SAMIZDAT

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35
janeiro 2013 ano V
ficina

O Criador de

Gorilas

O realismo cruel de

Roberto Arlt

SAMIZDAT 35
janeiro de 2013
Edição, Capa e Diagramação Henry Alfred Bugalho Editor de poesia Volmar Camargo Junior Autores Anna Apolinário Cinthia Kriemler Cláudio B. Carlos Edweine Loureiro Erik K. Weber Fabio Guimarães Bensoussan Fábio Wanderson de Sousa Fernando Domith Helena Barbagelata Henry Alfred Bugalho Homero Gomes Japone Arijuane Joaquim Bispo Karline da Costa Batista Luís Felipe Sprotte Maria de Fátima Santos Mariana Collares Otávio Martins Rodrigo Domit Silvana Michele Ramos Tatiana Alves Volmar Camargo Júnior Zulmar Lopes Textos de: Joseph Devlin Raul Brandão Roberto Arlt

Editorial
Completamos cinco anos de atividades da Revista SAMIZDAT. Neste período, foram publicadas aproximadamente 1500 obras, de mais de 200 autores, para mais de 200 mil leitores. À primeira vista, podem parecer números impressionantes, mas é pouco, muito pouco, para uma revista digital gratuita, que apresenta o que há de melhor de uma novíssima geração de autores em língua portuguesa. Best-sellers enlatados estrangeiros vendem muito mais do que isto de uma só tacada, para serem esquecidos no ano seguinte. Onde estão os leitores? Eu me pergunto. Onde está você, este incrível leitor que insuflará vida às nossas histórias, que justificará os nossos versos, que mergulhará em nossa angústia criativa? O nosso trabalho silencioso e paciente na SAMIZDAT é para encontrá-lo e conquistá-lo, e também para tornálo nosso parceiro, passando adiante a nossa mensagem, exatamente como ocorria com as publicações clandestinas da URSS – conhecidas como samizdat. Pois não se engane com a nossa aparente mansidão. Esta revista é uma guerrilha literária, com escaramuças em cada mente, em cada lar, em cada esquina. Batemo-nos contra inimigos invisíveis e impalpáveis: a indiferença, a rejeição, o medo do fracasso, a solidão do labor literário e, de certa maneira, também o peso do sucesso. As nossas poucas conquistas não nos bastam. Ansiamos por mais. Lutaremos por mais. Prosseguiremos, apesar de obstáculos que, por vezes, nos parecem do tamanho do mundo. SAMIZDAT – passe adiante! Henry Alfred Bugalho Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Commons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112). As ideias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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rEComENdaÇÕES dE LEitura os Vestígios do dia
Edweine Loureiro

10

autor Em LÍNGua PortuGuESa a Herança
Raul Brandão

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CoNto os números de Lucas
Joaquim Bispo

16 19 20 23 24 26 28 30

anandaiê

Cláudio B. Carlos Henry Alfred Bugalho Erik K. Weber

o doutor Adevogado a Sala Branca tem Pagode no Kibbutz?
Edweine Loureiro Fernando Domith

um Baixo ruído ao Longe a arca

Fabio Guimarães Bensoussan Rodrigo Domit Luís Felipe Sprotte

aspirações

Há tanto Carro em Budapeste Hoje em dia 32 terá Sido... 36

Maria de Fátima Santos

o Cemitério e o Sanfoneiro
Fábio W. Sousa Zulmar Lopes

40 42 44 46 50 54

da utilidade dos Crachás trabalhando com o Batedor de Carne
Silvana Michele Ramos Homero Gomes Cinthia Kriemler Otávio Martins

aquilo

o transportador um Pierrô apaixonado

traduÇÃo a Feitoria de Farhaj Bill alí
Roberto Arlt Roberto Arlt Roberto Arlt

58 64 66 70

E que os Eunucos Bufem diálogo de Leiteria Para Falar e Escrever Bem
Joseph Devlin, M.A.

artiGo o Papel das revistas Literárias para a descoberta de Novos autores
Henry Alfred Bugalho

76 86

as mulheres de amado
Karline da Costa Batista

CrÔNiCa todos dizem eu te amo
Mariana Collares Japone Arijuane

88 90

maxaquenina

PoESia a autocomimimiseração das pragas urbanas 92
Volmar Camargo Junior Volmar Camargo Junior Tatiana Alves

a Constelação de Leão E agora, José? Palavra de Pandora
Anna Apolinário

93 94 95 96

mater mare

Helena Barbagelata

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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ficina
6 SAMIZDAT janeiro de 2013

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Participe da Revista SAMIZDAT 36
A Revista SAMIZDAT conta com a sua participação para manter o alto padrão das publicações. Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo é apresentar a maior diversidade possível de autores, gêneros e textos. Por favor, aguarde o período de um mês após receber a resposta antes de enviar um outro texto. http://revistasamizdat.submishmash.com/ submit Não aceitamos mais textos enviados por e-mail. 4 - Os textos selecionados serão publicados na edição 36 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de abril de 2013, no site www.revistasamizdat.com ou poderão aparecer no site, caso a edição em .PDF já esteja fechada. 5 - Os textos serão publicados sob licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas e o autor não será remunerado. O envio de textos implica na aceitação por parte do autor destes termos. 6 - Os organizadores da SAMIZDAT se reservam o direito de não publicar a revista, caso o número de submissões não seja o suficiente para o fechamento da edição. 7 - O não cumprimento dos itens acima poderá implicar na desqualificação da obra enviada. Contamos com a sua participação! Atenciosamente, Henry Alfred Bugalho Editor

instruções para envio de obras
1 - Cada escritor poderá inscrever, nos respectivos campos, somente 1 (um) texto literário para publicação, de qualquer gênero - conto, crônica, poesia, microconto - ou um (1) texto teórico, como artigo de teoria literária, resenha de livros, ou entrevista, além de traduções de textos literários em domínio público, sob licença Creative Commons ou com a expressa autorização do autor. A temática é livre. O autor também deve enviar uma breve biografia na primeira página do arquivo. 2 - O limite máximo para cada texto literário é de mil (1000) palavras, ou 4 páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, espaçamento 1,5. O envio dos textos não implica na aceitação automática, a seleção dependerá da quantidade de textos enviados, da qualidade literária e da disponibilidade de espaço na revista. A revisão dos textos é de responsabilidade de seus autores. O texto não precisa ser inédito. 3 - Os textos devem ser enviados até o dia 31 de março de 2013 através do nosso gerenciador de submissões (link abaixo) em um arquivo anexo, em formato .DOC, .DOCX ou .TXT.

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas

logo se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa – que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo –, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas ideias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa em russo do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo de um samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural – e o mercado literário faz parte dela – também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor de mercado. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos – como TV ,

revistas, jornais – onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escrevem (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há

grandes tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica gratuita, escrita, editada e publicada pela novíssima geração de autores lusófonos. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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recomendação de Leitura

Edweine Loureiro

oS VEStÍGioS do dia
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O autor anglo-nipônico Kazuo Ishiguro é sinônimo de elegância e sutileza. Ponto parágrafo. Decidi começar esta resenha com uma assertiva, pois não vejo melhor forma de pagar tributo ao magistral romance de Ishiguro – Os Vestígios do Dia –; vencedor do prestigiado Man Booker Prize, em 1989, e adaptado para o cinema em 1993; tendo Anthony Hopkins no papel do contido mordomo Stevens. A obra tem início com Stevens pedindo autorização ao patrão, um novo-rico americano, para ausentar-se por alguns dias, a fim de visitar uma amiga – a senhora Kenton –, com a qual trabalhou, por muitos anos, na mansão, outrora pertencente a um nobre inglês: Lord Darlington. Mais que autorizar a saída de Stevens, seu novo patrão decide ainda emprestar-lhe o Ford, que permite àquele apreciar, durante o percurso, lindas paisagens inglesas – descritas sem grandes arrebatamentos pelo autor, num primeiro sinal da elegância e sutileza a que me referi no início do texto. Durante a viagem, Stevens vai rememorando os tempos em que trabalhou para Lord Darlington, figura influente na política europeia do período entreguerras, e a quem o mordomo atribuía grandes propósitos – quando, na verdade,

o nobre tinha ligações com o Nazismo. Memórias estas que também apresentam uma outra personagem marcante para Stevens: a senhora Kenton, a governanta. O roteiro para o cinema, adaptado magistralmente pela escritora indiana Ruth Prawer Jhabvala, optou por enfocar na relação entre Stevens e a senhora Kenton. E fez bem. Os diálogos travados e as situações criadas entre estas personagens são de uma sutileza e uma tensão sexual que, pelas mãos de um escritor menos talentoso, careceriam deste poder sugestivo que tanto fascina o leitor. E, aqui, uma passagem merece destaque: em um momento de repouso, Stevens lê um romance, quando a senhora Kenton – chegando para entregar-lhe algumas flores, a fim de enfeitar o quarto ao qual ela descreve “demasiadamente sóbrio” – tenta, curiosa, ver o título do livro. Stevens, por sua vez, resiste em mostrar-lho, ocultando a capa e pedindo à colega que “não invada sua privacidade”. Mas, na verdade, aos poucos, ele vai cedendo à curiosidade da governanta, revelando gradativamente a capa do livro – num sutil convite para que ela conheça seus segredos. Elegância e sutileza… este é Kazuo Ishiguro. Ponto final.

Nasceu em Manaus em 20/09/1975. É advogado, professor de Literatura e Idiomas, e reside no Japão desde 2001. Em 2005, obteve o Mestrado em Política Internacional pela Universidade de Osaka (Japão). Premiado em diversos concursos literários, é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (2000), Clandestinos [e outras crônicas] (2011) e Em Curto Espaço (2012). É membro-correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (RJ) e colunista das revistas literárias Samizdat e Benfazeja.

Edweine Loureiro

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autor em Língua Portuguesa

a Herança
Raul Brandão

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Ao senhor Pinheiro Chagas Viviam mal. Pouco e pouco, porém, aquela herança para vir dera-lhes importância. Bebiam boa pinga que ela ia buscar numa caneca á tenda, muito lambareira, debaixo do avental azul; tratavam-se bem; iam-se endividando – e toda a gente lhes fiava com a mira no ganho, mais tarde, quando a herança viesse. Aquilo era certo para eles. O velho esticava o pernil – e a quinta, os vinhais, as terras férteis, onde a água das presas corria, era deles, só deles!... Às vezes passavam pela quinta, dando uma volta grande, cheios de satisfação perante a boa qualidade das ameixieiras, das hortaliças, dos parreirais sem fim. Ficavam espreitando satisfeitos – e à noite, nesses dias sobretudo, era uma palestra infindável... – Quem rebenta de inveja é a Felícia, meu homem, dizia a Ana mostrando os dentes. Era alta, grande, o olhar negro cheio de maldade... Por isso, quando se decidiu o casamento foi para eles uma afronta tão grande, tão grande, que a raiva rebentou-lhes aos borbotões, em injúrias. Como os olhos da Ana luziam cheios de maldade!... – O coirão! o coirão!... Uma vizinha passou: – Então sempre era verdade?... «Havia de ver-se ainda! O que o bandalho da outra queria era roubá-los? E o velho? O malandro do velho!...» E mais a irritavam as perguntas. Pareceulhe ter visto a Felícia que passava triunfante, rindo escarnica – e ela correu, veio à soleira, clamando que ainda um dia havia de tirar as orelhas a uma borracha que ela lá sabia… E a outra passou, passou sorrindose... Oh como o olhar lhe luzia, a ela, cheio de maldade, como teria vontade de as esganar a todas, de as trincar aos bocadinhos – assim!... E berrou, berrou com o homem.

– Cala-te, mulher!... – Hei de falar!... Se eu tivesse outro homem ninguém me desprezava!... Não ficava assim!... – Cala-te mulher! cala-te mulher!... – Hei de falar! hei de falar!... Ele ergueu-se de repente, os olhos raiados de vermelho. – Ó meu bandalho!... E bateu-lhe, deram um no outro, contentes talvez por descarregarem a raiva que os enchia, medonhos, espumantes – até que ela caiu esperneando, impotente e terrível... – Hei de falar!... E rangiam-lhe os dentes. O velho casal afinal. A criada, gorducha, cheia de risadas e saudável, não queria – mas de longe veio a mãe, parentes com a mira naquelas riquezas, aconselhando-a ao casamento, pensando depois em a roubarem a ela. Eram conselhos, segredos pelos cantos, ralhos... – Ora já viram uma estúpida assim!... Ela afinal decidiu-se – e casou. Começou então para os dois uma vida terrível. Caíram-lhe em cima – o da tenda, o das cavacas, querendo o seu dinheiro – ladrões – que trabalhassem, quem não tinha de seu não fazia dívidas... E exasperava-os aquilo, a ela principalmente, a quem as risadas da Felícia enraiveciam – e ele então dava-lha com um pau todas as noites, porque ela açulava-o, gostando de se ver batida, medonha. Como uma loba faminta e errante rondou então o quintal do velho. Na noite luziam como carvões os seus olhos cheios de maldade – e eram sempre assaltadas aos parreirais que cortaram rentes, aos rebentões das fruteiras... E era nela, principalmente que a ferocidade crescia, inexorável, mais alta, os olhos negros luzindo; era ela que o instigava àquela ronda de noite, trágica

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quase, em volta da quinta, espiando com precauções infinitas, escolhendo o momento azado em que cairiam em cima das plantas tranquilas... E tinham depois uma alegria em casa, risadas de raiva satisfeita, satisfações de criminosos impunes. – Ó meu homem! – Era a ela! a ela! fazia-lhe assim!... Mas as queixas vieram. Cavadores ficavam de vela, alta noite, guardando com velhas clavinas de pederneira – e a raiva cresceu, avigorou-se neles mais intensa ainda, ao verem-se impotentes contra aquela que odiavam – o bandalho! – sem poderem exercer a ferocidade que os enchia, guardada a quinta – a sua quinta!... E vieram novamente as recriminações que caíam como chuva sobre o seu homem que a não vingava – até que ele impaciente lhe batia, medonho, e ela caía babugenta, espumando indomável, com rasgões nas saias... Desciam então já do norte ranchadas alegres de ceifeiras, e nos tonéis fervia uma torrente de vinho novo, vermelho de sangue, espumante… Uma tarde passaram pela quinta. Entardecia. O sol morria no ocidente numa poeira de oiro e lentamente descia sobre a paisagem uma serenidade grande... As crianças saíam da escola aos ranchos, o saquitel à banda, num rompante de novilhos soltos. Rasgões nas calças, ferozes, saudáveis, duma bela cor de bronze, assaltavam as fruteiras como ladrões, iam ao banho para a água azul da lagoa... De repente, dentro, na quinta, viram o velho e a criada, casados já. Ela abanava uma ameixieira, rindo, cheia de alegria, vermelha do esforço – e aquilo foi para eles outro insulto, mais grande ainda. Ficaram espreitando. Ele dizia que à noite iria lá abaixo aos Siais – e ela, trincando uma ameixa caranguejeira, ria ainda, bela, borracha de felicidade e saudável... Olharam-se os dois bem fundo nos olhos, sem uma palavra – e partiram então rapidamente, ela na frente,

ele atrás, ambos pensando num crime, torturados por aquela ideia que há muito nascera neles, sem nunca a comunicarem... Ah, dizer que nunca mais, nunca mais aquela quinta, as ameixieiras, os parreirais de uma verdura metálica que os cachos de uva unida e grande enchiam, que nunca mais seria deles! Tudo, tudo para ela, para a outra! Que é que ela lhe tinha feito, ao velho? Eles tinham-no aturado, enchido de cuidados, cheios de precauções, humildes, humildes, rasteiros como cães... Ah é que eles não eram bestas de carga... O bandalho do velho! o coirão!... Era deles, só deles a quinta... Haviam de se vingar, de tirar a quinta à cadela da outra! Ou para eles ou para ninguém! Ah querias aquelas riquezas, tinhas acedido ao casamento para os roubares a eles... Querias?... Tinham espreitado tantas noites, tantas – ela principalmente pela terra de rojos com meneios de fera, transbordando raiva, mais danada ainda ao conhecer a sua impotência, sentindo dia a dia a ferocidade crescer nela, um ódio terrível que a matava... Era negra a noite, duma negrura de tinta. Ali as carvalheiras cobriam o carreiro e a mina ficava numa cova funda – um buraco escancarado, aberto como uma boca de fera. Ouviram passos e ele tremeu. Mas nela cresceu, cresceu a raiva, satisfeita, os olhos negros luzindo vermelho... Era ele! era ele!... – O bandalho! Respirou amplamente – e teve uma risadinha fria, fria, cortante, que encheu sinistramente na mina. Ele, a navalha aberta na mão, agarrou-a terrível, cheio de medo: – Chiu!... E teve vontade de a matar também. E ela contente, cheia duma alegria sem fim, misturada de raiva, repetia: – Ó bandalho! ó bandalho! Ouviram-se as passadas mais fundas, soando entre as muralhas que a terra fazia. O velho teve quase uma indecisão ao entrar na cova. Lembrou-se da ferocidade dos dois;

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pressentiu talvez que o espreitavam, prontos a assassiná-lo – mas logo, mais depressa, com vontade de passar num instante aquele pedaço tão negro, andou, andou... Então o outro saiu de repente da mina, a navalha aberta luzindo – e ele vendo de relance, rapidamente, adivinhando tudo, encolheu-se, um frio na barriga, cheio de terror, murmurando piedosamente: – Não me matem! não me matem! E caiu...

Foi quando ela saiu da mina, trágica, grande no seu ódio, esvoaçando-lhe a saia na noite como uma ave de rapina agoirenta e medonha: – Ó bandalho! – rugiu. E abateu-se sobre ele, numa sofreguidão, batendo-lhe com um calhau, às trincadelas, numa raiva bestial que nem o sangue acalmava... (1890)

(Porto, 1867 – Lisboa, 1930) é um escritor português famoso pelo realismo das descrições e pelo lirismo da linguagem, numa muito sentida observação da realidade e da condição humana. Filho e neto de homens do mar, teve nestes, e nas suas vidas duras e trágicas, um dos seus temas recorrentes, que alargou a outras camadas de humildes e humilhados, numa revalorização comovida da paisagem humana portuguesa, naquilo que tem de mais autêntico e pitoresco. Publicou contos, romances, livros de viagens, peças de teatro, memórias e estudos históricos. A sua obra inicia-se em 1890 com os contos naturalistas de “Impressões e Paisagens”, de onde foi retirado o presente conto, o qual foi escolhido não só por convir às limitações de espaço da revista, mas também por anunciar já os dramas mais sórdidos, de grotesca dimensão larvar, das gentes comuns, mas perpassados por sofrimento, angústia, mistério, morte e também ironia, característicos das suas obras mais emblemáticas – a trilogia “A Farsa” (1903), “Os Pobres” (1906), e “Húmus” (1917). Acompanhou de perto os manifestos simbolistas das revistas “Boémia Nova” e “Os Insubmissos”, e conviveu com os jovens escritores António de Oliveira, António Nobre e Justino de Montalvão com quem, em 1892, subscreveu o manifesto

raul Germano Brandão

“Nefelibatas”, de cariz decadentista. É considerado o mais importante prosador do simbolismo português e o grande modernista que, a par de Fernando Pessoa, mais influiu na evolução da literatura portuguesa do século XX. A sua prosa, ainda que marcada pela referência simbolista, já tem sido considerada simultaneamente como precursora do existencialismo, de certos aspetos do neorrealismo e até do surrealismo. Foi figura tutelar do grupo da “Seara Nova” e do grupo da Biblioteca Nacional (Jaime Cortesão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis). Na última fase literária, Raul Brandão, evoluindo para uma vida interior serena, equilibrada, graças ao aplacamento da revolta e à consciência de que é preciso aceitar o inexorável das coisas, escreve “Pescadores” (1923), “As Ilhas Desconhecidas” (1927) e “Memórias” (3 vols., 1919, 1925, 1933). (texto por Joaquim Bispo) Fontes principais: Infopédia: http://www.infopedia. pt/$raul-brandao Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994. Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa, Editora Cultrix, São Paulo.

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Conto
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os números de Lucas
Quando Édouard Lucas, no século XIX, elaborou a sequência numérica que é conhecida como “Os números de Lucas”, poderia ter imaginado também o seguinte episódio, porque não lhe era estranho Fibonacci nem os outros protagonistas que ao longo dos séculos estudaram as relações numéricas e o inexplicável eflúvio de beleza que algumas emanam, sobretudo a chamada “Divina proporção” ou “Número de ouro”. *** Florença, ano de 1492. Enquanto Fra Domenico não chegava, Tommaso da Fiesole, acompanhado do seu aprendiz, Filippo, aproveitava o tempo na contemplação da Trindade pintada na parede interior da igreja de Sta. Maria Novella. Gostava da sua profissão de arquiteto, que não era fácil, mas admirava a capacidade dos pintores de transmitirem para um plano a ilusão das três dimensões, como Masaccio conseguira neste fresco. – O Senhor esteja consigo, senhor Tommaso! – Era o frade no seu hábito preto e branco. Com ele vinha um noviço. – Como tendes passado, meu irmão? – respondeu, com um sorriso de ternura. Tommaso sentia sempre alguma estranheza quando cumprimentava o seu conterrâneo e primo por «meu irmão». Tinham sido companheiros de brincadeira, mas cada um seguira o seu caminho – Domenico ingressara

Joaquim Bispo

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no convento de S. Marcos de Florença, e ele tinha feito o percurso dos aprendizes de artes mecânicas até atingir o atual estatuto. – Ouvi dizer que estais a trabalhar para um sobrinho do senhor Lourenço de Médici. – Sim, o senhor Ludovico. Saiamos! É mesmo por causa desse projeto que pedi para vos falar. Sei que vos tendes interessado pelo estudo das formas e das relações entre as suas dimensões. Eu, na minha profissão, não posso ignorar o valor exato da secção áurea, para a aplicar aos edifícios, ou não fosse essa relação tão agradável aos sentidos. E sei como, há muito tempo, o grande Fibonacci demonstrou a sua génese, de maneira tão compreensível. – Fez uma pausa a avaliar se Domenico queria responder. – Sim – assentiu o frade –, partindo dos dois primeiros números, somava-os para obter um terceiro – o 3 – e, para obter o quarto número da sequência, somava os dois anteriores e obtinha o 5. – O frade aproveitava para ilustrar o seu pupilo. – E assim sucessivamente. Obtinha uma sequência que começava por 1, 2, 3, 5, 8, 13, etc. Parece uma brincadeira para obter o interesse de meninos na aritmética, mas a divisão de um número pelo anterior dá o valor da secção áurea ou divina, em que o valor mais pequeno – 5 pés da secção duma parede, por exemplo –, está para a secção maior – 8 pés –, como esta está para a largura total da parede. O grupo afastava-se do bulício que envolvia a igreja e dirigia-se para o Duomo, através das ruas estreitas bordejadas de vendas, tabernas e oficinas de artífices. – Ora, essa sequência levanta-me um problema – continuou Tommaso. – Tenho uma igreja para projetar para o meu senhor. As dimensões relativas das fachadas estão decididas. Mas os tamanhos não são tudo. Os elementos que as integram, pela sua forte individualidade, ganham uma força que é preciso ponderar. A fachada lateral, por exemplo, vai ter uma série de arcos monumentais a mascarar a parede da nave. A

linha horizontal, que os capitéis das colunas geram, divide a fachada de tal modo que a distância do chão ao topo dos capitéis é exatamente 1,618 vezes maior que do topo dos capitéis à linha do telhado. Está, portanto, de acordo com a secção de ouro: a distância mais estreita está para a mais larga, como esta está para o total, do chão ao telhado. – Parou novamente, desta vez para respirar. Havia alguma tensão na cidade, porque Lourenço, o magnífico, o patriarca da família mais poderosa de Florença, estava doente e Savonarola, o prior de S. Marcos, não cessava de clamar contra o luxo e o paganismo da sua corte. – Então, o que vos preocupa? – perguntou o frade. – O número de arcos que devo projetar. A relação dourada é obtida com números inteiros. Se ponho oito arcos no lado, deveria pôr cinco portas na fachada principal, o que é muito. Para pôr três portas, deveria pôr só cinco arcos, para respeitar a sequência de Fibonacci, mas ficariam demasiado largos. – Agora o sobrolho de Tommaso mostrava-se carregado de preocupação. – Ponde sete arcos no lado. Tommaso parou e olhou diretamente para Fra Domenico, tentando descortinar algum sorriso. Mas o rosto do frade estava compenetrado. – Mas 7 não faz parte da sequência! – Não faz da de Fibonacci, mas faz da do Senhor. Há milhares de sequências. Quaisquer dois números a que aplicardes essa regra da soma sucessiva, dá sempre o mesmo valor de 1,618, a partir, aí, da décima soma. Todas apontam para esse número sagrado, mas a sequência 1, 3, 4, 7, 11, etc. faz parte das Escrituras. Há 1 só Deus, em 3 pessoas distintas, a cruz tem 4 braços, as virtudes são 7, os apóstolos fiéis são 11. – Meu irmão, a sequência 1, 2, 3, 5, 8, 13, etc. está em toda a parte: no crescimento das plantas e dos animais, no corpo humano.

