Artigo

A VARIABILIDADE DOS TRANÇADOS DOS ASURINI DO XINGU: UMA REFLEXÃO ETNOARQUEOLÓGICA SOBRE FUNÇÃO, ESTILO E FREQUÊNCIA DOS ARTEFATOS

Fabíola Andréa Silva*

Resumo
A compreensão das causas e do significado da variabilidade artefatual encontrada no registro arqueológico é um dos objetivos mais importantes da pesquisa arqueológica. Em geral, os estudos sobre o tema consideram quatro dimensões da variabilidade: 1) a formal; 2) a quantitativa; 3) a espacial; e 4) a relacional. Este trabalho mostra, através de uma abordagem etnoarqueológica, que a variabilidade formal e quantitativa dos objetos trançados Asurini está relacionada com aspectos da sua organiza ção social e econômica, da sua cosmologia e da sua interação com o mundo dos “brancos”. Palavras chave: Variabilidade artefatual; trançados; Asurini do Xingu.

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Professora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Avenida Professor Almeida Prado, 1466. Cidade Universitária, São Paulo (SP). CEP 05508-070. faandrea@usp.br.

Revista de Arqueologia, v.22, n.2, (ago-dez.2009): 17- 34, 2009

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that formal and frequency variability of the Asurini plaited objects are related with aspects of them social and economic organization. Jo rd an & Shennan. 1994. 2) frequency. simbólicos e históricos que influenciam na definição da variabilidade da cultura material e. Castro. O’Neale. possibilita a produção de objetos que servem a vários fins.A. posteriormente. Barcelos Neto. sociais. os estudos sobre o tema consideram quatro dimensões da variabilidade: 1) a formal. econômicos. dando a elas os mais diferentes significados culturais. 1977). This paper disc uss. 19 95 . que só podem ser identificados considerando a trajetória dos artefatos no contexto sistêmico e. thro ugh an ethnoarchaeological approach. deste tipo de artefato existente nos registr os arque ológicos. Cabe lembrar que a etnografia dos trançados possui vasta bibliografia. 2009 . Asurini from Xingu. com formas diversas para atividades do cotidiano e para as performances rituais. van Velthem. sem o auxílio de dispositivos de tensão. os artesãos criam diferentes combinações.22. 3) a espacial. à sua cosmologia. Os estudos etnoarqueológicos dos artefat os trançados possuem um grande potencial para a reflexão arqueológica sobre os aspectos culturais. Key words: Artef act variability. Si lv a. Objetos trançados ou cestaria são termos a definir uma infinidade de artefatos produzidos com fibras (não fiadas) de diferentes materiais (rígidos ou semi-rígidos). da história e das interações interculturais de se us pr od ut or es (c f. At ra vé s de um a re fl ex ão et no ar queológica sobre os trançados Asurini. Generally the studies about this subject consider four dimensions of variability: 1) formal. 20 07 . talvez uma das mais antigas aptidões humanas. 4) relational. da economia. Ribeiro. 1987. o objetivo deste artigo é mostrar que a variabilidade formal e quantitativa deste conjunto artefatual está relacionada à sua organ izaç ão soc ial e eco nôm ica.34. em especial. v. tecnológicos. 1993. da organização social. Abstract The und ers tand ing abo ut cau ses and mean ings of arte fact varia bilit y on the archaeological record is one of the most important goals of archaeological research. Assim. plaite d objects. 18 Revista de Arqueologia.2. 3) spatial. F. twi nin g e pla iti ng (Adovasio. A arte de tran- çar. moldura ou tear (Adovasio. 1977:1. O entendimento destes aspectos é fundamental para a definição das tipologias artefatuais e para a interpretação da sua variação e variabilidade no tempo e no espaço (Washburn & Petitto. revelando amplo espectro de significados sobre seus contextos de produção e uso. Compreender as causas e o significado da variabilidade artefatual encontrada no registro arqueológico é tema central nos interesses dos arqueólogos. cosmology and them interaction with nonindians populations. Em geral. 1994.2009): 17. Silvestre. bem como às suas interações com os não Asurini. 1987:323-325). 1994. 19 80 . Apesar das escolh as tecno lógic as para executar o trançado estarem basicamente restritas às téc nic as de coi lin g. 20 00 . n. 2003). 4) a relacional. Cada uma das dimensões resulta de diferentes processos culturais e naturais. 1985. 1984: 196-203. no contexto arqueológico (Schiffer. 1995. (ago-dez. 2005). 1998. Tave ir a. 1980. Ribeiro. Leroi-Gourhan. a variabilidade dos trançados está relacionada a diferentes aspectos da cosmologia. 1980:18-21. Reichel-Dolmatoff. 2) a quantitativa. Pryor & Carr.SILVA. 1987).

1991). 1985:44) ou. jaerui) e nos cestos ca rg ue ir os ( py ry vy si ng a. Os artefatos produzidos através deste tipo de tecnologia podem ser usados para cumprir vár ias tar ef as e. A matéria prima emprega da é a pref oli açã o do babaçu para confeccionar o corpo dos cestos e diferentes espécies de enviras e cipós para fazer as amarrações e alças. arco cerimonial (yvyripa-rakwasiat). A técnica empregada em sua elaboração é o trançado cruzado em diagonalou sarjado (Ribeiro. no cest o es to ji fo rm e ( pa tu a). Bamforth. Os Objetos Trançados dos Asurini do Xingu e sua Funcionalidade Os objetos trançados Asurini são produzidos com o limbo e a prefoliação das palmeiras babaçu (Orbygnia speciosa) e tucum (Astrocaryum vulgare). Nelson.2009): 17. transportados de um local para outro. por outro lado.A variabilidade dos trançados dos Asurini do Xingu: uma reflexão etnoarqueológica sobre função. 1983. 1991). a partir da combinação desta técnica com a do trançado cruzado em diagonal ou sarjado.) e samambaia. 2009 19 .22. no cesto vasifor me (muyriry). Os cestos fabricados com esta matéria prima e técnica são os do tipo cargueiro (piriapara e pyryvisinga). flecha cerimonial (uyva-kwasiat). pir iap ara ). no cesto platiforme (mi aav a). nos aba nad ore s (tap ekw a. As técnicas de trançado utilizadas por eles são: 1) o trançado quadriculado xadrezado nas peneiras (pyrypem.34. bem como.2. podem ser reciclados para serem usados em atividades diferentes daquelas planejada s para o seu uso inicial. os artefatos produzidos a partir de uma tecnologia expediente. Além disso. Estes objetos trançados podem ser diferenciados em objetos de curadoria e expedientes. 1983. manakusinga). normalmente. Os objetos expedientes Asurini são muito abundantes e utilizados na realização de uma série de tarefas diárias. dad o o esf orço despen-dido na sua elaboração. com talas de arumã (Ischnosiphon sp. 1985:46). 5) o trançado enlaçado com trama flexível. não são guardados. pi ri ap ar a. Nelson. estilo e frequência dos artefatos I. ar ak ur yn a. pyrypemkwasiat ) e nos cestos cargueiros paneiroforme e ja ma xi m ( ma na ku si ng a. A sua manufatura com morfologia pouco diversificada é realizada por homens e mulheres. (ago-dez. 2) o tra nça do cru zad o em diagonal ou sarjado. n. tape kwa pir i. sendo determinada pelas necessidades momentâneas do cotidiano. 1986. Ela está intimamente relacionada com a disponibilidade de acesso às matérias primas e não implica numa prévia preparação da mesma. v. Uma tecnolog ia expedient e. Revista de Arqueologia. na antecipação da obtenção e do preparo da matéria prima. nos ces tos vasiformes (maerui. guardados e estocados (Binford. 3) o trançado torcido horizontal com técn ica dobr ada. ainda. Os Asurini executam esta técnica de trançado a partir de duas variantes (horizontal e vertical) denominadas de pirinina (linha) e amuatá (espécie de peixe) (figura 1). O cesto piriapara de base tetrápode também é elaborado a partir da técnica do trançado quadriculado ou xadrezado (Ribeiro. inclusive para a aquisição da matéria prima. 4) o tr an ça do ma rc he ta do pa ra ad or no de ca be ça (akiwita). tap ekw asi at). sendo descartados logo após o seu uso (Binford. Trata-se de uma tecnologia que implica em pouco esforço e tempo de trabalho. Ela implica em uma manufatura elaborada. uma tecnologia de curadoria é aquela empregada na produção de itens materiais cuja manufatura e uso são previamente planejados. cesto pl at if or me ( mi aa va ) e pe ne ir a (pyrypemkwasiat). Em termos de definição. bem como. é aquela empregada na produção de itens materiais cuja manufatura e uso são ditados de acordo com necessidades moment âneas.

34. bem como na tarefa de obtenção do barro para a manufatura dos vasilhames cerâmicos. o manakusinga é um cesto do tipo jamaxim. Os artefatos de curadoria são elaborados atrav és de técni cas de tranç ado diversificadas. como as ferramentas de trabalho e os equipamentos de pesca.SILVA.Ce sto s car gu ei ro s ex pe di en te s pyravitinga com técnica de trançado cruzado em diagonal (amuatá e pirinina). A junção de dois cestos deste tipo. 1985:49). 2009 . as peneiras pyrypem e pyrypemkwasiat e os cestos cargueiros manakusinga e arakuryna são produzidos com a técnica do trançado cruzado quadriculado ou xadrezado. Esta mesma técnica é empr egada na elab oraç ão do cest o platiforme miaava e do cesto vasiforme maerui. Em termos formais. da caça e coleta.Além disso. Neste caso. F. Este é utilizado por ambos os sexos para transportar produtos da roça e lenha. 1985:52). ele serve para transportar redes. v. Ele é empregado para o transporte dos produtos da roça. para armazenar castanhas. com corpo esférico e base tetrápode. instrumentos. usada para servir alimentos. através de uma costura com enviras ou fios de algodão. Ele possui uma forma retangular. Com esta técnica. de contorno simples e tamanho variado. O ces to estojiforme patuá é elaborado com a técnica do trançado horizontal com técnica dobr ada (Ri beiro. ele tem a função adicional de servir como cesto de armazenagem de diferentes itens materiais nas unidades domésticas. É utilizado por ambos os sexos no transporte dos produtos da roça. A técnica do trançado cruzado em diagonal ou sarjado pode ser realizada com bicromia e formar desenhos. a técnica passa a ser chamada de trançado marchetado (Ribeiro. O trançadomarchetado também é realizado sobre o trançado cruzado qu adr iculado ou xad re zad o. Ou seja. por também ser um cesto para armazenar. O termo piriapara também é empregado para designar um tipo de vasilha cerâmica. utensílios domésticos e gêneros alimentícios nas excursões pela mata. guardar cabaças ou outros instrumentos. Fi gu ra 1 .22. O cesto do tipo pyryvisinga é o de mais fácil aprendizado e execução. O cest o vasiforme muyriry é feito com a técnica do trançado enlaçado com trama flexível (Ribeiro. 20 Revista de Arqueologia. apresentando fundo plano e três lados. É comum ver cestos deste tipo nas áreas de cozinha.A. Estes dois últimos também podem ser elaborad os com a técnica do trançado cruzado em diagonal ou sarjado. forma o cesto cargueiro arakuryna. da caça e coleta. Porém. os Asurini produzem os adornos de cabeça akiwita e os arcos e flechas cerimoni ais (yvyripar akwasia t e uyvakwasiat). n. Dentre os artef atos de curado ria os mais abundantes na aldeia são os cestos cargueiros manakusinga e arakuryna (figura 2). Ele apresenta uma frequência numérica maior na aldeia. O cesto cargueiro do tipo piriapara apresenta uma forma mais arredon dada e tem um fundo tetrápode.2. 1985:5 5).2009): 17. Ambos são utilizados por ambos os sexos e o primeiro serve para carregar produtos da roça e lenha. (ago-dez.

2009): 17. estilo e frequência dos artefatos Figura 2 . v. Outro tipo de cesto vasiforme é o maerui. Ele é usado pelas mulheres e homens para guardar miudezas no interior das unidades domésticas. apenas alguns homens velhos sabem fazê-la e. A matéria prima é a tala de arumã. mas o uso é feito pelas mulheres para o processamento da farinha. (ago-dez. mas pude observar o tipo não marchetado denominado pyrypem. Outro conjunto artefatual pouco abundant e é o das pene iras cham adas de pyrypemkwasiat. é produzido.22.2. Alé m da s mi aa va e do s ta pe kw a/ tapekwapiri. boca constrita e fundo tetrápode. Um cesto bastante diferenciado no conjunto de artefatos de curadoria é o cesto estojiforme patuá (figura 3).34. Este cesto era usado tradicionalmente para armazenar produtos e utensílios. Atualmente. Os cestos plati form es denominado s miaava. tampa e fundo tetrápode e pode apresentar diferentes tamanhos e combinações de desenhos lineares com os fios de algodão. com corpo arredondado. 2009 21 . normalmente. pelas mulheres para a venda. n. ao tamanho e às matérias primas empregadas nas costuras e nas alças. Atualmente ele não é mais produzido na aldeia. os cestos vasiformes buyriry também são produzidos abundantemente na aldeia. Em minhas visitas à aldeia não identifiquei nenhum exemplar deste tipo de peneira. sendo o arremate feito com aro roliço. principalmente. Apresenta contorno formal arredondado. como depósito do material necessário à elaboração do charuto de tabaco ritual e também são abundantes na aldeia. para a venda. Ele é produzido a partir da técnica de trançado torcido horizontal ou técnica dobrada e sua forma é semelhante a dos cestos deste tipo encontrados em outras populações. são utilizados pelas mulheres para guardar o algodão e os fusos no interior das unidades domésticas e pelos homens. É produzido com as talas de arumã (uruiva) repartidas ao meio. as peneiras são produzidas pelos homens. trançadas com a técnica do trançado cruzado em diagonal ou sarjado. Revista de Arqueologia. Este tipo de cesto é manufaturado a partir da técnica do trançado enlaçado com trama flexível. Este também o caso dos abanadores tapekwa e tapekwapiri.Ces tos cargueiros manakusinga e arakuryna. Atualmente. pois há poucos Asurini que dominam a sua manufatura. sendo esta a principal razão de sua abundância na aldeia. como os Kayapó-Xikrin e os Karajá.A variabilidade dos trançados dos Asurini do Xingu: uma reflexão etnoarqueológica sobre função. dividida ao meio e trançadas a partir da técnica do trançado cruzado quadriculado ou xadrezado. Segundo Muller (1990:211). utilizados para controlar o fogo. Ele é formado a partir da combinação de talas de arumã (uruiva) e fios de algodão nas cores branca e marrom. esta última obtida através do tingimento com casca de mogno. Ele é utilizado pelos homens para guardar miudezas e equipamentos no interior das unidades domésticas e as variações encontradas neste conjunto artefatual dizem respeito. especialmente.

os homens com idade superior aos sessenta anos. o cesto-cargueiro pyravyisinga. mas as mulheres mais velhas também dominam as técnicas de produção destes cestos. por exemplo.SILVA. que demanda maior especialização. 1 Vide mito do desenho em Müller (1990). de mais fácil elaboração. especialmente. pelos homens. F. 1985:8485). é muito comum observar homens e mulheres de diferentes idades produzindo cestos. embora exista certa preponderância masculina em alguns artefatos. Os Asurini combinam estes padrões de desenho de forma variada e cada combinação recebe um nome diferenciado. 22 Revista de Arqueologia. à cosmologia Asurini. II. e os desenhos remetem aos desenhos da pintura corporal e da cestaria e. v. losangos com diamante. A principal distinção de gênero ocorre com relação aos trançados marchetados que são prod uzido s. Os padrões ornamentais mais correntes nestes trançados marchetados são o chevron. Muitas vezes. Os jovens. costumam ser orientados pelos homens mais velhos pertencentes ao seu grupo domésti co . zigue-zague transverso. as peneiras (pyrypemkwasiat) e os cestos platiformes (biaavakwasiat).Cesto estojiforme patuá. As redes de ensino-aprendiza- Figura 3 . Eles são elaborados com o trançado marchetado. De todos os artefatos de curadoria.2009): 17. Na cosmologia Asurini estes desenhos foram co pi ad os do co rp o do so br en at ur al Anin gakw asia t pelo heró i míti co Anin gavuí1. os arco s e flechas ceri mon iais (yvy riparakwasiat e uyvakwasiat).34. n. es pe ci al me nt e do s ce st os de curadoria. existe uma preponderância masculina. Gênero e Produção dos Trançados entre os Asurini do Xingu O trabalho com a cestaria é realizado tanto pelos homens quanto pelas mulheres. O trançado de curadoria. No que se refere à cestaria expediente. os homens podem chegar à idade adulta sem dominar totalmente as técnicas de elaboração dos arcos e flechas (yviripa kwasiat e uyvakwasiat) e aros de cabeça (akiwita). No que se refere aos trançados marchetados. as tala s de arumã (brancas) e as talas de samambaia (escuras). implica em um aprendizado mais longo. Elas começam aprendendo o trançado expediente a partir da observação das atividades dos indivíduos mais velhos pertencentes ao seu grupo doméstico. por sua vez. 2009 . as crianças são incentivadas a aprender as técnicas de trançado. Este tipo de trançado tem ficado cada vez mais restrito a alguns indivíduos. os mais elabor ados esteticamente são os adornos cerimoniais de cabeça (akiwita). Eles são produzidos pelos homens mais velhos para uso ritual. combinando duas matéria s prim as dist inta s. Para os cestos de curadoria. (ago-dez. Desde muito cedo.A. eminente ment e. são as mulheres que ensinam os filhos. quadrado concêntrico e gregas (Ribeiro. normalmente.22. por sua vez.2.

Aspectos como as características e disponibilidade das matérias primas. bem como as estruturas de ensinoaprendizagem. Ao mesmo tempo. (ago-dez. pelo fato de serem empregados para transportar produtos pesados (p. Os cestos de curadoria. Assim. batat as. v. Os cestos do tipo vasiforme e as peneiras são produzidos com as resistentes talas de arumã e os adornos corporais com a combinação de talas de arumã e samambaia a fim de dar visibilidade aos motivos da arte gráfica Asurini. A utiliza ção. Lemonnier. os mecanismos de transporte e distr ibuição dos artef atos. eles são feit os com a prefoliação do babaçu e com amarrações de enviras que são matérias primas resis- Fatores situacionais são definidos como sendo “as externalidades comportamentais. 2009 23 . ou ainda. com o ex-marido da tia de sua mãe. n. por outro lado. A Variabilidade Formal dos Trançados Asurini A variabilidade formal dos objetos diz respeito às propriedades físicas dos artefatos: 1) tamanho. 2) espessura. as diferenças de conhecimento técnico e habilidade motora dos artesãos. porém os folíolos são cortados ao meio e deixados para secar a fim de se tornarem mais resistentes. sociais e ambientais que atuam sobre a cadeia comportamental de um artefato e são incorporadas em cada componente específico da atividade” (Schiffer & Skibo. próprio de cada artesão durante o processo produtivo. Além disso. ser de caráter mais individualizado. III. Assim.2009): 17. a seleção e o preparo das diferentes matérias primas para a elaboração dos objetos trançados é determinada pelo tipo de objeto a ser produzido. 4) profundidade. Mahias. os cestos expedientes são sempre produzidos com a prefoliação da palmeira babaçu que. 7) consistência. são fabr icado s com a prefoliação desta mesma palmeira. por sua vez. também ocorrem em torno do grupo doméstico e parentes afins. 1993. barro. reuso. mandioca. como também. 3) peso. Para Schiffer e Skibo (1997). podem assumir uma dimensão generalizada. be m co mo po r di fe re nt es fa to re s situacionais 2. 1993). por sua vez. No que se refere à morfologia dos cestos cargueiros é possível perceber que tanto os cestos expediente s quanto os de curadoria possuem tamanhos proporcionais com o seu usuário e formas que permitem um transporte seguro dos produtos da roça e da coleta. a variabilidade formal dos artefatos é resultante das escolhas tecnológicas realizadas pelos artesãos durante o seu processo de elaboração. pelo conhecimento e experiência do artesão. Schiffer e Skibo. estilo e frequência dos artefatos gem destes objetos. com o marido da irmã de sua mãe.2. 7) forma. Estas são motivadas pela performance do artefato. os procedimentos técnicos de manufatura. No contexto Asurini. em termos de grupo. Revista de Arqueologia. lenha ).ex. como no caso do cesto estojiforme patuá. 1997:34).34. Entre os Asurini. além dos pais ensinarem seus filhos é possível observar um jovem aprendendo a fazer o trançado do arco com o pai do marido da irmã de sua mulher. não recebe nenhum tipo de preparo anterior a sua utilização. van der Leeuw. 1997. ou dobrados. a variabilidade formal dos objetos trançados é resultante de es2 colhas tecnológicas que se iniciam desde a seleção da matéria prima até a elaboração do acabamento final. 1993. a organização social do trabalho e os sistemas de representações simbólicas são elementos que precisam ser considerados quando se pretende entender os sig nif ica dos das pro pri eda des estilístic as dos artefa tos (Cf.A variabilidade dos trançados dos Asurini do Xingu: uma reflexão etnoarqueológica sobre função. Estas escolhas. 6) textura. elas são o resultado de diferentes fatores práticos e simbólicos. padrões de armazenagem e descarte.22. 5) cor.

24 Revista de Arqueologia. sendo que a escolh a do motivo a ser tramado é exclusiva do artesão.SILVA. o que se observa é a decoração dos mesmos com os motivos trançados cujo significado remete à cosmologia. é fruto de um longo processo de aprendizagem e da experiência empírica na confecção destes itens materiais. chamad as de pirinina e amuata. semelhantes às gregas produzidas pelas mulheres na pintura corporal e na decoração da cerâmica.34. a estrutura de ensino-aprendizagem e transmissão de conhecimentos implica numa padronização das técnicas de produção e das formas dos artefatos. possuem uma forma que facilita a sua utilização na limpeza e fiação do algodão. 1995:280. (ago-dez. mas tamb ém. Roe. Entre os Asurini. Isso.2009): 17. peneiras. Nos cestos do tipo vasiforme chamados de muyruru (figura 5) pode haver imensa variabilidade decorativa. F. tornando alguns dos trançados inconfundíveis em relação aos de outros grupos culturais (por exemplo. Ou seja.2. 1995:51). nos proc edim ento s adotados com relação ao processo produtivo. sendo esta resultant e das escolhas individuais das artesãs. cestos vasiformes). dos processosprodutivos e das atribuições utilitárias. Segundo os artesãos. quanto mais o instrutor controla o aprendiz no processo de aprendizagem e elaboração de um item material. Como foi observado em outros contextos etnográficos. Estas combinações formam motivos que são. bem como.22. Apesar desta estrutura de ensino-aprendizagem muito controlada entre os Asurini. que impedem a queda dos objetos armazenados e os detalhes das costuras e acabamentos. Os trançados dos mesmos são feitos a partir de tramas fechadas. por sua vez. Os cestos platiformes. No que se refere aos arcos e flechas cerimoniais e aos aros de cabeça. nos detalhes do trançado e na escolha dos motivos decorativos de alguns tipos de cesto e dos adornos corporais e arcos e flechas cerimoniais. miaavajanuputia (teia de aranha). Estas se manifestam. notamse diferenças entre os objetos. Esta mesma diversidade de combinações de técnicas de trançados ocorre na elaboração dos cestos platiformes denominados de miaawa. estreitas ou protegidas com tampas. Nos cestos podemos observar combinações diferenciadasdas técnicas de trançado. principalmente. tornam estes mais resistentes ao transporte e à manipulação contínua. objetos cerimoniais. por sua vez. Todas estas escolhas registradas entre os Asurini são levadas a cabo a partir dos conhecimentos que os artesãos possuem a respeito das matérias primas. este controle é uma condição do processo de aprendizagem dos trançados e ocorre uma similaridade não apenas nos objetos. Esta diversidade de combi naçõe s de motivos ocorre na elaboração dos adornos corporais (akiwita) (figura 4) e dos arcos e flecha s cer imo nia is (yvy rip ara kwa sia t e uyvakw asiat). tentes e duráveis e de fácil obtenção. usados no contexto ritual. estéticas e simbólicas que estes objetos devem apresentar.A. da mesma maneira que as peneiras cuja trama deve possibilitar a passagem dos grãos de farinha . v. formando desenhos de quadrados concêntricos. por exe mp lo. maior será a semelhança estilística dos objetos por eles produzidos (Pryor & Carr. Os ces tos de cur ado ria do tip o vasiforme e estojiforme utilizados para armazenar instrumentos e produtos diversos possuem as aberturas superiores pequenas. o modo de trançar pode diferenciá-los uns em relação aos outros. 2009 . inclusive. Um detalhe interessante observado nas tramas de alguns exemplares é a combinação das duas variantes do trançado cruzado em diagonal ou sarjado (pirinina e amuata). denominados pelos Asurini a partir de elementos da natur eza com o. n.

34. 2) tapekwapiri feito com o folíolo da prefoliação do tucum. v. trançado a partir da té cn ic a do tr an ça do cr uz ad o em diagonal ou sarjado.Akiwitá com trama marchetada diferenciada. técnicas de trançado e formas diversificadas. prefoliação do babaçu. linha (pirinina) ou simplesmente desenho (kwasiat) (figura 6). aparecem três tipos de abanadores: 1) tapekwa feito do folíolo da A comercialização também influencia a variabilidade formal dos objetos trançados Asurini.Cestos vasiformes muyruru com decoração diferenciada Nas peneiras (pyripem) também observamos variabilidade nos trançados.22. 2009 25 .2009): 17. a partir da combinação das variantes horizontal e vertical do trançado cruzado em diagonal ou sarjado. cestos platiformes). dependendo da escolha do artesão. ou a ampliação dos mesmos (por exemplo. n. nas variantes horizontal e vertical. arcos e flechas cerimoniais. nos tamanhos e nas formas. peneiras. Figura 6 . 3) tapekwasiat feito com o folíolo da prefolição do babaçu cortado ao meio. cestos muyriry). Pode ocorrer a miniaturização dos objetos (por exemplo. nas variantes horizontal e vertical.A variabilidade dos trançados dos Asurini do Xingu: uma reflexão etnoarqueológica sobre função. Revista de Arqueologia. estilo e frequência dos artefatos Figura 4 . forma e técnicas de trançado. Os abanadores também apresentam variabilidade em termos de matéria prima. Figura 5 . Ou seja.Tapekwa com matérias primas. trançado a partir da técnica do trançado cruzado em diagonal ou sarjado.2. (ago-dez. formando desenhos que são chamados de fígado (piá).

vem sendo desenvolvida a reflexão de que o estilo não está separado da tecnologia. Roe. 1992. 1985). alguns autores define m estes processos como processos estilísticos ativos e process os estilíst icos passivos (Heg mon. 2009 . ao mesmo tempo. por sua vez. de legitimação de poder social e político (por exem plo. 19 89 . Sacket. (ago-dez.SILVA.conscientemente ou não – durante todo processo de produção do artefato.A Questão do Estilo e sua Relação com a Variabilidade Formal Vários pesquisadores se dedicam à reflexão sobre a noção de estilo e a importância do mesmo para o entendimento da variabilidade formal dos artefatos. Di et le r & He rb ic h. esta divisão entre estilo e função é artificial na medida em que a evidência etnográfica tem demonstrado que os objetos são produzidos enquanto totalidades. 1980. todas as dimensões da variabilidade formal e não certos elementos. 1993. v. de continuidade e transformação cultural (por exemplo. Pauket at & Eme rso n. 1982. Estas escolhas. fic a dem ons tra do que a var iab ili dad e estilística pode estar relacionada com processos de interação social e étnica (por exemplo. 1983. são ditadas pelo contexto no qual se insere o artesão e resultam no que ele chama de variação isocréstica3 . necessariamente. É por esta razão que se torna necessário “integrar os fatores tecnológicos na análise do estilo e no mapeamento da relação entre forma e processo” (Carr. Neitzel. Childs. concorda com esta posição. 1992:502-507). Assim. Clottes & LewisWilliams. Pfaffenberger. mas ao contrário. Assim. Segundo alguns autores. naqueles elementos formais dos artefatos que não são explicáveis diretamente em função da natureza das matérias primas e da tecnologia de produção. tem-se enfatizado que as análises dos fenômenos estilísticos não devem ser conduzidas como se o estilo residisse. 1983. 1995b). Arnold. 199 1. onde os aspectos estilísticos são inerentes à funcionalidade e vice-versa. Sackett (1977. 2003). O resultado destes trabalhos tem sido a constatação de que o estilo não é um fenômeno unidimensional e que o entendimento sobre onde ele reside e o que ele revela está longe de ser consensual. quanto no processo de produção dos artefatos e que definem um estilo tecnológico. Lahiri. a var iaç ão isocréstica gera características artefatuais 26 Revista de Arqueologia. Segundo o autor.A.2. como estilísticos ou funcionais (Roe. 1995a. IV. Para isto é preciso considerar as decisões concre tiza das tant o no pla nej ame nto. de representação de aspectos simbólicos e estruturais (por exemplo. devem levar em consideração os processos comportamentais a partir dos quais estes são originados e. F. o estilo não reside num domínio acessório da forma. Jo rd an & Shennan. Arnold. 1982. n.2009): 17. Wiessner. 1991). exclusivamente. realiza das dent re alte rn at iva s te cnologicamente equivalentes.34. Carr. 1993). está “embebido nas decisõ es tecno lógicas” (Carr. 1986. 1995. antecipadamente definidos. 1995:34-35. mas nas escolhas tecnológicas a partir das quais a mesma é resultante e que são feitas pelo artesão . 1995). 1996) e de adaptação ecológica (por exemplo. 1995. por ser socialmen te def inida.22. pois segundo ele. São vários os processos que determinam a variabilidade estilística na cultura material e. 1995b:252). Paralelamente a estas discussões sobre o papel ativo e passivo do estilo e os seus significados nos diferentes contextos sociais. Roe. O fato é que o estilo pode ser definido de várias maneiras e cada uma focaliza determinados aspectos contextuais e conjunturais da produção dos conjuntos artefatuais. A análise e a classificação dos atributos funcionais e estilísticos dos objetos. 1995a:160).

reuso e armazenagem (Schiffer.A variabilidade dos trançados dos Asurini do Xingu: uma reflexão etnoarqueológica sobre função. Assim. é determinada pelo ciclo de vida dos mesmos e.bom para o uso. muyryru. o conhecimento dos artesãos da tecnologia de produção. por outro lado. é que ao 3 se analisar a variabilidade formal dos conjuntos artefatuais não se pode ficar restrito as externalidades da forma.igual e chrestikós .2009): 17. literalm ente .2. ou seja. também. pyrypem). mas ao mesmo tempo. as demandas da comer - Sackett elabora este conceito a partir de um neologismo do grego Isos . útil. Vários trabalhos etnoarqueológicos demonstram que. “o aspecto funcional de um artefato reside na maneira como a sua forma serve a um determinado fim e o aspecto estilístico reside na variante étnica ou escolha isocréstica em que esta forma surge” (Dias & Silva. akiw ita . sociais. Portanto. uyva kw asia t. yvyr ipakwa si a. construam e reforcem suas relações sociai s e exerci tem sua criatividade. que essa tecnologia dos trançados não produz apenas objetos úteis para as atividades do cotidiano. equivalentes em uso. estilo e frequência dos artefatos que são peculiares a certos lugares e tempos podendo ser tomadas enquanto índices de etnicidade. os objetos trançados são resultantesdos aspectos práticos e funcionais traduzidos nos procedimentos técnicos para a sua produção.34. É preciso salientar. Ao mesmo tempo. que deve ser considerado pelos arqueólogos. em outras palavras. No contexto Asurini se pode observar a variação isocréstica com relação à maioria dos objetos trançados (manakusinga. pelos seus processos de uso. 1987). V. culturais e físicos podem atuar e contribuir na definição da configuração dos itens materiais” (Dias & Silva. 2001:98-99)4 . principalmente. É preciso levar em consideração toda a gama de escolhas que foram conduzidas durante a produção dos mesmos e da qual esta forma é resultante. usual. pyravysinga. Essas escolhas tecnológicas .22. à sua ocorrência numérica no registro material. Revista de Arqueologia.coletivas ou individuais -. 2001:105). 1990:2154). Em setembro de 2007 realizei um levantamento quantitativo dos objetos trançados que estavam sendo utilizados na aldeia Asurini e constatei que a sua freqüência numérica estava condicionada por fatores como a freqüência de uso. o que Sacket (1982:72-73) define como variantes artefatuais que são “isocrésticas”. Nesse debate sobre estilo e tecnologia o que me parece relevante. apesar da freqüência dos artefatos parecer um dado objetivo e mensurável no registro arqueológ ico. ela está relacionada a muitas variáveis relativas à demanda produtiva de cada tipo de artefato que. (ago-dez. de forma consciente e inconsciente. ela proporciona que os Asurini. por sua vez. técnicas de trançado e decoração que resultam na sua variabilidade formal. não implicam em uma mudança de uso destes diferentes obje tos sendo. que sabe se servir de. na comparação dos conjuntos artefatuais. reconhecer que “o processo produtivo é um campo de análise complexo. onde diferentes fenômenos comportamentais. n. 2009 27 . miaava.A Variabilidade Quantitativa dos Trançados Asurini A variabilidade quantitativa dos artefatos diz respeito à freqüência em que os mesmos aparecem num determinado contexto ou. v. arakuryna. reafirmando sua identidade cultural. os processos de armazenagem e descarte. 4 Vide a discussão detalhada sobre a relação entre estilo e função em Dias e Silva (2001). habilitado para se servir de (Bailly. Todos esses objetos podem ser produzidos a partir de variantes de tamanho.

estes cestos são usados no cotidiano para transportar os produtos da roça e da coleta. dos abanador es (tapekwapiri) e dos cestos platiformes (miaawa). O mesmo acontece com o cesto arakuryna que serve para armazenar e transportar objetos e utensílios.34. ou seja. As peneiras não são muit o abun dant es porq ue são pouc os artesãos que conhecem a sua tecnologia de produção ou têm se disponibilizado em produzir este tipo de artefato que vêm sendo substituído pelas peneiras industrializadas.SILVA. Além disso. este artef ato costu ma ser bem cuidad o por aqueles que o utilizam e é descartado com muito menos freqüência que os cestos expedientes. Tabela 1 . n. apresentam um modo de uso semelhante aos cestos de cu ra do ri a ch am ad os ma na ku ti ng a e arakuryna. pelos homens mais velhos. (ago-dez. sendo que são principalmente as mulheres que os fabricam durante suas tarefas cotidianas de buscar produtos da roça e coletar barro para a fabricação de suas vasilhas cerâmicas. A diferença deste cesto cargueiro em relação aos cestos do tipo piravitinga e piriapara é que o seu processo de elaboração é mais complexo sendo dominado. insetos e outros bichos que costumam se alojar em suas casas. os cestos são fáceis de fazer. Este é o caso das peneir as (piripe ma).2. mochilas e malas que. pois as mulheres Asurini não têm plantado muito algodão em suas ro- 28 Revista de Arqueologia. oferecem maior segurança na preservação dos bens armazenados contra a ação de roedores. Os fatores que condicionam esta quantificação são a sua freqüência e modo de uso. v.Frequência de Tipos de Objetos Trançados na Aldeia Asurini (2007) T ipo de Objeto Qua ntidade 4 34 56 11 13 14 3 81 69 3 2 290 Manakowara Manakutinga Arakuryna Miaawa Piripema Tapekawa Tapekwapiri Piravitinga Piriapara Patuá Muiriru Total Como se pode observar que os cestos cargueiros piravitinga e piriapara são os mais frequentes na aldeia. Porém.A. barro e lenha pelas mulheres e homens. este tipo de cesto vem sendo substituído por objetos industrializados como sacolas. costurados um de frente ao outro. dada a sua resistência. Atualmente.2009): 17.22. que também são abundantes no contexto da aldeia. 2009 . O mesmo acontece com o cesto platiforme (miaawa) que vem perdendo sua utilidade. cialização e a substituição por artefatos industrializados (tabela1). Os cestos. principalmente . F. são utilizados para armazenar produtos e ferramentas na parte externa das casas. segundo os Asurini. Outros objetos trançados que aparecem na tabela têm sua frequência numérica explicada tanto pela sua freqüência de uso como pela dificuldade de produção. O cesto manakutingaé empregado para transportar produtos da roça. como se pode obse rv ar. Seu processo de elaboração é tão complexo quanto o do manakutinga. Por isso. bem como. os expedientes são descartados com mais frequência. ap es ar de pr od uz id os co m tecnol ogia expedie nte. até mesmo porque este cesto é uma junção de dois cestos deste tipo.

são poucos indivíduos que dominam as técnicas de sua produção.2009): 17. além disso. principalmente. tapekwa). Na maioria das vezes. Sendo assim. pelo fato de que ambos são objetos que só os velhos artesãos Asurini sabem fazer. o patuá é um cesto que normalmente é de propriedade dos velhos artesãos que ainda não o substituíram pelas caixas de ferramentas industrializadas como fizeram os jovens Asurini. U ni dade Domést ica 1/Tapira 2/Ture 3/Murukai/Kwati 4/Taperai/Tara 5/Moaiv a/Mirabo 6/My ra/Parakakuja 7/Buri/Matuia 8/Manduka/Tuva 9/ Apeuna 10/Tuk ura/I pikiri 11/Tak amui 12/Mara 13/Murapi 14/Moreyra 15/Apirakamy 16/Wewei 17/Moteri/Baiu 18/Taimira 1 2 5 1 1 2 2 1 1 4 2 2 tapek wa Tapek w apiri piravit inga pirav itinga/piriapara 4 5 12 1 5 18 1 2 3 3 10 5 1 3 1 5 1 1 1 1 5 3 2 6 1 5 13 7 16 2 mui riru 2 Revista de Arqueologia.2.34. tipóias e adornos corporais). (ago-dez. tem crescido o uso do fogão na aldeia o que leva ao abandono da fogueira na área de cozinha. estilo e frequência dos artefatos ças e nem estão fazendo muitos objetos com esta fibra (por exemplo. Além disso. n. Tabela 2 . No que se refere aos abanadores (tapekwapiri. as mulheres compram os fios de algodão já preparados no mercado da cidade de Altamira (PA). os mesmos vêm sendo substituídos por objetos industrializados e. 2009 29 .22. Nas tabelas 2 e 3 relacionei os tipos de objetos por unidade doméstica e assim é possível verificar esta relação entre a freqü ên ci a nu mé ri ca do s ob je to s e os artesãos que os fabricam e utilizam. redes. este objeto utilizado no processo de fiação do algodão vai aos poucos se tornando desnecessário.A variabilidade dos trançados dos Asurini do Xingu: uma reflexão etnoarqueológica sobre função. A baixa frequência de objetos como o cesto cargueiro manakowa ra e o cesto estojiforme patuá pode ser explicada. v. Un id ad e Do mé stic a ma n ako wa r a ma na ku tin ga 1/Tapira 2/Tur e 3 /Kwati/Mu ruk ai 4/Ta pe rai/Tara 5/M oaiva /Mirab o 6/M yra/Pa raka kuja 7/M uri/Ma tuia 8/Ma ndu ka/Tuva 9/Ap eun a 10/Tuku ra/I pikiri 11/Taka mui/Ajur ui 12/M ara 13 /Mu rap i 14/M or eyra 15/Apir akam y 16 /Wewe i 17/M oter i 18/Taimira 1 2 2 2 1 1 1 1 1 3 7 5 1 1 1 2 1 2 1 2 19 18 1 1 1 1 1 5 2 1 1 1 1 6 3 5 ar a kur yn a mia aw a 3 1 pir ipe ma 2 2 1 2 p a tu á 1 Tabela 3 . Além disso.Frequência de Objetos Trançados por Unidade Doméstica (2007).Frequência de Objetos Trançados por Unidade Doméstica (2007).

mas principalmente. conservam aspectos estruturais definidos pela tradição tecnológica transmiti- 30 Revista de Arqueologia. especialmente dos cestos arakuryna e miaawa. Kwati e Moreyra (unidades 11. a variabilidade quantitativa dos objetos trançados na aldeia é um reflexo da dinâmica estabelecida entre tecnologia de produção. Como se pode perceber. 12.22.2. velhos e bons artesãos Asurini. Também. F. 2009 . para transportar e armazenar o barro para a elaboração de vasilhas cerâmicas – elas são oleiras muito dedicadas e possuem um dos maiores estoques de vasilhas da aldeia. depois de sua morte. Myra e suas filhas costumam fabricar vários destes cestos no cotidiano para transportar produtos da roça. Assim. No que se refere ao cesto muiriru é importante dizer que por ser fabricado.Ao mesmo tempo. (ago-dez. Estes costumam produzir muitos cestos cargueiros expedientes e são alguns dos melhores artesãos da cestaria de curadoria da aldeia. qua- se exclusivamente. mas principalmente os expedientes. O cesto estojiforme patuá é outro exemplo disso.34. 16). Este é o caso do cesto cargueiro expediente marakowara que aparece somente nas casas 3 e 17. Taperaí. Ou seja. A casa 3 também possui um número considerável de cestos. isto ocorre todo o tempo entre os Asurini. Como foi observado ao longo deste artigo. é que alguns objetos trançados possuem uma distribuição mais regular por todas as unidades domésticas. Este é o caso dos abanadores (tapekwa e tapekwapiri) e dos cestos cargueiros expedientes (piravitinga e piravitinga/piriapara). Baiu. n. Outro dado interessante a ser observado quando se compara a freqüência de objetos por unidade doméstica é que alguns se apresentam unicamente em algumas delas. Conforme Roe (1995:45) “não há contradição entre criatividade individual e protótipos tradicionais”. 2. os artesãos podem fazer suas escolhas a partir de uma determinada estrutura de possibilidades oferecidas pela tradição cultural. Moaiva e Mirabo. VI. Conclusão Assim com em outras sociedades indígenas. Ele é produzido com certa regularidade pelas mulheres e é difícil haver tão poucos exemplares na aldeia como ocorreu em setembro de 2007.A. onde residem artesãos como Tara. 17. pois os exemplares que encontrei eram de Kwati. v. Takamui e Moreyra. conhecimentos técnicos dos artesãos e a sua freqüência e modo de uso no cotidiano. Outro dado das tabelas (2 e 3).SILVA. encontrei um destes cestos na casa de Tukura que é um jovem Asurini que herdou este cesto de seu pai Murawu. armazenagem e preparação dos alimentos.2009): 17. 3 e 14) ou seus parentes (unidades 1. os objetos trançados se transformam em lugar de exercício da criatividade e habilidade individual do artesão. portanto. para a venda a sua frequência numérica varia conforme a demanda do comércio. Isto ocorre porque este é um tipo de cesto que somente velhos artesãos como Kwati e Baiu sabem fazer. Ao analisar a distribuição dos objetos trançados pelas unidades domésticos percebi que a frequência numérica destes é maior nas unidades domésticas em que residem os velhos artesãos. Isto se explica pelo fato de serem objetos utilizados na coleta. entre os Asurini do Xingu a produção da cultura material também resulta da dinâmica que se estabelece entre os preceitos da tradição tecnológica. O mesmo ocorre com as peneiras que se restringem às casas onde moram os velhos artesãos Takamui. a incorporação de novas matérias primas e técnicas de produção e a criatividade individual dos produtores. Este é o caso das unidades de número 4 e 5.

yvyriparakwasiat e uyvakwasiat). E. Muitos pesquisadores têm se dedicado ao estudo etnoarqueológico dos conjuntos artefatuais etnográficos com o intuito de identificar os processos culturais que são responsáveis pela sua variabilidade e variação no tempo e no espaço. estilo e frequência dos artefatos da de geração a geração e que estabelece a relação matéria prima.34. o desaparecimento do conhecimento sobre a tecnologia de produ- ção de um artefato ou de uma determinada característica estilística. n. normalmente. há um nível do estilo que perpassa o indivíduo e o grupo doméstico e que se estende para o grupo cultural e que se manifesta nos aspectos estruturais da cultura material e que serve de marcador étnico nas suas relações com outros grupos culturais. isto tem sido uma situação recorrente. a variabilidade estilística vem definida por uma série de fatores que vão desde as limitações impostas pela matéria prima e técnicas de produção até a mais profunda inventividade dos artesãos. forma e função para os mais diversos artefatos da cultura Asurini. Este trabalho sobre os objetos trançados Asurini é parte deste esforço científico. é a morte dos artesãos que dominavam estes conhecimentos e que não tiveram tempo de passá-lo de forma definitiva às gerações mais novas. Os jovens. Ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. em sua maioria. existe uma diferenciação de níveis no que tange às carac terísticas estil ísticas dos objet os. (ago-dez. nos próxim os anos. Revista de Arqueologia. Como sugerem Pryor e Carr (1995:268-281).2009): 17. pois a cada ano morre um velho artesão e com ele toda uma gama de conhecimentos. Existe um nível individual que está ligado às preferências e habilidades dos artesãos e este.A tecnologia da cestaria está sofrendo perdas quantitativas entre os Asurini e isto é possível verificar em se trata nd o de ob je to s co mo as pe ne ir as (pyrypemkwasiat). Isto também pode ir se transformando com o tempo e de acordo com as vicissitudes da trajetória do grupo doméstico. v. 2009 31 . e objetos rituais (akiwita. No caso Asurini. ou seja.A variabilidade dos trançados dos Asurini do Xingu: uma reflexão etnoarqueológica sobre função. finalmente. Compreender que as causas e os significados da variabilidade artefatual podem ser diversificadas e sujeitas às vicissitudes contextuais permite aos arqueólogos refinarem suas propostas de classificação e interpretação do registro arqueológico. os cestos platiformes (biaavakwasiat). A razão disso. pode variar ao longo do tempo e de acordo com a história de vida e preferências do indivíduo. numa variação (diacrônica) e variabilidade (sincrônica) formal e quantitativa dos trançados Asurini. Outro aspecto importante a ser considerado nesta reflexão sobre a variabilidade dos trançados Asurini é aquilo que Roe (1995:46-48) definiu como “amnésia cultural”. existeum nívelde estilo familiar que está ligado às estruturas de ensino-aprendizagem e à perpetuação – através do processo de enculturação . Recebido para publicação em junho de 2009. Este fato resultará. por sua vez. O interessante é perceber que.2.de certas normas estruturais do saber-fazer. assim como em outros contextos culturais. não têm se dedicado ao aprendizado destes objetos e isto pode resultar no seu desaparecimento.22.

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