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ALEXANDRE BARBOSA DE OLIVEIRA

SIGNOS DO ESQUECIMENTO: OS EFEITOS SIMBÓLICOS DA PARTICIPAÇÃO DAS ENFERMEIRAS DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1943-1945)

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Enfermagem. Orientação: Professora Doutora Tânia Cristina Franco Santos

Rio de Janeiro 2007

SIGNOS DO ESQUECIMENTO: OS EFEITOS SIMBÓLICOS DA PARTICIPAÇÃO DAS ENFERMEIRAS DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1943-1945)

Alexandre Barbosa de Oliveira

Dissertação de Mestrado apresentada em maio de 2007 à Banca Examinadora do Curso de Mestrado em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para fins de defesa.

Aprovada por:

Professora Doutora Tânia Cristina Franco Santos - Orientadora Presidente da Banca (EEAN/UFRJ)

Professora Doutora Gertrudes Teixeira Lopes 1ª Examinadora (FENF/UERJ)

Professora Doutora Ieda de Alencar Barreira 2ª Examinadora (EEAN/UFRJ)

Professor Doutor Wellington Mendonça de Amorim 1º Suplente (EEAP/UNI-RIO)

Professor Doutor Antônio José de Almeida Filho 2º Suplente (EEAN/UFRJ)
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Rio de Janeiro 2007

DEDICATÓRIA

Dedico esta grande conquista ao meu amado filhinho Lucas Pinto de Oliveira, cujo nascimento serviu de inspiração, incentivo, e ânimo, para que eu até aqui chegasse!

HOMENAGEM Às Enfermeiras do Exército que atuaram na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial: o meu respeito e a minha admiração! .

A minha esposa. eterna amada amiga e companheira. o mais novo amor da minha vida! Fonte de vontade em ser melhor! À Família Pinto. A você. Evaldo Batista de Oliveira e Maria de Lourdes Barbosa de Oliveira.. Agradecimentos e Homenagens Especiais: A Deus. Lucas Pinto de Oliveira. pelo carinho. Angelica Ribeiro Pinto de Oliveira.. E. pela paciência. das mais pretéritas até as mais recentes. atribuo sua existência à inspiração e à generosidade de diversas pessoas que me ajudaram de forma anônima e diretamente ou indiretamente para a sua realização. amigos e amigas. pela Sua presença incessante e vigilante. pela preocupação. e por tudo que ainda fazem. tios e tias. primos e primas.. Érika Barbosa de Oliveira. profissionais e acadêmicas. acalanto e juras de amor! Ao meu filhinho. sondando-me e guiando-me amorosamente! Aos meus pais. por tudo o que fizeram por mim e para mim em todos esses anos de minha vida. pelas horas de lazer sacrificadas. desse modo. Presentes de Deus em minha vida! . respeito e amor! A minha irmã. Palavras faltam-me para definir minha gratidão. padrinhos e madrinhas. Princesa. pelo amor. o meu profundo afeto. que me acolheu e a quem admiro e tenho grande carinho! Aos meus avôs e avós..AGRADECIMENTOS Reconheço este estudo como produto das minhas relações pessoais. pela escuta.

sempre gentil. dedicação e carinho a minha pessoa. Manifesto a este grupo o meu respeito. Antônio José de Almeida Filho e Wellington Mendonça de Amorim. Gertrudes Teixeira Lopes. Ao Exército Brasileiro. Não há palavras suficientes para agradecê-la! Aos companheiros do Nuphebras. apoio. admiração e reconhecimento pela sua importância na construção ativa da História da Enfermagem Brasileira. por terem me acolhido. e apoio para realizar esta dissertação sobre a Enfermagem Militar Brasileiria. Aos professores da Banca Examinadora: Ieda de Alencar Barreira. pela atenção. À Doutora Tânia Cristina Franco Santos. E finalmente às participantes deste estudo. Graças ao mesmo. inspiração para graduar-me em Enfermagem. que me adotou como orientando e investiu-se de encaminhar-me na pesquisa em História da Enfermagem. fazendo com que eu transpusesse a “fronteira mágica” do dado para o criado. e conferindo a este estudo o status científico. e que muito me ajudaram para finalizá-lo. que prontamente aceitaram participar comigo de todas as fases de desenvolvimento deste trabalho. honrando-me com sua adesão e atenção.À Escola de Enfermagem Anna Nery. encontrei uma tropa de bons amigos. auxiliado e incentivado sobremaneira no processo de elaboração desta dissertação. major Elza Cansanção Medeiros e capitão Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero. insituição de ensino que potencializou meus conhecimentos concedendo-me a grata oportunidade de obter ganhos importantes para a minha jornada profissional. atenciosa e amiga. À Pós-Graduação da Escola Anna Nery pela paciência e pela ajuda prestimosa. expresso meu sentimento de amor filial. e por terem proporcionado a este estudo um lucro imensurável! .

Ela envolve a lembrança e o esquecimento. indispensável (Octávio Ianni).. o indivíduo e a coletividade. do modo pelo qual se articulam o presente e o passado.. a memória é o segredo da história.) Sim. O que parecia esquecido e perdido logo se revela presente. (. vivo. o sofrimento e o deslumbramento. .É pela memória que se puxam os fios da história. a obsessão e a amnésia.

Com relação às fontes de pesquisa. dificultando sua permanência no campo do Exército Brasileiro como militares da ativa antes. enquanto que as secundárias foram compostas do acervo bibliográfico existente sobre a referida temática. Palavras-chave: Enfermagem. durante e após a guerra. que atuou na Segunda Guerra Mundial (1943-1945). História da Enfermagem. Os achados foram iluminados pelos conceitos da Teoria do Mundo Social desenvolvida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. que serviram de arma simbólica em lutas pelo seu (re) conhecimento. sua participação na Segunda Guerra Mundial produziu alguns efeitos. Além disso. orais e iconográficos. e que consagraram sua aparição no mundo público. Força Expedicionária Brasileira. Objetivos: descrever as circunstâncias que ensejaram a mobilização do primeiro grupamento feminino de enfermagem do Exército Brasileiro para a Segunda Guerra Mundial. Enfermagem Militar.RESUMO SIGNOS DO ESQUECIMENTO: OS EFEITOS SIMBÓLICOS DA PARTICIPAÇÃO DAS ENFERMEIRAS DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1943-1945) Alexandre Barbosa de Oliveira Tânia Cristina Franco Santos Estudo histórico-social que tem como objeto: os efeitos simbólicos advindos da participação do primeiro grupamento feminino de enfermagem do Exército na Força Expedicionária Brasileira. as primárias constituíram-se de documentos escritos. Os resultados encontrados permitiram evidenciar que os módicos limites de participação política e social impostos ao gênero feminino daquela época contribuíram para que as Enfermeiras Febianas sofressem algumas restrições. e discutir os efeitos simbólicos advindos da atuação das Enfermeiras Febianas na Segunda Guerra Mundial. analisar as estratégias de resistência das Enfermeiras Febianas frente à desmobilização sofrida por ocasião do término da Segunda Guerra Mundial. Gênero. II Guerra Mundial. Rio de Janeiro Maio 2007 .

ABSTRACT SIGNS OF THE FORGETFULNESS: THE SYMBOLIC EFFECTS OF THE PARTICIPATION OF THE NURSES OF THE BRAZILIAN EXPEDITIONARY FORCE IN WORLD WAR II (1943-1945) Alexandre Barbosa de Oliveira Tânia Cristina Franco Santos Description-social study that has as object: the symbolic effects happened of the participation of the first feminine grouping of nursing of the Army in the Brazilian Expeditionary Force. World War II. during and after the war. History of Nursing. The joined results had allowed to evidence that the reasonable limits of participation social politics and taxes to the feminine sort of that time had after contributed so that “Febianas” Nurses suffered to some restrictions. Moreover. Key words: Nursing. to analyze the strategies of resistance of the “Febianas” Nurses front to the demobilization suffered for occasion of the ending of World War II. Military Nursing. With regard to the research sources. verbal and iconographic documents. who acted in World War II (1943-1945). Objectives: to describe the circumstances that had tried the mobilization of the first feminine grouping of nursing of the Brazilian Expeditionary Force for World War II. and that they had consecrated its appearance in the public world. whereas the secondaries had been composed of the existing bibliographical quantity on the thematic related one. Rio de Janeiro May 2007 . that had served of symbolic weapon in fights for its (re) knowledge. Brazilian Expeditionary Force. its participation in World War II produced some effects. Gender. e to argue the symbolic effects of the performance of “Febianas” Nurses in World War II. The findings had been illuminated by the concepts of the Theory of the Social World developed by the french sociologist Pierre Bourdieu. the primaries had consisted of written. making it difficult its permanence in the field of the Brazilian Army as military of the active before.

RESUMEN SIGNOS DEL OLVIDO: LOS EFECTOS SIMBÓLICOS DE LA PARTICIPACIÓN DE LAS ENFERMERAS DE LA FUERZA EXPEDICIONARIA BRASILEÑA EN LA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1943-1945) Alexandre Barbosa de Oliveira Tânia Cristina Franco Santos Estudio histórico-social que tiene como objeto: los efectos simbólicos oriundos de la participación del primer grupo femenino de enfermería del Ejército en la Fuerza Expedicionaria Brasileña. Género. Palabras Llaves: Enfermería. Los resultados fueron iluminados por los conceptos de la Teoría del Mundo Social desenvolvida por el sociológico Pierre Bordieu. Historia de la Enfermería. dificultando su permanencia en el campo del Ejército Brasileño como militares de la activa antes. y que consagran su aparición en el mundo público. su participación en la Segunda Guerra Mundial produjo algunos efectos. mientras las secundarias fueron compuestas por el acervo bibliográfico existente sobre la referida temática. que actuaron en la Segunda Guerra Mundial. Objetivos: describir las circunstancias que determinaron la movilización del primer grupo femenino de enfermería del Ejército en la Fuerza Expedicionaria Brasileña. Los resultados encontrados permitieron evidenciar que los módicos límites de participación política y social impuestos al género femenino de aquella época contribuyeron para que las Enfermeras “Febianas” sufriesen algunas restricciones. Enfermería Militar. Fuerza Expedicionaria Brasileña. Con relación a las fuentes de pesquisa. Segunda Guerra Mundial. que sirvieron de arma simbólica en luchas por su (re)conocimiento. Además de eso. Rio de Janeiro Mayo 2007 . mientras y después de la Guerra. y discutir los efectos simbólicos de la actuación de las Enfermeras “Febianas”. analizar las estrategias de resistencia de las Enfermeras “Febianas” frente a la “desmovilización” sufrida por ocasión del fin de la Segunda Guerra Mundial. las primarias fueron documentos escritos. declaraciones orales y documentos iconográficos. que actuaron en la Segunda Guerra Mundial (1943-1945).

.............................LISTA DE ILUSTRAÇÕES Página Ilustração nº 1 Ilustração nº 2 Símbolo da Força Expedicionária Brasileira ............................. 66 Telegrama [fac-similado] remetido pela Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero à sua família no Rio de Janeiro..... 99 Diploma da Medalha de Campanha concedido à Enfermeira Altamira Pereira Valadares [frente] .................. 99 Ilustração nº 3 Ilustração nº 4 Ilustração nº 5 Ilustração nº 6 Ilustração nº 7 Ilustração nº 8 ....................... 12:34 PM) .... por ocasião de seu retorno ao Brasil (27/05/1945.................... 15:30 PM) ........................ 47 Resultado das inspeções de saúde na seleção dos(as) voluntários(as) para a Força Expedicionária Brasileira .. 43 Enfermeiras que atuaram na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial .. 59 Escala hierárquica dos postos e graduações do Exército Brasileiro ........................................................................................................................................ 80 Medalha de Campanha .................................... 79 Telegrama [fac-similado] remetido pela Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero à sua família por ocasião de sua chegada ao Rio de Janeiro (sem data.........

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CAEF – Comissão de Assistência às Enfermeiras da FEB CEERE – Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército DIE – Divisão de Infantaria Expedicionária DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda EAN – Escola Anna Nery EB – Exército Brasileiro EUA – Estados Unidos da América FAB – Força Aérea Brasileira FEB – Força Expedicionária Brasileira HCE – Hospital Central do Exército HESFA – Hospital Escola São Francisco de Assis HQ´s – Histórias em Quadrinhos MB – Marinha do Brasil NUPHEBRAS – Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira PDC – Palácio Duque de Caxias RDE – Regulamento Disciplinar do Exército UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro UNE – União Nacional dos Estudantes .

....... 047 CAPÍTULO II – A desmobilização das Enfermeiras Febianas ..........................2 ............................................. 134 REFERÊNCIAS ......... 076 2..................................................... 015 018 018 021 025 CAPÍTULO I – Voluntárias da Pátria: As circunstâncias da mobilização de enfermeiras brasileiras para a Segunda Guerra Mundial .................Enfermeiras para a Força Expedicionária Brasileira .......1 ...............................As condecorações de guerra como investidura de bens simbólicos às exEnfermeiras Febianas .................... 037 1................................................... 154 ................ 143 Fontes Secundárias ................. A Motivação e a Relevância do Estudo ..............................................................................................................................................3 ................................................................................. 111 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................. 153 Apêndice A ..............................................SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS ... 090 2..................................................................................................... 152 Anexo I ........(Re) ordenação dos espaços: o retorno das Enfermeiras Febianas ao lar .. 142 Fontes Primárias ...................................1 ................4 .................................................... 036 1...............................................2 . 077 2....................................Listagem nominal das enfermeiras que atuaram na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial ...................................................... 014 O Objeto e o Problema ........................................... Os Objetivos ............................................................................................ 109 CAPÍTULO III – Os efeitos simbólicos advindos da participação das Enfermeiras Febianas na Segunda Guerra Mundial ........................................................................................................................................................................... O Quadro Teórico .......................................................................................................................................................O contexto da aparição do primeiro grupamento feminino de enfermagem do Exército Brasileiro .............................................................................As Enfermeiras Febianas e as estratégias de resistência à exclusão do Desfile da Vitória .............. O Caminho Metodológico ..................................... 098 2....................................................................................................................................O reticencioso retorno das últimas enfermeiras .............................................................................Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da EEAN/HESFA .............................. 146 ANEXO / APÊNDICE .................................................

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Considerações Iniciais

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Este estudo tem como objeto os efeitos simbólicos advindos da participação do primeiro grupamento feminino de enfermagem do Exército na Força Expedicionária Brasileira que atuou na Segunda Guerra Mundial. O recorte temporal abrange o período de 1943 a 1945. O marco inicial [1943] refere-se ao ano em que foi criado o Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército, através do Decreto-Lei nº 6.097, de 13 de dezembro de 19431, que integrou o Serviço de Saúde da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. A delimitação final deste estudo [1945] diz respeito à desmobilização dessas enfermeiras ocorrida por ocasião do término da guerra. Nos meados da década de 40, momento em que o universo feminino possuía um papel secundário na sociedade brasileira, centrado geralmente na família e nos serviços domésticos, com possibilidades profissionais bastante limitadas, surgiu um grupo de mulheres que se posicionou longe dos estreitos limites impostos ao gênero feminino à época, as quais se voluntariaram para fazerem parte do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro. Este grupo de enfermeiras foi criado e treinado pelo Exército, a fim de prestar apoio de saúde aos soldados que iriam atuar nos campos de batalha da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Sua inserção se deu na Força Expedicionária Brasileira, comumente reconhecida pela sigla “FEB”, órgão criado pelo presidente Getúlio Vargas, que contou com 25.334 cidadãos em seu efetivo, após ter sido declarada guerra aos países do Eixo2. Para dar sustentação ao discurso oficial de que não faltaria socorro àqueles que se prontificariam a defender a Nação, o Exército enviou um Corpo de Saúde que contou com 67 enfermeiras. A atuação destas mulheres nesse conflito de ordem mundial acabou por conferirlhes uma inserção profissional diferenciada em relação à das demais enfermeiras da sociedade

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Este decreto-lei foi publicado no Diário Oficial nº 290, de 15 de dezembro de 1943, e transcrito no Boletim do Exército nº 51, de 13 de dezembro de 1943 (página 4.478). 2 Os países eram Alemanha, Itália, e Japão, que integravam a Força Nazi-Fascista durante a Segunda Guerra Mundial.

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brasileira da época, uma vez que elas estariam encarregadas de prestar assistência a soldados em combate durante a Segunda Guerra Mundial. A aparição pública dessas enfermeiras foi tema de algumas reportagens por parte da imprensa da época, que não se furtava em enaltecer a figura feminina como símbolo da PátriaMãe, o que valorizava simbolicamente àquelas que cuidariam dos soldados brasileiros no front. Isso num contexto político-social que privilegiava sobremaneira a propaganda, muita das vezes calcada em ritualizar elementos que deveriam ser veiculados como sustentação da ideologia totalitária anunciada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. Muitas foram as menções direcionadas a elas como as mães zelosas, as irmãs prestativas ou os anjos da guarda dos campos de batalha, sempre protetoras e carinhosas, qualificações [estereotipadas] que, de certo, não davam visibilidade satisfatória ao aspecto profissional dessas moças enquanto enfermeiras. Contudo, as Enfermeiras Febianas3 formaram um grupo pioneiro dentro do Exército Brasileiro, pois foram as primeiras mulheres a participarem regularmente dos quadros do efetivo militar dessa Força. De certo que, por conta desse ineditismo, orquestrou-se a operação de uma série de lutas que tiveram que travar, a fim de permanecerem nesse campo na qualidade de “militares de fato”, quase que exclusivamente determinadas pela dominação masculina que experimentaram. Nessas lutas, elas enfrentaram seus familiares, que desejavam impedir seu embarque para o front; enfrentaram o preconceito ostracista dos ditames sociais da época, que impunha às mulheres uma diminuta projeção no campo profissional; enfrentaram alguns homens que serviam ao Exército Brasileiro, que dificultaram sobremaneira sua derradeira incorporação a
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O termo “febianas” é um siglômino adaptado derivado da sigla “FEB”, a qual faz alusão à Força Expedicionária Brasileira, tropa que foi formada pelas três Forças Armadas: Marinha do Brasil (MB), Exército Brasileiro (EB) e Força Aérea Brasileira (FAB). Este termo foi utilizado neste estudo para adjetivar as 67 mulheres que compuseram o Quadro de Enfermeiras do Serviço de Saúde do Exército na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar da FEB ter incorporado também mais seis enfermeiras através da Aeronáutica, estas não foram tratadas neste estudo.

enfrentaram as agruras de um ambiente hostil e estressante de guerra enquanto enfermeiras. ao ter sido mobilizada pelo Governo Federal. a fim de que não viessem a cultivar. depois de terem pelejado na defesa da Pátria e de seus ideais. No campo político. quando a tropa ainda se encontrava na Europa. p. uma vez que o “perigoso ideal febiano de combater os regimes totalitários” passou a alimentar aos opositores de Getúlio Vargas (PINHEIRO. enviou milhares de soldados para lutar contra o regime nazi-fascista e pela democracia. as Enfermeiras Febianas foram desligadas do efetivo do Exército. em solo pátrio. que passava por um regime ditatorial. o Governo resolveu abreviar a dissolução da FEB. a FEB passou a se constituir numa ameaça real ao modelo estadonovista. nos hospitais de campanha em que atuaram (BERNARDES. O capital simbólico que conseguiram angariar por ocasião de sua participação no Serviço de Saúde da FEB durante a Segunda Guerra Mundial trouxe em seu bojo a atualização de seu habitus profissional. Por conseguinte. mas também despolitizar aqueles milhares de cidadãos que compuseram a FEB. 1980). suas reformuladas visões de mundo enquanto porta-vozes autorizados a expressar o discurso legítimo e consagrador acerca da sua participação na Segunda Guerra Mundial. Em conseqüência. desmobilizando-a logo após a guerra. feridos e mutilados. parte delas conseguiram avivar determinados mecanismos de . Neste sentido. 2003. após uma participação que teve a sua notoriedade simbolicamente codificada no campo social. na intenção de desarmar ideologicamente estes “novos brasileiros”. movido pela apreensão acerca da forma que esse risco poderia fazer frente à estrutura vigente. a FEB trouxe em seu bojo um aspecto ideologicamente contraditório: o Brasil.12-13). seja positiva ou não.17 esta instituição dominada simbolicamente pelo sistema patriarcal. Esta ação objetivou não só desmobilizar. Desta forma. que as expôs dramaticamente a sentimentos diversos no atendimento aos soldados moribundos.

