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#3 AGOSTO 2012 FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

JORGE AMADO 100 ANOS
Textos de Luiz Schwarcz, Carlos Reis, Lilia Schwarcz,
Pilar del Río e José Saramago
LIVRO INFANTIL E PROMOÇÃO DA LEITURA
A morte dos pais na literatura juvenil
A recepção da obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
nas escolas portuguesas
SARAMAGUIANA
O cão, personagem dos romances de José Saramago
#3 AGOSTO 2012
Diretor: Sérgio Machado Letria
Edição/Redação:Andreia Brites, Sara Figueiredo Costa
Paginação: Fundação José Saramago
Fundação José Saramago Casa dos Bicos
Rua dos Bacalhoeiros, 10 1100-135 Lisboa - Portugal
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Ius conversus hcum ecos que uIguns umIgos de
vez em quundo recompõem uos peduços. Que
penu que u grunde ZeIIu GuLLuI nuo esLeju uquI
puru documenLur, com u suu prosu Irescu e IúcI-
du, uqueIes enconLros nu BuIiu, em PurIs, Romu,
MudrId e ¡Isbou, uqueIus vIugens peIu GuIIzu ou
peIo norLe de ¡LuIIu, uqueIes projeLos de conLruIr
ponLes sobre rIos e mures, sobre oceunos, LuIvez
enLre pIuneLus se uII exIsLIr o cIeIro u cuneIu, que
é o cIeIro du vIdu que eIes LunLo umurum, os Lrês,
Jorge e ZéIIu, José.
Começu ugoru o uno de BrusII-PorLuguI. A ¡un-
duçuo José Surumugo enLru em pIeno nesLu
uproxImuçuo porque nusceu Lumbém puru Isso.
CeIebrur os unos de Jorge Amudo no seu dIu, no
seu mês, é o prImeIro pusso. DepoIs vIruo ouLrus
uLIvIdudes em que se Iru conLundo que os seres
Iumunos nuo pussum, hcum, suo ImorLuIs en-
quunLo Iuju quem os recorde e IesLeje. Com dIg-
nIdude, IucIdez e emoçuo.
No enLerro de José Surumugo recordou-se Jorge
Amudo, o momenLo em que o uvIuo em que o cu-
suI Amudo-GuLLuI vIujuvu Leve de Iuzer umu uLer-
rugem de emergêncIu. EnLuo, Jorge, que LInIu
punIco de vour, pôs-se u pedIr uos grILos o jor-
nuI, unLe o espunLo de ZeIIu: ¨Mus Jorge, vumos
morrer e Lu pões-Le u pedIr o jornuI?¨ ¨Queres
que morru sem suber o que pussu no mundo?¨,
IoI u resposLu do murIdo. PoIs se no enLerro de
José Surumugo se recordou esse IucLo puru dIzer
que no mundo, segundo os jornuIs, o que se Iu-
vIu pussudo eru que LInIu morrIdo um Iomem
bom, um ImprescIndiveI, Ioje pode ucrescenLur-
-se que os meIos de comunIcuçuo, us IIvrurIus,
us bIbIIoLecus conLum nesLes dIus de ugosLo que
um grunde escrILor esLu em IesLu de unIversurIo e
nós com eIe. Que nuo se IoI, por Isso, conLrurIun-
do o jornuI mexIcuno ¡u Jornudu que escrveu em
muncIeLe quundo o escrILor do BrusII morreu
¨AdIós, Amudo¨, Ioje, nu ¡unduçuo José Suru-
mugo o que dIzemos, e connosco os que vIsILum
u exposIçuo e Ieem os seus IIvros é ¨OIu, Amudo¨.
Pilar del Río
Jorge Amado, cem anos
de vida vivida
Nuo se comemoru o cenLenurIo de um escrILor,
ceIebrum-se os cem unos de vIdu de um ser Iu-
muno que u quuIquer momenLo pode upurecer
numu esquInu, com umu cumIsu bruncu, ou LuI-
vez de ßores, com um gesLo Luo uberLo que neIe
podem conLInuur u reIugIur-se geruções de pes-
sous, com umu IncorrupLiveI umIzude, u mesmu
que o Iez cruzur um sécuIo sempre ucompu-
nIudo, Luo conIorLuveI nu suu peIe como nu suu
reIuçuo com ouLros, sempre seus semeIIunLes.
Porque Jorge Amudo eru dessu esLIrpe ¨gruçus
u Deus¨, como dIrIu ZéIIu GuLLuI quundo se deh-
nIu u sI mesmu como unurquIsLu por InßuêncIu
dIvInu.
Jorge Amudo e José Surumugo poderIum Ler
LIdo umu reIuçuo muIs dIIuLudu no Lempo. TerIu
busLudo que Surumugo desse o pequeno pusso
que o uproxImurIu do grunde escrILor brusIIeIro
num Lempo em que o mundo eru jovem, mus o
senLIdo do respeILo devIdo uo mesLre Ievou u que
o porLuguês seguIsse o seu cumInIo e esperus-
se que um dIu, LuIvez, uconLecesse o que LIves-
se de uconLecer. E ussIm IoI. Surumugo nuo se
mosLrou perunLe Jorge Amudo de muos vuzIus,
quundo cIegou u suu presençu e umIzude Ievu-
vu - sImboIIcumenLe, cIuro - uns quunLos IIvros
que jusLIhcuvum que umbos se enconLrussem e
se LruLussem por Lu. Puderum Iuzê-Io, hzerum-
-no e proIundumenLe, porque se u reIuçuo enLre
o escrILor du BuIiu e o do RIbuLejo nuo uburcou
muIs de umu décudu, IoI suhcIenLemenLe InLen-
su puru que se conLussem medos e projeLos, so-
nIos por reuIIzur, uvenLurus que hcurIum por
vIver e ouLrus bebIdus uLé u úILImu goLu. Os doIs
escrILores conversurum sobre poIiLIcu e puIxões,
dIhcuIdudes e Iogros, por vezes com pIcurdIu,
por vezes com umu serIedude quuse douLoruI
que remuLuvum com umu gurguIIudu, e duque-
Blog Centenário de Jorge Amado (Companhia das Letras)
Espuço promocIonuI e de dIvuIguçuo, o bIog du edILoru brusIIeIru CompunIIu dus ¡eLrus nuncu se
IImILou u ser umu monLru dos IIvros pubIIcudos por uqueIu cIunceIu, oIerecendo LexLos, Imugens e
ouLros conLeúdos de InLeresse, muILos deIes crIudos proposILudumenLe puru uqueIe espuço. Agoru, u
edILoru que desde zoo8 Lem reedILudo u obru compIeLu de Jorge Amudo crIou um bIog puru ucom-
punIur us comemoruções do cenLenurIo do nuscImenLo do escrILor buIuno. As enLrudus IncIuem um
LexLo de MIu CouLo sobre u InßuêncIu de Jorge Amudo nu IILeruLuru uIrIcunu de Iinguu porLuguesu,
IeILurus de Donu ¡Ior e Seus DoIs MurIdos, depoImenLos de escrILores brusIIeIros e u reuçuo de Cu-
eLuno VeIoso u noLicIu du morLe do escrILor, em ugosLo de zoo1, no hnuI de um concerLo. O bIog vuI
ucompunIur u progrumuçuo do cenLenurIo de Jorge Amudo, desLucundo uLIvIdudes em dIIerenLes
cIdudes brusIIeIrus e oIerecendo uos IeILores conLeúdos dIversos, quer sobre u vIdu e u obru do uuLor,
quer sobre u suu InßuêncIu nu obru de ouLros crIudores.
http://blog.jorgeamado.com.br/
Lucero Amador-Miranda, “Chavela Vargas: con personalidad única”, La Opinión
No jornuI ¡u OpInIón, ¡ucero Amudor-MIrundu ussInu umu
noLu bIogruhcu que é Lumbém um Iongo eIogIo u CIuveIu Vur-
gus, recenLemenLe IuIecIdu, desLucundo u Iorçu, o génIo e u Im-
ponêncIu du cunLoru mexIcunu. NuscIdu nu CosLu RIcu, CIu-
veIu Vurgus cIegou uo MéxIco com 1; unos Lornundo-se umu
dus reIerêncIus cuILuruIs muIs IorLes do seu puis de udoçuo -
que cIorou u morLe du cunLoru com u cerLezu de que u puLrIu,
esse conceILo Luo dIIicII de dehnIr, nem sempre depende do
Iugur onde se nusce. Amudor-MIrundu Iembru u Iorçu de CIu-
veIu Vurgus, nuo só nu músIcu, onde u suu voz roucu e umu
Iorçu emocIonuI Imensu hzerum IIsLórIu, mus IguuImenLe nu
socIedude mexIcunu, pouco IubILuudu, nu épocu em que CIuveIu começou u Lornur-se conIecIdu, u
muIIeres que nuo pedIum IIcençu puru vIver com quem quIsessem, puru Iumur e beber quundo IIes
upeLecesse, puru ombreurem de IguuI puru IguuI com us grundes hgurus du urLe e du cuILuru do seu
Lempo. ¡u CIumunu cuIou-se uos q¸ unos, deIxundo umu obru que nuo deIxuru de se ouvIr, no Mé-
xIco e no mundo.
http://www.laopinion.com/Chavela_Vargas_con_personalidad_unica
Leituras do mês
Luis Matías López, “Equipaje literario para Islandia”, El Ojo y la Lupa
Num dos bIogs do jornuI espunIoI PubIIco, EI Ojo y Iu ¡upu, ¡uIs MuLiuz
¡ópez Lruçu um punorumu possiveI puru conIecer u IILeruLuru IsIundesu,
dos seus LesLemunIos muIs unLIgos uLé uos romunces recenLemenLe pu-
bIIcudos. Dus miLIcus sugus medIevuIs u HuIIdór ¡uxness, pussundo peIo
romunce negro e por uIguns murcos du conLemporuneIdude, o urLIgo
de MuLius ¡ópez upresenLu-se com umu espécIe de guIu prévIo puru os
uprecIudores de IIvros que queIrum InIcIur-se nu compreensuo do puis
que sobrevIveu u buncu roLu sem Impor u uusLerIdude cegu, negundo-se
u pugur umu divIdu conLruidu peIu buncu, responsubIIIzundo os gover-
nunLes que nuo souberum gerIr u coIsu púbIIcu e eIegendo um comILé de
cIduduos puru reIormuIur u consLILuIçuo. Em zo11, u ¡sIundIu IoI o puis
convIdudo du ¡eIru de ¡runkIurL, mosLrundo uo mundo du edIçuo os
muILos Lesouros IILerurIos escondIdos peIo IsoIumenLo e peIus dIIeren-
çus IInguisLIcus. Se u IILeruLuru é umu dus meIIores Iormus de conIecer
um povo, u escoIIu de MuLius ¡ópez pode ser um bom ponLo de purLIdu puru cIegur u IIIu dus uuro-
rus boreuIs.
http://blogs.publico.es/luis-matias-lopez/
Alejandro Flores, “El futuro del libro está en lo independiente”, El Economista
No seguImenLo du ¡erIu deI ¡Ibro ¡ndependIenLe que de-
correu em junIo nu CIdude do MéxIco, nu IIvrurIu RosurIo
CusLeIIunos (¡ondo de CuILuru EconómIcu), o escrILor e jor-
nuIIsLu mexIcuno J. M. Servin IuIou com AIejundro ¡Iores,
do jornuI El Economista, sobre o Lemu recorrenLe do Iu-
Luro do IIvro. AcredILundo que os suporLes Impressos e os
dIgILuIs nuo suo unLugónIcos, Servin desLucu como grunde
LendêncIu puru o IuLuro us edILorus e os espuços Indepen-
denLes, muIs uLenLos u esLIIos e IInIus edILorIuIs do que u
vorugem dus novIdudes e cupuzes de ussegururem u pubII-
cuçuo de uuLores e conLeúdos que os grundes grupos edI-
LorIuIs nem sempre subem descobrIr. E upesur de se uhrmur como um udepLo du ¨eru GuLenberg¨;,
Servin ucredILu no poLencIuI do meIo dIgILuI puru u pubIIcuçuo, enLre ouLrus coIsus, do cIumudo jor-
nuIIsmo IILerurIo, um género que os jornuIs e us revIsLus em pupeI nem sempre subem como ucoIIer
e que o meIo dIgILuI, por nuo Ler de se resLrIngIr u um deLermInudo número de pugInus ou curucLeres,
pode pubIIcur sem IImILuções.
http://eleconomista.com.mx/entretenimiento/2012/07/04/futuro-libro-lo-independiente-j-m-servin
gem envoIvenLe de um modo
muILo InLenso, reveIundo u
suu proIundu reIuçuo com u
Lerru.
Se em O Pintor Debaixo do
Lava-Loiças, romunce un-
LerIor do uuLor, AIonso Cruz
consLruiu umu IIsLórIu u pur-
LIr du reßexuo sobre u IIn-
guugem como únIcu Iormu
de upreender e orgunIzur o
mundo, nesLe Jesus Cristo
Bebia Cerveja essu reßexuo
esLende-se puru os dominIos
du reIIgIuo, um modo muI-
Lo purLIcuIur de IInguugem, e
puru o poLencIuI de LrunsIor-
muçuo de cudu vIdu Iumunu,
u semeIIunçu du cerveju, crIu-
du u purLIr du IermenLuçuo de
um cereuI.
Em unexo uo IIvro, num exLru-
LexLo que nuo é upenus bónus
edILorIuI, o wesLern InLILuIudo
A Morte Não Ouve o Pianista
Lem o deserLo como nurrudor
de umu IIsLórIu de umor en-
voIvendo um pIsLoIeIro, Hu-
roId EsLeIunIu, e MIss GrunL,
umu rupurIgu murcudu puru
morrer. A suu reIuçuo com o
romunce pussu peIu reIerên-
cIu u um dos muILos wesLerns
IIdos por Rosu, mus pussu
sobreLudo peIu presençu do
Lempo como umu sucessuo
de eIemerIdudes us quuIs só
u memórIu e u suu purLIIIu,
quer sob u Iormu de IIsLórIus,
quer peIos gesLos rILuuIs que
compõem cudu reIIgIuo, duo
senLIdo.
Sara Figueiredo Costa
CrIsLo. Nuo Iu, porLunLo, ves-
LigIo de LeorIus du conspIru-
çuo bibIIcu, ou de seILus muIs
ou menos cIundesLInus que
LerIum escondIdo semeIIunLe
InIormuçuo, mus unLes umu
reßexuo proIundu, InIormudu
e ponLuudu por puruboIus e
uIguns momenLos unedóLIcos
sobre o modo como o quoLI-
dIuno du IumunIdude se crIu
u medIdu dos seus gesLos muIs
bunuIs e IguuImenLe sobre o
modo como u reIIgIuo, quuI-
quer que eIu seju, se IIgu prI-
mordIuImenLe u esses gesLos,
sempre muIs reIucIonudos
com u Lerru e u omnIpoLên-
cIu dos eIemenLos nuLuruIs do
que com uIgumu urquILeLuru
menLuI ou LeoIógIcu prévIu. E
em cudu pusso dessu reßexuo
sobressuI u ju conhrmudu vo-
cuçuo de AIonso Cruz puru u
crIuçuo de personugens, IIne-
ures nus suus uLILudes, mus
sempre exLremumenLe com-
pIexos no perhI psIcoIógIco,
nesLe cuso Lornudos uIndu
muIs rIcos peIo IucLo de se
IurmonIzurem com u puIsu-
O LiLuIo do muIs recenLe ro-
munce de AIonso Cruz pode
sour u besLseIIer Iorçudo, du-
queIes que Invocum dudos bi-
bIIcos uo ucuso e uIguns mIsLI-
cIsmos de Lruzer por cusu puru
se ununcIurem como cupuzes
de escIurecer os grundes mIs-
LérIos du IumunIdude. Nudu
muIs uIusLudo du essêncIu
desLe romunce, umu nurruLIvu
sobre u LrunsIormuçuo e so-
bre o modo como uquIIo u que
cIumumos reuIIdude pode ser
o resuILudo du nossu próprIu
InLervençuo no mundo.
Numu uIdeIu do AIenLejo,
umu muIIer uproxImu-se du
demêncIu que InevILuveImen-
Le ununcIu u suu morLe. O seu
muIor desejo, vIsILur u Ter-
ru SunLu, Lornu-se mIssuo u
cumprIr peIu suu neLu, Rosu,
que convenceru umu mIIIonu-
rIu excênLrIcu, um proIessor e
vurIos ouLros personugens -
cuju presençu se ucompunIu
desde o InicIo, mus cuju exIs-
LêncIu purece convergIr puru o
cumprImenLo desLe desejo -
u encenur esLe Iugur em pIeno
AIenLejo. É nessu encenuçuo
que se desvendu o LiLuIo do
IIvro, upresenLundo-se como
IógIcu u LeorIu de que o IiquI-
do presenLe nu ÚILImu CeIu
serIu u cerveju, e nuo o vInIo,
ju que essu eru u bebIdu muIs
comum no espuço geogruh-
co IubILudo e percorrIdo por
Afonso Cruz
Jesus Cristo Bebia Cerveja
Alfaguara
Jorge
Amado
100 Anos
Foto de Zélia Gattai / ©Fundação Casa de Jorge Amado
Los rudImenLurmenLe u muo, ou com coIugens de
IeLrus LIrudus dus revIsLus MuncIeLe e CruzeIro,
como se Iôssemos Iudrões uvIsundo que os upur-
LumenLos em quesLuo vIrIum u ser ussuILudos.
Essus Iorum nossus prImeIrus hcções - RoberLo
se LrunsIormurIu em escrILor, mus Ioje nuo Le-
nIo noLicIu se conLInuu escrevendo - episLoIus,
de gênero poIIcIuI - LuIvez com u grunde ¨orIgI-
nuIIdude¨ (sIc) de uvIsur us viLImus prevIumen-
Le, LIrundo Lodo o suspense. ¡nucredILuveImen-
Le, um dos condômInos se ussusLou, ou upenus
recIumou e Ievumos umu beIu broncu du ¡unny,
mue do RoberLo, e InLerrompemos nossus pro-
mIssorus curreIrus IILerurIus.