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Sabeis que a relação entre a falange e a falanginha é dourada, assim como a relação entre esta e a falangeta? – Sim, sei, Deus fala por muitas vias. Passavam agora por S. Lourenço, a igreja da família Médici. O templo estava cheio e cá fora havia uma pequena multidão a conversar em grupos. O governante estava muito mal, dizia-se. – Há muito tempo que os Homens se aperceberam dessa relação, sob a qual as formas transmitem um aspeto completo, perfeito – prosseguiu Tommaso. – Pitágoras descobriu-a no seu pentagrama, Vitrúvio aplicou-a aos edifícios dos Romanos, Leonardo encontrou-a no corpo humano. O nosso Piero della Francesca é exímio a aplicá-la nas suas pinturas. Por isso, elas nos parecem tão perfeitamente equilibradas. Conheceriam estes homens a sequência desses vossos números? – Meus, não! Mas estou certo que um dia alguém lhes dará o nome de um sábio. – Custa-me muito aceitar que possa ser perfeita uma sequência que não tem o 2, o número do casal, a base da sociedade dos Homens. – Pode ter, se quiserdes. Tem o seu lugar de direito, mesmo na origem, antes do 1. Tommaso olhou para cima, pensativo. Viase que ficara impressionado. – Antes do 1?! Sabeis o que pensa o vosso prior sobre estes assuntos? – A crítica dele não atinge especificamente

questões estéticas, mas não vê com bons olhos a aproximação cada vez maior que a corte e os artistas, que para ela trabalham, vão fazendo aos textos pagãos dos antigos e à sua licenciosidade. – Dizei-me, então, Fra Domenico, sete arcos na lateral era uma boa solução, mas como ficaria a frontaria? Não pode ficar com quatro portas, precisa de uma central. – Como bem dissestes, a individualidade dos elementos é um fator muito forte de visibilidade. Mantende a simetria das três portas, mas fazei sobressair elementos que as enquadrem, colunas volumosas, por exemplo. Reparai que seriam quatro colunas – o 4 de que precisais. – Interessante, irmão Domenico! – Parou, pensativo. Os seus olhos baixos moviam-se à esquerda e à direita. – Tenho que alterar o projeto. Acho que já sei como vou fazer. Estavam a chegar a Santa Maria dei Fiore. Já se ouvia a vozearia habitual. De repente, da esquerda, do palácio Médici, elevaram-se gritos, vários, intensos, angustiados: – Morreu o senhor Lourenço! Morreu o senhor Lourenço! Deus tenha piedade de nós! O grupo de Tommaso da Fiesole olhou-se inquieto. Depois, despediram-se rapidamente: – Adeus, meu irmão. O vosso conselho é precioso; mas não sei se poderá ser concretizado, com os tempos que se avizinham. Temo que o filho de Lourenço não consiga resistir a Savonarola. – Aqui para nós, senhor Tommaso, até eu! Que Deus vos acompanhe!

Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico. Contacto: episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

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Conto

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Cláudio B. Carlos

ANANDAIÊ
Havia um bolo sobre a mesa. Redondo e pequeno. Eles cantaram parabéns e eu soprei as velinhas. Mamãe cortou o bolo. A primeira fatia pra mim, a segunda pro papai e a terceira e última pra ela. Papai comeu de pé, escorado na parede de madeira, ao lado da cristaleira, e bebeu cerveja. Mamãe comeu à mesa comigo e tomamos guaraná. Depois eles foram
Cláudio B. Carlos

pro quarto e trancaram a porta. Acho que sentiam dor. Gemiam. A dor devia ser muito forte. Se contorciam na cama. Dava pra escutar o ranger das molas do colchão. Eu fiquei sentada olhando pro bolo com as mãos como que em oração, postas no regaço do vestidinho florido. Havia cinco velinhas no bolo. Era março de 1977.

É poeta da nulidade e filósofo do nada. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Tem diversos livros publicados. Coordena o Grupo de Escritores O Bodoque. Vive em Belo Horizonte, MG. É editor do site Dona Zica tá braba.

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Conto

o doutor adevogado
Henry Alfred Bugalho
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O doutor apareceu pela primeira vez em casa numa noite de sábado, entrou, acomodou-se na sala e acendeu um cigarro. De terno, gravata e gel melequento no cabelo, e, de quando em quando, cofiava o bigodinho a la Clark Gable. Minha mãe, cheia de sorrisos, desapareceu no quarto para os preparativos finais, enquanto eu o espiava desde a penumbra do corredor. Muitos homens haviam passado por aquele sofá nos últimos meses, muitos mesmo. Minha mãe parecia desesperada em encontrar um substituto para meu pai, e errava de senhor em senhor, crente que algum deles aceitaria uma viúva com um pirralho na barra da saia, e nos levaria para morar em algum casarão ou numa cobertura de luxo.

Ao escutar o ruído da gaveta da penteadeira se fechando, corri para minha cama e me cobri, fingindo que dormia. Mamãe veio, beijou a minha testa e me desejou boa-noite. — Vou sair para dançar, mas não volto tarde. Uma lagrimazinha escorreu, mas ela não deve tê-la visto. Eu me sentia tão fragilizado sozinho naquele apartamento. Bastava que ela saísse, trancando a porta atrás de si, que era como se todas as proteções ruíssem e eu houvesse sido lançado para a morte certa. A noite era silenciosa e assustadora. Cada estalo nos móveis, cada ranger de porta, cada goteira, cada assovio do vento ou miados de gatos nos telhados vários eram perigos mil. Agora todos os bandidos, psicopatas e assassinos à solta pelo mundo farejariam o meu medo e viriam me pegar. Eu estava só

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e desprotegido, simplesmente porque a minha mãe baixota e magrela não estava por perto. Ela também deveria se sentir desamparada e justamente por isto que ansiava tanto por um novo marido. Um macho para controlar o lar. Um braço para proteger-nos tanto a ela quanto a mim. Nada aconteceu, nenhum criminoso perigoso veio. Dormi, para despertar apenas com o barulho do trinco e do toc-toc do salto alto de mamãe nos tacos da sala. Pela porta entreaberta do meu quarto, chegou até mim o odor de perfume e cigarro, e os passos descompassados denunciavam que ela deveria estar bêbada. Quis me levantar, mas tive medo. Mamãe ficava imprevisível quando bebia, e podia sobrar para mim, que nada havia feito de errado. Demorei muito para voltar a dormir, escutando-a tomando banho e depois se jogando na cama. Tive muita pena dela, desejei que papai não houvesse morrido tão novo. Odiei a morte, tão cruel e injusta! Naquela noite, tive certeza que não veria mais aquele sujeito de terno, gravata, gel e bigodinho ridículo, mas, no domingo seguinte, assim que saímos da missa, minha mãe se agachou e, mirando-me com ansiedade, disse: — Vamos almoçar com um amigo meu. Quero que você se comporte. Jura pra mim? Com o polegar, fiz o sinal da cruz sobre os lábios, e o doutor logo surgiu com um carrão, daqueles de magnatas. No banco de trás, eu brincava com o vidro elétrico, a primeira vez que via algo assim na vida.

— Não mexa, senão vai estragar! — minha mãe gritou, mas o senhor interveio: — Deixe o menino... Não tem problema. Mas preferi obedecer minha mãe, a autoridade máxima, pois havia jurado que me comportaria. Já no restaurante, fomos servidos e comemos em silêncio. — O doutor Orlando é adevogado — disse minha mãe com toda a pompa, adicionando uma vogal como ela sempre fazia quando queria ressaltar a importância de algo: papai havia sido o pissicólogo e minha tia era uma adiministradora. — E você protege os bandidos? — perguntei, lembrando-me de um filme de tribunal que havia assistido na noite anterior. — Não — riu o doutor Armando — a minha área é Cível, não Criminal. — Ah — balbuciei, sem entender palavra, sendo fulminado pelo olhar repreensivo de minha mãe. Mesmo assim, admirei o doutor, de terno até no domingo, dia santificado de descanso. Devia ser importante e poderoso, trabalhando até em finais de semana. Voltei a ver o doutor adevogado em outras ocasiões e ele reapareceu lá em casa, corretíssimo no sofá da sala, cigarro na mão e bebericando uma taça de licor. — Mãe, você vai casar com o doutor? — perguntei uma noite. Ela sorriu com acanhamento, mexendo no cabelo. — Não sei, querido... Ainda não decidimos.

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— Será que papai aprovaria? — Acho que sim... — ela se engasgou, talvez com vontade de chorar — Ninguém nunca será como seu pai, mas a vida segue adiante. Não temos escolha. — Queria tanto que ele ainda estivesse aqui. — Eu sei. Então, o doutor Orlando se tornou uma presença habitual. Dormia com minha mãe e eu podia até escutá-los rindo e gemendo no quarto dela. Tive ciúmes, raiva e desejei que, na manhã seguinte, eu despertasse já adulto, para pegar minhas trouxas e cair no mundo, sem ter de presenciar estas semvergonhices. O que meu pai diria? Por outro lado, fascinava-me muito o doutor, tão fino e imponente. Cheguei até a sonhar em tornar-me um advogado quando crescesse, de terno, gel, cigarro e bigodinho. E quando isto ocorresse podia até visualizar minha mãe dizendo para os outros, cheia de orgulho de mim: — Meu filho é um baita adevogado! Dos melhores! Uma gritaria me despertou certa manhã.

Minha mãe discutia com o doutor Orlando, chamando-o de crápula, pústula e cafajeste. Ele retrucou à altura e saiu batendo a porta. Transtornada, ela entrou em meu quarto e foi direto até o armário, de onde apanhou uma mala e nela lançou minhas roupas. — Que foi, mãe? — cocei os olhos. — Pegue suas coisas... Já! Ela também arrumou as bagagens dela e, puxando-me pela mão, levoume até a rodoviária. Sentada no portão de embarque, ela desabou a chorar, sem me explicar nada. Meus avós nos receberam na casinha no interior e mamãe se trancou no quarto por dias, saindo apenas para tomar banho e beliscar o almoço, mal dizendo um ai. Fui eu quem a encontrou inerte no chão gelado do banheiro, frasco vazio de comprimidos na mão. Pálida, lábios arroxeados, sem respirar. O doutor Orlando, o ilustre advogado, não havia roubado somente os nossos bens, o apartamento, o carro e a poupança. O que ele me tirou jamais poderei reconquistar.

Curitibano, formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino”, “O Covil dos Inocentes”, “O Rei dos Judeus”, da novela “O Homem Pós-Histórico”, e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca” e do “Nova York, Bairro a Bairro”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Após uma temporada de um ano e meio em Buenos Aires e outra de oito meses na Itália, está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Henry alfred Bugalho

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Conto

Erik K. Weber

A Sala Branca
Na Empresa havia uma sala grande e quadrada e branca do início ao fim. Seu engenheiro, cego assim de nascer, a criara sem janelas, a lisura das paredes como perfeição a qual concederam almejar. As lâmpadas retangulares e modernas vieram depois, mas a mobília nunca, com exceção de um quadro a óleo, opaco e negro sem fim, dependurado em ângulo qualquer, como se caísse ou não fosse peça daquele mundo. A filosofia dos homens de negócio julgava as linhas curvas um erro. Afirmavam, em sussurros aquém do roçar das camisas, o que é curvo se permitiu dobrar; disso se explicava o prédio, as entradas e saídas, os olhares; explicava igualmente o quadro na sala branca.
http://www.flickr.com/photos/toniblay/143544153/

Quando em época de seleção os candidatos aguardavam ali, um por um, no que parecia e era o fim do mundo. Esperavam andando ou parados, as camisas listradas como grades, e alguns circulavam e o som dos passos ecoava, quem sabe se neles, quem sabe se nas paredes. Para os psicólogos, a sala branca e sem janelas era a morte; o quadro, a vida. Seus livros elucidavam, aquele que alinhasse em ângulo reto o quadro com as paredes e o piso era um homem bom, um homem honesto. A Empresa admitia apenas quem não tocasse nele.

Erik K. Weber

Gaúcho e além disso não possui mais biografia

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Conto

tEm PaGodE No KiBButz?
Edweine Loureiro

A ideia agitou o público presente na reunião. Que tal seria criar uma comunidade, nos moldes dos kibbutz? – foi a sugestão feita pelo excêntrico Presidente da Associação de Moradores, o qual acabara de regressar de uma viagem à Terra Santa, onde se encantara com o estilo de vida observado nessas comunidades autossustentáveis; a tal ponto de sugerir a aplicação da mesma entre os habitantes de um morro no Rio. ― Esse negócio de misturar-se debaixo do mesmo teto, desculpe, seu

Presidente, pode funcionar para gringo. Não, aqui! O senhor pensou o problema que dará: um querendo deixar o trabalho mais pesado para o outro, o ambiente propício à promiscuidade?... Sei, não. Do jeito que brasileiro é – contra-argumentou um pastor, aplaudido pelos fiéis e vaiado pelos opositores, esses últimos gritando que ele estava mais interessado era em não perder os frequentadores de sua Igreja. E, em seguida, a discussão se iniciou. Segundos depois, pessoas tentavam agredir o pastor e seus seguidores. A

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http://www.flickr.com/photos/anthony_goto/2323433820/

polícia interveio e acabou a reunião. Durante a confusão, claro, tratei de retirar-me do local o mais rápido possível. E, enquanto caminhava de volta para casa, fiquei refletindo sobre as palavras do pastor, principalmente a parte que ele disse: Do jeito que brasileiro é… De fato: há alguns aspectos de uma organização coletiva com as características do kibbutz que seriam mesmo impraticáveis no Brasil. E, sobretudo, porque nosso país carece de dois elementos fundamentais, que, em regra, constroem tais coletividades: o trabalho em prol do grupo e o próprio conceito de ordem, letra morta de nossa castigada bandeira.

inimputável prática da corrupção, não somente por nossos políticos, mas em todas as esferas sociais. Isso no que se refere à falta de consciência coletiva. No quesito disciplina, então, somos alvos de reprovação em todo o mundo. Chegar meia hora atrasados a um compromisso, ou deixar de responder a um e-mail, por exemplo, ao contrário do que muitos brasileiros pensam, não é sinal de poder ou importância, mas, sim, de desrespeito ao próximo. Comportamentos que, por exemplo, em países como o Japão, são nada menos que reprováveis.

Concordo, portanto, com as palavras daquele pastor: os brasileiros somos, sim, um povo desorganizado e, faltou-lhe completar, individualista Não é novidade que o famigerado – o que, pela lógica, torna a ideia do jeitinho brasileiro causou terríveis danos à nossa forma de comportamen- Presidente da Associação simplesmente impraticável. to social ao longo da história, e do qual, pese o grau de desenvolvimento Exceção feita às festas e eventos econômico atingido, não conseguimos esportivos, quando é de praxe os ainda nos livrar. É o mal de buscarmos brasileiros congregarem-se. atalhos, sempre: para passar na frenSendo assim, na próxima reunião, te dos outros, em uma fila de banco, serei eu a sugerir ao bem-intencionaporque simplesmente conhecemos o do presidente: que tal inaugurar um atendente; ou de tentarmos ameaçar kibbutz com um show da Ivete Sangaum policial com nossa fama ou posilo? Aproveitem, e convidem o Neymar ção social, para tentar escapar do teste para fazer a dancinha do tchu tcha do bafômetro; ou, ainda, o de comtcha... prarmos provas de concursos públicos. Isso sem falar da tão conhecida e

Nasceu em Manaus em 20/09/1975. É advogado, professor de Literatura e Idiomas, e reside no Japão desde 2001. Em 2005, obteve o Mestrado em Política Internacional pela Universidade de Osaka (Japão). Premiado em diversos concursos literários, é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (2000), Clandestinos [e outras crônicas] (2011) e Em Curto Espaço (2012). É membro-correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (RJ) e colunista das revistas literárias Samizdat e Benfazeja.

Edweine Loureiro

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Conto
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Fernando Domith

um baixo ruído ao longe
A apresentação havia ido tão mal quanto se poderia. Ela havia visto nos olhos de cada um dos mestres e doutores com olhos cinzentos inundados de julgamento. Suas mãos haviam tremido (ainda tremiam), ela havia gaguejado, ela indubitavelmente havia falhado. Meses dormindo mal, comendo mal, conversando mal, vivendo mal... tudo simplesmente em vão, importantes aspectos de sua vida negligenciados, importantes pessoas negligenciadas. Ainda não havia um veredicto, uma resposta a seus esforços, mas intimamente ela sabia muito bem. Não havia como aquilo terminar bem. Sua tese parecia genial, todos o diziam. Sua preparação vinha sendo perfeita, todos o diziam. Mas agora ninguém saberia dizer o que saiu errado, nem mesmo ela. Restava apenas o caminho para a casa, passos solitários em ruas solitárias, com suas roupas esvoaçando ao sabor do vento, parecendo tão ridículas naquele momento, tão desconfortáveis. Sem que ninguém pudesse ver, ela chorava, enquanto os cabelos tão castanhos molhavam-se em suas lágrimas perfeitas, tão diferentes de sua apresentação. “Por que algum idiota se sujeitaria a tal processo?” ela agora pensava. Por que alguém se colocaria numa situação onde todos esperam apenas falha e humilhação? Onde homens e mulheres austeros sentam-se em suas cadeiras de estofado vagabundo como se fossem reis determinando a sentença de plebeus criminosos? Onde olhos maldosos têm permissão para serem maus? Sua vontade era de encher a cara. Expressar toda a frustração, agredir o mundo. Mas não, ela não faria isso, pois havia Henry. O atencioso,

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carinhoso e compreensivo Henry. Nunca haviam se beijado, nunca haviam ido para a cama, nunca haviam feito nada mais do que um amigo faria com outro. Mas ela estava completamente apaixonada, e sabia que ele se sentia da mesma forma, tinha certeza. Seus olhos profundos, sua fala calma e seu abraço quente a fariam esquecer o resto. Ela se declararia para ele, diria, sem medo algum, o amor que sentia por aquele homem único. Ela aqueceria seu coração solitário e juntos caminhariam para onde o vento apontasse e com certeza chegariam a um lugar onde poderiam ser felizes juntos. Sem teses, sem olhos cinzentos, sem humilhação, sem frustração. Apenas luz, luz e luz. Amanda alcançou o celular da sua bolsa e discou o número. O bipe soou várias vezes. Vezes demais. Henry sentou-se à mesa da cozinha. Podia ver seu rosto refletido no vidro, e daquele ângulo não parecia tão ruim quanto seu reflexo no espelho. Olhou ao redor, viu sua cozinha belamente organizada, sua sala de estar aconchegante, aparelhos domésticos de última geração. Dinheiro nunca fora problema, nascera rico, crescera rico e continuava rico. Mas não envelheceria rico. As notas verdes não poderiam abraçá-lo nas noites solitárias, não poderiam consolálo enquanto via as coisas que amava distanciando-se, não poderiam dar um sentido à sua existência. Não poderiam Fernando domith

lhe dar uma família, não poderiam lhe dar Amanda. Ele a amava e simplesmente assistia enquanto ela caminhava para algum lugar distante, um lugar do qual não poderia fazer parte. Ele era apenas um figurante, e sabia que continuaria assim para sempre. Ela não o amava de volta, e isso era muito claro. Ela sorria, o abraçava, e quando ela o beijava na bochecha ele ficava atento como uma criança para poder lembrar daquela sensação quando se deitava na sua cama cheia de sombras disformes. Mas nunca conseguia, ela desvanecia como fumaça ao vento e o que sobrava era o vazio e a frustração da sua ausência. Sem ela, não havia nada mais que quisesse fazer, havia se cansado do trabalho, dos livros, dos filmes, das outras mulheres, das bebidas, dos amigos. Absolutamente nada que quisesse fazer. Seu olhar girava vazio, procurando por algo que nunca encontraria. Foi então nessa manhã que tomou a decisão. Se não teria Amanda, não teria mais nada. Foi até sua escrivaninha, pegou a pistola no fundo de uma das gavetas e sentou-se na mesa da cozinha. Era um lugar tão bom quanto qualquer outro. Ergueu a pesada arma e a posicionou logo abaixo da boca. Ouviu seu celular tocar ao longe, várias vezes, e esta foi a última coisa que ouviu antes do estouro.

Tem 22 anos e estuda Psicologia na Universidade Federal de São João Del-rei. Um dos vencedores do 2º Prêmio Literário da FUMEC, categoria conto. Espera também causar uma boa impressão na categoria poesia e almeja escrever profissionalmente algum dia.

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Conto

a arCa
Fabio Guimarães Bensoussan

Pintura: Edward Hicks

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Estamos a poucas horas do fim. Desde criança tenho pesadelos com isso; imaginava o Cid Moreira anunciando o inverno nuclear. Estranho a ausência de desespero. Na verdade, há um otimismo deslumbrado, e sinto que até o Apocalipse nossa civilização conseguiu esculhambar. Nada daquelas cenas medievais de pecadores e santos e os céus se abrindo. Desde que aquele cientista brasileiro ganhou o Nobel (quer maior sinal do fim dos tempos?), tudo ficou mais fácil. Ele descobriu que nossa mente pode ser transferida dos nossos corpos para um grande computador, que está enterrado em algum lugar na Noruega. É para lá que todos iremos, abandonando nossos corpos e embarcando nessa Arca que não é de Noé. O patriarca teve um trabalho insano para reunir
Fabio Guimarães Bensoussan

um casal de cada espécie de animal, sem falar no que deve ter sido passar dias numa arca com elefantes, hipopótamos e rinocerontes comendo e cagando, além de ter parado no fim do mundo quando os mares baixaram. Agora tudo será diferente; uma pequena cápsula nos matará os corpos e salvará as mentes, lembranças e emoções. Nunca mais ficaremos doentes; ninguém mais envelhecerá. Acabam-se os homicídios. Terei todo o tempo do mundo. A rigor, até mais tempo que o do mundo, para ler tudo o que sempre quis. E jamais me esquecerei do que li. Um novo mundo sem passado ou futuro; apenas o presente. Li em algum lugar que isso é uma forma de inferno. Decido não embarcar nessa Arca, a menos que inventem uma possibilidade de me deletar, se assim o quiser.

Nasceu no Rio de Janeiro em 1973 e atualmente reside em Belo Horizonte com sua esposa e os dois filhos. É Procurador da Fazenda Nacional e mantém o blog http://bibliotecadofabio. blogspot.com. Recentemente, traduziu, a partir da versão em inglês, o conto A Cadeira, do escritor georgiano David Dephy, publicado pela editora Lumme.

