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1|Isso, sim, é uma chancela à ignorância Isso, sim, é uma chancela à ignorância!

Sostenes Lima1 @Limasostenes

Assisti recentemente a dois programas2 de entrevistas da Globo News (Entre Aspas, com Mônica Waldvogel, e Espaço Aberto, com Alexandre Garcia) que se propuseram a discutir a tal polêmica do livro didático “Por uma vida melhor” da professora Heloisa Ramos. O formato dos dois programas é bem parecido: escolhe-se um tema que está tendo grande repercussão na mídia e convidam-se dois “especialistas” para debatê-lo. O jornalista conduz o debate, fazendo algumas contextualizações e problematizações. Mônica Waldvogel debateu o tema com dois escritores, Cristóvão Tezza e Marcelino Freire, e Alexandre Garcia convidou Maria do Pilar Lacerda – Secretária de Educação Básica do MEC, que tem formação em História, e o senador Cristovam Buarque, com tem formação em Economia. Lamentavelmente, o tema Educação Linguística é um daqueles em que os especialistas da área, pessoas com graduação em Letras e formação em Linguística Teórica e Aplicada (Mestrado e Doutorado), não são levados em conta no debate. Dos quatro convidados, nenhum era linguista, de fato. O único que apresentou saber técnico e estrito para debater a questão foi Cristóvão Tezza, que lecionou, por algum tempo, a disciplina de Introdução à Linguística, na UFPR. O interessante é que ele não foi apresentado como professor de português, mas como escritor. Achei muito estranho que os dois programas (e tantos outros da mídia brasileira)
Mestre e doutorando em Linguística pela Universidade de Brasília. Docente na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Centro Universitário de Anápolis (UniEvangélica).
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Links para assistir aos dois programas:

http://www.youtube.com/watch?v=Za8mPxQTIO8 http://g1.globo.com/videos/globo-news/jornal-globo-news/v/v/1512976/

2|Isso, sim, é uma chancela à ignorância não tenham considerado a necessidade de um ouvir um especialista em Educação Linguística, e nem a própria autora do livro. É no mínimo uma incompetência de quem elaborou a pauta. Quando digo que é preciso ouvir o especialista em Linguística (Teórica ou Aplicada), não estou dizendo que pessoas não formadas em Letras e com PósGraduação em outras áreas não sejam capazes de debater a questão. Até seria interessante ver o posicionamento de pessoas ligadas a outras áreas e setores da sociedade falando sobre o tema. O problema é que, em geral, quando o assunto é língua, o discurso dos não especialistas provém de uma matriz não científica. Existem basicamente duas matrizes de discurso sobre as questões linguísticas. A primeira delas, com maior penetração na escola, na mídia e na sociedade em geral, origina-se dos estudos clássicos greco-latinos. Vigora-se nessa matriz uma visão normatizada de língua; concebem-se os estudos linguísticos, ou melhor, os estudos gramaticais, como um agente regulador da língua. Nesse caso, o especialista, o gramático, tem o papel de julgar, legitimar e promover as formas linguísticas que deverão ser aceitas como cultas, elegantes, corretas. A segunda matriz de discurso sobre língua é bastante recente. A publicação póstuma do livro Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure, em 1916, é tomada como marco inaugural de um novo modelo e método de investigação linguística. Segundo essa matriz, o papel do especialista em estudos linguísticos, o linguista, é descrever os fenômenos regulares que ele encontra no comportamento linguístico dos falantes/escreventes da língua. Diferentemente do gramático, o linguista não julga e nem prescreve comportamento verbal aos falantes/escreventes. Ele apenas descreve o objeto, como deve fazer o cientista. Quem julga e regulamenta comportamentos não adota o método científico. Toda essa divagação é para dizer que a mídia e escola brasileira ainda têm o seu discurso sobre língua fundado numa matriz não científica, a da gramática tradicional. É impressionante o fato de que pessoas com um razoável capital intelectual, quando opinam sobre questões linguísticas, abrem mão do discurso

3|Isso, sim, é uma chancela à ignorância científico, de uma percepção mais aprofundada da realidade, para enveredar pelo discurso da tradição e do senso comum. Fiquei meio decepcionado com a fala do senador Cristovam Buarque. Ele tem certos posicionamentos bastante interessantes, especialmente no que diz respeito a políticas públicas para educação. Mas a fala dele sobre Educação Linguística é um mar de senso comum. Vê-se que o nobre senador não teve a menor preocupação em se preparar minimamente para o debate. Poderia ter lido o que os documentos oficiais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, PCNEM, PCN+) e Orientações Curriculares Nacionais (OCN) dizem sobre o tema. Também poderia ter lido o que alguns especialistas vêm dizendo sobre o assunto desde a década de 1980 3. A fala dos dois jornalistas é ainda mais carregada de senso comum. Não é de hoje que linguistas como Marcos Bagno (UNB), Sirio Poissenti (UNICAMP), Marta Scherre (UFRJ, UNB, UFES), Carlos Alberto Faraco (UFPR), só para citar alguns, vêm denunciando o tratamento enviesado que mídia jornalística tem dado às questões linguísticas. Fiquei triste, mas não decepcionado com as colocações de Mônica Waldvogel e Alexandre Garcia. Eu realmente não esperava que fosse diferente. Para ilustração, seguem alguns trechos da fala dos dois jornalistas que, vistas sob a

