-
sooro existe? I
-E o annel n!o chegaste a vêl-o?
-Não ha annel nenhum, homem I ... -tornou
Antonio-Em horrível annel de ferro me querem
cingir e afogar o pescoço estes cafres tonsurados a
quem eo não fiz mal nenhum I
E, com palavras desviadas do assumpto do an-
nel, o hebreu foi declinando a conversação para es-
~ Y a r - e e a perguntas. e respostas falsas oom que se
lhe mortificava a conscieneia.
Duarte deixou-o a scismar no thesooro.
-Seria uma doudice, dizia Antonio José a Leo-
nor, sabinnos de Portugal, sem ao menos levarmos
a certeza de que jâ foi roubado o cofre de teu pae.
A riqueza, se é tanta CODlQ diz o rol, dar-nos-hia
em toda parte do mondo uma folgada vida. Porque
nlo tinha tua mte confiança n'este Duarte?
- Porque eu lhe disse que a n1o tivesse- res-
. ponden Lourenca Coutinho-E a ti, filho, conjuro-
te que a nAo tenhas. Vai perguntar a Diogo de Bar-
ros que rata de gente é esta dOs Cottineis.
-Mas - tornou Antonio- se eu fizesse as cou-
sas de modo que nAo podasse ser logrado por Duar-
BOIIA!fG& BISTORICO
te? Se eo fosse pessoalmente desenterrar o thesoo-
ro, e o trouxesse commigo "!
- Acho que seria capaz de te matar lã
mesmo!
- Elle qnem "! Duarte 'li
-Sim, Duarte.
-Ora, minha mAe I es1á formando um injusto
e ultrajante conceito do homem ! Que é dos crimes
d'eJie que a authorisam a conceituar assim um ra-
paz que nunca nos fez mal, e de toda a gente rece-
be provas de estima, e foi elevado por soa honra ao
srande emprego que tem no paço dos infantes !
-Antonio, nao te fies n'elle I Que interesse
póde elle ter- replicou Loorenca Coutinho - em
que tu aches e possuas o thesouro ! Se tantas vezes
lhe temos dito que o tbesooro é uma ou, se
Dilo é fabula, é cousa perdida, para que anda elle
sempre a fallar-te no annel do contador-mór'!
-É porque se mortifica, pensando que descon-
fiamos de soa lealdade ... E então, Leonor, como
entendes tu que procuremos desenganar-nos'?
-Eu sei! .•. A dizer verdade, o tal Duarte não
me merece confiança; mas póde ser que todos des-
acertem, menos te, Antonio. Dizes que irias tu mes-
mo buscar o oofre, e trazei-o para tua casa. Se as-
sim fôr, não sei realmente como Duarte possa rou-
bar-t'o. Póde ser que a idéa d'elle seja receber uma
porçlo do3 objoot()s. Se fôr is.so, dá-se-lhe alguma
VOL. 11 i0
U6 O JUDEU
cousa, que nos hade ainda ficar muito; Pois que ou·
tro intento hade ser o d'elle' Fugir com o tbesou-
ro "! Isso nao o fazia elle, porque era perder a hon-
ra e o bom officio que tem com esperanças de outnl
melhor. O que elle quer é que o remuneres, e tu
lhe darás o que fôr da tua vontade, meu amigo. Com
tudo, nllo te animo nem desanimo. Faz o que enten-
deres, sem desfazer nas apprehensões de nossa mie.
Antonio José da Silva andou cogitativo muitos
dias. Atormentava-o o thesouro I aqoelltt foco de pe-
çonha que distillara lagrimas, desgraças e odios, no
espaço de quasi cincoenta annos, desde o dia em que
Luiz Pereira de Barros preferira Jorge entre seus
irmãos com afagos promettedores da herança do se-
gredo, até áquella hora, para além da qual Lonrença
agourava novos desastres.
E, ao mesmo tempo, o conde da Eajceira e ou-
tros amigos de igual tomo diziam-lhe que sahisse de
Portugal por alguns annos e voltasse em melhor épo-
ca. O conde lembrava-lhe que fosse a Paris estudar
os grandes mestres da arte sceniea, aquecer-se aos
atomos luminosos d'aquelle ar todo sciencia, todo
inspirações, e voltasse depois a continuar a sua pri-
mazia no theatro, de teor que podasse lustrosamen-
te reformar, senão crear, a arte dramatica em Por--
tugal.
Abraçava o hebreu alegremente estes conselhos,
e retocava a sua opera chamada o Precipicio·de Pha&-
ROIIAIC& JUSroRICO U7
toais. para a fazer representar como triomphal adeos
qae elle data a ingratos, a estupidos e a acelerados
malsinadores de sua consciencia r
Precipício de P l u u t ~ e J que titulo tao presa-
go r • • • que funestos agouros Leonor aventava d'a-
quelle titulo significativo de desastre r
Duarte Cottinel, depois da representaça.o victo-
riada das Variedade• de Proteu, em Maio d'aquelle
anno de t 737, procurou-o para lhe mostrar os ~
lanços e phrases da comedia, que, por ordem da
censura, a requerimento do inquisidor geral, tinham
sido riscadas.
Algumas phrases eram estas:
Amor nos homen11 é o mesmo que querer bem;
11a1 bestas muares é o mormo, e ~ outros animau
appetite.
- Entao isto em que otfende a religião ou os
bons costumes'!- perguntou o hebreu.
-Não sei.
- Provavelmente os censores não qoerem que
o seu amor seja mormo !
- Hade ser isso .•• - obtemperou o risonho
Duarte.
-. Que mais riscaram 'l
-Isto : islo é gloria do cto da bocce1 : dizem
que mettes a riso ·a gloria do céo.
-Menos a d'elles, que é a bemaventurança dos
parvos. Que mais 'l
U8 OJtJDIO
--·Di•m qne fazes galhofa do i n ~ r n o , quando.
eséreves isto : m glorio, do amor ha BOmbras do .-....
(erno.
- Ora I noo os màndo para !ã por nlo injuriar
o diabo com taes b(l)pedes. Tu dirás onde os beide
mandar.
-Dizem mm que ultrajas as leis divinas do
aasamento.
-Aonde'i' em minha·casa, ou na d'elles't
-Na comedia. Aqui esti o escandalo: E lJflfS
MJria o magano que lal lti invett10t1? (a lei do ma-
trimonio) Foi Apollo em despique do rigor de Daphm.
-Basta I -exclamou Antonio José- Plenissi-
ma liberdade a essés borros de escouoearem a mi-
aba comedia I Sujem e risquem ã vontade os sevan-
dijas. Nao quero vêr mais nada. Cafraria hedionda,
terra empapada em sangue e Iagrimas, nao comerás
meus ossos!
-Olha mais, Antonio.
-NilO quero : faz-me nojo todo isso, nojo e ver-
gonha de ser portugnez t Vou mandar buscar ao
tbeatro o Prstipicio de Phaetonte . .• Voo queimai-o ••.
-Mas nao digas nada, meu amigo .•. Lembra-
te que em Portugal nao se queimam só operas. Pru-
Encia, prudencia, Antonio! Qualquer denuncia póde
boje perder-te.
Antooio José reflectiu, abraçou Duarte, e mar-
ROMAI'ICB .-rucO
DIJMD eircum,asando -os- olhoa, eolBO se reGeasse
tet1 lido escutado :
-Tens razão. Nao direi nada. . . Cllidarei •
fugir, jã qne me olo qDBrem .•• Meu at*igo, áma-
IM.lfoo pooéariNe, preciso ·fallar · comtigo a sq...
Ao meio dia.
JAarença Coatiobo as ulâlll8S palavras do
filho, porque o espiata sempre que Duarte Co&tioel
eseitesse com elle. AS&im qDe o almo:x.aritb sahiu,
entrou ella, perguntando:
-Que vaes ar illliDhi a easa de Duarte'!
- Vou lã. . • lá ir-respondeu de mã
caladora Antonio.
-V aes descobrif..lbe o segredo 'I
- Não sei. Que assedio I que importunàçao ! ...
Minha mle quer voltar ás masmorras do santo offi-
mo '! Quer vêr como os meus ossos estalam no Cclm-
poda Lã'!
-Oh filho I que desatinos estã dizendo ! -ex-
clamou a atribulada mae.
-Preciso sahir de Portugal, entendeu, minha
mãe'/ Quero salvai-a, salvar-me, e minha mulher, e
a minha querida filhinha. . . comprehende bem esta
resolução feita, depois de cabalmente informado da
sorte que me preparam os algozes, cujos apparelhos
de tormento jã eu experimentei n'estas mãos e n'es-
tes braços?
-Pois, sim, meu filho, fujamos.
uso O IUDBU
- FnjaiDCI8 sim ; mas sabe vm. ee a quflll eu
devo o aviso da minha futura sorte, se m ~ aqui de-
morar'! i a este excelleote rapaz que minha mãe
detesta r É a Duarte Cottinel que me falia com as
laBfimas DOS o l h ~ e O conçAO DOS Jabios r Sou-lhe
grato, estimo-o, preso-o como a meu irmlo. Os ou-
tros lisongeam-me, e perdem-me ; elle, notaodo as
'minhas imprudeneias, manda·me fugir.
-POis sim. • • mas vaes dizer-lhe onde está o
&besouro'!
-E que vã'! isso que monta?
- Nida .•. - balbuciou Loorença Coutinho, co-
mo assustada da exasperação do filho.
, Leonor aproximou-se da, sogra, e disse-lhe atfa-
velmente:
-Deixe-o lã, mie, deixe-o que elle jã tem ex-
perlencia da vida, e dete conl1eeer Duarte melhor do
que nós ...
CAPITULO II
Duarte Cottinel esperava em alegre sobresalto o
hebreu. Fallava em soliloquio, como quem precisa
expandir-se, communicar o seu rejubilo aos seres
c A final- dizia elle á sua sombra, ao
demonio exultante de sua consciencia- a final o meu
presentimento I)Ao era um sonho. Posso ser rico I •
Ás onze horas entrou Antonio José da Silva na
casa do almoxarifado da Bemposta. Sahiu Duarte a
recebei-o, e disse-lhe com melancolicos esgares :
-Virás tu despedir-te, meu querido amigo 'l
-Ainda não. Porque m'o perguntas 'l Queres
dizer-me que devo sahir já 'l Sabes alguma cousa 'l
-Nada mais sei, Antonio- respÕndeu com in-
decisao Duarte- E . tu soubeste mais do que eu te
disse'!
O JDDEU
-Não. O santo officio anda em cata de provas,
que até hoje lhe não déste satisfaetorias. Bem sabes
que esta gente, quando se resolve a victimar algum
assignalado pelo odio d'elles, sepulta-o nas masmor-
ras, e depois inquire das provas. E estas tambem tu
sabes que saltam da bocca dos torturados, quando
ha mingua de testemunhas para levar o processo i
Relação. Por isso, meu amigo, não deseancemos so-
bre a tua innocencia. Fugir em quanto é tempo ; to-
davia, persuado-me que .mo 6 apertada a urgencia
de fugir já. Arranja os teus negocios, vende clandes-
tinamente, se poder ser, os teus bens, que poucos e
faceis de vender, creio que são. Pobre sabes de Por-
tugal; mas em Amsterdam acharás hebreus que te
soccorram ; e, se te valeres de teus irmAos do Ri&
de Janeiro, que estao ricos, poderás obter casco e
fundos para negociar e ·auferir o qué as letras nao
podem dar a ninguem. Vaes pobre, meu caro· An-
tonio! Teu pae, no trastejar a casa em que moras,
gastou alguns panhados de ouro, segundo .corre ; e
-tu consomes mais do que lucras para manter tua se-·
nhora em fidalgas regalias. Nao te culpo d'isso, que
ella, além da nobreza de seu pae, tem a nobreza
propria que a torna digna de estar em cadeiras d'ou-
ro, e servir-se. com princezas. A dando-
te aquella menina, indemnisou-te das amarguras que
os homens te causam com tanta crueza, que .é Ter-
gonhoso fallar a lingua d'estes barbaros, que dizem
ROMANCIII· Wl!n'ORICO tU
faltar. a linguagem dos apostolos. .• • Meu ami<o, ...
hes CJ1I8 eu espreito a bomsea i&evitavel que te
ameaça ; por ora os vento& sopram de bom Ude; •
sim que eu vir escurecer-se o céo com as sombras
do inferno, aviso-te. Isto já frequentes vezes t'o dil-
se, Antonio. Agora, se tens algumas ordens a dar-
me, aqui eslou. Queres talvez que eo me. eatiJI'I'ei.
goe disfarçadamente da venda das toas cousa& t t
issof
.
- Nao é. • . Vou abrir- te a minha alma f -
disse expansivamente Antonio Josb.
- Ainda agora'? Ú ingralo I pois ainda agora me
abres a tua alma '!
-Foi forçoso; violentei-me. . . era necessario.
Nao queiras que eu te explique a raziO" d'uma reser-
va indigna de ti e de mim.
- Vaes fallar-me ...
- No thesouro escondido n'esta quinta.
Duarte compoz a custo o semblante que parecia
abrazar-se e intumecer-se de alegria. Passados i n ~
tantes, disse :
-Eu sabia que o thesouro nãO era tabUla. Rea-
peitei a tua reserva, confessando-ia que me doia,
porque era mais que affrontosa para mim. . . e lam-
bem para ti, que me conhecias desde os onze ao·
nos.
- Nao m'o recordes, Doarte. Perdôa-me, e es-
cuta. Presumo que existe o cofre do antigo contador-
aór:, bisavô de mioba mulher. Esta casa e quinta
(Iram reYolvidas desde alicerces e raizes; mas o lo-
cal do &besouro nlo foi bulido •..
- Eotao era certo existir o annel '!-atalhou
Duarte.
-É certo existir o annel; Leonor é d'eUe de-
positaria, porque eu nunca mostrei leve desejo de
~ r as letras reveladoras do segredo, em quanto se
nlo facilitasse o ensejo de exhumar o cofre. Dizem
as letras •••
-Eu nao te fiz a pergunta -interrompeu Duar-
te com vebemencia - para que me traduzas o que
dizem as letras. Não quero saber. Basta que o saiba
no- momento em que me tu d i s s e r e ~ : «é aqui •.
-.. E porque nao hasde sabei-o jã '! I
-Porque não quero : são melindres que tu me
basde respeitar.
-Queres que eu assim me corra de nlo ter
sido franco e sincero, quando me interrogavas sobre
o thesouro '!
- Nao é isso, nem te sei ao certo explicar _ o
que é. Vamos. ao importante : queres tomar conta
do thesouro, nAo é assim '!
-É.
- Quando'/. . . não póde deixar de ser de noi-
te ••.
-Seja de noite ã hora que determinares.
- Convem-te hoje'!
USG
-E a-ti?
mün eonvinhHae mais ámanht, porqae
hoje até noite alta DAo posso deixar de fechar as
contas do trimestre que heide ámaohl apresentar aos
infan&es. Póde ser áiDIOha ás onze horas da noite 'I
-Sim, meu amigo, q .. ndo 'menos incommodo
te seja.
-Ora diz-me lá, calculas que 01 valores escon-
didos te abastem para viveres independente em Pa-
ris ou Londres?
-Presumo que sim.
-A quanto monta segundo o '&eu calculo?
-Cento e eincoenta mil cruzados, a julgar apro-
ximadamente das verbas designadas n'uma pagina.es-
eripta pelo punho de Lui:r. Pereira de Barros.
muito dinheiro 1-exclalllQU· Po-
des viver vida de prineipe onde quer qoe te sin-
tas bem. Vai para·Roma, que eu aposto que os car-
deaes vto cear oomtigo todas as nQites, sem te per-
guntarem por Moisés nem por Cbristo I
- Nlo ambiciono apparatos ostentosos, -disse
Antonio lQsé- O que eu queria era socego e ale-
gria. Teobo aquella filhinha que me eslá sendo um
anjo recompensador, esmola e riqueza do céo. Desejo·
ser rico para ella. ·Leonor e eu, e a minha pobre mae,
com, pouco viveriaJQos, e talvez felizes,. se o terror
da perseguiçao religiosa nos nao tivesse sempre so-
breaaltados.
tl6
-Fazes bem, fazes bem- toroou Duarte-
Fere, assim qae te eu diiMr qae fujas. Dtbmo de
juramento te· digo, e jaramento te peço· para que
nunca reTeles o que voo dizer-te. . .
E abaixando moito a ror., e espreitando o
redor contigua á sala, dias&:
-Tens um optimo espião por ti no sanlll ·of:IL
cio •.. É meu pae I Vê to ·a que extremos chegou a
amizade que te tenb&. Meu pae, quinze dias antlk
de se decretar a toa prisão, hade ser avisado, sem
que ningoem o ·avise. Elle entende e lê nos TeCOn-
ditos desigoios d'aquella gente, que lhe é detestavel,
porque meu pae, se finge tanta orthódoxia religiosa
como elles, é porque os temeu e ainda teme. Com-
prehendes, Antonio, o sagrado d'esta
- Comprehendo, meu querido Duarte f -ex-
clamou Antonio José da Silva abraçando-o com en-
thusiastico reconhecimento.
- E então já vês - insistiu o almoxarife -que
escusas de fugir antes do meu aviso. Póde a1é ser
que a tempestade se desfaça.:. tu ·jttizo; An-
tonio. Manda as comedias ao diabo. NAo escrevas
senao nos autos ; e, se te parecer, manda os autos
· tambem de presente â alma do Papianno e do Bar-
tboiO e do JoAo das Regras qoe devem estar no
inferno. AmanhA és rico, riqoissimo. Nao careces
de trabalhar ... Sabes lá tu o qoe é ser rico! O que
é ter um coche e mulas lustrosas I lacaios e mordo-
IOIIANI& .!IORICO
IBGS I poetas a eaotarem-te os espirros como agou-
ros «falpnn grande suceesso qoe vai felicitar a pa-
tria I Nunca pensaste nas delicias de ser rico I Os
hOmens, os frades, os grandes, a natureza, tudo âs
toas ordens I E as mulheres? Nilo quero fallar-te
das mulheres, porque tens uma qoe vale por todas
as tjae abrilhantam es.te mundo com a sua formosu-
ra ; mas se tu precisares d'um semlho de anjos, cui-
das que não ias buscai-o ao empyreo '! ú Antonio I
quando estiveres senhor dos teus cento e ciacoenta
mil cruzados, verás o que é têl-os, vêl-os, contai-os,
pllpakls, vigiai-os, convertêl-os em primaveras infi-
nitas, em deleites interminaveis I . . • Oh I ..•
Duarte, no febril a(ógo do seu enthusiasmo, ora
torpe, ora lyrico, poderia denunciar a voraz cobiça
que lhe aeceodia entranhas e olhos, se ao lado de An-
&onio José estivesse um terceiro, observador de animo
frio. O infame temeu-se da incontinencia da apologia
da riqueza, e desandou n'uma risada, exclamando :
-Maganão I estavas a estudar em mim algum
Cresso avarento de gozos que tencionas pOr no ta-
blado para alegrar o povo com as suas exclamações I
-Não, meu amigo, estava a imaginar que tu se
fosses rico, em vez de cobrires de ouro os caminhos
da toa vida, farias com o teu ouro melhorada a sor-
te de muitos pobres, que se haviam de alegrar mais
com a esmola, que tu ·com a posse das riquezas da
casa de Bragança.
4.58 O IUDIU
- Póde ser que te nlo enganasses- volveu gra-
vemente Duarte-O gozo de ser rico deixa de o ser,
quando o ouro não compra as alegrias puras da alma.
Tu hasde saber repartir o que até aqui te foi desne-
cessario. Felizes aquelles que se aproximarem de ti t
· Abraçaram-se. Antonio José da Silva despedia-
se com os olhos vidrados de lagrimas, murmurando:
-Eu queria nao mais separar-me da tem onde
to vivesses, Duarte I Igual a ti só tenho um amigo
n'este mundo: é Francisco Xavier d'Oiiveira. Quan-
do eu lá fóra o vir, dir-lhe-hei que Duarte Cottinel
Franco tem uma alma irmã da soa. . . sao duas al-
mas que Deus formou no mesmo molde.
Dito isto, sahiu commovido.
Duarte Cottinel sentou-se, como se a carga da
infamia lhe dobrasse os joelhos ; põz as maos na ca-
beça, e ouviu este grito da consciencia:
- Que atrocidade ! . . .
Instantes depois, ergueu-se, estirou os braços,
estalejou os dedos das mãos inclavinhadas, e resmu-
neou surdamente :
-Cento e cincoenta mil cruzados I ...
CAPITULO III
-Sempre resolveste procurar o cofre, Antonio?
-perguntou Leonor.
-Sim, minha querida, resolvi; mas não o di-o
gas á mãe. Custa-me a crêr que ella seja capaz de
julgar tão aviltantemente o nosso all)igo Duarte! ...
Os elogios respeitosos, que elle te faz, Leonor, pro-
vam a excellente índole d'aquelle homem ...
-Mas - objectou Leonor - não te ouvi eu
dizer que elle era bastante estragado de costumes 't. ..
Então sonhei ...
- Disse-t'o; mas a desordem dos seus costumes
não faz repugnancia ao que se chama probidade. Era
a libertinagem propria dos vinte annos a que me eu
referia. Desde, porém, que se occupou em mordo-
misar os rendimentos dos infantes, r.ao sei que nin-
160 O JUDEU
goem o exceda em· morigerada regularidade de vida.
Que nos faz a nós, para o nosso intento, que elle
extravaganceasse lá na sua mocidade 'l Na o go1.a cre-
dit,os de honrado Francisco Xavier de Oliveira 'l E
quem foi mais libertino que elle '!! Ora queres to
saber? É tao escrupuloso Duarte em pontos de hon-
n que nao quiz saber onde está o thesouro, e disse
qne.bastava sabêl-o no acto em que eu lhe mostraSse
o sitio, e dissesse: «é aqui ... Ha, por ventura, som-
bra de suspeita que nos absolva de desconfiarmos
d'eUe'l
-Creio que não - respondeu Leonor com in-
deciso ar meditativo- Mas ..•
-Mas quê'/!
-Olha, Antonio. • • As suspeitas de tua mãe
póde ser que procedam de antipathia particular que
&em com o homem ... Será isso, será ... Entretanto,
o meu coração tem presentimentos fataes. • • Eu,
quando sahi de Amsterdam, adivinhava quantas des-
graças sobrevieram; 3'inda antes de as esperar, a
meio caminho de Portugal, estava na inquisição. Mi-
nha mae, olhava para mim, e exclamava : « porque
oao escutei os tens presagios, minha filha! » Isto
Yem ao caso de eu. com bem pesar meu, te asseve-
nr que a minha .alma está inquieta, e \'aticina algum
passo horrível por causa d'aquelle thesouro. Tem
dB&graça aquelle dinheiro I Dizia-o meu pae, quando
eu era menina, olhando para o annel ; dizia-o minha
ROMANCS 11181'()1\ICO t6t
mãe, e Simão de Sá. Meu tio Dao,o, sempre que se
falia no cofre da 8emposta, reo01'da·ote as affiicções
dos ultimos dias de meu bisav6 ; a crueldade ferioa
de minha avó ; a persegoiçAo que duas vezes minha
mãe soffreu ; o risoo em que esteve a vida de meu
pae. Mil infortunios!. •.
