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CENTRO UNIVERSITÁRIO PLÍNIO LEITE MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE E DO AMBIENTE

FERNANDO LYRA REIS

TRANSTORNOS ALIMENTARES: a comunidade virtual como veículo para a divulgação científica

Niterói

2010

II

2

CENTRO UNIVERSITÁRIO PLÍNIO LEITE MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE E DO AMBIENTE

FERNANDO LYRA REIS

TRANSTORNOS ALIMENTARES: a comunidade virtual como veículo para a divulgação científica

ORIENTADORA: PROF.ª DRA. ROSE MARY LATINI

Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Ciências da Saúde e do Ambiente, da Coordenadoria de Pós-Graduação e Extensão do Centro Universitário Plínio Leite, como parte dos requisitos para obtenção do Título de Mestre em Ciências da Saúde e do Ambiente.

Niterói

2010

3

III

TRANSTORNOS ALIMENTARES: a comunidade virtual como veículo para a divulgação científica

FERNANDO LYRA REIS

Dissertação defendida e aprovada em , pela Banca Examinadora constituída dos professores:

Profa. Dra. Rose Mary Latini (orientadora)

UNIPLI

Prof. Dr.

Prof. Dr.

4

IV

Dedico este trabalho monográfico a minha esposa Berta pela paciência e estímulos que me impulsionaram a buscar vida nova a cada dia, e por ter aceito se privar de minha companhia pelos estudos, concedendo a mim a oportunidade de me realizar ainda mais e de lograr êxito nessa elaboração.

5

AGRADECIMENTOS

V

Em especial, à Profa. ANA BRANCO pela dedicação à verdade, e à pesquisa

Biochip (informação da vida), que foi fundamental para a transformação do meu olhar

sobre a história, sobre as pessoas e a vida.

A minha Orientadora Dra. Profa. ROSE MARY LATINI pela paciência e

dedicação com o processo árduo de criação de uma Dissertação de Mestrado, e pelos

estímulos para que o trabalho fosse sempre aprimorado, a orientação metodológica

incansável, e a imensa paciência.

E, também, aos Professores Doutores do CENTRO UNIVERSITÁRIO PLÍNIO

LEITE, pelos conhecimentos transmitidos no curso de Mestrado em Ensino de Ciências

da Saúde e Ambiente. Especialmente, à Profa. LUZA RODRIGUES DE OLIVEIRA,

pela dedicação à formação crítica de seus alunos, à Profa. MAYLTA BRANDÃO, pela

poesia no lidar com as questões sociais, à Profa. CARMEN SILVEIRA, pelos sempre

bem vindos conselhos, e ao Prof. ANTONIO CARLOS DE MIRANDA, pelos discursos

inovadores e sua paixão pelo lecionar.

Aos colegas de classe pela espontaneidade e paciência com meus questionamentos

radicais.

E, finalmente, a DEUS pelo sopro de vida que me move a buscar cada vez mais o

que faz sentido, a saúde e a fraternidade.

6

VI

“Os remédios não são mais do que venenos e todos os efeitos que deles resultam são aqueles do

O erro fatal de todas as escolas

médicas, químicas ou naturais, consiste em querer substituir o poder da autocura do organismo por seus métodos violentos. Curar é um processo biológico que não é conseguido com remédios, mas com processos de vida”.

envenenamento

Herbert Shelton (1895-1985)

“Vai aprender tuas lições na natureza”.

(César Lattes)

7

VII

RESUMO

Apesar do tema transtornos alimentares ser amplamente estudados nos últimos 30 anos, não se conseguiu avançar na percepção da etiologia, tendo como conseqüência tratamentos insatisfatórios. Os estudos foram ineficientes em impedir que a incidência dos transtornos alimentares dobrasse nas duas últimas décadas, e se tornasse a terceira doença crônica mais comum entre adolescentes nos Estados Unidos. A proposta de tratamento por equipe multiprofissional, não se traduz em melhores resultados, pois, interesses corporativos estão presentes na área da saúde, e a prática interdisciplinar ainda é muito incipiente. O prognóstico no tratamento da anorexia apresenta uma taxa baixa de recuperação, em torno de 36%, e uma previsão de período de 10 a 15 anos de tratamento.

A partir desses fatores, foi criada uma comunidade no Orkut, denominada “Anorexia e

Bulimia Nova Visão”, que possibilitou estabelecer contato direto com pessoas que sofrem de transtornos alimentares, através de um amplo debate crítico em tópicos criados

pelos usuários, sobre os caminhos atuais de tratamento dos transtornos alimentares. O objetivo

central da criação dessa comunidade foi de verificar a possibilidade de criação de um

espaço que possibilitasse uma concreta educação para a saúde. Por isso, essa dissertação

se preocupou em analisar a comunidade citada acima, e verificar se o conteúdo existente

estava adequado à proposta de educar para a saúde, utilizando o ambiente da internet como meio de divulgação científica. As informações geradas pela comunidade, desde sua fundação em 2006, contribuíram para a construção de um produto , um site com recursos educacionais, o <www.anorexiaebulimia.com>, com melhores perspectivas de divulgar criticamente idéias científicas, através de postagens de artigos, vídeos, espaços para postagens e discussão, assim como promover saúde integral, e contribuir para a

transformação da própria realidade, utilizando o ambiente da internet através de uma comunicação informal, propositalmente escolhida, já que pessoas que sofrem de transtornos alimentares, principalmente anoréxicas e bulímicas, gostam de manter sua privacidade. Esperamos que nosso processo de construção possa contribuir com novas possibilidades de percepção sobre os transtornos alimentares.

PALAVRAS-CHAVE: Transtornos Alimentares; Anorexia; Bulimia; Divulgação científica; Educação informal, Comunidades Virtuais

ABSTRACT

8

VIII

Although the topic eating disorders be widely studied in the past 30 years, has failed to advance the understanding of the etiology, and treatment as a result unsatisfactory. The studies were ineffective in preventing the incidence of eating disorders doubled in the last two decades and has become the third most common chronic disease among adolescents in the United States. The proposed treatment by the multidisciplinary team, does not translate into better results, because corporate interests are present in the area of health, and interdisciplinary practice is still very low. The prognosis in the treatment of anorexia has a low rate of recovery, around 36% and a forecast period of 10 to 15 years of treatment. From these factors created a community on Orkut called "Anorexia and Bulimia New Vision", in order to establish direct contact with people suffering from eating disorders through a wide-ranging debate on critical topics created by users on the current paths of treatment of eating disorders. The main purpose of creating this community is to study the possibility of creating a space that would enable a practical education to health. Therefore, this dissertation has bothered to examine the community mentioned above, and verify that the content was appropriate to the existing proposal for health education using the environment of the Internet as a means of scientific communication. The information generated by the community since its founding in 2006, contributed to the construction of a product, a website with educational resources, the <www.anorexiaebulimia.com>, with better prospects for disseminating critical scientific ideas, such as posting articles, videos, space for posts and discussion as well as promote overall health, and contribute to the transformation of reality itself, using the Internet environment through an informal communication, deliberately chosen, since people suffering from eating disorders, especially anorexia and bulimia, like maintain their privacy. We hope that our construction process can contribute to new possibilities of perception about eating disorders.

WORD KEYS: Eating Disorders, Anorexia, Bulimia, Scientific dissemination, Informal Education, virtual communities

9

SUMÁRIO

IX

INTRODUÇÃO

11

CAPÍTULO I - TRANSTORNOS ALIMENTARES

18

1.1 Justificativa

18

1.2 Conceitos

19

1.3 Anorexia sagrada

22

1.4 Etiologia

24

1.5 Tratamento

25

CAPÍTULO II - DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA: entre a informação e a reflexão

33

CAPÍTULO III A COMUNIDADE DO ORKUT

47

3.1 A comunidade “Anorexia e Bulimia Nova Visão”

51

CAPÍTULO IV RESULTADOS E DISCUSSÃO

61

CAPÍTULO V O PRODUTO

88

CONSIDERAÇÕES FINAIS

110

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

111

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

120

ANEXO

122

ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1. Levantamento sobre países usuários do Orkut (em <http://www.orkut.com.br/Main#MembersAll>)

Figura 2. Página inicial da comunidade (em

<http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=11721833>)

Figura 3. Tópico “indique coisas fáceis de vomitar”

Figura 4. Página Fórum, onde são criados os tópicos

Figura 5. Idade dos freqüentadores do Orkut

Figura 6.Interesse dos freqüentadores do Orkut

Figura 7.Link “como posso ajudar?”

Figura 8.Link “saiba mais” dentro de “Alimentação”

Figura 9. Página inicial do site

Figura 10. Link “Partilha”, contendo também um “saiba mais”

Figura 11. Link “Alimentação viva”

Figura 12. Exemplo de texto justificado (página inicial)

Figura 13. Exemplo de texto centralizado

10

48

52

52

54

59

59

69

86

89

104

105

107

108

X

11

INTRODUÇÃO

A incidência dos transtornos alimentares praticamente dobrou nas duas últimas

décadas, especialmente entre as mulheres jovens dos países ocidentais.

A anorexia nervosa é a terceira doença crônica mais comum entre adolescentes

nos Estados Unidos, perdendo apenas para a obesidade e a asma. Um estudo, realizado

com mulheres estudantes de nutrição, no Rio de Janeiro, revelou que 14% das alunas

apresentaram sintomas de anorexia nervosa. (BOSI et al.,2006). Um outro estudo,

realizado por Vilela et al (2004), com 1.807 estudantes de escolas públicas do Ensino

Fundamental e Médio, com idade entre 7 e 19 anos, em Minas Gerais, encontrou dados

significativos. 13,3% de alunos, com predominância significativa do sexo feminino,

apresentaram

possíveis

transtornos

de

alimentação.

Em

12%,

foram

encontrados

episódicos bulímicos. Os métodos purgativos para perder peso foram utilizados por 10%,

59% encontravam-se insatisfeitos com sua imagem corporal, e 40% faziam uso de dieta

para emagrecer.

É fato que os transtornos alimentares, principalmente a anorexia nervosa e a

bulimia nervosa têm sido amplamente estudados nos últimos 30 anos. No entanto, apesar

das muitas publicações, pouco se sabe sobre a etiologia dessas síndromes, o que

compromete seriamente a eficiência dos tratamentos.

A maior parte das pessoas que sofrem de transtornos alimentares são do sexo

feminino, e têm acesso a informações sobre alimentos, regimes, consequências dos

transtornos, tipos de laxantes ou moderadores de apetite. No entanto, as informações são

seletivas, ou seja, não há fixação sobre os malefícios dos comportamentos anoréticos ou

bulímicos, o que não surpreende, pois em uma comparação com fumantes, vemos que

grande parte continua com seu vício, apesar das informações visuais significativas que

estão impressas nos maços de cigarros. Além disso, dados sobre saúde e alimentos são,

12

muita vezes, contraditórios e superficiais, principalmente quando divulgados em revistas

não especializadas, ou na maioria de sites e blogs. Isso é uma questão preocupante, pois

pessoas que sofrem de transtornos alimentares costumam buscar informações justamente

nessas

mídias,

principalmente

na

internet,

em

blogs

e

comunidades

que

têm

a

possibilidade de congregar pessoas com o mesmo problema, e a vantagem de manter o

anonimato e a privacidade de seus participantes. No entanto, a troca de experiências

nesses locais dificilmente permite o entendimento do transtorno alimentar, ou mesmo

sua superação.

Os sites que oferecem uma abordagem técnica mantêm uma comunicação

unilateral e fria, não estabelecendo uma interação e aproximação com o mundo anorético

e

bulímico.

Como

exemplo,

podemos

citar

o

site

do

Dr.

<http://www.drauziovarella.com.br/arquivo/arquivo.asp?doe_id=63>,

Drauzio

onde

descrição

da

doença,

dos

sintomas,

das

possíveis

causas,

além

de

Varella,

existe

a

algumas

recomendações e sugestão de tratamento. Mas as informações são reprodutoras daquelas

encontradas

em

vários

outros

sites,

e

ignoram,

por

exemplo,

que medicamentos

antidepressivos têm eficiência inferior a placebos no tratamento da anorexia nervosa,

conforme publicação de pesquisa realizada em 2006, pelo Dr. B. Timothy Walsh, diretor

de pesquisas em transtornos alimentares do New York State Psychiatric Institute, na

Universidade de Columbia, publicado na revista da Associação Médica Americana

(WALSH

et

al,

2006).

Podemos

ainda

citar

os

sites

<http://www.mentalhelp.com/anorexia.htm>

e

<http://www.alimentacaosaudavel.org/

Anorexia-Nervosa.html>, observando pequenas diferenças. No primeiro, os sintomas são

descritos de maneira mais detalhada, e oferece mais dicas aos pais, além de tentar se

aproximar do mundo anorético, ao colocar um depoimento de uma anoréxica. O segundo

apresenta o problema da anorexia, em formato interessante, mas sem acréscimo de

13

informações. São sites que não definem seu público, pois não trazem informações

relevantes a profissionais de saúde interessados em pesquisar os transtornos alimentares

e, nem oferecem um diferencial para o portador do transtorno e, talvez, apenas se

destinam a trazer alguma informação aos familiares leigos, preocupados em saber se

seus entes possuem ou não essas doenças e como devem agir. Existem vários outros

sites, com pouca diferença, seja no conteúdo ou no formato.

Ao analisar os blogs pró-anorexia e pró-bulimia, pode-se observar que existe uma

grande

preocupação

com

o

formato,

incluindo

imagens

significativas,

abordando

modelos e signos atraentes ao universo feminino. Além disso, o contato é estabelecido

diretamente,

com

possibilidade

de

diálogo,

através

da

postagem

de

comentários.

Também existem links divulgando outros blogs pró-anorexia e bulimia, estabelecendo

uma espécie de grande comunidade ou de grande círculo. No entanto, as informações

que circulam, como sugestões de comportamentos e regimes, apenas reforçam o

problema, como podemos observar em dois trechos dos seguintes blogs 1 .

Hoje estava tudo muito bem, almocei bem pouco e fiz caminhada durante 1h e 30 min., porém minha mãe me fez jantar, comi muito, não devia ter exagerado. Mas já me puni, tomei 2 laxantes e espero ficar livre desse jantar terrível. Estou morrendo de cólicas e provavelmente não dormirei bem essa noite, mas já que isso me trará bons resultados em breve, passarei o mal que for preciso, eu pago esse preço, afinal entrei na anna 2 sabendo todo o mal que pode ocorrer comigo e disposta a aceitar isso para ficar perfeita. (<http://anna- mylifestyle.blogspot.com/>, grifo nosso).

Fui na psiquiatra esses dias. Meu pai, iludido, disse que não tem visto mais sinais de T.A.s em mim pra ela. (Estou fingindo bem, miando em silêncio ou no meu quarto, tô pegando as manhas), mas pra ela contei algumas verdades, como do semi-nf 3 de 42 kcal que consegui fazer no

)

dia anterior da véspera da consulta e das 2x que miei na véspera. (

Não sei quanto estou pesando, meus ossos tão aparecendo e ainda to manequim 34, 36 fica saco de batatas de tão largo e decidi que só vou

1 Em todas as falas retiradas da comunidade, considerei que deveria alterar algumas palavras, escritas com erros de grafia, a fim de tornar a leitura mais fluente e evitar dificuldades no entendimento. No entanto, mantive algumas formas gráficas características, a fim de não descaracterizar as falas. A grafia original pode ser consultada diretamente nos endereços.