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Conto

aspirações
Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o espanador, tarefa árdua e que não resolvia o problema do pó, mas que, ao menos, ao dispersá-lo, tornava-o quase imperceptível, ignorável. Tal como o espanador, em relação aos outros problemas da casa e da família, bases às quais se resumia sua vida, dispersava as nuvens espessas com pensamentos e tarefas aleatórias, como testar uma nova receita, cuidar do jardim ou aprender as técnicas de ponto e cruz da revista que comprava sempre que ia ao mercado, um dos poucos pequenos prazeres aos quais ela se permitia. Nos trinta e cinco anos de casada, abriu mão de quase todas as suas aspirações. Desistiu da faculdade, da carreira de psicóloga, dos passeios pela praça aos domingos (incluindo o almoço fora e o sorvete, sem obrigação de cozinhar ou lavar louça), das viagens ao Pantanal e ao Nordeste, do cachorro, dos dois gatos e de muitos outros planos e desejos, todos dissipados. Além disso, fazia vista grossa às grosserias, ao excesso de trabalho e aos caprichos do marido, o senhor Leopoldo Guimarães, o sujeito mais sovina da cidade. Diziam que ele passava metade do dia preocupando-se em ganhar mais dinheiro e a outra metade preocupando-se em não gastá-lo; com exceção dos domingos, que o velho respeitava como se por força de lei. A maioria fazia piadas e zombarias com ele, mas quem sofria mesmo era ela, privando-se, presa naquela casa com nuvens espessas de pó. Naquela manhã de domingo, por ser aniversário dela, o marido deixou-a dormir até mais tarde, foi até o jardim, arrancou de lá algumas das rosas de que ela mais cuidava, amarrou-as com um pedaço da hera que subia pelo muro da rua e tentou surpreendê-la com o buquê improvisado e com uma xícara de café na cama. Não teve sucesso na surpresa, assim como não havia tido em todos os outros aniversários múltiplos de cinco, em que ele fazia exatamente a mesma coisa – intercalando com o cartão de próprio punho que entregava nos aniversários dos entremeios. Ainda que decepcionada, ela lembrouse de como sorriu no ano anterior e estampou no rosto aquele mesmo sorriso insosso, agradeceu de cabeça baixa e foi preparar um chá; detestava café. Pouco mais tarde, naquele mesmo dia, o filho mais velho foi visitá-la. Aquele que trabalhava fora, na cidade vizinha, porque o mais novo não ia até a casa dos pais havia mais de cinco anos, desde que o pai o expulsara de lá, alegando que os gastos com telefone estavam muito altos e que havia chegado a hora dele andar com as próprias pernas. Ela permaneceu em silêncio durante a discussão e a partida; e arrependeu-se, depois, da inércia. No entanto, mantinha contato com o filho por cartas que ela deixava para uma amiga em comum, a caixa do mercado. O primogênito, que apareceu com um grande pacote e um sorriso maior ainda, havia fugido de casa cedo porque sabia que, enquanto morasse lá, continuaria brigando com o pai,
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Rodrigo Domit

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em defesa da mãe e do caçula. Quando o senhor Leopoldo apareceu na sala de entrada, atraído pelos ruídos de visita recém-chegada, cumprimentou-o com um aperto de mão e um tapinha nas costas; para o velho, aquilo era sinal de muito respeito, adquirido por enfrentar o mundo lá fora e, de quebra, reduzir as despesas da casa. Após o cumprimento, o filho pouco disse e logo despediu-se; não se sentia bem ali, nunca conseguiu dissipar os traumas. Pouco interessado pelo filho, pela esposa ou pelo pacote, Leopoldo voltou a recostar-se na poltrona da sala de televisão. Enquanto isso, ela abriu o pacote, primeiro tentando as beiradas e depois, ansiosa, o rasgando em pedaços com as unhas. Leu na embalagem: Aspirador de polvo. Riu um pouco da tradução em espanhol, ao imaginar o pobre molusco sendo sugado por aquele equipamento da foto, coitado, com os tentáculos ainda para fora, debatendo-se. Ao retirá-lo da caixa, conferiu o manual, montou todos os tubos e foi em busca de um local propício para o primeiro teste. Chegando à biblioteca – que não tinha nenhum livro novo, porque Leopoldo dizia que livro novo era um gasto desnecessário, uma vez que todos se acabariam no alfarrabista da praça central – ela ligou o aparelho na tomada e, de repente, viu-se fazendo desaparecer as nuvens espessas de pó. Camada por camada, retirava o pó de cada prateleira, cada coleção incompleta de enciclopédias (era muito difícil completar alguma, comprando apenas as descartadas) e, também, do chão, do ar, de todo o lugar. Quando desligou o aspirador, viu-se em um novo ambiente, verdadeiramente limpo, leve. Tomada por um novo ânimo, com um brilho incomum nos olhos, partiu para o quarto do casal e ligou novamente o aspirador. Retirou todo o pó do chão, do ventilador de teto, da cabeceira e da penteadeira. Quando foi tirar o pó do criado mudo, uma foto mal presa no porta-retratos acabou puxada para a boca do aparelho. Assustada, após duas

tentativas com o pé, abaixou-se, desligou o aspirador e a foto caiu. Ao ver que se tratava de uma foto do marido na viagem de negócios que fez sozinho a São Luis e Salvador, programou o aparelho para a força média e virou o tubo novamente para a foto. Esta dobrou-se, estalando, e rebateu sonoramente em cada curva do cano até pousar silenciosamente em algum lugar distante. Surpresa com a potência do aspirador, ela abriu mais ainda os olhos brilhantes, sorriu e apontou a boca do tubo para o enxoval que jazia sobre a cama – com as iniciais dele e dela bordadas em ponto e cruz. Sugou toda a roupa de cama, incluindo os travesseiros. Depois, entre uma gargalhada e outra, aspirou todos os porta-retratos do criado mudo e as roupas e sapatos do armário. Seguindo para o banheiro, aspirou as escovas de dentes, as toalhas de banho – igualmente bordadas – e, por fim, os óleos de banho e perfumes que ele nunca passou nela ou por ela. Do banheiro, ela seguiu para a cozinha, ainda mais animada – quase pecando pelo excesso – e absorveu primeiro os eletrodomésticos, depois o jogo de talheres em prata – presente de casamento, ainda na caixa –, as taças de vinho – que nunca foram utilizadas porque vinho era muito mais caro do que cerveja – e os velhos copos de requeijão. No entanto, quando ela virou o tubo em direção aos pratos, aquele que estava no topo da pilha passou por cima dos outros e espatifouse no chão. Atraído pelo barulho, o velho Leopoldo levantou-se da poltrona e foi até a cozinha; deu de cara com ela, com aqueles olhos brilhantes e esbugalhados, assustadora e excessivamente animada. Quando os policiais chegaram, convocados pelos vizinhos que estranharam a barulheira naquela casa costumeiramente silenciosa, encontraram-na sorrindo, de olhos bem abertos, realizada e sentada em um canto da casa vazia – de móveis e traumas. Os braços e pernas do velho Leopoldo, todo desconjuntado, ainda debatiam-se em um último esforço.

Nascido no Paraná e atualmente morando no Rio de Janeiro, Rodrigo Domit escreve contos e poesias desde 2003. É autor dos livros Vem cá que eu te conto (2010) e Colcha de Retalhos (2011).

rodrigo domit

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Conto

HÁ TANTO CARRO EM

BUDAPESTE HOJE EM DIA
Luís Felipe Sprotte

Foto: Luís Felipe Sprotte

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Da visita de sua classe de Húngaro ao Parlamento, lembrava-se apenas da coroa de São Estevão, com sua cruz torta, eternamente despencando para o lado, e do guarda que ele havia perseguido pelos corredores,porque o achara bonito. Fingindo estar perdido, foi até ele pedir ajuda, que o levou até à saída lateral. A professora de húngaro ralhou com ele, e por causa da demora não iriam voltar ao instituto, mas seguiriam todos para casa (que no caso dele, era o próprio instituto). Ele seguiu com sua colega que iria lhe dar carona. – Na Rússia!... – e começou novamente seu eterno circunlóquio sobre como na Rússia tudo era diferente, melhor. Narrússia – ele chamava-a assim, desde o primeiro dia em que estudaram juntos – era uma petersburguesa baixinha, magra, cabelos curtos, óculos e gritos. A tudo respondia com frases que gritava o seu famoso Na Rússia. Sabia pouco sobre ela, apenas que fora professora de violão na Rússia, e que seu filho esperava por ela todos os dias no estacionamento do Instituto Balassi Bálint. Uma vez no carro, ela se

mostrou nervosa com o tráfego lento ao redor do Parlamento. O filho a esperava, na Rússia era dessa maneira, e também de outra. Ele permaneceu em silêncio o tempo todo. Os pedaços de diálogos misturavam-se a cada metro percorrido pelo carro, lentamente. Os gritos de Narrússia, seus braços sempre para fora do carro, os cigarros, novamente seus gritos: em russo consigo mesma, em húngaro com os outros motoristas, em inglês com ele, porque apesar de sempre colar nas provas, tinha a certeza de que ele não falava bem húngaro. Dentro do carro, ele só pensava que sua estação cardíaca estava vazia, sem passageiros, sem trens, sem homens que quisessem ao menos atravessá-la a pé para o comprarem como café. Nem cigarros jogados nos dias chuvosos ou com neve salvavamlhe os assentos vazios. Não havia nem mesmo guerrilha na palavra solitária de sua estação. Ao seu lado, uma mulher gritava contando sua adolescência na perestroika; fora do carro as buzinas daqueles milhares de motoristas impacientes com dois estrangeiros num carro minúsculo, profetizando uma revolução que iria acontecer tão logo eles saíssem de seu país. Ele sabia que sairia de

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Budapeste sem ao menos deixarse iludir com uma fuga de figurantes de uma peça em português. Quando deu por si, ela falava apenas russo com ele. Ele então olhou o trânsito e disse em português:

do Danúbio voavam em torno deles, porque além delas e dos leões, eram as únicas figuras que se mexiam em toda a cidade. – Na União Soviética... – dizia ela.

Atrás deles, Peste não mais – Há tanto carro em Budapeste existia, era apenas uma planície, hoje em dia! e pôde ver pelo retrovisor do carro a tribo magiar acampando – Na Rússia – ela respondeu. Os leões desdentados na ponte nas terras que seria daquele momento em diante sempre deles. receberam-nos rugindo. Na priE por isso ele continuou contanmeira metade da ponte, olhou para trás e viu Peste, a burguesa do o nome de todos os homens Peste, viva, o eterno contraponto com quem se deitara em Budapeste: Sanzer, Balázs, Jarek, Bálint, à delicada Buda. E não existia Pál, Grigorij, Petar. mais, porque não era mais um – Um udarnik! É isso o que trânsito exterior que os conflituvocê é! Na União Soviética chaava, mas interior, entre os dois. mamos quem faz demais assim: Onde estavam todos aqueles udarnik. carros que os atrapalhavam? Não havia provérbios em relação àquela ponte, a das correntes, a Széchenyi, a que o prendia a um momentum incestuoso entre passado e presente. E já no meio dela, como se fosse impossível sair de sua metade, ele pensou no filho da mulher ao seu lado esperando-os no instituto em Buda; não mais rapaz, mas homem. Os leões cercaram-nos, rugindo, tomados de vida, ainda que estátuas. Agora tudo começava a mudar. Era um Trabant que os levava ao instituto. As gaivotas

Contornaram lentamente a Praça Ádám Clark, com suas flores agora secas. O túnel que passava em baixo do castelo nunca fora tão lúgubre, e centenas de anos seria pouco para que pudessem atravessá-lo. Ele ficou com medo, e disse a ela que iria sair do carro. Puxou a maçaneta do Trabant, mas não adiantava, não conseguia sair do carro. Os faróis estavam queimados, e a única luz que ele conseguia ver era da brasa na ponta do cigarro dela, um Kongres que ela trouxera da Iugoslávia. O

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motor do carro dava a impressão de que iria pifar a qualquer momento. – Na União Soviética... Anos depois, eles saíram do túnel e chegaram ao bairro de Krisztinaváros, vazio, abandonado. Não havia nada em lugar algum, apenas os dois no Trabant marrom-claro, que não conseguia andar em uma velocidade sequer razoável. Era um tráfego horroroso, esse da ausência. Os recados dos antigos amores dos dois viravam medo, e assim, perplexos pela inutilidade de seus movimentos, pararam de respirar, porque a morte poderia lograr-lhes, e deixá-los ao menos andar em direção ao que acreditavam: ela, a Leningrado; ele, à terra de seus pais, no sul do Brasil. A morte, porém, não entrava num Trabant. Foi quando Nauniãossoviética sorriu-lhe, e disse: – É assim que será: nós dois ligados para sempre. Tudo o que ficava para trás desaparecia. Tudo! Inclusive as
Luís F. Sprotte

palavras já ditas, pois as novas não conseguiam sobreviver com o pequeno apelo de suas experiências narradas. Eles ficaram mudos. As arrancadas do carro perturbavam-nos, e as mesmas ilusões almejadas na distante manhã no Parlamento sufocavam o pouco ar que restava – as janelas estavam fechadas e não havia maneira de abri-las. Ao chegarem a sua casa, na colina, o filho dela os esperava sentado nas escadas. Sempre um homem bonito, agora levemente grisalho. – Lá está o Dima – ela disse. Dima acenou aos dois: à mãe, e a ele. Ela desligou o carro, e perguntou ao caroneiro: – Não me lembro mais de seu nome. – Não se preocupe, Ekaterina! – respondeu com carinho. Foi quando percebeu o quanto ela havia envelhecido. FIM

Nasceu em 1984 em Mafra, Santa Catarina. Morou dois anos em Budapeste, onde estudou húngaro e viveu muitas estranhezas. De volta ao Brasil terminou a faculdade de Cinema e começou a estudar Letras. Atualmente está escrevendo um romance que se passa, assim como esse conto, em Budapeste.

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Conto

terá sido...
De tudo que é nego torto Do mangue e do cais do porto Ela já foi namorada. O seu corpo é dos errantes, Dos cegos, dos retirantes; É de quem não tem mais nada. (Chico Buarque, 1978) – Eu vou tentar, mãe! Eu vou fazer como tu disseste: resiste, Gisberto, resiste sempre aos que quiserem fazer de ti bicho. A gente não sabe de Gis naqueles instantes derradeiros, antes da água – Eu quero resistir, mãe, mas tem sido difícil, ainda mais nestes dias, desde que apareceram os garotos. A gente não sabe, e talvez Gis nem tenha sentido ódio. Talvez tenha até querido dizer-lhes que não seguissem por aquele caminho, que percebessem que o destino está, ainda que só um pouco, nas mãos de cada um. Gis espancada de modo bárbaro e gratuito por um grupo de rapazes, crianças feitas homens pela força da miséria no espírito e no corpo. Seres crescendo sem a trama do carinho e do arrependimento, e do perdão, e do respeito. Talvez Gis tenha balbuciado, como que em oração: – Sabes, mãe, tenho pena deles.
http://www.flickr.com/photos/aphrodite/69022288/

Maria de Fátima Santos

Em memória de Gisberta, cidadã brasileira, espancada e assassinada por um grupo de rapazes, em 2006, na cidade do Porto, Portugal

fétida, e do escuro, e da certeza de não haver regresso. A gente não sabe do que ela terá dito, do que ela terá pensado.

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A gente não sabe, e talvez Gis tivesse desejado dar-lhes o que nunca teriam tido. Eles a zombarem dela, e Gis a cuidar que poderia salvá-los, que poderia ensinar-lhes outros caminhos. E talvez tivesse gostado de dizer àquele garoto de olho quase transparente, Dimas, ouvia chamá-lo: – Tu pareces tão perdido aí a pegar esse pau para bater-me. Larga-o e abraça-me, garoto. Anda, coloca as tuas mãos em volta do meu pescoço e eu prometo que te dou o mimo de que tens tanta vontade. Assim, ou semelhante, a gente não sabe se Gis terá tido vontade de dizerlhe: – A tua mãe, Dimas! como pensas nela! Via-la pouco, não é Dimas? Ela andava fora e dentro, e tantas vezes te dizia: toma conta deles, porra! Toma conta dos teus irmãos que eu preciso arranjar dinheiro! E gritava-te como se tu fosses culpado de tanta criança e de tanta miséria. Nove irmãos depois de teres sido gerado. E nem pai tu tinhas tido, que nem era decerto aquele que um dia apareceu e te disse: vai com esse senhor que ele paga bem! E tu nem percebeste, e foste naquele carro enorme, assentos de cabedal e música, e o apartamento debruçado sobre a praia, e filmes – tantos filmes que aquele homem tinha! Choraste, lembras-te? Soluçaste quando ele te obrigou, e no entanto voltaste! Mas como odeias os homens que parecem machos e afinal são isso. É por eles que me queres bater, não é, Dimas? A mim aconteceu-me parecido, sabes? Apenas eu desejava muito tê-los, recebê-los no meu corpo, que o meu padrasto dizia que eu tinha um corpo avariado. Sim, sim, era tal e qual assim que ele me dizia: sai daqui que tens um corpo avariado. Era assim que ele dizia quando eu me sentava no

sofá onde ficávamos apertadinhos, que o sofá era o único lá em casa e nós éramos muitos, que só filhos do meu padrasto eram quatro, e outros tantos que ele fez na minha mãe, e ainda era eu que tinha vindo de uma relação de rua, andava a minha mãe sem um tostão e ninguém lhe dava nem uma côdea. Diz ela que chovia um aguaceiro quando o carro parou e a convidaram: sobe, menina, entra que aqui está quentinho e eu dou-te roupa nova. A minha avó tinha morrido de doença, e o marido dela, que nem era o pai da minha mãe, tinha-a posto fora de casa: que fosse dar o corpo que ali não sustentava filhos de outro, tinha-lhe dito, e a minha mãe contava-nos a dar exemplo do que nos podia acontecer. Mas o meu padrasto nunca me pôs na rua. Apenas não gostava que eu tivesse aquele jeito efeminado e me vestisse com a roupa das minhas irmãs. E a partir de eu começar a ficar um rapazito como tu, Dimas, dava-me porrada por eu andar vestido com saias e roupa muito justa, e andar a menear o rabo aos homens, que era o que gritava enquanto me batia de punho fechado pelo corpo todo: queres andar a dar o cú, anda, mas não enquanto estiveres debaixo do meu teto! Um dia, deu-me uma sova com o cinto e eu fugi de casa. Nunca mais vi a minha mãe senão quando vim de partida. Telefonei-lhe, e ela veio ao aeroporto, e foi quando me disse, e chorava: resiste, Gisberto, resiste sempre aos que quiserem fazer de ti bicho. Eu tinha dezoito anos e achava que podia mudar o mundo. Olha no que deu. Aqui estou à espera que um garoto me acabe de vez com esta vida de merda, me rebente a cabeça com um pedaço da cabana onde arranjei abrigo. Poderá ter sido assim, e Gis a querer contar também de dias felizes.

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– Era meu namorado, sim. Jesus de Todos os Santos Piçarro, era o seu nome, mas tratavam-no por Jupi, e ele só acudia se o chamavam alto que era um pedaço surdo. Nunca lhe conheci ofício. Talvez traficasse. Mas não seria droga, não. Seria coisa de armas, ou de carne branca. Nunca tentei perceber de onde lhe vinha o dinheiro. Jesus, como só eu o chamava, tratava-me como uma rainha. Tinha-me salvo das mãos da polícia com umas notas grandes e brilhantes, num dia em que eu trepava num carro e, ontem como hoje, quem é molestado pela bófia é o desgraçado que lhes dá o rabo ou lhes faz um broche, ou os fode, que a maioria desses senhores só cria tesão com a desgraça de quem vive do lado negro da lua. E a eles, a polícia pede, deferente, que sigam, que não mais serão incomodados, e eles vão apanhar outro desgraçado uns metros mais à frente. Jupi salvoume de ir dentro, mas disse-me logo: agora fazes o que eu te disser, a meterme no carro dele, e nessa noite nem me deu mais que um pedaço de pão bafiento e nem uma pinga de água. Ele queria ver como eu reagia, e terá gostado que eu não tenha entrado em choros nem histerias, e daí em diante fez-me seu amante. Que um dia eu valeria muito, dizia-me ele, e levava-me para todo o lado, e foi ele que me pagou o médico e os implantes, e me levou por essa Europa onde tratava de negócios. Gis morrendo, a pouco e pouco, e nem era ainda no fundo do poço fedento e sem saída. Era ela esgotada de doente e de dois dias de porrada. E era a ferida que sangrava. Gis morrendo às mãos daqueles rapazes, seus algozes, e mesmo que gritasse ninguém a ouviria. O destino tem becos, e este seu seria o derradeiro. Gis nos estertores finais talvez tenha querido dizer-lhes que aquele Jesus tinha sido uma alma boa.

– Viajei para todo o lado, o braço no seu braço como se fossemos um casal. Ele conseguiu-me até um nome passado no cartório: leis novinhas neste país onde agora me morro. Este país onde um dia também assassinaram o meu Jesus com dois tiros no pescoço. Não, eu não tenho como fugir a mais este beco. Gis terá pensado, assim, num desespero, a ser sovado. Gis meio mulher meio homem, que era como tinha ficado desde que Jupi tinha sido morto, e nem casa nem dinheiro que não fosse uma continha mixuruca que o seu Jesus pusera em seu nome. Uns tostões para um futuro, dissera-lhe ele, e tinha sido no dia em que tinham decidido que, custasse o que custasse, um dia Gis seria mulher de corpo inteiro. Mas Jesus tinha morrido. – Soube da morte do meu Jesus no café onde costumávamos ir juntos quando Jupi não viajava em negócios, e ele tanto podia demorar dois dias como vinte. Um jornal aberto numa mesa, e a fotografia. Gis, morrendo, terá pensado nesse primeiro dia em que se reiniciou a derrapagem da sua vida. E teria querido contar. – Sabes, Dimas, fiquei transida de medo. Nem pensei em buscar um agasalho, uma peça de roupa, um pente que fosse. Fugi dali, que o meu Jesus costumava dizer-me: se um dia eu for morto, nem penses em aproximar-te do corpo, dizer que me conheces. Se isso acontecer, tu, porra, ata o coração e seca esses olhos, faz-te macho uma vez na vida. E Jesus ria. E se te perguntarem, diz que nunca me viste. Ouves o que te digo, Gisberta, ouves? Gis agonizando terá pensado no seu Jesus. O Jupi, como todos lhe

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chamavam, gostava de dizer-lhe o nome tal e qual ficara no novo registo: Gisberta! ela que depois da morte daquele namorado fora para o norte do país em busca de refazer a vida. Mas daí em diante tinha sido o começo do calvário. Gis terá tentado dizer ao garoto que não lhe batesse, terá até tentado falarlhe da sua vida para que ele percebesse. – Eu nem tinha ainda trinta anos, e nem era mulher nem era homem: o que era eu, Virgem Santíssima? perguntavame pelas noites imensas, sozinha, que era solidão, ainda que com um ou outro, se calhava. Trabalhar, mesmo, trabalhei naquele bar ali a Santa Catarina: dois anos a servir bebidas e a ver as mulheres e os chulos delas, e eu com um ou outro num por acaso, até ter conhecido o Inácio, e foi o fim da minha vida. Ele drogado e sem papéis e eu entretanto tinha perdido os meus, ou caducaram, não tenho já memória de como terá sido. Inácio que tinha uma fama desgraçada. Mais do que por ser drogado, ele tinha fama de ser ladrão e chulo de meninos que cedia aos senhores que passavam na Cordoaria e arredores. Sem dinheiro e sem papéis, não dava nem para um esconso de escada, e menos ainda para arranjar emprego, que me despediram mal souberam do meu andar com pessoal da droga. E

depois do Inácio foram outros Inácios e Ernestos e Luíses, uns pobres, e de vez em quando outros menos pobres, mas sempre uns infelizes, até que cheguei a este canto, doente, que eu de cada vez que fui parar ao hospital nunca saí curada, e tu sabes que quando a gente mais precisa é quando ninguém se chega. Nem as Senhoras da Assistência, Psicólogas e o raio. Ninguém nos ajuda, não é assim, Dimas? Tu já sabes disso, não sabes? Não me batas, ouves-me? Terá querido dizer, mas não teve forças nem para de seguida implorar: – Não me arrastem, que sofro! Não me larguem! Não me deixem ir por este escuro enorme… Ou Gis naqueles dias nem terá tido senão um pensar difuso, um ter ficado delirando numa apatia só quebrada por um ódio profundo por todos eles, e mais por todos os outros que consentiram, mudos e distantes, que tivesse sido daquele modo. E só no fundo do poço, já a exalar o último suspiro, tenha pedido: – Perdoai-lhes, Senhor! e, se puderes, leva-me a mim até ao Paraíso.