-E mil superstições, Leonor. Essa cadêa de
desgraças tem a sua fogioa e natur-.il explicação. Não
é fado nem intluiçAo diabolica ligada ao thesouro.
Foram odios motivados pela ambieão; mas não se
segue d'ahi que to, legitima senhora d'elle, hajas de
soffrer a continuação dos dissabores que soffreram
teus paes.
- Será assim I. .. -tornou ella- vai. .. faz o
que quizeres ... Praza a Deus que a nossa filhinha
nao participe de alguma calamidade, se nós a temos
sobre as nossas cabeças. Deus preserve a innocenti-
nha I -continuou ella, soluçando com a filha estrei-
tada ao coraca.o.
Antonio José da Silva, bem que forte de espírito
e isento de preconceitos, estremeceu quando viu
as lagrimas da esposa a derivarem ~ face de Louren-
cinha.
-Pelo amor de Deus l-clamou elle-não me
aterres I Tu que tens, L e o n o r ~ que te di.z o coração?
tu fazes-me fraco e crendeiro em agouros I ... Diz ..•
não queres q ~ falle mais no dinheiro? não falia-
rei I. .. não ...
VOL. II
H
t62 O JUDIU
Leonor atalhou-o:
-Isto nto importa nada ••• Soo mae. Nlo faças
caso de lagrimas nem de agouros, Antonio. Faz o
que quizeres; mas oao me consultes.
Depois, fugiu com a filha para o seu quarto, e
fechou-se para que o marido a nao ouvisse desabafar
em altos soluços.
A meia noite d'este dia, t5 d'Agosto de 1737,
Antonio José da Silva sahiu com Duarte Cottinel da
casa do almoxarifado, por uma porta de armazem
que abria para a quinta. Chegados á cancella d'um
pomar, disse Duarte com mui recatado som de voz:
-Agora dirás para onde vamos. Dá-me alguma
indicação.
-· Leva-me a um tanque onde está uma estatua
de Neptuno.
-É lá em baixo, no interior do bosque. O si-
tio é bom, que ninguem nos ouvirá ca\'ar; massa-
bes tu se já fariam obras no local'!
-Creio ... quasi tenho a certeza que o local do
cofre está intacto.
Caminharam de manso desviando-se das áleas
onde o tapete da folhagem accusava os passos.
- É aqui ~ disse Duarte- alli tens o tanque
e o Neptuno.
-Está secco '!- perguntou Antonio José.
- E s ~ , ha muitíssimos annos. Ouvi dizer que a
80MANCI JIIS'IORICO
t63
rainha de Inglaterra, quando fez estas obras, mandou
levar d'aqui a agua para fontes publicas.
- Bem. Entremos ao tanque.
-.Espera ..• voo aecender a lanterna de furta-
fogo, que as copas das arvores nao deixam entrar
raio de lua.
- Nao accendas.
- Temos que levantar alguma pedra'! Então
vou ao jardim buscar um ferro de monte que lã puz
ao anoitecer.
-Nao é necessario-disse Antonio José-ajo-
da-me a descer o Neptuno do pedestal.
-Pois é aqui'! I
-É.
- Entao foi milagre o conser\'8r-se I Quantas
vezes os senhores infantes me tem dito que é me-
lhor tirar esta cousa inutil d'aqui para fóra I ... Ain-
da no anno passado I. ..
Duarte dizia isto com profunda magoa. O the-
souro podia tel-o encontrado elle, e possuil-o, sem
inquietaçao de conscieneia. ·
Deram llm sacao â esta tua, que estremeceu; de-
ram-lhe outro, e deslocaram-n'a. Desceram-n'a vaga-
rosamente, e pousaram-n'a sobre o rebordo do tan-
que.
Ambos a um tempo introduziram as maos no
recipiente da agua, e tactearam um corpo liso cingi-
do de braçadeiras de metal.
f.6-6 o. '
Ambos unisonameate :e-D)aram:
:-Estã I
Da vehemencia da exclamacao dos dons, nao po-
deria inferir-se qaal fOitie o .tfooo do thesour().
Hav.ia espaco entre as paredes da caixa de pedra
e as argolas do cofre. Introduziram mãos, e tira:
ram fóra o pesado caixote.
Antonio José sentou--se. Carecia de ar. Duarte
Cottioel nAo estava menos abafado e arquejante. Nao
era o cancaco; era n'um alegria legitima,
uma infernal exultacAo.
-Vamos, disse Antonio e ajuntou:
- estou a tremer, eomo se fizesse um rpubo.
- Tambem eu ; mas é de contentamento de te
vêr rico. Vamos. Podes com o cofre?
-Posso.
-Então carrega com elle, que é obrigaca.o tua
- disse o almoxarife gracejando.
Sahiram do bosque; esperaram que se fecha$Sem
as janeHas da recamara de um dos infantes, e aco-
lheram-se a casa estugand9 o passo.
Era uma hora.
- V ou acompanhar-te a casa -disse Duarte.
-Estava parâ te pedir esse famr.
- NAo era preciso. Deixa-me ir armar, que ha
ladrões nas de Lisboa como no pinhal da Azam-
buja.
ROMANa ltStORICO f8S
· Daarte :vdtoa logo,. entrakoo a Aotooib José uma
pil&ola ·de • tanoi, e· dnmw.:
• • :isto. .- · ··
- Nao preciso-disse o hebreu- vim atmado.
Foram de Bempos\&, 89\n 8oe0ntro 8DSpeito, até
ao largo do Soccorro. : ·
· 'O á ,oota cJe io\atoriio José; qu :des-
pedir•se; · · . · . ..
- Nao: hasde entrar: quero que assistas ã
tdn do · tofre; querei que me· engailei.-
-Amánba· m'G dirãt,.•adetâ. ·
- Nlo consinto : hasdij sabei-o agora.
IAorença Cominho e9la vam ainda a pé.
Lourença orava ao Deus de Jacob; Leonor. orava. ao
Detls dos àftlietos. Or.vam: ao mesmo Dtos,. segun-
do minha fé em jiviodad8s.
Qatndb 'ou,ifakn bater• ·dtlloeram amb:d ao pa-
teo. Viram Antonio tom o·ait5o sobraçado. ·Wu-
t-.;.a exClamou-:
. - SAo e salvo o me o tUm· t
-E porque Dlo?- disse Dua-te, que alia mao
tiDW vistp. · ·
Antonio Joré: cótOG .até: ás orelhas, e qaasi odiou
su mae.
Voltou-se a Duarte1 e .di&l&:
· - Miaha IDAtl reeena (fae. 08 ladrões me sabia-
sem n•aJguma esquina, por isso fai ·armado.
aptoximoo-se do ·cahiAo, que o marido

t66 O lfJDR
poosira sobre um eecabello· do pateo. para limpar o
suor. Dobrou-se eUa-sobre o cofre, e di.sle.:
- N'este caixão pôz as mãos . o meu tir.tooso
bisavô! •••
-Vamos-disse Antonio, retornando o oofre.
E subiram ã primeira sala.
Duarte quiz ainda despedir-se, allepftdo qae n'a-
quelles prazeres de familià um estranho era cousa
impertinente.
- Nlo consinto! -repeliu An&ooioeom dissabor •.
- Porque bade tomar nm quiobto do nos-
so contentamento, snr. Duarte fi!- perguntou Leo-
nor, impedindo a sabida- Os amigos. s1o sempre
família .•.
Pousaram o cofre sobre am bofete. Eram daas
fechaduras de espelhos douraoos.
-É preciso arrombar- disse. Ant.onio José
-Dá-me um ferro qualquer. minha mle?
Lourença Coutinho trouxe o ferro de friJar com
que seu marido costoma\·a encalamistrar a eabellei-
ra nos dias de aooiversario nataJicio das pessoas reaes.
Quebraram a presilha das fechaduras que prendiam
na lingueta, e ••• 18\'anlàram a tampa I
Havia alli coração que se regorgitava c&mo em
caso de mortal congestAo. A circolaçto parlrl no
peitO de Duarte, ·ao rqerem as perras e:
dobradiças da tampa. ·
O primeiro objecto era- uma caixa dls pn.tit de

t67
lavores primorosos, baixa d'dllra d'uma poJJepda,
e larga á medida do ambito do cofre. Abriram a oai-
:u: eram os peates d"ouro,. cmvejldoJ de brilhantes,
e quinze anneis, enfiado& n•um de 0010.
D'estas joias dizia o apootai'Meato de Luiz Pereira de
Barros: lJfl8 foram de fRiMa. Clt'6 D. úorwr de Bar-
reiros.
-Que admiravel peça ! -exclamou Duarte-
e que digna possuidora aqui está 1-continuou olhan-
do delicadamente em D. Leonor.
-Agndeeida, snr. Duarte. Os meus adornos
mais queridos da cabeça slo Mres.
A om canto d'aqoella caixa estava inclusa outra
de vellodo carmezim, oblooga e convexa. Abriram-n'a:
continha os vinte e quatro brilhantes. dos quaes dizia
a nota: que foram de meu avd Pedro de Barros e
.Almeida.
Levantaram a caig, e descobriram a segunda
eaQlada. D'uma sacca de pellica tirou Antonio José os
copos d'uma recap1ados de pedras de diver-
su côres. D'esta riquíssima preciosidade dizia o con-
udor-mór: eopo1 da espada meu avd materno
D. Jorge de Barr6ir01 trou.:u do governo da Bahia.
N'outra de ouro encootraram uma minia-
tun •. rttrato fonoosissimo. ttm com cerca-
dura de diamantes. Era o retrato de D. lgnacia Tel-
les de Menezes, mae de l..uiz Pereira de Barros.
t68 .Q ~ D B U
Leonor l1nçou mao d'ele, e não· se · canf.8va de o
OCMltemplar.
A outra camada e ultima era ~ r o . em rolos:
dflle e qUIJfro· conlol de riM • mriatlas·rooedar de
ouro, conforme· o dizer c» apontameotb.
-Que te parece Duarte?- pellJnntou Antonio
José- erraria eu muito o calculo 't Isto valerA os
cento e cincoenta mil cruzados·?
-· Vejamos-disse o àlmoxarife-vinte e qua-
tro contos, sessenta mil cruzadOs, 00 mais, porque
as moedas antigas sao pagas como de mais valor. Os
brilhantes, se não valem mais, valerlo outro tanto,
porque estão abi duas dozias· d'etles, como- eo ainda
nAo vi muitos; e, se qnizeres veedel.I()S, acharãs em
Londres ou Amsterdam ·quem te ·dê vinte e quatro
mil cruzados. Os pentes podem valer .. ·. que sei
eu I . . . e os copos da espada I . . . e a cercadora do
retrato I ... Finalmente, rrao te enganarias muito no
calculo I O que se segue é que estás riqnissimo, e
eu tambem participo da tua riqueza por poder dar
a estas doas damas os mais eordiaes e ju6ilosos em-
horas, que podem alegrar o coraçlo d'um amilo.
Agora, deixo-os que está a romper o ·dia, e ji ltoje
nlo me deito, porque ãmanbl teitbo jornada ao Ri-
ba-Tejo por causa de aforamentos. Minhas senbons,
adeus.
- Espera t -disse Antonio José, tomando seis

ROMANCE BISTORICO
{69
dos brilhantes de maior quilate e lume- Aceita eSta
memoria da noite de f5 d'Agosto de f737.
-Memoria J ••• -disse Duarte Cottinel rejei-
tando delicadamente- a melhor memoria é a lem-
brança de que contribui um pouquinho para a felici-
dade d'uma familia. Não instes commigo, que perdes
o tempo, e me desgostas.
Sahiu.
-E entAo '!-perguntou Antonio José á mae
com gesto de censura-que lhe parece o homem 't
Arrepende-se dos seus preconceitos, minha mãe'!
-Arrependo, filho: Duarte parece-me homem
de bem.
-E os teus agouros, Leonor?- tornou Anto-
nio.
- Ainda não se calaram •.. -respondeu ella .
o •
CAPITULO IV
Antonio e soa· mAe passaram o dia em analyse
contemplativa das pedras e das moedas antigas; Leo-
nor, no entanto, como estranha ao contentamento
dos seus, nlo se despegava d'oma joia formosíssima,
santa, e de divinos quilates, que era a ftlbhiha, aqoel-
les vinte e dous mezes lindos de celestial meiguiee.
Chamada a dar seu parecer sobre o destino que
deviam t o ~ a r , respondia que estava por todo que
seu marido e sogra qoizessem. O hebreu, a fanar
verdade, já mal acertava com os seus projectos da
vespera: aqoelle resplandecer das pedras offoseava-·
lhe a memoria dos ptanos : era um embebeeimenlô
de ere&nça, para nAo dizer a absorpçao \'Oracissima
d'olhos de avarento cravejados no iman do ouro.
Ao outro dia, ·huarte cettinel, de· volta da soa
t7! O JUDEU
jornada, procurou o hebreu, para lhe dizer que nllo
havia nada no santo officio, para que elle de\"esse te-
mer e apressar a sabida. Lamentou que o seu An·
tonio nAo podesse gozar em Portugal as riquezas, e
viver perto do seu mais dedicado amigo, que vinha
a ser elle. Aconselhou-o a que nao vendesse pedra ai-
goma em Portugal, nem revetasse os seus haveres,
porque a inquisiçAo nAo perdoava aos judeus opu·
lentos; e, se alguma vez tinha sido piedosa, era com
os indigentes, cuja corria por conta da
santa casa. · · ·
Voltou no dia seguinte, muito rogado por Anto·
nio José, e chegou em occasiao de estar o judeu cas-
tijando wna escraya .&ua 1\\le,. por ,«.ra .. sur-
prehendida a roubar das savew d'ijRl : al-
pm dinheiro. O eai\igo efa CO{Il disç.ipliBH,
o direito doa senhQres S9br.e es ·esu-aros, que SÓ6-
meote vi!lte aonos forUB libertofl por lei
r.urquez de POJBbal.
Duarte pediu u perdao da negra, & oooiaguiu-o ;
a escrava, ;assim que uma se &b.e
fusiU, rereosa·de qua tWabosca 4 sua. arca
Lhe redobrasse o casli&o.
Loorença Coutiobo tev• da preta .. qu.eeqm-
prara creança no Brazil, e trosura oom&Wo. qoan ..
do veio presa. Diligsuciou eowotral .. ; mas &lobou•
ve DC)WIS d'ella,
Dllarte CQtliQel ltalriu a. a_,-i"*, e de&cDbriu
ROMA!IIS IIISIORICO t71
fJM. a .preta passara o Tejo, e se .assoldadara em AI-
maU.. Calou·se com ,o deecobrüoaato, dando a sop-
por que a negra se. ao Tejo, desesperada
cowo muras muâtas, qu& preferiam a morte á servi-
dão t. '
-Mas a minha escrava óão era tractada com ri-
gor. para se matar 1-. dizia Lourença- Tenho im-
mensa pena d' ella I . • . Alli está ainda a arca fechada
como ella a deixou.
-Era bom vê r-sei • . • - disse o almoxarife
com ares familiares de muito amigo.
-. Dizes bem I - approvou Antonio José da Sil-
va - Vejamos o que ella tem na caixa.
-Farrapos.. . qoo hade ella ter?- observou
Leonor.
-Sempre é bom vêr, snr.• D. Leonor-insis-
tiu Duarte.
-Pois vejam ... - a contrariada
senhora.
t . N'aquelle tempo,· o viver dos escravos em Lisboa era alllictivo, e
os castigos crueis. A limpeza diaria das sentiDas domesticas era feita por
escravas, que levavam os graodes vasos ao Tejo, desembocando de cada
rua em longas caravaitas. Que deliciosa e Lisboa era aqueDa,
á qual Jacome RaUon, com desenfeitado eslflo, denomina por excellen.
cia a fedorenta cidade de Lisboa! Como D. José declarou livres todos
os escravos que entrassem no reino, as pretas eximiram-se do seu "'"
cravo Çf!er de escoado.W'o&; . é que Lisboa se tomou liiiiPa ...
•Então, diz o citado coevo d'aquelles olorosos dias, então os moradores de
LiSboa se viram obrigados a fazér 'ós' despejos das immundices nas ruas.»
Recordaçõu, pag. . . (< .
t74 e JUDIU
Arrombada a caiu da escrava, eDOODtnriiiHe
alsomas miudezas, por cuja falta as seDboras n1o ti-
nham dado, cousas de insignificante valor. Concluiu o
hebreu qoe a negra fartava para as vender eoosas
de qoe ella nao podia usar.
-Tal escrava nao lhe convinha, snr. • D. Louren·
ça-disse Duarte - Deixe--a ir, que nao se foi boa
peça. O valor qoe ella tinha perdeu-se, é isso verda-
de ; mas esta casa nao fica hoje prejudicada com a
foga de oma preta. Antonio José da Silva póde com·
prar hoje toda a Africa e os sertões do Brazil.
Festejaram o dito, e divertiram a conversação
para outro assompto. Leonor lembrou que a soa
Loorencinha fazi3 annos em 5 de Outubro.
- Faltam ciocoenta dias -ajuntou ella -onde
estaremos nós entAo 'l
-Talvez em Paris-disse Antonio.
-Se nao poderem estar socepdos em Lisboa
- obscnoo Duarte.
- Pois de certo. Se eu podasse aqui viver soce·
gado, nao trocava paiz nenhum por este, onde to vi-
ves, meu bom Duarte.
-Eu, nao sei porque,- tornou Leonor - de-
sejava festejar o segundo anniversario da minha filha
fóra de Portugal.
- ú Duarte - exclamou de golpe o hebreu -
queres tu vir passar comnosco um anno a Paris?
'& homem· para DOS dar esse llr&Dde prazer ?
&OMANC& IIJSNRICO
fjfS
. -Era homem para o sentir eom mil vontades,
se fosse livre. Sabes que nlo posso renunciar á po-
sição que ooeupo, nem incumbir ninpem do traba-
lhoso encargo que prome\te a minha futura e des-
eançada estabilidade. Depois, meu pae está velho,
es&á rico, segundo penso, e tem mais filbos. Se eu
arredar um passo contra vontade d'elle, vinga-se ex-
cluindo-me da herança. Que mais razões queres'?
-Mas- tornou o generoso coração do hebreu
-faz de conta que és meu irmao ; gastas ir ma-
mente commigo, e nunca sentirás precisão da heran-
ça de teu pae.
-És ainda muito creança, homem I - redar-
guiu o almoxarife- Estes poetas, minhas senhoras,
tem absurdos que seriam lamentaveis, se não fossem
engraçados! Como este louco imagina que um ho-
mem, applieado a ganhar a sua independencia com
a fadiga e sacrificio dos melhores annos da mocida-
de, possa aceitar uma offerta que o inutilisaria aos
seus proprios olhos ! . . . Antoninho, não sejas sem-
pre rapaz ; não vás tu lá por fóra arranjar alguns ir-
mãos que fraternalmente te devorem as peças, os
brilhantes, e os copos da espada do tresavô de tua
senhora e minha ama. Cuidado com os paras i tas,
ouviste '? Olha que os porluguezes, lá por essas na-
ções, gozam fama de valentes ; mas tambem · a go-
zam de estupidos que se deixam gosar. Sê caritativo;
mas não sejas prodigo •••
i76 o .. uwm
-Pareces um Telho a aoonselbar ! imer-
rompen Antonio- Nem que .tu n1o tivesses triola e
dons 1noos oomo eu f ·
-E' rerdade ; mas, ba. muito, que vivo cá em
baixo terra a terra.; e tu, desde que te conheço, eo.-
oootro-te sempre nas regiões mytbologieas com os
Amf)bitriões e Alcmeoas, e Proteus, e Apollos. As
tuas comedias fazem crêr que tu tens muita imagioa-
çao; mas jttizo não no inculcam; aliás, em vez de
comedias, escreverias ,·ersos laudatorios aos reis, aos
bispos, aos fFades, 1 quantos magnatas por abi ba
incapazes de t'os perceberem. Já fizeste versos a al-
gum d'estes estafermos 'l
- Nao. Versos 1 reis, ou a filhos de reis, ape-
nas tenho aquelle epicedio que fiz o anno passado ã
infanta D. Francisca.
-Depois de morta. Isso de que presta 'l . .•
Bem me recordo: glosavas os versos do soneto de
Camões:
Alma minha gelllü que te parliste
Tão cedo d' esta .,;da. • • 1
-E' verdade, .......;. acudiu Antonio José com des-
t E' a mais regular e maviosa composição metrica de Antonio José
da Silva. Merece o conceito em que a tem o author do Ensaio Biographi-
oo: • E' uma das melhores composições n'este genero.• Por extensa a
uão traslado. Está no tO.• vol. do citado.Erulllo.
BOIIANC& II1STOBICO t77
-vaoemneoto - Glorio-me de ter levado a primazia
eotre todos os poemas que sabiram a chorar a prin-
eeza •
. · -A chorar r chorava lã ninguem, homem.
Qoem é que chora pela snr! D. Francisca, que Deus
haja muitos annos lã sem mim 'I Os meus patrões,
e muito sentimentaes infantes, ao outro dia da mor-
te d'ella, andaram na tapada da Bemposta a matar
melros. Choraste-a apenas tu r Elle chorou, snr. • D.
Leonor'/
-Não me recordo bem.. • mas parece-me que
sim, quando m'a recitou.
- Poetas r • • • Ficaram no Jogar das carpideiras
que meu avô ainda na morte de meu bisavô mandou
alugar para chorarem vinte e quatro horas ..•
-Olha que a mim não me deram nada r- in-
terrompeu Antonio.
-Por isso estou eu. Sa.o capazes de te dar tan-
to, como ãquelle Manoel Fernandes Villa Real 1 que
defendeu com a penna e com a espada, estando em
Paris, os direitos de D. João IV ã corôa contra Fi-
·Jippe e contra os portuguezes acastelhanados; e, de-
pois, como viesse a Portugal, os frades agarraram-
no, deram-lhe garrote, e D. João IV não lhe aco-
t Mánoel Fernandes Yüla Real esemeu um importante livro dos
dil'eito8 à casa de Bragaaça, chamado AaU-CGramael, respondendo a
Caramuel, que escrevia em pró de CasteUa. Foi enforcado e queimado co-
mo judaisaute no auto da fé de tO de Outubro de tiS!.