Eis algumas sugestões de leitura (aos jornalistas e ao senhor senador) para um próximo debate sobre o tema:
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ANTUNES, I. Aulas de português: encontro & interação. 2. ed. São Paulo: Parábola, 2003. BAGNO, M. Dramática da língua portuguesa. São Paulo: Loyola, 2000. ______. (Org.). Norma linguística. São Paulo: Loyola, 2001. ______. A língua de Eulália. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2001. BORTONI-RICARDO, S. M. Variação linguística na sala de aula. São Paulo: Parábola, 2003. ______. Nós cheguemu na escola. e agora? São Paulo: Parábola, 2005. BUNZEN, C.; MENDONÇA, M. (Org.). Português no ensino médio e formação de professor. São Paulo: Parábola, 2006. GERALDI, J. W. Linguagem e ensino: exercícios de militância e divulgação. Campinas: ALB/Mercado de Letras, 1996. ______. Portos de passagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. ______ (Org.). Texto na sala de aula. 3 ed. São Paulo: Ática, 2002. ILARI, R. A linguística e o ensino da língua portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1997. POSSENTI, S. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras/Associação de leitura do Brasil, 1996. SHERRE, M. M. Doa-se filhotes de poodle: Variação linguística, mídia e preconceito. São Paulo: Parábola, 2005. SOARES, M. B. Linguagem e escola: uma perspectiva social. São Paulo: Ática, 1985.

4|Isso, sim, é uma chancela à ignorância luz da Linguística moderna, soam como uma coletânea de obscurantismo medieval. Vejam essa fala de Alexandre Garcia:
Nesse livro, disse assim, que desde que o artigo esteja no plural o substantivo ou o verbo podem estar no singular, não importa a concordância. Eu me pergunto o seguinte: a escola não é um lugar que ensina pensar e pensar não demanda uma organização lógica, e a concordância não estimula a lógica no cérebro de um aluno? Eu tenho que pôr o verbo no plural, na terceira pessoa do plural, porque o objeto está no plural, porque o sujeito está no plural; o artigo tem que ir para o plural, tem que ser feminino se o sujeito é feminino. Isso demanda já trabalhar uma lógica. Se permite qualquer coisa, nós pega o peixe, e aí...

Vejam se eu entendi as implicações teóricas da interrogação “A concordância não estimula a lógica no cérebro de um aluno?”. Alexandre Garcia está insinuando que o falante de uma língua com morfologia flexional abundante como o latim leva vantagem, em temos de “lógica cerebral”, sobre um falante do português, que por sua vez leva vantagem sobre um falante do inglês? É esse mesmo o arcabouço teórico que está por trás da fala do jornalista? Na afirmação “Eu tenho que pôr o verbo no plural, na terceira pessoa do plural, porque o objeto está no plural”, de que língua ele está falando? Certamente não é do português. Apresento a seguir algumas declarações e perguntas de Mônica Waldvogel:
Ninguém fala o tempo todo segundo a regra culta. Mas caberia à escola aceitar outras variantes da língua indiferentes à regra gramatical? O jeito de falar do brasileiro, a forma como driblamos a norma, comemos os ‘s’ e desprezamos a conjugação dos verbos mostra uma língua viva ou uma gramática agonizante? Se a língua escrita, para ser compreendida, não aceita a falta de regras, é possível escrever direito sem falar em bom português? O poeta Fernando Pessoa, patriota da nossa língua, jamais condenou quem se expressava mal ou de forma incorreta, mas declarava seu ódio à página mal escrita, à ortografia errada, e explicava por quê: ‘Que não vê bem uma palavra, não vê bem a alma’ (Fernando Pessoa). ............................................................................................................................ _ Mas é uma gramática certa ou uma gramática errada? A gramática errada deve ser permitida na escola, ser aceita pela escola, ou não? ............................................................................................................................

5|Isso, sim, é uma chancela à ignorância

Quem fala errado consegue escrever certo?

A interpretação que Mônica Waldvogel dá para o trecho do livro de Heloisa Ramos que despertou a polêmica é “super interessante”. A entrevistadora apresenta o fragmento do livro:
Mas eu posso falar ‘os livro’? Claro que pode. Mas fique atento, porque dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.

Na sequência, Waldvogel faz a seguinte paráfrase:
Trocando em miúdos, ela quer dizer você pode falar errado no seu ambiente a vontade porque afinal de contas você faz a escolha da língua que você quer falar, da maneira que você quer falar, mas convém aprender a norma culta ou alguém vai te dizer, você não serve pra esse emprego.

Qualquer aluno de graduação, que tenha feito a disciplina de Introdução à Linguística, é capaz de rebater com razoável propriedade científica essas colocações. Para finalizar, retomo uma expressão que o jornalista Alexandre Garcia usou, em uma das edições do Bom Dia Brasil, para rotular parte do conteúdo do livro da professora Heloisa Ramos. Garcia disse que isso é uma chancela à ignorância. A expressão foi, lamentavelmente, copiada e endossada por Lya Luft em seu artigo de Veja dessa semana (22 de maio de 2011). Vou dizer o que eu creio ser uma chancela à ignorância: repetir ladainhas do senso comum e se recusar a estudar o que a ciência linguística diz sobre o tema. Isso, sim, é uma chancela à ignorância, senhor Alexandre Garcia e senhoras Lya Luft e Mônica Waldvogel.