<i>MacunaÃ-ma</i>: entre a crÃ-tica e o elogio à transculturação

Alfredo Cesar Melo
Hispanic Review, Volume 78, Number 2, Spring 2010, pp. 205-227 (Article)

Published by University of Pennsylvania Press DOI: 10.1353/hir.0.0104

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´ ´ Macunaı ma : entre a c rı tica e o elogio ` a transculturac a o ¸˜
Alfredo Cesar Melo
The University of Chicago

A Fernando da Mota Lima

´ ´ ´ RESUMO Ha em Macunaıma uma fascinante contradicao. O heroi ¸˜ ´ ´ do romance de Mario de Andrade tem uma incrıvel capacidade de reinven´ tar-se, misturar-se e usar diferentes mascaras para atingir os seus fins. No entanto, tais habilidades transculturais nao lhe parecem ser vantajosas, pois, ˜ ´ ao final do romance, o heroi fracassa melancolicamente na sua missao de ˜ ´ ˆ forjar um carater. Neste artigo, eu discuto que consequencias podem ser observadas desse paradoxo. De acordo com argumento que desenvolvo, ´ ´ ´ ´ Macunaıma e, ao mesmo tempo, um romance antropofagico e crıtico da antropofagia. O romance traz em seu bojo elementos que enaltecem o hibridismo brasileiro ao mesmo tempo que examina criticamente os fins das ´ apropriacoes antropofagicas e sugere um outro tipo de hibridismo para a ¸˜ cultura brasileira, que chamo de subalterno, pois valoriza as trocas culturais ´ ´ entre paıses do hemisferio Sul. Dessa maneira, o romance formula uma ´ ´ ´ teoria crıtica do hibridismo, na qual e possıvel criticar configuracoes sociais ¸˜ ´ hıbridas existentes a partir da imaginacao de hibridismos alternativos. ¸˜

´ ˆ Poucos personagens na ficcao brasileira tem exercido mais fascınio perante ¸˜ ´ ´ ´ ´ seus leitores do que Macunaıma, o heroi sem carater do romance-rapsodia ´ ´ de Mario de Andrade (1893–1945), publicado em 1928. Afinal, Macunaıma

´ ´ Agradeco a Jose Luiz Passos pela leitura atenciosa de versoes anteriores desse texto, e pelas inume˜ ¸ ´ ´ ´ ras conversas sobre Macunaıma. Tambem agradeco a Mercia Flannery por sugestoes de estilo que ˜ ¸ tornaram o texto mais claro.
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o entrecho do romance tambem traz em sua estrutura ´ ´ uma serie de ambiguidades fundamentais do discurso cultural brasileiro. entre ajustes e negociacoes—acarretando necessariamente perdas e ganhos culturais nesta ¸˜ ´ transacao—formam uma nova e terceira cultura (260). discursivo e. quase como um heroi nietzschiano. parece afirmar a vida em todas suas manifestacoes. Termos como transculturac˜ ¸ao. que considero ser ´ ´ ´ central em Macunaıma: Como o heroi do romance de Mario de Andrade pode ser um transculturador aparentemente bem sucedido. ao mesmo tempo. isto e.206 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ ´ ´ representa muitas coisas. um exemplo de ´ ´ malogro melancolico de integracao aos tropicos? ¸˜ ´ ´ Argumentarei a seguir que Macunaıma e simultaneamente um elogio e ´ ` uma poderosa crıtica a antropofagia. como con¸˜ ceito que enfoca o encontro de duas culturas que. Macunaıma e um romance sobre as origens de um povo que poderia ser e sobre o colapso de um povo que nao conseguiu ser. ´ ´ Convem. o final do romance e marcado pela mais profunda melancolia. pois valoriza as trocas culturais Sul-Sul. hibridismo e antropofagia. ja ´ ´ ´ que e. faz uso do campo semantico do canibalismo para tambem comentar ´ o encontro entre duas culturas—a do ‘‘antropofago’’. . um tecedor exitoso de diferentes sistemas culturais e. neste artigo. por ser um ´ndio-negro que virou ı ´ branco). ¸˜ ´ metafora cunhada por Oswald de Andrade no seu famoso Manifesto Antro´ ˆ ´ pofago. Utilizarei a palavra transculturacao na ¸˜ ´ ´ acepcao dada pelo antropologo cubano Fernando Ortiz. discutir essa ambiguidade. romance etiologico e escatologico. ao mesmo tempo. possam ser utilizados como sino ¸˜ ´ ˆ ´ tem historias e alcances especıficos. No entanto. Macu˜ ´ ´ ´ naıma e um personagem que. de temporalidades misturadas e de ´ hibridismos culturais (alem de raciais. e a cultura alheia—comumente associada a europeia (Pau Brasil 25). O personagem construıdo por Mario de Andrade e ´ ´ o sımbolo de deslocamentos geograficos. que chamo de subalterno. identificada com o ` Brasil. por mais que pertencam ao mesmo campo ¸ ˆnimos. repleto de ˆ ´ ´ erotismo e violencia. o que aponta para o fracasso do ´ heroi. Ou para esclarecer ainda mais: advogo ´ a hipotese que o romance traz em seu bojo elementos que enaltecem o hibridismo brasileiro—o que levou e ainda leva a uma identificacao do texto com ¸˜ a antropofagia—ao mesmo tempo que examina criticamente os fins das ´ apropriacoes antropofagicas e sugere um outro tipo de hibridismo para a ¸˜ cultura brasileira. Tentarei. Por sua vez. em algumas situacoes. Ja a antropofagia. dizendo ‘‘sim’’ a todas as oportu¸˜ ´ nidades de misturar-se e reinventar-se. antes de iniciar a analise. esclarecer alguns pontos sobre os conceitos empregados no decorrer do nosso estudo.

a cultura devorada se transforma. apontando para uma representacao mais engajada do processo ¸˜ ´ de misturas culturais.´ Melo : m ac un ai ma j 207 Devidamente consumida e digerida. ´ Macunaıma e Antropofagia ´ ˆ Em carta a Alceu Amoroso Lima. Principalmente porque Macunaıma ja e uma tentativa ˆ tao audaciosa e tao unica (nao pretendo voltar ao genero absolutamente). e uma metafora construıda num manifesto de cunho polemico e provocador. e vai ´ ˆ aparecer inteiramente antropofago. palavra. Paciencia. ˜ ˜ ´ ˜ os problemas dele sao tao complexos apesar dele ser um puro divertimento ˜ ˜ ´ ´ ´ (foi escrito em ferias e como ferias) que complica-lo ainda mais com a tal ˆ de antropofagia me prejudica bem o livro. questionar a orientacao proposta por esse tipo especıfico de trans¸˜ ´ culturacao e imaginar outras direcoes possıveis para um hibridismo brasi¸˜ ¸˜ ´ leiro. por ¸˜ ´ ´ ´ ˆ sua vez. ˜ ´ Agora vai dar a mesma coisa. Note-se que apesar da terminologia diferente. que nao estavam relacionadas a antropofagia. revisitar os percalcos do casamento ¸ ´ entre a antropofagia de Oswald de Andrade e o romance de Mario de Andrade. (71 cartas 30) . Faz-se necessario. Lamento um bocado essas coinciden´ ´ ´ cias todas. Por ter sido criado num ensaio antropologico. sempre de acordo com as necessidades ´ do antropofago. O ´ mesmo havia acontecido na publicacao de Losango Caqui. que havia coinci¸˜ ´ dido com o surgimento da Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade. A antropofagia. Mario ´ reivindicava para o seu romance uma serie de problemas e complexidades ´ ` proprias. inteirinho em seis dias. levando com que muitos leitores associassem um ao outro. correto e aumentado em janeiro de 1927. o conceito da transculturacao tem um alcance mais amplo. os dois conceitos descrevem—e enaltecem—processos culturais semelhantes. sendo assim criada uma outra cultura. primeiramente. escrito em dezembro de 1926. Mario de Andrade reclama da coincidencia ´ entre a publicacao de seu romance e o Manifesto Antropofago de Oswald de ¸˜ Andrade. A diferenca estaria ¸ ˆ ´ na abrangencia dos conceitos. ¸˜ ´ Como pretendo demonstrar. um dos grandes meritos do romance de ´ ´ Mario de Andrade esta em expor a antropofagia como uma transculturacao ¸˜ ´ orientada. Macunaıma vai sair. Entendemos a metafora ‘‘antropofagia’’ como um dos ´ ´ varios tipos possıveis de transculturacao.