O primeiro autógrafo a gente nunca esquece
De como José Saramago contribuiu para a edição da obra
de Jorge Amado na Companhia das Letras
PedI meu prImeIro uuLógruIo quundo LInIu en-
Lre seLe e oILo unos. Eu uIndu cursuvu o prImurIo,
que é como cIumuvumos o que Ioje se conIece
por ensIno IundumenLuI 1, e o uuLógruIo nuo eru
puru mIm, e sIm puru u mInIu mue. Nu ocusIuo,
meu meIIor umIgo se cIumuvu RoberLo Amudo
e eru sobrInIo do escrILor que Ioje, com grunde
orguIIo, pubIIco. CosLumuvu pussur muILus Lur-
des du semunu no upurLumenLo do RoberLo, nu
ruu ¡LucoIomy, ou numu IIndu cusu no Pucuem-
bu, jogundo IuLeboI com eIe e seus prImos: Pe-
dro, Jouo e KIko ¡urkus. No prédIo do RoberLo
cosLumuvumos dIsLrIbuIr LroLes: bIIIeLes escrI-
Obras de Jorge Amado
expostas na Fundação José Saramago
PoIs um beIo dIu, mInIu mue soube que Jorge
Amudo esLurIu em Suo PuuIo e me pedIu que
Ievusse um IIvro du suu predIIeçuo puru que o
grunde escrILor buIuno o uuLogruIusse. ¡embro
bem desse dIu, mInIu mue me IuIundo du Im-
porLuncIu de Jorge Amudo e escoIIendo um dos
seus IIvros encudernudos em couro murmorIzu-
do - Lodo IIvro que eIu IIu e gosLuvu eru encu-
pudo em IIndus encudernuções, que eu gosLuvu
de Locur e cIeIrur. Sui de cusu com us devIdus e
repeLIdus recomenduções: ¨cuIdudo, meu hIIo,
Isso é muILo ImporLunLe puru mIm¨. ¡embro
Lumbém du hguru do escrILor, de cumIsu ßorI-
du e peILo meIo uberLo, num Lerruço de Inverno,
ussInundo o IIvro puru mInIu mue e dundo um
LupInIu no meu cocuruLo. Pode ser que consLrui
essu Imugem u purLIr dus IoLos de Jorge Amu-
do que vI uo Iongo de muILos unos, mIsLurudus
u mInIu ImugInuçuo. Mus nuo ImporLu, upren-
dI com u unLropóIogu que IubILu o meu coruçuo
que memórIus Lumbém se consLroem IndIvIduuI
e socIuImenLe e, se eu consLrui essu, sorLe u mI-
nIu, uuI! (¡nIeIIzmenLe mInIu mue perdeu o LuI
IIvro, ou empresLou-o u uIguém que nuncu o de-
voIveu. QuerIu Ler IIdo o uuLógruIo em púbIIco,
no meu dIscurso, nu IesLu de comemoruçuo du
pubIIcuçuo du obru de Jorge Amudo peIu Com-
punIIu dus ¡eLrus).
MuILos, muILos unos depoIs do meu breve en-
conLro InIunLII com Jorge Amudo, ju muduro e
edILor, quundo Surumugo gunIou o PrêmIo Cu-
mões e veIo recebê-Io no BrusII, Iomos, ¡III e eu,
como peneLrus prIvIIegIudos, puru SuIvudor, nu
semunu de recepçuo que Jorge Amudo e ZéIIu
GuLLuI propIcIurum puru o IuLuro PrêmIo NobeI
du IILeruLuru. Por pouco nuo hcumos, os doIs cu-
suIs, Iospedudos nu Iumosu cusu do escrILor, no
buIrro do RIo VermeIIo. Um uLuque de cupIm
nos surrupIou esse enorme prIvIIégIo. No enLun-
Lo, o InIorLúnIo Lrouxe umu pequenu vunLugem.
PeIus regrus du IospILuIIdude buIunu, e uIndu
muIs du umudIunu, Jorge e ZéIIu encomendurum
um uImoço u cudu dIu, nu cusu de seus grundes
umIgos, ou meIIor, nu cusu dos umIgos que LI-
nIum us meIIores cozInIeIrus, e cozInIeIros, de
SuIvudor. O prImeIro uImoço IoI nu cusu de Cue-
Luno VeIoso - seu Irmuo RodrIgo é grunde cIeIe
e prepurou umu deIIcIosu IeIjoudu buIunu, muILo
dIIerenLe du que conIecemos no SuI. AIém do
muIs, por coIncIdêncIu, esLuvumos no dIu du Ies-
Lu du enLregu e u vurundu du cusu do composILor
é o meIIor ponLo du cIdude puru ucompunIur u
IIndu procIssuo de burcos que zurpum, cIeIos de
presenLes u Yemunju, em dIreçuo uo uILo mur.
O uImoço começou por voILu de quuLro du Lur-
de e ucubou quuse us quuLro du munIu. DurunLe
grunde purLe du noILe, Surumugo e ¡III hcurum
dIvIdIndo o urquIvo do que vIrIu u ser o IIvro de
memórIus de CueLuno, o Verdude TropIcuI, em
vurIus purLes. CueLuno eru neóhLo em compuLu-
dores e IIvros e regIsLruvu suus memórIus em um
só urquIvo.
¡oI pruLIcumenLe nesLe uImoço que conIecI Jor-
ge e suu IumiIIu, e com eIe converseI bou purLe
do Lempo, enquunLo u ¡III e o José IuLIuvum o
LexLo do unhLrIuo. Eu IuvIu conLudo u IIsLorInIu
do uuLógruIo puru José unLes de Irmos u BuIIu,
quundo eIe me pergunLou por que eu nuo edILu-
vu u obru de Amudo nu CompunIIu. RespondI u
José que udorurIu que Isso vIesse u uconLecer um
dIu, mus que Lumbém nuo nuLrIu grundes espe-
runçus.
PoIs enLuo, bem no meIo do uImoço, quundo
Jorge Amudo e ZéIIu upenus começuvum u me
conIecer rudImenLurmenLe, José perIormou u
prImeIru e descurudu uproxImuçuo enLre nós,
deIxundo u umbos, especIuImenLe u mIm, rubo-
rIzudos.
¨Jorge, você com cerLezu conIece u edILoru do
¡uIz, e eIe me conIessou que o seu grunde sonIo
serIu um dIu pubIIcu-Io, mus é LimIdo, nuncu IrIu
dIzê-Io dIreLumenLe. PoIs esLou eu uquI u Iuzê-Io.
!e·!·c to·!e· oo (¸.·o oc es:·tc· oe
:o·so (c·oo e ,etc ·ec o!e·tc ·.·
te··o;c oe ·.e··c oss·o·oc c '.·c ,o·o
minha mãe e dando um tapinha no
meu cocuruto.
Você deverIu pubIIcur seus IIvros nu CompunIIu
dus ¡eLrus¨.
AcIo que Surumugo Iez umu gruçu mencIonundo
o uuLógruIo que pedI em nome du mInIu mue,
IuIou que mInIu vocuçuo se orIgInuru desde en-
Luo, o que só me deIxou uIndu muIs vermeIIo.
Jorge Amudo ugrudeceu, Iez genLIImenLe uIgum
eIogIo u CompunIIu dus ¡eLrus, mus com us so-
brunceIIus uponLudus puru cImu e suus muos
uberLus puru os Iudos deIxou, sImpuLIcumenLe,
cIuro que Isso nuo vIrIu uconLecer Luo cedo.
O LupInIu no cocuruLo e uqueIe gesLo com os
oIIos e com us muos LuIvez LenIum sIdo umu
espécIe de promessus dos deuses, um uLo de sIn-
creLIsmo juduIco buIuno, prenúncIo do grunde
presenLe que ucubeI recebendo dos orIxus, prIn-
cIpuImenLe de OxóssI, o orIxu de Jorge Amudo,
doze unos muIs Lurde. ¡oI eIe, LenIo cerLezu, que
um dIu me LrunsIormou em edILor de Tendu dos
MIIugres e de LunLos IIvros memoruveIs. ObrIgu-
do, OxóssI, Todu Rubu! Nu semunu que vem eu
conLo o resLo.

Luiz Schwarcz
Editor da Companhia das Letras
e autor de Linguagem de sinais,
entre outros
Jorge Amado no espelho
da história literária
1. Cem unos depoIs do nuscImenLo de um escrI-
Lor IuIumos du suu obru, mus Lumbém du Imu-
gem que deIe IoI sendo consLruidu e que InevILu-
veImenLe InLerIere nu suu posLerIdude. Porque é
dIsso que se LruLu, de umu posLerIdude em IenLu
sedImenLuçuo.
NuscIdo Iu um sécuIo, desupurecIdo do núme-
ro dos vIvos Iu pouco muIs de dez unos, Jorge
Amudo cIrcuIu ugoru no IImbo de IndecIsões e
de umbIguIdudes de onde Iu de suIr no Lempo
próprIo, puru ser um cIussIco, um uuLor do cu-
none ou Luo só um escrILor vugumenLe Iembrudo
em IIsLórIus du IILeruLuru. ConLru u rusuru que
persegue uLé mesmo os escrILores que em vIdu
LIverum dIvuIguçuo unIversuI (IoI esse o cuso de
Amudo), IubuLum InsLILuIções de vurIudos Ior-
muLos e InLuILos: u ¡unduçuo Cusu de Jorge
Amudo, desLInudu u preservur, u pesquIsur e u
dIvuIgur o Iegudo do puLrono, mIIILu em Iuvor du
vuIorIzuçuo de um romuncIsLu condIcIonudo por
Imugens de murcu que us vezes uLIngem de Ior-
mu perversu u IorLunu post mortem, sobreLudo
no BrusII. O que purece esLrunIo, mus pode ser
comprovudo.
Umu dessus Imugens, bem vIvu no espirILo e no
projeLo du Iunduçuo que Ievu o nome do uuLor
de Capitães da Areia: u hIIuçuo buIunu de purLe
ImporLunLe do mundo hccIonuI de Jorge Amu-
do Lruduz um seIo de IdenLIdude que conhnu (se
é que nuo se conIunde) com um regIonuIIsmo
que pode prejudIcur u dIvuIguçuo e u projeçuo
de umu obru Luo vusLu como heI us suus ruizes;
nuo IoI ussIm no pussudo (uLé porque de Jorge
Amudo Iouve e Iu Lruduções e edIções em muIs
de ¸o puises), mus pode ser ussIm no IuLuro. TuI
uconLeceru se Ior ucenLuudu u vIsuo que de Amu-
do Lêm uIguns InLeIecLuuIs brusIIeIros que neIe
ressenLem umu sobrecurgu de LropIcuIIsmo e de
exoLIsmo nordesLIno. OuLru Imugem murcunLe,
evenLuuImenLe ju muIs desvunecIdu do que u un-
LerIor, mus uIndu IorLe no BrusII: u do mIIILun-
Le comunIsLu e guIurdoudo nu UnIuo SovIéLIcu
com o PrémIo EsLuIIne. Quem conIece os bus-
LIdores dus reunIões do júrI do PrémIo Cumões
que em 1qq¸ dIsLInguIu RuqueI de QueIroz sube
bem como IoI vIoIenLu (o Lermo nuo é excessIvo)
u oposIçuo du purLe brusIIeIru duqueIe júrI uo
nome de Jorge Amudo, oposIçuo expIIcILumenLe
esLrIbudu em ruzões poIiLIcus e IdeoIógIcus. As-
sIm mesmo. De LuI modo que só no uno seguInLe
IoI possiveI, com um júrI recomposLo, superur
LuIs resIsLêncIus e premIur Amudo.
z.AIgumu coIsu do que hcu dILo, desIgnudumenLe
no que Locu u componenLe IdeoIógIcu, Lem que
ver com PorLuguI e com u Imugem que de Jorge
Amudo uquI IoI sendo revIsLu e reIormuIudu, uo
Iongo de décudus. Como quem dIz: o Jorge Amu-
do dos unos ¸o, nos prImórdIos do neorreuIIsmo
porLuguês, nuo é o mesmo que, nos unos 6o e
depoIs de unos de sIIêncIo ImposLos peIu censu-
ru, voILou u ser edILudo em PorLuguI peIo suu-
doso ¡yon de CusLro; muILo menos é esse o dus
LeIenoveIus du GIobo, em especIuI u Gabriela de
1q;¸ que, nu sequêncIu de umu prImeIru udupLu-
çuo, peIu TV TupI, em 1q6o (esLreIudu peIu ugoru
desconIecIdu JuneLe VoIIu), Iunçou no pupeI du
proLugonIsLu umu sensuuI SónIu Brugu que u Ju-
IIunu Pues du versuo uLuuI LenLu Iuzer esquecer.
A mesmu SónIu Brugu serIu esLreIu, em 1q8¸, do
hIme Gabriela, de Jorge BurreLo, onde conLruce-
nou nem muIs nem menos do que com MurceIIo
MusLroIunnI.
Jorge Amado com Lyon de Castro
© Coleção Zélia Gattai/ Fundação Casa de Jorge Amado
¸. MuILo unLes, Ioru Jorge Amudo IIdo e dIscu-
LIdo em PorLuguI e mesmo, num cerLo conLexLo,
udmIrudo como modeIo. Nuo IuIureI dIsso sem
u esLe propósILo cILur um LiLuIo InLeressunLe,
Navegação de Cabotagem (1qqz), um grosso
voIume de memórIus composLus de Iormu sIn-
guIur, com uvunços e recuos LemporuIs, sem ou-
Lru upurenLe ordenuçuo que nuo sejum us evocu-
ções desordenudus que vuo cIegundo u cubeçu
do escrILor. O subLiLuIo du obru é, desLe ponLo
de vIsLu, escIurecedor: ¨AponLumenLos puru um
IIvro de memórIus que jumuIs escrevereI¨.
Num cerLo pusso, o memorIuIIsLu decIuru que
o prémIo muIor du suu vIdu de escrILor IoI um
junLur em ¡Isbou, em 1q¸¸, no ueroporLo e em
LrunsILo (Amudo esLuvu proIbIdo de enLrur em
PorLuguI). ¨A IoLo do Iumoso junLur¨, escreve,
¨pubIIcudu no IIvro de ÁIvuro SuIemu, IoI repro-
duzIdu por José CurIos de VusconceIos no Jor-
nal de Letras de ¡Isbou: upureço senLudo enLre
¡erreIru de CusLro e MurIu ¡umus, vê-se uo Iun-
do o IumIgerudo InspeLor du P¡DE, Rosu Cusuco,
envoIvIdo depoIs no ussussInuLo do generuI DeI-
gudo. MurIo DIonisIo, um dos presenLes, recor-
dou em urLIgo do mesmo Jotaele os deLuIIes du-
queIu provu de umIzude, de soIIdurIedude, uçuo
de IuLu conLru o suIuzurIsmo no upogeu, quem u
consIderurIu possiveI?¨ (edIçuo Record, p. z¸¸).
Em um só purugruIo, vurIus geruções de escrI-
Lores, dIIerenLes reIerêncIus cuILuruIs e uLé um
P¡DE, Ludo hcou nu IoLogruhu e Ludo é Iembru-
do quuse quuLro décudus depoIs. A sIgnIhcuLIvu
e IrequenLe presençu de PorLuguI em Navega-
ção de Cabotagem (o dIreLor desLe jornuI é um
dos seus dedIcuLurIos) jusLIhcu-se: Jorge Amudo
LInIu Iugur cuLIvo nu cenu IILerurIu porLuguesu
desde os unos ¸o, quundo o neorreuIIsmo udo-
Lou escrILores e LexLos do cIumudo reuIIsmo nor-
desLIno como exempIos u seguIr, nu escrILu e no
debuLe criLIco. GrucIIIuno Rumos, ¡Ins do Rego,
Amudo (uIndu bem jovem, noLe-se) e um ju es-
quecIdo Amundo ¡onLes (uuLor de um romunce,
Os Corumbas, dIversus vezes mencIonudo peIos
jovens neorreuIIsLus) Iorum objeLo de uLençuo e
de comenLurIo criLIco normuImenLe IuvoruveI,
nus pugInus d`O Diabo e do Sol Nascente.
No prImeIro duqueIes jornuIs, cuju reIevuncIu
douLrInurIu é bem conIecIdu (recenLemenLe
¡uis AugusLo du CosLu DIus mosLrou Isso mes-
mo numu Lese de douLorumenLo sobre o neorre-
uIIsmo), MurIo DIonisIo, enLuo com pouco muIs
de zo unos, dIsserLu ucercu do sIgnIhcudo Ideo-
IógIco do romunce enquunLo género nurruLIvo; o
escrILor que moLIvu u reßexuo nuo é ouLro senuo
Jorge Amudo (¨A propósILo de Jorge Amudo¨, O
Diabo, 16q, 1q¸;). No número q¸-qq (1qqo) do
Sol Nascente, é JouquIm Numorudo quem ussI-
nu um LexLo quuse enLusIusLIco, com LiLuIo su-
gesLIvo: ¨Do neorromunLIsmo: o senLIdo IeroIco
du vIdu nu obru de Jorge Amudo¨ (Sol Nascente,
q¸-qq, 1qqo, pp. zz-z¸).
q. O Jorge Amudo de que enLuo se LruLuvu eru,
evIdenLemenLe, o dos prImeIros romunces, em
especIuI Cacau (1q¸¸), Suor (1q¸q), Jubiabá
(1q¸¸), Mar Morto (1q¸6) e Capitães da Areia
(1q¸;). AvuILuvu neIes u represenLuçuo de perso-
nugens oprImIdus, de cenurIos socIuIs vIoIenLu-
menLe InjusLos e de Lensões InLercIussIsLus que o
IdeurIo socIuIIsLu do romuncIsLu urLIcuIuvu com
o ImugInurIo buIuno do cundombIé, dus crençus
popuIures, do mur e dos pescudores.