VOL. II t2
{78 O .IUD&IJ
diu. O Antonio Henriques Gomes t e o Maooel do
Leão ! que tambem escreveram mirificas cousas em
favor de D. João IV e de D. Pedro 11, se eahissem
nas aboises que a inquisiçao lhes tinha cã armado,
eram irremediavelmente assados. Nao faças versos
a príncipes mortos nem vivos, Antonio. Gasta o teu
dinheiro como qoem nAo tem espírito de que dispor
em divertimento dos ootros. Queima os livros. Auto
da fé aos livros, e eu faço de barbeiro do novo D.
Qoichote de tramoias. Esquece-te de que tens lá nos
escaninhos da cabeça um formigueiro de versos. Dei-
xa ser o mondo bestial á sua vontade, e adeus até
depois d'amanbã.
t Antonio Henriques Gomes escreveu sobre a (elis acclamação de
D. João w. Foi particular amigo do de!ll'açado ViDa Real, e conselhei-
ro e mordomo ordinario de IAm xm;
2 De Manoel do Leão ji se disse n'outra parte d'este livro.
CAPITULO V
Ao outro dia, Duarte Cottinel passou a Almada,
e procurou em casa d'nm fazendeiro a negra fugitiva.
Foi-lhe apresentada a escrava, que tremia em quanto
não reconheceu o homem caridoso a quem devia o
escapar-se ãs mãos de Antonio José.
Chamou-a Duarte a um lado, onde os não ou-
vissem, e deteve-se largo tempo. Começou por lhe
incutir medo ã perseguição que seus senhores iam
fazer-lhe, persuadidos de que ella os tinha roubado,
e vendido os furtos. Fez-lhe sentir que a compaixão
o movera a vir alli avisai-a para que mudasse de
terra e nome. E, quando a negra, tremente de sus-
to, se debulhava em lagrimas, por não saber para
onde fugisse, Duarte, resalvando habilmente qualquer
intenção dupla, disse-lhe em tom de piedade que pas-
t80 O JUDEU
· sasse a Lisboa. ao fim da tarde, e fosse ter a casa
d'elle ã Bemposta, onde ficaria até se lhe arranjar
· amos e segurança longe de Lisboa.
Assim o fez alegremente a escrava. O almoxari-
fe recebeu-a coro boa sombra, mandou-lhe dar opti-
ma cêa e excellente cama. Ao outro dia, como a ne-
gra carecesse de mudar a roupa com que fugira,
Duarte proveu-a do necessario, comprando-lhe umas
roupinhas e mantéo escarlates, encantadores objectos
que tinham sido o sonho d'ella, nunca realisado. Fe-
liciana, com quanto orçasse por quarenta annos, co-
meçava a imaginar, ã vista de tantas venturas, que o
almoxarife nao desgostava d'ella, e nutria intentos a
seu respeito. Admirava-se, porém, a preta, ao fim
d ~ tres dias, das delongas nao usadas, entre o desejo
e a execuça.o, com pessoas da sua laia.
Ao quinto dia de hospedagem, a escrava parecia
a filha primogenita d'um sova I A carapinha brunida
e Ôleosa encaracolava-se-lhe phantasticamente. O rubi
dos beicos incendidos parecia a porta do amoroso in-
ferno que lhe ia nas entranhas do peito. As fórmas,
alíãs redondas e anchas, como que, debaixo dos tra-
jos escarlates, entremostravam gracas que a nature-
, za, desacompanhada da côr e feitio do jaqué, nunca
ti v era n' ella.
Quando Duarte a chamou, em occasiao de estar
sosinho, Feliciana entendeu que era chegada a hora
de ouvir uma revelaça.o d'amor, feita com a deliea-
BOIWIC& IIIS'IOBICO t8t
deu de que o seu novo amo e senhor a ooosiderava
dignissima.
Principiou o almoxarife perguntando-lhe se esta- .
va contente, se era bem tractada, se queria viver
em companhia d'elle, ou sahir de Lisboa. A preta
DIO tinha e1pressões com que bosquejar uns longes
tta soa felicidade, e confessava, no auge da ·soa m ~
deslia, que oAo merecia o bem que estan gozando.
-Visto que estãs satisfeita, disse Duarte, fica·
rás commigo mais algum tempo; e depois, se eu
desconfiar que te penegoem, passarás para uma
quinta de meu pae em Torres-Nons ; mas é neces-
sario que te eaeondas, se alguma vez aqui vier o snr.
Silva, oo criado de casa d'elle, porque eu não quero
indispor-me com esta familia. Ora - continuou elle
-diz-med, Feticiana ... Promettes debaixo de ju-
ramento responder ás perguntas que eu te fizerf
-Prometto, senhor, assim Deus me salve.
-Teus amos Silvas fazem lá algumas rezas que
nto sejam á moda e costume dos christaos?
- Aliomas rezas f f • • •
-Sim: eo voo perguo&ar-te de modo q1J8 ta
possas responder a verdade a uma pessoa que te es-
&iml e promette fazer-te mais feüz ainda do que
és. Ora diz-me: lã em casa era costume accender-se
na sexta feira á tarde, uma hora antes de pôr do
sol, uma tampada eom quatro torcidas'!
- A snr. • Lourença fazia isso todas as sextas feiras.
t81 O IUIG
-E a lampada ficava aecesa todo o salmado,
nllo é verdade 't
-E' sim, meo senhor.
-E que fazia a snr.• Lourença no saW.do?
-Estava lã dentro do seu quarto a lêr, nem-ae
penteava nem lavava, nem pegava em agulha. Dtlll
.cortava ou raspava as unhas, nem bebia vinho, nem
comia cousa gordurenta, nem escrevia t.
-E sabes se a snr. • Lourença rezava de manhA
que se levantava "!
- Na.o, meu senhor; sem se lavar muito lavada,
..e mais cousas, nao pegava no livro!.
-Lembras-te d'algumas palavras que eiJa dis-
sesse?
-Uma cousa que ella dizia todos os dias era
isto : Bemdito sejtu tu que ®te ao gGllo iftatinclo
para distinguir entre o dia e noite 3.
t Estas, e outras condições religiosàs da observaneia do sabbado
judaiço, vem referidas no 5. o voL da Hiltoire du jlllfl, I. C,.,.t
julqu'ti pruent - paginas !70 e segoilltes.
I Explicam-se assim as mail cousas de que a escrava urbanameD-
te Dlo dava om preclso entendimento : • Un du premlers soiM ed de
IGiilfoire aua; buoina de la nature, parce que David a dU: «
9ui ut au tlediJIIB de moi, louet: le seigneur. (Ps. t03); Ce serait tm
.erime que de prler Dleu, ou de parler de lui avcnt 'lllll riDWriear
dt été netwU •. •• lüsf. des juifs. Tom. v pq. 306.
· 3 Orden de las oraclones. Orden de Cotidiano para uso dos
judeus da SJ!!aiop de Amsterdam, pag. H. Os hebreus portoguezes se-
piam principalmente o ritual de Amsterdam d'onde lhes eram fomettdes
os devoeionarios para em snas casas poderem exercitar-se espiritoal-
mente, pois que não tinham 11Jll310PS·
183
.-Buia algum mez no anno em que tua ama
nAo jejuava 'I
-Era no mez de Março t.
-Mudava de cama ou de roupa na vespera dos
dias em que jejuava 'I
-Sim, meu 18nbor ; deitava-se n'om colchao
duro eom lençoes de estopa, e só comia ao outro dia
ã noite ; e desde dezesete de Junho até dez de Jo-
Hso nlo comia senao hortaliças, e punha cinza na
cabeça'·
- Oatra cousa : teu amo doutor tambem fazia
essas cousas 't
-O snr. Antoninho 't
-Sim.
-Nada ; esse nao rezava cousa nenhuma, nem
jejuava.
-E a snr.• D. Leonor'/
- Tambem nao.
- Entao ella e o marido nao praticavam acto
nenhum de ehristaos 't
-Que eu visse, nao, meu senhor.
Depois de mais algumas perguntas, Duarte Cot-
tinel tirou d'uma gaveta um· fio de contas de vidro
amarellas, e deu-o a Feliciana, dizendo : .
t Decidiram os rabbinos que se não jejuasse no mez de Março, por
que este tempo, como IIIIÜ"fersario da sabida do povo hebreu do Egypto,
dne aer COJIS8Ir&do ao recoohecimeoto e ao jubUo.
t Buxtorf. SJ!IaiO(a judaica.
t84
o Jm)DJ
._. Abi tens para enfeitares o pescOço. Gosto de
ti, e quero que estejas contente.
-Ora, se estou, sor. Duarte! ••• -balbuciou
ella sinceramente commovida- Muito feliz sou na
sua casa r
-E seris uma ingrata, se me deixares! •••
- Isso só por morte 1-clamou ella com entbo-
siasmo.
E, como visse que o senhor nao tinha mais que
lhe dizer, retirou-se.
CAPITULO VI
Volvidos poucos dias, Duarte, apenaseotradoem
sua casa, vestiu «\e colera o semblante, e disse ã ne-
11'1:
- Teu amo doutor lá te maodou procurar a Al-
mada por dons esbirros. Se lã estivesses, a esta hora
estavas em lençoes de vinagre I 8ao crueis os taes
judeus I Venho agora de lá, disse-lhes que eram do-
ros comtigo, que te dei:ussem, porque sabiras quasi
nua e sem real de casa d'eUes. Provavelmente oiO
torno lá. Gente com tao roins entranhas nao a quero
para amiga. Ora vê to, pobre mulher, que vontade
elles tem de te esfolar I . . . Queira Deus que elles
se nAo lembrem de sospeitar que estis aqui I ..•
-O meu senhor náo me deixa prender •.• -
exclamou ella, pondo as maos.
t86 O JUDEU
- Nlo deixo, ainda que tenha de defender a
easa com todos os criados dos senhores infantes. O
judeu nao se atreve a cá vir; podes estar soeegada,
Feliciana. Tens em mim um verdadeiro amigo e de-
fensor.
-Nossa Senhora lh'o pague t Muito meu amigo
é, snr. Duarte t Eu não sei porque é ta.o meu ami-
go t. ..
-E' porque tive moita pena de ti, e estou con-
vencido de que to eras incapaz de ser a ladra que
elles dizem. Olha ; eu confio tanto da tua limpeza de
ma.os, que te deixo abertas as gavetas, como se te
conhecesse ha muitos annos. Quando quizeres com-
pnr alguma cousa, compra, que eu gosto muito de
&e vêr asseada e satisfeita. Aquelles malvados t •• -
E' assim que te pagam trinta annos de serviços ; e
nao se lembram que to, se fosses vmgativa, os po..
dias perder e desgraçar. Pois não podias, Feliciana 1
- Como era ?t - perguntou a escrava, como
admirada da sua desconhecida generosid.lde. ·
-Pois se tu fosses denunciar ao santo officio
qae teus amos jodaisavam, cuidas que elles nAo eram
logo sepultados nas masmorras do Rocio 't
- Ab ! !;lim?. • • Pois enta.o que me deixem ...
senao .••
. -Quem sabe? tomou Duarte- póde ser ·que
a final, se te qoizeres vêr livre da perseguição, nao
tenhas remedio senão.. • Nada. • • &nuncial-os, nao.
t87
lllde navtr muito qaem os aooose. Veremos como
se portam d'aqui em diante .•• Eu queria qae
ta sabisses, Feliciana. Costa-me vêr..:te aqui fechada ;
mas tenho medo que te prendam lã por fóra, e que
te· castiguem ou entreguem ã tua senhora, antes de
eu poder valer-te! Já me lembrou de te resgatar,
comprando-te ; porém, o odio que elles mostram ter-
te é tamanho, que, ·a meu vêr, antes querem matar-
te que vender-te. Esperemos alguns dias mais; e, se
elles nao estiverem quietos, pensaremos no que se
hlde fazer. Estas barbaridades irritam-me. Os es-
eravos sao nossos irmãos e filhos do mesmo Deus.
Tomei ã minha conta defender-te, e heide salvar-te
das furias d'aquella maldita casta de gente, que estã
sempre a vêr como hade abrir as veias do proXi-
mo t Que admira se elles mataram Nosso Senhor Je-
sus Christo I
-E' verdade 1-murmurou compungidamente
a negra_.: Eu jã tenho ouvido dizer isso; e, lã no
Brazil, quando prenderam a minha senhora, uns ho-
mens que a viram passar, ficaram dizendo : • esta é
das que mataram Nosso Senhor I • Eu, depois, con-
tei isto ã snr.• e ella .••
-Que respondeu ella '! - acudiu pressurosa-
mente Duarte.
-Disse que os taes homens eram umas bestas.
-E mais nada 'I
-Mais nada que me lembre.
188
- Pois olha : vai reoordando todas essas COOill
que viste e ouviste, porque póde ser que ainda
cises de as dizer, para te livrares de callir nas unhas
dos taes matadores de Jesus Christo.
A sessão terminou, para se no dia •
gninte, e nos outros. O alnaoxarife trazia sempre de
fóra alguma historia urdida para aterrar e enfurecer
a negra. A tanto lbe apurou a raiva que já a .final era
elta··quem pedia licença para ir denuDCiar os amos
10 santo offieio.
N'w:a d'aqueUes dias, Antonio José da Silva ba-
teu ao port.ao da casa de Duarte Cottioel. A n.-.
precavida, assim que o Tiu por uma gelosia, oorren
alloroçada a prevenir o novo amo. Duarte foi escoa-
dêl-a muito longe da sala em que devia receber a
"rilita do amigo.
Antonio José vinha triste, a dar-lhe parte da sua
definitiva resoluçao de retirar-se, porque o CODde da
Ericeira muito á puridade o avisara da neeeasidade
de sabir de PortugaJ, porque oo santo of&io se lhe
eslalam forjando desgraças.
-O conde da Ericeira- alalt&ou Doane-Dlo
póde saber mais do que meu pae. Os rumores, que
lá se passam, muito ba te disse eu que se passavam;
todavia, por em quanto, nlo tem symptoua 181118-
tadores. Nio obstante, se queres ir, vai ; se tens lá
fórà mais tranquillidade, nao te demores, que o meu
• ti&
maior prazer é têr-te em segurança. Quando tenOO.:
nu.ir'
. . - Nlo é ji, porque o conde tambem me disee
ctue eu poderia sem receio estar uns dias em Lisbol.
No dia cinco de Outubro, faz minha filha dons an-
nos, e eu tinha moita vontade de os festejar em com-
panhia de ti e dos Barros.
-Estamos boje a vinte equatro deSetembro .••
Faltam onze dias. • . Posso asseYerar-te que nao cor-
re o mínimo sobresalto a tua liberdade n'estes onze
dias. E a mobilia da toa casa que lhe fazes 'I
-Vinha offerecer-t'a.
- Nao aceito, Antonio, porque nao sei que lhe
faça. Como vês, esta casa estã decentemente mobila-
da por conta dos infantes, e eu nao tenho outra resi-
. dencia. Vende a mobilia a quem ella seja neeessaria;
e, se nao queres figurar n'isso, eu me encarrego.
- Nao posso dar trabalho a quem me nao rece-
be o mais leve favor -disse Antonio José- Encar-
regarei a venda a algum parente de minha mulher.
Diz-me cã : nunca podaste descobrir que fim levou a
desgraçada escrava'!
-Nao.
. ·-Tenho feito diligeneias incançaveis I Ninguem
me dã . noticia alguma. Minha pobre ma.e chora por
ella, e queixa-se de mim, como causa da soa Feli-
eiana fngir. Se &e matou, fica-me este remorso a
trespassar-me o coração I
tiO
-Ora adeus t. . . remorsos dé tastipr esert-
'os t... Fizeste menos do que fazem os outros senOO-
resd'eHes que lhes despem o couro. Deixa lá a negra,
que está por ahi a servir, e nao pensa em se matar-
Assim que sahires de Lisboa, appareee ella. ·
- Oxalã que assim seja. Heide deixar-te uma
boa esmola para lhe entregares, se a vires.
Sahiu Antonio José da Silva.
Duarte foi buscar a negra ao eseondrijo, e dis-
se-lhe:
-Teu amo asseverou-me que tinha a certeza
de te haver ãs mãos antes de oito dias.
- Entao fujo de l .. isboa '/- perguntou ella an-
ciada.
- Nao. Socega. Eu vou sahir, e volto d'aqui a
doas horas.
-Nao me deixe prender, snr. Duarte r -ex-
clamou a escrava de mAos postas.
- Estãs prompta a fazer tudo que seja necessa-
rio para te salvar 'I
-Estou, meu senhor r
-Bem. Logo fallaremos.
Duarte Cottinel sahiu ; entrou em casa do pro-
motor .da inquisição, e deteve-se meia hora. D'alli
foi em direitura ao convento de S. Domingos, e de-
morou-se com dons conselheiros do santo officio. Era
de prompto recebido como familiar. A' sabida do
convento, viu Antonio José da Silva que desembo-
. -..,·
ROMANCE BISTONCO t9Í
eava das portas de Santo Antão. Escóndeu-se. NAo
lhe sobejou infamia para se defrontar com o homem
que elle andava apunhalando. Era um remorso inutil,
um remorso dos scelerados aquelle. Lampejava-lhe
uma luz nas trevas d'alma ; porém, luz do inferno,
ebamma da consciencia infernada.
Antonio José da Silva não o vira. Ia abstrahido,
pensando no modo de brindar o amigo Duarte com
um gracioso e ao mesmo tempo rico presente no dia
d'annos de Lourencinha.
Chegou o almoxarife a casa, esteve-se momentos
em recolhimento acerbo, e chegou a pedir sacrílega-
mente ao diabo que lhe afastasse o calix da tentaç5o.
O diabo conduziu-lhe a negra, que lhe vinha pergun-
tar o que ella devia fazer. ,
-Eu te chamarei ... -disse elle mal encarado.
Feliciana fez pé atraz, espantada da mudança. E
o diabo, assim que a pretà voltou costas, foi buscar
o cofre de Antonio José, e mostrou-lhe peça por peça
a caixa dos pentes de ouro cravejados de brilhantes,
e o retrato cercado de· diamantes, e as l'inte e quatro
pedras de extraordinario lume e quilate, e os copos
da espada recamados de joias, e os vinte e quatro
contos em moedas de. ourp. Repoz todo no cofre o
e.xpositor infernal, e disse, batendo-lhe com a mao
de ferro calcinado no coração :
-Cento e cincoenta mil cruzados !
Le\'antoo-se de salto Duarte, e foi dentro cha-
{92
O IUDBG
mar a negra. Compoz o abemolou o tom da
roz afogada· da rapida respiração, e disse :
-E' neeessario, se te queres salvar, que vá& á
inquisição denunciar teus amos; se não, estás pefdi.
da, que eu nao posso cor .. bater a perseguição que te
fazem.
-Pois eu vou. • • e que heide dizer? ... -
perguntou ella, tremendo.
-Tudo que sabes, tudo que viste. Não queres"!
-Vou onde vossa mercê me mandar. Pois não
beide ir"/
-Porque se não vaes és presa, e além d'isso es-
Us exeommungada.
- Exeommungada I
-Sim. És obrigada a denunciar dentro de trin-
ta dias teus amos, sob pena de exeommunhão t. Ama-
nhã, ás dez horas, irás á mesa do santo officio ã
casa santa. Diz ao alcaide que queres fallar ao
snr. inquisidor; lá te farão as perguntas, e tu res-
ponderás; mas olha, Feliciana, se te perguntarem o
t Era doutrina eseripta nos ealhecismos ebristãos, e corrente nas
cbristandades portuguezas d'aquem e d'além mar. Veja de
Goa.
1 O snr. A. Herculano, traduzindo do latim da Memoria dos ebria- ·
as palavras indicativas d'uin odal de inquisição pro(ectum
diz alcaide, e observa: tradur.lmos por co1Vectura. De feito,
o director dos carcereiros, segundo inferimos da relação de um preso, no
citado livro A inquisição de Goa, frequentemente é empregado o termo
alcaide, no sentido que o eminente historiador do estabelecimento da in-
quisição lhe deu a pag. t 3! do 3. • vol.
f91
qae fazia teu amo doutor, respQnde que fazia o mes-
JBO que sua mie ; seDio, fazes prender a mãe, e el·
le fiea livre para te •bar a vida nos ferros do li-.
moeiro ou nas galés.
A negra foi. fazer eume de ~ o o s e i e n e i a como
quem se prepara para salvar-se dia galés.
A furto, .lhe cabia is veHS n'alma uma gota ~
lltoA como de chumbo candente. A negra dava upas
no catre, onde nao provou einco minutos· de repOtl·
so. Um raio de · penetrantissima angustia lhe a ara.
yessava, a espaQOS, 1 cabeça, e ao fogo, que lhé
aceendia, mostrava-lhe. os beneficios, afagos e cuida·
dos com que Loorença Coutinho a traetava nas suas
mole8tias. Quando as lagrima8, fE!"entes d'aqoelle
queimar, lhe ressumavam aos olhos· cravados nas tre--
vas, chamava ella em. seu aaXilio a lembrança das
vergastadas que solfrêra, d'ootras que a esperavam,
e, depois, as gramalbeins da galé.
Loetou assim até ao dia.
E, ao mesmo tempo, a noite de Duarte nao foi
mais repousada. Caletilava elle as oonsequencia8
d'aquelle acto, que elle jã, ainda que quizesse, nAó po--
dia aniquilar.· Se a negra, gotpeada de remorsos, re-
Yelaria nos interrogatórios futuros que fôra elle o mo-·
tor da . denuncia? Que pensaria o mondo da riqueza
ineBperadt 1 qae julgaria da perfidia do homem que
perdêra uma familia 't Oceorreo-lbe a idéa · Taladora
· de todos os qne nlo receberam ainda noae «mdigno
VOL. II . . 13

19.& O'JIDD·
e significante- na penvslo 1118nl, q-. entea&a c-.
as raias do inverosifllil. Lembrou-se de matlr a
no a eserava á hora em que lesse sepul-
tai-a com o segredo.
A negra nio podia ser pallida diante do inquisi-
dor que a interrogava, e do secretario que
o depoimento ; mas o tremor da voz dizia o que a
escuridao da pelle, oleosa de amieto suor, nlo podia
delatar. A desgraçada estan ji sentindo em corpo e
alllla as·· labaredas que se .iam aeeendendo, a oada pa-
lavra d'ella, em volta da família com quem se erea-
ra desde creancioha.
Juramentada, confessada, e intimada pan appa-
recer quando novamente a cbamasseoa, sahio. Aper ..
tou o pé caminho da Bemposta, e limpou muitls ve-
zes as Jagrimas para vêr o caminho.
Anei()samente a esperava Duarte.
Feliciana lançou-se-lhe da joelhos, exclamando :
- Eu fiz que vão malar a minha senhora, e
a snr.• D. Leonor que nunca me fez mal nenbom I
Nao os deixe morrer, se n1o en vou atinr-me i

-Não morre nenhum, tôla f - disse· Doar&e -
·No auto da fé sabem todos livres ; e eotre-
tanto eu traetarei .. de te atTanjar fóra de Lisboa n•
modo de vida em que tu enriqueças. Heide dar.te
um bom dote para casares com um of&ial de offi-
eio. Erpe-te, Felieiana. En&IQ respondeste '!