‘‘Manifesto antropofagico’’—vistos como ‘‘ideario modernista da brasi¸˜ ´ lidade’’(9)—e a defesa da cultura hıbrida brasileira parecem guiar todo o argumento de Maggie. as polıticas de acao afirmativa poderiam colocar em xeque ¸˜ ´ as conquistas do ideario modernista.208 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ ´ ´ Se Mario de Andrade era um crıtico diligente de sua propria obra. deram-se ¸˜ ´ sob o signo da antropofagia. em Grupo Macunaıma: carnavalizacao e mito. apontando os modos apropriados de ler e ¸˜ interpretar seus textos. as adaptacoes fılmica e teatral do romance. no afa ˜ de modular a sua recepcao. do Modernismo na literatura ao ´ Cinema Novo. a concepcao de antropofagia que ajuda a estruturar ¸˜ ´ o filme e marcada por uma leitura terceiro-mundista. a presenca da refle¸˜ ´ ¸˜ ¸ ´ ´ ´ xao antropofagica e notoria. Macunaıma representaria o Brasil devorado pela violencia do capitalismo na periferia do sistema (‘‘Depoimento’’ 112–26). e David George. exposto pelo ´ ´ ´ ‘‘Manifesto antropofagico’’ de Oswald de Andrade e incorporado pelo heroi Macunaıma. seja no teatro. Para ´ ˆ Joaquim Pedro. Maggie (7) critica a polıtica de acao afirmativa proposta ¸˜ ´ pelo governo federal. seja no cinema. ´ Independente dessas querelas. ´ ´ do que como um substantivo desacordo ideologico e estetico entre a obra de ´ ´ Mario e o ideario de Oswald. Segundo Maggie. pode-se dizer que a tentativa de instruir os leitores ´ sobre suas intencoes em Macunaıma talvez tenha sido o seu maior malogro.2 A rusga poderia ser compreendida mais ´ ˆ como disputa de poder simbolico e proeminencia dentro do modernismo. a despeito das intencoes de ¸˜ ´ Mario e de suas constantes denegacoes em relacao a proximidade de seu ¸˜ ¸˜ ` ´ ´ projeto estetico e ideologico com a antropofagia. como tambem pelas questoes ideologicas de fundo que ˜ ´ podem ser encontradas tanto no ‘‘Manifesto antropofagico’’ de Oswald de ´ Andrade quanto no romance experimental de Mario. basta ler o artigo de Yvonne Maggie na ´ ˆ Revista Brasileira de Ciencias Sociais. a tensao inicial entre Macunaıma e antropofagia seria equa˜ cionada a posteriori. No entanto. Nas duas reencenacoes. estudam. como boa ˜ ´ parte das reencenacoes do romance. respecti¸˜ vamente. pode-se elencar muitas caracterısticas da ´ antropofagia no romance de Mario de Andrade. Nao so pelo canibalismo ˜ ´ ´ ´ existente no livro. baseado na ideia de hibridismo cultural. apesar da rivalidade entre os dois principais expoentes do modernismo brasileiro. A asso´ ´ ´ ciacao entre Macunaıma. A primeira delas seria ´ 1. ´ ´ 2.1 Crıticos como Antonio Candido (‘‘Digressao’’ ˜ 81) . Nele. Como se pode constatar no depoimento do diretor do filme Joaquim Pedro ´ de Andrade a Heloısa Buarque de Hollanda. Para evidenciar como Macunaıma de Mario de Andrade e a Antropofagia de Oswald sao vistos ˜ ´ como convergentes no imaginario moderno brasileiro. pelos mencionados estudiosos. . Walnice Galvao (31) e Silviano Santiago (Nas malhas 172) convergem no ˜ ´ ´ ´ juızo sobre a faceta antropofaga de Macunaıma. Randal Johnson. algumas diferencas em relacao a antropofagia oswaldiana ˜ ¸ ¸˜ ` precisam ser notadas. no seu Literatura e cinema: Macunaıma. distante do triunfalismo oswaldiano. ¸˜ ´ Nao so Oswald de Andrade considerou o romance antropofago. ´ Desse modo. como uma relacao de ¸˜ ˆ convergencia profunda.

Esse ˜ ´ gesto de assumir o ‘‘primitivismo’’. que ora pode ser bacharel. inicialmente atribuıdo pela ‘‘autoridade’’ europeia como sinal de inferioridade. num negro e num ´ ´ branco. ¸˜ ´ ´ Sem o realismo magico de Macunaıma. perdem seu peso esmaga` dor. O defeito passa a ser considerado vantagem. ¸˜ ´ o pensamento magico serviu de inspiracao para entabular a sua narrativa. e antropofagico. ´ ´ ´ Igualmente antropofagico no romance de Mario de Andrade e o constante ´ consumo de identidades do heroi. O antropologo frances Lucien Levy-Bruhl (bastan˜ ´ te lido por Mario) havia estabelecido em seu livro Les fonctions mentales dans ´´ ´ les societes inferieures (1910) uma descricao da mentalidade dos primitivos: ¸˜ ` estes nao conseguiriam distinguir o real do supernatural e recorreriam a ˜ ´ ´ ´ ‘‘participacao mıstica’’ para manipular o mundo. a medida que o trabalho de contaminacao dos latino-americanos se afirma. com ¸˜ essa guinada de perspectiva. Macunaıma e uma especie de Midas do hibridismo: ressignifica . ´ ´ ´ O heroi Macunaıma e um destruidor de unidades e purezas culturais por ´ ˆ ´ ´ excelencia. o tabu se transforma em totem. afinal. ´ num lindo prıncipe. com tanto ´ sucesso. ora se transforma numa linda francesa. ´ ´ O livro tambem pode ser considerado antropofagico por conseguir criar uma zona do ‘‘entrelugar’’ do discurso. Ao inves de Mario de An¸˜ ´ drade tomar tal juızo como uma acusacao de inferioridade aos povos tropicais. que trans¸ ´ figura os elementos feitos e imutaveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo (‘‘O entre-lugar’’ 16. fazendo do mesmo uma mola para ´ ´ ´ ´ criacao artıstica em paıses de terceiro mundo. Macunaıma tem uma avidez notavel por consumir novas identidades ´ ´ ´ com vistas a realizar os seus proprios fins e este tambem e um gesto antropo´ fagico. se mostra mais e mais efi¸˜ ´ caz. ativo e destruidor. ora pode ser artista em busca de bolsa do governo. grifos do autor). A America Latina institui seu lugar no mapa da civilizacao ocidental ¸˜ gracas ao movimento de desvio da norma. o romancista nao poderia ter levado ˜ a cabo seu projeto de ‘‘desgeograficar’’ a cultura brasileira.´ Melo : m ac un ai ma j 209 ´ ˆ ´ a adesao ao primitivismo. no imperador do Mato Virgem. Santiago explica o que seria o ‘‘entrelugar’’: ´ A maior contribuicao da America Latina para a cultura ocidental vem da ¸˜ ´ destruicao sistematica dos conceitos de unidade e pureza: estes dois concei¸˜ tos perdem o contorno exato de seu significado. seu sinal de superioridade cultural. Essa empreitada foi potencializada pela capacidade de o heroi deslo´ car-se e viajar magicamente para os mais diferentes rincoes do paıs.

para Souza. identificar momentos no ´ ` ` entrecho romanesco. Para comecar. Macunaıma ´ ressignifica a cultura alheia e e igualmente modificado por ela. Segundo Souza. as ‘‘Cartas para Icamiabas’’. ´ ´ Macunaıma aceita a oferta. em que Macunaıma recorre a cos´ ´ movisao mitologica de seu povo. posteriores a carta. A ¸ ´ ironia da carta reside no choque entre pedantismo da lıngua pomposa. adaptando-a. a carta poderia ser vista como um momento antropofagico—em ´ma veste desabusadamente a mascara do bacharel de provıncia. tıpica dos bachareis brasileiros. ´ a Sol. toda ´ ela mal empregada e eivada de erros. como pretendo demonstrar a seguir. Vei. Minha objecao a interpretacao de Souza se da em dois nıveis: (a) e ¸˜ ` ¸˜ ´ possıvel. reajustando-a em conformidade com a sua e. ´ Afinal. pois a missiva representa¸˜ ´ ´ ´ ´ ria nao so a adesao do heroi aos codigos linguısticos da metropole. A justaposicao entre a grandiloquencia da retorica e a ¸˜ ´ banalidade do pedido de dinheiro para que o heroi continue a visitar os ´ ´ ˆ ´ bordeis tem um efeito comico. representava a inadequacao cultural do ¸˜ ´ heroi—pois o mesmo havia escolhido a civilizacao crista. desprezando sua ˜ ¸˜ ´ condicao tropical—pode ser vista como o exemplo antropofagico da ¸˜ ˆ ‘‘incompetencia [brasileira] criativa em copiar’’ (Gomes 90) na qual.210 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ ´ todas as coisas que toca deixando nelas a sua marca. Seria a ´ possibilidade do heroi do romance reconciliar-se com sua natureza tropical. mas tao logo Vei da as costas. as icamiabas. ´ ´ que Macunaı ´ A mesma parodia que. o heroi do romance se vale da linguagem mais ´ ´ rebuscada e macante. como ˜ ´ ˜ mostraria sinais de deslumbre diante das facilidades do progresso da cultura ´ ´ ´ urbana. e o prosaısmo dos motivos que o levam ˆ ´ a escrever a missiva. ¸ ´ ´ ´ o capıtulo 9. No capıtulo anterior. (b) o ¸˜ ´ ´ ´ ´ capıtulo ‘‘Cartas pras Icamiabas’’ e ambıguo o bastante para tambem ser interpretado sob o signo da antropofagia. Na epıstola escrita por Macunaıma ` ´ ´ as suas suditas. o que enfraquece a tese de que o heroi ˜ escolhe a civilizacao urbana em detrimento da sua natureza tropical. havia oferecido uma de suas filhas para casar com Macunaıma. Macunaıma estaria assim traindo os tropicos. ´ ˆ ´ Analisarei o encontro de Macunaıma com a cultura urbana em tres episo´ ´ dios distintos e identificarei como em cada um desses episodios. Este capıtulo e considerado a parte central do ´ ´ romance pela crıtica Gilda de Mello e Souza (52). O heroi do romance e ´ um transculturador—esta o tempo todo burilando a outra cultura (a citadina). para pedir dinheiro. o texto ´ fossilizado da retorica bacharelesca se revitalizava com a ‘‘contribuicao mi¸˜ . o personagem nao ˜ ˜ ` ` resiste a tentacao de amar uma portuguesa. recriando as duas culturas. assim. essa traicao seria estilizada na ‘‘Carta pras Icamiabas’’. Preferindo uma europeia as filhas ¸˜ ´ ´ de Vei.