2 Anna (ou Ana) apelido dado à Anorexia Nervosa, entre as pessoas que possuem o transtorno.

3 Semi-nf refere-se a um processo onde o no food (NF) é feito sem rigidez, ou seja, há consumo de calorias.

14

) Bem,

sei que é muito extremo querer pesar 25/30 kg pros meus 1m 56cm de altura, mas definitivamente eu sinto que preciso ser a mais magra, preciso sentir, mesmo que só um pouco. (<http://dra.anna.zip.net/>).

me pesar quando o 34 ficar tão largo que precise usar cinto. (

A fim de tentar estabelecer contatos

e aproximar pessoas que sofrem de

transtornos alimentares, o autor dessa dissertação criou em 14 de abril de 2006, uma

comunidade no Orkut com a denominação Anorexia e Bulimia Nova Visão. O perfil

das pessoas que participam da comunidade é abordado no terceiro capítulo. A escolha da

mídia Orkut foi justificada pela febre entre os brasileiros, que contribuíram para que essa

rede social fosse o site com mais page views (páginas visualizadas) do Google no

mundo. E foram justamente as comunidades temáticas, que se caracterizam pela

discussão em torno de um interesse comum, que explica este fenômeno de mídia, o que

pode ser confirmado pelo amplo debate em tópicos criados pelos usuários ou pelo

coordenador da comunidade, sobre os caminhos atuais de tratamento dos transtornos

alimentares.

O objetivo central da formação dessa comunidade foi de verificar a possibilidade

de criação de um espaço que possibilitasse uma concreta educação para a saúde. Por

isso, essa dissertação se preocupou em analisar a comunidade citada acima, e verificar se

o conteúdo existente estava adequado à proposta, utilizando o ambiente da internet como

meio

de

divulgação

científica.

Optou-se

por

uma

pesquisa

qualitativa

de

cunho

exploratório e descritivo, pois essa é a forma possível quando se buscam percepções e

entendimentos de aspectos subjetivos e motivações não explícitas. Nesse caso, não há

neutralidade

possível,

embora

ela

seja

sempre

impossível

em

qualquer

caso.

A

participação do pesquisador nesse processo de pesquisa envolve uma contínua análise e

aprendizagem, numa relação entre sujeitos, portanto dialógica, não havendo um objeto a

ser contemplado e conhecido. Ou seja, não há a pretensão em se falar sobre anoréticos

ou bulímicos, mas se falar com eles, pois o pesquisador e os pesquisados estão em

15

interação contínua, o que também se reflete nas transformações que acontecem na

própria comunidade.

( )

uma coisa, uma vez que sendo sujeito não pode, se continua sendo-o, permanecer sem voz; portanto o seu conhecimento só pode ter caráter dialógico. (Bakhtin,1985, p.383)

um sujeito, como tal, não pode ser percebido nem estudado como

Inicialmente, a proposta era de elaborar o produto final dessa dissertação a partir

da comunidade citada, avaliando-se seu conteúdo. No entanto, para evitar alguns

transtornos provocados pela administração do Orkut, a opção final foi de construir um

site, <www.anorexiaebulimia.com>, como produto final desta dissertação de mestrado,

com o objetivo de divulgar criticamente idéias científicas, através de postagens de

artigos, vídeos, sendo este o tema do último capítulo. Também se buscou ofertar espaços

para postagens e discussão, aproveitando mais recursos educacionais. Dessa forma, o

produto final desse trabalho pretende ser um espaço para o processo de alfabetização

científica, já que tem a possibilidade de atingir pessoas de formações distintas, de faixas

etárias

diversas,

possibilitando

que

a

grande

maioria tenha acesso

aos

conceitos

necessários para pensar sobre conhecimentos científicos que sejam importantes para a

sua saúde. Pretende-se atingir os objetivos gerais de promover saúde integral, gerar

desenvolvimento das potencialidades, da autonomia, e contribuir para a transformação

da própria realidade, utilizando o ambiente da internet através de uma comunicação

informal, propositalmente escolhida, já que as pessoas que sofrem de transtornos

alimentares, principalmente anoréxicas e bulímicas, gostam de manter sua privacidade,

não revelando, muitas vezes, nem aos parentes ou amigos mais próximos, sua relação

conflitante com os alimentos.

Ainda,

nesta

dissertação,

no

primeiro

capítulo,

discutimos

os

transtornos

alimentares em seus vários aspectos. No levantamento da literatura, observamos que

alguns trabalhos, como exemplo o de Weinberg, Cordás e Munoz (2005) e o de Cordás e

16

Claudino (2002), ainda se perdem ao propor uma analogia entre o comportamento de

santas medievais e as anoréxicas atuais, sem considerar que não existem alguns critérios

fundamentais para esse diagnóstico através dos relatos antigos, assim como, o principal

fator para o diagnóstico da anorexia nervosa, conforme critério adotado pelo CID-10

(2003) (Classificação Internacional de Doenças) e DSM-IV (Manual Estatístico e

Diagnóstico das Desordens Mentais, quarta edição), é a distorção da imagem, elemento

que não se apresenta nos textos que criaram o conceito da anorexia sagrada. Não há o

medo mórbido de engordar e não há a imagem gorda refletida no espelho, nas santas da

Igreja Católica, afastando esse diagnóstico a-histórico. Talvez, por não se saber a

etiologia dos transtornos alimentares, a American Dietetic Association (ADA, 2001),

recomenda um tratamento realizado por uma equipe multiprofissional, com caráter

interdisciplinar. Infelizmente, apesar da proposta de atuação interativa entre profissionais

de saúde, interesses corporativos são bastante presentes na área da saúde, como podemos

perceber com a discussão recente sobre a lei que regulará o Ato Médico 4 .

A prática interdisciplinar ainda é muito incipiente no campo educacional, o que

faz com que não ocorra interação entre profissionais diversos, cada um retendo a sua

ótica, a sua percepção de mundo, isoladamente. O tratamento, consequentemente, é uma

combinação de retalhos, com prescrição injustificada de medicamentos que alteram o

sistema nervoso, internações hospitalares e uma abordagem nutricional que busca

fundamentalmente o aumento da ingestão de calorias, sem considerar a qualidade dos

alimentos

administrados.

Dessa

forma,

o

prognóstico

no

tratamento

da

anorexia

apresenta uma taxa baixa de recuperação, em torno de 36%, e uma previsão de período

de

10

a

15

anos

de

tratamento

Além

disso,

a

recuperação

envolve

apenas

o

4 O PL 7.703/06, que regulamenta as atividades privativas dos médicos e está em tramitação no Senado, recebeu críticas de todos os outros Conselhos da área de saúde por considerarem que o projeto de lei prejudica a competência profissional dos outros profissionais de saúde, colocando em risco a saúde da população brasileira.

17

restabelecimento

do

peso,

o

retorno

da

menstruação,

e

a

normalização

dos

comportamentos alimentares, não levando em consideração a recidiva da síndrome,

tornando os resultados ainda mais questionáveis.

Para aumentar a circulação de idéias, que por serem contrárias ao capitalismo

encontram pouca penetração, o espaço da divulgação científica não pode se confundir

com a prática da informação, através da simples transmissão de notícias, como se elas

fossem isentas de ideologias. No segundo capítulo, discutimos que não há neutralidade

na ciência, e isso pode ser constatado em vários autores e momentos históricos, como em

1838, quando se divulga que o leite de vaca tem mais proteína do que o leite materno,

informação que vai ser aproveitada pelo mercado, em detrimento da saúde dos nascituros

vindouros (REA, 1990). No Brasil, já no século XX, o marketing da indústria de leite

influencia diretamente o pensamento médico, fazendo pediatras acreditarem que uma das

formas de combater a mortalidade infantil era a administração de fórmulas lácteas às crianças

(AMORIM, 2005). Portanto, transmitir conteúdos sem acrescentar uma visão crítica não

contribui para a compreensão de como a ciência funciona, fortalecendo as ideologias do

mito da ciência como verdade, e da neutralidade científica, ou seja, a ciência como saber

puro e autônomo. Para que(m) é útil a alfabetização científica que fazemos?”, pergunta

Chassot (2003, p.99). Portanto, é fundamental que haja uma alfabetização crítica,

possibilitando que se perceba as contradições e interesses por trás de um discurso, seja

ele caracterizado como um artigo científico ou não.

Esperamos que nosso processo de construção possa contribuir com novas

possibilidades de percepção sobre os transtornos alimentares.

18

1. TRANSTORNOS ALIMENTARES

1.1. Justificativa

A incidência dos transtornos alimentares aumentou muito, tendo praticamente

dobrado nas duas últimas décadas, especialmente entre as mulheres jovens dos países

ocidentais, conforme foi constatado por diversos autores como Dunker & Philippi

(2003). Bhadrinath (1990) descreveu a anorexia nervosa como um fenômeno raramente

encontrado na Ásia, África ou em países árabes, considerando que a razão disso está na

não valorização da estética magra nos corpos femininos, sem considerar as diferenças na

cultura alimentar entre essas regiões e o ocidente. Mas Hoek (1998) percebeu que os

transtornos

alimentares

não

são

um

fenômeno

puramente

“ocidental”,

o

que

foi

confirmado por pesquisas em países orientais, incluindo dois estudos japoneses que

compararam as populações urbanas e rurais, quanto à incidência da anorexia. Ambos

estudos encontraram valores superiores de incidência nas populações urbanas. Em um

deles, nas escolas de 2º. Grau em Kyoto, a prevalência foi quatro vezes superior em

relação a meninas de escolas de áreas rurais (AZUMA E HENMI, 1982). O outro estudo

encontrou uma prevalência aumentada em três vezes para meninas japonesas de áreas

urbanas, comparativamente com as de áreas rurais (OHZEKI et al,1990). Encontramos

também estudos, realizados em outros países, apresentando resultados discordantes, ou

seja, sem

diferenças

significativas

entre as

populações

rural

e urbana,

quanto

à

incidência da anorexia nervosa. Mas é preciso observar que, ao contrário de outros

lugares, a diferença dos hábitos alimentares entre a população rural e urbana no Japão,

cada vez mais se acentua. (MITCHELL, INGCO E DUNCAN, 1997). Essa não

percepção das diferenças entre as culturas pode justificar os resultados contraditórios nas

pesquisas.

19

Os transtornos alimentares também não estão restritos a uma faixa sócio-

econômica, havendo uma distribuição ampla, conforme relatou Hay em 1998.

Mas, a

freqüência se apresenta maior em países industrializados, segundo diversos estudos

como os de Wlodarczyc-Bisaga e Dolan (1996), Lee et al. (1998) e Ghazal et al. (2001).

Por exemplo, nos Estados Unidos, entre os transtornos alimentares, a anorexia é a

terceira doença crônica mais comum entre adolescentes, só perdendo para a obesidade e

a asma, sendo que sua prevalência varia de 2 a 5% em mulheres adolescentes e adultas

(FISCHER et al, 1995). Além do crescimento alarmante na incidência desse transtorno

alimentar, Saito e Fagundes-Neto (2004) observam que na anorexia nervosa a taxa de

mortalidade está associada a doenças como as cardíacas, além da ocorrência de suicídios.

Esses dados são suficientes para justificar os transtornos alimentares como foco

de vários

estudos

e

atenção

dos

profissionais

da área

da saúde.

Os

transtornos

alimentares, especialmente a anorexia, apresentam elevados graus de morbimortalidade,

podendo ser considerados epidemiológicos (PINZON E NOGUEIRA, 2004). O estudo

de Theander (1983), realizado na Suécia, apresenta uma elevada porcentagem de 20% de

mortalidade por complicações resultantes da anorexia. Em outros levantamentos, a taxa

de mortalidade permanece elevada, como no estudo de Ratnasuriya et al. (1991) com

17,5%

e

Ajuriaguerra

(1976)

com

9,81%.

Percebemos

que

mulheres

em

idades

reprodutivas estão falecendo, por uma síndrome que vem aumentando progressivamente

sua incidência, apesar da atenção dos profissionais da área de saúde e das pesquisas.

1.2 Conceitos

Os transtornos não se confundem com doenças, pois nos primeiros a etiologia

ainda está sendo investigada e, por isso, ainda não podem ser definidos como doenças,

cuja etiologia está definida, mesmo que mais tarde se descubra uma outra origem. Os

20

transtornos alimentares são síndromes comportamentais cujos critérios diagnósticos têm

sido amplamente estudados nos últimos 30 anos. Estão divididos em duas categorias

principais: anorexia nervosa e bulimia nervosa (MAGALHÃES et al., 2005). A Agência

Nacional de Saúde Suplementar (2008), ANS, em suas diretrizes para a saúde mental,

através de estudos da American Psychiatric Association (2000), APA, e diversos autores

como Kurth et al. (1995), Shisslak, Crago & Estes (1995) e Keel, Leon & Fulkerson

(2001), observa que entre os transtornos alimentares, “as principais patologias são a

anorexia nervosa, que ocorre em 0,5% a 1%, e a bulimia nervosa que é prevalente em

0,9% a 4,1% da população adolescente e de adultos jovens do sexo feminino”. Por esse

motivo, este estudo dará maior contorno a estas duas patologias, embora também façam

parte dos transtornos alimentares, por exemplo, o Transtorno de Compulsão Alimentar

Periódica (TCAP), o Transtorno Alimentar Noturno e o Binge, incluídos no Manual

Estatístico e Diagnóstico das Desordens Mentais, em sua quarta edição, (DSM-IV

APA,1994) como Transtornos Alimentares Sem Outra Especificação, código F50.9 -

307.50. O Pica, uma perversão instintiva do apetite e paladar, é incluído como um

transtorno alimentar de primeira infância. Importante observar que a obesidade não é

considerada um transtorno alimentar, sendo incluída na Classificação Internacional de

Doenças (CID) como um problema médico, sem conexão suficiente com a psique.

A bulimia nervosa se diferencia pelos episódios de ingestão exagerada de

alimentos, acima da quantidade que a maioria das pessoas comeria em um mesmo

período, seguidos de métodos compensatórios purgativos, principalmente vômitos auto-

induzidos,

com

sentimentos

de

perda

de

controle,

fraqueza,

culpa

e

vergonha

(SAPOZNIK et al., 2005). A anorexia nervosa é um outro tipo de transtorno alimentar

que apresenta dimensões de maior gravidade e maior complexidade no tratamento.

21

Etimologicamente, o termo anorexia deriva do grego “an”, que quer dizer deficiência ou

ausência de, e de “orexis”, que pode ser traduzido como apetite.

Bruch (1973) foi a primeira a mencionar a distorção da imagem corporal vista

como um distúrbio da paciente com anorexia nervosa na percepção de seu corpo, em

1962, propondo que a psicopatologia central da anorexia nervosa compreendesse três

áreas. A dos transtornos da imagem corporal, a dos transtornos na percepção ou

interpretação de estímulos corporais (quando ocorre não reconhecimento da fome) e, por

último, uma sensação paralisante de ineficiência que invade todo o pensamento e

atividades da paciente. Hilde Bruch considerava o fator da distorção da imagem corporal

mais alarmante do que a má nutrição

em si, presente na anorexia. Pensamento

acompanhado por Cash e Deagle (1997), que consideram o distúrbio da imagem corporal

um sintoma nuclear nos transtornos alimentares. Mahan e Stump (1998) também

reforçam esse fator, pois em função dessa distorção da imagem corporal, os indivíduos

com anorexia nervosa não se percebem magros, mas sempre gordos, e, por isso,

continuam a restringir suas refeições de uma maneira ritualizada. Duchesne e Almeida

(2002) acrescentam que a anorexia estaria dependente de crenças distorcidas acerca do

peso e formato corporal, sendo o distúrbio da imagem corporal determinante central para

o diagnóstico e para o tratamento. Para Tavares (2003), a imagem corporal distorcida

com que a anoréxica se percebe como obesa, não é um delírio ou distorção em seu

pensamento, mas a revelação da identidade de um sujeito na história de suas relações

concretas, com suas memórias e singularização de uma rede de informações. Essas

definições são fundamentais, pois caracterizam o quadro da anorexia nervosa, compondo

o diagnóstico.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua

quarta edição, (DSM-IV APA,1994), que inclui as primeiras definições de Lasègue e

22

Gull até posições mais recentes, a anorexia nervosa se caracteriza como: “a recusa do

indivíduo em manter um peso corporal na faixa normal mínima, um temor intenso de

ganhar peso e uma perturbação significativa na percepção da forma ou tamanho do

corpo. Além disso, as mulheres pós-menarca com este transtorno são amenorréicas”. A

CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde)

também cita o medo de engordar e a percepção de se estar muito gorda(o), como um dos

critérios para a identificação da anorexia. Portanto, como percebemos, esses são os

critérios para se considerar uma pessoa com anorexia nervosa.