Deste modo. Nessa Escola. reflexos do aspecto consagrador da conquista que materializaram ao conseguirem ter erodido as barreiras que lhes impedia o acesso ao campo do Exército Brasileiro. que foram. assisti a uma palestra proferida pela major reformada Elza Cansanção Medeiros [uma das enfermeiras que atuaram na FEB] que me despertou um grande interesse. tracei os seguintes objetivos: 1Descrever as circunstâncias que ensejaram a mobilização do primeiro grupamento feminino de enfermagem do Exército Brasileiro para a Segunda Guerra Mundial. Pouco tempo depois.18 resistência em relação à violência simbólica que tiveram que enfrentar por ocasião da desmobilização. pude travar um primeiro contato com a história da participação da enfermagem militar brasileira na Segunda Guerra Mundial. Neste sentido. em parte. 2Analisar as estratégias de resistência das Enfermeiras Febianas frente à desmobilização sofrida por ocasião do término da Segunda Guerra Mundial 3Discutir os efeitos simbólicos advindos da atuação das Enfermeiras Febianas na Segunda Guerra Mundial. A Motivação e a Relevância do Estudo Durante o tempo em que servi na Escola de Saúde do Exército em 1995. Por conseguinte. a desmobilização sofrida por elas abrigou a confluência de alguns efeitos simbólicos. fui designado para servir na Clínica de Cardiologia da . para desenvolver o presente estudo. elas lançaram-se em novas frentes pelo reconhecimento de sua expressão e contra o obscurecimento da visibilidade de suas atuações públicas.

inclusive de suas feridas ainda não cicatrizadas. de dar fomento ao meu interesse de empreender um estudo voltado para a história das Enfermeiras Febianas. chefiada pela referida enfermeira na década de 60. sendo. clínica esta que havia sido. desde março de 2004. um elemento motivador se revelou para o desenvolvimento deste estudo.. uma vez que seu valor social deu-se mais por reconhecido no campo humanitário que no profissional. graduei-me em Enfermagem. da Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ). pude aproximar-me mais de suas histórias.19 Policlínica Militar do Rio de Janeiro. testemunhas de si mesmas. Desta forma. sendo. Tempos depois. tal constatação foi verificada no caso particular das Enfermeiras Febianas. Por extensão. Nesta Unidade. sua história acabou tomando um vulto discreto e com pouca expressividade. ao deparar-me com as primeiras fontes acerca da temática traçada. e. dos seminários permanentes do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras). que foi a possibilidade de angariar depoimentos de algumas das Enfermeiras Febianas. e. por muitas vezes. mediante a indicação de um companheiro de farda e a convite da minha orientadora. mais percebido o aspecto tutelar e caritativo de suas aparições no mundo social. no sentido contrário deste processo. Entretanto. Em seguida. inclusive. percebi que geralmente a literatura historiográfica disponível pouco havia destacado a figura da mulher na História Militar do Brasil.. por conseguinte. tive a grata oportunidade de conhecer alguns ex-combatentes [na qualidade de clientes] que fizeram parte do efetivo da Força Expedicionária Brasileira. obtive uma série de ganhos que viabilizaram sobremaneira a possibilidade de dar sentido às minhas pretensões de trabalhar no campo da pesquisa em História da Enfermagem Brasileira. testemunha de seus feitos e de suas conquistas. relegando-a num plano pouco significativo. Ao integrar-me a este grupo. Assim. portanto. que se mostraram dispostas para tal. comecei a participar como ouvinte. .

O magnetismo que essa temática envolve dirigiu-me para diversas frentes. Desta forma.20 além. os dissabores. estudantes e pesquisadores da História da Enfermagem Brasileira e da História do Brasil. os estereótipos. uma vez que buscará contribuir para a ampliação da abordagem sobre as representações da participação feminina na História Militar do Brasil. Além disso. vários horizontes desta história foram alvo do meu interesse: as lutas. é claro. o esquecimento. Assim. a socialização dessa história que aqui foi construída. servirá para divulgar ainda mais os seus feitos e trazer à tona suas verdades. os ganhos. os desvalores. e de fato. ao enfatizar a aparição pública das Enfermeiras da FEB no mundo social. assim. espero poder contribuir para o ensino e pesquisa da profissão. com a finalidade de manter vivo o processo de construção do conhecimento em História da Enfermagem Brasileira. os valores. Assim. as perdas. acredito que este trabalho. espero que este estudo adquira o status de ser um meio a mais para divulgar a história daquelas que foram as primeiras mulheres que regularmente.. promover subsídios para professores. a fim de desvendar seus ditos e não-ditos. Sinais estes que mostraram um campo magnânino a ser explorado! Ao que creio. do surgimento de outras fontes primárias que revelaram-se ao longo da construção inicial do trabalho. uma vez que almejo creditar com este estudo a disposição de novas fontes documentais. em especial a Enfermagem Militar. . as violências. ocuparam as fileiras do Exército Brasileiro. além de auxiliar em estudos acerca da trajetória evolutiva da Enfermagem Militar no Brasil. bem como servirá para suscitar novas fontes e abrir novos questionamentos. auxiliará no reconhecimento de alguns percalços que envolveram [e que ainda envolvem] a profissão de Enfermagem. e.. o reconhecimento.

neste estudo. mediante a atualização de seu habitus. Essa matriz. Assim. ou simplesmente entre a estrutura e a prática. apresentam propriedades típicas da posição social de quem as produz. suas aspirações. os símbolos que a distinguem. o habitus. constituindo uma espécie de “matriz de percepções e apreciações” que orientaria suas ações em todas as situações subseqüentes. em resposta às lutas simbólicas pelo poder de se fazer ver e de se fazer crer e se dar a conhecer pois. suas preferências. porque a própria subjetividade dos indivíduos. em meio à luta pela imposição de uma visão de . evidenciou-se a incorporação de um capital específico por estas enfermeiras. p. cada sujeito em função de sua posição nas diversas estruturas sociais. e para cuja perpetuação colaboram através de suas ações cotidianas. o conceito de habitus sustentou a compreensão de que existe uma estrutura social objetiva que é calcada em múltiplas relações de luta e de dominação entre os diferentes grupos dos quais os agentes participam. uma vez que ao longo do processo de inserção e exclusão das Enfermeiras Febianas do campo do Exército. isto é. ou seja. estão previamente estruturadas em relação ao momento da ação (BOURDIEU. e as estratégias de ação e reprodução foram temas abordados na leitura e análise do corpus documental aqui utilizado.21 O Quadro Teórico O estudo tem como referência teórica o pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu. A questão fundamental dos escritos de Bourdieu é o entendimento do caráter estruturado das práticas sociais. Seu argumento é o de que as práticas sociais são estruturadas. vivencia uma série característica de experiências que estruturam internamente sua subjetividade. 1983. a mediação entre as dimensões objetiva e subjetiva do mundo social. Nesse sentido.65). seria assim. As marcas da posição social. sua forma de perceber e apreciar o mundo. seus gostos.

tem a seu cargo a defesa da Pátria e a garantia dos poderes constituídos. econômico. Esses indivíduos tenderão [de forma consciente ou inconsciente] a adotar estratégias conservadoras. e hierarquia. ou aceitar a estrutura hierárquica presente no campo mediante o reconhecimento de sua inferioridade. p. ou seja. no interior desse universo. que.82). Como exemplo. 1997. militar etc] e sua eficiência. como o campo onde estavam imersas as enfermeiras que foram mobilizadas para atuarem nos campos de batalha da Europa. As diferentes espécies de capital simbólico [cultural. alguns indivíduos e instituições já ocupam posições dominantes.22 mundo legítima. político. temos o caso do Exército Brasileiro ao desmobilizar as enfermeiras que atuaram na Força Expedicionária Brasileira. campo que se organiza com base nos princípios de tradição. e da ordem.59). 1998. um campo de forças [onde há dominantes e dominados] que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de forças. à maneira dos trunfos num jogo. sob a autoridade do presidente da República. no sentido de manter a estrutura atual do campo e os critérios de classificação que os beneficiam. da lei. p. que por sua vez ocupam posições inferiores no interior do campo. Por sua vez. Outros indivíduos e instituições. ao reconhecimento que recebem de um grupo (BOURDIEU. neste estudo. Sob essa vertente. o campo é um espaço social estruturado. tendem a adotar estratégias de contestação e subversão das estruturas hierárquicas vigentes no campo. ao ser incorporado. pode representar um poder sobre um campo num dado momento. assinalo o Exército Brasileiro. e que. O conceito de capital indica a posse de um fundamento cognitivo amparado no conhecimento e no reconhecimento. social. Cada um. . empenha em sua concorrência com os outros a força [relativa] que detém e que define sua posição no campo (BOURDIEU. os agentes detêm um poder proporcional ao seu capital simbólico. disciplina. Em função da história pregressa do campo.

Pierre Bourdieu descreve como sendo um poder sempre dissimulado. O poder simbólico traz embutida a violência simbólica. uma vez que serviram de arma simbólica para que elas (re) atualizassem o seu habitus ao longo de sua permanência e atuação no campo do Exército Brasileiro através da FEB. um poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. portanto. com efeito. ao ter sido aplicado ao estudo.11-12) como sendo a dominação de uma classe sobre outra. mediante o uso de instrumentos de comunicação e de conhecimento para imposição ou legitimação da dominação levando à domesticação dos dominados. p. Assim. permitiu [ente outros aspectos] a compreensão das estratégias das Enfermeiras Febianas no sentido de que estas utilizaram um volume e uma variedade específica de recursos trazidos do berço ou acumulados ao longo de sua trajetória social. O poder simbólico é. através de esquemas que . que constrói a realidade fazendo com que os agentes estejam submetidos a ele. das outras formas de poder. Esse conceito.23 configuram-se em poderes que definem as probabilidades de ganho no campo (BOURDIEU. isto é. irreconhecível. 1989. 1989). transfigurada e legitimada. os quais se encontravam “acampados” numa estrutura que direcionou o sentido das forças e a distribuição dos poderes. p. Ele se altera de acordo com a posição ocupada pelos agentes nos diversos campos (BOURDIEU. Por conseguinte.7-16). Sobre o conceito de poder simbólico. É uma forma transformada. É o poder de impor e até mesmo de inculcar. de modo a lhes assegurar certa posição no espaço social. o posicionamento das Enfermeiras Febianas no campo do Exército Brasileiro foi condicionado à hierarquia entre as diferentes espécies de capital de seus agentes. Esses capitais ativaram novas perspectivas para as Enfermeiras Febianas. mencionada por Bourdieu (1989. à dominação. a violência simbólica se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante e.

ou para ver e avaliar os dominantes. busquei enfocar os efeitos que a hierarquia dos sexos impõe aos agentes estudados no ciclo recortado de suas histórias. mas sim. femininas à expectativa masculina e. Sob esse espectro. enquanto forma de violência simbólica. a dominação masculina. Este conceito de dominação masculina edificou boa parte das análises e discussões desenvolvidas neste estudo. tal conceito foi proficuamente aplicado ao movimento de compreensão dos sistemas simbólicos contextualizados dos quais fizeram e tomaram parte as Enfermeiras Febianas no campo do Exército Brasileiro. Apesar disso. manifesta-se por meio de divisões espaciais entre os espaços femininos e masculinos e através de princípios de visão e de divisão. nem tampouco partidária. p. procurei não desenvolver uma visão maniqueísta dos sexos. Assim. Além disso. uma vez que caracterizou satisfatoriamente a subordinação e a desigualdade do habitus sexuado e sexuante no sistema simbólico representado pelo Exército. 1999). . esquemas estes que resultam da incorporação de classificações de que seu ser social é produto. deve ser mencionado que a abordagem do conceito de dominação masculina fez-me enfatizar algumas questões de gênero neste estudo. por extensão. a violência simbólica se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas de comunicação e de conhecimento (BOURDIEU. a definição de uma perspectiva dialética de compreensão e de edificação de conhecimento.47). vale ressaltar que os conceitos enfatizados apoiaram satisfatoriamente o desenvolvimento deste trabalho. Assim. subordinadas e submetidas (BOURDIEU. ao tempo em que provocaram uma predisposição efetiva para a análise e a discussão dos achados. 1999. o que favoreceu. de taxonomias. e de classificação. Ela constitui as mulheres como objetos em estado de dependência simbólica. Neste sentido. neste sentido. além de ter servido para apoiar o enfoque acerca dos estereótipos que incidiam sobre a prática da Enfermagem Militar.24 ele [o dominado] põe em ação para se ver e se avaliar.

insere-se no projeto de pesquisa intitulado Emblemas e Rituais na Formação da Identidade da Enfermeira Brasileira. arquivo da Policlínica Militar do Rio de Janeiro. . jornais e revistas da época. Arquivo Histórico do Exército (PDC). leis. ordens do dia. Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (UFRJ). As fontes primárias constituíram-se de documentos escritos. organizado pela major enfermeira reformada Elza Cansanção Medeiros. da Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ). meios de comunicação de massa: canções. boletins internos. diários oficiais da União. avisos ministeriais. e aprovado em 31 de agosto de 2003 pelo Comitê de Ética na Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery / Hospital Escola São Francisco de Assis. telegramas. regulamentos. acervo pessoal da capitão enfermeira da reserva de 1ª classe Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero. e documentos pessoais: diários. cartas. elogios. selecionei aqueles que se mostraram mais representativos. Biblioteca Setorial da Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ). depoimentos orais e registros iconográficos. portarias. estatutos. Biblioteca do Exército (Unidade PDC). e diplomas. Dentre os diversos documentos escritos consultados para a construção deste estudo. textos. As fontes utilizadas neste estudo foram localizadas na Biblioteca Nacional. registros biográficos. decretos-lei. e Internet. decretos. de natureza histórico-social. acervo do Setor de Preservação da Memória Histórica da FEB (PDC).25 O Caminho Metodológico Este estudo. memoriais. Banco de Textos do Nuphebras. coordenado pela Professora Doutora Tânia Cristina Franco Santos. poemas. conforme pode ser verificado na relação a seguir: documentos institucionais e oficiais: constituição federal.

tendo como conseqüência a produção de fontes de consulta para outros estudos. que se consubstanciou positivamente com os depoimentos das atrizes sociais envolvidas. DOSSE. mas problemática (BURKE. por não fazer-se sectariamente. uma forma viável encontrada para o alcance da compreensão da realidade complexa relacionada ao episódio estudado. Nesta revista. fundada em 1929 por Lucien Febvre e Marc Bloch. Assim. conjunturas. valoriza costumes e comportamentos ao dar voz a todos os atores sociais. p.18). a serviço dos homens em sociedade. LE GOFF. a História Oral privilegia a realização de entrevistas com pessoas que testemunharam ou participaram de acontecimentos. societés. p. Assim. p. tendo sido. de uma história vista de baixo.9-17. como forma de se aproximar do objeto de estudo. agrupada em torno da revista Annales: économies. 2004. inclusive no que tange à interpretação dos documentos escritos. ensejando a construção de uma história dos vencidos. 1993.9-10). envolve a pretensão em ser uma história escrita por homens livres ou em busca de liberdade. “novas abordagens” e “novos objetos” (BURKE.271-277).21. portanto. a História Nova. a qual traz novas perspectivas na construção dos trabalhos históricos. ao questionar o enfoque positivista de imparcialidade do pesquisador e da neutralidade do documento escrito. 33-35. visões de mundo. com respaldo na abordagem proposta pela História Nova4. Oportuno enfatizar que a utilização da História Oral Temática auxiliou-me eficazmente na abordagem dos quadros recortados da realidade das Enfermeiras Febianas e de sua aparição no mundo social. p. 2001. e que. Esta “nova história” é entendida como uma reação deliberada contra o paradigma tradicional da visão do senso comum da história. de uma história não-automática. e ao defender um posicionamento crítico frente aos objetos de estudo e às fontes. civilisations. o francês Jacques Le Goff editou vários ensaios acerca de “novos problemas”. 4 A História Nova é a história associada à chamada École des Annales. p. 1992.26 Utilizei a História Oral Temática como método de investigação científica. e a reunião das mesmas em um acervo aberto para futuras pesquisas (ALBERTI. 1992. .

para melhor desenvolvê-las. Em seguida.276. que foram delimitados pelo objeto de estudo escolhido. na pessoa da major reformada Elza Cansanção Medeiros. As leituras e releituras desse material revelaram-se significativas por terem identificado elementos de interesse sobre a história das Enfermeiras Febianas. convidei por telefone duas Enfermeiras Febianas que figuraram entre as possíveis pré-selecionadas. Assim. Uma vez identificadas as prováveis depoentes. tais entrevistas possibilitaram focalizar prioritariamente o envolvimento das participantes selecionadas no tema proposto. p. ALBERTI. organizei uma relação nominal prévia das possíveis depoentes. e procedi o agendamento das entrevistas com as mesmas de acordo com suas disponibilidades.27 Portanto. E. foi realizada uma análise prévia das biografias dessas enfermeiras. as entrevistas temáticas justificaram-se pelo fato de terem sido instrumentos importantes para melhor elucidação dos acontecimentos históricos. Nesta oportunidade. os objetivos. prestei as informações necessárias a elas sobre o tema. outra fonte primária que bem subsidiou a fase de construção dos questionamentos utilizados nas entrevistas (DOSSE. percebi que poucas seriam as enfermeiras em condições de prestar seus depoimentos.37)... e a finalidade do estudo. Com essa perspectiva. assim como explicações acerca do critério adotado para desenvolvê-lo. p. além de elucidar a dimensão e a relevância de suas participações. a partir da orientação do Setor de Preservação da Memória Histórica da FEB (PDC). utilizei as biografias organizadas por Altamira Pereira Valadares em Álbum Biográfico das Febianas: Pesquisa da II Guerra Mundial (1976) e por Elza Cansanção em Um! Dois! Esquerda! Direita! Acertem o passo! (2003). no sentido de motivá-las a cooperar com o estudo através de seus depoimentos. Para encetar o processo de preparação das entrevistas. 2004. 2001. . Contei também com o apoio prestado pela Mestre em Enfermagem Margarida Maria Rocha Bernardes neste sentido. elementos estes que foram constantemente confrontados e concatenados com outras fontes.

Uma segunda entrevista foi realizada com a mesma enfermeira em sua residência no dia 26 de setembro de 2006. a fim de obter respostas a novas dúvidas que emergiram após o tratamento dos dados coletados na primeira entrevista. que envolvessem situações vividas particularmente pelas mesmas dentro do tema em estudo. Ainda na fase de pré-entrevista. sem. que concedeu o seu depoimento em sua residência no dia 31 de agosto de 2006. servir de “camisa de força” que obrigasse a cumprir uma ordem rígida ou impedir a emergência de dados não previstos. oportunidade esta que serviu para o levantamento de novas fontes para a pesquisa. a Enfermeira Virgínia Portocarrero outorgou-me o acesso ao seu diário e acervo pessoal. revisei as biografias das colaboradoras selecionadas com o objetivo de complementar os roteiros. com duração de 3 horas e 35 minutos aproximadamente. Desta forma. tive a grata oportunidade de me deparar com fontes que se mostraram como elementos importantes para configurar alguns aspectos que remeteram ao objeto de estudo eleito. Desta forma. e que o apoiaram eficazmente. meios de que ela se valeu para ilustrar sua fala. com duração aproximada de 4 horas e 15 minutos. Neste encontro. elaborei alguns roteiros a fim de preestabelecer as indagações que seriam feitas durante as entrevistas. que prestou seu depoimento no dia 10 de outubro de 2006. com o intuito de manter as narrativas ligadas ao tema central estabelecido. esses roteiros objetivaram orientar os temas sincrônicos e diacrônicos envolvidos pelo objeto de estudo. A segunda depoente foi a major enfermeira reformada Elza Cansanção Medeiros. a fim de facultar a formulação de novas perguntas mais específicas para elas. no Setor de Preservação . A primeira entrevistada foi a capitão da reserva de 1ª classe Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero. em sua sala. e de nortear a condução das entrevistas.28 Na fase de preparação das entrevistas. com o intuito de enriquecer a entrevista e os dados que dela adviriam. entretanto.