¸˜ ´ Numa certa noite. ] O povo se retirou comovido. Por isso resolveu viver no ceu. Ou seja. ´ ´ Outro momento de encontro e juncao de culturas esta no capıtulo 10. ˜ ¸˜ ¸˜ ´ ´ ´ ´ ´ Pauı-Podole (que e o Pai do Mutum) nao teria aguentado viver com tanta ˜ ´ formiga na terra. ¸˜ ¸˜ ´ A interpretacao do heroi sobre a constelacao e mıtica. segundo a interpree ´ ´ tacao de Souza. onde o ´ ´ pastiche por parte dos iniciantes resultava numa parodia involuntaria. E a escuridao se fez. Foram pra casa botar pelego por debaixo do lencol porque por terem brin¸ cado com fogo aquela noite. o que ´ descreve exatamente o mesmo processo pelo qual passou Macunaıma. Macunaıma ja havia recusado as filhas de Vei (sua condicao ¸˜ ¸˜ ´ ´ ´ ´ tropical) e ja havia aderido ao codigo estilıstico da metropole (‘‘Cartas pras ´ ˜ Icamiabas’’). o heroi nao hesita em refutar o discurso pomposo e bacharelesco do mulato.´ Melo : m ac un ai ma j 211 llionaria de todos os erros’’ (Andrade. O. A ‘‘Carta pras Icamiabas’’ expoe a impossibilidade de uma cultura ser transplan˜ tada integralmente. como um dos ¸˜ ´ ´ sımbolos do Brasil. Pau Brasil 20). Macunaıma acaba involuntarimanete parodiando-o. O capıtulo que estamos analisando ´ posterior a ‘‘Carta pras Icamiabas’’. .. lancando mao de uma explicacao ˜ ¸ ¸˜ ´ ´ mıtica. Segundo sua versao. Foram todos dormir. dando uma outra explicacao sobre o que seria aquela constelacao de estrelas. como vimos. feliz no coracao cheio de explicacoes e ¸˜ ¸˜ ´ cheio de estrelas vivas. Depois de uma longa e ´ detalhada versao sobre o surgimento das estrelas. Paulo Emilio Salles ¸˜ ˆ Gomes descreve a ‘‘incompetencia criativa’’ brasileira para copiar. morando no ceu. logo. o heroi refuta o mulato. Macunaıma para e assiste ˜ ao contentamento do povo diante de sua explicacao. 93) ˜ ´ Dois aspectos devem ser considerados. (92. Macunaıma assiste ao discurso de um ‘‘mulato da maior mulataria’’ que enaltece a constelacao do Cruzeiro do Sul. Ninguem nao se amolava mais com dia do Cruzeiro ˜ ´ ´ ´ nem com as maquinas repuxos misturadas com maquina luz eletrica. Na tentativa de servilmente emular o discurso domi´ nante. Mesmo sendo Macunaıma um entusiasta de discursos e ` ˆ ´ um admirador as vezes ingenuo do progresso. . a essa altura. ¸˜ E era imenso o contentamento daquela paulistanada mandando olhos de ´ assombro pras gentes. e assim. Ao analisar o cinema brasileiro na sua fase de formacao e aprendizado. o fato de Macunaıma ter decidido escrever aquela carta para . No entanto. havendo sempre arestas para a diferenca em relacao ao ¸ ¸˜ modelo a ser imitado. pra todos esses pais dos vivos. ressignificando-o. [ . na certa iam mijar na cama.

˜ ´ O caso de Macunaıma. ´ ´ apesar das ‘‘maquinas de luz eletrica’’. Pelo ¸˜ ´ ´ ´ contrario. Ou ´ ´ como anunciou o heroi: ‘‘No tempo de dantes. Por um momento. era a onca parda. mas que tambem enseja um possı´ ´ ´ no capıtulo 11. ´ Um terceiro momento de interacao entre Macunaıma e a cultura urbana ¸˜ ´ ´ ` se da num causo contado por Macunaıma ao chofer e a empregada do Gi´ ´ gante. portanto. E ‘‘reencantassem’’ o seu modo de vida. E capaz de conter esses dois mundos e ser fecundado por essas diferentes visoes-mundo (a da ˜ cidade e a do Mato Virgem) sem necessariamente escolher uma em detrimento da outra. a cultura urbana esmagando a personalidade ˜ ´ ´ ´ ´ de Macunaıma). ˜ ´ pois o heroi havia encontrado ‘‘rasto fresco de tapir bem na frente da Bolsa ´ ´ de Mercadorias’’ (Macunaıma 97). uma tigre preta. o automovel nao era ˜ ¸ ´ ´ uma maquina que nem hoje nao.212 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 as icamiabas. todo ilumi¸ ` ¸˜ ´ nado pelas estrelas. Existe a possibilidade de Macunaıma tambem contaminar a cidade com um pouco de sua visao-mundo. Outro momento comico. quando Macunaıma vai vel reencantamento da cidade esta para o centro da cidade de Sao Paulo com a finalidade de procurar tapir. mocos. os paulistanos impacto na ‘‘paulistanada’’. Se chamava Palaua e ˜ ¸ parava no grande mato Fulano’’ (129). nao e o do primitivo que se ‘‘aculturou’’ e ˜ ´ perdeu seus referenciais antigos—lastreados na tradicao de seu povo. Palaua assim fez. ´ ´ Outro aspecto que deve ser considerado e o de Macunaıma ter causado ´ como se por um momento. Macunaıma soma seu mundo anterior ao novo. Por um momento. Certa vez. com um estilo bacharelesco. nao implicou um desaparecimento de seu estoque cognitivo anterior. os homens de negocio suspendem suas atividades para procurar um tapir em plena cidade grande. muito curiosa. ´ ´ Palaua era uma onca que tinha poderes magicos para mandar seus olhos ¸ enxergarem o mar. pediu para ´ ´ tambem ver o mar. Macunaıma explica como surgiram os automoveis. elogiando o progresso de Sao ˜ Paulo. Eles admiravam o brilho das estrelas. mandando os olhos da tigre avistarem ´ ´ o mar. ressaltando um aspecto central ˜ ´ da transculturacao que e a interacao de duas culturas que se influenciam ¸˜ ¸˜ ´ ˆ ´ reciprocamente. o Pai . o pragmatismo ´ ´ urbano cede espaco a contemplacao ‘‘inutil’’ da beleza do ceu. Macunaıma consegue trazer elementos de seu mundo para o ´ ´ mundo moderno e desse modo consegue reencanta-lo e recria-lo. ´ Novamente. Chegando ao mar os olhos foram engolidos por Amaila-Podole. Neste causo. Pode-se concluir que a relacao entre Macunaıma e a ¸˜ cidade nao e unilateral (ou seja.