1.3 Anorexia sagrada

Bell (1985), em seu livro Holy Anorexia, cria um paralelo entre o comportamento

de 250 mulheres santas ou beatas da Igreja Católica, que teriam vivido entre 1200 e

1600, com a anorexia nervosa, o que ele denomina de anorexia sagrada, considerando

que tanto nas santas estudadas, assim como nas atuais anoréxicas, existe conflito de

identidade, e uma tentativa de libertação feminina da sociedade predominantemente

patriarcal. Para essa associação, Rudolf Bell utilizou-se de escritos autobiográficos,

cartas, testemunhos de confessores e relatos canônicos. Seu trabalho influenciou vários

outros, como o da psiquiatra chilena, Rosa Behar (1991, p.710), que diagnostica a

anorexia nervosa em Santa Rosa de Lima, apesar de fazer uma ressalva de que “no

corresponderia catalogar a la primeira (Santa Rosa, destaque nosso) como anoréctica, ni

a la última (anorética atual, destaque nosso) como santa5 . Adverte Behar (ibidem) que,

) (

mero reduccionismo y desacreditar su especial calidad y fervor mistico, tal y como fue vivido y percebido por ella. Vale decir, seria convertir uma conducta humana compleja em uma simple

describir a Santa Rosa como uma anoréctica seria caer em um

5 Não seria correto catalogar Santa Rosa como anoréxica, nem a anoréxica atual como santa.

23

aproximación biomédica, ignorando además la inmensa distancia habida entre el ser uma santa y ser una paciente. 6

Mas, apesar das ressalvas de Behar em seu parágrafo final, essa associação

encontra-se presente na maioria dos artigos publicados, tendo influenciado vários

autores, incluindo Weinberg (2004), que em função do que ele denomina como registros

de anorexia nervosa em outras épocas e culturas, baseado na história das santas e beatas

da Idade Média, com seus jejuns auto-impostos, considera que a importância do papel

da moda é discutível. Seu argumento reconhece nas santas um ideal não de beleza, mas

de ascese e de comunhão com Deus, no entanto, considera o trabalho de Behar como a

prova da existência de uma anorexia nervosa não contemporânea.

A existência de transtornos alimentares em outras culturas e séculos

anteriores aos relatos de Morton (1689), Gull (1868) e Laségue (1874)

é de grande interesse psicopatológico, na medida em que coloca no

centro da discussão a questão do patogenético e do patoplástico em psiquiatria e torna relativa a influência da modernidade, muitas vezes

colocada como fator principal. (

anoréxicas atuais, as meninas cloróticas do século XIX e as santas medievais levou-nos a perceber comportamentos que surpreendem pela

proximidade, ainda que a forma e a motivação dos comportamentos

restritivos tenham variado ao longo do tempo. (

considerada por muitos uma patologia contemporânea, há evidências de que a anorexia atual seria um contínuo de um tipo de comportamento inalterado através da história do Ocidente.

como as de Rosa de Lima oferecem não apenas provas

da existência da doença em diferentes épocas, como o paralelismo de

seu quadro com o das santas anoréxicas da Europa medieval salientam

o caráter transcultural de seu quadro. (WEINBERG, 2004, P.55).

)Patografias (

de

traçar um paralelo entre as

)

)

Apesar

Essa associação se difundiu, apesar de Habernas (1989) defender que não há

possibilidade de se fazer essa analogia, pois não existem alguns critérios fundamentais

para o diagnóstico através dos relatos antigos, além de que a expressão religiosa estava

associada com a autoflagelação, no período medieval. Além disso, o principal fator para

6 Descrever Santa Rosa como apenas anoréxica seria cair em um mero reducionismo de desacreditar em sua especial qualidade e fervor místico, tal como foi vivido e percebido por ela. Vale dizer, seria converter uma conduta humana completa em uma simples aproximação biomédica, ignorando além disso a imensa distância que existe entre ser uma santa e ser uma paciente.

24

o diagnóstico da anorexia nervosa, critério adotado pelo CID-10 e DSM-IV, é a

distorção da imagem, elemento que não se apresenta nos textos que fundamentaram a

criação do conceito da anorexia sagrada. Não há o medo mórbido de engordar e não há a

imagem gorda refletida no espelho. Finalmente, Foucault (2006) nos lembra que o corpo

não obedece apenas às leis da fisiologia, mas também as da história. Ou seja, o corpo é

formado pela história de seus regimes, venenos, alimentos, valores, hábitos alimentares e

leis morais. Visão compactuada por Polhemus (1978) que considera que o corpo humano

somente é concebível dentro da construção social da realidade, e por Helman (1994) que

observa os alimentos, não como elementos nutricionais, mas vinculados à cultura.

Segundo Viertler (2000, p. 171) “entre os Bororo, para ser belo não basta comer a dieta

adequada, mas é preciso saber consumi-la, aprendendo a controlar a gula e a vomitar os

excessos, em suma, é preciso comer pouco”. O paralelo proposto por Bell é semelhante

ao se afirmar que os Bororo sofrem de transtornos alimentares, principalmente bulimia,

por causa de seus rituais de vômito, e anorexia, pelo controle da quantidade de alimentos

ingeridos, sem considerar que são atos culturais e vistos como técnicas de purificação.

Portanto, é um erro tentar descolar as santas medievais de sua história e diagnosticá-las

através de um olhar contemporâneo. Mais erro ainda propor esse diagnóstico, sem levar

em consideração os próprios conceitos que definem o perfil desse transtorno, presentes

no CID-10 e no DSM-IV. Fazer isso é se afastar ainda mais da possibilidade de definição

da etiologia da síndrome, prejudicando o próprio tratamento.

1.4 Etiologia

Artigos publicados sobre os transtornos alimentares, como os de Dunker &

Philippi (2003), Gonçalves et al. (2008), Vilela et al. (2004), Morgan et al. (2002),

afirmam que a etiologia é multifatorial, porque seria determinada por uma diversidade de

25

fatores que interagem entre si de modo complexo, para produzir a doença. Abott et al.

(1993) já afirmavam o desconhecimento sobre a origem dos transtornos, mas sugeriam

que

em

sua

gênese

houvesse

uma

associação

de

fatores

sociais,

psicológicos

e

biológicos. Appolinário & Claudino (2000) também acreditam que diversos fatores

biológicos,

sociais

e

psicológicos

se

inter-relacionam,

gerando

e

mantendo

os

transtornos, e, por isso, o tratamento é difícil. Amigo (2005) tenta demonstrar a

associação da anorexia com distúrbios neuroquímicos, pois essas anormalidades podem

ser conseqüência do próprio estado de desnutrição, ao invés de ser a causa, mas

reconhece a dificuldade em poder afirmar isso. Cereser (2001) compartilha dessa

proposição, pois acredita ser a inanição a responsável por provocar as alterações nos

neurotransmissores,

observando

ainda

não

ser

possível

comprovar

a

associação

etiológica por dificuldades na própria pesquisa. Morgan (2002) sugere, que a privação

alimentar, e sua conseqüente desnutrição, possa ser a causa das alterações físicas e

psicológicas dos pacientes. Lask el al. (1993) tentaram associar a anorexia com a

deficiência de zinco, sem ainda explicar a origem da própria deficiência do mineral.

Matarazzo (1992) acredita que a anorexia seja a materialização no físico de um problema

emocional. Percebe-se então que não se conhece a origem dessa patologia, o que irá

afetar o prognóstico do tratamento, como pode ser observado a seguir.

1.5 Tratamento

Os transtornos alimentares são justamente descritos como transtornos, e não

como doenças, por ainda não se conhecer sua etiopatogenia, como pode ser observado

pelo item anterior. Apesar disso, artigos reforçam e reproduzem discursos anteriores,

como vimos na criação do conceito da anorexia sagrada, não conseguindo avançar nos

tratamentos, que permanecem sem alcançar índices satisfatórios, apesar das propostas de

26

interdisciplinaridade na atuação terapêutica. A American Dietetic Association (1998),

ADA, recomenda que o tratamento dos transtornos alimentares seja realizado por uma

equipe multiprofissional, com caráter interdisciplinar. Essa é uma tentativa de buscar a

etiologia do transtorno e um tratamento mais eficiente, através da atuação interativa de

profissionais de saúde As equipes multidisciplinares são compostas por psiquiatras,

clínicos gerais, psicólogos e nutricionistas, principalmente nos ambientes hospitalar e

ambulatorial (GORGATI e colaboradores, 2002). No entanto, a prática interdisciplinar

ainda é muito incipiente em nosso campo educacional, sofrendo ainda interferências dos

interesses corporativos, bastante presentes na área da saúde.

Os

principais

métodos

terapêuticos

adotados

utilizam

fármacos,

estratégias

nutricionais e neuropsicológicas (APPOLINÁRIO E BACALTCHUK, 2002; ADA,

2001). O uso de medicamentos na síndrome anoréxica é defendido por alguns autores

que consideram uma forma de psicose as distorções na percepção da imagem. Pretendem

também corrigir com medicamentos as alterações do apetite e os sintomas depressivos

associados (ZHU E WALSH, 2002; APPOLINARIO E SILVA, 1998). Appolinario e

Silva (1998) ainda observam que em razão do grande número de complicações clínicas

concomitantes, a prescrição de agentes farmacológicos deve ser feita com bastante

cautela.

Mesmo

com

os

cuidados

recomendados,

a

defesa

da

prescrição

de

medicamentos não se justifica, pois estes não são direcionados à etiologia da síndrome,

já que ela é multifatorial e, portanto, desconhecida. Medicamentos antidepressivos e

antipsicóticos, que tiveram resultados satisfatórios em estudos abertos para a anorexia

nervosa, foram criticados em ensaios clínicos randomizados, através de resultados não

confirmados

(LACEY

et

al.,

1980;

KAYE

et

al,

2001;

VANDEREYCKEN

E

PIERLOOT, 1982; WEIZMAN et al, 1985). Freitas (2004) observa que as drogas de

escolha

são

a

fluoxetina

ou

o

citalopram,

inibidores

seletivos

de

recaptação

da

27

serotonina, embora alerte para a necessidade de observar os riscos desses medicamentos.

E ainda ressalta que apesar da amitriptilina proporcionar ganho ponderal, aumenta o

risco de problemas cardíacos, pois são ministrados a pacientes com grande deficiência

nutricional

e

com

desequilíbrio

eletrolítico.

Os

resultados

dos

estudos

com

os

antidepressivos (clomipramina, amitriptilina e fluoxetina), e os antipsicóticos (pimozida,

sulpirida) mostram que não há diferença estatisticamente significativa, na fase aguda,

quando comparados ao placebo.

Beecher (1955) já observava que a taxa de resposta do placebo fica em torno de

35%, publicada em seu artigo “O poderoso placebo”. Teixeira (2008) relata que a ciência

ignora a natureza do efeito-placebo e os motivos de sua eficácia, mas observa que apesar

disso, os médicos, em sua prática clínica, renunciam a utilizar seu poder de cura e alívio.

Preferem prescrever, como placebo, vitaminas ou analgésicos que dispensam receita, e

antibióticos ou sedativos, ao invés de pílula de açúcar ou solução salina. Tiburt el al

(2008), avaliaram através de questionário, mil e duzentos clínicos e reumatologistas em

atividade nos

Estados

Unidos

para

compreender

suas

atitudes

e

comportamentos

referentes a tratamentos com placebo. Apesar de mais da metade reconhecer que

incorpora o placebo em sua prática diária e considera seu uso eticamente permissível, a

questão para os autores foi descobrir porque os médicos utilizam, como placebos,

substâncias ativas farmacologicamente. O artigo, publicado em outubro de 2008 pelo ex-

British Medical Journal, atualmente BMJ, levanta a hipótese de que o médico possa se

sentir enganando mais ativamente seu paciente ao indicar uma pílula com substância

completamente inativa. A decisão pela prescrição de antibióticos e sedativos, principal

descoberta do estudo, preocupa pelas conseqüentes reações adversas para pacientes e

para a saúde pública. Os autores não levantaram a possibilidade da prescrição ser uma

influência

exercida

pela

indústria

farmacêutica,

desde

os

períodos

de

estudo

na

28

universidade. Patel et al (2005) apresentam uma taxa aproximada de 20 a 45% para a

resposta do efeito placebo, observada em meta-análises recentes. Um percentual, por

vezes superior ao obtido pelo tratamento multidisciplinar aplicado usualmente para a

anorexia nervosa. Então, não se justifica utilizar fármacos que podem gerar efeitos

adversos, já que a Associação Médica Mundial reunida em assembléia em Paris, em

outubro de 2008, alterou o artigo 32 da Declaração de Helsinque, que regula a pesquisa

clínica com seres humanos, considerando que “o uso de placebo, ou o não-tratamento”

passa a ser “aceitável” quando, para a doença estudada, não existir current proven

intervention, ou seja, uma intervenção atual comprovada, o que é o caso da anorexia

nervosa. Até então, a norma considerava que a prescrição de placebo significava burlar a

confiança do paciente, violando, dessa forma, a regra do consentimento informado.

Além do ambiente ambulatorial onde está presente a prescrição medicamentosa,

existe a terapêutica de internação hospitalar, permitida pela legislação brasileira, com o

atestado de um laudo médico comprobatório e de um termo de responsabilidade da

familiar responsável. No entanto, isso não é uma regra, pois em junho de 2007, uma

adolescente de 15 anos na Bahia, teve sua internação determinada pela justiça, a pedido

da equipe médica do Hospital São Matheus, apesar da não concordância dos pais

(GLOBO.COM

,

2007). A justificativa para a internação compulsória encontrou-se na

alegação que alguns pacientes não possuem consciência crítica de sua morbidade,

podendo correr risco de morte iminente. Mas Russel (2001) faz a ressalva de que a

internação sem a concordância da própria paciente é questionável, sendo válida apenas

em curto espaço de tempo, suficiente apenas para a recuperação do IMC (índice de

massa corporal). Ramsay et al (1999) apresentam argumentos mais contundentes contra

a internação na anorexia, ao observarem que ocorrem taxas maiores de mortalidade em

pacientes internadas contra a sua própria vontade, fator ignorado pela equipe médica do

29

Hospital

São

Mateus

em

2007.

Importante

observar

que

a

terapêutica

alimentar

ministrada no ambiente hospitalar também pode levar a maiores danos, já que somente

se preocupa com o aumento do IMC, sem perceber a toxicidade presente na própria

alimentação.

Na abordagem nutricional a meta visa fundamentalmente o aumento da ingestão

de calorias, para que ocorra uma recuperação do peso, estratégia defendida por vários

autores, como Rock e Curran-Celentano (1996); Dempsey e outros (1984); Vaisman e

outros (1991). A ADA (2001) determina que o nutricionista deve monitorar a ingestão

dietética para assegurar um ganho de peso apropriado, posição acompanhada pela APA

(2000), ao estabelecer que as metas no tratamento nutricional na anorexia nervosa

envolvem o restabelecimento do peso, e a normalização do padrão alimentar, através de

um ganho de peso controlado, recomendando valores entre 900g e 1300g por semana

para pacientes que estejam em enfermarias, e 250g e 450g, também por semana, para

pacientes em ambulatório. Macarson (2002) estipula que 1.200 Kcal/dia é o valor

mínimo energético total da dieta. Podemos observar que não há uma preocupação com o

tipo de alimento a ser ministrado, mas com seu valor calórico, a fim de tentar repor o

IMC da paciente.

Os tratamentos descritos anteriormente não foram estruturados na etiologia da

anorexia, pois, como já dito, ela é multifatorial, ou seja, desconhecida. Ribeiro (2004,

p.205) afirma que em relação “aos transtornos alimentares, sua causa é desconhecida,

apesar das crescentes evidências apontarem para uma interação de diversos fatores não

apenas na gênese, mas também na perpetuação do quadro”. Isso faz com que o

prognóstico no tratamento da anorexia apresente uma taxa baixa de recuperação em

torno de 36%, em vários registros (HALMI, 1995), e uma previsão de período para

tratamento, que pode ultrapassar 10, ou mesmo, 15 anos (KEEL et al, 1999). Nunes

30

(1998) reforça esse prazo, ao observar que vários estudos afirmam que um tempo de

tratamento menor que 5 anos tende a ser insuficiente. Além do prognóstico não favorável

no aspecto do tempo de recuperação, o critério de melhora varia entre diversos autores.