Assim. procurei fazer as mesmas perguntas para as duas participantes. concordo com Motta (2001.29 da Memória Histórica da FEB locado no Palácio Duque de Caxias. Desta forma. Nesta ocasião. a fim de obter elementos para análise de convergência e de divergência das respostas obtidas. devido aos acontecimentos inesperados ou pela intervenção das colaboradoras. durante as entrevistas propriamente ditas. edificou-se ainda mais o apoio anteriormente oferecido por esta enfermeira em fontes documentais. e não somente o objeto do conhecimento. enquanto ato de comunicação. Não estuda o grupo de colaboradores. nem sempre foi possível manter um dinamismo uniforme quanto à condução da entrevista. Neste sentido. logo após as entrevistas. Cabe ressaltar que por ocasião da execução das entrevistas. utilizei os roteiros para a condução cronológica dos acontecimentos a serem tratados.16) quando afirma que o entrevistado é o sujeito-colaborador. foi devidamente assinado por elas. a entrevista. por fim. e. no sentido de caracterizar a memória instituída sobre os aspectos tratados. em diversos momentos o seu fluxo foi alterado. é imprescindível a disposição de ouvir. procedi a leitura e a explicação do teor contido no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A respeito desta situação. realizei inicialmente a apresentação das colaboradoras. Ao início de cada colóquio. o oralista não se coloca diante de fontes. mas de pessoas. por meio da leitura abreviada de seus currículos. mas aprende com eles (PORTELLI. na situação de entrevistador. cabe ressaltar que o caráter dialógico da História Oral demanda disponibilidade para lidar com a diversidade. E também. mas com a atenção e preocupação constante em estimular as mesmas em declarar suas experiências. 1997). Deve-se compreender que. deve encaminhar-se no sentido de reduzir ao . orientei-as sobre a temática que iria ser tratada. que. agradeci às entrevistadas pela sua participação. Isto posto. Esta entrevista durou cerca de 2 horas e 15 minutos. p. Apesar da utilização dos roteiros.

busquei potencializar a fala das depoentes ao tempo que tentei trazer à tona questões do universo simbólico. Desta forma. p. a fim de prevenir quaisquer possibilidades de falha técnica dos aparelhos durante a execução. de confiança. os quais . utilizei dois gravadores digitais. p.67) esclarece que: A existência do que é conhecido como a “foto da recordação”. o que poderia causar um prejuízo importante ao processo. Para documentar a cessão e arquivamento dos depoimentos orais obtidos. as colaboradoras assinaram termos de doação de seus depoimentos após cada entrevista. Vale ressaltar que todos os depoimentos foram gravados em formato digital [mp3].149-150). 1997.30 máximo a violência simbólica presente nesse tipo de relação. 1987. utilizei fotografias como elementos auxiliares junto aos roteiros.100). modalidade que confere melhor qualidade aos arquivos de áudio. Schaeffer (1996. de lealdade e de harmonia antes. A partir deste encaminhamento. isto é.695-696). as fotografias. acredito ter alcançado eficazmente o rapport. e a espontaneidade das participantes. levamnos a salientar a importância do conhecimento lateral no funcionamento da imagem como signo referencial identificante. durante e após os encontros. A questão é saber em que condições a informação referencial virtualmente transmitida por uma imagem pode ser “tratada” pelo receptor. quando são usadas como objeto de recordação. tentei alcançar a máxima profundidade do espírito. Estrategicamente. 1992. passam a ser um bom exemplo de apoio metodológico para facilitar a retomada de elementos preservados na memória dos depoentes. uma escuta ativa e metódica deve ser instaurada (BOURDIEU. prerrogativa necessária para o êxito da técnica da História Oral Temática (TRIVIÑOS. cultural e ideológico do grupo social do qual fizeram parte (CAMPOS. ao ter conjugado as entrevistas com as fotografias. A esse respeito. ao ter buscado criar um clima de simpatia. p. Para tanto. Durante as entrevistas. assim como a utilização da imagem fotográfica para se recordar dos acontecimentos. Aliás. p. a naturalidade. Além disso. pode gerar determinadas identificações.

p. Por ocasião desta apreciação. que assegura a liberdade de opinião para militares da reserva e reformados sobre pensamento e opinião política ou filosófica. a fim de salvaguardar seus conteúdos. dividi os achados de cada depoimento em categorias e subcategorias temáticas. 5 Lei assinada pelo presidente da República José Sarney. De certo que. a fim de eliminar possíveis interpretações errôneas. ou seja. reproduzindo exatamente o que foi gravado e mantendo a gramática das palavras ditas como nas entrevistas.31 ficarão arquivados no Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery (Universidade Federal do Rio de Janeiro). independentemente das disposições constantes dos Regulamentos Disciplinares das Forças Armadas. estabeleci a conferência de fidelidade das mesmas. com o intuito de obter a melhor redação possível. é facultada ao militar inativo. que dispõe sobre a manifestação. Realizei. E ainda. Em seguida. e providenciei a imediata transcrição delas. a fim de facilitar o processo de textualização e de análise de seus conteúdos. valho-me da Lei 7. procedi o tratamento dos depoimentos gravados. conforme pode ser verificado no Anexo I. Após esta fase. foi conferido parecer favorável sob o Protocolo nº 077/06. de pensamento e opinião política ou filosófica. Imediatamente após cada encontro. considera: “Respeitados os limites estabelecidos na lei civil. todas as ações relacionadas às entrevistas foram pautadas por esta resolução. Em seu artigo primeiro. a duplicação e a catalogação em formato digital das entrevistas. de acordo com os aspectos propostos pelos objetivos. Posteriormente.66). por militares inativos. corrigi os desvios gramaticais das palavras. mas com o cuidado de não interferir no sentido real do depoimento (MEIHY. como forma de apoio a este estudo. em observância ao caráter prescritivo constante da Resolução 196/96 [sobre pesquisa envolvendo seres humanos] do Conselho Nacional de Saúde. Vale salientar que. e externar . portanto. 1998. de 17 de julho de 1986. o abuso de expressões e termos repetitivos. o presente estudo foi submetido em 26 de setembro de 2006 ao Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery / Hospital Escola São Francisco de Assis. opinar livremente sobre assunto político. realizei a edição das entrevistas nos trechos destacados para textualização e análise.5245.

Assim. elegi aquelas fotos que se fizeram notar como as mais emblemáticas para o estudo e que ofereceram elementos simbólicos para auxílio na análise conjugada com os dados escritos e orais utilizados.82) destacam que: . pensamento e conceito ideológico.. além de outras que estamparam as notícias ilustradas de periódicos da época. que enfoca os usos que os indivíduos fazem do espaço como elaboração especializada da cultura. p. Entretanto. filosófico ou relativo à matéria pertinente ao interesse público”. favoreceu. a utilização da fotografia. ela não reúne em seu conteúdo o conhecimento definitivo dele (KOSSOY. não é demais enfatizar que as fotografias estabeleceram-se neste estudo como um meio relevante das possibilidades de ver. Vale ainda ressaltar que aproveitei algumas ilustrações. ao tempo em que propiciou o reconhecimento dos microcenários ocupados por elas ao terem sido lidas numa perspectiva proxêmica. selecionei algumas fotografias antigas. Barreira e Sauthier (1999. Aliás. o texto ressalva. Neste sentido. p. No entanto.72). através dos aspectos estéticos e ideológicos representados na imagem fotográfica e que não estão presentes em outras fontes documentais. que o disposto no artigo “não se aplica aos assuntos de natureza militar de caráter sigiloso e independe de filiação político-partidária” . a fim de ornar alguns aspectos temáticos que foram levantados no desenvolvimento do presente estudo.. a mensagem expressa pelas fotografias utilizadas neste estudo. 1989.32 No que diz respeito aos registros iconográficos utilizados. apesar da imagem fotográfica [enquanto fonte primária] ser indiscutivelmente um meio profícuo de conhecimento do passado. satisfatoriamente. possibilita a apreensão de outros significados. como fonte de informação. de optar e de fixar certos aspectos da realidade. no seu parágrafo único. Por ocasião da seleção desse material. a análise de utilização dos espaços pelas Enfermeiras Febianas. as quais se encontravam organizadas em álbuns pessoais e arquivos históricos. Santos.

trabalhos. relato pessoal detalhado e ilustrado sobre a saga da FEB e de suas enfermeiras. dissertações. livros. de Olímpia de Araújo Camerino. sendo. História das Mulheres. dignas de serem aqui listadas: “Depoimento de Oficiais da Reserva sobre a FEB” (1949). Dentre essas publicações existem algumas “obras raras” de autoria das próprias Enfermeiras Febianas. de Elza Cansanção. que traz praticamente um auto-registro sobre a participação da autora na FEB durante a guerra. coube-me o exercício de manter uma postura cuidadosa . sendo que algumas já estão há muito tempo fora de circulação comercial e são bastante desconhecidas. História da Força Expedicionária Brasileira. oriundos dos documentos escritos. artigos. Assim. “A mulher brasileira na Segunda Guerra Mundial” (1983). História da Enfermagem Brasileira. portanto. “Álbum Biográfico das Febianas: pesquisa da II Guerra Mundial” (1976). além dos dados advindos das fontes secundárias.33 Com relação às fontes secundárias. História das Forças Armadas e História do Brasil. organizado por Altamira Pereira Valadares. relacionados à temática e à História da Enfermagem Militar. registro biográfico das Enfermeiras Febianas. que favoreceram sobremaneira o desenvolvimento do estudo. Com relação especificamente à análise e tratamento dos dados obtidos. “E foi assim que a cobra fumou” (1987). confrontei-me constantemente com o desafio de textualizá-los e concatená-los com um olhar atento para criticá-los internamente e externamente. Ao longo do levantamento bibliográfico. realizei uma leitura crítica de teses. orais e iconográficos que foram levantados. e outros materiais. percebi que existem poucas publicações sobre as Enfermeiras Febianas. onde consta um testemunho revelador da Enfermeira Bertha Morais sobre os dissabores ocorridos durante a participação das enfermeiras do Exército na FEB. a fim de melhor atender aos objetivos.

e dos membros do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira. sobretudo em função do capital cultural. a fim de decodificá-los mais fidedignamente. considerando os contextos em que foram produzidos e o contexto político. portanto. cuja técnica objetiva abranger a máxima amplitude na descrição. ideologia. 1994.167186).34 acerca de seus teores. e que essas interpretações partiram daquilo que este autor projetou de si. além das sugestões e críticas dos professores doutores membros da Banca Examinadora. na interpretação analítica do material advindo da dissecação das fontes utilizadas. Para tal. e outros valores acumulados previamente. p. 6 Dentre os que me apoiaram na construção deste trabalho destaco a orientação da Professora Doutora Tânia Cristina Franco Santos. a fim de evitar possíveis distorções historiográficas. dos professores da Pós-Graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery. que acabaram conferindo um caráter subjetivo ao estudo. p. procurei estabelecer uma análise cuidadosa dos documentos. busquei reduzir os prováveis desvios na interpretação das fontes escolhidas. e de distanciamento. De certo que busquei desenvolver este estudo partindo do pressuposto de distanciamento da “neutralidade”. Para auxiliar neste processo. Deste modo. utilizei a triangulação dos dados. social e cultural que poderiam revelar para o estudo (GLÉNISSON. Há ainda que se considerar as possibilidades de interferência por parte daqueles que participaram do processo de construção do estudo e por parte da própria análise interpretativa dos achados pelo autor6. 1991. . mas com a intenção de desatar-me de possíveis juízos de valor que poderiam dificultar na abordagem crítica da temática proposta. explicação e compreensão do foco em estudo que serve para tornar o reconhecimento da realidade pesquisada mais abrangente. Paralelamente a esse processo. Desse modo. que a leitura das fontes se abriu em leque para diferentes interpretações. buscando desenvolver um enfoque crítico na conjugação dos achados com o referencial teórico adotado (CARDOSO.109). Não se pode deixar de considerar. busquei exercer um movimento de aproximação nas situações de envolvimento com a temática.

p. busquei seguir os balizamentos suscitados pelo referencial teórico visando alcançar satisfatoriamente os objetivos.138-145). limites esses relacionados aos aspectos individuais calcados na interpretação deste pesquisador e aos limites próprios inerentes à construção de um trabalho científico. Enfim. efetuado pelos movimentos de ida e vinda por emaranhados de uma realidade concreta e complexa. acredito ter estabelecido um conhecimento aproximado e provisório sobre o objeto pesquisado.35 este foi um meio que se fez profícuo no desenvolvimento deste estudo (TRIVIÑOS. de certo que durante o processo de análise. o percurso realizado para a construção desta dissertação. não fixei um esquema rígido e fechado de análise e de interpretação dos dados. A desmobilização das Enfermeiras Febianas. Assim. . Ao combinar esses elementos na produção do trabalho proposto. e Os efeitos simbólicos advindos da participação das Enfermeiras Febianas na Segunda Guerra Mundial. findou nos achados que se encontram dispostos nos seguintes capítulos: As circunstâncias da criação do primeiro grupamento feminino de enfermagem do Exército Brasileiro. 1987.

36 CAPÍTULO 1 Voluntárias da Pátria: As circunstâncias da mobilização de enfermeiras brasileiras para a Segunda Guerra Mundial .

pela repressão e censura política (BRANDI.O CONTEXTO DA APARIÇÃO DO PRIMEIRO GRUPAMENTO FEMININO DE ENFERMAGEM DO EXÉRCITO BRASILIRO Entre 1937 e 1945. que tomou parte do Serviço de Saúde da Força Expedicionária Brasileira por ocasião da Segunda Guerra Mundial. consolidou-se a união quase perfeita entre o Governo e as Forças Armadas. e da criação e organização da Força Expedicionária Brasileira. porque. é apreciada aqui uma descrição diacrônica que envolveu brevemente as temáticas da Segunda Guerra Mundial. 2001). o próprio presidente da República impôs uma constituição caracterizada pelo autoritarismo e pelo fechamento do Congresso Nacional e de todas as câmaras legislativas estaduais e municipais. do Estado Novo. com a criação de inúmeros órgãos de desenvolvimento econômico e social.37 Introdução Este primeiro capítulo abrange as circunstâncias que envolveram a mobilização do primeiro grupamento feminino de enfermagem do Exército Brasileiro. Concomitantemente. Nessa quadra da história. em 1937. da relação entre o Governo Vargas e o Exército Brasileiro. 1. Vargas identificou nos militares sua principal força de sustentação. o Brasil esteve submetido ao Estado-Novo que teve início com um golpe de Estado liderado pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas. Essa tomada do poder foi marcada pela constituição de um projeto nacional autoritário e centralizador.1 . . e planos de integração e desenvolvimento do país. as quais mostraram-se intrinsicamente expressivas na compreensão da (des) aparição social das Enfermeiras Febianas. Assim.

Ademais. a Inglaterra. quando refere que uma articulação política mais efetiva pró-Aliados7 significaria o próprio fim do regime. no país. fixavam-se as idéias de união e de ordem que seu Estado Novo estava pretenso a fomentar (PEDROSA. sob o governo autoritário de Vargas viviam. p. o presidente Vargas fez saber ao governo norte-americano. Por outro lado. muitos simpatizantes do nazi-fascismo. fato que levou os Estados Unidos definitivamente para a guerra. 320). A análise de seu diário confirma esta idéia. p. ditatoriais e extremamente nacionalistas. possivelmente. Essa estratégica neutralidade relacionava-se ao fato de que diversos países. os países americanos. esse estado neutro que foi verificado em relação ao posicionamento do Governo Vargas diante dos países do Eixo tinha. Deste modo. A princípio. p. No dia 7 de dezembro de 1941.15). apesar de Koshiba e Pereira (1996. 2001). p. inclusive o Brasil. 1998. caracteristicamente centralizadores. 255. a França e a China. antidemocráticos. durante a 3a Conferência dos 7 Durante a Segunda Guerra Mundial. . 312. havia um forte lobby pró-estadunidense em voga (SILVEIRA. 1998. pp.291) referirem que o “Estado Novo Getulista” se identificava com os regimes totalitários europeus. Neste mesmo período eclodiu a Segunda Guerra Mundial a partir da invasão da Polônia em 1o de setembro de 1939. Em contrapartida. o presidente estava ciente dos riscos que haveria ao posicionar-se do “lado americano”. a Rússia.181).38 por características das próprias instituições castrenses. 2001. dentre as principais Nações Aliadas estavam os Estados Unidos da América.5. O Brasil acabou sendo “forçado” a declarar solidariedade aos Estados Unidos. 1995. um foco ardiloso que de certa forma visava à manutenção de sua estrutura política (BRANDI. no Havaí. haviam experimentado ou flertado com o modelo fascista que parecia o exemplo de sucesso econômico e político dos anos 30 (HOBSBAWN. pois. chegaram a assumir uma posição de neutralidade em relação ao conflito. guerra esta que deixou o Brasil numa situação delicada. por um breve período.931). o que acabou ocorrendo em outubro de 1945 (VARGAS. os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbor.

Não tardou muito.190. entre outras (PEDROSA.5. rompeu relações com os alemães e os italianos em 28 de janeiro de 1942. foi motivada. A trajetória da neutralidade até o rompimento das relações diplomáticas do Brasil para com a força nazi-fascista. fundada em 1941. que o rompimento de relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália só seria adotado pelo Brasil se os Estados Unidos fornecessem armas e equipamento mecanizado para reequipar as Forças Armadas Brasileiras. SKIDMORE. foi o afundamento de nossa frota naval a causa mais impactante dentre as que determinaram a entrada do Brasil no conflito. 1998.67).39 Ministros das Relações Exteriores. a efetivação da declaração de guerra seria uma questão de tempo. p. e caso se comprometessem a defender o país. e daí para a declaração de guerra. p. enfim. pois centenas de brasileiros foram mortos . eventualmente. proteger o litoral nordestino contra um possível ataque aéreo alemão a partir de Dacar. Em seguida.369. 1996. com o compromisso norte-americano em relação às necessidades de defesa fixadas pelo Brasil. Dentre as causas estavam a necessidade de produção de aço para o país e para o esforço de guerra. p. Gama (1982) esclarece que. De certo que. bem como material militar – inicialmente. o que fora alcançado com a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. Getúlio. uma vez que a necessidade de importar bens manufaturados expunha a Marinha Mercante Brasileira ao ataque dos submarinos alemães. se necessário fosse (FAUSTO. o governo dos Estados Unidos começou a enviar tropas ao Norte e Nordeste do Brasil. pelas circunstâncias dos acontecimentos. e vários dos nossos navios foram torpedeados.a fim de auxiliar a Marinha e a Força Aérea na patrulha marítima e. na África. 1998. aeronaves de combate . e o torpedeamento de nossos navios mercantes pelos aviões e submarinos germânicos iniciados a partir de março de 1941. realizada em dezembro no Rio de Janeiro. após rompidas as relações diplomáticas do Brasil com os países do Eixo. BRANDI. A partir daí. portanto. p.932). 2001.