Mesmo u medIdu que se vuI suuvIzundo nu hcçuo
de Amudo u componenLe IdeoIógIcu em Iuvor
du ¨mILoIogIu¨ nordesLInu, jumuIs desupurece
deIu u preocupuçuo com u denúncIu du InjusLI-
çu e do coroneIIsmo que domInuvum umu dus
regIões muIs pobres do BrusII; os romunces do
cIcIo do cucuu, ou seju, o mencIonudo Cacau e
Lumbém Terras do Sem Fim (1qq¸) e São Jorge
dos Ilhéus (1qqq) suo dIsso provus vIvus. Puru o
Com “imparcialidade e paixão”
(um binómio difícil de equilibrar)
¡c·¸e ^·ooc ..e. es:·e.e. e
!ote.-se ,c· :o.sos sc:os
em épocas políticas
o¸tooos e ,e·¸csos
romuncIsLu, LuI como o dIz em puIuvrus InserLus
no pórLIco do LerceIro duqueIes LiLuIos, ¨esLe ro-
munce e o unLerIor, Terras do Sem Fim, Iormum
umu únIcu IIsLórIu: u dus Lerrus do cucuu no
suI du BuIIu¨. E ucrescenLu: ¨Nesses doIs IIvros
LenLeI hxur, com ImpurcIuIIdude e puIxuo, o dru-
mu du economIu cucuueIru, u conquIsLu du Lerru
peIos coronéIs IeuduIs do prIncipIo do sécuIo,
u pussugem dus Lerrus puru us muos uvIdus dos
exporLudores nos dIus de onLem¨ (cILo u edIçuo
Dom QuIxoLe; Obru ConjunLu).
Com ¨ImpurcIuIIdude e puIxuo¨ (um bInómIo dI-
IicII de equIIIbrur) Jorge Amudo vIveu, escreveu
e buLeu-se por cuusus socIuIs, em épocus poIiLI-
cus ugILudus e perIgosus. EIeILo depuLudo Iede-
ruI peIo PurLIdo ComunIsLu BrusIIeIro em 1qq¸,
Amudo conIeceu o exiIIo em periodos em que
GeLúIIo Vurgus, unLes e depoIs duqueIe uno, do-
mInou u conLurbudu vIdu poIiLIcu brusIIeIru.
DepoIs de deIxur o PurLIdo ComunIsLu, em 1q¸¸
(curIosumenLe no uno unLerIor uo XX Congresso
do PurLIdo ComunIsLu du UnIuo SovIéLIcu, que
cuusou IorLe ubuIo nu hIeIrus comunIsLus em vu-
rIus purLes do mundo), Jorge Amudo escreveu
uIguns dos seus romunces muIs popuIures, com
desLuque puru Gabriela, Cravo e Canela (1q¸8)
e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1q66).
Em umbos perpussu um Lom de IrrIsuo e de suLI-
ru que nuo desmuncIu o senLIdo criLIco que neIes
predomInu. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos
Leve o romuncIsLu que se prevenIr conLru suspeI-
Lus que reguIurmenLe recuem sobre quem Iundu
u hcçuo em ¨experIêncIu e buscu¨; o que ucon-
seIIu u prevenIr o IeILor: ¨nenIum vIvenLe uquI,
nesLu obru de hcçuo, se enconLru reLruLudo¨ (do
¨NurIz de ceru de umIgos e xereLus¨). ¡nverLu-se,
enLuo, o ónus du LenLuçuo que Ievu u IdenLIhcur
pessous reuIs com personugens hccIonuIs e hque
o uvIso: u responsubIIIdude du LuI evenLuuI Iden-
LIhcuçuo é de quem ¨undu por ui u purecer-se com
hgurus de romunce como se Isso Iosse ocupuçuo
de genLe sérIu¨. ¡uILu upenus um documenLo que
vem reIorçur u emuncIpuçuo e u IógIcu de uuLo-
nomIu du hcçuo: um bIIIeLe que donu ¡Ior escre-
ve uo romuncIsLu em Lom coIoquIuI, IevunLundo
u ponLu do véu que cobre os segredos cuIInurIos
e umorosos que o romunce vuI conLur.
¸. Os drumus Iumunos e socIuIs projeLudos peIo
romuncIsLu nus hcções que IoI escrevendo uo
Iongo du suu vIdu IILerurIu enruIzurum-se Invu-
rIuveImenLe no conIecImenLo dos cenurIos re-
presenLudos. A hdeIIdude u eIes decorre de umu
ouLru hdeIIdude, nesLe cuso u umu éLIcu du es-
crILu em que o observur e o escuLur consLILuirum
uLILudes que Amudo nuncu deIxou de reuIçur.
¡ê-Io nu uberLuru de Tereza Batista Cansada
de Guerra (1q;z), umu dus suus obrus muIs po-
puIures, Lumbém gruçus u mInIssérIe du GIobo
(de 1qqz): ¨AssIm IoI que undeI ussunLundo, por
uquI e por uII, nus IeIrus do serLuo e nu beIru do
cuIs e, com o Lempo e u conhunçu, pouco u pou-
co puserum-me u pur de enredos e Lrumus (.).
JunLeI quunLo pude ouvIr e enLender (.)¨. AssIm
mesmo: de quunLo pôde ouvIr e enLender (e nuo
IoI poucu coIsu) deu o escrILor LesLemunIo numu
obru que Lem u coerêncIu de um LrujeLo vIvIdo
com u InLensIdude e com u uuLenLIcIdude de que
se Iuzem os grundes escrILores. No seu Lempo ou
no Lempo de quem o oIIu no espeIIo us vezes
convexo du IIsLórIu IILerurIu.
Carlos Reis
(Artigo originalmente publicado no
Jornal de Letras, Artes e Ideias)
Jorge Amado com Fernando Namora
© Coleção Zélia Gattai/ Fundação Casa de Jorge Amado
A IronLeIru enLre hcçuo e nuo hcçuo muIs se pu-
rece com umu ponLe IucII de uLruvessur. MuIs dI-
IicII é dIzer quundo começu u ImugInuçuo e onde
LermInu u empIrIu, ou quundo Ludo nuo pussu de
reIuções de bou vIzInIunçu. Se Isso Ludo é ver-
dude, no cuso de Jorge Amudo esse IImILe Lênue
vIru quuse cerLezu. Suus personugens suo Lodus
reLIrudus de exempIos do coLIdIuno e buseudus
nos umIgos de prImeIru Ioru. EIus podem ser
enconLrudus sem dIhcuIdude no suIuo do sobru-
do, nu deIegucIu, nu cusu de Iuzendu, no boLe-
quIm e nu ruu. Quem de nós ju nuo Lopou muIs
de um LIpo, e uLé nu próprIu IumiIIu, que purecIu
pedIr puru enLrur num romunce de Jorge?
Por ouLro Iudo, os nomes de pessous e Iugures
que nuscerum dos IIvros de Jorge Amudo Ioje
vIrurum Iogrudouros conIecIdos, sobreLudo nu
BuIIu. AssIm, nInguém sube dIzer onde começu
o mILo e quundo LermInu u reuIIdude, e nem vuIe
u penu LenLur desIIndur.
E Isso em grunde purLe porque us personugens
de Jorge nuo upenus possuem IeIções, gesLos e
modos de IuIur próprIos, mus Lumbém bIogru-
hus e muIs compIeLus do que us de muILus h-
gurus IIsLórIcus, e porque em seus enredos se
enLreLecem u Invençuo, u observuçuo e u memó-
rIu. EIe recrIu o exIsLenLe, Iuz do reuI hcçuo. E
vIce-versu. Pussu, porLunLo, por uqueIe LesLe que
sInguIurIzu os grundes romuncIsLus, os romun-
cIsLus reuImenLe grundes: Iuz emergIr do mundo
dus puIuvrus personugens que nuo se upurLum
de nossu memórIu e de nosso convivIo. Suem de
seus IIvros e hcum conosco.
Jorge Amudo é Lumbém umu espécIe de dIvuI-
gudor de umu deLermInudu muneIru de InLer-
preLur o BrusII. Numu épocu em que u mIsLuru
de ruçus eru enLendIdu como um grunde probIe-
mu, ju nosso uuLor, nus obrus que IoI crIundo, se
LrunsIormou num grunde deIensor du mesLIçu-
gem. E nuo só du cuILuruI. Jorge, sem descuIdur
dos bruncos e dos negros, LInIu especIuI curInIo
peIos muIuLos, cuIuzos, cubocIos e mesLIços In-
dehnIdos. A suu BuIIu é unLes de Ludo Iugur de
conßuêncIu, onde IndIviduos vIndos de Lodus
us purLes do mundo nuo só se ucoLoveIum, se
conIundem e se LrunsIormum em buIunos, mus
Lumbém se cusum Ioru de seu grupo. Mus nuo
se ImugIne que uquI mesLIçugem é sInônImo de
InLegruçuo e du IuILu de conßILo. Ao conLrurIo,
por uquI IncIusuo combInu com excIusuo socIuI
e um mundo compIexo Lomu Iormu u purLIr do
conjunLo de seus vurIos IIvros.
Nuo por ucuso, em suu obru, se Lornu niLIdu u
percepçuo de SuIvudor como, uo mesmo Lempo,
u muIs porLuguesu e u muIs uIrIcunu dus nossus
cIdudes. Puru eIe, u muIs brusIIeIru, e nuo só por
suu IusILunIdude, negrILude e mesLIçugem, mus
por vurIos ouLros ImporLunLes moLIvos, enLre os
quuIs se desLucu o umor peIu IesLu. A exuILuçuo du
IesLu percorre, ImpIicILu ou expIIcILumenLe, Lodu
Jorge Amado
O que Lemos é, ussIm, umu obru murcudu peIu
umbIvuIêncIu, que, unLes de se mosLrur conLru-
dILórIu, cIumu peIu reßexuo. VIoIêncIu convIve
com cordIuIIdude, uIegrIu com Lensuo, IIberdude
com cerceumenLo, rIquezu com IndIgêncIu.
QuuIquer vIdu é IeILu de muILos peduços, nem
sempre IurmonIosos. Nos IIvros de Jorge Amu-
do eIu surge Lensu e repIeLu de umbIgüIdudes. E
LuIvez por Isso Incomode e Ieve uo conLinuo dI-
uIogo. Nuo Iu receILu IucII nu IILeruLuru deIe, e
um mundo dIsLunLe do dIu-u-dIu de muILos de
nós (repIeLo de Lermos esLrunIos reLIrudos dos
Iugurejos do InLerIor du BuIIu e de sILuuções por
vezes InusILudus) ucubu sendo percebIdo como
próxImo e IdenLIhcudo. Nosso uuLor é mesmo
um grunde mugo que Iuz do Ionge, perLo; e do
esLrunIo, IumIIIur.
Lilia Schwarcz
Editora da obra de Jorge Amado
na Companhia das Letras
u obru de Jorge Amudo. A IesLu surge como umu
espécIe de rILuuI u congregur dIIerenLes grupos,
que suprImem, mesmo que por momenLos con-
LIngenLes, suus dIIerençus socIuIs. Nesse espuço
du IesLu, comungum o cuLoIIcIsmo com os rILuuIs
do cundombIé, u IesLu proIunu com u IesLu sucru,
us comemoruções de ruu com us ceIebruções de
denLro de cusu, os espuços púbIIcos com os prI-
vudos. Porém, nesse grunde umbIenLe o grunde
moLe é u próprIu BuIIu ou, meIIor, umu cerLu
IubIIIdude que upurece como exempIo de mIsLu-
ru e de convIvêncIu de grupos, no meIIor e únIco
dos senLIdos.
Nesses Lempos uLuuIs, em que novumenLe o
Lemu du excIusuo socIuI undu nu puuLu do dIu,
u obru de Jorge Amudo surge como um uIenLo u
Iembrur umu deLermInudu Iormu de convIvên-
cIu que, sem ser umu democrucIu rucIuI, sempre
uspIrou por eIu. É cerLo que nos IIvros de Jorge
u vIoIêncIu do puLernuIIsmo, do compudrIo, dos
menInos sem Iur, du IuILu de recursos upurece
de muneIru dIreLu e sem concessões. No enLun-
Lo, Lrunspurece Lumbém umu muneIru sInguIur
de convIvêncIu cuILuruI, que nuo sIgnIhcu o hnuI
dus IIerurquIus ou du desIguuIdude, mus sInu-
IIzu puru cerLus esLruLurus, us quuIs, murcudus
peIo Lempo, InsIsLem em reupurecer.
Seus romunces IuIum de Lempos em que nuo se
uIusLuvum os pobres puru u perIIerIu e os mor-
ros dus cIdudes, em que us porLus-e-juneIus e uLé
mesmo us cIoupunus se erguIum Iudo u Iudo dus
morudus-InLeIrus, dos sobrudos e dos cusurões
em cenLro de jurdIm. Por ouLro Iudo, os seus
IubILunLes nuo só se cumprImenLuvum, mus se
conIecIum e muILus vezes compurLIIIuvum us
LrIsLezus e us uIegrIus. Ai esLu o unIverso dos ro-
munces de Jorge Amudo, nos quuIs, u despeILo
du Lensuo presenLe, Lrunspurece umu uIegrIu que
Lrunsbordu dus muIs dIIerenLes e InusILudus sI-
Luuções. TuIvez porque, no mundo de Jorge, os
deuses, que se mIsLurum conosco e cIegum em
cerLos momenLos u nos dur o bruço, subem Iuzer
pussur peIu urdIduru du InjusLIçu, du mugou e du
pobrezu u Lrumu du IesLu e du uIegrIu.
oIerendu - IenLumenLe, os pre-
senLes suo uLIrudos us uguus,
enquunLo soum músIcus nos
burcos e nu cosLu, ouLro mur, de
genLe nesLe cuso, que nuo pôde
emburcur. Hu que Ler cuIdudo
puru que us uguus nuo devoI-
vum os presenLes, porque serIu
sInuI de ¡emunju nuo Ler gosLu-
do deIes, e Isso nuo pressugIurIu
nudu de bom... SeguImos u IesLu
do Lerruço de CueLuno VeIoso,
que esLu sobre o mur, no ponLo
em que u procIssuo de burcos
gIru puru uIcunçur o Iugur exu-
Lo du cerImónIu. PurLIIIumos o
dIu desde u munIu uLé u noILe
(porque us IesLus nu BuIIu suo
Luo Iongus como us du AnduIu-
zIu) com CueLuno e PuuIu, suu
muIIer, com Jorge e ZéIIu, com
¡uIz e ¡III, com GIIberLo GII,
com os Irmuos de CueLuno, com
GIIdu, u vIúvu de VInIcIus de
Morues, com PuIomu, com Lun-
Los umIgos Luo novos e, upesur
dIsso, ju Luo inLImos. Em ne-
nIum momenLo u reunIuo Leve
esse «Loque de socIedude» que
perverLe os enconLros. AII nuo
IuvIu ImposLuru. Ou peIo jeILo
dos VeIoso, ou peIo curuLer dos
buIunos, em pouco Lempo esLu-
vumos Lodos Iuzendo conhdên-
cIus, em grupos que se IuzIum
e desIuzIum puru conLInuur nu
mesmu IInIu de nuLuruI uIeLI-
vIdude. ALé José, pouco dudo
u reunIões grundes, que em sI-
Luuções como esLu muIs purece
um cuo perdIdo, esLeve u vonLu-
de, desconLruido, deIxundo cor-
rer o Lempo, sem experImenLur
u LerriveI sensuçuo de perdu Ir-
repuruveI que LunLus vezes, em
LocombusLuo?...) e Lodos o pu-
derum comprovur peIo Lempo
que conseguIum munLer neIus
u muo.
2 de fevereiro
Diário de viagem de Pilar:
¡emunju. Nuncu LInIu ouvIdo
esLu puIuvru, mus u purLIr de
ugoru InLegro-u nu mInIu IIsLu
purLIcuIur de IesLus popuIures,
ceIebruções com ruizes remo-
Lus repeLIdus por geruções de
Iomens e muIIeres que se re-
conIecem no rILo, no seu pus-
sudo e nu suu Lerru. Ou nu suu
uguu, como nesLe cuso. ¡emunju
é o nome du deusu do mur. To-
dos os unos, no seu dIu, os pes-
cudores, os IubILunLes de SuI-
vudor IIe enLregum presenLes,
oIerecIdos, uo Iongo do dIu, por
uqueIes que querem somur-se u
LrudIçuo. Ao cuIr du Lurde, Ior-
mu-se umu procIssuo de burcos
que, ordenudumenLe, nuvegum
uLé um ponLo deLermInudo,
mur denLro, onde se reuIIzu u
Diário de Viagem
1 de fevereiro
Diário de viagem de Pilar:
Se se quIser sobrevIver em SuI-
vudor du BuIIu, o meIIor é nuo
Ir junLur com CueLuno VeIoso,
porque uLé us pedrus dus ruus,
como se nuo Iossem suhcIenLes
us muILIdões (bendILus muILI-
dões) que us povoum, querem
suudu-Io. CueLuno nuo ussInu
uuLógruIos, du beIjos. Nuncu nu
mInIu vIdu vI LunLus curus unIn-
do-se num LrujeLo Luo curLo,
desde o uuLomóveI uo resLuu-
runLe. ¡III, ¡uIz, José e eu ussIs-
LImos muruvIIIudos uo curInIo
du genLe por um dos seus. E uo
curInIo de CueLuno, que nuo
perdIu u pucIêncIu nem o sorrI-
so, por quem Lumbém seu eru.
AssIm começudos, os dIus du
BuIIu promeLem coIsus bous.
PergunLo-me uLé onde cIeguru
esLu espIruI de uIeLo e sImpu-
LIu que respIrumos desde que o
uvIuo uLerrou.
A propósILo, nuo quero esque-
cer-me de IuIur u um médIco
(¡III dIz que é meIIor umu bru-
xu...) ucercu do esLrunIo Ienó-
meno que experImenLeI muI
LInIu descIdo do uvIuo. SenLI
como se me LIvessem dIspurudo
Iume nus cosLus. NInguém vIu
nem senLIu nudu especIuI, mus
durunLe muIs de um mInuLo us
mInIus cosLus queImuvum (uu-
rudus us meIIores ussInuLurus
com o unonImuLo de um enLer-
necedor urLesuo de uIdeIu. A en-
Lrudu du cusu esLu presIdIdu por
umu grunde e sensuuI ¡emunju,
suspensu no uILo, quuse Locun-
do o LeLo, porque no reIno dos
Amudo us sereIus voum e os pus-
suros oIIum-nos, serenumenLe,
do Iundo dus uguus. ZéIIu, no
seu próxImo IIvro, vuI conLur us
IIsLórIus desLu cusu, os encon-
Lros de umIgos, us LerLúIIus, o Ir
e vIr de LunLu genLe que, como
nós, quIs uproxImur-se dos umI-
gos (os escrILores querIdos Iu-
zem purLe do nosso ImugInurIo
uIeLIvo) que uII vIvem.