Aposentada de professora de Física e Química, Maria de Fátima Marques Correia Santos, nasceu em Lagos, Portugal, em 1948. Edita poesia no seu blog tristeabsurda e prosa no blog repensando. Colabora no blog e na revista eletrónica Samizdat. Integra um grupo que realiza, em Lagos e arredores, tertúlias de literatura dita. Em 2009 publicou o Papoilas de Janeiro, um livro de textos em prosa. Com poesia esparsa em vários livros em co-autoria, integra os Volumes II (2007) e VII(2012) das antologias ditas Cinco Poetas de Lagos. Tem participado em concursos literários e oficinas de escrita. Em 2012 um conto seu foi selecionado pelo júri dos novos talentos FNAC literatura e está publicado por essa editora. Nos intervalos da escrita gosta de desenhar e publica alguns dos resultados dessa sua atividade no blog intimarte

maria de Fátima Santos

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Conto

Fábio W. Sousa

o cemitério e o sanfoneiro
No século XIX foi construído em São João Del Rei o cemitério do Carmo, por iniciativa de uma proeminente ordem, a Irmandade de Nossa Senhora do Carmo. É o único cemitério coberto da América do Sul, em que os caixões são sepultados de lado, nas paredes laterais, no sentido horizontal. Em sua portada, datada de 1836, além de um crânio dependurado, há também um enorme portão com grades de ferro maciço, trabalhado manualmente por um importante artista local, Jesuíno José Ferreira; uma vez fechado, ninguém entra e ninguém sai. O sossego então é imposto para quem já se foi e precisa descansar em paz. O zelo é tanto que é costume dizer que a confraria trata melhor dos mortos que dos vivos. Fica ao lado da igreja de nome homônimo, nas proximidades do largo em que se concentram casarões, bares, e o imponente Solar da Baronesa. Dali também se vê a Régis Bittencourt, mais conhecida por rua da cachaça, que recebia em seus casebres importantes políticos, comerciantes, artistas, e inclusive o alferes Joaquim José da Silva Xavier, a tratar de assuntos relacionados à inconfidência. Um pouco mais adiante, já em meados do século XX, um cidadão ainda não tão importante, jocoso pé-de-valsa, andarilho, tocador de acordeom, soldado de Juiz de Fora, de passagem na época pelo glorioso 11° RI, e que havia fugido do Nordeste por vergonha de uma desavença que teve com um coronel, bebia uns goles numa dessas alcovas na rua da cachaça. Ali se encontrava tocando no acordeom a célebre valsa de Simão Jandir, o Turquinho. Ainda era cedo quando a dona do estabelecimento bateu palmas pedindo licença a todos para que pudesse fechar o estabelecimento, afinal era o dia da terrível procissão das almas. – Oxente! Eu não tenho medo disso não, procissão das almas, onde já se viu? – disse o soldado sanfoneiro, mais conhecido como Bico de Aço, apelido que ganhara por ser também um exímio corneteiro do exército brasileiro. – Não diga uma coisa dessas; aqui em São João ela acontece toda sexta-feira 13 de semana santa, e todos sabem que aquele que espiar pela janela, ou cruzar com ela pelo caminho, pode dizer adeus, por que não amanhece.
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– Oxê, que crendice é essa? – Crendice ou não, eu vou fechar! – disse a mulher. Não satisfeito Luiz replicou. – E pra provar pra tu, vou dormir é no cemitério! – retrucou o Bico de Aço, virando uma branquinha. Todos riram. E assim foi o temulento com seu acordeom cambaleando na direção do cemitério. Olhou para um lado, para o outro, e encontrando o portão aberto entrou. O lugar estava tão silencioso e aconchegante que encostou e ali mesmo ficou. Acabou que dormiu. Um sono tão profundo quanto o dos mortos ali sepultados. Então aconteceu o que ninguém podia imaginar. O coveiro que também entornava uns goles, naquele dia, quando chegou para fechar o portão, pensou: “hoje eu não vou fazer a ronda”, e não fez, simplesmente juntou as partes do portão e gritou, “tem alguém aí?” Acurou bem os ouvidos e não obtendo resposta enrolou a corrente e trancou o cadeado. – Ainda bem que morto não fala! – resmungou. Pois bem, lá por volta das cinco da manhã, quando o galo anunciava a chegada de mais uma aurora, é que nosso herói resolveu acordar. Procurou a saída, mas o cemitério, todos sabem, estava fechado. E o único jeito de sair de lá era esperando o coveiro para reabrir o portão, gritar seria impossível, e muito menos coisa de homem, e mesmo assim, quem no dia da procissão das almas iria ter coragem para dar com a cara na janela, correndo o risco de ter ali uma vela acesa lhe esperando ao amanhecer? Pois reza a lenda que aquele que vê ou cruza com a procissão, recebe

uma vela acesa em sua janela logo nos primeiros raios de sol, o que significava que naquela casa haveria óbito. Acontece que na cidade tem sempre aquelas pessoas que acordam mais cedo que outras, como é o caso dos vendedores de pães, dos feirantes, trabalhadores das fábricas. Naquele tempo os pães eram vendidos em balaios, e havia um cidadão que fazia a entrega nos bares da cidade, conhecido por todos como sendo dono de um ceticismo cego, ateu, e que não gostava de frequentar igrejas, um comunista: – Eu não acredito nesse negócio de assombração, isso é coisa desses padres que inventam essas histórias para pôr medo nas pessoas! – Orgulhava-se, contando histórias sobre Marx, Engels e Lenin. Dizia para todos que eles ainda iriam revolucionar o mundo. Com seu balaio na cabeça vinha ele assobiando a Internacional comunista pela calçada, destemido como sempre. O sol ainda nem despontava. O galo cantava. E uma neblina densa cobria parte das torres da igreja e de toda extensão do largo, parecendo o filme do Drácula. Quando o pobre passou próximo do cemitério, ouviu um grito de horror, viu um braço estendido por entre as grades: – Oxente, me dá um “mi bemol” aí! – gritou Luiz com seu fole prateado. Coitado do comuna, foi pão para tudo que é lado, se borrou todo, e o seu ceticismo foi parar na Rússia; deve estar correndo até hoje pelas trincheiras de Stalin. Nunca mais foi visto na cidade. Dizem que foi daí que nasceu o famoso pagode russo. Não sei até que ponto isso é verdade, mas só sei que foi assim.

Fábio W. Sousa
Nasceu em São João Del Rei, no ano de 1971. Aos 14 anos mudou-se com a família para Goiás, onde estudou Filosofia e Direito, este último não chegou a completar. É militante do Partido Comunista do Brasil e membro da União Literária Anapolina – U.L.A. Lançou o seu primeiro livro de contos em julho de 2012. O seu passatempo preferido é inventar histórias, como todo escritor.

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Conto

Zulmar Lopes

da utilidade dos Crachás
Entrou no vagão distribuindo passos cadenciados pelo assoalho. Naquele horário a estação do metrô onde costumava embarcar era pouco frequentada e a luta por um assento se fazia desnecessária. Buscou os bancos localizados no fundo do vagão, paralelos às janelas, dispostos de frente um para o outro. Preferia aquele local onde podia esticar as pernas compridas e, bem acomodado, ler as principais notícias do jornal. Já instalado, sacou do interior da pasta o periódico e a credencial da poderosa empresa estatal onde trabalhava, colocando-a em volta do pescoço feita uma medalha olímpica. Sabia que o crachá provocava certa inveja nos passageiros que encaravam, cobiçosos, sua foto sublinhada pelo nome e cargo exercido. Considerava-se um vencedor. Corria aleatoriamente as vistas pelas notícias, um tanto incomodado pelo burburinho de conversas dos passageiros e o ruído do trem deslizando sobre os trilhos. Na estação seguinte, um pequeno grupo embarcou. Por detrás do jornal, sentiu alguém ocupar o assento vazio ao seu lado. Percebeu tratar-se de uma mulher. De início, deu pouca atenção à companheira de viagem e, sem desviar o zelo de sua leitura, notou estar ela acompanhada por um homem sentado a sua esquerda. A viagem matinal tinha tudo para transcorrer sem novidades, dentro da rotina de sempre, caso a mulher ao lado não houvesse puxado de dentro da bolsa alojada no colo um frasco de creme hidratante e, livrando-se da sandália, iniciasse uma massagem no pé esquerdo. Eriberto abaixou o jornal e ficou a observar disfarçado o deslizar das mãos fêmeas circumhttp://www.flickr.com/photos/tamaracraiu/5081950835/

navegando o pé, um pezinho delicado, unhas bem pintadas, denunciando o profissional trabalho de alguma manicure. Uma tornozeleira prateada dava um acabamento ao quadro que se desenhava à sua frente. Ela perguntou ao companheiro se ele queria um pouco de creme, enquanto levava os dedos levemente besuntados na direção do nariz do parceiro que, fazendo cara de nojo, recusou a oferta. Os olhos de Eriberto iniciaram uma discreta excursão em torno do que sua posição ao lado da moça permitia captar. Sempre protegido pelo jornal entreaberto, encontrou uma perna torneada, tostada pelo sol da praia, coberta por fina penugem dourada. Percebeu ainda que a mulher ao lado repetia no pé destro a massagem executada no sinistro. A sola do pé direito ficou à vista, branca, contrastando com o dourado da pele. Eriberto continuou a viagem pelo resto do corpo da moça, decepcionando-se com a interrupção da perna à mostra, coberta por uma saia de comprimento na altura dos joelhos. Desejou com ardor descobrir a coxa e conhecer o volume da mesma. Imaginou-a curtida pela ação de raios solares, espetadas com os mesmos fios dourados que decoravam a perna, distribuídos em volta daquela musculatura insinuante por debaixo da saia. Com um leve giro do pescoço, contemplou os cabelos negros, velados, artificialmente tingidos. Não conseguia distinguir os traços fisionômicos da moça. Para tanto, teria que encará-la e, embora movido pela curiosidade, não ousaria tamanha atitude dentro do metrô. Levantou a cabeça por sobre o jornal e buscou a imagem refletida da moça na janela do vagão oposta ao

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banco em que sentavam. A escuridão do túnel por onde corria o trem não permitiu uma visão clara. Fechou o jornal e ficou a olhar para frente, estudando detalhes mais nítidos no jogo de claro-escuro que a janela insistia em presenteá-lo. Em dado momento, o homem ao lado da moça chamou sua atenção para algo que ele estava lendo. Tratava-se de uma bíblia de bolso, daquelas como letras diminutas, de hercúlea leitura. Seriam os dois evangélicos? A mulher inclinou o corpo em direção ao livro, prendendo o cabelo atrás da orelha. Quando Eriberto viu-a redonda, carnuda, adornada por um exército de piercings, teve ganas de mordê-la. Procurou controlar-se. Naquela posição transversa, atenta à passagem bíblica que o parceiro lhe exibia, a mulher revelou a Eriberto um pedaço de sua desejada coxa, roliça como ele desconfiara. Enquanto contemplava o espetáculo, ele lembrou-se de trechos do Cântico de Salomão: “Que formosos são os teus pés nos sapatos, ó filha do príncipe! As voltas de tuas coxas são como joias, trabalhadas por mãos de artista”. Não se recordava do resto do cântico. Quem sabe ele poderia pedir emprestada a bíblia do casal para uma rápida consulta? Riu em deboche. A voz metálica da locutora do metrô anunciou a proximidade da estação onde Eriberto desceria. Ao levantar-se, procurou enquadrar de relance o rosto da moça e, enquanto era empurrado pela massa humana que procurava a porta de saída do vagão, conseguiu por uma fração se segundos cruzar seu olhar com o dela. Durante todo o dia passeou por sua mente o belo rosto moreno que por breves instantes sua retina capturou. Tentou mentalmente juntar as peças e montar por completa aquela mulher que o impressionara. Queria guardar na lembrança esse alguém que ele desconfiava fosse impossível reencontrar. Estava consumido por estes devaneios no final de tarde quando

resolveu abrir sua caixa de e-mail antes de voltar para casa. Entre as piadinhas enviadas por amigos, spams e dezenas de tentativas de plantar um vírus no seu computador de trabalho, Eriberto encontrou um recado do site de relacionamento no qual possuía uma conta. Nele estava escrito: “Valéria Jambo deixou um recado para você.” Clicou despretensiosamente no link e, após digitar sua senha de acesso, contemplou surpreso uma foto em plano americano onde estava registrado o mesmo olhar trocado por segundos dentro do vagão do metrô. Ao lado da imagem digital, um recado: “Espero que você se lembre de mim. Vi como me comia com os olhos hoje de manhã.” Em alguns segundos descobriu tudo o que era possível a respeito de Valéria Jambo. Idade, preferências, gostos, comunidades. Abriu seu álbum de fotos e pôde apreciar sem medo e com calma o belo corpo que durante a viagem pelos subterrâneos da cidade lhe fora negado por completo. Em algumas fotos, o acompanhante de Valéria naquela manhã estava presente, coadjuvando a beleza em traços indígenas de Jambo, sobrenome certamente fictício, alusivo a sua morenice. Perguntou-se de que maneira a mulher conseguira descobrir o seu perfil no site de relacionamentos. Um leve abaixar de cabeça, encarando o crachá que descansava esquecido em seu pescoço deu-lhe a resposta. Ela chegara a ele através do seu nome impresso na credencial. Apostara na popularidade do site e obtivera sucesso! Trêmulo, não de medo e sim pela novidade, Eriberto navegou até o espaço de recados de Valéria, digitou um convite para adicioná-la em sua rede de amigos e com o mouse clicou no item “enviar”. Agora, restava ao homem do crachá esperar. No íntimo, desejou que a experiência do dia lhe rendesse bem mais do que uma mera amizade virtual, colorida em bytes na tela do computador. A vida real agora fora tingida, em tons de jambo.

zulmar Lopes
Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem um punhado de prêmios literários, a maioria de nenhuma importância. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. Finalmente concluiu o maldito romance cujo pano de fundo é o carnaval carioca e está na expectativa de que alguma editora incauta se atreva a publicá-lo.

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Conto

Silvana Michele Ramos

traBaLHaNdo Com
o BatEdor dE CarNE
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pá! – mando logo sortir. Não dou cartaz, não; faço de conta que nem sei o nome. Elogiar? – Pá, pá, pá! – Só se não der mesmo pra evitar. Mas trato de querida. Que, aí, – pá, pá, pá! – todos dizendo como Quando eu pego essas alu- eu sou polida, como eu deinas, essas que querem saber xo o aluno bem à vontade, o mais que a professora, eu, – que ela vai poder falar – pá, pá, pá, pá! – eu “amacio” logo. pá, pá! – de uma indireta no Primeiro lugar: – pá, pá, pá! meio de uma conversa? “Tem – não deixo brilhar. Tenha aluno que faz, de uma simo mérito que for, – pá, pá, ples prova, a razão da sua pá! – procuro prontamente vida...” E outra que eu solto, – outro aluno, que conheça o pá, pá, pá! – na maior displiseu lugar de aluno, e pra esse cência: “Tá acertando porque eu dou: todo o crédito. Eu tão dando muita dica...” Ou sou professora – pá, pá, pá! então eu brinco: “Já foi ler lá – e não estou vendo talento; adiante, a nossa amiga...” Porquem vai dizer que ali tem que, se deixar, – pá, pá, pá! – valor, se eu, que sou eu, – pá, até asa cresce nela; se deixar, pá, pá! – não dou? Na oral e até voa! E assim, não; – pá! – na escrita, as subjetivas, – pá, fica sempre no chão. pá, pá! – é que ela me paga. E, se vier discutir, – pá, pá, “É que, às vezes, o homem se sente mais realizado se, ao invés de dizer parabéns, ele fala: – Coitado!” Nenéo, Ponta de faca
Silvana michele ramos
Não quer saber de equiparações como “Eu sei que eu nunca vou atingir a perfeição, Silvaná. E tu também. Tu jamais vais atingir a perfeição, Silvaná.” Pedagogia por pedagogia, “Silvaná” prefere a da autonomia*. Ou mesmo a do Leonardo da Vinci**: “Pobre é o discípulo que não excede o seu mestre.” ____________ *Pedagogia da autonomia é um livro de Paulo Freire, um cara que não deve ter trabalhado com o batedor de carne.

**Fonte: http://www.citador.pt/frases/pobre-e-o-discipulo-que-nao-excede-o-seu-mestreleonardo-da-vinci-5952

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aquilo

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Conto

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HOMERO GOMES

“A maior sabedoria é parecer louco.” (Erasmo, em Elogio da Loucura) Aquilo ainda está lá. Tentei esquecer o que aconteceu, mas foi impossível. É impossível esquecer algo como o que aconteceu no inverno passado. Por isso, estou na sala batendo nesta velha máquina quase estragada de meu pai. Arrancando da memória o que perturba. Já era o terceiro dia que chovia sem parar. As meias permaneciam úmidas nos pés, as roupas não secavam. O frio entranhado nos ossos. O tempo de folga era usado para consertos na casa, uma velha casa de família, onde meu pai viveu sua infância. Onde tento manter a ordem no imenso vazio de seis quartos desocupados. As instalações elétrica e hidráulica estão todas comprometidas, mas não há dinheiro para uma reforma. Realizo apenas pequenos reparos, como o do insistente taco que sempre solta do piso de meu quarto.

na limpeza e percebi um acúmulo excessivo de cola. Provavelmente, o motivo da falta de encaixe. Com uma faca pontuda e bem afiada fui removendo a cola grossa e velha, junto com a poeira do encaixe no chão, tentando deixar o fundo do taco mais liso e o buraco pronto para receber o pedaço de madeira. Mas o espaço que tinha pra movimentar a faca era pequeno demais, não permitindo um trabalho nem bom nem seguro. Por isso, quando forcei a retirada da cola, acabei abrindo uma fenda em meu dedo. Fui lavar as mãos do sangue que escorria e pegar um recipiente onde pudesse colocar a sujeira acumulada. Meu dedo doía, a limpeza que havia feito já era suficiente para encaixar melhor a peça. Quando retirava os últimos restos de cola e de poeira, senti uma superfície metálica. Achei estranho e continuei limpando, pesquisando, retirando toda a cola. Continuei forçando a limpeza com a faca, cavoucando até retirar tudo o que podia. Numa das estocadas, levantei algo parecido com uma alça.

Sempre limpo a sujeira acumulaAchei que pudesse ter enconda por baixo da pequena peça em trado um velho cofre, um baú de forma de losango. família, algo que pudesse conter alguma coisa de valor. Unidas, as peças formam olhos no chão. Talvez um segredo da família. Desta vez, fui mais cuidadoso Esqueci rapidamente a dor no

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dedo. Fui até à dispensa para pegar ter mais de 7 metros. mais equipamentos. O ar era denso, pesado, não conseguia respirar direito. Com facilidade, fui retirando os tacos ao redor até perceber que não se tratava de um cofre ou As paredes eram escuras, de um de um baú, mas de uma enorme barro negro e fétido. Na frente da porta. escada havia um corredor curvo, Ela era lisa, sem detalhes, contique não permitia que eu visse o nha somente uma alça. Fiquei paque estava a minha frente. ralisado diante daquela descoberta. Os pés grudavam no chão enlaNão sabia o que fazer, que atitude meado. Fui seguindo pelo corredor, tomar. Minhas pernas arrepiavam. iluminando cada detalhe. PareTinha que abri-la rapidamente; cia que nada vivo andava por ali, precisava saber o que havia lá apenas eu. dentro. O corredor subterrâneo não era Com cuidado e calma levantei tão longo quanto eu imaginava. o tampão e senti um vento frio Mas no fim dele, um quarto. e muito úmido roçar os pelos de minha canela. Deixei que o tampão caísse com todo o seu peso para o lado. O estrondo ressoou por algum tempo, e foi nesse momento que me dei conta do que havia embaixo da porta de metal, um enorme e escuro fosso. Não tive coragem de colocar meu braço lá dentro para averiguar o seu conteúdo. Fui até à dispensa e peguei uma lanterna. Sua luz era fraca, mas serviu perfeitamente para iluminar aquela espécie de cova. O fosso parecia não ter fim. Numa das laterais, consegui ver uma escada de madeira. Não tive receio, coloquei a lanterna na boca e desci por ela, lentamente. A descida foi longa, o fosso devia O quarto estava mal iluminado. Nele, apenas uma pequena vela sobre uma cadeira e um colchão imundo. O quarto não possuía janelas, não seria possível para um ser humano viver ali. As paredes do quarto eram mais fétidas que as do corredor. A vela tremulava. Eu ficava cada vez mais confuso e tonto. Tinha certeza de que a coisa que vivia naquele lugar estava ao redor. Apavorado, não conseguia tirar meus pés do chão. Tentei me acalmar, mas a vela em cima da cadeira me dava arrepios. Andei de costas em direção ao corredor. Depois, corri desesperadamente em direção à escada. Subi com muita dificuldade.

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De volta à casa, fui baixando o tampão até fechá-lo por completo. Ainda sentia o cheiro podre daquele cômodo. Meu quarto se confundia com ele. Aquilo que vivia lá embaixo confundia-se comigo. Eu queria entender o que significava aquilo. Eu teria que voltar lá embaixo novamente. Não aguentaria ficar sem saber tudo sobre aquele local. Mas antes de voltar ali, para evitar qualquer imprevisto, coloquei uma pesada cômoda sobre o tampão. Esses acertos deveriam durar até o outro dia, quando eu saberia o que fazer a respeito. Não foi o que aconteceu. Fui deitar cedo. Mas não consegui dormir em paz. Ouvia barulhos, ruídos de arrastar, puxar, vindos debaixo do piso. Vinham do buraco.

e ineficientes cochilos, levantei, decidido a me comunicar com o responsável pelos barulhos noturnos, pela minha noite mal dormida. Lavei o rosto e coloquei roupas menos amarrotadas. Estava me preparando para o inesperado. Empurrei lentamente a cômoda de sobre o tampão. Mas, dessa vez, não senti o vento frio e úmido roçar os pelos de minha canela. A única coisa que senti foi um formigamento no estômago, pois não estava preparado para o que vi. Tijolos e cimento fresco. A entrada do buraco estava vedada. A passagem estava definitivamente bloqueada, não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Aquilo que está lá embaixo vai permanecer lá embaixo, e eu permanecerei aqui em cima sem saber o que está sob os meus pés e enAquilo que vivia sob os meus pés carcerado pelo lado de fora. estava, pela primeira vez, dando sinal de vida. Depois de tirar curtos
Homero Gomes
(Curitiba/PR, 1978). É escritor. Autor dos trabalhos ainda inéditos Sísifo Desatento (contos) – finalista do Sesc de Literatura edição 2007 –, Jamé Vu –publicado via internet – e Anjo Exilado (poemas) – que possui versão online no site português TriploV e Germina Literatura sob o título Solidão de Caronte. Está concluindo o romance Tempo do Corpo e a novela juvenil Paralelo Um. Colaborou com Rascunho, Cult, Germina Literatura, Cronópios, Ficções, entre outros. É editor de Jamé Vu (com postagens suspensas), espaço em que não apenas divulga suas produções literárias como também a de outros literatos, entre veteranos e estreantes, edita também o blogue juvenil Paralelo Um (com postagens suspensas), onde disponibiliza matérias, curiosidades e jogos para o público juvenil; é colunista dos sites Página Cultural , desde 2010; Mundo Mundano , com sua ficção, desde 2011; e Musa Rara , com notícias literárias e do mercado editorial, desde 2012; e da revista digital Samizdat, com sua ficção, desde 2012.

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Conto

o transportador
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Cinthia Kriemler

Por profissão me foi dada a travessia. Quando pirralho, fazia o transporte de pequenas coisas. Levava os ovos para a vó preparar seus quitutes, depois equilibrava doces e salgados num carrinho de mão e saía para entregar as guloseimas fresquinhas no armazém da cidade. Ia num pé, voltava noutro, trazendo farinha, arroz, feijão e batata, aconchegados no mesmo carrinho rangedor. Nessa época, também ajudava o pai a entregar latões de leite na feirinha, levava a merenda dos manos no pastinho, jogava o milho para as galinhas antes que elas se unissem num cocoricó histérico, e buscava os remédios da vó na farmácia, praticamente toda semana. Quando as suas pernas melhoravam das dores, dava pra aviar a receita só por quinzena, mas eu não me importava com a andança e nem sabia ainda que essa lida constante era ensinamento para as viagens de mais tarde. Logo que me aprumei um pouco mais, lá pelos 14 anos, passei a entregar bilhetes dos manos e de gente mais velha para as mocinhas das redondezas. Às vezes, transportava as palavras na boca ou na cabeça, jorrando os versos e os recadinhos com a ajuda da voz imberbe e da memória. De vez em quando, se a frase era de fazer corar, ou se era para desmanchar compromisso, a entrega era dentro do ouvido. Nesses casos, ficava por minha conta transportar de volta os tapas, os olhares furiosos e os choramingos. Assim, atravessei os anos verdes e, adulto, dei ao ir e vir uma serventia de maior monta: firmei-me na profissão de Transportador de Existências.
La Barca de Caronte, por José Benlliure

Um Transportador de Existências não carrega móveis, nem malas,

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nem quaisquer objetos. Só o vivente e seu quinhão de problemas, alegrias, emoções, vazios... Saúde e doença; sonho e pesadelo; ganho e perda. Animais são permitidos. A morte, também. No entanto, para que o Transportador não seja enganado sobre carga tão funesta, é imperioso à Ceifadora declarar-se antecipadamente: se de corpos, a conduzir para o além o vivente; se de almas, a matar em vida, sem levar o corpo. A conversa precisa se dar antes ou durante a travessia, para orientar o Transportador. No começo, eu lotava com famílias inteiras a carroça que o pai me deixou. Mas a confusão tumultuava a viagem. Alhos e bugalhos misturados, sacudindo aqui e acolá? Briga! O sonho da moça que buscava a capital, a tristeza da outra que se fazia acompanhar pela desonra, a imaginação sem freio das crianças, o lamento do velho, o desengano do desempregado, a luxúria do amante. Tudo engalfinhado num chãozinho de carroça! A coisa ficou mesmo feia quando um moribundo e uma prenha se encontraram. A Ceifadora de Corpos, que viajava com o semimorto, resolveu disputar importância com a Parição, que acompanhava a moça. — O Transportador vai rumar primeiro para o meu destino! Eu preciso entregar o velho ao seu repouso final! — decidiu a Ceifadora. — Uma ova que vai! Tem mais pressa o chegar do que o ir-se! — replicou a Parição. E a baderna só cessou quando a mulher gemeu tão alto que ao meu susto se somaram o júbilo da Parição e a rendição da Ceifadora: a iminência do parto tinha decidido a querela.

Depois desse apuro, passei a transportar uma existência por vez. Apesar de o tempo encurtar com a decisão, não era mais possível permitir que certos destinos se cruzassem. Carregar um a um era mais justo e mais prudente. Da carroça passei para uma motoneta usada. Desastre! As pilhas de resmungos e de suspiros e de gargalhadas iam amarradas, penduradas nas laterais do banco do passageiro, batendo no pneu recauchutado e vaticinando um acidente que, felizmente, nunca ocorreu porque a lentidão da maquineta impedia grandes riscos. Tentei ainda um barco, mas o rio e a travessia pertenciam à Ceifadora de Corpos, e não me apetecia pelejar por território tão sagrado. Ainda mais com quem! O veículo chegou-me via fatalidade, por meio de um viajante cujas pernas doentes e arroxeadas me lembraram, no instante em que bati os olhos nelas, as pernas da vó. No hospital, quando parei para despejar suas dores, gemidos e febres, pensei que nunca mais o veria. Mas, um mês depois, recebi de presente do sujeito nada mais nada menos que uma caminhonete confortável, com pouco uso, acompanhada do seguinte bilhete: “Minhas pernas se foram, mas eu sobrevivi. Segundo os médicos, porque o Transportador me conduziu a tempo. Em agradecimento, envio a você minha caminhonete de presente. É sua, agora, porque para mim não tem mais uso.” Não me fiz de rogado. O veículo era grande, cabia de um tudo. Eu não ia mais precisar carregar só a metade da bagagem dos viventes, nem me aborrecer convencendo-os a deixar para trás

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um meio fardo. Deitar fora as piores emoções — como medos e angústias —, e carregar apenas as sensações mais frugais ou divertidas nem sempre era visto com bons olhos pelo proprietário da existência, por demais acostumado à companhia dos seus martírios. Mas, mesmo grande, o veículo enfrentou seus percalços. Certa feita, acomodei uma mulher recém-separada que fugia da própria sina. Suas memórias, a dor da separação, a depressão aplacada por pílulas, o coração partido e um cachorrinho irritado — que insistia em ficar aos pés da dona — não eram nada se comparados aos mais de cinco mil relatos de um diário que ela havia escrito durante os 15 anos de casamento. Acomodar lembranças feitas de letras é um deus nos acuda para qualquer Transportador de Existências! Vez ou outra, era apenas uma carta ou um bilhete que me faziam companhia na estrada. Eu tinha que abrir e ler antes de fazer a entrega. Esse combinado me recordava os dias de menino em que eu levava recados cochichados e trazia de volta os tapas das moças coradas de vergonha. Apanhei um bocado ao longo dos anos... O ofício me desgostou de verdade em duas transportações: quando os viventes eram meu pai e minha mãe, se retirando deste mundo. Nessas duas despedidas, retardei a entrega. Contudo, não me cabia impedir as viagens, somente cumprir, sem burlas,
Cinthia Kriemler

o transporte. Essa lição, aprendi cedo, ainda nas primeiras travessias. Com dó de um jovem a quem a Ceifadora de Corpos acompanhava, decidi que iria reconduzi-lo para casa. Dando uma desculpa qualquer, subi os olhos até o espelho retrovisor para preparar o retorno. Foi quando, estarrecido, vi que a estrada atrás de mim tinha sumido, dando lugar a um deserto de crateras e troncos retorcidos! E quanto mais eu prosseguia, tendo à frente um pavimento firme e preservado, mais meus olhos encontravam um rastro de destruição em tudo o que ficava para trás. Percebi, depois de poucas vezes, que só acontecia da estrada apodrecer atrás de mim quando a única bagagem do vivente era uma das Ceifadoras, a de corpos ou a de almas. *** Hoje, não me procurou passageiro. Tenho só uma encomenda, um recado a entregar, que me foi deixado sobre o banco do carro. A claridade me faz companhia e o caminho está vazio. Já na estrada, abro a folha dobrada sobre o banco ao meu lado. No papel desmesurado, um imperativo irreplicável sela o meu destino: “Transporta-te.” Meu coração dispara e meus olhos buscam, ansiosos, o espelho interno da caminhonete. Não há esperança. No reflexo retrovertido, cumprimentam-me a estrada desolada e a Ceifadora que veio por mim. Mas qual delas veio? Qual delas?

Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

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Conto

um pierrô apaixonado
Otávio Martins

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Um pierrô apaixonado/ Que vivia só cantando / Por causa de uma colombina/Acabou chorando/ Acabou chorando... (Marchinha de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres – carnaval de 1936) Já era o quinto ano que ele não saía para brincar os bailes de carnaval. Nos tempos de solteiro, quantos Bola Preta! Nesses cinco anos de casado, somente assistia o carnaval pela televisão. Ele e a sua mulher.

outras que ali estavam expostas, nunca precisara qualquer restauração ou reparo; estava “como nova”. Ele achou salgado o preço, a princípio, mas, acabaram por chegar a um acordo; bom para os interesses dos dois. Numa outra loja, logo mais a frente, comprou serpentina, confete e lança-perfume, além de alguns adereços e uma mochilinha, a qual serviria para carregar os seus pertences.

Ao sair do metrô, a dois quarteirões da sua casa, atravessou a rua e, no bar onde costumava tomar Na véspera das suas férias, uma a saideira, mais um duplo. Agora, sexta-feira, foi dispensado mais seria preciso coragem para comucedo. Passou no bar onde costunicar à sua mulher que, naquela mava tomar um uisquinho ou noite, como nos velhos tempos, uma cervejinha com os colegas, na voltaria ao Bola Preta e que só saída do escritório, pediu um duretornaria a casa, como fora seu plo. “Bastante gelo e bastante uíscostume, na quarta-feira de cinzas. que!”. O suficiente para que tomasDona Melissa nem levantava os se coragem. olhos, para não ter de cruzá-los Depois, saiu direto a uma loja com os do Aristeu, que, àquela alali do centro, a qual alugava trajes tura, estavam totalmente ocupados de todos os tipos e que, também, com a maquilagem e os últimos funcionava um brechó, lá no funpreparativos para o seu grande do. Na seção de aluguel, encontrou retorno como autêntico folião do exatamente o que procurava: uma carnaval. fantasia de pierrô. Acabamento e Quando voltou para casa, quamodelo dignos de uma peça da se na hora do almoço, na quartamais alta-costura. Era assim que feira de cinzas, com uma mistura costumava sair em outros carnade odores – lança-perfume, talco, vais. Com a intuição de que dali desodorante vencido e outros – dipra frente voltaria aos bailes do fícil de suportar e, também, de deBola, propôs ao dono da loja que finir, desabou no sofá. Na quintavendesse aquela fantasia para ele. feira, com a naturalidade de mais Valorizando a mercadoria, o proum dia de trabalho, levantou-se, prietário argumentou que aquetomou um banho, colocou o seu la roupa, ao contrário de muitas

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terno azul-marinho, apanhou a 007 e saiu. Havia esquecido, completamente, das suas férias. Essa agenda carnavalesca do Aristeu repetiu-se pelos seguintes cinco anos, até que dona Melissa resolveu investigar qual era o balacobaco do Aristeu. Apesar de todos aqueles dias fora, nenhuma marca de batom, nenhum perfume ou qualquer outro cheiro que não fosse o seu (dela) ou daqueles que há muito tempo ele costumava usar, os quais ela já bem conhecia. Nada, aparentemente, que pudesse comprometê-lo, ou “incriminá-lo”. E era justamente isso o que tornava aquelas suas incursões carnavalescas mais intrigantes ainda. Com uma peruca loira, uma belíssima fantasia de colombina, uma máscara cobrindo-lhe quase todo o rosto, sapatilhas e pochete rosas, logo na sexta-feira, arriscou, de prima, o Bola Preta.

veu aproximar-se – com todos os cuidados necessários para que não fosse reconhecida – e começou a insinuar-se para o Aristeu. Quando ele botou os olhos naquela colombina, a qual ele não conhecia de nenhum dos bailes anteriores, ensaiou, ao seu redor, alguns passos, como daqueles dos mestres-salas de Escolas de Samba e foi-se aproximando, aproximando, até que pegou em sua mão, cavalheirescamente. E não se desgrudaram mais por quase toda a noite. Quando muito, uma paradinha para ir ao banheiro, retomar o fôlego e, na passada, mais uma bebidinha, com o pretexto de manterem o ânimo que o reinado de Momo exigia.

Conversaram muito pouco; Aristeu fez algumas perguntas sem a menor importância, só pra puxar assunto, mesmo. Falou um pouco de si, que trabalhava muito e, como contador da firma, aquele Do mezanino, vasculhou com serviço maçante... Os “benditos” o olhar, praticamente, todo o sabalancetes mensais... Precisava, lão. O Aristeu, com todos os seus mesmo, tirar uns dias, lavar a apetrechos, dançava, com visível alma... Que já estava no décimo entusiasmo, sozinho. Deu para ano de casamento... Quando foi perceber que não procurava qualinterrompido pela colombina, que quer companhia; não fustigava lhe perguntou por que não trazia nenhuma foliona; não participava a sua mulher para os bailes do de nenhum daqueles cordões de Bola Preta. Afinal – palavras dela salão, tipo trenzinho. Não paque– “ali era um lugar familiar”. O rava ninguém. Alegremente, jogava Aristeu respondeu que sua mulher confete e serpentina para todos os era uma pessoa muito recatada e, lados, em todos os foliões. Era, por até mesmo para o baile do Bola, assim dizer, um caso à parte. não tinha coragem de convidá-la. Dona Melissa, então, resol-

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E continuaram dançando. Já estava um pouco embalado pelas caprichadas doses de uísque e inúmeras cervejinhas. De repente, olhou em volta e depois por todo o salão, a colombina tinha simplesmente desaparecido, como por encanto. Desatinado, procurou-a por todos os cantos, depois, em outros bailes; não só naquele final de noite, no Bola, mas, também, pelas madrugadas do sábado e do domingo. Uma busca inútil. Na segunda-feira voltou pra casa logo depois que amanheceu o dia, com a sua mochila, onde costumava carregar todo o seu material, cansado, desiludido com o carnaval. Não conseguia esconder a tristeza, em plena véspera da terça-feira gorda. Juntou tudo, inclusive a sua fantasia de pierrô e, com visível desprezo, enfiou tudo numa daquelas sacolas plásticas
otávio martins

grandes de supermercado, jogando-a num canto qualquer do sótão. A partir daquela noite, voltaram, ele e a dona Melissa, a assistir o carnaval pela televisão. Quando chegava a sexta-feira de carnaval, ele enchia quase meia geladeira de latinhas de cerveja, além de um litro de uísque sobre a mesinha da sala – para rebater – o que ele costumava chamar de quebra-gelo. Sempre que a televisão mostrava alguns flashes dos grandes bailes, principalmente do Bola Preta, o seu olho corria ágil pelos quatro cantos da telinha, sob o soslaio de dona Melissa, na inútil tentativa de encontrar a colombina, pela qual havia, perdidamente, se apaixonado.

68 anos, iniciou a escrever contos e crônicas por volta de 2006, para preencher alguns espaços em seu jornal eletrônico nb – NOTÍCIAS DO BRASIL, posteriormente rebatizado de O SPAM. É fotógrafo e cinegrafista (ou era). Trabalhou na extinta TV TUPI – (TV Ceará, em Fortaleza, 1969 e 1970). Produziu alguns shows em São Paulo, com Adoniran Barbosa e Grupo Talismã; Eduardo Gudin, Márcia e Roberto Riberti, além de Paulinho Nogueira; Tom Zé e Vicente Barreto; João do Vale, Zé Keti; Odair Cabeça de Poeta; Premeditando o Breque e outros. Foi assistente de produção do Festival Universitário de MPB, 1979, assessorando o produtor, Eduardo Gudin, do qual surgiram Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque, Celso Viáfora e outros. No Festival do Guarujá, através da Secretaria de Cultura, coordenou e, junto com outros, definiu a participação e contratos na área musical (Hermeto Pascoal, Gonzaguinha, Egberto Gismonti, Sivuca, Baden Powell, Sérgio Cabral, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Paulinho Nogueira, Eduardo Gudin, Sérgio Ricardo, Maurício Tapajós e outros participantes). Trabalhou como cozinheiro em Florianópolis. Arrisca algumas harmonias no violão para suas composições, como O dono do barco, Beija-flor, Meu amor sereno, É do mar e outras. Atualmente se dedica, somente ao jornal O Spam e escrever alguns contos e crônicas.

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a Feitoria de
Farhaj Bill alí
Roberto Arlt
trad.: Henry Alfred Bugalho

tradução

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Os que me conheciam, ao se inteirarem que eu ia trabalhar no criadouro de gorilas de Farhaj Bill Alí, encolheram compassivamente os ombros. Eu já não tinha como escolher. Haviam me expulsado dos mais importantes comércios de Stanley. Em algumas partes me acusavam de gatuno e em outras de beberrão. Meu último amo, ao esbarrar-se comigo na entrada do mercado, disse, comentando ironicamente sobre minha determinação: “Não endireitará a cauda de um galgo, mesmo que a deixe vinte anos enfiada no cano de um fuzil”. Dei de ombros diante do pessimismo que transcendia do provérbio árabe. Que podia fazer? Na África, morre-se de fome não apenas no deserto, senão também na mais compacta e ruidosa das selvas. Ali onde verdeja a manga ou ri o chimpanzé, quase sempre espreita a flecha venenosa. Na feitoria de Farhaj Bill, eu trabalhava como guarda-livros. O canalha de Farhaj não apenas explorava um proveitoso criadouro de gorilas, como também uma academia de elefantes jovens. Ali os ensinava a trabalhar. O mercador vendia com lucro excelente os elefantes domesticados e gorilas. Dispunha de várias léguas de selva e numerosos rebanhos de escravos. Como estes eram sumamente torpes para dedicá-los à educação do elefante, usava-os nos trabalhos penosos. Geralmente, na feitoria, as negras se dedicavam a amas de gorilas órfãos, pois os

macacos adultos morriam de tristeza ao se verem privados da liberdade. Os gorilas recém-nascidos e órfãos requeriam atenções extraordinárias para alimentá-los, porque com seu olfato delicado percebiam a diferença que havia entre suas mães e as negras. Ademais, as pequenas bestas são terrivelmente ciumentas e não toleram que a escrava amamente seu próprio filho. Como Farhaj Bill Alí não se mostrava sumamente cuidadoso neste particular, uma negra chamada Tula, que havia trazido seu pequeno ao criadouro, sem poder impedir, viu como o gorila a seu cuidado estrangulava o menino. Aquilo originou um drama. O pai da criatura, um negro que trabalhava no embarcadouro da cidade, ao inteirar-se que seu filho havia perecido entre as garras de um gorila, apareceu no criadouro, segurou a besta por uma pata e lhe cortou a cabeça. Satisfeito de sua façanha, apareceu com a cabeça do gorila no porto. Rapidamente, Farhaj Bill Alí foi informado do prejuízo que havia sofrido. Farhaj foi ao embarcadouro. Desde longe, era visível a cabeça do macaco, colocada sobre uma pilha de fardos de algodão. Farhaj apareceu “como a cólera do profeta”, segundo uma testemunha. Não pronunciou palavra alguma, sacou a grande pistola e descarregou na cabeça do marido de Tula todos os projéteis que trazia o carregador. Na minha condição de capataz de descarga de outro comerciante, fui testemunha do crime. O negro acabou praticamente sem cabeça. No

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processo que se seguiu contra Farhaj, este foi absolvido. As testemunhas depuseram falsamente que o árabe teve de se defender de uma agressão do negro. Entre as testemunhas iníquas eu me figurava. Meu patrão, que então estava interessado na compra de marfins de elefantes, havia vinculado seus capitais à empresa de Farhaj e me obrigou a declarar que o negro tentara agredir o árabe com uma grande faca. Durante o processo, a cabeça do gorila decapitado figurou-se como importante peça de convencimento. Além disto, deve-se dizer que, durante a defesa da causa, Farhaj Bill Alí não ficou detido um único dia. Para tanto, é hora que se apresente o principal personagem da história. Farhaj Bill Alí era um canalha nato. Tinha antecedentes e não podia desmenti-los. O avô de sua mãe havia sido enforcado no mastro de uma fragata como traficante de escravos. O pai de Farhaj foi assassinado por um mercador. A mãe de Farhaj se dedicou durante bastante tempo ao contrabando de ébano vivo. Durante uma sesta, um elefante enfurecido a matou com as presas. Farhaj continuou no ofício. Era ele um congolês alto, magro, de nariz ganchudo. Pertencia ao rito muçulmano. Ornamentava sua cabeça um turbante de musselina amarela e ninguém jamais o viu desprovido de seu látego violento. Açoitava por igual a brancos e negros. Certo é que, quando um branco chegava a trabalhar para Farhaj, havia alcançado sua degradação mais completa.

Depois da feitoria era o presídio. Ele conhecia meus antecedentes. Quando me apresentei a Farhaj para pedir-lhe trabalho, ordenou que me entregassem uma garrafa de uísque e me mandou partir, dizendo-me: — Vai e se embriague. Depois, falaremos. Estive três dias bêbado. No quarto, despertou-me uma chuva de pontapés que recebi nas costelas. De pé, junto a mim, frio e irritado, permanecia o contrabandista. Levantei-me dolorido, enquanto o velhaco me perguntava: — Vai dormir até o dia do juízo final? Venha ao armazém. É hora de que ganhe seu pão. Assim me iniciei em sua feitoria. Mas nossas relações não podiam ir bem. Um dia que saímos pelo rio, próximos dos chamados “rápidos de Stanley”, em busca de um carregamento de marfim, depois que havíamos adquirido a mercadoria e, no momento em que os “caçadores” wauas, em suas piráguas, efetuavam ao nosso redor um simulacro de dança náutica, Farhaj quis se apoderar pela violência de uma escrava que eu havia trocado por uma pistola automática. Farhaj alegava que eu não podia adquirir mercadoria de nenhuma espécie enquanto trabalhava sob suas ordens. Alegou que se os caçadores me venderam a escrava era por causa do prestígio de Farhaj. Evidentemente, o negro procedia de má-fé. Eu era um branco, e à minha compra da negra não podia opor-se nenhum direito.

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Então, Farhaj, irritado, respondeume que jamais toleraria que a negra vivesse na feitoria. Eu lhe respondi que, de nenhum modo, pensava em levar minha escrava ao seu covil. Quando pronunciei esta última palavra, a irritação de Farhaj cresceu tanto que, inclinando-se sobre mim, e antes que pudesse adivinhar sua intenção, escarrou-me na cara. Deus dos deuses! Disposto a quebrar-lhe os ossos, joguei-me contra ele, mas Farhaj me lançou tal pontapé na boca do estômago que caí desvanecido no fundo do barco. Quando despertei dos efeitos do golpe, da aguardente de banana e do cansaço, minha escrava havia desaparecido. Encontrava-me desempregado e ignominiosamente surrado. Os negros me olhavam ironicamente. Compreendi que estava perdido se não me reconciliasse com Farhaj Bill Alí. Engolindo meu ódio, lábio sorridente e coração traiçoeiro, dirigi-me à feitoria. O árabe vituperava entre seus carregadores. Mal se dignou a responder minha saudação. Entrei no escritório do armazém como se nada houvesse ocorrido. Desde então, minhas relações com o mercador foram odiosas. Ele me considerava um escravo desprezível; eu um homem a quem minha vingança algum dia faria ranger os dentes. Mas está escrito que os caminhos do perverso não vão muito longe. Poucos dias depois dos

acontecimentos que narrei, morreu na feitoria um gorila adulto que devíamos remeter ao jardim zoológico de Melbourne. Farhaj, que por sua negligência atrasava o envio, mandando todos ao inferno, resolveu enviar em seu lugar um chimpanzé que estava ao cuidado de Tula, a mulher do negro que Farhaj havia assassinado a tiros. Tula estava sumamente afeiçoada ao macaquinho. O chimpanzé a seguia como um moleque travesso segue à sua mãe. Quando a viúva se inteirou que o macaco seria remetido a um jardim de feras, pôs-se a chorar desconsoladamente. Era coisa de ver e não se crer como a negra segurava o chimpanzé e lhe alisava o pelo e o apertava contra seu peito chorando, enquanto o macaco, com expressão compungida, olhava ao redor, acariciando com seus largos dedos rosados e felpudos as úmidas faces de sua mãe adotiva. Farhaj Bill Alí era um homem a quem não enterneciam as lágrimas nem de um milhão de negras. Partiríamos no dia seguinte para a cidade de Stanley. No mesmo caminhão levaríamos o gorila morto, o chimpanzé vivo e a negra. Enviaríamos o chimpanzé para a cidade de Melbourne. Enquanto a negra ficaria junto ao gorila morto num cupinzeiro. A caminho de Stanley, a pouco menos de duas léguas da feitoria, descortinava-se um trecho de selva dizimado pelos cupins, ou formigasbrancas. Ali, no claro terreno queimado pelo sol, levantava-se uma

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espécie de menires de barro de cinco a dez metros de altura. Estes monumentos ocos eram os ninhos dos cupins. Farhaj tinha o costume, quando lhe morria um animal exótico, de vender o esqueleto. Em Stanley, vivia um homem que comprava os esqueletos dos gorilas para remetê-los a Londres. Provavelmente os esqueletos estavam destinados a estabelecimentos educativos. A fim de evitar o processo de decomposição natural, Farhaj, de acordo com os costumes do país, levava o cadáver até o cupinzeiro e, com um porrete, abria um buraco no ninho. Imediatamente, fileiras compactas de cupins cobriam o morto abandonado sobre o buraco. Em poucas horas, o esqueleto ficava perfeitamente limpo. E não deixarei de acrescentar que, até poucos anos, os traficantes de escravos castigavam os negros muito rebeldes untando-os com mel e amarrando-os a um destes formigueiros. Carregamos o gorila morto no velho caminhão do mercador. Também a negra e o chimpanzé. Eu ia junto ao árabe que conduzia ao volante. Quero fazer constar que nós éramos as únicas pessoas que restávamos na feitoria. Todos os empregados haviam se concentrado no Norte para dar caça a um casal de leões que, na noite anterior, havia devorado um boi. Os homens, armados com compridas lanças para caçar elefantes, seguidos por suas mulheres e filhos, haviam adentrado a selva. Saímos com o sol até a cidade de

Stanley. Torvelinhos de borboletas multicoloridas se esparramavam pelo caminho. Ainda que o caminhão deslizasse rapidamente, sabíamos que éramos vigiados por todos os olhos do bosque. De repente, Farhaj, sem apartar os olhos do volante, disse-me: — Busque outro amo. Você não me serve. — Tudo bem — respondi. Atrás de nós se ouvia o pranto da negra abraçada a seu chimpanzé. Eram uns soluços surdos. Por entre as tábuas, distinguia-se a mulher abraçando ternamente a besta, e o macaco, com expressão compungida, olhava ao redor, brilhantes os olhos lastimosos. A negra acariciava a cabeça do chimpanzé, que inspecionava o rosto de sua mãe adotiva com perplexa vivacidade. Não sabia de qual perigo concreto defendê-la. — Cale esta boca! — resmungou o mercador, dirigindo-se à escrava, sem fitá-la, porque, quando dirigia, ele concedia uma importância extraordinária a esta operação. Tratando de fingir submissão, eu lhe disse: — Sinto não ter podido servi-lo. O árabe se limitou a responderme: — Não serve nem para cortar as babuchas de um vagabundo. A negra, abraçada ao pequeno chimpanzé, havia começado a chorar outra vez. Subitamente saímos da sombra verde. Acima, estava o céu. Adiante, no clarão queimado pelo sol, os cupins haviam levantado seus rugosos blocos pardos. No topo

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de alguns destes ninhos gigantes brotavam matas de erva. Com rechino de ferraria detevese o caminhão. Apanhei o porrete e me dirigi a um formigueiro três vezes mais alto do que eu. Parecia um tronco desgastado pela tempestade. A negra carregou o saco com o gorila morto e, trabalhosamente, agoniada, dirigiu-se ao cupinzeiro. Atrás dela, recurvado, olhando-me ressentido, caminhava o pequeno chimpanzé. Levantei o porrete e o desferi contra a base do formigueiro. A argamassa do ninho não cedeu. Farhaj se aproximou, eu levantei o porrete e, antes que ele pudesse evitá-lo, desferi-lhe um vigoroso pontapé na boca do estômago. O mesmo pontapé que ele havia me dado no bote, no dia da festa negra nos “rápidos de Stanley”. Farhaj desfaleceu. Eu disse à escrava: — Traga o gorila. A mulher deixou cair pesadamente a besta morta junto ao traficante de escravos. Sem perder tempo, despojei-o de seu turbante e, com a comprida tira de musselina, amarrei seus pés e mãos. Logo, desferi outra porretada no cupinzeiro, e um pedaço de crosta se afundou definitivamente, revelando o interior plutônico, sulcado de negros canais pelos quais deslizava febrilmente uma esbranquiçada multidão de formigas cinzas. — Ajude-me — gritei para a negra. A escrava compreendeu. Levantando o gorila morto amarrado ao traficante, empurramos os dois corpos

sobre o cupinzeiro. A mulher lançou alguns gritos guturais, o pequeno chimpanzé correu até ela e agarrouse a seu flanco, tomando-lhe a mão. Ela, rindo, com os lábios entreabertos, ficou contemplando a fervorosa fenda do cupinzeiro. Milhares e milhares de formigas raivosas cobriam de um lençol cinza os dois vultos. A djelaba de Farhaj e o corpo peludo do gorila ficavam revestidos de uma crosta movediça e cinzenta que se ajustava às crescentes desigualdades daqueles corpos. A negra e seu filho adotivo observavam aquele final. Apanhei a garrafa de uísque que havia restado sob o assento do caminhão e disse à escrava: — É melhor que vá e não volte mais. A mulher, apressadamente segurando a mão do macaco, dirigiu-se ao bosque. Vi-os por uma última vez enquanto entravam no limite da muralha vegetal. O pequeno chimpanzé, segurando sua mãe, voltava a cabeça para mim como um moleque ressentido. E, oculto agora atrás de uns cactos, eu aguardava o momento de subir no cavalo que havia escondido na noite anterior. Tula afastou alguns galhos e se fundiu no verde. Eu montei o cavalo e retornei à feitoria para reforçar o álibi, enquanto que ali, sob o sol, ficou Farhaj Bill Alí. As formigas o comiam vivo. Extraído de “El Criador de Gorilas” (1941)

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tradução

E que os eunucos bufem
Prólogo de “Los Lanzallamas”
Roberto Arlt
trad.: Henry Alfred Bugalho

Estou contente de ter tido vontade de trabalhar, em condições bastante desfavoráveis, para finalizar uma obra que exigia solidão e recolhimento. Escrevi sempre em redações estrepitosas, acossado pela obrigação da crônica cotidiana. Digo isto para estimular os principiantes na vocação, a quem sempre lhes interessa o procedimento técnico do romancista. Quando se tem o que dizer, escreve-se em qualquer parte. Sobre uma bobina de papel ou

Orgulhosamente, afirmo que escrever, para mim, constitui-se um luxo. Não disponho, como outros escritores, de rendas, tempo ou entorpecedores empregos públicos. Ganhar a vida escrevendo é penoso e áspero. Sobretudo se ao trabalhar se pensa que existe gente a quem a preocupação de buscar distrações a estafa. Passando a outra coisa: dizem de mim que escrevo mal. É possível. De

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Com “Os Lança-chamas”, finaliza o romance “Os Sete Loucos”.

num quarto infernal. Deus ou o Diabo estão junto dele ditando-lhe inefáveis palavras.

qualquer maneira, não teria dificuldade em citar uma gente numerosa que escreve bem e a quem unicamente leem membros corretos de suas famílias. Para ter estilo, são necessárias comodidades, rendas, vida folgada. Mas, via de regra, as pessoas que desfrutam de tais benefícios evitam sempre a moléstia da literatura. Ou a encaram como um excelente procedimento para se destacarem em salões da sociedade. Atrai-me ardentemente a beleza. Quantas vezes desejei trabalhar num romance, que como os de Flaubert, se compusesse de telas panorâmicas...! Mas hoje, entre os ruídos de um edifício social que se desmorona inevitavelmente, não é possível pensar em bordados. O estilo requer tempo, e se eu ouvisse os conselhos de meus camaradas, ocorreria comigo o que sucede a alguns deles: escreveria um livro a cada dez anos, para tomar depois umas férias de uns dez anos por ter demorado dez anos na escrita de cem razoáveis páginas discretas. Por outro lado, outras pessoas se escandalizam com a brutalidade com que expresso certas situações perfeitamente naturais nas relações entre ambos os sexos. Depois, estes mesmos pilares da sociedade me falaram de James Joyce, deixando-me de cabelo em pé. Isto provinha do deleite espiritual que lhes causava certo personagem de Ulisses, um senhor que toma café da manhã aromaticamente aspirando com o nariz, num banheiro, o fedor dos excrementos que defecou um minuto antes. Mas James Joyce é inglês. James Joyce não foi traduzido para o espanhol, e é de bom gosto encher a boca

para falar dele. No dia em que James Joyce estiver ao alcance de todos os bolsos, os pilares da sociedade inventarão um novo ídolo a quem não lerão senão meia dúzia de iniciados. Na realidade, não se sabe o que pensar desta gente. Se são idiotas de verdade, ou se encarnam o papel na tosca comédia que representam em todas as horas de seus dias e suas noites. De qualquer maneira, como primeira providência, resolvi não enviar nenhuma obra minha para a seção de crítica literária dos jornais. Com qual objetivo? Para que um senhor enfático, entre o estorvo de duas chamadas telefônicas, escreva para a satisfação das pessoas honráveis: “O senhor Roberto Artl persiste aferrado a um realismo de péssimo gosto, etc., etc.” Não, não e não. Estes tempos passaram. O futuro é nosso por prepotência de trabalho. Criaremos nossa literatura, não conversando continuamente sobre literatura, senão escrevendo, em orgulhosa solidão, livros que encerrem a violência de um murro no queixo. Sim, um livro depois do outro, e “que os eunucos bufem”. O porvir é triunfalmente nosso. Nós o conquistamos com suor de tinta e ranger de dentes, diante da Underwood, que golpeamos com mãos fatigadas, hora após hora. Às vezes, caía a cabeça de fadiga, mas... Enquanto escrevo estas linhas penso em meu próximo romance. Será intitulado “O Amor Bruxo”. E que o futuro decida. Extraído de “Los Lanzallamas” (1931)

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tradução

Roberto Arlt
trad.: Henry Alfred Bugalho

diálogo de Leiteria
Dias atrás, do outro lado do tabique, em uma leiteria com pretensões de “reservada para famílias”, escutei um diálogo que me grudou ao ouvido, pela malandragem que resultava. Indubitavelmente, o indivíduo era um piadista, porque as coisas que dizia levavam ao riso. Aqui está o que mais ou menos guardei: O Sujeito – Diga-me, eu não lhe jurei amor eterno. Você pode afirmar sob testemunho de escrivão público que lhe jurei amor eterno? Você me jurou amor eterno? Não. E então...? Ela – Nem precisava que lhe jurasse, porque sabe bem que o amo... O Sujeito – Hum... Isto é farinha de outro saco. Agora falemos de amor eterno. Se eu não lhe jurei amor eterno, por que me interroga e se queixa? Ela – Monstro! Eu lhe arrancaria os olhos... O Sujeito – E agora ameaça a minha segurança pessoal. Você se dá conta? Quer privar-me de minha liberdade de arbítrio? Ela – Que disparates está dizendo! O Sujeito – É claro. Você não quer me deixar em paz. Pretende que como um manso cabrito eu passe a vida adorando-a... Ela – Manso cabrito, você? Que safado... desavergonhado até dizer chega... O Sujeito – Não satisfeita em ameaçar minha segurança pessoal, você me injuria com palavras. Ela – Se não me jurou amor eterno, em troca me disse que me amava... O Sujeito – Isto é farinha de outro saco. Uma coisa é amar... e outra coisa, amar sempre. Quando lhe disse que a amava, amavaa. Agora...
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Ela (ameaçadora) – Agora, o quê? O Sujeito (tranquilamente) – Agora não a quero como antes. Ela – E como me quer, então? O Sujeito (com muita doçura) – Eu a quero... bem longe... Ela – Um descarado como você nunca havia conhecido. O Sujeito – Por isto sempre lhe recomendei que viajasse. Viajando se aprende. Mas não vá a viajar de ônibus, nem de bonde. Pegue um navio grande, grandão, e vá... vá longe. Ela (furiosa) – E por que me beijava, então? O Sujeito – Ahã... Isto é farinha de outro saco... Ela – Parece um padeiro. O Sujeito – Eu a beijava, porque se não a beijasse você iria dizer a suas amigas: “Vejam que homem mais sonso; nem me beija”... Ela (bufando) – Eu não sei como não o mato! Então você beijava com vontade de beijar-me? O Sujeito – Não exageremos. Um pouco também me agradava... Mas não tanto quanto você pensa... Ela – Se pode saber, diga-me, onde você foi criado? Porque é um sem-vergonha. Nunca teve. Desconhece o que seja vergonha. O Sujeito – No entanto, sou muito tímido... Já viu quanto rodeio faço antes de mandá-la ao inferno... Não, ao inferno não, querida; não se irrite... é um jeito de falar. Ela (voltando ao assunto) – Da maneira que você me beijava... O Sujeito – Meu Deus! Se tivesse de prestar contas pelos beijos dados, teria de estar no presídio quinhentos anos. Você parece uma norte-americana. Ela – Norte-americana! Por quê? O Sujeito – Porque lá é dar um beijo num cabo de vassoura e dançou! A única indenização tolerada é o casamento... De modo que aos beijos não dê importância.

Agora, se eu a houvesse feito perder sua inocência, seria outra coisa... Ela – Eu não sou inocente. Inocentes são os loucos e os bobos... O Sujeito – Convenhamos que você disse uma verdade grande como uma casa. E logo me repreende por ser injusto. Eu lhe dou a razão, querida. Sim, dou-lha amplamente. Por qual pecado me repreende, então? O que eu tenha lhe dado uns beijos? Ela – Uns beijos? Foram uns quarenta. O Sujeito – Não... Está errada, ou tenho de supor que você não entende de matemática. Digamos que foram dez beijos... E estaremos na conta. Tampouco chegam a dez. Ademais, não valem porque são ósculos paternais... E agora, depois de ficar brava que a tenha beijado, fica brava porque não quero continuar beijando-a. Quem entende vocês mulheres? Ela – Irrito-me porque você quer me abandonar infamemente. O Sujeito – Eu não lhe dei mais do que uns beijos para que você não dissesse a suas amigas que eu era um sujeito sonso. Não tenho outro pecado em minha consciência. Do que você me recrimina? Posso saber? Não gosto de fazer comédias. Você se entedia em sua casa, encontra-se comigo e gruda em mim como se eu fosse seu pai. E eu não quero ser seu pai. Eu não quero ter responsabilidades. Sou um homem virtuoso, tímido e tranquilo. Gosto de abrir a boca como um paspalho diante de um malandro que vende banha de serpente ou panelas inoxidáveis. Você, por outro lado, se esforça para que eu lhe jure amo eterno. E eu não quero jurar-lhe amor eterno nem transitório. Quero andar vagando tranquilamente sozinho, sem uma fulana atrás de mim que conta histórias infantis e manjadas... e, porque me dá um beijo sem graça, você me faz uma demanda como se houvesse me emprestado a juros compostos os tesouros de Rotschild. Ela – Mas você é impossível... O Sujeito – Sou um autêntico homem honrado. Extraído de “Aguasfuertes Porteñas” (1933)

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Roberto Emilio Gofredo Arlt (Buenos Aires, 26 de abril de 1900 – 26 de julho de 1942), conhecido como Roberto Arlt, foi um romancista, contista, dramaturgo, jornalista e inventor argentino. Roberto Arlt se esforçou por criar confusão sobre a data de seu nascimento, encontrando-se assim em suas distintas biografias as datas de 2 ou 7 de abril. Em sua certidão de batismo, e na de nascimento expedida pelo Registro Civil, consta como data de nascimento 26 de abril de 1900. Filho do prussiano Karl Arlt e da austro-húngara Ekatherine Iostraibitzer, um casal de imigrantes pobres recém-chegados à Argentina, sua infância transcorreu no bairro portenho de Flores. No ambiente familiar falava-se alemão; teve duas irmãs que morreram de tuberculose (uma em tenra idade e a outra, Lila, em 1936). A relação com seu pai foi marcada por um tratamento severo e pouco permissivo, ou diretamente sádico. Roberto Arlt sempre se lembrou que, quando era criança, seu pai, diante de qualquer suposta “falta”, dizialhe: “amanhã, quando amanhecer, vou açoitá-lo”, e Roberto Arlt quase não conseguia dormir à noite, pois observava o relógio do quarto, esperando os golpes que, de madrugada, seu pai lhe infligiria. A memória de seu pai aparecerá nos escritos futuros. Foi expulso da escola aos oito anos e se tornou autodidata. Trabalhou num periódico local, foi ajudante de uma biblioteca,

pintor, mecânico, soldador, trabalhador portuário e gerenciou uma fábrica de azulejos. Em 1926, escreve seu primeiro romance, “El Juguete Rabioso”, ao qual intitularia inicialmente “La Vida Puerca”, mas nesta época Arlt era secretário e, depois, amigo de Ricardo Güiraldes, que lhe sugeriu que este título seria demasiadamente grosseiro para os leitores da época. Também trabalhou como jornalista para “El Mundo”, que editaria suas famosas “Aguafuertes”. Morreu de ataque cardíaco em Buenos Aires, em 26 de julho de 1942. Obra Em seus relatos são descritos com naturalidade e humor as baixezas e grandezas de personagens imersos em ambientes indolentes. Deste modo, retrata a Argentina dos imigrantes recém-chegados que tentam inserir-se num meio regido pela desigualdade e opressão. Escreveu contos que entraram para a História da Literatura, como “El jorobadito”, “La luna roja” e “Noche terrible”. Por sua maneira de escrever direta e distante da estética modernista, descreveram-no como “descuidado”, o que o contrasta com a força fundadora que representou a literatura argentina do século XX. Após sua morte aumentou seu reconhecimento e é considerado como o primeiro autor moderno da Argentina. Escritores como Ricardo Piglia, César Aira ou Roberto Bolaño são herdeiros diretos de algumas de suas buscas literárias. Do mesmo modo, Cortázar o

considerou seu mestre. A partir da década de 1930, incursionou no teatro e, na última etapa de sua vida, só escreveu para este gênero. Suas peças estrearam no circuito de teatro independente de Buenos Aires, mais exatamente no Teatro del Pueblo, dirigido por Leónidas Barletta. Rompe com o realismo e aborda os problemas da alienação através do desdobramento da cena. Somente “El fabricante de fantasmas” estreou no circuito comercial, com um grande fracasso. Depois de sua morte, em 1942, “Trescientos millones”, “Saverio el cruel” e “La isla desierta” foram suas obras mais encenadas. É considerado como um precursor do teatro social argentino e de correntes posteriores, como o absurdismo e o existencialismo. Atividade jornalística Em suas crônicas, Arlt descreve a vida cotidiana da capital. Uma seleção destes artigos pode ser encontrada em “Aguafuertes porteñas” (19281933), “Aguafuertes españolas” (escritas durante sua viagem a Espanha e Marrocos, entre 1935 e 1936), “Nuevas aguafuertes”, etc. Além disto, trabalhou principalmente na seção policial, o que o pôs em contato com o mundo marginal que se reflete em “300 Millones”, obra com certa inspiração real. Em 1931, ocorreu-lhe “presenciar” o fuzilamento do militante anarquista Severino di Giovanni.

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Morte e legado Roberto Arlt morreu em 26 de julho de 1942, em Buenos Aires, de uma parada cardíaca. Na cerimônia de despedida, falou o escritor Nicolas Olivari e o poeta Horacio Rega Molina legou-lhe um poema. No dia seguinte, o diário “O Mundo” publicou a última de suas famosas aguafuertes: “El paisaje en las nubes”. O evento não repercutiu nos jornais, porque entre as notícias encontrava-se uma desfeita a Jorge Luis Borges, por ter sido preterido ao Premio Nacional de Literatura. O certo é que a obra de Roberto Arlt foi duramente criticada durante a primeira metade do século XX. Hoje, fundamentais formadores de opinião da literatura argentina contam-nos como sua obra chegou a ser uma referência tão transcendente. Alejandro Castillo, por exemplo, afirma que Arlt significa uma leitura obrigatória para pelo menos as duas últimas gerações de escritores argentinos, pois redefiniu a temática, a linguagem e a relação artista-época. Outros, como Guillermo Saccomanno, colocam-no à altura de Sarmiento, Mansilla, Cortázar e Walsh, alguns dos quais confessaram sua admiração pelo autor. Para o escritor e crítico literário Ricardo Piglia, Arlt inaugurou o romance moderno argentino, com sua nova estilística. Fonte: http://es.wikipedia. org/wiki/Roberto_Arlt

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tradução
http://www.flickr.com/photos/mrmorodo/8174824430/

Escrever Bem
Bons discursos e oradores.1
Como Escrever, o que Escrever,
Joseph Devlin, M.A.2
trad.: Claudiomiro Machado Ferreira 3

Para Falar e

1 - Tradução do capítulo X, Suggestions: How to Write, What to Write, Correct Speaking and Speakers, 10ª Edição, 2004. 2 - Autor do livro How to Speak and Write Correctly, de onde este capítulo foi extraído, disponível em http://www.gutenberg.net. Todos os livros deste site são de Domínio Público. 3 - Servidor público. Publicou a tradução “História da Liberdade de Pensamento” pela Editora da UFPel/RS, escreveu o livro “Figuras & Vícios de Linguagem” e o texto “As Bibliotecas Públicas Municipais e a Administração Pública Direta”, publicado na Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, RDBCI, da UNICAMP, e apresentado no I Seminário de Estudos Literários de Pelotas/RS. Ministra palestras, presta consultoria e assessoria na área de Direitos Autorais e Registro de Obras. Edita livros para terceiros e o blog “Direitos Autorais e Registro de Obras”. E-mail: claudiomiromafe@ig.com.br, Blog: http://direitosautoraiseregistrodeobras.blogspot.com.

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Regras de gramática e retórica são boas quando usadas no lugar certo. Essas diretrizes devem ser aplicadas com o objetivo de expressar pensamentos e ideias de forma adequada. E estas devem ser expressas com sentido e significado claros e de uma maneira agradável e aceitável. Entretanto, não se faz um escritor ou autor com regras prontas e instantâneas. A aplicação de leis naturais é tarefa da velha Mãe Natureza e nada pode tomar seu lugar. Se a Natureza não dotou uma pessoa com determinadas faculdades, elas não surgirão naturalmente. Ela não terá nada para dizer. Se uma pessoa não tem nada para dizer, ela não poderá dizê-lo. O nada não consegue produzir algo. O autor deve ter pensamentos e ideias antes, para depois colocar no papel. E essas vêm naturalmente e pelo meio em que vive e são desenvolvidas e fortalecidas pelo estudo. Há uma antiga citação latina a respeito do poeta que diz: “Poeta nascitur non fit”, a tradução é: “O poeta nasce poeta, não se faz poeta.” Em muitos aspectos, o mesmo se aplica ao autor. Algumas pessoas são muito cultas, tanto quanto um livro permite, mesmo assim não conseguem se expressar de uma forma aceitável. Seu conhecimento é como ouro trancado em um cofre, onde não tem valor para si próprio ou para o resto do mundo. A melhor maneira de aprender a escrever é sentar e escrever, da mesma forma que a melhor maneira de aprender a andar de bicicleta é montar em uma e pedalar. Primeiro, escreva sobre coisas simples, assuntos que são familiares para você. Tente, por exemplo, um ensaio sobre um gato. Diga algo original sobre ele. Não diga: “Ele é muito travesso quando jovem, mas torna-se sério à medida que envelhece.” Isso já foi dito milhares de vezes antes. Diga o que você viu seu gato fazer, como ele caça um rato no sótão e o que fez depois de pegá-lo. Temas familiares sempre são os melhores para quem está começando. Não tente descrever uma cena de um lugar se você nunca esteve lá e não conhece nada do país. Não procure assuntos, há milhares à sua volta. Descreva o que viu ontem – um incêndio, um cavalo em disparada, uma briga
4 - O autor refere-se a “O Peregrino”. (Nota do Tradutor)

de cães na rua – e seja original na sua descrição. Imite os melhores escritores em seu estilo, mas não exatamente em suas palavras. Desista do caminho que já foi trilhado, tente um caminho novo. Faça você mesmo sua trilha. Saiba sobre o que vai escrever e escreva sobre o que você sabe. Esta é uma regra de ouro que você deve seguir. E para conhecer você deve estudar. O mundo é um livro aberto e todos, que nele vivem, devem lê-lo. A Natureza é um grande número de páginas que estão abertas, tanto para o camponês quanto para o nobre. Estude os modos e os tempos da Natureza, porque eles são vastamente mais importantes do que os da Gramática. Livros didáticos podem ser mais fáceis, já que são mais técnicos, mas, no final das contas, são somente teoria e não prática. A maior alegoria escrita em inglês, na verdade em qualquer idioma, foi escrita por um ignorante, suposto ignorante, um funileiro chamado John Bunyan.[4] Shakespeare não foi culto no sentido em que conhecemos o termo nos dias de hoje, no entanto, nenhum homem jamais viveu ou provavelmente viverá que o igualou ou igualará na manifestação do pensamento. Ele simplesmente leu o livro da Natureza e o interpretou do ponto de vista de sua própria e impressionante genialidade. Não pense que é preciso uma formação escolar para ter sucesso como um escritor. Longe disso. Alguns de nossos teóricos são maçantes, ineficientes, monótonos e parasitas na sociedade, não só sem importância para o mundo, mas até para eles mesmos. Se uma pessoa for muito enfeitada, ela pode tornarse sem atrativos para outro ponto de vista. Como regra geral, enfeites servem, mas são de pouca utilidade. Quem conhece de tudo um pouco, acaba por não conhecer nada. Isto pode parecer paradoxal, mas, no entanto, a experiência prova que é verdade. Se você tem poucos recursos, isto não é um problema, mas uma vantagem. A falta de recursos é um incentivo para esforçar-se, não uma desvantagem.[5] É melhor nascer com

5 - A este respeito, ver o filme Pergunte ao pó, de 2006. Roteiro e direção de Robert Towne, com Colin Farrell e Salma Hayek. Baseado no romance de 1939 escrito por John Fante. (Nota do Tradutor)

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um cérebro bom e ativo do que receber as coisas sem ter de fazer esforço. Elas acabam por perder o valor. Se o mundo dependesse de amuletos de sorte, já teria acabado muito tempo atrás. Dos poços da pobreza, das arenas do sofrimento, dos casebres da negligência, dos barracos da obscuridade, dos becos e dos caminhos da opressão, dos sótãos e porões escuros, de intermináveis e penosos trabalhos surgiram homens e mulheres que fizeram história. Eles tornaram o mundo mais esclarecido, melhor, mais elevado e mais sagrado pela sua própria existência nele. Fizeram do mundo um lugar melhor para viver e respeitável para morrer. Homens e mulheres que fizeram isto por iniciativa própria e assim santificaram essa atividade com sua presença. Em muitos casos, fizeram isso dando seu próprio sangue. Falta de recursos é uma graça, não uma desgraça. É uma bênção das mãos de Deus, se aceita de boa vontade. Em vez de atrasar, tem elevado a literatura em todas as épocas. Homero era um mendigo cego que declamava parte de suas poesias por esmolas. O velho e grande Sócrates, o oráculo da sabedoria, enquanto ensinava os jovens de Atenas, muitas vezes ficava sem comer porque não tinha recursos para isso. O divino Dante não era nada mais do que um mendigo, um morador de rua sem casa, sem amigos, que vagava pela Itália, enquanto compunha seus cantos imortais. Milton, que em sua cegueira “viu o lugar onde os anjos têm medo de ir”, era muito pobre quando escreveu sua maior criação, “Paraíso Perdido”. Shakespeare ficava alegre ao cuidar e lavar os cavalos dos frequentadores do Teatro Cavalo Branco por umas poucas moedas para poder comprar comida. Burns criou seus poemas imortais enquanto guiava um arado. O pobre Heinrich Heine, menosprezado e pobre, de seu “colchão cripta”[6], com seu sofrimento, em Paris, adicionou louros literários à coroa de flores da Alemanha, sua terra natal. Na América, Elihu Burritt, enquanto trabalhava na bigorna, estudou e aprendeu vários idiomas e tornou-se o leão literário de sua época e de seu país.

Em outras áreas, ainda tratando de esforço, a pobreza foi um estímulo para a ação. Napoleão nasceu na obscuridade, filho de um simples escrivão em uma atrasada ilha da Córsega. Abraham Lincoln, glória e orgulho da América, o homem que combateu a escravidão, nasceu em uma casa rústica na afastada Ohio. Assim também foi com James A. Garfield. Ulysses Grant veio de um curtume para tornar-se um dos maiores generais do mundo. Thomas A. Edison começou como vendedor de jornal em uma estrada de ferro. Os exemplos dessas pessoas são incentivos para a ação. A pobreza impulsionou-os a ir adiante em vez de fazê-los desistir. Então, se você é pobre, faça das suas circunstâncias um meio para atingir um fim. Seja ambicioso, mantenha um objetivo e aplique toda a sua energia para alcançá-lo. Conta-se uma história de Thomas Carlyle. Do dia em que ele alcançou a mais alta honra que o mundo erudito poderia conferir-lhe, quando foi eleito Reitor da Universidade de Edinburgh. Depois do seu discurso de investidura, caminhando pelos corredores, ele encontrou um estudante aparentemente absorto em seu estudo. Com sua forma áspera, brusca e peculiar o Sábio de Chelsea perguntou ao jovem: — Para quê você está estudando? — Não sei. – Respondeu o jovem. — Você não sabe? – Trovejou Carlyle. — Jovem, você é um tolo. Então ele aplicou uma veemente repreensão: — Meu rapaz, quando tinha a sua idade, eu trabalhava, vivia na pobreza na pequena cidade de Ecclefechan, nos campos de Dumfrieshire, onde, em todo o local, somente o Sacerdote e eu sabíamos ler a Bíblia. Mesmo pobre e ignorante como eu era, na minha imaginação via uma cadeira esperando por mim na Galeria da Fama. Dia e noite, noite e dia eu estudava. Até que cheguei a este cargo hoje de Reitor da Universidade de Edinburgh. Um outro escocês, Robert Buchanan, o famoso escritor, foi de Londres para Glasgow com nada mais do que meia coroa no seu

6 - Em 1848 Heine adoeceu devido à sífilis e passou a sofrer de paralisia, passando os oito últimos anos de sua vida em um colchão, que chamou de “colchão-cripta”, em alemão: Matratzengruft. (Nota do Tradutor)

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bolso. “Aqui vamos nós”, disse ele, “para uma sepultura na Abadia de Westminster”. Ele não era mais do que um estudante, mas sua ambição levou-o e ele tornou-se um dos grandes leões literários da principal cidade do mundo. Henry M. Stanley era um órfão cujo nome real era John Rowlands. Ele foi educado em um orfanato de Welsh, mas era ambicioso, assim ele tornou-se um grande explorador, um grande escritor, vindo a ser membro do Parlamento e Cavaleiro do Rei da Inglaterra. Ambicione ter sucesso e você será bemsucedido. Risque a palavra “fracasso” do seu dicionário. Não admita isso. Lembre-se: “Na batalha ardente da vida/somente vence/ Quem todo dia marcha adiante/e nunca diz: fracassei.”[7] Deixe cada obstáculo que você encontrar ser nada mais do que um degrau no caminho do progresso contínuo para o sucesso. Ainda que circunstâncias desagradáveis cerquem você, decida por superá-las. Bunyan escreveu “O Peregrino” na prisão de Bedford com pedaços de papel de embrulho enquanto passava a pão e água. O infeliz gênio americano, Edgar Allan Poe, escreveu “O Corvo”, a mais maravilhosa concepção e o mais artístico poema de toda a literatura inglesa em uma pequena casa na região de Fordham, Nova Iorque, enquanto estava na mais horrível situação de necessidade. Durante toda sua curta e maravilhosamente brilhante carreira, o pobre Poe nunca ganhou um dólar que pudesse dizer que era seu próprio. Isso, porém, é culpa e desgraça dele próprio e é um mau exemplo. Miguel de Cervantes Saavedra ficou três meses em uma cadeia em Sevilha, na Espanha, por causa de dívidas. Foi na prisão que começou a escrever Dom Quixote. Marco Polo, ao retornar da China, comandou uma esquadra veneziana na guerra contra Gênova. Capturado, passou pelo menos um ano no cárcere. Ditou As Viagens de Marco Polo para um companheiro de cela. Graciliano Ramos ficou nove meses preso, entre 1936

e 1937, por motivos políticos. Mas seu livro Memórias do Cárcere, relatando os dias de cadeia, só seria publicado no ano de sua morte, em 1953. Voltaire, entre 1717 e 1718, passou onze meses na Bastilha, a famosa prisão francesa, por escrever poemas contra a monarquia. Ali, traçou as primeiras linhas do poema épico Henriade.[8]

Voltaire foi um dos expoentes do iluminismo francês e um dos mais populares escritores e intelectuais de seu tempo.

7 - Tradução em versos livres, sem regularidade métrica, do poema Nunca diga Fracassei, autoria desconhecida. (Nota do Tradutor)

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Não pense que é necessário o conhecimento de uma biblioteca inteira para ter sucesso como escritor. Uma grande quantidade de livros só atrapalha. Conheça poucos, mas bons livros. Conheça-os bem e terá tudo o que é necessário. Um grande especialista disse uma vez: “Tenha cuidado com o homem que conhece bem apenas um livro”, o que significa que o homem de um livro é um mestre. Há quem diga que um conhecimento profundo só da Bíblia já fará qualquer pessoa um mestre da literatura. Certo é que a Bíblia e Shakespeare são um resumo da essência do conhecimento.[9] Shakespeare reuniu tudo que veio antes dele. Plantou as sementes para todos que virão depois. Foi o grande oceano intelectual cujas ondas banharam os continentes de todo pensamento. Livros são baratos hoje em dia. Os mais importantes trabalhos, graças às editoras e gráficas, estão ao alcance de todos, e quanto mais você ler, melhor, desde que sejam dignos de ler. Às vezes a pessoa ingere veneno sem saber, como no caso de certos alimentos, e é muito difícil livrar-se de seus efeitos. Então, tenha cuidado com o que você escolhe para ler. Se não puder ter uma grande biblioteca, e como foi dito, isto não é necessário, selecione uns poucos livros dos grandes trabalhos de alguns mestres, assimile-os e compreendaos, de forma que sejam um auxílio em seu aprendizado literário. Seu cérebro é um depósito, não o ocupe com coisas que não vai usar. Ocupe-o com o que é proveitoso. Separe somente o que tem valor e utilidade. O que você pode usar para aquilo que você precisa naquele momento. Como para ser um bom autor é necessário estudar os melhores autores, da mesma forma é necessário estudar os melhores oradores para falar com propriedade e estilo. Para falar corretamente você deve imitar os mestres do discurso falado. Escute os melhores interlocutores e como eles se expressam. Ouça as principais palestras, discursos e sermões. Não é necessário imitar as formas de elocução. É a naturalidade, não a

interpretação, que faz o orador. Não é como um orador se expressa, mas a linguagem e a maneira que ele a usa que devem despertar interesse. Você escuta os oradores da atualidade? Houve mestres no passado, mas suas línguas estão caladas no pó do túmulo e agora só podemos ler o que eles falaram. Você pode, porém, ouvir os vivos. Para muitos de nós, as vozes ainda falam das sepulturas, nas vozes que ouvimos quando inflamadas com a divina essência do discurso. Talvez você tenha se impressionado com o entusiasmo das palavras de Beecher e Talmage. Ambos estimularam o espírito humano e converteram milhares de pessoas a viver o Evangelho. Ambos foram mestres das palavras. Espalharam as belezas da retórica no santuário da eloquência e distribuíram verdadeiros buquês aos seus ouvintes, que ficavam avidamente dominados por Talmage, enriquecendo seus depósitos de informação. Ambos eram eruditos e filósofos, ainda assim passaram longe de sobrepujar Spurgeon, um simples homem do povo com pouca ou nenhuma instrução, no moderno sentido da palavra. Spurgeon, através de seus discursos, atraiu milhares de pessoas a seu Tabernáculo. Protestantes e católicos, turcos, judeus e muçulmanos corriam para ouvir e prestar atenção, hipnotizados por sua linguagem. Assim também foi Dwight L. Moody, o maior evangelista que o mundo jamais conheceu. Moody não era um homem de estudos. Ele começou a vida como vendedor de sapatos em Chicago, mesmo assim, não há homem que tenha existido que tenha atraído tantos ouvintes e os fascinado com o encanto de seu discurso. “Ele tinha um magnetismo pessoal.”, alguns poderão pensar, mas não foi nada disso. Foram as inflamadas palavras que pronunciava para aqueles homens. Era a forma, a maneira, a força com que usava as palavras que juntava e atraía as multidões para escutá-lo. Magnetismo ou aparência pessoal não são fatores essenciais para o sucesso. Na verdade, até na questão física alguns deles eram

8 - DOMINGUES, Luiz Carlos. Zero Hora, Porto Alegre, RS. 26 janeiro 2011. Almanaque Gaúcho, p 66. Escrevendo no Xadrez. Adaptado. (Nota do Tradutor) 9 - Thomas C. Foster em seu trabalho “Para ler literatura como um professor”, diz no título do capítulo 6: “Quando estiver em dúvida, é de Shakespeare.” e no título do capítulo 7, continua: “... ou da Bíblia.”. (Nota do Tradutor)

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limitados. Spurgeon era um homem baixo e gordo, Moody parecia um fazendeiro, Talmage, com sua grande capa, era um dos homens mais desalinhados e só Beecher era aceitável no que diz respeito a comportamento refinado e gentil. A aparência física não é, como muitos pensam, o principal para despertar o interesse de um público. Daniel O’Connell, o tribuno irlandês, era um homem simples, feio, desajeitado, rude, mesmo assim suas palavras atraíam um grande número de pessoas e lhe valeram a hostilidade do Parlamento Britânico. Ele era um mestre da eloquência e soube exatamente o que dizer para cativar aqueles que o ouviam. Em quase todas as ocasiões, são as palavras bem colocadas que contam. Não importa quão refinada a pessoa seja em outros aspectos. Se ela usa palavras de forma errada e se expressa de uma forma inadequada com a construção das frases, irá afastar quem a ouve. Entretanto, quem usa as palavras corretamente e emprega a linguagem em harmonia com as regras e diretrizes do bom discurso, deixa-o sempre simples, atraindo e tendo influência sobre quem o ouve. O bom e correto orador, está sempre pronto a controlar a atenção. As portas estarão abertas para ele e ficarão fechadas para outros não equipados com a capacidade de se expressar. Quem fala bem e é dedicado não fica sem trabalho. É necessário em quase todas as áreas da vida e do conhecimento humano. O mundo precisa de alguém assim a todo instante. Há uma busca constante por bons interlocutores, por aqueles que são capazes de atrair o público e convencer outras pessoas pela força da sua linguagem. Uma

pessoa pode ser capaz, educada, refinada e de caráter irrepreensível, apesar disso, se não for capaz de se expressar, de expor sua opinião de forma agradável e apropriada, ficará para trás, enquanto outra, com muito menos habilidade, terá a oportunidade de tomar a frente se der forma às suas ideias em palavras e falar bem. Pode-se, de novo, dizer que a natureza, não a arte, faz do homem um orador fluente. Em boa parte, isso pode ser verdade, mas é a arte que faz dele um bom orador. É a prática que leva à fluência. É possível para qualquer um tornar-se um bom orador se, além disso, perseverar, se esforçar e tiver cuidado. Correndo o risco de ser repetitivo, um bom aviso deve ser aqui enfatizado: Ouça os melhores oradores e anote cuidadosamente as palavras que mais impressionarem você. Carregue um bloco de notas e escreva as palavras, frases e sentenças que são de alguma forma destacáveis ou fora do uso comum. Se não entender o exato sentido de uma palavra, ouça e procure no dicionário. Há muitas palavras, chamadas sinônimos, que têm quase o mesmo significado, no entanto, quando examinadas, elas expressam diferentes nuanças de sentido e em alguns casos, em vez de estarem relacionadas, são muito divergentes. Tenha cuidado com essas palavras, encontre seu exato sentido e aprenda a usá-las de forma correta. Por fim, esteja aberto às críticas, não se ressinta com elas, especialmente peça que as façam e olhe para elas como amigas que apontam suas deficiências para que você possa saná-las.

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artigo

o papel das revistas literárias
para a descoberta de novos autores
Henry Alfred Bugalho

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Já pensou em publicar suas obras, mas não sabe por onde começar? Está difícil romper o bloqueio das editoras? Deseja ser lido por uma porção de pessoas? Estas são as primeiras motivações para um autor procurar uma revista literária. Todos precisamos começar por algum lugar, e ser revelados através de uma importante revista pode até ajudar a abrir algumas portas. Não é de hoje a relevância das publicações literárias para a descoberta, divulgação e popularização de escritores em início de carreira. Apesar de ser um fenômeno relativamente recente no mercado editorial, que se iniciou no século XIX, mas se consolidou durante o século XX, as revistas literárias rapidamente se converteram numa das maiores forças, tanto no interior da indústria, quanto para movimentos artísticos de vanguarda. Os terrenos mais férteis foram os países anglo-saxônicos e a França, onde surgiram algumas das mais influentes e longevas publicações, mas por toda a Europa se publicou um grande número de revistas literárias.

Com um maior número de livros sendo publicados anualmente, houve, em consequência, uma certa necessidade de cadernos especializados para se dissertar sobre Literatura, bem como para apresentar talentosos autores estreantes. Algumas das revistas mais antigas são a escocesa Edinburgh Review, de 1802, e a americana Philadelphia Literary Magazine de 1803. The North American Review, também de 1803, e a Yale Review, de 1819, são as duas revistas americanas há mais tempo em circulação, ainda em atividade e reconhecidas pelo altíssimo nível literário.

as publicações literárias no reino unido e Estados unidos
As revistas dedicadas a promover ficção e poesia se proliferaram quase simultaneamente à industrialização do mercado do livro.

Capa da The North American Review de março de 1927 (acima), da Yale Review de janeiro de 1926 (acima, à direita) e da Edinburgh Review de 1809 (à direita). Estas estão entre as mais antigas revistas literárias dos Estados Unidos. Algumas delas ainda são publicadas e de grande relevância no cenário literário, apresentando renomados autores norte-americanos e estrangeiros.

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Atualmente, existem centenas de revistas literárias de língua inglesa, a maioria delas recebendo submissões espontâneas de autores estreantes ou em ascensão. Revistas mais tradicionais, como Paris Review, The Kenyon Review, Granta, Tin House, The Massachusetts Review, Glimmer Train, Harper’s Magazine, entre outras, são bastante concorridas e com consideráveis índices de rejeição. Apesar de ainda descobrirem e publicarem autores estreantes, é comum encontrar também escritores já estabelecidos disputando por um espaço nas páginas destas revistas. Nos EUA, uma das mais altas distinções literárias é ter uma obra publicada na revista The New Yorker. Muitos trabalhos de autores famosos já foram recusados por esta revista, como um conto de Scott Fitzgerald enviado (e recusado) em 1936 e que só seria publicado pela revista 66 anos depois, quando este autor já havia se convertido num dos maiores clássicos da literatura americana.

as publicações literárias na França
As publicações francófonas atingiram seu auge no período entre as décadas de 1920 e 1950. Uma das mais influentes é a Nouvelle Revue Française, que teve André Gide entre seus fundadores e, em seus anos de publicação, apresentou obras de Sartre, Paul Bourget, Anatole France e Malraux. Entre 1924 e 1929, La Révolution Surréaliste, encabeçada por André Breton, desenvolveu alguns dos grandes temas do surrealismo. Foi seguida pela Le surréalisme au service de la révolution, que contaria com a contribuição de Paul Éluard, Salvador Dalí, Luis Buñuel e Man Ray, entre outros expoentes do movimento.

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No entanto, talvez a mais relevante publicação literária francesa dos anos 50 tenha sido Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Esta revista não foi apenas uma das principais vitrines literárias de sua época, como também abrigou filósofos, sociólogos e outros teóricos sociais. A orientação esquerdista do periódico, em alguns momentos apoiando claramente o comunismo, foi fonte de fortes críticas e de cisões entre membros da direção editorial. O fim da amizade entre Sartre e Camus foi selado definitivamente após a publicação em Les Temps Modernes de uma crítica negativa a um romance de Camus. A tradição francesa de revistas literárias prosseguiu nas décadas de 60 e 70,

mas, ao contrário do que ocorreu nos EUA, perdeu muito de seu vigor com o passar dos anos.

as publicações literárias no Brasil e em Portugal
Enquanto que nos EUA, Inglaterra e França, várias revistas literárias estiveram associadas a grandes universidades ou importantes editoras, no Brasil e em Portugal, algumas das principais revistas lusófonas foram iniciativas independentes de pequenos grupos de escritores. As mais célebres revistas portuguesas são aquelas que contaram, de algum modo, com a participação ou direção de Fernando Pessoa, como

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A Águia (1910-32), Orpheu (1915) e Presença (1927-40). Elas estão no cerne do Modernismo português e foram responsáveis pela publicação de grandes prosadores e poetas, como Mário de Sá-Carneiro, António Botto e Adolfo Casais Monteiro.

A difusão do Modernismo no país também dependeu principalmente das publicações literárias, como a Klaxon (1922-23), Estética (1924-25), a Revista de Antropofagia (1928-29), entre outras, que apresentaram autores como Oswald e Mário de Andrade, Menotti del Pichia, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Todavia, uma das mais revolucionárias revistas brasileiras do século XX foi Joaquim, encabeçada pelo autor curitibano Dalton Trevisan. Homenageando “todos os joaquins do Brasil”, ou seja, todas as pessoas comuns, este periódico apresentou em suas 21 edições, entre 1946 e 1948, alguns dos mais fundamentais autores modernos do país, como o próprio Trevisan, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, Otto Maria Carpeaux, entre artistas plásticos e teóricos da literatura. Atribui-se o fim abrupto da publicação quando se percebeu o risco de a revista se institucionalizar, perdendo o seu caráter crítico de transformação.

O Brasil importou estas tendências e incontáveis das revistas literárias surgiram ao longo do século XX. Desde cedo, elas se tornaram relevantes canais entre escritores e leitores, tanto que Olavo Bilac chegou a afirmar: “o jornalismo literário é mesmo o único meio do escritor se fazer ler – porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade.”

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Desde então, ainda há um esforço em conceber e publicar revistas literárias tanto em Portugal quanto no Brasil, mas poucos empreendimentos chegam a ter alguma relevância real no cenário literário, apesar de significar muito para seus editores que acreditam no poder transformador da literatura, e também para seus autores, que através destas revistas refinam e divulgam seus trabalhos.

tanto no Brasil e em Portugal quanto em outros países, mas vale recordar-nos de outros casos notórios. Edgar Allan Poe flertou com a imprensa durante toda sua carreira literária. Mesmo que, em seu tempo, ele tenha se consagrado como um crítico literário implacável, Poe também contribuiu com seus poemas e contos para vários periódicos literários, inclusive assumindo cargo de editor e fundando alguns. Charles Dickens editou, durante 20 anos, a revista All The Year Round, onde ele veiculou muitas de suas obras, incluindo vários folhetins. No entanto, mesmo antes de assumir este cargo, ele já havia se popularizado através da publicação em revistas e jornais.

