FEV/MAR/ABR - 2013 - Nº 61

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Índice
POLÍTICA

Expediente

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ENERGIA

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Think Tank - A Revista da Livre-Iniciativa

Ano XVI - no 61 - Fev/Mar/Abr - 2013 CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Arthur Chagas Diniz Elcio Anibal de Lucca Alencar Burti Paulo de Barros Stewart Jorge Gerdau Johannpeter Jorge Wilson Simeira Jacob José Humberto Pires de Araújo Raul Leite Luna Ricardo Yazbek Roberto Konder Bornhausen Romeu Chap Chap CONSELHO EDITORIAL Arthur Chagas Diniz - presidente Alberto Oliva Aloísio Teixeira Garcia Antonio Carlos Porto Gonçalves Bruno Medeiros Cândido José Mendes Prunes Jorge Wilson Simeira Jacob José Luiz Carvalho Luiz Alberto Machado Octavio Amorim Neto Roberto Fendt Rodrigo Constantino William Ling Og Francisco Leme e Ubiratan Borges de Macedo (in memoriam) DIRETOR / EDITOR Arthur Chagas Diniz JORNALISTA RESPONSÁVEL Ligia Filgueiras RG nº 16158 DRT - Rio, RJ

NORDESTE DÁ SINAIS DE MUDANÇA PARA 2014
Alexandre Aleluia

O INTERVENCIONISMO NO PETRÓLEO E NA ENERGIA ELÉTRICA
Adriano Pires

TRANSPORTES

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MATÉRIA

DE

CAPA

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A LOGÍSTICA DE TRANSPORTES NO BRASIL
Jovelino Pires

A QUESTÃO DA SEGURANÇA
Jacy de Souza Mendonça

ESPECIAL

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DESTAQUE

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O BOM, O MAU E O FEIO
Uma visão liberal do fato

POR QUE ME TORNEI UM LIBERAL CONSERVADOR
Mario Guerreiro

PUBLICIDADE / ASSINATURAS: E-mail: il-rj@dh.com.br Tel: (21) 2539-1115 - r. 221 FOTOS DE CAPA E MIOLO Capa: Wikimedia (foto de Mateus Pereira) Miolo: Wikipedia e Photodisk.

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PRIVATIZE JÁ
por João Mauad

BANCO DE I DÉIAS é uma publicação do Instituto Liberal. É permitida a reprodução de seu conteúdo editorial, desde que mencionada a fonte.

Leitores
Sua opinião é da maior importância para nós. Escreva para Banco de Idéias. Encerrado o caso do Mensalão, julgados e condenados 25 réus, fica patenteado que a Suprema Corte do Brasil não pode ser integrada por pessoas pouco preparadas e testadas na vida pública e/ou privada. Se precisássemos de outras evidências, a participação de Dias Toffoli no plenário da Suprema Corte mostrou-se deplorável. Não apenas porque sua função ali era a de tentar absolver os réus da ação nº 470, mas porque suas intervenções foram pobres e não enriqueceram o debate. Levandowski, defensor dos mensaleiros, tentou defender réus políticos como Dirceu e Genoíno. Outra questão relevante é a aposentadoria compulsória aos 65 anos de idade. Na medida em que a vida média aumenta, pessoas com 65 anos podem ainda estar no ápice de suas carreiras. Wanda Loreiro Silvestre Rondonópolis – MT Prezada Leitora, A elevação do período de vida média e, além disso, a preservação da capacidade mental têm evoluído simetricamente. O limite etário ao exercício do cargo de ministro do STF não é mais compatível com a aposentadoria forçada dos magistrados aos 65 anos, no auge da sua capacidade intelectual. Na verdade, a solução norte-americana de preservar os juízes da Suprema Corte de Justiça até sua inabilitação parece-me muito mais salutar que o modelo brasileiro e, mais do que isso, transforma os juízes em cidadãos com um patrimônio intelectual e cultural a serviço da Nação, e não dos seus governos. O Editor
Envie as suas mensagens para a rua Rua Maria Eugênia, 167 Humaitá - Rio de Janeiro - RJ 22261-080, ou ilrj@gbl.com.br.

Editorial
unca houve, no Brasil, um julgamento tão importante quanto o referente à ação nº 470, popularmente conhecida como o “Mensalão”. Foram julgados 34 réus e 25 deles condenados, desde penas pecuniárias até penas de prisão. O julgamento, que a juízo de um dos réus, Delúbio Soares, deveria ser posteriormente qualificado como “piada de salão”, tornou-se um divisor de águas no País. O ex-presidente Lula que, na verdade, era o grande réu, acabou sendo condenado, moralmente, através de cada uma das sentenças distribuídas aos seus mais diletos e diretos colaboradores, como são os casos de José Dirceu e José Genoíno, ambos condenados à prisão em regime fechado. Assistido, diariamente, por milhões de telespectadores, o julgamento fez surgir no Brasil uma estrela de primeira grandeza: o Relator do processo, o Ministro Joaquim Barbosa, que terminou o julgamento como presidente do STF. A expectativa de Lula de que, por serem indicações suas, vários juízes votariam pela absolvição dos réus, mostrouse incorreta, e até mesmo sua pressão sobre alguns dos magistrados – em especial Gilmar Mendes – mostrou-se mais do que ineficiente,

N

amoral. As penas impostas a antigos líderes, como José Dirceu, verdadeiramente surpreenderam a Nação, já de há muito acostumada a enxergar a prisão como um lugar destinado exclusivamente a pobres e desprotegidos. Um novo Brasil certamente surgirá do julgamento do Mensalão. Nós esperamos que seja um Brasil menos corruptível e corrupto, onde valores como integridade e justiça sejam vistos como atributos, e corrupção e ineficiência não encontrem guarida na cabeça dos brasileiros. Esperamos que o baixo índice de qualificação educacional da população, em sua grande maioria, não seja um fator impeditivo para a difusão de valores como moral, eficiência e ética. Algumas interrupções no fornecimento de força e luz à população se chocam com a postura que o governo petista assumiu quando ocorreram durante o governo de FHC. Enquanto se prenuncia escassez de oferta, a Presidente da República antecipa reduções nos preços aos consumidores industriais e residenciais. Dilma, socialista, cujas convicções não cedem a evidências contrárias, em plena crise energética, pretende baixar as contas de luz. Durmase com um barulho desses.
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Política

Aos 33 anos ACM Neto se elegeu prefeito de Salvador, a terceira maior cidade do Brasil.

Nordeste dá sinais de mudança para 2014
Alexandre Aleluia
Empresário e vencedor do Prêmio Donald Stewart Jr.

cenário que precedeu as eleições municipais de 2012 no Nordeste indicava a tendência de reprodução do alinhamento das forças estaduais com o Lulopetismo. O discurso de candidaturas aliadas ao poder federal fora bem-sucedido em toda a região, no pleito de 2010. Os altos índices de aprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva haviam sustentado o êxito da estratégia naquela ocasião. A permanência da avaliação positiva da presidente Dilma

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Rousseff, então, induziu os observadores políticos a imaginarem que, em 2012, se repetiriam os resultados forjados na mesma matriz do alinhamento político, em detrimento de propostas e de candidatos. Seriam ungidos ao poder municipal aqueles que tivessem as bênçãos de Lula e Dilma. Especulava-se que o caminho das pedras para alcançar o êxito eleitoral estava revelado. O cenário favorecia o alinhamento ao governo federal e, assim, foram pautadas as principais cam-

panhas do Lulopetismo no Nordeste. As estrelas a brilhar eram as de Lula e Dilma. O importante era tirar fotos e fazer gravações de programas para rádio e tevê com os “imbatíveis” cabos eleitorais. A premissa era estabelecer uma campanha de cunho emocional. Ao eleitor não cabia inferir sobre as propostas e a capacidade de execução do candidato. Com a exploração da boa fé, sem o apelo da razão no discurso, buscou-se o convencimento pela característica do

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Política
candidato de pertencer a um alinhamento político que supostamente lhe garantiria um bom governo. A questão, segundo o Lulopetismo, não gravitava sobre quais propostas poderiam ser desenvolvidas, mas quem poderia desenvolvê-las melhor, considerando uma suposta capacidade financeira decorrente do alinhamento entre os governos federal, estadual e municipal. Desprovido de razão, o eleitor seria emocionalmente atraído para um candidato de pouca expressão política e sem histórico significativo unicamente pelo fato de compor o “time de Lula” e, ainda, ser um suposto “homem do povo”. Desse imaginário surgiram campanhas políticas que agrediram valores fundamentais da nação. A proposta pretendeu a destruição de princípios republicanos. Afinal, por que uma cidade, uma capital, somente poderia desenvolver projetos e propostas a partir de um ideário tirano e unipartidarista? Pelo propósito Lulopetista, a administração pública se afastaria do princípio constitucional da impessoalidade para atender a disputas comezinhas de poder, com o governo municipal sendo confundido e equivocadamente concebido como uma ala de um partido. Imaginou-se que o jogo estava jogado antes de começar. A expectativa era de que as eleições de 2012 ratificariam os resultados de 2010, com grande possibilidade de crescimento do Lulopetismo na Região Nordeste. As metas principais eram conquistar Salvador e Maceió e preservar o PT no comando de Recife, Aracaju e Fortaleza. Porém, os resultados das urnas não corresponderam aos planos do Lulopetismo. O apadrinhamento da dupla de próceres

A jogada de marketing político de “time de Lula e Dilma” foi ineficaz em algumas capitais nordestinas.