A tigre preta ficou cega e com muita raiva de Palaua. . . o hero ˜ ¸ ´ ˆ ` ˜ firmamento e algo universal—todos os povos tem acesso a visao das estrelas e cada um pode ter sua interpretacao sobre a simbologia daquelas constela¸˜ ´ ´ coes. O primeiro ´ ´ se da quando Macunaıma escreve a carta para as icamiabas usando o registro ´ bacharelesco e pomposo. Vai. em de mais longe quando ´ passou pela barra do Boipeba onde o cuisarruim morou.´ Melo : m ac un ai ma j 213 ´ ´ da Traıra. Afinal. viu um motor perto e engoliu o tal. Vai. E no ter˜ . O heroi ¸˜ ´ ´ oscila de uma visao urbana-europeizada para uma otica indıgena. Entao comeca ˜ ¸ a persegui-la no meio da floresta. E a maquina automovel’’(132). Imperador Pode-se perceber. . Por isso que ¸ ´ a gente fala ‘um forde’ e fala ‘uma chevrole’ ’’(132). E o chofer e a criada ´ choravam comovidamente depois de escutar o causo do heroi. o momento. Palaua ´ ˆ purgante de olio de mamona. Nem bem motor caiu na barriga da onca que a pobre ¸ ´ criou forca nova e chispou . tıpica do letrado de ‘‘civilizacao de emprestimo’’. ´ ˆ s momentos-chave de Macunaıma. E importante salientar as osci´ lacoes e as misturas no pensamento do heroi. vai. Macu¸˜ ´ ´ naıma tenta ser o mais europeizado possıvel. . E ¸ ˆ depois a onca pariu uma ninhada. O segundo acontece no capıtulo em que Macu´ naıma contraria o estudante mulato na sua exaltacao do Cruzeiro do Sul e ¸˜ expoe a cosmogonia do Mato Virgem para explicar aquela constelacao ˜ ¸˜ ´ ´ estrelar. pegou numa lata de essencia chamada gaso´ lina. entao. Macunaıma prefere ficar com o ponto de vista de seu povo. Mas Palaua nem podia mais ˆ correr assim com o estomago nas costas. ‘‘E inda tomou ˜ ´ ´ ´ um nome estranho pra disfarcar mais. com medo da tigre. utilizando uma linguagem ´ ´ rebuscada. A perseguicao foi intensa e emocionante: ¸˜ ´ ´ Bateu fome em Palaua. interagindo com a cultura urbana e moderna. E o terceiro ocorre no episodio em que o heroi cria uma narrativa ´ ´ ´ ´ mıtica e magica para a origem do automovel. No primeiro momento. Estava uma escureza que so vendo por causa ¸ da malinconia da noite . No segundo ¸˜ ´ i abraca e defende a cosmovisao de seu povo. . (131) Mas a tigre continuou perseguindo a onca e esta. tre ˜ do Mato Virgem. A tigre na cola dela. . ‘‘Uns machos outros femeas. despejou no x e la foi fuomfuom! fuom! Que nem burro peidorreiro ´ por aı. ¸ resolveu nao largar aquilo tudo que a tinha ajudado a fugir. ela abocanhou dois vagalumoes e seguiu ˜ ´ ingeriu um com eles nos dentes para alumiar caminho .

Macunaıma esta transmitindo para a ´ cidade a cosmovisao do Mato-Virgem? Como explicar que Macunaıma faz ˜ ´ uso da mesma cosmovisao com vistas a narrar a origem do automovel? ˜ ´ ´ Depois da analise dos episodios. ‘‘[e]n esta novela a Arguedas le angustia que el indio pueda perder sus ´ mitos. Ele pode viver num entrelugar. como concordar com Souza que ‘‘[Macu´ ´ naıma e] na verdade um homem degradado que nao consegue harmonizar ˜ duas culturas muito diversas: a do Uraricoera. ˜ . O heroi entao passa a dar uma inteligibilidade mıtica e magica para ˜ ´ ´ o artefato mais urbano de todos: o automovel. com´ ˆ pletamente desenraizado. estamos lidando com personagens ` que estao perdendo estoque cultural e nao conseguem se adaptar a nova ˜ ˜ ´ ´ realidade. que nao existe no Mato ˜ ˜ ´ ´ ´ Virgem. como no caso do ¸˜ ¸˜ ´ romance em questao de Jose Maria Arguedas (184–207). e a do pro´ gresso.214 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ ´ ceiro momento. Se o firmamento e ˜ ˜ ´ universal. mas nao perdeu sua identidade inicial. personagem-narrador de The Mimic Man (V. caribenho ou ingles. Se a ‘‘Carta pras Icamiabas’’ represen¸˜ ´ ta o coroamento de uma escolha funesta de Macunaıma—a de negar a natureza tropical e inserir-se no progresso da civilizacao europeia—como ¸˜ ´ ´ ´ explicar que. donde proveio. sus ritos y su vida comunitaria. consegue manusea-las e incorpora-las habilmente. romance de Jose Maria Arguedas. Macu´ naıma nao foi derrotado pela cidade. mal sucedidos de transculturacao. Tanto no caso de The Mimic Man como no caso ¸˜ de El zorro de arriba y el zorro de abajo. os ´ trabalhadores da industria pesqueira de Chimbote sao triturados pelo grande ˜ ˆ capital e tem suas identidades culturais estilhacadas pelo alienante processo ¸ de modernizacao capitalista.3 Macunaıma tem uma outra caracterıstica: ele possui duas culturas ´ ´ e. al entrar en contacto con la corrupcion del ambito urbano’’ ´ (58). por assim dizer. Macunaıma nao e ˜ ´ ˜ Ralph Singh. Macunaıma funde elementos ´ das duas culturas para recriar e reencantar o mundo das maquinas. Se a cidade deixou marcas na subjetivi˜ ´ 3. Ja Alberto Moreiras discute em seu livro The Exhaustion of Difference os limites do conceito transculturacao e os casos. Naipaul). Nesse romance. ´ ´ ´ A analise de tais episodios que se encontram em capıtulos posteriores ao da ‘‘Carta pras Icamiabas’’—coloca em xeque alguns dos pressupostos da interpretacao empreendida por Souza. Segundo Efraın Kristal. numa ˆ ncia de referencias solidas vindas de qualquer cultura. no capıtulo seguinte. na constante negociacao e fusao de ˜ ¸˜ ´ duas culturas. ha uma fusao entre essas duas visoes. sem saber se e indiano. o mesmo nao pode ser dito do automovel. Da ˆ ´ constatacao de ause ¸˜ ´ mesma forma como Macunaıma nao e um personagem de El zorro de arriba ˜ ´ ´ y el zorro de abajo. onde ocasionalmente foi parar’’ (45)? Macunaıma nao e um acultu˜ ´ rado. S. como vimos.

Macunaıma cismou inda meio indeciso. Fratura narrativa ´ Espero ter demonstrado que o romance de Mario de Andrade tem uma ´ evidente faceta antropofagica. E ele nao tinha ˜ ˜ ´ coragem para uma organizacao. falhe. Ate era por causa disso mesmo que nao achava mais graca na ˜ ¸ ˆ Terra. . que se adapta ao a¸˜ ´ lheio ao mesmo tempo em que mantem sua cultura. No entanto. Macu´ naıma aceita se casar com uma das filhas solares. . Macu˜ ´ naıma desiste da vida e decide transformar-se em estrela. Tudo o que fora a existencia dele apesar de tantos casos tanta ´ brincadeira tanta ilusao tanto sofrimento tanto heroısmo. Um momento pensou ´ mesmo em morar na cidade da Pedra com o energico Delmiro Gouveia. assim como tinha vivido era ´ ´ impossıvel. . Vejamos o trecho: ´ Entao Macunaıma nao achou mais graca nesta terra. como pudemos verificar em nossa analise. adaptabili´ dade e miscibilidade nao impedem que Macunaıma. tais caracterısticas de flexibilidade. a Sol’’. E se amulhera com uma . . recriando novas maneiras ´ de ver o mundo. ˜ ´ ´ ´ As paginas finais de Macunaıma sao conhecidas pelo traco inequıvoco da ˜ ¸ tristeza. . degrada-se e degenera-se. nao se sentindo motivado para mais nada. Depois de recuperar a muiraquita do Gigante Venceslau Pietro ˜ ´ Pietra. sai a procura de mulher. Ia pro ceu viver com a marvada.´ Melo : m ac un ai ma j 215 ´ ´ ´ dade de Macunaıma. sem ´ ´ saber si ia morar no ceu ou na ilha de Marajo. afinal nao fora ˜ ˜ sinao um se deixar viver. o heroi volta ao Mato Virgem. (165) ¸˜ ´ ´ Por que Macunaıma desiste da vida? Por que o heroi. . Pra viver la. . ao final. ´ ˆ ´ porem lhe faltou animo. o heroi tambem conseguiu impregnar a cidade de ´ algum encantamento. mas nem bem a futura sogra se afasta. ao final. Ia ser ¸˜ ´ o brilho bonito mas inutil de mais uma constelacao. . e pra parar na cidade do Delmiro ou na ilha de ˜ ´ Marajo que sao desta terra carecia de ter um sentido. Macunaıma e o heroi-transculturador. fracassa? ` interpretacao do autor do romance. . Capei bem nova ˜ ˜ ¸ ´ ´ relumeava na gupiara do ceu. e que exemplos nao faltam para corroborar tal ˜ ´ ´ ´ caracterizacao. Para Mario de An´ Tivemos acesso a ¸˜ drade: ´ ´ A alegoria esta desenvolvida no capıtulo intitulado ‘‘Vei. e acometido por uma intensa letargia.