Alagoas.9 a área do litoral mais exposta às agressões e militarmente importante quanto ao aspecto estratégico. além disso. Portanto. durante toda a guerra foram afundados 32 navios brasileiros. artigos 74 (letra k) e 171 da Constituição Federal. 1992. BRANDI. era preciso. foram constituídas unidades de infantaria. ou seja. 1992. p. fortalecer a defesa do nosso próprio território. passou a ser articulado o envio de um Corpo Expedicionário pelas autoridades do Exército Brasileiro. além de estruturada a defesa civil (NEVES.74). o que aflorou o sentimento de indignação por parte do povo. que foi às ruas para cobrar do Governo uma postura mais ofensiva face às perdas sofridas (KOSHIBA. Em um dos navios morreram romeiros que se dirigiam a um Congresso Eucarístico. 1982. Aliás.291). 2001.5. A declaração de guerra do Brasil ao Japão só ocorreu em 1945 (NEVES.932). nem estrategicamente treinada. 1992. Uma vez organizada a defesa do território nacional. p. p. Paraíba e Pernambuco. Assim. a fim de tornar efetiva a participação do país na guerra. p. vigorava no país um regime ditatorial sem uma estrutura militar efetivamente pronta e em condições (NEVES. artilharia antiaérea e de costa. Para organizar a defesa do “saliente nordestino”. posto que não dispúnhamos de uma organização militar numericamente capaz. p.358. 9 Designação alusiva ao Estados do Rio Grande do Norte. bem como criado um sistema de vigilância de costa.66).40 nesses bombardeamentos. antes de tudo. . PEREIRA. e houve 972 mortes [470 marinheiros e 502 passageiros] entre civis e militares em trânsito para as guarnições do Nordeste.69. poderia-se vislumbrar a possibilidade de se alcançar uma posição vantajosa nas negociações 8 O “estado de guerra” [contra a Alemanha e a Itália] foi declarado em todo o país no dia 31 de agosto de 1942 pelo presidente Getúlio Vargas através do Decreto nº 10. 1996. A declaração de guerra8 do Brasil expôs ainda mais o litoral brasileiro aos ataques dos submarinos alemães. além de inúmeras mulheres e crianças (GAMA.276-277). o envio de uma tropa à guerra acabaria por atender ao interesse dos militares brasileiros em receber novos equipamentos e treinamentos mais modernos. p.

assim.5936) refere que um dos motivos em não se organizar a segunda e a terceira divisões deve-se a uma estratégica decisão presidencial em face às críticas que o Estado Novo passou a sofrer. no dia 9 de agosto de 1943 foi criada a 1a Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE).334 cidadãos. entre outras. engenharia e saúde. Mesmo assim.41 do pós-guerra. como manter internamente uma indisfarçável ditadura se o país estava prestes a enviar tropas para ajudar a acabar com elas [as ditaduras] na Europa? Isto explica. de 9 de agosto de 1943. Brandi (2001.069 integraram a tropa de combate. a FEB foi composta por unidades de artilharia. força combatente da FEB. a hábil decisão de Vargas pelo general Mascarenhas de Moraes para comandar a FEB. . Afinal. Além dessa Divisão de Infantaria. com sucesso. de 13 de agosto de 1943. que atuou na linha de frente. p. inclusive um lugar permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da já prevista Organização das Nações Unidas (NEVES. consistiu em uma decisão do governo brasileiro que teve de superar as restrições dos americanos e a franca oposição dos ingleses. mas as dificuldades em se organizar a primeira fizeram com que todos os esforços fossem nela concentrados (MORAES. ao esforço de guerra. mar e ar que iriam lutar na Segunda Guerra Mundial. SILVEIRA. Inicialmente. p. uma vez que este general era reconhecido por seguir rigorosamente a disciplina militar. que englobou as forças brasileiras de terra. p. Fausto (1998.51-55). Pelo contrário. as quais ficaram a comando do general-de-divisão João Baptista Mascarenhas de Moraes (ABREU. 2005. pretendia-se estabelecer três divisões. p. 2001. em parte.22). Diante disso. Aliás. publicada no Boletim Reservado do Exército. 2005. A despeito desses “obstáculos”. dos quais 15. o presidente Getúlio Vargas começava a atravessar momentos delicados para continuar a se justificar no poder. p. estabeleceu as primeiras normas gerais de estruturação da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária. p.27-29.2284)10. não se colocaria 10 A Portaria Ministerial nº 47-44. 2001. e contou com um efetivo de 25. posto que alguns dirigentes desses dois países consideravam problemático integrar tropas brasileiras.382) defende que a FEB não foi organizada por imposição dos Países Aliados.

123). já claudicante. mas com uma concepção de guerra estritamente defensiva (McCANN Jr. se colocado alguém com habilidade política à testa de uma força bem treinada e armada. que sequer estava preparado para uma guerra restrita de pequenas dimensões. entre outras (SILVEIRA.56-60). a escassa tropa treinada e em condições de que dispunha o Exército tinha que. vitoriosa na Primeira Guerra Mundial. p. sem experiência em ações internacionais. p. na época do conflito a doutrina militar vigente no país seguia a orientação francesa. mas não por ele totalmente constituída.211-246). a ditadura varguista. pois. Além disso. Deste modo. 1992. 1983. Ademais. Além disso. poderia correr perigo (NEVES. sem treinamento de campanha.42 em risco o Estado Novo. 1969. a maior parte da . “assegurar a inviolabilidade de nossa fronteira e manter a ordem interna” (MORAES. e com uma série de problemas financeiros. foi por ele organizada. Vários foram os problemas enfrentados: fardamento inadequado. pois seu efetivo real em 1940 era menos do que 90 mil homens. recusa de alguns militares em participarem do conflito. Como esperado. sem condições de enfrentar o frio e as condições mais adversas de combate. p. falta de recursos para custear a empreitada. 2001.44).. nem poderia ser de outra maneira. Faz-se necessário apontar que a FEB nasceu do EB.. quanto mais para um conflito de proporções gigantescas como foi a Segunda Guerra Mundial (id. deve-se considerar que a FEB era uma pequena tropa oriunda de um país subdesenvolvido e em grande parte miserável. e a idéia inicial era a de mandar 100 mil soldados à luta (NEVES. p. ausência quase que absoluta de reservistas.22). a FEB surgiu sem um arsenal de guerra. 1992. treinamento defasado e apressado. em virtude do desaparelhamento militar do país. sérias dificuldades foram enfrentadas pela FEB quanto à sua organização. de forma que seu arranjo se tornou confuso e conflituoso. p. p. sobretudo pelo desinteresse de boa parte dos chefes militares em lutar do “lado americano”. como admite o comandante da FEB. Neste sentido. 2005.76). material obsoleto.

Ilustração nº 1 . como eram conhecidos os soldados brasileiros – uma cobra com um cachimbo à boca. Os estudantes universitários . 2005. Não tardou muito e logo os círculos acadêmicos e intelectuais da Nação passaram a aprofundar as críticas ao regime autoritário.Símbolo da Força Expedicionária Brasileira Localização: Arquivo Histórico do Exército [fac-símile] Provocada a mobilizar o país contra o nazi-fascismo. que nunca tinham passado pela experiência da caserna. reconhecidos como os melhores do mundo. um grupo social importante emergiu na luta pela democratização. havia na época muitos que acreditavam ser impossível para um país subdesenvolvido e pobre como o Brasil de então atrever-se a combater exércitos alemães.43 tropa que foi enviada era formada praticamente por civis. mas pelo seu prestígio e expressão simbólica. ele era importante não por seu número. Em torno de 1943. que diziam ser mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil lutar contra os nazistas (NEVES. a ditadura de Vargas expôs suas próprias contradições. Devido a essas dificuldades. p.23). É nesse espírito que pode ser reconhecido o símbolo dos pracinhas. Este emblema foi incorporado ao uniforme da FEB para servir de resposta aos incrédulos.

. p. 2001.Um povo reduzido ao silêncio e privado da faculdade de pensar e de opinar é organismo corroído. Ele trazia em seu discurso a garantia de que seria possível garantir a segurança econômica e o bem-estar da população brasileira através de um regime democrático (FAUSTO. Getúlio Vargas definiu várias iniciativas de mobilização civil para a Segunda Guerra Mundial e de constituição de um front interno durante o conflito.htm.org.44 começaram a se mobilizar contra a ditadura. que declarava o seguinte: . assinado por 76 personalidades do Estado de Minas Gerais. especialmente as que tinham como suporte as 11 Disponível em: http://www. e organizaram a UNE e suas seções estaduais (FAUSTO. presidente do Centro Acadêmico Onze de Agosto. Em 30 de novembro deste mesmo ano. Se lutamos contra o fascismo. 1998. A primeira manifestação ostensiva neste sentido foi o Manifesto dos Mineiros11. Este manifesto.. O saldo do choque foi de 25 feridos e dois mortos.. No momento em que o mais antigo – o precursor dos Estados totalitários – naufraga no mar profundo dos seus próprios vícios. No dia seguinte.937). pressente-se que se aproxima.5.384). para que a liberdade e a democracia sejam restituídas a todos os povos. foi preso. os estudantes organizaram uma passeata pelo centro da cidade e na Praça da Sé. Muitas destas iniciativas. certamente não pedimos demais reclamando para nós mesmos os direitos e as garantias que as caracterizam. que foi recebida por veículos blindados e reprimida à bala pela Polícia do Distrito Federal. 1998. p.... a oportunidade de uma retomada de consciência dos valores democráticos. fez um discurso contra a ditadura do Governo Vargas. Revoltados. foi considerado o marco da luta pela redemocratização do país. datado de 24 de outubro de 1943..dhnet.383). durante o „Baile das Américas‟. para todos os povos. Acesso em: 10 jan. p. Hélio Mota. . personalidades da oposição começaram a explorar a contradição existente entre o apoio do Brasil às democracias e a ditadura de Vargas. Apesar dos movimentos reivindicatórios. Concomitante ao movimento estudantil..br/direitos/anthistbr/estadonovo/mineiros_1943. 2007. entre estudantes e populares (BRANDI. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. ao lado das Nações Unidas.

a constituição desse front interno serviu para a consolidação de uma ordem interna que tinha como modelos pedagógicos. interpretada por Dircinha Batista. esboçava-se o início de uma convocação de enfermeiras para.br/som_na_caixa_gravacao. ano em que o Brasil rompeu relações com o Eixo. e tomaram. por extensão. 2007. caso fosse necessário. engajarem-se no esforço de guerra. moldava-se a construção da idéia da “Pátria-Mãe”. posto que um de seus objetivos fosse mobilizar as mulheres para alinharem-nas ao seu discurso. Concomitantemente.franklinmartins. Sob tais circunstâncias. foram de fato efeitos de mobilização ou efeitos de alinhamento próEstado Novo e.45 classes médias urbanas. Estas ações sobrepuseram objetivos políticos do Estado Novo e sua concepção de sociedade. ambos entendidos como disponibilidade total de servir a um sistema de disciplina militar e de devoção incondicional à Pátria (CYTRYNOWICZ. ser cantado apenas por mulheres: Ofenderam a nossa bandeira. esse apelo patriótico constituiu-se numa arma simbólica que o Governo Vargas bem soube utilizar. se for preciso. manejamos o canhão Não temos medo da afronta de ninguém Nós. marcha de Rubens Campos e Sebastião Lima. escoteiros para os meninos e enfermeiras para as meninas. Aliás. segundo a letra. . genericamente falando. como pode ser observado no trecho abaixo que deveria. e composta no Rio de Janeiro em 1942. Brasil! 12 Disponível em: http://www. por exemplo. incitava a participação das mulheres na guerra como enfermeiras em tom mobilizante e exaltatório. Salve a mulher brasileira12. a guerra como um álibi e um modelo de sociedade militarizada.. Assim. A mulher brasileira também teve opinião: Nós seremos enfermeiras E.php?titulo=salve-a-mulherbrasileira. Acesso em: 06 abr. 1998). 1998).com. as mulheres iremos lutar também Cada brasileiro representa um fuzil Para defender a Pátria amada. pró-Aliados. que apropriava a imagem das enfermeiras como símbolo materno de proteção aos soldados (id.

todos. guerreiros. neste caso em especial.95).php?titulo=musica-naguerraintroducao. Isto confirma a assertiva de que. o branco. Neste clima de fervor patriótico e de descongelamento da luta política.br/som_na_caixa_gravacao. 2007. . a arte e a cultura. 1999. através deste instrumento de alcance público. para os ideólogos do Estado Novo. e. p. 13 Disponível em: http://www. heróis. enfim. em nenhum outro momento da República tenha se composto tanto sobre política como no período que envolveu a Segunda Guerra. Talvez. deveriam estar a serviço da Nação (OLIVEIRA. a mulher.com. como as demais atividades.franklinmartins. o negro. gravadas e cantadas. que auxiliava o Governo na mobilização da sociedade para a guerra. Acesso em: 06 abr. o sambista. dezenas de músicas foram compostas. “prometiam” dar seu sangue para derrotar o agressor13. De uma hora para outra o Brasil transformou seu povo em combatentes. na mobilização de enfermeiras. o caipira. No bojo dessa convocação. o mulato. alguns princípios que remetem ao sentimento patriótico que “deveria ser apropriado pelas mulheres” como argumento irrefutável para legitimar sua participação na defesa do país. proclamando a disposição do brasileiro em defender a Pátria.46 Identifica-se nesta canção.

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1.2 - ENFERMEIRAS PARA A FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

Ilustração nº 2 - Enfermeiras que atuaram na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial

Localização: Setor de Preservação da Memória Histórica da FEB, Palácio Duque de Caxias, Rio de Janeiro.

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No bojo da Segunda Guerra Mundial, o Exército Brasileiro já possuía em seus quadros graduados que eram enfermeiros. Eles eram formados pelas Escolas de Formação Sanitária Divisionárias e faziam parte do pessoal subalterno do Serviço de Saúde da Força (BAPTISTA, 1995, p.31).14 Esses homens passaram a serem considerados profissionais desde 1932, quando, através do Decreto nº 21.141, de 10 de março, Getúlio Vargas aprovou o regulamento para o Quadro de Enfermeiros do Exército, conferindo a esses militares, que tivessem concluído o Curso de Enfermeiros da Escola de Saúde do Exército, os mesmos direitos do exercício profissional que possuíam as enfermeiras diplomadas pela Escola Anna Nery [ou qualquer outra escola de enfermagem a ela equiparada], a qual tinha sido elevada à condição de escola oficial padrão do Brasil pelo Decreto nº 20.109, de 15 de outubro de 1931, condição esta que determinava a equiparação de todas as demais escolas, o que perdurou até 1949 (CARVALHO, 1976, p.211212). Sob o amparo deste decreto, o Exército Brasileiro garantiu o controle de seus Quadros de Enfermagem independentemente da influência da Escola Anna Nery, provavelmente mediante a influência do capital político das autoridades militares durante o Governo Vargas. Esta condição demarcou suas posições de poder e prestígio no que se refere à formação de profissionais de enfermagem. Assim, tal controle conferiu àqueles sargentos enfermeiros, formados pelas Escolas de Formação Sanitária Divisionárias, a extensão dos direitos gozados pelas enfermeiras “Padrão Anna Nery” (SILVA JUNIOR, 2000, p, 138-139). Apesar da existência desses enfermeiros no Serviço de Saúde do Exército, foi “necessária” a criação de um corpo feminino de enfermagem, por motivos ainda não muito bem definidos. Parte da explicação envolve a solicitação que foi feita pelo comando do V

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O Decreto nº 15.230, de 1921, regulamentava a formação de enfermeiros no Corpo de Saúde do Exército.

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Exército Americano15 ao Exército Brasileiro, sob a alegação de melhor atender aos soldados brasileiros feridos e doentes que baixassem nos hospitais militares durante a guerra, uma vez que se aliviaria a demanda de profissionais de Enfermagem para atender a tropa brasileira, pois as enfermeiras norte-americanas já se encontravam em atuação no conflito há cerca de quatro anos. Havia também a considerar as previsões acerca dos possíveis problemas relacionados às barreiras lingüísticas entre os soldados brasileiros a serem assistidos pelas enfermeiras norte-americanas (CANSANÇÃO, 2003, p.25; BERNARDES, 2003, p.43). E, também, pelo número relativamente considerável de soldados brasileiros que seguiriam para o front e se aliariam à estrutura do V Exército Americano. Para dar conta dessa exigência norte-americana, o Exército Brasileiro buscou o apoio de D. Laís Netto dos Reys, diretora da Escola Anna Nery à época, para que se viabilizasse a participação de alunas oriundas desta instituição no Serviço de Saúde da FEB (VALADARES, 2001, p.80). Entretanto, a adesão almejada pelo Exército não foi efetivada, devido à proposta desta Força em não conferir às enfermeiras da EAN, que fariam parte do seu corpo feminino, posto militar e remuneração condizente, o que desfavoreceu o auxílio da diretoria da referida Escola nesse pleito. Ou seja, pela proposta do EB, as Enfermeiras Febianas seriam nomeadas oficiais, mas receberiam soldo de praça [segundo sargento]. Curiosamente, elas seriam consideradas militares, mas não para efeito de relacionamento hierárquico, devido ao fato de não possuírem patente. O trecho abaixo reafirma esta assertiva:

... Segundo informações ouvidas por nós, das próprias autoridades superiores da Saúde do Exército, a diretoria da Escola Anna Nery, ao tomar conhecimento das condições de aproveitamento das enfermeiras e dos seus vencimentos, se recusou a colaborar por considerá-las abaixo do nível mínimo de amparo em que são universalmente admitidas profissionais dessa natureza. Tal a precariedade das condições oferecidas pelo Exército, que aquela Escola deu o assunto por encerrado! (MORAIS, 1949, p.409).

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Organização sob o comando do general americano Mark Clark, a qual pertencia ao XV Grupo de Exércitos Aliados, com quem a FEB iria se aliar.

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Essa recusa provocou uma certa confusão na organização do quadro, por isso, o Exército teve que abrir voluntariado, cuja divulgação foi realizada através da imprensa da época (VALADARES, 2001, p.78). Depreende-se, assim, que o reconhecimento dessa situação revelou uma forma suspeitosa e ao mesmo tempo excludente, que provavelmente foi ditada pelos limites nas relações entre os homens e as mulheres à época (PERROT, 1998). De início, como exigência no processo seletivo, era necessário ser brasileira nata, solteira ou viúva sem filhos, ter no mínimo 20 e no máximo 40 anos de idade, possuir diploma de enfermeira ou certificado de curso de samaritana ou voluntária socorrista expedidos por escola de reconhecida idoneidade, ou ainda ser enfermeira profissional portadora de atestado fornecido pelo estabelecimento em que servia, entre outras condições 16. Entretanto, alguns meses depois, parte das condições foram alteradas: mulheres desquitadas passaram a ser também aceitas, a faixa etária mudou para 22 a 45 anos, e foram admitidas mulheres casadas, desde que tivessem consentimento do marido17, também era válido o Curso de Socorrista Voluntária de Guerra oferecido pela Escola Anna Nery. De acordo com Cytrynowicz (2000, p.80-81), este relaxamento sobre as condições exigidas no processo seletivo possivelmente traduz a insuficiência de inscritas. Ademais, há que se considerar a insuficiência numérica de enfermeiras no país, e que, além disso, poucas mulheres se apresentariam devido à tutela masculina sofrida por elas à época (SILVA, 1995, p.153). Para motivar a adesão a esse voluntariado, um forte apelo patriótico esteve presente na propaganda veiculada pela mídia da época, que anunciava a possibilidade de ingresso para a mulher num campo eminentemente masculino. O trecho a seguir ilustra as circunstâncias deste ingresso:
O Jornal O Globo publicou o voluntariado e inúmeras foram as patrícias que de imediato acorreram à sua chamada... Reuni meus documentos e apresenteime sem comentar com a minha família, pois se agisse diferente, nada
16 17

Revista Nação Armada, n.51, fev.1944, p.163-164, 166-168. Revista Nação Armada, n.53, abr.1944, p.120-121.

ao tempo que enfatiza a resistência familiar e social que aquela moça teve que vencer para alcançar seu objetivo. Há que se considerar que divergiram.51 conseguiria. 1998. analisada. inclusive. Portanto. praticamente comuns a todo o grupo.. É lógico e humano que as primeiras reações daqueles que eu tanto amo foram as mais difíceis de acatar. E assim. Os telefonemas foram inúmeros: uns orgulhosos do meu ato. em que eles nunca figuraram como protagonistas. situações essas que foram. Não obstante. na maioria dos discursos das Enfermeiras Febianas que foram analisados. o próprio zelo maternal caracterizava-se e muito com a prestação de cuidados aos soldados. apesar de serem atividades das quais elas sempre e em todos os lugares foram excluídas. Desta forma. outros achando uma ingratidão para com todos que me estimavam. ocasião. de certa forma. as guerras patrióticas tendem a provocar o entusiasmo das mulheres.. percebi com mais evidência que fora o sentimento de servir à Pátria aquele que as moveu com mais intensidade.136). salvo em algumas poucas exceções (PERROT. historicamente. O Globo publicou minha apresentação. o que se configurava numa espécie de extensão das ocupações domésticas. as motivações determinantes da adesão de voluntárias a fim de participarem da guerra. p. Aliás. poucos eram os lucros reais a serem obtidos dessa empreitada. ao terem aderido ao voluntariado. Aliás. uma vez que culturalmente a função social da Enfermagem nas guerras era designada às mulheres. a princípio. de modo relativo. essas brasileiras passaram a estar simbolicamente encarregadas de cumprir o papel assistencial e humanitário de atendimento aos soldados. comentada. .. eu enfrentei entusiasmada o meu ato (Diário pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero) O fragmento acima reforça o sentimento arrebatado que norteou o envolvimento daquela enfermeira ao chamamento pátrio..

80-81). ou possuíam uma condição financeira razoável. tendo como conseqüência. e. O fragmento abaixo ilustra as conseqüências desta “falha” no processo seletivo das candidatas. o termo “diplomadas” foi utilizado para adjetivar as enfermeiras formadas por escolas de enfermagem consideradas “padrão”. de certa forma. Num caso que tomei conhecimento.52 Com relação às candidatas que se apresentaram. Morais (1949. Sobre este assunto. p. um grave inconveniente tenha se revelado pelo julgamento impróprio acerca da relevância da Enfermagem na guerra. a enfermeira americana anotou no prontuário de uma brasileira: not good nurse. destaco a Tese de Doutorado intitulada “PAN-Padrão Anna Nery”: a instituição da identidade profissional da enfermeira no Brasil. e organizou cursos em caráter emergencial àquelas voluntárias dispostas a acompanhar a tropa expedicionária. com a duração de um ano letivo]. pois seguiram para o exterior. Havia também aquelas formadas pelos cursos de Samaritanas [que era considerado uma espécie de supletivo de Enfermagem. para prestarem serviços sem uma remuneração condizente.408) ressalta que só uma pequena proporção era composta de diplomadas [cujo curso tinha duração de três anos]18 ou de profissionais de longa prática. Algumas das escolhidas tinham pouca ou nenhuma formação. sem posto militar definido. que se fez representar como um prejuízo simbólico para o grupo: Isso foi ruim para a imagem das enfermeiras brasileiras. o estabelecimento 18 Neste estudo. Provavelmente. not good girl. Sobre esta situação. percebe-se que o Exército não quis seguir as condições impostas pela Direção da EAN. sem mesmo conhecimentos básicos da arte de Enfermagem [as quais realizavam três meses de treinamento voltado para situações de guerra]. 2001. not good to stay here (VALADARES. ou eram dotadas de uma abnegação realmente extraordinária. a maior parte era composta de “meras” voluntárias socorristas sem nenhuma prática hospitalar. boa parte das que se voluntariaram foram as moças que. transgredindo a ordem social estabelecida à época para as “mulheres de bem”. p. . defendida na Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ) em 2000. deixando o conforto de seus lares. De certo que.

855. desanimadoras às candidatas que se apresentaram. as aulas eram ministradas em diversos locais. e. 19 Durante o CEERE.409).53 de condições pouco atraentes e. da qual foram selecionadas cinco enfermeiras. p. práticas hospitalares. de 8 de janeiro de 1944. e uma no Paraná. publicado no Diário Oficial da União nº 02. Muitas foram as dificuldades que tiveram de ser enfrentadas por aquelas moças para fazerem-se incluídas no corpo da FEB: O curso teve a duração de seis semanas. até mesmo. atropeladas pelos horários. p. e foi organizado em diversos estados brasileiros. uma turma em Minas Gerais que aproveitou três. para nós. Ao todo foram realizados quatro cursos pela Diretoria de Saúde no Rio de Janeiro para preparar essas enfermeiras. pela diversidade de matérias (MORAIS. Formou-se também uma turma na Bahia. Para que o Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército fosse constituído na prática. o que dificultava bastante o deslocamento delas. o qual foi criado e iniciado em janeiro de 1944 (MORAIS. Este curso tinha o objetivo de prepará-las para as situações de guerra. de 3 de janeiro de 1944. que agregou oito. 19 Curso criado através da Portaria nº 5. de 4 de janeiro de 1944.28-30. todavia somente algumas formadas nos dois primeiros cursos foram aproveitadas. pela má alimentação. 1949. . um grupo de enfermeiras insistia em seguir para o front. pela falta de transporte. e treinamento físico. Na capital. compondo. 55). foram seis semanas de correrias sem fim. onde foi verificado o maior número de inscritas. 408). através de instruções teóricas. pelas distâncias incríveis entre os diversos locais de instrução. e transcrito no Boletim do Exército nº 02-S/1. Ainda assim. deveria ser realizado o Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE) pelas voluntárias selecionadas. as enfermeiras passaram por um intenso treinamento militar. assim. com estágio nas principais organizações de saúde do Exército. 2003. ordem unida. de canseiras inauditas. 1949. p. o total de 67 enfermeiras que incorporaram a FEB (CANSANÇÃO.

p. Hospital Central do Exército.54 O fragmento a seguir também demonstra parte dos obstáculos pelos quais tiveram que atravessar. o processo de inserção de mulheres ao meio militar foi bastante dificultoso.412). e as falhas que se fizeram notar durante o treinamento: Eram dadas aulas em vários lugares do Rio de Janeiro: Faculdade de Medicina da Praia Vermelha.. (MORAIS.78-79). de educação física. esposa do ministro da Guerra. Diretora do Posto 23 da Cruz Vermelha. Havia aulas que eu achava desnecessárias. que apoiaram moralmente e materialmente as Enfermeiras Febianas (MORAIS. eu percebi que as coisas importantes não haviam sido ensinadas. lá. a nomeação da esposa do ministro da guerra como patrono das Enfermeiras Febianas não possibilitou que estas capitalizassem lucros simbólicos mediante seu 20 A Comissão de Assistência às Enfermeiras da FEB (CAEF) foi dirigida por Dona Mabel Shaw. 1949. p. que viabilizou a incorporação de um habitus militar para aquelas enfermeiras (BERNARDES. o CEERE representou uma estratégia de homogeneização do comportamento das candidatas. de fazer continência. p. de ordem unida. Santinha Dutra.. de modo a orquestrar um habitus específico para elas. 2003). 2001. foi nomeada patrono das enfermeiras da FEB [pela Comissão de Assistência às Enfermeiras da FEB20]. Cruz Vermelha. Depois. desconfiavam da tomada de temperatura por nossas enfermeiras.. Forte São João. Quando chegava a noite.. Tal afirmação pode ser confirmada pelo seguinte relato: A reprovação social veio a se revelar com toda força quando a Sra. no Largo da Glória. eu estava exausta. o Exército Brasileiro pôde impor seu veredicto mediante um arsenal de métodos e de uma rígida disciplina e de censura do campo. Deste modo. na Itália. Conforme esperado. Dessa forma. dos termômetros americanos em graus Celsius dos nossos. (VALADARES. como fazer a conversão dos graus Fahrenheit. mediante a aquisição de capital cultural. . Às moças que lhe levaram a notícia. Era integrada por moças da melhor sociedade carioca. pois elas foram notadamente marginalizadas neste processo.411). 1949. ela apontou a porta da rua dizendo em voz alta que era contra o fato de mulheres entrarem no Exército e que isso era coisa de moças que „não prestavam‟. Apesar das deficiências apresentadas. Os médicos americanos.

econômicas. Ademais. e aí tudo vai bem. No campo das proposições. do reconhecimento. 1987. institucionalizado ou não. pois o prestígio dos agentes depende do seu capital simbólico. dedicadas ao domínio privado.146) quando afirma que “agir no espaço público não é fácil para as mulheres. comporta dimensões que são. Um outro enfoque a ser considerado a esse respeito refere-se à assertiva de que o direito ao trabalho. na realidade. Santinha Dutra] tachounos de “prostitutas que queriam ir para a guerra para fazer a vida”. esses padrões enfatizam indícios de uma repressão velada que desconsiderou a reafirmação da cidadania de muitas mulheres. ao transgredirem os “estatutos sociais inferiores”. ao mesmo tempo. Sobre o fragmento acima. que recebem de um grupo ou de um portavoz autorizado para falar em nome desse grupo. criticadas logo que se mostram ou falam mais alto.55 voluntariado para a guerra. evoco Perrot (2007. As classes populares . ao salário. “os espartilhos do preconceito teimavam em manter as mulheres bem seguras e dentro dos limites do espaço doméstico.” (DUARTE.89). com diferenças sociais evidentes.. Um outro trecho traduz parte do intento em minimizar a adesão daquelas jovens: As primeiras voluntárias do Brasil sofreram difamações horríveis. Exatamente neste ponto. elas se expuseram a um nível de abstração infame que as situou como objeto de uso sexual. às profissões. A nossa guerra. p. Entretanto. tudo se complica quando tentam agir como homens”. elas apóiam-se em seus papéis tradicionais. p. De certo que. isto é. Até a mulher de um militar de alta patente do Exército [Sra. o conservadorismo que envolve os complexos do machismo e da virgindade caracterizava boa parte da sociedade brasileira da época. Ademais. Com freqüência. verificou-se uma perspectiva constrangedora para aquelas moças de família que iriam “trabalhar como soldados”.. p. começou aqui mesmo (CANSANÇÃO. jurídicas e simbólicas. posto que muitos fossem os maledicentes que enfocavam o assunto com considerações hostis que minorizavam e desprestigiavam a opção daquelas enfermeiras. 1997.224).

p. ele é sentido como um desconforto. Aliás. uma coisa logo se tornou visível: a heterogeneidade das candidatas quanto à instrução. As mulheres. mesmo nessas condições.408). essa “miséria sexual” identificava o corpo das mulheres como um corpo dominado. A preocupação com a heterogeneidade do grupo de enfermeiras se reveste de importância uma vez que os diversos tipos de capitais são instrumentos de acumulação que. pois. pelo menos. ao lado de um suposto comportamento “imoral. esse estilo de vida mundano que cria a distinção. principalmente no que diz respeito ao capital cultural e social de que tinham posse. caridade. foram aprovadas. O recorte a seguir confirma parte dessa assertiva: Na rotina do Curso de Emergência. infame” (FERREIRA-SANTOS. o que não é mais viável no capitalismo..67). havia gente de nível intelectual abaixo das classes médias do curso primário. vêem-se contradições nessas expectativas de papel quando se esperam. No curso da história das mulheres. que fazia-se hostil ao trabalho de mulheres em lugares brutais. a marca da decadência da família. p. p. porém será oportuno lembrar. alguns (des) valores configuravam a representação das Enfermeiras Febianas no campo social.159). ao mesmo tempo. uma vergonha social (PERROT. Assim. convocadas. Um aspecto que chama atenção no grupo de Febianas reside no seu caráter heterogêneo. abnegação. tendem a guardar ainda esse perfume da corte. É por isso que seu eventual “trabalho” é recriminado. A burguesia delega o lazer a suas mulheres. contrários à feminilidade (id. muitas vezes roubado. 2007. em sua própria sexualidade.76-80). e enviadas à Itália! (MORAIS. 1973. Essa violência [simbólica e real] exercida sobre elas era dosada pelo limiar de tolerância da sociedade. p. características de “altruísmo. não tendo havido uma seleção inicial na abertura de inscrição. vitrines do sucesso e do luxo dos maridos. Espantará dizer.56 necessitam do salário das mulheres. . que algumas. subjugado. 1949. mesmo quando o consideram somente um “trocado”. carinho”.

Neste sentido. Além disso.57 quanto maior o volume possuído e investido pelo indivíduo em um determinado campo. Com efeito. era formada pela Escola Alfredo Pinto. 34 eram Voluntárias Socorristas. A título de exemplificação temos: Lúcia Osório [sobrinha-neta do general Osório]. p. 2003. o que provavelmente condicionou seu interesse em aliarem-se à causa da FEB. seus capitais social. decorrentes de sua participação em círculos sociais dominantes. 20 tinham feito o Curso de Samaritanas. filha de industrial] (BERNARDES. neste grupo também existiam moças que não eram oriundas da mesma casta social que as supracitadas.21 Destas. o habitus primário delas influenciou determinantemente na apropriação de suas posições no cenário militar de guerra e em suas aparições públicas. p. ao que indicam as fontes levantadas. 2000. duas eram “enfermeiras de guerra” da Legião Brasileira de 21 Durante o desenvolvimento deste estudo. Por outro lado. MEDEIROS.76. Ademais. uma [Ondina Miranda de Souza]. essa diferença era percebida por parte das Enfermeiras Febianas [mais bem dispostas no campo] como uma condição lamentável para a formação e representação do grupo. algumas Enfermeiras Febianas eram oriundas de famílias de militares e de autoridades governamentais. .280). maiores serão suas possibilidades de ter um bom retorno. os indivíduos podem se beneficiar de suas relações sociais para adquirir benefícios simbólicos. Ou seja. Heloísa Cecília Vilar [filha do almirante Vilar]. Graziela Affonso de Carvalho [filha do governador do Amazonas] e ainda Carmem Bebiano [maior acionista da América Fabril. econômico e cultural posicionaram-nas de modo desvantajoso em relação àquelas outras. não consegui encontrar fontes que descrevessem com exatidão o número total de moças que se apresentaram como voluntárias para a seleção. apenas 67 foram selecionadas para seguir destino aos campos de batalha (Apêndice A). Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero [filha do general Tito Portocarrero]. apenas três eram enfermeiras diplomadas pela Escola Anna Nery [Altamira Pereira Valadares. Das moças que realizaram o Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército. Nair Paulo de Melo e Olga Mendes].

Judith Arêas. mas quando me apresentei não havia ainda sido organizado o 1º Grupo de Caça. CANSANÇÃO. a FAB incorporou mais seis enfermeiras. possuíam baixo índice 22 A Legião Brasileira de Assistência (LBA) foi criada em 1944 pelo Governo Federal para prestar assistência às famílias de soldados convocados para a guerra.108. p. 1976. 61 atuaram nos hospitais de campanha e seis fizeram o curso de Transporte Aéreo de Feridos na Base de Parnamirim. para assistir exclusivamente aos militares combatentes da Aeronáutica. Isaura Barbosa Lima. a Força Aérea Brasileira resolveu recrutar todas as seis enfermeiras entre as diplomadas da Anna Nery. duas eram enfermeiras práticas.100-104). inclusive. 1976. Algumas delas. Maria José Vassimon de Freitas. 24 As enfermeiras formadas pela EAN que representaram a Força Aérea Brasileira na FEB foram: Antonina de Holanda Martins. 2001. Maria Diva Campos. 2000. Dessas 67 enfermeiras do Exército. enquanto que a Marinha não chegou a convocar mulheres para os seus quadros (VALADARES. o que deu origem ao Serviço de Assistência à Família do Convocado (CYTRYNOWICZ. p. 23 As enfermeiras do Transporte Aéreo eram: Dirce Ribeiro da Costa Leite. Ocimara Moura Ribeiro. 25 Como dito anteriormente. Lenalda Lima Campos. Eu teria gostado de ir com a FAB.25 Sobre elas. onde elas atendiam o pessoal brasileiro no 1º Grupo de Caça (SILVEIRA.260). uma era parteira [Zilda Nogueira Rodrigues]. Vale ressaltar ainda que. devido ao modo de inserção diferenciado em relação ao das demais enfermeiras que serviram ao Exército Brasileiro. PORTOCARRERO. 2000). p. 2003). e quatro não tiveram especificado seu treinamento profissional (VALADARES. Valadares (2001. que objetivou o transporte de febianos da Itália para o Brasil e para os Estados Unidos23. verificou-se que estes futuros soldados não tinham nenhum preparo militar prévio. além do EB. em Natal. Joana Simões de Araújo. Regina Cordeiro Bordallo. As seis enfermeiras24 da Aeronáutica serviram exclusivamente num hospital especializado de aviação do Exército Norte-Americano na Itália. Sara de Castro e Semiramis de Queiros Montenegro. optei por não abordar neste estudo as enfermeiras da Força Aérea Brasileira que atuaram junto ao 1º Grupo de Caça na Segunda Guerra Mundial.81) explica o seguinte: Depois do que aconteceu conosco [fazendo referência à qualidade da seleção realizada pelo Exército]. p.58 Assistência22. todas diplomadas pela Escola de Enfermagem Anna Nery. . foram minhas alunas [na Escola Anna Nery]. Durante a seleção dos voluntários que formariam a força combativa febiana.

e eram vítimas de diversas doenças.560 100 95 100 107.135). .2 26 2 2. praças e enfermeiras para a FEB (SILVA.466 78. 2001. p.6 Aptos (as) Nº % 3. Deveriam ser escolhidos aproximadamente 200 mil cidadãos num prazo exíguo de 90 dias.0 22.233 21. no início de 1943. Coube à Diretoria de Saúde do Exército. os vícios de refração.1 23. o que os impediu de participar dos quadros de efetivo da FEB.18). mais de cem mil pessoas foram examinadas pelas juntas médicas. o efetivo a ser selecionado foi reduzido para cerca de 100 mil e o prazo teve que ser ampliado (MOURA. A cardiopatia. Antes do embarque. chama a atenção o expressivo número de jovens brasileiros que foram classificados pelas juntas militares de inspeção de saúde como “incapazes” durante a fase de seleção. a tuberculose.113-114): Ilustração nº 3 . p.801 94.59 de escolaridade [boa parte eram analfabetos]. o qual apresenta o resultado das inspeções de saúde na seleção dos oficias.572 77. conforme pode ser verificado no quadro a seguir. sobretudo daquelas causadas pela má nutrição (SILVEIRA.Resultado das inspeções de saúde na seleção dos(as) voluntários(as) para a Força Expedicionária Brasileira Examinados (as) Nº % 4.4 Oficiais Praças Enfermeiras Total Fonte: Memorial do Serviço de Saúde do Exército organizado pelo general médico Alberto Martins da Silva (2001. e apresentavam os mais variados parâmetros antropométricos. Uma considerável parcela não possuía a saúde desejável.699 100 Resultados Incapazes Nº % 243 6. as dificuldades que surgiram fizeram com que essas diretrizes iniciais fossem alteradas pelo próprio Estado-Maior do Exército. Da análise dos resultados. p. a missão de inspecionar o estado de saúde dos voluntários que seriam enviados ao front.114).8 93 97. o pé 26 Não foi possível identificar precisamente os motivos específicos que classificaram como “incapazes” as duas enfermeiras examinadas e quem eram as mesmas. 2005. 2001.0% 80.9 84. Assim. p.044 100 103.988 22. no entanto. a doença da tireóide. a oligofrenia.

p. fez com que baixassem de bordo para o hospital na Itália cerca de 300 homens. Valadares (2001. p. o que expôs a fragilidade estrutural do serviço médico na seleção do pessoal da FEB. p. Mesmo após a realização dos exames de saúde. 2005.99) defende que uma divisão era tudo quanto podíamos mandar para a guerra. a asma. a discromatopsia. o que confirma a idéia de que os exames médicos a que haviam sido submetidos no Brasil não tinham sido adequados.114). p. . p.60 chato. principalmente a blenorragia (CANSANÇÃO. as afecções dentárias. após travessia do Oceano Atlântico num navio americano lotado (NEVES. foram as causas principais que motivaram a incapacidade física nas inspeções de saúde (SILVA. pois a sofrível constituição da FEB revelou a debilidade e a carência da pobre estrutura social do Brasil. e de enfermagem. a otite. em sua chegada à Itália em julho de 1944. Em virtude da questão vexatória que envolveu o padrão de saúde dos brasileiros examinados.81) complementa esta assertiva ao enfatizar que um certo número chegou a apresentar até mesmo doenças graves. odontológica. as hérnias. catapora. 2001. as varizes. principalmente do pessoal do 1º Escalão. as psicopatias. a situação doentia em que se encontrava boa parte dos soldados recém-mobilizados fez com que. sendo esse um provável motivo para não se continuar a mobilização de novas divisões expedicionárias pelo Estado-Maior do Exército.54).23). farmacêutica. varicela e sexualmente transmissíveis. 1987. com as enfermidades mais diversas. O fato de terem sido deficientemente realizadas as inspeções de saúde. a situação de saúde desses soldados começou a melhorar. e já sob assistência médica. Somente após a instalação dos hospitais de campanha. a epilepsia. o tracoma. coqueluche. Neves (1992. tais como sarampo. a hanseníase. sendo inclusive recebidos a pedradas. pudessem ser confundidos pelos italianos com prisioneiros alemães. antes mesmo de participarem de qualquer combate.

o presidente Getúlio Vargas pronunciou um discurso de despedida aos soldados expedicionários de cima de um palanque que foi montado próximo ao obelisco da Avenida Rio Branco.17).Disponível em: http://www.57). que dizia assim: Chegou a hora de honrar a Pátria. Para tal. o pronunciamento de Vargas reforça sua autoridade e prestígio. a FEB passou a dispor de um grupamento de voluntárias que seriam enviadas para os campos de batalha. 1997).br/dhbb/verbetes_htm/5458_29. de empregar. Esta mobilização teve o intuito de dar sustentação ao discurso do Governo de que não faltaria socorro àqueles patrícios que se prontificassem a defender a Nação. começaram os preparativos para o envio da Força Expedicionária Brasileira para a guerra. 2006. Parte desta idealização pode ser verificada no registro fotográfico a seguir. Acesso em: 25 jun. essas moças sobrepuseram-se ao anonimato e romperam os pressupostos da vida privada para inscreverem suas figuras na vida pública do país (SOIHET. a fala autorizada e digna de crédito” (BOURDIEU.61 Uma vez “pronta”. No que concerne às enfermeiras. uma vez que “a competência legítima é a capacidade estatutariamente reconhecida a uma pessoa autorizada [uma autoridade]. Nesta ocasião.cpdoc. Assim. que sacraliza a possessão da visibilidade social angariada pelo grupo durante o evento supramencionado: 27 Getúlio Vargas (Verbete Biográfico) . até o regresso. quando foi delirantemente aplaudida pelo povo ao longo da Avenida Rio Branco (MOURA. com a vitória.. a Divisão desfilou pelo Centro do Rio de Janeiro. Que a benção de Deus vos acompanhe. mesmo com todas as deficiências existentes.fgv. orgulha-se de vossa coragem consciente. p. 1998. em ocasiões oficiais. p. de vossa dedicação. pois as enunciações são sempre proferidas a quem cabe o direito de enunciá-las. No dia 31 de março. A Pátria tudo espera em vós.. .27 Ao tempo em que reconhece a importância da FEB. 2005.asp. em março de 1944 a 1ª DIE foi concentrada na capital da República para fins de instrução e treinamento. como vos acompanham os nossos espíritos e os nossos corações.

fixa-se na evidência do ato de tornar manifesto para a sociedade a existência de mulheres enfermeiras no campo do Exército Brasileiro.62 Foto nº 1 . A fotografia acima ilustra o desfile da FEB no Rio de Janeiro. A leitura dos signos. Rio de Janeiro. a FEB marchou pelas ruas da Capital de forma impecável e merecedora de emocionantes e entusiásticos aplausos da população carioca. Isto proporcionou uma imagem positiva do grupo. ao mesmo tempo em que refletiu e documentou uma estética inerente à sua aparição no mundo social. general Mascarenhas de Moraes. Palácio Duque de Caxias. 2005. Segundo menção do próprio comandante. num contexto histórico que revelou os atributos da enfermeira como símbolo da Pátria-Mãe.35).Desfile das Enfermeiras da FEB na Capital da República do Brasil Localização: Setor de Preservação da Memória Histórica da FEB. que envolvem a expressividade simbólica contida no texto fotográfico. os expedicionários tiveram a oportunidade de apresentarem-se em público e de receberem solenemente as despedidas da presidência da República (MORAES. Nesta ocasião. Neste sentido. o aspecto ideológico advindo do ato de “tornar o . p.

e até mesmo oficial. que fizeram parte do Destacamento Precursor de Saúde28. fazendo-as segregadas do seu campo ao não ter conferido a elas o direito a posto e à remuneração condizente.261). no desfile pelas ruas da Capital da República. Neste sentido. Ignácia de Mello Braga e Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero. no dia 15 do mesmo mês. a inserção delas no espaço público. em cinco escalões sucessivos. confere a ele a possibilidade de angariar um poderio social alcançado pela percepção de sua legitimidade. o próprio Exército que as tinha convocado oficialmente. e chegaram à Nápoles. objetivou perpetuar sua expressão simbólica no âmbito social. Todos estes escalões cruzaram o Oceano Atlântico e penetraram no Mar Mediterrâneo protegidos por poderosas escoltas aeronavais. que favoreceu. embarcaram [de avião] para o front um grupo de cinco enfermeiras. de torná-lo público. do Porto do Rio de Janeiro para a Itália. 28 As primeiras enfermeiras que partiram sigilosamente para a Itália foram: Antonieta Ferreira. 2000. um dia antes da chegada do 1º Escalão da FEB (PORTOCARRERO. posto que sua manifestação reproduz a crença da imposição de sua existência e de sua representação. p. Aliás. Aliás. Carmem Bebiano. onde se delineavam divisões simbólicas dos sexos sólidas e invisíveis. Elas saíram do Rio de Janeiro na madrugada do dia 7 de julho de 1944. . na Itália. não as acolheu de fato. de certa forma. o qual se deslocou para o teatro de operações em navios de transporte de tropa da Marinha Norte-Americana. conferindo ao grupo certa projeção de sua expressão. isto é. as Febianas tiveram que se empenhar em lutas para se integrarem num campo que historicamente se mostrou hostil às mulheres. de 2 de julho de 1944 a 4 de fevereiro de 1945.63 grupo de enfermeiras do Exército manifesto”. a capacidade de fazer um grupo existir em estado explícito. todas do Rio de Janeiro. não se percebe nas publicações feitas sobre elas um esforço mais consistente que procurasse definir em extensão e profundidade a sua incorporação no mundo masculino das Forças Armadas. Elza Cansação Medeiros. dizível. visível. Após esse desfile. Esta aparição das Enfermeiras Febianas no desfile foi noticiada pela imprensa da época. Entretanto. comandadas pelo major médico Ernestino Gomes de Oliveira.

Camisa verdeoliva igual à dos oficiais. simples. trocando-o pelo verde-oliva quando saíssem (SILVEIRA. já na Itália. boné com pala [depois abolido]. o Chefe de Saúde da FEB percebeu o desastre e ordenou que fossem distribuídos imediatamente uniformes de trabalho idênticos aos das americanas (MORAIS. p. uniformes feitos de três tipos de fazenda: brim. O contraste com as americanas. Quando vi semelhantes horrores. O trecho a seguir descreve bem a situação em questão: A feitura dos nossos uniformes foi providenciada já nos últimos dias do Curso. Esses os uniformes de passeio. casquete.413-414. Desta forma. cinza. Desta forma. Um outro problema ocorreu. quando. segundo se murmurava. modelo comum usado pelas enfermeiras do Rio.108).. viajaram por via aérea [Rio-Natal-Dacar-Nápoles]. elas não eram consideradas como “militares de fato”. 1949. sapato preto. Um avental. Imaginava também que iríamos viver apenas no meio de tropas brasileiras. Calculem agora a triste figura. ao contrário de suas colegas americanas com quem cruzavam e que portavam a patente de oficial. grifo meu). nos seus frescos e graciosos uniformes de excelente fazenda de algodão. Somente 111 militares. pois não era lenço. Agora a história triste dos uniformes de serviço: Imaginem um vestido de algodão ordinário. p. saia simples com apenas uma prega macho na frente e outra atrás. de má qualidade e pouco prático. sapatos marrons de ótima qualidade. solução que o general . meias de seda. 2001. das primeiras moças. consolei-me pensando que iríamos usá-los na África.. Ao chegarem à Itália. o serviço médico americano se recusou a admitir em seus hospitais enfermeiras que não fossem oficiais. cor verde-oliva. o qual autorizou que as enfermeiras brasileiras usassem o uniforme de serviço americano no recinto do hospital.64 em vista dos perigos da ativa guerra submarina desenvolvida pelos alemães e italianos. como não fora prevista nenhuma graduação militar para as Enfermeiras Febianas. entre os quais as 67 enfermeiras do Exército. também saia do mesmo tecido e um pavoroso pano – esse é o termo. Compunham-se de uma túnica de feitio idêntico ao dos oficiais. Foi um choque! Felizmente. meia de algodão. lã e gabardine. os dois últimos bonitos e vistosos. branco com listinhas miúdas de cor bege. gravata da mesma cor. pois o material fornecido a elas em termos de vestuário fora inadequado. Este problema só foi resolvido com a intervenção do coronel Marques Porto [Chefe do Serviço de Saúde]. o coronel Marques Porto tomou a iniciativa de distribuir entre as enfermeiras as estrelas de insígnia de 2º tenente. as enfermeiras se depararam com novas dificuldades. nem touca – para ser amarrado na cabeça. uma vez chegadas a Nápoles.

2003. cadete.49). além de garantir-lhe tratamento diferenciado e direito de ser tratado socialmente conforme o posto que ocupa (BERNARDES. Sobre essa questão.108. p. Várias vezes tive que fazer sentir que ali tínhamos as mesmas funções. 2001. o que confere um direito de ser e um dever ser. coronel.. 1º tenente e 2º tenente] e as graduações são facultadas às praças [aspirante-a-oficial. Éramos também de tropa diferente e não subordinadas a elas (CANSANÇÃO. provavelmente boa parte desses dissabores poderiam ter sido evitados se o Exército. que procuravam nos dar ordens. p. general-de-brigada. A ilustração a seguir serve para assinalar a posição que as Enfermeiras Febianas passaram a ocupar na estrutura hierárquica do Exército Brasileiro. Sobre tal situação. embora a questão de postos fosse diferente. general-de-divisão. Alguns choques tivemos com as enfermeiras americanas. 1987. Os soldados. efetivando todo o grupo no referido posto. 3º sargento e cabo]. ao terem sido arvoradas no posto de 2º tenente: 29 Estatuto dos Militares (1942).65 Mascarenhas de Moraes endossou. Cabe salientar que na estrutura hierárquica do Exército Brasileiro.80. não possuem graduação. ainda no Brasil. tenentecoronel.). MORAES. 2005. . na cadeia hierárquica.. passamos por inúmeras situações difíceis (. p. os postos são destinados aos oficiais [marechal. 2º sargento. p. VALADARES. major. destaquei o seguinte trecho: Por termos saído do Brasil sem posto hierárquico regular. sargento ajudante.291-292). 1º sargento. artigos 85 e 87.29 Estes postos e graduações instituem uma identidade ao militar. ao tempo em que lhe prescreve padrões e normas de comportamento. capitão. 2001. p.224-225). tivesse levado em conta a posição da Direção da Escola Anna Nery acerca da falta do posto hierárquico às enfermeiras (SILVEIRA. subtenente. principalmente com chefes.

e inclusive tecem aspectos sobre a difícil atuação delas nos campos de batalha na Itália. Em outras fontes secundárias que tratam da participação dessas enfermeiras no front.66 Ilustração nº 4 . várias são as passagens que expõem diversos acontecimentos .Escala hierárquica dos postos e graduações do Exército Brasileiro Estudos como o de Silva (1995) e o de Bernardes (2003) apontam para uma série de embates que tiveram que ser enfrentados pelas Enfermeiras Febianas durante sua inserção no campo do Exército Brasileiro.

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comoventes e que ilustram o cotidiano dramático vivido por elas nos hospitais de campanha. Apesar do magnetismo que essas temáticas envolvem, sua abordagem neste estudo desvirtuaria o encaminhamento dos objetivos propostos. Ademais, vale ressaltar que a partir da análise das inúmeras fontes consultadas, verifiquei que a participação das Enfermeiras Febianas na guerra foi marcada por diversos elogios, oficiais e não-oficiais, concedidos pelos chefes militares e por boa parte dos febianos que receberam seus cuidados, sendo inúmeros os episódios relatados em livros que descrevem seu carinho e abnegação. O trecho do elogio proferido pelo comandante da FEB exemplifica parte dessas referências, ao tempo que sacraliza alguns elementos até agora tratados neste estudo30:

Coube à nossa enfermeira, além de sua missão profissional, representar as virtudes da mulher brasileira entre homens e mulheres de várias nacionalidades no convívio cotidiano dos hospitais norte-americanos. As nossas compatriotas, que acorreram ao chamado da Pátria, prestaram excelentes serviços à FEB durante a sua permanência em território italiano, enfrentando e vencendo obstáculos numerosos. Ainda no Brasil, sofreram a maledicência impatriótica de alguns. Na Itália, viveram e serviram em hospitais norte-americanos, onde, além das dificuldades advindas das diferenças de idiomas e hábitos, suportaram por algum tempo a inferioridade hierárquica e pecuniária em relação às suas colegas americanas, com quem conviviam. Não obstante os óbices encontrados, as enfermeiras incorporadas à FEB atenderam com abnegação e proficiência aos nossos feridos e doentes, dando um veemente e nobilitante testemunho do valor da mulher brasileira.

Este elogio, por ter sido professado pelo marechal Mascarenhas de Moraes, porta-voz autorizado e mandatário legítimo do poder institucional do Exército, investiu às Enfermeiras Febianas o valor consagrador de sua participação na guerra, pois o efeito simbólico das palavras consagradoras depende da posição social de quem enuncia, uma vez que o porta-voz autorizado consegue agir com palavras em relação a outros agentes, “na medida em que sua fala concentra o capital simbólico acumulado pelo grupo que lhe conferiu o mandato e do qual
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Este elogio foi publicado no Boletim Interno nº 45, de 14 de fevereiro de 1945, da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.

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ele é, por assim dizer, o procurador” (BOURDIEU, 1998, p.89). Assim, esse lucro simbólico atribuiu uma essência ao ser e ao fazer daquelas enfermeiras, além de tê-las identificado positivamente tanto no aspecto pessoal, e, de certa forma, também no profissional. Um outro texto, com o título sugestivo “Exaltação”, evoca as características meritórias que envolveram a atuação das enfermeiras no front, além de entoar alguns valores [estereótipos] relativos ao altruísmo envolto na prática social de Enfermagem31:

EXALTAÇÃO
Enfermeira do Brasil eu agradeço A tua solicitude e o teu carinho! E, ajoelhado aos pés da Virgem, peço Que, de flores, tapetize o teu caminho. Tua infinita bondade nunca esqueço. Ao ver-te consolar quem, tão sozinho, Veio, da guerra, enfrentar rudes tropeços, Deixando o lar, a esposa e o filhinho... Em nossos corações que sangram fundo, Ao contemplar o estertor do mundo, Que se torce em convulsões e ânsias mil, Existe um pedestal feito de ouro Onde foi colocado esse tesouro... - Mulher sublime - ENFERMEIRA DO BRASIL!...
À expedicionária irmãzinha senhorinha Virgínia Portocarrero, com toda amizade e admiração, de [Sargento] Moacyr Torres 16th Evacuation Hospital – Pistóia, 31-III-45.

Ao se fitar os elementos grifados no texto, percebe-se os valores que cercearam a representação simbólica daquelas enfermeiras na guerra. A própria dedicatória reforça o que diz o poema, pois as Enfermeiras Febianas “encarnaram” nos hospitais dos campos de batalha o papel de mães, de irmãs, de esposas, enfim, de símbolos imagéticos que nutrem e que cuidam dos filhos, dos irmãos, e dos esposos durante a guerra. Assim, os soldados do Brasil
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Este texto foi localizado no diário pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero (grifos meus).

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encontraram nas “suas” enfermeiras o carinho e a solicitude que, de modo figurado, compensavam a ausência do lar. O discurso das próprias Enfermeiras Febianas aponta com exatidão para este sentimento, como pode ser comprovado no trecho do depoimento a seguir:

Era uma família! Nós éramos a família do praça! Se ele não recebia a carta, chorava com a gente porque não recebeu a carta. Se ele recebia a carta com alguma notícia boa, vinha correndo falar com a gente. Qualquer apoio familiar, afetivo... Tudo era com a gente! Eles se sentiam apoiados... [Eles] estavam numa terra estranha, falando língua estrangeira, sem ninguém da família, sem nada... Os familiares que eles tinham éramos nós (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros).

Ainda sobre este aspecto transcrevi parte de uma mensagem escrita pela Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero, que consta de seu diário pessoal, cujo texto foi redigido em homenagem ao “Dia das Mães”, que foi comemorado naquela ocasião no segundo domingo do mês de maio de 1945. Esta mensagem foi dirigida aos soldados baixados na enfermaria de um dos hospitais de campanha, onde a referida enfermeira dizia assim:

Nesta magnífica noite, que aqui tão distante estamos de nossas adoradas mãezinhas, lutando pelo Brasil, sentimos e recebemos o beijo cheio de graça, que essas lindas e luminosas estrelas nos vieram trazer. Teu filho, mãezinha querida, teve uma grande missão para cumprir, distante de tua Pátria, e assim, neste teu dia, em cada enfermeira te sintas representada por uma mulher brasileira, que também deixou seu lar e sua mãe adorada. Ela cuida com carinho e inteiramente se dedica ao soldadinho ferido, ao teu filho, santa mãe. (...) Espere-o mãezinha, ele voltará ao teu carinho, e te dirá com a consciência do forte que está satisfeito consigo mesmo, por ter sido uma parcela na cruzada santa em que se empenhou, e ele te dirá também que nas horas de saudade uma pequena enfermeira patrícia, falou-lhe de ti neste dia na voz feminina do Brasil. (...) Sei que não a substituiremos, mas um dia a Pátria devolverá teu filho, e a lágrima de nossa alegria juntar-se-á à tua festejando a vitória, para que concorreram o teu sacrifício e o patriotismo de teu filho: o soldado brasileiro.

Essa virtuosa aproximação trazia em sua essência a incorporação de atributos intrínsecos à natureza feminina pelas enfermeiras [carinho, paciência, piedade, abnegação, meiguice,

a cidadela das nossas virtudes e das nossas supremas esperanças de felicidade e de paz.as mães. sabem e sentem e vêem em nossa bandeira a síntese perfeita da altivez.. que identificavam enfaticamente o seu trabalho ao papel materno. A única presença efetiva da guerra no território nacional foram as bases norte-americanas instaladas no Nordeste e os cerca de 32 navios brasileiros afundados na costa do país em 1942. Ademais. (CAMERINO. sem desesperos domésticos egoístas e pequeninos. na ocasião da partida delas para a Itália em 1944. .. que se fazem imprescindíveis à enfermeira. 1973. Neste meio. porque sou o eco fiel desses corações que. Porém. 1983. o que sugere a idéia de ser este um ato sublime. situações de vida em meio à morte. docilidade. as filhas..30-31). apesar do país ter enviado um Corpo Expedicionário à Itália. O próprio discurso da Enfermeira Olímpia de Araújo Camerino. violentamente. p. Aliás. sobre as repercussões que a guerra teve no Brasil. vale ressaltar que. espírito missionário. e falar sem lágrimas.... ele jamais experimentou um impacto militar direto. Num outro enfoque. esses estereótipos sobre a profissão reuniam valores simbólicos que explicitavam as ideologias correntes acerca da percepção social sobre a prática de Enfermagem à época. as esposas. muito mais reconhecida como caritativa do que profissional (ALCÂNTARA in FERREIRA-SANTOS. não sofrendo bombardeios nem invasão. aqui está a mulher brasileira.. as noivas.70 caridade]. provocando 972 mortes aproximadamente. estes afundamentos não eram parte de um plano de invasão por . o teatro de guerra evoca um mundo mágico onde se disputa. as irmãs. tenho o supremo privilégio de falar por todas as mulheres brasileiras. aqui estamos. de vigília.66). p. da soberania nacional.] Neste momento inigualável. solidariedade.. desde o berço. O trecho acima reproduz parte do imaginário social acerca do trabalho colaborador da enfermeira que se sacrificaria pela Pátria. Em defesa do lar. reforça os aspectos ora levantados: [. geralmente são reforçadas qualidades como abnegação.

. trazia à população informações de primeira mão sobre os combates na Europa com base nas publicações do jornal matutino “A Manhã” e do vespertino chamado “A Noite” (MOREIRA. 2005. MORAES. Entretanto. Além disso. p.38.php. 2007). e não foram percebidos assim no Brasil. pois não havia no país a tradição de uma imprensa livre.936. . o 1º Escalão iniciou suas ações contra as defesas alemães. 1979.5. a FEB amargou pesadas derrotas ao tentar conquistar Monte Castelo. p. mas também eram verificadas as limitações de ordem cultural.radiobras.217-218). 1992. a força brasileira libertou dezenas de vilas e cidades italianas (BRANDI. política e institucional. Disponível em: http://www. famoso noticiário radiofônico criado em 1941. p. desprovida dos recursos àquela época que a partir do fim da guerra haveria de modernizá-la e dinamizá-la. 2005. Em seguida. p. Durante as primeiras operações nas frentes de batalha [nos últimos meses de 1944]. 2001. Não eram apenas a de ordem material.br/nacionalrj/especialnacrj/html/robertosalvador.276-277). Um aspecto marcante para muitos pracinhas foi a rendição alcançada pela FEB de 20. nem tampouco afinidade generalizada com a causa aliada (NEVES. GAMA. Além disso. os quais faziam parte da 148ª Divisão de Infantaria Alemã. p. passada a fase inicial de “má sorte”.gov. Acesso em: 14 abr.32 No que tange à presença da FEB na Europa. a FEB consegue tomar o Monte em 21 de fevereiro de 1945.71 parte da Alemanha Nazista. deve-se levar em conta a maneira limitada como os meios de comunicação reportavam a participação da FEB na Segunda Guerra Mundial. que possuía um arsenal de guerra bastante superior e preparo mais aprimorado de seu pessoal em relação à FEB. e inaugura em seguida uma série de vitórias que passaram a destacá-la expressivamente.573 soldados germânicos. cuja locução ficava a cargo de Heron Domingues pela Rádio Nacional. o “Repórter Esso”. após um curto período de treinamento e adaptação. LACOMBE.229. 32 A título de ilustração. 1998.34).. 1982. diferentemente do escalão precursor. não tiveram o mesmo treinamento e adaptação. embora tenham causado impacto na população do país (CYTRYNOWICZ. este escalão febiano foi completado com a chegada sucessiva dos outros escalões que. p.

.72 Após um período de 239 dias de atividade ininterrupta33. 1995. dos 25. p. Glória a Deus nas alturas e paz entre os homens de boa vontade na Terra!”. cessaram-se todas as hostilidades. o fardamento inadequado. contra as quais os febianos empreenderam árduas lutas e surpreenderam a opinião de muitos que não queriam sua vitória. Silveira (2001. Já no dia 8 de maio de 1945. ela foi uma divisão de infantaria que atuou num conjunto de forças compostas por 23 divisões. o estado de saúde precário. enfim. 143) explica que esta Força teve um efetivo pequeno em relação às Forças Armadas dos Estados Unidos. Publicada no Boletim Interno nº 123. dos quais 35 caíram prisioneiros dos alemães e não foram recuperados (COSTA. terminou oficialmente a Segunda Guerra Mundial. p. “Dia da Vitória” na Europa. Na guerra. verifica-se um posicionamento honroso ao ser comparada proporcionalmente com uma divisão aliada. todas as dificuldades que se revelaram como forma de violência real. Inglaterra e Canadá. em um teatro europeu que contou com cerca de 110 divisões aliadas. a FEB encerrou suas operações na Itália alcançando o mérito de ter obtido inúmeros elogios por parte dos comandantes do Exército Norte-Americano. Sobre o fim da guerra. perdemos aproximadamente 451 combatentes e tivemos cerca de 1. aos trinta dias do mês de abril de 1945. No dia 3 de maio.577 feridos e 1. Após a derrota de Hitler e Mussolini na Europa. Vale lembrar que. Ademais. há que se considerar o perfil do soldado brasileiro. o despreparo militar. No entanto.10.145 acidentados. de 3 de maio de 1945. o general Mascarenhas de Moraes dirigiu aos combatentes brasileiros a seguinte Ordem do Dia34: “A ordem de cessar fogo acaba de ser dada a todas as tropas que combatem na Itália. Acerca do capital simbólico que a FEB conseguiu angariar através de sua participação na Segunda Guerra Mundial. apesar da glória alcançada. uma enfermeira declarou o seguinte: 33 34 A Força Expedicionária Brasileira atuou de 6 de setembro de 1944 a 2 de maio de 1945. marcada pela assinatura incondicional da rendição dos militares alemães.334 expedicionários que seguiram para a Itália. da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.47). além de 58 extraviados.

..) Foi um místico de alegria e de sofrimento. tanto militares como civis (SILVEIRA.) Os baixados vibraram dando vivas. assobiavam.. uma vez que os febianos poderiam mobilizar sua força material e simbólica sobre a estrutura política do país...200).. Não iríamos mais perder ninguém. Estou trêmula de emoção! (Diário pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero) Antes mesmo do fim das hostilidades. pois uns pulavam.... Estou atordoada e achando impossível! Parece um sonho! A guerra acabou. p. em julho de 1945. Esta ação foi resultado de uma preocupação com as possíveis conseqüências da chegada da FEB ao Brasil. Dentre os que apoiaram a decisão presidencial estavam o ministro da Guerra [general Eurico Gaspar Dutra] e o chefe do Estado-Maior do Exército [general Góis Monteiro].. pela autoridade e pelo capital que angariaram no decorrer das lutas simbólicas e reais que travaram. vitoriosa e prestigiada. em lugares pouco apropriados. o destino da FEB já era objeto de conjecturas e preocupações em vários setores.Essa foi uma alegria muito grande. Não tardou muito. enquanto a FEB aguardava seu regresso ao Brasil. Desse modo. os expedicionários passavam seus dias em um ambiente de ócio. e nós já poderíamos voltar pra casa! (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros). Nossa gente não ia mais morrer. que trabalhava comigo (. e pelas eventuais repercussões políticas que traria. O diário pessoal de uma das Enfermeiras Febianas também descreve este momento de emoção vivido por elas: Quem me deu a notícia do término da guerra foi o cabo São Paulo Filho. porque daquele dia em diante não teríamos mais mortos.. Oh! Grande dia. quando a maior parte do contingente ainda estava na Itália. resolveu desmobilizar a Força Expedicionária Brasileira. considerados os “inimigos da FEB” (PINHEIRO. Enquanto aguardavam o dia do embarque para o Brasil... temente de que a nova visão de mundo dos expedicionários poderia ser incompatível com o regime ditatorial do Estado Novo.73 . 2001.. gritavam. o presidente Vargas. e logo . e outros choravam de emoção! (. 1980).

e ficariam automaticamente subordinados ao comando da 1ª Região Militar para os fins administrativos e disciplinares que se fizessem necessários. por conseguinte. Devido a essas circunstâncias. Este documento determinou que os expedicionários fossem excluídos da FEB à medida que desembarcassem no Rio de Janeiro. p. havia graduados e oficiais altamente politizados. Os militares de carreira. os conscritos. todavia esse período durou pouco. a FEB começou o seu retorno à Pátria (SILVEIRA. pois. A dissolução da Força Expedicionária Brasileira foi oficializada. este documento legitimou também a subtração do comando do general Mascarenhas de Moraes. Discussões sobre política no pósguerra [imediato].74 começaram a surgir problemas decorrentes da inatividade e da incerteza quanto à data do retorno. assim. No início. passaram a ser uma constante. Em conseqüência. uma grande frustração. então. os voluntários. um processo de rejeição simbólica da FEB que iria persistir por algum tempo. o Exército Brasileiro contribuía para o reforço simbólico da manutenção da ordem política e militar. Deste modo.201-202). depois. tornou-se mais alegre e descontraído. que permaneciam nas fileiras. Assim. através do Aviso Ministerial nº 217-185 (reservado). e mesmo alguns ativistas. 2001. uma vez que começou a circular a notícia do embarque do 1º Escalão de volta para o Brasil. Nos acampamentos. A dissolução . de 6 de julho de 1945. o pessoal da reserva [caso das Enfermeiras Febianas] foram “para casa”. a surpresa gerou perplexidade. Além dessas determinações. dentro da FEB. os chefes militares passaram a temer que a disciplina pudesse ser abalada. uma espécie de tabu durante a campanha. até que recebessem destino definitivo. tiveram um choque ao verificar a maneira rápida com que foram tomadas as providências de ordem administrativa para a imediata desmobilização. intensificavam-se conversas e debates sobre temas políticos. O clima. em julho de 1945. Iniciava-se. inclusive comunistas. como não poderia deixar de ser.

porque ela era uma tropa altamente treinada que combateu uma ditadura. e vai embora pra casa! (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) No seio do Exército. Entretanto.. e ele era um ditador! (. p.62). que se sobrepôs a qualquer outra consideração (SILVEIRA. p.231). 1983. p. o Dutra. deu „barata voa‟ na FEB..) Quem era da ativa ele mandou pras fronteiras. quer dizer. 2001. então. A partir da triangulação das fontes primárias e secundárias. também. sendo desmobilizadas pelo Governo Federal através do Exército à semelhança de seus companheiros [soldados da FEB]. “Nesse regresso. O comando geral. inveja.75 precipitada da FEB foi um ato político. as jornadas foram mais sofridas.. uma enfermeira assim expressou: . pouca receptividade de outros.. na mesma hora foi pra rua! Entregava o material no quartel. Viu-se.. De um modo geral.230-231).. a fim de que não se viesse cultivar no país o “perigoso ideal febiano” de combater os regimes autoritários (PINHEIRO. 2001. 2001. a FEB no seu regresso foi recebida pelo Exército com altos e baixos. os expedicionários que já pertenciam previamente ao serviço ativo da Força foram reincorporados e classificados pelas diversas unidades do país (VIEIRA. O Getúlio tinha medo do pessoal da FEB. muita receptividade de alguns militares. apesar desse reconhecimento acerca do valor de sua atuação.. mágoa.. Confirmando esse interesse político em desmobilizar a FEB. . elas foram “desligadas” das fileiras do Exército Brasileiro após o término da Segunda Guerra Mundial sem qualquer explicação. percebi que a contribuição das Enfermeiras Febianas teve um significado simbólico positivo para o êxito da campanha da Força Expedicionária Brasileira. Espalhou todo mundo! E quem era da reserva [caso das Enfermeiras Febianas inclusive]. 1980). pagar castigo nas fronteiras. ressentimentos em certos setores (COSTA..” (CAMERINO. p..85).

76 CAPÍTULO 2 A desmobilização das Enfermeiras Febianas .

Um dos grupos de Febianas.(RE) ORDENAÇÃO DOS ESPAÇOS: O RETORNO DAS ENFERMEIRAS FEBIANAS AO LAR Depois de terminada a guerra. Jurgleide Doris de Castro. ainda na fase de organização do Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército.77 Introdução Neste capítulo. priorizei uma análise voltada para os desdobramentos da desmobilização das Enfermeiras Febianas. Sylvia Pereira Marques. . ato este que trouxe em seu bojo a consolidação de um processo de exclusão dessas mulheres do campo do Exército Brasileiro que. foram transportadas de caminhão para Nápoles. e já sabidamente desmobilizadas. por terem que seguir para o Brasil. pelo Exército] em sua desmobilização. Ademais. Neste percurso. começou o seu movimento de retorno sob as seguintes circunstâncias: Depois de evacuados os baixados. Ondina Miranda de Souza. na cidade de Livorno. em virtude da violência simbólica a qual foram submetidas pelo Governo [e por extensão. Deste modo. Assim. expus aqui as estratégias de resistência que elas operaram no sentido de dar visibilidade à sua participação na guerra. 2. uma das viaturas que levava os 35 O referido grupo eram composto por: Antonieta Ferreria. já havia se iniciado desde a seleção [dificultosa]. iniciou-se o [difícil] retorno à Pátria das Enfermeiras Febianas que ainda se encontravam na Itália. Novembrina Augusta Cavallero. [as enfermeiras do 16th Evacuation Hospital] foram excluídas do estado efetivo da Unidade a qual estavam incorporadas. De lá. elas foram recolhidas ao 7th Station Hospital.1 . Helena Ramos. Neuza de Mello Gonçalves. como visto no Capítulo 1. Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero e Wanda Sofia Magewsky (Diário pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero). essas tomadas de posição trouxeram em seu íntimo a reprodução de uma força que elas acreditaram possuir. Elita Marinho. Carmem Bebiano. que havia atuado no 16th Evacuation Hospital em Parola35 até o dia 3 de junho de 1945.

Muitos militares feridos [inclusive inimigos de guerra] permaneciam baixados nas enfermarias dos hospitais de campanha americanos. pequenos grupos. enquanto outras seguiam de volta para o Brasil (VALADARES. [A bagagem] nos seria entregue aqui no Brasil. pois tudo era pago. Fausta Nice Carvalhal. retornou para o Brasil o grupo que havia servido em Livorno36. à Natal. No dia imediato. Apesar de terminada a guerra. Se tivesse vaga no avião. Lygia Fonseca. além de quinhentos mil réis em dinheiro. nem todas as Enfermeiras Febianas puderam voltar imediatamente ao Brasil. elas entregaram a bagagem de excesso e ficaram somente com a permitida. apresentamo-nos em Nápoles.. Assim. seguiram todas as enfermeiras de avião. Amarina Franco Moura.. Nicia de Moraes Sampaio. 2001. no Posto Regulador. Deram-nos a quantia de 500 mil réis para gastarmos na viagem. Haydée Rodrigues Costa.78 doentes incapacitados passou por uma mina e desgovernou-se. de acordo com os hospitais em que serviam. Só trouxemos o necessário. Minha bagagem ficou retida lá. Alice Neves Maia. Após estas enfermeiras. na base aérea de Parnamirim.. Todos os dias nós íamos à base só com nossa bagagem de mão.88). passando por Tunis. nós íamos. E. os quais foram sendo desativados aos poucos. e depois os oficiais que antes de nós chegaram [ao Posto Regulador].. porque primeiro estavam vindo os doentes.. já haviam regressado ao Brasil (Diário pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero). devido ao intenso trabalho que ainda havia. a Enfermeira Virgínia Portocarrero declarou o seguinte: Quando terminou a guerra. Elza Ferreira Vianna. Lindáurea Galvão. Assim. . Ilza Meira Alkimin. p. Em datas anteriores. Casablanca e chegando. por fim. onde receberam orientações sobre a bagagem e sobre o câmbio do dinheiro para a viagem. Ficamos em Nápoles aguardando vaga de avião. além da morte de um soldado. Ao chegarem à Nápoles. fazendo algumas vítimas com ferimentos. partíamos assim: uma. (Enfermeira Virgínia Portocarrero) O telegrama que se segue ilustra as circunstâncias imprecisas do momento de retorno ao país desta enfermeira: 36 O grupo que serviu em Livorno era formado por: Acácia Cruz.. Nilza Cândida da Rocha e Virgínia Leite (Diário pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero). então. duas de cada vez. escalando o norte da África. Sobre os preparativos para a sua viagem de volta ao país. foram convocadas para comparecer ao Posto Regulador Brasileiro. Jacy Chaves. a fim de cuidar dos pacientes que restavam. uma pequena fração de enfermeiras brasileiras teve que ficar mais algum tempo na Itália.

fizemos um sacrifício louco! Fomos forçadas a restringir todos os gastos. vivendo em hospitais americanos onde éramos bem alimentadas e ainda sob fiscalização das chefes americanas. 12:34 PM) Localização: Acervo particular da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero O trecho abaixo.Telegrama [fac-similado] remetido pela Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero à sua família no Rio de Janeiro. Isso depois de enfrentarmos uma guerra. O restante do dinheiro que possuíamos fora depositado no Banco do Brasil. Vimo-nos em muita dificuldade.79 Ilustração nº 5 . p.. 2000. . que nos obrigavam a fazer uso de complementos alimentares de vitaminas e sais minerais. a quantia com que podíamos contar era completamente deficiente.274-275). Apesar do preço ser muito pequeno. evidencia parte das dificuldades que tiveram que ser enfrentadas pelas Enfermeiras Febianas ao chegarem ao Brasil: Ao chegarmos à base de Parnamirim em Natal [Rio Grande do Norte]. em Natal. (PORTOCARRERO. pagávamos nossas refeições relativas à etapa de oficial. Para cumprir as determinações. Embora estivéssemos na base militar.. e receberíamos no Rio de Janeiro. oriundo de um depoimento escrito da própria Enfermeira Virgínia Portocarrero. e não era absolutamente possível fazer todas as refeições. por ocasião de seu retorno ao Brasil (27/05/1945. trocamos o dinheiro que trazíamos de lira para cruzeiro. correspondente a somente quinhentos cruzeiros.

. Ficou tudo extraviado! (Enfermeira Virgínia Portocarrero) .Telegrama [fac-similado] remetido pela Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero à sua família por ocasião de sua chegada ao Rio de Janeiro (sem data. Informaram que era no HCE. 15:30 PM) Localização: Acervo particular da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero Após seu desembarque.. Ficamos sem a bagagem! Aquela bagagem mais preciosa da gente..... Fomos para o HCE... E o Exército não se movimentou para recuperá-la.. Lembranças pra todo mundo.... ela relatou o seguinte: Isso é o que eu achei pior.. A esse respeito.. a Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero [assim como algumas outras enfermeiras] não conseguiu recuperar sua bagagem de excesso. Os presentes que eu comprei.80 O próximo telegrama ilustra as previsões sobre o desembarque da Enfermeira Virgínia Portocarrero no Rio de Janeiro: Ilustração nº 6 . que havia deixado no Posto Regulador Brasileiro em Nápoles. Nós não recebemos a nossa bagagem do Posto Regulador de Nápoles.

81 Sobre esta mesma situação que envolveu a entrega da bagagem. uma vez que a utilização lídima deste poder trouxe embutida uma violência simbólica para o grupo de enfermeiras. quase que abruptamente. Neste sentido.. Sobre as circunstâncias que envolveram essa desmobilização.. a desmobilização definiu. de forma impactante. define-se numa primeira abordagem como uma violência simbólica que. a exemplo do que tinha ocorrido com os outros militares da reserva que fizeram parte do corpo da FEB. Não chegou nada! (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) Apesar da satisfação de estarem retornando aos seus lares. as Enfermeiras Febianas já haviam sido desligadas do efetivo do Exército. outros foram trazidos e entregues no HCE. Eu entreguei cinco sacos e não recebi nenhum! Tudo o que eu tenho da guerra foi só o que eu trouxe na mão. confere poder e uma eficácia específica ao agente ou instituição que a instituiu. o sentimento de pertença delas àquela corporação. o conceito de poder simbólico pode ser aplicado à ação que o Governo exerceu através do Exército Brasileiro. enquanto forma de violência dissimulada.. nós já viemos desmobilizadas. uma perda para o . o resto foi todo roubado! Todos os nossos pertences foram roubados. e demos baixa. Relembro-vos que.. uma das depoentes assim pronunciou: . articulada às circunstâncias de sua desmobilização. ao terem chegado ao Brasil. Quando nós chegamos aqui no Brasil. as Enfermeiras Febianas.. evidenciam o seu pesar em relação à expropriação de parte significativa de suas reminiscências. Nós só fizemos entregar o material que tinha que entregar e tchau. Essa ocorrência. tchau! Vai embora pra casa! Apresentamo-nos na Diretoria de Saúde. e o resto da bagagem era em sacos que a gente entregava no serviço de transporte. ao ter abstraído. ao enfatizarem que suas bagagens foram extraviadas de forma deliberada.. Nós já viemos da Itália desmobilizadas. (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) Com relação a este ato sofrido por elas. a Enfermeira Elza Cansanção Medeiros assim referiu: Nós só podíamos trazer a mala de mão.