Enquanto para Herzog, Nussbaum e Marmor (1996) é necessário não haver mais

nenhum comportamento compulsivo, Keel et al. (op. Cit.) consideram a paciente

recuperada apenas com a diminuição na frequência das compulsões, não havendo

necessidade de cessar todos os sintomas. Nabuco de Abreu e Cangelli Filho relatam em

seu artigo “Anorexia nervosa e bulimia nervosa abordagem cognitivo-construtivista de

psicoterapia” que o prognóstico para a anorexia nervosa não é favorável.

Desde as publicações mais antigas em revistas especializadas até os

dias de hoje, os artigos existentes que são poucos e que por ventura contenham sua descrição, prognóstico de melhora ou mesmo os índices de recuperação, apresentam, na grande maioria, resultados

desalentadores. (

ainda apresenta dados muito contraditórios, embora a maioria dos estudos de resultado em longo-prazo aponte para um sucesso bem mais limitado. Somente para citar um exemplo, em um olhar mais amplo em mais de cem estudos, somente cerca de 50% das pacientes se “recuperam totalmente” (e isto quer dizer o restabelecimento do peso, a normalização dos comportamentos alimentares e o retorno da

Assim, a pesquisa disponível a respeito da AN

)

menstruação regular). Outros 30% experienciam uma recuperação parcial caracterizada por algum tipo de resíduo ou distúrbio no comportamento alimentar e pela falta de habilidade para manter o peso normal. E, finalmente, nos 20% restantes, a doença assume uma forma crônica, não apresentando qualquer sinal de remissão (NABUCO DE ABREU E CANGELLI FILHO, 2004, p.181).

É importante ressaltar que a recuperação de 50%, relatada por Nabuco de Abreu e

Cangelli Filho (2004), envolve apenas o restabelecimento do peso, o retorno da

menstruação, e a normalização dos comportamentos alimentares, não levando em

consideração a recidiva da síndrome. Os próprios autores ressaltam essa dificuldade na

recuperação real.

Um outro estudo mais recente com 193 anoréxicas sugeriu que, em tratamento de curto prazo, a maioria recobrou o peso com um único propósito: deixar a internação. Portanto, pode-se facilmente perceber que estamos diante de uma das populações mais refratárias a qualquer forma de ajuda. (op cit).

31

Fatores também percebidos por outros autores, que destacam a ineficiência, a

dificuldade, e a resistência das próprias pacientes.

O tratamento da anorexia nervosa e bulimia tende a ser árduo, prolongado e de resultados duvidosos e, muitas vezes, insatisfatórios. Isso se deve, em parte, às condições inerentes à doença que, na sua complexidade e rebeldia, representa um desafio a qualquer esforço terapêutico. (RIBEIRO et al, 1998, P.51).

Também encontramos essa percepção em Rego (2004, cap.4, p.114) ao afirmar

que “é complexa a discussão sobre o diagnóstico e o tratamento desse quadro (anorexia

nervosa, grifo nosso) psicopatológico que contempla diferentes leituras em várias áreas

científicas”. É preciso lembrar que sem compreender a etiologia, ou seja, a causa

primária do transtorno, não há como estruturar um tratamento eficiente, a não ser por

sorte.

RIBEIRO (2004, p.206) afirma que “poucos estudos biológicos foram realizados

para elucidar a patogênese e a fisiopatologia da bulimia”, e podemos também dizer que o

mesmo se aplica à anorexia nervosa. Steinberg (1987) acredita que os sintomas

obsessivos encontrados nas anoréxicas são conseqüência de sua deficiência nutricional,

observando que eles desaparecem com o restabelecimento do peso. Mas não explica

porque, após o restabelecimento do peso, o comportamento anoréxico retorna, não se

estabelecendo a cura definitiva. Busse & Ribeiro (2001) observam que nos transtornos

alimentares existem sintomas grastrointestinais, e isso pode dificultar o diagnóstico da

doença celíaca, ou mesmo de outra patologia, levando a um diagnóstico equivocado de

anorexia nervosa. No entanto, da mesma forma que ocorre hipersensibilidade ao trigo,

classificada como doença celíaca, com sintomas semelhantes ao quadro de anorexia, é

possível

que

a

própria

anorexia

nervosa

se

caracterize

por

um

quadro

de

hipersensibilidade a determinados tipos de alimentos, além do trigo, tornando a rejeição

a esses alimentos um sintoma de um processo de autocura, e não um sintoma a ser

32

combatido. Essa percepção da anorexia como sintoma de um processo de autocura pode

ser encontrada em Bruch (1975), ao afirmar que através da abstinência de alimentos, as

anoréxicas buscam um autodomínio, ou um encontro com o self , ou seja, com o próprio

ser.

As

discussões

travadas

até

aqui

mostram

aspectos

relacionados

apenas

a

conceitos, etiologia e tratamentos. A comunidade “anorexia e bulimia nova visão”, foi

criada no orkut com a intenção de se aproximar do usuário de comunidades e blogs,

relacionados com a questão alimentar. A comunidade oferece espaços que permite aos

freqüentadores não se sentirem inibidos em manifestar pensamentos, sentimentos e

práticas. Desta forma, a percepção do problema pelo portador do transtorno alimentar,

com quem ele se relaciona e de que forma, é nosso objeto de estudo e será discutida no

capítulo 3. Como é intenção dessa pesquisa a criação de um veículo virtual de

informação, antes, porém, discutiremos, no capítulo a seguir, as características da

divulgação científica.

33

2. DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA: ENTRE A INFORMAÇÃO E A REFLEXÃO.

Não há neutralidade na ciência. O doutor John Harvey Kellogg 7 utilizou, por

exemplo, um discurso científico adequado às indústrias que necessitavam de braços, e

ofereceu um modelo alimentar para as jovens damas de classe média, gerando condições

para desviar os corpos femininos para o mercado de trabalho (LEVENSTEIN, 1998).

O movimento conhecido como New Nutrition (ibidem), que surge no final do

século XIX, nos Estados Unidos, também utiliza o discurso científico para transmitir

conceitos de química, com o objetivo de sugerir que os operários economizassem, ao

optar por fontes protéicas mais baratas, e com isso, mais dinheiro poderia ser gasto em

outras

despesas.

Esse

movimento

considerava

um

desperdício

os

gastos

dos

trabalhadores ítalo-americanos com frutas, verduras e legumes, alimentos sabidamente

nutritivos

e

saudáveis,

pois

principalmente de água.

entendia

que

estes

alimentos

eram

constituídos

Outros vários exemplos demonstram que não se tratou de equívocos isolados,

mas de uma sincronia de interesses entre o discurso científico-médico e o discurso da

burguesia detentora dos meios de produção. Rea (1990) retrata em sua dissertação o que

ocorreu na Alemanha em 1838, quando se divulga que o leite de vaca tem mais proteína

do que o leite materno. Informação deslocada de seu contexto, favorecendo ao uso do

leite de vaca, e que vai ser aproveitada pelo mercado, em detrimento da saúde dos

nascituros vindouros.

Em 1856, Gail Borden, desenvolve o método para produzir leite

condensado. Doze anos depois, Henri Nestlé, inicia a produção de leite condensado

7 John Harvey Kellogg (26 de fevereiro de 1852 - 14 de dezembro de 1943) foi um médico cirurgião americano, que dirigia um sanatório usando métodos holísticos, e fundou a Sanitas Food Company, com seu irmão, para produzir cereais. Seu irmão, Will Keith Kellogg, rompe a sociedade por insistir em adicionar açúcar nos cereais, e funda a Battle Creek Toasted Corn Flake Company, que viria a ser a Kellogg Company.

34

enlatado, que passou a ter um papel importante na alimentação infantil na Grã-Bretanha,

pois se adequou a necessidades das mães em trabalhar fora de casa. Também é nesse

período que aparecem as mamadeiras de vidro substituindo os seios maternos pelo bico

de borracha (BULLOUGH, 1981), patenteado nos EUA em 1845 por Pratt, gerando

gravíssimos problemas de saúde às crianças do terceiro mundo, por contaminação dos

bicos (MARQUES, 2000). Amorim retrata a influência do marketing da indústria de leite

sobre o pensamento médico no Brasil, na década de 20, do séc.XX.

Pediatras brasileiros desse período acreditavam que uma das formas de combater a mortalidade infantil era a administração de fórmulas lácteas às crianças. Esses médicos eram influenciados pelo marketing das indústrias de leite em pó, que destacavam aspectos desse produto, como a pureza bacteriológica, o equilíbrio bioquímico - entre outros. Não levavam em consideração que as camadas mais pobres da população não tinham acesso ao leite industrializado ou, quando dele dispunham, faltava-lhes água tratada para o preparo das mamadeiras, facilitando a contaminação e a ocorrência de diarréias. (AMORIM, 2005, P.51).

Foram também questões mercadológicas que levaram ao desenvolvimento de

pesquisa científica, com o objetivo de substituir matérias primas naturais importadas dos

países tropicais, como o açúcar de cana, por matérias primas sintéticas, como os

adoçantes sintéticos. (SZMRECSÁNYI e ALVAREZ, 1999). E em 1879, a sacarina é

produzida pela indústria química ou farmacêutica, tendo sido o primeiro adoçante

sintético, surgindo posteriormente, de maneira acidental, os ciclamatos em 1937, e o

aspartame em 1965. (SZMRECSÁNYI e ALVAREZ, 1999). E, forjados os adoçantes

sintéticos, era necessário, mais uma vez, a associação do discurso científico aos

interesses mercadológicos, acusando o açúcar de ser uma verdadeira droga, o “pó branco

cristalizado”,

causador

de

câncer,

doenças

cardíacas,

diabetes,

problemas

dermatológicos,

hiperatividade

e

lerdeza

mental

(LEVENSTEIN,

 

op.

cit.).

Independentemente

do

mal

ou

não

do,

até

então,

venerado

açúcar,

o

mercado

35

impulsionou uma nova onda, o Diet, permitindo à indústria alimentar expandir o

mercado para a utilização de adoçantes sintéticos. Não importa que hoje os adoçantes

sintéticos sejam alvo de acusações, associando seu consumo a doenças também graves

como o câncer, pois a cultura do Diet já impregnou o hábito, garantindo o seu consumo.

Entre 1949 e 1959, mais de 400 compostos químicos novos foram aprovados, sendo que

em 1960 a indústria alimentar já utilizava 704 produtos químicos (ibidem).

Na década de 1920, surge o movimento da “vitaminomania” (LEVENSTEIN,

1993),

quando

são

feitos

grandes

investimentos

para

o

lançamento

de

produtos

alimentícios processados, relacionando a palavra vitamina às idéias de vitalidade e

energia. A idéia somente não foi mais longe na indústria de alimentos, porque uma outra

indústria, a farmacêutica, entrou rapidamente nessa fatia de mercado, comercializando

vitaminas em cápsulas, uma maneira mais prática que vigora até hoje. O interessante é

que, a partir da concorrência, o discurso da indústria alimentícia mudou, levando-a

propor um limite na comercialização de vitaminas, através de um pacto com a American

Medical Association e com o governo americano, baseado na tese de que não havia

necessidade de suplementação, pois os alimentos americanos continham todos os

nutrientes

necessários,

portanto

ao

consumi-los

se

obtinha

uma

boa

saúde

(LEVENSTEIN,

1998).

A

Nestlé,

segundo

Amorim

(2005),

patrocinou

eventos

científicos na década de 30, procurando influenciar profissionais da área da saúde. Essa

estratégia é plenamente utilizada pelas indústrias ainda hoje, ao financiar congressos,

laboratórios em Universidades, entre outras benesses.

As estratégias utilizadas pela indústria, em relação aos profissionais de saúde, foram as seguintes: o estímulo a produções acadêmicas, premiando os melhores trabalhos na área de Puericultura e Pediatria; a divulgação de estudos através do Serviço de Informação Científica, criado em 1956, juntamente com o primeiro Curso Nestlé de Atualização em Pediatria; a distribuição de amostras de produtos para os pediatras, acompanhados de folhetos explicativos e orientações

36

sobre a composição química dos alimentos; o patrocínio de eventos científicos, até financiando a participação de profissionais, entre outros. Com esse tipo de estratégia, a Nestlé procurou influenciar a

formação de profissionais de saúde, especialmente dos pediatras, com

o objetivo de que o produto chegasse aos consumidores com o aval

médico. Lembramos que, desde 1930, as propagandas de leite em pó

incorporaram a figura do médico como avalista do produto, associando-o à ciência. Como uma autoridade do saber, respeitada

pela população, o médico era o intermediário ideal entre a indústria e

o público consumidor. (AMORIM, idem, P.106-107).

Não é de se estranhar o flerte entre a ciência e os interesses do Capital emergente,

pois como revela Foucault (2007, p.207),

“(

situações ou das práticas que ela reflete de um modo mais ou menos consciente; não é, tampouco, a questão de sua utilização eventual ou de todos os empregos abusivos que se possa dela fazer; é a questão de sua existência como prática discursiva e de seu funcionamento entre outras práticas”.

a questão da ideologia proposta à ciência não é a questão das

)

Portanto, ciência é essencialmente discurso, que tem a pretensão da verdade e que

não se dissocia do desejo e do poder.

A

ciência

torna-se

o

supremo

juiz

daquilo

que

devemos

ou

não

ingerir,

desqualificando ou restaurando alimentos, confirmando que não há neutralidade nesse

discurso, mas disputa de poder. Roberto Machado, na introdução de Foucault (2006),

ratifica a inexistência da neutralidade em um saber.

Todo conhecimento, seja científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios de saber. A investigação do saber não deve remeter a um sujeito de conhecimento que seria sua origem, mas a relações de poder que lhe constituem. Não há saber neutro. Todo saber é político. E isso não porque cai nas malhas do Estado, é apropriado por ele, que dele se serve como instrumento de dominação, descaracterizando seu núcleo essencial. Mas porque todo saber tem sua gênese em relações de poder. O fundamental da análise é que saber e poder se implicam mutuamente: não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício

37

do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber.

(FOUCAULT, 2000, p.XXI).

Machado afirma que saber e poder se implicam mutuamente, e essa percepção é

fundamental no processo de alfabetização científica que esse trabalho propõe. Foucault

(2007) nos alerta que a influência da ideologia sobre a ciência está além da própria

consciência dos sujeitos da construção.

A influência da ideologia sobre o discurso científico e o

funcionamento ideológico das ciências não se articulam no nível de

sua estrutura ideal, nem no nível de sua utilização técnica em uma

sociedade, nem no nível da consciência dos sujeitos que a constroem;

articulam-se onde a ciência se destaca sobre o saber. (FOUCAULT, 2007, p.207).

Podemos considerar que a própria comunidade científica ignora os fenômenos

sociais e políticos que influenciam a atividade científica. Por isso, no processo de

divulgação

científica

o

importante

é

informar

à

sociedade

sobre

os

mecanismos

institucionais relacionados com o controle, o financiamento e a organização da ciência.

Transmitir conteúdos não contribui para a compreensão de como a ciência funciona,

fortalecendo as ideologias do mito da ciência como verdade, e da neutralidade científica,

ou seja, a ciência como saber puro e autônomo, constituída sem a interferência de fatores

relacionados com a política, o social e o econômico. Fortalecer a crença no jornalismo

científico de caráter informativo, com o prefixo in caracterizando a ausência de uma

formação no fato a ser narrado, é próprio do jornalismo ao dividir os textos publicáveis

em informativos (como reportagens, entrevistas ou notícias), ou opinativos (como

editoriais, artigos e colunas). No próprio jornalismo científico encontramos as marcas do

sensacionalismo e do marketing, apropriadas para vender as notícias. Mariani (1998,

p.81) afirma que a mídia “está jogando no interior da própria ilusão que sustenta o mito

da informatividade para poder dizer / relatar o que lhe interessa”, ou seja, o jornalismo

38

científico

seleciona

os

produtos

científicos

que

causam

maior

impacto

e,

consequentemente

geram

maior

venda

de

mídia.