No entanto. E vai pro ceu. da astenia. . viver o brilho inutil das estrelas. ´ ˆ ´ 4. Essa e a ultima frase do ensaio de Prado e de certa forma expoe a ironia entre uma natureza deslumbrante e o povo que nela habita: ˜ ´ macambuzio. a cobica e o ‘‘romantismo’’ brasileiro. Ha um grande desnıvel. Macunaıma nao se realiza. ¸˜ ´ ´ Macunaıma nao deve ser lido como se tivesse uma mensagem ideologica ˜ ´ ´ ´ ´ unıvoca. ‘‘Viveram tristes numa terra ´ ´ radiosa’’(219). o Portugal que nos herdou os princıpios cristaos-europeus. .4 Macunaıma desiste de tudo e se torna estrela. Foi ´ vinganca da regiao quente solar. Como pontua Roberto ˜ ´ Schwarz. do enfraquecimento causado pelos tropicos atravessa ´ ´ ´ ´ a historia cultural brasileira. onde la ˆ pode se tornar tradicao—referencia para os brasileiros. Macunaıma e um ‘‘transcultu˜ ` ´ rador’’ e nao um aculturado. e o Macunaıma do final do romance. que ativamente devora o ´ ´ alheio e lhe da novos significados. e ha passagens em que o pessimismo a Prado funciona como elemento ´ ´ estruturador da narrativa. em termos de voltagem ´ ´ ideologica. ao enfraquecimento moral e ¸ ´ ` ´ a crise da vontade. ‘‘a fratura da forma aponta para impasses historicos’’ (Um mestre 171). sua compulsao por ganho facil (cobica). Ha trechos em que o tom antropofagico-transculturador e domi´ ` nante. adoecido. isto e. que levavam o ¸ povo brasileiro a possuir uma imensa tristeza. Seu apetite sexual desmedido (a que Ma ´ pornografia desorganizada). Esta e uma leitura que pode ser feita a partir ˜ ´ ´ ´ das acoes do heroi. ˜ ¸˜ ´ ˆ ´ ha uma distancia que separa as teses de Mario e acao do romance. . incapaz de ter ¸ ´ um projeto de nacao. . nao consegue ˜ ˜ ˜ ¸ ´ ´ ´ adquirir um carater. dispersivo em seus esforcos e desejos. Vei se vinga do heroi e o quer matar . Macunaıma adota um tom ideolo¸˜ gico que muito se assemelha a Retrato do Brasil. ao final. sua dis˜ ¸ ` posicao para discursos nefelibatas (romantismo) levavam aquilo que Prado ¸˜ ´ chamava de ‘‘astenia da raca’’ brasileira. ´ Prado critica a luxuria. de Paulo Prado. Entretanto. no capıtulo final. ´ ´ construıdo tao a sabor da otica de Retrato do Brasil. Nesse livro. E. Ele apenas incorpora outras sen´ romance. do final do seculo 19 ate quase a metade do seculo 20 (Borges 235–56). Macunaı ˜ ´ ´ sibilidades e outras visoes a sua subjetividade. No ¸˜ ´ma nao nega os tropicos.216 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ portuguesa. entre o Macunaıma-transculturador. . Macunaıma acaba triste ¸˜ ´ rio chamava de no Mato Virgem. O tema da decadencia fısica. Tal como o povo brasileiro. ´ (‘‘Notas Diarias’’ 101) ´ ˜ O heroi nao se realiza porque nao aceita sua condicao tropical. ˜ ´ ´ por isso .

5 A riqueza dutivo que tentar resolve ˜ ´ ´ ´ de Macunaıma esta na sua indeterminacao. Esse e o caso de Macunaıma. romance formado por ¸˜ ´ esse desnivelamento ideologico. na indecidibilidade de ¸˜ apontar para direcoes tao distintas ao mesmo tempo. ˜ ´ ´ Estudando a primeira edicao de Raızes do Brasil (1936). ´ Ao longo da primeira edicao de seu livro. eliminando uma de suas dimensoes. a ponto do subtıtulo da tese de doutorado que deu origem ao livro ser: ‘‘Para uma teoria da prosa modernista brasileira’’. Sua configuracao irresolvida exige assim ¸˜ uma reflexao maior. tenta resgatar as intencoes originais de Mario de Andrade ao escrever o ¸˜ . ´ Souza. ´ na sua primeira edicao: Macunaıma seria um transculturador exitoso ou um ¸˜ ´ desterrado na sua propria terra tropical? ´ ˆ ´ A meu ver. A configura˜ cao da obra de vanguarda seria necessariamente irresolvida. deixa clara a associacao que pre¸˜ ¸˜ ´ ´ tende fazer entre os projetos intelectuais de Mario e Oswald de Andrade. para algumas frases adiante ´ afirmar que os brasileiros ‘‘[sao] desterrados em [sua propria] terra’’ (3). Esse e o caso de Haroldo de Campos e Souza. ´ ` Uma crıtica a antropofagia ´ Uma das coisas que mais irritavam Mario de Andrade na recepcao de Macu¸˜ ´ naıma era o entusiasmo e otimismo excessivos com que as pessoas interpre´ 5. ambivalencia fundamental do romance? ´ ´ Como explicar que Macunaıma e um transculturador bem sucedido. Suas partes nao formam um todo coerente (77). discutirei tambem outros elementos. possuindo ¸˜ ´ ´ arestas e contradicoes. O ˜ ´ ´ ´ crıtico questiona como seria possıvel conciliar juızos que vao em direcoes tao ˜ ¸˜ ˜ ´ ´ ´ opostas? O impasse de Macunaıma e bastante similar ao de Raızes do Brasil. isto e. ¨ ¸˜ em sua Theory of Avant-Garde. dentro da propria narrativa. que tentam decifrar a ambiguidade indo em ´ direcoes opostas. extrair desdobramentos crıticos da ambivalencia e mais proˆ -la. afirma que as obras de vanguarda apresentam ´ ˆ ´ ˜ ˆ ˆ um carater nao-organico. em seu Morfologia do Macunaıma. Buarque sugere que o Brasil e ‘‘o ¸˜ ´ unico esforco bem-sucedido em larga escala de transplantacao da cultura ¸ ¸˜ europeia para uma zona de clima tropical’’. Campos. isto e. que levam a um questionamento da antropofagia. Depois de ter analisado ¸˜ ˜ ´ ´ como Macunaıma dispoe de elementos que permitem uma leitura antropofa˜ ´ ´ gica do romance. heroi fracassado na sua integracao ao mundo? Peter Burger. o crıtico Joao ˜ ¸˜ Cezar de Castro Rocha encontrou uma aporia (depois remediada em edicoes ¸˜ ulteriores) no argumento de Sergio Buarque de Holanda (Rocha 105–142). por sua vez.´ Melo : m ac un ai ma j 217 ˆ Como entender essa fratura. nao tem a inteireza organica e coesa das ˜ obras realistas. e ao ´ mesmo tempo.

pretendo ir alem dos signifca¸˜ ´ dos ja apontados pela visao de mundo do autor e aprofundar algumas ˜ ´ sugestoes contidas na narrativa—que tem autonomia em relacao ao ideario ˜ ¸˜ ´ de Mario. derivadas de seu pensamento social. ¸˜ ´ ´ ´ ´ ´ minha analise se pautara nas sugestoes e indıcios da forma literaria (isto e. na maneira como ´ romance. e a lama do Brasil ¸˜ ´ virgem e desconhecida!’’ Que virgem nada! Que desconhecida nada! Vir´ gem. como pra os modernistas de minha geracao. Se o livro e todo ele uma satira. meu Deus! Sera muito mais um cao nazista! Eu fracassei. no proprio romance. o que da um certo sabor de determinismo geografico ´ rio de Andrade. Independente da fundamentacao ideoao pensamento de Ma ¸˜ ´ ´ ´ logica de Macunaıma. . Em outras palavras. Tentarei a seguir identificar quais seriam os problemas analisados pela ´ ´ ´ ficcao de Mario. o que eu sinto e vejo que e o brasi´ leiro. distante das especulacoes de Oswald de Andrade e mais proximo de um certo pessi¸˜ mismo que Souza considera importante recuperar (97). apesar de sabermos da interpreta´ ´ ´ cao de Mario sobre o fracasso de Macunaıma. pois estao ancorados na necessidade de adaptacao do ˜ ¸˜ ` ´ ´ homem a sua geografia. e preciso constatar que o romance. ´ ´ ` ´ ´ O fracasso de Macunaıma e atribuıdo. o ¸ ¸˜ ´ ´ ´ Macunaıma e a ‘‘projecao lırica do sentimento brasileiro. Macunaıma e concebido. desde o seu inıcio.218 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ ´ tavam o heroi do romance. (Cartas ˜ 43–42) ´ ` ´ Talvez o estudo da crıtica a antropofagia presente no romance de Mario ´ de Andrade deva partir dessa premissa: o personagem nao foi construıdo ˜ com cores ufanistas para ser um exemplo positivo de uma nacao em constru¸˜ ´ ´ ´ ´ cao. a ˜ narrativa fraturada). a culpa tem que ser minha. Porque nao me ˜ satisfaz botar a culpa nos brasileiros. Pelo contrario. o aspecto ‘‘gozado’’ prevaleceu. Podemos discordar ou ´ achar datados os argumentos de Mario de Andrade para embasar a derrota ´ de Macunaıma. Embora seja difıcil se afastar completamente das proprias ¸˜ ´ interpretacoes de Mario de Andrade. Em carta a Alvaro ´ Lins. E certo que fracassei. um nao ˜ ´ ´ conformismo revoltado sobre o que e. sua existencia sem finalidade. porque quem escreveu o livro fui eu. Vejo no livrinho a introducao com que me ¸˜ saudaram! Pra esses mocos. isto e. visto sempre de modo positivo. como pro¸˜ blema. a vida sem ´ ´ ˆ sentido do heroi. Mario de Andrade desabafa: ´ ´ ´ Mas a verdade e que eu fracassei.

em outro ´ ´ trecho. Daı podermos concluir que. Macunaıma ` ` recorre a linguagem bacharelesca para pedir dinheiro as icamiabas. ¸˜ . O que o romance. ¸˜ ¸˜ ´ ´ Creio que o exame da finalidade das acoes do heroi e o primeiro passo para ¸˜ ´ ` ¸˜ uma crıtica a nocao de antropofagia. Quando nos referimos ao conceito for´ ` ´ jado por Oswald de Andrade. mas nao beneficiava a formacao das civilizacoes nos tropicos. O usufruto da tecnologia citadina ¸˜ ´ ´ certamente beneficiou Macunaıma. a transculturacao operada por Macunaıma nao e bem suce˜ ´ ¸˜ dida.´ Melo : m ac un ai ma j 219 ´ ´ organiza a acao do heroi. desleal. outras temporalidades e outras relacoes ¸˜ com objetos. da periferia. poderia ajudar os ´ ´ indıviduos. ´ A despeito da habilidade de Macunaıma servir como ponte entre culturas. ¸˜ ´ ´ Que fins seriam esses? Que sujeito antropofagico e esse? ´ Macunaıma une sistemas culturais e reinventa culturas. ganancioso e disperso em sua vontade. isto e. Os fins da ´ acao de Macunaıma nao podem ser analisados sem se levar em conta tais ˜ ¸˜ ´ ´ atributos do heroi. se numa parte do romance. O ¸˜ ´ entrecho ambıguo do romance nos leva a pensar que todo o esforco trans¸ ´ma para apropriar culturas e resolver seus problemas culturativo de Macunaı ´ a partir de tais apropriacoes nao foi suficiente para redimir o heroi e lhe dar ˜ ¸˜ ´ ` um sentido a vida. so se esperava ¸˜ ´ a reproducao acrıtica e colonial dos ditames do centro. E muitas vezes esque¸˜ ´ cemos de examinar o que viria a ser a ‘‘realizacao dos seus proprios fins’’. o heroi faz uso da macumba (originario da tradicao afro-brasileira) ¸˜ para vingar-se do Gigante. ´ geralmente nos deixamos impressionar pela perfomance antropofagica e sua ´ ´ conotacao emancipatoria num contexto em que. ´ ´ Novamente e preciso abstrair esse nexo causal—esbocado pela propria na¸ ´ ´ rrativa—das elaboracoes ecologicas de Mario de Andrade. ´ entendido como uma metonımia do mundo moderno. mas maculou sua comuni´ dade (Mato Virgem). convida o leitor ao escrutınio dos fins dessas acoes. ˜ ´ ´ ´ Em passagem do prefacio de Na pancada do ganza—trecho que sera anali´ sado com mais vagar adiante—Mario de Andrade reclama que o telefone. o indıviduo. Por exemplo. ˜ ¸˜ ¸˜ pois estas teriam outras demandas. mentiroso compulsivo. bastante distintas das existentes na civilizacao europeia (tra¸˜ ´ balho nao publicado de Mario de Andrade). no universo ficcional criado ´ pelo romance. a capacidade de sujeitos perifericos se ´ apropriarem (ou devorarem) o alheio para realizarem os seus prorprios fins. O exemplo do telefone esclarece ˜ ´ a situacao de Macunaıma no romance. ˆ essas duas acoes tem objetivos mesquinhos e meramente individuais. causando-lhe desequilıbrio e levando-a ao ocaso. pois nao lhe salvou da inutilidade. mas com que ´ ´ finalidade ele faz isso? Deve-se lembrar que o heroi e individualista.

muitas vezes embaralhando os ´ dois (Schwarz 35–49). na decada de 1920. e Gilber´ to Freyre. Essa conjuncao inusitada. O hibridismo cultural e racial ´ passa a ser considerado como o grande sustentaculo civilizacional do Brasil. sem se referir a esse ponto de inflexao por eles ˜ provocado no pensamento social brasileiro. e o (in)sucesso de seu resultado. em decorrencia de seu ´ ceticismo. Nao se pode entender a contribuicao de intelectuais ˜ ¸˜ ´ ´ modernistas como Mario e Oswald de Andrade. a realidade hıbrida do Brasil. A meu ver. que antes era vista como aberracao diante da norma europeia.6 A volubilidade do narrador ´ machadiano e entendida por Schwarz como ‘‘reducao estrutural’’ das ambi¸˜ ˆ ´ valencias ideologicas da elite brasileira. e importante estudar outros casos de ˜ ` apropriacoes culturais e resultados duvidosos a luz da mesma reflexao. sugere uma possıvel genealogia do perso´ ˆ ´ nagem Macunaıma. que causava mal-estar na geracao anterior. do romance homonimo de Jose de Alencar e Leonardo ´ ´ ´ ˆ de Memorias de um sargento de milıcia. um dos antecedentes do heroi do Mato Virgem na literatura brasileira (43). Junto com Iracema. Jose Luiz Passos. oscilando entre a defesa do liberalismo e a justificativa do regime escravista. na decada de 1930. ¸˜ ˆ passa a ser considerada com sinal positivo (Literatura 110). o que faz Bras senao apropriar o moralismo frances. agora era inten¸˜ samente celebrada. ´ Em artigo sobre a literatura brasileira do seculo 20. ´ ´ ´ a caracterıstica mais marcante do personagem machadiano—compartilhada com Macunaıma—e ´ a sua extrema volubilidade ideologica. . as ˜ ´ ´ ´ 6. Se ˜ ¸˜ ´ ´ ´ pensarmos nas Memorias Postumas de Bras Cubas analisadas por Schwarz. era um antropofago avant la lettre. isto e. o narrador voluvel do romance ˜ ´ machadiano. Para mostrar ´ ´ como essa reflexao pode ser frutıfera. Candido afirma que o ´ ´ modernismo operou ‘‘um desrecalque localista’’. parece indicar e ¸˜ ´ que ha certas misturas culturais que nao levam em consideracao o bem da ˜ ¸˜ comunidade.220 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ ´ por meio das acoes individualistas e mesquinhas do heroi. ´ ` ´ A reflexao que a forma fraturada de Macunaıma traz a tona e sobre as ˜ finalidades da antropofagia. A coexistencia de temporalidades. pois ao ´ mesmo tempo que reproduz esse elogio ao hibridismo—e e recebido como ´ tal—coloca um grao de ceticismo em relacao ao tipo especıfico de hibridismo ˜ ˜ ¸ que a antropofagia ajuda a legitimar. e ´ ` ´ ´ facil chegar a conclusao que Bras Cubas. ´ Macunaıma desempenha um papel ambivalente nesse processo. desesta¸˜ ´ biliza a conotacao positiva dada ao hibridismo cultural pelo proprio ¸˜ modernismo. em seu livro Ruınas de linhas puras. Se a antropofagia e devoracao do alheio para realizar ¸˜ ´ ´ ˆ os seus proprios fins. levada a cabo pela narrativa. Passos considera Bras Cubas.

mas apenas macaquear. ¸ ´ alimentacao. mas nota que tais misturas culturais nao aproveitaram o potencial que dispunham. Na crıtica de Mario de Andrade ao hibridismo ´ brasileiro esta presente uma proposta de um hibridismo alternativo. em vez de se utilizar da Africa e da India que teve em si. juntando sistemas ˜ ´ ´ ´ culturais para o benefıcio proprio? O hibridismo do qual Bras se beneficia ´ ` ˆ nao seria ele tambem prejudicial a comunidade? A enfase posta pelo romance ˜ ´ de Mario de Andrade nas finalidades da transculturacao tem o potencial de ¸˜ ´ ponderar sobre outras dimensoes do hibridismo. ´ Isso nao quer dizer que Mario de Andrade se posicionasse contra hibridis˜ mos e defendesse uma identidade brasileira ‘‘purista’’. por dentro. que moldou de modo mais sig´ ´ ˆ nificativo a existencia e a cultura brasileira que ‘‘a Africa e India’’ que pulsa7 ´ ´ vam dentro do Brasil. tinham problemas e solucoes aos mesmos muito semelhan¸˜ ´ ´ 7. mostra como podem ˜ ´ haver certas configuracoes entre modernidade e arcaısmo que nem sempre ¸˜ ´ ` parecem ser positivas ou beneficas a comunidade como um todo. ¸˜ . que em decorrencia da ecologia similar. comenta: ´ ´ [O] Brasil. vocabularios.´ Melo : macunai ma j 221 ´ ´ Sagradas Escrituras. trajes. desperdic ou-as. mas entre ˜ ¸˜ ´ ´ ´ subalternos—ou para usar um vocabulario geografico. tudo. ˜ pois foram ofuscadas pelo legado europeu. isto e. O nacionalismo mariodeandradiano tinha muito de contribuicao europeia. a ˜ ¸˜ Europa. tal como Macunaıma. cores. justificando assim hibridis´ ´ ´ mos inglorios? Nao estaria Bras. que nao podera nunca ser. O que incomodava o ´ autor de Macunaıma era a hegemonia dos tracos europeus nessa mistura. enfeitando com elas apenas a sua fisionomia. quitutes . (61) ´ Mario de Andrade registra as trocas culturais ocorridas no Brasil. . sambas. onde as ´ trocas nao mais se dessem numa relacao assimetrica de poder. justamente naquilo que. vista como decadente—esta ancorada numa visao de mundo bastante mediada pela ˜ ´ ´ ´ propria cultura europeia e por diagnosticos de filosofos europeus como Oswald Spengler e Herman Keyserling. a retorica liberal e uma mirıade de outros discursos para ˆ ´ que os mesmos justifiquem suas conveniencias locais de proprietario? Nao ˜ ´ ´ estaria tambem Bras Cubas costurando mundos. E deixou-se ficar. ¸ Numa de suas entradas no Turista aprendiz. pelo clima. Kimberle Lopez (25–38) chama atencao para um dos paradoxos da obra de Mario de Andrade ¸˜ que deve ser sublinhado aqui: a mirada nativista do romancista—e de recusa da civilizacao ¸˜ ´ europeia. maracatus. . pela raca. suas ¸ ´ epidermes. mais proximo ao ´ ´ ´ ´ ˆ ideario de Mario—entre os paıses do hemisferio Sul.