{96
-Sim, meu senhor ; mas elles, ás vezes, fa-
zilm-me dizer o mesmo de muitas maneiras, e eu
estava a tremer de medo d'aquelle senhor da capa
e barrete de borla, que tinha cara de metter medo •••
-Está bom. Vai jantar, e come bem, que os
teus amos não soffrem senão a prisão d'algum tem-
po. Jã te não lembram aquellas vergastadas '! • •.
. .
CAPI'I"'tO VII
As pesaoaa 111o lidas _nas IDIIis repulsivas paginas ·
que tea)s da bistf.Jril da buDlanidlde; as que nao
'firaDa. ainda nem t.Dranm de • os irrefotneis e
is orredQUros lim>s de Alezu:tdre Hereolano·
ca da em Portugal, destldlpavelrnrente mal-
itillam de i&verosimil o earaoter de Duarte Cottioet
Wl..Jhes hmwosa repognanoia Cio extremada iofamia,
· qáanda o intellto e · fito <fella é aferrar d'um cofre
db riquezas por cima da torreBte de 1agn.- ;..
mas e saogue d'uma família,· pof oima d'uma quei•
ra.qoe• dsl'nllf as carnes e pulverisa os 08Ris do.pos-
saidor do tbesouro. e refotam de bela'
ft, QfDCII àsDatwtaes: e insondMeis m abyseaos Ele
falllia -chade· lhes sabe o· bomeat que nlo pdde Sll81-
if81' IGIBO cansll dr IJD1e horret1di8sim· d'UIDI
t98 O 11JDIU
m i l i a ~ seDio a necessidade de a roubar, e a desco-
ragem para matai-a a ferro quando ella o recebe em
. seu gremio confiadamente.
· Espantam-se; mas Dão era mais para assoml:wos
Duarte da Paz aqnelle hebreu, que recebia dos da
!ua raça, ouro a torrentes para os salvar em Roma,
e os vendia aos algozes sagrados de D. João m? Nto
era mais incrível a denuncia do parente, que espe-
rava sonegar ao confisco do santo officio ós thesou-
ros do irmAo, e ás vezea do p a e ~ q.ue expirava amai-
. diçoando a cega Providencia, por nAo saber quem o
· chumbára ás lages que o sol nAo aqueceu nunca 1
O melhor e mais alto louvor que póde entoar-se
a este seeulo é nlo . haver abi qoom já aceite oomo
pntieateis os atrozes lanoes d'um passado, ·qae dista
de nós· apenas seeulo e m.eio. Que dias aqaellea e.
que · dias os nossos r Como a Yida e ~ l m a hOIDIII
eram entAo desgraçadas r Que deploraveis ~
de infelizes e de seelerados rolaram á voragem • ·
COJTeDtes de lama ensanguentada r ·CoiDO o sCll de
Deus passaria triste no eéo, e o qM iria no lfiDde
~ Espirita Creidor, li em ·cima, cortinas a dentro d.._.
tés milhões de estrellas r
É preciso levar o pensamento ao amago, ao tur-
bilhão d'aquelles dous seeolos nefai&OS qoe blal'C8
o nosso opprobrio desde D. JoAo m até ·ao ..-que«
de Pombal, auron do melhor dia, aurora JDáDeUdl
ainda de laiYos de sangue, mas em fim o alvorecer,
190
o redemir-se o llmaem. · e&qU4tCído de Cbriaio, prin- ·
cipioo- GBIAG, n'este recamo de heroes piratas, e de
apos&olós sangoinarios I E 1 Providencia não contava
-eeo 118US, oomo obra su, eomo filhos da sua. eter·
•dade .queDes dous setiBol 7
A ·PrO'fideoeia deisna escabujar o hebreu nas
eorrentes da sua masmorra, e deixava aquecer-se o
fnde 6$ cbaRUDH crepitaMes dos seus cruentos ho-
loea08toi a Jesus.
· Mas um dia, a ultima fopeira ·devia apagar-se
d8118nndo o mais faaatico dos toosundos, o padre
qee em si oompendiava o ascetismo as
fielieias. dô alto, os dons fallazes de ins-
pirado, rains tbeotndcas, quantos herpes tinham
roido e empeçonhado os liames que suavemente en-
18oa'fam .a .humanidade eom a cruz do seu mais di-
Yino redemptor.
Um dia accendeu-se uma. fogueira; e essa fo-
gueira, que foi a ultimi em Portugal, ao apagar-se
deixAra um sedimento lodoso 'em que a Providencia
mandou procurar as camas, os ossos, e me · quer
parecer que a alma do padre Gabriel Malagrida. .
Aqui está a Providencia.
Mas quem deu conta dos milhares de famílias,
cujas cinzas levaram os quatro ventos do eéo 'I
A Providencia nao as pediu -acrescenta uma
blasphema philosophia.
Pediu. D'estes atascadeiros do mundo não pode-
• -· .11111111 .
mos desferir o v6o 14 PI"' oode euas coatas se pe.
dem.; crêlllO$, porém, coaa a mais pia raoiooalidacle
que· os filhos de ·S. Domingos e filhos dos UDtas
pootifiees foram chamados. a cHiaS, e u deram ce-
mo criminosos d'om perigdo do moado ua que a
.ll(!o civil BiO era inaia miaerit.ordiosa que a e&
cleaiastica.
.Eu creio que oiogoem. tirou OIDa vida t*
respondesse por ella o nome •
fosse lido na lista do sen C.dor.
E por isso pergunto aos oneolos dos DOBI08 dill
S. QS caprichos dos rei& BAo tea qu dizer tle •
justiça, quando lhes pecpmtatem porque alYejlaa.
aiDda as. ossadas nos desoampados em qae pa-.1'1111:
os reis. á fren1e das soas reHS.
Nao sei qual radO haja ahi que leti&ime o 1101'-
rer dos que pelejam; contra uma ban4eir&; e &e d•
piore sobre a pagina tarjada dos que cabirD .nu lu-
tas religiosas, .mais ou mauo1 eovtrdementt 88118-
nad.os.
De cadaver a cadaver * ba
É tudo o mesmo acotJIM·
CAPITlJLO VID
· · Chesou o dia 5 de Outubro, segundo anninna-
rio de LooreDeinba. ·
Diogo de Barros, · oom todos seus ftlhos e- netos,
e alguns poucos mais parentes de Jorge; â hora ct.
meio dia estavam e'm casa do advogado Antcmio José
di Sil•a, depoie de preliamente remetterem os se.a
pwea&es em bandejas de prata roberCaS' com at•
simas toalhas â cabeça d'escravas, as·quaes illll acom-
panhadas por lacaios das: alllS respectivas.
· A Qllla hora esbm <t janllar na mesa. Abana-
• todoS exeptuad&o pae da festejadt
ereaneinba, porque meia hora antes recebera um IJi.
ltlete de Doarté Cottinef FI'IDro, por
Dlo poder comparecer na fesCao, e mais ainda por IIC)I.
tivo de ntlo poder desamparar um posto, d'onde es-
O JVDBU
tava observando a tecedura d'uma intriga inquisitorial
contra o seu amigo, intriga que requeria urgentíssimo
nmedio.
Antonio José da Silva, terrivelmente surprebia-
dido, escondeu de todos, e da esposa, o conteú-
do do bilhete, para nAo perturbar a satisfaçao dos
convidados. Julgou elle que a intriga ou seria loeo
desfiada por esforços do amigo, ou viria a vingar
mais tarde : como quer· que fosse, absteve-se de so-
bresaltar a família e QS hosped,, simplesmente ao-
nunciando que Duarte Cottinel faltava ao jantar por
desculpaveis motivos.
Loureocinha, durante o jantar, andou pelos hra-
p.de e o mais do iempo. esteve nos do pa-
drinho, Diogo de Barros. O ancilo, já sabedor da
breve Sllhida de Leonor, fitava olhos bulllidos oa afi-
ll•da, e dizia-lhe :
- Nlio a o teu decrepito ami-
go.. QO!ln® tivwe$ s.w aPDos, .tua mae. te faDará de
mim, e te dirá qaapto -quiz a arós, a teus paes
e a ,ti, aujinho do .eéo. .
-Essas lagrimas, meu tio, 1811 amarpar a
fe!tta· da noe.sa Looreooa-.. disse Leonor -.-quem sa-
be ainda se DÓ6 iremos :para fóra '? Pareee-.me q.ae
YaiBOS já· • •
- NlO e&qQ8CeiDOS, nlQ ... -acudiu Antonio·
Joeé, reooncentrado e triste-:
ROIIAJIII BltRICO
- PGis que. ba, Aatooio?-perguatDu Loorença.
-Nada, minha mie I •••
E, tomando da ID88II DIM aln eaoeca iodianl,
exollmou:
-Bebamos i uode de Duarte Cottillel Fraaco;
·amigo honrado, amigo dos qoe a divina Provideooill
dá aos infelizes que a nlo denegam nem ofteodem I
Bebamos ã sande do generoso defe11sor que fakou n'ea-
ta festa de família, porque nao podm ao JDe8lllO r.. ..
po estar aqui 4l defendei-a das armadilhas dos nOIIil
inimigos I Bebamos ã. saude de Duarte I
Bradaram todos, tirante Leonor e l..ooretlça:
- Á sande de Duarte I
-Tu nao bebes'!- pergrm&ou Antonio á es-
posa.
· -Estava distrahida. • • - respondeu ella; e
1
pegando da sua taça, disse ella:
- Á sáude dos sinceros amigos I
. Lourença CootinhQ bebed 'lambem.
Antonio José olhou-as com severidade, e m11r ...
morou:
-Sois ingratas I ...
-Entao, snr. Silva?-eulamou I>Wso de Bar-
ros- sao isso palavras que sé digam?
-Pois que quer v. s.e?-redarguiu o hebreu
- aiada nlo pude Pf9VII' a eatas creaturas que Duar-
te é um homem de bem I •••
-Nem a mim- atalhou Diogo.
. -Pois flUI?! ••• - 'VOhaJ .bteoio. lcEé com
muitó espanto-nem s.•t
- NAo; mas Dlo clebat.amo& h9je 1881. fJUIItlo,
snr. doutor. Fallemos linguagem amorosa, que a
nc.a cteaoeinba eoteD6. Cbepi-me eé 11181 blodeja
de ooofeitos pua a beira da minha afilhada •••
r ... um fme ellro- •a porta da 8IIOida •
ellmiiHII todos. Antes que· entrasse eriado a dar
a-.o, appareceu Duarte Cou:inel, eom a riJta esg.,
Ieida e descempoao semblaia&e.
-Que é't-pa-guntanm -mmt. vozes.
-Vem d, 1 .•. depressa •.• depna •••
Todos se levantaram, e só o judeu passou eom
eBe i proxiala sala.
- Vaes ser preso- disse ofl'egante o almoD-
rife.
-Preso? já? .••
- Jã os familiares e meirinhos estavam ã bocca
da rua. Sei que a ordem tambem se entende. com
toa 'mie e mulher. llea pae já nae p6de salur-te;
mas arrancar·te-ha brevemente da prisao .•• Não
cas agora a cabeça, Antonio t Vem ci I •••
O judeu eorria d'um lado a Gntro apertando ver-
tiginosamente as footes.
-Vem ci .•• eaeata-me •••
-Que é?- AatooiG coa lp38IDO de
idiota.
- t preciso aalar o 110 tllesouro das garras da ·
-
Bem llbea que os ltebreos ricos, ae. ,...
dem salvar-se do fogo, sabem mendipldo do carcere.
-Sei ... e entlo r
-De quem c:oalaa as tou riquezas'
- De quem?. • • de li, de &i. • • Duarte r • • • -
-E jã r então deve ser já, Mltes que 01 fami•
Jiares arrestem o que estiver de portas a deotro. Le-
va-me onde esü. o- tbeaooro, qae eu desço com ele
06 bai10s do pateo, e fujo depois qae 06 fami- ·
liares entrarem.
correu ·ã sua eamara: abriu o gavetlo
d'um contador, e entregou-lhe o cofre, a mal arti-
GUlou estas vozes :
- Nao nos desampares, n1o nos desampares. •
Duarte desceu pressurosamente ao pateo, e •
c:ondeu-se no quarto dos criados.
Instantes depois, entraram dons familiares do
-&o officio e dous meirinhos.
Quando chegaram ao topo da escada, ouviram
pode alarido de gritos. Bateram.
Sabiu-lbes Diogo de Barros, que devia toDheeer
os familiares : eram doas pessoas nobilíssimas, nas-
tidas em doas das mais dis&iootts casas da Dl()D8Jioo
ebia t.
Dqo de Barros, com as faGII cobertas de lagri·
. 4 Os primeiros fldaiKos de PortVf81 boDRvam-se arandemellte com
apresilbarem no hombro a insignia de quadrilheiros da inquisição. Era
uma medalha de ouro com as armas do santo_ oftleio gravadas.
106
IMS, proferiu palams supplit'alltes,
e toduia inoteis.
Um dos familiares disse:
-V. s. • sabe qoaes sao as minhas obrigações,
porque, na qoalidade de familiar do santo officio, sa-
be cabalmente qoaes sto as suas.
-Uma .das presas tem um filhinha de d001
aanos .•. -disse Diogo - como hade ser isto!
-:-Como é eostome-respooden o enviado da
inquisição- as creanças ficam no poder de qusm as
quer aceitar.
Os brados redobravam interiormeute, porquel..eG-
nor tinha ouvido dizer ao familiar: AI ereanças ficam.
Foi dentro Diogo, e os qaadrilheiros seguiram-
n'o.
Leonor girava em volta dos hospedes, eomo para
fugir-lhes, temerosa de que lhe arrancassem a filha.
Antonio José, a um canto da sala, encarava, &'Dal
lelhlrgo de brutificaÇio dolorosa, os movimentos fre-
neticos da mulher. Ninguem sabia nem podia alli
COD80lar: choravam
Os familiares, com .os braços cruzados, espera.
qm o quebrar d'aquella tormenta, e mediam d'alto
abaixo dous filhos de Diogo de Barros que, n'wa
instante de indiscreta ira, tinham posto as maos nas
guardas dos fains.
Antonio José da sa.hio do seu estupor, e ca-
BOJIANCB IIISTORIC:O t07
miobou com preseoça d'alma a encontrar a mulher
n'uma das suas irrequietas arremettidas.
-Leonor 1-disse elle- isto é irremediavel.
Entrega a nossa filha ao snr. Diogo de Barros.
As damas rodearam Leonor, e ampararam-n'a.
A creança expedia altos. gritos. A mie largou-a, ou
por cuidar que a estava estrangulando no apertar
dos braços, ou porque os sentidos lhe faltaram. Uma
das senhoras passou a outra sala com a menina.
Diogo de Barros pediu aos seus coUegas do santo
officio a graça de concederem que Leonor e sua mie
fossem transportadas de liteira â santa casa.
Responderam:
-Nao temos alçada.
Pediu-lhes que o esperassem em quanto elle ia
fallar ao cardeal inquisidor. Responderam que nAo
· podiam esperar mais tempo.
Leonor e Lourença cobriram as mantilhas, e
desceram encostadas âs espaduas de Antonio José.
Um dos meirinhos fechou as portas, depois de
ordenar da 'parte do santo officio que sahissem todos
os escravos e criados.
Assim terminou o dia 5 de Outubro de t 737,
segundo anniversario natalício da filhinha de Antonio
José da Silva.
. I
CAPITULO IX
A inquisiçao tinba «ijariamente · dotis conselhos,
chamados ordinarios. Um das oito is onze horas;
outro do meio dia Ai quatro. ·
Quando oe pl'8iDS chegaram á santa casa, jâ os
e secretario tinham sabido da mesa do
· santo oftkio.
O alcaide conduziu-os a um vasto sallo, jâ alu-
miado oom Jampadarios pendentes do tecto esfuma-
do, e mat1dou-os esperar, recommendando a Leonor,
que sohl(.ava, oompleto silencio .
. Um guarda,. ou dlaveiro ficou encostado ao ba-
tente di alterosa porta.
Antonio José sentou-se n'um tamborete de pau
entre. soa esposa e mie. Apertou nas suas as mAos
de ambas, e murmurou :
l'OL. II
!tO O IUD111
- NAo desanimem, que Duarte asseverou-me a
nossa proxima sabida.
Loorença soltou um gemido, e apenas balbuciou:
-Duarte I ... Creio que estamos perdidas I ...
- NAo estAo .•• nlo estao ••• Tens oorag81D, Leo-
norf
-Tenho •.. que ·soo mae •.• - exclamou ella,
levantando a voz.
O guarda pronunciou um longo sio.
Ás cinco horas,. Jolu. . ., .... de, e disse ãs pre-
sas que o seguissem.
-Adeus 1-disse I...eonor ao marido, inclinan-
do-lhe ao peito a face.
Lt.IDQII Cootinllot heiflu o rostG do Jilbo,:e dis-
-.ltle ao ouvWo: • ···
-Até Deus, fJihe! :. · :•
AmoDio José abra(I00>43 a • tempo, ·e eahiu
sobre os joelhos com elas.
-Venham, mulheres 1-disse o cmre-
podo o aspeito.
. Levantamm-se: Deus vitHS.ltmatu-se;.
ViD+os, pooqoe Deus esti em lUdo • wê "*-
Em quanto o aloid& Bio voMou, a 11*111 8p-
de jeelhos, com o roam. sobre o t.lbonlé. Ou-
viu os sonoros passos do chefe, 4ós earcereitolo; le-
•JIIteu-se;,. e pel1UD100·lhe:
- Póde per piedHs dize.me 88 18ÍDia mui&
e minha mie ficarAo juntas 't·
ROIIARDK ••sroarco tU
- Fiearao jootas até ámmlll. SiSa-me.
Antonio foi levado ao cubioolo quadrado de de&
palmos em que estivera onze annos ames: era o cat-
cere numero seis- do CtJrf'6dBr mm .,.. O &lcaide
àtev&ose alguns segundos pan lhe mostrar a ellxer-
83 e a manta, o pote da agua e o pucaro; depois •
lúu tom a Jampada, rodoa a ebave, e fez as Cravas
protuadas d'aquelle ergastolo, por ordem dos levita
d'um Senhor, que tinha feito a·loz ooivetsa, ft'm
dil de lwa feiclo, ante! de fazer oe levitas n'om tia
de l'aleOI' ãs suas creatoras. Não sei se o hebreu ft..
000 scismando n'isto: o blaspbemar, o'aquella
•· seria nlo vulgar virtude.
- Domingos de Gosmao, se esd· em alguma parte,
e conserva a memoria. dos fayores qoe fez ao
humano, dete saber contar como foi aqoella noite
ele Antonio José da Silva, de Leonor e de LooreDQ4
Coutinho, e d'aquelb creaooinba sem vêr sorriso oti
lagrimas de pessoa conhecida.
As seis horas e meia abriu-se a porta do carce-
• re numero seis : o guarda depoz ao lado da enxerga
de hebreu um prato de arroz com um poeta de
ç h" t
petx.e, e sa m .
_ 1 A alimemação dos encarcerados, com alpmla oas bo-
m de lh'a miiústrarem, era a meSM ea todas u priaõee illquisiloriaee
110 teniterio portuBUez. O aulbor d& IIU]tlirição de GoG, a qual. co1110 ae
dllle, foi: loJico tempo l.u!lillrio d'ella, 1» tosaR'- Mft alimentas, di!.! o 88!'
_..mte: aOs presos são bea tractados; comem tres Wles ao dia• almoço
is seis horas da manhi, jaalar ás der, e. ceia Ífl quatro lloru da tarde.
o -lllllllU
Antonio José deteJe-se a olhar na ebamma da
lanterna, que o chaveiro pozera ao lado do fnlO.
Voltou o guarda, e diss&-lbe que comesse.
· - Nao pesso- respondeu o preso.
O 1111rda sahiu com a luz, e correu os ferrolhos
da porta.
· Ao romper da manhli, Antonio José tinha 08
olhos cravados na alta fresta, por onde entrna O· dia
atravez de grades. lssim que o cobiculo se aclarou,
olhou em redor de si: reconheceu aqoellas pan!des.
Viu um óbjecto novo: era uma cruz, fei&a eom saa.
gue, á cabeceira da enxerga. Algum desgraçado aUi
deixãra aquelle testemunho de sua religiao, traçaà
com o sangue furtado ao coustrictor · das torturas.
As seis horas, levaram-lhe o almOÇD. Antooio José,
como tivesse orado, cobrou alento. Orar a quem.'
Nilo se sabe; mas as testemunhas juradas contra elle
disseram que, atravez das escutas da prisão, o Tiram
algumas vezes orar de joelhos. Orava a Deus.
Aos pretos dão-lhes canja de arroz: chama-lhe o Crancez cange, ao almoço;
ao jantar e ceia dão-lhe peixe e arroz. Os brancos passam melhor: de
manhã dão-lhe um pão fresco de tres onças, e peixe frito, fructa, e 1UII
JiDcuiça, se é domiugo ou quinta feira; e n'estes dias, ao jantar, dão-lhes
carne, um pão como o do almoço, e um prato d'arroz e algum guizade
com rarto molho, para adubar o arroz, que é cozido simplesmente com
sal; nos 4e mais dias o jantar é sempre de peixe ; e i noite dão peixe
Mto, pão, arroz, e guizadtt; carne é que nunca lá se come i noite. • Pre.
S111De o desconhecido author que a abstineneia da carne leva em 'rista ~
tar indigestões. Aquelles bJiieaicos sujeitos po•pavam os corpos salutar-
mente, ao intento de lhes purificar as almas no fOiO. Em Lisboa p ~
cia a mesma piedade. ,Veja o liv. cit. pag. 81 e&!.
BOMAID' IIISIORICO
O oerto ê que se lbê fez Is de •peranoa. Acei-
toa o almooo, e comeu porque esperatll rMga&ar-se,
depois d'alpma ftagellagiO.: DeFG.Jhe uma vassoo.
ra ptn a I i ~ a p e z a ilo ealabooQo, um pote pan det•
mibado fim, e uma celha, que serria de cobertln
ao pote, e de receptatalo • lim. Depois, mrtiram- ·
1lle o eabello, vestiram-n'o eota o traje da ena, e
deipojaraa-n'o de todo que leYBva ve8tido.
O hebreu, ooze 11UlOS aat.ts, tinha deitlado alli
-.. abide que o tnc&ava com IMDOS crueza, ba
qae nuoea. lhe coooedeue um lift'O 1. O oova officiai,
., substitUíra o oak'o, deootna 1 ferocidade ordj.
naria d'aquelles fonccionarios da santa casa, e póde ·
lfl" que eliraordinaria ferocidade eom elle.