petistas não garantiu o sucesso de candidaturas aliadas nordestinas. A estratégia fracassou. A exploração do conceito de luta de classes pelos candidatos do Lulopetismo, tentando impingir aos adversários o descompromisso com o desenvolvimento social, por serem representantes dos ricos, e colocando-se na condição de legítimos e únicos defensores dos pobres, sob a bandeira do programa social Bolsa Família, caiu por terra. Tais dogmas eleitorais foram desafiados pela racionalidade e derrotados. Equivocadamente o Lulopetismo acreditou no resgate de ideários marxistas como proposta de sucesso para uma campanha eleitoral nos idos de 2012. Não havia, entretanto, respaldo para a prevalência dessa antirracionalidade. O retrocesso decorrente do discurso petista – a reencarnação de um discurso ultrapassado e baseado na ausência de razão – foi derrotado pela racionalidade humana, um

claro avanço no debate político do Nordeste. A jogada de marketing político de “time de Lula e Dilma” foi ineficaz em capitais nordestinas, como Salvador e Aracaju, e em cidades de médio porte, a exemplo de Feira de Santana (BA), Mossoró (RN) e Petrolina (PE). Na capital baiana e em Feira de Santana o expresidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve presente pessoalmente em comícios. Na cidade do interior baiano o candidato adversário José Ronaldo, do Democratas, venceu as eleições no primeiro turno. Em Salvador, o pleito disputado em dois turnos contou com a presença de Lula duas vezes e ainda da presidente Dilma Rousseff, que pediram votos para o aliado petista Nélson Pelegrino e tiveram suas imagens associadas ao aliado em todas as peças de campanha. Apesar de ter sido vítima de uma intensa chantagem eleitoral durante toda a campanha, feita pelo adversário e ratificada por

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Política
Lula e Dilma em suas passagens por Salvador, de que não teria condição de gerir a cidade sem o apoio dos governos federal e estadual, sob o comando do PT, o democrata ACM Neto venceu a eleição para prefeito com diferença de quase 100 mil votos. Salvador, com a vitória de ACM Neto, é um exemplo emblemático de que a razão prevaleceu na hora de o eleitor decidir o voto em 2012, no Nordeste. Houve a percepção de que o alinhamento político das instâncias de poderes federal, estadual e municipal não dá resultado espontâneo, senão acompanhado de um bom programa de governo e de um candidato capaz de executá-lo. Ficou evidente a mensagem do eleitor nordestino de que é dele o direito de escolher qual o melhor governante, cabendo aos candidatos entenderem que o desejo de governar deve ser inspirado na vontade popular e em benefício do progresso social. A ordem foi dada: “Eu escolho e vocês governam para a sociedade”. A sabedoria popular suplantou o feeling dos marqueteiros políticos do PT. Na hora de decidir quais seriam os governantes municipais, entendeu-se a necessidade de ter, no comando das cidades, pessoas com capacidade de liderança, independência, iniciativa e poder de inovar. Não meros carimbadores de decisões partidárias tomadas a distância, baseadas em quimeras socialistas. Os resultados das eleições municipais de 2012 no Nordeste extrapolaram as fronteiras regionais. Anunciaram para o País a consolidação da liderança do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Embora seu partido integre a base do Lulopetismo, não lhe faltou independência para divergir do PT nas disputas de Recife e Fortaleza, onde os candidatos do PSB acabaram derrotando os petistas. Não se curvando à vontade de Lula e Dilma, Eduardo Campos emergiu de 2012 como um dos players para a sucessão presidencial de 2014. Embora ainda bastante remota, não é descartada a possibilidade de até mesmo ele iniciar o processo de construção de uma candidatura independente em confronto ao poder dominante. em 2014 poderá não ser uma pacífica continuação do passado. Pesam, na dificuldade de avaliação do cenário, alguns ingredientes, como as duas vitórias obtidas pelo Democratas em Salvador e Aracaju. Depois do ataque especulativo, patrocinado pelo Palácio do Planalto, por intermédio do PSD, o Democratas, como a Fênix, ressurgiu das cinzas com expressiva participação nas eleições municipais do Nordeste. A presença democrata nas prefeituras das capitais nordestinas será maior do que a do PT a partir de 2013. Aos petistas restou apenas João Pessoa (PB), enquanto Salvador e Aracaju se tornaram capitais democratas. No cômputo geral das eleições municipais das nove capitais nordestinas, Democratas, PSDB (Teresina e Maceió) e PSB (Fortaleza e Recife) se igualaram em vitórias, cada legenda ficou com duas prefeituras. O PT ficou ao lado do nanico PTC, que conquistou São Luiz (MA). A sigla petista que, nos últimos pleitos presidenciais, teve no Nordeste um forte reduto, onde, em 2010, a então candidata Dilma Rousseff impôs uma diferença sobre José Serra (PSDB) de quase 11 milhões de votos, perdeu espaço para mostrar serviço à região. O processo eleitoral de 2012 evidenciou um projeto de renovação dos quadros políticos do Nordeste que não se restringiu apenas à consolidação do governador Eduardo Campos como líder nacional. Inscreveu-se na lista dos novos líderes nordestinos o deputado federal ACM Neto (DEM/BA). Aos 33 anos, depois de eleito para três legislaturas na Câmara Federal, com atuação de destaque e considerado um dos mais atuantes parlamentares do Congresso Nacional, ACM Neto se elegeu prefeito da terceira

“Equivocadamente o Lulopetismo
acreditou no resgate de ideários marxistas como proposta de sucesso para uma campanha eleitoral nos idos de 2012. Não havia, entretanto, respaldo para a prevalência dessa antirracionalidade.

O mais provável, no entanto, é que o cacife político conquistado nas eleições de 2012 lhe abra as portas do Palácio do Planalto na condição de candidato a vicepresidente numa chapa com Dilma Rousseff, desalojando o PMDB que, por muito tempo, esteve confortavelmente nessa posição. Entretanto, não se despreza uma aliança de Eduardo Campos com a oposição para formação de uma chapa fora do espectro Lulopetista. O fato é que o resultado das eleições de 2012 no Nordeste emitiu sinais claros de que o pleito

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Política

maior cidade do Brasil. A vitória em Salvador, numa aliança que reuniu Democratas, PSDB, PV, PTN e PV, foi indiscutivelmente a mais significativa da oposição no País. Com pouco mais de um terço do tempo de rádio e tevê do adversário Nelson Pelegrino e sob uma intensa campanha chantagista, baseada na exploração do alinhamento político do candidato petista com o governador Jaques Wagner e com a presidente Dilma, ambos do PT, Neto reverteu as desvantagens, apresentando propostas reais para os problemas da cidade. A estratégia evitou o desvio do debate para subjetivismos e irracionalismos eleitorais. Para desconstruir o discurso do oponente, ACM Neto expôs os péssimos resultados para a Bahia dos seis anos de gestão de Jaques Wagner (PT) e 10 anos do Lulopetismo no plano federal. O estado que protagonizava o desenvolvimento do Nordeste por ser a maior economia, no período de domínio petista, só vem

perdendo posições e oportunidades. O reflexo disso é um crescimento abaixo da média regional e graves problemas, como o aumento exponencial da violência no estado. É inegável ser ACM Neto um líder promissor. O desafio de administrar e recuperar Salvador, que, nos últimos anos, sofreu bastante com a desastrosa gestão do prefeito João Henrique (PP) e o total descaso do governador Jaques Wagner, lhe servirá de cabedal para voos políticos muito mais altos. Embora não seja candidato em 2014, ele passa a ser um importante player estadual e nacional no próximo pleito. Os partidos de oposição, principalmente Democratas e PSDB, devem trabalhar num projeto alternativo para o futuro do Brasil. É notório o esgotamento do modelo atual, que estatiza por remendo a economia nacional e procura administrá-la por meio de decretos e financiamentos públicos muitas vezes

Eduardo Campos (PSB): liderança consolidada depois das eleições de 2012.

discutíveis. Não cabe à presidente da república escolher os vencedores e aliados da economia brasileira, já que o país pretende se inserir entre os principais do mundo. A apreensão toma conta dos observadores internacionais, diante do irreversível caminho da Venezuela a seguir a trilha do populismo de estado, com restrição da liberdade, intervencionismo econômico e controle da imprensa. Na mesma toada, a passos largos, parece avançar a Argentina, onde os mesmos ingredientes de estatização, limitações de liberdade e subordinação da imprensa fazem ferver o caldeirão político da presidente Cristina Kirschner. No Brasil atual pairam desconfianças de que haja um pedido de inscrição nesse clube. Basta ver o processo de destruição da Petrobras e da Eletrobras, a intervenção branca nos bancos e a administração casuística do comércio exterior. Além disso, já apresenta sinais de exaustão o modelo de dinamização econômica baseado no consumo, estimulado de forma artificial por meio de redução de impostos pontuais e expansão de crédito. O resultado desfavorável ao Lulopetismo nas eleições municipais de 2012 no Nordeste, região que tem concentrado a sua maior força eleitoral nos últimos pleitos, não deixa dúvida que a insatisfação é geral. Novos tempos se anunciam para 2014 e, pelo jeito, onde o Brasil nasceu será o local em que a mudança vai se consolidar, numa demonstração de que a evolução não virá do candidato ou do partido A ou B, mas sim da sofisticação do debate político. Portanto, os acontecimentos eleitorais nordestinos de 2012 marcaram uma inflexão evolutiva na política regional.