e lusitano. uma sensualidade infecunda. Tudo isso sao sonhos. ˜ ¸˜ ˆ mar enormemente na eficiencia do ser. E continuarao sendo sonhos ate que se compreenda que o telefone ˜ ´ ´ ajuda o indivıduo. A. eu sei. Muito menos economista. que pela nossa geografia. como se ve. baseada ´ em espiritualismo exasperado. egıpcia. se orientaria pelas linhas matrizes destas civilizacoes antigas. sobretudo na tradicao arie¸˜ ´ lista do ensaısmo latino-americano. muito menos pratica. que nao se adaptara absolutamente ao nosso local. com Casa-grande & senzala. concepcao ˜ ¸˜ ´ despreziva da vida pratica. civilizacao ˜ ¸˜ ´ primordialmente anti-climatica. Jose Vasconcelos. Segundo essa tradicao. seja a Europa dos neocolonizadores (anglo-saxa ˜ ´ e francesa) ou dos antigos colonizadores (Europa iberica) e vislumbra um . . da proposta de Mario de Andrade. no segundo. Muito diferente. ˜ ´ ´ ´ mas nao possuıam o espırito contemplativo e estetico dos latinos. riquıssimo em manifestacoes ¸˜ ´ luxuriosas de arte e religiao. e criar uma civilizacao menos orientada pelo ¸˜ nosso homem. em decorrencia do ´ ´ legado latino (iberico). extasiante. que recusa a Europa como todo. ou ¸˜ ´ pseudo-antigas. Sao sonhos .222 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ tes. Essa proposta de Mario de Andrade foi formulada de maneira bastante ´ ´ clara no prefacio de Na pancada do ganza: Talvez o nosso maior erro seja a fatalidade de importar uma civilizacao ¸˜ ´ europeia. mesmo que aproveitemos da ´ ´ civilizacao europeia algumas das suas verdades praticas. ou ¸˜ incaica. . e Gilberto Freyre. chim (dar exemplo da civilizacao negra-africana). (citado em T. as culturas latino-americanas. por causa do ˜ ˜ ´ telefone. Lopez 116. dois ensaıstas. filosofia eminentemente mıstica. o que tınhamos e ¸˜ ´ talvez tenhamos que fazer. um rito. glorificando o aspecto hispano. fundada por Ariel ¸˜ ´ ´ ˆ de Jose Enrique Rodo. no primeiro caso. O hibridismo que tais ´ ˆ ´ ensaıstas elogiavam apresentava uma dinamica presidida pelos povos iberiˆ ´ cos. tinham uma vantagem simbolica em relacao aos ¸˜ ´ paıses anglo-saxoes: estes eram desenvolvidos material e tecnologicamente. escreveram ´ livros sobre o hibridismo cultural e racial de seus paıses. Civilizacao a que o telefone nao adiantaria nada. A van˜ tagem dos latino-americanos sobre os anglo-saxoes (leia-se: Estados Unidos ˜ ´ ´ da America) poderia ser compreendida como o triunfo do espırito sobre a ´ ´ ´ ´ materia. Nas decadas seguintes. mas pouco ou nada beneficiara a valorizacao do ser e ¸˜ ˆ especialmente da comunidade. Quando. enfase minha) ´ A crıtica ao progresso industrialista tornou-se um tropo do pensamento ´ ´ ´ social da America Latina no inıcio do seculo 20. Uma civilizacao que sem ser ¸˜ ´ indiana. com seu La ´ Raza Cosmica.

da maneira como ´ entre Ma ´ ´ ´ Mario concebeu o romance. ha em Macunaıma um ´ triunfo mimetico. Saudoso em relacao a cidade. Macunaıma retorna a sua casa conspurcado pelo contato com a civilizacao urbana-europeizada. no entrecho romanesco. reagindo contra o advento da industria no paıs. ainda que de ´ modo incipiente. Contrarios a industrializacao ‘‘o baronato ¸˜ ˆ cafeicultor opos-se em grande medida a este novo rumo da sociedade brasileira. Pai Nago e rendeiras nordestinas. um casal de galinhas Legorne e um ´ ´ ´ revolver Smith-Wesson. o hibridismo alternativo proposto por Mario de Andrade. Apesar da ligacao entre Mario de Andrade e Paulo Prado. O Mato Virgem funciona no romance como um palido esboco do ¸ que o Brasil poderia ser e encarna. afins em seus pro˜ ` ´ blemas e possıveis solucoes. o que seria uma outra forma de ¸˜ ´ ´ submissao a Europa. Ao final. O lugar e produto de uma trans´ culturacao imaginada por Mario de Andrade: onde ´ndios-tapanhumas conı ¸˜ ˆ vivem com mucambos. ´ A derrota do heroi implica o arruinamento do Mato Virgem. vinculando-o a oligarquia cafeeira. ˜ ¸˜ . Em outras ´ palavras. apesar das imensas semelhancas de projetos ideologicos ¸ ´ rio de Andrade e Gilberto Freyre. Macu´ 8. No inıcio do artigo. e uma crıtica ao tipo de hibridismo exaltado por Freyre. Carlos Eduardo Berriel. O lar do ´ ´ ´ ´ heroi e caracterizado pelas ‘‘Africas e Indias’’ que pulsam dentro do Brasil ´ ` tropical. O romance sugere um dialogo entre os paıses do Sul. Conclusao ˜ ´ ´ No inıcio de nossa analise afirmei que investir no dilema estabelecido pela ´ ˆ fratura narrativa de Macunaıma seria melhor que tentar resolve-lo. creio que o romance nao ˜ ¸˜ ´ ´ pode ser visto como uma defesa da ‘‘vocacao agrıcola’’ do paıs. pois o romance formaliza esteticamente a crise da oligarquia cafeeira de Sao ˜ ´ ´ ` ´ Paulo. local onde nasce e finda Macu˜ ´ naıma.8 Nao se pode entender o Mato Virgem. Apesar das inumeras alusoes a Amazonia. Macunaıma. malocas. fora do contexto da transculturacao subalterna proposta pelo autor ¸˜ ´ ˆ ´ ´ de Macunaıma. Macunaıma provoca um profundo desequilıbrio em ´ ´ ´ sua comunidade natal. Para Berriel. faz uma leitura ´ ` ´ ´ sociologica do romance. fazendo assim ` com que surgissem correntes ruralistas em oposicao a industrializacao e a urbanizacao deco¸˜ ` ¸˜ ¸˜ ´ rrente’’ (170). nao ha um ˜ ` ˜ ´ ´ referente empırico para o Mato Virgem. o que nao estava na agenda da oligarquia cafeeira. da Africa e da Asia. em seu estudo sobre Macunaıma (‘‘Uiara’’ 133–70).´ Melo : m ac un ai ma j 223 ´ ´ ´ ´ dialogo com outras culturas da America. Nao seria ˜ ´ exagero dizer que. tra¸˜ ¸˜ ` ´ zendo consigo um relogio Pathek. mencionei que Macunaıma e um romance sobre as origens do que poderia ser e o colapso do que nao conse˜ ´ guiu ser. a irrealizacao de Macunaıma representa a dissipacao daquele hibri¸˜ ¸˜ dismo subalterno e o triunfo da mistura de hegemonia europeia.