Leonor e Loorença tinham paasado a noite jtin·
tu. NAo 1108 arrojlmos a bosquejar inoito em ~
bra as presumíveis qustiaa das duas mUlheres. A
peona lllllis affeita a escrevei-as, ainda eatre os de-
dos de Llorente e de Alesandre Herculano, calle
tlesanimada. Esta inefticatia e incapacidade para dea-
cripções de agonias inenarraveis, faz honra ao- oo-
J'a(lo do homem.
Ao outro dia, por volta de onze horas, um guar-
da separou as presas. Abraçaram .. se. Loorença disse
' esposa do filbo :
-Se vi"vermos ••• até ao auto da fé •.
• Nos carceres da inquisição nem aos sacerdotes presos era conce-
dido o seu bmiario.
o·.,_.
· Leooor, qPMldo se 'Viu sdllnha, ajoellwa., e .. :
._Meu Deus, graças te dou, porque me lenll&
minha ml8 .e mau.paeJ' Deus de miserieor.dta, l8flli
me a minllp filhinha, se eu ,.f) heide .m vêt .....
n•m'a, ó· Senhor; Pll'll 811 podEr.aoabar.1'8Siglllekt
. . Ao . mesmo tempot em officill do saoto •io
entraTa á priJiliO do laebreo· a ca..
clarasse exactaments os 'seus h1"res, aére818111Pdot
-Da pane de leMas Cbristo vos digo qúd, se
81ti-rerdes innomMI, 108 será entregado tudo que
10sso· fbr ; e, se alguma ooasa sooegardés, qoaiCJIMI'
que seja vossa inoooenoia depois reccmbeoida, ,.,

Antonio respoodeo que tado qàe pmsoila
deixãra em soa cua no largo do Soceorro; ajuhtoo
fJ08 f1011C0 herdãra de seu pae, e a peq118DI hera•
a· empl'efcira em adornos de sua casa.
A uma hora da tarde, o alcaide e Sl goanll
eobduziram .. n'o i mesa do santo officio, eeeopada pot
tres inquisidores e um secretario. Maodaram .. n'o 1881-
tar em tamborete raso, ooieo objs3eto desprezitel 4ID
meio de ricas poltronas, tapetes, e gualdameoins qtm
eJK)roavam o espaçoso recinto. Os inquisiJores occo-
pavam parte àls poltroDM Jateraes á Dl81Sa. O .-.-...
iario sentava-se rente ao topo da banca, VGitada aà
costas a um grande Cbristo que se alevant.Ha até ã.
abQbada. Começou o depois que elle
foi ajuramentado com um missaL Pert•taNI!Hhe
!US
se sabia porque fôra preso. Respondeu que oao. Pe-
diram-lhe pelas tmtranhas miaericordiosas dB NOI-
10 &mhor Jaus Chrülo t, que confessasse para
mais depressa experimentar a bondade e
dia d'aqueDe tribunal com os sinceramente arrepen-
didos.
Disse o hebreu que se julgava victima de odien-
tos intriguistas, que tinham querido vêr em suas co-
medias alguns rebuçados insultos â religião catholica.
Instaram os inquisidores pela continuação das suas
conjecturas. Antonio José respondeu que Dlo tinha
outns.
Leram-lhe o que eJle tinha dito, e mandaram-no
assignar. Ao toque de campainha, entrou o alcaide,
o secretario fez um gesto de cabeça, e Q. hebreu sa-
hiu.
. Antonio José qÚiz lêr no semblante dos inquisi-
dores uma boa nova. Figuraram-se-lhe atfaveis no
traeto e tAH!lmovidos nos termos do
I.embrava-se da aspereza dos outros que, da primei-
n vez, e logo âs primeiras· perpntas, o ameaçaram
com a tortura. Sabia animado: enviou aos corações
da esposa, da mAe e da filhinha um sorriso de espe-
rm;a.
C1PITULO X
N'este dia, Du.te Cottioel, a boru deiiCOStg.
Blldas, ·estala alada fedlldo ·em 810 qaarto. A ooi1a
pauou-a DI vi;jlia d'lllll sUppticio atl'dz, com illtel'-
mittentes de infernal alegria. Tinlla aDi o tbaoont
de Antmio JOié di Sim. Abrira-o, remuen-o,
contan as joias, contan os brilhantes: estava· tado.t
e ·mais nm annel, ··que eDe nunca vin, o. Mil,. do
t.OJttadGr .. mór, a pn11dl qáe D. ~ de 8np1111
den ao seu déstro caçador na tapada de Vitii-Vic;.aa.
Mas assim que eJie ·despregava os olhos das flamms-
jantes pedns, assim que descia a taJIIpi do cofre,
resaltavatB oolrls diiiOOliS <!e dentro d'elle, e alu-
miava'm-lhe·tres pMI03S em oontoroimentos horno-
tes, amamdas a tres postes, e as ·labaredas a subi-
rem, e a serpejarem por ellas, e a .famarada negra
lt8 O JUINIU
a sobir em columna d'en&re as camadas de lenha e
as faiscas a lampejarem pela eerraÇlo do fomo, e as
gritos estridolos a retinirem por sobre o crepitar da
fogueira.
Assim que o almoxarife se afez áquella visAo, e
achou qoe o segrêdo magico de a desvanecer eslaYa
no abrir do cofre e na deleitaÇlo de tirar e repor as
preciosas camadas, conseguiu conciliar o somno. Ora,
a placidez, com que elle dormia ás onze horas da .
manbl, era tal, que estremai-a da
placidez com que dorme um jU6to.
Ás onze horas, porém, foi espertado por esk'oo-
doso empuxar â porta. Salk>o do leito, e abriu as
jlaellla pare OOilveruJena de q..Ulvia:sol. ar.tloz
pli'a· elte, C8IIIO paPa. que. ae 811J111
de 811Msetre. duro de fiara kiav• a- •• o
o iol de:Oeu. .,
Oatia O pitar cdávuJa de V.Jieilda ; i
..... e-lbriu. '
A :aegm ia dar-Die palie de 4ue esava .mo pateo
• famliar e -.. mtiriailo de 111110 lllbJilfO"
a.d'ela. ' . :
• tDII eseoade, .,.s 'âoao chllu !-A
........... . •''. .
· -Se .. tiiXIBC1o 1f Jlll&;qiiB? _..
eapdlmiDie-t:plis .. :!
- Peis taflb'. . . . . .
- Nlo nes presa, bnla; ,... aer outra TM
llOII.umB' .lfOIICO ltl
Jilrlll*l .... a NBpllio ao. qu -jt diilíllte·;
....... ,. ·I
-Perguntada outra vez? - tono•
Jlilm,e.da ............ ,
. -.NID:·to..- a perpmar o qae já
á GGitllllle.. Pois to at.f
das que as testemunhas tambem sAo m&ttidls •
frido? ilWi .abi • iallitilr., é se.pre asaim;
é eJie basear
r. A alo nstame • coafpr.
tadoras de Duai18, penllCiu em fugir pela qoillbl1
mas o familiar e meirinho a. itttimar
o -ahBOJarife. pOP -.oeira · que
faltou ã negra tempo e occasiao tle fugir •
. , : .Depia elila sahiu Don, camiebo do . Cribunal.
A preta foi conduzida á audiencia ; o
fe tia. Btemposta mtrou no aposento de :ak:aide,-onde
se demorou meia hora em yfttiea muito· reeondi1a-.
Ao capelll& -. infentes, pae de no.te, êtevia
e ·alpaide a na: eDYfStdaN n'aqoelle ea:er«icio bem
n.JHrado. .·O.alquJS:arife sabia que -n'aq.llle }»>
Bllql au.a 11m ausiliar poderoso e de oonianea
ra, qualquer 88111 despender--se na eompni
• :alma bastante abjeati para vender--se can. A praio
tiea entre os dons terminou depressa porque as oc-
..,._.JDOila ., -piOOO iBtervalla-
tbls de· reponso, · 11\ôlinfuttê d'aquefte 'ttlez de Otttn-
bro. em que regularmente se celebravam os au&cli
.. . 011!-
• fé-por oàir eáüo a pfiram· tbliap • »
Yento- e serem mais frequentes os interro...,.
• torturas das presos t. ·
Assim mesmo no breve .._.,. ....
PI poatos ·esNOCiles, respecmva.-.68 i n8p'l, foram
e as oanseqaeuciu 1llá pl'tfri1t1o t8""
.ooiadas.
Felieiana, depois de ·Oii1'ia o ll8ll
depoimento, e HBipoo de ciVl. Maodaram-oa Slbir;
e qnando ella eodireita'a pelo t'llllliàbo do .-., om
parda mudou-lhe a direeoto, dizendo.Jile :
vêr.
-Por aqui.
ApitOrOG-se a negra, e perguatou em aaaills :
-Eu fico presa?
- NAo : ficas alli em baixo u'um quaftO até
Feobll"àl.a'a. Começou logo ella a dar gritos e
a ·relolver-se no pavimento.
Acudiram os guardas com vetgaetas e aoreaça-
nm·n'a. Foi chamado o alcaide, para aquietai-a.
ria elle ficar a sós com a negra para aealmaH oum
ruões consoladoras, que 18$Ím OOD'finha ; mas, ...,...
llindo os estatatos da inqniliçto qae alBUJD official
4o servioo dos carceres ·estifeae·cam o preso sea
1 O s&JW· .-. pr*ia a prliiMilll domlap do advtiDie p8llille
Q ,enucelbo d'este dia lalla diJjw,lso e os ioquiaidores,.queimaltdo
em tal dia os peccadores, couimemoravam de antemão a seotença do
íUpremo julpdor.
ROMüa ma'ORICO
o teatemoabo d'oon ~ o , o altaide vltleu-18
do terror .pam aqoilal .. _
Ao outro dil, o guarda avisoo o alcaide de que
a arcra 811a'a clamando qae jonra lllso, e queria
ir desdizer-se á presença dos inqoisid<ns, e eentar
o. qoeae pauára com a pesua que a fizena jarar .
. O alcaide amou Doarte Cottinel, que sem mail
dlmora que a oeaesaaria para prover-se d'um frasoo,
foi á.SIIlta casa, e pouoo se deteYe com o conft.
dente.
A negra Dlo cessua de exolamar e pedir que a
ouvissem. Pouco antes da hora do jantar, o alcai4e
com o pretexto de i castigar, entrou sosinho á pri.
sao, e tão brandamente. fallou á negra, tao breve Jbl
figurou a soa stbida do santo .officio, que a desgraT
çada aplacou-se, e prometteu comer e socepr ati
ao outro dia na esperança de sahir então.
Feliciana jantou com algum appetite ; nlo achou
travor sensivel no mOlho da caldeirada do peixe : co.
meu bem, com tenção de dormir melhor para ali ..
rar o tempo. Meia hora depois, quando pensava em
adormecer, saltou da eDierga em gritos e ancias.
bradando por soecorro. Acudiram os chaveiros. F&7
litiaoa queixava-se de ter dOres infernaes no ventre ;
rolava-se no soalho, e levantava-se de salto remet-
tendo contra a porta para fugir. N'uma d'estas in-,
vestidas que os guardas repelliam, a negra cahiu,
etuRI
a.tirou aa peroaa em cooYUIIões, relor'-
eeu bocca e olhos borrendam....., e IIIOl'reu.
José Maria da CoMa é Sitta
1
o •ROII illlpfrfeito
.t.iopapbo de losér dil o 511tllinte iceroa
d'eat.a escraYa:
c Loorenea Goutiall&, mie do poeta, tiftb• uma
atraYa preta. porque n'tiBB Cempo bam ain&IJ es-
.eravos reino, e 8861'1l'f8 era desliGDetlla
4l dissoluta, como todas elkls,. e como o são qaali ao-
das as criadas.
c Antonio José da Silva a eastip8, e é mtural
com rigor ao que em taes ca90S
ta U8a no· Brasil : a negra era ritlptir.t 00110 quasi
tolos os nawos, e oo por IBBiignidade propria. fMl
por suggestões de pessoa oa pessoas a qae111 sequei-
sou, apresentou OORtra elle no saftlto officio maa no·
ticia de judaisante e relapso •••
c Porém a justiça de Deos nllo quiz que esta
perversa mulher continuasse a ajudar a roina do
81!0 seabor, nem de sua vingança tiO trai-
dorameoae procurada ; pois apeGas a negra entroo
na carcere possuio·se de taes terrores que dmtre
.., breves dias termioou sua nilteocia. • 1
Eu inclino-me a erêr muito mais nos efeiloS do
:veoeoo de DU8te Cottinel que nos ptYores e remor-
806 da negra.
1 Vol. x, Jlli· 33! e 333 dei Diecionario bibliogrophlco.
CAPI'ftJLO XI
Estavam e111 eampo os poucos amii'JS e os mtJi..
&os inÍUlijOS de Am.onie José 41 Silva.
Inimigos eram os homens. de letras, QJI8 se jal-
gavam comprebendidos na allecoria 'llle
D. QWcbote e Sanobo Pança levaram a poatapés
para fóra do Pamaso; eram os OU"Vintes piedosos de
suas comedias que riam muito das faeecias indeceo-
ws e ce08uravam a licença deabrapda do jGdeu ;
eram os frades, que atraYez da gelosia do seu cama-
rote, se tinham doido das freehadls que o. jOOe&
nunca lhes apontara.
Amigos tinha dous dedif.lldos e diligentes: eram
Diogo de Barros e o coode da Ericeira ; DliB o ami-
go que elle em maior conta e prestimo tinha en
Duarte
O JDDIO
O conde, desde logo, anteviu o desastre, infe-
rindo-o do sobrecenho eom que o inquisidor geral,
e parente seu, D. Nuno da Cunha o desattendia em
rogos pertinentes ao judeu. Diogo de Barros, por
1
Soa parte, achava de bronze o peito dos membros
do sopremo conselho. Todos, ã uma, professavam
odio entranhado ao judeu que podéra salvar-se do
justo castigo, para reincidir na mesma culpa ; e de
mais d'isso attentar contra os bons costumes expon-
do ao povo os quadros inreligi>sos e deshonestos das
suas operas, recheadas de gentilidades, heresias e
ehaseos ã piedade.
Diogo de Barros, confiando no olhar suppliean-
te da menina que tinha em ·sua casa, ia com ella
aos inquisidores, lefava-a nos braços, e ensinava a
ereancinba a dizer p i ~ âqueUes homens severos
qoe lhe faziam medo.
Alguns, tocando na faGe da menina, diziam-lhe :
cDeus te afaste dos paes qoe haviam de perder a
toa alma».
Outros, voltavam-lhe as costas, e respondiam
azedamente ao solicitador da liberdade de tres rela-
psos, que tao mal pagaram ã misericordia das en-
tranhas de nosso Senhor Jesus Christo.
No entanto, Antonio José espantava-se de não
ser chamado a novo interrogatorio, ·decorridos vinte
dias de prisão. O mez ·de Outubro tinha passado :
para elle era já ponto decidido que ainda estaria p ~
ROIWfCa BISfORICO
-
mn .... a&é ao primeiro .-o da fé,. a Dlo ct.
se a)guaa4x\Jla0rdinario e ltll'iSiimas vezes
r.- de sahir livre aam o 4*'6monial d'aquelle •
de mortQ pac'l QDS. e de perdao para o1JirOtJ
- espiC&aculo de jUBiiça e miseriCQI'dia como
a tarja que .circomdava o painel do fundador do san-
to .oftk.io, arvorado na procissao, aqaelle S. Domin-
gos qoe em uma .das mA.os empJJnbava um ramo de
oliveira, e n'ou&ra uma espada nua.
O proee&SQ estava, porém, e o in-
das testemuobas oontinuava. Qoaes teStemu-
nhas 't
. Aqui é o ponto de colher os pannos â imagi.na-
çao, e eooostar-stt o romancista ao pouco de que
J)9de para não escorregar no plano in- .
dinado das byputbeses improprias do assumpto.
O processo de Antonio José da Silva está. no ar-
cbivo nacional da Torre do Tombo : para alli. foi nos
cartorios das inquisicões em 1821. Alguns curiosos
possuem cópia do processo ; eu nao à vi, nem estou
ao alcance de poder ainda consultar as peças prin-
cipaes, que mereciam a publicidade, usurpada. por
farragens inutiJissimas que pejam as livrarias.
Costa e viu o processo, ou o principal
d'elle.; todavia, um sujeito que se presava de ser
futilmente prolixo em numerosas paginas a proposito
de nada, foi mais que omisso na biograpbia importan-
tislima de tao assigoalado escriptor, e desasisado
lOL. D {5
o J-.r
n'algom dos esclarecimeDtos que di. .()a.
tro bibliographo de maior tomo . o snr. · lanooeado
Francisco da Silva, nlo obstiaote a breve ·e 88elida
noticia com que antecede a relaçto das operas do j&-
deu, cuida em corrigir de passalem os grali&S erros
de seus antecessores, e restaura Iueidameote a vllfda..
de de alguns essencialissimos factos. Como quer qte
seja, pelo que respeita ao processo, ater-
mo-nos ao que estiver eseripto por peesoa que o ba-
ja examinado. N'esta parte, irei trasladando o pouco
de Costa e Silva. Diz elle : c Sepultado o supposto
· réo no earcere n. o 6, do chamado corredor .-.
novo, deu-se obra ao seu pi:ocesso, e como faltavam
provas, e culpas articuladas, e definidas, pois todas
se reduziam ãs accusaçnes vagas, taes quaes as po-
dia dar uma negra boçal de Cabo Verde, quizeram
os seus juizes, ou seus algozes sahir da diffiaJidade
creando-as na mesma prisao.
' c Do seu processo. . . consta que os guardas fo-
ram incumbidos de o espionar pelas escutas 00 bu-
racos, que existiam nos cantos dos tectos dos ar-
cares d'aquelle terrível tribunal, dispostos 'de manei-
ra que se podesse vêr e ouvir quanto n'elles se pas-
sav;., como eu notei visitando grande parte d'aquel-
las masmorras, quando se patentearam ao publico
t821. Que os ditos guardas quasi todos depo-
que muitas vezes o viram ajoelhar, persignar-
se, e recitar devotamente as orações christls ; acres-
IOIIAICI BltroRICO
!t7
eentaftdo 96mente alguns que elle alguns dias nAo
·tocna na comida, naturalmente (diziam elles) por
lltiifazer aos jejuns da lei de Moysés •••••••••••
c Cma&a igualmente do mesmo processo que o
poeta prolestou sempre pela soa innocencia ; que
produziu em soa defeza muitas testemunhas, e en-
tre ellas religiosos graves de diferentes ordens,
alé da dominicana, e que lodos elles afiançaram o
seu zelo religioso, a soa exacçAo no cumprim:nto
- preceitos da igreja .•.•
Qoa88 Lestemunhas, pois, depozeram contra An-
tonio José? Os guardas dos carceres, os officiaes
ealternos e sujeitos ao alcaide, a quem incumbia a
directoria interna das prisões. Contra o testemunho
dos guardas e o depoimento da escrava assassinada
baldaram-se os esforços mais ou menos . consciencio-
sos dos frades das differentes ordens, com quem o
-hebreu industriosamente mantivera sempre boas re-
lações, cuidando que assim preparava patronos para
a crise que sempre se lhe antolbãra. Duarte Cotti-
nel levara aos antros da santa casa o valor do mini-
mo d'aquelles brilhantes, e corrompêra as sete cons-
eiencias necessarias para fazerem prova de que o
preso, algumas vezes, não comia, nem, nos interro-
gatorios subsequentes, confessava a razão que o ra-
zia abster-se de alimentos.
Lourença Coutinho e Leonor, levadas ã confis-
siO na tortura, ignoramos ·quaes revelações fizes-
........
sem, amncadas pela moni&aQAe •. É .,...
esperançada no perdio. a. 800116111118 •
judaisante, e que Loonor, oompeUida por •
perança, mentisse aos verdugos para que em
do Deus misericordioso lbes perdoassem a Ullpa.· ·
Correram dezesete mezes. O proe8810 dos lftr
fechou-se em onze de Marco de t 739. .A s.-
tenca de morte de Antonio José da Silva, a requeri ..
meôto do promotor, foi lavr.ada n'aquelle dia., e lop
relaxada ao braço secular. O accordAG da. oonciem•
çãe não transpirou. Já aquella vida estava irnmis-
sivelmente condemnada ao fogo, e taoto o réo ca.
grande numero de seus amigos esperavam a aiJial.
viçAo no auto da fé do proximo Outubro.
Decorreram ainda sete mezes.
N'este período, o mais concorrido espeotaoo1o
do theatro da Mouraria era a opera do judeu, o
Precipício de Phaetonte. entrára em
quando o author já soffria o terceiro mez de &arGe-
re, em Janeiro de t 738. O publico victoriava o in-
feliz, sem ousar maldizer a justiça que matava larr
tamente o seu mais festivo e popular autbor.
Os frades lá estavam casquinando no seu cama-
rote ; as familias dos inquisidores concorriam ã festa
do talento do hebreu, que, áquellas horas, ajoelhava
pedindo á Providencia um testemunho do seu po-
der.
A visinbou-se o mez tle Ouf.llbro. Antonio Joeá,
• aoiiANêll MSfOBICO
llilac)•nos aldlaos mezes o nAo dlamassem a per-
,_..._ doas eebjecutn\ls devia de f a l e i " ~ uma a da
~ ji ·reltxmta de morte; outra a do perdao,
mediante o abjurar no auto da fé. Não se demorou
a sciamlr na mais pavorosa das hypotheses : fiava
• 888 ioooeenela, no valimento dos amigos, na
fraternal amizade -® seu Duarte, e, mais qoe todo,
III' ·Jnsti9a de Deas.
Desde o primeiro dia do filtal mez de Ootabro,
• Clr'IOIO do hebreu pulava-lhe no peito de cada
wt: tfH 98' corriam os ferrelhos do seu quarto. Ft-
tna·o restO do alcaide, que nunca se lhe voltou de
freltte, nas raras occasitses que entrava á prislo; pe-
dia aos ebal"&iros que lhe dissessem alguma cousa
do 180 destino; pedia novas de sua mwe e de Leo-
:DOJ; ropn qne ao menos lhe dissessem se e lias vi-
viam. Nlo lhe respondiam, cumprindo rigorosamen-
16 as prescripções do santo offieio, como cooscios de
que a DMifte era- o castigo da infrac<;Ao.
Ás tres horas da. tarde do dia t6 de Outubro,
fJtlfiU Antonio José da Silva mmor de passos ao lon-
fO do corredor; eollon o oovido ao taboado, e sentiu
que se visinhavam da sua priSão. Abriu-se a porta,
e logo assomou o promotor da inquisição, e um mei-
rinho da justiça secular.
O promotor, sem encarar no preso, leu a sen-
tença pausadamente: relaxado em carne, morto, quei-
mado; como convicto, negatitXJ e relapso.
o HlDIO
Lida a sentença, o meirinho l a ~ em vollll clls
:mlos do preso um baraço, eomo aipal de qae f8o.
mava · posse do réo que a justiça eeelesias&ica e.
donára.