Coracini

(2003)

destaca

o

funcionamento da imprensa, revelando que ela faz circular o que interessa às instâncias

do poder.

a imprensa funciona construindo um modelo de compreensão dos

sentidos, instituindo uma ordem, isto é, organizando e fazendo circular os sentidos que interessam a instâncias que o dominam. Declarando-se comprometida com a verdade dos fatos, a imprensa finge não contribuir para a construção das evidências, atuando no mecanismo ideológico das aparências de obviedade. (p. 204)

) (

Segundo

Granger

(1994),

atualmente,

no

século

XXI,

a

ciência

ocupa

o

imaginário social como produtora de verdades e detentora de poder, conseqüência da

expansão do capitalismo, da transformação da ciência em mercadoria, e do surgimento

do jornalismo científico e da divulgação científica. Para entender como não é possível

narrar um fato não ideológico, presente na idéia das narrativas informativas, Deleuze

(2004) nos revela a transição da sociedade foucaultiana ou disciplinar para a de controle.

É certo que entramos em sociedades de “controle”, que já não são exatamente disciplinares. Foucault é com freqüência considerado como o pensador das sociedades de disciplina, e de sua técnica principal, o confinamento (não só o hospital e a prisão, mas a escola, a fábrica, a caserna). Porém, de fato, ele é um dos primeiros a dizer que as sociedades disciplinares são aquilo que estamos deixando para trás, o que já não somos. Estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea". (DELEUZE, 2004, p. 215-216).

Hardt (2000) complementa Deleuze, reforçando a onipresença desse controle, ao

afirmar que ele “é, assim, uma intensificação e uma generalização da disciplina, em que

as fronteiras das instituições foram ultrapassadas, tornadas permeáveis, de forma que não

há mais distinção entre fora e dentro". (HARDT, 2000, p.369). Pécheux (1995) afirma

que a prática discursiva é fundamentalmente ideológica, por isso, não há como pensar

em uma ciência asséptica.

39

Toda ciência qualquer que seja seu nível de desenvolvimento e seu lugar na estrutura teórica é produzida por um trabalho de mutação conceptual no interior de um campo conceptual ideológico em relação ao qual ela toma uma distância que lhe dá, num só movimento, o conhecimento das errâncias anteriores e a garantia de sua própria cientificidade. Nesse sentido, toda ciência é inicialmente ciência da ideologia da qual ela se destaca. (Pêcheux, 1995, p.63-64).

Portanto, não há ciência não ideológica, não há divulgação científica informativa,

pois em toda comunicação existem idéias circulando. Dessa forma, na comunicação

científica, não se trata apenas de transmitir conhecimentos, mas de determinar qual visão

de ciência encontra-se acoplada à atividade proposta.

Segundo Christovão Braga (1997, p.40), John Bernal cria na década de 40 o

termo comunicação científica para expressar entre pesquisadores “(

)

o amplo processo

de geração e transferência de informação científica”. Paul Hurd cria a denominação

alfabetização científica em uma publicação na década de 50, a Science Literacy: Its

Meaning for American Schools (HURD, 1958). Na década de 60, Garvey (1979)

apresenta um modelo onde o próprio pesquisador ou cientista é o emissor da informação

apresentada aos seus próprios pares. Bueno (1984) propõe a diferenciação dos termos

difusão científica, disseminação científica, e divulgação científica, considerando o

primeiro termo como sendo o mais amplo, abrangendo todos os processos usados com o

objetivo de comunicar a informação científica e tecnológica ao público em geral, ou seja,

para especialistas ou leigos. A disseminação científica “pressupõe a transferência de

informações científicas e tecnológicas, transcritas em códigos especializados, a um

público seleto, formado por especialistas” (BUENO, 1985, p. 1421). Bueno (ididem)

ainda propõe a diferenciação da disseminação científica em dois segmentos distintos,

intrapares

e

extrapares,

considerando

os

interlocutores.

No

primeiro

segmento,

a

comunicação acontece entre especialistas de uma mesma área do saber, o que permite

“códigos fechados” e “conteúdos específicos”. No segundo segmento, a propagação da

40

informação científica atinge um público também especialista, mas de outras áreas do

conhecimento,

estabelecendo

uma

comunicação

“interdisciplinar”.

A

divulgação

científica é o termo que aparece com mais freqüência na literatura, mas tem um sentido

mais restrito, pois busca apenas o público leigo, através da tradução da linguagem

especializada. Apesar do modelo proposto por Bueno, Hernández Cañadas (1987, p. 25),

observa

que

os

termos

difusão,

disseminação

e

divulgação

científicas

são

freqüentemente utilizados sem rigor conceitual, na literatura, sendo a difusão científica o

mais geral, significando “(

)

todo e qualquer processo ou recurso utilizado para a

veiculação de informações científicas e tecnológicas”. Concordando com a classificação

de Bueno, baseada em acordo com o público a que se destina a linguagem científica,

Cañadas propõe que a difusão científica, o termo mais geral, divida-se em disseminação

científica, difusão para especialistas e divulgação científica voltada para a circulação de

informação científica para o público em geral. Gonzalez (1992, p. 19) percebe a

divulgação científica como a “comunicação entre ciência e sociedade, sendo uma

democratização relativa do conhecimento científico, que legitima e reforça o perfil

ideológico da ciência.

O produto final desse trabalho pretende ser uma estratégia prática de divulgação

científica, ou seja, direcionado ao público em geral, mas revelando as contradições e os

conceitos presentes nos discursos científicos relacionados aos transtornos alimentares.

Também será um espaço para o processo de alfabetização científica, já que tem a

possibilidade de atingir pessoas de formações distintas, de faixas etárias diversas,

possibilitando que a grande maioria tenha acesso aos conceitos necessários para pensar

sobre conhecimentos científicos que sejam importantes para a sua saúde, e, dessa forma,

ajudar a resolver necessidades básicas de saúde, e adquirir percepção crítica das relações

complexas entre ciência e sociedade (FURIÓ et al., 2001). Chassot (2003, p.91) explica

41

a necessidade de haver alfabetização científica, pois sendo “a ciência uma linguagem (

)

ser alfabetizado científicamente é saber ler a linguagem em que está escrita a natureza”.

Mas, alerta com a pergunta “para que(m) é útil a alfabetização científica que fazemos?”

(ibidem,

p.99).

Portanto,

é

fundamental

que

haja

uma

alfabetização

crítica,

possibilitando que se perceba as contradições e interesses por trás de um discurso, seja

ele caracterizado como um artigo científico ou não.

Promover saúde é permitir o desenvolvimento de habilidades e atitudes para a

formação de uma consciência crítica e do empowerment pessoal (LAVERACK, 2001).

Não é intenção fornecer textos sem o seu desnudamento ideológico, pois como observa

Pozo (2002) há excesso de informação disponível.

Em comparação com outras culturas do passado, em nossa sociedade não é preciso buscar ativamente a informação, desejar aprender algo, para encontrá-la. É antes, a informação que nos busca, através da mediação imposta pelos canais de comunicação social. (POZO, 2002,

p.35).

De fato, Mueller (2000) observa a ampliação das formas de acesso e difusão de

informação,

mais

eficientes,

rápidas,

e

capazes

de

vencer

barreiras

geográficas,

hierárquicas e financeiras. Merton (apud PINHEIRO, 2002, p.10) reforça essa percepção

da velocidade da informação, destacando que “os canais informais apresentariam, entre

algumas vantagens, alta rapidez e seleção, avaliação e síntese da informação transmitida.

A velocidade da comunicação interpessoal, por exemplo, superaria em meses e até anos

as demais”. Portanto, transmitir simplesmente conteúdos, além de não contribuir em uma

sociedade abundante de informação, não possibilita dar uma visão adequada de ciência,

não contribuindo para que se compreenda como a ciência funciona, nem qual a ideologia

há por trás de cada movimento. Chassot (op. cit, p.90) nos diz que “se pode afirmar que

a globalização determinou, em tempos que nos são muito próximos, uma inversão no

42

fluxo do conhecimento. Se antes o sentido era da escola para a comunidade, hoje é o

mundo exterior que invade a escola”, de tanta informação que é produzida na forma de

livros, arquivos disponíveis na internet, filmes etc. Utilizar os canais midiáticos para

transmitir conhecimentos acríticos, com o adjetivo de serem científicos por terem sido

publicados, ou seguido metodologias aceitas na academia, é implantar um processo

passivo,

comumente encontrado

na

educação

tradicional,

também

denominada de

bancária por Paulo Freire (2001), pois o receptor apenas arquiva informações. E a

conseqüência dessa educação é formar pessoas medíocres, a-históricas, como observa

Collares et al (1999).

O objeto cognoscível de que esse sujeito se apropria, ’forma-o’ pela incorporação não transformada dos conhecimentos adquiridos. Do ponto de vista da ciência clássica, a educação como formação intelectual forma os sujeitos transformando-os em seres a-históricos, racionais, em que o espaço para os acontecimentos está desde sempre afastado. Trata-se de negar a contingência da subjetividade para evitar o que ela supostamente seria: uma fonte de erros ou de perturbações (COLLARES et al., 1999, p.207).

Santos (1991, p.32) observa que o próprio método científico transformou-se em

um “mito de um método todo poderoso, universalmente fecundo, especial, mecânico e

perene a que os cientistas recorrem para chegar à verdade; (

)”.

Isso ocorreu porque,

durante séculos, a metodologia quantitativa de provar o conhecimento afastava qualquer

dúvida sobre esse saber, mas novas teorias apareceram (LAKATOS, 1979). Entre elas,

podemos

citar

Maturana

e

Varela

(2004)

que

propõem

uma

resgatando o lugar do qualitativo e do subjetivo.

nova

metodologia,

) (

“fatos” ou objetos lá fora, que alguém capta e introduz na cabeça. ( ) tudo o que é dito é dito por alguém. Toda reflexão faz surgir um mundo. Assim, a reflexão é um fazer humano, realizado por alguém em particular num determinado lugar. (P.31-32, grifo do autor).

não se pode tomar o fenômeno do conhecer como se houvesse

Chassot (2003, p.96) considera o livro Contra o método como uma das “obras

que foram decisivas para novas concepções de ciência”, e ainda, após destacar adjetivos

43

para seu autor, afirma que prefere estar ao

conservadoras.

lado

dele, que ao

lado

de posições

Então, mais uma vez, me parece claro por que Feyerabend, um dos críticos mais perspicazes, faz análises da ciência tão desestabilizadoras. Não é sem razão que ele é chamado em rodas mais fechadas de “terrorista epistemológico”, tendo sido chamado por alguns físicos, mais recentemente, de “o pior inimigo da ciência”, encabeçando uma lista em que são nomeados Karl Popper, Imre Lakatos e Thomas Kuhn (Regner, 1996). Prefiro estar ao lado de Feyerabend, e não de seus críticos conservadores. (ibidem, grifo do autor).

O trecho a seguir permite avaliar a concepção de Feyerabend (2007) para a ciência.

Segue-se também que procedimentos “não-científicos” não podem ser postos de lado por argumentos. Dizer “o procedimento que você usou não é científico, portanto não podemos confiar em seus resultados nem lhe dar dinheiro para pesquisa” pressupõe que a “ciência” seja bem-sucedida e é bem-sucedida porque usa procedimentos uniformes. A primeira parte da asserção (“a ciência é sempre bem-sucedida”) não é verdadeira, caso por “ciência” queiramos nos referir a coisas feitas por cientistas há também muitos fracassos. A segunda parte que os sucessos devem-se a procedimentos uniformes não é verdadeira, porque não há tais procedimentos. Cientistas são como arquitetos que constroem edifícios de diferentes tamanhos e diferentes formas, que podem ser avaliados somente depois do evento, isto é, só depois de terem concluído sua estrutura. Talvez ela fique de pé, talvez desabe ninguém sabe. (p. 20-21, grifo do autor).

Luckesi (1994) afirma que não existe educação livre de ideologias dominantes,

sendo fundamental que ocorra reflexão sobre o próprio processo educativo. “Trata-se de

‘aprender a aprender’, ou seja, é mais importante o processo de aquisição do saber do

que o saber propriamente dito. (LUCKESI, 1994, p.58). O processo de “aprender a

aprender” exige um diálogo entre interlocutores ativos e iguais (FREIRE, 2001). Silva e

Fernandez (2007, p.29) observam que deve haver “ruptura com idéias originárias do

pensamento positivista, segundo o qual o conhecimento científico consiste na descrição

positiva dos fenômenos da natureza, idéias que apóiam a transmissão e não a construção

do conhecimento”. Caso contrário, permanece a crítica de Chassot (2010) que em

44

entrevista à Revista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) constata que “a maioria do

que ensinamos não serve para nada, ou ainda mais trágico: serve para aumentar a

dominação. Muito do que ensinamos serve até para fazer alunas e alunos mais reféns dos

dominadores”.

Portanto, o produto final dessa dissertação materializa o processo de divulgação

científica no site <www.anorexiaebulimia.com>, com o objetivo de promover saúde

integral, gerar desenvolvimento das potencialidades, da autonomia, e contribuir para a

transformação da própria realidade (CANDEIAS, 1997), participando da proposta

presente no relatório final da XI Conferência Nacional de Saúde.

As Políticas de IEC (Informação, Educação e Comunicação) devem

) (

de doenças, a educação para a saúde, a proteção da vida, a assistência curativa e a reabilitação sob responsabilidade das três esferas de governo, utilizando pedagogia crítica, que leve o usuário a ter conhecimento também de seus direitos; dar visibilidade à oferta de serviços e ações de saúde do SUS; motivar os cidadãos a exercer os seus direitos e cobrar as responsabilidades dos gestores públicos e dos

estar voltadas para a promoção da saúde, que abrange a prevenção

prestadores de serviços de saúde. (CNS, 2010, item 208, grifo nosso)

A proposta é utilizar o ambiente da internet e recursos presentes em serviços

como correio eletrônico, listas de discussão, hipertextos, entre outros disponíveis, e

estabelecer uma comunicação informal entre os usuários do site, que são pesquisadores

de diversas áreas do conhecimento, leigos com interesse em assuntos relacionados à

saúde, ou, principalmente, pessoas que sofrem direta ou indiretamente as conseqüências

dos transtornos alimentares, possibilitando o desenvolvimento de autonomia no processo

de tomadas de decisão, e oferecendo novos caminhos de divulgação do pensamento

científico (PINHEIRO, 2002). O espaço informal foi propositalmente selecionado, já que

as pessoas que sofrem de transtornos alimentares, principalmente anoréxicas e bulímicas,

gostam de manter sua privacidade, não revelando, muitas vezes, nem aos parentes ou

45

amigos mais próximos, sua relação conflitante com os alimentos. Nonin (1999, p.690,

destaque nosso) percebe que

O isolamento é outro aspecto a ter em consideração, uma vez que se encontra freqüentemente associado à depressão. Muitas vezes o início da dieta da anorética é induzido, de acordo com a própria, pelo fato de se sentir gorda e, logo, ostracizada pelos seus pares.

Característica também percebida por Appolinário & Claudino (2000, p.28-29), ao

afirmarem que, “gradativamente, as pacientes passam a viver exclusivamente em função

da dieta, da comida, do peso e da forma corporal, restringindo seu campo de interesses e

levando ao gradativo isolamento social” (destaque nosso). Portanto, o contato através de

uma mídia que permite perfis fakes ou e-mails que não revelam imediatamente a

verdadeira identidade é facilitado, permitindo que se inicie um processo educacional,

que vem a ser, inclusive, sugerido pela ADA (1994) como a primeira fase do processo

terapêutico para pacientes com anorexia nervosa. Apesar do verbo educar ter sua origem

no latim educere, que significa conduzir, nosso projeto educacional se inspira em Paulo

Freire (1972), através da construção de canais de diálogos, da implantação de uma

pedagogia não-normativa que possibilita encontros e trocas entre o público especializado

e o leigo.

No aspecto da divulgação científica, é importante o espaço para que o público em

geral tenha acesso a informações contraditórias no campo da saúde. A democracia nas

informações

é,

de

certa

maneira,

ilusória,

pois

no

campo

da

saúde

os

grandes

laboratórios dominam as mídias com compras de espaços publicitários, situação já

alertada por Landmann (1983).