pois ela parece traduzir com perfeicao aquilo que a cultura brasileira representa. que e a da propria transculturacao. A ´ ´ ´ trajetoria do termo ‘‘antropofagia’’ na esfera publica brasileira e um sinal ´ claro de como a metafora foi bem sucedida. ainda que timidamente. entre varias outras possıveis para a cultura brasileira. mais evidente esta parece ser. ¸˜ Segundo George Lakoff e Mark Johnson em Metaphors We Live By. A metaphor may thus be a guide for future action. por sua vez. Elogia e critica a antropofagia. o romance desnuda o artı ´ Oswald de Andrade e sugere que a antropofagia e um tipo de configuracao ¸˜ ´ ´ ´ hıbrida. outras formas de ¸˜ ´ hibridismo. This will. of course. ˜ ´ ao mesmo tempo que esboca um hibridismo alternativo. Elogiar a cultura hıbrida do ´ Brasil implica. in turn. muitas vezes. Such actions will. especially social realities. um apreco as potencialidades crıticas do con¸ ` ´ ´ ceito. A antropofagia ¸˜ ´ e uma transculturacao orientada para um fim. ´ ´ elas tambem camuflam seu artifıcio.224 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ ´ ´ naıma e e nao e um romance antropofagico. a metafora da antropofagia ¸˜ pareceu uma descricao transparente e evidente do modo de ser brasileiro. fit the metaphor. ´ Com a institucionalizacao do modernismo. o romance de certo modo mapeia a plasticidade desse conceito. e vislumbrar. (156) ´ Quanto mais persuasiva uma metafora. naturalizando-se: Metaphors may create realities for us. metaphors can be self-fulfilling prophecies. Denunciar o hibridismo como uma mascara ideologica que oculta a ´ reproducao de logicas neocoloniais leva. Ao questionar os fins dessa ¸˜ transculturacao e propor uma outra teleologia para as misturas da cultura ¸˜ brasileira. ¸˜ ´ ´ Mais ainda: ao acentuar o carater teleologico da transculturacao proposta pela ¸˜ ´ficio da metafora proposta por ´ antropofagia. In this sense. Ao criticar a transcultu¸˜ ´ racao antropofagica. ao ´ mesmo tempo em que metaforas criam categorias para apreender a realidade. reinforce the power of the metaphor to make experience coherent. ¸ Se formos um pouco mais a fundo em nossa investigacao sobre a indeter¸˜ ´ ˆ ´ minacao central de Macunaıma. A meu ver. e ´ desconstroi qualquer conotacao positiva a priori que o conceito venha a dispor. a uma relacao cetica ¸˜ ¸˜ ´ diante dos discursos acerca do hibridismo. constataremos que tal ambivalencia esta cal¸˜ ´ ´ cada em outra ainda maior. o romance desestabiliza o ajuste entre a metafora e a realidade que pretende explicar. Quase sempre o conceito de hibridismo parece ser ´ ´ indissociavel do contexto que almeja iluminar. uma das maiores ´ ´ contribuicoes de Macunaıma e suas ambiguidades e exatamente desassociar ¸˜ .

pensando e planejando ˜ de cima para baixo o que deveria ser a cultura brasileira. ´ ´ O potencial crıtico de Macunaıma permite que se possa pensar a cultura ´ ˆ brasileira alem dos parametros de ‘‘grandes mestres da cultura’’ e seus mode´ los concebidos sobre qual o melhor arranjo hıbrido para a cultura brasileira. then the activity of rethinking hybridity by looking its history is part of the process of questioning. enfatizando a faceta construtivista e ˆ ´ polissemica do hibridismo. Mesmo sua con´ cepcao de um dialogo com as outras civilizacoes tropicais tem um forte ¸˜ ¸˜ aspecto de antropologia de gabinete. chama ´ atencao para o exame dos fundamentos ideologicos do discurso relativo ao hibridismo. que em seu livro The Impure Imagination. ´ ´ Essa intuicao nos leva a refletir sobre a propria posicao demiurgica do ¸˜ ¸˜ ´ modernismo em relacao a concepcao da cultura brasileira. social and political force’’ (xxi). Afinal. concordo com Joshua Lund. Lund ¸˜ argumenta: ‘‘If hybridity has returned today as watch-word of our times. Mario ¸˜ ` ¸˜ ´ ´ de Andrade e considerado um dos grandes ideologos da cultura brasileira. como tambem ajudam a estabelecer dialogos fecundos e emancipato´ rios. ˜ ´ ´ outros abertos a dialogos subalternos. ˆ O sentido de missa o que pautou sua milita ncia intelectual certamente ˜ transmitiu a impressao de um demiurgo da cultura. O romance de Mario de Andrade sugere que se pode criticar certas configuracoes de hibridismo a partir da imaginacao de ¸˜ ¸˜ ´ outras. Nesse aspecto. . por exemplo). fragmenting and perhaps redirecting the teleology of its cultural. reproduzir iniqui´ ´ ´ dades. ´ ´ ` O que torna Macunaıma atual nao e certamente a crıtica a mistura da cultura ˜ ´ ´ nacional com a civilizacao europeia industrial e o convite para o dialogo ¸˜ ´ com civilizacoes de ecologia tropical. A atualidade do romance de Mario de ¸˜ ´ Andrade talvez esteja em mostrar a propria plasticidade do hibridismo: as misturas culturais tanto podem ocultar interesses escusos. again pronouncing itself as the pure transcendence of old purisms. para saber a quem e como servem tais arranjos.´ Melo : m ac un ai ma j 225 a nocao de hibridismo de uma configuracao social concreta (a realidade bra¸˜ ¸˜ ´ sileira do seculo 20. Comentando sobre a posic a o de ¸˜ ´ Mario e Oswald de Andrade na cultura braisleira. Esse e o 9. Fernando Rosenberg os avalia como ‘‘the Latin American lettered [men] as the privileged agent of an ironic transculturation: translator[s] and administrator[s] of cultural differences for the construction of the national whole—the master cook[s] of the culturalist diet’’ (28). Uns sob hegemonia neocolonial. Nao ha um hibridismo. mas varios. e necessario examinar suas manifestacoes e configuracoes ¸˜ ¸˜ 9 ´ constantemente. Se o hibridismo figura como o horizonte inescapavel do mundo ˆ ´ ´ contemporaneo.

’’ Journal of Latin American Studies 25 (1993): 235–56. Ed. Oswald de.226 i h is pa ni c r ev ie w : spring 2010 ´ gesto do romance de Mario de Andrade que talvez mais se comunique ao ˆ leitor contemporaneo. 1989.’’ Macunaıma: a margem e o texto. ´ ´ ´ ———. des Caribes et afri´ ´ caines du XX e Siecle. ´ ´ ˆ ———. Por O. Raızes do Brasil. Morfologia do Macunaıma. ‘‘A Uiara enganosa. DF: CNPq. em seu Tranculturacion narrativa. ´ Campos. Trabalhos citados ´ Andrade. ———. Paris: Sans Pareil. Trad. Ed. 47–52. ‘‘Manifesto antropofagico. ´ Berriel. de Andrade. ˜ ´ Arguedas. Mario de Andrade seria um narrador transcultural pois conseguiria tecer esses dois sistemas culturais (vanguarda e pesquisa de temas populares). Rio de Janeiro: Livraria Jose Olympio. O conceito ajuda a compreender a composicao de obras como Macu¸˜ ´ naıma. O turista aprendiz. 1973. Sao Paulo: Editora Ensaios. The Theory of the Avant-Garde. Ed. que incorporava varios elementos da cultura popular e fundia-os a ´ prosa experimental de vanguarda (Rama 29). Rio de Janeiro: Jose Olympio. 1983. 1936. Sao Paulo: Editora Globo. ‘‘ ‘Puffy. 1978. ‘‘Notas Diarias. 1963. Dain. Joaquim Pedro de. Haroldo de. 1974. Ed. 1995. Sergio. Minneapolis: ¨ U of Minnesota P. 1973. O que propus nesse artigo foi a inversao dessa relacao. Burger. Tele Acona Lopez. Buenos Aires: Editorial Losada. Slothful and Inert’: Degeneration in Brazilian Social Thought. Carlos Eduardo. Jose Maria. Ugly. 133–70. Brasılia. Sao ˜ Paulo: Hucitec. Michael Michael Shaw. Sao Paulo: Perspectiva. ´ ´ Buarqe Holanda. ´ ´ ———. 112–26. Rio de Janeiro: Livraria Jose Olympio. 1925. Espero ter ˜ ¸˜ ´ma ajuda a repensar o conceito transculturacao. 2 ed. Sao Paulo: Livraria Duas Cidades. En Macunaıma: da literatura ao cinema.’’ Em A utopia antropofagica. 1984. Mario de. criando assim uma narrativa nova. Andrade. ‘‘Depoimento’’. demonstrado como Macunaı ¸˜ suas possibilidades e pressupostos muitas vezes ocultos. ´ Angel Rama. Pau Brasil. ˜ . 71 Cartas de Mario de Andrade. ´ ´ Paris: Association Archives de la Litterature latino-americaine. 1880–1940. El zorro de arriba y el zorro de abajo. Cartas de Mario de Andrade a Alvaro Lins.’’ Em Ensaios: Mario de Andrade. utiliza-se do conceito for´ jado por Fernando Ortiz para explicar as narrativas como as de Mario de ´ ` Andrade. Carlos Eduardo Berriel. Tele Ancona Lopez. ˜ Borges. Lygia Fernandes. 1988. ´ ´ ´ ´ Andrade. Macunaıma: o heroi sem nenhum carater. ˜ ´ ———. Peter. 1976. De ´ ´ Heloısa Buarque de Hollanda. Sao Paulo: Livraria Sao ˜ ˜ ´ Jose.

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