Antonio José da Silva morreu n'aquella hora. Es-
tava em pé, tinha os olhos alumiados, respirava, ou-
via, via, e entendia ; mas es&ava morto.
A beira d'elle, depois que o promotor e o mei-
rinho sahiram, ficou nm homem, chorando. Ena um
jesuita de S. Roque, o padre Francisco Lopes, a
quem incumbiram conduzir o padecente ao onlm'io.
O hebreu deixou-se levar. Entrou no santoario,
com os olhos postos na imagem de Christo, que lhe
antepunha o padre. Ajoelhou, oahiu, quaado a seus
pés se fez um vacuo, um subito. aluir-se O· pavifaen.
to por abysmos em que elle se despenhava coa o
peito congelado do frio das entranhas mortas.
Fechou-se a porta do oratorio.
N'mn caso analogo de inexprimível tormeotD,
perguntava Féréal, historiador· da ioqoisiç&o de ·Hes-
panha: c Quem póde sondar os mysterios da a100ia
e da morte, d'aquella suprema luta en&re a fónat
terrestre e o homem immaterial '! •
CAPITULO XII
Ao aelanr a manbl do dia t 8 de Outubro de
1739, abriu-se a magestosa igreja de S. Dominsos,
jã decorada para a eelebi'IÇie do auto da fé. EstaYa
pomposa. Era o leao coberto de grinaldas e laçarias,
enfeitado e l'istoso, com as faoces abertas á espera
do Mdo d'aqoelle seu dia ·de festa, do seu almejado
domingo do· adfeDlo. ·
O altar-mór, bem que Begl'8jasse de crepe, res.
plendia com os seus doze candelabros de prata, e
doze alvissimos eitios em argentinas toeheiras. Dons
thronos se efBOiam lateraes ao altar: o da direita
pertencia ao inquisidor geral e sopremo conselho; o
da esquerda á casa real.
Abaixo do arco da capei la-mór, entre as naves,
estava OOlro altar, sobre o qual se viam dez missaes
OIUDBU
abertos com suas capas de couro, releYOS dourados,
e fechos de prata. D'aqui até á porta do templo, eoos-
troiram uma galeria abalaustrada d'ambos os lado&,
com passagem pelo centro, e bancadas no interior:
eram os lugares destinados aos presos e aos padri-
nhos. Pannos de sêda adamascada franjados de ouro
e prata pendiam dos tectos e frontispicios das ca-
pellas, em que sobresahiam a meio relevo ;,guras dt
boa massenaria e todas cozidas em ouro sem se fJk
outra cousa, como rpnta fn· um de Sousa na lu-
xuosa descripçao d'esta igreja, a qual nao é já a qoe
o leitor conhece.
Ás Qito horas já grande espaço da vasta igreja
61l&ava oooupado pctr par&e du .ais lus&naà failias
de Lisbolt. e fidalgos provilloiaooa, que iam. go-.18
cEaquelle espeatarGJo. aaperior e• appanto aa dai
matns iaqoisiçl)e& do reim.
Ás nove• horas' e iDeia aabiu ao seu ·IJIIIIIiia&
oamarote o cardeal iaqoisidGJ'..mór D. N011o da C..
nba, e os conselheiros. O pallnqaila raal eonaenaw.
corridas n cortinu durai MI aqUIBei primeioo ade do
salljDioario dnma IQ diviao.
Assim que o ioqoit!idor.->r appareceu .no. Nlro
do ktmplo, dobr.anm os &ioels,. e-lop &prociSIAO do
auto da fé sabio. diJ santa: eatll, e· a bl'fies passas.•
somou no limiar do templo o .el&anda'l&·do ..,. OS.
flcjo, etm um longo. 86CIIlito de O fun.
dador da ordem, ea&aoapado o'tím riquislime piDII,

-
.n. a lalqpljant.e etpM1a em panlao, era a iuipia
do estandarte, p\!rante o qoal povo ajoelhava e ba-
&il· nos peitos. Em 'seguida aos frades ioquiaideres,
uminhavam ares mulheres seta habito; uma, comes
alhos no rAtão, e braços pendidos, andava com firme-
•: era Leonor; oo&ra, que doos esbiiTOs ampatMaat
desfallecida, era Lourença Coutinho. Cada presa le-
vava na mão direita um eirio amareMo. Seguiam-se
01 corademnados a abjurarem oom peni&eooia, ou a
prillo indefinida ou galés.
Entre estes e outros mais desgraçados hasteata-18
lJ8l arande crucifixo, com a face voltada para os que
araram primeiro no tempiQ. Depós a cruz, iam tnB
el&aluas de hebreus ausentes, oondemoados ao foro,
dous caixotes de 08608 d'ootros que tinham morritfe
por. efteito da tortura, e b'es penitentes de carocha
e samarra ou sambenito· pintado de demooios e fo.
peiras com fogo revolto. Um d'estes era Antonio
J66é da Silva: diziam que era, dizia-o a sentença as--
cripta na orla da samarra; mas depois de dous ao-
nos e onze dias de lagrimas & trens difficil seria in-
as feições antigas. O pevo, o povo que
se rejubilava nas operas d'aquelle marlyr, contem-
plou-o, e não chorou uma lagrima r ••• Oh f o povef
a caaalba de todos os tempos e costumes f
Antonio José da Silva nlo abrira os olhos, dtP-
rante o transito da á igreja. Encostado •
bombro do padre Fnncisco Lopes, hal61Bente ltle
··-
INDivt quMido o pallido jesuíta lha I*'B'Jillaft· ...
aum anigo essencial para a sua sahraÇio.
O banco da galeria em que Antonio JoSé S&' as-
Mil&oll era dos ulthnos. Lá estava entre elle e .,_
llle e esposa a imagem do Cbris\o, vollln<D-lbe aa
cos&as. como no dia do juizo final, consoante rezua
o evangelho do adveo\0.
Fez-se profundo sileneio.
Um frade arrabido subia ao pwpito. e prégoa.
N'om dos períodos mais leYIIltados da soa ~ ,
uelamava elle:
c É a santa ioquisiçao como a arca de· Noé; ,...
rim, amados irmaos. qolo grande ditferença vai
d'ama ã outra f Os aoimaes que· entraram na arca.
abaixadas as aguas do dilufio, sahiram aoimaes da
Dlklreza que tinham; ao passo que a santa ioquisi-
Çio por tal maneira muda os entes que em si en-
cerra, que é digno de vêr-se como sabem cordeiros
os que tinham eot.rado cruelissimos lobos e fefOci&.
simos leões. ,
Terminou o sermao.
Subiram doas promotares ao pulpito para lerem
as sentenças. Cada penitente ouvia lêr o seu proces-
so e coodemoaçao em pé, no meio da galeria, com
a tocha em punho, e o alcaide ã sua beira. ~
lttavam-n'o ã baoea dos missaes, ajoelhava, punba a
mao sobre o sagrado livro, e esperava n'esta postan
que os eoodemnados fossem tanlOs oomo os missaes.
llOIIAIIIa _,uco a.
...,., IIOIIpiDha-.. o prGIIOIOr ...... e.
elle um acto de fé.
Fiodu as ceremooiu ·OOIIl os presos que nao ti-
W.. s'nliap de mottt, vieram os oatros, os reJa..
udol eoa cine. EriiD tres bomeoa e dau lll8lht-
res.
Antonio J o ~ foi transportado em brap. li n1o
ouviu o preceuo. Tinha perdido o alento, quando
via ·IADBqr a deba&eMe soluçante nos braços de dou
meá'inbos,. que lhe ablfavam os pitos.-
Lidas as seotenças, a inqoisiçao, ao. eo&l'eglkl i
juaLiça ·secular, pedia encarecidamente 6s leis e aos
juizes que se bouv...-a com clemeacia e piedade
d'aqnellea miseraYeis, ,e se lhes impoussem pena ca-
pital, fosse, ao menos, sem effnsao de 810MUG.
A historia das ferocidades reügiolas olo con&a
maior i o f a ~ I
Aeabou este acto do drama.
Leonor e Loureoça fol'IID transferidas em bnp
para a laDta casa.
Antonio José da Silva ainda esperou, depoia Q':18
o leY8J'aiD fia· Relaçio, sem oooscieocia de vida, a
aurora do dia seguinte.
Quando ebeBQu ao campo .da Lã ardiam jã ·as
aebas resinosas da fogueira.
O martyr D6o as viu. Devia ir qaui morto,. por-:
qoe eseaanmente o viram astreblDar.
Seio do Altissimo I se te naa. abrisses áqneHa aJ ••
I .
. . o • .,,!.,
•• CRIIII:• bafejo da JOI, .qae ta, .... !
que serias tu, palavra'! · •
N'aqueHel dias pabiitoo-811UDI tfiJS'O
...... · lna8011loio FnDOisee da · fiil.va b'lslada na bie-
grapbia do Aristophanes portuguez.
Reu ll8im "'· extra6ta :
· Lista- da: pe8SotiB fJf11 sdir4m .,_,,•••t.làl fiO
.a à (g, qus se 6flelrvu • ÍfJf".'Ífltl9 .,_.
tJento de S. di· LiiiMIG teo timaif198 13.
• 473.9, ,.. intjtMidtw· ,.,.. o Ollf1deal
NtfM daO.nluJ.
PustJal fllll ,.,., :
N. o 7. ldsde 34. CMtW. Anutio 1M da 811ea,
x. n. (dwillão nooo), adtJOgadb, ....,..Z. dtJ cidarla
do Rio 4e .Tmteiro, e morador n' esta de IJsboa occi-
dental, reconciliado que foi pO'I' culpas de
no auto publico da fé, IJII' a. celeBrou· M igreja do
....,uo de S. DotningoB d' edil tnestna all#MU em
t3 de Outubro de t 726. Convicto, rteglllitxJ e,...
kplo.
Pessoas IJU8 1M1o abjuram..,. léVaa htJbilo:
N.
0
5. Annos de idade 27. Leonor M4rüa •
ü.reai\o, · :Do n., C4lltldtJ aJM Antmaio JoiJIJ 1M #Jlm,
adtJOgado, que vai na lista, tM tJilla da Coo-
.... büflado. • Gttarln, e fiiOf'Gtloro n'BSia ci-
dade de Lisboa rweonciliada 1JfMJ foi por
efllpas d6 jtMidi•o w amo publtco da f6, qae ,_
ROMANCB BISJORICO i87
celebrou t1a igreja de S. Pedro da cidade de ValU-
dolid, reino de CasteUa, em 26 de Janeiro de 17'1.7:
presa aegwnda vez por relapsia das mesmas culpas.
PeRa: carcere a arbitrio.
N,
0
6. Annos de idade 6t. Laurença Coutinlw,
a;. n., viuva de João Mendes.da Silva, que (fi adw-
gado, natural da cidade do Rio de Janeiro, e mora-
dora ti esta de Lisboa occidental; reconciliada que
foi por culpas de judaismo no auto publico da r ~ ~
que se celebrou no Rocio ll esta mesma cidade em 9
de Julho de t 7 t3; presa terceira vez por relapsüJ
das mesmas culpas. Pena: carcere a arbitrio
1

t Não posso conjecturar quando Lourença Coutinho fosse presa al4m
da segunda nz nos carceres de Lisboa. Os biographos não o dão leve-
mente a perceber ; e a nota da lista, se ella terceira vez entrasse na in-
quisição, mencionaria o segundo auto da fé em que ella houvesse sabido
reconciliada por culpas de judaismo. Quer-me parecer, se não ha descuido
no traslado, que lhe seria contada como primeira a prisão nos carceres do
Rio de Janeiro, d'onde foi remettida para Lisboa. Onde limpamente se
póde esclarecer esta duvida é na leitura do processo, o qual faço tenção
de brevemente examinar.
CAPITULO XIII
No dia seguinte ao do supplieio de Antonio José
da Silva, um padre vestido com a roupêta da com-
panhia de Jesus, bateu ã porta de Duarte Cottinel
Franco. Disseram-lhe que o almoxarife estava doen-
te de cama. Instou o padre fazendo saber a Duarte
que o procurava o indigne) ministro do Senhor que
assistira ao finado Antonio José da Silva nos tres
dias do oratorio.
Duarte sentou-se no leito, e pediu ao pae qoe o
deixasse a sós com o padre. O capellão espantou-se
do resguardo do filho; todavia, retirou-se, no inten-
to de escutar a mysteriosa pratica.
Entrou o padre Francisco Lopes, e d i ~ :
. - Snr. Duarte, comprehendo a sua enfermida-
de. A desgraça do nosso infeliz amigo pesou-lhe do-
lorosamente.
110 OIOMro
- Aniquilou-mi senhor I ... -disse Duarte.
reconhecendo no jesuíta um dos muitos sabios e dos .
poucos virtuosos. da companhia.
O padre proseguiu enxugando as lagrimas :
-Antonio José fez-me confidente d'um segre-
do que apenas era sabido de sua familia. Achou-me
digno de confiança. Recommendou-me que lhe désse
om abraço, e um adeus até ao reino do céo, onde
eu piamente creio que entrou a alma purificada do
nosso pobre amigo. Depois, me disse que em poder
de vm.ce estã um thesouro, que lhe elle entregara
pouco antes de ser preso. É isto verdade "! Não pó-
de 41eixar de ser .••
-É verdade ..• -balbuciou Duarte-Se eo
llio tomasse oonta do thesonro, sabe vossa rev.ereo-
cia que a inquisição .••
- Sei, sei que ficaria a mendigar aquella pobre
iunilia, se Deus permittir que ainda se lhe abram
as portas do carcere. Se os grandes haveres de AD-
tonio José não poderem servir ã esposa. e á mãe, li
está a filhinha em poder de Diogo ·de Barros,· vario
. de Deus que a Providencia .escolheu como amparo
da innocente. A incumbencia, que o desgraçado me
fez, foi que viesse eu dizer a vm. ce que entregasse o
cofre a Diogo de Barros, vendo elle que o encargo
de guardar os objectos e dinheiro contidos n'elle,
hade ser causa a mortificar.ões do snr. Duarte.
- Promptamente ... - tartamudeou Duarte Cot-
ROMANC& IUITOBICO
üt
tioel- Se o cofre estivesse em meu poder, passal-o-
hia já ás maos do snr. padre Francisco Lopes. Ca-
reço de sabir a recebei-o de terceira pessoa a quem
o ooofiei, nao o querendo em meu poder, porque
en tido em conta ·de amigo do judeu, e receava
das pesquizas do santo officio •••
- Foi prudencia I ••. -atalhou o sincero pa-
dre.
-AmanhA tracto d'isso, e amanhã mesmo, ou
muito tardar depois, irei entregar o thesouro do meu
chorado ·amigo ao snr. Diogo de Barros, com todo o
segredo pan que a filha não seja ainda privada do
seu grandissimo dote.
-Cumpri a minha missão, snr. Duarte. Deus
lhe fecunde os seus nobres sentimentos em alegrias
puras e duradouras. Fique-se com Jesus Christo; e
receba o abraço de Antonio José da Silva, cujas la-
pimas ainda me queimam as faces.
Sabia o padre, e entrou o pae de Duarte.
-Que thesouro é esse que tinhas em teu po-
der 'l-perguntou o capellão.
-Eram os haveres do Silva, que m'os confiou.
-E não me oootiaste o segredo a mim 'l
-Porque fiz juramento de o não confiar a nin-
goem.
. -E se eu delatasse ao santo officio a existen-
cia d'esse dinheiro que virtualmente estã confiscado'!
- Fazia a desgraça d'uma familia, a troco de
TOL. II i6
lU
quMI'oc.tntos wl reis que tan&o 1llllerá e 1J&e me
foi confiado.
- QnatroeentoS mil reis 1-replicou o delap-
do do santo officio -mas tu faNaste ahi no ,_,.
. doee da filha do judeu.
-Grande lhe chamei ooorpanttivameote i iodi-
geocia em que ena fioon.
O capellao ficou satisfeito com a resposta expli-
cativa.
N'este mesmo dia, Duarte Cottiael, eomo ·o re-
ceio de perder o roubo, pnhado oom lamanba per-
Wll'Sidade, lhe botasse o gome dos ·remorsos qoe •
anavalhavam, sahiu da cama, e remexeu todo o dil
WJO interior de seu quarto, acondicionando ém um
'faSto cinturao de oouro os objeclos contidos oo w.
fre, que tirou d•um falso por elle abetto debaist) do
'Ciltre.
Ao anoitecer sabiu da Demposta, e •
n'uma e9talagem contigua ao Terreiro do Paço, onde
-desv-elou a noite esperando o repontar da manhã.
Assim que os barqueiros sahiram ao eaes a -enca\i.
lbar os remos nos seus botes, Duarte saltou no mais
proximo do embarcadouro, e mandou remar para o
Barreiro ; aqui alagou cavalgadura, e seguiu seu
destino.
-() capellãO, affeito ás iusencias do filho.
nlio se da demora, ao fim de tres dias. No
entanto, o padna ·Fraocisco Lopes, cmdadoso da
i
l
commendação do seu pobte padaseme, procurou Dio-
SO de Barros para saber se o tbesa.o estna em sua
-.. t() vl6o abria um triste sorrilo. • disse :
-Crê vossa rt'Jif8'8ocia que tal thesouro seja
N8lituida7
-Creio, sim! Pois não ouvi • a hoanda e
pNmpll •filsl9 do possuidor?! Não ma disse elle
tpM antes dt bostem, o mais taràr". viria resti-
faiH>fj
-Mas oto veio, 'SBl'. padre Francisco Lopes!. ••
-É que se lhe aggravou a enfermidade. Lá vou
jã d'aqui •.• Roubai-o elle 'l É impossivell Um ho-
mem de quem Antonio José me disse tão excellen-
tes cousas e com tantos louvores do seu desprendi-
mento! •••
-Snr. padre Francisco I ... -disse Diogo, e
susteve-se. Depois, feita uma pausa reflexiva, conti-
nuou : -Não direi por em quanto o que sinto, o
que senti e previ sempre ... Vá, vá, e volte por aqui
vossa reverencia, se lhe não custar.
O jesuita perguntou por Duarte. Sahiu a fallar-
lbe o capellão, dizendo que seu filho, no mesmo dia
em que elle o procurara, sahira e não apparecêra
mais em casa.
-Então I ... - exclamou o padre· vencendo a
sullocante surpreza- então é certo ...
-O que 'l-acudiu o deputado do santo of-
ficio.
8 ltJDBO
- Que se fez um roubo •••
-Um roubo'/
-De valores de cento e eincoenta mil c r ~
de que seu ffibo era depositario.
-Quatrocentos mil reis, me dizia elle J ••• ..-
redarguiu o capellão.
-Cento e cincoeota mil cruzados lhe dilo eo,
senhor J - tornou o jesuita - Seja a quantia qual
fôr, o ladrão fugiu. Que fuja ! . . . os olhos de Delll
haode segoil-o ••. a justiça dos homens o alcançará r. .•
CAPITULO XIV
Lonrença Coutinho, quando entrou no earcere,
depois de ter visto o filho ajoelhado para ouvir a
seBtença, ia moribunda. Os medicas da santa casa
aeonselharam os soocorros espiritoaes. Um frade do-
dliaioo foi assentar-se ao lado da enxerga de Lou-
nnoa. A mAe do condemnado que, ãqne1la hora,
salDa do oratorio para a fogueira, ouviu o gemer dos
siilos, qne pediam orações por alma dos suppliciados.
EMttebuxou, e conseguiu encostar-se ã parede do seu
aDiro. Fitou em rosto o frade que a chamava ã me-
~ o das miserioordias divinas. Estirou os braços,
rangeu ferozmente os dentes, esbugalhou os olhos
que eapin;lvam o sangue da congestAo cerebral, fez
'DIIl arrem8890 contra o filho de S. Domingos, e n'es-
te desesperado esforço, que o frade rebatia com exor-
!.18
cismos, arrancou da vida, batendo com a face no pa-
vimento.
Fr. JoAo do Souto, que assim era chamado o
confessor dos presos moribundos, contou com pa-
vorosos gestos em reoniao capitular que vira uma
legilo de demonios, quando a judia morrera, tomar-
lhe posse da alma, e que o fedor solforeo era insup-
portavel no calabouço. Os bons e judiciosos ehroniJ.
tas da ordem dominicana já tinham passado. Se o
facto acontecesse o leitor havia de
lêl-o com as galas de linguagem do padre Cacegas oo
d'aqoelle illu8tre e degenerado visionaria, chamado
Manoel de Sousa Couttinho, que os frades tolheram.
O padre Fraoeisco Lopes. e J>io&o dt IJNwa.cl di-
vnlpram o roubo praticado por Dur&e COUiDQI. Q,
cooselho supremo do saiOO •
a Maquiiiçap fosse a roubada. Qs amip de .Aof.oaie.
José ·letaram â comprehensao do ioqqisidor ger.tl
inkiill &nuDada por Duarw no in&4Sto de raoblr. •:
hoa811l que lhe oon6ara seus haY--. NUilo 6Ja;
Cuuba' avocou a si o processo, exauünou,.o. -e vi11 -t
crueza da seotenoa, e a probabilidada .da. UJdi••;:
O alcaide, principal testemunha eontr.a .e e.
fessou na tortura qpe Duarte Co&tillel s&
na pt)rdiçao de Antoaio José. O aluid$ foi •ua.do
pelos ... do llHl&o e exp._,l*' . ....,
de misericordia e bons senit.r>S qu baW. prttla•:
á uata. easa.
ROIIAMf. lfl'rOUCO
M1
S. providucill 8t00te680 abrilt u portas da
iufPs"* a LeooQr. mezM 4epois di
aiq d6 seu JRMido. l)iegp, de &mos e Loureacinbl
-.. e.,era&-a Di 4a 'saftla A. já
*' tiaba. vaga de Mta .ae. CbOI'OU! «M
medo d'aquella eadaver,iea mulber que the eMIJlliQ
U.. LtKmor aqua48U as fat.es IQOrtai. eas dar sua
fonaoaa ereaoçtJ, que Un. etltaO qy.ttfO ·ap&4)S ..

CQbradas forçai em 68mpapllia dos Birrai, e
.... de Aatouio José. já sabedora oo roubo d'aqu•
la amaldiçoada riqueu., pediu ao tio de seu pae ._
Jlttr déBse uma· esmola para se passar eom sua filba
pm Alastardam. Dioco promptifkolrl\le mjos _.
CBJOt para a viasem. e \QI 1'81Jllar r:aeSida PM'J
tua austeotaeao. Qoiz elle aiQda para lb& aupaeatllf
o ·peeulio haver da Qt talar da rica IDQbit-
lit· GMI:Oscada e veodida ·em afDloeda. O Sllpol'-.e
tMeferiu o reqoerimenJ», SIHD ·embarga 41
injusta eondetimação do possuidor dQ6 CQir
lilcMlos ..