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Energia

O intervencionismo no petróleo e na energia elétrica
Adriano Pires
Diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE).

m 2012 o Governo Dilma deu continuidade ao aumento do intervencionismo na economia, iniciado no governo Lula, utilizando-se das empresas públicas, em particular da Petrobras e da Eletrobras, como instrumento de política econômica, notadamente com o objetivo de controle da inflação. O aprofundamento da inter-

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venção do governo em setores de infraestrutura vai na contramão da reconhecida necessidade de se atrair investimentores qualificados para o Brasil. O próprio Governo tem dado declarações em que reconhece a importância do capital privado para a resolução dos gargalos de infraestrutura. No entanto, as mudanças no arcabouço regulatório têm sido

feitas de forma improvisada e atrapalhada, criando incertezas e, com isso, aumentando o risco Brasil. O setor de petróleo no Brasil já completa cinco anos de instabilidade regulatória e intervenção governamental na Petrobras. Essa era começou com o anúncio da descoberta do pré-sal e se consolidou com a

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Energia
aprovação do novo marco regulatório em 2010. A nomeação de Graça Foster para a presidência da empresa, em substituição a Sérgio Gabrielli, trouxe um alento, dado que o discurso da nova presidente, bem como a nomeação da nova Diretoria Executiva, parecia colocar a gestão da Petrobras no rumo da eficiência e da lucratividade. No entanto, o governo, como acionista majoritário, continuou sua política de intervenção na administração da estatal, cujo exemplo é a manutenção da política de defasagem de preços dos combustíveis. A limitação na geração de caixa e deficiências de gestão causaram à Petrobras o primeiro prejuízo, em mais de 10 anos, de R$ 1,35 bilhão no segundo trimestre de 2012. Até outubro de 2012 a Petrobras acumulou um saldo líquido negativo de aproximadamente R$ 14,6 bilhões em custo de oportunidade de vender gasolina e diesel com defasagem de preços, e o prejuízo efetivo com importação de combustíveis foi de R$ 3,9 bilhões. Outra consequência da adoção de uma política que não tem foco na eficiência operacional é a estagnação da produção de petróleo desde 2009 e a possível queda em 2012, em relação a 2011. A produção nacional média de petróleo em 2012, até setembro, registrou 2,151 milhões de barris por dia (b/d), uma queda de 1,0% em relação à produção média observada em 2011, de 2,172 milhões de b/d no mesmo período. Segundo dados da Petrobras, que representa cerca de 92% da produção de petróleo no país, no mês de outubro a média diária foi de 1,940 milhão de b/d, e, no ano, a média diária de produção foi de 1,975 milhão de b/d, uma queda de 1,8% em relação ao período anterior. Caso não eleve sua produção no final do ano, a Petrobras corre risco de não alcançar a meta estabelecida pela administração, de estabilidade de produção (+/-2%). A estagnação se deve à constante paralisação para manutenção e atrasos na entrada em operação de novas unidades de produção; a produção da Petrobras só voltará a crescer a partir de 2015, caso a empresa consiga recuperar a A falta de licitações de blocos exploratórios desde 2008 tem reduzido drasticamente a área de exploração doméstica. Segundo a ANP no final de 2011 o país , contava com 320 mil km² de área exploratória concedida, e em 2012 a área foi reduzida para 105 mil km²; caso não ocorra nenhuma rodada de licitação, ao final de 2013 a área sob exploração será de 98 mil km². A falta de licitação afasta os investimentos das principais empresas petrolíferas do país e prejudica, principalmente, as empresas privadas nacionais, que ficam impedidas de diversificar e aumentar seu portfólio. Para as grandes empresas estrangeiras, a ausência de leilões fez com que os investimentos tomassem a direção dos EUA e de países da África. Em 2012 estima-se que as chamadas majors do petróleo tenham investido algo em torno de US$100 bilhões, e, desse montante, praticamente nada no Brasil. O governo anunciou, para maio de 2013, a 11ª Rodada de Concessão e, para novembro de 2013, a primeira rodada de licitação no Pré-Sal sob o regime de partilha. Para a 11ª Rodada de Concessão está prevista a licitação de blocos espalhados por nove bacias, com destaque para a região conhecida como Margem Equatorial Brasileira. No entanto, a falta de consenso para a distribuição dos royalties ainda é um risco para a realização das rodadas em 2013. Em novembro, o Congresso aprovou novas regras de distribuição dos royalties do petróleo. Porém, a presidente Dilma Rousseff vetou parcialmente o projeto e introduziu novas regras, através de uma Medida Provisória, abrindo espaço para nova disputa no Legislativo, seja por apreciação do veto ou alteração da MP Não . se sabe, ainda, se o Congresso

Para as grandes empresas estrangeiras, a ausência de leilões fez com que os investimentos tomassem a direção dos EUA e de países da África. Em 2012 estima-se que as chamadas majors do petróleo tenham investido algo em torno de US$100 bilhões, e, desse montante, praticamente nada no Brasil.

sua eficiência de produção na Bacia de Campos e o cronograma de entrega de equipamentos seja cumprido. É bom lembrar que desde o início do governo Lula a Petrobras só tem cumprido 70% do Capex contido nos seus Planos de Negócios. No caso da Bacia de Campos a Petrobras lançou o PROEF, um programa que visa recuperar a produtividade dessa Bacia. Se a produção de janeiro da bacia de Campos fosse mantida por todo o ano, a receita adicional da empresa seria de R$ 9,3 bilhões.

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Energia
contas de energia foi prolongada pelo próprio governo, dois anos atrás, no caso da RGR para outros usos que não aquele que precipuamente deveria ser atendido, o pagamento de ativos não amortizados. A solução modifica a relação entre o Poder Concedente e o Concessionário. Na verdade está havendo uma reversão dos ativos antes do prazo de concessão, sem remunerar os direitos remanescentes e sem indenizar corretamente os valores não amortizados. A contratação sem concorrência das mesmas empresas, antes concessionárias, como operadoras, percebendo um valor atribuído sem aferição por concurso público, não é prerrogativa prevista em lei. A solução cooptou a agência reguladora, forçando-a à abdicação de seu papel de mediadora entre o que querem o governo, as empresas e o consumidor, para se colocar vassala da decisão autoritária. A solução foi interpretada como uma intervenção do governo, indicando o início de uma estatização velada do setor no médio prazo. A capacidade de investimentos das empresas será totalmente zerada no momento em que se pretende investir no setor mais de R$ 200 bilhões. Esta mudança ocorre num momento em que o setor está enfrentando interrupções no fornecimento de energia elétrica, inicialmente tratadas como fatos pontuais, que se tornaram frequentes, provavelmente por conta de falhas na manutenção, na transmissão e na distribuição de energia elétrica. A redução da capacidade de investimento das empresas, provocada pela redução nas tarifas, aumenta o risco de diminuição da confiabilidade do sistema e da qualidade do serviço, o que certamente se refletirá no aumento da frequência dos “apagões”.

O Congresso aprovou novas regras de distribuição dos royalties do petróleo. A presidente Dilma Rousseff vetou parcialmente o projeto.

apreciará a matéria este ano. Além dos leilões, o mercado aguarda se haverá a possibilidade de alterar a exigência de a Petrobras possuir 30% de todos os blocos do pré-sal que venham a ser leiloados e o monopólio na operação desses blocos. Se o governo quiser, mesmo, recolocar o país na rota dos grandes investimentos petrolíferos seria também necessário rever a atual política de conteúdo local, bem como pôr fim ao congelamento dos preços da gasolina e do diesel. A exemplo do que já vinha acontecendo no setor de petróleo, o Governo aumentou a sua intervenção no setor elétrico com a publicação da MP 579 no início de setembro. A MP 579, cujo objetivo principal era a redução das tarifas, de maneira autoritária e unilateral propôs a prorrogação das concessões oferecendo uma indenização e tarifas bem abaixo das esperadas pelo mercado. Isso provocou uma perda enorme nos valores das empresas, levando a
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um extraordinário prejuízo para os acionistas minoritários. As empresas estaduais Cesp, Cemig, Copel e Celesc não aderiram à proposta do governo, e a resolução da questão pode parar na justiça, o que só leva ao aumento do risco regulatório. O governo esqueceu o pacto federativo e ignorou os Estados para estruturar sua solução. O governo se “fechou” entre quatro paredes e lançou ao conhecimento das empresas interessadas uma solução através de uma Medida Provisória que define por si que o tema é urgente, com prazos para implementação inexequíveis e sem que houvesse o pleno conhecimento do que estava sendo proposto. Depois de mais de cinco anos de indefinições foi apresentada uma solução para ser aceita em dias, sem qualquer negociação com as empresas afetadas. A solução abrangeu somente encargos, cuja aplicação sobre as

Transportes

A logística de transportes no Brasil
Jovelino Pires
Professor, Mestre em ADM, Coordenador da Câmara de Logística da Associação de Comércio Exterior do Brasil – AEB.

s vésperas do amanhã de 2013, o Governo acaba de baixar a MP 595, em 6 de dezembro de 2012, a poucos dias, portanto, das festas de fim de ano, do recesso nos três poderes da Nação, das férias escolares e, na sequência, do carnaval. Isso em nossa amada terra do Brasil. Lógico que o pensamento econômico, a ação governamental não pode se dar ao luxo de passar meses no remanso de férias (coletivas) das famílias ou de festejos natalinos. Todo dia é dia de trabalho. De qualquer forma, coincidência ou não, as associações privadas estavam desar-

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ticuladas, com seus encontros festivos, isso após praticamente dois anos de intensas idas e vindas em reuniões e troca de informações com as áreas superiores do Governo Central e onde o marco da história estava em torno da Lei nº 8.630, de 1993, conhecida como a Lei da Modernização dos Portos. Foram muitas as idas e vindas a Brasília, mas cada volta de um grupo de empresários da Capital surpreendia suas associações e empresas com a frase: “Não sei como vai ser a reforma. Ouve-se, fala-se, argumenta-se, mas nada indica o “norte” das decisões. Assim, chegou finalmente aos

empresários de inúmeras companhias, mesmo aqueles que estavam no “métier” dos estudos, o informe oficial de suas missões, então colaborando com o Governo. Informe solene no Palácio do Planalto!!! Todos sabemos dos custos elevados de nossa logística no deslocamento das cargas pelo “continente” Brasil. Comparar o custo de colocar uma carga em um porto público com a mesma operação no exterior é assustador. A soja que nos diga.... A burocracia, a par dos tributos em cascata, a falta de boas vias terrestres, nossas rodovias classificadas 60% abaixo do bom, sem

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Transportes

frota mercante, plano de ferrovias se arrastando, quadro comparativo entre os países do BRIC assustador para nós em termos de investimentos em transportes. Tínhamos o seguinte quadro em 2010: Investimentos em Transportes/PIB – 2010 Brasil = 0,36% Rússia = 7,00% Índia = 8,00%

China = 10,06% Este quadro sombrio estaria a ser mudado por esforço da VALEC – Engenharia, Construções e Ferrovias, nova empresa do Governo Federal, da centralização (talvez) dos transportes em órgãos específicos com a SEP – Secretaria Especial dos Portos, vinculada à Presidência da República. Enquanto isso, e até agora, os planos se sucedem e temos, por exemplo: - Plano Nacional de Logística de Transportes – a cargo do MT Ministério dos Transportes - Plano Nacional de Logística Portuária – a cargo da SEP Secretaria Especial dos Portos - Plano Nacional de Logística Integrada – a cargo da VALEC Disso tudo nota-se um esforço para organizar a casa, hoje com número próximo a 40 ministérios, dentre eles o Ministério do Planejamento e Orçamento e Gestão e o Ministério do Desen1

volvimento, Indústria e Comércio Exterior. Temos o IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que estuda a economia, e muitos outros órgãos oficiais envolvidos na eficiência do País, em áreas que influenciam diretamente os transportes e o comércio exterior brasileiro. Enfim, quase um exército de decisores, todos baixando normas e regulamentos. E os planos, se realizam? A história está cheia de exemplos de quanto o ordenamento da estrutura governamental sofre com a multiplicação de órgãos decisores e a disputa de poder entre eles. A história brasileira, em especial, está cheia de exemplos, alguns que ordenaram mudanças radicais. O registro do que ocorreu nos idos de 1963 foi feito por Pires e Gaspar1, ao escreverem em livro que em 1963 era criado, pelo então Ministro Extraordinário Amaral Peixoto, ao amparo do Decreto nº 52.256/63, o Sistema Federal de Planejamento e a Secretaria Executiva, diretamente subordinada à Presidência e com comissões nos ministérios. O então Ministro Extraordinário da Coordenação do Planejamento Nacional, Celso Furtado, quando da criação do citado novo órgão, teve suas funções esvaziadas, e o Plano Trienal deu no que deu. Mirava-se o crescimento do PIB em 7%, e o PIB, em 1963, evoluiu apenas 1,6%, foi um “pibinho”. A população crescia praticamente o dobro disso. Plano para funcionar tem que ser cumprido. Independentemente de lembranças afeitas a conotações partidárias ou de concepção política, é bom ler-se o excelente trabalho de Alexia

Salomão2, sob o título “Grandes Números”, onde reforça a posição de que “as reformas estruturais do Estado e da economia são meios de gerar crescimento”. É possível, no artigo citado, concluir o sucesso do Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), de 1964, com os militares simplesmente fazendo reformas e cumprindo cronogramas e obras, muitos vindos da obra pretendida por Celso Furtado e não realizados até 1963. No PAEG, projetos que eram bons foram implementados, o que no governo anterior a disputa política tinha sepultado. Nossa economia depende do comércio exterior brasileiro, mas embora sejamos a 7ª economia mundial temos menos de 2% do comércio internacional. Estamos na rabeira, ainda que o brasileiro seja competitivo na porta da fábrica ou na porteira da fazenda. O instinto animal do empresário brasileiro está à flor da pele, mas enjaulado pela infraestrutura de logística do País. Portos? Todos os portos públicos, por regra, são presididos por indicação de Brasília, e seus dirigentes têm que aceitar a nomeação de seus dirigentes subalternos, indicados pelos partidos da base do Governo, em outras palavras, cargos politizados. E onde ficam os técnicos? As disputas internas, como a necessidade de apresentar trabalho, caso não tenha um rumo, vão representar algo semelhante à Torre de Babel, onde o certo é ter que pagar mais um imposto, como no caso da Portaria SPU 24, que criou um tributo a mais pelo uso do “espelho d’água”. O Governo Central baixou a MP

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PIRES, Jovelino & GASPAR, Walter – Elementos de Administração. Uma Abordagem Brasileira. Ed. Forense Universitária – Rio, 1988. 225 págs. (esgotado). SALOMÃO, Alexia – Revista Exame. Edição Especial de Aniversário, nº 24. Ed. Abril, SP 05.12.2012. ,

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Transportes
595, de 06.12.2012, na busca de soluções para a regulamentação dos portos públicos e privados. Dois anos de estudos e, no fim, algo perto do caos, muitos questionamentos e possíveis demandas judiciais entre os concessionários e os autorizados à exploração dos portos, quanto à movimentação de suas cargas e as de terceiros. De tudo que virá a acontecer sobre a MP 595, com mais de 640 proposições de emendas, em curtíssimo prazo (apenas alguns dias), creio que o problema maior será o afastamento dos principais interessados no sucesso dos portos públicos, ou seja, os concessionários, os trabalhadores, os usuários, os governos estaduais e municipais, da gestão corporativa dos portos. A impossibilidade de a sociedade ter voz nas decisões estratégicas por meio do Conselho de Autoridades Portuárias – CAP, de cada porto, é um desastre, um retrocesso, com a centralização no Governo Central, em Brasília. É bom ressaltar que a medida provisória em questão atinge frontalmente a Lei n° 8.630, chamada de Lei de Modernização dos Portos, um marco nas questões portuárias brasileiras e sujeita a avaliações decorrentes de diversos pensamentos econômicos e sociais. Entre os avanços então ocorridos na Legislação Portuária, como o advento da Lei n° 8.630/ 93, tivemos a implantação da Governança Corporativa, através da criação dos Conselhos de Autoridades Portuárias, objeto dos arts. 30, 31 e 32 daquela Lei, nos Portos Organizados. Como se viu, constituía-se um modelo de gestão corporativa, no porto organizado ou no âmbito de cada concessão, de forma, portanto, que tanto o poder público como os operadores portuários, os trabalhadores e os usuários dos serviços portuários e afins desenvolvessem de forma colegiada a racionalização e a otimização do uso das instalações portuárias, fomentando a ação industrial e comercial do Porto, zelando pelo cumprimento das normas de defesa de concorrência (art. 30 § 1° - IV, V, VI, VII). É bom lembrar ainda que o art. 30 § 2 da Lei n° 8.630/ 93 dispõe que: organizado e os interesses da sociedade, esta representada nos quatro Blocos dos CAPs (Poder Público; Operadores Portuários, Classes de Trabalhadores e Usuários). As demandas e discussões ocorridas nos CAPs, ao longo desses anos, demonstram a pujança desse verdadeiro instrumento de controle da sociedade sob a gestão portuária, e não exatamente o contrário. É preciso que a sociedade esteja dentro de cada porto organizado, com o fim de opinar, promover, zelar, homologar, aprovar os planos e ações da Autoridade Portuária (art. 13 da MP 595/ 12). Afastar esses stakeholders do processo de acompanhamento, posicionamento e controle é encerrar a gestão corporativa, cujo resultado em todos os universos de gestão confirma o avanço da moderna prática administrativa. Não vai ser desta vez, afastando os principais agentes da sociedade da gestão portuária, como ocorreu no Governo de Jango, em 1963, com a perda da função dos órgãos técnicos, ignorando e sepultando contribuições como o Plano Trienal de Celso Furtado, que os portos irão deslanchar e o Brasil conquistar a competitividade que os empresários e trabalhadores demonstram. Certo é que os trabalhadores, neste momento de festas, estão se arregimentando para uma greve contra a MP 595. As associações de classe se levantam da ceia de Natal e juntam as mãos com os trabalhadores não por uma greve, mas para a união em torno do que é a nossa principal missão: servir nosso País com inteligência, com a presença daqueles que constroem a riqueza e a democracia que desejamos para o nosso Brasil.

De tudo que virá a acontecer sobre a MP 595, com mais de 640 proposições de emendas, em curtíssimo prazo (apenas alguns dias), creio que o problema maior será o afastamento dos principais interessados no sucesso dos portos públicos, ou seja, os concessionários, os trabalhadores, os usuários, os governos estaduais e municipais, da gestão corporativa dos portos.

“§ 2 - compete, ainda, ao Conselho de Autoridade Portuária estabelecer normas visando o aumento da produtividade e a redução dos custos portuários, especialmente as de contêineres e do sistema roll-on-rolloff” (Lei n° 8.630/ 93, ainda no art. 30 § 2) Evitava-se, assim, o divórcio entre a “propriedade” e a gestão, pela presença dos stakeholders, nos CAPs, atentos ao eventual afastamento entre o objeto porto

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Matéria de Capa

A questão da segurança
Jacy de Souza Mendonça
Livre-docente de Filosofia do Direito

s grupos humanos se estruturam a partir da finalidade buscada por seus integrantes; esta pode ter natureza religiosa, ética, estética, científica, esportiva ou econômica. A sociedade política e a família são grupos que têm por objetivo proporcionar a seus membros a satisfação de todas essas finalidades, o que exige de seus líderes o desempenho de determinadas funções.

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A História registra que, através dos tempos, no cumprimento de sua finalidade ocupava-se o Estado essencialmente com a segurança externa – proteção contra vizinhos e inimigos. Mas os administradores políticos tiveram sempre que enfrentar os perturbadores da ordem interna. Vale dizer: a segurança interna foi também, desde sempre, preocupação das comunidades políticas.

Para isso, elas tiveram que montar atividades policiais e judiciárias, exércitos e diplomacia. Além da segurança, o Estado moderno assumiu aos poucos algumas finalidades adicionais. Em primeiro lugar, por iniciativa do príncipe prussiano Otto von Bismark, consagrada, após a I Grande Guerra pela Constituição de Weimar, foram as relativas à educação, saúde e previdência;

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Matéria de Capa
mais tarde, após a II Grande Guerra, agora sob influência dos regimes socialistas, outras que dizem respeito à ciência e à tecnologia, à cultura e à arte, ao esporte e ao lazer; mais recentemente, também atividades econômicas. A função correta do Estado sobre esses temas deveria ser apenas legislar (tarefa do Poder Legislativo), fiscalizar seu cumprimento (tarefa do Poder Executivo) e punir as infrações a elas (tarefa do Poder Judiciário); executá-las não lhe cabe. O Brasil, seguindo a tendência internacional, assumiu gradativamente as finalidades secundárias como se essenciais fossem, o que foi consagrado na Constituição de 1988. Mas nenhum Estado no mundo teve ou tem condições de desempenhar a contento essas funções acessórias. Só por razões políticas não as rejeita; cumpreas na medida do possível, ou seja, sempre de modo insatisfatório. Todos os fins adicionais assumidos pelo Estado moderno correspondem a inegáveis necessidades dos cidadãos e, por isso, parecem caracterizar finalidades essenciais dele. Não é verdade. Exatamente por serem importantes para o cidadão não deveriam ser confiadas ao Estado, que é e sempre foi mau administrador. É o que ocorre com a saúde, a educação e a previdência, hoje caóticas; ele nunca cuidou também da ciência e da tecnologia, da cultura e da arte, do esporte e do lazer – usou-as apenas como marketing político. Em especial, foi sempre um péssimo administrador econômico. Correto seria que apenas supervisionasse essas atividades, desempenhadas pela iniciativa privada. Como pretendeu absorvê-las e como não seja possível desempenhá-las a contento, tornou-se necessário priorizar algumas e desprezar outras. Embora correto fosse priorizar a segurança, os administradores preferiram quase sempre a atividade econômica, relegando exatamente a segurança interna ao último lugar. Esbanjam-se recursos tributários em investimentos econômicos fadados à corrupção e ao fracasso; finge-se atuação no mento em segurança não dá lucro e é até antipático aos eleitores. A primeira consequência do descuido com a segurança interna aparece no Poder Legislativo: escassas são as leis sobre a matéria, totalmente defasadas da situação social, mas tratar delas é desagradável; por isso, preocupam-se os legisladores muito mais em proteger a pessoa do delinquente enquanto réu ou presidiário, o que é mais simpático. As decisões judiciais relativas a infrações à ordem interna são extremamente brandas e demoradas. Culpa-se por isso o Poder Judiciário, ignorando-se que os juízes só podem aplicar penas previstas em lei e da forma nela prevista, esquecendo-se de que eles são obrigados a seguir a rotina processual também prevista em leis editadas sob a falsa preocupação de proteger o réu, e não percebendo que de toda e qualquer decisão de um juiz cabe ao menos um recurso, e que todos os processos podem tramitar até o STF, ou seja, dificilmente chegam ao fim. É verdade que a tradição envolveu o processo e a sentença em um preciosismo de aparência e de linguagem, difíceis de serem abandonados; mas o efeito disso no elenco causal da morosidade processual representa um mínimo quase imperceptível. Se o Poder Legislativo e o Poder Judiciário têm sua parcela de culpa no descalabro da segurança, mais intensa e mais grave é a do Poder Executivo, diretamente responsável pela função policial. Por assumir funções espúrias, restam poucos recursos para a segurança, por isso o recrutamento de pessoal atinge apenas as camadas sociais menos desenvolvidas; a remuneração é baixa, principalmente comparada ao poder econômico

A primeira consequência do descuido com a segurança interna aparece no Poder Legislativo: escassas são as leis sobre a matéria, totalmente defasadas da situação social, mas tratar delas é desagradável; por isso, preocupam-se os legisladores muito mais em proteger a pessoa do delinquente enquanto réu ou presidiário, o que é mais simpático.

campo da ciência e da tecnologia, da cultura e da arte, do esporte do lazer; dota-se escassamente o campo da saúde, da educação e da previdência, e quase nada resta para a segurança. Esqueçamos a temática da segurança externa, que pode realmente ser descurada no Brasil atual. A razão da priorização está em que a atividade econômica proporciona aos detentores do poder receita extra; as atividades denominadas sociais geram prestígio eleitoral; já o investi-

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Matéria de Capa

Não há vagas no sistema penitenciário. É necessário que algum presidiário morra ou fuja para que outro possa ocupar sua cela.

dos delinquentes; os equipamentos são ultrapassados; o treinamento insuficiente. Em um mundo caracterizado pelo poder da tecnologia, o serviço de inteligência policial é precário, quando existente. Daí resulta que os policiais não se orgulham mais da farda que vestem. Ao contrário, nem saem às ruas com ela, senão quando obrigados, e ocultam ao máximo a função que exercem, pois não querem ser reconhecidos como policiais, até porque o vizinho pode ser um criminoso. Tanto o policial quanto a sua farda encontram-se em absoluto desprestígio, a tal ponto que, se a imprensa divulga um conflito entre policiais e civis, quase toda a população opta aprioristicamente pelos últimos e suspeita dos primeiros. É frequente a corrupção policial, gerada certamente por deficiências de caráter, mas estimulada pelo desprestígio funcional, a baixa remuneração e a proximidade com criminosos que enriqueceram nas práticas antissociais. É do conhecimento público que pequenas infrações, como as relativas ao trânsito e a
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regras administrativas, são, com frequência, resolvidas mediante o pagamento de propina não necessariamente vultosa. Enquanto honrosa parcela do sistema policial persegue com todas as forças o tráfico de drogas e o jogo, outra se locupleta com eles. O jogo do bicho, contravenção penal (um absurdo, pois a Caixa Econômica Federal o explora oficialmente sem qualquer restrição), só é praticado graças à dissimulada proteção policial. Sem falar nos grandes atos de corrupção que ocorrem, em somas fabulosas, de forma inacreditável, até no topo da pirâmide administrativa pública. O fenômeno não é novo. Em 1937 o escritor inglês G. K. Chesterton escreveu O Homem que foi Quinta-feira 1 , uma alegoria sobre o bem e o mal, na qual explora o conúbio entre policiais e criminosos, sustentando surpreendentemente que todo criminoso é um policial disfarçado e todo policial é um criminoso disfarçado. É mesmo alarmante a estatística relativa a delitos nos quais estão envolvidos policiais, exatamente aqueles que deviam preveni-los e combatê-los.

Nada elogiável também o sistema prisional brasileiro. Um conjunto de celas desumanas que provocou, de um Ministro da Justiça, a dramática afirmação de que preferia morrer a ser recolhido a uma delas. Suas palavras foram politicamente criticáveis, pois a ele cabe grande parcela da obrigação de sanar o problema, mas foram absolutamente realistas. Não que queiramos presídios luxuosos, mas que sejam humanos. Se alguns privilegiados podem cumprir penas em salas aconchegantes, com poltronas, televisão, refrigerador e cardápio de caros restaurantes, a quase totalidade sobrevive em celas construídas para dez que abrigam centenas, sem o mínimo conforto higiênico. Os guardas e funcionários, acumpliciados, não percebem o uso, pelos prisioneiros, de telefones celulares a partir dos quais comandam a alta criminalidade. Não há vagas no sistema penitenciário. É necessário que algum presidiário morra ou fuja para que outro possa ocupar sua cela. Por isso, milhares e milhares de mandados de prisão, em todas as Comarcas, aguardam vaga

CHESTERTON – THE MAN WHO WAS THURSDAY (A Nightmare) – Penguin Books Limited – 1937.

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Matéria de Capa
para serem cumpridos... se a pena não prescrever. Um cômico prefeito encontrou uma solução: é proibido cometer crimes, ou melhor, é proibido ser condenado à prisão. O Poder Judiciário, por sua vez, só pode aplicar penas leves, de curta duração. O condenado, conforme a gravidade, poderá cumpri-la realmente (sistema fechado), em parte (sistema semiaberto, no qual usa o presídio apenas como dormitório) ou fingir que a cumpre (sistema aberto). Mesmo no sistema fechado, pode (a critério do Juiz) gozar da progressão da pena, que vai do realmente fechado ao aberto, passando pelo semiaberto. Enfim, para minimizar a superpopulação carcerária são utilizados a anistia, os indultos e as licenças para ficar em casa durante as festas de Natal e Páscoa (na esperança de que a terça parte não retorne). E assim se resolve o problema do excesso de condenados e a carência de presídios no Brasil: pela eliminação da pena! O cumprimento da pena de prisão, como disse o Ministro da Justiça, é mais penoso do que a morte, mas essa tragédia é mitigada pela permissão de falar horas a fio em telefones celulares e, através deles, exercer tranquilamente o comando da criminalidade; e também pela possibilidade de convidar parceiros para inacreditáveis visitas íntimas, nas quais ingressam nos presídios não apenas o sexo e a doença, mas também as drogas e armas, os planos delituosos, as armas e os telefones celulares. Para muitos, viver no presídio é melhor do que no barraco. Não é mais tranquilizadora a situação dos menores infratores. Há generalizada preocupação em não usar as palavras prisão ou detenção em referência a eles, para sugerir que lhes é assegurado tratamento diferenciado. Puro engodo. Não há instituições especializadas em reencaminhálos. São levados a casas que dizem ter essa finalidade, mas só dizem. Mesmo assim, são poucas, com poucas vagas e acúmulo de abrigados. O tratamento é assemelhado aos dos presidiários, e eles saem dali ainda mais preparados para a criminalidade. O problema do menor, aliás, começa mais cedo. Os filmes a que assiste, os jogos eletrônicos com que brinca, a literatura que lhe é proporcionada, tudo valoriza a violência: herói é quem mata mais, com mais rapidez e mais crueldade. Cedo eles são aliciados por delinquentes maiores, que passam a abusar de sua irresponsabilidade penal, usandoos como proteção. Por isso é absurdo pensar que a redução da maioridade penal resolverá a situação. Os delinquentes de maior idade passarão a valer-se de menores ainda menores, agravando e não resolvendo o problema. Nem se pensa mais em recuperação social do presidiário, tema que povoava as obras criminais do passado. Se não morrer, ele deixará sua cela amadurecido na arte de delinquir. Sem alternativa profissional, seu próximo passo será necessariamente a reincidência. Efeito desse quadro caótico é a consciência da impunidade. O delinquente sabe que pode fazer o que quiser e pode até entregar-se ao policial, porque sua vida futura não será tão penosa quanto pensa o Ministro da Justiça. Principalmente se tiver alguns trocados para brindar os administradores do presídio. Com a consciência da impunidade, aumenta assustadoramente a criminalidade, o que tem toda lógica. Cresce a revolta dos criminosos contra os policiais que dificultam suas atividades. A assustadora quantidade de homicídios contra policiais resulta de revide do delinquente contra quem se intrometeu em seu caminho ou objetiva intimidar os demais, a fim de que não ousem tal intromissão. O que se pode concluir desse dramático exame é que o Brasil é o lugar onde habita um conjunto de anjos. Tantos milhões de pessoas acotovelando-se todos os dias sem encontrar nenhum policial... a paz social é quase um milagre. As normas legais são cumpridas de forma espontânea pelos cidadãos que se atropelam, sem fiscalização, porque o Estado não tem dinheiro para isso. A situação só começará a melhorar quando o Estado voltar a priorizar a segurança, limitando-se, quanto ao restante, à função de legislar, fiscalizar e punir. As questões sociais e econômicas, que devem ser estimuladas pelo Poder Público, precisam ser deixadas aos particulares.

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Especial
Uma visão liberal do fato

julgamento da Ação Penal nº 470, popularmente conhecida como o “Mensalão”, trouxe resultados inesperados para a consciência brasileira. Acostumada a ver a impunidade, no que respeita ao julgamento de políticos e poderosos, a Nação assistiu ao desenrolar de uma história podre em conteúdo e forma. A quadrilha liderada por José Dirceu foi mostrada em toda a sua sordidez. A corrupção envolvia parlamentares que, posteriormente, se transformaram na “ base aliada” do governo petista. O julgamento, concluído com energia e competência pelo relator Joaquim Barbosa, revelou ao País uma liderança moral de cuja falta todos nós nos ressentíamos. O STF, com tranquilidade e energia, acusou e apenou os réus com sentenças variadas, em razão de crimes que vão desde lavagem de dinheiro a peculato. Apesar de ter como revisor o petista Ricardo Levandowsky, em nenhum momento Barbosa fez concessões. A condenação dos réus, que vão de multas pecuniárias ao encarceramento, é um formidável aviso para quem se achava “fora do alcance da lei”.

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que houve de pior no Brasil foi o fraco desempenho da economia. Crescemos menos de 1% em 2012, valor insuficiente para repor o PIB per capita do País. Dilma Rousseff, cujas características físicas se assemelham às de uma “gerentona”, mostrou-se incapaz de atuar apenas em espaços monopolísticos, pretendendo, na verdade, substituir o mercado por um Ministro da Fazenda da “qualidade” intelectual de Guido Mantega, sabidamente um economista com poucos recursos intelectuais. Na impossibilidade de reduzir o nível de tributação existente, dado o peso da máquina pública, Dilma apenas alterou a cronologia dos consumidores ao reduzir, temporariamente, impostos sobre determinados produtos, como foi o caso dos veículos automotores. O baixíssimo nível de investimentos em programas estatais, como energia elétrica, ferrovias, portos e estradas de rodagem, acabou retirando das atividades instaladas no Brasil sua principal vantagem competitiva: o custo de mão de obra. Os principais episódios da economia brasileira se refletem, hoje, no risco energético que estamos correndo. É possível que “apagões” venham marcar o semestre corrente.

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os dois últimos meses do ano, no desenvolvimento da operação Porto Seguro, a Polícia Federal chegou a um conjunto de funcionários de nível médio envolvidos com o processo de compra e venda de pareceres em nível federal. Os irmãos Vieira, tripulantes da ANA – Agência Nacional de Águas, e da ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil, vendiam pareceres, entre os quais se destacou um que favorecia o ex-senador Gilberto Miranda. O mais chocante é que a intermediária das operações era Rosemary Nóvoa, chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo e “namorada” de Lulla, integrante oficiosa de diversas comitivas presidenciais em várias viagens internacionais do ex-presidente, quando Dona Marisa Letícia não o acompanhava. O processo perdeu dinâmica dentro da PF porque o envolvimento de Rose com Lulla constrangeu as apurações. Tal como no caso do Mensalão, onde o responsável Zé Dirceu era o vice-rei, no caso em questão tenta-se tratar o caso como um assunto “pessoal” de Lulla.

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Destaque

Por que me tornei um liberal conservador
Mario Guerreiro
Doutor em Filosofia pela UFRJ.

iz o provérbio que o diabo, depois de velho, torna-se moralista. Acho que às vezes isso é verdade. Mas nem sempre. Vejamos o caso do grande filósofo Arthur Schopenhauer (17881860). Quando jovem, ele gostava de farras e mulheres, e dos mesmos versinhos atribuídos a J.H. Voss e tão apreciados por Lutero:

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um anarquista, não no sentido filosófico desse termo, mas sim no sentido popular de adepto do Carpe diem horaciano. Ou seja: “Aproveite bem o dia de hoje”, porque o passado não é mais, o futuro ainda não é e, espremido entre ambos, o presente é fugaz e se esvai como a fumaça...

Wer liebt nicht Weib, Wein und Gesang Der bleibt ein narr sein Lebenslang. [Quem não gosta de mulher, vinho e canção/ Permanece um idiota por toda a vida]. Mas quando Schopenhauer ficou velho se tornou um misantropo, vegetariano radical, pão duro, ranzinza e passou a nutrir verdadeiro horror em relação às mulheres, a quem considerava “seres de cabelos compridos e ideias curtas”. Quem hoje desdenha ontem queria... É verdade que mudamos nossos modos de ser e de pensar com a idade, paralelamente com nosso mundo circundante, que também muda com o tempo. Desse modo, quando tentamos compreender bem esse processo temos de levar em consideração o que mudou em nós e o que mudou no mundo. Quando era muito jovem – agora já não sou muito – eu era

Como dizia um refrão da época (por volta de 1970): “Não acredite em ninguém com mais de trinta anos”. Assim, opostamente à Velhinha de Taubaté, eu não acreditava em nada que os políticos diziam. Continuo não acreditando neles, com a diferença de que hoje me preocupo com o que eles dizem e fazem, uma vez que tenho plena consciência de que eles não podem transformar minha vida num paraíso, mas podem transformá-la num inferno. Eu não acreditava no Estado como benfeitor dos cidadãos, o Estado-Papai Noel ou Estado-babá. Eu não acreditava no Estadoempresário, em protecionismo, em redistribuição de renda, enfim, em tudo que os socialistas apregoavam e continuam apregoando. Com a diferença que, após 1991, com a dissolução da URSS, tornaram-se quase todos socialistas democráticos e adotaram a estratégia de Mario Guerreiro hegemonia gramsciana. Redistribuição de renda? Como diz o vetusto provérbio Por sua vez, o mundo da português: “Quem parte e reparte minha juventude era o da utopia e para si não tira a melhor parte, hippie, que vivia por antecipação é um tolo ou no partir não tem a Era de Aquário, uma era de arte”. E foi justamente por isso que saúde, paz e amor... Make love o saudoso Roberto Campos dizia not war, como pregavam os que, na “repartição do bolo”, tudo Beatles em plena guerra do o que importa é quem é o dono Vietnã. E no auge da guerra fria. da faca (por suposto: o Estado).

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Destaque
E continuo não acreditando, com a diferença de que antigamente eu era completamente indiferente ao Estado, às igrejas, aos partidos políticos, aos grupos de intelectuais e a toda e qualquer instituição humana. E hoje não posso mais dizer que sou indiferente a essas e outras coisas assemelhadas, porque sei muito bem que elas exercem grande influência na vida social, e eu não estou imune aos seus possíveis malefícios. Tornei-me um cético, um pessimista? Respondo com um vetusto provérbio chinês: “Espere sempre o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que der e vier”. Sou um pessimista light, sem amargura e mau humor, e um cético ma non troppo, se é que posso dizer assim, sem causar espécie aos espíritos sisudos e compenetrados. Mas se digo que me tornei um liberal conservador não estarei incorrendo numa contradictio in adjectio (contradição em termos)? Logo eu que me considero um amante de Sophia e um servidor voluntário da lógica! Não, contradição em termos é o nome daquele partido político mexicano, o PRI (Partido Revolucionário Institucional), uma síntese do Partido Comunista soviético e do Partido Conservador britânico, ou seja: um autêntico filhote de jacaré com cobra d’água, como teria sido um possível filho do conúbio de Leon Trotsky com Frida Kahlo. O PRI governou o México durante uns 70 anos, foi afastado do poder pelo voto, mas agora voltou pelo mesmo voto, após 12 anos de um laivo de sensatez dos mexicanos. Para a maioria das pessoas, um conservador é um indivíduo antiquado, defasado e que não quer mudar absolutamente nada ou que acredita que “as coisas têm que mudar, para que continuem as mesmas”, como o nobre decadente siciliano em O Leopardo, de Lampedusa. E um liberal, ao contrário, quer mudar tudo. É um adepto do “liberou geral”, quase um libertino. Mas não são esses os sentidos corretos dos dois termos. Um liberal acredita no trabalho e na criatividade dos indivíduos, na competição leal sem favorecimentos, no máximo possível de dado. Há bons e maus costumes, boas e más instituições. Devemos, portanto, mudar os maus e conservar os bons, mas nunca perdendo a consciência dos limites de elasticidade das possíveis mudanças, uma vez que o conhecimento humano é limitado, juntamente com seu poder de modificar as coisas. Há mudanças que não devem ser feitas, ao menos no momento em que as desejamos. Muitas delas são dependentes de outras, e só devem ser feitas após essas outras. Por exemplo: como fazer uma reforma política, tributária, previdenciária ou trabalhista sem antes ter feito uma reforma administrativa em que fique estabelecido o tamanho do Estado que desejamos?! A reforma administrativa é condição necessária para todas as outras: a mãe de todas as reformas. Além disso, o conservador concede grande importância à História e às tradições representativas de um povo, pois tem consciência de que a verdadeira ordem não é uma imposição vinda de fora e baixada sobre a cabeça das pessoas, mas sim algo emergente das múltiplas interações dos indivíduos na sociedade, como propôs Ortega y Gasset, endossado posteriormente por F. Hayek. Creio que essas distorções dos termos “conservador” e “liberal”, que os tornaram antitéticos para a maioria das pessoas, se deveram aos dois principais partidos políticos antagônicos na Era Vitoriana: o Liberal Party, cujo grande líder foi Gladstone, e o Conservative Party (Tory), cujo grande líder foi Disraeli. Com a criação do Labour Party (Partido Trabalhista), o Liberal Party passou a ocupar um lugar secundário – só recentemente voltou a ter grande peso político com a eleição de Nick Clegg como vice Primeiro-Ministro – e o

“Um conservador quer mudar o que
pode e deve ser mudado mediante reformas graduais, não mediante revoluções. Sempre sabemos como uma revolução começa, mas nunca sabemos como acaba.

liberdade com um mínimo necessário de restrições. E eu acredito nessas e noutras coisas que concorrem para a prosperidade dos indivíduos e das nações. Um conservador quer mudar o que pode e deve ser mudado mediante reformas graduais, não mediante revoluções. Sempre sabemos como uma revolução começa, mas nunca sabemos como acaba. Vide os exemplos históricos das revoluções francesa e russa que, feitas em nome da liberdade, descambaram em tiranias sangrentas. Mas o conservador não quer mudar o que não pode, nem o que não deve ser mu-

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antagonismo passou a ser entre o Partido Conservador e o Partido Trabalhista até hoje. O primeiro com uma orientação liberal tradicionalmente britânica, proveniente de John Locke e Adam Smith, e o segundo defendendo o welfare state, o mesmo Estado do bem-estar dos partidos social-democratas da Zona do Euro, que cuidam dos cidadãos paternalisticamente from womb to tomb (do útero ao túmulo). É importante assinalar que o Joaquim Barbosa Reino Unido é membro da Comunidade Européia, mas não participa da Zona do Euro. Sua moeda continua sendo a libra. No Brasil, havia no Segundo Império uma monarquia constitucional, com D. Pedro II exercendo o papel de poder moderador e dois partidos antagônicos: o Partido Conservador e o Partido Liberal. Este último defendia mudanças radicais, como a abolição da escravidão, mas o primeiro não a desejava por temer as graves consequências para as grandes lavouras levadas adiante pelo custo barato da abundante da mão de obra escrava. Dos pontos de vista ético e jusnaturalista, a escravatura era uma aberração inaceitável, mas sua abolição da noite para o dia causaria um grave problema socioeconômico para um país agrário, como o Brasil da época. Sendo assim, os conservadores procuraram postergar o mais que puderam a abolição, enquanto procuravam uma solução para aquele impasse. O Parlamento votou leis que amenizavam a crueldade da escravidão, como a Lei do Ventre Livre, segundo a qual filhos dos escravos não eram mais escravos, e A Lei do Sexagenário, segundo a qual ninguém era mais escravo ao completar sessenta anos. O espírito dessas leis é bastante simples de compreender: elas causariam inevitavelmente o fim da escravidão gradativamente, no longo prazo. Desse modo, quando a Princesa Isabel aboliu por decreto a escravidão em 13 de maio de 1888 o Brasil foi o último país do mundo a tomar essa medida. Todos os escravos se tornaram homens livres dos grilhões que os acorrentavam. Uma minoria deles aceitou trabalhar para seus antigos senhores mediante pagamento de salário. Mas a maioria deles se recusou a trabalhar como assalariado para seus antigos senhores ou novos empregadores. O esvaziamento das grandes lavouras foi uma consequência tão inevitável quanto o grande inchamento das populações das grandes cidades, em que milhões de ex-escravos procuravam sobreviver como podiam. Como eram analfabetos e só sabiam trabalhar na lavoura, passaram a constituir um Lumpemproletariat, i.e., proletariado lumpem, composto de mendigos, prostitutas de rua e indivíduos sem teto sobrevivendo de bicos aqui e ali. A crise socioeconômica só não foi pior porque D. Pedro II estimulou a migração de camponeses europeus, principalmente de italianos, para as grandes lavouras, principalmente as do café, o mais importante produto brasileiro na época. O comunista Darcy Ribeiro, que costumava escrever discursos incendiários para Salvador Allende – ex-presidente do Chile que queria transformar seu país numa Cuba sul-americana – costumava também denegrir nosso ilustre imperador dizendo que o mesmo tomara a mencionada medida porque era racista e queria “branquear” o Brasil. Quando, na realidade, com sua medida oportuna ele evitou que o Brasil caísse no abismo. Não era somente uma aristocracia rural que estava ameaçada com a ruína, mas sim a sustentabilidade socioecionômica do País. Antes de 1888, o Parlamento brasileiro se via diante de um terrível dilema entre ética e direito, por um lado, e sustentabilidade socioeconômica, por outro. Se continuasse mantendo a escravidão, estaria perpetuando um inaceitável cerceamento da liberdade individual. Mas se a abolisse, estaria produzindo uma grave crise. “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” – versão popular de “a escolha de Sofia”, um dilema destrutivo na linguagem da filosofia. Os liberais da época, como José do Patrocínio, optaram pela liberdade dos escravos, mas os

Hayek foi um dos grandes defensores do conservadorismo.

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conservadores optaram pela manutenção do status quo pelo maior tempo possível. Não por serem contrários à liberdade de todos, nem muito menos porque eram racistas e por só estarem voltados para a defesa dos interesses de classe dos grandes fazendeiros – como os marxistas vivem apregoando – mas sim porque temiam uma grave crise socioeconômica para o País. E que louco desejaria tal coisa?! Só os adeptos do irresponsável “quanto pior, melhor”. Há momentos da História em que a orientação liberal se choca com a conservadora, mas esses raros momentos não constituem uma incompatibilidade de princípios entre ambas, de tal modo que não é uma contradição nos termos alguém se situar, política e economicamente, como um liberal conservador. Geralmente os tratados de filosofia política apontam Edmund Burke (1729-1797) como o grande defensor do conservadorismo. Ele foi um filósofo e membro da Casa dos Comuns pelo Partido Conservador (um Tory). Um de seus grandes méritos foi tentar evitar a Revolução Americana, que já estava se prenunciando. Geralmente conservadores fazem tudo para evitar revoluções por uma razão já assinalada: sempre sabemos como uma revolução começa, mas nunca sabemos o rumo que ela tomará e como acabará. Por incrível que pareça, Adolf Hitler tinha uma aguçada consciência disso, pois declarou: “Começar uma guerra é como entrar num quarto escuro. Nunca sabemos o que vamos encontrar lá dentro”. Enquanto o compatriota de Burke, Thomas Paine (17371809), não só defendia a guerra de independência das Treze Colônias como também chegou a participar da mesma com seu libelo, intitulado Senso Comum, Burke enviou um projeto de lei para a Casa dos Comuns em que as Treze Colônias passariam à condição de Vice-Reino, tendo representação no Parlamento Britânico. Ora, isso era tudo que os americanos desejavam. Na qualidade de seu representante diplomático, Benjamin Franklin tinha feito três viagens à Inglaterra na tentativa de encontrar um acordo satisfatório, e teria se contentado com o projeto de Burke, caso ele tivesse sido aceito pelo Parlamento. Mas este se mostrou intransigente, juntamente com um rei demente: Jorge III. E, desse modo, a Inglaterra acabou perdendo sua colônia mais promissora. Mas não por culpa do conservador Edmund Burke, um tory do mesmo partido de Margaret Thatcher, ela que foi sem sombra de dúvida um Primeiro-Ministro autenticamente liberal conservador, como o republicano Ronald Reagan o foi nos EUA. O livro mais importante de Burke foi Reflexões sobre a Revolução na França, publicado um ano após a Revolução Francesa de 1789, antes do contragolpe dos jacobinos liderados por Robespierre – “o Rousseau com a guilhotina”, segundo o embaixador Meira Penna. Livro profético, pois previu o banho de sangue do Reino do Terror de Robespierre, reeditado posteriormente pelo Reino do Terror de Lenin. Burke só não conseguiu prever o triste destino da douce France, que escapou da tirania dos jacobinos para cair nas mãos do tirânico Napoleão Bonaparte. Numa passagem crucial das Reflexões, diz Burke: “Posso felicitar esta mesma nação [a França] pela sua liberdade? Pelo

Edmund Burke foi membro da Casa dos Comuns pelo Partido Conservador.

fato de a liberdade, no seu sentido abstrato, dever ser incluída entre os bens do gênero humano, deverei seriamente cumprimentar um louco furioso, que tivesse escapado da protetora e salutar obscuridade de seu cárcere, pelo fato de ele ter recuperado a luz e a liberdade?” “Deverei cumprimentar um salteador ou um assassino, que tivesse rompido seus grilhões, pelo fato de um e de outro terem recuperado seu direito natural? Isto seria renovar a cena dos remadores das galés e de seu heróico libertador: o metafísico Cavaleiro da Triste Figura”. [E. Burke: op.cit. , 1790, citado por Mario A.L. Guerreiro: Liberdade ou Igualdade? Porto Alegre, Edipucrs, 2002, p.202). “O Cavaleiro da Triste Figura” foi um epíteto dado por Dom Quixote de La Mancha a ele mesmo. Na passagem do grande livro de Cervantes – o mais lido no mundo depois da Bíblia – Dom