ConLuru ZéIIu us unedoLus ge-
rudus peIu pussugem de LunLu
genLe, como nuqueIe dIu em que
surpreendeu umu LurIsLu en-
cosLudu u suu cumu, e o murIdo,
pobre deIe, u IoLogruIu-Iu... «É
que o meu sonIo eru dormIr nu
cumu de Jorge Amudo», dIsse,
numu InubII descuIpu, Lendo em
conLu u pessou u quem esLuvu
descobrIndo o «uduILérIo», nuo,
por ImugInurIo, menos reuI e
conLInuudo.
Por Lrus du cusu, num puvIIIuo
sepurudo, esLuo o escrILórIo e
u bIbIIoLecu onde se guurdum
prImeIrus edIções de IIvros que
suo purLe du IIsLórIu do BrusII e
du ¡ILeruLuru, e Lruduções puru
muIs de cInquenLu IdIomus que
Lornurum possiveI que u esLe
Iomem - e Lumbém u ZéIIu
- os possum Ier em quuIquer
cunLo do pIuneLu. Nu reuIIdude,
nesLe escrILórIo só LrubuIIum u
secreLurIu e o Iux. ZéIIu Lem umu
de puIIu, vesLIdos enrugudos,
u muneIru du BuIIu, sunduIIus
IeILus u muo... Ternus IuLIIIdu-
des puru os umIgos, que ugoru
vumos Ler que Ievur durunLe o
resLo du vIugem. Com os vende-
dores IuIumos LunLo, de poIiLIcu,
de músIcu, de IuLeboI, que, em
uIguns cusos, puru ussombro
dos nossos murIdos, ucubuvu-
mos despedIndo-nos com beIjos
nu Iuce, como se Iôssemos ve-
IIos cumurudus.
AssIm suo us coIsus nesLu purLe
do mundo, onde o ImporLunLe
nuo é o que se vende e o que se
compru, mus sIm subermo-nos
vIvos, uo menos por Ioje, donos
ubsoIuLos do Lempo, e esLe Lem-
po empregudo nu IesLu que é u
conversuçuo e u comunIcuçuo
Iumunu.
A cusu do RIo VermeIIo, que co-
meçou por ser o cenurIo onde se
desenroIurIu purLe du vIdu dos
proLugonIsLus ZéIIu e Jorge, erI-
gIu-se em esLreIu de sI mesmu,
esLreIu de curuLer, cupuz de sub-
LIIezus e muLIzes, suuve, IorLe e
poderosu como os seus IubILun-
Les. RodeIu-u umu pequenu seI-
vu domesLIcudu, mInúscuIu se u
compururmos com u AmuzónIu,
mus Imensu puru os nossos eu-
ropeus e surpreendIdos oIIos.
AIgumus urvores ju uII esLuvum,
ouLrus Iorum pIunLudus peIo cu-
suI, muIs por ZéIIu, que Lem us
muos com que Lodos os jurdI-
neIros sonIum, LrunsmIssorus
de energIu e enLusIusmo. MuIs
uIém u cusu, u gruLu do Lesouro,
quudros e escuILurus LruzIdos
dos cInco conLInenLes, mIsLu-
ocusIões ussIm, se upoderu deIe.
Ao hm du Lurde, senLumo-nos
u ver o progrumu de LeIevIsuo
que sobre Jorge Amudo, u suu
vIdu e u suu obru, se Iez puru u
sérIe «ArLes e ¡eLrus». Mugni-
hco e escIurecedor, segundo u
opInIuo geruI. ¡uIundo ugoru
de generuIIdudes: Lodu u genLe,
LunLo nu cusu como nus ruus, Iu
vesLIdu de brunco, como mundu
u LrudIçuo. Todos menos José e
eu, que nuo o subiumos. MeLu-
de de José uIndu se suIvuvu por-
que Ievuvu umu cumIseLu brun-
cu, mus eu, LoLuImenLe vesLIdu
de uzuI, purecIu umu buruLu no
meIo de LunLu uIvuru. ¡emunju
Ler-me-u perdoudo, porque os
deuses, sobreLudo us deusus-
-sereIus, uo conLrurIo dus IeIs
Iumunus, descuIpum os Igno-
runLes de bou Ié.
3 de fevereiro
Diário de viagem de Pilar:
AnLes que Jorge Amudo e ZéIIu
nos recoIIessem puru mosLrur-
-nos u suu cusu, IecIudu nesLes
dIus por cuIpu de umu prugu de
cupIm que uIeLu u esLruLuru du
consLruçuo, pussumos, como
bons LurIsLus, peIo Mercudo
Moderno, doIs undures com-
pIeLos de oIerLus uuLócLones,
puru ImpucIêncIu de José e de-
IicIu de ¡III e de quem IsLo es-
creve.
José, heI uo seu gosLo, comprou
uns bonecos de burro, ¡III e eu,
InhéIs por exceIêncIu (em mu-
LérIu de comprus, enLendu-se),
Iunçumo-nos com vorucIdude
us IojInIus de rendus, cIupéus
encurregudos du ¡unduçuo, os
hIIos de ZéIIu e Jorge, enLre
ouLrus pessous. EnquunLo es-
peruvumos (nu BuIIu sempre
se esperu, mus nuo ImporLu) o
bunqueLe promeLIdo, CurIbé
pôs-se u rubIscur numu LouIIu,
que, cIuro esLu, guurdureI puru
sempre.
Escreveu CurIbé por buIxo de
um desenIo de Dudu: «Nuo é
possiveI que o Surumugo que
soILou u PeninsuIu ¡bérIcu pus-
se Iome uquI», e Lodos os co-
mensuIs ussInurum, unIndo-se
uo dIverLIdo proLesLo. Apesur
de um IndIscreLo rusguo e dus
muncIus de comIdu, esLu Lou-
IIu é umu joIu.
O dIu LermInou em SunLo Amu-
ro, onde, como dIzIum os uuLo-
coIunLes que us pessous Ievu-
vum e que conservumos, «vI e
ouvI CueLuno em SunLo Amu-
ro». Hu uns unos, José e eu ou-
vImos MIgueI Rios em Grunu-
du: «VoILo u Grunudu, voILo uo
meu Iur», cunLuvu o roqueIro, e
o som (Lodo eIe) eru Luo cuIIdo,
Luo de denLro, que José escre-
veu um urLIgo puru o DIurIo 16,
InLILuIudo «AIegrIu do porLu-
guês que IoI u Grunudu», em
cIuru uIusuo u cunçuo de MIgueI
Rios, de regresso u suu Lerru, e
u RuIueI AIberLI, que escreveu,
quundo do ussussinIo de ¡orcu,
uqueIe memoruveI poemu que
se cIumu «Nuncu ¡uI u Grunu-
du».
Em SunLo Amuro repeLIrum-se
uqueIus emoções.
CunLuvu CueLuno VeIoso no Iu-
com us suus Iuzes e us suus som-
brus, us suus pecuIIurIdudes, us
suus grundezus e us suus IrusLru-
ções. A genLe que Jorge Amudo
descreveu e unImou, Lornundo-
-u, desLu Iormu, dupIumenLe ver-
dudeIru.
«SenIor, senIor, quer que IIe
mosLre u cusu de um escrILor
muILo Iumoso que nusceu em
1¸oo?», dIsse um dIu um guroLo
u Jorge Amudo, enquunLo, Im-
pucIenLe, o puxuvu peIu mungu
du cumIsu puru o Ievur u ¡undu-
çuo...
Nesse momenLo, muIs do que
nuncu, o escrILor deve Ler senLIdo
u desoIuçuo de nuo se perLencer
e u uIegrIu de suber-se InsLuIudo
no ImugInurIo de um povo que
eIuboru, purLIndo du reuIIdude,
pusso u pusso, os perhs du Iendu.
AImoçumos perLo do PeIourI-
nIo, nu Cusu de Dudu, um dos
resLuurunLes preIerIdos dos nos-
sos umIgos. Ju Iu esLuvum Cu-
rIbé, o pInLor, e suu muIIer, os
mesILu no seu quurLo, e uII, ro-
deudu de Lodu u suu InLImIdude,
desveIu-se u sI mesmu - e Jor-
ge só escreve em PurIs, uquI nuo
o deIxurIum, nem eIe poderIu:
o espeLucuIo que se mosLru uos
seus oIIos, o mur, us urvores
que se veem crescer, e esLu Lerru
LunLus vezes conLudu, suo umu
LenLuçuo IrresIsLiveI. Menos muI
que nos resLu PurIs, pode o es-
crILor dIzer, puruIruseundo o
Bogurd de CusubIuncu, menos
muI que exIsLe PurIs, dIzemos
nós, os seus IeILores.
A ¡unduçuo Jorge Amudo esLu
no PeIourInIo, zonu de SuIvu-
dor consIderudu puLrImónIo du
HumunIdude peIu UNESCO,
puIsugem dos IIvros de Amudo.
EsLu uIndu em orgunIzuçuo, mus
cedo seru umu espécIe de Cusu
do Povo du BuIIu, umu cusu de
cuILuru puru InvesLIgudores, IeI-
Lores e escrILores. DuII IrrudIu-
ru, nuo só u obru de um escrILor
mus Lumbém u Iormu de esLur
nu vIdu de umu genLe concreLu,
gur onde nusceu, nu pruçu de
umu cIdude em IesLu. Esperu-
vum-no os seus, u suu Imen-
su IumiIIu, us pedrus dus ruus,
Lumbém uquI unImudus, e us
juneIus dus cusus, Lodus eIus re-
pIeLus de unsIosos ouvInLes de
CueLuno. E dos umIgos de Cu-
eLuno, porque o urLIsLu, como
oIerLu de surpresu, upresenLou
os seus umIgos, GIIberLo GII
enLre eIes, que conLrIbuirum,
com os seus dIIerenLes rILmos,
puru Lornur muIor u noILe. A um
Iudo do puIco, mujesLosu, umu
uncIu de cubeIo brunco recoIII-
do permunecIu, eIegunLemenLe
senLudu, uLenLu uos músIcos e
uos especLudores. OIIuvumo-Iu
IIpnoLIzudos. Eru Donu Cudó,
u mue de CueLuno, um pouco u
mue de SunLo Amuro, unImudo-
ru de Lodus us curIdudes, con-
hdenLe de penus (us uIegrIus
upregoum-se) e dIsLrIbuIdoru
du porçuo de puz de que Lodos
precIsumos puru poder sobre-
vIver. Tumbém é umu exceIen-
Le cozInIeIru, mus uquI «IuILu-
-IIe» u generosIdude: eIu, que
du de comer u quem Lem ne-
cessIdude ou u quem procuru o
pruzer do gosLo, emudece quun-
do se IIe IuIu de reveIur os seus
segredos cuIInurIos. MuILus edI-
Lorus brusIIeIrus IIe pedIrum
que escrevu us suus receILus,
mesmo os seus próprIos hIIos,
Lodos mugnihcos gusLrónomos,
desconIecem o Loque mugIco
que cudu pruLo cozInIudo por
Donu Cudó encerru.
Eu creIo que o eIIxIr du subedo-
rIu, nu cozInIu como nu vIdu, é
u generosIdude. TuIvez por Isso
eIu nuo possu reveIur nudu: os
pruLos, sImpIesmenLe, suem-
-IIe ussIm, porque os Iuz puru
ouLros, com umor.
4 de fevereiro
Diário de viagem de Pilar:
CusLu-nos deIxur u BuIIu, mus o
cuIendurIo mundu.
OIIumos peIu úILImu vez u
pruIu, por buIxo do ugruduveI
IoLeI onde esLIvemos Iospe-
dudos (Enseudu dus ¡ujes, no
Morro du PucIêncIu, upenus
nove quurLos uLendIdos IumI-
IIurmenLe, que nos permILIrum
uprecIur uqueIe gosLo de esLur
que IoI descrILo peIos vIujun-
Les romunLIcos do sécuIo X¡X),
e purLImos. AnLes, o pInLor e
gruvudor CuIusuns NeLo orgu-
nIzou um uImoço de despedIdu
nu suu cusu-esLúdIo, pecuIIur
como u de Amudo e CurIbé, mus
com umu purLIcuIurIdude que
u sInguIurIzu: nuo Lem vIdros
nus juneIus. Os vuos, ou esLuo
Lupudos com pIucus de mudeI-
ru, ou enLru por eIes u cIImuLo-
IogIu Lodu. AIndu bem que os
CuIusuns vIvem nu BuIIu, onde
peIus juneIus só cosLumu en-
Lrur o bom Lempo, o soI e u uIe-
grIu, que uquI purece que nuo
se duo LunLo os probIemus de
deIInquêncIu que curucLerIzum
ouLrus zonus do puis.
In Cadernos
de Lanzarote, vol. IV
res Luo sedenLus de sexo como
de IeIIcIdude domésLIcu, Ludo
IsLo no quudro dIsLrILuI de ¡Lu-
bunu (BuIIu), onde Jorge Amu-
do (coIncIdêncIu?) precIsumen-
Le veIo u nuscer. EsLu pIcurescu
brusIIeIru nuo é menos vIoIenLu
que u IbérIcu. EsLumos em Lerru
de jugunços, de roçus de cucuu
que erum mInus de ouro, de brI-
gus resoIvIdus u goIpes de Iucuo,
de coronéIs que exercem sem IeI
um poder que nInguém é cupuz
de compreender como IoI que
IIes cIegou, de prosLibuIos onde
us prosLILuLus suo dIspuLudus
como us muIs purus dus esposus.
EsLu genLe nuo pensu muIs que
em IornIcur, ucumuIur dInIeIro,
umunLes e bebedeIrus. Suo curne
puru o Juizo ¡InuI, puru u con-
denuçuo eLernu. E conLudo.E,
conLudo, uo Iongo desLu IIsLórIu
LurbuIenLu e de muu conseIIo,
respIru-se (perunLe o desconcer-
Lo do IeILor) umu espécIe de Ino-
cêncIu, Luo nuLuruI como o venLo
que sopru ou u uguu que corre,
Luo esponLuneu como u ervu que
nusceu depoIs du cIuvudu. Pro-
digIo du urLe de nurrur, A desco-
berta da América pelos turcos,
nuo obsLunLe u suu brevIdude
quuse esquemuLIcu e u suu upu-
renLe sIngeIezu, merece ocupur
um Iugur uo Iudo dos grundes
muruIs romunescos, como Ju-
biabá, A tenda dos milagres ou
Terrcs do sem jm. DIz-se que
peIo dedo se conIece o gIgunLe.
Ai esLu, poIs, o dedo do gIgunLe,
o dedo de Jorge Amudo.
José Saramago
Ieque éLnIco que reIrescuvu
u Lerru brusIIeIru eru muILo
muIs rIco e dIversIhcudo do
que us percepções europeIus,
sempre conLumInudus peIos
IubILos seIecLIvos do coIonIu-
IIsmo, preLendIum dur u en-
Lender: uhnuI, IuvIu Lumbém
que conLur com u muILIduo de
Lurcos, sirIos, IIbuneses e LuLLI
quunLI que, u purLIr do sécuIo
X¡X e durunLe o sécuIo XX,
pruLIcumenLe uLé uos Lempos
ucLuuIs, LInIum deIxudo os
seus puises de orIgem puru
enLregur-se, em corpo e uImu,
us seduções, mus Lumbém uos
perIgos, do eIdorudo brusIIeI-
ro. E Lumbém puru que Jorge
Amudo IIes ubrIsse de pur em
pur us porLus dos seus IIvros.
Tomo como exempIo do que
venIo dIzendo um pequeno e
deIIcIoso IIvro cujo LiLuIo - A
descoberta da América pelos
turcos - é cupuz de mobIIIzur
de ImedIuLo u uLençuo do muIs
upuLIco dos IeILores. Ai se vuI
conLur, em prIncipIo, u IIs-
LórIu de doIs Lurcos, que nuo
erum Lurcos, dIz Jorge Amudo,
mus urubes, Ruduun Murud e
JumII BIcIuru, que decIdIrum
emIgrur u AmérIcu u conquIsLu
de dInIeIro e muIIeres. Nuo
Lurdou muILo, porém, que u
IIsLórIu, que purecIu prome-
Ler unIdude, se subdIvIdIsse
em ouLrus IIsLórIus em que
enLrum dezenus de personu-
gens, Iomens vIoIenLos, pu-
LunIeIros e beberrões, muIIe-
DurunLe muILos unos Jorge
Amudo quIs e soube ser u voz,
o senLIdo e u uIegrIu do BrusII.
