DISCLAIMER Estes apontamentos não dispensam o estudo dos manuais recomendados pelo Professor Regente e Assistente.

DIREITO DAS OBRIGAÇÕES II
PROF. ROMANO MARTINEZ
Faculdade de Direito de Lisboa

Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL RESPONSABILIDADE OBJECTIVA

Responsabilidade Civil

§1: GENERALIDADES. Antes de estudarmos a responsabilidade objectiva, seja ela pelo risco ou pelo sacrifício, cumpre tecer algumas considerações preliminares e recordar os pressupostos gerais da responsabilidade civil. A responsabilidade civil é uma fonte de obrigações, maxime a obrigação de indemnizar que, como sabemos, é exclusivamente legal: encontra-se, por isso, tipificada na lei [arts. 562º ss]. Enquanto excepção à regra geral de imputação dos danos na esfera jurídica onde ocorrem, a responsabilidade civil consiste no conjunto de factos que dão origem à obrigação de indemnizar os danos sofridos por outrem [ressarcibilidade]. Relativamente à distinção entre responsabilidade subjectiva e objectiva, importa recordar: • Responsabilidade subjectiva ou delitual: a responsabilidade civil pressupõe, regra geral, culpa [art. 483º-2]. A culpa deve ser aqui entendida como um juízo moral ou de censura da conduta, seja ela praticada com dolo ou mera culpa. A actuação do agente é, assim, ilícita e culposa: um delito, enfim. o As responsabilidades obrigacional e extra-contratual são, em regra, subjectivas, assentando no princípio da culpa: vg devedor que falta ao cumprimento da obrigação, com culpa [responsabilidade

subjectiva obrigacional]. • Responsabilidade objectiva: constitui uma excepção à regra geral da responsabilidade subjectiva ou delitual [art. 483º-2], já que o dano é provocado, ainda que independentemente de culpa do agente. Pressupõe um dano, como toda a responsabilidade civil, mas não existe delito. Modalidades imputação: de responsabilidade objectiva, consoante o título de

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL o Pelo risco: tipificada na lei [art. 483º-2], aplica-se às práticas de actividades humanas lícitas, normalmente geradoras de prejuízo [vg circulação automóvel]; do risco inerente a essas actividades resulta o dever de reparar o dano.  Funções: • • o Função principal: reparação do dano Função acessória: prevenção

Pelo sacrifício ou por acto lícito: a lei autoriza o agente a agir, causando prejuízos a outrem e correlativa obrigação de

compensação desses danos [vg constituição de servidão legal de passagem].  o Função exclusiva: reparação do dano.

As responsabilidades obrigacional e extra-contratual podem ser, excepcionalmente, objectivas, independentemente de qualquer culpa: vg devedor que falta ao cumprimento da obrigação, sem culpa [responsabilidade objectiva obrigacional, art. 800º].

§2. PRESSUPOSTOS. Sumariamente iremos enunciar cada um dos pressupostos da responsabilidade civil. Face ao disposto no art. 483º-1: • • Facto Ilicitude [“violar ilicitamente”] o • Não se verifica na responsabilidade por facto lícito

Culpa [“com dolo ou mera culpa”] o Prescinde-se na responsabilidade pelo risco

• •

Dano [“pelos danos”] Nexo de causalidade entre facto e dano [“resultantes da violação”]

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o Ou pode ser imposto pela lei [arts. bastando a conduta sob o controlo da sua vontade. o que tornaria a vida em sociedade insustentável e multiplicaria as ingerências na esfera jurídica alheia. evitando que se suicide]. No direito alemão. pelo que não se exige qualquer dever específico. • Omissão [art. dominável pela vontade. Comportamento do agente [teoria do desvalor do facto]: posição maioritária. MENEZES CORDEIRO e SINDE MONTEIRO]. 483º]: existe um dever genérico de não lesar direitos alheios [neminem laedere]. 486º]: exige-se um dever específico de praticar o acto omitido. vg. nem sequer actuação [contra o que a redacção do art. 491º-493º]. e ilegal a venda de um imóvel verbalmente. O facto voluntário do lesante remete-nos para um comportamento humano. Não se exige intenção. ou ainda um facto do próprio lesado [vg acidentes de trabalho]. A ilicitude distingue-se da ilegalidade. 483º-1 pode indiciar]. tem-se defendido a doutrina dos deveres de segurança no tráfego ou dos deveres de prevenção do perigo delituais. o O dever específico de garante pode ser criado por contrato [vg alguém estar obrigado a vigiar um doente mental. 2. 4 . na medida em que esta pressupõe a inobservância de um ónus jurídico: será ilícita a condução em excesso de velocidade. a partir de disposições semelhantes. Esta doutrina teve influências entre nós [ANTUNES VARELA. A ilicitude deve aqui ser entendida enquanto um juízo de desvalor atribuído pela ordem jurídica ao: • • Resultado da conduta do agente [teoria do desvalor do resultado].Lara Geraldes @ FDL 1. O facto voluntário pode revestir duas formas: • Acção [art. expressão da conduta de um sujeito responsável. um facto voluntário do agente.Direito das Obrigações II . o facto que a despolete essa imputação pode ser um facto natural. alargando-se a responsabilidade por omissão para além dos casos tipificados na lei. já que não existe um correspondente dever genérico de evitar a ocorrência de danos para outrem. Na responsabilidade objectiva.

o Para MENEZES LEITÃO é esta a melhor forma de determinação do nexo de causalidade. o disposto nos arts. As presunções de culpa invertem o ónus da prova [art. axiologicamente reprovada. 350º-1] e são ilidíveis.Lara Geraldes @ FDL Nesta sede relevam as causas de justificação/exclusão da ilicitude [nunca “justificação da ilicitude”!]. que poderia e deveria ter agido de outro modo. 5. não caberá recurso às regras da responsabilidade civil se as coisas correrem bem e ninguém sair lesado. Ao contrário do direito penal.483º-2]. Para ROMANO MARTINEZ e MENEZES LEITÃO. em sentido normativo. nos termos gerais [art. como já tivemos oportunidade de mencionar [art. 3. • Teoria do fim da norma violada: teoria do escopo da norma violada o É apenas necessário averiguar se os danos que resultaram do facto correspondem à frustração das utilidades que a norma visava conferir ao sujeito através do direito subjectivo ou da norma de protecção. O dano é condição essencial de responsabilidade: por muito censurável que seja o comportamento do sujeito. Questão que acaba por se reconduzir a um problema de interpretação do conteúdo e fim específico da norma que serviu de base à imputação dos danos. a exemplos de responsabilidade subjectiva. 491º-493º corresponde. como sabemos. MENEZES LEITÃO entende que o dano deve ser definido num sentido fáctico e normativo. a tentativa é punível. autores como MENEZES CORDEIRO consideram-na um juízo de censura. sendo a responsabilidade objectiva excepcional. assim. e não objectiva. pelo lesado. O art. A obrigação de reparar os danos causados constitui uma consequência jurídica de uma norma relativa à 5 . A culpa é pressuposto normal da responsabilidade civil. Hoje. 4. 350º-2]: as dificuldades de prova inerentes torna mais segura a obtenção de indemnização. A sua conduta é. onde. em relação à actuação do agente. enquanto frustração de uma utilidade que era objecto de tutela jurídica. existindo um nexo de causalidade entre o facto e o dano.Direito das Obrigações II . 483º limita a indemnização aos “danos resultantes da violação”: esse comportamento deve ser causa dos danos sofridos. na verdade.

Direito das Obrigações II . embora não exista qualquer delito. os casos de responsabilidade objectiva são excepcionais [insusceptíveis de aplicação analógica. um dano. ainda. Responsabilidade pelo Risco §1: NOÇÃO. o que implica que a averiguação do nexo de causalidade apenas se possa fazer a partir da determinação do fim específico e do âmbito de protecção da norma que determina essa consequência jurídica. 483º-1. 483º-2]. 1348º-2 e legislação avulsa] Responsabilidade por factos lícitos ou pelo sacrifício: o Obrigacional [vg responsabilidade por revogação de contrato de mandato]. ainda. uma modalidade de responsabilidade civil: excepção à regra geral de imputação dos danos na esfera jurídica onde ocorrem.Lara Geraldes @ FDL imputação de danos. taxativos. mutatis mutandis. art. A responsabilidade pelo risco é. prevista na cláusula geral do art. Na responsabilidade objectiva o dano é provocado. Por força do art. as normas da responsabilidade civil em geral [arts. Ao contrário da responsabilidade subjectiva. comum a toda a responsabilidade civil. dando origem à obrigação de indemnizar os danos sofridos por outrem [ressarcibilidade]. A responsabilidade objectiva engloba duas modalidades: • • Responsabilidade pelo risco [arts. exclusive as disposições respeitantes à culpa. 499º ss. 499º são-lhe aplicáveis. §3: RESPONSABILIDADE OBJECTIVA. e só pode ser invocada se existir uma previsão legal específica que a contemple [art. 11º]. ainda que independentemente de culpa do agente: pressupõe-se. 483º ss]. o Extra-contratual [vg responsabilidade por danos causados em estado de necessidade ou pelos prejuízos causados por servidão legal de passagem]. 6 .

570º] Limitação da indemnização no caso de mera culpa [art. os casos de responsabilidade pelo risco previstos no CC apenas têm como fundamento esta concepção.Lara Geraldes @ FDL Delimita-se. vg devedor que falta ao cumprimento da obrigação. 499º] • Por outro lado. ibi incommoda]. nestes termos. sem culpa [responsabilidade objectiva obrigacional. a responsabilidade objectiva pode ser obrigacional. 496º-3 ex vi art. ex vi art. independentemente de culpa. 508º] Culpa do lesado [art. Ainda que se prescinda da culpa enquanto título de imputação. mais concretamente tratando-se de responsabilidade pelo risco: • Obrigações de garantia: adstrição a uma prestação ou a um evento que não é controlável pelo obrigado. • Risco de autoridade: a pessoa deve responder pelos danos resultantes das actividades que tenha sob seu controlo. e de harmonia com a introdução supra. 800º]. 497º-2. 499º] • • Limites máximos da responsabilidade [art. cumulando-se as seguintes concepções: • Risco criado: cada pessoa que cria uma situação de perigo deve responder pelos riscos resultantes. respondendo pelo risco da não obtenção do resultado que se comprometera a produzir. ex vi art. já que a verificação desse “não-pressuposto” pode condicionar a aplicação de determinadas disposições legais. independentemente de culpa [brocardo ubi commoda. 800º. independentemente de culpa. não é. irrelevante a existência ou não de culpa. uma determinada esfera de riscos pela qual deve responder outrem que não o lesado. a saber: • Medida da culpa em caso de pluralidade de responsáveis [art.Direito das Obrigações II . • Risco-proveito: a pessoa deve responder pelos danos resultantes das actividades que tira proveito. 499º] e fixação equitativa da indemnização por danos não patrimoniais [art. 494º. o Cláusula de assunção do risco: vg contratos de seguro ou o art. 7 . o Para ROMANO MARTINEZ. art. em rigor.

500º. para ROMANO MARTINEZ. Cumpre estabelecer a seguinte delimitação: • Relações externas [com o lesado. 509º e 510º] Legislação avulsa: o o o Responsabilidade do produtor Embarcações de recreio Aeronaves • • • o Ultraleves §2: RESPONSABILIDADE DO COMITENTE. uma vez que não assenta no pressuposto do risco. embora seja efectivamente independente de culpa. na sua vigilância ou nas instruções que lhe deu. nº 3]: o comitente que satisfizer a indemnização supra tem o direito de exigir do comissário o reembolso de tudo quanto haja pago [direito de regresso]. uma vez que responde aquele que encarrega outrem de qualquer comissão [o comitente]. caso em que lhe será aplicável o disposto no art. 500º] Responsabilidade do Estado ou de outras pessoas colectivas públicas [art. 502º] Acidentes causados por veículos de circulação terrestre [arts. 497º-2 [concorrência de culpas].Lara Geraldes @ FDL Eis os exemplos de responsabilidade pelo risco que estudaremos: • • Responsabilidade do comitente [art. 503º-506º] Danos causados por instalações de energia eléctrica ou gás [arts. nº 1 e 2]: a responsabilidade pelos danos causados pelo comissário no exercício das suas funções é solidária. excepto se houver também culpa sua. 8 .Direito das Obrigações II . • Relações internas [entre comitente e comissário. um verdadeiro caso de responsabilidade pelo risco. prevista no art. A responsabilidade do comitente pelo risco. independentemente de culpa sua na escolha do comissário. 501º] • Danos causados por animais [art. não é.

tenham eles o carácter duradouro ou isolado. Eis os pressupostos deste regime de responsabilidade objectiva do comitente pelos factos danosos praticados pelo comissário. acrescenta MENEZES LEITÃO. não se admite entre nós que o comitente possa ilidir a responsabilidade através da demonstração de que escolhera diligentemente o comissário. possa ser imputada ao comitente [e não face a toda e qualquer prestação de serviços lato sensu]: actos praticados exclusivamente no seu interesse e por conta sua [culpa in instruendo].Lara Geraldes @ FDL o Garante-se o efectivo pagamento da indemnização ao lesado. pelo que deve este garantir ao lesado o pagamento da indemnização. 1152º] Contrato de mandato [art. contra MENEZES LEITÃO e RIBEIRO DE FARIA. o pagamento de elevadas indemnizações. supra §1.Direito das Obrigações II . uma vez que o património dos comissários não suporta. Ao contrário do que sucede no direito alemão. na maior parte dos casos. A exigência deste pressuposto só faria sentido se a concepção da responsabilidade do comitente se baseasse na doutrina do risco de autoridade. 1207º] e contrato de transporte. empreitada [art. 1157º] Exclui-se o desempenho de funções com autonomia: prestação de serviço de depósito [art. o Os comissários actuam no interesse e por conta do comitente. contra MENEZES LEITÃO e MENEZES CORDEIRO. 9 . o [ Liberdade de escolha do comissário pelo comitente: culpa in eligendo ] – MENEZES CORDEIRO. Exemplos: • • • Contrato de trabalho [art. no exercício das suas funções: • Relação de comissão: o Tarefa ou função realizada no interesse e por conta de outrem que. pelo comitente. 1185º]. o [ Nexo de subordinação ou controlo do comissário ao comitente: culpa in vigilando ] – ANTUNES VARELA e ALMEIDA COSTA.

exigindo um nexo instrumental entre a função e os danos . O comitente responde ainda pelos actos praticados pelo comissário em desrespeito das instruções: o segurança de uma discoteca que deliberadamente agride um cliente ou o operário que conduz uma máquina em desrespeito das ordens do comitente.Direito das Obrigações II . uma vez que tal interpretação retiraria alcance prático ao preceito e não tem qualquer apoio legal. fumando enquanto trabalha. o Pergunta-se: exige-se culpa do comissário ou basta qualquer imputação ao comitente. basta que o comissário esteja no exercício das suas funções. uma vez que a responsabilidade do comitente se mantém mesmo que o comissário desrespeite as suas instruções ou actue intencionalmente [art. Sugere. vg. sejam eles por actos intencionais do comissário.Lara Geraldes @ FDL Nota: no nosso direito. ou não [nº 2]. • Facto danoso praticado pelo comissário no exercício das suas funções: o A função que fora confiada ao comissário funciona como delimitação da zona de riscos a cargo do comitente. responde o Banco pelo empregado bancário que haja burlado os clientes. provoca um incêndio. 500º-2]. Exemplo: age no exercício das suas funções o operário que deixa cair uma telha ou o operário que. o ROMANO MARTINEZ inclui actos preparatórios e posteriores. incluindo situações de desrespeito e de abuso de funções: basta que os danos sejam originados no exercício da função. Do mesmo modo. mesmo que a título objectivo [sem culpa]? 10 . um nexo etiológico entre a função e os danos. o MENEZES LEITÃO não concorda com a interpretação restritiva feita pela doutrina relativamente a este pressuposto [doutrina essa que exclui deste âmbito os danos por ocasião da função e os danos praticados com abuso de funções. assim. praticados em desrespeito das instruções. • Responsabilidade do comissário: o Sobre o comissário recaia também a obrigação de indemnizar.ANTUNES VARELA e ALMEIDA COSTA].

quando haja danos causados a terceiro pelos seus órgãos. o Estado e demais pessoas colectivas públicas [IP. 11 . uma vez que a responsabilidade pelo risco recai sobre várias pessoas e é solidária. a responsabilidade é solidária. Neste caso. havendo concurso de culpas. 501º. agentes ou representantes no exercício de actividades de gestão privada. uma vez que a culpa afasta o risco. 500º. Universidade Pública. in eligendo ou in vigilando]. na medida das respectivas culpas [art. bastando a mera culpa presumida [art. de nenhum dos intervenientes da relação de comissão. nada pode exigir em regresso [o nº 3 só opera com culpa do comissário]. Se o comitente actuar com culpa exclusiva [in instruendo. 500º-3]. Propendemos para a exigência de culpa do comissário [primeira posição]: o nº 3 refere expressamente a possibilidade de “também” existir culpa do comitente.Direito das Obrigações II . • Responsabilidade subjectiva ou objectiva: ALMEIDA COSTA. EP. Segundo o disposto no art. Diferentemente. pelo que se nenhuma culpa houver. pelo que acolhem a primeira posição. 507º. §3: RESPONSABILIDADE DO ESTADO OU DE OUTRAS PESSOAS COLECTIVAS PÚBLICAS. respondem civilmente por esses danos nos mesmos termos do art.Lara Geraldes @ FDL • Responsabilidade subjectiva. • MENEZES LEITÃO e RIBEIRO DE FARIA: a lei não exige uma demonstração efectiva de culpa do comissário.]. etc. 497º-2 ex vi art. com culpa: ANTUNES VARELA e RUI DE ALARCÃO [“excepto se houver também culpa da sua parte” – nº 3] – pressupõe culpa do comissário. MENEZES CORDEIRO e ROMANO MARTINEZ [“desde que sobre este recaia também a obrigação de indemnizar” – nº 1] – o comissário responde pelos danos a qualquer título. 500º-1]. não há qualquer direito de regresso do comitente e deve ser este a suportar a totalidade da indemnização. ROMANO MARTINEZ propõe a eventual aplicação analógica do disposto no art. com ou sem culpa.

Cumpre apreciar os pressupostos de aplicação desta norma: • Utilização de animais no seu próprio interesse [ubi commoda. Os requisitos são. Recorde-se que o art. ibi incommoda]: o Proprietário do animal – cuja responsabilidade é excluída pela utilização de:    Usufrutuário Comodatário Simples possuidor 12 . ainda que a actuação tenha sido intencional ou tenha desrespeitado as instruções recebidas • • O órgão. cuja culpa se presume.Direito das Obrigações II . caso em que o vigilante [vg o tratador] e o utilizador do animal [vg o proprietário] responderão solidariamente perante o lesado [relações externas]. 493º-1 atribui já a responsabilidade [subjectiva] ao vigilante de animais. desde que resultem do perigo especial que envolve a sua utilização [art. As duas responsabilidades podem. por isso.Lara Geraldes @ FDL Compreende-se que esta remissão respeite apenas a actos de gestão privada [danos que poderiam ter sido praticados por particulares. quaisquer animais. agente ou representante pode ser responsabilizado a título de culpa Exemplo: acidente de viação causado pelo motorista do Ministro da Cultura. com direito de regresso do proprietário sobre o tratador [relações internas]. §4: DANOS CAUSADOS POR ANIMAIS. 502º]. e não do Direito Constitucional ou Administrativo. Quem utilizar. O âmbito é o do Direito privado. no seu próprio interesse. ser cumuladas. responde pelos danos que causarem. uma vez que foram causados por entidades públicas desprovidas de ius imperii/poderes de autoridade]. naturalmente. os mesmos: • Relação de comissão Facto danoso praticado no exercício da função.

570º [vg alguém que. 508º-3: ANTUNES VARELA e PIRES DE LIMA]. atinge um transeunte. mesmo que não se encontre em circulação [art. §5: ACIDENTES CAUSADOS POR VEÍCULOS DE CIRCULAÇÃO TERRESTRE.  Há responsabilidade objectiva: coice do cavalo em fuga de um incêndio ou o cão que morde uma pessoa. prevista nos arts. 503º-1]. cabe aplicação do disposto no art. o Havendo culpa do lesado. • Danos resultantes do perigo especial que envolve a utilização do animal: o A responsabilidade objectiva é restringida a uma zona de riscos normalmente conexos com a utilização do animal. reduz ou exclui a indemnização [cfr. Compreende-se que fiquem excluídos do âmbito de aplicação desta norma animais inofensivos como peixes de aquário ou tartarugas [ROMANO MARTINEZ]. 503º ss. vg. faz uma festa a um cão feroz] – o tribunal deve decidir se mantém. ainda que por intermédio de comissário.Lara Geraldes @ FDL o Locação: respondem tanto o locatário [que utiliza o animal no seu interesse] como o proprietário [que recebe o preço locativo] – ANTUNES VARELA e MENEZES LEITÃO. Questão juridicamente mais controversa. caído de uma varanda. a lei obriga à prévia celebração de 13 . aquele que tiver a direcção efectiva de qualquer veículo de circulação terrestre e o utilizar no seu próprio interesse. desrespeitando um sinal. responde pelos danos provenientes dos riscos próprios do veículo. art.  Exclui-se a responsabilidade objectiva: queda causada pelo susto de um cão a ladrar ou o cão que. seja ela circulação rodoviária ou ferroviária. infra §5]. é a dos pressupostos da responsabilidade objectiva pelos danos causados por veículos [de circulação terrestre.Direito das Obrigações II . Face a esta responsabilidade. vg – danos que. embora causados pelo animal. Com efeito. são exteriores aos perigos da sua utilização. em face da importância prática que assume no dia-a-dia.

Não releva. ainda que por intermédio de comissário”: exclui a responsabilidade objectiva a quem conduz o veículo por conta de outrem [comissários]. uma vez que essa responsabilidade objectiva recai antes sobre o próprio comitente. • Danos indemnizáveis – “Danos provenientes dos riscos próprios do veículo. contra o entendimento de ROMANO MARTINEZ. mesmo que este não se encontre em circulação”: abrange todos os danos resultantes da circulação do veículo em via pública ou em recintos privados 14 . inimputáveis. MENEZES LEITÃO inclui os acidentes causados por bicicletas e outros veículos não motores. segundo MENEZES LEITÃO [contra.Direito das Obrigações II .503º. 489º [o art. 503º-2 parece exigir a imputabilidade do agente. • “Utilizar no seu próprio interesse. Exemplos: o o o o o o Detentores legítimos Proprietário Usufrutuário Locatário Comodatário Detentores ilegítimos [esbulhadores] o Exclui-se a responsabilidade objectiva: proprietário cujo veículo fora furtado. responsáveis nos termos do art.Lara Geraldes @ FDL um contrato de seguro de responsabilidade civil automóvel. para exercer poderes de facto sobre o veículo]. Cumpre apreciar cada um dos pressupostos: • “Direcção efectiva” do veículo: aquele que tiver um poder de facto [conduzindo o veículo] ou que exercer um controlo sobre o mesmo [independentemente de conduzi-lo em pessoa]. ROMANO MARTINEZ]. cliente de táxi ou aluno em escola de condução [uma vez que nenhum tem a direcção efectiva do veículo]. a titularidade de um direito sobre o mesmo. que os exclui por não representarem qualquer perigo em especial. sem o qual o veículo não pode circular. neste caso. Quanto ao âmbito de aplicação do art.

O tribunal pode. por interpretação extensiva [ANTUNES VARELA. eventualmente. 570º: exige-se culpa do lesado. e não imputação lato sensu [vs art. • Se houver culpa do lesado concorrente com a culpa do condutor aplica-se o disposto no art. e o acidente deixa de se poder considerar como um risco próprio do veículo. mas sim exclusividade da sua conduta na produção do dano [vg desmaio ou comportamento ditado por medo invencível do lesado exclui a responsabilidade pelo risco]. o Nota ao art. 503º-1 [de quem tiver a “direcção efectiva” do veículo] exclui-se nos casos do art. portanto]: o Quando o acidente seja imputável:  Ao próprio lesado: não se exige culpa do lesado. 15 . 505º. Nota: a lei pouco esclarece quanto a concurso de causalidade entre o facto do lesado [seja ele culposo ou não] e a condução do veículo [respeitando a riscos próprios do mesmo]. 570º [mantendo-se essa disposição. colisão entre veículos ou embate contra coisas] e os danos causados pelo mesmo quando imobilizado [vg incêndio do motor ou avaria nos travões]. Cumpre apreciar: • Se o lesado actuar sem culpa.Direito das Obrigações II . o condutor responde pelo risco e. 570º-2. 570º-1. exclui-se a responsabilidade do condutor [a culpa provada/efectiva do lesado exclui o dever de indemnizar em caso de culpa presumida] – art. PIRES DE LIMA e MENEZES LEITÃO]. • Se não se demonstrar culpa do condutor.Lara Geraldes @ FDL [vg atropelamento de pessoas. 505º] e relação de concausalidade. com culpa. sem prejuízo do disposto no art. O comportamento causal do lesado foi causa exclusiva e única do dano. Exclui-se a responsabilidade objectiva pelos riscos não conexos com o veículo [vg catástrofes naturais]. e a culpa do lesado concorrer com o risco próprio do veículo. A responsabilidade do art.

504º]: • Terceiros [vg transeunte. 497]. quando ambas hajam concorrido para a produção do dano. rebentamento de pneus ou incêndio do motor]. Havendo concurso de culpas entre o condutor e o terceiro.Lara Geraldes @ FDL por isso. etc.  Acidente imputável a terceiro: também não exige culpa de terceiro [pessoa. maquinista. • A responsabilidade pelo risco do condutor é excluída. bastando que tenha sido a única causa do dano. em termos tais que não se possa atribuir este a um risco próprio do veículo. . peão. A responsabilidade pelos danos causados por veículos aproveita aos seguintes beneficiários [art.Direito das Obrigações II . entenda-se]. infra §7]. etc. cobrador de bilhetes.] Pessoas transportadas [vg motorista. verificado o nexo causal. ambos respondem solidariamente perante o lesado [art. Exemplos:     Ciclone Inundação Animais Óleo ou neve na estrada Não excluem a responsabilidade pelo risco: circunstâncias relativamente ao funcionamento ou à utilização do veículo [vg derrapagem. O nº 2 permite que a culpa provada do lesado exclua a responsabilidade com culpa presumida do lesante [contra o regime extravagante da responsabilidade do produtor. inevitável e exterior ao funcionamento do veículo. ordenar a redução ou a exclusão da indemnização. • o Quando o acidente resulte de “causa de força maior estranha ao funcionamento do veículo”: o acontecimento imprevisível.]  • 16 .

495º-2 e 3 e 496º-2. pelo que o lesado não beneficia com a pretensão da responsabilidade subjectiva do condutor. A previsão da responsabilidade pelo risco nos acidentes de viação não dispensa. todavia. uma vez que terá que fazer prova [por vezes verdadeiramente probatio diabolica] a esse respeito. a contrario. um caso de responsabilidade por culpa presumida neste âmbito: o condutor de veículo por conta de outrem [comissário] responde pelos danos que 17 . considerando a condução de veículos enquanto uma actividade perigosa em três situações [art. danos morais ou dano morte] e as coisas por ela transportadas [nº 2] – excluem-se os danos em coisas não transportadas e os danos reflexos sofridos pelas pessoas referidas nos arts. 508º. nos termos do art. infra]. • Transporte gratuito [vg boleia]: a responsabilidade apenas abrange os danos pessoais da pessoa transportada [nº 3] – excluem-se os danos nas coisas transportadas com a pessoa. a necessidade de se averiguar se existe ou não culpa do condutor do veículo: em caso afirmativo. a sua responsabilidade é subjectiva. pelo que não estará sujeita a qualquer limite máximo de indemnização [art. Tradicionalmente.Direito das Obrigações II . Salvo presunção legal de culpa do lesante. contudo. Um assento do STJ afastou esse entendimento. concebeu-se a condução de veículos enquanto uma actividade perigosa que presumiria a culpa do condutor. abrangendo todos os danos sofridos pelo lesado [arts. • São nulas as cláusulas que excluam ou limitem a responsabilidade do transportador pelos acidentes que atinjam as pessoas transportadas [nº 4] mas não. aquelas que excluam a responsabilidade pelos danos que atinjam as coisas transportadas. é ao lesado que cumpre provar a culpa do primeiro [art. 493º-2. 493º-2]: • • • Veículos utilizados em provas desportivas Transporte de materiais explosivos ou inflamáveis Condução de veículo sob o efeito de álcool e/ou estupefacientes A lei consagrou. 483º-1]. 562º ss]. 487º-1]. nos termos gerais [art. MENEZES LEITÃO propõe uma interpretação restritiva do assento.Lara Geraldes @ FDL • Transporte por virtude de contrato: a responsabilidade só abrange os danos que atinjam a própria pessoa [lesões.

que pressupõe não existir culpa do lesante]: • RODRIGUES BASTOS e MENEZES CORDEIRO: não. Em todos os outros casos. 1ª parte valeria apenas nas relações internas.Direito das Obrigações II . Perguntou-se se essa presunção valeria no âmbito das relações externas. uma vez que o comissário [responsabilidade subjectiva com presunção de culpa] e o comitente [responsabilidade objectiva pelo risco] respondem solidariamente perante o lesado. A presunção de culpa do nº 3. salvo se provar que não houve culpa da sua parte [art. sem qualquer limite [não sujeito ao disposto no art. sendo eficaz perante o lesado. Contudo.Lara Geraldes @ FDL causar. A presunção de culpa do nº 3. infra. • ANTUNES VARELA. o A lei faz recair sobre o comissário. a responsabilidade pelo risco é atribuída ao comitente. como se tivesse a direcção efectiva do veículo [no seu interesse próprio] – o comissário só é responsável pelo risco se conduzir fora do exercício das suas funções. A presunção de culpa do comissário [nº 3. o ROMANO MARTINEZ: a presunção só deve valer nas relações externas e não no direito de regresso. 1ª parte tem alcance externo. 1ª parte]. se não conseguir ilidir tal presunção. 2ª parte]. ALMEIDA COSTA. caso o primeiro não a consiga ilidir. utilizando o veículo no seu próprio interesse e presumindo-se culpado. uma presunção de culpa: o comissário responde por todos os danos causados. se o fizer fora do exercício das suas funções de comissário. ainda que por intermédio do comissário [nº 1]. uma vez que dos condutores profissionais se exige uma perícia 18 . que tem a direcção efectiva do veículo e o utiliza no seu próprio interesse. em lugar da responsabilidade pelo risco. 508º. o Compreende-se a presunção de culpa dos condutores comissários. 508º]. responderá nos termos do nº 1. maxime para o efeito de o lesado demandar directamente o comissário [excluindo a aplicação dos limites máximos do art. Esta posição foi acolhida e fixada por um assento do STJ. 1ª parte] permite ao comitente. exercer contra ele o direito de regresso [relação interna] pela indemnização que tenha pago ao lesado nos termos no nº 1 [relação externa]. supra [nº 3. entre comitente e comissário. RUI DE ALARCÃO e SINDE MONTEIRO: sim. 503º-3.

506º-1]. 506º regula em termos específicos a colisão de veículos. um risco de afrouxamento na vigilância do veículo e de fadiga do comissário que conduz o veículo horas seguidas. maxime ocorrendo a colisão entre um veículo conduzido por um comissário e outro por um condutor no seu próprio interesse e não sendo provada a culpa de nenhum deles. 2ª parte] – vg um dos veículos embate na parte traseira de outro. circulação a velocidade superior. 1ª parte seria aplicável à colisão de veículos. atender-se-á a quem tiver a direcção efectiva desse automóvel.Direito das Obrigações II . 1ª parte] – concausalidade de ambos os veículos. Uma vez mais. o E se os danos forem causados somente por um dos veículos. O art. o Danos causados por culpa do condutor de um dos veículos: é este o responsável exclusivo. Aplicar-se-ia o critério da contribuição causal do risco dos veículos para a 19 . uma vez que a culpa afasta o risco [art. • Em caso de dúvida. considera-se igual a medida da contribuição de cada um para os danos [nº 2] – repartição igualitária de danos. 503º-3. podendo ilidir a presunção com relativa facilidade. normalmente.Lara Geraldes @ FDL superior à do condutor médio. etc. Questionou-se se a presunção de culpa do art. sem culpa: a lei apresenta critérios de resolução de um possível conflito de imputações com base no risco. Por outro lado. • Ter-se-á em conta: veículo pesado. a condução por conta de outrem representa. • Se da colisão entre dois veículos resultarem danos em relação aos dois ou em relação a um deles: o E se nenhum dos condutores tiver culpa: a responsabilidade é repartida na proporção em que o risco de cada um dos veículos contribuiu para os danos [nº 1. sem culpa de nenhum dos condutores: só a pessoa causadora dos danos é obrigada a indemnizar [nº 1.

utilizando-a no seu próprio interesse. 507º-2. a lei estabelece a solidariedade como regra geral do art. desde a produção ao 20 . 508º. 507º-1. Surgindo vários responsáveis pelo dano resultante de um acidente de viação. em acidentes de viação [inclusive colisão de veículos]. pelo contrário. mas apenas aquela que estará obrigada a pagar a indemnização]. a responsável. O mesmo se diga quanto a transportes colectivos ou ferroviários [nº 2 e nº 3]. a repartição da responsabilidade estabelece-se de harmonia com o interesse de cada um na utilização do veículo [art. Os danos que excedam o valor do seguro obrigatório já não são indemnizáveis em sede de responsabilidade objectiva. mesmo que haja culpa de alguns. 497º-2 – vg o locatário que não fez as devidas revisões ao veículo [507º-2. nos termos do art. 1ª parte] – aquele que tiver maior interesse na utilização do veículo suportará a maior parte da indemnização [vg o locatário. ANTUNES VARELA e ALMEIDA COSTA reconduzem esta responsabilidade a todo o tipo de actividades dessa índole. a indemnização tem como limite máximo o capital mínimo do seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel [nº 1] – o limite máximo dos danos cobertos pelo seguro. que será demandada em juízo [a seguradora não é. A responsabilidade pelo risco. todavia. no caso da locação de veículos]. que preconiza antes o recurso ao critério da contribuição causal do risco dos veículos para os danos. Nas relações internas entre os vários responsáveis. não poderá exercer qualquer direito de regresso. Contra este entendimento pronunciou-se MENEZES LEITÃO. está sujeita aos limites máximos legais constantes do art. a responsabilidade pelo risco é atribuída a quem tiver a direcção efectiva de uma instalação destinada à condução de energia eléctrica ou do gás. uma vez que se assiste a uma transferência de risco por parte do responsável à seguradora.Direito das Obrigações II . 506º-1. 2ª parte]. com as alterações de 2004: quando não haja culpa do responsável. Se o responsável culpado pagar a indemnização.Lara Geraldes @ FDL produção dos danos ou. mas poderão sê-lo nos termos gerais. Nos termos do art. 509º-1. caso em que apenas os culpados respondem. 1ª parte. presumir-se-ia a culpa do condutor por conta de outrem? Um assento do STJ fixou a segunda doutrina [no sentido de ANTUNES VARELA e ALMEIDA COSTA]. §6: DANOS CAUSADOS POR INSTALAÇÕES DE ENERGIA ELÉCTRICA OU GÁS. nos termos do art.

508º-1. O produtor responde independentemente de culpa • O produtor é definido em termos latos. ao tempo do acidente. Considerando que o ónus da prova da culpa cabe ao lesado. seja ela dolo ou negligência no fabrico do produto defeituoso. 487º]. 2ª parte] – situação de ilicitude imperfeita. nos seguintes termos: • [art. Naturalmente. a responsabilidade é afastada se os danos forem devidos a causa de força maior: toda a causa exterior independente do funcionamento e utilização da coisa [nº 2] – factos naturais externos [ciclone que derruba um poste de energia. enquanto o fabricante do produto defeituoso. alterado pelo DL 131/2001. o distribuidor e o 21 . onde se denotava uma maior preocupação pelo consumidor. vg]. o importador.Lara Geraldes @ FDL armazenamento. alterado pelo DL 131/2001] A responsabilidade objectiva do produtor. salvo diploma especial. 1º]. o limite máximo da indemnização é aquele estabelecido no art. condução ou transporte [contra o entendimento restritivo de RIBEIRO DE FARIA. Do mesmo modo. Esta responsabilidade é afastada se. independentemente de culpa.Direito das Obrigações II . Responsabilidade do Produtor [DL 383/89. Quando não haja culpa do responsável. esta categoria de responsabilidade não abrange danos causados por utensílios de uso de energia [vg electrodomésticos] – art. pelos danos causados por defeitos dos produtos que ponha em circulação surgiu nos EUA. nos termos gerais [art. Por transposição de uma Directiva Comunitária. 509º-3. vg] ou factos do próprio lesado [electrocussão derivada de o lesado ter subido ao poste. §7: LEGISLAÇÃO AVULSA. a instalação se encontrar a funcionar de acordo com as regras técnicas em vigor e em perfeito estado de conservação [nº 1. MENEZES LEITÃO e ROMANO MARTINEZ]. o Estado Português legislou a matéria no DL 383/89. para o consumidor comum era verdadeiramente diabólica a probatio de demonstrar a culpa do produtor.

• que [art.Direito das Obrigações II . o O defeito é imputável ao produto em que foi incorporado. móvel ou imóvel [art. 505º. • Um produto considera-se defeituoso quando não oferece a segurança com que legitimamente se pode contar [art. 913º. • Entende-se por produto qualquer coisa móvel. 6º]: nas relações internas deve atender-se ao risco criado por cada responsável. é o fornecedor que responde perante o lesado. Abrange o produtor real [nº1] e o produtor aparente [nº2]. o entrada do Inexistência do defeito no momento da produto em circulação: limitação da responsabilidade. no caso de parte componente • Se várias pessoas forem responsáveis pelos danos. 5º]: Exclui-se a responsabilidade se o produtor provar o Não pôs o produto em circulação: falta de pressuposto de aplicação da responsabilidade. à gravidade da culpa e à sua contribuição para o dano. é solidária a sua responsabilidade [art. e não “exclusão”. 4º]. o O defeito é devido à conformidade com normas imperativas – exclusão da responsabilidade pela intervenção de terceiros. e não “exclusão”. Esta solução apresenta vantagens práticas: facilita a demanda em juízo do verdadeiro responsável. Esta noção é mais restrita que aquela do art. como a do art. 3º]. 22 .Lara Geraldes @ FDL fornecedor [art. e não do vendedor. 2º] – no caso das “marcas brancas” dos supermercados. ainda que incorporada noutra coisa.

pelo que se o valor da indemnização exceder o limite máximo pelo qual a seguradora do produtor responde. contra o que dispõe o art. Embarcações de Recreio [DL 329/95] O diploma aplica-se a todo o engenho ou aparelho. 12º]. 23 . sendo a pessoa responsável pelo governo e segurança do mesmo [art. bem como os danos em coisa diversa do produto defeituoso [art. a responsabilidade do produtor não é excluída automaticamente [art. • Os limites da responsabilidade são mínimos. 9º. alterado]. • Responsabilidade solidária do proprietário e do comandante da embarcação de recreio. 42º]. de qualquer natureza. segundo ROMANO MARTINEZ. 8º]. salvo se o acidente tiver sido causado por culpa exclusiva do lesado [art. A responsabilidade do produtor segurado é ilimitada. mas o DL foi alterado por exigências comunitárias. ao invés do art. 570º. 3º]. em termos tais que supera a tradicional summa divisio entre ambas. A versão original previa limites máximos. com comprimento entre 2. 508º: só há responsabilidade por danos superiores a € 500 [art. pelo ressarcimento de danos causados a terceiro pela embarcação.5 metros e 24 metros. este suporta-o sozinho. independentemente de culpa. O comandante representa a embarcação de recreio junto das autoridades. Em conclusão. este diploma pretendeu cumular e integrar a responsabilidade delitual e contratual. 7º]. • Prazo de caducidade: dez anos [art.Lara Geraldes @ FDL • Havendo concurso entre a responsabilidade do produtor e do lesado ou de terceiro. 43º]. sem fins lucrativos [art.Direito das Obrigações II . • São indemnizáveis os danos resultantes de morte ou de lesão pessoal. utilizado como meio de deslocação na água. desde o dano seja superior a € 500.

• Exclui-se a responsabilidade nos seguintes casos [art. pelo ressarcimento do dano morte. 13º]: o o o Tremores de terra e cataclismos naturais Conflitos armados e revoluções Utilização por terceiros de armas ou engenhos explosivos Ultraleves [DL 238/04] 24 . Aeronaves [DL 321/89. com direito de regresso [art. será repartida em partes iguais. mantém-se a responsabilidade do proprietário ou explorador da mesma pela reparação dos danos causados. essa obrigação de indemnizar recai sobre o proprietário ou explorador da aeronave que deu origem ao acidente [art. 44º]. ou quando esteja imobilizada [art. independentemente de culpa. O proprietário ou explorador da aeronave é responsável. • Em caso de colisão de duas ou mais aeronaves em voo ou em manobras no solo. 17º]. • Em caso de furto. alterado pelo DL 279/95] Este diploma instituiu a obrigatoriedade de realização do contrato de seguro da actividade de transporte aéreo. 4º e 5º]. [art. Na ausência de determinação. O seguro de responsabilidade civil é obrigatório [art. 15º]. avarias.Direito das Obrigações II . 10º]. atrasos. ainda que sem culpa.Lara Geraldes @ FDL • O seguro de responsabilidade civil ilimitada pelos danos causados a terceiros é obrigatório [art. • • • Essa responsabilidade está sujeita a limites máximos [arts. bagagens etc. 14º]. usurpação ou comando ilícito da aeronave. lesões corporais. pelo ressarcimento dos danos causados a terceiros à superfície pela aeronave em voo ou por objectos que dela se soltem [art. • O transportador aéreo é responsável. 3º]. 11º].

em benefício de quem esse sacrifício ocorreu. o da responsabilidade objectiva. 1322º] • • • Servidão legal [art. O âmbito é. ainda.Direito das Obrigações II . • Ingerência em prédio alheio para captura de enxame de abelhas [art. o O agente deve indemnizar o prejuízo causado se o dano for provocado por sua culpa exclusiva. 1349º] Responsabilidade contratual: • Revogação do mandato [arts.Lara Geraldes @ FDL Responsabilidade pelo Sacrifício §1: NOÇÃO. pelo contrário. Há responsabilidade pelo sacrifício sempre que a lei preveja o direito à indemnização a quem viu os seus direitos sacrificados em resultado de uma actuação lícita danosa destinada a fazer prevalecer um direito ou um interesse de valor superior. pelo que os casos de responsabilidade pelo sacrifício carecem de previsão legal expressa e são insusceptíveis de aplicação analógica. 1554º. 1170º-1172º] Na doutrina alemã pergunta-se a quem devem ser imputados os danos da responsabilidade pelo sacrifício: se ao autor do sacrifício que os causou ou. 1367º] Reparações ou construções [art. 1559º. 1560º e 1561º] Apanha de frutos [art. Exemplos: Responsabilidade extracontratual: • Estado de necessidade [art. do agente ou de terceiro. 339º]: o É justificada a conduta do agente que sacrifica bens patrimoniais alheios para evitar um perigo actual de um dano manifestamente superior. ao titular do direito de valor superior. A OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAÇÃO 25 .

Quanto tal reconstituição natural não seja possível [infungibilidade ou impossibilidade do objecto]. 562º e 566º-1 resulta a primazia da restauração ou reconstituição natural/in natura sobre a indemnização em dinheiro. a indemnização é fixada em dinheiro [sucedâneo pecuniário]. Com efeito. cuja fonte consiste na imputação de um dano a outrem e cujo conteúdo se caracteriza pela prestação de um equivalente ao dano sofrido. O dano é avaliado em termos patrimoniais. A mesma pode igualmente ser atribuída em termos equitativos.Lara Geraldes @ FDL Indemnização §1: NOÇÃO. Nestes casos. 566º-3]. contrário à boa fé.]. não repare integralmente os danos ou se afigure excessivamente onerosa para o devedor/lesante [interpretada em termos restritivos – apenas quando a reconstituição natural se apresentar como um sacrifício manifestamente desproporcionado para o lesante. com a indemnização. O credor/lesado é posto na situação que existiria se não se tivesse verificado o dano. 569º]. e comparação entre duas situações patrimoniais presentes [situação patrimonial real e hipotética].Direito das Obrigações II . a eliminação do dano sofrido pelo credor. A teoria da diferença é de aplicação limitada. A indemnização é tratada pelo CC como uma modalidade das obrigações [arts. 566º-2]: tem como medida a diferença entre a situação patrimonial do lesado na data mais recente que puder ser atendida pelo tribunal e a que teria nessa data se não existissem danos [situação patrimonial hipotética se não existissem danos]. Pretende-se. 562º ss]. a indemnização pode ser exigida sem o seu montante se encontrar especificamente determinado [art. uma vez que: 26 . enfim]. aquando da propositura da acção. mediante a apreciação concreta das alterações verificadas no património do lesado [a repercussão da supressão do bem no património do lesado. a obrigação de indemnização estabelece-se primordialmente através da reparação do objecto destruído ou da entrega de objecto idêntico [concepção real de dano]. Da articulação dos arts. a indemnização em dinheiro é calculada mediante recurso à denominada teoria da diferença [art. sendo a mesma. atribuída no seu interesse [ressarcibilidade do dano]. Em termos processuais. pelo tribunal [art. por isso.

igualmente. 567º].Lara Geraldes @ FDL • Exclui o cálculo de: o Danos não patrimoniais o Danos futuros o Danos de natureza continuada: vg alguém que. • Não tem lugar quando o tribunal possa fixar a indemnização em montante inferior aos danos causados. Todavia. etc. 27 . vê reduzida a sua capacidade de trabalho – deve ser atribuída uma indemnização em renda vitalícia ou temporária [art. 495º-1 e 496º-2 e 3]. quem atropelasse um jogador de futebol não teria que indemnizar o clube desportivo por danos reflexos. 495º-3]. admitindo-se a terceiros a titularidade do direito de indemnização nos seguintes casos: • Dano-morte e danos não patrimoniais em consequência da morte da vítima [arts. • Em caso de morte ou de lesão corporal. Dir-se-ia que o titular do direito de indemnização seria apenas o lesado. na medida em que é ele o titular dos direitos ou interesses que a lei visava proteger. 495º-2]. são titulares do direito de indemnização aqueles que socorreram o lesado. §2: TITULARIDADE DO DIREITO DE INDEMNIZAÇÃO. Excluir-se-iam terceiros. Superficialmente. esta regra estaria correcta: assim. nos casos de mera culpa e de culpa do lesado. esta regra sofre excepções. em consequência de uma lesão. [art. vg. titulares do direito de indemnização. uma vez que os alimentos são essenciais para a sobrevivência dos seus titulares [art. • Os que podiam exigir alimentos ao lesado ou aqueles a quem o lesado prestava no cumprimento de uma obrigação natural são. colmatando-se a perda continuada de rendimentos. 494º e 570º]. vg [arts. mesmo que hajam sofrido reflexamente danos em consequência da actuação do lesante. pelo lesado.Direito das Obrigações II . médicos. bem como estabelecimentos hospitalares.

segundo o art.. 28 . por erro. 1245º] Obrigação de alimentos [art. já não pode pedir a restituição do que prestou. Exemplos: • • • Obrigação prescrita [art. segundo MENEZES CORDEIRO e ALMEIDA COSTA. As obrigações naturais são obrigações que se fundam num mero dever de ordem moral ou social. mesmo que convencido.e. apesar de o seu regime ser diferente das restantes por não se permitir a sua execução. sob pena de equivaler a uma renúncia do credor ao direito de exigir o cumprimento [art. vg. Não podem ser convencionadas livremente pelas partes. cujo cumprimento não é judicialmente exigível. Se a prestação for realizada espontaneamente pelo devedor [i. 403º e 764º-1]. 809º]. Exclui-se a possibilidade de repetição do indevido [art. 304º-2] Jogo e aposta [art.Direito das Obrigações II . 402º] – pelo que a esmola não será uma obrigação natural. 403º-2]. salvas as excepções da lei [art. mas corresponde a um dever de justiça [art. pelo que a sua tutela jurídica resume-se à possibilidade de o credor conservar a prestação espontaneamente realizada [soluti retentio]. art. da coercibilidade do vínculo. 476º]. Não pode ser repetido/devolvido o que foi prestado espontaneamente.Lara Geraldes @ FDL MODALIDADES DE OBRIGAÇÕES Obrigações Naturais §1: NOÇÃO. 403º. 404º]. salvo se o devedor não tiver capacidade para realizar a prestação [prestação realizada por incapaz: arts. A lei manda aplicar às obrigações naturais o regime das obrigações civis em tudo o que não se relacione com a realização coactiva da prestação. §3: NATUREZA JURÍDICA. enfim. 495º-3] §2: REGIME LEGAL. A prestação não é judicialmente exigível. São verdadeiras obrigações jurídicas. sem qualquer coacção.

Quanto à substituição no cumprimento. o Positivo: facere • • Material Jurídico o Negativo: non facere [omissão] e de pati [sujeição] §2: PRESTAÇÕES FUNGÍVEIS E INFUNGÍVEIS. Reconduz a figura à doação. 767º-1 e 827º-830º] – susceptível de execução específica. que não se trata de verdadeiras obrigações jurídicas. contudo. Quanto ao objecto. Distingue-se. da doação. o Dare: prestar ou restituir. todavia. sem prejuízo para o credor [arts. 940º]. Prestações §1: PRESTAÇÕES DE COISA E DE FACTO. 29 . as prestações podem ser: • Fungíveis: a realização da prestação pode ser substituída por outrem que não o devedor. na medida em que não existe qualquer vínculo jurídico por meio do qual uma pessoa fique adstrita para com outra à realização de uma prestação [art. 397º]. face à ausência do espírito de liberalidade [art.Direito das Obrigações II . A prestação consiste no conteúdo positivo do direito do credor. • De facto: consistem em realizar uma conduta de outra ordem [vg cuidar de um jardim] – não é possível distinguir entre a conduta do devedor e uma realidade independente dessa conduta. as prestações podem ser: • De coisa: cujo objecto consiste na entrega de uma coisa – a actividade do devedor pode ser distinguida da própria coisa. uma vez que o cumprimento da obrigação representa um incremento do património do credor natural à custa do património do respectivo devedor.Lara Geraldes @ FDL MENEZES LEITÃO entende.

207º]. no contrato de arrendamento] 30 . o Integral [realizada de uma só vez. as prestações podem ser: • Instantâneas: a execução da prestação ocorre num único momento [art. cujo objecto é dividido em fracções.vg renda.Lara Geraldes @ FDL o As prestações são. o Infungibilidade convencional: devedor e credor acordaram expressamente que a prestação só pode ser realizada pelo primeiro. 434º-2]. fungíveis: independentemente de a coisa ser ou não fungível [art. Quanto ao momento em que ocorrem. art. implicando uma repetição sucessiva de prestações isoladas [art. §3: PRESTAÇÕES INSTANTÂNEAS E DURADOURAS. A substituição do devedor no cumprimento não é possível. A sua realização global depende do decurso de um período de tempo. existindo uma pluralidade de obrigações distintas . vg venda a prestações. 767º-2]. pelo que a lei não admite a execução específica da obrigação.Direito das Obrigações II . vg entrega da coisa vendida] o Fraccionada [uma única obrigação. com vencimentos intervalados. atendendo a: • • • Natureza da prestação Interesse do credor Acordo das partes • Infungíveis: só o devedor pode realizar a prestação [art. 434º1]. o Infungibilidade natural: a substituição do devedor no cumprimento prejudica o credor. o Contínua ou continuada [a prestação não sofre qualquer interrupção. vg locação] o Periódicas [a prestação é sucessivamente repetida em certos períodos de tempo. em regra. 934º] • Duradouras: a execução prolonga-se no tempo.

Lara Geraldes @ FDL §4: PRESTAÇÕES DE RESULTADO E DE MEIOS. Exemplo: • Obrigação de entrega de dez quilos de maçãs. as prestações podem ser: • De resultado: o devedor vincula-se a obter um resultado determinado. 31 . mas ainda não estão concretizadas quais as maçãs com que o devedor deverá cumprir a obrigação. mas não está ainda concretamente determinado quais os espécimes daquele género que vão servir para o cumprimento da obrigação. pelo que terá que ocorrer até ao momento do cumprimento. 539º]. A prestação não necessita de se encontrar determinada no momento da conclusão do negócio.Direito das Obrigações II . peso ou medida de coisas dentro de um género. • De meios: o devedor não está obrigado à obtenção de um resultado. vg: há referência ao género [maçãs] e à quantidade [dez quilos]. o o Obrigações genéricas Obrigações alternativas §6: OBRIGAÇÕES GENÉRICAS. respondendo por incumprimento se esse resultado não for obtido [vg transportador]. mas sim a actuar com a diligência necessária para que esse resultado seja obtido [vg prestação médica]. §5: PRESTAÇÕES DETERMINADAS E INDETERMINADAS. A prestação encontra-se determinada apenas por referência a uma certa quantidade. Quanto à obtenção do resultado. 280º e 400º]: • Determinadas: a prestação encontra-se completamente determinada no momento da constituição da obrigação. bastando que seja determinável [arts. • Indeterminadas: a determinação da prestação ainda não se encontra realizada. As obrigações genéricas [vs obrigações específicas] são aquelas cujo objecto da prestação se encontra apenas determinado quanto ao género e quantidade [art.

pode caber a ambas as partes [credor ou devedor. de JHERING. 540º]. A transmissão da propriedade. vg. do risco. as obrigações genéricas constituem uma excepção a este regime. Exemplo de obrigação genérica quanto a coisa infungível: entrega de um quadro de um pintor. 796º]. ocorre no momento da concentração da obrigação. a obrigação específica é aquela em que tanto o género. quando a coisa é determinada com conhecimento de ambas as partes. enfim. a transferência da propriedade opera com a determinação da prestação [art. excepcionalmente. 542º]. no momento em que a obrigação genérica passa a específica. não se exigindo que essa concentração seja conhecida de ambas as partes. segundo a qual a concentração da obrigação genérica só ocorreria com o cumprimento da obrigação. defendendo a mesma solução [art. a indeterminação inicial coloca o problema do risco do perecimento da coisa que. ou seja. 539º]. A escolha. ou a terceiro. 408º-2]: a transferência opera. embora possa eventualmente caber ao credor ou a terceiro [art. 408º-1]. 239º]. ROMANO MARTINEZ e MENEZES LEITÃO reconduzem esse entendimento ao disposto no art. nas obrigações genéricas. nos termos gerais. As obrigações genéricas são comuns nas negociações sobre coisas fungíveis [art. e supletivamente. vg] é completamente livre de escolher os espécimes. maxime aqueles de pior qualidade. transferindo-se o risco para o credor nesse momento. 207º]. Pergunta-se se o devedor [o dono das maçãs. com base na boa fé. corre por conta do proprietário [art. Todavia. Uma vez que. e. Qualquer perecimento da coisa que acontecesse anteriormente 32 . a transferência da propriedade não pode ocorrer no momento da celebração do contrato [vs art. um direito a uma quantidade de coisas a escolher de certo género é um direito de crédito. Com efeito. 400º: a determinação da prestação deve ser realizada segundo juízos de equidade. art. Em regra.Lara Geraldes @ FDL Pelo contrário. a escolha [concentração] cabe ao devedor [art. consequentemente. como os espécimes da prestação se encontram determinados. Regra geral. O BGB obriga o devedor a entregar uma coisa de classe e qualidade média. pelo que MENEZES CORDEIRO invoca o regime da integração dos negócios jurídicos. 400º]. e não um direito real. medida ou escolha].Direito das Obrigações II . ou o processo de individualização dos espécimes dentro do género [vg recorrendo à pesagem. A lei consagrou a teoria da entrega [art.

Diferentemente. mas em que o devedor se exonera com a mera realização de um delas que. 408º-2 – princípio da entrega]. 790º] • O credor incorre em mora: o credor. 797º]: hipótese do cumprimento. em que o devedor não se compromete a transportar a coisa para o local do cumprimento. recusa receber a prestação ou não pratica os actos necessários ao cumprimento da obrigação [art. §7: OBRIGAÇÕES ALTERNATIVAS. MENEZES LEITÃO: trata-se de uma ficção para estender a aplicação do regime do art. contudo. A lei admite. Exemplo: 33 . quando a escolha compete ao credor ou a terceiro [art. através da concentração. • A promessa de envio [art. 543º]. 541º] – o risco do perecimento corre por conta do credor: • Acordo das partes: contrato modificativo da obrigação que substitui a obrigação genérica por uma obrigação específica. As obrigações alternativas consistem em modalidades de prestações indeterminadas. passando a ser aplicáveis as disposições dos arts. a concentração ocorre normalmente mediante a entrega pelo devedor [art. 542º-2]. devendo ser determinada até ao cumprimento. Com efeito. passa a ser irrevogável. vier a ser designada [art. • O género extingue-se a ponto de restar apenas uma das coisas nele compreendidas: a concentração ocorre por mero facto da natureza [art. mas apenas a colocá-la num meio de transporte destinado a outro local. 542º]. 813º]. Se o credor não fizer a escolha dentro do prazo estabelecido. casos em que a obrigação se concentra antes do cumprimento. é ao devedor que a escolha passa a competir [art. Essa escolha concentra imediatamente a obrigação. sem motivo justificado. por escolha.Direito das Obrigações II . embora cabendo a escolha ao devedor [art.Lara Geraldes @ FDL correria por conta do devedor. e não concentração – dívidas de envio ou remessa. que se caracterizam por existirem duas ou mais [indeterminação] prestações de natureza diferente. desde que declarada ao devedor ou a ambas as partes. 540º e 541º. 814º-1 às obrigações genéricas.

exonerando-se o devedor quando designar a prestação que vai realizar e esta for conhecida da outra parte. pelo devedor. e este não escolher.Lara Geraldes @ FDL • O devedor que se obrigue a entregar o barco ou o automóvel. 34 . 408º-2 não exceptua o regime das obrigações alternativas. Perante impossibilidade casual da prestação. Mesmo tratando-se de prestações divisíveis. vg – apenas uma prestação é concretizável através da escolha. supletivamente. o risco sobre qualquer dos objectos corre por conta do devedor. cumpre a obrigação se entregar qualquer um destes objectos. • Escolha do devedor – a escolha passa para o credor apenas na fase da execução. uma vez que o art. O devedor tem apenas uma obrigação. mas apenas a receber qualquer uma delas em alternativa. não é possível realizar parte de uma prestação e parte de outra [art. 542º-2 e 548º e 549º]: remete-se a faculdade de escolha para a contraparte. 545º]: como a propriedade ainda não se transmitiu. Se a escolha couber a terceiro. Aqui. • Escolha do credor – a escolha passa imediatamente a competir ao devedor. é a designação do devedor. conhecida da outra parte. a escolha pertence ao devedor [art. em face do princípio da indivisibilidade. A posterior revogação da escolha. não imputável a nenhuma das partes [art.Direito das Obrigações II . sob pena de incumprimento [art. e o credor apenas um direito de crédito sobre uma das prestações. 543º-1 e 548º]. devolve-se a escolha ao devedor. salvo consentimento do credor. Se alguma das partes não realizar a escolha no tempo devido. 544º]. credor ou terceiro. embora também possa competir ao credor ou a terceiro [art. Assim não o é. que determina a prestação devida [art. sendo-lhe devolvida. 542º e 549º]. a lei devolve essa faculdade à outra parte [art. uma vez que na fase declarativa o credor não tem o direito a uma prestação individualmente considerada. Na falta de determinação em contrário. O benefício da escolha é concedido ao devedor. pergunta-se se a escolha/determinação da prestação só ocorrerá no momento do cumprimento. 549º]. limitando-se a obrigação às prestações possíveis. 543º-2]. não é possível após o conhecimento dessa designação. No primeiro caso.

uma compensação por ter sido afectada a faculdade de escolha  • Resolver o contrato [credor] Imputável ao credor [art. 547º]: o Se a escolha lhe competir. e não optar pela resolução do contrato [ANTUNES VARELA].Lara Geraldes @ FDL Diferentemente.  • Se a escolha competir a terceiro. considera-se cumprida a obrigação tornada impossível.Direito das Obrigações II . 546º]: o Se a escolha lhe competir. ao devedor Exigir a indemnização pelos danos de não ter sido realizada a prestação que se tornou impossível. o Se a escolha pertencer ao devedor. com a impossibilidade da escolha da prestação tornada impossível. a indemnização ou a resolução do contrato. estes podem optar por:   Exigir uma das prestações possíveis. Para MENEZES CORDEIRO deve passar a ser o credor quem escolherá entre exigir a prestação possível. neste caso. 546º]: o terceiro pode optar por realizar uma das prestações possíveis ou pedir indemnização pelos danos resultantes de não ter sido realizada a prestação que se tornou impossível. a menos que:  Prefira realizar outra prestação E prefira ser indemnizado pelos danos que haja sofrido. se a impossibilidade for imputável a alguma das partes: • Imputável ao devedor [art. considera-se cumprida a obrigação. 35 . o Se a escolha competir ao credor ou a terceiro. rectius. a doutrina propõe: o Impossibilidade imputável ao devedor [art. deve efectuar uma das prestações possíveis – a impossibilidade é causada pela parte a quem compete a escolha.

exigindo uma indemnização. 558º-1]. abrange apenas uma prestação. 36 . mas dá-se ao devedor a faculdade de substituir o objecto da prestação por outro [vg art. • Aquelas em que se estabeleça uma alternativa condicional [verificando-se ou não certa condição]. sob pena de nulidade do negócio jurídico. o devedor é. 552º] Obrigações em moeda estrangeira [art. 547º]: deve passar a ser o devedor a escolher entre considerar cumprida a obrigação ou realizar outra prestação. o Nas obrigações com faculdade alternativa. 558º] §9: INDETERMINAÇÃO DO CREDOR. Sendo possível a indeterminação do credor. o Nas obrigações alternativas. §8: OBRIGAÇÕES PECUNIÁRIAS. Não são obrigações alternativas: • Aquelas em que só existe uma prestação.Direito das Obrigações II . o direito do credor abrange duas prestações em alternativa. mas que pode ser escolhida a sua forma de execução [vg lugar e prazo]. A prestação encontra-se determinada desde a data da sua constituição. • Obrigações com faculdade alternativa: a prestação já se encontra determinada. mas pode ser efectuada outra prestação no momento do cumprimento. Obrigações pecuniárias são aquelas que têm dinheiro por objecto. embora deva ser determinável.Lara Geraldes @ FDL o Impossibilidade imputável ao credor [art. visando proporcionar ao credor o valor que as respectivas espécies monetárias possuam [requisitos cumulativos]. 550º] Obrigações em moeda específica [art. ainda que o devedor possa substituí-la. Modalidades: • • • Obrigações de quantidade [art. uma vez que este pode não ficar determinado no momento em que a obrigação é constituída.

Direito das Obrigações II . vg promessa pública [art. 459º]. A indeterminação temporária do credor pode resultar de se aguardar a verificação de um determinado facto futuro e incerto. B e C obrigam-se perante D. • Vinculação de uma pessoa para com outras: pluralidade activa o Exemplo: A obriga-se perante D. podendo A exigir a B e C que lhe entreguem € 300 cada. E e F a entregar-lhes € 900   Obrigação conjunta ou parciária: D poderá exigir a A € 100 Obrigação solidária: D pode exigir de A € 900. Todavia. ou pela ligação entre o credor e a relação obrigacional se apresentar como indirecta ou mediata. B e C obrigam-se perante D a entregar-lhe € 900  Obrigação conjunta ou parciária: D apenas pode exigir que A lhe entregue € 300  Obrigação solidária: D pode exigir a A a totalidade da prestação. € 900. E e F a entregar-lhes € 900   Obrigação conjunta ou parciária: D poderá exigir a A € 300 Obrigação solidária: D pode exigir a A € 900. 511º]. 37 . ficando obrigado a entregar a E e F € 300 cada. A definição do art. a obrigação pode também constituir-se abrangendo: • Vinculação de várias pessoas para com outra: pluralidade passiva o Exemplo: A. vg cheques ao portador. obrigatoriamente determinado logo no momento em que a obrigação é constituída [art. 397º refere-se apenas às obrigações singulares. §10: OBRIGAÇÕES PLURAIS. • Pluralidade mista o Exemplo: A.Lara Geraldes @ FDL contudo. tendo A que exigir de B e C € 300 cada e ficando D obrigado a entregar a E e F € 300 cada.

Direito das Obrigações II . o A insolvência de um condevedor co-responsabiliza os demais [art. essa. 786º-3]: cada um dos devedores só está vinculado a prestar ao credor ou credores a sua parte na prestação e cada um dos credores só pode exigir do devedor ou devedores a parte que lhe cabe: • • Cada credor só pode exigir a sua parte no crédito Cada devedor só tem que prestar a sua parte na dívida Excepcionalmente. os vários devedores respondem solidariamente [art. 516º]. no interesse do credor: • Solidariedade passiva: qualquer um dos devedores está obrigado perante o credor a realizar a prestação integral. 512º]. o Sendo a impossibilidade culposa. 524º].Lara Geraldes @ FDL A regra geral é a das obrigações conjuntas ou parciárias [art. • Solidariedade activa: qualquer um dos credores pode exigir do devedor a prestação integral. o Direito de regresso sobre os outros devedores para exigir a parte que lhes compete na obrigação [art. 512º ss]. 526º]. 38 . 512º]. o A realização integral da prestação a um dos credores libera o devedor para com todos os credores [art. o A realização da prestação integral por um dos devedores libera todos os outros devedores em relação ao credor [art. 533º]. A obrigação de regresso. as obrigações podem ser solidárias [arts. é conjunta [vg € 300 a B e € 300 a C]. o O credor que recebeu mais do que lhe compete está obrigado a satisfazer aos outros a parte que lhes cabe no crédito comum [art. 520º]. • Solidariedade mista: qualquer um dos credores pode exigir a qualquer dos devedores a prestação devida por todos os devedores a todos os credores. • Princípio da igualdade [art.

o O devedor que realizou a prestação tem direito de regresso sobre os outros devedores pela parte que lhes compete. salvo estipulação de solidariedade ou quando esta resulte da lei [aplicando-se o regime dos arts.Lara Geraldes @ FDL o A realização integral da prestação por um dos devedores a um dos credores libera todos os devedores em relação a todos os credores. PLURALIDADE PASSIVA Cumpre fazer um reparo: tratando-se de obrigação plural indivisível. vg]. eis as características comuns aos três tipos de solidariedade: • Identidade da prestação em relação a todos os sujeitos da obrigação Extensão integral do dever de prestar ou do direito à prestação em relação a todos os devedores e a todos os credores. Em suma. 518º ss]. não acarretando necessariamente a extinção integral da prestação. Estipulada a solidariedade. sendo a prestação exigível 39 . O acréscimo de • responsabilidade dos restantes obrigados é.Direito das Obrigações II . o O credor que recebeu a prestação está obrigado a entregar aos restantes credores a parte que a estes compete. simultaneamente. Exemplo: • A. Nota: o critério da divisibilidade baseia-se na natureza das coisas. B e C comprometeram-se a entregar um automóvel a D: este tem que exigir a prestação a todos os devedores. 497º. aplica-se a regra geral da conjunção aos casos de pluralidade de sujeitos na relação obrigacional [art. dispõe o art. relacionado com a satisfação do credor. 513º]. Será divisível a prestação que puder ser fraccionada sem prejuízo para o interesse do credor. 536º]. respectivamente • Efeito extintivo comum da obrigação com o cumprimento por apenas um ou apenas a um deles No silêncio da lei [vs art. por isso. Verificando-se a extinção da obrigação em relação a alguns dos devedores. admissível. atendendo à sua função económico-social. 535º: só de todos os devedores pode o credor exigir o cumprimento da obrigação. poderá D exigi-la apenas a A. e na ausência de estipulação. o credor não fica inibido de exigir a prestação dos obrigados que sobejarem [art.

536º: os restantes credores só podem exigir a prestação do devedor se lhe entregarem o valor da parte que cabia à parte do crédito que se extinguiu. mas que o devedor só relativamente a todos os credores em conjunto se pode exonerar – o devedor cumpre perante todos os credores. A solução. enfim [art. a lei refere que qualquer um deles tem o direito de exigir a prestação por inteiro. A citação judicial do devedor por um dos credores transforma a obrigação conjunta em solidária. exige-se uma contraposição de interesses entre as duas partes. Se a prestação for impossível por facto imputável a apenas um dos devedores. desde que ligadas por um interesse comum. como defendem ROMANO MARTINEZ e MENEZES CORDEIRO.Lara Geraldes @ FDL aos demais devedores. Esta acepção. 801º-1]. pauta-se pela aplicação analógica do disposto no art. 538º]. se a obrigação for indivisível com pluralidade de credores. O credor deve pagar-lhes o valor correspondente à parte do devedor exonerado [art. FONTES DAS OBRIGAÇÕES BASEADAS NO PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PRIVADA O CONTRATO Negócios Jurídicos §1: NEGÓCIO JURÍDICO. implica que duas ou mais pessoas constituam uma única parte. enquanto que os restantes vêem extinta a sua obrigação [art. Nos contratos. 536º]. este responde por impossibilidade culposa [art. o titular de um interesse. 40 . e não uma pessoa individualmente considerada. neste caso. PLURALIDADE ACTIVA Diferentemente. nesta sede. 790º]. por seu lado. Cumpre reter a seguinte distinção tradicional: • • Negócios jurídicos unilaterais: possuem apenas uma parte Negócios jurídicos multilaterais: possuem duas ou mais partes o Negócios bilaterais ou contratos: possuem apenas duas partes Por parte entende-se. por isso.Direito das Obrigações II .

seja ela um contrato ou um negócio unilateral: art. várias declarações e vários interesses. Modalidades de Contratos 41 . ao modo da formação do negócio. • Os efeitos da doação são sempre os mesmos. Contratos: os efeitos desencadeados diferenciam duas ou mais pessoas. O contrato é. discutida pela doutrina: MENEZES CORDEIRO critica aquilo a que apelida de verdadeira “jurisprudência dos interesses”. e não já aos “interesses” subjacentes ou aos “efeitos” desencadeados. 951º-2]. sem prejuízo de uma posição comum. mas integralmente concordantes entre si. MENEZES LEITÃO critica esta acepção. aqui. o • Tende a existir apenas uma pessoa. a seguinte classificação: • Negócios jurídicos unilaterais: os efeitos desencadeados não diferenciam as pessoas que intervieram. enfim. o Tende a existir várias pessoas.Lara Geraldes @ FDL A referência a “interesse” é. podemos concluir o seguinte: • • A doação é um contrato: exige duas declarações negociais [art.Direito das Obrigações II . como sabemos. 940º]. 954º. A doação pura a um incapaz é um negócio jurídico unilateral: produz efeitos independentemente de aceitação [art. propugnando antes o critério da necessidade de uma declaração negocial ou de duas ou mais. Atenta-se. de onde resulta uma estipulação unitária de efeitos jurídicos. MENEZES CORDEIRO propõe. Face a esta primeira abordagem. deste modo. já que os intervenientes num negócio jurídico unilateral podem ter interesses diversos. uma declaração e um interesse. o resultado de duas ou mais declarações negociais contrapostas. como critério delimitador de negócios jurídicos unilaterais e bi/multilaterais.

• Contratos não formais: a exteriorização da declaração negocial pode ser feita por qualquer meio [vg oralidade]. insusceptíveis de aplicação analógica [art. 875º. servindo para complementá-lo. Excepcionalmente. Em concluir. o o • Ad substantiam Ad probationem • Formalidade: exterior ao próprio negócio.Direito das Obrigações II . importa recordar a seguinte distinção fundamental da Teoria Geral do Direito Civil: • Forma: maneira como o contrato se revela e como se exteriorizam as declarações de vontade. Quanto à forma. 947º-2. 220º] – normas excepcionais.Lara Geraldes @ FDL §1: QUANTO À FORMA. o Razões:   Históricas: comodato. §2: QUANTO AO MODO DE FORMAÇÃO. Daqui se extrai que: • As declarações podem ser exteriorizadas por qualquer meio. 219º] determina que. a não ser observada. mútuo e depósito [contratos pelos quais “uma das partes entrega”…] ou a doação verbal de coisas móveis. existem disposições que exigem forma especial que. Quanto ao modo de formação. redunda em nulidade [art. mútuo e depósito De ponderação: doação 42 . os contratos podem ser: • Contratos reais quoad constitutionem: para a sua celebração exige-se tradição ou entrega da coisa objecto. o simples consenso das partes deve ser operativo em relação à constituição do contrato. art. salvo casos excepcionais. 947º-1 e 1143º]. comodato. São exemplos o penhor. O princípio do consensualismo [art. 11º]. os contratos podem ser: • Contratos formais: a forma da declaração negocial encontra-se especialmente prevista [vg arts.

669º]. uma significativa doutrina portuguesa seguiu a concepção germânica de que as partes. determinadas e autónomas de outras coisas [art. ao abrigo da autonomia privada. 1142º e 1185º]. Cumpre atender ao disposto no art. 408º-1. já que a exigência da tradição tem a utilidade de não permitir que a execução do contrato ocorra numa fase posterior à da declaração negocial [contra MENEZES CORDEIRO]. • Contratos obrigacionais: originam uma situação jurídica que se reconduz a direitos de crédito e a obrigações. cuja tradição tem efeito constitutivo [VAZ SERRA. O mesmo se verifica nos restantes casos [arts. as coisas têm que ser presentes. implicando defender dois regimes contraditórios entre si para um mesmo contrato. excepto tratando-se de penhor de coisas [art. assim.Direito das Obrigações II . pronunciaram-se PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA. poderiam dispensar o requisito de tradição da coisa. A regra geral corresponde. transmissivos ou extintivos de direitos e de obrigações • Contratos reais: originam uma situação jurídica que se reconduz a um direito real. ALMEIDA COSTA. 1129º. Neste âmbito. MENEZES LEITÃO defende que quando a lei exige imperativamente a tradição para a constituição do contrato [vg arts.Lara Geraldes @ FDL De publicidade: penhor  • Contratos consensuais: para a sua celebração a entrega da coisa é dispensada. 408º-2: transferência da propriedade diferida para momento posterior]. modificativos. MOTA PINTO. os contratos podem ser: • Contratos constitutivos. 669º e 947º-2 – “só produz efeitos” e “só pode ser feita”]. Contra este entendimento. ao denominado sistema do título [admitindo-se a dissociação entre posse e direito real]: a transmissão do direito real não depende de qualquer acto posterior. Quanto aos efeitos. MENEZES CORDEIRO e CARVALHO FERNANDES]. etc. que determina que a transmissão dos direitos reais sobre coisas ocorre por mero efeito do contrato [regra geral – quoad effectum]: para tal. esta não pode ser dispensada pelas partes. §3: QUANTO AOS EFEITOS. como a 43 . Admitir-se alterações decorrentes da autonomia privada permitiria a coexistência de um comodato real com um comodato consensual.

do devedor]. B promete vendê-lo a C. • Frutos naturais e partes componentes ou integrantes: a transferência da propriedade verifica-se no momento da colheita ou da separação [obrigação de entrega do devedor. o Coisas relativamente futuras: art. O direito só será adquirido a partir do momento em que a coisa tiver existência [tornar-se numa coisa presente]. que ora cumpre apreciar [art. quando o anel é doado ao alienante. salvo o disposto no art. 408º-2] – excepções legais ao princípio geral da transferência imediata: • Coisas futuras: o momento da transferência da propriedade é o da aquisição da coisa pelo alienante [vg A promete doar um anel a B a 11 de Outubro. o adquirente da coisa é seu proprietário desde o momento da celebração do contrato. A propriedade do anel transmite-se para C a 11 de Outubro. 543º] – o efeito translativo está associado com a escolha da prestação. 796º-1]. desde que conhecida das partes [normalmente. Indiciámos já algumas excepções a esta regra. 211º. 541º. e não à doação ou à empreitada [arts. Nestes termos.Lara Geraldes @ FDL tradição da coisa ou o registo. 880º e 942º-1]. correndo o risco da perda ou deterioração da coisa a partir desse momento [art. 880º]. • Coisas indeterminadas: a transferência da propriedade verifica-se no momento em que a coisa é determinada com conhecimento de ambas as partes. 539º e 540º] – o efeito translativo dá-se com a concentração [normalmente. O efeito translativo depende da constituição da propriedade [ou de outro direito real] sobre essa coisa por parte do alienante. o Coisas absolutamente futuras: não existem ainda na realidade jurídica e fáctica. Entretanto. art. B]. 44 . Ressalva: regra não abrange as obrigações genéricas [arts. Regime aplicável às obrigações alternativas [art. com o cumprimento]. transferindo-se por mero efeito do contrato. em Dezembro do mesmo ano.Direito das Obrigações II . Ressalva: regime aplicável à compra e venda.

a eficácia da cláusula é meramente inter partes. vg. tem o direito de crédito de cobrar o preço: quando não tenha qualquer preferência no pagamento. 409º . 45 . Em qualquer caso. a transmissão da propriedade é diferida para o momento do pagamento [integral] do preço. 604º-2]. Como consequência lógica do que supra §3 foi referido. podendo aliená-la de imediato. designa-se cláusula de reserva de propriedade [art. a transmissão da propriedade continua a realizar-se por efeito do contrato. 801º-2 e 886º]. Esta realidade é ilustrada pelos inconvenientes e riscos da compra e venda a crédito [com espera do preço. Acresce o facto de que o vendedor não pode resolver o contrato por incumprimento da outra parte a partir do momento em que ocorra a transmissão da propriedade e a entrega da coisa [arts. em face do princípio da relatividade dos contratos [art. 406º-2]. apostos ao contrato. o comprador torna-se imediatamente proprietário da coisa vendida no momento de celebração do contrato de compra e venda. Tratando-se de uma coisa móvel não sujeita a registo. esse.Lara Geraldes @ FDL Excepções convencionais ao princípio geral da transferência imediata [art. 796º-2] ou condição [art. 408º-1. Neste caso. 408º-1]: a transmissão do direito real pode ser diferida mediante acordo de termo [art. ou até à verificação de qualquer outro evento.pactum reservati domini]. sendo que quando respeite a bens imóveis ou móveis sujeitos a registo. enfim]. §4: RESERVA DE PROPRIEDADE. concorre com todos os credores comuns do comprador sobre o património deste [art. mesmo que esta ainda não lhe tenha sido entregue ou que o preço ainda não tenha sido pago [na totalidade] – cfr. Esta convenção pode ser celebrada em relação a quaisquer bens. 796º-3]. O vendedor. dependendo a transferência desse facto futuro e incerto [o pagamento]. todavia. e é consequência directa deste. se o terceiro adquirir a propriedade a título originário [vg usucapião ou acessão]. sem exigência de qualquer publicidade. 409º-2]. só a cláusula de reserva de propriedade constante do registo é oponível a terceiros [art. art. Extinguir-se-á. À convenção entre o vendedor e o comprador pela qual o alienante reserva para si a propriedade da coisa até ao cumprimento total ou parcial das obrigações da outra parte.Direito das Obrigações II .

o vendedor pode resolver o contrato. CUNHA GONÇALVES concebe a teoria inversa: a cláusula de reserva de propriedade seria equiparável a uma condição resolutiva. em caso de não pagamento do preço. sendo que a conservação da propriedade no vendedor até ao pagamento impede outros credores de executarem o bem [vs art. O risco deve. mesmo após entrega ao comprado. ou a apenas uma. Em caso de venda a prestações em que haja tradição da coisa. O comprador seria. Pode. e a partir da entrega da coisa [brocardo ubi commoda. um adquirente condicional [arts. nestes termos. Face à configuração dogmática desta figura. resolver o contrato se o comprador faltar a mais do que uma prestação. 934º]. independentemente da proporção da mesma na quantia total em dívida. §5: NATUREZA JURÍDICA DA RESERVA DE PROPRIEDADE. ibi incommoda]. superior à oitava parte do preço [art.Lara Geraldes @ FDL A cláusula de reserva de propriedade defenderá o vendedor das eventuais consequências do incumprimento do contrato pelo comprador. 604º-2]. conforme a solução supra propugna. arts. 801º-2 e 886º]. 2ª parte]. o pagamento do preço. A partir da tradição. 273º. é o comprador quem está investido nos poderes de uso e fruição da coisa. pronunciaram-se GALVÃO TELLES. MENEZES LEITÃO considera inaceitável que o vendedor suporte o risco pela perda ou deterioração da coisa [art. ocorreria a resolução 46 . enfim. já que ainda não transmitiu a propriedade da coisa [cfr.Direito das Obrigações II . verificado o incumprimento do pagamento do preço. ANTUNES VARELA e ALMEIDA COSTA no sentido de que seria equiparável a uma condição suspensiva: a transmissão da propriedade ficaria subordinada a um facto futuro e incerto. que merece tutela do Direito. 2ª parte]. sim. já que a propriedade seria logo transmitida para o comprador mas. Esta norma data de 1966 [versão originária do CC]: o legislador concebia já o consumidor como a parte mais fraca. Verificado o incumprimento definitivo por parte do comprador. por isso. enquanto que a reserva da propriedade na esfera do vendedor apenas assegura a recuperação do bem. 274º e 796º-3. o vendedor não pode resolver o contrato se o comprador faltar ao pagamento de uma única prestação que não exceda 1/8 do preço [inferior à oitava parte do preço]. 796º-3. correr por conta de quem beneficia do direito: por conta do comprador.

não obstante a prescrição. expectativa oponível a terceiros. servindo-se de quatro argumentos: • O princípio do cumprimento O perecimento da coisa por causa não imputável ao alienante corre por conta do adquirente/proprietário [art. MENEZES LEITÃO considera que uma vez que o negócio translativo já foi celebrado. Em conclusão. a transmissão da propriedade ocorre depois do pagamento [é diferida para momento póstumo. a transmissão da propriedade ocorre antes do pagamento do preço [por mero efeito do contrato. 886º]. 408º-1]. enfim: art. A natureza jurídica da reserva de propriedade relaciona-se. sim. sendo a propriedade “recuperada” pelo vendedor [art. 409º-1 e 304º-3: “é lícito ao alienante reservar para si a propriedade da coisa até ao cumprimento” e “se prescrever o crédito ao preço.Direito das Obrigações II . pode o vendedor. ROMANO MARTINEZ entende que sempre que tenha havido entrega da coisa. Qualquer dos entendimentos supra padece do vício de classificar a cláusula de reserva de propriedade enquanto uma condição. enfim]. assim. em virtude de contrato que dependa de condição resolutiva. já que a condição é a cláusula acessória do negócio jurídico que determina a subordinação dos seus efeitos a um acontecimento futuro e incerto [art. 796º-3] 47 .Lara Geraldes @ FDL dos efeitos do negócio jurídico. Trata-se. MENEZES LEITÃO dirige uma vez mais críticas a esta teoria: este entendimento entraria em contradição com o disposto nos arts. o risco tem-se por transferido. com eficácia retroactiva. de uma alteração da ordem de produção dos efeitos negociais: • Sem a reserva. exigir a restituição da coisa quando o preço não seja pago”. 796º-1] • • O risco do perecimento da coisa. com a expectativa real de aquisição do direito real. corre por conta do adquirente/proprietário se a coisa lhe tiver sido entregue [art. o comprador já tem uma expectativa jurídica de aquisição do bem. seja ela suspensiva ou resolutiva. • Com a reserva. 270º].

• Contratos bivinculantes: a vinculação à obrigação existe em relação a ambas as partes. • Contratos não sinalagmáticos: o o Unilaterais: apenas uma das partes assume uma obrigação Bilaterais imperfeitos: uma das partes assume uma obrigação. já que implica prestações correlativas [as declarações de ambas as partes]. MENEZES LEITÃO considera que não há qualquer sinalagma no contrato-promessa unilateral. recíprocos e interdependentes. Contra este entendimento. ficando ambas simultaneamente na posição de credores e de devedores [art. 886º]. o adquirente com reserva de propriedade beneficia do direito de retenção previsto no art. §6: QUANTO À RECIPROCIDADE DAS OBRIGAÇÕES.Direito das Obrigações II . Quanto à reciprocidade das obrigações. MENEZES CORDEIRO propõe uma classificação autónoma: • Contratos monovinculantes: apenas uma das partes fica vinculada ao cumprimento da obrigação. Emergem para ambas as partes direitos e deveres. 754º. os contratos podem ser: • Contratos sinalagmáticos: contratos que originam obrigações recíprocas para as partes. já que só uma das partes está obrigada/vinculada a celebrar o contrato definitivo. vg]. pelo devedor. A declaração negocial não pode ser vista como uma obrigação nem pode ser exigida. O contrato-promessa unilateral [assim apelidado pelo art. segundo este entendimento. um contrato sinalagmático. 411º] seria. segundo ROMANO MARTINEZ. com fundamento na falta de pagamento do preço [art. mas a outra realiza a prestação – vg mandato]. Nestes termos. 879º b) e c).Lara Geraldes @ FDL • A reserva de propriedade é a condição resolutiva que obsta à resolução do contrato. ainda que monovinculante [apenas uma das partes se vincula a prestar]. 48 .

Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL Regressemos, por isso, à primeira classificação deste âmbito: a classificação de contratos quanto à existência de obrigações recíprocas [maxime os contratos sinalagmáticos]. O surgimento de uma prestação está ligado ao surgimento de uma contraprestação: o denominado sinalagma genético [nexo final]. Como consequência lógica deste nexo final, as prestações surgem interdependentes e uma não deve ser executada sem a outra. Este sinalagma, também designado sinalagma funcional, tem manifestações em diversos institutos do Direito das Obrigações:

Excepção do não cumprimento: art. 428º [vg A, dealer de droga, combina com B entregar uma mala com cocaína num local público, em troca de uma mala com o preço acordado, a efectuar em simultâneo].


Resolução por incumprimento: art. 801º-2. Extinção do contrato sinalagmático por impossibilidade de uma das prestações: art. 795º-1.

Na base desta concepção encontram-se exigências de justiça comutativa e de equilíbrio contratual.

§7: QUANTO ÀS ATRIBUIÇÕES PATRIMONIAIS. Quanto às atribuições patrimoniais, os contratos podem ser: • Contratos onerosos: implicam atribuições patrimoniais para ambas as partes [vg contrato de compra e venda: o vendedor abdica da coisa e o comprador do preço, art. 874º].

Contratos gratuitos: implicam atribuições patrimoniais para apenas uma das partes [vg doação e comodato, arts. 940º e 1129º].

Contratos onerosos ou gratuitos, dependendo: mútuo, mandato e depósito, arts. 1145º, 1158º e 1186º.

o Mútuo: quando oneroso [art. 1145º-1], não é sinalagmático – todos os
contratos reais quoad constitutionem, mesmo que onerosos, nunca são sinalagmáticos.

o Os contratos sinalagmáticos são sempre onerosos.

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL

Contratos onerosos e gratuitos, simultaneamente: contrato a favor de terceiro, vg [art. 443º] – relação triangular.

Neste âmbito, cumpre ainda apreciar a seguinte distinção:

Contratos comutativos: ambas as atribuições patrimoniais se apresentam como certas.

Contratos aleatórios: pelo menos uma das atribuições patrimoniais se apresenta como incerta o o o Quanto à sua existência Quanto ao seu conteúdo Exemplo: contrato de jogo e aposta [art. 1245º], contrato de renda vitalícia [art. 1238º] e contrato de seguro.

Esta distinção só é possível quanto aos contratos onerosos.

§8: OUTRAS CLASSIFICAÇÕES. Cumpre ainda reter as seguintes classificações de contratos: • Quanto à previsão do regime legal: o Contratos típicos: o regime está previsto na lei.

o Contratos atípicos: o regime é imposto pela prática comum, falandose a esse propósito de uma “tipicidade social” ou de um “tipo social” [vg contrato de franquia ou franchising].

Quanto ao nomen iuris:

o Contratos nominados: reconhecidos pela lei através de um nomen
iuris. Podem, por sua vez, ser típicos ou atípicos.  Atípico: contrato de hospedagem [art. 755º b]

o Contratos inominados: a lei não os designa através de um nomen iuris.
São sempre atípicos.

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL §9: CONTRATOS MISTOS. Os contratos mistos reúnem em si regras de dois contratos total ou parcialmente típicos. Assumem-se como contratos atípicos, já que não correspondem integralmente a nenhum tipo contratual regulado por lei. Paradoxalmente, a sua atipicidade resulta da adopção de dois ou mais contratos que são, per se, típicos, suscitando conflitos dos regimes a aplicar. Constituem categorias de contratos mistos:

1. Contratos múltiplos ou combinados: contratos nos quais as partes estipulam que uma delas deve realizar prestações correspondentes a dois contratos típicos distintos, enquanto que a outra realiza uma única contraprestação comum.

o Exemplo: venda de automóvel + prestação de serviços de conduzi-lo. •
2. Contratos geminados ou de tipo duplo: contratos nos quais uma parte se encontra obrigada a uma prestação típica de certo tipo contratual e a outra se encontra obrigada a uma contra-prestação, de outro tipo contratual. o Exemplo: arrendamento + prestação de serviços de limpeza do prédio. Para estes tipos de contratos [1. e 2.], GALVÃO TELLES propõe a aplicação da teoria da combinação: aplicação combinada dos vários regimes em causa. MENEZES LEITÃO considera que esta será a solução tendencial para os dois tipos de contratos em apreço, de modo menos rígido quanto propugna GALVÃO TELLES.

3. Contratos indirectos, mistos stricto sensu ou cumulativos: contratos nos quais é usada uma estrutura própria de um tipo contratual para preencher uma função típica de outro tipo contratual.

o Exemplo: venda de um imóvel a preço residual, meramente
simbólico, a título de liberalidade/doação.

4. Contratos complementares: contratos em que são adoptados os elementos essenciais de um determinado contrato mas aparecem acessoriamente elementos típicos de outro(s) contrato(s).

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conjuntamente] – art. 417º-1. já que os vários elementos dos tipos contratuais não se dissolvem para formar um único contrato. MENEZES LEITÃO considera que esta teoria merece um afastamento liminar. sim. a integração deveria ser feita com recurso à analogia. Perante lacunas de regime. 1ª parte.Direito das Obrigações II . unilateral ou bilateral [vg só comprar um computador se for vendida uma impressora. §10: UNIÃO DE CONTRATOS. MENEZES LEITÃO considera que esta é a teoria que tendencialmente se aplicará aos dois tipos de contratos em apreço.Lara Geraldes @ FDL o Exemplo: venda de automóvel + prestação de serviços acessória de manutenção do veículo. • União alternativa: as partes declaram pretender um ou outro contrato. ALMEIDA COSTA discordou de ambos os entendimentos. a celebração conjunta de diversos contratos. Cumpre reter as seguintes modalidades de união de contratos: • União externa: a ligação entre os vários contratos resulta apenas de serem celebrados ao mesmo tempo [vg ir a um café e pedir um bolo e um maço de cigarros] – art. Na união de contratos verifica-se. MENEZES CORDEIRO e ANTUNES VARELA pronunciaram-se no sentido da ponderação caso a caso. implicando 52 . de modo menos rígido quanto propugna GALVÃO TELLES. e 4. na união de contratos não existe um contrato apenas. entre as duas primeiras teorias apresentadas por GALVÃO TELLES. 417º-1. consoante ocorrer ou não a verificação de determinada condição. unidos entre si. a não aplicação de nenhum dos regimes. • União interna: os contratos apresentam-se ligados entre si por uma relação de dependência. na teoria da analogia.]. Cada contrato mantém a sua autonomia e pode ser individualizado em face do conjunto. sustentando. 2ª parte. já que a integral atipicidade dos contratos mistos não corresponde à sua natureza. Para estes tipos de contratos [3. Ao contrário dos contratos mistos conforme enunciados supra §9. GALVÃO TELLES propõe a aplicação da teoria da absorção: deve-se optar a favor de um único regime contratual. tratando-se de contratos integralmente atípicos que devem obedecer à Parte Geral do Direito das Obrigações.

414º] 53 . Constituem exemplos fundamentais. No subcontrato permite-se o gozo por terceiros das vantagens de que o intermediário é titular. em cidades diferentes. pelo que não se desvincula da convenção base. Exemplos: Sublocação: art. uma das partes no subcontrato terá que ser parte noutro negócio jurídico. O subcontrato é um negócio jurídico bilateral sujeito à disciplina geral dos contratos. 410º] Pacto de preferência [art. Com efeito. em regra. bem como a substituição deste no cumprimento da actividade a que estava adstrito. 1060º Subempreitada: art.Lara Geraldes @ FDL a produção de efeitos de um dos contratos e excluindo a produção de efeitos do outro [vg celebração de dois contratos de arrendamento. Os contratos preliminares são contratos cuja execução pressupõe a celebração de outros contratos. 1213º CONTRATOS PRELIMINARES Contratos Preliminares e Contratação Mitigada §1: CONTRATOS PRELIMINARES. O intermediário é parte nos dois contratos. estranho à relação contratual base. §11: SUBCONTRATO. que estudaremos infra ao pormenor: • • Contrato-promessa [art.Direito das Obrigações II . passando a coexistir duas relações jurídicas distintas: a do contrato principal e a do subcontrato. enquanto que o subcontraente é. O negócio base tem necessariamente que ser um contrato duradouro e celebrado sem intuitu personae. com a condição de só vigorar aquele respeitante à cidade onde o sujeito for colocado pela sua empresa].

Lara Geraldes @ FDL §2: CONTRATAÇÃO MITIGADA. 227º. Essa convenção tem como objecto uma prestação e facto jurídico: a obrigação de contratar. regra geral. informação e segurança. Como consequência lógica. ou seja. Os contratos preliminares não devem ser confundidos com a figura da contratação mitigada. por violação de deveres de lealdade. ainda que o contrato definitivo tenha eficácia real. 54 . ainda que seja uma convenção autónoma deste. conforme configurada por MENEZES CORDEIRO nos seguintes termos: na contratação mitigada não há qualquer vinculação a uma obrigação. a obrigação de emissão de futuras declarações negociais.Direito das Obrigações II . Por contrato-promessa entende-se toda a convenção pela qual alguém se obriga a celebrar um novo contrato [art. Trata-se de um contrato preliminar de outro contrato [o contrato definitivo]. embora as partes assumam certos compromissos durante a fase das negociações. eficácia meramente obrigacional. o contrato-promessa tem. 410º-1]. Contrato-Promessa §1: NOÇÃO. as partes respondem por culpa in contrahendo nos termos do art. A importância do contrato-promessa no comércio jurídico reside no facto de as partes iniciarem as negociações e chegarem a acordo relativamente à celebração do negócio jurídico. Eis alguns exemplos: • • • • Carta de intenção [letters of intent] Acordo de negociação [definição dos parâmetros da contratação] Acordo de base [definição dos pontos essenciais das negociações] Acordo-quadro [definição de um enquadramento comum a todos os contratos] • Protocolo complementar [side-letter ou complementação do contrato] Ainda que não haja qualquer vinculação. embora não queiram ou não possam realizá-lo naquele momento [maxime tratandose de um contrato de compra e venda de bem imóvel. cuja escritura pública não possa ser imediatamente efectuada].

1682ºA-1a) e 1690º-1: é válida a celebração de um contratopromessa relativo a bens imóveis próprios ou comuns dos cônjuges. 410º-1. 219º. pela sua razão de ser. Este princípio obedece. 892º: nulidade da venda de bens alheios – o contrato-promessa de compra e venda de bem alheio é válido. 55 . o art. a duas importantes excepções [art. Não está em causa. ainda indisponíveis na esfera do promitente-vendedor. 410º-3. • Quanto a disposições que. 2ª parte]: • Quanto à forma: o contrato-promessa obedece a forma menos solene do que aquela eventualmente prescrita para o contrato definitivo. não devam considerar-se extensíveis ao contrato-promessa: o art. 879º: efeitos da compra e venda. o Se o contrato definitivo exigir forma escrita. liberdade de forma. documento particular com reconhecimento presencial de assinaturas e reconhecimento notarial da existência de licença de utilização ou de construção. Exemplifiquemos: se a lei proíbe a venda a filhos e netos [art. documento particular assinado pela(s) parte(s) que se vincula(m). Exemplo: promessa de venda de bens futuros. por extensão. qualquer disposição. todavia. 410º-1 consagra o denominado princípio da equiparação: o contrato-promessa está sujeito ao mesmo regime do contrato definitivo. é lógico que também proíba a celebração de um contrato-promessa de compra e venda com filhos e netos. já que não se exige. 877º]. mas antes uma prestação de facto jurídico: a declaração negocial. o Na ausência de estipulação em contrário: art. qualquer requisito de legitimidade. mesmo que escritura pública: art. em rigor.Direito das Obrigações II . 410º-2. o art.Lara Geraldes @ FDL O art. cuja eficácia é meramente obrigacional. em relação ao promitente-vendedor. o Se o contrato respeitar à transmissão ou constituição [onerosa] de direito real sobre edifício ou fracção autónoma dele: art.

§2: MODALIDADES. transferindo-lhe a posse sobre ela [a constituição de direito pessoal de gozo é expressamente vedada pelo art. • Contratos-promessa bivinculantes: ambas as partes ficam vinculadas à celebração do contrato definitivo. segundo este entendimento. embora apenas uma fique vinculada à celebração do contrato definitivo.Lara Geraldes @ FDL por apenas um deles. MENEZES CORDEIRO propõe a seguinte classificação. 604º-1: é válida a celebração de dois contratos-promessa incompatíveis sobre o mesmo bem.Direito das Obrigações II . já que implica prestações correlativas [as declarações de ambas as partes]. as duas partes celebram o contrato-promessa. Recordemos os conceitos supra enunciados. fazendo-o crer tratar-se de um negócio jurídico unilateral. um contrato sinalagmático. Qualquer cônjuge pode assumir uma obrigação [de contratar] sem o consentimento do outro. O termo “unilateral” poderia induzir o discente em erro. uma vez que há apenas uma constituição de dois direitos de crédito que concorrem simultaneamente sobre o património do devedor. já que a declaração negocial não pode ser vista como uma obrigação. nem pode ser exigida. no âmbito do contratopromessa: • Contratos-promessa monovinculantes: apenas uma das partes fica vinculada à celebração do contrato definitivo. relativamente aos contratos unilaterais/bilaterais e monovinculantes/bivinculantes. O contrato-promessa unilateral [assim apelidado pelo art. Só existiria um sinalagma perfeito no caso de contrato- 56 . o art. todavia. 457º ss: assim não o é. MENEZES LEITÃO considera não existir qualquer sinalagma no contrato-promessa unilateral. Nenhum cônjuge poderá. ainda que monovinculante [apenas uma das partes se vincula a prestar]. 411º] seria. Contra este entendimento. entregar a coisa ao promitente sem consentimento do outro cônjuge. nos mesmos termos dos arts. 1682ºA1a].

57 . A maior parte das promessas monovinculantes [art. No caso de promessa monovinculante remunerada. enquanto que a contraparte deve proporcionar essa contrapartida e goza do direito de exigir a celebração do contrato. assim. 411º]. indefinidamente sujeito a que a contraparte. redundado em confusão terminológica. um sinalagma imperfeito. possa exercer o direito de exigir a celebração do contrato definitivo: se as partes não convencionarem um prazo dentro do qual esse vínculo seja eficaz. sustentaremos aqui a primeira das posições [da autoria de MENEZES CORDEIRO]. aqui.Lara Geraldes @ FDL promessa em que ambas as partes se vinculam à celebração do contrato definitivo e ambas podem exigir da contraparte essa mesma celebração. a designação legal dos mesmos [art. que não se vinculou. enfim]. a mesma deve ser assinada apenas pela parte que assume a obrigação de contratar [pela parte que se vincula. maxime através do denominado preço de mobilização: entrega. O contraente vinculado não fica.Direito das Obrigações II . GALVÃO TELLES e ANTUNES VARELA]. só vale se constar de documento particular… [art. de uma só vez ou faseadamente. Feita esta ressalva linguística. 411º] são remuneradas. 410º-2]: • Contratos-promessa monovinculantes: …assinado pela parte que se vincula à celebração do contrato definitivo. já que a parte que se vincula fica obrigada a celebrar o contrato definitivo e adquire o direito à contrapartida. já que a designação de “contrato-promessa unilateral” poderia ser confundida com os [parcos] exemplos de negócios jurídicos unilaterais. • Contratos-promessa bivinculantes: …assinado por ambas as partes. segundo MENEZES LEITÃO [contra. MENEZES LEITÃO considera existir. Com o devido respeito. pode o tribunal fixá-lo [art. de uma prestação pecuniária que constitui a contrapartida pela vinculação do contraente à celebração do contrato definitivo. Propõe. todavia. a seguinte classificação: • • Contratos-promessa unilaterais Contratos-promessa bilaterais Essa é. a classificação das modalidades de contratos-promessa em monovinculantes e bivinculantes é pertinente. 410º-2 e 411º]. aliás. já que a promessa respeitante à celebração de contrato definitivo para o qual a lei exija documento autêntico ou particular.

em face da nulidade total do contrato [art. Questão pertinente é aquela que versa sobre um contrato-promessa originariamente bivinculante que foi apenas assinado por um dos promitentes. 442º] – MENEZES LEITÃO. o Deve permitir-se o aproveitamento do negócio jurídico através da conversão. permitindo a subsistência da obrigação de quem assinou o documento particular [art. Não cabendo qualquer aproveitamento parcial do contrato. 410º-2]? A doutrina respondeu de quatro formas diferentes: • Teoria da transmutação automática desse contrato em contrato-promessa monovinculante: o Defendida por: jurisprudência do STJ durante a década de 70. por não revestir a forma legalmente prescrita. • Teoria da conversão [art. 58 .Direito das Obrigações II . deve o mesmo ser transformado num negócio de tipo ou de conteúdo diferente. até à década de 80. O contrato seria totalmente nulo. o A assinatura de ambas as partes seria um elemento essencial para a forma do contrato-promessa bivinculante e um requisito formal de validade da vinculação. 220º]: o Defendida por: jurisprudência do STJ no final da década de 70 e por GALVÃO TELLES.Lara Geraldes @ FDL §3: CONTRATO-PROMESSA BIVINCULANTE ASSINADO POR UM DOS PROMITENTES. o Críticas: a manutenção do sinal. • Teoria da redução [art. 292º]: o Defendida por: ALMEIDA COSTA. constituído com frequência nos contratos-promessa. revista a sua posição supra. já que o contrato-promessa bivinculante a que falte uma das assinaturas se apresenta como totalmente nulo. GALVÃO TELLES. não é salvaguardada. • Teoria da nulidade total do contrato [art. Pergunta-se: poderá o mesmo ser válido como promessa monovinculante. 293º]: o Defendida por: ANTUNES VARELA e.

59 . assim apelidado pelo art. concluirmos pela natureza sinalagmática de ambas as modalidades de contrato-promessa. o Críticas: MENEZES LEITÃO defende que a natureza sinalagmática do contrato-promessa “bilateral” é radicalmente diferente da natureza do contrato-promessa “unilateral”. 2º] pretendeu solucionar a querela doutrinária em questão. art. Esta crítica não colhe.Lara Geraldes @ FDL o Se a lei só exige a assinatura para a declaração negocial do contraente que se vincula à promessa. Nestes termos. como coerentemente sustentamos. desde que essa tivesse sido a vontade das partes. ainda que monovinculante. Não podemos deixar de concordar com esta solução. 411º. “salvando-se” a datio pecuniae]. Um assento do STJ datado de 1989 [numa altura em que os assentos eram fonte de direito. determinando que: O contrato é nulo mas pode considerar-se válido como contrato-promessa monovinculante. pelo que apenas a conversão poderia salvar o negócio jurídico. Recorde-se o entendimento de MENEZES CORDEIRO que temos vindo a defender: o contrato-promessa unilateral. 239º]. é um contrato sinalagmático. em ordem a encontrar a solução mais justa para o caso concreto. Este é o regime que melhor tutela os interesses do contraente vinculado. já que implica prestações correlativas [as declarações de ambas as partes]. a redução pode. 292º e 293º] aliados à boa fé na integração de lacunas das declarações negociais [art. para além de salvaguardar a constituição do sinal [a invalidade é meramente parcial. se. a situação só poderia ser de invalidade total. propugna a aplicação conjunta dos dois preceitos em causa [arts. salvaguardar melhor os interesses do contraente vinculado. a nulidade por falta de forma será parcial se apenas um dos contraentes não assinar o contrato. mas sim no número de partes que se vincula à celebração do contrato definitivo]. Todavia. MENEZES CORDEIRO adopta uma posição conciliadora: dada a diferente natureza dos dois tipos de contrato-promessa [diferença essa não baseada na natureza sinalagmática de um em detrimento de outro.Direito das Obrigações II . em concreto. não cabendo qualquer aproveitamento parcial do mesmo.

a menos que seja provocada por sua culpa exclusiva: trata-se. sob pena de invalidade. o contrato-promessa que respeite à constituição ou transmissão de direito real sobre edifício ou fracção autónoma deve ser celebrado mediante documento particular com reconhecimento presencial da assinatura e de certificação. 410º-3]. • CALVÃO DA SILVA: o assento seria inconstitucional. das quais depende a validade plena do negócio jurídico. reabrindo a discussão relativamente às três teorias que sobejavam: • MENEZES LEITÃO. e formalidades [art. com reconhecimento presencial das assinaturas Eficácia Real do Contrato-Promessa 60 . As formalidades exigidas no nº 3 do mesmo artigo. da existência de licença de utilização ou construção [art. a questão está longe de pacificada e é passível de inúmeras interpretações. §4: EDIFÍCIO OU FRACÇÃO AUTÓNOMA. já que apenas afastaria a teoria da transmutação automática. de entre as quais optamos pela solução de MENEZES CORDEIRO. Como supra indiciámos. através da qual se revela a vontade negocial. Está patente. enfim. ALMEIDA COSTA e jurisprudência maioritária: o assento adoptou a teoria da redução. a distinção entre forma [art. Essa invalidade só poderá ser invocada pelo promitente adquirente.Lara Geraldes @ FDL MENEZES LEITÃO e MENEZES CORDEIRO consideraram a formulação “manifestamente infeliz”. justificam-se para evitar a celebração de contratos-promessa em casos de construção clandestina.Direito das Obrigações II . 410º-2]. neste âmbito. 410º-3]. • • • • Não pode ser invocada por terceiros Não pode ser conhecida oficiosamente pelo tribunal Pode ser invocada a todo o tempo pelo promitente adquirente Pode ser sanável mediante posterior obtenção da licença. • GALVÃO TELLES e ANTUNES VARELA: o assento adoptou a teoria da conversão. Em conclusão. pelo notário. de uma invalidade mista.

413º]: • • • • Promessa respeitante a bens imóveis ou móveis sujeitos a registo Mediante declaração expressa das partes Registo da promessa Forma mais solene: o Bens móveis sujeitos a registo: documento particular com reconhecimento da assinatura da parte que se vincula ou de ambas [contrato-promessa monovinculante ou bivinculante com eficácia real]. §3: NATUREZA JURÍDICA. §4: CUMPRIMENTO DA PROMESSA COM EFICÁCIA REAL. cumulável com uma acção de condenação à 61 . maxime tendo havido uma alienação do bem imóvel ou móvel sujeito a registo a terceiros. Ao contrato-promessa poderá ser atribuída eficácia real. §2: EFEITOS. • Para ANTUNES VARELA. PIRES DE LIMA e HENRIQUE MESQUITA: trata-se de um direito de crédito. pelas partes. eficácia real ao contrato-promessa. sujeito embora a um regime especial de oponibilidade a terceiros. Pergunta-se qual a natureza jurídica do direito do beneficiário do contrato-promessa com eficácia real: • Para GALVÃO TELLES. A lei é omissa quanto à forma de obtenção do cumprimento do contrato-promessa com eficácia real. Caso seja atribuída. o Bens imóveis: escritura pública. pelo que a doutrina procurou dar resposta a esta questão: • ANTUNES VARELA e ALMEIDA COSTA: instauração de uma acção de execução específica contra o obrigado. OLIVEIRA ASCENSÃO e MENEZES CORDEIRO: trata-se de um verdadeiro direito real de aquisição. o direito à celebração do contrato definitivo prevalecerá sobre todos os direitos reais que não tenham registo anterior ao registo da promessa com eficácia real.Lara Geraldes @ FDL §1: NOÇÃO. verificados os seguintes pressupostos [art. ALMEIDA COSTA.Direito das Obrigações II .

1311º]. nula [art. proposta contra o terceiro. eventualmente cumulável com um pedido de restituição. 1315º]. o MENEZES LEITÃO: a execução específica contra o obrigado não faz sentido. ao invés do exercício da eficácia real [aquisição potestativa de um direito real].Lara Geraldes @ FDL restituição da coisa. uma vez que já não é o proprietário do bem. • MENEZES CORDEIRO: instauração de uma acção de reivindicação adaptada contra o terceiro [art. uma vez que o obrigado era o verdadeiro proprietário aquando da venda do bem a terceiro. em litisconsórcio necessário contra o promitente faltoso e o terceiro adquirente. • DIAS MARQUES: instauração de uma acção de execução específica contra o terceiro. o MENEZES LEITÃO: não pode ser instaurada uma acção de execução específica contra o terceiro na medida em que falta o pressuposto essencial de o terceiro estar obrigado. o autor propõe a instauração de uma acção declarativa constitutiva. Incumprimento do Contrato-Promessa §1: MEIOS DE DEFESA.Direito das Obrigações II . Ao contrato-promessa que seja incumprido por uma das partes [promitente faltoso]. 892º]. pode o promitente fiel opor-lhe os seguintes meios de defesa: 62 . e não há aqui qualquer venda de bens alheios. por se tratar de uma venda de bens alheios. a celebrar um contrato definitivo. mas apenas de mera apreciação – reconhecimento de um direito real e consequente restituição da coisa que é seu objecto [art. Face às críticas endereçadas por MENEZES LEITÃO a cada uma das propostas doutrinárias. o MENEZES LEITÃO: a acção de reivindicação não tem natureza constitutiva. para com o beneficiário da promessa. • OLIVEIRA ASCENSÃO: instauração de uma acção de execução específica simultaneamente contra o terceiro e o obrigado.

Só existe responsabilidade obrigacional nos casos de incumprimento definitivo [e não apenas de mora. 755º f] • • • Cada um destes meios que fazem valer a posição do promitente fiel serão estudados infra com maior detalhe. Execução Específica §1: NOÇÃO. 63 . obtendo o credor a satisfação do seu direito pela via judicial. 799º. aplicando-se os arts. 830º] Sinal ou outra indemnização pré-convencionada [art. 2ª parte] Direito de retenção [art. 798º ss] Execução específica [art. 808º]. a lei admite a execução específica dessa obrigação: o devedor é substituído no cumprimento. Responsabilidade Obrigacional §1: REMISSÃO. o devedor não pode ser coagido pela força a emitir a declaração negocial a que se obrigara. incoercível. que conduziria à celebração do contrato-prometido. Todavia. 442º] Aumento do valor da coisa ou do direito [art. art. 798º ss. infra. 442º-2.Direito das Obrigações II . Visto que no contrato-promessa os promitentes se vinculam a uma prestação de facto jurídico. a culpa do promitente faltoso presume-se nos termos do art. pelo que se remete o estudo deste instituto para o âmbito do incumprimento das obrigações. Estando em causa a violação de deveres específicos.Lara Geraldes @ FDL • • Responsabilidade obrigacional [arts.

uma vez que é suficiente. o contrato definitivo [art. §2: LIMITES À EXECUÇÃO ESPECÍFICA. Há casos em que a execução específica do contrato-promessa não é possível: • Havendo convenção em contrário [art. OLIVEIRA ASCENSÃO e. o O “não cumprimento” da promessa deve ser entendido em sentido lato. 830º-1].Direito das Obrigações II . para operar a execução específica. a execução específica consiste na emissão. na falta de convenção em contrário o direito a recorrer à execução específica. 830º-1: • O não cumprimento da promessa atribui à outra parte. constituindo-se. deve entender-se que o direito de crédito do promitente fiel não prevalece sobre o direito do terceiro adquirente [MENEZES CORDEIRO]. uma vez que pode ser derrogado. conforme definida supra [nº 1]. mais recentemente. Ainda que a acção de execução específica tenha sido registada antes do registo da venda do bem a terceiro. 64 . uma vez que esse entendimento equivaleria à atribuição de eficácia real a todos os contratospromessa. o A execução específica deixa de ser possível em caso de impossibilidade definitiva de cumprimento [vg alienação do bem prometido a um terceiro. pelo tribunal. assim. art. 830º-1 e 2]: o A possibilidade de execução específica da obrigação de contratar não é um regime imperativo.Lara Geraldes @ FDL Por outras palavras. 413º. a simples mora. 892º]. dispõe o art. derrogando-se o regime do art. PAULA COSTA E SILVA. de uma sentença que produza os mesmos efeitos jurídicos da declaração negocial em falta. caso em que a sentença judicial produziria os efeitos de uma venda de bens alheios. pronunciaram-se GALVÃO TELLES. Com efeito. A favor da prevalência do [mero] direito de crédito do promitente fiel sobre o direito real do terceiro.

já que se exige a tradição da coisa. comodato e depósito]. Quando se trate de execução específica de contrato-promessa relativo à celebração de contrato oneroso de transmissão ou constituição de direito real sobre edifício ou fracção autónoma dele: • Essa execução específica é imperativa: o direito à execução específica não poderá ser afastado pelas partes [nº 3 e 410º-3] e a estipulação de sinal ou de cláusula penal não presume o afastamento da execução específica. 350º2]. 798º ss]. no âmbito do Direito da Família.Direito das Obrigações II . o incumprimento do contrato-promessa pode apenas gerar indemnização por responsabilidade contratual [arts. nos termos gerais. de que as partes queriam uma “indemnização”. Não sendo possível a execução específica.  Contrato-promessa de contrato de trabalho [carácter pessoal da prestação de trabalho]. §3: HIPOTECA. 65 . de forma espontânea. mútuo.  Contrato-promessa que verse sobre convenções antenupciais. 2ª parte]:  Contrato-promessa relativo a contrato real quoad constitutionem [penhor de coisas. • Quando a execução específica seja incompatível com a natureza da obrigação assumida: o A natureza do contrato-promessa não se apresenta como compatível com a sua constituição por sentença judicial nos seguintes casos [nº1. neste caso [vs nº 2]. nos termos gerais [art. maxime cláusula penal [nº 2] – presunção ilidível. pelo tribunal.Lara Geraldes @ FDL o Presume-se convenção em contrário caso as partes estipulem sinal ou outra penalização para o incumprimento da promessa. para se poder operar a constituição do contrato definitivo: sem coacção para tal. e não a emissão da declaração omitida.

Lara Geraldes @ FDL • Se o bem prometido estiver livre de ónus ou encargos. ou se a impossibilidade for imputável a essa parte. §2: REGIME GERAL. Esta cláusula acessória tem uma utilidade prática inquestionável. Por sinal [art. na acção de execução específica pode ser simultaneamente pedida a condenação do promitente faltoso na quantia necessária para expurgar a hipoteca [nº 4 e 721º]: protege-se a posição do promitentecomprador. • A excepção de não cumprimento do contrato é de parca aplicação prática [veja-se o caso do dealer de droga que exige a entrega da mala com a quantia devida. 442º-2. no prazo que lhe for fixado pelo tribunal [nº 5 e 428º] – ónus do promitente fiel que tutela o promitente faltoso. Sinal §1: NOÇÃO. por ocasião da celebração do contrato. vg]. a outra parte tem o direito de fazer sua a coisa entregue [art. permitindo que adquira um bem desonerado. Em sede de contrato-promessa. §4: EXCEPÇÃO DO NÃO CUMPRIMENTO. 442º] entende-se a cláusula acessória dos contratos onerosos mediante a qual uma das partes entrega à outra. Diferentemente. se o contrato-promessa incumprido possibilitar ao obrigado a invocação da excepção de não cumprimento: • A acção de execução específica improcede se o promitente fiel não consignar em depósito a sua prestação.Direito das Obrigações II . 1ª parte]. já que o seu regime suscita inúmeros problemas dogmáticos quanto à matéria que ora estudamos. no preciso momento em que entregar a mala com a “mercadoria”. mas encontrar-se hipotecado. uma vez que fixa as consequências do incumprimento do contrato oneroso na qual é aposta: • Se a parte que constituiu/entregou o sinal deixou de cumprir a sua obrigação. 66 . o sinal assume uma função preponderante. determinada coisa fungível.

doutrinariamente estabeleceu-se que os nº 2. diferentemente do que supra §2 foi enunciado. 473º-1] – facto não imputável a nenhuma das partes.Direito das Obrigações II . sob pena de enriquecimento sem causa de quem recebera o sinal [art. salvo estipulação expressa das partes. tem este que o devolver em dobro [art. 442º-1]. como na cláusula penal] e pressupõe a entrega prévia de uma coisa fungível [contrato real quoad constitutionem e quoad effectum]. e o contrato for integralmente cumprido enquanto tal. 1ª parte] aplica-se a qualquer contrato oneroso no qual as partes estipulem sinal: face a estes traços gerais.embora não consista no pagamento a posteriori de uma quantia pecuniária. e não como a constituição de sinal. 1ª parte]. se essa imputação não for possível [art. os direitos recíprocos a indemnização extinguem-se por compensação [art. • Se não houver qualquer incumprimento de nenhuma das partes. 810º . uma vez que o contrato-promessa apenas institui obrigações de prestação de facto jurídico [a 67 . nos termos gerais. nº 3 e nº 4 se aplicam exclusivamente aos casos de sinal em contrato-promessa. A redacção do art. vg] ou restituída em singelo. se tiver a mesma natureza da obrigação assumida [tratando-se se uma quantia monetária. 442º-1 e 2. subsistindo o dever de restituir o sinal em singelo. Ainda assim. a coisa entregue como sinal será imputada na prestação devida. ou se a impossibilidade for imputável a essa parte. a datio rei nunca se poderia qualificar como antecipação do cumprimento da prestação. a constituição de sinal [art.Lara Geraldes @ FDL • Se o incumprimento partir de quem recebeu o sinal. Em sede de contrato-promessa. será subtraída ao montante devido como preço. • Se houver impossibilidade imputável a ambas as partes. 847º]. MENEZES LEITÃO classifica o sinal enquanto uma datio rei com função confirmatória-penal. Todavia. 442º-2. que se aproxima da cláusula penal [art. Este regime [art. §3: O SINAL NO CONTRATO-PROMESSA. 442º não é clara quanto à divisão do mesmo. 2ª parte. a realização de uma datio rei por uma das partes aquando da celebração do contrato não presume. 440º]: a datio rei é vista como uma antecipação do cumprimento da obrigação.

Compreende-se: a obrigação de pagamento do preço só surge com o contrato definitivo. às regras gerais do incumprimento do contrato oneroso com sinal: restituição do sinal em dobro [nº 2. o promitente-comprador que haja recebido a coisa a que se refere o contrato prometido mediante tradição. 441º]. • • • Com dedução do preço convencionado. 350º-2]. recorrer aos outros mecanismos de defesa perante o incumprimento do contrato-promessa. A demora na execução do contrato-promessa [na celebração do contrato definitivo. O promitenteadquirente não pode. 2ª parte. 1ª parte] e restituição dos valores já pagos como antecipação do preço. no caso de incumprimento do contrato-promessa. Esta faculdade consiste numa alternativa. como antecipação do cumprimento de uma obrigação futura.Lara Geraldes @ FDL emissão da declaração de celebração do contrato definitivo]. A razão histórica da opção pelo aumento do valor da coisa/direito é compreensível face à conjuntura de inflação e especulação imobiliária que marcou a década de 80: desvalorização das quantias em dinheiro e correlativa valorização dos bens imóveis.Direito das Obrigações II . 473º-2. §4: DIREITO AO AUMENTO DO VALOR DA COISA/DIREITO. valendo a quantia. do promitente-adquirente. por isso. nesse caso. 442º-2. sob pena de enriquecimento sem causa de quem a haja recebido [art. enfim]. Se a obrigação não se chegar a constituir. tem o direito de: • Exigir o valor da coisa ou do direito [determinado de forma objectiva à data do não cumprimento da promessa]. condictio ob causam finitam]. a quantia deve ser restituída em singelo. a imputar na prestação devida. presume-se que todas as quantias em dinheiro [datio pecuniae] entregues nesta sede. E da parte do preço que já tenha pago. Esta presunção é ilidível nos termos gerais [art. pelo promitentecomprador ao promitente-vendedor. Coerentemente. Cumpre analisar detalhadamente o regime do sinal relativamente ao contratopromessa. foram pagas a título de sinal [art. Segundo o art. maxime 68 . Para além da restituição do sinal.

ele era ainda o verdadeiro e único titular do direito de propriedade. pressupondo a sua constituição 69 . levava a que deixasse de haver uma correspondência económica entre o preço estipulado para o contrato definitivo e o valor actual da coisa prometida. uma forma de obstar às vantagens auferidas pela não execução do contrato-promessa. Hoje o promitente-adquirente pode exigir o montante correspondente à valorização obtida pela coisa entre o momento da celebração do contrato-promessa e o momento do incumprimento do mesmo. restituindo-se “somente” o sinal em dobro. desde a celebração do contrato-promessa. Por outro lado. desincentivar os incumprimentos do contrato-promessa.Lara Geraldes @ FDL tratando-se de contrato-promessa de celebração do contrato definitivo de compra e venda de bem imóvel. sujeito a escritura pública e a outras formalidades. 2ª parte consiste numa disposição excepcional. Numa fórmula simples. Essa diferença compensava o incumprimento do contratopromessa. uma vez que a tradição sem sinal seria um acto de mera tolerância [MENEZES CORDEIRO e MENEZES LEITÃO].Direito das Obrigações II . já consolidada: o uso e fruição da coisa em causa. Está em causa. é um pressuposto essencial para operar esta opção do promitente-comprador. Com efeito. uma vez que. o disposto no art. e não ao ressarcimento dos danos. sintetizaríamos: Quantia recebida pelo promitente-adquirente = valor actual da coisa – preço convencionado + sinal em singelo + parte do preço já paga. uma vez que a celebração do contrato definitivo seria uma mera formalização de uma situação de facto. 442º-2. ainda que a ratio legis do preceito seja reconduzida a esse instituto. com as alterações legislativas. Em suma. à data da alienação da coisa a terceiros. o legislador pretendeu. A tradição da coisa objecto do contrato definitivo constitutivo ou translativo de um direito real. destinada a corrigir um funcionamento desvirtuado do sinal. acrescido da restituição do sinal em singelo e da parte do preço que haja pago. por MENEZES LEITÃO. a exigência do aumento do valor da coisa/direito pressupõe ter sido constituído sinal. pronunciou-se GALVÃO TELLES. tão-só. Sublinhe-se que não há enriquecimento sem causa proprio sensu do promitente faltoso. Contra este entendimento.

segundo MENEZES LEITÃO. 830º”.Direito das Obrigações II . §5: SINAL E EXECUÇÃO ESPECÍFICA. o promitente fiel pode. 830º-3]. o promitentecomprador: • • Receberia uma indemnização pré-convencionada. presume-se que as partes efectuaram uma estipulação contrária à execução específica [recorde-se o teor do art. pelo autor apelidada de “excepção do cumprimento do contrato-promessa”. 1ª e 2ª parte]. 798º ss]. 830º-1]. o promitente fiel obteria eficazmente a reintegração da sua esfera jurídica com o dano resultante do incumprimento. 830º. uma vez que dir-se-ia que o promitente fiel teria sempre a possibilidade de optar pela execução específica. em alternativa. 442º-3. 2ª parte consagrou-se expressamente a solução defendida por MENEZES CORDEIRO. Se. Poderia exigir uma indemnização pelos prejuízos causados com o incumprimento. também exclusivamente aplicável aos casos de constituição de sinal em contrato-promessa. 70 . §6: EXCEPÇÃO DO CUMPRIMENTO DO CONTRATO-PROMESSA. • Poderia exigir a execução específica do contrato [art. Com recurso a qualquer um destes meios. Reformulando o disposto no preceito. 442º-3. conforme previsto no número anterior [art. Cumpre apreciar: A redacção é infeliz. 1ª parte. No art. A execução específica só pode funcionar em alternativa às soluções “perda do sinal/restituição do sinal em dobro ou direito ao aumento do valor da coisa/direito” se as partes ilidirem essa presunção. requerer a execução específica do contrato. temos que em qualquer dos casos [perda do sinal/restituição do sinal em dobro ou direito ao aumento do valor da coisa/direito]. ou se se tratar de um caso de execução específica imperativa [art. 442º-2. a doutrina maioritária reconduziu esta infeliz redacção à seguinte fórmula: “Existindo ou não tradição da coisa. nos termos do art. em alternativa ao sinal. nos termos gerais [arts. o contraente não faltoso pode requerer a execução específica do contrato. se fosse o caso. não tivesse havido qualquer estipulação de sinal. nos termos do art. No art. pelo que seria desnecessária a opção do aumento do valor da coisa/direito. Não é assim: havendo sinal. diferentemente.Lara Geraldes @ FDL prévia. supra explicitado]. 830º-2.

1ª parte. JANUÁRIO GOMES considerou exigível a 71 . pelo promitente faltoso. paralise o direito ao aumento do valor da coisa/direito [art. 442º-2. segundo ANTUNES VARELA e MENEZES CORDEIRO. 2ª parte]. Por seu lado. na esteira do art. O art. 808º” [art. essa oferta não faria qualquer sentido face a um contrato-promessa definitivamente incumprido. MENEZES LEITÃO pronuncia-se no primeiro sentido: uma vez que a excepção do cumprimento consiste numa oferta de cumprimento em relação a um contrato-promessa. 442º-2. 442º-3. supra §4]. 808º uma nova hipótese de transformação da mora em incumprimento definitivo [o direito ao aumento do valor da coisa/direito]. uma vez que o cumprimento da obrigação em falta representaria uma excepção [situação jurídica activa susceptível de paralisar o direito da contraparte]. Discutível é a expressão legal “salvo o disposto no art. 2ª parte] havia acrescentado ao art. antes consistindo numa forma de purgação da mora [evitar que a mora se converta em incumprimento definitivo]. em sede de contrato-promessa. Conclui-se: para a aplicação do art. admite-se que a oferta do cumprimento da promessa. Posições intermédias delinearam-se perante a controvérsia: ALMEIDA COSTA considerou que o novo regime legal [art. 442º-3.Lara Geraldes @ FDL Com efeito. 2ª parte [direito ao aumento do valor da coisa/direito] bastaria a mera ocorrência de mora no cumprimento. Duas interpretações desta expressão seriam teoricamente possíveis: • Dispensa-se. permitindo a aplicação do disposto nos arts. 2ªparte].Direito das Obrigações II . uma vez que reconduz a figura do direito ao aumento do valor da coisa/direito ao instituto do enriquecimento sem causa [cfr. Contra este entendimento. • Continuar-se-ia a exigir o incumprimento definitivo da obrigação para a constituição desses direitos. 808º refere os casos em que a mora se converte em incumprimento definitivo [seja por perda do interesse do credor ou por desrespeito pelo prazo razoavelmente fixado pelo credor para o cumprimento – interpelação admonitória]. exigindo uma situação de incumprimento definitivo. essa conversão da mora em incumprimento definitivo: o esquema do sinal e do direito ao aumento do valor da coisa/direito funcionariam ante mera mora. pronunciaram-se GALVÃO TELLES e CALVÃO DA SILVA. 798º ss. 442º-2. MENEZES LEITÃO é favorável a esta solução.

Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL outorga ao promitente faltoso de um prazo suplementar de cumprimento, prévio à restituição do sinal em dobro ou do aumento do valor da coisa/direito, findo o qual o devedor poderia oferecer-se para cumprir a obrigação [excepção do cumprimento do contrato-promessa] ou, caso não o fizesse, a mora transferir-se-ia em incumprimento definitivo, nos termos gerais [art. 808º]. MENEZES LEITÃO, ante a querela doutrinária, estabeleceu alguns pontos assentes sobre o regime do sinal no contrato-promessa: • O art. 442º-3 é uma disposição específica sobre o regime do sinal no contratopromessa, pelo que dela não poderão ser extraídas conclusões sobre o regime do sinal em geral [art. 441º-1 e 2, 1ª parte].

Regime do sinal em geral [art. 441º-1 e 2, 1ª parte]: a lei exige o incumprimento definitivo da obrigação, sob pena de se considerar a perda do sinal ou a sua restituição em dobro enquanto sanções desproporcionadas para simples mora no cumprimento. Por outro lado, cominar tais sanções à simples mora provocaria uma quebra sistemática entre o regime do sinal e o regime da cláusula penal, com o qual o primeiro se identifica parcialmente [a cláusula penal apenas pode ser exigida com o incumprimento definitivo da obrigação, a menos que as partes a estabeleçam para o atraso da prestação, art. 811º-1].

Regime do sinal no contrato-promessa [art. 442º-2, 2ª parte, nº 3 e nº 4]:

o Diferentemente, a opção pelo aumento do valor da coisa/direito pode
ocorrer em caso de simples mora, valendo como renúncia do promitente fiel às regras gerais do sinal [as quais, em caso de eventual conversão em incumprimento definitivo, não poderá invocar a seu favor]. Sistematicamente encontra-se referida no art. 442º-3, 2ª parte, que, na 1ª parte, menciona a execução específica [cujo pressuposto é a mora e não o incumprimento definitivo].

Havendo simples mora, o promitente fiel deve comunicar o seu interesse no aumento do valor da coisa/direito ao promitente faltoso, para que este, paralisando essa

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL restituição, possa oferecer-se para o cumprimento da obrigação em falta [excepção do cumprimento do contratopromessa].  Verificando-se o incumprimento definitivo [seja por perda do interesse do credor, seja pelo decurso do prazo da interpelação admonitória, art. 808º], o promitente faltoso terá que restituir o aumento do valor da coisa/direito.

Esquema do regime do sinal: Perda do sinal

Incumprimento definitivo [art. 442º-2, 1ª parte] Restituição do sinal em dobro

Simples mora

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Opção pelo aumento do valor da coisa/direito + responsabilidade por danos moratórios

§7: INDEMNIZAÇÃO E SINAL. Dispõe o art. 442º-4 que, na ausência de estipulação em contrário não há lugar, pelo não cumprimento do contrato-promessa [recorde-se que MENEZES LEITÃO considera que o art. 442º-2, 2ªparte, nº 3 e nº 4 se aplica exclusivamente ao regime do sinal no contrato-promessa], a qualquer outra indemnização, nos casos de: • • • Perda do sinal Restituição do sinal em dobro Aumento do valor da coisa/direito

Conclui-se: o sinal funciona como uma fixação antecipada da indemnização devida, em caso de não cumprimento. A parte não poderá reclamar outras indemnizações para além daquelas supra elencadas, com uma nuance: se o contraente faltoso [o alienante] não cumprir a obrigação de restituição do sinal em dobro ou incorrer em mora, a contraparte poderá sempre pedir uma indemnização pelos danos causados, nos termos gerais da responsabilidade obrigacional [arts. 798º ss].

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL Todavia, é admitida estipulação em contrário, caso em que a convenção de sinal funcionará como limite mínimo da indemnização.

§8: FUNÇÕES DO SINAL. Retomando a introdução supra §2, MENEZES LEITÃO, MENEZES CORDEIRO e GALVÃO TELLES consideram que o sinal assume uma função confirmatória-penal, na medida em que só pode ser exigido em caso de incumprimento definitivo e funciona como pré-determinação das consequências desse incumprimento.

Direito de Retenção

§1: NOÇÃO. O promitente que obteve a tradição da coisa tem direito de retenção, nos termos do art. 755º f). Com efeito, dispõe a referida alínea: “nº 1: Gozam ainda do direito de retenção: […] f) O beneficiário da promessa de transmissão ou constituição de direito real que obteve a tradição da coisa a que se refere o contrato prometido, sobre essa coisa, pelo crédito resultante do não cumprimento imputável à outra parte, nos termos do art. 442º”. §2: PRESSUPOSTOS. Recaindo o direito de retenção sobre coisa imóvel, pode o promitente fiel que tenha recebido a coisa em tradição executá-la com preferência aos demais credores do devedor [art. 759º-1], prevalecendo mesmo sobre hipoteca, ainda que registada anteriormente [art. 759º-2 e art. 5º-2 CR Predial] – direito crédito oponível inter partes e direito real de garantia oponível erga omnes que lhe permite conservar a coisa na sua posse. Uma interpretação literal dos preceitos poderia tornar mais forte a pretensão do promitente-comprador do que a do próprio comprador do imóvel hipotecado! Nestes termos, MENEZES LEITÃO considera que o direito de retenção, em caso de incumprimento de contrato-promessa, pressupõe não só tradição da coisa, mas também constituição de sinal [veja-se a referência a “nos termos do art. 442º”, supra §1, e o que supra foi dito quanto aos actos de mera tolerância, quando haja tradição sem sinal].

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Direito das Obrigações II . Pacto de Preferência §1: NOÇÃO. se o credor optar por essa alternativa [art. É um contrato preliminar de outro. É necessário que o preferente esteja disposto a “acompanhar”. Se uma das partes assiná-lo. a sua vinculação é válida. supra]. uma vez que esse direito ocorre haja ou não tradição da coisa [não pressupõe a conexão directa com a coisa. 75 . ainda que num mesmo documento. embora o obrigado à preferência não se obrigue a contratar. no caso de decidir contratar. nos termos gerais da responsabilidade obrigacional [arts. O obrigado à preferência não se obriga a contratar com o preferente: antes a escolhê-lo como parte num negócio jurídico. 442º-2.Lara Geraldes @ FDL Preconiza. sem necessidade de redução ou de conversão. Também não respeita ao direito à restituição do sinal em dobro. nas mesmas condições negociadas com terceiro. 798º ss]. Havendo preferências recíprocas. 423º admite obrigações de preferência em relação a outros contratos onerosos que não tenham cariz intuitu personae. Reformulemos: o pacto de preferência é a convenção pela qual alguém assume a obrigação de escolher outrem como contraente. É um contrato unilateral. pois. uma interpretação restritiva do preceito: “crédito resultante do não cumprimento imputável à outra parte” respeita apenas ao direito ao aumento do valor da coisa/direito. já que apenas uma das partes assume uma obrigação. já que o art. 414º ss]: a convenção pela qual alguém [obrigado à preferência] assume a obrigação de dar preferência a outrem [preferente] na venda [negócio preferível] de determinada coisa. mas apenas a escolher alguém como contraente. enfim]. temos ainda dois pactos. 2ª parte. enquanto que o titular da preferência é livre de exercer ou não o seu direito. Em sede de contratos preliminares encontramos o pacto de preferência [arts. enfim. tal como o contrato-promessa. e não à indemnização pelo incumprimento. É uma figura mais geral do que a preferência na venda.

apenas terá que ser assinado pelo obrigado à preferência. 1409º] Arrendamento [art. já que se trata de um contrato unilateral [cfr. mediante convenção. A lei admite. segundo o art. se não for exigida escritura pública para o contrato preferível • Inscrição no registo Não se confunda esta figura com a das preferências legais: essas têm sempre eficácia real [podem sempre ser opostas ao terceiro adquirente]. já que é a própria lei que concede a preferência na venda ou dação em cumprimento da coisa objecto de direito real ou pessoal de gozo. exige-se que o pacto de preferência conste de documento particular. Nestes termos. que ao direito de preferência seja atribuída eficácia real [art.Direito das Obrigações II . uma vez que as partes não podem. ainda que registado! 76 . 410º-3: a remissão legal do art. Exemplos: • • Compropriedade [art. Não se aplica. O art.Lara Geraldes @ FDL §2: FORMA. 1091º] Com efeito. 421º] não prevalece contra os direitos legais de preferência. 410º-2]. ou fracção autónoma dele]. 415º não tem esse alcance [contrato-promessa relativo à celebração de contrato oneroso de transmissão ou constituição de direito real sobre edifício. supra §1]. em face da relatividade e inoponibilidade a terceiros. vinga a liberdade de forma. o regime do art. para a celebração do contrato preferível for exigido documento autêntico ou particular. afastar direitos legalmente atribuídos. 421º e 413º]. nos termos gerais [art. §3: EFICÁCIA REAL. contudo. 219º]. a estipulação do pacto de preferência atribui apenas ao seu beneficiário um direito de crédito contra a outra parte. quanto à forma do pacto de preferência [art. 415º remete para o regime do contrato-promessa. Nos termos gerais. Em qualquer outro caso. contudo. se. 422º o direito convencional de preferência [art. Todavia. verificados os seguintes pressupostos: • • • Bens imóveis e móveis sujeitos a registo Estipulação expressa das partes Celebrado por documento particular com assinatura do obrigado.

1410º]: extensível a qualquer titular de direitos reais de preferência. Neste caso. nos termos dos arts. o Exclui-se a prova testemunhal na simulação [art. 241º]. o processo adequado para o exercício do direito de preferência é a denominada acção de preferência [art. mesmo a posteriores adquirentes da propriedade. oponível erga omnes.Direito das Obrigações II .Lara Geraldes @ FDL O titular da preferência não possui apenas. em litisconsórcio necessário passivo com o terceiro adquirente. uma vez que o negócio dissimulado é válido [art. 77 . um direito de crédito à preferência. CASTRO MENDES e MENEZES LEITÃO]. VAZ SERRA. no prazo de 15 dias Quanto à legitimidade passiva para a acção de preferência: • GALVÃO TELLES. Caso as partes simulem o preço. neste caso. Pressupostos: • • Prazo: 6 meses Depósito do preço devido. o titular da preferência deve exercê-la sobre o preço real. • ANTUNES VARELA e MENEZES LEITÃO: o obrigado à preferência tem necessariamente que ser demandado. • Se o preço declarado para a transmissão for inferior ao preço efectivamente pago. 243º-1]. e não apenas ao comproprietário. uma vez que: o Os simuladores não podem invocar a nulidade da simulação contra terceiro de boa fé [art. salvo se o titular decidir cumular a acção com um pedido de indemnização. 394º-2]. mas também um direito real de aquisição. 240º ss. cumpre apreciar duas hipóteses: • Se o preço declarado para a transmissão for superior ao preço efectivamente pago. ALMEIDA COSTA e MENEZES CORDEIRO: o obrigado à preferência não seria parte legítima. dir-se-ia que a lei impossibilitaria aos simuladores a exigência da preferência pelo preço real [ANTUNES VARELA.

O regime da obrigação de preferência [arts. deve o titular exercer o seu direito em 8 dias.Lara Geraldes @ FDL o Contra este entendimento. 219º]. sob pena de caducidade – nº 2. 416º: • A forma adequada é efectuar uma comunicação para preferência [para a qual a lei não exige qualquer forma específica. §4: OBRIGAÇÃO DE PREFERÊNCIA. MENEZES CORDEIRO e CARVALHO FERNANDES. Para MENEZES CORDEIRO. Quanto à forma de cumprimento da obrigação de preferência. vg. é de difícil demonstração em tribunal.Direito das Obrigações II . 416º a 418º] é igualmente aplicável em relação aos direitos legais de preferência. preferindo pelo preço simulado. o preferente não faria qualquer investimento de boa fé que mereça tal tutela. não podendo ser considerada como comunicação para preferência a emissão de propostas contratuais ou de convites a contratar. o MENEZES LEITÃO considera que. por seu lado. Assim:  Não é comunicação para preferência: “quer comprar por 100”? – proposta contratual ou convite a contratar 78 . de iure condendo. 219º] – nº 1. tem-se interpretado o art. ainda que o mesmo possa ser dilatado pelo obrigado na comunicação. dispõe o art. o A determinação do cumprimento da obrigação. o prazo para o exercício do direito deveria ser mais longo. art. uma vez que isso equivaleria a autorizar um enriquecimento ilegítimo pelo preferente à custa dos simuladores. 394º-2 de forma restritiva. uma vez que pode ser feita verbalmente [art. • Recebida a comunicação. ALMEIDA COSTA. inferior. o A referência legal ao “projecto de venda” e às “cláusulas do respectivo contrato” [nº 1] parece pressupor a existência de um contrato preferível. MOTA PINTO. Neste sentido.

exigindo-se antes uma negociação com terceiro e acordo das cláusulas a comunicar ao titular do direito. A doutrina respondeu das seguintes formas: • Não: OLIVEIRA ASCENSÃO – a referência ao nome de terceiro impediria o obrigado à preferência de celebrar um contrato para pessoa a nomear [MENEZES LEITÃO e ROMANO MARTINEZ: nesse caso a própria reserva de nomeação deveria ser comunicada].Direito das Obrigações II . O direito extingue-se por inutilidade e há lugar ao contrato. • A comunicação para preferência terá que ser efectuada antes da celebração de um contrato definitivo com terceiro. há responsabilidade précontratual por culpa in contrahendo [art. mas apenas nas situações em que o não-exercício da preferência implique que subsistam relações jurídicas entre o terceiro e o titular da preferência [vg compropriedade e arrendamento. não implica a perda do seu direito de preferência. por razões de boa fé. ANTUNES VARELA e CARLOS BARATA. Sim. ou já teria ocorrido o incumprimento da obrigação de preferência.Lara Geraldes @ FDL cuja rejeição.  É comunicação para preferência: “vou vender a X por 100. que para ele sejam relevantes: preço e condições de pagamento. 79 . supra]: PIRES DE LIMA. Face a esta norma. • A comunicação para preferência não pode ser realizada logo que o obrigado se encontre na situação de “querer vender” [nº 1]. quer preferir?” – o titular do direito é informado de que o não exercício da preferência precludirá definitivamente qualquer possibilidade de a exercer no futuro. pelo titular do direito de preferência. perguntou-se se a comunicação para preferência teria que conter o nome do terceiro. • Se a forma da declaração não for respeitada. 227º]. • • Sim: GALVÃO TELLES e MENEZES CORDEIRO.

não for indicado o nome do terceiro [MENEZES LEITÃO]. uma vez que os direitos de crédito não prevalecem sobre os direitos reais. ou. Quando tal não suceda. na comunicação. 798º ss: não pode. sob pena de o obrigado não ter que exercer o seu direito à preferência. praticam um facto ilícito: preenchidos os requisitos de forma. se a comunicação não indicar o nome de terceiro. com terceiro [art. ambas as partes formulam uma proposta de contrato e respectiva aceitação. §5: INCUMPRIMENTO DA PREFERÊNCIA. pelo que. sem mais. deve a situação de indeterminação ser mencionada na comunicação. e verificadas proposta e aceitação. não há qualquer hipótese de o titular da preferência verificar a veracidade das condições comunicadas. desde que o terceiro seja um sujeito determinado. e de o direito não precludir se não for exercido: MENEZES LEITÃO. o que permitirá o recurso à execução específica.Lara Geraldes @ FDL • Sim. infra. essas declarações valem como promessas de contratar. em igualdade de condições com um terceiro [recorde-se a noção supra §1]: nestes termos. em caso de incumprimento definitivo – celebração de contrato incompatível. se voltarem atrás com a sua decisão. teria que ser mencionada na comunicação para preferência. Nos mesmos termos. Conclui-se: o titular do direito da preferência não tem que exercer o seu direito se. • 80 . reclamar a coisa contra o terceiro adquirente. nos termos gerais dos arts. Em suma.Direito das Obrigações II . 830º]: • Sem comunicação da preferência Com comunicação da preferência. em caso inverso. dentro do prazo. contudo. a reserva de nomeação. Com a comunicação e o exercício da preferência. tal implica a celebração do contrato preferível. no contrato para pessoa a nomear. e após comunicação. da intenção do titular em exercer a preferência O titular da preferência adquire o direito à indemnização pelo incumprimento contratual. a função do pacto de preferência é permitir que o titular da preferência possa optar por contratar com o obrigado.

sendo excluída a preferência se a prestação não for avaliável. Para tal.Lara Geraldes @ FDL Não incumpre a obrigação de preferência quem se comprometer a dar preferência no arrendamento de uma casa e posteriormente o decidir vender a terceiro. pode ser definido como o contrato em que uma das partes [o promitente] se compromete perante 81 . MANUTENÇÃO DA PREFERÊNCIA. O CONTEÚDO DOS CONTRATOS Contrato a Favor de Terceiro §1: NOÇÃO. previsto nos arts. pelo que não há qualquer incumprimento. vg: o obrigado celebrou um contrato de natureza diferente do contrato preferível. o União externa: estipulação comum do preço. 417º]: venda da coisa juntamente com outras. exige-se que a quebra da união interna acarrete prejuízos apreciáveis para uma das partes. O contrato a favor de terceiro. sem qualquer dependência entre os vários contratos – o titular pode exercer a preferência pelo preço que for atribuído proporcionalmente à coisa [nº 1. o União interna: há dependência entre os vários contratos. 443º ss.Direito das Obrigações II . 418º]: também aplicável aos contratos indirectos. por um preço global. Há duas hipóteses legais que justificam ainda a manutenção da preferência: • União de contratos [art. 2ª parte]. §6. 1ª parte]. • Contratos mistos complementares [art. mistos ou cumulativos [vg venda por preço simbólico] – a prestação acessória deve ser compensada em dinheiro. pelo que o exercício da preferência afecta toda a união de contratos – o obrigado pode exigir que a preferência se faça em relação a todas as coisas vendidas [nº1.

desde que relacionada com um interesse digno de protecção legal [nº 1]. Por isso frequentemente se apelida à situação jurídica complexa daqui emergente “relação triangular”. transmissão ou extinção de um direito real [nº 2]. embora adquira um direito contra o promitente. Por desejo do promissário assiste-se. contudo. a realizar pelo promitente.Lara Geraldes @ FDL outra [o promissário] a efectuar uma atribuição patrimonial em benefício de outrem. Exemplo: A e B celebram um contrato nos termos do qual se convenciona extinguir uma dívida de C. por isso. 449º] Relação de justificação da atribuição ou de valuta: promissário e terceiro [atribuição patrimonial indirecta] – interesse digno de protecção legal. É o promissário quem determina essa atribuição patrimonial. interveniente no contrato. • • Relação de execução: promitente e terceiro [execução da determinação do promissário] Eis algumas modalidades de contrato a favor de terceiro: • • • Contrato a favor de terceiro próprio ou impróprio Contrato a favor de pessoa determinada ou indeterminada Contrato a cumprir em vida do promissário ou depois da morte deste 82 . analiticamente decomposta em três relações: • Relação de cobertura ou de provisão: promitente e promissário [art. embora possa consistir numa liberação de uma obrigação. cessão de um crédito ou constituição. 443º-1]. estranho ao negócio [o terceiro] – excepção à relatividade dos contratos. em virtude do contrato celebrado entre este e o promissário. Exemplos: • • • • Seguro de vida Seguro de responsabilidade civil Seguro de acidentes de trabalho Contrato com florista para que entregue as flores a terceiro Essa atribuição patrimonial consiste normalmente na obrigação de efectuar uma prestação [art. O terceiro não é. a uma atribuição patrimonial indirecta entre este e o terceiro. que é executada pelo promitente. modificação.Direito das Obrigações II .

pelo promitente. uma vez que acordou com o promitente a realização da prestação a terceiro. que o terceiro rejeite a promessa. §4: BENEFÍCIO DE PESSOA INDETERMINADA. §3: CONTRATO A FAVOR DE TERCEIRO IMPRÓPRIO. 444º-1]. 83 . qualquer adstrição a uma prestação. Esse direito de crédito legitima o terceiro a exigir o cumprimento da promessa [art. 444º-1] – teoria do incremento. uma vez que o promitente e o promissário acordam numa obrigação de resultado: a de que o promitente obterá a extinção de uma dívida que o promissário tem para terceiro. O contrato a favor de terceiro constitui uma excepção ao regime da ineficácia dos contratos em relação a terceiros [art.Direito das Obrigações II . contudo. A prestação que o promitente realize perante terceiro. estabelece-se uma legitimidade difusa para a exigência da prestação [art. a favor de pessoa determinada e a cumprir em vida do promissário. a fim de obter o resultado da liberação do promissário: só este tem interesse na promessa. eventualmente. O regime geral do contrato a favor de terceiro é aquele que é verdadeiro. declarando-o ao promitente. 444º-3] é um contrato a favor de terceiro impróprio. A promessa de liberação de dívida [art. 406º-2]. A adesão impede a revogação da promessa [art. uma vez que faz nascer automaticamente um direito para o terceiro. Não há. aqui. o promissário pode também exigir do promitente o cumprimento da sua obrigação [art.Lara Geraldes @ FDL §2: REGIME GERAL. mas tão-só a liberação da dívida do promissário. no limite]. 445º e 446º]. 444º-2]. extinguindo-se o direito por ele adquirido. existe aqui apenas uma única posição jurídica objectiva que permite a aquisição da prestação: o direito de crédito de terceiro. que o deve comunicar ao promissário [arts. Admite-se. Para além do terceiro. é meramente instrumental. e não o terceiro. Segundo TEIXEIRA DE SOUSA e MENEZES LEITÃO. Se o beneficiário da prestação for um conjunto indeterminado de pessoas [vg interesse público. 447º-1]. vs teoria da aceitação e teoria da cessão. 448º-1]. surgindo independentemente da aceitação deste [art.

Contrato de Pessoa a Nomear §1: NOÇÃO. beneficiando até lá o terceiro apenas de uma expectativa jurídica? – Os herdeiros do terceiro não o sucedem em nada. Efectuada a designação da pessoa. 452º-1]. 451º-1].Lara Geraldes @ FDL §5: PROMESSA A CUMPRIR DEPOIS DA MORTE DO PROMISSÁRIO. outro beneficiário para o seguro de vida que contraiu. Paradoxo? A lei serviu-se de presunções.Direito das Obrigações II . Pergunta-se: • As partes pretenderam atribuir ao terceiro logo um direito de crédito sobre o promitente. a ilidir nos termos gerais: o direito só é atribuído com a morte do promissário e este designa subsidiariamente como beneficiários os herdeiros do terceiro. Esta promessa é sempre revogável. os efeitos vão-se repercutir directamente na esfera do nomeado [amicus]. uma vez que. 444º-1. 451º-2]. ainda não era titular de qualquer direito [art. quer a aquisição se verifique após a sua morte. expressa ou tacitamente. Esta constitui uma excepção ao regime do art. não ocorrendo qualquer 84 . é admitida uma dissociação subjectiva entre a pessoa que celebra o contrato e aquela onde vão repercutir-se os respectivos efeitos jurídicos. os seus herdeiros sucedem no seu direito sobre o promitente [art. A lei foi compromissória nesta matéria. quando o terceiro morreu. tentando consagrar ambos os entendimentos. enquanto o promissário for vivo [art. 448º]: quer o direito já tenha sido adquirido pelo terceiro. • Ou pretenderam que o direito de crédito apenas se constitua após a morte do promissário. Quando um dos intervenientes no contrato se reserva a faculdade de designar outrem para adquirir os direitos ou assumir as obrigações resultantes desse contrato [art. o qual apenas se vencerá no momento da morte do promissário? – Se o terceiro morrer antes do promissário. Exemplo: o promissário designa. no contrato de pessoa a nomear. em vida. uma vez que o terceiro não pode exigir o cumprimento da promessa antes da verificação da morte do promissário.

A nomeação deve observar: • Forma: escrita No prazo convencionado ou em 5 dias [art. a reserva de nomeação de terceiro é colocada em alternativa com a subsistência do contraente originário no contrato. 453º-1] – nomeação intempestiva.Lara Geraldes @ FDL transmissão. se decorrer o prazo. se forma mais solene não for exigível [nº 2]. retroactiva. admitida. • Sendo exigida ratificação. deve ser outorgada por escrito [art. pois. Exemplo: A doa a B um relógio. 453º-2] – requisito necessário: atribuição de poderes representativos por parte do nomeado. caso em que a não verificação da nomeação acarretará a ineficácia do contrato – vg se as partes acordarem que em caso algum o contrato virá a produzir efeitos em relação ao contraente originário. pelo que se não for efectuada a nomeação nos termos legais. Estipulação em contrário é. mas sim um fenómeno de substituição de contraentes [art. §2: PRESSUPOSTOS. contudo. Normalmente. TRANSMISSÃO DAS OBRIGAÇÕES A TRANSMISSIBILIDADE DOS CRÉDITOS E DAS DÍVIDAS 85 . o contrato irá produzir os seus efeitos em relação ao contraente originário [art. reservando-se B a faculdade de nomear um terceiro para assumir a posição do contrato. • §3: NATUREZA JURÍDICA. A eficácia é. segundo MENEZES CORDEIRO. 455º-2]. e a sua celebração em nome alheio está sujeita a uma condição suspensiva: a eficaz nomeação do terceiro – teoria da dupla condição. garantindo a sua vinculação ao contrato. • Ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração deste [art. O contrato para pessoa a nomear é um contrato simultaneamente celebrado em nome próprio e em nome alheio. 454º-1].Direito das Obrigações II . 455º-1]. A sua celebração em nome próprio está sujeita a uma condição resolutiva.

extinguindo a dívida. um crédito que tem face a C. Eis os pressupostos da cessão de créditos: • Negócio jurídico a estabelecer a transmissão da totalidade ou da parte do crédito.Direito das Obrigações II . com o acordo deste. entre o antigo e o novo credor [cedente e cessionário]: o Compra e venda ou doação. que passa a cobrar as rendas. cessionário. normalmente um contrato celebrado entre o credor [cedente] e terceiro [cessionário] – arts. nem a prestação de qualquer colaboração deste para que a cessão venha a ocorrer. 86 . transmite-se o direito de crédito do credor/cedente para o terceiro cessionário. a C. locatário. devedor de B. o Dação em cumprimento: A. A cessão de créditos consiste numa forma de transmissão de crédito que opera por virtude de um negócio jurídico. pelo que se o negócio transmissivo vier a ser declarado nulo ou anulado. transmite o seu direito de crédito face a B. vg – o negócio-base/fonte é sempre causal. Em suma. uma vez que. Exemplo: A. 289º a 291º] – a cessão não vale por si mesma. sendo que o último ocupa a posição jurídica do primeiro. 577º-1]. Não se exige qualquer consentimento do devedor. contudo. cedente locador. que lhe ser notificada [art.Lara Geraldes @ FDL Cessão de Créditos TRANSMISSÃO DO LADO ACTIVO §1: NOÇÃO. é indiferente realizar a prestação perante um ou outro. para o devedor. 577º ss. A cessão de créditos tem. Modalidades: • • • • Legal Convencional Negócio jurídico unilateral Judicial §2: PRESSUPOSTOS. transmite-lhe. vg. tal determinará a anulação da transmissão do crédito [arts.

Direito das Obrigações II . o Proíbe-se: a cessão de créditos de direitos litigiosos a magistrados ou outros funcionários judiciais [art. quanto à cessão de créditos hipotecários: escritura pública]. 880º e 942º-1]. desde que preenchido o requisito da determinabilidade [art. Neste caso:  O crédito surge directamente na esfera do cessionário? – Teoria da imediação: no caso de créditos futuros resultantes de relações já constituídas. apresentando-se como um efeito do mesmo [art. Exemplo: C tem um apartamento arrendado a B.  Contra este entendimento: art. 580º-2].Lara Geraldes @ FDL o A cessão de créditos integra-se nesse negócio. a totalidade das rendas do ano de 2008 a A. 578º-2. 420º] ou o direito a alimentos [art. 280º]. 87 . em Maio de 2007. É esta a solução consagrada relativamente à transmissão de créditos futuros [MOTA PINTO]. o É através do regime do negócio-base que se determinará a forma e o regime jurídico aplicável à cessão de créditos [art. 578º-1]. 579º]. sob pena de nulidade [art. segundo LARENZ e ANTUNES VARELA. C vende. que lhe paga renda. uma vez que mesmo em relativamente a relações já constituídas é de aplicar a teoria da transmissão. mas não na doação [arts. • Inexistência de impedimentos legais ou contratuais a essa transmissão: o Admitem-se: créditos como o direito de preferência [art.  Ou vem a passar primariamente pelo património do cedente? – Teoria da transmissão: no caso de créditos futuros resultantes de relações a constituir. 399º. 1058º e 821º. segundo LARENZ e ANTUNES VARELA. o Admissibilidade da cessão de créditos futuros: possível na venda. 2008º].

penhor e hipoteca [arts. à pessoa do credor: o Se tal suceder. 2003º]. não faria sentido obrigar o devedor a prestar perante pessoa diferente. 627º.Direito das Obrigações II . 754º ss]. 666º e 686º ss]. o Sob pena de nulidade. mas apenas gera uma obrigação para o credor de não o transmitir a outrem. o • A convenção é inoponível a um cessionário de boa fé [art. expressa ou tacitamente. 577º-2]. 294º. Exemplos: direito a alimentos [art. Não ligação do crédito. em virtude da própria natureza da prestação.  Direito de retenção: garantia intimamente ligada à pessoa do cedente. 582º-1]: fiança. abrangendo garantias e outros acessórios [art. Não se trata de um caso de nulidade da cessão. que só poderá ser transmitida por acordo expresso entre cedente e cessionário [arts. 88 .  Transmitem-se as garantias inseparáveis da pessoa do cedente [art.Lara Geraldes @ FDL o Pressupõe que não tenha sido convencionado entre o devedor e o credor que o crédito não seria objecto de cessão [art. cumpre distinguir: • Efeitos em relação às partes: o o o o Transmissão do crédito do cedente para o cessionário A cessão opera por mero efeito do contrato A transmissão não é imediatamente oponível a terceiros Essa transmissão verifica-se com todas as vantagens e defeitos que o crédito tinha. contrato de serviço doméstico ou prestação de serviço dos médicos e advogados. 577º] – pactum de non cedendo. Quanto aos efeitos da cessão de créditos. nos termos do art. 582º]. Este pacto não coloca o crédito fora do comércio jurídico. §3: EFEITOS DA CESSÃO DE CRÉDITOS.

583º-1] Conhecimento [art. o O cessionário que veja o seu direito afectado pode instaurar uma acção de enriquecimento sem causa contra o cedente [enriquecimento por intervenção através da disposição eficaz de um direito alheio] – a notificação é do interesse do cessionário. 219º].Lara Geraldes @ FDL Reserva de propriedade: não pode ser transmitida com a cessão de crédito. aplicando-se o regime do negócio base [arts. o Se o devedor. 585º]: vg invalidade. podendo até extingui-lo [art. uma vez que seria necessária a resolução do contrato por falta de pagamento do preço [art. o pagamento e o negócio têm efeitos sobre o crédito. que lhe era lícito invocar contra o cedente [art. prescrição. o O cedente tem que prestar ao cessionário a garantia da existência e da exigibilidade do crédito ao tempo da cessão [art. 409º].Direito das Obrigações II . o A transmissão abrange as excepções que o devedor possuía contra o cedente [art. por ignorar a cessão de créditos. pelo devedor.  Efeitos em relação ao devedor: o A transmissão só produz efeitos em relação ao devedor após:    Notificação Aceitação [art. resolução ou prescrição. excepção de não cumprimento. no caso de compra e venda ou doação]. o Oposição ao cessionário de todos os meios de defesa. 89 . 586º]. antes da notificação ou aceitação. em caso de dupla alienação do mesmo crédito [art. Não estão sujeitas a forma especial [art. 583º-2] o A notificação ou a aceitação pelo devedor decidem qual a cessão que vai prevalecer. 585º]: prazo da prestação. o • Obrigação de entrega de documentos [art. 892ºss ou 956º ss. 584º]. vg. 587º-1]. 583º-2]. pagar ao cedente ou celebrar com ele algum negócio relativo ao crédito.

Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL • Efeitos em relação a terceiros: o A cessão produz efeitos independentemente de qualquer notificação: a partir da sua verificação, podem os credores do cessionário executar o crédito ou exercer a acção sub-rogatória. o Depende de notificação ao devedor ou de aceitação por este num caso: quando o crédito seja cedido a mais do que uma pessoa [art. 584º], prevalece a cessão que primeiro tiver sido notificada ao devedor ou por este ter sido aceite. Se o devedor, conhecendo a prioridade da primeira cessão, aceitar a segunda:

Não realizará qualquer pagamento liberatório, pagando ao segundo cessionário, segundo a autora ASSUNÇÃO CRISTAS.

PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA: rigidez da solução do art. 584º e não aplicação do art. 583º-2 [exceptio doli], por razões de segurança.

MENEZES LEITÃO compatibiliza os dois preceitos, defendendo que a prioridade é atribuída com base na notificação que primeiro vier a ser efectuada ao devedor, salvo se, desconhecendo a dupla alienação do crédito, tiver aceite alguma das cessões.

Sub-rogação

TRANSMISSÃO DO LADO ACTIVO

§1: NOÇÃO. A sub-rogação [arts. 589º ss] consiste na situação que se verifica quando, cumprida uma obrigação por terceiro, o crédito respectivo não se extingue, mas antes se transmite por efeito desse cumprimento para o terceiro que realiza a prestação em lugar do devedor ou forneceu os meios necessários para o cumprimento. Enquanto que a cessão tem por base um negócio jurídico, a sub-rogação resulta de um acto não negocial, o cumprimento, sendo a medida deste que determina a medida da sub-

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL rogação [art. 593º-1]. Para mais, é insusceptível de se verificar em relação a prestações futuras.

§2: MODALIDADES. A lei admite as seguintes modalidades de sub-rogação:  Sub-rogação pelo credor [art. 589º]:

o O credor/sub-rogante declara que pretende que o terceiro/subrogado que cumpre a obrigação em vez do devedor venha, por virtude desse cumprimento, a adquirir o crédito, podendo exigir

posteriormente ao devedor a realização dessa prestação.

o Requisitos cumulativos, sem os quais apenas se verifica um
cumprimento por terceiro, sem adquirir o crédito [ideia de tutela de outros credores e garantes do devedor, de boa fé]:  Cumprimento da obrigação por terceiro Declaração expressa anterior do credor a determinar a subrogação [art. 217º], sem forma especial [art. 219º]. Não havendo obrigação. Exemplo: A deve € 100 a B. B declara expressamente que C fica sub-rogado nos seus direitos, se pagar. C paga, podendo, por isso, exigir os € 100 a A. cumprimento, a declaração não extingue a

Sub-rogação directa pelo devedor/sub-rogante [art. 590º] a terceiro/subrogado:

o Também pressupõe uma declaração deste, pretendendo que o
terceiro que cumpre a obrigação adquira o respectivo crédito.

o Declaração expressa, até ao momento do cumprimento, evitando a
extinção da dívida. Liberdade de forma, nos termos gerais [art. 219º]. o Não se admite eficácia retroactiva, pelas mesmas razões de tutela.

Exemplo: A deve € 100 a B. C paga € 100 a B. A declara, antes do cumprimento, que esse pagamento determina a sub-rogação de C no direito de B.

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL

Sub-rogação indirecta em consequência de empréstimo efectuado ao devedor [art. 591º]:

o Não é o terceiro quem cumpre a obrigação, mas sim o próprio
devedor, com meios facultados por um terceiro [que lhe empresta dinheiro ou outra coisa fungível: mútuo]

o Declaração expressa, anterior ao empréstimo.
o Forma escrita simples [documento do empréstimo].

o Em consequência do mútuo o terceiro já adquire um crédito sobre o
devedor, não fazendo sentido que fique com dois créditos após a subrogação – GALVÃO TELLES e MENEZES LEITÃO: a sub-rogação substitui o primeiro crédito [mútuo] pelo segundo [transmitido pela sub-rogação]. Exemplo: A deve € 100 a B. C empresta € 100 a A. A paga a B.

Sub-rogação legal [art. 592º]:

o Independentemente de qualquer declaração do credor ou do devedor:
quando o terceiro tiver garantido o cumprimento ou estiver por qualquer outra causa directamente interessado na satisfação do crédito. O sub-rogado [terceiro] é garante do devedor que realizou a prestação.

o Exemplo: se o terceiro for fiador do devedor ou tiver constituído um
penhor ou hipoteca sobre bens seus para garantia do cumprimento – vg A deve €100 a B. C, fiador de A, paga 50% a B.

o O interesse directo do terceiro na satisfação do crédito e no
cumprimento tem que corresponder a um interesse próprio com conteúdo económico prático, não bastando um interesse meramente jurídico – vg subarrendatário paga ao senhorio em vez do arrendatário, art. 1089º.

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numa dívida de € 1000 apenas pagar € 600. 585º apenas pode ser aplicável aos casos de sub-rogação pelo credor ou de sub-rogação legal. 594º. 595º-1]: 93 .Direito das Obrigações II . O acordo do credor é imprescindível. §2: MODALIDADES. mas apenas no montante por ele satisfeito. Transmissão das garantias e acessórios do crédito: Cfr. Eficácia em relação ao devedor e terceiros: Aplicam-se as disposições dos arts. supra. Com o assentimento de MENEZES LEITÃO. 593º: Transmissão do crédito na medida da sua satisfação: O terceiro adquire. é-lhe vedada a invocação de qualquer excepção. 582º-584º] Transmissão das excepções: GALVÃO TELLES: o art. ANTUNES VARELA: o art. 583º-584º.Lara Geraldes @ FDL §3: EFEITOS DA SUB-ROGAÇÃO. cessão de créditos [arts. Corresponde historicamente a uma delegação. 594º. que entende que. Contra. os poderes que a este competiam: se o terceiro. na medida da satisfação dada ao direito do credor. Os efeitos da sub-rogação encontram-se previstos no art. 595º ss: transmissão singular de uma dívida através de negócio jurídico celebrado com terceiro. não fica sub-rogado na totalidade do crédito. A assunção de dívidas pode verificar-se [art. A transmissão a título singular de dívidas denomina-se assunção de dívida e encontra-se prevista nos arts. 585º aplicar-se-ia à sub-rogação. ex vi art. Assunção de Dívida TRANSMISSÃO DO LADO PASSIVO §1: NOÇÃO. no caso de a sub-rogação provir do próprio devedor. em geral.

a ineficácia dos actos conservatórios de crédito praticados no período entre a ratificação e o contrato de assunção de dívida [PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA]. a ratificação. Com divergências.Direito das Obrigações II . como condição de eficácia da assunção de dívida em relação ao credor [do primeiro contrato. o negócio celebrado entre as partes pode valer como promessa de liberação [assunção de cumprimento]. • Só a partir do momento em que ocorre a ratificação é que a assunção de dívidas se torna definitiva. ou não implica. o seguinte problema – apesar da não ratificação pelo credor. 596º-1]. 444º-3? A doutrina alemã considera existir uma regra interpretativa de que qualquer assunção de dívida não ratificada vale como assunção de cumprimento. a mesma posição é sustentada [ANTUNEZ VARELA e 94 . neste âmbito. • Qualquer das partes pode fixar um prazo peremptório para a ratificação. uma vez realizada. Entre nós. esse efeito retroactivo é por uns considerado pleno [RIBEIRO DE FARIA e MENEZES LEITÃO]. para outros. 596º-2]. podendo as partes distratá-lo enquanto o credor não ratificar [art. tem eficácia retroactiva e a dívida considera-se transmitida no momento da celebração do contrato. findo o qual esta se considerará recusada [art.  • A ratificação.Lara Geraldes @ FDL • Por contrato entre o antigo e o novo devedor [assuntor]. o A transmissão de dívidas resulta do efeito conjugado de dois negócios:  Contrato entre o antigo e o novo devedor Negócio unilateral do credor. Nota: suscita-se. ratificado pelo credor: assunção interna. nos termos do art. enfim]. deixando as partes de a poder distratar.

sem que a vinculação deste seja afectada [sem exoneração]. 239º [vontade presumível das partes] e 293º [conversão do negócio totalmente nulo]. • A solidariedade imperfeita.Lara Geraldes @ FDL MENEZES LEITÃO]. 595º-2. os dois devedores respondem solidariamente – o credor pode exigir o cumprimento da obrigação a qualquer um. • Por contrato entre o novo devedor [assuntor] e o credor.Direito das Obrigações II . indistintamente. 2ª parte]. o A transmissão da dívida resulta de apenas um único negócio jurídico:  Contrato entre o novo devedor e o credor. 595º-2]. com base nos arts. independentemente da exoneração concedida pelo credor [art. mantendo-se solidariamente obrigado perante o credor [art. 512ºss: o O direito de regresso só existe do antigo devedor sobre o novo devedor. • Assunção cumulativa: o O antigo devedor não é liberado da sua obrigação. • O consentimento do devedor é irrelevante. num só sentido 95 . o O novo devedor fica vinculado por essa obrigação exactamente nos mesmos termos que o antigo devedor. ao qual o antigo devedor pode ou não dar o seu consentimento. com ou sem consentimento do antigo devedor: assunção externa. e não conforme dispõem os arts. o Regime:  Efeitos na relação interna entre antigo e novo devedor: • Transmissão da dívida do antigo para o novo devedor.  Efeitos na relação externa dos devedores para com o credor: • Na ausência de exoneração concedida pelo credor.

• Assunção liberatória: o Verifica-se a extinção da obrigação do antigo devedor. compensação. • Não pode: erro. dolo ou incapacidade do antigo devedor. 96 . opor ao credor os meios de defesa derivados da relação entre ele próprio e o credor. sim. 516º [comparticipação em partes iguais na dívida] o O novo devedor goza de meios de defesa mais amplos que o devedor solidário:  O novo devedor não pode opor ao credor quaisquer meios de defesa que resultem da relação entre o antigo e o novo devedor da [art. bem como os meios de defesa existentes na relação antigo devedor e credor. 595º-2. coacção.Lara Geraldes @ FDL o Não se aplica a presunção do art. 598º] de – vg uma promessa prestação contrapartida: a assunção de dívidas é um acto abstracto. o O novo devedor substitui integralmente o antigo devedor. impossibilidade e ineficácia. ficando exclusivamente obrigado o novo devedor [art. protegendo o credor.Direito das Obrigações II . prescrição. 1ª parte].  O novo devedor pode. salvo meios de defesa pessoais do primeiro: • Pode: nulidade. que fica assim exonerado.

a assunção é cumulativa. feita por palavras ou outro meio directo de expressão da vontade [art. que compete ao credor: declaração expressa.  O conteúdo da obrigação não se altera em virtude da transmissão. o novo devedor torna-se no exclusivo devedor. pelo que o novo devedor permanece vinculado à prestação nos mesmos termos que o antigo devedor [vs novação: extinção do direito de crédito e substituição por um outro]. O crédito é o mesmo. caso em que a responsabilidade deste é subsidiária e não extinta.Direito das Obrigações II .Lara Geraldes @ FDL o Declaração de exoneração do primitivo obrigado [antigo devedor]. in fine]. Sem esta declaração. impedindo as partes de a distratarem. com as consequências supra. Requisitos comuns às várias modalidades de assunção de dívida: • Consentimento do credor o É sempre necessário. 600º]. o Regime:  Com a exoneração concedida pelo credor ao primitivo obrigado. Admite-se.  O credor deixa de poder demandar o antigo devedor. 595º-2]. caso se verifique a insolvência do assuntor. que o credor ressalve expressamente a responsabilidade do antigo devedor [art.  Declaração expressa de exoneração: o credor extingue a vinculação do antigo devedor. porém. embora tenha sido redireccionado de um sujeito para outro [assuntor]. Razões: 97 .  Ratificação: credor dá o seu acordo à transmissão. seja ele o novo devedor ou garante da obrigação [art. 217º]. ficando o primeiro totalmente liberado da sua obrigação. exigível tanto na assunção externa como na assunção interna [art. 600º.

768º-2].  •  Contestada por MOTA PINTO. • Consentimento do novo devedor o Não faria sentido impor a alguém a assunção de uma dívida. o Esse contrato não pode ser nulo ou anulável. • Assunção externa: o próprio credor celebra o contrato com o novo devedor. supra: basta o requisito da determinabilidade [art. Em qualquer caso exige-se a declaração expressa supra para exoneração do antigo devedor.  Exigência do consentimento do credor: • Assunção interna: ratificação do contrato entre antigo e novo devedor. pelo que o consentimento do credor na assunção de dívida permite obstar a transmissões de dívidas para devedores com situações patrimoniais piores do que as do devedor originário. e que estas resultem de negócio já celebrado ou a celebrar. por maioria de razão: se o terceiro pode cumprir a obrigação. • Existência e validade do contrato de transmissão o A transmissão da dívida deve decorrer de um contrato transmissivo da obrigação que exista. 98 .  Exemplo: assunção da obrigação de pagamento das rendas devidas pelo locatário no ano de 2009. contra a sua vontade. o Não há obstáculos legais à transmissão de dívidas futuras. o Não é necessário o consentimento do antigo devedor [claramente dispensado na assunção externa].Lara Geraldes @ FDL Só o património do devedor responde perante o credor. mesmo com oposição do devedor [art.Direito das Obrigações II . tal como no caso da cessão de créditos futuros. pode igualmente assumir as suas dívidas sem consentimento. 280º].

a assunção de dívidas corresponde como que a uma delegação. de modo que a extinção do último importa a extinção do primeiro. 424º] designa a transmissão da situação jurídica mais vasta que engloba direitos. poderes. Nestes termos. enquanto situação jurídica complexa. 597º]. subempreitada ou submandato]. Aqui. deveres. Não se confunda com: • Subcontrato: alguém celebra um contrato com base na posição jurídica que lhe advém de outro contrato do mesmo tipo. §3: NATUREZA JURÍDICA. cuja preservação interessa às partes. num contrato trilateral. devendo o último dar o seu consentimento. não se transmitem créditos ou dívidas individualmente. subarrendamento. Na cessão da 99 . sem quebrar as ligações existentes entre as diversas situações integrantes da posição contratual. hoje feita através de um contrato que envolve três pessoas: o delegante. propondo a substituição contratual. A cessão da posição contratual [art. A teoria da oferta colectiva ou teoria do contrato com o credor. O subcontrato depende do contrato principal. no âmbito da discussão doutrinária acerca da natureza jurídica da figura da assunção de dívidas. mas sim a própria posição contratual globalmente considerada. A fonte da assunção de dívidas reside. faculdades.Direito das Obrigações II . As vantagens na adopção desta figura residem no facto de permitir a transmissão de negócios jurídicos em bloco. veio a ser sustentada por MENEZES LEITÃO. ónus e sujeições que resultam para uma parte da celebração de determinado negócio. assim. já previamente celebrado com outrem [vg sublocação. originalmente de MENZEL. o delegado e o credor delegatário. renasce a obrigação anterior [art. Delegante e delegado fazem uma oferta colectiva ao credor. Cessão da Posição Contratual §1: NOÇÃO.Lara Geraldes @ FDL o Se o contrato de transmissão da dívida for declarado nulo ou anulado e o credor tiver exonerado o devedor primitivo [assunção liberatória].

Na cessão da posição contratual o cedente deixa de ser parte do contrato. participando da posição jurídica já atribuída a uma delas. doação ou dação em cumprimento – negócios causais. enquanto que na adesão ao contrato não há qualquer transmissão contratual. 424º-2]. e ao contrário da assunção de dívidas. o negócio não pode valer como assunção de cumprimento das obrigações do cedente.Lara Geraldes @ FDL posição contratual. o Exemplo: compra e venda. A cessão da posição contratual requer: • Um contrato a estabelecer a transmissão da posição contratual. mas apenas a agregação de uma terceira parte à relação contratual. 424º]: o Terá que ser um negócio unitário [transmissão da posição contratual em globo] e não um mero somatório de cessões de créditos ou de assunções de dívida. há a transmissão da posição contratual de um sujeito para outro. uma vez que a cessão da posição contratual não é um negócio abstracto. 100 . Se houver recusa. • Adesão ao contrato: um terceiro vem a constituir-se como parte numa relação contratual existente entre duas pessoas. celebrado com o consentimento do outro contraente [art. pergunta-se se o negócio não poderá ser convertido. §2: PRESSUPOSTOS. 595º-1a]. o A assunção de obrigações pressupõe o consentimento do outro contraente: a sua eficácia fica dependente do acordo posterior à celebração do negócio [art. uma vez que a assunção cumulativa não pode ser feita sem o consentimento do credor [art. enquanto que no subcontrato a relação contratual primitiva permanece inalterada. sem que esta perca a titularidade dessa mesma posição. Sem consentimento. nos termos do art. 293º.Direito das Obrigações II . num contrato misto de cessão de créditos e assunção cumulativa de dívidas: não o cremos.

o MOTA PINTO e MENEZES CORDEIRO criticaram esta posição. §3: EFEITOS. este deve ter ainda direito a uma eventual resolução do contrato por incumprimento do comprador. como já supra §1 afastámos. transmissíveis apenas mediante cessão de créditos ou assunção de dívidas. 424º-1. 1ª parte. 101 . vg. ANTUNES VARELA e ALMEIDA COSTA – poder-se-ia transmitir a posição contratual de comprador ou de arrendatário. poderes pelas potestativos excepções vinculado obrigações.Lara Geraldes @ FDL • A inclusão da referida posição contratual no âmbito dos contratos com prestações recíprocas o O art. deveres acessórios e sujeições resultantes. pondo de parte direitos potestativos e deveres acessórios. 886º]. parece restringir a cessão da posição contratual aos contratos com prestações recíprocas. mas não já a de mutuário ou doador. MENEZES LEITÃO concorda com esta posição. uma vez que permite incluir neste âmbito os contratos bilaterais em que uma das prestações já haja sido executada [vg na compra e venda executada apenas pelo vendedor. uma vez que reconduziria a cessão da posição contratual a um mero somatório de créditos e de dívidas. Cumpre distinguir: • Relação entre cedente e cessionário: o Transmite-se a posição contratual do cedente para o cessionário  O cessionário e adquire todos e os fica créditos. VAZ SERRA. art. conforme sustentam GALVÃO TELLES.Direito das Obrigações II . Essa posição desconsidera a situação jurídica complexa que a figura representa.

426º-1]. por isso. uma vez que. 102 . nos termos gerais [art. 587º]. a existência [validade] da posição contratual transmitida [art. em relação a ele. A faculdade de anulação do negócio [vg por erro. e se tal posição contratual não existir ou for inválida. 280º-1]. após a cessão da posição contratual. caso em que a cessão se tornará nula por impossibilidade do objecto [art. dolo ou coacção] é inseparável da pessoa do cedente.  A maioria doutrinária rejeita que a cessão da posição contratual possa abranger as consequências dos vícios intrínsecos das declarações negociais [MOTA PINTO. A garantia do cumprimento das obrigações [vg o cedente responder como fiador]. objecto de transmissão. MENEZES LEITÃO e ANTUNES VARELA]. não se verifica qualquer vício. só existe se for expressamente convencionada. não sendo. solicitar a anulação do negócio. 426º-2]. Não faria qualquer sentido que o cessionário pudesse exercer essa faculdade. o cedente torna-se responsável perante o cessionário nos termos dos arts. MENEZES CORDEIRO. no momento da cessão.Lara Geraldes @ FDL  Contrato de execução periódica ou continuada: a cessão da posição contratual abrange apenas as situações jurídicas correspondentes ao período de tempo posterior à celebração do negócio de transmissão: efeitos ex nunc. essa. nos mesmos termos que na cessão de créditos [art.Direito das Obrigações II .  Tratando-se de uma venda. dolo ou coacção. Verificado o erro. 894º e 899º. o cedente pode. o Garantia prestada pelo cedente relativamente à posição contratual transmitida  O cedente garante ao cessionário.

com a cessão. a menos que o último haja dado o seu consentimento antes da transmissão [art. 599º. na esteira de MOSSA. assumindo antes um novo vínculo de garantia de cumprimento de obrigação alheia. esse cumprimento não tem efeito liberatório. ainda assim. vg. MOTA PINTO. • Relação entre o cedente e o contraente cedido o O cedente fica liberado de todas as obrigações. único titular da posição contratual. o Com base na autonomia privada. ANTUNES 103 . que o contraente cedido deve exercer os seus direitos e cumprir as respectivas obrigações. com algumas excepções:  Se o cedente tiver causado danos à outra parte. podendo o mesmo responder como fiador ou devedor solidário. LARENZ e entre nós. 424º-2]. podem as partes estipular a não liberação do cedente nas suas obrigações. MENEZES LEITÃO. deveres acessórios e sujeições emergentes do contrato. aplica-se por analogia o disposto no art. a sua qualidade de parte no contrato.Lara Geraldes @ FDL • Relação entre cessionário e o contraente cedido o É perante o cessionário. o Se. o contraente cedido efectuar o cumprimento perante o cedente. §4: NATUREZA JURÍDICA. em virtude de incumprimento: a obrigação de indemnizar mantém-se na sua titularidade.Direito das Obrigações II . o Quanto às garantias das obrigações de que o contraente cedido seja titular. perante o cedido. após a cessão. o Relações contratuais duradouras [vg contratos de execução periódica ou continuada]: a cessão apenas abrangerá as situações jurídicas respeitantes ao período posterior à transmissão. presumindo-se que os créditos e obrigações já vencidos se mantêm na titularidade do cedente. Quanto à natureza jurídica da cessão da posição contratual. O cedente perde.

a revogação é igualmente unilateral [vg revogação de promessa pública. DA EXTINÇÃO DAS OBRIGAÇÕES Causas de Extinção dos Negócios Jurídicos §1: GENERALIDADES. 461º]. 104 . nos termos da qual o crédito e a dívida não surgem isoladamente. A extinção das obrigações verifica-se quando o negócio que lhes serve de fonte é destruído: • Por um negócio jurídico posterior: o o o Revogação Resolução Denúncia • Através de um facto jurídico stricto sensu: o Caducidade • Por um efeito conjugado dos dois: o Oposição à renovação Distinguiremos cada uma destas causas infra. o negócio for unilateral. sendo necessariamente bilateral [art. sustenta a teoria da transmissão unitária. A revogação consiste na extinção do negócio jurídico por virtude de uma manifestação da autonomia privada em sentido oposto àquela que o constituiu. a revogação denomina-se distrate. assim. A posição contratual constitui. no entanto.Direito das Obrigações II . Tratando-se de um contrate.Lara Geraldes @ FDL VARELA. MENEZES CORDEIRO e RIBEIRO DE FARIA. art. uma situação jurídica complexa cuja transmissão é possibilitada pela cessão da posição contratual. §2: REVOGAÇÃO. Se. 406º-1].

Contudo. e não discricionário. excepto se tenha sido criada uma situação em benefício de terceiro ou quando o acto esteja sujeito a registo e este tenha sido realizado. Na falta de disposição. 435º-1]. a resolução é equiparada à nulidade ou à anulabilidade do contrato [art. 1140º]. contrariamente à regra geral. se contrariar a vontade das partes ou a finalidade da resolução [art. aplicando-se o art. a resolução não pode. É normalmente de exercício vinculado.Direito das Obrigações II . prejudicar terceiros [art. 433º]. 406º-1]. 289º: relação de liquidação. Por outro lado. a resolução não é permitida [art. excepto o disposto no art. sublinhe-se que a resolução pode não ter eficácia retroactiva. 432º-2]. 290º]. e contrariamente à invalidade do negócio [art. §3: RESOLUÇÃO. no comodato. vg. 432ºss] consiste na extinção da relação contratual por declaração unilateral de um dos contraentes. 432º-1]. na qual se visa colocar as partes na situação em que estariam se o contrato não tivesse sido celebrado [art. vs francesa]. 291º]. nos termos do art. Pode ser fundamentada pelo incumprimento contratual da contraparte [art. verificado um fundamento legal ou convencional [cláusulas resolutivas] para tal [art. Se esse fundamento não se verificar. sob pena de enriquecimento da parte que exerce a resolução. A resolução efectua-se mediante simples declaração da parte. pelo que a decisão não está sujeita ao acordo da contraparte. excluído o direito de resolução nos casos em que não haja possibilidade de restituir o que se houver recebido [art. 801º-2] ou pela justa causa [art. 436º-1. Processa-se sempre através de um negócio jurídico unilateral [vs revogação]. dispensando-se recurso ao tribunal [solução alemã. 105 .Lara Geraldes @ FDL A retroactividade da revogação pode ser livremente convencionada pelas partes. 434º] – nos contratos de execução continuada ou periódica seria contrário ao fim da resolução admitir a restituição de prestações já pagas. A resolução do contrato [arts. 1047º. Está. baseada num fundamento ocorrido posteriormente à celebração do contrato. em caso algum. contudo. maxime por meras razões de conveniência justificada do comodante.

a oposição à renovação permite que as partes convencionem que o contrato vigore por períodos limitados no tempo e. O seu exercício é livre. §5: CADUCIDADE. simultaneamente. A lei impropriamente qualifica de denúncia a oposição à renovação no contrato de locação. Trata-se de 106 . A denúncia não é retroactiva. limitando-se a extinguir o contrato para o futuro [ex nunc]. sob pena de caducidade [art. À semelhança da resolução. 304º-1]. nos arts. Prescrição §1: NOÇÃO. Conjugando as figuras da caducidade e da denúncia. ocorrendo quando alguém adquire a possibilidade de se opor ao exercício de um direito. em virtude de este não ter sido exercido durante um determinado lapso de tempo [art.Direito das Obrigações II .Lara Geraldes @ FDL Evitando uma situação de indefinição. A prescrição é uma causa de extinção de direitos de crédito. 436º-2]. não é retroactiva mas só pode ser exercida até à renovação do contrato. 1054º e 1055º]. §4: DENÚNCIA. a contraparte pode fixar ao titular do direito de resolução um prazo razoável para que o exerça. não havendo declaração em contrário. É de exercício livre. A caducidade do contrato consiste na sua extinção em virtude da ocorrência de um facto jurídico stricto sensu. de forma a obstar a contratos perpétuos e a vínculos de duração indefinida. A denúncia é admitida a todo o tempo. em que as partes não estipulam um prazo fixo de vigência. não carecendo de qualquer fundamento. a denúncia resulta também de um negócio unilateral. pelo que se baseia unicamente na declaração de uma das partes. verificação de condição resolutiva ou morte de uma das partes em contrato intuitu personae. Limita-se aos contratos de execução continuada ou duradoura [vg fornecimento ou mandato]. prevêem a sua renovação tácita. e não de um negócio ou de um acto jurídico: vg decurso do tempo. §6: OPOSIÇÃO À RENOVAÇÃO.

298º]. já se ter verificado o cumprimento da obrigação [art. embora prescrita. na medida em que permite ao seu titular paralisar eficazmente um direito da contraparte. expressa ou tácita [arts. uma vez que o cumprimento de obrigação prescrita consiste numa obrigação natural. A prescrição é renunciável. 303º] por aquele a quem aproveita. 107 . 312º]. A prescrição pode ser: • Comum: funda-se no não exercício de um direito durante um lapso de tempo. constitui uma causa de extinção privativa dos direitos reais de gozo. e não se esteja perante um direito real de gozo [não uso]. Quanto ao não uso.Lara Geraldes @ FDL uma excepção. não pode prevalecer-se da repetição do indevido [restituição]. Caso o devedor cumpra a obrigação. a situação é qualificável de caducidade. ou perante um direito indisponível [art. §2: MODALIDADES. 304º-1]. 304º-2 e 402º]. 298º-1]. após um certo lapso de tempo. §3: REGIME LEGAL. Não se confunda com a caducidade ou o não uso [art. • Presuntiva: funda-se na presunção de que. mas apenas uma vez decorrido o prazo prescricional [art. seja ele legal ou convencional [caducidade]. Carece de invocação [art. O regime legal da prescrição é imperativo [art. o Esta presunção só pode ser ilidida por confissão do devedor originário. maxime o prazo ordinário de prescrição de 20 anos [art. o tribunal deve condená-lo no cumprimento [excepção peremptória extintiva].Direito das Obrigações II . 300º]. Assim. não resultando automaticamente do decurso do prazo. podendo o devedor recusar o cumprimento [art. 302º-1]. Caso o devedor não invoque a prescrição quando demandado judicialmente pelo credor. pelo que são nulos os negócios jurídicos destinados a modificar os prazos legais. aplicam-se as regras da prescrição [arts. Quando um direito deva ser exercido num lapso de tempo. 300ºss]. sempre que não exista um prazo especial de exercício. 313º e 314º]. judicialmente inexigível [arts. 309º]. a não ser que a lei refira expressamente a prescrição.

280º-1 e 401º-1]. o No caso de prestação infungível.Lara Geraldes @ FDL Além do devedor.Direito das Obrigações II . nem qualquer outra pessoa. • Absoluta: a prestação torna-se efectivamente irrealizável. infra. embora pudesse desencadear o instituto da alteração das circunstâncias. art. 767º-2 e 791º]. pelo que a obrigação não chega sequer a constituir-se. 767º-1]. impossibilidade tem respeito prestação independentemente da pessoa que a realizar [a prestação impossibilita-se uma vez que nem o devedor. o devedor deveria fazer-se substituir por outra pessoa no cumprimento [vg advogado que adoece na véspera do julgamento. absoluta e definitiva [arts. • Superveniente: a impossibilidade ocorre após a constituição da dívida. objectiva. o negócio considerar-se-ia nulo por impossibilidade do objecto [arts. a prescrição pode ser invocada pelos seus credores e quaisquer terceiros com legítimo interesse na sua declaração [art. o Se a impossibilidade fosse original. 305º-1]. não importaria a extinção da obrigação. 108 . a impossibilidade subjectiva produz igualmente a extinção da obrigação [art. A impossibilidade da prestação é causa de extinção das obrigações quando superveniente. o Se a impossibilidade fosse relativa. está em condições de realizar a prestação]. 790ºss]. • Objectiva [salvo nas obrigações que dizer de prestação à infungível]: em a si. Impossibilidade Superveniente da Prestação POR CAUSA NÃO IMPUTÁVEL AO DEVEDOR §1: NOÇÃO. o Se a impossibilidade fosse subjectiva.

uma vez que a acção abstracta de prestar se mantém como possível. em substituição do objecto da prestação. em virtude do facto que tornou impossível a prestação. liberando o devedor da prestação e correndo o risco por conta do credor. 794º: commodum de representação]. o devedor não responde pelo atraso no cumprimento [art. 792º-1]. mas há perda do interesse do credor ou satisfação do mesmo por outra via. pode o credor exigir a prestação dessa coisa [art. Tratando-se de impossibilidade parcial. a impossibilidade temporária é convertida em definitiva [nº2]. o devedor adquiriu algum direito sobre certa coisa. Se. 793º-1]. 109 . §2: FRUSTRAÇÃO DO FIM DA PRESTAÇÃO E PERDA DO INTERESSE DO CREDOR. §3: DISTRIBUIÇÃO DO RISCO. supervenientes. 790º-1]. o devedor exonera-se mediante a prestação do que for possível. uma vez que ficou exonerado da sua obrigação. tornando-se a prestação impossível em termos objectivos. mas continua adstrito à realização da prestação.Lara Geraldes @ FDL • Definitiva: o Se a impossibilidade fosse temporária. Se a impossibilidade revestir estas características. absolutos e definitivos. justifica-se a equiparação destas situações à impossibilidade. não há qualquer impossibilidade [MENEZES LEITÃO]. o devedor exonera-se da mesma e o risco corre por conta do credor [art. Se a conduta a que o devedor se vinculou ainda for possível de realizar. 790º1]. que perde o seu direito de crédito. salvo perda de interesse do credor [nº2]. Esta figura destina-se a corrigir o enriquecimento obtido pelo devedor em consequência da impossibilidade da prestação [vg seguro ou subsídio] – o devedor não sofre prejuízos. a obrigação extingue-se [art. 398º-2]. Se o credor perder o interesse na realização da prestação. devendo ser proporcionalmente reduzida a prestação da contraparte [art. nem tem qualquer interesse na realização da prestação [art. já que o credor não retira qualquer benefício da acção do devedor. Já supra §1 foi mencionado que.Direito das Obrigações II . No entanto.

408º: tratando-se de coisas determinadas.Direito das Obrigações II . Com efeito. compensado pelas despesas que haja efectuado. 1227º. a impossibilidade afecta ambas as partes. Tratando-se de contrato sinalagmático. o devedor deve ser exonerado e. e havendo frustração do fim da prestação ou realização do interesse do credor por outra via [supra §2]. a transferência da propriedade e. 795º-2]. e o risco é distribuído por ambas as partes através da extinção recíproca das suas obrigações. supra §1. consequentemente. no momento em que tal evento se verifica [art. Se a prestação se tornar impossível por causa imputável ao credor. ao proprietário. mas o credor. se já a tiver realizado. como propugna ANTUNES VARELA]. 794º]. maxime tratando-se de contratos bilaterais/sinalagmáticos [cujo princípio da interdependência de prestações impede que uma possa ser realizada sem que a outra o seja também]. pelo que o credor fica desobrigado da contraprestação e tem o direito. continua onerado com a sua contraprestação. 796º-1]: o devedor fica exonerado da sua obrigação. 473º-2 e 795º-1]. este não fica desobrigado da contraprestação [art. com fundamento no desaparecimento superveniente da causa para a recepção da prestação – condictio ob causam finitam [arts. Não haverá lugar à extinção do direito do credor à contraprestação no caso de este pretender exercer o direito de commodum de representação [art. por outro lado. o qual compete. importa recordar o teor do art. A distribuição do risco [por impossibilidade.Lara Geraldes @ FDL Todavia. Por força do sinalagma. de exigir a sua restituição nos termos previstos para o enriquecimento sem causa. o 110 . em princípio. segundo MENEZES LEITÃO [com recurso à aplicação analógica do art. porém. dá-se por mero efeito do contrato. o risco é associado ao proveito que se retira da coisa. A regra geral [brocardo res perit domino] é a de que o risco pelo perecimento ou deterioração da coisa cabe ao que for proprietário dela. o regime da impossibilidade apresenta especificidades quanto à distribuição do risco. e não do regime da gestão de negócios. por conta do qual corre o risco. Se. por caducidade. A impossibilidade de uma das prestações extingue todo o contrato. do risco. perecimento ou deterioração da coisa] é também específica quanto a contratos reais de alienação. Para efeitos de aferição do momento da transferência do direito real.

Esta norma apenas se aplica às obrigações genéricas [art. o risco só se transfere com o vencimento do termo ou a entrega da coisa – vg A vende um quadro mas entrega-o apenas um mês mais tarde. o A condição resolutiva não impede a transmissão da propriedade [art. A ressalva quanto ao disposto no art. indeterminadas. 797º]. justificando-se que seja ele a suportar o risco • Contrato sujeito a condição suspensiva: o risco corre por conta do alienante. 541º].Lara Geraldes @ FDL contrato respeitar a coisas futuras. se o mesmo vier a ser destruído. muito antes do envio. salvo obrigações genéricas [quando se der a concentração da obrigação. 807º [art. que suporta o risco. in fine] justifica-se na medida em que. Coisas indeterminadas: quando a coisa for determinada com conhecimento de ambas as partes.Direito das Obrigações II . Se. arts. esta acarreta a inversão do risco. 1307º-1]. Cumpre estabelecer a distinção entre duas situações [art. a transferência do risco dá-se com a entrega ao transportador da coisa. porém. • Frutos naturais ou partes integrantes de uma coisa: aquando da colheita ou da separação. 796º2. uma vez que quando a coisa seja determinada. 111 . 796º-2]. 796º-3]: • Contrato sujeito a condição resolutiva: o risco corre por conta do adquirente se a coisa lhe tiver sido entregue. para exibi-lo numa exposição [art. a coisa tiver continuado em poder do alienante em consequência de termo estabelecido a seu favor. a transferência do risco dá-se com a celebração do contrato. se o alienante se constituir em mora quanto à obrigação de entrega. em virtude de incêndio na galeria. é A. o vendedor. a transferência é diferida para momento posterior: • • Coisas futuras: quando se der a aquisição da coisa pelo alienante. frutos naturais ou partes integrantes de uma coisa. o A entrega da coisa faz supor que é o adquirente quem está a tirar proveito da mesma. o Tratando-se de promessa de envio [art. 540º e 541º]. vg.

com consequente anulação do negócio jurídico. 437º deparamo-nos com uma concepção objectiva deste instituto. verificados os seguintes requisitos: • Existência de uma alteração das circunstâncias face àquelas em que as partes fundaram a sua decisão de contratar: 112 . contrapomos essa disposição ao teor do art. O instituto da alteração das circunstâncias [art. Alteração das Circunstâncias §1: NOÇÃO. MENEZES CORDEIRO e OLIVEIRA ASCENSÃO rejeitam este entendimento. uma vez que tal transmissão é apenas eventual. Não se justifica. pondo em causa a remissão do art. já que é mero detentor. e não resolução ou modificação segundo juízos de equidade. por isso. todavia. que seja o adquirente a suportar o risco. acerca do erro sobre a base do negócio e da remissão para o regime da alteração das circunstâncias. §2: REQUISITOS. nos termos gerais. No âmbito do art. antes reconduzindo a questão para um problema de erro. não podemos deixar de concluir por uma concepção subjectiva do mesmo [falsa representação sobre essas circunstâncias]. A aplicação da alteração das circunstâncias é possível. 252º-2 para o regime da alteração das circunstâncias. 252º-2. 437º] implica a contradição entre dois princípios jurídicos: • Princípio da autonomia privada: exige o pontual cumprimento dos contratos livremente celebrados • Princípio da boa fé: não é lícito a uma das partes exigir da outra o cumprimento das suas obrigações quando se assista a uma alteração do status quo que leve a um desequilíbrio entre prestações. Quando.Lara Geraldes @ FDL o A propriedade ainda não se transmitiu.Direito das Obrigações II . mesmo que a coisa lhe haja sido entregue. uma vez que se referem as circunstâncias efectivamente existentes no momento da celebração do contrato.

334º]. O art. em que não haja limites quanto aos riscos assumidos pelas partes. 438º nega à parte lesada o direito à resolução ou modificação do contrato por alteração das circunstâncias se se encontrava em mora no momento em que essa alteração se verificou. Nestes termos. por causa que 113 . se o devedor. a mora do devedor provoca uma inversão do risco da prestação [art.Direito das Obrigações II . e que tenham sido causais em relação à sua celebração pelas partes [base do negócio objectiva]. • Que não se encontre coberta pelos riscos próprios do contrato: o Cada decisão de contratar envolve uma assunção de riscos. alterações legislativas inesperadas.Lara Geraldes @ FDL o Apenas são relevantes as alterações das circunstâncias efectivamente existentes à data da celebração do contrato. supra §1] • Carácter anormal dessa alteração: o Imprevisibilidade: vg revolução ou estado de sítio. anuláveis: cfr. Coerentemente. • Alteração lesiva para uma das partes: o Surge um desequilíbrio entre as prestações contratuais. • Lesão de tal gravidade que se apresente como contrária à boa fé a exigência do cumprimento das obrigações assumidas: o Este instituto apresenta-se como uma modalidade específica de abuso do direito [de crédito . o A alteração das circunstâncias não pode ser invocada quanto a contratos já executados [MENEZES CORDEIRO]. o São irrelevantes: casos de falsa representação quanto às circunstâncias [meros problemas de erro. pelo que só será considerada alteração das circunstâncias quando a lesão não se reconduza ao círculo de riscos considerados como normais daquele contrato. 807º].art. o Exclui-se a aplicação deste instituto nos contratos aleatórios. §3: MORA DA PARTE LESADA.

com a consequente liberação do devedor. ou a modificação do mesmo segundo juízos de equidade. §2: PRINCÍPIOS GERAIS. tomando em atenção a vontade das partes no contrato e a eficácia concreta da alteração na esfera da parte lesada. que cumpre colmatar.Direito das Obrigações II . a causa normal de extinção das obrigações. Tal é fundamento bastante para a resolução do contrato. bastando a mera declaração à contraparte. 439º]: efeito retroactivo. na acção de execução específica. 436º-1. com a ressalva face aos contratos de execução continuada ou periódica [sem que abranja as prestações já realizadas. 434º-2] Todavia. 437º-1]. Ressalve-se o regime previsto no art. com efeito. A obrigação extingue-se através da satisfação do interesse do credor. entende MENEZES LEITÃO que a resolução não tem que ser requerida em juízo [contra ALMEIDA COSTA]. 762º-1]. 830º-3. A alteração das circunstâncias origina um desequilíbrio contratual. pelo devedor [art. através da concretização da conduta a que o credor tinha direito. a sentença pode determinar a modificação do contrato [e não a resolução] nos termos do art. 437º. Optando-se pela resolução do contrato. 432º-1 [art. com base no disposto no art.Lara Geraldes @ FDL lhe é imputável. Optando-se pela modificação segundo juízos de equidade. ainda que a alteração das circunstâncias seja posterior à mora – nos casos de contratos-promessa de venda de edifícios ou fracções autónomas. ex vi art. O cumprimento é. 439º. Segundo MENEZES LEITÃO. não cumprir na data aprazada. O cumprimento consiste na realização da prestação devida. §4: EFEITOS. art. que estabelece que. Cumprimento §1: NOÇÃO. 2ª parte. entende-se que assume o risco de verificação de posteriores desequilíbrios contratuais. nos termos gerais. nos termos do art. o regime do cumprimento das obrigações deve obedecer aos seguintes princípios: 114 . aplicam-se as regras desta [art. propõe MENEZES CORDEIRO que se procure a reposição do equilíbrio contratual.

• Princípio da integralidade [art.Lara Geraldes @ FDL • Princípio da pontualidade [arts 406º-1 e 762º-1]: o Consagrado a propósito dos contratos [art. e não realizado por inteiro [sob pena de enriquecimento do credor. o Norma supletiva. art. e não apenas quanto ao momento de celebração do contrato [pontualidade stricto sensu]: cumprimento ponto por ponto. 406º-1]. venda a prestações]. ainda que se trate de prestação divisível [susceptível de ser fraccionada sem prejuízo para o interesse do credor]. este princípio deverá ser aplicável a todas as obrigações [GALVÃO TELLES]. 934º. sendo contrária à boa fé a inviabilização da prestação. enfim. o Considera-se que o comando de realizar a prestação é unitário. ainda que possua um valor superior ao da prestação devida. o Pressupõe a exigência de uma correspondência integral em todos os aspectos. o credor não pode ser constrangido a receber do devedor coisa ou serviço diferente do que fora inicialmente convencionado [aliud pro alio]. e não somente cumprimento no tempo devido. • Princípio da boa fé [art. caso em que o cumprimento deve ser fraccionado. 476º-3]. sob pena de cumprimento defeituoso. quando tal resulte dos usos: vg caso o montante em falta tenha valor desprezível. admitindo-se estipulação em contrário [vg art.Direito das Obrigações II . Com efeito. 763º-1]: o O devedor deve realizar a prestação de uma só vez. de igual modo. para o devedor. 762º-2]: 115 . o Poderá haver lugar ao pagamento parcial. uma vez que é do interesse do credor receber a prestação de uma só vez. 762º-2]. o Proíbem-se quaisquer alterações à prestação devida. pelo credor [art.

embora não legitime o recurso à acção de cumprimento [art. 764º] • • Princípio da legitimidade para efectuar a prestação [arts. 764º]. informação e lealdade. e fundamentar o direito de indemnização. §3: CAPACIDADE PARA O CUMPRIMENTO. como no exercício do direito correspondente. Aos quais ROMANO MARTINEZ acrescenta: • Princípio da capacidade para efectuar o cumprimento e receber a prestação [art.Direito das Obrigações II . com isto. ser realizada pelo devedor incapaz [vg prestações de facto material como a pintura de uma casa ou prestações de facto negativo como a não construção de um muro]. • Princípio da concretização: o A vinculação do devedor deve ser concretizada numa conduta real e efectiva. devem as partes proceder de boa fé. A capacidade do devedor será exigida se a prestação consistir num acto de disposição. a menos que a própria prestação consista num acto de disposição [art. Não se exige a capacidade do devedor.Lara Geraldes @ FDL o Tanto no cumprimento da obrigação. pode implicar uma situação de responsabilidade civil. assim. maxime quando o cumprimento implica a celebração de um novo negócio jurídico [vg contrato prometido em relação ao contrato-promessa] ou dele resulte directamente a 116 . verificados os pressupostos gerais [dano e nexo de causalidade]. o Deveres acessórios de conduta: protecção. o Não basta. 765º-2 e 767º] Princípio da legitimidade para receber a prestação [arts. a mera realização da prestação devida em termos formais. cujo não acatamento. separadamente. 817º]. mas antes o respeito dos ditames da boa fé [por quem executa e por quem exige a prestação]. 769º-771º Estes princípios serão estudados infra. com respeito pelos pressupostos de cumprimento [capacidade e legitimidade das partes e disponibilidade da coisa] e pela disciplina da sua forma de realização [lugar e tempo do cumprimento]. A prestação poderá.

este deve ser sempre capaz. esteja ele de boa ou de má fé [nº2]. nos termos gerais. Nestes termos. e a realização de nova prestação pelo devedor [nº2]. o seu representante legal poderá requerer a sua anulação. ou própria de que o devedor não possa dispor. o credor estaria sempre sujeito à possibilidade de ver a coisa reivindicada pelo seu legítimo proprietário. o cumprimento verifica-se com a realização da prestação pelo devedor ou pelo credor. Do mesmo modo. seja alheia a coisa. Se a prestação for realizada a credor incapaz. impedindo que o credor incapaz enriqueça com a nova prestação. O credor pode oporse ao pedido de anulação se o devedor não tiver tido prejuízo com o cumprimento [exceptio doli. Nestes casos. art. de boa fé. 125º e 139º]. a menos que possa oferecer imediatamente nova prestação em substituição da anteriormente realizada. esta consistirá sempre num acto de disposição. Ao devedor já não assiste o mesmo direito de impugnação. nos seguintes termos: 117 . aqui. pode o devedor opor-se ao pedido de anulação da prestação realizada ou de nova prestação. nas obrigações genéricas e alternativas]. §5: LEGITIMIDADE PARA O CUMPRIMENTO. receber a prestação da coisa que o devedor não possa alhear. sob pena de anulação [arts. admite-se que a prestação seja realizada por um terceiro.Lara Geraldes @ FDL alienação ou oneração do património do devedor [vg escolha da prestação. Sendo a prestação realizada por terceiro. Compreende-se esta solução: de outro modo. se o credor. invocando. deve o cumprimento ser realizado pelo representante do incapaz. pois. O devedor tem que ser titular da coisa dada em prestação. a fim de realizar eficazmente o cumprimento. pode impugnar o cumprimento [art. Todavia. uma vez que o terceiro não se encontra vinculado à sua realização por um negócio jurídico anterior – a capacidade de terceiro é. 764º-1. Geralmente. §4: DISPONIBILIDADE DA COISA.Direito das Obrigações II . Quanto ao credor. ou o cumprimento anulado. sempre exigível. sob pena de destruir o objecto da prestação ou de não tirar qualquer proveito com o cumprimento. in fine]. 765º-1]. uma excepção fundada no princípio da proibição do enriquecimento injustificado.

arts. o Ainda assim. • Obtenção de um direito de reembolso de despesas [vg gestão de negócios ou mandato. o credor pode recusar a prestação de terceiro e exigir que seja realizada pessoalmente pelo devedor. quando cumpra com espírito de liberalidade [art. 940º] – o terceiro nada vai adquirir. ou não [art. O credor só poderá recusar a prestação. desde que o interesse não tenha interesse directo na satisfação do crédito.Lara Geraldes @ FDL • Legitimidade activa [autor da prestação: solvens] o O princípio da legitimidade activa é generalizado a todas as pessoas. vg por ter garantido a obrigação [arts. Neste caso. 767º-1]. o O terceiro não poderá cumprir se a prestação for infungível. tenham elas interesse directo no cumprimento da obrigação. 768º-2 e 592º]. • Transmissão do crédito para o terceiro por sub-rogação. por natureza ou por convenção das partes [nº2]. embora não se possa opor à sua realização por terceiro. O cumprimento por terceiro provoca os seguintes efeitos: o o o A obrigação extingue-se O devedor libera-se Eventualmente: • Doação indirecta do terceiro ao devedor.Direito das Obrigações II . 593º]. 768º-1 e 813º]. arts. sob pena de incorrer em mora perante o devedor como se tivesse recusado a prestação deste [arts. neste caso. o credor só pode exigir a prestação do devedor. 464ºss e 1157ºss] – o 118 . adquirindo o terceiro o mesmo direito que o credor possuía [art. 589ºss – o pagamento é visto como um facto determinante da transmissão do crédito. se o devedor se opuser ao cumprimento.

764º-2. 771º] – MENEZES LEITÃO critica esta solução. sob pena de anulação do cumprimento. 119 . ao invés de permitir a aceitação de prestações recebidas mediante procuração. em caso de pagamento de dívida alheia.Direito das Obrigações II . pelo que a realização da prestação a estes não comportará a extinção da obrigação. 813º]. só estes têm legitimidade para a receber. 769º]: a prestação deve ser feita ao credor ou ao seu representante. 477º] ou devedor [art. fazendo aplicar o regime da mora do credor [art. realizado por conta do devedor. o devedor poderá ser condenado a realizála uma segunda vez. uma vez que contraria as tendências da actual sociedade económica. o Todas as outras pessoas são considerados terceiros. nos termos do art. o Tratando-se de credor incapaz. caso o terceiro haja cumprido por se julgar erroneamente vinculado para com o credor [art. sem que se verifique nenhuma das situações supra – verificando-se proveito para o devedor. • Restituição do enriquecimento por prestação. 478º] – sem que exista causa jurídica para essa realização. • Restituição do enriquecimento por despesas. salvo convenção nesse sentido [art. Com efeito. e. em princípio. o Tratando-se de representação voluntária.Lara Geraldes @ FDL pagamento é juridicamente considerado um acto jurídico alheio. o devedor não é obrigado a satisfazer a prestação ao representante do credor. • Legitimidade passiva [receptor da prestação: accipiens]: o A legitimidade para receber a prestação é estabelecida em termos mais restritivos [art. é apenas ao representante legal que a prestação deverá ser efectuada.

804ºss]. 120 . 770º]:   a): estipulação ou consentimento pelo credor b): ratificação pelo credor.Lara Geraldes @ FDL o O devedor pode recusar a prestação perante o representante voluntário [PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA interpretam restritivamente esta disposição. 813ºss]. sob pena de este entrar em mora [arts. 777ºss]. 777º-1. adquirindo este legitimidade para tal [art. expressa ou tácita [o terceiro adquire legitimidade superveniente]   c): aquisição posterior do crédito pelo terceiro d): o credor não tem interesse em novo cumprimento da obrigação  e): o credor é herdeiro de quem recebeu a prestação  f): se a lei considerar liberatória a prestação feita a terceiro. No âmbito do tempo do cumprimento [arts. 770º. proémio]. 476º-2]. o Pagabilidade do débito [art. 1ª parte] • Momento em que o credor pode exigir do devedor a realização da prestação: sob pena de o devedor entrar em mora [arts. A realização da prestação a terceiro comporta os seguintes efeitos: o A obrigação não se extingue [art. não aplicável ao núncio nem ao encarregado de cobrança. o Excepções – casos em que a obrigação se extingue com a recepção por terceiro. podendo o autor/devedor da prestação exigir a sua restituição com fundamento no enriquecimento por prestação [art.Direito das Obrigações II . por outro motivo §6: TEMPO DO CUMPRIMENTO. a doutrina distingue: • Momento em que o devedor pode cumprir a obrigação: forçando o credor a receber a prestação. contra MENEZES LEITÃO].

Neste caso.Direito das Obrigações II . art. 777º-1. A determinação do prazo do cumprimento pode ser deixada ao critério de uma das partes: o credor ou o devedor. o O devedor apenas entra em mora com a exigência de cumprimento pelo credor [interpelação. 2ª parte] A este respeito. deve o tribunal fixar o prazo. casos há em que a obrigação não pode ser tida como pura. e na omissão da lei. a requerimento do devedor [art. quer pelas circunstâncias que a determinaram ou pelos usos. as obrigações são puras. 777º-1. 1ª parte] – obrigações com prazo certo o O decurso do prazo constitui o devedor em mora [art. 121 . o O credor tem direito de exigir a todo o tempo o cumprimento da obrigação. 777º-3]. 777º-2]. cumpre reter a seguinte contraposição: • Obrigações puras: cujo cumprimento pode ser exigido ou realizado a todo o tempo. • Obrigações a prazo: cuja exigibilidade ou possibilidade de realização do pagamento é diferida para momento posterior. • Quando o credor não use a faculdade que lhe foi concedida. uma vez que não têm prazo certo estipulado. cabe ao tribunal a fixação de prazo [art. o Prazo de cumprimento por estipulação das partes ou disposição especial da lei [art.Lara Geraldes @ FDL o Exigibilidade ou vencimento do débito [art. 777º-1]. a lei distingue: o Critério objectivo [vg capacidade económica do devedor] – obrigações cum potuerit/quando puder [art. o Regra geral. assim como o devedor pode a todo o tempo exonerarse dela [art. carecendo de prazo: quer pela própria natureza da prestação. • Quando o prazo seja deixado ao critério do devedor. 805º-2a]. o Mesmo que as partes não tenham estipulado prazo. 778º-1]. 805º-1].

uma vez que foi posta em causa a confiança do credor na solvabilidade do devedor. mas não exigibilidade o O devedor perde o benefício do prazo caso a sua situação patrimonial se altere [insolvência] ou pratique algum acto incompatível com a confiança do credor [diminuição das garantias do crédito e não realização de uma prestação nas dívidas a prestações] – o credor pode. respectivamente. sem que o credor a tal se possa opor.Direito das Obrigações II . • Ao credor [vg depósito.Lara Geraldes @ FDL o Critério subjectivo [vg se aprouver ao devedor realizar a prestação nesse momento] – obrigações cum voluerit/quando quiser [art. 778º-2]. art. Sendo assim. 1147º] o Nenhuma das partes tem a faculdade de determinar a antecipação do cumprimento o O decurso do prazo funciona para a pagabilidade e exigibilidade 122 . sob pena de mora do mesmo [art. renunciado ao benefício do prazo. 779º]: • Ao devedor: regra geral o o O credor não pode exigir a prestação antes do fim do prazo O devedor tem o direito de proceder à sua realização a todo o tempo. A possibilidade de a prestação ser realizada ou exigida em momento posterior constitui um benefício. A parte a quem é atribuído o benefício do prazo pode renunciar a ele. mas não pagabilidade • A ambos [vg mútuo oneroso. consoante respeite ao devedor ou ao credor. exigir o cumprimento imediato da obrigação [arts. 780º e 781º]. 813º] o Há pagabilidade. art. eis a quem pode competir o benefício do prazo [art. 1194º] o o o O credor tem a faculdade de exigir a prestação a todo o tempo O devedor só tem a possibilidade de cumprir no fim do prazo Há exigibilidade. nestes casos. podendo realizar a prestação antes do fim do prazo ou exigi-la a todo o tempo.

885º. também não tem que lhe assegurar a sua entrega efectiva. • Obrigações de entrega: o O devedor tem efectivamente que entregar a coisa ao credor no domicílio deste. 797º]. Se o transporte se atrasar ou a coisa se perder ou se deteriorar. Doutrinariamente temos: • Obrigações de colocação: o O devedor deve apenas colocar a prestação à disposição do credor no seu próprio domicílio ou noutro lugar. a obrigação só se extingue a partir do momento em que o credor recebe a coisa enviada.o lugar do pagamento do preço é o mesmo da obrigação de entrega da coisa]. sendo o transporte da conta e risco deste. • Obrigações de envio: o Situação intermédia: o devedor. cedendo perante estipulação contrária das partes e disposições especiais. 772ºss]. o lugar da prestação coincide com o lugar do resultado.Direito das Obrigações II . o O devedor está apenas obrigado a enviar a coisa para o domicílio do credor. sob pena de mora do devedor [art. previstas ao longo do CC [vg art.Lara Geraldes @ FDL §7: LUGAR DO CUMPRIMENTO. o O local do cumprimento é aquele onde o devedor procede à entrega ao transportador. Ainda assim. o risco corre por conta do credor [art. Nos dois casos. uma vez que se trata de mora do credor [art. 813º]. ou no lugar por este acordado. As regras que regulam o lugar onde deve ser realizada a prestação são supletivas [arts. embora não se limite a colocar a coisa à disposição do credor. o Ao credor cabe o ónus de levantar a prestação fora do seu domicílio – pelo não levantamento. 123 . 804º]. o devedor não pode ser responsabilizado.

217º]. a regra é a de que a obrigação seja cumprida no lugar onde a coisa se encontrava ao tempo da conclusão do negócio. Se. Exemplo: resulta da própria natureza da prestação que o lugar do cumprimento da prestação de pintar uma casa seja nessa mesma casa. 124 . seja essa coisa determinada [art. 775º]: o Se ocorrer mudança do domicílio do credor depois da constituição da obrigação. 1ª parte]. A determinação do lugar do cumprimento cabe. 774º] – obrigações de entrega. por outro lado. vg. o ónus de se deslocar ao domicílio do devedor para obter a prestação.Direito das Obrigações II . Durante o transporte e até à entrega ao credor. 772º-1] – obrigações de colocação. salvo prejuízo para o credor. a obrigação tiver por objecto a entrega de uma coisa móvel. o risco corre por conta do devedor. deve ser cumprida no domicílio que o credor tiver ao tempo do cumprimento [art. seja por convenção expressa ou tácita [art. O credor tem. sempre que a parte lesada sofra prejuízos com essa alteração: • Obrigações de colocação [art. Ainda assim. 772º-2]: o Se ocorrer mudança do domicílio do devedor depois da constituição da obrigação. assim. Na falta de convenção das partes. A alteração do domicílio das partes pode não significar necessariamente a alteração do local de cumprimento. em princípio. o A obrigação de entrega converte-se em obrigação de colocação. o cumprimento é realizado no domicílio do devedor. a regra geral é que o cumprimento seja realizado no domicílio do devedor: favor debitoris [art. 772º-1. a obrigação é de colocação. Se a obrigação tiver por objecto certa quantia de dinheiro [obrigações pecuniárias]. às partes [art. • Obrigações de entrega [art. o cumprimento é realizado no novo domicílio. face à facilidade das transferências de dinheiro. 773º-1] ou genérica [nº2]. uma vez que o credor deve ainda deslocar-se.Lara Geraldes @ FDL o Há uma diferenciação entre o lugar da prestação e o lugar do resultado da mesma.

e. livremente. a reter: • O devedor não pode imputar o cumprimento numa dívida ainda não vencida.Direito das Obrigações II . pelo devedor. 1ª parte]. caberá recurso à integração dos negócios jurídicos. 779º] – o devedor pode antecipar o cumprimento. ainda assim. se o prazo tiver sido estabelecido em benefício do credor [nº2. devendo a prestação ser realizada noutro lugar [art. Esta regra comporta excepções. §8: IMPUTAÇÃO DO CUMPRIMENTO. a obrigação não se considera extinta. 790º] – impossibilidade superveniente. 239º. 776º]: • Havendo lacuna negocial. quando seja essencial em relação à própria prestação [vg por destruição do edifício ou alterações climatéricas que impossibilitam espectáculo ao ar livre]: • Se a impossibilidade já existia no momento da conclusão do negócio: nulidade [arts.. a escolha das dívidas a que o cumprimento se refere [art. permanecer alguma lacuna negocial. 239º]. • Se a impossibilidade é posterior à celebração do negócio: extinção da obrigação [art. ao devedor cabe a faculdade de imputação do cumprimento. o Prazo estabelecido em benefício do credor: este pode recusar a antecipação do cumprimento. 280º-1 e 401º] – impossibilidade originária.Lara Geraldes @ FDL Quanto à impossibilidade de realização da prestação no lugar fixado. i. a mesma será integrada de harmonia com a vontade hipotética das partes [art. se o lugar do cumprimento não aparecer como essencial em relação à obrigação. 783º-1]. o Regra geral: o prazo é estabelecido em benefício do devedor [art. nos termos do art. Diferentemente. 125 . Se. Quando existam várias dívidas e a prestação prestada não chegue para as extinguir a todas. • Aplicar-se-iam as regras supletivas dos arts. 776º. 772ºss – foi esta a solução legal consagrada no art. o Contratos bilaterais/sinalagmáticos: perda do direito à contraprestação.

para o cumprimento. §9: PROVA DO CUMPRIMENTO. quando conste de documento avulso] de que recebeu a prestação em dívida – o devedor encontra-se “quite” para com o credor [art. em virtude de já ter decorrido determinado prazo sobre a constituição da obrigação [arts. §10: NATUREZA JURÍDICA DO CUMPRIMENTO. prescrições presuntivas]. não podendo o credor substituir-se ao devedor na imputação. • O devedor não pode imputar o cumprimento numa dívida de capital. pelo que se recomenda que o autor do cumprimento exija do credor uma declaração escrita [quitação ou recibo.Direito das Obrigações II . 762º-1] a teoria da realização real da prestação. Quanto à natureza jurídica do cumprimento. 784º. 787º]. cabe aplicação das regras supletivas do art. de cariz real ou material.Lara Geraldes @ FDL o O mesmo se diga se o prazo for estipulado em benefício de ambas as partes [MENEZES LEITÃO]. • O devedor não pode imputar o cumprimento numa dívida de montante superior à prestação efectuada. o cumprimento não pode ser provado mediante prova testemunhal [art. uma vez que o cumprimento constitui um facto extintivo do direito do credor que deve ser demonstrado pela parte contra quem o crédito é invocado [art. Por vezes a lei presume já ter ocorrido o cumprimento. nos termos da qual será suficiente. o Princípio da integralidade da prestação [art. 785º-2]. ao devedor. indemnização moratória ou juros [art. Caso o devedor não efectue a designação. A prova do cumprimento compete. assim. sempre que o credor tenha a faculdade de recusar o pagamento parcial [nº2. 342º-2]. a obtenção do resultado da prestação através do acto de prestar do devedor que corresponda à prestação devida. 763º-1]. defendida por LARENZ. 395º]. Rejeita-se. Refere GALVÃO TELLES que no 126 . em princípio. qualquer carácter negocial ao cumprimento. Todavia. a nossa lei consagrou expressamente [art. enquanto estiver obrigado a pagar também despesas. 2ª parte]. 312ºss. uma vez que se trata de um simples acto devido.

Exemplo: em lugar da entrega de um automóvel. pode não corresponder ao interesse do credor. mesmo que de valor superior. que não exige qualquer exteriorização do animus solvendi. como a obrigações de prestação de coisa fungível. com assentimento do credor. 837ºss] consiste numa causa de extinção das obrigações através da prestação de coisa diversa da que era devida. genéricas. prestação de facto ou de facere. art. 837º respeita tanto a obrigações de prestação de coisa específica. pelo que não cabe exoneração. obrigações pecuniárias. o Não há qualquer limitação: o art. a uma nova obrigação assumida pelo credor [vs novação.Lara Geraldes @ FDL cumprimento não se inova. todavia. vg. nos termos do art. 762º-1 – realiza um aliud em relação ao que estava originariamente vinculado. 408º-1]. 857º]. ainda que de valor superior. não sendo suficiente a mera celebração do acordo transmissivo do direito [vs art. A dação em cumprimento [arts. • Acordo do credor relativo à exoneração do devedor com essa prestação: o Brocardo aliud pro alio: a outra prestação.Direito das Obrigações II . mas somente se executa: acto real de liquidação. o A prestação deve ser definitivamente realizada. podemos concluir pelos seguintes pressupostos: • Realização de uma prestação diferente da que foi devida: o A prestação que o devedor realiza não coincide com aquela a que está vinculado. Causas de Extinção das Obrigações além do Cumprimento §1: DAÇÃO EM CUMPRIMENTO E DAÇÃO PRO SOLVENDO. Desta primeira noção. o Essa prestação não corresponde. pode haver cumprimento mediante entrega de quantia monetária ou de um barco. 127 .

cabe a repetição do indevido. Quanto à natureza jurídica desta figura.Lara Geraldes @ FDL o Obrigação solidária: a dação em cumprimento pode ser realizada apenas por um dos devedores [art. salvo verificação de facto extintivo autónomo [vg prescrição]. distinguir: • Dação pro solvendo: o A realização da prestação diversa da devida não visa obter a imediata exoneração do devedor. 523º] e/ou apenas a um dos credores [art. limitando-se a qualificá-la como uma forma convencional de extinção das obrigações através da realização de uma prestação diversa da devida. 840º]. a relação obrigacional primitiva continua a subsistir. A dação em cumprimento determina a extinção da obrigação [art. ou dação em função do cumprimento. consiste na execução de uma prestação diversa da devida. Se a dívida a extinguir não existia. segundo o qual se recusa a integração da dação em cumprimento noutras categorias. para que o credor proceda à realização do valor dela e. com isso. 128 . 839º]. obtenha a satisfação do seu crédito [através da transformação em dinheiro da prestação realizada]. 476º-1]. pois. mas antes proporcionar ao credor uma forma mais fácil de obter a satisfação do seu crédito: o crédito subsiste até que o credor venha a realizar o valor dele [vg através da venda do bem entregue. Diferentemente. se a dação em cumprimento for inválida. dolo ou coacção] não renascem as garantias prestadas por terceiro de boa fé [art. 532º] – dependendo da solidariedade ser passiva ou activa. nos termos gerais [art. com a consequente exoneração do devedor. respectivamente. da cobrança do crédito ou do cumprimento da dívida]. A dação pro solvendo [art. Se a causa de invalidade for imputável ao credor [vg simulação. a realização da prestação por um dos condevedores determina a extinção da obrigação para com os restantes. Em regime de solidariedade.Direito das Obrigações II . Cumpre. 837º]. MENEZES LEITÃO concorda com o entendimento de MENEZES CORDEIRO. O mesmo se diga quanto à solidariedade activa [extinção da obrigação do devedor para com todos os credores].

1170º-2]. mas sim de um meio de facilitar o cumprimento das obrigações: trata-se de um negócio preparatório do cumprimento. ou quando este se encontre em mora [art. salvo justa causa [art. mas o último ausentou-se inesperadamente. em cumprimento de um encargo que lhe é conferido pelo devedor. • Dação em cumprimento: o A realização da prestação diversa da devida visa obter a imediata exoneração do devedor. A consignação. Eis os pressupostos desta causa de extinção: • A obrigação tem por objecto uma prestação de coisa [vg quantia pecuniária]: 129 . consiste na possibilidade reconhecida ao devedor nas obrigações de prestação de coisa de extinguir a obrigação através do depósito judicial da coisa devida. nº2] de extinguir a obrigação sem a colaboração daquele. sempre que não possa realizar a prestação com segurança por qualquer motivo relacionado com a pessoa do credor. Conclui-se: a datio pro solvendo consiste num mandato conferido pelo devedor ao credor para proceder à liquidação da prestação realizada. não é justo que. o É a actuação do devedor que extingue a obrigação.Lara Geraldes @ FDL o Não se verifica uma causa distinta de extinção das obrigações. Não poderá ser revogado pelo devedor. §2: CONSIGNAÇÃO EM DEPÓSITO. outra causa de extinção das obrigações. o devedor fique indefinidamente vinculado ao cumprimento. A consignação em depósito é necessariamente judicial: se extrajudicial. o É a actuação do credor que extingue a obrigação. não extinguirá qualquer obrigação. pelo que é conferida ao devedor a faculdade [facultativa. Com efeito. 841º-1]. Exemplo: o devedor desloca-se a casa do comprados para entregar a encomenda. Considera-se que o credor não presta a colaboração necessária para esse cumprimento. nestes casos.Direito das Obrigações II . o Verifica-se uma causa distinta de extinção das obrigações.

 Exemplos: credor que recusa receber a prestação ou credor que recusa passar quitação da dívida [art. 443ºss]. por qualquer motivo relacionado com a pessoa do credor. 813ºss]. O credor adquire um direito à entrega da coisa por parte do consignatário [art. o Mora do credor: recusa em receber a prestação ou praticar os actos necessários ao cumprimento [arts. 764º-2]. o consignatário da coisa devida e o credor: o o Semelhanças com o contrato a favor de terceiro [arts.Lara Geraldes @ FDL o o Prestações de facto positivo: insusceptíveis de depósito.Direito das Obrigações II . Prestações de facto negativo: o cumprimento da obrigação ocorre independentemente da cooperação do credor.  Exemplos: credor incapaz sem representante legal [art. credor cujo paradeiro é desconhecido ou o devedor que não sabe com segurança quem é o credor. 844º]. Os efeitos da consignação em depósito podem ser de três ordens: • Instituição de uma relação processual entre o consignante/depositante e o credor • Instituição de uma relação substantiva triangular entre o consignante/depositante. • Não é possível ao devedor realizar a prestação por motivo relativo ao credor: o Impossibilidade não imputável ao devedor de realizar a prestação ou de o fazer com segurança. 787º-2]. o Relação de cobertura: consignante e consignatário o Relação de atribuição: obrigação que o consignante visa satisfazer o Relação de execução: o credor recebe o direito sobre o consignatário • Eficácia da consignação sobre a obrigação: 130 .

449º].€ 500 = 0] ou pela dedução a uma das prestações daquela devida pela contraparte [arts. admitindo-se a compensação em relação a prestações de coisa fungível [art. quando duas pessoas estejam reciprocamente obrigadas a entregar coisas fungíveis da mesma natureza. A extinção de ambas as obrigações por compensação determina a exoneração de ambos os devedores. 847º]: • Existência de créditos recíprocos: o Cada uma das partes tem que possuir um crédito contra a outra o Fica vedada a invocação de créditos alheios [art. seria sempre necessário o consentimento do respectivo credor. §3: COMPENSAÇÃO. é admissível que as respectivas obrigações sejam extintas. 846º]. na pendência do processo. o Ao devedor é atribuída. Para tal. do mesmo género e qualidade – vg quantidades de uma mesma mercadoria. total ou parcialmente. Por outro lado.Direito das Obrigações II . ainda que ligadas por qualquer relação ao credor [vg contrato a favor de terceiro. 851º-2] – vg fiador ou condevedor solidário. 847ºss]. no percurso do processo: o risco corre pelo credor e a dívida não vence juros. pela dispensa de ambas de realizar as suas prestações [ficando “quites”: € 500 . 131 . não podem ser invocados créditos sobre outras pessoas. art. uma excepção dilatória de recusa da prestação.Lara Geraldes @ FDL o A obrigação persiste. Cumpre atender aos seguintes pressupostos da compensação [art. retroagindo até à data do depósito [art. 207º]. • Fungibilidade das coisas objecto das prestações e identidade do seu género: o A compensação não foi restringida ao dinheiro. o Consignação aceite pelo credor ou declarada válida pelo tribunal: exoneração do devedor. A compensação é uma forma de extinção das obrigações segundo a qual.

aos sistemas francês. na medida em que carece de ser invocada por uma das partes.Direito das Obrigações II . mediante declaração judicial ou extrajudicial. caso uma das dívidas seja de montante superior à outra [art. pois. 847º-2]. conforme consagrado no CC. contrariamente. se após essa data um dos créditos for cedido a 132 . retroactivamente [art. 847º-1] – só podem ser compensados os créditos em relação aos quais o declarante esteja em condições de obter a realização coactiva da prestação. 854º] – é esse o momento relevante para a extinção da obrigação. As vantagens desta figura residem no facto de se extinguirem ambas as obrigações sem necessidade de realização da prestação devida. uma vez feita essa declaração. Assim. 402º] ou créditos ainda não vencidos. a compensação não opera de modo automático. • Exigibilidade do crédito que se pretende compensar: o O crédito do declarante tem que ser judicialmente exigível [art. que opera de direito [ope legis] e sem necessidade de qualquer declaração negocial nesse sentido [CC de 1867]. facilitando os pagamentos. exigindo-se. como condição de eficácia da compensação. foi influenciado pelo BGB. e de funcionar como garantia dos créditos [vg perante insolvência do devedor]. Em conclusão. o Excluem-se: créditos de obrigação natural [art. os créditos consideram-se extintos desde o momento em que se tornaram compensáveis. uma vez que se admite a compensação parcial. uma declaração da parte que a pretende [art.Lara Geraldes @ FDL o A quantidade pode não ser idêntica. 848º]. 853º]: • • • • • Créditos provenientes de factos ilícitos dolosos Créditos impenhoráveis Créditos do Estado ou de outras pessoas colectivas públicas Créditos cuja compensação envolva lesão de direitos de terceiros Créditos cujo devedor haja renunciado à compensação O regime legal da compensação. italiano e espanhol: compensação automática. No entanto. Não são compensáveis os seguintes créditos [art.

A novação [novatio. • Novação objectiva: a nova obrigação se constitui entre os mesmos credor e devedor da obrigação antiga [art. que substitui a primeira [arts. admissível em termos autónomos. do Estado ou de outras pessoas colectivas públicas. 857º]. é admissível a figura da compensação convencional ou contratual: compensação que. na esteira de LARENZ. em lugar de ocorrer através de uma declaração unilateral. situa a compensação no âmbito dos tipos contratuais. um novo vínculo. Dessa extinção resulta uma dependência da causa jurídica do facto extintivo em relação ao facto constitutivo da nova obrigação. a antiga obrigação só se extingue porque veio a ser constituída uma nova. A declaração de compensação é ineficaz se for feita sob condição ou termo [art. MENEZES LEITÃO. e não é necessário que se trate de créditos recíprocos. 853º-2. arrestado ou penhorado.Lara Geraldes @ FDL terceiro. A par da compensação legal supra. através da qual se vem suprir reciprocamente o cumprimento de duas obrigações. a existência de créditos de ambas as partes. §4: NOVAÇÃO. exigíveis ou que tenham por objecto prestações homogéneas. do Direito Romano] é a causa de extinção das obrigações através da constituição de uma nova obrigação. 848º2]. 857º ss]. de modo a salvaguardar o grau de certeza que é necessário conferir à extinção da obrigação. retroagindo ao momento da compensabilidade dos créditos. a contrario]. o Pode ocorrer através de:   Mudança no objecto da obrigação Alteração da fonte da obrigação 133 . embora o facto jurídico que desencadeia a extinção da obrigação antiga seja simultaneamente o facto jurídico que constitui a nova obrigação. 853º-2]. e vice versa: por outras palavras. Exige-se. o declarante pode continuar a invocar a compensação [art. mas não face a créditos impenhoráveis [art. Também é admitida face a créditos por factos ilícitos dolosos. tão-só. e a nova obrigação só se constitui porque veio a ser extinta a antiga.Direito das Obrigações II . 853º-b] ou de créditos que impliquem prejuízo para terceiros [art. assim. Constitui-se. resulta de um acordo celebrado entre as partes [contrato de compensação].

859º]:  Sob pena de se considerar uma mera modificação ou transmissão da obrigação primitiva.  Substituição do devedor: um novo devedor.  Não se pode inferir uma novação através de simples modificações da obrigação.Direito das Obrigações II .  Exige-se exteriorização do animus novandi: não se admitem presunções de novação. 134 . mas fora entretanto declarada nula ou anulada [art. contraindo nova obrigação. estava extinta ao tempo em que a segunda foi constituída ou existia. como nas alterações do prazo de pagamento. etc. 858º]. tendo sempre como pressuposto a existência prévia de uma obrigação.Lara Geraldes @ FDL • Novação subjectiva: verifica-se uma mudança de algum dos sujeitos da obrigação [art. • Pressupostos comuns: o Declaração expressa da intenção das partes de extinguir a anterior obrigação. criando uma nova em sua substituição [art. nem novações tácitas. é substituído ao antigo. 860º-1] – a novação não é um negócio abstracto. o Pode ocorrer por:  Substituição do credor: um novo credor é substituído ao antigo. que as partes visam extinguir e substituir por uma nova.  A novação torna-se ineficaz quando se verifique que a obrigação antiga não existia. o Existência e validade da obrigação primitiva:  Pressupõe-se a existência de uma obrigação antiga. taxas de juro. e não uma novação. que é exonerado pelo credor.

Direito das Obrigações II . 289º ss e art. arts. • E já se tenha verificado o cumprimento: o autor do cumprimento tem direito a uma pretensão restituitória [arts. As garantias poderão ser reservadas para a nova obrigação.Lara Geraldes @ FDL Sendo ineficaz a novação: • E não se tendo ainda verificado o cumprimento: o devedor pode recusar a sua realização. em princípio. subsistindo a obrigação primitiva [art. Com efeito. uma vez mais. 860º-2]. caso a obrigação seja inexistente: repetição do indevido] o Constituição válida da nova obrigação:  Sob pena de não se verificar a novação. 476º-1. 862º]. Os meios de defesa da obrigação antiga [vg existência de um prazo ou excepção do não cumprimento] extinguem-se em consequência da novação [art. Quanto ao regime da novação. quando expressamente estipulado pelas partes. justificadamente. as garantias relativas à obrigação antiga [art.  A lei tutela a situação de confiança de terceiros garantes que deixam de contar. ao extinguir-se a dívida. chegou a ser equacionada [tal como no BGB]. o novo crédito não recebe. e da admissibilidade da transmissão de créditos e de dívidas. 861º]. 860º-2]. aquando dos trabalhos preparatórios do CC. desde que haja declaração expressa nesse sentido. 585º e 598º]. Será admissível. com a  eventualidade de terem que satisfazer essa obrigação: quando a nova obrigação seja imputável ao credor [art. naturalmente se extinguem os meios de defesa que a ela respeitavam. Aqui. uma vez que a garantia é sempre concedida tendo em atenção uma concreta obrigação. a não consagração da novação. 135 . ao contrário do que acontece na transmissão das obrigações [transmissão das excepções. Actualmente a novação perde importância histórica em face da modificação por consenso do objecto da obrigação.

Se o credor concluir que a instauração de uma acção executiva não teria efeitos práticos. em relação ao devedor. • Razões de amizade. Contra a regra geral de extinção dos direitos por acto unilateral. onde o credor se limita a declarar a inexistência de qualquer obrigação. o A remissão não é. Exemplos: • • Se o credor sabe que o devedor se encontra em dificuldades económicas.. enfim. Por outras palavras. a remissão consiste no acordo entre o credor e o devedor pelo qual o credor prescinde de receber deste a prestação devida. o reconhecimento negativo de dívida. o Problemas práticos: na maior parte dos casos o credor não espera resposta à sua declaração. pelo credor. na abdicação do direito de crédito. vs CC italiano]: exige-se declaração do credor de que abdica de receber a prestação. i. e aceitação dessa abdicação pelo devedor.Lara Geraldes @ FDL §5: REMISSÃO. • Contrato entre credor e devedor pelo qual aquele abdica de receber deste a prestação devida: o A remissão reveste necessariamente de carácter contratual [influências do BGB. representando. e o devedor não vê necessidade de a ela responder.Direito das Obrigações II . 863º ss]. por isso. o O contrato de remissão consiste num acto de disposição do direito do credor. Eis os pressupostos desta causa de extinção das obrigações: • Existência prévia de uma obrigação: o A celebração da remissão pressupõe a existência da obrigação que se visou extinguir. A remissão consiste no “perdão de dívida”. contra o devedor. com o acordo deste.e. uma atribuição patrimonial geradora de enriquecimento [liberalidade ou 136 . determinando a extinção da dívida sem a realização da prestação [arts.

o Extingue-se a obrigação em relação a todos os sujeitos. A obrigação não é afectada quanto aos demais sujeitos. o Regime da solidariedade: • Passiva: a obrigação remetida de um dos devedores extingue-se. cumpre distinguir: • Remissão in rem: remissão concedida a todas as partes ou por todas elas.Lara Geraldes @ FDL compromisso pessoal do credor para com o devedor]. mantendo-se a dos restantes devedores. o Regime da conjunção ou da parciariedade: extinguem-se as fracções da obrigação em relação às partes em que ocorreu a remissão. o Não é concebível que a remissão seja efectuada como contrapartida da realização de uma prestação [dação em cumprimento] ou da constituição de uma nova obrigação [novação]. 863º-2 e 940º ss]. 864º-1]. embora liberados pela parte relativa do devedor exonerado [art. perdendo o credor o seu direito de crédito em termos definitivos. Existindo uma pluralidade de partes. A obrigação mantém-se em relação às restantes. • Activa: o devedor fica exonerado na parte relativa ao credor solidário que concede a remissão [art. o Remissão concedida por ou em benefício de pessoas específicas. 864º-3]. a remissão por negócio entre vivos é havida como doação [arts.Direito das Obrigações II . A remissão extingue a obrigação e libera o devedor. em relação às quais produzirá efeitos. No caso de ser realizada a título de liberalidade. • Obrigação plural indivisível: • Passiva: a remissão concedida pelo credor a um dos devedores implica que o credor só possa exigir 137 . • Remissão in personam: remissão concedida a apenas algumas partes ou por apenas algumas delas.

865º-2]. 867º]: o devedor não pode aproveitar o benefício dessa renúncia para dele inferir a remissão da obrigação. por cessão. pelo que quando essa alteridade não se verifica. Com efeito.Direito das Obrigações II . a obrigação pressupõe a alteridade dos sujeitos que estão na posição de credor e de devedor. 866º-1]: fiança. Pelo contrário. Exemplos: • Não há alteridade se o devedor adquirir. deixa de haver necessidade jurídica de manter a obrigação. o Efeitos quanto a terceiros: consideram-se extintas todas as garantias que asseguravam o cumprimento da obrigação [art. A confusão consiste na extinção simultânea do crédito e da dívida em consequência da reunião. hipoteca. 138 . §6: CONFUSÃO. 868º ss]. das qualidades de credor e devedor. A confusão é a última causa de extinção das obrigações regulada pelo CC [arts. a renúncia às garantias da obrigação não faz presumir a remissão da dívida [art. 865º-1 e 536º]. privilégio e direito de retenção – razões de tutela da confiança de terceiros garantes. na mesma pessoa. penhor. embora estes só possam exigir-lhe a prestação se entregarem o valor da parte que competia àquele credor [art. • Activa: a remissão concedida por um dos credores ao devedor implica que este não fique exonerado perante os restantes credores.Lara Geraldes @ FDL a prestação dos restantes se lhes entregar o valor da parte que compete ao devedor exonerado [arts. o crédito que sobre ele tinha um credor anterior. consignação de rendimentos. uma vez que quem normalmente renuncia a uma garantia não o faz por pretender abdicar do crédito.

139 . antes se recupera a propriedade plena [arts. a menos que o credor tenha interesse na sua manutenção [art. da posição que a outra ocupava no crédito ou no débito. Não se extingue o direito de crédito. por uma das partes. • Inexistência de prejuízo para os direitos de terceiro [art. na mesma pessoa. em sentido técnico: • Reunião. 871º-1]: o Se o vínculo obrigacional se encontrar igualmente a funcionar em benefício de terceiro [vg usufruto ou penhor sobre crédito]. na mesma pessoa. Se a confusão se verificar em consequência de o devedor adquirir o crédito por herança.Direito das Obrigações II .Lara Geraldes @ FDL • Não há alteridade se uma sociedade vir a ser objecto de fusão com outra. 871º-3 e 4]. antes se extingue a garantia. das qualidades de devedor e garante da obrigação. Pressupostos da confusão proprio sensu: • Reunião. 1536º-1d) e 1569ºa]. Não se extingue o direito de crédito. continua ele a responder pela sua obrigação até à liquidação e partilha [art. 1476º-1b). o Em virtude da aquisição conjunta por um terceiro das posições que ambas as partes ocupavam na obrigação. das qualidades de credor e devedor: o Em virtude da aquisição. na mesma pessoa. 2074º-1]. 871º-2]. extinguindo-se os créditos e as dívidas recíprocas. 872º]. • Confusão imprópria: reunião. • Não pertença do crédito e da dívida a patrimónios separados: o o Sob pena de não se verificar a confusão [art. Não são exemplos de confusão. das qualidades de proprietário e titular de um direito real menor. esse vínculo subsiste [art.

embora continuem a responder solidariamente pela restante obrigação [art. quer as garantias sejam prestadas pelo devedor ou por terceiro. • Regime da solidariedade: o Passiva: se forem reunidas na mesma pessoa as qualidades de devedor solidário e credor. a obrigação renasce com os acessórios supra. 869º-1]. na mesma pessoa. cumpre distinguir: • Regime da conjunção ou da parciariedade: extinguem-se as fracções da obrigação em relação às partes em que ocorreu a confusão. consignação de rendimentos. o Activa: com vários credores – a reunião. penhor. hipoteca. 873º-2]. 869º-2]. bem como de todas as garantias que asseguravam o seu cumprimento [fiança. embora estes só lhe possam exigir 140 .Lara Geraldes @ FDL A extinção da obrigação por confusão provoca a extinção de todos os acessórios do crédito [vg sinal. • Obrigação plural indivisível: o Passiva: com vários devedores – a reunião. por razões de tutela da confiança [art. da posição de credor e de condevedor implica que este só possa exigir a prestação dos restantes condevedores se lhes entregar o valor da parte da posição que adquiriu [arts. ficando os restantes devedores exonerados nesse âmbito. 870º-1 e 536º]. mas apenas na parte relativa a esse credor [art. À semelhança da remissão. cláusula penal e obrigações de juros]. o devedor fica exonerado. 873º-1].Direito das Obrigações II . mesmo em relação a terceiro [art. da qualidade de devedor e co-titular do crédito não a exonera perante os restantes credores. A obrigação não é afectada quanto aos demais sujeitos. Se a confusão se desfizer. o Activa: se forem reunidas na mesma pessoa as qualidades de devedor e credor solidário. na mesma pessoa. privilégio e direito de retenção]. e verificando-se uma pluralidade de partes. mas não quanto às garantias prestadas por terceiros [a extinção das garantias mantém-se]. a obrigação deste extingue-se nessa parte da dívida.

uma vez que não se trata de uma hipótese de impossibilidade. inferimos que a impossibilidade originária e objectiva da prestação está relacionada com a inviabilidade física ou legal do objecto. não se pode cumprir aquilo que é. sem mais.Lara Geraldes @ FDL a prestação se lhe entregarem o valor da parte que competia àquele credor [arts. é nulo o negócio jurídico cuja prestação seja originaria e objectivamente impossível e que as partes não tenham admitido a possibilidade de se tornar possível. nos termos do art. O cumprimento pode ser impossível por causa não imputável ao devedor quando o próprio objecto do cumprimento seja impossível [objecto mediato ou imediato]. per se. e não 141 . §2: IMPOSSIBILIDADE ORIGINÁRIA E SUPERVENIENTE. Servindo-nos dos requisitos do objecto negocial. se o cavalo vier a morrer depois da celebração do contrato. A impossibilidade originária do cumprimento determina a nulidade do negócio jurídico. diferentemente. Com efeito. há incumprimento. Inversamente. 280º]: • Impossibilidade física absoluta: aspectos materiais derivados da natureza das coisas [vg inexistência – compra e venda de cavalo que havia perecido anteriormente ao acordo. Por outro lado. em abstracto. DO NÃO CUMPRIMENTO DAS OBRIGAÇÕES Impossibilidade de Cumprimento e Mora não Imputáveis ao Devedor §1: IMPOSSIBILIDADE DE CUMPRIMENTO. e reformulando. mas sim de incumprimento. com a contrariedade à lei ou com a indeterminabilidade [art. também não é nulo o negócio que as partes celebraram na expectativa de a prestação vir a ser possível [nº2] – vg venda de bens futuros. Por outras palavras. 401º-1. impossível. não acarreta a nulidade do negócio jurídico a impossibilidade da prestação relativamente à pessoa do devedor [nº3].Direito das Obrigações II . 870º-2 e 865º-2].

exemplo da venda de cavalo que perece depois de celebrado o contrato. No estudo subsequente. pelo que o cumprimento defeituoso ou a impossibilidade de eliminação dos defeitos não constitui um caso de impossibilidade física do objecto [vg compra e venda de cavalo que padece de doença incurável]. • Impossibilidade legal: casos de negócios que se dirijam à conclusão de outros [vg contrato-promessa de compra e venda de bens fora do comércio ou de um imóvel verbalmente]. • Indeterminabilidade: negocial. art. por seu lado. A impossibilidade [superveniente] pode ser: • • • • Imputável ao devedor [arts. uma vez que a impossibilidade originária tem maior relevância em sede da Teoria Geral do Direito Civil. mas antes o seu incumprimento [cfr.Lara Geraldes @ FDL impossibilidade. 791º] §4: IMPOSSIBILIDADE DEFINITIVA E TEMPORÁRIA. fraude à lei]. 790º] Impossibilidade subjectiva: pessoa do devedor [art. supra]. não determina a nulidade do negócio. impossibilidade de concretização do objecto A impossibilidade superveniente. atender-se-á somente à impossibilidade superveniente.Direito das Obrigações II . 1306º. • Contrariedade à lei: violação de disposições legais [vg negócios contra legem – constituição de um direito real não tipificado. 142 . uma vez que o contrato é válido – contrato real quoad effectum]. A impossibilidade física tem que ser absoluta. 798º ss] Imputável ao credor Imputável a terceiro Não imputável §3: IMPOSSIBILIDADE OBJECTIVA E SUBJECTIVA. Esta distinção releva a dois níveis: • • Impossibilidade objectiva: objecto da prestação [art.

792º]. §6: IMPOSSIBILIDADE ABSOLUTA E RELATIVA. 437º].Lara Geraldes @ FDL • • Impossibilidade definitiva: situação de impossibilidade irreversível Impossibilidade temporária: situação de impossibilidade que perdurará por determinado período [art. o credor é tutelado por duas vias alternativas: • O credor substitui-se ao devedor na titularidade de direito que este adquira relativamente a terceiro por virtude do facto que tornou impossível a prestação [vg seguro e subsídio]. uma vez que a obrigação se extingue [art. 793º]. §5: IMPOSSIBILIDADE TOTAL E PARCIAL. Se a prestação for impossível. 790º]. o devedor fica exonerado de cumpri-la. o Alteração das circunstâncias [art. • • Impossibilidade total: impossibilidade que respeita a toda a prestação. o Há situações de impossibilidade relativa que são equiparáveis a hipóteses de impossibilidade absoluta: em razão do carácter excessivamente oneroso e atendendo a regras da boa fé. determinando também a exoneração do devedor.Direito das Obrigações II . Exemplo: entrega do anel que caiu ao rio. • Impossibilidade absoluta: exonera o devedor. o Distingue-se de difficultas praestandi. • O credor exige que o devedor lhe preste a coisa cujo direito adquiriu por virtude do facto que tornou impossível a prestação. 143 . §7: EFEITOS. Segundo o commodum de representação [art. 794º]. • Impossibilidade relativa: não exonera o devedor. Impossibilidade parcial: impossibilidade que afecta uma parte da prestação [art.

Prazo admonitório. ao que lhe era devido. Cumpre estabelecer a seguinte distinção: Risco da prestação: é regra geral suportado pelo credor. 815º]. ajustandose. A prestação deve ser efectuada integralmente e não por partes. §8: TRANSFERÊNCIA DO RISCO NAS PRESTAÇÕES DE COISA. contratos reais e âmbito do art. Ainda que lhe seja imputável. 816º]. excepto se a prestação se tornar impossível por causa imputável ao credor. disposição legal ou uso em contrário [art. 144 . Há mora do credor quando este não aceita a prestação ou não colabora na aceitação da mesma [arts. art. 813º ss]. com direito de compensação do devedor [art. a impossibilidade de uma prestação determina que o credor fica desobrigado da contraprestação [nº1]. 762º-2]. caso em que este deverá efectuar a contraprestação [nº2]. Cumprindo a sua prestação pontualmente [arts. §9: MORA DO CREDOR. Falta de Cumprimento Imputável ao Devedor §1: NÃO CUMPRIMENTO. em todos os aspectos. tal não pressupõe culpa do credor. 796º]: cfr. A obrigação mantém-se e assiste-se a uma inversão do risco [art.Lara Geraldes @ FDL Quanto à contraprestação. 406º-1 e 762º-1].Direito das Obrigações II . supra. 408º. salvo convenção. com a reserva dos contratos sinalagmáticos [repartição de risco. maxime no caso dos contratos sinalagmáticos [art. 795º]. Risco da coisa [art. O devedor [solvens] terá que realizar a prestação nos seguintes termos: Nos termos impostos pela boa fé [art. 763º]. 795º]. sem que a sua actuação cause prejuízos ao credor.

A responsabilidade obrigacional assenta no princípio da culpa. subjectiva [arts. na vigência do CC anterior]. desde que. Assim. nestes casos o não cumprimento reconduz-se normalmente apenas a um incumprimento relativo a um momento concreto. 799º e 487º-2]. em princípio. estar-se-á perante uma situação de não cumprimento do dever obrigacional. §2: RESPONSABILIDADE CONTRATUAL. ainda que apreciada nos termos gerais – em abstracto. 798ºss [não cumprimento culposo] são aplicáveis. As regras constantes dos arts. assim.Lara Geraldes @ FDL Nos casos em que o devedor desrespeite os princípios supra. a responsabilidade contratual [a culpa era apreciada em concreto. A natureza unitária da responsabilidade civil. situação em que haverá direito de resolução. uma vez que a responsabilidade civil é. ou pura e simplesmente não realize qualquer prestação. 798º ss] presume-se a culpa do devedor. não pondo em causa a relação contratual no seu todo. Objectivou-se. enquanto um todo. sem culpa]. Como excepção. No caso do direito à resolução em caso de não cumprimento. 483º-2 e 798º]. atendendo a critérios de normalidade. o solvens considera-se culpado. resta-nos o art. §3: TERCEIRA VIA DE RESPONSABILIDADE CIVIL. Com efeito. a prestação fosse viável. entende-se que só uma violação grave ou reiterada dá fundamento para a resolução do contrato de prestação periódica ou continuada. tem tido ecos na doutrina nacional: o próprio legislador dotou o CC de regras gerais da responsabilidade 145 . Nesses casos. pela diligência do bom pai de família [arts. vg. 800º [responsabilidade contratual objectiva. presumindo-se a culpa do devedor.Direito das Obrigações II . A summa divisio entre a responsabilidade obrigacional e a responsabilidade extra-contratual encontra-se hoje esbatida: veja-se o desenvolvimento de especiais deveres de protecção das partes no contrato. cumpre aferir se houve ou não uma quebra na relação de confiança estabelecida entre as partes. oferecendo alguns problemas em face de relações continuadas ou periódicas. que pressupõem o cumprimento sucessivo de várias prestações. às prestações de execução instantânea. Em caso de não cumprimento culposo [arts. em regra.

227º]: responsabilidade pré-contratual. segundo preconizada por JHERING. relacionados com certas actividades e profissões. não pretendem afastar as regras gerais nem advêm de criação doutrinária ou jurisprudencial: Responsabilidade do produtor [cfr. 562º ss]. nestes termos. não podem ser uma verdadeira modalidade de responsabilidade civil. como em todas as relações de especialidade. através da acção de cumprimento. Esses deveres não dispõem de tutela primária. ainda que com concretizações especiais que. contrapostos aos direitos absolutos. por meio do qual alguém possa exigir a outrem uma prestação. 146 . o Violação de deveres pré-contratuais:  Informação [informação insuficiente ou omissa quanto à qualidade do bem. Exemplifiquemos: • Culpa in contrahendo [art. certa doutrina apelida de “terceira via” da responsabilidade civil as situações em que não existe um direito primário de crédito. supra] Responsabilidade do vendedor e do empreiteiro [arts. A consequência é comum: obrigação de indemnizar [art. 483º ss]. mas a responsabilidade surge em consequência da violação de deveres específicos. toda a responsabilidade civil assenta no princípio geral neminem laedere. 789º ss] Responsabilidade do vigilante [art. MENEZES LEITÃO e ROMANO MARTINEZ incluem na denominada “terceira via” da responsabilidade civil as situações de violação de deveres derivados da boa fé. e não apenas de deveres genéricos de respeito.Lara Geraldes @ FDL civil comuns a ambas as responsabilidades [arts. geradoras de responsabilidade pré-contratual e pós-contratual.Direito das Obrigações II . Das conclusões supra. 491º] ROMANO MARTINEZ propõe a distinção por pequenos núcleos de responsabilidade. mas instituem deveres que constituem um plus relativamente ao dever geral de respeito. Em conclusão. vg]. Para ROMANO MARTINEZ essa “terceira via” não é verdadeiramente alternativa: se essas fontes de obrigações não se enquadrarem em previsões legais.

Lara Geraldes @ FDL Lealdade [ruptura inesperada das negociações por uma das partes. Exemplifiquemos: 147 . o o o Sigilo [vg sigilo bancário] Concorrência leal [art. • Culpa post pactum finitum [art. 798º ss].Direito das Obrigações II . 443º]! – aqui. no arrendamento]. terceiros encontram-se na esfera de protecção do contrato [vg os filhos do arrendatário. dada a violação dos deveres específicos supra. o A responsabilidade é obrigacional ou extra-obrigacional em função do tipo de danos. criação de convicção de celebração de contrato válido.  Segurança e protecção  o Aplica-se o regime da responsabilidade obrigacional [arts. cfr. O progressivo alargamento do campo de aplicação da responsabilidade obrigacional dificulta a delimitação com respeito às situações extra-obrigacionais. • Relações contratuais de facto Em todos os institutos enunciados a responsabilidade é obrigacional. 484º] Não se confunda com a responsabilidade patrimonial que subsiste depois de cessar o vínculo em consequência de cláusula contratual de não concorrência. antes assentando em deveres impostos pela boa fé]. vg [na responsabilidade pós-contratual não há qualquer convenção das partes. e não contrato a favor de terceiro [art. infra. podendo ser extracontratual atendendo ao dano causado. • Contrato com eficácia de protecção para terceiro [vg arrendamento]. o Na obrigação de indemnizar não se inclui o direito de resolver o contrato. 239º]: responsabilidade pós-contratual – violação de deveres contratuais que subsistem após extinção do vínculo contratual. vg]. apesar de estes direitos se poderem cumular.

não se renunciando à defesa que teriam independentemente da celebração do mesmo [ROMANO MARTINEZ]. • O princípio da autonomia privada evidencia que. segundo ROMANO MARTINEZ. com a celebração de um negócio jurídico.Lara Geraldes @ FDL • Se o amigo do inquilino cai nas escadas do imóvel que o último arrenda. Face ao potencial concurso entre a responsabilidade delitual e a contratual. através da violação de deveres de protecção que não se fundam no acordo das partes: protege-se a integridade pessoal e patrimonial. incluindo deveres delituais no contrato [obrigação de segurança. • A responsabilidade obrigacional impõe um regime mais gravoso para o lesante [devedor]. todavia. contraria o princípio de tratar o igual de forma idêntica. Ressalve-se as diferenças de regime [vg art. sustentam-na mediante recurso a três argumentos: • A existência de um contrato estabelece deveres de protecção derivados da boa fé. O CC soluciona este problema através da cláusula geral de responsabilidade civil [art. prescindir dela. A inclusão de deveres desse tipo seria desnecessária. o Crítica: a celebração do contrato não priva as partes da protecção geral. as partes pretenderam afastar as regras da responsabilidade extra-contratual. 800º]. fora do perímetro contratual. 148 . mútuos e recíprocos. O alargamento da responsabilidade obrigacional. Fundar a responsabilidade por violação de direitos absolutos no negócio jurídico criaria uma hipertrofia do direito contratual. vg].Direito das Obrigações II . 500º vs art. já que os deveres acessórios do contrato decorrem das regras gerais da responsabilidade civil. a responsabilidade é delitual? Seria responsabilidade contratual se o utente tivesse comprado o bilhete? Sendo que supra concluímos que a distinção não é indispensável. pelo que o credor não tem qualquer interesse em recorrer às regras da responsabilidade extra-contratual. os partidários da teoria da prevalência da responsabilidade contratual em detrimento da primeira. não podemos. a responsabilidade é contratual face ao inquilino e delitual quanto ao amigo? • Se um acidente entre dois comboios mata um utente não portador de bilhete. 483º-1].

498º. presunção de culpa – art. o Danos pessoais [vg ferimentos causados por explosão de garrafa de gás]. assim. o mesmo critério pode ser estabelecido para os danos extra rem. 309º. No âmbito da responsabilidade extra-contratual. ROMANO MARTINEZ discorda da exemplificação supra: se à responsabilidade do produtor o DL que a consagra aplica as regras delituais.Direito das Obrigações II . provocando prejuízos na pessoa e no restante património do credor]. o Danos noutros bens do credor [vg animal enfermo que contagiou os demais]. mesmo que por actividades laterais. é coerente com a relação de interacção entre os dois tipos de responsabilidade. dispondo o credor de uma tutela mais eficaz. As regras da responsabilidade obrigacional aplicar-se-ão. vg. três anos]. 149 . Esta teoria. justificando-se a aplicação da responsabilidade extracontratual. Exemplo: o incêndio que deflagre durante as obras de reparação de um prédio presumir-se-ia culpa do empreiteiro [responsabilidade obrigacional. o Viga defeituosa que causou a ruína da casa do dono da obra.Lara Geraldes @ FDL o Crítica: sendo certo que os prazos da prescrição são mais longos na responsabilidade obrigacional [art. os prazos de exercício de direitos podem ser bastante mais restritos nos contratos em especial do que aquele da responsabilidade extra-contratual [art. 20 anos]. 799º]. e não de especialidade. a danos extra rem [provocados no cumprimento da obrigação. apesar das críticas supra. 498º: três anos. O mesmo autor propõe a distinção seguinte: • Danos extra rem: danos pessoais e no restante património do accipiens/destinatário do pagamento/credor e de terceiros [não inclui o prejuízo causado no objecto da prestação] – aplicam-se as regras da responsabilidade extra-contratual. ao lesado não pode ser aplicado um prazo prescricional que o coloque numa situação pior da que estaria nos termos gerais do art. vg nos casos do cumprimento defeituoso nos contratos de compra e venda ou de empreitada [ROMANO MARTINEZ].

Ainda assim.Lara Geraldes @ FDL o Parceiro pensador que. 150 . Levada ao limite. situa-se a regra do não-cúmulo. tão-só – aplicam-se as regras da responsabilidade obrigacional. 562º ss]. No extremo oposto. vg. “absurda” segundo ROMANO MARTINEZ. as regras que regem a indemnização são comuns às duas responsabilidades [art. ainda que o fundamento de direito seja diverso. alimentou o gado com refeições estragadas que havia adquirido previamente ao fornecedor. devendo indemnizar o parceiro proprietário. com duplo fundamento: responsabilidade extracontratual e obrigacional]. • Danos circa rem. o o o o o o o Diminuição ou perda do valor da coisa Custos contratuais Valor da eliminação dos defeitos Montante dispendido em estudos e pareceres Diferença de preço para aquisição de bem substitutivo Lucros cessantes Outras despesas derivadas do incumprimento:  Renda da casa arrendada por período em que não foi possível usá-la  Custo da sementeira perdida porque as sementes são de fraca qualidade e não germinaram  Despesas judiciais na acção em que se exige a execução específica ou a resolução do contrato Quando se assista simultaneamente a danos extra rem e circa rem. no âmbito de obrigação pecuária. Pode invocar direito de regresso contra o fornecedor da ração. por exclusão de partes: danos causados no objecto da prestação. embora exista concurso de normas [uma só pretensão. o credor tem direito a uma pretensão indemnizatória. Todavia. mas tão-só no caso de morte do mesmo. vg. o princípio da liberdade de opção entre as pretensões delitual e contratual é maioritário na doutrina e na jurisprudência.Direito das Obrigações II . um único pedido processual. o filho do dono da obra não poderia demandar delitualmente o empreiteiro pelos ferimentos do pai como consequência do defeito da prestação.

151 . o Exemplos:  Adaptação de um comutador a uma máquina.Direito das Obrigações II . ROMANO MARTINEZ conclui pela superação da rigidez dos conceitos jurídicos da responsabilidade contratual e delitual. sem dependência do contrato cumprido: danifica-se uma obra já existente. cfr. Sendo a falta de cumprimento imputável ao devedor. Conclusão: • Só se admite recurso à responsabilidade extra-contratual [violação de direitos absolutos] quando: o A prestação causou danos em bens do património do credor. Sobre esta matéria. vg.   • Obras de reparações de edifícios Subempreitadas de acabamentos [vg instalações eléctricas] Admite-se recurso à responsabilidade obrigacional quando: o o o Haja entrega de uma coisa com defeito [cumprimento defeituoso] Se realize uma obra imperfeita Não basta que o prejuízo tenha sido causado por um facto ilícito praticado na altura da realização da prestação o Os prejuízos que excederem o sinalagma contratual entram no campo aquiliano.Lara Geraldes @ FDL Para evitar que o lesado seja menos protegido na hipótese de ter celebrado um contrato. o credor pode reagir executando os bens do seu património ou de terceiro garante. vg. o capítulo infra. deve admitir-se a possibilidade de concurso de normas [princípio da liberdade de opção]. fazendo uma fenda nesta. estragando o motor.  Instalação de uma câmara frigorifica num camião. Meios Gerais de Reacção em Caso de Não Cumprimento §1: GARANTIA GERAL DAS OBRIGAÇÕES.

828º] Prestação de facto negativo [art. em casos de mora ou de cumprimento defeituoso. depois. Nos contratos sinalagmáticos.Direito das Obrigações II . caso se trate de uma prestação de facto infungível. permite-se que o credor: • Instaure uma acção de cumprimento e execução. A parte que cumpriu a prestação principal do contrato celebrado [vg o mecânico que já reparou o veículo] não pode. • • Os prazos de cumprimento das prestações não a podem inviabilizar. 428º ss].Lara Geraldes @ FDL §2: REALIZAÇÃO COACTIVA DA PRESTAÇÃO. 754º]. 829º-A]. que pode respeitar a: o o o o Entrega de coisa determinada [art. §3: EXCEPÇÃO DE NÃO CUMPRIMENTO. Distingue-se do direito de retenção [art. Uma das partes pode recusar a sua prestação se a contraparte não tiver cumprido [arts. invocar a excepção do não cumprimento. mediante a qual satisfaça coactivamente o seu crédito [execução do património do faltoso] – arts. Pressupõe: • Subsistência de uma relação sinalagmática [vg compra e venda: o vendedor recusa a entrega da coisa enquanto o devedor não pagar o preço]. 827º] Prestação de coisa fungível [art. 829º] Contrato-promessa [art. • Instaure uma execução específica. §4: RESOLUÇÃO. Caso o devedor não cumpra de forma voluntária a obrigação a que estava adstrito. 830º] • Exija uma sanção pecuniária compulsória [art. o incumprimento definitivo e o cumprimento defeituoso da prestação de uma das partes permite que a contraparte resolva o 152 . 817º ss.

Direito das Obrigações II .Lara Geraldes @ FDL contrato [art. 802º] – estas regras aplicam-se também ao incumprimento parcial. uma vez que se pressupõe que as partes. sendo mais onerado no caso de impossibilidade do que no caso de incumprimento. O não cumprimento culposo pode assumir os seguintes contornos: • • Mora do devedor Incumprimento definitivo 153 .  Têm aplicação todas as regras da falta de cumprimento [vg art. 801º] – condição resolutiva tácita. A impossibilidade culposa não corresponde ao incumprimento: • Incumprimento: para tal. Não Cumprimento Culposo §1: MODALIDADES. • Impossibilidade culposa: arts 801º a 804º. Quanto ao regime. supra. tal como as regras da impossibilidade total se aplicam ao incumprimento total. Só se pode estar adstrito ao que é possível e só se pode deixar de cumprir aquilo a que se está adstrito. o credor ficaria em desvantagem sempre que a prestação fosse inexecutável. 801º-1] – acarretando a obrigação de indemnizar 798ºss]. é necessário que haja uma prestação devida e possível. decorrente da responsabilidade obrigacional [arts. o O legislador equiparou o regime da impossibilidade culposa ao da falta de cumprimento [art. cfr. o Impossibilidade parcial imputável ao devedor [art. Impossibilidade Culposa do Cumprimento §1: IMPOSSIBILIDADE CULPOSA. tacitamente. 799º-1]? SIM! Se não se presumisse a culpa do devedor. condicionam os negócios que ajustam ao seu pontual cumprimento.

O vencimento da prestação carece de prova pelo credor [art.Direito das Obrigações II . A mora tem início com o vencimento da prestação. 342º-1]. 799º-1]. Distingue-se do incumprimento parcial. podendo realizá-lo mais tarde [porque é ainda possível ou porque continua a satisfazer o interesse do credor. 1148º]. 777º-1 e 805º-1] Do decurso do prazo estabelecido para se efectuar o cumprimento ou da interpelação [art. na falta de fixação de prazo. Não haverá mora solvendi se a causa do retardamento não for imputável ao devedor: vg devendo-se a caso fortuito ou a acto do credor. 805º-2a] o No mútuo. o devedor não se constitui em mora [art. não se poderá falar em incumprimento definitivo. Se o devedor. a mora deve ser qualificada como uma falta temporal do cumprimento. Enquanto o crédito for ilíquido. por causa que lhe é imputável. arts. que ainda subsiste. §2: MORA DO DEVEDOR. 154 . 805º-3]. A culpa no retardamento presume-se [art. não efectuou o cumprimento na data do vencimento.Lara Geraldes @ FDL • Cumprimento defeituoso Iremos estudar cada uma delas com detalhe. excepto se a falta de liquidez lhe for imputável ou se se tratar de obrigação de indemnizar por facto ilícito ou pelo risco. 805º2b]. o pagamento é devido 30 dias após a interpelação [art. O incumprimento definitivo parcial pressupõe que aquela parcela da prestação jamais será realizada. 804ºss]. • Do facto de se tratar de uma obrigação proveniente de facto ilícito [art. 805º]: • • De interpelação feita ao devedor [arts. e não como um defeito temporal do cumprimento. expressão que poderá ser confundida com o cumprimento defeituoso. total ou parcial. o qual pode advir [art. Segundo ROMANO MARTINEZ. enquanto houver essa mora. na medida em que pode haver mora [retardamento da prestação] mas. 804º-2 e 808º1]. infra §2 ss. encontrar-se-á numa situação de mora: falta temporária de cumprimento [arts.

A mora do devedor determina a subsistência do vínculo. podem ser de 13% [sem garantia real] ou de 11% [com garantia real]. A situação de mora extingue-se com: • Purgação [purgatio morae]: cumprimento da prestação com pagamento da indemnização moratória. por impossibilidade superveniente do cumprimento §3: INCUMPRIMENTO DEFINITIVO. 806º].Direito das Obrigações II . o A mora confere ao credor a faculdade de recorrer à excepção de não cumprimento do contrato [arts. antes se cumula com este. quando convencionais. como às prestações acessórias [vg falta de entrega do manual de instruções do electrodoméstico vendido]. bem como às relações subsequentes [vg mora na eliminação dos defeitos da prestação]. • Assunção do risco [art. o Tratando-se de prestações pecuniárias. no Direito Civil. O incumprimento definitivo designa os casos em que a prestação não tenha sido cumprida e já não possa vir a sê-lo posteriormente. 808º-1] Declaração do devedor de que não pretende cumprir • Extinção da obrigação. 804º-1 e 562º ss]: o o Mantém-se o dever de cumprir a prestação. A indemnização por danos moratórios não exclui o cumprimento. 808º-1] Perda do interesse do credor [art. nos termos gerais [arts. • Transformação da mora em incumprimento definitivo: o o o Prazo admonitório [art.Lara Geraldes @ FDL A mora pode respeitar tanto à prestação principal. 155 . e tem como efeitos: • Dever de indemnizar o credor. 807º-1]: o O devedor assume o risco da perda ou deterioração da coisa que deveria entregar. 428º ss]. a consequência legal são os juros de mora [art. sem necessidade de prova de danos pelo credor – os juros de mora legais são de 4%.

o devedor terá que indemnizar o credor por não ter cumprido definitivamente a prestação a que se encontrava adstrito [arts. ilicitude. 817º ss].Lara Geraldes @ FDL Face à presunção de culpa [art. o Exemplos: negócios sazonais. dano e nexo de causalidade adequada]. arts. ainda assim. casamento. 342º-2] Se o credor perder o interesse. Eis as causas de incumprimento definitivo: • Perda de interesse do credor: o Não se justifica que. 799º-1]. • Decurso do prazo suplementar [admonitório] de cumprimento estabelecido pelo credor [accipiens]. se a prestação não foi definitivamente cumprida. o o o É apreciada objectivamente [art. 808º-2] É ao credor que incumbe a prova da perda de interesse [art. 156 . já não se poderá recorrer à realização coactiva da prestação [arts. • Declaração expressa do devedor em não querer cumprir: o Não se torna necessário que o credor estabeleça um prazo admonitório. 798º ss].Direito das Obrigações II . etc.808º-1 e 808º: o O credor não deve ficar indefinidamente adstrito à relação obrigacional o Prazo deve ser razoável o Consequências do desrespeito do prazo: o accipiens pode optar entre as regras do incumprimento definitivo e as da acção de cumprimento e de execução específica. culpa. pressupõe-se que: • • • O devedor actuou ilicitamente A actuação é culposa [ainda que a culpa seja presumida] Causou danos para o credor [que carecem de prova] Verificados os pressupostos gerais da responsabilidade civil [acção. uma vez que o interesse do credor designa o fim para o qual a obrigação foi constituída. o solvens pretenda realizar a prestação.

como se a parte lesada não tivesse confiado no contrato que celebrou. • O credor que resolve o contrato não deve ficar em pior situação do que aquele que pede a redução do preço.  Interesse contratual positivo: colocar a parte lesada em circunstâncias idênticas às que se verificariam se o contrato tivesse sido pontualmente cumprido. 801º-2]: o Extinção retroactiva do vínculo obrigacional [retroactividade in radicem] • Exigir uma indemnização pelos danos [art. Perante um caso de incumprimento definitivo. 801º e 802º]. De todo o modo. 801º-2]: o Funções da indemnização:  Interesse contratual negativo: restabelecer a situação que existiria se a parte lesada não tivesse celebrado o contrato.Lara Geraldes @ FDL o Se o devedor declarar que não vai cumprir. • Só se justifica quando o credor resolveu o contrato e está adstrito a devolver a prestação recebida. o accipiens pode optar entre as regras do incumprimento definitivo e as da acção de cumprimento e de execução específica. a impossibilidade culposa da prestação determina a equiparação ao incumprimento definitivo [arts. 802º pode ser cumulada com a indemnização pelo interesse contratual positivo. de modo que o credor possa ser ressarcido quanto aos seus lucros cessantes.Direito das Obrigações II . o Como se determina o valor da indemnização? 157 . • Restitui-se a situação. o credor pode: • Resolver o contrato [art. • A resolução prevista no art.

devendo realizar a sua contraprestação [Surrogationstheorie].Lara Geraldes @ FDL  Doutrina clássica: só a indemnização pelo interesse contratual negativo pode ser cumulada com a resolução do contrato.Direito das Obrigações II . • Não admite que a parte lesada possa pedir a resolução do contrato e pretender ser indemnizada. 158 . o credor opte por exigir a indemnização pelo interesse contratual positivo. 802º-1]. • A indemnização pelo interesse contratual positivo pode ser cumulada com a resolução do contrato. • A indemnização pelo interesse contratual negativo abrange as despesas contratuais do próprio acto. bem como as acessórias. restabelecendo a situação que existiria se o contrato tivesse sido cumprido [interesse contratual positivo].  O credor sub-rogar-se directamente na titularidade de um direito que o solvens tenha adquirido contra terceiro [vg subsídio ou seguro]. 803º-1]: o Possibilidade de:  O credor exigir a entrega de uma coisa adquirida pelo devedor em substituição do objecto da prestação que este não efectuou. apesar de existir fundamento para resolver o contrato. • Commodum de representação [art.  Doutrina minoritária: admite-se que. e os lucros cessantes. para além do direito a ser indemnizado pelo interesse contratual negativo [art. • Exigir a redução da sua contraprestação: o Quando o incumprimento definitivo é parcial. o credor tem a faculdade de exigir a realização do que for viável e reduzir a sua contraprestação.

Por outras palavras. Prestação realizada em local diverso do acordado 5. se o credor não fica satisfeito. Depende do preenchimento de quatro condições: • O devedor realizou a prestação em violação do princípio da pontualidade: o Nove classes de hipóteses de cumprimento defeituoso: 1.799º-1 e indícios no art. Violação de deveres acessórios 159 . seja ela antecipada ou retardada [arts. Prestação padece de um defeito de direito [vg entrega de coisa alheia] 8. mora do devedor] 3. seja para mais [devedor exige que lhe seja devolvido] ou para menos [credor exige o remanescente] 4. A figura do cumprimento defeituoso [inexacto ou imperfeito] tem contornos anglosaxónicos [breach of contract] e designa as situações em que o devedor realiza a prestação a que estava adstrito em violação do princípio da pontualidade do cumprimento [discrepância entre o “ser” e o “dever ser”]. Ainda que o legislador tenha sido omisso quanto a este tipo de inadimplemento [salvo breve referência no art. o devedor não é liberado da sua prestação. deve-se entender que a divisão é tripartida: mora. Entrega de coisa diferente da acordada [direito de substituição] 6. Prestação de quantidade distinta da devida. Prestação realizada de modo distinto do acordado 2. 798º “falta (…) ao cumprimento”]. incumprimento definitivo e cumprimento defeituoso. 804ºss. Prestação realizada em tempo distinto do acordado. Prestação de qualidade diversa da devida [relativa à conduta ou ao objecto] – própria das prestações de facere 7.Direito das Obrigações II . §4: CUMPRIMENTO DEFEITUOSO.Lara Geraldes @ FDL o Estas duas possibilidades podem verificar-se em caso de incumprimento definitivo ou de cumprimento defeituoso.

762º-2. 160 . o Conhecimento da inexactidão do cumprimento. em receber a prestação. o Importância do defeito é apreciada em concreto.  A boa fé impõe-lhe o dever de aceitar o que for prestado – vg defeito pouco significativo. sem prejuízo de indemnização pelo devedor.  O credor tem interesse. quando a prestação haja sido realizada sem carecer de aceitação ou quando haja sido realizada a terceiro. • Foram causados danos típicos: o Delimitação pela negativa: foram causados prejuízos distintos daqueles que o credor poderia sofrer em caso de incumprimento definitivo ou de mora. expressamente consagrada na lei • O credor procedeu à sua aceitação por desconhecer a desconformidade ou. mas determinada objectivamente à luz do interesse do credor.  Aceitação da prestação em pleno conhecimento: não se pode considerar esse cumprimento como defeituoso.Direito das Obrigações II . apondo uma reserva: o Desconhecimento do credor: pelo facto de o defeito não ser detectável. conhecendo-a. apesar do defeito. • O defeito é relevante: o Não se justificaria que o credor demandasse a contraparte por um defeito insignificante do cumprimento [bom senso e boa fé objectiva] – art.Lara Geraldes @ FDL 9. com reserva: o credor pode aceitar o que lhe for prestado. Realização defeituosa da prestação.

arts. Por outro lado. Ao cumprimento defeituoso aplicam-se os arts. seja ele definitivo ou retardado/mora [vg quando a obrigação deficientemente cumprida é genérica]. o incumprimento definitivo parcial e a mora parcial pressupõem que o credor só haja aceite uma parte da prestação. 1220º ss]. uma vez que a satisfação parcial do interesse do credor nem sempre se verifica e. e só a partir do momento em que a prestação defeituosa é aceite pelo credor. pode-se inferir um conjunto de princípios básicos: 161 . poder-se-ia defender que este seria um tipo de incumprimento parcial. as regras do incumprimento definitivo e da mora: • Regras da impossibilidade culposa: aplicam-se quando a deficiência seja de tal ordem que o credor não tenha qualquer interesse na prestação recebida e esta não possa ser realizada em momento posterior.Direito das Obrigações II .e empreitada . 905º ss e 913º ss . Pela consequente satisfação parcial do interesse do credor. Não segundo ROMANO MARTINEZ. 804º ss] e quando a falta de quantidade não afecte a totalidade da prestação [casos em que o incumprimento parcial implique uma correlativa satisfação do interesse do credor].arts. mesmo que tal suceda. Por fim. São ainda de aplicar. • Regras da mora: aplicam-se quando a prestação possa ser executada mais tarde. Finalmente. analogicamente.Lara Geraldes @ FDL o Dever de eliminação do defeito ou de redução da contraprestação [vg preço]. Excluem-se do âmbito do cumprimento defeituoso as situações em que a prestação é efectuada tardiamente [arts. os meios de que dispõe o credor [exigência da eliminação dos defeitos. o incumprimento parcial corresponde a uma visão meramente quantitativa da insuficiência da prestação. 762º ss e 798ºss pelos indícios terminológicos explicitados supra. com o cumprimento defeituoso. visão essa que não é contundente com o cumprimento defeituoso. do regime da execução inexacta estabelecido em termos especiais para alguns contratos [vg quanto à compra e venda . vg] excedem os meios legalmente previstos para as hipóteses de incumprimento definitivo parcial ou de mora parcial.

o credor deverá ficar em situação idêntica à que estaria se a prestação tivesse sido cumprida. na totalidade. o credor pode invocar a excepção do não cumprimento [arts. §5: RESPONSABILIDADE POR ACTO DE TERCEIRO. in instruendo ou in vigilando do auxiliar. sem culpa]. in eligendo. uma vez que o devedor retira benefícios da actuação de terceiros e deve suportar os prejuízos inerentes [ubi commoda ibi incommoda]. a quem encarregara e executar a prestação a que estava adstrito [art. o credor tem o direito à indemnização por todos os danos que a prestação defeituosa haja causado.Lara Geraldes @ FDL • O credor pode exigir que o cumprimento defeituoso seja rectificado. Mesmo tendo o devedor agido com diligência. A responsabilidade do devedor pode ser agravada por facto de outrem. ou a prestação substituída. 428º ss] e recusar a sua contraprestação [vg pagar o preço]. seja por culpa in eligendo. o devedor pode responder objectivamente pelo incumprimento imputável a terceiro. 800º. lato sensu • Se o defeito não for eliminável. o credor pode exigir que a prestação seja substituída. tendo o direito de exigir um cumprimento diligente deste. de modo a reequilibrar a relação contratual. • Para além disso. • O credor tem direito à resolução do contrato. Por fim. Por outro lado. 801º e 808º. é responsável pela actuação deste. Os direitos do credor podem ser fixados contratualmente pelas seguintes vias: • Cláusulas de limitação e de exclusão da responsabilidade: 162 . in instruendo ou in vigilando. o credor pode reduzir a sua contraprestação. verificados os pressupostos dos arts. pelo devedor.Direito das Obrigações II . • Quando o cumprimento defeituoso implique uma perda de valor da prestação efectuada. §6: FIXAÇÃO CONTRATUAL DOS DIREITOS DO CREDOR. • Enquanto o defeito não for eliminado.

• Sinal: cfr. desde que a exclusão ou limitação não compreenda actos que representem a violação de deveres impostos por normas de ordem pública. aqui. 405º].Direito das Obrigações II . o Redução da cláusula penal [art. e não enquanto coercibilidade.Lara Geraldes @ FDL o o Liberdade contratual Proibição de renúncia antecipada aos direitos por parte do credor [art. 809º] – não pode renunciar ao direito a ser indemnizado pelo incumprimento. 601º]. 810º]. ser entendida em termos objectivos: enquanto segurança no cumprimento das obrigações. “Garantia” deve. supra. Excepções a esta regra:  Acordo prévio. • Cláusula penal: o Montante fixo ajustado pelas partes para a indemnização resultante de qualquer dos tipos de incumprimento [art. sem culpa. fixando o seu conteúdo ou extensão [vg cláusula de contrato de seguro ou placa em parque de estacionamento]. e não da responsabilidade subjectiva.  É lícita a exclusão contratual da responsabilidade objectiva. 163 . o Cláusulas de limitação da responsabilidade: limitação máxima ou agravamento. o As cláusulas de exclusão da responsabilidade distinguem-se da delimitação do objecto do negócio jurídico [art. 812º]. 441º ss]. contrato-promessa [arts. GARANTIA DAS OBRIGAÇÕES Garantia Geral §1: PATRIMÓNIO DO DEVEDOR. assegurando o pagamento de débitos. O património do devedor constitui a garantia geral das obrigações por ele assumidas [art.

. Importa ainda aferir a que título o devedor detém os bens no seu património: se for proprietário. §2: GARANTIAS APARENTES. Contrapõe-se.Direito das Obrigações II . nem podem ser apostas por um dos credores aos demais. na verdade. que incidem sobre bens certos e determinados do património do devedor. assim. 602º]. 821º ss CPC. as garantias aparentes são ineficazes em relação aos demais credores. que têm. pelo que apenas produzem efeitos inter partes. frequente é que o devedor preste garantias de cumprimento. 601º]. visto que apenas produzem efeitos entre o devedor e o credor. i. à altura da execução.Lara Geraldes @ FDL A garantia geral incide sobre todos os bens que integram o património do devedor. Exemplos: • Carta de conforto [comfort letter] 164 . Estas garantias são aparentes porque nada acrescentam à garantia geral. ditas especiais. Só respondem pelo cumprimento das obrigações os bens do devedor susceptíveis de penhora [art. • Locatário: o direito de gozo sobre a coisa locada não é executável. independentemente de terem sido adquiridos antes ou depois da constituição do crédito [excepto quando haja acordo de limitação de responsabilidade. aqueles que constam dos arts. os bens respondem na totalidade. se for titular de um direito real menor [vg usufrutuário] ou de um direito pessoal de gozo [vg arrendatário] cumpre apreciar caso a caso: • Usufrutuário: a execução só abrange o direito de usufruto e não a propriedade sobre a coisa. No caso de concurso de credores. em caso de concurso de credores. uma eficácia meramente obrigacional. Na prática bancária. e não sendo o património do devedor suficiente para saldar todas as dívidas. serão pagos proporcionalmente através do património do devedor [aquele a quem era devida maior quantia irá receber uma quota superior à dos demais]. salvo tratar-se de arrendamento para o comércio ou indústria. indiscriminadamente. às garantias especiais. independentemente da data de constituição do crédito. Em conclusão. A garantia geral não prevalece em relação a garantias especiais.e. em princípio. nos termos do art. 604º]: os vários credores. proceder-se-á ao rateio [art.

606º ss]. que já se encontram na esfera jurídica de terceiro. estabeleceram-se meios conservatórios da garantia patrimonial [arts. Distingue-se da acção directa. Destes actos excluem-se aqueles de natureza pessoal [vg casamento. Eis os requisitos da impugnação pauliana [arts. art. 610º ss] o credor pode tornar relativamente ineficazes actos de alienação ou oneração patrimonial perpetrados pelo devedor para o prejudicar. A sub-rogação do credor ao devedor permite que o credor exerça contra terceiros direitos do devedor [arts. Corresponde. dos quais: • • • • Declaração de nulidade Sub-rogação do credor ao devedor Impugnação pauliana Arresto §2: DECLARAÇÃO DE NULIDADE. uma vez que destrói a barreira que se interpõe entre o direito de execução dos credores e os bens alienados pelo devedor.Lara Geraldes @ FDL • Negative pledge Cláusula pari passu Contrato-promessa de garantias especiais • • Conservação da Garantia Patrimonial §1: CONSERVAÇÃO DO PATRIMÓNIO. 605º ss]. Com vista a evitar a dissipação de bens do património do devedor.Direito das Obrigações II . pois. §3: SUB-ROGAÇÃO DO CREDOR AO DEVEDOR. Esta acção desvia-se do princípio geral da responsabilidade patrimonial. a uma reacção legal à violação do princípio de garantia patrimonial. §3: IMPUGNAÇÃO PAULIANA. no âmbito da união de contratos. 610º-612º]: 165 . divórcio ou adopção]. Através da impugnação pauliana [arts. 605º.

na medida em que os credores cessionários não adquirem qualquer preferência sobre os bens cedidos em caso de concurso com outros credores com créditos anteriores à cessão. 831º]. quando o acto tenha sido efectuado dolosamente com o fim de impedir a satisfação do direito do futuro credor. pois. 619º ss] designa a apreensão judicial de bens do devedor se houver justo receio de extravio ou dissipação dos mesmos. encarrega os credores. A cessão de bens aos credores é um contrato mediante o qual o devedor inadimplente. cumpre distinguir: 166 .Direito das Obrigações II . Se os credores tiverem créditos constituídos em data posterior à cessão. a impossibilidade de obter a satisfação integral do seu crédito ou o agravamento dessa responsabilidade • Acto praticado de má fé [bilateral] ou tratar-se de um acto de natureza gratuita • É necessário que o crédito seja anterior ao acto. para o credor. como uma garantia especial [cfr. ou alguns deles. Esta figura não funciona. de procederem à liquidação do seu património ou de parte dele. A cessão de bens não é oponível aos credores com créditos anteriores à celebração do negócio. pois. Este negócio pode servir de remédio ao incumprimento. §2: REGIME. O arresto [arts. 833º]. repartindo entre si o produto do mesmo para satisfação dos respectivos créditos [art. obstando. designadamente à execução do património do devedor. §4: ARRESTO. ou em vias de não cumprir as suas obrigações. que não tenham nela participado [art. ou mesmo posterior.Lara Geraldes @ FDL • • Acto praticado pelo devedor que não seja de natureza pessoal Esse acto provoca. à aplicação das regras da garantia do cumprimento. Cessão de Bens aos Credores §1: NOÇÃO. infra].

Garantias Especiais §1: GARANTIAS ESPECIAIS. A cessão de bens não é um contrato exclusivamente obrigacional. for insuficiente o produto recebido. na medida em que se apresenta como oponível a terceiros que se tenham constituído como credores depois do seu ajuste. o direito desses credores não é oponível mesmo em relação a terceiros cujos créditos se constituíram em data posterior à da cessão de bens.Direito das Obrigações II . Os credores relativamente aos quais a cessão de bens seja oponível não podem executar a parte do património do devedor que tenha sido cedida [art. incumbe aos credores a devolução do remanescente. • Bens não sujeitos a registo: a cessão é oponível a esses credores. por via negocial. Não há. os créditos mantêm-se na proporção não paga. a lei permite que o credor. Em suma. 833º. se coloque numa situação privilegiada em relação aos demais credores. se a cessão não tiver sido registada. contudo. 831º]: os credores cessionários são encarregados de liquidar o património do devedor. aproximando a figura do contrato de mandato. é oponível a esses credores [art. §3: NATUREZA JURÍDICA. Se exceder. 835º]. qualquer transferência da propriedade dos bens. mas sim a incumbência de um encargo [art. Se. sem perder os direitos próprios dos credores comuns. 167 . diversamente. ainda que com especificidades. Através das garantias especiais. Se for insuficiente a garantia especial. o credor preferencial terá que concorrer ao rateio com os restantes credores. 2ª parte].Lara Geraldes @ FDL • Bens sujeitos a registo: se a cessão tiver sido registada. a garantia especial constitui um reforço da garantia geral. 832º-2]. conforme explicitado supra. Feita a liquidação. o devedor fica liberado das suas dívidas perante os credores cessionários na medida em que o produto da liquidação tenha satisfeito os créditos destes [art.

A prestação de caução [arts. §3: GARANTIAS PESSOAIS. exista o património de um terceiro responsabilizado pelo pagamento da mesma dívida. • Garantias pessoais típicas: fiança e aval Garantias pessoais atípicas: garantia autónoma e carta de conforto • Estudaremos os seguintes exemplos de garantias pessoais: • Fiança: o O credor passa a ter como garantia de cumprimento dois patrimónios: o do devedor – que responde por dívida própria – e o do fiador – que responde por dívida alheia [arts. concorrendo contra todos os credores no rateio. o Em relação a ambos os patrimónios. As garantias pessoais implicam que. 623º-1 e 666º-2]. o Fiador: responsabilidade pessoal pelo cumprimento de uma dívida alheia. o Características da fiança: 168 .Direito das Obrigações II . para além do património do devedor. • Assegurar o cumprimento de obrigações de montante indeterminado – como as partes não têm ainda a possibilidade de avaliar a amplitude exacta da obrigação. um tertium genus entre as garantias pessoais e reais. facto que justifica a qualificação da caução em garantia especial mista. O depósito de dinheiro. que não se sabe ainda se se virão a constituir – compensando os prejuízos decorrentes de um eventual futuro incumprimento contratual [vg contrato de empreitada]. o credor tem tão-só a garantia geral. através da adjunção de bens penhoráveis de outro património. pedras ou materiais preciosos como caução é havido como penhor [arts. 627º ss].Lara Geraldes @ FDL §2: PRESTAÇÃO DE CAUÇÃO. títulos de crédito. podem acordar quanto à constituição de uma caução. 623ºss] pode constituir-se mediante a prestação de outras garantias pessoais ou reais e prossegue duas finalidades: • Assegurar o cumprimento de eventuais obrigações.

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Característica imprescindível: acessoriedade [art. 627º-2] – a fiança fica subordinada a acompanhar a obrigação afiançada. • • • Declaração expressa Constituição de forma menos onerosa Acompanha a invalidade e extinção da obrigação principal • Fiador pode invocar meios de defesa do afiançado que pode ser afastada: subsidiariedade

Característica

[benefício da excussão, art. 638º]. • O fiador só responde quando se provar que o património do devedor é insuficiente • • Pode ser afastada pela vontade das partes Característica inexistente nas obrigações mercantis o Caso em que o fiador se apresenta como principal pagador, tornando-se ambos

responsáveis solidários pelo pagamento.

o Pode constituir-se mediante negócio jurídico entre fiador e credor,
com ou sem acordo do afiançado.

Subfiança ou abonação: o o Pressupõe a existência de duas fianças numa relação sucessiva. O subfiador garante, perante o credor, a solvabilidade do fiador [art. 630º]. o O subfiador dispõe de duplo benefício da excussão [art. 643º]: é-lhe lícito recusar o cumprimento enquanto o credor não tiver excutido os bens do devedor ao fiador.   Pode ser total ou parcialmente afastado pelas partes Não vigora no caso de obrigações comerciais • Caso em que o subfiador responde solidariamente com o fiador e o devedor

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Retrofiança: o Figura não prevista na lei: negócio atípico na sua formulação mas cujos efeitos o aproximam da fiança. o O retrofiador garante o devedor perante o fiador que exerce o direito de crédito no qual ficou sub-rogado. o Se o fiador for chamado a honrar a dívida do seu afiançado, a lei confere-lhe um direito de crédito contra este, com base numa subrogação legal [arts. 644º e 592º] – o exercício desse direito de crédito pode ser garantido através de uma retrofiança. o Se o devedor, demandado por via da sub-rogação, não pagar ao seu fiador, este exige o cumprimento ao retrofiador.

Mandato de crédito:

o Quando alguém encarrega outrem de conceder crédito a um terceiro
[art. 629º-1], e o fizer exigindo que seja realizado por sua conta, celebra um contrato de mandato [art. 1157º] e, no caso do art. 629º, sem representação [art. 1180º] – o mandatário concede crédito em nome próprio. o O mandato de crédito não constitui, todavia, um verdadeiro contrato de mandato, na medida em que não têm aplicação as regras dos arts. 1181º ss. Corresponde, sim, a uma garantia pessoal. o O mandante responde como fiador do terceiro [mutuário] perante o mandatário [mutuante].

o A iniciativa de prestar garantia cabe ao fiador, e, contrariamente ao
que acontece na fiança, a vontade de a conceder não tem que ser expressamente declarada [art. 628º-1]. A fiança resultante do manda to de crédito tem como fonte directa a lei e não a vontade das partes o o Livre revogação [art. 629º-2, 1ª parte]. O encarregado, depois de ter aceite o encargo, pode licitamente não conceder o crédito, mas apenas quando a situação patrimonial do

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Direito das Obrigações II - Lara Geraldes @ FDL terceiro ou do autor do encargo se tiverem alterado em data posterior à do encargo [art.629º-3]. o Responsabilidade por actos lícitos – denúncia do mandato de crédito [art. 629º-2].

Seguro de crédito: o Diploma avulso. Contrato feito pelo credor, o tomador de seguro, para cobertura do prejuízo resultante do não cumprimento da obrigação.

Convenção del credere: o Uma das partes assegura à outra que os créditos desta perante terceiros, relacionados com a actividade da primeira, serão por ela saldados em caso de incumprimento desses devedores. o o Prevista no Código Comercial e no Regime do Contrato de Agência. Uma pessoa [comissário ou agente] garante perante o credor [comitente ou principal] o cumprimento da obrigação do devedor [pessoa contratada por intermédio do comissário ou agente], em termos idênticos aos do art. 1183º.

Aval: o Garantia pessoal característica dos títulos de crédito, concretamente das letras, das livranças e dos cheques. o Tal como a fiança, um património torna-se responsável pelo pagamento da dívida alheia, mas não constitui uma obrigação acessória da dívida avalizada, mantendo relativa autonomia.

Garantia autónoma ou garantia bancária: o Concessão eventual de um crédito equivalente ao do montante garantido, mediante uma contrapartida [comissão].

Cartas de conforto ou comfort letter:

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§4: GARANTIAS REAIS. • Consignação de rendimentos [arts. 656º ss]: o o Não se confunde com a consignação de receitas O credor paga-se pelos rendimentos de certos bens imóveis ou móveis sujeitos a registo. todavia. numa relação de grupo. 679º ss]. uma vez que confere ao credor meios que lhe facilitam a satisfação do crédito. 172 .Lara Geraldes @ FDL o Missiva dirigida a uma instituição de crédito por uma sociedade-mãe que. o Pode operar independentemente de ter havido violação do direito de crédito – motivo pelo qual é incluída entre os acordos que facilitam o pagamento de dívidas [ROMANO MARTINEZ]. As garantias reais associam-se normalmente aos direitos reais de garantia. preferencialmente.Direito das Obrigações II . São mais eficientes que as garantias pessoais na medida em que reduzem o risco. detém uma posição accionista significativa na sociedade-filha. 840º-1]. arts. o o o Pode ser convencional [prevista no CC] ou judicial [CPC] Carece de registo para produzir efeitos contra terceiros Em caso de concurso. Por vezes. informando acerca da existência de um compromisso assumido pela primeira perante a destinatária. Apresenta similitudes com a dação pro solvendo [art. uma vez que o credor é pago. só se podem qualificar como direitos reais as garantias que incidam sobre coisas e não aquelas que recaiam sobre direitos [vg penhor de direitos. pelo valor de determinados bens. Todavia. são menos flexíveis quanto à sua constituição. o credor tem preferência ante os demais pelo valor dos rendimentos consignados. uma vez que lhe é conferido o direito de requerer a sua venda judicial. Para mais. o titular exerce um poder directo e absoluto sobre determinada coisa corpórea [vg na hipoteca]. modificação e execução. dando o seu patrocínio quanto à seriedade da recomendada ou quanto ao cumprimento dos deveres por ela assumidos. As garantias reais pressupõem a afectação de bens do devedor ou de terceiro ao pagamento preferencial de determinadas dívidas.

o Proibição de pactos comissórios [art. 688º].art. o Recai sobre direitos reais que não a propriedade [vg usufruto. vg o estabelecimento comercial. • Penhor: o Incide sobre coisas ou direitos não hipotecáveis [vg direitos de autor]. necessariamente móveis [art.Lara Geraldes @ FDL o Aplicam-se-lhe as normas da hipoteca [art. enfim]. o Penhor com desapossamento – o autor do penhor entrega o bem ao credor pignoratício ou a um fiel depositário [contrato real quoad constitutionem]. 669º ss] Penhor de direitos [arts. 694º]: não se permite que o credor fique com o bem dado em garantia. 679º]. 703º]:    o Legal Judicial Voluntária Incide sobre coisas imóveis ou coisas móveis que sejam equiparadas ás primeiras [versa sobre bens registáveis.Direito das Obrigações II . direito de superfície … . de forma preferencial. o o Penhor sem desapossamento O credor pignoratício vai. por remissão. como também o contrato mediante o qual se constitui o direito em causa [bilateral]. • Hipoteca: o Tanto significa o direito real de garantia. 173 . o Tipos de hipoteca [art. Função de publicidade. 665º]. 666º-1] – pergunta-se se abrangerá complexos de coisas/universalidade. 679º ss] – aplicam-se. satisfazer o seu crédito pela venda judicial da coisa empenhada. o o Penhor de coisas [arts. com tradição da coisa. as regras do penhor de coisas [art.

Podem ser mobiliários ou imobiliários. 716º]. • Garantias de natureza processual: penhora e arresto repressivo. • Privilégios creditórios: o Concedidos a certos credores atendendo à natureza do crédito [arts. 694º]: não se pode acordar que o credor hipotecário fará seu o bem garante. 733º ss]. abrangendo as partes componentes e integrantes do bem. 174 . • Direito de retenção: o Confere ao devedor. o Pressuposto: o crédito do devedor da entrega da coisa deve resultar de despesas feitas por causa dela ou de danos por ela causados. móveis e imóveis. que se encontra adstrito a entregar uma coisa e disponha de um direito de crédito sobre o credor. pelo que a hipoteca terá por objecto coisas determinadas [art. o A sua eficácia depende do acto de penhora sobre os bens que são objecto da respectiva incidência – só se constituem efectivamente quando ocorrem os factos ou os actos de que a lei faz depender a sua atribuição. 754º ss]. mantendo a coisa que deveria entregar em seu poder [arts. o o Não são susceptíveis de serem constituídos por negócio jurídico. Constitui uma preferência de pagamento independente de registo – preferência de cumprimento. 428º ss]. tenha função de garantia e incida apenas sobre coisas corpóreas. gerais ou especiais. o Vigora também a proibição do pacto comissório [art. o Similitude com a excepção do não cumprimento [arts. embora possa ser exercido independentemente de relação sinalagmática. o direito de não efectuar a prestação. que não estudaremos nesta sede.Direito das Obrigações II .Lara Geraldes @ FDL o Não há direitos sobre direitos.

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