O iluminado Caco de Paula Meio milênio antes de Cristo, o príncipe hindu Sidarta Gautama deixou seu luxuoso palácio

e sua família para seguir os passos da mendicância, do jejum, da meditação. E acabou criando uma religião que crê no homem e que, hoje, influencia cada vez mais pessoas no Ocidente. Com você, a fascinante história de Buda e de sua doutrina Há 3 000 anos começaram a se formar as principais filosofias e religiões que organizaram as visões de mundo do homem contemporâneo. Alguns filósofos, como o alemão Karl Jaspers, dão a essa época o nome de Era Axial. Axial diz respeito a eixo. Foi, portanto, quando o homem começou a buscar o seu eixo. Ou, segundo Jaspers, quando passamos a prestar atenção em nós mesmos. A Era Axial estende-se entre os séculos VIII e II a.C. "Nessa época, as pessoas discutiam sobre espiritualidade com o mesmo entusiasmo com que hoje se discute futebol", diz a escritora inglesa Karen Armstrong, uma das mais respeitadas estudiosas de religião, autora de best-sellers como Maomé e Buda. Os historiadores ainda não sabem o que causou esse despertar para a religião e para a filosofia, nem por que ele se concentrou na China, no Mediterrâneo Oriental, na Índia e no Irã. Acredita-se que com as sociedades agrícolas, mais estáveis, o homem ganhou tempo extra para dedicar-se à contemplação. O certo é que todos os sábios desse período parecem seguir um caminho comum quando conclamam seus contemporâneos a radicais mudanças em suas vidas. Do século VIII ao VI a.C. os profetas de Israel reformaram o antigo paganismo hebreu. Na China dos séculos VI e V a.C., Confúcio e LaoTsé chacoalhavam as velhas tradições religiosas. Na Pérsia, o monoteísmo desenvolvido por Zoroastro expandiu-se e influenciou outras religiões. No século V a.C., Sócrates e Platão encorajavam os gregos a questionar até mesmo as verdades que pareciam mais evidentes. Tudo acontecendo mais ou menos junto. E é bem no meio dessa era, no século VI a.C., que surge o criador do Budismo, uma das mais influentes religiões do mundo, hoje com quase 400 milhões de adeptos. No caldo da primeva Era Axial, a Índia também passou por grandes transformações. Sua cultura foi dominada pelos arianos, antigos povos nômades que teriam migrado da Ásia Central 4 000 anos antes. A sociedade ariana dividia-se em castas: brahmins, os sacerdotes; ksatriyas, os guerreiros e governantes; vaisyas, os camponeses e criadores de gado; e sudras, os escravos ou marginais. O que determina a inclusão em uma dessas classes é a hereditariedade – ou seja, somente aquele que nasceu de mãe da casta bramânica podia realizar rituais e curas. Para os brâmanes, a essência do universo está em Brahman, deus primordial que se expressa em uma infinidade de outras deidades. Sua rígida espiritualidade é expressa nas escrituras sagradas conhecidas como Vedas. Na Índia dessa época, os sacerdotes tinham uma espécie de reserva de mercado. E, assim como acontecia em outras regiões, surgiu uma revolta contra esses sacerdotes e seus rituais – que incluíam sangrentos sacrifícios de animais. Mas novos movimentos reinterpretavam as antigas tradições, procurando afastar-se desses rituais e buscar outro tipo de sacrifício, mais interno, de

Acreditava-se que somente quando se abandona a vida doméstica e os laços afetivos para tornar-se um eremita ou andarilho é que se conseguem as respostas para a busca espiritual. Na adolescência. As práticas ascéticas são comuns às formas primitivas da maior parte das religiões. aos pés do Himalaia.C. tinha porte ereto. Certo dia. Sidarta determinou-se a também abraçar uma vida santa e a buscar uma resposta para o sofrimento que viu no mundo. Mas ainda não atingira a suprema realização que buscava. É nessa Índia em ebulição espiritual que surge Sidarta Gautama. Primeiro. a morte e recomeça em novo nascimento. Saiu de fininho. iria afastá-lo do caminho espiritual. esmolando por comida. Foi um choque e tanto para alguém que sempre vivera protegido. Essa busca tinha um objetivo específico. O pai de Sidarta. Uma decisão como essa não era tão incomum na Índia daquela época. Depois. Rahula. O príncipe logo aprendeu a dormir no chão e a esmolar por comida. em uma região que hoje pertence ao Nepal. Mais tarde. Shudodhana. cercou-o de luxos e prazeres. ocupadas em diverti-lo em seus aposentos decorados com sugestiva arte erótica. sem se dar conta de que tudo que nasce também se degenera. Um morto era carregado por amigos e parentes que choravam sua perda. Ele nasceu em 563 a. Além da mendicância. contra a vontade do pai. O ideal que todos desejavam era algo capaz de pôr fim a esse ciclo. outro para o verão e um terceiro para a época das chuvas. angustiado por questões ligadas ao mistério da vida". em um ciclo interminável que começa no nascimento. Era um aristocrata. ou "o sábio silencioso dos sakyas". sem ao menos se despedir da mulher e do seu pequeno filho. a vida de filósofo-andarilho (ou sramana) incluía práticas de meditação. a bela Yashodhara. com quem teria um filho. Aos 16 anos. avistou um doente que sofria dores terríveis. acreditando que se o mantivesse ignorante sobre o sofrimento do