As companhias farmacêuticas não se limitam a agir sobre o médico e o farmacêutico. Hoje, raros são os programas da televisão comercial que não tenham mensagens de remédios para resfriados comuns, cefaléias, distúrbios digestivos e doenças do “fígado”, além da publicidade de fortificantes e vitaminas feita como panacéia, por artistas, desportistas ou outras figuras conhecidas. (p.114).

46

Apesar disso, o produto final dessa monografia pretende estar em contínuo

processo de elaboração, a fim de, nas palavras de Pereira et al. (2000, p.39), “oferecer

oportunidades para que as pessoas conquistem a autonomia necessária para a tomada de

decisão sobre aspectos que afetam suas vidas”, sem provocar culpa por não terem

tomado conta de sua saúde de maneira adequada (BERLINGUER, 1996). Apesar de Ilya

Prigogine, prêmio Nobel de química em 1977 ter afirmado que somente tinha “uma

certeza: as de minhas incertezas” (LÊ MONDE, 1989, p.59), a prática médica, apesar de

desconhecer a etiologia dos transtornos alimentares, continua efetuando terapêuticas, e

ignorando suas incertezas.

47

3. A COMUNIDADE DO ORKUT

O Ibope Nielsen Online (2010a), em julho de 2009, revelou dados de uma

pesquisa realizada sobre o índice de pessoas conectadas em nosso país, tendo destaque a

informação de que os sites de redes sociais tiveram importância para o crescimento do

tempo médio de conexão do internauta brasileiro.

No mês de julho de 2009, 36,4 milhões de pessoas usaram a internet no trabalho ou em residências, o que significa um crescimento de 10%

Entre os

internautas residenciais, o número de usuários ativos chegou a 27,5

milhões de pessoas, um crescimento de 7,4% em relação aos 25,6 milhões do mês anterior e de 16% sobre os 23,7 milhões de julho de 2008. O tempo de navegação em residências em julho cresceu 9%

sobre junho e 21% sobre julho de 2008, e atingiu a marca inédita de 30

horas e 13 minutos por pessoa. (

pessoa, as categorias que mais cresceram foram Entretenimento, com 13,3%, Buscadores, Portais e Comunidades, com 10,8%, e Telecomunicações e Serviços de Internet, com 9,5%. “Sites de redes

sociais, de comunicação e de entretenimento foram os que mais contribuíram para o crescimento do tempo médio de uso do internauta brasileiro no mês de julho”, informou José Calazans, analista de mídia do IBOPE Nielsen Online. (IBOPE, 2010a, grifo nosso).

Em tempo de navegação por

sobre os 33,2 milhões registrados no mês de junho. (

)

)

Entre os sites de redes sociais, Araújo (2006, p. 30) destaca a velocidade do

Orkut, lançado de forma discreta em 22 de janeiro de 2004, na conquista de novos

membros, ultrapassando a marca de 2.000.000 membros em menos de um ano, sendo

que deste total, 75% dos usuários são brasileiros. Melo (2007, p.11) observa também que

“o Orkut tem causado um grande sucesso entre usuários brasileiros. Tal sucesso reflete-

se também no fato de que apesar de ser um serviço desenvolvido e hospedado nos EUA,

o Brasil é o país com mais usuários cadastrados no Orkut”. Na figura 1, disponibilizada

pela própria Google, podemos constatar a informação de que é o Brasil o país com o

maior número de usuários, seguido por Índia, sendo os Estados Unidos da América o

terceiro

colocado,

apesar

de

ser

o

local

onde

se

encontra

a

sede

da

Google,

48

administradora do Orkut. Interessante observar que no Japão o Orkut sofre uma

concorrência direta do líder Yahoo, desenvolvido, coordenado e localizado no Japão.

Yahoo , desenvolvido, coordenado e localizado no Japão. Figura 1. Levantamento sobre países usuários do Orkut.

Figura 1. Levantamento sobre países usuários do Orkut.

Para melhor compreender o conceito da rede social Orkut, filiada ao Google

(companhia americana serviços na Internet, em <www.google.com>), Melo (2007)

define esse serviço como sendo um facilitador de contato entre usuários que têm

interesses em comum. Um local que tem o objetivo de ajudar seus membros a criar

novas amizades e manter relacionamentos. Mas não podemos deixar de observar a

autodefinição do Orkut.

O

orkut é uma comunidade on-line criada para tornar a sua vida social

e

a de seus amigos mais ativa e estimulante. A rede social do orkut

pode ajudá-lo a manter contato com seus amigos atuais por meio de fotos e mensagens, e a conhecer mais pessoas. Com o orkut é fácil conhecer pessoas que tenham os mesmos hobbies e interesses que você, que estejam procurando um relacionamento afetivo ou contatos

profissionais. Você também pode criar comunidades on-line ou

49

participar de várias delas para discutir temas atuais, reencontrar antigos amigos da escola ou até mesmo trocar receitas favoritas.Você decide com quem quer interagir. Antes de conhecer uma pessoa no orkut, você pode ler seu perfil e ver como ela está conectada a você através

da rede de amigos (

). (ORKUT, 2010a).

Em 30/10/2009, o Ibope Nielsen Online (2010b) publicou notícia divulgada no

jornal Brasil Econômico, informando que a rede social Orkut ainda detém grande

penetração entre os usuários da Internet, no Brasil.

Criada em 2004 pelo engenheiro turco do Google, Orkut Buyukkokten, a rede social que tem o nome do seu criador foi dominada pelos

usuários brasileiros sem nunca ter feito sucesso nos Estados Unidos e

na

Na opinião de José Calazans, analista de mídia do

IBOPE Nielsen Online, pelo menos por enquanto o Orkut não precisa

se preocupar com o Facebook no Brasil, uma vez que o site ainda

detém 73% de penetração entre os usuários da web nacional. (IBOPE,

2010b).

Europa. (

)

De fato, os brasileiros estabeleceram na internet a febre do Orkut, contribuindo

para que essa rede social seja o site com mais page views (páginas visualizadas) do

Google no mundo. Uma das possíveis explicações para este fenômeno encontra-se na

estratégia do Orkut, ao lançar a novidade, se diferenciando de outras redes, de permitir

que os usuários criassem comunidades temáticas, que se caracterizam pelo debate e

discussão em torno de um interesse comum. Aliás, a formação de comunidades pessoais

é, segundo Meneses (2004), um dos pontos fortes do Orkut. Melo (id) também observa

que os elementos característicos das comunidades do Orkut são os temas, sendo

justamente o interesse por conteúdo informacional comum o fator estimulante para a

associação do usuário.

A presença dessas comunidades no Orkut é o que mais claramente

aproxima este serviço de redes sociais às comunidades virtuais tradicionais. Estes ambientes se caracterizam pelo debate e discussão em torno de uma temática ou interesse comum e a geração de valores compartilhados e do sentimento de pertencimento. (ibidem, p. 37).

50

As características gerais que podem definir uma Comunidade Virtual são o de

possuir membros efetivos, com sentimentos de reciprocidade e idéias compartilhados

comuns aos ideais da comunidade, e que se relacionam através do ambiente fórum,

dividido em tópicos com assuntos propostos pelos usuários que os criam. Esse é o

espaço próprio para as discussões entre os membros de uma determinada comunidade,

que têm a opção de participar de um tópico já existente ou de criar um novo tópico.

Sobre o fórum, Melo (ibidem, p. 41) informa:

O fórum, sessão do Orkut analisada neste trabalho, está disponível em cada uma das comunidades temáticas e é dividido em tópicos por assuntos propostos pelo usuário que inicia o tópico. Portanto, um fórum é formado por um conjunto de tópicos de discussões de uma dada comunidade. É no espaço delimitado por cada tópico onde ocorrem efetivamente as discussões entre os usuários membros de uma dada comunidade. O fórum, assim, apresenta-se como o ambiente ideal para que ocorram as interações assíncronas entre os usuários do Orkut. Além dos tópicos, uma comunidade do Orkut também comporta uma seção chamada Eventos em que os usuários podem postar mensagens a respeito de eventos que digam respeito ao tema discutido na comunidade.

Um tópico no fórum é iniciado por qualquer membro da comunidade, que posta

uma informação ou opinião que pode ser comentada ou não por outro usuário, incluindo

o próprio emissor. A troca de comentários estabelece as interações entre os usuários. No

entanto, a ausência de interação de algum usuário pode classificá-lo como lurkers,

denominação proposta por Takahashi e Fujimoto (2002 apud CHANDRASEKAR,

2004), para definir os usuários que estão em uma comunidade apenas para receber

informações, não trazendo nenhuma contribuição aos outros membros.

No

final

de

2008,

o

Ibope

Nielsen

Online

(2010c)

fez

um

importante

levantamento mostrando que o cuidado com a aparência e dietas dominam os blogs e as

comunidades sobre saúde e bem-estar.

Interessante observar que as comunidades

51

menores e que estão relacionadas com o tema de emagrecimento são as que apresentam

maior índice de atividade no fluxo de comentários nos fóruns.

Milhares de brasileiros recorrem à blogosfera e às comunidades digitais para se informar sobre saúde e bem-estar, mas os maiores níveis de atividade foram detectados em comunidades de menor porte, destinadas à troca de informações específicas sobre dietas, segundo levantamento do IBOPE Inteligência para o site MinhaVida.com.br. O trabalho analisou mais de uma centena de blogs e 760 comunidades no Orkut, buscando identificar os temas que despertavam maior interação entre os usuários e os formadores de opinião sobre o assunto. Verificamos que os maiores níveis de atividade não estão nas comunidades de maior porte, mas sim nas voltadas para temas específicos, como dietas, que chegam a apresentar um volume médio de mais de 120 comentários por postagens em alguns casos”, afirma Marcelo Coutinho, diretor de análise de mercado do IBOPE Inteligência. Segundo o IBOPE, as comunidades sobre “emagrecimento” predominam na categoria saúde e apresentam uma intensidade no fluxo de comentários maiores que os verificados nas que se propõem a discutir o conceito de vida saudável. O trabalho detectou, também, um elevado número de links recíprocos entre elas, mostrando que as pessoas interessadas em dicas de emagrecimento freqüentam várias simultaneamente, fazendo com que elas ocupem posições

centrais dentro da rede (

).

(IBOPE, 2010c, grifo nosso).

De fato, foi possível observar esses índices na comunidade “Anorexia e Bulimia

nova visão”, desde sua criação em 2006, pelo autor dessa dissertação.

3.1. A Comunidade “Anorexia e Bulimia nova visão”

Já no primeiro ano da comunidade construída no Orkut, houve uma grande

filiação de pessoas interessadas em discutir sobre transtornos alimentares. Na figura 2

pode ser visto a página inicial que contém a descrição desta comunidade.

52

52 Figura 2. Página inicial da comunidade. Foram criados 48 tópicos , mas o volume de

Figura 2. Página inicial da comunidade.

Foram criados 48 tópicos, mas o volume de comentários em tópicos com o título

“formas de emagrecer” e “formas de emagrecer (2)”, postados por usuárias, foi bastante

elevado, com 744 e 249 postagens respectivamente, confirmando a percepção do Ibope.

O tópico criado anonimamente em 4 de novembro de 2009, com o título de “Indique

coisas fáceis de vomitar”, com 80 postagens até o momento, também merece destaque

por seu tema, conforme imagem a seguir.

merece destaque por seu tema, conforme imagem a seguir. Figura 3. Tópico “indique coisas fáceis de

Figura 3. Tópico “indique coisas fáceis de vomitar”.

Exceto por um tópico criado pelo coordenador da comunidade, todos os outros

foram colocados pelos membros da comunidade. No entanto, 52,08% dos tópicos, ou

seja, 25 tópicos, não geraram comentários, se restringindo apenas ao texto do seu

53

criador. A grande maioria desses tópicos são apelos para que os usuários participem de

reportagens ou de pesquisas.

Outros propõem temas que fogem da questão dos

transtornos alimentares, como o que sugere que uma pessoa “descubra o nome de seu par

ideal”, em uma espécie de corrente, ou os que dizem “não ao ato médico!! Vamos

repassar e votar

!!”

e “contra os desmandos do Senado!!”, protestando contra o projeto

de regulamentação da medicina. Outros divulgam tratamentos, clínicas ou sites de ajuda

àqueles que sofrem de transtornos alimentares, como o “grupo de discussões para mães –

psiquiatria infantil”, o “grupo de estudo msn”, o “Chat de MSN gratuito”, e o “site

excelente para aludar a tds e tirar dúvidas

(foi mantida a grafia da postagem). Não há

a informação sobre se essas postagens tiveram êxito em seu marketing de utilizar o

fórum da comunidade para a divulgação do trabalho que realizam, já que o interessado

pode entrar em contato direto com os autores.

Apenas 5 tópicos despertaram grande interesse, “Ficha de anamnese”, “Formas d

emagrecer” (postado com essa grafia), “A ficha”, “Formas de emagrecer (2)”, e

“Anorexia é tudo de bom”, com mais de 140 comentários cada um, sendo os dois

primeiros concentrado mais de 700 comentários. Com o tema “formas d emagrecer” e

747 postagens, esse tópico confirma o interesse que o assunto desperta entre os usuários,

conforme comentado acima. O tópico “Ficha de anamnese” concentra postagens de

pessoas que solicitam ajuda para solucionar seu transtorno alimentar.

54

54 Figura 4. Página Fórum, onde são criados os tópicos. A comunidade “Anorexia e Bulimia Nova

Figura 4. Página Fórum, onde são criados os tópicos.

A comunidade “Anorexia e Bulimia Nova Visão” possui atualmente 1466

membros, sendo a grande maioria composta por mulheres jovens envolvidas direta ou

indiretamente com o tema transtornos alimentares. Cerca de 20% dessas pessoas utilizam

perfis falsos, ou seja, nomes trocados e, geralmente, fotos de modelos ilustrando o perfil.

Muitas adotam como nome ou sobrenome os termos “mia” ou “ana”, designando suas

preferências

pela

bulimia

ou

anorexia

respectivamente.

938

pessoas,

a

maioria

participante da comunidade, enviaram pedido de ajuda para o seu problema relacionado

com a alimentação, seja anorexia, bulimia ou obesidade, tendo recebido e respondido

uma ficha de anamnese a fim de possibilitar a construção de parâmetros individuais e

coletivos.

A ficha de anamnese, estruturada dentro da análise proposta pela medicina

tradicional chinesa, visualizada em anexo, coleta informações sobre dados pessoais,

como data e local de nascimento, peso e altura, autopercepção do estado emocional,

sono, digestão, alimentação preferida, utilização de medicamentos, chás, laxantes ou

diuréticos, além de depoimento livre sobre seu transtorno alimentar. Grande parte dessas

55

pessoas, apenas se inscreveu na comunidade com o objetivo de receber ajuda. Ao

receberem a ficha de anamnese, preenchem, enviam as informações de volta, e, a partir

deste ponto, se retiram da comunidade, estabelecendo contato direto com o coordenador

por e-mail, em geral por receio de serem descobertas por amigos e, ou, familiares,

mesmo utilizando perfis fantasias.

O formato das comunidades virtuais é adequado para estimular o aprendizado

informal, em função dos espaços disponibilizados para troca de idéias e informações. No

caso dos transtornos alimentares, o espaço informal é importante a fim de se tentar

estabelecer um contato real, mesmo que seja através de um perfil fake 8 , adotado pelo

usuário da comunidade. De fato é extremamente difícil estabelecer contatos mais

próximos com pessoas que desenvolvem transtornos alimentares, em função de seus

medos, vergonhas, e sentimentos, sendo essa dificuldade um dos aspectos principais que

afetam as pesquisas científicas, conforme constatam vários autores, por exemplo, Kaplan

(2002, p.238) e Giordani (2006, p.81) que afirmam que anoréxicos costumam não

confiar em médicos, sentindo grande reação negativa em relação aos tratamentos. Nos

tópicos da comunidade, podemos também perceber essa dificuldade, em função do apelo

de pesquisadores e jornalistas para que usuários da comunidade participem de suas

pesquisas e entrevistas, mesmo anonimamente. Em 23 de setembro de 2009, uma

jornalista criou um tópico se apresentando e solicitando a participação de algum usuário

para a matéria no Jornal do Brasil.