. Embarcaram Looner e Lourenea .. ·
· im AE&erdam· era já Ofl@ria a·JD6llSI AI•
Dio.Josê. Da familia ·Sá nillffHm eaperava qu.e a •
lha de Jorge de Barros volvesse á luz do sol. O ap-
de , lima. MOht>ra COift UIB8 m.eoioa ao
collo em casa dos filhos de SimAo de Sã fez --..
nheza. Quaoc» ella disse quem en, ergueu-se um
148 o JUDn
ll'lode cbôro em volta das· duas infelizes, oh6ro de
eompai:do de verem tao avelhada a peregrina Leo-
.nor, e de alegria por lhe poderem outra vez abrir o
ieio cariahoso. Leonor perguntou por Simlo. Disse-
nm-lhe que tinha morrido; mas que todos os seus
lhe tinham herdado o ·
Refloriram ainda algumas graças do belle rosto
da filha de Sára. Tinha vinte e sete annos. As
tezas, por mais devoradoras que fossem, nlo podiam
combater a força reanimadora dos aragos de LOOren-
ça. Onde ella assentava os seus labios reviçavam as
fibras amortecidas e requeimadas de lagrimas.
Leonor aos trinta anoos dava idêas da belleza
dos dezoito. Poderia ser amada e esposa, se o qai-
zesse ser, d'um rico hebreu tambem viuvo. Respon-
deu ella á proposta que não podia senAo ser mAe e
educadora de sua filha. Pediu que a deixassem eori-
qnecel-a de virtudes e conhecimento antecipado das
desgraças d'esta vida, para ter que lhe deixar, quan-
do Dens a levasse.
Correram-lhe, senão felizes, tranquillos os anoos.
A maior pena, que ainda IA a ·saheóu, c.auson-
lh'a um homem que passava, um dia de·haixo das
soas janellas, mal entrajadb, com amargurado ros&o.
Perguntou Leonor:
-Quem será este homem? t nlo sei quem me
parecei. •.
-E' um porlUJUez uma senhora-
ROMANCI ...eRICO
-
jã lbe ouvi o nome ; mas esqueceu-me. Um dos lili-
nos conhece-o de vista, e foi -quem me disse o ao-
me d'eHe.
Leooor foi ter com Levi de ~ ' e perguntou-lhe
f108m era um portogoez muito encorpado com bll'-
bu grandes, e vestido ordinariamente.
-É um homem que abjurou a religilo cbriltl,
e perdeu todo o que tinha em Portogal.
-Como se chama?
-Francisco Xavier •••
- D'Oiiveira 1-acudiu Leonor.
-Justamente, d'OliYeira.· Ha tres annos que an-
da por Hollanda, e vive com alguns israelitas que o
favorecem.
-Pois elle está assim necessitado 1 . .. Oh men
Deus I nAo poder eu soccorrer o primeiro amigo do
meu infeliz Antonio I •••
E Leonor recordou-se d'aquelle jovial e gentil
mancebo que vira no adro da igreja de Valhadolid;
recordou a paixao da soa mocidade, que lhe cresta-
ra flOres de coração que nunca· mais enverdeceram.
Chorava, como nos dias em que o amara, como
n'aqoella noite em que elle annunciara no salao de
Diogo · de Barros o seu casamento com D. Anna .
cfAlmeida. Este chorar tinha em si o, travor dOce das
saudades. Era triste aqoelle encontro I Vêr assim
quebrantado e pobre o homem em volta de quem
radiavam todos os prazeres d'este mondo, desde a
.....
nq.eu. a &é ., culto das mulberes f01'18083s e b •
18181 rt&peitt,ei& I ...
Leonor pediu instantemente à Levi de Sá qae 1zet.
se 'Jaber a Vnneisco Xuier d'Oliveira o muito desejo
que linha de o vêr a viuva de Antooio José da SilVL
Sabiu Sá em demanda do portoguez, 8 só 10
ollfo 'dia pôde saber que elle tinba sabi4o para
Londres.
Aqui vem de molde bistoriar-.se o restante da
'rida, muito longa ainda, do cavalbeiro d'Oiiveira.
Em Novembro de t739, chegou a .d' Aos-
tria a do sopplicio da Antonio José.
Fraooi&CO Xavier, ferido no coração dt siooero
amigo, rompeu em brados contra a infame barbario
dada dos inquisidores, sem poupar a religiAo divina
do Cbristo, que nao tinha que vêr com a protenia
dos seus sacrílegos sacerdotes. Raivou oontra o poa.
tifice, 8 Qlo mais comedido .nos ÍOSQltos que
voeiferoa centra o hypocrita e boçal rei D. JOIO '·
O ministro conde de Tarouca mandou..o calar-se, e
respeitar o sucCQSiOr de S. Pedro, e o ungido
Senhor •. Xavier retorquiu asperamente, aceitando ...
titfafJoriamenw a ameaça da demiSlilo da seeretan.
Pias depois, eobreveio um caso que determiueQ
o completo rompimento das ligações do secretario
tJD o ministro.
Andava em Vienna um arcbitecto milanez, cba-
qado lgoacio Maore Valmagini, muito da do
ROMANOI BIMNMUCO
Alllfwi;udqr portugaez. Diáa ValiUIIibi q.e.o rei4la
l?!irtugll. recom&>easa'a os biltres e wdios dee st•·
_. 10111 e habi&o de Ckria&o. O coodt tle 1'M'CJeo
oa llbia-o, • dissimulava, a obatante 11r
·fJ'OJIUgaatlór das hoans d'M)Q8lla ordem. Ff'&o.
cisco Xavier, como ouvisse as costumadas io8oleaio
âáB .do atcbitee&o na preseoça do ministro propria-
meate, de b atirar pela janella 6 naa. O'
eoocle .eabiQ tm defeza do seu valido • Francisoo
vier sepaftlU-se do indicno embaixador e dcJ senioo
de POI'tllpll.
Em Hollanda, escasso de recursos, dto-se ã 'fi,..
da de e9Críptor. O seu primeiro livro. ·impte• em
t'14t, eram as Mmwrias de 8UG8 tJÍG{IIR8. No m•·
IDb anno, publicou um volume de· ftJrnilitJrw
em AmMerdam, e o segundo das cartas em Haya.
SOOre este lino, em que elle (na cart1 L'VI)
o eelibato ·dos padres, eabiu a fulminante do
ill{flriiidor fr • .Uanoel do Rosario, que taxou de- he- ·
t Na biographia de Francisco Xavier d'Oliveira, o sur. Innoceucio
Fl'lflcisoo da Sih'a, diz : • Por motivos que ainda são para mim myste-
IJliiU' se tea dito, lUJOo o ClliO de e pa.-
para Jlollanda em 17Mh.
· O proprio biographado satisfaz pleDallleote o 9IU'. Silva, contaDdo-
lbJ dle JDIIIJaO o nccesso descripto da desavoça coo. o privado do _...
baixador, e ajuntando estas linhas terminantes: • C'est ce mUanoiB qui
(ut éarue en partfe dv démilé qui me brouUla avec le pléntpoten-
tiaire; démiU qrd m'obligea à me aéparer d'11veo lul, à quUer le
smnee de Portugal, et à usuler rme lnjinité de malhevrs qui ae aont
,.. #UieBIDfku préalfiM •· AIJIIIHmMt
T. t.o, JNIB. üf.
-
o .RIDIIJ
nlico o liwo. f.o1o em Portopl .,.._ qneiiMdls
os livros do ca.alheiro d'Olivein, e defeza a emndt
dtl 4J8e eHe de futuro publicasse. c O JOabe que
alei me fi.-am, iA nomitle e Sllll mioimlt
· eaeropulo, CIOSOo-me grande perda t •-diz Fno-
ciaco Xavier.
FICUdas as fronteiras de Portugal aos livros do
berep, 1s condições vihes do escriptor peorara
paodemente. Do seu paiz e até de seus pareotes ji
nada .tinha que 'haver nem esperar. O saoto o8icio
espiava as migalhas que algum temerario 3JIÜIO &en-
tasse enviar..Jbe.
Por t7 4.4, anno em que Leonor o lira pobre-
mente vestido, apesar da pnblicaçAo d'outros livros,
sahiu com soa mulher para Londres no intento de
revalidar com publico instrumento a sua jã feita apos-
taaia da religilo catholica. De feito, abnçou o pro-
testantismo; e para logo esereveu rijameate contn
os papas, com o fervor congenial de todos os prose-
lytos assim das boas que das mãs causas.
O affeclü de infancia e de saudade que pren-
dera i vida e ã memoria de Antonio José suggeria-
lbe ainda energicos escriptos em favor da raça \le-
brea. Em f 7 40, imprimira elle na Haya uma carta
ao israelita Isaac de Sousa Brito, com a relaçao dos
1 Ajuata em uma DOta: seis mR cruadts pooeo lll8ls ou 8!1108,
ou quinhentas libras sterliaas.
ROIIANel IRSI'ORICO !18
prifJiiBgios em Napolt• e SilllitJ d· naç4D
IJVJMzidos do origiflfll italüMo.
Em Loodres, estreou-se o cavalheiro com Olll
linioho t'eCI'eativo intitulado Viagem á illuJ dD
escripta a Philandro.
Escrevia sempre; mas publicava pouqoissimos
dos seus escriptos, ã mingua de sobscriptores. Am-
paruam-n'o as esmolas dos seus eorreligionarios, etr
tre os ·qoaes o fidalgo porlogoez curava de esoom.-.
a soa origem e as insignias nobilitantes. Acerca do
habito de Christo, dizia elle: c Me trouvam. aujoar-
ffhui à Londres je ri y (ais fjUh"es VÔir mon ordr1.
Cette marque rendroit ma pauvretd plus honleuH•
Le peuple anglois aime l' et prd(M-6 _, ridle
rolare à une noblesse indigente.
A mesma pagina, vertida para portoguez, faz vêr
quão grande era a tristeza da soa resignaçao: c Dizem
que os grandes d'este paiz, consideram em muito as
pessoas nobres e benemeritas em pobreza. Gozam
tanto renome de ricos que de bemfeitores. Minha
natural timidez me não deixa avisinbal-os: não tenho
a honra de os conhecer bastantemente. Vivo restrin-
gido ao meu quarto: apenas voo fóra a visitar um
diminutissimo numero de pessoas honradas que usam
a generosidade de me estimarem e amarem·. Dizem-
n'o, e provam-n'o com os favores que me fazem. As-
sãs sabem elles que a mim nada me faz nem lison-
. gea ser fidalgo ..• •
··-
Q01 wida tao ar.rast1ada J .qae padeKia tto· ...,.
cedora de devia de ser a à .ai>_, ·•
Mdavia geDII'OSO coração de Fnncisoo Xavierotlt Oli-
Yeia I Que demorados ·e sempre· iguaes e
dos annos até que os cabellos lhe .branlJ'earMl t · · ·
Ea t:75t, já ebegado aos ciOOQeota, r.reoa
pefiodico mensal, tantas vezes citado n'eates JivRlt.
Durou apeeas oito mezes. Nao ba numero em qmt
. 'tllle DA0 adv.ogue a eausa, a liberdade doa bebreus.
E, &oliavia, oa perseguidos, . que Fraooisoo Xarier
.-ia resptar das presas do fanatismo estupido,
w làe .liam o periodko. Faz lastima ottd-o aasim
Pr&va de que a iplrascia -doi judeus
stiu • ktglaterra 6111 toda a parJe. ó que eu
nas tenho quatro subseriptores d'esta oa(:IO·: o d6Uf«
Castro Sall8e0to, o snr. Rebello de Mendonça, o snr.
Abrõao Viaona, e mr. Ratton. Attendaodo .aos es-
foroos que eu n'estes escriptos tenho feito para ar.a-
mr a injOJta e .cruel perseguição que se exercita em
Po11Mgal-eontra .os judeus, nao é bastante claro qu
elos nao 0011becem seus interesses, nem a candura
-e boa fé com que eu lhes advogo a causa'? ú tem-
pos ! ó usancas ! Ha cincoenta annos que a minha
obra n1o precisaria de mais alentos qne o favor d'esta
uçao em que enuo abundavam homens assim illus-
ndos que generosos! •
Mais deploravel ainda é este amargurado quei-
xar-se, quando a vida jã lhe pesa, e ainda os annos
1111108100
-
• cbegam aos ciotoenta: c Minba •ida póde • deYe
eomparar-se a um rosario, cada eoma do qual é na
Msgraça •••. Idade atançada, sande aebaoosa, indi-
,.aoãa indigna do mau nascimento; Jllil dtssabores
ardidfJs f}ela ealumnia, e indiftereaça d'uns que t1
a'ocrtro tempo considerei amigos: tudo isto reunido
ae perdimento de patria e bens de fortona, por iatD
'f'lé abracei a religilo protestante 1, me desvaneceu
toda a esperança de :.ioda T4r entNlluzir-me alga.
I •
lklrnativa n'es&e mcu1do ... »
N'ootro lanço, diz o eseriptor com clts-
alento:
c Naturalmente amo a vida, confesso. Deveria
desejal·a mui duradoura ; · mas nao, qoe o mesmo
8eria querer premeditadamente prolbngar as magoas
de meu espírito e mortificações 4o corpo. Ainda. as-
sim, desejos de morte e fraqueza de suicida, teoham-
DCIS os roucos e os covardes desesperados : assAs aae
oontenta saber que sem desejar a morte, me nao te-
mo d'ella ...
c ••• Que ·queria eu hoje possuir 'l Uma saqde
'l Ai ! a minha vigorosa saude foi uma das
1 Os biographos do cavalheiro de Oliveira opinam desencontrados
soke o tempo que elle apostatou da religião christã. Os que a bala
em 1'146 como o snr. Rivara, e Micbaud, podem ter acertado; porém,
certo se enganaram os que lhe assignam a data de f '7!!6, asseverada no
Bepertoire de bibliographie Bpéciale de Pefgnot, citado pelo snr. Ia-
. 11008lcio. Do extracto vertido acima, e em 1551, claro se eviden-
ceia que já n' este anno Francisco Xavier de Oliveira tinha abraçado a re-
protestante.
prineipaes causas dos desvarios da miou Yida, e da
earto modo a motora das desgraças presentes .••.• • ·
O desventurado conta com a bemquerença de
cioeo amigos.; porém · ta.o poooo dadivosos deviam
eles ser, qne Francisco Xavier inveja o carvao que
iaulilmenle arde na deserta sala de um Iord, earvã
que lhe chegaria a elle para se aquecer um mez,
c E estã sempre a fumegar aquella chaminé, diz elle,
para aquentar um elo, por louca vaidade do dono I•
Pobre cavalheiro d'Oliveira, já o destino dos caes
iJ:lilezes te arranca invejas d'aqoelle ta.o opulento e
magnanimo peito I
Já, n'este tempo, a soa segunda esposa teria voa-
do a melhor mondo, ou voltaria a pedir um quinbao
de alimento na mesa da sua illostre família em Vienna
d' Aostria '/ Nao o diz elle nem os seus biographos.
Em t 755, escreveu Xavier d'Oiiveira alguns fo-
lhetos incitando os portoguezes a conjurarem contra
as doutrinas dos bonzos, contra os papas, contra as
superstições sediças do catholicismo. A inquisiçao
~ o a garra aos escriptos. Processou o author,
condemnou-o como herege, revel convicto e relaxado
á justiça secular. Queimaram-n'o em estatoa, ao mes-
mo tempo que as carnes do padre Gabriel Malagri-
da se torravam ·na fogueira visinha, no auto da fé de
j() de Setembro de t76-i.
O original da estatua devia de rir-se, lamentan-
do que ao clima glacial de Londres, n'aquelle mez,
l
lhe Dlo chegasse um pouquinho do ealor da estatoa
açamarrada e enearoehada com fogo revolto e danças
101eabras de demonios cornigeros e eaodatos!
Então, moi de assento e com o riso nos labios,
escreveu elle: O cavalheiro if Oliveira queimado em
alalua p&r herege; como e p&rque '! Anecdotas e re-
fle:dies sobre este assumpto, dadas ao publico p&r elle
proprio.
Desde que o queimaram até ao dia em que mor-
reu interpozeram-se ainda vinte e dons annos.
Escreveu n'esse largo espaço muitos livros, uns
que ficaram impressos, outros manoscriptos, e moi-
tos perdidos.
Quando aqoelle homem chegou aos oitenta e um
annos como olharia elle para as primaveras sobre as
qoaes gearam trinta invernos asperrimos de inforto-
nios 'l
Que reminiscencias lhe iriam ao coração conges-
tionado de lagrimas da mulher que a inquisição lhe
estrangulou ; da Antonia Clara que o parocho dos
Anjos lhe queria negociar; e da Joan na Victorina,
aqoella fatal cigana, de quem elle escrevia como da
mulher que elle mais amãra, sem excepção das duas
virtuosas esposas 'l
Deus lhe perdoaria tantas levezas da alma em
desconto das muitíssimas dôres de corpo com que o
purificou na decrepidez mais desamparada e cortada
de penorias t
VOL. II
f7
I
i
l
CONCWSlO
Bill metdo do anno de t.7.53 desembarcou em
~ .d'DIIl navio dB$ Antilbu hespanhobs um SO•
jeieê que dizia cbalaar-se D. Pablo de Burgos, oo•
merulante qui tioha sido em PoJ1o..Rioo.
· Figurava ciacoenta annos oom o ftg<>r dos trin-
ta. lr.s longas barbas, niadas de branco, deseiam·U.
a meio peito. O olhar ensombrado por deasas e lon-
811 pestanu afosilava de sob a convexidade das pal-
pebras, como o fitar obliquo e espavorido do scsJe..
ndo que receia ser oonbecido apesar dos annos cer·
ricJos. e da boa ooapostura do disfarce.
O consol hespanhol em LisbCB recebeu da mao
d'881e forasteiro carta de governador das Antilhas,
a ~ l b e D, Pablo de Bor91J1, qae elle eo-
Cdl&râra ricaaeD&e estabelmijo. em Porto-Rãoo, _.
!60 O JUDEU
de t 7 .U, e agora, volvidos doze annos, se resolvera
a voltar ã Europa, e residir em Portugal, com prefe.
rencia ãs províncias Vascongadas d'onde era filho.
O consol francez acolheu-o attenciosamente, hos-
pedou-o em sua casa, e fêl-o conhecido dos ricos ne-
gociantes francezes que demoravam na capital, os
qoaes lhe andaram mostrando as cousas notaveis de
Lisboa, incluindo n'estas o palacio da Bemposta, onde
o hespanhol empregou mais reparos que na capella
de S. Roque e no 1laSI aguas-livres.
D. Pablo mostrou-se muito agradado da situac;lo
e clima de Lisboa. Achou admiravel a roa do Ale-
crim para alli edificar uma casa torreada com vistas
sobre o Tejo. e
o,mesmo foi compra .do .,ei'J6DO. eap&-.
Dll' os.melhoresLahraoeís, sob do .arehi»-
cto João Pedr.o,i.L'wJovroi_:para, no leiDpQ,
Jeyaotarem. edi&io . tão .. magestoso e a&>rmClMado,
quanto setenJa a..oitenta mil cruzados ·permiUissen\.
· Divulgau .. se nova em Lisboa, e jt D.: Pablo de
Burgos- nA.o passam despercebido peiM Ulàlts .dat:
magnatas, que fitaram oom certa renenaeAo as baP-
has·do bespaohol e qqoella geo:t.il eompoMara.de fi-1
lho que indiciava .origem: -illostre, ·per m]bt-.
terioso ·motivo. oc011Uada •
. D •. Pable sabin. D1ll ·dia de passeio· aa aoa Jàti ..
ra, e mawiqu.piar:para os.aitios.aa
apeou. e pediu . .lbmQa.•pilra· cJar .. ulllMo.llki• DO. aa.
ROIIANca .-roRICO
JIÜIIID··arvoredo da • • !aki•·•! ret.ebel-o.o a1t
IDOUlilt, ·com!.-treQJIÕit•r.cittaiill:;-e, poe&o· ..-e- o
tl!iallt&. o displnSilSe, fiBiz; ·o 'serné;àl·· indi'ridad
·.. ; : · . · · ·!
Residia então ná· BelllpOSta .• o infaíate D. Pedlo
p dip«DJ foi OS 1Bbos. :de Pedro 11: tinham
morrido alguns annos· aMi!s. l>ilse' o almoxarife que
m.a .. eatnjo•na· mordomia d'aqúela'easa em t740;
& eDtlo cootar q11e o seú aohto
eeasctr, ebaàdo· Duart& Cbuinel FraDe() f08ira 001q
1lil enorme ropl)o feitO á· familia de. celebre auctoo
da··-.Mias; Aolonio ·José di Silva, que a 9ant.a in-
mad911loara ao fogo em· t 739.
· , -·Vm.,-, baiJe co11hecer de. aome. este grande
aáclor portn;uez.
- Nlo me lembro- respooíleu D.:
Piblo.: . '
• O·almoJlarife continuou:
. ..l- ilogio o tal l&drao assim que o padre
Mr. ·-do ebldemnado se lhe apresentou a pedir .. Jbe·
o gl'lmcle caixoté de riqóezaa ao poder
f)ne morren, ha aonos, em corilpânhia
flli qtM. esJava 'umà filhinha' de· jlldeu. • • · •
- Agora me recordo. ..- atalhou o ricaço ba.:
ptdbo1 :o-·de 'ter ouvido"·flíJIJr. n'ialo. • Essé tal ju-
mofher,. ou•mae, oo.nAo sei quemtain ..
bem ·PÍ'Isas na ·inqnisiça&? •.•
-··: ."-SimJ seAbor:. tinha molhar e A mae tnor-
NU na priSio po010 lepeill: •e ·eh fli AJIIe....,_
e a aulher coasepiu PfMtOe·a jusCita-.
ba' que a do tal ladrão mn a çibsa da·--
injostissima do grande poeta. Depois de .nu., -..
embora, e blo sei que feilo 8 d'ella.: ·
-R qae fill t&ve eBS8 Duarte perp1Mo1. a
ilu)igriada euriosidade llo Yiaitlnae.
.;.._Sabe-o Deus! Nunca mais ae: h•ftiHl ...
titJas d'elle. Eu aiada vi mbrrer aqui' a'esli a.a &
Jll8 d'elle, que nlo era boarez, d clltPa·l **"
peiJao.mór dos senhores inlàmes, e dbputado do..,.
eflicio. Pois, apesar d'elle ser de mA t.asta, ca
ra do filho boJiu tanto com elle que o balDear MiD+
ca mais sahiu de casa COIIl vergonha aJ'pareeer
ao publico. Ainda elle era vivo qutodo· •
pouco viTeo. lia bons doze .-..os que·
a terra. Cousa singular, meu senhor! Aqui, ba lfd
annos, andando eu a fazer Gbras· n'nm 'fUII'Ioi lque
tinha sido do tal ladrAo, flli &opar coa :Rl falso,
maile achei um eaixote d6 pau santD Qibl laçadei•
de 'bronze, .e duas fechadtli'8S 48. pnta,
siilla! A mea vêr eatJote foi o eeh i41'_.
o Cottinel levou • SQ: V.fllóoe e quizer i'êr.