mundo. que pudesse libertar o espírito desse movimento circular. movendo-se com dificuldade. a dos guerreiros e governantes. que traduziu para o português o Dhammapada. "A imagem que temos de Sidarta Gautama pelas antigas escrituras é a de um jovem às voltas com problemas existenciais. A quarta visão do passeio de Sidarta foi um mendigo errante. Sidarta sentia-se infeliz. Cristianismo e Islamismo. uma das mais importantes escrituras budistas. de pele enrugada. em Lumbini. passa para a velhice. escolheu-se uma noiva para ele. feições radiantes e expressão de profunda serenidade. diz o monge brasileiro Nissin Cohen. da casta ksatrya. A maioria da população indiana acreditava em alguma forma de renascimento ou transmigração. Sidarta abandonou o palácio enquanto todos dormiam. envelhece e morre. inclusive no Judaísmo. o Buda. cruzou seu caminho um cortejo fúnebre. viu um velho arqueado. Sidarta tinha um palácio para o inverno. saiu para passear fora do palácio e se surpreendeu com quatro cenas que o tirariam para sempre daquela vida de prazeres. Dedicou-se então à automortificação. ele se aproximou de dois famosos mestres e rapidamente chegou aos últimos estágios de absorção contemplativa propostos por eles. temendo que se cumprisse uma profecia segundo a qual ele se tornaria um homem santo. Pouca coisa mudaria na sua vida até os 29 anos. era o rei do clã dos sakyas. O . vivia cercado por belas moças. Vem daí o outro nome pelo qual Sidarta se tornaria conhecido: Sakyamuni. Apesar da sua pobreza. Na sua busca. Seu pai.renúncia às coisas do mundo – aquela atenção a si mesmo descrita por Jaspers. Apesar de todo o luxo.

diminuiu a quantidade até chegar à ração diária de um único grão de arroz. serenamente. Sidarta voltou a comer. Mas há uma pista nas técnicas para lidar com esses conteúdos mentais. a observação concentra-se em um objeto específico (a respiração. só poderia eliminar completamente se as observasse em profundidade.que está por trás da autoflagelação é a idéia de que um rígido controle dos sentidos desenvolve a autodisciplina e transfere o máximo de energia corporal para a atividade mental. praticar o bem e purificar a mente. deus indiano da morte. Como fez isso? As escrituras dizem apenas que ele permaneceu imóvel diante das investidas de Mara. Depois. Sidarta transpôs esses obstáculos e. ampliando o período entre as refeições. Vem daí a expressão "caminho do meio". Nela. fantasias e outros conteúdos mentais tão persistentes e familiares a quem já tenha tentado alguma prática meditativa. O próprio Sidarta descreve os efeitos dos jejuns: "Quando eu pensava estar tocando a pele do meu abdomem. Mudou radicalmente a alimentação. até alimentar-se somente a cada 15 dias. não alcançara sua realização final. O detalhamento dessa experiência sob a figueira tornou-se o corpo dos seus ensinamentos. Esse título passou a definir a condição de Sidarta Gautama e ficou ligado ao seu nome. como Mara. Sua experiência provou que a autoflagelação embota a mente em vez de favorecêla. quando tinha 35 anos. quatro. Uma delas é a meditação de ponto único. no norte da Índia. Sidarta tornou-se um Buda numa noite de lua cheia no mês de maio. passou a uma a cada dois dias. Para analisar o medo e meditar sobre a impermanência. passava noites deitado entre cadáveres e esqueletos num cemitério. Buda ampliou o conhecimento sobre a mente humana e acreditava ter descoberto uma verdade profunda que lhe permitiu viver grande transformação interior e conquistar a imunidade ao sofrimento. Decidiu então que ou atingiria a iluminação ali ou morreria. recuperado. No início. da mesma maneira como o título de Cristo ("Salvador") associou-se ao nome de Jesus. fazia experiências psicológicas. nem nos da sensualidade. três. Sidarta experimentou privações e dores. Mesmo para um alto praticante como ele. por exemplo). De uma por dia. ou árvore da iluminação – na região de Bodhgaya. o próprio Buda não era favorável à admissão de mulheres em sua ordem. dominou todos os estágios de meditação. dúvidas. Ele intuiu. Simultaneamente. acreditava. Abandonou essas práticas quando já era quase só pele e ossos. passou 45 anos ensinando outras pessoas a fazer o mesmo e organizou comunidades de monges só homens. era a minha coluna que eu segurava". São imagens que simbolizam os obscuros medos reprimidos. mas em um ponto de equilíbrio entre eles. Depois da sua iluminação. Buda não é um nome próprio. mas uma palavra em sânscrito que significa "o Desperto" ou "o Iluminado". analisando em si mesmo certas emoções que. cuja essência é não fazer o mal. Parece que sua . Ainda assim. que o caminho para a libertação não estava nos excessos de ascetismo. Assim. uma porção de arroz e leite oferecida por uma jovem que o encontrou quase morto à beira de um rio. surgiram obstáculos. então. preparou um assento de capim sob uma figueira – que ficaria conhecida como a árvore bodhi. fragmentos de memória. controlando ou suspendendo temporariamente o fluxo dispersivo de pensamentos. Dias depois. um dos pilares do Budismo. Segundo conta-se. Durante seis anos. Alguns relatos os descrevem na forma de tentações e demônios.

C. que se fundam em tradições anteriores ao próprio Buda. como a chamada "atenção plena". mantidos por transmissão oral. Na meditação busca-se cessar a atividade mental ininterrupta. Na maior parte do tempo alimentamos pensamentos que podem nos deixar ansiosos. a rigor. Mas acabou mudando de idéia. raiva. essas práticas podem ser vistas como simples técnicas. muitas vezes. O Budismo primitivo. disse Buda em um discurso. ressentimento ou medo. Aí está o fim do sofrimento. nem era uma religião. Seus ensinamentos. Buda morreu por volta de 483 a. Isso acontece nos momentos em que aquele insistente e auto-referente "eu" não interfere. Por quase meio século. não tem nada a ver com as restrições de casta impostas pelos brâmanes. tampouco porque está nas escrituras". Buda diz que todos os seres humanos têm vislumbres de iluminação. Há algo menos divino – ou tão demasiadamente humano – do que morrer de dor de barriga? Sua doutrina foi transmitida através de numerosas linhagens de mestres que se espalharam por vários países.. Eles surgem como relances fugidios. mas um conjunto de práticas morais e mentais. Havia muitos seguidores leigos. o Budismo já se dividia em 18 escolas. Essa característica flexível do Budismo seria determinante para sua difusão. No que diz respeito à meditação. na qual pensamentos e fantasias bloqueiam a experiência direta e intuitiva. Como resultado da sua expansão. comemos sem sentir o sabor do alimento. depois de um acesso de disenteria que teria sido causado pela ingestão de carne de porco. cerca de 300 anos depois da morte de Buda. "Não deveis aceitar nada por ouvir falar. os bhiksus. seus ensinamentos estavam bem estabelecidos na região central da Índia. que aceitou prontamente essa religião tolerante. nossa atenção perde o foco. Sua doutrina se espalhou por uma poderosa rede de mosteiros e tomou diversas formas. adaptando-se a diferentes situações históricas e culturais. frustrados. com mágoa.preocupação era com a dispersão que a presença delas pudesse representar em uma comunidade que tinha como um de seus pilares o total controle dos desejos. cuja história está manchada de sangue. mas o coração da comunidade eram os monges mendicantes. o Budismo não define a si mesmo como solução melhor que qualquer outra. É por isso que. a iluminação. A grande novidade trazida por Buda em sua época foi a idéia de que a vida espiritual. Esses vívidos momentos de ligação com o aqui-e-agora contrastam com a mente habitual. agora estavam escritos. Quando morreu. mas podem também ser voluntariamente induzidos pelo processo meditativo. Vários concílios foram organizados . olhamos uma pessoa sem vê-la de fato. o nirvana. quando a mente não se prende ao passado. não sonha com o futuro e se envolve apenas com o momento presente. prática que consiste em dispensar o máximo de atenção a tudo o que se faz – e que está na base de várias técnicas meditativas. que não implicam em compromisso com nenhum tipo de religiosidade. Por ser ele mesmo mutável e impermanente. A essência dos ensinamentos budistas está nas práticas meditativas. Foi um salto e tanto para a estrutura social da Índia. como capacidade de conhecer a si mesmo. o Budismo tem um mecanismo interno que barra o fundamentalismo – risco presente em outras religiões. Tragada por esse vórtice de sensações. Buda viveu cercado de multidões às quais receitava antídotos para essa dispersão. Como sua ênfase é a compaixão.