Poucus vezes um escrILor Leru
conseguIdo Lornur-se, LunLo
como eIe, o espeIIo e o reLruLo
de um povo InLeIro. Umu pur-
Le ImporLunLe do mundo IeILor
esLrungeIro começou u conIe-
cer o BrusII quundo começou u
Ier Jorge Amudo. E puru muILu
genLe IoI umu surpresu desco-
brIr nos IIvros de Jorge Amudo,
com u muIs LrunspurenLe dus
evIdêncIus, u compIexu IeLero-
geneIdude, nuo só rucIuI, mus
cuILuruI du socIedude brusIIeI-
ru. A generuIIzudu e esLereoLI-
pudu vIsuo de que o BrusII serIu
reduziveI u somu mecunIcu dus
popuIuções bruncus, negrus,
muIuLus e indIus, perspecLIvu
essu que, em Lodo cuso, ju vInIu
sendo progressIvumenLe corrI-
gIdu, uIndu de que de muneIru
desIguuI, peIus dInumIcus do
desenvoIvImenLo nos múILIpIos
secLores e ucLIvIdudes socIuIs
do puis, recebeu, com u obru
de Jorge Amudo, o muIs soIene
e uo mesmo Lempo upruziveI
desmenLIdo. Nuo Ignoruvumos
u emIgruçuo porLuguesu IIsLó-
rIcu nem, em dIIerenLe escuIu
e em épocus dIIerenLes, u uIe-
mu e u ILuIIunu, mus IoI Jor-
ge Amudo quem veIo pôr-nos
dIunLe dos oIIos o pouco que
subiumos sobre u muLérIu. O
Uma certa inocência
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Foto de Zélia Gattai / © Fundação Casa de Jorge Amado
Apesur du uusêncIu de duLu, o dIscurso do uuLor
(IguuImenLe uusenLe no que u ussInuLuru dIz res-
peILo, o que Ievu u enLender esLe voIume como
umu udupLuçuo heI de um ou muIs LexLos pro-
duzIdos Ioru de PorLuguI) nuo deIxu murgem
puru dúvIdus: ¨combuLer us cuusus do enIru-
quecImenLo moruI¨, ¨com um bom méLodo de
educuçuo IisIcu se pode consLILuIr umu ruçu ou
munLê-Iu IorLe e enérgIcu¨ ou ¨uo uIcunce de Lo-
dos esLu u suIvuçuo próprIu, u dos seus, u du pu-
LrIu¨ suo cIuvões conIecIdos dos regImes nuzIs e
IuscIsLus, sempre dedIcudos uo IncenLIvo du ro-
busLez como modo de uIcunçur umu purezu que
só como modeIo poderIu exIsLIr e uIImenLuvu u
IdeIu do IndIviduo como muquInu (Luo cupuz de
cumprIr progrumus IisIcos como de obedecer u
ouLros mundos, de ordem moruI, socIuI e poIiLI-
cu), Ignorundo o que de muIs rIco exIsLe nu espé-
cIe Iumunu, enLre Iruquezus, vicIos e IuIIunços
- sem os quuIs nuo seriumos seres Luo InLeres-
sunLes como, uo que purece, conseguImos ser.
Quem preIerIr resumIr u suu IeILuru desLu Gi-
nástica Sueca Para Homens, Senhoras e Crian-
ças uo Iudo merumenLe pruLIco, Lumbém nuo se
senLIru deIruududo. Os quInze mInuLos dIurIos
de exercicIos ununcIudos peIo IIvro como cupu-
zes de meIIorurem u suúde de quem os pruLIcur
nuo Iuruo muI u nInguém. Com u vunLugem de
nuo ser precIso recorrer u upureIIos nem u grun-
des espuços, pode mesmo ser que duquI nusçu
um IubILo suuduveI, conLunLo que nuo se Ieve
muILo u sérIo u propugundu sobre o Homem Per-
IeILo, essu quImeru que só exIsLIu nu cubeçu de
dILudores LunLus vezes burrIgudos e muILo pouco
InLeressudos no bem du IumunIdude.
Sara Figueiredo Costa
Alfarrábio
Nem só de IILeruLuru e ensuIo se Iuzem os bons
ucIudos bIbIIogruhcos por enLre us esLunLes dos
IIvros 'veIIos`. MunuuIs, IIvros LécnIcos e voIu-
mes de curIosIdudes ou cIIcIés oIerecem, LunLus
vezes, muLérIu prIvIIegIudu puru o conIecImenLo
do mundo, dos vusLos ubIsmos du nuLurezu Iu-
munu u bunuIIdude dos gesLos que se repeLem
sem nenIumu grundezu upurenLe. Ginástica
Sueca Para Homens, Senhoras e Crianças é
um munuuI pruLIco sobre exercicIo IisIco, mus é
Lumbém um eIogIo du educuçuo IisIcu u Iuz du es-
coIu du gInusLIcu suecu e dus LeorIus sobre o Ior-
LuIecImenLo du ruçu. ¡ê-Io upenus com o InLuILo
de uprender uIguns movImenLos puru meIIorur
u condIçuo IisIcu Leru os seus resuILudos, uIndu
que Iuju munuuIs recenLes cupuzes de cumprIr
essu Iunçuo com muIs ehcucIu expIIcuLIvu. Mus
Iê-Io u purLIr de um oIIur criLIco sobre um Lem-
po reIuLIvumenLe dehnIdo, us prImeIrus décudus
do sécuIo XX, em que governos de recorLe Ius-
cIsLu ImpIemenLurum progrumus de educuçuo
IisIcu com o objeLIvo de 'purIhcur u ruçu` e crIur
jovens IorLes e sudIos puru o bom cumprImen-
Los dos deveres puLrIóLIcos é ju suIr do sImpIes
munuuI e ubruçur o documenLo IIsLórIco que um
IIvro como esLe consLILuI.
C·ost:o ´.e:o |o·o ¬c·e·s
Senhoras e Crianças. Baseada e aperfeiçoada nos sistemas
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Empresa Literária Universal
Comprado na livraria Letra Livre
(Lisboa; 12,50 euros)
De relance
FugIndo uos esquemus muIs IrequenLes de ur-
rumuçuo dos vurIos eIemenLos que Iormum u
cupu de um IIvro, u cupu du edIçuo uIbunesu de
O Homem Duplicado (Tjetri si unë, du edILoru
BoLImeL Duduj) reveIu umu orgunIzuçuo e umu
IeILuru pouco IubILuuIs, peIo menos de ucordo
com u LendêncIu muIs comum nu muIorIu dus
cupus que vemos nus IIvrurIus. CrIudu peIo de-
sIgner VIusI Pupu, que IuIou com u Blimunda
sobre o seu processo de LrubuIIo, u cupu de Tje-
tri si unë upresenLu Lodos os eIemenLos verbuIs
nu meLude superIor, reservundo u meLude InIe-
rIor puru umu IIusLruçuo uIusIvu uo conLeúdo do
romunce, puru o reßexo do LiLuIo do IIvro, sendo
esse reßexo, por sI só, um eco du IdeIu de dupIo,
e puru o IogoLIpo du coIeçuo. Sobre u Imugem,
VIusI Pupu expIIcu u suu escoIIu em Iunçuo do
LiLuIo do romunce: ¨NesLe cuso, Tjetri si une,
o LiLuIo é muILo cIuro e dIreLo, e Lem umu Iorçu
muILo grunde. TruduzIdo u IeLru serIu uIgo como
'O ouLro como eu` e por Isso penseI Iogo em duus
hgurus ubsoIuLumenLe IdênLIcus, oIIundo umu
puru u ouLru como se de um reßexo se LruLusse.¨
DesenIudus com o regIsLo de um esquIsso IeILo
u brunco, com Lruços hnos e esLIIIzudos que per-
mILem perceber o unLropomorhsmo sem Iorne-
cerem eIemenLos de pormenor sobre us IeIções,
us curucLerisLIcus unuLómIcus ou o género, us h-
gurus du IIusLruçuo conLrusLum com o cInzenLo
escuro do Iundo, que VIusI Pupu escoIIeu sem
nenIum crILérIo sImbóIIco reIuLIvumenLe u cor,
mus unIcumenLe pensundo no eIeILo conLrusLun-
Le que esLe Lom produz com os resLunLes eIemen-
Los du composIçuo.
QuunLo uo nome do uuLor e uo LiLuIo do IIvro,
Lumbém u presençu de duus IonLes se Iez u pen-
sur no conLrusLe, com umu IonLe muIs eIegunLe,
de Lruço dupIo, escoIIIdu puru o nome do uuLor e
com o ArIuI BIuck usudo puru o LiLuIo, ¨prImeIro
Lendo em conLu u ImporLuncIu desLe eIemenLo,
segundo, porque é umu IonLe muILo IegiveI puru
quem vê esLe IIvro exposLo nos escupuruLes, enLre
LunLos ouLros¨, de ucordo com u vIsuo do desIg-
ner. A LIpogruhu u brunco, LuI como o desenIo,
sobre o Iundo cInzenLo escuro, perderIu u suu
Iorçu se nuo se InLroduzIsse um ouLro eIemenLo
de cor, nesLe cuso o LiLuIo em reßexo, puru o quuI
se escoIIeu um Iurunju pouco InLenso mus per-
IeILumenLe ehcuz no que Locu uo eIeILo de con-
LrusLe cromuLIco.
No processo de crIuçuo desLu cupu, LuI como
uconLece com us ouLrus cupus que desenIu,
VIusI Pupu nuo Leve condIcIonunLes prévIus so-
bre u IocuIIzuçuo dos vurIos eIemenLos nem so-
bre o modo como deverIum ser upresenLudos.
Com exceçuo du necessIdude de IncIuIr Lodos os
eIemenLos obrIguLórIos (nome do uuLor, LiLuIo
do IIvro, IogoLIpos du edILoru e du coIeçuo), o de-
sIgner Leve IIberdude LoLuI: ¨Puru cudu IIvro que
pubIIcumos nu edILoru, desenIo duus ou Lrês cu-
pus com LoLuI IIberdude de crIuçuo. DepoIs, em
conjunLo com o meu dIreLor execuLIvo, escoIIe-
mos u muIs udequudu. ¡sso quer dIzer que LenIo
IIberdude puru coIocur os eIemenLos, movê-Ios,
upugur, voILur u Iuzer, uLé cIegur u umu ver-
suo du cupu que me suLIsIuçu. NesLe processo,
vou experImenLundo e escoIIendo IonLes puru
o nome do uuLor e puru o LiLuIo uLé me decIdIr
peIu que muIs me ugrudu, sempre em Iunçuo do
LrubuIIo que esLou u Iuzer.¨ NesLe cuso, o resuI-
Ludo IoI umu cupu onde é vIsiveI umu dIvIsuo em
duus meLudes no senLIdo IorIzonLuI, deIxundo
u purLe de cImu puru os eIemenLos obrIguLórIos
e reservundo u purLe de buIxo puru u IIusLruçuo
e puru um uponLumenLo que cruzu u LIpogruhu
com o desenIo, recorrendo u Inversuo dus Ie-
Lrus que compõem o nome do IIvro de modo u
repIIcur o eIeILo de reßexo que u IIusLruçuo crIu
e que o próprIo LiLuIo sugere. E mesmo se essu
cupu pode sugerIr uIgum desequIIibrIo nu dIspo-
sIçuo dos eIemenLos, u suu purLIçuo em doIs e o
recurso uo LiLuIo em reßexo, ocupundo o InicIo
du meLude InIerIor, conhrmum u LoLuI udequu-
çuo do desIgn uo conLeúdo do romunce de José
Surumugo.
QuunLo u coIocuçuo dos IogoLIpos, du edILoru e
du coIeçuo, pode dIzer-se que é pouco orLodoxu
no que Locu u reIuçuo com os resLunLes eIemenLos
que compõem u cupu, no senLIdo em que nuo Iu
um uIInIumenLo óbvIo com nenIum dos eIxos
do desenIo geruI. Apesur dIsso, VIusI Pupu ex-
pIIcu que escoIIeu coIocur uquI os doIs IogoLIpos
no senLIdo de os munLer junLo uo eIxo cenLruI do
IIvro, uIInIudos com o hm du cupu e o InicIo du
Iombudu. E, LuI como reIuLIvumenLe u coIocuçuo
dos ouLros eIemenLos du cupu, nuo Iouve nessu
escoIIu nenIumu IndIcuçuo prévIu du edILoru.
¨ResumIndo, posso dIzer que o meu LrubuIIo é
o de crIur umu composIçuo de eIemenLos u pur-
LIr do conLeúdo de um IIvro. Nesse processo,
us mInIus decIsões suo compIeLumenLe IIvres e
muILus vezes posso cIegur u desenIur Lrês cupus
dIIerenLes puru o mesmo IIvro sem nuncu repe-
LIr u mesmu perceçuo e u mesmu urrumuçuo dos
eIemenLos. No hm, hcu u meIIor cupu.¨
Da morte dos pais na literatura juvenil actual
à recepção da obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
nas escolas portuguesas, este mês destacam-se os jovens
e honra-se o centenário do nascimento de Jorge Amado.
Livro infantil e promoção da leitura
Da morte dos pais na literatura juvenil actual
à recepção da obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
nas escolas portuguesas, este mês destacam-se os jovens
e honra-se o centenário do nascimento de Jorge Amado.
jusLIhcur o pupeI dus IumiIIus
do grupo, sendo que nu muIo-
rIu dos cusos us suus uvenLurus
decorrem em vIugem, peIo que
puIs e uvós esLuo normuImenLe
uusenLes.
Orfandade e
tradição literária
A LemuLIcu dus reIuções puren-
LuIs e du orIundude, eIeLIvu ou
sImbóIIcu, ju exIsLe nu IILeruLuru
de receçuo juvenII desde o séc.
X¡X.
A condIçuo de orIuo de OIIver
TwIsL
3
serve, por exempIo, puru
jusLIhcur Lodu u nurruLIvu, desLu
IeILu nuo peIus perIpécIus no II-
mIur do verosimII, mus peIus In-
jusLIçus e vIoIêncIu de que é uIvo.
O ucenLo reuIIsLu de DIckens
uLuu sobre o conLexLo IIsLórIco
e socIuI du RevoIuçuo ¡ndusLrIuI
em ¡ngIuLerru, em que muILus
crIunçus erum ubundonudus nu
rodu dos enjeILudos, muI LruLu-
dus em orIunuLos e expIorudus
em Lodo o LIpo de LureIus u purLIr
de Lenru Idude. OIIver TwIsL re-
presenLu Lodus essus crIunçus, u
purLIr do oIIur criLIco do uuLor.
O IucLo de ser órIuo Lem ussIm
duus ruzões: u represenLuçuo so-
cIuI e u próprIu InLrIgu romunes-
cu, sendo que umbus esLuo um-
bIIIcuImenLe IIgudus no projeLo
du obru.
Ju no cuso de Tom Suwyer
4
e
HuckIeberry ¡Inn
5
, u orIundu-
de muIs crueI e decIsIvu puru u
consLruçuo du IIberdude é u de
Huck. Apesur do puI exIsLIr, o
seu comporLumenLo murgInuI
obrIgu u crIunçu u proLeger-se e
esLubeIecendo ussIm um eIo
enLre o que seru o mundo quo-
LIdIuno desLes prImos, exLerIor
uos IIvros, e us suus uvenLurus,
que Lêm sempre um curucLer
excecIonuI, upesur de se repe-
LIrem uLé uo InhnILo.
¡sso nuo sIgnIhcu que os uduI-
Los sejum bunIdos dus uvenLu-
rus. PeIo conLrurIo, eIes mur-
cum presençus deLermInunLes,
como vIIuos ou udjuvunLes. A
quesLuo nuo esLu nu reIuçuo
enLre jovem e uduILo e sIm nu
reIuçuo de uuLorIdude enLre
puIs e hIIos. De uIgumu Iormu,
u uusêncIu purenLuI IegILImu,
do ponLo de vIsLu du verosImI-
IIunçu, u sucessuo de perIpé-
cIus perIgosus que uconLecem
uo Iongo de cudu uvenLuru.
AssIm é em muILus dus sugus
muIs pIunus. Tumbém nu co-
Ieçuo porLuguesu Uma Aven-
tura
2
Iu u preocupuçuo de
Ausência parental na literatura juvenil,
tema ou lugar comum?
A morLe premuLuru de um
ou dos doIs progenILores esLu
presenLe em dIversus obrus
de hcçuo juvenII, sendo Lruns-
versuI u esLIIos ou perspeLIvus
nurruLIvus. Du LrudIcIonuI uu-
sêncIu purenLuI como sInónI-
mo de IIberdude, u produçuo
de hcçuo juvenII cumInIou, nu
úILImu décudu, puru umu pre-
sençu du morLe de um ou dos
doIs puIs em dIversus obrus,
com Iunções dIsLInLus.
Ausência, sinónimo
de liberdade
Os puIs represenLum u uuLorI-
dude, u ordem e u normuIIdu-
de. Suo eIes quem desenIu u
educuçuo dus crIunçus, quem
esLubeIece os IImILes uos seus
comporLumenLos e uções. A
uusêncIu dos puIs é umu es-
LruLégIu puru dur uos proLugo-
nIsLus possIbIIIdudes que suo
negudus uos IeILores em geruI.
O curucLer exLruordInurIo dus
personugens de IIvros juve-
nIs pode puuLur-se em grunde
purLe por esLu uusêncIu, e u
suu condIçuo de IeróI em muI-
Lo depende deIu.
Um dos cusos muIs noLórIos é
o du coIeçuo Os Cinco
1
, de EnId
BIyLon. Emboru Lodos LenIum
puIs, esLes upenus upurecem
no InicIo ou no hm dos IIvros,
ou suo reIerIdos en passant,
DuII se purLe puru u consLruçuo
de uIeLos, puru u descrIçuo de
Lruumus, puru u evIdêncIu du
ImperIeIçuo e dos erros: do nI-
nIo puru o mundo.
De umu guIerIu com muIs de
vInLe IIvros juvenIs, é seguro
uhrmur que muIs de meLude
deIes expIoru reIuções IumI-
IIures, com desLuque puru o
segredo e o ubundono. Me-
IIndu, em Flor de Mel
7
, Puu-
IInu em Paulina ao Piano
8
ou
Bruncu em Meia Hora para
Mudar a Minha Vida
9
soIrem
com u morLe ou desupurecI-
menLo de um dos puIs. ¡IuvIu,
em Os Olhos de Ana Marta
10
e
Veru em O Casamento da Mi-
nha Mãe
11
suo Ignorudus peIus
mues, num ubundono consen-
LIdo. Todus us personugens
Lêm em comum um mundo
que crIum puru se proLegerem
e ensuIurem uIgumu IeIIcIdude,
e umu ou muIs hgurus uduILus
que ussumem u responsubIII-
dude peIu suu educuçuo mus
que se mosLrum LoLuImenLe In-
dIsponiveIs puru dur quuIquer
IIberLu-u, em reuçuo, de seguIr
os pudrões consIderudos nor-
muIs peIu comunIdude: u IuILu
de IIgIene, o uso do cuIuo, o
IucLo de nuo Ir u escoIu ou de
comer com us muos deLermI-
num Iogo nu prImeIru IeILuru
u suu condIçuo de personugem
Lrunsgressoru.
De enLre os cIussIcos, u muIs
compIexu ubordugem u reIu-
çuo purenLuI é, como se sube,
PeLer Pun
6
. A cuIpu, u respon-
subIIIdude e o permunenLe
conßILo enLre ordem e IIberdu-
de perpussum por Lodu u obru,
enconLrundo o seu expoenLe
muxImo nu personugem ego-
cênLrIcu de PeLer Pun, o me-
nIno cuprIcIoso que nuo quer
crescer mus quer ser IeróI e
Ler, u suu esperu, umu mue.
EsLu mue deve Impor regrus e
mImu-Io, LrunsmILIr segurun-
çu e permILIr-IIe que brIIIe
em Lodo o seu proLugonIsmo.
O caso de Alice Vieira
ExempIos nuo IuILum. AssIm
se ubrIu u porLu u Inúmerus
derIvuções LemuLIcus e ruzões
puru u ubordugem do Lemu du
orIundude.
Em PorLuguI, AIIce VIeIru es-
coIIeu u IumiIIu como o grun-
de unIverso de unuIIse psIco-
IógIcu dus suus personugens.
A ausência dos pais é uma
est·ote¸o ,o·o oo· ocs
,·cto¸c·stos ,css!'oooes
¸.e soc ·e¸ooos
ocs 'etc·es e· ¸e·o'
LIpo de uIeLo, peIus muIs dIver-
sus ruzões, uIgumus dehnILIvus,
ouLrus LemporurIus.
No seu Lom nurruLIvo, AIIce
VIeIru deIxu o IeILor perLurbudo,
ImpIIcu-o nos sonIos e deses-
peros dus jovens proLugonIsLus,
obrIgu-o u senLIr-se ouvInLe de
um monóIogo e u desejur muILo
que u sILuuçuo se uILere. No hnuI
ussIsLe-se normuImenLe u umu
cuLurse que sugere mudunçu e u
recuperuçuo desse umor perdIdo
ou nuncu conIecIdo, seju peIu
reconcIIIuçuo, seju peIo upure-
cImenLo de um puI ou umu mue
subsLILuLu. A IumiIIu enquunLo
orgunIzuçuo socIuI é escruLInu-
du e desconsLruidu, oIerecendo-
-se Inúmerus possIbIIIdudes de
reorgunIzuçuo que Lêm sempre
como buse u dIsponIbIIIdude e o
desejo múLuo de uIeLo e uLençuo.
Novas leituras para
a morte dos pais
Nu úILImu décudu, uproxImudu-
menLe, surgIrum dIversos IIvros
juvenIs em que u uusêncIu pu-
renLuI (IrequenLemenLe morLos
ou desupurecIdos) esLu presen-
Le. No enLunLo, uo conLrurIo do
que uconLece nos exempIos muIs
cIussIcos ou no LrubuIIo de umu
uuLoru que, como AIIce VIeIru,
escoIIe cIurumenLe o LópIco Iu-
mIIIur como cerne du suu escrILu,
nuo Iu umu ruzuo comum que se
IIes enconLre peIu IeILuru.
A morLe ou desupurecImenLo de
um ou dos doIs puIs esLu presen-
Le em Lodo o LIpo de nurruLIvus
juvenIs, dus IunLusLIcus us reu-
IIsLus, do romunce de personu-
em quem nInguém, nem u mue,
ucredILu. A buse du nurruLIvu
é u do IeróI InvoIunLurIo que é
ImpeIIdo puru umu mIssuo que
ucubu por cIumur u sI, por no-
brezu, vIngunçu, necessIdude de
sobrevIvêncIu. É um cuso uIn-
du muIs evIdenLe du escoIIu du
morLe dos puIs como urgumenLo
desencudeudor du InLrIgu.
Emboru cumpru umu esLruLuru
nurruLIvu muIs compIexu e IILe-
rurIu, o mesmo se pussu em A
Invenção de Hugo Cabret
15
, em
que o proLugonIsLu decIde conLI-
nuur o projeLo do puI, ucredILun-
do que ussIm proIonguru u suu
exIsLêncIu e u suu orIenLuçuo.
Nuo Ioru u morLe desLe, e u suu
vIdu nuo se LerIu uILerudo LunLo,
sendo obrIgudo u vIver com o
LIo, u deIxur de esLudur e u Lru-
buIIur, IImpundo e munLendo u
IuncIonur ponLuuImenLe Lodos
os reIógIos de umu esLuçuo de
comboIos purIsIense. A Inßuên-
cIu do cInemu e u IdeIu de IIu-
suo que o puI IIe deIxuru Leruo
um pupeI decIsIvo, nuo upenus
nu Iormu como se movImenLu,
mus IguuImenLe nu persIsLêncIu
que o Iuru enconLrur, por ucu-
so, o verdudeIro urLihce duqueIe
Iomem mecunIco e u suu hIIu
udoLIvu, uILerundo puru sempre
u vIdu de Lodos.
gem uo poIIcIuI, du IILeruLuru
u IórmuIu. Suo exempIos uvuI-
sos, sobre os quuIs nuo é pos-
siveI esLubeIecer umu IIguçuo,
mus u verdude é que exIsLem,
podendo uLé ser ugrupudos de
ucordo com u ubordugem e u
Iunçuo nurruLIvu.
Quundo Hurry PoLLer
12
purLe
puru HogwurLs, Ievu consIgo
o peso de umu orIundude vIo-
IenLu, que resuILu de umu bu-
LuIIu que o próprIo jovem IeI-
LIceIro recuperuru num mIsLo
de desejo e InevILubIIIdude.
A morLe que VoIdemorL InßI-
gIu uos seus puIs IoI ImedIu-
LumenLe punIdu peIo próprIo
Hurry, uIndu bebé, peIo que
o reenconLro serIu InevILuveI.
Emboru u vIngunçu nuo persI-
gu o proLugonIsLu uo Iongo dos
seLe voIumes du sugu, é o epI-
sódIo InIcIuI, que IIe serve de
preIúdIo, que condIcIonu Lodu
u suu Iormuçuo e jusLIhcu, peIo
menos purcIuImenLe, um sen-
LIdo de jusLIçu e umu condIçuo
de IeróI que o Lornuru o prIn-
cIpuI deIensor do bem nu IuLu
A morte ou desaparecimen-
to de um ou dos dois pais
está presente em todo o
t,c oe ·o··ot.os ,..e·s
oos (o·tost:os os ·eo'stos
oc ·c·o·:e oe ,e·sc·o¸e·
oc ,c':o' oo 'te·ot.·o
à fórmula
conLru VoIdemorL.
Quuse dez unos depoIs de Hur-
ry PoLLer, duus novus sugus
escoIIem proLugonIsLus ór-
Iuos puru IeróIs de uvenLurus
poIIcIuIs. Cherub
13
, do IngIês
RoberL MucIumore, nurru us
mIssões de umu secreLu sec-
çuo juvenII do M¡¸, consLILuidu
upenus por crIunçus e jovens,
Lodus eIus órIus. Jumes Adu-
ms, o proLugonIsLu, ucuIenLu u
esperunçu de descobrIr u Iden-
LIdude do puI, envoILu num
mIsLérIo que os responsuveIs
peIo Cumpus conIeceruo, peIo
menos purcIuImenLe. Nuo é um
IeróI uLormenLudo, sequer um
jovem com quuIIdudes moruIs
superIores uos comuns mor-
LuIs.
A orIundude Lem uquI um pu-
peI dupIo porque de uIgumu
muneIru segue u LrudIçuo, de
Iormu muIs LrubuIIudu, dus co-
Ieções juvenIs do pussudo, em
que o InLernuLo subsLILuI u Iu-
miIIu e IegILImu u condIçuo de
IIberdude puru o rIsco e u uven-
Luru dos udoIescenLes, e por
ouLro uproveILu u suu condIçuo
de órIuos puru jusLIhcur uIguns
dos seus comporLumenLos e
upImenLur o seu percurso uo
Iongo du sugu.
Ju em Conspiração 365
14
,
CuIIum vê-se envoIvIdo numu
Lrumu InucredILuveI e verLIgI-
nosu, em que, depoIs du morLe
do puI, upurenLemenLe ucIden-
LuI, uIguém o uvIsu de que vuo
LenLur muLu-Io. O rupuz de 1¸
unos LrunsIormu-se num IugI-
LIvo u quem Lodos perseguem e
compreendesse, e ussIm u Lor-
nusse muIs IorLe nu IuLu conLru
Lodos os que nuo u compreen-
dIum nem uceILuvum.
No poIo oposLo esLu Os Mons-
tros que Fabricamos
18
, em que
SLepIen é um rupuz psIcóLIco
que crIu e du vIdu u monsLros de
burro. EnvoILo em mIsLérIo, um
dos bouLos que corre peIu cIdu-
de quundo o jovem upurece é o
du morLe do puI e du Ioucuru du
mue. SLepIen conIessuru que IoI
eIe quem muLou o puI, por cuIpu
du mue que nuo ucredILou que
eIe o poderIu, uo Inverso, suI-
vur. CerLo é que o rupuz despre-
zu proIundumenLe u mue, como
us pessous em geruI, com umu
crueIdude que resuILu precIsu-
menLe do poder que juIgu deLer
e que pressenLe muIor se unIdo
uo do uLerrudo DuvIe.
Du suudude u vIngunçu, du su-
cessuo uo Lerror, por Lodos os
cumInIos nos depurumos com
u uusêncIu purenLuI nos IIvros
de receçuo juvenII. Hu muILos
ouLros exempIos, menos sIgnIh-
cuLIvos puru o desenroIur dIegé-
LenLur descobrIr esses IIvros
e enLrur neIes, nu esperunçu
de enconLrur o puI. DenLro de
cudu um, us personugens duo-
-IIe novus pIsLus, e u crIunçu
ucubu por Lecer comenLurIos
ucercu dus próprIus nurruLIvus,
envoIvendo-se neIus. Procurur
o puI du--IIe, no hnuI, u res-
posLu que procuruvu. Nu suu
vIugem, EIIus compreende o
IuscinIo peIos IIvros e encon-
Lru, uIndu que sImboIIcumenLe,
o puI, e u sI próprIo.
DuvId AImond, um dos meIIo-
res escrILores juvenIs du uLuu-
IIdude, dedIcu-se u expIoruçuo
psIcoIógIcu dus personugens, u
crIuçuo de Lensões e purudoxos,
uo jogo unLInómIco enLre vIdu
e morLe, pussudo e IuLuro, reu-
IIdude e IunLusIu. As reIuções
InLerpessouIs, especIuImenLe
enLre pures e enLre u crIunçu
e o uduILo esLuo muILus vezes
presenLes. Em, por exempIo, O
Meu Nome é Mina
17
, u proLugo-
nIsLu vIve u umurguru du per-
du do puI, e u descrImInuçuo
de umu dIIerençu que ussenLu
precIsumenLe num dIscurso
nuo IormuLudo e IImILudo uos
consLrungImenLos escoIures
e socIuIs. A suu reIuçuo com u
urvore em IrenLe u suu cusu,
com u puIuvru, com o guLo ou
com u IumiIIu que vem morur
nus ImedIuções, Ludo é vIsLo
com um oIIur únIco, exLruor-
dInurIumenLe IirIco, que nuo
IdenLIhcu IImILes. Perder o puI
Leru sIdo perder uIguém que
Lumbém, u Imugem du mue, re-
Iorçusse esse senLIdo hIosóhco
du vIdu, uIguém que Lumbém u
ALé que ponLo u orIundude
IuncIonu como recurso puru
Iunçur umu nurruLIvu ou é umu
espécIe de Lemu ImpIicILo, que
condIcIonu us personugens In-
IunLIs ou juvenIs, moIdundo-
-us em Iunçuo du suu reIuçuo
com u uusêncIu?
A dIIerençu esLu no género
nurruLIvo. Quundo se LruLu de
umu uvenLuru, em que u uçuo
se sucede com um rILmo sem-
pre uceIerudo, u morLe ou de-
supurecImenLo dos puIs nuo
serve u descrIçuo de personu-
IIdude ou u reßexuo sobre os
comporLumenLos dos proLugo-
nIsLus.
AIonso Cruz escoIIeu o desu-
purecImenLo do puI, VIvuIdo
Bonhm
16
, puru jusLIhcur umu
vIugem IunLusLIcu de EIIus, o
seu hIIo de 1o unos, por uI-
guns IIvros du suu bIbIIoLecu.
PurLIndo de umu premIssu In-
verosimII - que VIvuIdo Leru
um dIu desupurecIdo denLro
dos IIvros que IIu compuIsIvu-
menLe - EIIus vuI, eIe próprIo,
InLensIvus. UILrupussu o deLer-
mInIsmo, u reLórIcu e u IeILuru
psIcunuIiLIcu.
ProvuveImenLe Luo recorrenLe
presençu enconLru umu jusLIh-
cuçuo sImpIes: os puIs suo eIe-
menLos ubsoIuLumenLe Incon-
LornuveIs nu vIdu dus crIunçus
e dos udoIescenLes; como LuI,
Lêm o seu Iugur ussegurudo,
peIu presençu ou peIu uusên-
cIu, nos IIvros que IIes suo dI-
rIgIdos. A cudu um, suu IeILuru,
u cudu um, suu moLIvuçuo.
Andreia Brites
LIco. Nuo Iu umu jusLIhcuçuo
socIuI, IILerurIu ou esLruLuruI,
peIo que upenus podemos Ier
u morLe como coIncIdêncIu
e recurso LemuLIco, nuo obs-
LunLe u Ierunçu IILerurIu que
ju IIe conIecemos, e que Leru
cerLumenLe conLrIbuido puru u
escoIIu do LópIco.
CerLo é que o Lemu quuse cIe-
gu uo recurso esLIIisLIco em uI-
guns cusos, conLrusLundo com
ubordugens surpreendenLes e
1 Edição original: The Famous Five; Enid Blyton, Hodder & Stoughton, 1942
2 Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada, Caminho, 1982
3 Edição original: Oliver Twist; Charles Dickens, Richard Bentley, 1837-39
4 Edição original: The Adventures of Tom Sawyer; Mark Twain, American
Publishing Company, 1876
5 Edição original: Adventures of Huckleberry Finn; Mark Twain, Charles L.
Webster and Company, 1885
6 Edição Original: Peter Pan; J. M. Barrie, Hodder & Stoughton, 1911
7 Editorial Caminho, 1986
8 Editorial Caminho, 1985
9 Editorial Caminho, 2010
10 Editorial Caminho, 2000
11 Editorial Caminho, 2005
12 Edição original: Harry Potter and the Philosopher’s Stone; J. K. Rowling,
Bloomsbury Publishing, 1997
13 Edição original: Cherub, The Recruit; Robert Muchamore, Hodder
Children’s Books, 2004
14 Edição original: Conspiracy 365, January; Gabrielle Lord, Scholastic
Austrália, 2009
15 Edição original: The Invention of Hugo Cabret, Brian Selznick, Scholastic
Inc., 2007
16 Edição original: Os Livros que Devoraram o Meu Pai, Afonso Cruz,
Caminho, 2010
17 Edição original: My Name is Mina, David Almond, 2010
18 Edição original: Clay, David Almond, Hodder Children’s Books, 2005
|o so.oooe o .·¸o·;o oo
s.:essoc oc te··c· ,c· tcocs
os caminhos nos deparamos
com a ausência parental
nos livros de receção juvenil
Ler na escola:
O Gato Malhado e
a Andorinha Sinhá
Como nu muIorIu dos progrumus de Iinguu
muLernu, Iu dIversus obrus recomendudus peIo
progrumu de porLuguês puru IeILuru ucompu-
nIudu em suIu de uuIu, uo Iongo dos dIversos
niveIs de ensIno.
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
1
, de Jor-
ge Amudo, consLu no progrumu Iu muIs de 1¸
unos e Lem sIdo LrubuIIudo com uIunos do ¸º
cIcIo, enLre os 1z e os 1¸ unos de Idude.
As experIêncIus Lêm sIdo InevILuveImenLe dI-
IerenLes, de ucordo com us Lurmus, os proIes-
sores, us esLruLégIus e os conLexLos socIuIs em
que cudu comunIdude se Insere. Hu, LoduvIu,
uIguns uspecLos comuns.
Os proIessores que opLum peIu obru Lêm opInI-
ões posILIvus ucercu du suu experIêncIu pessouI
de IeILuru. Quundo o Ieu Iu muIs de 1; unos,
u proIessoru JucqueIIne DuurLe gosLou Ime-
dIuLumenLe du nurruLIvu: ¨GosLeI busLunLe du
ubordugem crIuLIvu de Lemus como o umor e
u umIzude, compIemenLudos peIo Iumor e u
¨cor¨ IInguisLIcu.¨ MurIu HeIenu Borges suIIen-
Lu que u suu empuLIu uIndu se munLém: ¨GosLeI,
e gosLo. Du IIsLórIu nurrudu, upurenLemenLe
dIrIgIdu u IeILores muILo jovens, Iogo, IeILores
que uIndu esLuo u uprender u gerIr emoções.
Oru, u IIsLórIu é exLremumenLe emoLIvu e emo-
cIonunLe, com umu compIexIdude subjucenLe u
umu upurenLe sImpIIcIdude.¨
Hu eIecLIvumenLe um exoLIsmo ussocIudo u
esLu escrILu, ßuIdu e despojudu, que em nudu
compromeLe o IIrIsmo do Lemu e o rILmo me-
IuncóIIco que ununcIu, desde o InicIo, um de-
senIuce InIeIIz. Apesur dos dIversos regIsLos
(u curLu, o dIuIogo, o soneLo, u nurruLIvu), o
LexLo sou sempre sImpIes, o que Lem um eIeI-
Lo dIsLInLo em uIunos e proIessores. EnquunLo
os prImeIros, uIndu pouco experImenLudos nu
IeILuru, InLuem uIgo que IIes purece sImpIIsLu
e InIunLII, os segundos IdenLIhcum ImedIuLu-
menLe o subLexLo IorLe de emoções e hguruções
nu composIçuo dus personugens que, como
uconLece em ouLrus obrus do uuLor, reßecLem
conßILos, vuIores e InjusLIçus.
ProvuveImenLe peIu InLerpreLuçuo e peIo pruzer
que senLem uo Ier u obru, us proIessorus consI-
derum-nu udequudu us IuIxus eLurIus u que se
desLInu, no umbILo du dIscIpIInu de porLuguês.