8 Fake (falso em inglês) é um termo usado para denominar contas ou perfis usados na internet para ocultar a identidade real de um usuário. Para isso são usadas identidades de famosos, personagens de filmes, desenhos animados, animes e até mesmo de pessoas conhecidas do dono da conta. Como não se sabe a identidade real do usuário, é comum chamar o seu perfil de "fake". De maneira geral, os "fakes" são comumente encontrados em sites de relacionamento (como o orkut), mas também existem em serviços de mensagem instantânea (como o msn messenger) e fóruns. Uma das finalidades de um fake é dar opiniões sem se identificar, evitando constrangimentos ou ameaças pessoais ao opinante ( (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fake)

56

Sou repórter do Jornal do Brasil, e estou fazendo uma matéria sobre distúrbios alimentares de uma forma geral. Serão abordados tanto os mais conhecidos, como bulimia e anorexia, como Brancorexia (pessoa

deixa de se alimentar em troca do consumo maior de bebida alcoólica)

e Diabulimia (quando os diabéticos comem os alimentos que não

podem e depois vomitam). Gostaria de saber se alguém pode me

ajudar, em uma conversa, mesmo que a pessoa não queira se identificar

na matéria. Por favor, enviem um e-mail para (

).

No dia seguinte, uma repórter da Rede Gazeta do Espírito Santo, também solicita

a ajuda de alguém da comunidade para participação, através de depoimento.

Desculpem por invadir esse espaço. Sou repórter da Rede Gazeta, no Espírito Santo (www.gazetaonline.com.br) e estou fazendo uma matéria sobre a drunkorexia ou alcoorexia, que também vai abordar outros comportamentos alimentares de risco, anorexia e bulimia. Estou atrás de pessoas que têm ou tiveram esses problemas e que possam me dar um depoimento sobre como começou, as dificuldades enfrentadas, como decidiram buscar ajuda. Se alguém aqui puder me ajudar, agradeço. Não é preciso se identificar, vamos preservar a identidade de quem se dispuser a falar. Peço que entrem em contato pelo orkut ou pelo e-mail (

Em outubro de 2009, uma repórter de uma afiliada da Rede Globo de São Paulo

também solicita a participação de pessoas para sai matéria.

E preciso muito da ajuda de quem se habilitar e puder dar um relato da

experiência que teve ou tem com essas doenças. Eu sei que é supercomplicado falar sobre isso, mas achei que recorrendo às comunidades do orkut, um espaço onde as pessoas discutem os temas abertamente, eu poderia encontrar alguém que topasse falar. Se alguém

Podemos conversar por

puder me ajudar, pode mandar um email (

se a pessoa preferir podemos omitir a

email mesmo ou msn identidade real na matéria

)

No final de 2009, uma jornalista da Editora Abril envia um e-mail pedindo que o

coordenador da comunidade divulgue na comunidade que a Revista “Sou+Eu!” oferece

um cachê de R$ 1.000,00 para alguém que esteja disposto a dar um depoimento sobre

drunkroxia, um transtorno que combina a anorexia com o alcoolismo.

57

Uma aluna de uma escola técnica, no Rio Grande do Sul, também criou um

tópico solicitando que os usuários da comunidade respondessem a um questionário para

sua pesquisa.

Olá, não estou aqui para julgar ninguém, apenas para concluir um

projeto de pesquisa. São aluna da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha de Novo Hamburgo-RS. Meu projeto é voltado para pessoas com anorexia e bulimia, então se puderem responder, me ajudariam muito, no mais, o questionário: Essa pesquisa busca compreender as pessoas com anorexia e bulimia que procuram auxilio na internet para atingir sua meta: o corpo ‘’perfeito’’. O questionário é formado de questões mistas, nas quais você deve marcar um X na resposta em que se adequar ou preencher o espaço se sua resposta não estiver entre as dadas. Por favor preencha com sinceridade e honestidade as questões. 1- Na sua opinião, como é um corpo perfeito?

( )magro ( ) gordo ( ) malhado ( )

2- O que você já fez o que para atingir esse corpo?

( ) Regime ( ) atividade física ( )

3- Sua família sabe sobre este seu esforço para atingir a sua meta?

( ) sim ( ) não

4- Ao postar em sites relacionados ao corpo que você quer atingir, o

que buscou?

( ) dicas ( ) incentivo ( ) apoio ( ) 5- E esses sites lhe ajudaram?

( ) sim ( ) não

6- Você sabe dos riscos que corre?

( ) sim ( ) não ( ) alguns

Uma estudante de jornalismo solicita a colaboração de usuárias da comunidade

para responder a um questionário de seu Trabalho de Conclusão de Curso.

Sou estudante de jornalismo e estou buscando fontes para entrevistas para o meu Trabalho de Conclusão de Curso. Preciso entender um pouquinho mais sobre anorexia, são poucas perguntinhas. E as identidades serão preservadas.

Um estudante de jornalismo cria um tópico solicitando depoimento de algum

homem com anorexia.

Faço faculdade de jornalismo, e como proposta de avaliação temos que escrever uma reportagem. O tema que escolhi foi, "homens com anorexia", senti essa necessidade pelo fato de ver na mídia uma grande quantidade de informações voltadas ás mulheres e pouca coisa sobre homens com esse transtorno alimentar. Gostaria de saber se algum homem, que já passou por esse problema gostaria de me ajudar. Sei

58

que para muitas pessoas não é uma coisa fácil falar sobre um problema

desses, mas caso alguém queira me ajudar, meu email é (

).

Todos esses exemplos confirmam a dificuldade encontrada para entrar em

contato

com

pessoas

que

sofrem

de

transtornos

alimentares.

A

alternativa

para

pesquisadores ou jornalistas é solicitar ajuda através da intermediação de comunidades

no Orkut e blogs relacionados com o tema. Não há como saber se houve contato das

usuárias com os autores dessas postagens, pois constam endereços e telefones para

comunicação direta, sem a necessidade de intermediação da comunidade. Além disso, o

coordenador da comunidade também percebe que a preferência de contato é através de

comunicação direta, conforme já observado anteriormente, através do tópico “ficha de

anamnese”, pois recebe e-mails de pessoas que nem são usuárias da comunidade, e que

se justificam pelo medo de terem seus transtornos descobertos por conhecidos. Essa

característica foi importante para a pesquisa, pois o processo de comunicação direta com

os usuários, gerado pela criação e coordenação da comunidade, abriu espaço para

compreender as dificuldades e realidades dessas pessoas.

É difícil estabelecer um perfil definido dos usuários do Orkut, pois este se

constitui como um serviço de rede social aberto, não havendo nenhuma restrição, a não

ser na divulgação de conteúdos ilegais. Além disso, os perfis são fornecidos pelo

usuário, não havendo garantias de que as informações sejam verdadeiras. Mas, o próprio

Orkut, no link “sobre o Orkut”, apresenta dados referentes ao seu público, apresentado

em gráficos de barras horizontais, trazendo informações estatísticas por faixa etária,

interesses que buscam no Orkut, e que relacionamento afetivo estão vivenciando.

59

59 Figura 5. Idade dos freqüentadores do Orkut. Figura 6. Interesses dos freqüentadores do Orkut. Os

Figura 5. Idade dos freqüentadores do Orkut.

59 Figura 5. Idade dos freqüentadores do Orkut. Figura 6. Interesses dos freqüentadores do Orkut. Os

Figura 6. Interesses dos freqüentadores do Orkut.

Os dois gráficos apresentados nas figuras 5 e 6 mostram que o grande público do

Orkut encontra-se abaixo dos trinta anos, com 68,95%. É justamente nessa faixa em que

encontramos o maior número de pessoas com transtornos alimentares. Na questão dos

interesses, o objetivo de conquistar novos amigos está relacionado com a atração que as

comunidades despertam por proporem o encontro de pessoas com objetivos comuns.

Apesar dos recursos disponibilizados pelo Orkut, incluindo links para vídeos

postados

no

youtube.com,

uma situação

provocada,

corretamente, pelo

Ministério

Público, considerou necessário o estabelecimento de um maior controle do conteúdo

postado pelos usuários e comunidades, o que provocou a postagem pelo Orkut de um

texto, e o estabelecimento de Termos de Serviços (ORKUT, 2010b), em 16 de abril de

2007,

disponibilizando

a

possibilidade

de

denúncia

de

violações

estabelecidos, através do link “denunciar abuso”.

aos

termos

Gostamos do orkut tanto quanto você e queremos que continue a ser um espaço interessante e limpo - ou, como costumamos dizer, bonito. Ultimamente, o orkut tem sido grande foco de atenção da mídia brasileira, dando a impressão de que nossa comunidade está

60

impregnada de atividades ilegais e usuários insatisfeitos. Qualquer

usuário ativo do orkut sabe que isso simplesmente não é verdade, e que, de fato, o sucesso do nosso site se deve sobretudo à habilidade de nossos membros de criar conteúdo e comunidades interessantes e que isso constitui a grande maioria do conteúdo e das pessoas que fazem parte do orkut. Na realidade, as 50 principais comunidades do orkut, com o total de mais de 37 milhões de membros e aproximadamente 1,3 milhão de visitantes por dia, não têm nenhum tipo de conteúdo ilegal.

) (

O sucesso do orkut se deve a você, a todos os nossos usuários e ao

conteúdo criado por todos. Com isso em mente, contamos com nossos usuários e pedimos que nos notifiquem sobre possíveis violações de nossos Termos de Serviço. Isso pode ser feito por e- mail ou clicando no link "denunciar abuso" exibido em destaque em todas as páginas do orkut.com. De nossa parte, vamos analisar o perfil ou a comunidade em questão individualmente e, se constatarmos que houve alguma infração de nossos termos de serviço, vamos

remover o conteúdo e desativar a conta por meio da qual ele foi criado.

) (

Lamentamos muito os casos em que nossos usuários se deparam

com conteúdo ilegal ou ofensivo no orkut. É importante diferenciar conteúdo ofensivo ou impróprio de conteúdo ilegal. Sempre haverá

algum material que algumas pessoas considerarão ofensivo ou impróprio, embora não seja ilegal ou contrário às políticas do orkut. Evidentemente, é impossível eliminar totalmente todo conteúdo ofensivo de qualquer comunidade que inclua milhões de pessoas, seja

on-line ou off-line. (

Mesmo assim, estamos fazendo o possível para

encontrar mais maneiras de minimizá-lo. Por exemplo, nos últimos anos trabalhamos muito no desenvolvimento de um software que consiga identificar de modo eficaz o significado do conteúdo de uma página web específica, para ajudar as pessoas a encontrar informações relevantes em bilhões de páginas. Agora, estamos experimentando

formas de aplicar essa tecnologia para detectar e eliminar conteúdo questionável do orkut. (ORKUT, 2010c, grifo nosso).

)

Atualmente, esse link de denúncia foi alterado, mas, de qualquer forma, isso

gerou uma instabilidade, pois mesmo não descumprindo nenhuma norma, uma simples

denúncia anônima possibilita a retirada da permanência da comunidade do “ar”, um risco

desnecessário.

Assim,

o

produto

final

dessa

pesquisa

foi

estabelecido

como

um

site,

<www.anorexiaebulimia.com>,

especificamente

construído

através

da

análise

gerada

pela

comunidade “Anorexia e Bulimia Nova Visão”, aproveitando a disponibilidade de mais recursos,

e o foco de possibilitar a divulgação científica sobre o tema relacionado com os transtornos

alimentares.

61

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Pesquisa Qualitativa

Esta pesquisa de cunho qualitativo se realizou em decorrência da espontânea

participação de pessoas em uma comunidade no Orkut. A comunidade “Anorexia e

Bulimia Nova Visão” foi um espaço que permitiu a manifestação livre de pessoas que

vivem transtornos alimentares, facilitando o estudo dos fenômenos em seu setting 9

natural (DENZIN E LINCOLN, 1994). A tarefa de coletar e observar os dados iniciou

em 2006, e foi extensa e árdua, mas, segundo Downey e Ireland (1979) em qualquer

pesquisa, seja quantitativa ou qualitativa, esse processo será sempre problemático.

O objetivo principal foi o de interpretar os depoimentos que foram sendo

publicados na comunidade, no espaço Fórum, e nos e-mails e fichas de anamnese 10 que

foram sendo enviados. As hipóteses não estavam presentes antes da formação da

comunidade, mas foram sendo construídas a partir de observações. Isto significa que,

inicialmente, não havia uma idéia sobre como se dava o fenômeno dos transtornos, e, por

isso, foi necessário tentar compreendê-los a partir da perspectiva dos participantes. Em

razão do desconhecimento de sua etiologia e da complexidade dos fatores, o tema dos

transtornos alimentares precisa ser investigado qualitativamente. Sanches e Minayo

(1993), ao caracterizar os aspectos da pesquisa qualitativa, observaram que ela é

apropriada em situações onde há necessidade de se aprofundar fatos e processos que

sejam altamente complexos, o que representa a problemática do nosso tema. Não é

possível

reduzir

os

fenômenos

presentes

nos

transtornos

alimentares

a

variáveis

9 tempo, lugar e circunstâncias em que algo ocorre, se desenvolve, ou se define 10 Ficha de anamnese é um instrumento usado na comunidade para levantar dados, como profissão e horários, queixa principal, utilização de medicamentos, laxantes ou diuréticos, além de uma investigação sobre sintomas em diversos sistemas. A ficha cria um canal direto de comunicação, e revela as marcas do transtorno alimentar no corpo e na alma do usuário. Não é obrigatório fornecer nome, e pode enviar por algum e-mail feito especialmente para esse fim, pois a identidade do usuário não importa. Ele é cadastrado a partir do e-mail que enviou. Modelo no anexo.

62

numéricas, e, conforme Minayo (1995) observa, a pesquisa em saúde será sempre

qualitativa quando:

trabalha com o universo de significados, motivações, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variável. (p.22).

A ficha de anamnese foi uma forma utilizada de entrevista, semi-estruturada,

porque apesar das perguntas e respostas em múltipla escolha já definidas, o participante

poderia relatar o que considerasse importante. Conforme observa Spink (2000, p.45),

“estamos, a todo momento, em nossas pesquisas, convidando os participantes à produção

de sentidos”. Os dados coletados através das fichas de anamnese, dos e-mails e dos

depoimentos postados no Fórum, foram o foco desta pesquisa, sendo interpretados

dentro de um processo de produção de sentidos, onde o diálogo com estes textos permite

o “encadeamento das associações de idéias" (ibid, p.106).

Identificar processos pelos quais as pessoas descrevem, explicam e/ou compreendem o mundo em que vivem, incluindo elas próprias. Nesse sentido, o foco de estudo passa das estruturas sociais e mentais para a compreensão das ações e práticas sociais e, sobretudo, dos sistemas de significação que dão sentido ao mundo. (Ibid, p.60).

Como observam Martins e Bicudo (1989), na pesquisa qualitativa o objetivo está

na análise dos significados, e não nos fatos em si.

A preocupação se dirige para aquilo que os sujeitos da pesquisa vivenciam como um caso concreto do fenômeno investigado. As descrições e os agrupamentos dos fenômenos estão diretamente baseados nas descrições dos sujeitos, e os dados são tratados como manifestações dos fenômenos estudados. (p.30).

63

Os fatos não são suficientes, sendo necessário observá-los com a imaginação de

um bricoleur 11 , ou um trabalhador que recorta e cola manualmente pensamentos e

sentimentos contidos nos textos espontaneamente produzidos nos últimos quatro anos, e

que nas palavras de Chauí (1995),

) (

objetos. Vai reunindo, sem um plano muito rígido, tudo o que encontra e que serve para o objeto que está compondo. (p.161).

produz um objeto novo a partir de pedaços e fragmentos de outros

Começamos, neste capítulo, a interpretar fragmentos de discursos, que passam a

formar uma bricolage 12 , conceito apresentado pelo antropólogo Lévi-Strauss (1989), e

que orienta nossa metodologia.