\tnbo muito gos&o n'isso. • • .
,-Nló, se me dispensa, que .een&.o
voltas qo't chr-respoocloo.D. Palllo D&) m.ia...,
cto castelhano. E despediu-se rllftldeoWa. . . .'
A fabrica do ediftcio da roa ·do
j
I
I
IIOIIANC& ·IIA!ORJCO UI
clia • .,..._.... A ·geDeNsa P1P doplieda os

TOiap&Uollmenta-oas p
tu da soa obra. Afeuoalfa as e pilarea ;e
ll'inaldls·; tlorõel e laçarila taliiam das coroijas r.
_.do em descendemea rarDifli80I os IMiomos Jate..
.._ ·du j:mell•. A JMDor peca f*il COii!lonaooia t
magestade do por&al • espaçoso pateo, cireomdaclo
de arwias eoa ooiQliBlt!loa de primOI'OIIO la-
10f .. 4s jaaellas eram frestas ogines .que a tempa
4Mviam ser Yestidas 4e vidras variepdoi. O Wlbado
D. Pablo lapado á volta. coa eereadura de
'VliOS e ee&atuas do JlelbQr OMmlQI'e . e allbasaro.
O .nbUec&o .,_.velmtme <txpedia ordena a ma..
dar. yir da l&alia peças que 01 sells alveaeis e eaeuJo.
piorei .aao sabiam dipalDeDte -.aoldurar ·e arngj.
car:daa J»ednira• de Mafra. Era alli n'aqoeh locm
• coatinoado pu....,- dàs tomas, posto que D.
Jêl.p v u habituasse ãa obru .mapiieu. A 01111
...._ qae o .tifiaio te alevntaYa, LodoriG, o ar.
lhitecto oa .eonttnuador .ttos
esmtnYa.se em ·ezoeder u 00111 Cf118 ..
ftitan a· faobada • sen palacete delroate da tom de
S. 1\oqae t.
t 1\attÓn presume que em rallo d'Úta obra IB conatruif'
ie 19. Pelre 11' Alt11t.t11ro, eem o 1f'llato 18 te (4SW! GIM
... fHI'UID o P.'llll RiH dtegOff fJ reclillll' ; 11141 tu mia beallfil
pelo ponto de vista que offerece. Ratton escre'Via em :t8t!, e referia-se
ai'MI. Pll· 90!.

" .E etq quao: a·....,. ea • ..._ ..,._
troindo, D. Pablo de Bof'BOS ora·'liljlfa por ,__
ea e ltalia, 0111 se· ia a Ciotra e ú qoialll IÍIIM'bl-
., de onde 88ti deael e receiidl eollo-a
sajeito qn o coilde de Oeiras se n1o dedignm de
eoDYidar •pára grllldes" empnas indoitrilel, tilao
que elle Pol1tJI'l MID1t patrla e n"ella ...._
dá1'1 fabriear tiO graedioaa YiYIOda.
Em Agosto: dê t7M estava COlldmdo o pallcio.
As alfaias tinham j4 vindo do· estrangeiro. VestifJ-S6·o
intemo c1o palacete com magnilieeneia toadigM da
riqueza exterior. Fnnqoearam-se as portaS á adbli-
noto pobliea. As primeiras damas honraram as al-
eltifas ehinezu de D. Pabto,. e miraram-se nos abel-
rOlos espelms de Venen, cwsidos a oQN;, que pen-
diam dos teetos sobre tremós cdjo·féÍtle destnBibrF
ta o aóreo &Spleodor, ·que TéStia os torneados.· Vl-
* etrosoos, imitadOs· nos álabastroB napolitailol, ct.
aáploj das salas captivnam · a aU9n(l• 1010 capei-'
1'1 de mais 'ricós aciornos. Para q1ie ·mais
se todo :o encarecimento vem ebrto '! Aquillo eta Uál
eooaoto d'olbos 8 um qoebrat" ·eonções·de io•ejalc
. DJ Pablo aceitava· os ·agradeciméntbs de hos-
pedes com uns ares de modestia, ultima da.ID
faltava ao esplenaor de tantas maravilhas. Oh t as
dàmás até as :.Po.staiiw. barbai ·Íbe
tadm-as. · tpdas as em
fàvor dos que presagiavam o breve matrimoniameo-
ROMANa .IIIB'IORICO
-
to·do besplnbol eom algama das moi W,U e •
blltas meninas, c.ajas pus· se boamam de bOspedar
rieaoo.
Deliherou D. Pablo offerecer wa banquete
principe aos seus amigos, que jé eram numei'O!JiiD.
•os, em todas as jerarebias, e marcou o dia primei-
ro de Novembro nos convites antecipados dtl8.
Contractou os mais famigerados cozinheiros, 'fesdtl
d8 lemiste os criados que deviam servir ã me8a, ..
reu das pnteleiras riquissima baixeHa de prata fJill
01mpeteaeia de valor com as mais preciosas lOUÇII
do lapão, compradas aos netos empobrecidos dos an-
tigos VÍS()o.reis da ltdlia.
Desde o romper d'alva do dia primeiro de No-
timbro, uma ehusma de criados, uns eoearrepdoá
do adorno da longa mesa, outros auxiliares dos iJ1.:
ventivos cozinheiros, nao tinham maos a medir\ Era
um rede1t10inhar de gente afanosa como em casa dos
immortaes glutões da Roma imperatoria, predeceeso-
res beoemeritos da Roma eardinalieia.
1
As nove horas e meia da manhA, D.
Burgos acalma de sahir do leito e apresithar om
farto gibio de sêda, no intento de deitar uma vist8
de olhos aos preparativos confiados aos' serYO! e
eravos. No momento em qtie transpunha o ·Hmiar di
aate-eamara, sentiu vibrar-lhe a casa de&ixo dos
péS, e logo um soturno estrondo, o tremer CCWMSI'-
so dos moveis, o baquear das estatuas· e jaiTões de-
-
.-tos dt'e 01 bofdes, o alto ollmor di& CIÍidOit
a eelridor de IOIIÇII partidas, o tropel doa Sll"fttl
que fugiam, e o estampido longo de um 001110 lllir
à )lll'edes. Er.a o primeiro empoXlO do IIBOiador
...-.oto d'aqaelle ·4ia.
· D. Pablo correu- desnc.wteado primeiro oentra a
8111da para ganhar a roa ; depois. TOltoo sobre si.
illpeUido por· um demooio que lhe disse : c Ollla
q1e dei:las na tua recamara riqueus que llo •·
Slllrradas, oo roubadas,., Entrou 01 reeaman, •
DI& pôde ter-se em pé, resistindo ao impulso de •
alaeroso parda-roupa de pau preto qoe ao vctltar-se
lbe roçoo n'om bombro. Levantou-se. Abriu IJIIIi.ó
ta ptetas d'em eonlador, e aiBODtooo · n'uma toa-
lbl promiscuamente NetOS d& ouro e maos cbeila d& ,
brilbaate&.
, Ao Ahir do 'fOarlo, ouviu o gritar aftliete da
J.iánhaoça. Chegou a uma janella, e viu, alntVM •
cerrada navem de poeira, o interior das caaas fti..
nbas,- aloidas as fronteiras, e moradores em d&-
•pendas evoluções, oom os braços ao
o6o sereoo .e límpido, como em manhi d'Agos\0.
Ftlll pé awaz 81flllorido, e foi á :escada DO
cle a deseer. Olba ao fundo do primeiro maioel e Y6
1ltD bDOG de . parede fendida, e os tijolos a despeJt-
retB-8&. A om terceiro treotor mais rijo, foge sulilt-
do para o &emço ooostroido á· roda do zimborio •
..1\peaas re&aocêa os olhos em volta por. sobre o een-
-
tro ·•......- ti._, :i coeto' e ....-u-.a.e
dil•:a tt.a ediiQos. a\Mios.,.
um aee"o de minas, e aqui ·e ,alêJn .IDIIIiitt>81í da far.
&ial•,-uDB que!setpenteEl por eotN ·o àAdtholms-
81Ddo a DllrM• Tejo, ·oUtros. qae
perque o mar stlbia leVIDlldo .em:»,
rio8o uplblo atagando a cidade baia. -,
' ;i o; Pabló, NÇÍOOÍD6U."Fn ·bo,.
·.pM ·discutir· ama morte at.é·ao fim, se ·n ...
fosse. De a ·comSip diae &Jle que .a ta
• CMISlruida sotJre rijos e faod011 alinen:as. •dàlà
IWS tolawMos do t4ITamoto mlis·qoe • ont.
ttal meiO -derrubadas '' eafrMJUecidas pela 'ftliiJia:
AJerKrido pela 'hypmheie- judioiola, 4eseeo do ti..,..!
ço, e<êOm prrideote vapr espreifíOO o-ésltldeo· das ·t-'
Jfflldes. As fendas ·DIO eram aliSUStMonli. F6i
nMfoetD ·lhe
Abriu uma janella do primeir.o andar,· olhou, a "fia.
aeet''VOS de -cada veres meios anterrat'tos. nas
rttiblts, e :llgumas a1Dietas mães, q,.e os:
fiilios, em qtianto os maridos as empuumn· petoí·
ollbi:!ll8s; no proposilo de salwl-es. ·
· -Os ábiílus, ·posto que menorés, ei!MtifiOJ'«<Im tom
hme8 oinie"atlos •.. n: PabiiJ a1tentmt I cM'eDia: tl·
n*o .W.via O' MtrUpido do desmoromunerJto. A. gran;..
&J-destnl'ieãO ·fer·se em sete minntos. O que· l'fJSSOiw
TaLiJmridafelínente era ·o eshidente ar-rido d8 -mi•·
dé peMGil5 ti portas dos teMplos, cojú aiJoi.
Mias ablllna sobre. milbiNB & .-.... -qde os
8116hiam, ominde mino, n'&qollle sollllde dia- fu.
Dlhl: de Todet 01 &JntD...
D. 'Pible raeiooinaq ainda. Bem que ·o aelkk
edifteio esthrell8 de pé sobre os proliJndos
podia acontecer que tdt.ericns ahlios .p: dll'ribflaserpl.
Determinou sahir rom algumas precioeidtldes. e se-
pir as: tomas, que fugiam na .de 1\tque
pen -o chamado eot1o as tJiwal do tonde T•
tlllled, e, depois da Co1011ia. e IMis: tarde. a
lial. Qaiz guardar em si a pedraria e
do q• mas o peso priYaVHJ do.moYiatBRr!
ta..Nio tiahp criado· 011 escravo que o ajudasi.t. 1\er .
pH os sacoos do ouro oàs gafe&as do tgpcador,
Dtteà âs.algibeins as boeetu .• p,a-
dras .preveooao para o caso
desdave ao edlfieio, em quanto. • .prov.idttnciar
a mudança da bai1ella.
Feabou o portao e sahto, oaminbo -
ro, OJide moraya o seu patticolar am.fco o
dor ti':mcez. Eneontrou.o patsado do: tei'J1M', e
dando em fugir com as suas bagageus. parà o
O bMpanbQI dispunha-se a· f(Uan-
de f.()IT8U, brado de estar 6111 •
.BOla •w•
la. Dizia-ae que. fe.:ozet jQidaft.de .ladriQS. assaUaraat
e;l!OoJtaVflh aa casas .deee11as.,-e inqoi-
liBOS que, no apt1I'O de SOIS· aioda.•tio'bMJI·
de· -defender as :reliqloias• as. seus. haveres. O hesl*'
alui,·· 9Mb ·MDIIIDhir .o amip, ·correu á roa do Adat
etlm)' e •·preseoeioa; 1 •&nada a luta .a poólall
deM·Iadi'Oes si·eu·dootrao.os.mais aferrado& e.
ftDsbres · das. smiS roi .Este quadro b01Tifioo. era
a' esoabujar .de demoi:lios . -erltre labaredas e 'ÍWDI!
ndü negra: o inférna· devia de ser, na pbantasia de
• ;,imiginadores, ·UBll pallidà imitação d'aquella
a®Z réatitlade. ·As p()ucas jaOellas dos primeiros- lllfo
dares qne, para asiim tinham eDgllliao .G8 80'1
lndos •. dardejavam ·línguas de·foao, qu:a
se cruzavam com as das janellas.fronteiras.
ta rua, atravancada. d8 de. madeiras incen-
4iadas e·cada-reres, diftiCDltiva·o traosiW •. O bespa-
.. saltou por sobre brasés·e emre chammas. Ae
afisiabar-ae. do seu ·palacete, viu rolos de fumo ne-
gro· a romperem das. janaUas oujos vidros . tinham e&oo
talado. Atirou-se affiicto contra o portão, e viu-o
*rto. a maebado.
-Estou roubado 1-esda.mou- elle.
Galgou ao terceiro an00r. Quando subia ao pri·
meiro via de relance alguns marinheiros que
se·disputavam o espolio das· opulentas salas. N6 s&-
gândo andar, .oUira borda de marujos e homens an-
drajosos sobraçavam as taças, bandejas, castiçaes, fa.
quei.-os .e mais baixeUa que os criados, tres horas
aates, comeoavam a m,por na mesa do banquete.
SubiÚ ao terceiro andaime, por onde i-
110 o ilcen4Ho, e foi, CJelllllo peb f•IIIO, ali • ._.
lllll'.a dDÜ tiaaba os oonladores. ÀI'IIDOMI cto. saiDM
..a.dimellte, e eoneu para u• ....... ODdt .....
... do tiahlm aiDIIa dlepdo. Ã4)11i ... c ....
•i-as aneias do bamem. crollillimo
111: Se ubia ás escadaa, os ladr&s lnoariaaa IIII
d'eDe; e IMD vida nem ouro lha H b
ta • sala, esperando· que os sau.lores. deMq..
88ID-, o· inoeodio já se faria oovir. C!GDl o 881 hoaifit.
eo estalejM' de madeiras e desabar de
Bata sepnda ponta do dittmma traapiiBRIMhe· _.
o pMto que a outra.
Abria .-a j8D811a e gritoa por soceorro •
. Qoem ba'fia de 0\lYÍI-o, se ·todos sritaum, 8 OS.
Mis dipos de compaixiO, se houvesse alli· eompa-
decidos, seriam os que grita\'110 eatalados lUIS ID+
leiras das portas, e esmapc1os pela nves fomep&
*' A resolução era urgentissima, qoeji a sala-...
va escora de fomo. LançGo-se áia escadas. dascen até
ao segundo mainel, por. 81ltre os ladrões que se es-
flqueavam oa disputada polliS8 d'um jaiTO de omu.
A meio da escada do primeiro andar, sentU.se .......
ndo por tres homens que o seguiaaa a .._ de â-
IJN.
- DIUa 'êr o que leYas f ..-disse um, &polh
taodO+Ibe a navalha á garplda -larga, ou repart8

t'it
- Eaae é o ricaço t-braclcRI Olllro-ai -
tlianlel t Larga, se n1o morres, castelhllot elo cJa..
.. ,
. . D. Pablo reconheceu um dos tres siurios, pelt
.-biiDte e pela wz ; laoçoa.lhe o bl'a(Q liwe i voltl
•· ~ com brando geito, e dilse-llle ao ouvido
o quer que fosse..
. -Tu I .... exdamoa o ladriO, com os o l ~ ea-
baplbados- pois és tu t ••• és tu aquelle •••
. O bespanbol. seD1iu cabi11-lbe o ooraQIO, qaando
• tAo OODlrario o eft'eito que eUe esperava do seo
pedo posto no ouvido d'aquelle bc&an.
E o aal&lldor proeepiu: .
. -ó diabo I tu nao sabes qoe eu por tua caosa
fui verplkado na saota easa, que ainda tenho as e.
toras nos lombos I NAo sabes que me promeaeste
mundos e fundos se eu jurasse contra o Antooio Jo..
sé da Silva, qne tu roubaste, alma de Satanaz, e 1lle
repartiste nada oommigo I Nao sabes, elo, que ea
ando ha dezeseis annos sem ter quem me dê oiM
sêde d'aMOa, porque ninguem me quer dar ~ fa--
zer, e todos sabem qoe eu jurei falso eootra.o An-
taaio J o s é ~ e fiz jurar os guardu que todos andam
a pedir ou a roubar?
-Pois eu reparto eomvosco, e deixai-me fu-
gir .•. Abi tendes tudo ••. ficai com tudo ... e nAo
me mateis!
Duarte Cottinel Fnoco arremessou aos pés &ta
t'JI O·IIIDIIJ ·
llkeadores ailllba em que os saccos do -ouro,
IIII' saller qee os ltrilbaokll . aooadidos .nas algibeir-
ns excediam o valor dos saccos. Feito o arremesm•
ia fugir; mas o aatigo .atrai de da inquisição da altura
tis tres degraus cabiu-lhe &OOre as costas oom lEil
flea apontada e oom tanta força e ímpeto que maiS
Dlo pôde arrancar-lh'a d'entre as costeUas retorcic)as.
Duarte Cottiuel cargarejeu um arranco debaixo
dos punhaes que lhe cortaram o segundo na garganta.
Á volta d'aqoelle eadaver travou-se uma briga de
peito a peito, um cortar de ferros e resaltar de
gue que espimva ã face do morto: eram os tres a&-
sassinos a defenderem o espolie d44s presas d'uns que
.miam, e d'ootros que desciam acossados petas cham-
as. Depois, seguiu-se o estampido do travejamento
dos tectos e que se despenhava por entre
os· solidos e alterosos muros. Uns ladrões premiram-
se contra o portão, pela brecha que os
•ebados abriram; outros, como descobrissem o cin-
WPD cingindo o cadaver, curavam de arrancar-lh'o
e espedaçal-o a golpes de navalha, quando as lages
do firmamento do pateo lhes esmagaram os craneos
ceotra os degraus marmoreos da escada. Um d'estes
eraneos era o do antigo alcaide do 8anto officio.
Nas excavações feitas nas ruinas do palacete de
D. Pablo de Burgos,. quatro cada veres se encontra·
ram tão proximos que pareciam famjlia muitQ entre-
ROti!ICI BISTOIUCO
amada que n'um abraçado grupo amncára da vida.
Esta hypothese desvaneceu-a a boa critica ; porque
os mortos, debruçados sobre o cadaver vestido de
lemiste, tresandavam o bafio dos seus andrajos. A
putrefacçao permittia ainda examinar as cbaps do
pescoço de D. Pablo, que debaixo d'este nome o las-
timavam amigos e a boa sociedade de Lisboa. O con-
de de Oeiras sentia dolorosamente nlo ter mandado
arvorar forcas nas ruas, como doas horas depois
mandou para pendurar ladrões onde quer que a jus-
tiça os encontrasse. Jã se nlo podia valer ã perda de
um homem que tanto promettia ãs emprezas indus-
triosas de Portupl r Em compensaçlo, responsariam-
lhe a alma com magnificos funeraes, pagos com poo-
quissimo do muito e rico espolio que os cavadores
desentranharam do entulho. Para a entrega da valio-
sa herança, pediram-se informações para Hespanha
e Antilhas. Ninguem sahin aos reclames como her-
deiro de D. Pablo de Burgos. Todavia, se, por um
eventual acaso, se que o assassinadO
era um Duarte Cottinel Franco, scelerado ladrao,
cujo nome era em Lisboa ainda o proverbio da su-
prema perversidade humana, a mim me quer pare-
cer que os herdeiros se haviam de em
volta d'aquelle cadaver, provando a primazia no grau
do parentesco.
\'OL. 11 18
EPILOOO
Volvidos vinte annos, o leAo de S. Domiogós jã
recebia resignadamente as ferroadas dos insectos.· As
.fugneii'as do saDio atlicio, como se disse, tinham si-
do apagadas. desde t76t, 00111 o sangue do pa()ie
Malagrida. A estatua de F r a ~ Xavier de Oliveira
foi o ultimo personagem de .gesso e papello que fi-
gurou irrisoriamente de par oom as agonias d'um
boiDem queimado em vida.
Alguns hebreus voltaram â patria de seus paes,
DAo a pedirem os bens eob6scados, mas a beijarem
a JMrra que era a cinza de. sena avós.
Em f 775, algumas famílias, 1'9fugiadas na Hol·
landa, aportavam a Portugal. Entre estas, a mais- nu-
merosa era a dos Sãs, repartida n'ootras, que se res-
tàbeleceram em div8f\SOS poDtos do. paiz.
Um neto de Simlo .de Sá, com uma senhora se-
:ugenaria, que era sua· 8<9a, e outra senhora' de
qnarea&a annos, que era. SDa esposa, e umai roda de
mancebos e meninas que erãm seus filhos, fonE
procurar os dese.endfttes de Dioao 'de Barros ã roa
'da Magda leoa. Eneoblratam uma easa de cinco an-
dares 110 1 ~ 1 onde a mlis velha d'aquellas senlto-
ras, D. Leobor Maria de Carvalho,· asseverava que
tinha existido Qlll palacete de quinze janeJlas n'um
andar unico. Pediram informações explicativas âs pe&o ·
soas antigas do local. B r ~ e tristes lhe foram da-
0 IU{tBU
..
das. A ·maior parte da familia Barros tinha morrido
nas ruínas da sua casa por oecasi:to do terramoto de
t 755. Dons netoS-de Diogo de Barros que, DQ dia
da grande desgraça, andavam caçando no Alemtejo _
oom o duque d·Aveiro, tinham desappareeido em
. t 757, e era pUblica voz que o ÕU!rquez de Pombal
os fizera morrer nas mumorras da Junqueira.
D. Leonor, lavada em lagrimas1 disse i filha:
- Vês. Lourença 't. . . morreu todo. . • tudo,
meu Deus! •• : Porque me conserva o'este ftlUndo a
Divina vontade? ·
-Para fuer a felicidade de sua ftlba .••
-E dos seus Det01t ••• -ajuntaram "doas me-
ninas, que se . abraçanm na tiuva de ·Antonio José
da Silva.
A divina vontade Dlo a quiz muitos mais annos
conceder ao amor de filha e netos.
Leonor morreu aos sessenta ·e seis annos, na
terra ónde nascera, na eo,ilhl, looal U6ico em file
o terramoto lhe deixou aipmas 'Vivas memorias da
sua infaricia.
Loorença ainda vi'ia no principio d'este seeuto.
Os netos de Antonio José da Sitva abrem hoje, pót"
ventura os livros denominados OPEIWI DO JUDEU, e
nao sabem que sao de seu avô, o mai8
e talentoso homem que· a religilo de S. Domingos
matou em Portupt.
FIM

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful