Poesia Bacoca MCN

Manuel de Castro Nunes

Exercícios complementares Poesia bacoca

2012

Sob o efeito dos etílicos vapores do vinho, dizem, ter-se-á escrito a mais consagrada poesia. Sendo pois Baco o mais consagrado artífice da arte poética. Disso convicto, durante um ano fui assíduo entreguei-me à dura prova das bacanais. O resultado foi constatar que toda a poesia é bacoca.

O português compulsivo.

Tenho medo de sorrir, tenho medo de chorar, fui a Alcácer Quibir e vim perder-me no mar. Tenho medo de sentir tudo em que estou a pensar, tenho medo de fugir, tenho medo de ficar. Tenho medo de me vir, tenho medo de te amar, tenho medo de ferir. Tenho medo de roubar, mas roubo para não ir a um asilo parar.

Cruzei com um pobre na rua.

Cruzei com um pobre na rua, quando o vi, roubei-te um beijo. Quando te vi, vinhas nua, roubei ao pobre o desejo. Vê o pobre o que não vejo, bem pode ter-te por sua, pois há no pobre um lampejo que vê a verdade crua. Enquanto me perco num beijo, há sempre o pobre na rua que me rouba o meu desejo. Pois que tudo o que não vejo, porque tão só te vi nua, vê o pobre num lampejo.

Ora me enleias no canto com que me vens em favor, ora me encharcas no pranto como que me feres, amor. Ora me causas espanto, ora me espantas com dor, ora me vens com encanto, ora te vais com ardor. Agora me amas tanto, com tanto, tanto calor, com a voz em tal quebranto, que, quando o amor se for, nem sentirei desencanto de me iludir por amor.

O olhar qu'em ti descanso por não te poder tocar é o que de ti alcanço por não poder alcançar. Amarga forma d'amar, amor tão doc'e tão manso, que por não poder mostrar se fica neste descanso. E s'é tudo o que alcanço o teu doc'e brev'olhar, de te olhar não me canso. De poder assim t'amar já em mim não há descanso. Puder'assim alcançar!

Estava ali, no ocaso, tu no romper da aurora, se te toquei, foi acaso, só uma breve demora. Pontas d'um ângulo raso, onde antes e agora, são agor'o mesmo caso, mesmo dia, mesma hora. A demora do meu passo no teu passo se demora, pois na demora t'enlaço. E tu irrompes n'aurora enquanto me despedaço. Quem se engana não chora.

Saída à maneira de escárneo.

Loas que cantaste è minha amada, serva que foste de seu segredo, não querias agora mais nada do que sepultá-la em degredo. Adormeceste tarde por nada e por nada despertarás cedo.

Foste marinheiro, soldado, foste ordenança e capitão, vales dez reis de mel coado, coado não vales tostão. E o mundo foi o teu fado e tu do mundo a danação, o fado teu pau mandado. e tu a sua devoção. Foste marinheiro, coitado. A tábua de salvação.

És a chuva, o vento e o sol, águas cantantes do ribeiro, a maresia e o rouxinol, o ocaso. o instante primeiro. Dó re mi fá, dó ré mi fá sol, lá si, por aqui vou caminheiro.

Tanta vez que já parti com cada um que partiu, que já ando por aqui como as águas de um rio. Passei tão breve por ti que nem o vento me viu.

Do’spelho, quando me vi, sabendo que não me viu, à porta então bati. Mas a porta não s’abriu. Do outro lado da porta, no lado que nunca vi, há algo que me conforta jamais ter visto de ti. É o’spelho verdadeiro, embora seja bem torta a imagem que, matreiro, me vem trazer à mão morta que no plano derradeiro aferrolh’a tua porta.

Frio teu é calor meu, calor teu um desvario. Quando a pele aqueceu o coração sentiu frio. Aqueces, eu arrepio. E s’o coração ardeu na pele senti eu frio. Calor teu é frio meu. O inverno m’aqueceu e vai-me gelar o estio com o frio que te deu. Caiu lume no pavio, log’o gelo s’acendeu, logo ganhou fog’o frio.

E não tendo o poerta mais para dizer, lançou ao vento as palavras, que as dispersou em nexos remotos. E assim reacendeu das cinzas a poesia. Tão inteligível quanto as palavras. Do lado de lá do espelho, a única partícula de ti que subsiste é o teu nome, desfragmentado de ti. Tudo o resto embateu na opacidade. O nome é sempre o rasto e o resto de uma imagem.

Onde haja luz, há corvos para a sombrearem! Quando troveja, rasgado o céu por um relâmpago, levantam os corvos, em bandos, dos milheirais, simulando o trovão com o grasnar. Estoura o trovão e recolhem-se em silêncio. Nada mete mais aterroriza a uma sombra do que outra sombra. Parecendo ser de luz, continua o mundo a ser de corvos que a sombreiam. As cores são as sombras da luz nos corpos sólidos. Nos líquidos não há cor, nem nos gases, se não tiverem em suspensão ou solução partículas sólidas.

Aquece o sol ao frio, a massa líquida e sólida do corpo toda se abrasa. Deixas de ser lonjura e ideia, para seres pele e temperatura, impulso e textura. O teu corpo de luz desoculta-se em frente dos meus olhos. És todo o horizonte alcançável. Para quê reprimir? Meus lábios perdem-se nas coroas tensas dos morros da tua feminilidade, mal dissimulados e erguidos sobre o vale do externo. E mergulho no teu ventre, sondando os mistérios interiores da fornalha vulcânica. Felizmente, talvez, não estás aqui senão na imagem que resgato. Se estivesses poderias ser contaminada. Mas a súbita distensão de todos os meus músculos, quando toda a pulsão enérgica se derrama em ti, é a confirmação de que a imagem é um médium tão habilitado quanto a materialidade. Porque a ânsia de ti é também emulação. Será isto o pecado ou o reflexo dele no espelho? Nada há de mais alcançado do que o inalcançável.

Sendo pois um risc’a vida, maior risco é a morte, a vida tens tu vivida até qu’a morte t’a corte. Pior risco, minha vida, é a nem vida nem morte que por me seres querida me veio calhar em sorte. Que a morte me conforte, ou roubada seja’a vida que tanto me roub’a morte. Maior risc’é pois a vida quando é um risc’a morte. Maior risc’és tu, querida.

Poss’escrever coisas tensas artimanhas, alusões vazias, mas muito densas, de partir os corações. Poss’escrever o que pensas, ou até o que supões. Poss’até lavrar-t’as crenças, semear desilusões. Poss’escrever coisas densas, poss’arruinar razões e nutrir as mal querenças. Poss’escrever p’ra me rir, p’ra semear desavenças, ou tão só p’ra me punir.

‘’Em frente, no cais, uma floresta de mastro aprumados, que uma suave e cadenciada ondulação faz emaranhar a intervalos regulares, amarrando-os uns nos outros. Bandos de gaivotas rompem deste matagal vivo, sempre que um frémito assalta a alma. Só esta cadência e os meus dedos que tamborilam no tampo da secretária, enquanto espero que me chegues à escrita, me assinalam que continuo vivo. - Que recordação guardas da tua vida de marinheiro? - Da minha vida de marinheiro? O tampo da minha secretária onde o teu retrato navega, Amor. Na minha vida de marinheiro, nada mais navega sobre o tampo da minha secretária senão o teu retrato. A minha vida de marinheiro é a espera por ti, no tampo da minha secretária.’’ De Elmano d’Argus a Fernando Pessoa.

António Damássio, o ‘’De anima’’ e Catulo.

Quem roub’almas, não ganha corações. Rouba tudo, deixa quase nada, quebra os cadeados aos portões mas deixa sempre a porta fechada. Roubas-m’a alma, ganhas ilusões. Senhora de ti, pois, mas mal amada, queres meter-me a alma, aos empurrões, dentro da porta que tenho fechada. Quem ganha almas, vai perder razões, quem ganha a razão fica sem nada. Roubas almas, esbanjas emoções. Dizem qu’as almas não vão nos caixões e fogem de ti quand’estás deitada. No teu corpete faltam dois botões. ‘’Odeio e amo. Porquê? Não sei. Sei porém como me torturo.’’

Doc’a mort’Amor, amarga vida. Tão amargo quão doc’amor se te tiver já por despedida quando da mort’à vida me for. S’em vida me foste cumprida, cumprido me vou à mort’Amor.

Por teu livre pensamento, por teu cativo pensar, p’ra meu saudoso tormento para teu livre penar. Veio de noit’era vento que vinh’açoitar o mar. Enquant’eu me lamento, ouç’ao long’o teu cantar.

A rubra rosa gritava de sede no roseiral. Agora triste chorava entre pingos de cristal. Da sede, o que ficava era orvalho matinal. E a rosa se afogava num derrame lacrimal. O pranto que derramava era uma água lustral que até à sede queimava. De fogo um manancial a sede lhe afagava. A sede não vem por mal.

Se me pudesse, Amor, reduzir ao teu regaço! Uma pausa de torpor, outra pausa d’embaraço. Como s’o travo de vinho, revertend’então à taça, reencontrass’o caminho que da mão à boca passa. Como se, Amor, o bagaço, que do vinho é a flor e do sabor é o traço, viesse ganhar ardor em etílico compasso do vinho com seu sabor.

E as horas passam e os dias faltam e de noite caçam as horas que saltam. Ó anjo das trevas, minha companhia! Ai, porque me levas as sombras do dia? E passam as horas e teu nom’adio. porque me demoras nas horas a fio. Ó anjo da morte que me dás a vida! Dás-m’então por sorte ver-te de fugida? Ver-te de fugida nos dias que faltam, ter-te por perdida nas horas que saltam.

Tudo o que me é imediato, tudo o que me é imperativo, tudo aquilo a que me ato, tudo o que me é obsessivo. Tudo o que vendo por barato, tudo o que me fica cativo, tanta ordem como desacato, um anda morto, o outro vivo. Se na vida ando por contrato e se por tal e tal vou furtivo da vida com que a morte mato, nada me é mais imperativo do que o laço que não desato e com que a morte me traz vivo.

Sobre Damásio, ainda. E o ‘’De anima’’. ‘’- Tudo o que vês é um desenho. - Como? Um desenho? - Tudo o que os teus olhos vêem, fora de ti, são os teus olhos que desenham. - Sim, terás razão, talvez. Excepto as sombras. - As sombras? - Quando sobreponho o meu ao teu desenho, o traço coincide, o que não coincide são as sombras. O traço é teu, mas as sombras é o sol quem as desenha. - Talvez por isso a única coisa que entre mim e ti coincide seja o traço. - Dizendo de outra forma, nunca deixarás de ser o meu sol.’’

Garsa! Se és toda a graça que da graça vem à garsa, porque razão não me caça a graça da tua farsa? Garsa que me vens altiva, de teus amores sobranceira, mais do que don’és cativa de tua graç’altaneira. Que o amor não me engana nem o engano me ama. Nem o vento quer a cana quando por seu nome chama.

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