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Quixote se lança à temerária ideia de libertar os remadores de uma galé, criminosos da pior espécie, que se vendo livres de seus grilhões se voltaram contra seu benfeitor e queriam comer seu fígado. Essa personagem de ficção fez o que o pensante neomarxista Michel Foucault proporia que se fizesse na segunda metade do século XX. Após criticar asperamente o brilhante projeto de um presídio de segurança máxima feito pelo filósofo Jeremy Bentham (17481832), o Panopticon (i.e.”visão panorâmica”), ele propôs que fossem abertas as portas de todos os presídios e hospícios, porque os que estavam lá dentro eram pobres vítimas da opressora e repressora sociedade capitalista. Como se no mundo comunista não houvesse presídios e hospícios, para onde eram mandados não só criminosos e loucos como também dissidentes políticos, como os do Arquipélago Gulag denunciado pelo escritor russo Alexander Soljenitsin!!! Não é de causar espécie que um esquerdista tão desvairado como esse encontrasse tantos seguidores e admiradores na América Latina, incluindo muitos da Terra de Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter” (o epíteto é de seu criador: Mario de Andrade). Diante de misturebas de marxismo, freudismo e anarquismo irresponsável de frívolos pensantes fashionable parisienses, diante de casamentos de gays e de sistema de cotas reconhecidos por unanimidade pelo STF, de projetos estendendo as cotas ao funcionalismo público, bolsa-família, bolsa-presidiário, projeto de presídios 5 estrelas após a condenação dos bandidos mensaleiros... de projetos de operações de mudança de sexo feitas pelo SUS, onde tem gente morrendo por falta de atendimento, de teologia da libertação, religiões em que templo é dinheiro e de outras sandices e excrescências desta pós-modernidade brasileira... Ainda tem mais esta: eis o mais recente projeto do Estatuto do Presidiário, da autoria de Olívio Dutra (PT-RS), o bigodudo Nietzstemos é que mudar de mentalidade. Ou então de povo. Direito a artigos de higiene e beleza, tais como sabonete, xampu, creme hidratante, etc. Direito de visitar parentes adoentados com escolta policial. Se levarmos em consideração a existência de 500.000 presos neste país, será que há policiais suficientes para as escoltas? Já não bastam as liberações no Dia das Mães e no Natal, quando poucos são os que retornam às celas por sua livre e espontânea vontade?! E os poucos que voltam, como não o fazem premidos por nenhuma coerção externa, só podem fazer tal coisa movidos pelo imperativo categórico kantiano do “Tu deves fazer isso”. Direito à comida de boa qualidade preparada por nutricionistas, coisa que a maioria dos cidadãos honestos dos bolsões de pobreza do Brasil nem sonha ter. Atendimento médico de boa qualidade, juntamente com enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais etc. Desse jeito, é preferível ser socorrido por profissionais do bem-estar nos presídios a morrer nas filas do SUS por falta de atendimento ou de meios para a adequada medicação. (Os médicos fazem tudo o que podem, mas são também vítimas do horroroso Sistema Único de Saúde.) Não está registrado nos mais de cem artigos do referido Estatuto nenhum dever dos presidiários, mas sim deveres dos carcereiros e delegados. Leves lesões corporais nos presos e 2 a 3 anos de detenção para os responsáveis. As mesmas penalidades para quem deixar de fornecer xampu e creme hidratante para o upgrade estético dos detentos. Parece até que não estamos num país pobre como o Brasil,

Se levarmos em consideração a existência de 500.000 presos neste país, será que há policiais suficientes para as escoltas? Já não bastam as liberações no Dia das Mães e no Natal, quando poucos são os que retornam às celas por sua livre e espontânea vontade?!

che dos Pampas que, entre outros absurdos, institui o Dia do Presidiário [a ser comemorado com festanças nos presídios e fora deles?]. Esse Estatuto é muito generoso em direitos, mas avarento em deveres dos detentos. Eles terão direito a celas individuais, quando as coletivas estão superlotadas por não se construírem presídios suficientes. Prometer construí-los não rende votos no Brasil, o que é prejuízo certo na contabilidade dos políticos. E quem são os culpados? Eles ou os que os elegem e reelegem?! Não adianta mudar de governo,

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com o 84o lugar no ranking de IDH mundial e a terceira cidade mais violenta do mundo: Maceió, mas sim num país rico como a Suíça ou Luxemburgo, com seus excelentes IDH. E foi por essas e outras sandices e excrescências que acabei me tornando um liberal conservador. Mas, pensando bem, não há incompatibilidade de princípios entre o liberalismo e o conservadorismo, porque eles são de distinta natureza. O conservadorismo é essencialmente uma orientação política concebendo a práxis política inseparável da ética, tal como pensava Aristóteles e a tradição aristotélica. Como sabemos, para ele a atividade política nada mais era que um prolongamento da conduta ética, algo que costumamos chamar hoje de “ética pública” em distinção à “ética da esfera privada”. Devemos a Maquiavel o banimento da ética na atividade política, uma das lamentáveis nódoas da modernidade, tendo as mais graves consequências. O Mensalão é apenas a pontinha do iceberg. O conservadorismo não apresenta uma concepção econômica própria. Não se encontrará nada sobre o assunto nos escritos de Burke nem de qualquer outro conservador. Mas o mesmo não se pode dizer do liberalismo. Se aceitarmos que um dos primeiros pensadores liberais foi Adam Smith, é importante ficar sabendo que ele era professor de Ética na Universidade de Glasgow (Escócia). Além de escrever Uma Investigação sobre A Natureza e As Causas da Riqueza das Nações (1776) – grande obra da Escola Clássica de Economia – ele já tinha escrito uma Teoria dos Sentimentos Morais (1759), em que compartilhava com seu conterrâneo e contemporâneo, David Hume, o conceito fundamental de sympathy (i.e. “compaixão”, “solidariedade” em inglês). Lamento não dispor de espaço para mostrar que o pensamento econômico e o pensamento ético de Adam Smith não são mutuamente exclusivos, mas sim complementares. Além disso, um conservador não terá nenhuma dificuldade em incorporar ambos ao seu pensamento e à sua ação. Quanto ao Brasil, trata-se realmente do país dos grandes contrastes, em que uma pujante agroindústria contrasta com uma incompetente e corrupta classe política, em que Brasília, que não produz quase nada, tem uma renda per capita maior do que São Paulo, a cidade mais produtiva do Brasil. O 6o PIB do mundo contrasta com o 69o lugar no ranking dos países mais corruptos, 66o no de educação superior, 88 o no de educação básica, 99 o no de liberdade de expressão, 48o lugar em economias competitivas, no 99 o no de qualidade das instituições e 84o no IDH. Desculpe-me, Afonso Celso de Assis Figueiredo Junior, titulado pela Santa Sé Conde Afonso Celso e autor de Por Que Me Ufano do Meu País (1900), mas não posso me ufanar de um país como este!

“Og Leme foi um grande liberal, que lutou a boa luta, e deve ser lido por todos que valorizam a liberdade.”
Rodrigo Constantino

Essas e outras obras estão a venda no IL.

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Livros

Privatize Já
Resenha do livro Privatize Já, de Rodrigo Constantino. Ed. Leya, 2012. verdade, deplorável verdade, é que o gosto pelas funções públicas e o desejo de viver à custa dos impostos não são, entre nós, uma doença particular de um partido: é a grande e permanente enfermidade democrática de nossa sociedade civil e da centralização excessiva de nosso governo; esse é o mal secreto que corroeu todos os antigos poderes e corroerá igualmente todos os novos.”

“A

(Alexis de Tocqueville – Lembranças de 1848; As jornadas Revolucionárias em Paris)

Aos 36 anos, o proficiente economista Rodrigo Constantino acaba de lançar o seu sétimo livro e, não por acaso, mais uma obra cujo pano de fundo é a incansável defesa da liberdade. Privatize Já Editora Leya, 2012, 399 páginas é o resultado de uma extensa pesquisa sobre o tema das privatizações, não só no Brasil como no mundo inteiro. Embora repleto de dados empíricos que comprovam o sucesso das políticas privativistas, onde quer que elas tenham sido implementadas, o livro está longe de ser uma leitura monótona. Pelo contrário: dividido em cinco partes e 30 capítulos, o livro explica, de forma instigante, as vantagens da privatização e como a sua implementação, durante o Governo FHC, melhorou o Brasil e como ainda poderia melhorar muito mais, caso a ideologia estatizante, a mesma de que falava Tocqueville, já no Século XIX, possa ser derrubada. Privatize Já é justamente um libelo contra essa ideologia estatizante que vem corroendo as entranhas da sociedade brasileira. De acordo com o próprio Constantino, “uma pesquisa de 2007 feita pelo Instituto Ipsos e encomendada pelo jornal O Estado de São Paulo mostrou que mais de

60% dos entrevistados são contra a privatização de serviços públicos”. Além disso, mais da metade da população condenaria uma hipotética venda do Banco do Brasil, da Caixa Econômica ou da Petrobras. Tal ideologia majoritária é alimentada, segundo Constantino, por uma série de falácias, disseminadas de forma sistemática por aqueles que têm interesse na manutenção do status quo. Editado no mesmo padrão bem-sucedido de outros livros da Editora Leya, Privatize Já intercala capítulos longos com pequenas inserções que contam histórias interessantes sobre o tema. Neste caso, Constantino utilizou de forma magistral as chamadas “páginas de fundo preto” para demonstrar como a propriedade privada é muito mais eficiente, não apenas em termos econômicos e sociais, mas até mesmo ecologicamente. Nessas páginas Constantino explica, por exemplo, porque as baleias correm sérios riscos de extinção, enquanto as vacas são imunes a eles. Ou como a propriedade privada fez disparar o

número de elefantes no Zimbábue, enquanto a propriedade pública os dizimava no Quênia. Há ainda histórias impagáveis, como a do fabricante soviético que produzia somente um tamanho de sapatos. Constantino reserva a última parte do livro para denunciar aquilo que ele, muito apropriadamente, chama de “privataria petista”, ou seja, a submissão do Estado aos interesses do partido no poder. Essa “privataria” vai desde a profusão de cargos concedidos aos apadrinhados do partido em empresas estatais, passa pela chamada orgia das ONG’s, que de não governamentais só têm mesmo o nome, já que vivem basicamente do dinheiro público, em geral destinado àquelas entidades cuja simbiose política e ideológica com o partido é latente, passa também pela concessão de volumosas verbas publicitárias para empresas de mídia “chapas-brancas”, até chegar ao loteamento das agências reguladoras, transformadas em verdadeiros balcões de negócios. Sem esquecer, é claro, do mecanismo facistóide de troca de favores com o empresariado bem comportado, que tem no BNDES seu braço mais importante. Enfim, como muito bem resumiu Constantino, “está na hora... de debater o tema da privatização sem deixar as paixões cegarem a razão. O Estado pode ter um importante papel como regulador, mas inevitavelmente fracassa como empresário. Não se trata de má sorte, e sim da sua própria natureza. Se cada um souber o seu lugar adequado, então nós, brasileiros, só teremos a ganhar com isso”.
por João Mauad Administrador de empresas

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