Grandes autores e as revistas literárias
Mesmo nos maiores mercados de livros do mundo, os EUA e a Inglaterra, a publicação através de grandes editoras ainda é um tremendo desafio. Para muitos autores de língua inglesa, o caminho mais curto para o reconhecimento literário é integrar alguma das renomadas revistas literárias destes países. Muitos dos mais relevantes produtores culturais dos últimos dois séculos iniciaram suas carreiras através de revistas literárias, ou, em algum momento, compraram esta ideia, publicando suas obras através de periódicos. Estas revistas foram, em muitos momentos, a linha de frente de inovações estilísticas e temáticas, como a The Dial, que em 1840 apresentou os transcendentalistas, como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, com trabalhos julgados inapropriados pela intelligentsia da época. Já mencionamos vários exemplos,

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O monumental romance “Ulisses”, que trouxe fama e reconhecimento ao irlandês James Joyce, foi publicado de forma seriada na revista The Little Review, em 1922, sob supervisão de Ezra Pound. O primeiro contato de muitos artistas e intelectuais na Europa com a obra de Joyce ocorreu graças a este periódico, que, em seguida, logrou-lhe a publicação em livro de sua obra-prima. Os casos são inumeráveis, porém, um dos mais emblemáticos é o do americano Charles Bukowski, que por mais de uma década enviou material para centenas de pequenas e desconhecidas revistas literárias, bem como para as mais conceituadas e desafiadoras. Todavia, foi através das revistas underground

e alternativas que ele primeiro conquistou seu público, com poemas e contos que eram considerados indecentes demais para os canais mais tradicionais. Bukowski era obcecado pela necessidade de tornar públicos seus trabalhos, como o editor de uma pequena revista literária revela: “[Bukowski] escreveu para mim e pediu-me, por favor, para publicar seus poemas, senão ele cometeria suicídio.” Inclusive, foi o editor de

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uma destas pequenas revistas literárias que apostou as fichas em Bukowski, arriscando-se na publicação de seus romances, contribuindo para torná-lo um dos mais relevantes autores americanos do pós-guerra, com seus temas atuais, dissecando os problemas de uma conturbada América. Tampouco podemos nos esquecer das publicações clandestinas na União Soviética, durante a segunda metade do século XX, o que viria a ser conhecido como samizdat. A censura estatal russa relegou às sombras uma legião de escritores e poetas, que encontraram na samizdat um meio para contornar a opressão. Autores como Soljenítsin, Mikhail Bulgakov, Boris Pasternak e Joseph Brodsky só conseguiriam distribuir suas obras através de cópias datilografadas ou mimiografadas, passadas de mãos em mãos, como se fossem um artigo de contrabando. Esta foi também uma alternativa encontrada para se divulgar também traduções de escritores estrangeiros, cuja publicação estava proibida na URSS.

Acima: Alexander Soljenítsin, prisioneiro nº 282, num gulag soviético. Abaixo: exemplo de uma samizdat russa.

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a Literatura e a internet
A era digital implodiu as bases da imprensa tradicional, principalmente quando os anunciantes, este sustentáculo essencial do periodismo impresso, migraram maciçamente para o ambiente virtual. Revistas e jornais com várias décadas no mercado pararam as prensas, ou foram obrigadas a seguir o fluxo, inclusive algumas efetuaram drasticamente esta transição, abandonando suas versões impressas e publicando somente online. Enquanto que para a imprensa tradicional a era digital se revelou, pelo menos nestas etapas iniciais, como um horrível ponto de ruptura, para uma nova geração de escritores e editores a internet abriu possibilidades inimagináveis alguns anos antes. Principalmente no universo da literatura, houve uma proliferação de novas revistas virtuais, algumas com critérios e qualidade editoriais equivalentes a renomadas revistas impressas, o que está permitindo um renascimento das belas-letras. Alguns teóricos chegam a chamar a era pré-internet de “Idade das Trevas da Imprensa”, como se, neste momento, estivéssemos vislumbrando o Iluminismo para as publicações. Todavia, as revistas e periódicos literários virtuais enfrentam exatamente os mesmos contratempos daquelas impressas. Ainda é um trabalho avassalador chegar aos leitores e reunir um grupo coeso e competente de autores. Ainda

é uma enorme dificuldade torná-las lucrativas, e arrisco-me a dizer que a maioria das revistas literárias é sem-fim lucrativo, ou são iniciativas sem nenhuma espécie de remuneração, produzidas por grupos de editores e autores diletantes. Assim como anteriormente, boa parte das revistas literárias encerra as atividades logo no segundo fascículo. São raríssimos os casos de revistas literárias, impressas ou digitais, que sobrevivem à prova dos anos, e mesmo as que perseveram continuam batendo-se contra dificuldades inevitáveis: o obscurantismo, a falta de recursos, desvios ideológicos ou, o que pode ser o mais daninho para várias delas, a institucionalização e o gregarismo, quando a proposta original de encontrar e promover novos talentos é substituída pela repetição ad nauseam de nomes notórios, justamente aqueles que já aparecem em todas as demais publicações literárias mês após mês. A Revista SAMIZDAT é uma destas publicações que se manifesta no turbilhão e deslumbre da era digital. Quando foi ao ar, em 2008, eram pouquíssimas as publicações digitais do gênero em língua portuguesa, numa época que, olhando em retrospecto, parece quase a pré-História das publicações digitais, quando muitos ainda se questionavam se o digital viria a substituir, um dia, a imprensa. Hoje já não temos mais estas dúvidas, e que uma revista do calibre da SAMIZDAT ainda esteja ativa e dando visibilidade a centenas de autores

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talentosos é um evento para celebrarmos. Além disto, há uma grande diversidade de revistas literárias em português nos vários países lusófonos; novas são criadas e outras encerram suas atividades todos os dias. De qualquer modo, este é um sintoma que escrever (e ler) Literatura ainda é relevante, não se tornou um ofício em desuso, não perdeu completamente sua função social. E as revistas literárias continuarão sendo os degraus inaugurais, a primeira peneira, a primeira glória ou frustração para um escritor em início de carreira. Através das revistas literárias somos lidos e relidos, criticados, elogiados, instigamos o debate e mantemos viva a flama da escrita, desta intrincada configuração de signos através dos quais compartilhamos nossos conceitos, dores e sonhos.

Fontes: http://en.wikipedia.org/wiki/Literary_ magazine http://fr.wikipedia.org/wiki/Revue_ litt%C3%A9raire http://newsfeed.time.com/2012/07/31/ the-new-yorker-publishes-f-scott-fitzgerald-short-story-previously-rejectedin-1936/ http://www.clmp.org/adoption/pdfs/ Carolyn_Kuebler_essay.pdf http://www.dalila.telesveras.nom.br/ palestrasdalilatelesveras4.htm http://ejas.revues.org/9823

Curitibano, formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino”, “O Covil dos Inocentes”, “O Rei dos Judeus”, da novela “O Homem Pós-Histórico”, e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca” e do “Nova York, Bairro a Bairro”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Após uma temporada de um ano e meio em Buenos Aires e outra de oito meses na Itália, está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Henry alfred Bugalho

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Karline da Costa Batista

aS muLHErES dE amado
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teoria Literária

A figura da mulher ativa e insubordinada eclodiu como consequência direta da Revolução Francesa e do Socialismo manifestada, enfaticamente, nos anos 60 e 70, registrandose o crescente interesse literário pelo tema. Entretanto, anterior às décadas feministas, deparamo-nos com a presença desta mulhersujeito em obras de Jorge Amado, assinalando um claríssimo manifesto precursor. Compete salientar que, ao revelar a existência dessa cultura de afirmação feminina atrelada ao texto amadiano, menciona-se, unicamente, enquanto processo em construção, cabendo por mérito do autor o ato de propiciar às mulheres o legítimo papel de sujeito, ao protagonizar cenas do cotidiano. Resgatando-as em meio ao contexto social, histórico e cultural, vislumbra-se a apresentação realista de uma condição já existente, a transpor para a Literatura um ser despido de todo simbolismo, dando-lhe voz e autonomia. Dessa forma, Amado escreve sobre a menina que se transforma em mulher, adentrando na vida adulta a partir do instinto de sobrevivência. Dialoga trazendo o eu-feminino destituído de caricaturas, concebendo um perfil psicológico complexo e instigante. Reveste a personagem de significados, afastando-a positivamente da concepção da mulherobjeto. No romance Capitães de Areia, por exemplo, Dora, ao enfrentar os problemas e dificuldades, amadurece precocemente e quando atinge esta posição assume, automaticamente, o papel de mãe, de chefe do lar e de esposa, concentrando no seu íntimo um modo de agir voltado para o coletivo. Esta mulher independente e madura vive em função do outro, fomentando o princípio

social da coletividade que tanto impregna as personagens amadianas. Constantemente nos deparamos com uma representatividade humanizada, uma substância feminina a buscar a segurança no matrimônio e a satisfazer os seus desejos carnais, simplesmente porque entende o ser humano como indivíduo complexo, isto, simbolicamente demonstrado na relação bígama de Dona Flor. Amado trata a vida a dois recorrendo à situacionalidade e ao linguajar contemporâneo, numa encenação tendente ao realismo machadiano em estilo sui generis. Retrata desse modo, a mulher que ama e é amada, que concebe o casamento enquanto relação afetiva e que se indispõe quando algo não lhe agrada. Em Mar Morto, a insubmissão de Lívia perante a realidade torna-a senhora do seu destino, agente de transformação, apesar de subordinada às leis do acaso. Nutre a esperança amparada à força de vontade, num misto de mito e realidade coerentes a sua consciência coletiva. Não se mantém alheia às inadaptações do meio em que vive e procura assumir o comando da sua vida num movimento contínuo, porque sabe das fatalidades e dos lutadores. Importa mencionar ainda que as mulheres de Amado emprestam ao enredo uma perspectiva moderna, materna, profissional, sensual e feminina permeada de conceitos ideológicos que surgirão somente no século XXI. Dentre outros aspectos, impressiona a leitura pelo posicionamento de gêneros orientado pelo princípio da igualdade, denotando a atualidade de sua escrita.

(11/03/1988) poetisa e professora natural de Aracati (CE). Graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará e pós-graduanda em Psicopedagogia pela Faculdade do Vale do Jaguaribe. Premiada em diversos concursos nacionais com classificações significativas e menção honrosa. Participa das antologias “Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus – Homenagem ao Centenário de nascimento de Jorge Amado (19122012)”, “III Prêmio Literário Legislativo Caçapava Do Sul”, “Versos Soprados pelos Ventos de Outono” e “Prêmio Cecílio Barros Pessoa De Poesia” e na revista “Um Conto”. Também colabora no jornal “Humanitas” e edita o blog Fênix http://anancara.blogspot.com.br

Karline da Costa Batista

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Crônica
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todos dizem eu te amo
Acredito que a maior dificuldade do ser humano é amar. Amar somente. Não necessariamente amar algo ou alguém. Certamente um objeto definido é mais “fácil”, por assim dizer, de amar. Mas amar, verbo indefinido, é dificílimo. Ainda assim, vejo “eu te amo” por todo lado. Todo mundo diz, escreve e canta, e sem a menor propriedade, “eu te amo” com uma facilidade absurda. Mas, à menor dificuldade, não ama mais. Ao menor esforço, sai correndo. Desiste. E então arranja outro “amor” tão rápido quanto um trem-bala numa estação em cima do gelo. “Te amo, desde que estejas perto”. “Te amo, desde que sejas meu”. “Te amo, desde que sejas como quero”. Se amar é condicional, não se ama. Se amar é um corolário lógico da facilidade, não se ama. E em meio a essa dificuldade verdadeira de amar, estão por aí os “eu te amo” enfeitando os cartões de aniversário, as mensagens nos perfis

Mariana Collares

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das redes sociais e os bilhetes de namorados. Conheço pessoas que, para cada par romântico, dizem um estrondoso “eu te amo” e riscam a sua liturgia com muitas coisas lindas para exaltar esse sentimento. E então, num dia qualquer, deixam de amar para, automaticamente, amar outro e então outro. E isso me cheira a sarcasmo num mundo em que falta amor e sobra discórdia. Mal conheci e aquela vontade de ver, de sentir e estar perto e o “eu te amo” chega a ser um rito formal e até esperado. E se não disser? Está fora do jogo do sentimento – esse que requer a todo o tempo a reciprocidade em qualquer ato e na mesma medida.

respeito. Amar um filho é biológico. Amar um pai é antológico. Amar um estranho é esperar demais. E ainda assim, nas raras vezes em que, verdadeiramente, lidamos com esse sentimento, ainda que indiretamente ou mesmo de longe e aos poucos, colocamos limites a ele. E fico pensando se amor tem limite – temporal, espacial, filosófico ou metafísico – o que me revela que, se há limite, não pode ser amor – ao menos o tal amor de que falam os tratados idílicos.

De qualquer forma, e premissas à parte, amor é coisa intangível. E, nesse mundo, parece ceder a um pacto antenupcial. Ou mesmo à rotina, ao E então pensa-se que, quem não diz, tempo, às ilusões. não ama, ou ama pouco, ou não quer Amor humano, então, vira utopia: o suficiente. um norte impossível, inusitado. Mas amor, esse sentir que mais que verbo é filosofia e síndrome, este está em desuso, justamente porque de usado não tem nem teve nada. Não sabemos nada, ou pouco sabemos a Devíamos repensar os “eu te amo” deixados a esmo pelos caminhos…

Escritora gaúcha, com formação em Direito pela Universidade Federal de Pelotas, desde cedo mostrou vocação para a literatura. Filha de intelectuais de esquerda, foi muito estimulada à leitura, tendo escrito poemas, contos, crônicas e peças teatrais desde a infância. Em 2005, iniciou a publicar seus trabalhos no blog Devaneios Literários (www.devaneiosliterarios.blogspot.com), ativo até hoje. Em 2010, lançou seu primeiro livro: Devaneios Literários, crônicas, pela Editora Bookess. Em 2011, foi convidada a participar como colunista da revista Benfazeja (www.benfazeja.com), com a qual permanece trabalhando. Em 2012, passa a integrar o portal Discorra (www.discorra.com), como cronista, com a colunafalada “Eu Sou Uma Outra”. Neste mesmo ano, é selecionada para integrar a equipe do site Mundo Mundano (www.mundomundano.com.br), como colunista, e inicia a participação no programa CV Explica, da Rádio Elétrica (www.radioeletrica.com), com a coluna “Eu Sou Uma Outra”, no ar às quintas-feiras, às 21 horas. Possui inúmeros textos publicados na mídia eletrônica, especialmente em sites de literatura ou variedades. Atualmente, prepara seu próximo livro de crônicas – Mirante – e trabalha em seu primeiro romance, ainda sem título.

mariana Collares

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Crônica

maxaquenina
Bem na palma da cidade de Maputo, agarra-se um subúrbio, uma selva cercada a cal e cimento; selva onde o cifrão traz crinas e jubas, e goza de um eterno reinado. Maxaquene, como quem diz, familiares, ergue-se na assombração da vida humana; entre madeira e zinco, ecoa o rugir de um clamor desnutrido pela desigualdade socializada da cidade. A vida corre asfaltada de raiva e tinha, e vai latindo de lamentações, como um canino ao anoitecer, da convivência social; estendida à rápida metamorfose, ladra ao ser suburbano, aliás, sub-humano. “Elas” são sempre o sacrifício da família, o garante dos demais membros verem o amanhã; ver a mesa pelo menos uma vez ao dia. Ter filhas, ser chulo, é algo indiferente. Elas exibem-se no tropel da vida e alimentam a cidade de gemidos, gozos e delírios outrora ocultos à gente da mesma idade. Era, é, e não se sabe até quando será assim a vida, nas maxaqueninas. Essas atletas à mercê da fome, num jogo em que quem ganha o presente perde o futuro e muito mais. Mas o que fazer quando a única saída é só para a boca do tubarão? As bonitas vivem pela beleza, as feias procuram outro argumento para encarar a vida, não tendo outro, estas presas à fome e nada. A Maxaquenina eleita aqui, como protagonista, era reunida de uma pigmentação preconceituosa do ser (mulata), quanto mais for clara a pele, maior é o escuro do futuro. É essa a regra e a alma do subúrbio, regra não-negra, desalmada na vastidão nãobranca. A Maxaquenina julgava-se na sentença máxima de pertencer a cor; uma rainha (des) coroada da cor doada violentamente. Só compatibilizava-se pelas mesmas epidermes místicas, as igualitárias oriundas de um passado comum, de mercadores árabes a colónias

Japone Arijuane

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europeias; que a convivência suburbana esbarra ao preço do pão. Para ela, tudo valia a pena; era a cor o seu preferencial e companheirismo ideal. Vinha sempre uma alma nua, ancorada em mares mistos e místicos; independentemente da faina, labutava neste desconceituoso ofício da vida. É triste quando o que achamos que nos é igual de outro, o outro não valoriza. A convivência suburbana é uma aventura sem viagem alguma; um tempo sem compromisso com a hora. A Maxaquenina era, talvez pelo esforço via-se quase, linda; trazia um fogo guardado, que o mesmo afugentava os negrinhos e aquecia os homens de cor; em vivências mal concebidas. Pois, a maldade sentir-se-á triste pela tal comparação; ela passava a vida nas piores das formas que uma moça do seu porte e cor poderia passar. Engraçado, dava tudo para manter aquela aparência barata, aquela aparência aparentada dela mesma. A preocupação era a aparência, não a essência. Uma vez, no dia em que, não se sabendo por que razão, conseguiu somas consideráveis de cifrão. Pegou e gastou, em o quê? Roupa e cabelo. Dizia a mãe: – Você nem cama têm, mal come; porque tchunabeibes e tizagens?, coisas caras... minha filha, tenha juízo. Juízo era realmente algo que nem a binóculos a filha contemplaria. A maxaquenina pensava rápido e curto; um pensar típico e suburbano. Aliás, um pensar que qualquer um pode, desde que pense em pensar. Pensar para logo vencer!

A Escola é pensar para esperar; esperar é paciência, no subúrbio paciência traz derrota, e escola serve para ter boneca; sonho de toda menina; ela, não querendo ser excepção até na quinta classe foi suficiente para concretizar o sonho, suficiente para deixar de sonhar e ter o seu boneco; um bebé malnutrido, aliás sem nutrição; mas feliz para ele, pois seus companheiros foram anulados enquanto feto, outros jogados vivos na sarjeta. – Que sobreviva assim que estás, quem sabe no futuro... os outros nem presente tiveram. Dizia a Maxaquenina, quando o bebé fazia o que bem sabia fazer: chorar, chorar e chorar. O tempo dá azo aos seus ensinamentos tardiamente. Quanto ao exemplo desses exercícios fazia-lhe frente, virou frango para os mesmos negrinhos: assado, cozido, por vezes cru. Hoje, os sem cor, os sem alma não a erotizam, ninguém por nada, mergulha neste (mar) morto que um dia foi praia quente e os coloridos navegaram-na descamisados; uma praia virgem e exploraram-na todo atractivo erótico. Hoje paisagem, somente onde o tempo faz delas histórias de uma viagem estática. Uma viagem que traz ao mundo da pequena selva (Maxaquene) dentro da já suburbana cidade de Maputo, mais sentido ao ciclo vicioso; mais índice a obscenidade.

De nome oficial Japone Matias Lourdel Caetano Agostinho, no mundo literário conhecido por Japone Arijuane. Membro activo e fundador do Movimento Literário Kuphaluxa, e da Revista Literatas onde é colunista. Além de Poeta é Contista, Romancista e Ensaísta. Zambeziano. Formando em Ciências de Comunicação, habilidades em Publicidade & Marketing, na Escola Superior de Jornalismo. “Escrevo desde que aprendi a escrever; mas, mesmo assim continuo aprendendo”.

Japone arijuane

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Poesia

a autocomimimiseração

das pragas urbanas
o que me torna uma praga urbana infecta e em conflito permanente com o que minhas intenções aparentam é que me assalta com violência a vontade de estar à vontade para dizer de um jeito compreensível um simples olá sinto muito a sua falta adoraria poder estar aí agora obrigado por tudo não se preocupe muito durma bem meu bem seu V mas é tão difícil a minha garganta expulsa asas nojentas batendo de dentro para fora a coisa mais estúpida para se dizer e não me esforço quando as pulgas saltam quando as asas batem minha autocomimimimiserável índole entra no cíclico e fatal processo de autoflagelação autoculposa um draaaaaaaaaaama sem tamanho e pouco convincente de ser o último a receber uma boa dose de vem cá tchê já chega eu até posso pedir desculpas e dizer que não era nada disso não era mas aí a merda já estava feita e poucas criaturas da natureza entendem melhor de merda que as imprestáveis pragas urbanas mas eu peço se ainda posso e se ainda há tempo de dizer digo olá sinto muito a sua falta adoraria poder estar aí agora obrigado por tudo não se preocupe muito durma bem meu bem seu

Volmar Camargo Junior

V
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Poesia

a constelação de leão
Volmar Camargo Junior

fico sempre com uma impressão estranha de que tento andar mais depressa que o tempo e cada vez que me sinto agarrado por ele tenho ganas de correr mais e deixar tudo mas ele me pega a pele os pelos e faz brotar em mim um peso que desconheço que é meu quando sinto algo além de mim para além do tempo e que me encanta em cada coisa pequenina em cada espaço de seu olhar muito peculiar sobre as coisas que espalha em mim umas gotículas de si percebo que é de tempo que eu sou feito e ela essa visão etérea feita da rara luz de uma lua dourada foge de mim porque eu sou denso e pesado de tempo e ela é leve e diáfana como as linhas que unem as nove estrelas da constelação de leão

Volmar Camargo Junior
V nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não prati., cante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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E agora, José?
Tatiana Alves
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Poesia

E agora, José? A utopia acabou A geleira derreteu A massa encruou O bolo queimou E agora, José? O polo inverteu O calendário findou A voz se calou O sorriso murchou Mas, José, você é poeta E sabe que Se a rima falhou Se a estrofe quebrou Se o poema morreu Sempre haverá garatujas e esboços A provar que, com poesia, O mundo nunca se acaba.

tatiana alves
Poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui nove livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

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Palavra de Pandora
Anna Apolinário

Concubina francesa n’alcova Vandalizando devires e sensações Eu sou a mulher vestida com o sol de Salvador Dalí Meu ventre sangra rosas espessas de lirismo Tenho o retrato da Beleza Repousando numa caixa de mescalina E Pandora parindo belezas sutis A terceira passagem do crepúsculo se aproxima Minhas veias já foram abertas, e derramam punhados de flores e foices Minha verve deflagra o gozo E a palavra ecoa pelos céus convulsos Sinfonia gutural que desenha vórtices no Absurdo.
Imagem: Nostalgique, de Gaston Bussière

anna apolinário
26 anos, poetisa, pedagoga e mãe da Sophia. Participou de várias antologias e revistas literárias nacionais. Publicou “Solfejo de Eros” (2010, poesia, Câmara Brasileira de Jovens Escritores – Rio de Janeiro – RJ).

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mater mare
Helena Barbagelata

Poesia

Declamou do ventre ensombrado e concêntrico, um ardor silente em palavras tenras de limos e espuma, rasgando-se densa até aflorar o rio do pranto único; como Anfitrite, chorou o amor perdido e mortal no consolo das águas lentas do sonho, e veio beijar rasoira de lágrimas os pés doirados da areia; estendeu-se de branco na névoa solta, esvoaçando do alto ébria papoula ao sabor do levante; pousou a mágoa em coroas rubras de anémonas, multiplicando nas margens castelos que a noite levasse; rasgou a música nos dedos pequenos e assombrados como pétalas e tormentas; foi berço e semente de onde tudo começa.
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em fuste até às aves, desenhada

Helena Barbagelata
Nasceu em Lisboa a 6 de Dezembro de 1991. É uma artista multidisciplinar, dedicada às artes plásticas, música e letras. Participa em revistas e antologias literárias em Portugal, Brasil e Itália, tendo sido laureada em diversos concursos internacionais. Venceu o “Prémio Poesia e Ficção de Almada 2012”, com a obra “O Mar de Todos os Deuses”, atribuído por unanimidade pela Associação Portuguesa de Escritores, Sociedade de Língua Portuguesa e pela Câmara Municipal de Almada.

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Também nesta edição, textos de
anna apolinário Cinthia Kriemler Cláudio B. Carlos Edweine Loureiro Erik K. Weber Fabio Guimarães Bensoussan Fábio Wanderson de Sousa Fernando domith Helena Barbagelata Henry alfred Bugalho Homero Gomes Japone arijuane Joaquim Bispo Karline da Costa Batista Luís Felipe Sprotte maria de Fátima Santos mariana Collares otávio martins rodrigo domit Silvana michele ramos tatiana alves Volmar Camargo Júnior zulmar Lopes
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