Coréia e Japão. o Budismo foi varrido da Índia em decorrência das invasões dos hunos no século V d. e dos islâmicos nos séculos XII e XIII. geralmente símbolo de prosperidade. 55. porém. um símbolo da unidade entre iluminação e sabedoria. Leia mais sobre isso na pág. Se a figura for a de um sujeito gorducho e sorridente. o Budismo dividiu-se em duas tradições. incorporando uma infinidade de arquétipos ou divindades locais. mais tarde. O maior desenvolvimento do Budismo aconteceu na China. O conceito de buda já não se restringia a Sidarta. mas sim um grande sábio. conduz a um elevado estado de consciência em que o homem une-se com o universo.C. espalhou-se pelo sudeste da Ásia. e. A corrente que mais se expandiu foi a Mahayana.C. onde chegou no século I d. A base de seus ensinamentos também está na prática da meditação. na China e no Japão. Pouco depois. cultuada na tradição tibetana. depois. Assim como os chamados bodhisatvas. resultou no chamado Cânone Páli. cada uma delas afirmando-se como possuidora do verdadeiro sentido da palavra de Buda. por ser menos ortodoxa que a Theravada. é o Buda Sakyamuni. Ou com as 21 belas figuras da jovem Tara – representação do aspecto feminino e compassivo de Buda. ao Zen Budismo. segundo a psicologia do yoga. A outra tradição é a Mahayana (literalmente "Grande Veículo").para dar homogeneidade às escrituras das diversas escolas. As tradições orientais sustentam que houve muitos budas no passado e que ainda haverá muitos outros no futuro. esse Budismo pop expandiu-se amigavelmente pelo Oriente. Passou a definir um princípio fundamental de iluminação espiritual. o Buda Sakyamuni. no Japão. que se baseava exclusivamente nos textos escritos na língua páli. ou "à maneira dos antigos". mas sim "um" buda. que vem do sânscrito dhyana – técnica que.. Foi no âmbito das escolas Mahayana que mais se desenvolveram os aspectos sobrenaturais e imaginários do Budismo. Quando mostrado como um meditador sereno. ou Buda Sakiyamuni. mas uma divindade reverenciada. A tradição Theravada.C. salvador ou reencarnação de quem quer que fosse. Os . que se instalou sobretudo na China. No Budismo Mahayana. realizado no século III a. Ampliando o conceito de que há tantos budas quanto grãos de areia. (Ao contrário das religiões abraâmicas. refere-se ao Sidarta da fase pré-Buda. "Zen" é uma palavra japonesa derivada do chinês ch’an. Apesar do grande florescimento que teve em sua terra natal. O mesmo ocorre com os dhianybudas. Sakyamuni já não era mais "o" buda. o registro mais antigo dos ensinamentos budistas. Nos seus discursos não há referência sequer ao fato de que existe reencarnação. Buda já não é apenas um sábio. ou budas da meditação. quase sempre trata-se de uma divindade local. jamais se apresentou como um enviado. aos quais se atribuem significados ocultos. que adiam sua entrada no nirvana para poder ajudar na iluminação de outros. que demonizaram os deuses das culturas dominadas.) Isso explica por que existem tantas imagens diferentes do Iluminado. na Coréia e no Japão. Sidarta. Para o praticante Theravada. Buda não era um deus. Um deles. Ele não disse palavra a favor ou contra a idéia de Deus. seres considerados iluminados.. Quando ele é representado como um asceta esquelético. Seu encontro com as tradições chinesas deu origem à escola de meditação Ch’an e. O objetivo do caminho Theravada é iluminação individual. Também vêm do Tibete as famosas imagens de budas em abraços sexuais com suas consortes.

Com a invasão do Tibete pela China. que tem sua solução religiosa na pessoa externa de um pai divino. que se desenvolveu no Tibete. Diferentemente do que aconteceu na primeira metade do século XX. o alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Chamado de "Caminho do Diamante". como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Essa é a vida a que todos estão submetidos. japoneses. os livros sobre Zen escritos pelo inglês Alan W. O Zen é um dos mais importantes herdeiros da vertente Mahayana -– só equiparado pela corrente Vajrayana. O Budismo também chegou à Europa e à América junto com os imigrantes chineses e. O Budismo sustenta que o mundo é uma projeção da mente e que. que algumas das principais idéias budistas começariam a ter maior difusão ocidental. Inclusive no Brasil. nos anos 60. escrituras esotéricas sobre a transformação da mente através de meditações. portanto. nas suas aptidões. como Friedrich Nietzsche. na sua aparência. em 1959. Estava traçado o caminho que levaria o Budismo para a Califórnia e os estúdios de Hollywood. um grande motivo de estranhamento – e de fascínio – causado pelo Budismo talvez seja a idéia de um caminho espiritual que depende. . mas nosso objetivo é libertarmo-nos dos processos sutis que a criam para ajudar os outros seres a fazer o mesmo e superar as frustrações inevitáveis do processo". Para a mentalidade judaico-cristã. o Vajrayana tem suas origens encravadas em textos budistas do século II. nos anos 30 do século XX. no seu endereço. com o estudo das culturas da Índia e a publicação de O Mundo como Vontade e Idéia.chineses preferiram encontrar essa união no trabalho cotidiano. em última instância. como a contracultura e os hippies. atraindo adeptos de classe média alta. mergulha nos ensinamentos budistas. Não estamos dizendo que buscamos distância dessa experiência limitada. nas últimas décadas o ramo que mais se difundiu foi o Budismo tântrico do Tibete. mestres budistas desses países migraram para o Ocidente. apenas do esforço de cada pessoa. que influenciaria muitos outros filósofos. o homem não poderá encontrar no exterior aquilo que não possua dentro de si mesmo. Nesse livro. no seu celular. o objetivo é ultrapassar essas limitações. Watts (19151973) influenciaram os escritores da geração beat. onde um dos organizadores de suas visitas é o gaúcho Alfredo Aveline. onde abriram vários centros de meditação. em vez de na meditação solitária numa floresta. Nos anos 40 e 50. ou de percorrer o mundo falando de espiritualidade. O Budismo só penetraria no Ocidente a partir do século XIX. registrados nos chamados tantras. Mas foi somente com a chegada de mestres Zen. Aveline dá uma pista de como essa linha espiritual pode ajudar o homem do século XXI. de dançar no palco com a banda de punk-rap Beastie Boys em shows pela libertação do Tibete. na sua saúde. no emprego. líder do Tibete no exílio. ou lama Padma Santem (lama é a palavra em tibetano para "mestre espiritual"). ao falar da importância do desapego como uma forma de evitar o sofrimento: "A impermanência paira sobre sua cabeça nas relações. No Budismo. visualizações e ritos. depois. que já era famoso bem antes de ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 1989. além de muitos artistas e terapeutas. gurus dos movimentos que iriam chacoalhar os anos 60. Algo que ajudou muito nessa divulgação foi a figura sorridente do Dalai Lama. e a Guerra do Vietnã. no afeto. quando Zen era sinônimo de Budismo no Ocidente. como o próprio Sidarta. Essa linha surgiu no norte da Índia há cerca de 2 000 anos e hoje é seguida pela tradição tibetana.

nos desejos. a americana Lama Tsering. são as Seis Perfeições. Tudo isso prende as pessoas ao ciclo da existência (samsara). formada nas tradições japonesas do Soto Zen. "Houve uma geração que quebrou todos os seus valores e hoje mergulha na busca espiritual". Se realmente fez isso. encontrar algo não apreciado. conceito que. no apego e na sede de satisfação dos sentidos. Caminho que leva à cessação do sofrimento Para os budistas da linha Theravada. O NOBRE CAMINHO ÓCTUPLO 1. mas sim com a certeza de que todas as respostas para os problemas do homem estão dentro dele mesmo. o meio de pôr fim ao sofrimento é o Nobre Caminho Óctuplo. éticos e psicológicos do que religiosos. Tudo é sofrimento: nascimento. nesse caso. da escola tibetana Gelupa. tem despertado o interesse também de judeus. separar-se de algo desejado. numa mesma semana na capital paulista. "Como as técnicas funcionam independentemente da religião de quem as pratica. Cessação do sofrimento Pela eliminação dos desejos e do apego pode-se extinguir o sofrimento. Origem do sofrimento Sua causa está nos anseios. Para os budistas da linha Mahayana. 2.Dizem que Buda previu que sua ordem duraria muito menos se tivesse a participação de mulheres. da escola tibetana Ningma. em torno da idéia da compaixão. doença e morte. Às vezes. nada tem a ver com manuais de comportamento. . a monja chinesa Chueh Chen. quatro mulheres budistas de diferentes escolas e linhagens costumam atrair grande público para suas palestras: a inglesa Lama Caroline. Hoje o que se vê é uma presença cada vez maior de mulheres na pregação da sua doutrina. Compreensão correta. poder-se-ia dizer que é seu caráter de auto-ajuda. da escola Ch’an. não obter o que se deseja. o que fez o Budismo ser tão bem-aceito no Ocidente? Numa palavra. talvez esteja aí um raro equívoco cometido pelo Iluminado. favorável à renúncia e à boa vontade. Atitude correta. Aqui estão os principais deles: AS QUATRO NOBRES VERDADES Sofrimento É a característica básica da nossa existência." Mas. baseada no entendimento das Quatro Nobres Verdades e na consciência de que não existe um "eu" individual: tudo está interligado. cristãos e muçulmanos. buscando não prejudicar os seres sensíveis. que todos os dias orienta grupos de meditação em São Paulo. e a brasileira monja Coen. geralmente de jovens. afinal. diz a monja Cláudia Coen. Quem quiser entender por que o Budismo exerce tanta atração no Ocidente precisa ver como elas consquistam sua audiência. A essência da doutrina deixada por Sidarta Gautama baseia-se em uma série de conceitos mais filosóficos.