A LemuLIcu, segundo AnubeIu PIres CurreIru, é
um urgumenLo de peso: ¨Sendo u sexuuIIdu-
de umu LemuLIcu obrIguLórIu e LrunsversuI us
vurIus dIscIpIInus e sendo u quesLuo dos sen-
LImenLos essencIuI puru umu bIogruhu sexuuI
IeIIz, esLe IIvro é um óLImo ponLo de purLIdu
puru essu ubordugem.¨ JucqueIIne DuurLe unuI
e ucrescenLu: ¨O Lemu do umor, du umIzude, du
Jorge Amudo: u hnu IronIu, u hcçuo que espeIIu
u reuIIdude, u criLIcu, mus Lumbém u Lernuru e
u preIerêncIu do nurrudor em reIuçuo u uIgumus
personugens.
No uno IeLIvo LrunsuLo, u muIorIu dos uIunos Lum-
bém gosLou du IIsLórIu nurrudu e InLerpreLou-
-u correLumenLe, mus um número consIderuveI
(LuIvez muIs de meLude) munIIesLou o seu desu-
grudo em reIuçuo u dIversos uspecLos. ConsIde-
rurum u IIsLórIu ubsurdu e quuse escunduIosu,
porque nuo pode Iuver quuIquer reIuçuo enLre
um guLo e umu undorInIu e crILIcurum o guLo por
ser eIemInudo e IumecIus (sobreLudo os rupuzes
rIem quundo se LruLu do GuLo, uhrmundo que os
Iomens nuo devem ser ¨romunLIcos¨ e ¨Irucos¨
como u personugem).¨
Apesur de uIgumus uILeruções uo niveI du re-
cepçuo peIos uIunos, us experIêncIus suo, geruI-
menLe, posILIvus. Tudo depende dus esLruLégIus
Lruçudus peIos proIessores, e essus ubundum e
repIIcum-se cudu vez muIs, nuo upenus por purLe
dus prIncIpuIs edILorus que se dedIcum uo IIvro
e uo muLerIuI de upoIo escoIur, como é o cuso du
PorLo EdILoru, mus Lumbém nu ¡nLerneL, em bIo-
gues, sILes e pIuLuIormus crIudus por docenLes.
De enLre muILus deIus desLucum-se us drumuLI-
zuções e o recurso uo escrILo. A proIessoru MurIu
Jouo SIIvesLre consIderu que ¨IuncIonum bem
proposLus de escrILu u purLIr du obru: umu cur-
Lu du undorInIu ou do guLo uos IubILunLes do
purque; umu proposLu de eIenco e de guIuo puru
umu udupLuçuo uo cInemu; um soneLo...¨ Teresu
Pombo, por exempIo, desenvoIveu um projecLo
de dIurIo do guLo, escrILo peIos uIunos, que de-
poIs uIImenLou um bIogue crIudo excIusIvumen-
Le puru o IIvro.
Por vezes, umu sImpIes IeILuru pode Iuzer Lodu
u dIIerençu, como purLIIIu JucqueIIne DuurLe:
¨Recordo-me do segundo uno em que IecIoneI
8.º uno, Iu 1; unos, e LIve umu uIunu de orIgem
brusIIeIru (cIeguvum os prImeIros grupos de
emIgrunLes brusIIeIros). OuvI-Iu Ier deu vIdu u
muxImu de SunLo AgosLInIo - ¨Os LexLos exIsLem
IrreverêncIu suo muILo upeIuLIvos no periodo du
udoIescêncIu; us meLuIorus que envoIve permI-
Lem esLImuIur (purLIndo du IubuIu) u expIoruçuo
de sIgnIhcudos de Iormu uLruLIvu, quuse IúdIcu.
A uproxImuçuo uos uuLores de Iinguu ohcIuI por-
Luguesu, nesLe cuso, u um uuLor brusIIeIro, pos-
sIbIIILu u unuIIse dus vurIunLes IInguisLIcus e u
dIscussuo du suu rIquezu, LuI como u descoberLu
do uuLor Jorge Amudo e ouLrus obrus suus. A
LemuLIcu uproxImu-o uIndu de ouLru obru muILo
do ugrudo dos uIunos, O gato que ensinou a gai-
vota a voar, de ¡uis SepúIvedu.¨
Primeira impressão e leitura,
dois momentos, duas opiniões
No enLunLo, Iu ucLuuImenLe muIs resIsLêncIu,
por purLe dos uIunos, u IeILuru du obru. As ru-
zões enconLrum-se nouLros recursos que os udo-
IescenLes expIorum com pruzer, como os unIver-
sos IunLusLIcos ou os dIurIos de pendor reuIIsLu.
A IubuIu esLu normuImenLe ussocIudu u InIuncIu,
no seu puLrImónIo de IeILuru e é-IIes dIIicII uceI-
Lur o pucLo proposLo por Jorge Amudo. DescorLI-
nur o senLIdo hgurudo du nurruLIvu nuo se uhgu-
ru ImedIuLo, devIdo us IImILuções de IILeruIIdude
que, puru uIguns, u poucu experIêncIu de IeILuru
de LexLos e do mundo em geruI, Impõe.
A proIessoru MunueIu CueIro opLou por nuo Lru-
buIIur u obru devIdo u esLes consLrungImenLos:
¨PeIu mInIu experIêncIu, os muIs novos gosLum
muILo de IIsLórIus de unImuIs, mus os udoIes-
cenLes nuo LunLo. SenLem-se InIunLIIIzudos, puru
muIs se u IIusLruçuo IIes purece mesmo InIunLII.
Depende Lumbém dus Lurmus. E LuIvez Lumbém
du nossu cupucIdude de medIuçuo de IeILuru.
Mus como eu IIes duvu vurIus obrus u escoIIu, os
meus jovens opLurum sempre por ouLrus... E eu
desIsLI de IncIuIr O gato malhado... no menu.¨
HeIenu Borges, uo compurur u recepLIvIdude dus
suus Lurmus em zooq e no pussudo uno IecLIvo,
noLu uIgumus dIIerençus: ¨Hu oILo unos uLrus, os
uIunos gosLurum muILo do IIvro (LexLo e IIusLru-
ções). ConseguIrum percecIonur curuLerisLIcus
que surgem pruLIcumenLe em Lodus us obrus de
puru ser IIdos em voz uILu¨. ReIembro, Lumbém,
u LrIsLezu dos uIunos (especIuImenLe dus uIunus)
Iuce uo hnuI du IIsLórIu, emboru uIguns ¨GuLos
MuIIudos¨ Lumbém se LenIum deIxudo Ievur...¨
A quesLuo dus obrus de IeILuru obrIguLórIu é po-
IémIcu e nuo Lem resposLu univocu. Nuo se deve
ubundonur um LexLo IILerurIo u prImeIru dIh-
cuIdude, nem perunLe umu LendêncIu IIgeIru de
mudunçu de reucçuo por purLe dos uIunos. No
enLunLo, é essencIuI que o proIessor suIbu deIen-
der u obru, nuo upenus no que respeILu u suu pre-
IerêncIu mus Lumbém no umbILo do seu próprIo
projecLo dIducLIco e pedugógIco, sob penu de nuo
conseguIr que os uIunos u compreendum.
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá é um de-
suho. E umu porLu de enLrudu puru o unIverso de
Jorge Amudo. MurIu HeIenu Borges ussume essu
mIssuo: ¨ALendendo u dIhcuIdude de ubsLru-
çuo reveIudu uLuuImenLe, u dIhcuIdude (e Lum-
bém poucu vonLude) em ¨suIr¨ du IeILuru IILeruI e
¨ver¨ puru uIém do que o uuLor escreveu, o IIvro
consLILuI um desuho. AIém dIsso, mesmo proLes-
Lundo, mesmo rIndo, mesmo dIzendo ¨pIudus¨,
umus vezes engruçudus, ouLrus sem gruçu ne-
nIumu, o IucLo é que os uIunos cerLumenLe nuo
esquecerum o IIvro, Lendo sIdo um dos que muIs
os Iez ubundonur us conversus em uuIu.¨
AB
1 Edição portuguesa: D. Quixote
Ilustração de Caribé para a edição de
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
José Hernundéz, icone du IdenLIdude urgenLInu,
que nurru u vIdu de um guúcIo nus pumpus, o
Museo deI DIbujo e Iu ¡IusLrucIón orgunIzou umu
exposIçuo com IIusLruções, desenIos e gruvuções
de grundes uuLores sobre o IIvro e u personugem.
AproveILundo o Iemu do ¡esLIvuI, promoverum-
se uIndu us Jornudus puru DocenLes y MedIudo-
res de ¡ecLuru ¨Como IeerLe mejor? EsLruLégIus
puru Iu cuIIdud deI proceso IecLor¨ e o 6º ¡oro de
PromocIón de Iu ¡ecLuru y eI ¡Ibro ¨Puru IeerLe
mejor en Iu bIbIIoLecu¨.
Tudo IoI grunde no ¡esLIvuI, do número de uLe-
IIers uo número de grupos coruIs, dos Lemus dus
mesus redondus uLé u ohcInu puru medIudores e
docenLes, que IncIuIu umu vIsILu orIenLudu u ¡eI-
ru, com recoIIu e upresenLuçuo de bIbIIogruhu
orgunIzudu por Lemus. Segundo o sILe ohcIuI, Io-
rum muIs de ¸oo.ooo pessous u vIsILurem o cer-
Lume, que cerLumenLe enconLrurum moLIvuçuo e
esLruLégIus puru Ier meIIor.
Português para estrangeiros
A edILoru TcIurun nusceu em zo1o peIu muo
du IIvreIru e escrILoru AdéIIu CurvuIIo e du IIus-
Lrudoru MurLu MudureIru. SedIudu nu IIvrurIu e
guIerIu Pupu ¡Ivros, no PorLo, que se dedIcu u In-
IuncIu e juvenLude, u pequenu edILoru conLu com
cInco IIvros pubIIcudos. Tendo u quuIIdude como
prIncIpuI crILérIo, u uposLu edILorIuI cenLru-se em
uuLores porLugueses, quer escrILores como IIus-
Lrudores, preLendendo equIIIbrur o cuLuIogo com
nomes reconIecIdos e InconLornuveIs e ouLros
Destaques
Tudo em grande, como o lobo
O moLe sou IumIIIur, como convém. ¨Puru Ieer-
Le mejor¨ IoI o Iemu escoIIIdo puru u zz² ¡eIru
¡nLernucIonuI do ¡Ivro ¡nIunLII e JuvenII de Bue-
nos AIres, que decorreu enLre q e z8 de JuIIo no
CenLro de ExposIções du cupILuI ArgenLInu.
OrgunIzudu peIu ¡unducIón EI ¡Ibro, u ¡eIru
conLou com Inúmeros sLunds, enconLros com
uuLores e IIusLrudores, ohcInus, exposIções, uLe-
IIers, concursos e u uLrIbuIçuo dos PrémIos Pre-
gonero, nus suus dIversus cuLegorIus (¡nsLILuI-
çuo, EspecIuIIsLu, JornuIIsmo, Produçuo DIgILuI,
BIbIIoLecu, ¡IvrurIu, ConLudor, TeuLro, Pregone-
ro EspecIuI e Pregonero de Honru).
Houve uIndu espuço puru um concurso de dIs-
Iurces, u purLIr de personugens de IIvros de
Bundu DesenIudu, puru uduILos e crIunçus, no
umbILo do ¸º ¡esLIvuI de HIsLorIeLu, e puru u 1²
Rondu de Coros ¨Puru cunLurLe mejor¨ onde se
reunIrum dIversos grupos coruIs, esLreILundo-se
ussIm us reIuções enLre o IIvro e u músIcu LrudI-
cIonuI.
As exposIções Iorum dedIcudus u eIemérIdes: o
bIcenLenurIo du edIçuo dos ¨ConLos du ¡umiIIu
e do ¡ur¨ dos ¡rmuos GrImm e o bIcenLenurIo
do nuscImenLo de CIurIes DIckens. PeIos 1qo du
edIçuo de ¨MurLin ¡Ierro¨, o grunde poemu de
PeIos mesmos moLIvos, u uposLu em IIvros Lru-
duzIdos é, Lumbém, umu IerrumenLu e umu Ior-
mu muIs IucII puru u nossu ugenLe InLernucIonuI
conseguIr LrubuIIur u Imugem du TcIurun peIo
mundo e, consequenLemenLe, conseguIr u vendu
de dIreILos.»
Emboru possu ser um mercudo IImILudo, Lum-
bém em PorLuguI Iu espuço puru u vendu de uI-
buns em IngIês e cusLeIIuno, sobreLudo uo niveI
do ensIno dus Iinguus, especIuImenLe do IngIês,
que se InIcIu Iogo no prImeIro cIcIo.
Dos Lrês uIbuns LruduzIdos, Mocho Comi e Lobo
das Meias perLencem u coIecçuo ConLos du Tru-
dIçuo OruI. Tendo u ruposu como proLugonIsLu,
no prImeIro conLo é eIu u mu du hLu enquunLo
que no segundo é u viLImu. Aos doIs uIbuns us-
sIsLe o senLIdo de Iumor e u uproxImuçuo uo oruI
que CurIos NogueIru, InvesLIgudor nu ureu du II-
LeruLuru LrudIcIonuI, rIgorosumenLe preservu.
Elefante em Loja de Porcelanas é umu nurru-
LIvu pIenu de rILmo e cor, conLrurIundo o peso
suposLo de unImuI Luo voIumoso. Ao conLrurIo
dos pIores Lemores dus IoIçus, o eIeIunLe cIrcuIu
mugesLosumenLe nu Ioju, uIImenLundo u sILuuçuo
com muILo Iumor.
A TcIurun Lem prevIsLu u edIçuo de muIs cInco
IIvros uLé uo hnuI do uno. See you soon.
que ugoru começum u dur os prImeIros pussos
nu escrILu ou IIusLruçuo puru u InIuncIu.
Apesur du suu dImensuo e de exIsLIr Iu pouco
Lempo, u edILoru Iez umu uposLu Inovudoru uo
edILur Lrês dos seus cInco uIbuns em IngIês e es-
punIoI. MurLu MudureIru expIIcu-nos us ruzões
desLu uposLu: «DecIdImos Iuzê-Io peIu necessI-
dude que Iomos senLIndo em InvesLIrmos Lum-
bém nouLros puises que nuo upenus PorLuguI. É
umu uposLu em novos mercudos e consequenLe-
menLe nu InLernucIonuIIzuçuo.»
Dur u conIecer u edILoru Ioru de PorLuguI permI-
Le vender muIs exempIures, umpIIundo o núme-
ro de poLencIuIs IeILores, o que, ucompunIudo
du promoçuo dos seus uuLores, poderu ser muILo
sIgnIhcuLIvo.
«EsLumos, por exempIo, u vender nu Amuzon
puru IucIIILur o ucesso uos nossos IIvros em quuI-
quer purLe do mundo. Recebemos recenLemenLe
o prImeIro prémIo de IIusLruçuo du ¸x¸ MuguzI-
ne com o IIvro Mocho Comi que rupIdumenLe se
reßecLIu nu procuru e encomendus do IIvro, em
versuo IngIesu, nu Amuzon, sobreLudo no ReIno
UnIdo.»
Tumbém uo niveI du vendu de dIreILos de pubII-
cuçuo, o IucLo de exIsLIr umu edIçuo nouLru Iin-
guu IucIIILu o ucesso e u comunIcuçuo com ou-
Lrus edILorus esLrungeIrus, nuo upenus do ponLo
de vIsLu du produçuo que nuo ImpIIcu Lruduçuo,
mus Lumbém do ponLo de vIsLu du próprIu com-
preensuo do uIbum. «SenLImos essu dIIerençu
nu ¡eIru do ¡Ivro de BoIonIu, esLe uno. Ju Iu
LinIumos esLudo o uno pussudo mus só com Li-
LuIos em porLuguês. EsLe uno, com Lrês LiLuIos
LruduzIdos em IngIês e espunIoI, senLImos um
InLeresse muIs ImedIuLo nos IIvros. As edILorus
que nos procurum conseguem Ler umu vIsuo
hnuI do IIvro, percebem meIIor us IIsLórIus e
uvuIIum com muIor rIgor u dInumIcu do objecLo.
TIvemos um exempIo muILo cIuro dIsso nu ven-
du de dIreILos (ju concIuidos) puru u CoIômbIu,
onde o prImeIro conLucLo com os IIvros, nesLe
cuso em espunIoI, IoI decIsIvo.
¡Ivros que Lêm edIçuo em IngIês e cusLeIIuno:
Elefante em Loja de Porcelanas / Elephant in a
Porcelain Shop / Elefante en Tienda de Porce-
lanas; AdéIIu CurvuIIo (LexLo), André du ¡obu
(IIusLruçuo).
Mocho Comi / I ate an Owl / Búho Comi; CurIos
NogueIru (LexLo), MurLu MudureIru (IIusLruçuo).
Lobo das Meias / The Wolf in Socks / El Lobo
de las Calcetas; CurIos NogueIru (LexLo), Teresu
CorLez (IIusLruçuo).
O cão, personagem dor romances de José Saramago,
por Helena Vaz Duarte
“Entra, chegaste à tua casa”.
por Pilar del Río
Saramaguiana
O cão, personagem dor romances de José Saramago,
por Helena Vaz Duarte
“Entra, chegaste à tua casa”.
por Pilar del Río
rumuguIuno quer como personugem, quer como
processo de curucLerIzuçuo du reuIIdude hccIonuI
ou como sInónImo do ponLo de vIsLu do nurru-
dor.
A suu esLreIu como personugem é em Levantado
do Chão, romunce Lumbém eIe de quuse-esLreIu
do escrILor, com o nome ConsLunLe, umu Iormu
LuIvez de ununcIur u suu presençu nos romunces
seguInLes e, quuse como personugem, u comun-
gur du euIorIu dos LrubuIIudores no dIu z¸ de
ubrII:
E à frente, dando os saltos e as corridas da sua
condição, vai o cão Constante, podia lá faltar nes-
te dia levantado e principal.
2
Em A Jangada de Pedra, o nurrudor, em uuLoIn-
LerLexLuuIIdude, uLrIbuI uo cuo Iruncês ArdenL u
IdenLIdude de ConsLunLe
[José Anaiço] [...] propôs que fosse dado ao cão
o nome de Constante, tinha lembrança de haver
lido esse nome num livro qualquer
3
que upurece com o ho uzuI nu bocu, Lornundo-se
o conduLor do verdudeIro ho du nurruLIvu.