Mesmo estimulado por seu projeto, seu primeiro passo prático é retrospectivo, ele deve voltar para um conjunto já constituído, formado por utensílios e materiais, fazer ou refazer seu inventário, enfim sobretudo, entabular uma espécie de diálogo com ele, para listar, antes de escolher entre elas, as respostas possíveis que o conjunto pode oferecer ao problema colocado. Ele interroga todos esses objetos heteróclitos que constituem seu tesouro, a fim de compreender o cada um deles poderia significar. (p.34).

Apesar de todos os fatores, já comentados anteriormente, que dificultam o

estabelecimento de um perfil de usuários do Orkut, e consequentemente da comunidade

“Anorexia e Bulimia Nova Visão”, os textos postados nos tópicos, e os e-mails e fichas

de anamnese enviados diretamente ao coordenador dessa comunidade, permitiram a

confecção de um desenho próximo ao perfil dos seus freqüentadores.

11 Pessoa que faz trabalhos manuais. A palavra surge do verbo Bricoler, que significa ziguezaguear, mas também, falsificar, ou fazer uso de meios indiretos ou tortuosos. Sentidos pejorativos que muitas vezes acompanham implicitamente uma pesquisa qualitativa, como se uma pesquisa quantitativa pudesse abstrair de modo absoluto a ótica de seu observador. Nessa pesquisa, o termo justifica sua presença, por representar um trabalho com o que se tem à mão, com aquilo que se recebe livremente do outro, e com objetos inesperados.

12 Produto de uma composição, decomposição e recomposição, onde o passado, ou aquilo que já não se quer, é usado para a construção do novo. É também considerado um trabalho de amador, sendo um termo utilizado por lojas de materiais de construção com o sentido de “faça você mesmo”. Mas, pela antropologia é visto como aquele onde a técnica é improvisada, ou adaptada às circunstâncias.

64

Para isso, as postagens feitas através de alguns tópicos foram selecionadas, sendo

retiradas referências de e-mails e fotos, apesar destas informações estarem disponíveis

no espaço Fórum da comunidade, já que são públicas.

Nas que foram enviadas

diretamente por e-mail, incluindo as fichas de anamnese, os autores tiveram suas

identidades mantidas anonimamente. Os textos são apresentados como depoimentos e

tiveram sua gramática alterada, a fim de facilitar o entendimento, sem, no entanto, alterar

o sentido original. Frases dos textos foram destacadas em negrito, a fim de facilitar a

própria análise. Além dos textos retirados de e-mails, os seguintes tópicos foram os que

forneceram mais postagens para a análise: “formas de emagrecer”, “a bulimia não

emagrece”, “indique coisas fáceis de vomitar”, “anorexia é tudo de bom”, “formas d

emagrecer”, “a ficha”, “a ficha de anamnese”, “quero emagrecer de verdade! Ajudem!”,

“quem emagreceu com a ajuda do Fernando?” e “compulsão alimentar e bulimia”, em

função da concentração de postagens e do conteúdo.

Da leitura das falas dos participantes emergiram categorias de análise que

permitiram a compreensão do objeto novo a partir de pedaços e fragmentos de outros

objetos”, conforme já dito por Chauí. As categorias utilizadas na significação destas falas foram:

a imagem distorcida no espelho, compulsão, solidão, ação policialesca, me ajuda, por favor, e

alimentação.

A Imagem Distorcida no Espelho

Os fragmentos de textos puderam compor categorias, percebidas através

da comparação de diversas falas. A imagem distorcida no espelho é uma categoria

importante,

considerada

o

distúrbio

central

para

o

diagnóstico

e

tratamento

dos

transtornos alimentares, conforme já destacado no primeiro capítulo, e que se repete em

quase a totalidade dos depoimentos. Observe o peso da autora em relação a sua altura, e

o desespero de sua fala.

65

Cara, tô precisando muito de ajuda! Tenho 15 anos, 1,60m , 47kg, não consigo emagrecer, e isso acaba me deixando um pouco depressiva. Já tomei vários remédios para emagrecer, mas nenhum surte o efeito que eu espero. Tomo laxantes, diuréticos, e já pensei até em comprar anabolizantes! Faço academia de manhã e à noite, mas de nada adianta! (DEPOIMENTO 1).

Duchesne e Almeida (2002) entendem que a anorexia seria dependente de

crenças distorcidas acerca do peso e formato corporal. De fato, em vários artigos a

responsabilidade é imputada à mídia ou ao modelo de beleza imposto pela sociedade

contemporânea, que promoveriam essa crença e o culto ao corpo, como podemos

observar em Sobreira (2006). No entanto, a reflexão não deixa de ser ingênua, pois

restringe sua observação, não percebendo que o modelo de beleza é propositalmente

construído e que, o estabelecimento de padrões inatingíveis lembra a produção da “falta”

do seio materno, implantada por Freud, e que é utilizada para movimentar o mercado

capitalista.

O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue (FREUD, 1930/1974, p. 95).

A impossibilidade da felicidade não é um fato descoberto por Freud, mas a

produção de um novo sentido, muito bem aproveitado por um sistema que precisa da

introjeção da falta, para que a mesma seja preenchida, apenas temporariamente, no

mercado, mantendo o consumo em ritmo constante (SANTOS, 2002).

A estratégia de criar imagens inalcançáveis, porque não pertencem nem mesmo

aos seus modelos, já que são photoshops 13 , é proposital, pois cria um grande mercado,

13 Adobe photoshop é um software caracterizado como editor de imagens profissionais. O termo photoshopping é um neologismo que significa "editar uma imagem" independentemente do programa que se utilize, assim como photoshop é usado como substantivo para uma imagem alterada, ou retocadas

66

que vende tratamentos estéticos, spas 14 , produtos lights, revistas, artigos de toucador 15 ,

cirurgias plásticas de lipoescultura e redução do estômago, medicamentos 16 para redução

do apetite etc. Esse mercado movimenta cerca de 20 bilhões de reais por ano somente no

Brasil (MACEDO, 2008), e a crítica em relação a um modelo estético artificialmente

produzido não é capaz instigar transformações, pois o Capital não está preocupado com

as consequências danosas que isso pode gerar. Aliás, quanto mais sofrimento, quanto

mais doenças, como consequências dos transtornos alimentares, mais o Capital se

beneficia com a venda de internações, medicamentos, terapias psicológicas etc. A

fragmentação presente na imagem refletida pelo espelho daquele que sofre de transtorno

alimentar, é a fragmentação presente propositalmente na contemporaneidade. Jameson

(1985)

e

Harvey (1992),

em

uma

perspectiva

relacionada

à

percepção

marxista,

acreditam que a fragmentação da realidade tem origem nas transformações provocadas

por nichos de mercado, desterritorialização da produção e do consumo, conduzindo a

comportamentos fragmentados. Portanto, acreditamos que a crítica não deve ser feita a

segmentos, como a mídia ou a moda 17 , mas ao Capital em si.

(retouched). Como exemplo, recentemente em 15 de abril de 2010, o jornal inglês Daily Mirror divulgou fotografias de Britney Spears, com a própria autorização da cantora pop, antes de serem tratadas digitalmente para apresentação ao público, em resposta aos boatos de que as fotografias teriam sofrido um tratamento pesado e teriam ficado descaracterizadas. No entanto, na comparação entre a imagem não modificada e a tratada pelo computador é possível constatar que foram diminuídas cintura, pernas e nádegas, apagadas tatuagens, além de eliminadas manchas e celulite (DIÁRIO DIGITAL, 2010)

14 Spa, termo que surgiu na Bélgica, deriva da expressão latina salute per aqua (saúde pela água).

15 Artigos de embelezamento e higiene pessoal.

16 Procópio (1999) relata que, em 1995, a indústria farmacêutica havia faturado aproximadamente 10 bilhões de reais, com o Brasil sendo o quarto consumidor mundial em medicamentos. Em vários depoimentos postados na comunidade, incluindo os destacados nesta dissertação, assim como nas fichas de anamnese, é possível observar a citação a vários medicamentos, que incluem moderadores de apetite, laxantes e diuréticos, comprados com ou sem receita médica.

17 A organização do SPFW (São Paulo Fashion Week), após a temporada de verão de 2007, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde de SP, estabeleceu regras proibindo o desfile de modelos com IMC (índice de massa corporal) abaixo de 18 (aproximadamente pessoas com 1,78 m e 59 kg) e menos de 16 anos. Nesse mesmo ano, organizadores da Passarela Cibeles, um dos mais conceituados desfiles de moda da Europa, ao lado de governo regional de Madrid, também aplicaram as mesmas normas. A Itália também estabelece o mesmo índice, enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda um IMC de 18,5 como peso mínimo saudável As alterações surgiram depois da morte, em novembro de 2006, da modelo brasileira Ana Carolina Reston, por causa de anorexia. Essas medidas não solucionam o problema dos transtornos alimentares, e apenas criam a falsa impressão de que a origem da imagística,

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Deve-se compreender o que levou à fragmentação do objeto e compreender como indivíduo se constitui atualmente sem se reconhecer na sociedade, assim como o porquê de a sociedade não ter entre seus objetivos a felicidade e a liberdade individuais. (CHOCHIK, 2001, p.26).

Além de Chochik,

Lash (1986) também constrói uma associação entre o mecanismo

capitalista, estruturado no consumo, e a percepção da imagem no espelho, coisificada e

ilusória.

A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito espetacular faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos. (p.22).

Dentro da categoria imagem distorcida no espelho, podemos ainda observar que

existem alguns fatores que podem agravar essa percepção.

Ontem, eu e minha mãe discutimos sobre meu peso. Ela fala que eu estou engordando muito. Eu olho no espelho e me sinto gorda. Então decidi provocar meu vomito até eu perder esses quilinhos a mais. Eu só quero emagrecer e acho que a mia 18 pode me ajudar. Não quero provocar vômito pra sempre, só até conseguir meu objetivo. Eu tenho vontade de comer, mas eu tô me segurando. Quando a fome aperta,

eu bebo água ou como uma fruta

(DEPOIMENTO 2).

Sou uma comedora compulsiva

vezes, quando como demais entro

em depressão e resolvo emagrecer tudo de uma vez fico até 12h sem comer nada e quando como é pouca coisa!! minha mãe é a maior culpada disso. Passa o tempo todo mandando eu parar de comer, que

estou gorda e ridícula. Me ajude!! (DEPOIMENTO 3)

Às

Tenho medo das consequências, apesar de ciente das causas também

me isolei dos meus amigos e perdi meu namorado, só que ele não me ajuda com essa doença, pois quando eu engordava uns dois 2 kg ele já notava e me dizia que deveria me cuidar, porque ele não gostava de

mulher gorda

Meu manequim é 38! Tenho grande projeto de vida,

terminei a faculdade e já fiz minha pós, quero fazer mestrado, mas não

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sei se conseguirei atingir meus objetivos antes dessa doença acabar comigo, pois estou cada vez pior! Também procuro ajuda, mas nunca falei a respeito dessa doença pra ninguém! (DEPOIMENTO 4).

SOCORRO! Não sei o que acontece comigo. Fiz uma rinoplastia 19 e

depois disso comecei a engordar

ao meu peso. Depois de um período de internação de H1N1 20 onde perdi uns 3 kg em 1 semana, comecei a engordar descontroladamente. Minha mãe fala o tempo todo que eu tô gorda, e só não tomo anfetamina com medo de ficar careca! Hoje, fui ao supermercado e comprei tudo light. A minha meta é não comer. Há umas 2hrs miei pela segunda vez e entrei na net para ver se eu achava uma forma mais fácil, daí comecei a ler e comecei a pensar se miar iria resolver. Me

sinto gorda, estou realmente fora do peso! tenho 1,70 e 70kg e não sei o que fazer! Quero os meus 58 kg de volta e durante a semana é praticamente impossível eu fazer uma atividade física, como academia, pois saio de casa às 6:45h e chego da faculdade após o trabalho às 0:45h! Não sei o que fazer! Vou começar a tomar um shakes, mais minha vontade hoje é me trancar no quarto e não sair enquanto não voltar ao meu corpo normal. O fim foi esse feriado que eu fui pra praia e a mãe da minha amiga me chamou de fofinha! Tudo bem que eu

Acho

FERNANDOOO ME AJUDA!!!

tenho muito busto, mas fofinha é demais

às vezes que mia ajuda, outras não (DEPOIMENTO 5).

Porém, comecei academia e voltei

Daí comecei a pirar

Olá Fernando, estou nesta comunidade há algum tempinho já, porém, nunca enviei nenhuma mensagem. Sou do tipo que observa, encontra semelhanças, porém nunca se expressa. Tenho medo de que mais alguém não entenda o que passo, e me diga que é só uma frescura, coisa que aqui todos sabem que não é bem assim! Tenho bulimia há

Isso se eu não contar os anos de

comer compulsivo, uso indiscriminado de laxantes e jejum. É complicado pra mim procurar ajuda, pois até mesmo em minha casa não encontro apoio. Meus pais sabem, minha irmã, meu cunhado também. Porém, o que ouço são somente críticas e mais criticas. Fora quando não tiram com minha cara dizendo: se alguém quiser

mais ou menos 2 anos e pouquinho

comer, come agora porque daqui a pouco não tem mais nada. E outras

Enfim, pode parecer que são

coisas simples, mas realmente magoam e fazem comer ainda mais! Tenho vomitado todos os dias, e perdi completamente o controle da situação. Sei que este tópico não é para se falar disso, mas se não dissesse agora, talvez nunca mais falaria. Bom espero que possa me ajudar. Beijos e obrigada. (DEPOIMENTO 6).

piadinhas que nem vale a pena citar

A imagem gerada pela estratégia capitalista é dilatada dentro do mundo mais

próximo

das

anoréxicas

e

bulímicas,

como

percebemos

nos

quatro

depoimentos

19 Rinoplastia é a modificação da forma do nariz, através da cirurgia plástica, podendo diminuir ou aumentar o tamanho do nariz, ou a forma da ponta, ou abaulamentos no dorso do nariz, e, ainda, corrigir alterações da respiração por um problema interno. 20 H1N1 é uma sigla que representa o vírus da Influenza A subtipo H1N1 também conhecido como A (H1N1), que é um subtipo de Influenzavirus A , a causa mais comum da influenza (gripe) em humanos.

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anteriores. O espelho, dessa forma, é reforçado por familiares e outras relações afetivas

que destacam a imagem da gordura ou da magreza, sem efetivamente apresentar

soluções, apenas amplificando o sentimento de desconforto, angústia e ansiedade.

Tavares (2003) entende que a imagem corporal distorcida que aparece no espelho da

anoréxica, não é delírio ou distorção em seu pensamento, mas a revelação da história de

um sujeito, suas relações concretas e suas memórias. De fato, as vozes materna e paterna

ecoando uma imagem na memória de uma anoréxica ou bulímica, agrava a que já se

encontra presente a todo instante no mercado. Essa categoria motivou a criação de um

link específico no produto (www.anorexiaebulimia.com) a fim de orientar familiares

sobre a melhor forma de apoiar pessoas que estejam vivenciando os transtornos

alimentares.

melhor forma de apoiar pessoas que estejam vivenciando os transtornos alimentares. Figura 7. Link “como posso

Figura 7. Link “como posso ajudar?”

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Compulsão

Outra categoria que deve ser destacada é a compulsão, predominante nos

transtornos

alimentares

e

nos

depoimentos

postados

na

comunidade.

Ela

é

bem

construída pelo Capital, que divulga padrões de beleza fakes, oferece alimentos também

fakes, mas embalados em discursos que os caracterizam como saudáveis, e ao mesmo

tempo, distribui fartamente “no mundo dos consumidores” possibilidades infinitas,

através de um imenso “volume de objetivos sedutores à disposição” do consumidor, que

“nunca poderá ser exaurido” (BAUMAN, 2001, p.86). O processo implantado pelo

capitalismo cria nas anoréxicas e bulímicas as condições para a instalação da compulsão

ao

“oferecer-lhes

algo

e

ao

mesmo

tempo

privá-las

disso”

(HORKHEIMER

e