Não significa destino no sentido fatalista. O ideal do caminho Theravada. 6.3. Esforço correto: pensar antes de agir. Salvo exceções indicadas. roubar e praticar sexo ilícito (estupro e pedofilia. Paciência 3. Bodhisatva Ser que aspira à condição de Buda pela prática das seis perfeições e que se compromete a abrir mão do nirvana até que tenha levado todos os seres sensíveis à iluminação. 4. os termos a seguir estão na forma como foram transliterados do sânscrito ou na maneira como foram incorporados à língua portuguesa. Ahimsa "Não-violência". Generosidade 2. 7. Modo de vida correto: evitar profissões que causem sofrimento aos outros. dos sentimentos e dos objetos de pensamento. Bhiksu Monge mendicante que entrou para a vida errante. por exemplo). É a base ética do Budismo. matar. palavras e ações nobres. Fala correta: evitar mentir. Ação correta: evitar. sobretudo. Para o Budismo. Arhat "Santo". Concentração correta: o cultivo de uma mente tranqüila. Ignorar isso é a principal causa do sofrimento. Pessoa que atingiu a iluminação quase completa. Sabedoria OUTROS CONCEITOS-CHAVE Buda provavelmente falava num dialeto chamado maghadi e seus ensinamentos foram registrados na língua páli. cultivando pensamentos. Esforço entusiástico 5. não existe um "eu": cada um de nós é uma soma de várias experiências de vida. Ética 4. Concentração 6. mas sim o que recai sobre cada um como resultado do seu comportamento. 5. que encontra seu ponto mais elevado na absorção meditativa. É a lei de causa e efeito que rege o universo. em eterna mutação. Atenção correta: percepção contínua do corpo. Carma "Ação". . caluniar e bisbilhotar. Anatman "Não-eu". como caçador ou fabricante de armas. É o ideal do caminho Mahayana. AS SEIS PERFEIÇÕES 1. 8.

Darma "Doutrina". É a meta da prática espiritual. Psicologicamente. Mahayana "Grande veículo". lei cósmica. caminho para o nirvana. aberto a todas as experimentações. Impermanência Transitoriedade da matéria. Significa guru. é a mais tradicionalista. observação e objeto observado são partes de um só movimento. A frustração desse desejo de posse é a causa imediata do sofrimento. Tendrel (tibetano) "Interdependência". foi para o outro e se multiplicou em uma . O segundo – Mahayana. desejos. mestre espiritual. "Caminho Estreito" – para os puristas e ortodoxos. Inclui a maior parte das escolas existentes. foi para um lado. leitor – não contêm essência. Samsara "Roda do sofrimento". Ao longo dos últimos 2 500 anos. "O nirvana nos ensina que já somos aquilo que queremos nos tornar". Vajrayana "Veículo do diamante". apenas aparência. Theravada "À maneira dos anciãos". mas sim como entrada em outra forma de existência. "apagamento". nos escapam tão logo tentamos possuí-las. É um dos caminhos do Budismo. os ensinamentos de Buda floresceram em dois ramos principais. O primeiro – Theravada. "Grande Caminho" –. do pensamento. Tudo depende de outra coisa. ódio e ilusão. Conceito segundo o qual todas as coisas – incluindo você. Nirvana "Extinção". Caminho tântrico e ocultista do Budismo. Lama (tibetano) "Ninguém acima". Ciclo que rege a inquieta existência humana e se alimenta de apego. Como todas as coisas são impermanentes. Observador. Uma das principais escolas do Budismo. do corpo humano e da própria idéia de "eu". é um estado de grande liberdade e espontaneidade. Não deve ser entendida como aniquilação. É nele próprio que se deve procurar sua extinção – ou nirvana. diz o monge vietnamita Thich Nhat Hanh. ou Hinayana. "vácuo". O termo Budismo é uma invenção ocidental para o que os budistas chamam de Buda-darma: ensinamento de Buda. Sunyata "Vazio".

Tailândia e Camboja.) O Theravada tem hoje 125 milhões de adeptos (38% dos budistas) em Sri Lanka. Birmânia. Buda Em março de 2001. II a. O movimento segue as antigas escrituras na língua páli. como sexo e embriaguez levados às últimas conseqüências 1 . que vira capa da Super Nos anos 70 surgem vários mosteiros Theravada na Europa Louca sabedoria Para seus praticantes. no Tibete invadido pelo Exército chinês. Laos. Nietzsche e Freud Em 1959. principalmente para a Califórnia. dirigida por Scorsese – ambos na foto com Gere) Nos anos 90. toda a cultura pop presta tributo a Sidarta: dos Beatles ao Nirvana. os islâmicos fundamentalistas do Afeganistão dinamitam duas estátuas de Buda.Theravada (Séc.C. o Dalai Lama recebe o Nobel da Paz Refugiados tibetanos e vietnamitas abrem centros de meditação na Europa e nos Estados Unidos Arthur Schopenhauer (1788-1860) O filósofo alemão foi o introdutor do Budismo no Ocidente. na qual foram registrados os primeiros documentos .espantosa variedade de movimentos e escolas espiritualistas. espiritualidade e prazer não são coisas separadas. de 40 e 50 metros de altura. erguidas entre os séculos III e V Budismo pop Após o movimento beat e a imigração de mestres orientais para os Estados Unidos. de Bowie aos Beastie Boys Beat Generation As filosofias orientais – principalmente o Zen Budismo – foram uma das principais influências dos escritores da geração beat. inclusive no Ocidente Talibã VS. os livros do Dalai Lama tornam-se best-sellers no Ocidente Em 1989. influenciando. mais de 87 000 pessoas são mortas. Não tarda para Hollywood lançar superproduções budistas: O Pequeno Buda (com Keanu Reeves pintado de moreno jambo na pele de Sidarta ). Sete Anos no Tibete (Brad Pitt de nazista convertido ao Vajrayana) e Kundun (biografia do Dalai. como Jack Kerouac. entre outros. O Dalai Lama transfere-se para a Índia. onde forma uma comunidade tibetana no exílio Brasil Cresce no Brasil o interesse pelo Budismo. o galã de Gigolô Americano e Uma Linda Mulher vira amigão do Dalai Lama – e um dos mais influentes garotos-propaganda de Buda no Oeste. Sua conduta não exclui nada que possa parecer irreligioso. que nos anos 50 adubaram as raízes da contracultura e do movimento hippie Hollywood Richard Gere.

II) Essa linha tem hoje 20 milhões de adeptos (6% dos budistas).) A corrente principal do Budismo tem hoje 185 milhões de adeptos (56% do total). buscando o máximo de expressividade com o mínimo de pinceladas Poesia Sua forma tradicional está nos haikai. principalmente nos países do Himalaia: Tibete. comumente atribuído a eles. Cada ato do cotidiano deve ser uma meditação. usadas para treinar a mente: "Que som é produzido quando se bate palmas com uma mão só?" Cerimônia do chá Preparar essa bebida tão simples torna-se um ritual de atenção plena e absorção em quietude espiritual Japão Presente no país desde 621. poemas curtíssimos como este clássico de Mitsuo Bashô: Koans São uma espécie de pegadinhas. Sua prática enfatiza a busca da iluminação individual. chegou à China.budistas. sem respostas lógicas.C. A escola que mais se expandiria no Ocidente é a Zen China . foi criado pela corrente Mahayana e não é aceito pelos Theravada 2 . tem suas origens nos tantras. como jardinagem. II a. o Budismo dá origem a várias escolas e seitas. Não professa o caminho individual mas "a iluminação em benefício de todos os seres". Prosseguimento dos métodos Theravada e Mahayana.Zen Desenvolve-se a partir do século XII no Japão. Essa mentalidade criou artes e disciplinas especiais para desenvolver a concentração.Mahayana (Séc. mais tarde. O Mahayana (Grande Veículo) abriga várias escolas e linhagens. escrituras esotéricas que ritualizam diversas práticas para a transformação da mente 4 .Vajrayana (Séc. O nome Hinayana (Pequeno Veículo). É aberto a diferentes crenças e ritos devocionais e enfatiza a prática da compaixão 3 . buscando o máximo de simplicidade e desprezando o intelectualismo e os aspectos sobrenaturais e ritualísticos das religiões. Butão. Nepal e Mongólia O Vajrayana (Veículo do Diamante) surgiu no norte da Índia e. ao Japão e ao Tibete. arranjos florais e outras modalidades. Veja ao lado Pintura O que mais importa é o espaço vazio. nas quais se mistura ao Xintoísmo – grupo de antigas religiões locais.

Uruvela e Bodhgaya Depois de seis anos jejuando e meditando em Uruvela. Esse local tornou-se o maior centro de peregrinação budista.) Duzentos anos depois da morte de Buda. Rajgir Aqui Buda recebeu apoio de comerciantes e da realeza. Kushinagar .O Budismo chega ao país no século I e funde-se à religiosidade local. Kagyiu e Sakya) Sidarta Gautama. – 483 a. no antigo reino dos sakyas — região que hoje pertence ao Nepal 2. No seu apogeu. Kapilavastu Aqui ficava o palácio onde. Nalanda foi uma das primeiras universidades do mundo. é a essência do universo. O Budismo tibetano organiza-se em quatro escolas principais. uma região próxima. para quem o Tao. durante 29 anos. Nalanda Construída no tempo de Buda e fortemente influenciada por sua doutrina. A escola Ch’an (Meditação) é uma espécie de avó do Zen Budismo Tibete No século VIII. ele deslocou-se para Bodhgaya. que Buda fez seu primeiro discurso depois da iluminação e revelou as Quatro Nobres Verdades. ensinamentos secretos também atribuídos ao Buda 1. o príncipe Sidarta desfrutou de uma vida de luxo e prazeres – até abandoná-la para partir em sua busca espiritual 3. "fluxo natural". filosofia. Nas novas escolas que surgem. Foi destruída pelos muçulmanos no século XIII 7. Sarnath Foi em Sarnath (perto da atual Varanasi). Gelupa. astronomia e medicina. pois foi onde Sidarta atingiu a iluminação 4. ainda na Índia o Budismo se divide em dois movimentos: Mahayana e Theravada seguem os sutras. formadas por várias linhagens (Nyingma. Quatro séculos depois. teve 1 500 professores de disciplinas como gramática. discursos feitos por Sidarta.C. base da sua doutrina 5.C. o Budismo Vajrayana funde-se com as religiões xamânicas do Tibete.C. altamente ritualizadas. nem sempre se percebe onde acaba o Budismo e onde começa o Taoísmo – doutrina de Lao Tsé. surge um terceiro movimento (Vajrayana) com base nos tantras. Lumbini Sidarta Gautama nasceu na primavera de 563 a. O Buda (563 a. o que permitiu fundar mosteiros que se tornaram os principais centros de difusão de seus ensinamentos 6.

Icon Books. Não é o único.html . brasileiros de origem não-asiática. Jane Hope e Borin Van Loon.com. como apego ou orgulho. sobretudo intelectuais.dharmanet. que. e professor da PUC de São Paulo. como generosidade para anular a avareza ou paciência para enfrentar a raiva". Filho de um judeu e de uma presbiteriana (a própria Bel) que adotaram o Budismo. Objetiva. Alan W. que o Buda morreu. Watts. São Paulo. do Centro Je Tsongkhapa. ele teria atingido o que chamam de mahaparinirvana ("grande cessação da existência"). Samuel Bercholz e Sherab Chodzin Kohn. ou reencarnação de um mestre tibetano. Jorge Luiz Borges e Alicia Jurado. 1999 A Essência dos Ensinamentos de Buda. São Paulo. japoneses e coreanos já trouxeram a religião com eles. Rocco. Um dos responsáveis pelo centro é Lama Michel. ou Vajrayana. 1994 Introducing Buddha. Karen Armstrong. Rio de Janeiro. imigrantes chineses. Rio de Janeiro. diz a terapeuta Bel César. Difel. No livro O Budismo no Brasil. Lama Michel é um exemplo de como essa terceira onda deu um novo rumo a praticantes de tradições religiosas já arraigadas. aos 80 anos. reunidos em 160 diferentes grupos. a ser lançado neste semestre.htm http://www. "Para cada uma delas. Seus adeptos usam técnicas para combater o que chamam de "manchas mentais". hoje ocupada pelo Nepal. NA LIVRARIA Buda. A terceira onda.br/index. em 483 a. Sogyal Rinpoche.Foi nessa região. Donald S. 2000 NA INTERNET http://www. de São Paulo.C. Suas últimas palavras: "Tudo é impermanente" O Brasil tem algo entre 300 000 a 500 000 budistas. o alemão Frank Usarski. é a do Budismo tibetano. 1998 O Espírito do Zen. identifica três ondas de crescimento dessa linha espiritual no país. nos anos 60. Na primeira. Siciliano. Palas Athena. fundadora do Centro Shi De Choe Tsog. Harper San Francisco. a Senda da Virtude. Lopez Jr. doutor em Ciência da Religião pela Universidade de Hannover. 1995 O Livro Tibetano do Viver e do Morrer. que começou nos anos 70 e está quebrando na praia agora. desde a infância é considerado um tulku. 20 anos. Trich Nhat Hanh.net/budnetp. 2001 Dhammapada. Alemanha. São Paulo. Cultrix. 2001 Buda.buddhanet. 1977 O Pequeno Buda: Entrando na Correnteza. Cambridge. Segundo seus discípulos. Rio de Janeiro. Na segunda.. Talento-Palas Athena. a meditação sugere um antídoto. era médium de umbanda no Rio de Janeiro até ser oficialmente reconhecido como um tulku. se converteram ao zen-budismo. 1999 The Story of Buddhism: A Concise Guide to Its History and Teachings. de Porto Alegre. Segyu Rinpoche.

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