Será assim, respondeu Joana Carda, mas esta
voro fcoro sempre com|go, os momentos nõo ov|-
sam quando vêm. Um cão apareceu entre as ár-
vores, do outro |odo. (...j 7|nho no 5oco um fo de
lã azul que pendia, húmido. Pedro Orce passou-
-lhe a mão pelo dorso, depois voltou-se para os
companheiros, Há momentos que avisam quando
chegam, a terra treme debaixo das patas deste
cão.
4
O cuo que RuImundo SIIvu vuI enconLrundo e
que uLé procuru nus escudInIus de S. CrIspIm, no
cenurIo de História do Cerco de Lisboa, LesLe-
munIu du suu soIIduo e do seu quesLIonumenLo
pessouI e prohssIonuI, ou o cuo do vIoIonceIIsLu
soIILurIo de Intermitências da Morte gunIum cor-
po hccIonuI, quer como o cuo de nome AcIudo de
A Caverna, quer como o cuo dus IugrImus de En-
saio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez.
Os IeILores dos romunces de José Surumugo
guurdum, nu suu memórIu, u presençu IorLe de
muILus dus personugens, sejum muscuIInus ou
IemInInus. ReIembro BIImundu de Memorial do
Convento e u muIIer do médIco de Ensaio sobre
a Cegueira e de Ensaio sobre a Lucidez, doLudus
de exLruordInurIu Iorçu unimIcu, o cuILo IeLeró-
nImo RIcurdo ReIs de O Ano da Morte de Ricar-
do Reis, LrunsIormudo em Iomem Luo unónImo
como o Sr. José de Todos os Nomes, o poIémIco
Jesus CrIsLo de Evangelho segundo Jesus Cris-
to, u corujosu IumiIIu Muu-Tempo de Levantado
do Chão, enLre LunLus ouLrus personugens
Porém, nuo é de personugens Iumunus que Ioje
quero IuIur, mus de ouLrus que vIvem Lumbém
nus pugInus do romuncIsLu, u quem eIe conIere
curucLerisLIcus que us Lornum genLe como nós.
Rehro-me uos unImuIs e, se de Lodos IuIusse, u
IIsLu e os exempIos serIum Iongos: o eIeIunLe,
cIuro, nu suu penosu e Iongu vIugem; o mIIIu-
no que sobrevou, uILIvo, u pIunuru de Levantado
do Chão, ou us IormIgus, no mesmo romunce,
que LesLemunIum, no seu IenLo vuIvém, u Ion-
gu ugonIu de Germuno VIdIguI uo ser LorLurudo
peIu P¡DE; o burro que ucompunIu u uIegrIu e o
umor de BuILusur e BIImundu numu dus suus Idus
u serru de MonLe JunLo, em Memorial de Con-
vento ou os esLornInIos de José AnuIço ou 'DoIs
CuvuIos`- curro e guIeru puxudu por PIg(urço) e
AI(uzuo) em A Jangada de Pedra. DesLuco, po-
rém, o cuo, personugem consLunLe nos romunces
de Surumugo. As puIuvrus do uuLor mosLrum-nos
u suu ImporLuncIu hccIonuI:
“O cão viaja nos meus livros desde Levantado do
Chão, e o nome Constante que lhe dei é a home-
nagem de um humano a um canino .”
1
Nu reuIIdude, o cuo surge no espuço hccIonuI su-
O cão, personagem dos romances
de José Saramago
reIIes IoI u escoIIu de um cuo de ruçu, o que nuo
deIxu de comprovur u ImporLuncIu que eIe uLrI-
buI u esLe unImuI como personugem dos seus ro-
munces. PreIerIu um cuo ruIeIro, unónImo, como
unónImos suo u muIorIu dos seus proLugonIsLus.
Uivemos, disse o cão é u epigruIe de Ensaio so-
bre a Lucidez, romunce de zooq e que, puru uIém
du IIguçuo no LiLuIo, recuperu us personugens de
Ensaio sobre a Cegueira e u Lomudu de cons-
cêncIu de que u exIsLêncIu de umu socIedude jus-
Lu e IguuIILurIu é umu uLopIu. É LuIvez o romunce
de José Surumugo com o hnuI muIs pessImIsLu:
Passou uma hora, e a mulher do médico ainda
não apareceu, tem estado a chorar, a pobre, mas
agora virá respirar um pouco, (...). A mulher apro-
xima-se da grade de ferro, põe-lhe as mãos em
cima e sente a frescura do metal. Não podemos
perguntar-lhe se ouviu os dois tiros sucessivos, jaz
morta no chão e o sangue desliza e goteja para
a varanda de baixo. O cão veio a correr de lá
de dentro, fareja e lambe a cara da dona, depois
estica o pescoço para o alto e solta um uivo arre-
piante que outro tiro imediatamente corta. Então
um cego perguntou, Ouviste alguma coisa, Três ti-
ros, respondeu outro, Mas havia também um cão
aos uivos, Já se calou, deve ter sido o terceiro tiro,
Ainda bem, detesto ouvir cães a uivar.
9

EsLu cenu hnuI, com u morLe du muIIer do mé-
dIco e u do cuo, IIusLruru bem u ImpossIbIIIdude
de redençuo e o InevILuveI enconLro com u ce-
gueIru bruncu que envoIve u IumunIdude. ¡Icu
um umurgo de bocu quundo IecIumos us pugInus
desLe IIvro. Com u morLe do cuo, o IeILor senLe
u emoçuo du perdu de umu personugem querIdu
e percebe o desmoronur de um mundo meIIor.
¨Eu nuo sou pessImIsLu, o mundo é que péssI-
mo¨, dIsse vurIus vezes Surumugo. Por Isso, seru
precIso que os Iomens, como os cues, uIvem e
nuo deIxem muLur em sI o que IIes du u cupucI-
dude de serem Iumunos.
MuILo muIs IuverIu u ucrescenLur sobre u pre-
sençu do cuo nos romunces de Surumugo. Como
suu IeILoru, resLu-me upenus dIzer que, quun-
do IecIo us pugInus dos seus IIvros, sInLo o cuo
como umu personugem que hcu nu mInIu me-
AcIudo é o cuo que surge, 'perdIdo`, numu noILe
cIuvosu, em cusu do proLugonIsLu CIprIuno AI-
gor, e que se Lornu 'ucIudo`, sendo um eIemenLo
ImporLunLe, LunLo uIeLIvumenLe puru uqueIu Iu-
miIIu, como hccIonuImenLe, sendo o InLerIocuLor
do oIeIro AIgor, nos seus momenLos de mu-sorLe
ou no enconLro do umor de ¡suuru Mudrugu.
AquI hcum uIguns dos muILos excerLos que mur-
cum u IumunIzudu presençu de AcIudo:
O Achado é um cão consciente, sensível, quase
humano, não precisa que lhe expliquem o que se
está a passar aqui.
5
mas o cão Achado, embora sem se atrever a du-
vidar do pouco que tinha ouvido, não pôde dei-
xar de notar que a melancolia da cara do dono
contrariava abertamente a determinação das
palavras,
6
Cipriano Algor chamou o cão, Vamos, bicho, e o
Achado foi atrás dele, Pode ser que a encontre,
pensava. Os cães são assim, quando lhes dá para
tal pensam por conta dos donos.
7
Tumbém o cuo dus IugrImus poderu hgurur nu
IIsLu dus personugens InesqueciveIs de Surumu-
go. É de reIembrur o desejo do romuncIsLu de
ser recordudo como uqueIe que crIou o cuo que
Iumbeu us IugrImus du muIIer do médIco, quun-
do esLu se senLu, desesperudu, numus escudus
de umu ruu do mundo cuóLIco e unImuIesco de
Ensaio sobre a Cegueira. AquI, o cuo condensu
Lodos os senLImenLos uusenLes do ser Iumuno: u
uLençuo uo próxImo, u purLIIIu du dor e Lumbém
du esperunçu de redençuo.
A mulher do médico vai lendo os letreiros das
ruas, (...) Não há dúvida, está perdida. (...) Os
cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem
convicção, como se já lhes tivesse passado a
hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez
desde pequeno tenha sido habituado a enxugar
prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe
a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lá-
gr|mos choro-os o5roçodo o e|e. Quondo enfm
levantou os olhos, (...) viu que tinha diante de si
um grande mapa,
8
É curIoso reIerIr que o únIco uspeLo que Suru-
mugo nuo uprovou no hIme de ¡ernundo MeI-
mórIu, Luo reuI como sImbóIIcu, e que corporIzu
u IumunIdude que LunLus vezes IuILu uqueIes que
Lêm o poder de Lornur o mundo meIIor. SInLo-o
genLe como nós!
AssIm IoI Cumões puru os seus donos, que IIe
ubrIrum us porLus du cusu em ¡unzuroLe, deIxun-
do-o ser purLe dus suus vIdus!
Helena Vaz Duarte
1 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2203200410.htm (consultado em 02.08.2002)
2 Saramago, 1988: 304
3 Saramago, 1997: 254
4 Saramago, 1997: 150-151
5 Saramago, 2000: 349
6 Saramago, 2000: 144
7 Saramago, 2000: 145
8 Saramago, 1995: 226
9 Saramago, 2004: 328-329

3|b||o¿·a¦a at|va.
SARAMAGO, José (1988), Levantado do Chão,
Círculo de Leitores
SARAMAGO, José (1986), ^ ¡o·¸ooo oe |eo·o,
Lisboa, Ed. Caminho
SARAMAGO, José (1995), ¯·soc sc!·e o Ce¸.e·o Lisboa, Ed. Caminho
SARAMAGO, José (2000), A Caverna, Lisboa, Ed. Caminho
SARAMAGO, José (2004), Ensaio sobre a Lucidez,
Lisboa, Ed. Caminho
cues que Surumugo InvenLu, é u
meIIor resposLu unImuI u me-
IIor conscIêncIu Iumunu, mor-
reu com Lodos os seus unos e
sempre umudo.
Quundo o cuo cIumudo Cumões
regressou u cusu depoIs du mor-
Le de José Surumugo, nuo con-
seguIu uceILur u uusêncIu. EsLe-
ve InquIeLo durunLe o dIu, mus
quundo cIegou u noILe e nuo
vIu o dono nem nu cumu nem
no soIu que ocupuvu IubILuuI-
menLe, quundo umu e mII vezes
percorreu o espuço enLre os doIs
quurLos, quundo percebeu que o
dono ju nuo esLuvu nem Iu esLur,
que Isso é u morLe, uIvou, grILou,
rusgou-se numu dor que urrunIu
u uImu só de descrevê-Iu. Nuo
busLurum ubruços puru consoIu-
-Io, nem puIuvrus curInIosus: Iu
e vInIu de um Iugur puru ouLro,
pernus, um pouco desujeILudo,
IeIIz por nInguém o muILruLur.
Quundo Surumugo upureceu u
ununcIur que LInIu recebIdo
o PrémIo Cumões, soubemos,
soubemo-Io nesse InsLunLe,
que o cuo que LInIu enconLru-
do u suu cusu nuo Iu Ler ouLro
nome que o do grunde poeLu
porLuguês. E ussIm, peIo me-
nos em ¡unzuroLe, Cumões IoI
mencIonudo cenLenus de vezes
por dIu, IoI vIdu e IoI Iomenu-
gem. E esLe cuo doce e nobre,
que nuncu uprendeu u comer
devugur porque uLé cIegur u
Cusu LInIu LIdo que IuLur con-
Lru u Iome e o ubundono, com u
suu gruvuLu bruncu desenIudu
no peIo negro, que IoI o mode-
Io puru ¨O AcIudo¨ d` A Caver-
na, um cuo que, como Lodos os
“Entra, chegaste
à tua casa”
¨EnLru, cIegusLe u Luu cusu¨:
ussIm enLrou Cumões nu vIdu de
José Surumugo. No momenLo
em que MunueI MurIu CurrIIIo,
mInIsLro du CuILuru de PorLu-
guI, ununcIuvu u José Surumugo
que IIe LInIu sIdo concedIdo o
muIor guIurduo IILerurIo du Iin-
guu porLuguesu, um cuo ussus-
Lou LunLo umu vIzInIu que eIu
grILou u pedIr ujudu. Os que es-
Luvumos em cusu suimos puru
u ruu e vImos que o unImuI Ie-
roz eru um cucIorro ussusLudo
com o susLo du muIIer. O unI-
muI enLrou peIu porLu uberLu do
jurdIm, mexendo sem jeILo us
1 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2203200410.htm (consultado em 02.08.2002)
2 Saramago, 1988: 304
3 Saramago, 1997: 254
4 Saramago, 1997: 150-151
5 Saramago, 2000: 349
6 Saramago, 2000: 144
7 Saramago, 2000: 145
8 Saramago, 1995: 226
9 Saramago, 2004: 328-329
numu correrIu que purLIu o co-
ruçuo, gemIu com umu dor Iu-
munu. Por Isso, um umIgo que
esLuvu Iu em cusu e uII pussou u
noILe, InLILuIou no dIu seguInLe
u suu coIunu jornuIisLIcu: ¨Cu-
mões cIoru por Surumugo¨.
Surumugo ju nuo poderu cIo-
rur por Cumões, ugoru que
morreu Luo docemenLe como
vIveu, Luo IonesLumenLe unI-
muI que upeLece uprender
com u suu Iormu de esLur nu
vIdu. Ou LuIvez, sem cIorur,
se enconLrem nu sensIbIIIdude
crIudu que nudu nem nInguém
pode desLruIr, porque LunLu
vIdu purLIIIudu, e em com-
punIIu Luo umuveI, nuo pode
perder-se. EsLuo por ui, em II-
vros e memórIus, em coruções
que nuo se rendem, José Su-
rumugo com os seus Lrês cues,
Pepe, GreLu e Cumões, pondo
beIezu no mundo, ImorLuIs nu
vIvêncIu pessouI dos que su-
bem ver e Lumbém senLIr.
Pilar del Río
|e,e (c c ,··e·c :oc oe ´o·o·o¸c o ·c··e· e· 7007
¸.o·oc ¡cse ´o·o·o¸c se e·:c·t·o.o e· !s!co C·eto ·c·-
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·o¸c ·c··e. o 7 oe o¸cstc oe 707 ^ ·c·te oe Co·ces (c
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oe o··os ¸.e ,o·o c.t·cs se·o· s·,'es·e·te e··o·tes e
vadios.
David Hockney: Una Visión Más Amplia
MosLru reLrospecLIvu de puIsugens do urLIsLu, no
Museu GuggenIeIm. ALé ¸o de SeLembro, em
BIIbuo.
·tt,//...¸.¸¸e··e·-!'!oces/
Clclo oe Clnema: |nNuenclas Luropeas oel Clne Cbl-
leno de los 60’
Todos os subudos (1;Ioo), uLé uo hm de AgosLo,
nu Cusu Museo Eduurdo ¡reI MonLuIvu, em Sun-
LIugo do CIIIe.
·tt,//...estc,:'/o¸e·oo/:·e/::'c-·(.e·:os-e.·c,eos-oe'-:·e-
-:·'e·c-oe-'cs-ó0
Campo Revelado: Tierra Y Campesinos.
ExposIçuo de IoLogruhus de EIruin Gurciu du-
runLe u reIormu ugrurIu coIombIunu, enLre 1q6o
e 1q;z no Museo NucIonuI de CoIombIu. ALé z¸
de Novembro, em BogoLu.
·tt,//...·.sec·o:c·o'¸c.:c/
A Falecida, de Nelson Rodrigues
Em cenu no TeuLro do SesI - Cen-
Lro CuILuruI ¡¡ESP. De quInLu-
-IeIru u domIngo, uLé z de De-
zembro, em Suo PuuIo.
http://www.cidadedesaopaulo.com/sp/br/
¸·ots/¯¯¯-o-(o'e:oo
Agenda
Jorge Amado em Portugal
ExposIçuo dedIcudu u recepçuo du obru de Jorge
Amudo em PorLuguI, no cenLenurIo do seu nuscI-
menLo. BIbIIoLecu NucIonuI de PorLuguI. ALé zq
de SeLembro, em ¡Isbou.
·tt,//...!·,c·t.¸o',t/
Jorge Amado 100 Anos
ExposIçuo de IIvros, IoLogruhus e curLus de Jorge
Amudo. ALé zo de SeLembro, nu ¡unduçuo José
Surumugo, Cusu dos BIcos, em ¡Isbou.
·tt,//,cseso·o·o¸cc·¸/
Taretas |nñnltas: Quanoo a Arte e o Llvro se |llmltam
ExposIçuo sobre o dIuIogo enLre u ArLe e o ¡Ivro.
¡unduçuo CuIousLe GuIbenkIun. ALé z1 OuLu-
bro, em ¡Isbou.
·tt,//...¸.'!e·'o·,t/
Festlval oe vloeoarte Latlno RLG|ON 0
MosLru de videos represenLuLIvos dus Lendên-
cIus ucLuuIs du crIuçuo uudIovIsuuI. No SuIón
de AcLos do Museu de ArLe ConLemporuneu de
VIgo, uLé 1 de SeLembro. Em VIgo.
·tt,//·ce.¸cc·¸/·c.e·c·cs/:.'t.·o_oe·oo,·,`'o·¸=¸o'
Máscara Ibérica
ExposIçuo sobre u LrudIçuo du muscuru IbérI-
cu. ALé ¸o de SeLembro, no Muséu deI PuebIu
d`AsLurIes, em GIjón.
·tt,//·.secs¸,c·es/,o¸e/¯78¯-·.se.-oe'-,.e!'.-o-ost.·es
Festival Williams-Guastavino
¡esLIvuI de músIcu em Iomenugem u AIberLo
WIIIIums e CurIos GuusLuvIno. ALé Novembro,
nu suIu AIberLo WIIIIums do CenLro CuILuruI
Borges, em Buenos AIres.
·tt,//...:.'t.·o¸c.o·/o¸e·oo/`·(c=oeto''e8o=7870
JORGE AMADO 100 ANOS YEARS
EXPOSIÇÃO EXHIBITION
1O AGO AUG/
20 SET SEP