. porque era obrigação do Exercito nós termos continuado.. acumulados ao longo de sua trajetória social. por sua natureza. Não tem uma profissional dessas daqui que tenha conhecimento da metade do que nós tivemos durante a campanha. os indivíduos contam com um volume e uma variedade específica de capitais.82 grupo relativa à privação de posições que eram legitimamente ocupadas.. . reúnem elementos complexos e relevantes para a prática e para o ensino de Enfermagem (ALCANTARA. espaços estes que. Nós todas ficamos muito aborrecidas com a situação. a cada situação. defendida pela Escola Anna Nery em julho de 2005. ao ter-se desmobilizado as Enfermeiras Febianas..34-36). Sobre este enfoque. uma vez que. e não ter jogado a gente na rua. financeira e moral para estas mulheres. que incorporou um capital cultural específico no que diz respeito à experiência angariada por elas em diversos cenários operativos de guerra. o Serviço de Saúde do Exército sofreu.) Nós já tínhamos um treinamento grande! O nosso treinamento era como o de todas as Escolas de Enfermagem. de certa forma. p. a qual acabou por abarcar prejuízos de ordem social. A apropriação desse capital se constituiu em um instrumento simbólico de luta para assegurar uma posição em um campo específico. em situações de emergência clínico-cirúrgica que exigiram prontidão intelectual e destreza profissional. 37 Termo utilizado pela Doutora em Enfermagem Leila Milman Alcantara em sua Tese de Doutorado intitulada “A enfermagem militar operativa gerenciando o cuidado em situações de guerra”.. (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) Do trecho recortado acima... para lhes assegurar determinada posição no espaço social. percebe-se que a depoente ilustrou enfaticamente o peso e o volume do capital cultural [de enfermagem militar operativa37] que angariaram e atualizaram as Enfermeiras da FEB por ocasião de sua atuação em campanha.. destaquei o seguinte trecho: .. um prejuízo ao ter deixado de aproveitar em seus quadros um grupamento. Sob outro âmbito.. Os hospitais [do Exército] necessitavam de nós! (. 2005.

p. 39 A Enfermeira Virgínia Portocarrero foi licenciada oficialmente do serviço ativo do Exército Brasileiro através da Portaria nº 8. 1995. p. Logo depois da chegada ao Brasil. a Escola de Enfermagem Anna Nery.83 Assim. logo após o seu retorno do front. a Escola de Enfermagem do Hospital São Paulo.5). no Palácio Duque de Caxias [Rio de Janeiro]. Era o general Souza Ferreira. por exemplo. .. me apresentei na Diretoria de Saúde no Rio de Janeiro. mal me cumprimentou. encerrou.411. apesar da maioria das Enfermeiras Febianas não ser portadora de diplomas outorgados por escolas padrão da época38. 2004. tive vontade até de chorar! Eu não esperava discurso. uma das enfermeiras assim expressou: . cultural.. Encerrou.. Esta foto foi publicada na capa do Jornal A Noite. e a Escola de Enfermagem Luiza de Marillac (BAPTISTA. diretor de Saúde no Rio de Janeiro. ALMEIDA FILHO. Eles não deram satisfação! (Enfermeira Virgínia Portocarrero)39 Não obstante.. nessa hora. militar e simbólico] em função da participação na guerra se constituiu em um ganho simbólico para esse grupo de enfermeiras. a Escola de Enfermagem Carlos Chagas. a incorporação dos diferentes tipos de capital [social.36. Este não me deu a menor atenção! Ele estava escrevendo no gabinete. para ilustrar uma matéria sobre a chegada recente de duas enfermeiras ao Brasil com o título: “Viram a guerra no que ela tem de mais cruel”. Mas esperava um aperto de mão com a mão direita e um abraço de agradecimento. as Enfermeiras Febianas tiveram que se apresentar à Diretoria de Saúde. de 23 de junho de 1945.. a fim de serem tomadas as medidas administrativas relacionadas às suas baixas. Por ocasião desta apresentação. A foto nº 2 sacraliza uma cena do cotidiano de uma dessas enfermeiras. Nem levantou os olhos. do dia 11 de junho de 1945. 38 Dentre as “escolas-padrão” distinguiam-se.. e disse assim: “Apresente-se à 3ª Seção! Será desligada!” Eu. o retorno das Enfermeiras Febianas foi noticiado pela imprensa escrita da época.

a diferença anatômica entre os órgãos sexuais. p. A articulação da imagem fotográfica com a matéria que a mesma acompanha. Sob este prisma. fez-me identificar uma estratégia simbólica no sentido de conclamar aquelas moças para a retomada das atividades relativas ao universo feminino. as quais evidenciam a divisão hierarquizante do mundo social em masculino e feminino.84 Foto nº 2 . especificamente. A fotografia em tela acompanhava a seguinte legenda: “A senhorita Virgínia Portocarrero em flagrante. bem como com a sua legenda. pode assim ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e. “a diferença biológica entre os sexos. e. principalmente. Neste sentido. a . 1999. isto é. uma vez que nas palavras de Bourdieu. o ato congelado na foto de servir o almoço a uma criança evoca características e atividades intrínsecas à natureza feminina.20). quando servia o almoço ao seu sobrinho Carlos Alberto Portocarrero”.Cena do cotidiano doméstico da Enfermeira Virgínia Portocarrero Localização: Acervo pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero e Biblioteca Nacional [fac-símile]. entre o corpo masculino e o corpo feminino. da divisão social do trabalho” (BOURDIEU.

inscrito em todas as instituições encarregadas de gerir e regulamentar a existência cotidiana da unidade doméstica. trazendo embutida a lógica do dever social da mulher. O Jornal “A Noite”. bem como. que a magia do poder simbólico desencadeia. no qual foi publicada a reportagem em tela. p. uma vez que ele ratifica e reforça as prescrições e proscrições do patriarcado privado como as de um patriarcado público.95. na ocupação dos espaços. . e docilizado. da análise desta fonte.5. esta enunciação traz à tona o conhecimento e o reconhecimento prático da fronteira entre os dominantes e os dominados. a dominação masculina se inscreve nas rotinas da divisão do trabalho ou nos rituais privados mediante “as condutas de marginalização impostas às mulheres através de sua exclusão de lugares públicos e. 1999. 1999. p. 2001. p. p. por conseguinte de sua exclusão de tarefas mais nobres” (BOURDIEU. e pelos quais os dominados contribuem assumindo muitas vezes a forma de emoções corporais ou de paixões e de sentimentos. 1998. 2004.34).10). a foto que ilustra a reportagem reafirma o poder simbólico da idéia-imagem da família como um “micro-Estado” responsável por preservar a moral.85 dominação masculina dispensa justificação. quanto à lógica do sentimento [amor filial]. Essa regularização de ordem física e social coloca o homem na condição de “senhor do privado e da família que eles governam e representam. Neste sentido. vislumbram-se possíveis vestígios da posição ideológica do Estado acerca da divisão dos gêneros. um dos pilares da formação do Estado Novo (TOMAIM. pois a ordem social ratifica-a na natureza e na distribuição das atividades. reservando a casa para as mulheres e os espaços públicos aos homens. BRANDI. delegando às mulheres a gestão do cotidiano” (PERROT.930). que objetivava a homogeinização cultural do povo (OLIVEIRA. Assim. fazia parte da tática doutrinária do Estado Novo. a fotografia estampa a expressão do corpo socializado. Neste sentido. Desta forma. Ademais. p.198).

que reproduzia a visão da família patriarcal como a ideal para atender o modelo de ordem social e moral. Como exemplo tem-se Ana Ferreira Justina Néri. das esposas devotas. quando as Enfermeiras Febianas retornaram aos seus lares. objeto de aquecimento do lar”.86 Portanto. Itália]. Assim.. . heroína da Guerra do Paraguai [1864-1870] que.. A benção. ao retornar foi cognominada “mãe dos brasileiros” 40. acabou sendo consagrado simbolicamente como o retorno das mães.foi Deus que lhe fez enfermeira. Esta situação tinha seu cunho fundamentado na preeminência quase que absoluta dos homens em relação às mulheres no contexto político-social da época. cabendo-lhes. as guerras reiteram as representações mais tradicionais e simbólicas das diferenças entre os sexos. O retorno ao lar daquelas “heroínas”. escrita em 26 de fevereiro de 1945 à Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero [Pistóia. que se lançaram numa frente contra a desafiadora máquina de guerra de Adolf Hitler.. Tenente Virgínia! Deus a guarde. 97-110). a guarde e conserve a sua bondade! (Diário pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero... p. anjo de caridade do meu Brasil. 41 Trechos da carta do Sargento Virgulino. das donas-de-casa.. obrigado por ter vindo à guerra. Eu como brasileiro me orgulho da senhora. Sob outro enfoque. extraído da carta que foi encaminhada à Enfermeira Virgínia Portocarrero por um pracinha que se encontrava hospitalizado. estampa bem esta ideação: . destaco a aparente intenção do autor em enaltecer a atuação daquela enfermeira ao identificá-la como um “anjo de caridade”. a retomada das funções advindas do inconsciente coletivo feminino: “a mulher como integradora da família. tornava-se mais evidente a percepção de que cabia a elas o regresso à sua condição original: a de “mulheres do lar”. a representação da enfermeira na guerra também é atrelada à imagem de “anjos” [dos campos de batalha].. do Regimento Sampaio. O fragmento a seguir.63. neste momento.. Assim. 1996. Apesar 40 Título oferecido em 1876 pelo Instituto Histórico e Geográfico através dos Obreiros da Glória [soldados] (CARDOSO. grifo meu) 41 Pelo teor do texto que essa carta encerra. as mesmas passaram a estar reinseridas num Estado paternalista e autoritário.

em exaltação a um espírito desinteressado e de sacrifícios (CAMERINO. p. o que favoreceu a (re) configuração dos papéis daquelas enfermeiras de “anjos dos campos de batalha” [durante a guerra] para “anjos do lar” [no pósguerra]. em seu discurso de embarque para a guerra. de “anjos brancos”. as Enfermeiras Febianas incorporaram à sua existência no mundo social o valor simbólico de figuras abnegadas. . de certo modo. a Enfermeira Olímpia de Araújo Camerino. ele é uma entidade que não possui identidade própria. Com a ajuda desses valores internalizados pelos agentes sociais. muito menos poderes para tomar decisões importantes. 1998). 1983. chegou a comparar a guerra com um “altar”. nem sexo. Deste modo. ao tempo em que o anjo é um ser querido. e ao mesmo tempo romântica.31. que todas as pessoas gostariam de tê-lo junto a si. ou. Pois. genericamente. elas mesmas também legitimaram este conceito divinal de si mesmas e da Enfermagem enquanto prática. Em consonância com esta idéia.276). de “anjos verde-oliva”. p. Antes. p. advinda da divisão sexual que conferia ao homem a gerência terrena e à mulher a espiritual (PERROT. o modelo de anjo do lar pôde implantar-se com facilidade. serviu como reafirmação e sustentação da visão social da figura da enfermeira na guerra numa perspectiva abstrata. OLIVEIRA. como reconhecido na projeção metafórica de Portocarrero (2000. através de seus discursos.16). devo ressaltar que.87 da carta colocar em relevo aspectos positivos relativos à atuação daquela enfermeira nos hospitais de campanha. e colocam-se como mediador entre a figura maior e as pessoas a quem deve proteger (PASSOS. o que.54-60). Esses atributos ratificavam um discurso comum que enquadrava a mulher num espaço onde suas funções fossem convenientemente dominadas pela cosmovisão masculina. Desta forma. o adjetivo “anjo” traz embutido determinados significados que vão da qualificação à desqualificação. garantia-se a interdição do mundo social. p. 1996. 1956.

Tal fragmento ilustra bem o aspecto abordado. o apreço de sua atuação no atendimento aos soldados feridos. o retorno das Enfermeiras Febianas dos campos de batalha foi divulgado pela imprensa da época 42 Os grifos são meus. e.42 O teor do trecho acima. e de certo temeroso. e/ou posições.. publicado numa matéria jornalística que informava aos leitores sobre a chegada das enfermeiras do front. da sua ação silenciosa e inestimável no interior dos hospitais de campo. Seu teor algo pessimista expõe a posição de um pai ciente.. destaquei o recorte abaixo: Com o término da guerra na Europa. p. o que fez-me entender que tal afirmação refletiu a necessidade de resguardar a imagem das “enfermeiras de guerra” pelo autor da matéria jornalística. as próprias mulheres tendem a escolher. Tudo que se disser delas. revela-se certa ambigüidade no sentido de orientar os leitores a atribuir “pouca importância” aos comentários alusivos que viessem a ser feitos sobre as enfermeiras. começam a regressar ao nosso país muitas das enfermeiras que se inscreveram para acompanhar a FEB até o front italiano. tinham que escolher determinadas profissões.88 Provavelmente. destaco o seguinte fragmento: “. não importa. quanto à receptividade e ao reconhecimento social do esforço que sua filha. Ainda nesta vertente. Apesar da violência simbólica que acompanhou os efeitos da desmobilização. sempre prontas a atender aos feridos. Ainda sobre a reportagem que acompanhou a fotografia nº 2. 2000.” Este trecho foi extraído de uma carta escrita em 9 de maio de 1945 pelo general Tito Portocarrero à sua filha [Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero].97).. exalta. .Que Deus abençoe seu esforço e lhe conceda a merecida compreensão. no final do trecho destacado. por ocasião do regresso dela ao Brasil. orientadas por caracterizações algo familiares (FONSECA. ainda que discretamente. Contudo.. ao mesmo tempo. sob sua óptica paternal. embora tão difícil de se obter entre as criaturas. e corrobora a análise ora desenvolvida. teria feito jus.

A farda distingue os heróis da Pátria. animando os pracinhas nas neves da Itália. Elas fazem parte do exército que venceu o fascismo. ao tempo em que revela novos enfoques. o poder de se fazerem crer incluídas pelo Estado. que seu esforço não se perdeu.. Podem orgulhar-se de que lutaram pela Pátria contra o fascismo. socorrendo os feridos. como a que foi publicada no O Jornal. e que por isso contribuíram para as primeiras liberdades do nosso povo. que teve como título: “Um ano e seis dias no front cuidando dos feridos de guerra: prontas às enfermeiras para novas missões!” Uma outra publicação jornalística do dia 12 julho de 1945. ocupou a capa do Jornal Tribuna Popular com o seguinte subtítulo “O povo quer ver as enfermeiras fardadas!” 43 Esta reportagem ratifica os elementos ora abordados. São as queridas enfermeiras do povo que lutaram pelo povo e de quem não se pode tirar o seu uniforme de guerra. o trecho jornalístico supracitado buscou legitimar a participação delas no conflito. e o povo quer vê-las fardadas. Elas vão voltando aos seus lares.89 através de matérias que destacaram bem os atributos femininos vinculados à participação delas na Segunda Guerra Mundial. É a medalha maior do combatente. favoreceu. o estabelecimento de relações sociais que conferiram às enfermeiras. o que pode ser verificado na transcrição parcial da referida matéria: As enfermeiras do Brasil compreendem que a guerra teve um sentido. O povo quer vê-las protegidas pelo Estado. A farda que elas souberam conquistar. Os grifos são meus. Desta forma. de certa maneira.44 A atenção conferida por parte da imprensa da época [enquanto meio de comunicação de extrema relevância conjuntural estadonovista]. . os quais colocavam em evidência o caráter meritório da atuação das Enfermeiras Febianas no front. ao tempo que corroborou a tentativa de consagração delas no campo do Exército ao ter reivindicado para 43 44 O título desta reportagem era “As enfermeiras compreendem que a guerra teve um sentido”. e. mesmo que simbolicamente. Não só o pracinha deve usar a sua gloriosa farda nas datas cívicas. e que foram combatentes pela liberdade. por conseguinte. A FEB é um exército de época difícil.. de se fazerem ver aceitas pelo povo. reconhecidas pelo capital angariado pela sua atuação na guerra.. mas também as enfermeiras. do dia 13 de junho de 1945..

45 O 1º Escalão de retorno da FEB. que contou com 5. o 4º Escalão. o 5º e último Escalão chegou em 3 de outubro de 1945 com um efetivo de 2.229-230).229-231). por extensão. chegou ao Rio em 19 de setembro de 1945. a força simbólica encerrada pelo uniforme militar reside em tornar visível os emblemas que ele representa. Ademais. o 3º Escalão desembarcou em 19 de setembro de 1945 com 1. agora na condição de ex-comandante da FEB. Este escalão desfilou na “Parada da Vitória” pelas 45 O 1º Escalão chegou em 18 de julho de 1945 ao Rio de Janeiro com 4. o uniforme de enfermeira militar fortalecia a manutenção do ideário envolto ao sacrifício ao qual elas se ofereceram.342 expedicionários.742 expedicionários.90 elas o direito de continuarem a usar os seus uniformes.931 expedicionários. e. em determinadas condições. e foi recebido com uma grande manifestação cívico-popular. comandado pelo general Zenóbio da Costa. p.187 expedicionários. 2001. o que de fato ocorreu com o grupamento de enfermeiras.801 expedicionários. por fim. de mantê-las em funções e nos espaços antes dominados esteticamente e ideologicamente pelo masculino. Sua proibição. p. Vale salientar que. dos quais seis eram Enfermeiras Febianas.2 . As outras enfermeiras voltaram para o Brasil de avião (SILVEIRA. o 2º chegou em 22 de agosto de 1945 com 6. Já o retorno da Força Expedicionária se deu em cinco escalões.AS ENFERMEIRAS FEBIANAS E AS ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA À EXCLUSÃO DO DESFILE DA VITÓRIA Em 11 de julho de 1945. Para as Febianas. pode ser um dos pontos mais marcantes e dolorosos na ruptura da carreira. a farda aparece como um dos elementos essenciais na identidade comum criada entre os componentes da instituição militar. que desembarcaram entre os dias 18 de julho e 3 novembro de 1945. chegou ao Rio de Janeiro em 18 de julho de 1945 a bordo do navio general Meighs. o uniforme promovia e tendia a estender a visibilidade delas no cenário social e. na Capital Federal (SILVEIRA. . 2. 2001. Assim. e em projetar socialmente o grupo que o utiliza. o general Mascarenhas de Moraes chegava ao Rio de Janeiro.

Brandi (2001. uma vez que a eficácia simbólica de um ritual depende do poder das autoridades que o instauram e das disposições dos destinatários para conhecer e reconhecer as condições institucionais de sua validade (BOURDIEU. p. p. BONALUME NETO. Sobre a chegada festiva do 1º Escalão. que o Governo acreditava ser o estopim de um choque político contra o regime. uma vez que os anúncios do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) preferiram não fazer um alarme da imagem gloriosa dos pracinhas.46 Especialmente convidados para este ritual estavam os generais Mark Clark. p. pois a FEB tinha sido extinta em 6 de julho. p. J. Entretanto. mediante essa suposta ameaça. testemunhas oficiais da atuação da Força Expedicionária no teatro de guerra (MORAES.217). .5.936) afirma que a multidão que compareceu à Parada da Vitória ovacionou Getúlio Vargas. Os registros fotográficos permitem inferir que a FEB foi recebida de forma apoteótica. o primeiro contingente expedicionário desembarcou no Rio de Janeiro em 18 de julho de 1945 já desmobilizado. 1995. Tanto que. Garesche Ord.190. cujo carro fechava o cortejo. além de um grupo de soldados americanos da 10ª Divisão de Montanha.238-239). na Glória [Rio de Janeiro]. 2004. quando as tropas ainda estavam na Europa conforme analisado anteriormente (TOMAIM. mais que aos próprios soldados.105). restringindo-se à recepção calorosa do povo brasileiro aos soldados patrícios e a uma ou outra condecoração ou homenagem do presidente Vargas aos feridos de guerra. observa-se que a imprensa manifestou-se de forma discreta em relação ao regresso vitorioso da FEB. essas autoridades militares norte-americanas legitimaram a consagração dos combatentes brasileiros que atuaram no conflito junto ao V Exército Americano.91 principais ruas da capital por entre a multidão entusiasmada. uma das Enfermeiras Febianas assim declarou: 46 O trajeto do desfile foi da Praça Mauá e Avenida Rio Branco até a Praça Paris. Não obstante. 1998. Com suas presenças. p. Willis Crittenberg e Donald Brann. Essa providência justifica-se pelo significado atribuído ao retorno da FEB. 2005.

começavam a arrancar as coisas da farda dos soldados. tirar lembranças. Foto nº 3 . .Parada da Vitória na Capital da República [18 de julho de 1945] Localização: Arquivo Histórico do Exército [fac-símile] O cenário da foto é a Avenida Rio Branco. uma vez que suas Unidades tinham sido dissolvidas. [Eles] não puderam nem desfilar. É.. porque o povo invadiu as pistas (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros). porque o povo queria. A fotografia a seguir. Foi uma apoteose a chegada. os quais já sabiam em sua grande maioria que a FEB não existia mais. registra esta vultuosa recepção de chegada do 1º Escalão da FEB.. Observa-se em destaque uma faixa que tomou a avenida de lado a lado com a seguinte inscrição: “BENVINDOS A PATRIA”. Esta cerimônia expressou o sentimento de culto aos heróis [vivos e mortos] da Pátria.92 Foi engraçado. por tudo e por nada. que ocorreu no dia 18 de julho de 1945. que ganhou visibilidade pela presença em massa do povo para celebrar a participação vitoriosa dos soldados febianos. Então. Tinha [soldado] que acabou segurando as calças porque senão arrancavam até os botões. ao tempo que estampa a adesão da população do Rio de Janeiro à participação na Parada da Vitória. a qual foi tomada quase que por completo pelo povo.

Mas os “canhões” a que se referiam éramos nós. uma delas assim declarou: Mas o retorno foi uma decepção. cujo habitus sexuado e sexuante.. O depoimento abaixo demonstra a exclusão sofrida por elas deste festejo cívico-militar: Nós não desfilamos quando chegamos aqui.. p. formador da estrutura da visão e da divisão . Sobre este episódio. quando se fazia praticamente iminente a deposição de Getúlio Vargas. 2000.93 Não obstante. pode-se perceber que existiam algumas Enfermeiras Febianas presentes ao evento e dispostas em meio à multidão.. já que as relações sociais entendidas como interações simbólicas implicam o conhecimento e o reconhecimento do capital simbólico acumulado pelos agentes. gritando que o brasileiro ganhara a guerra por causa dos “canhões”. Curiosamente.304).. o modo festivo pelo qual foi realizada a Parada da Vitória conferiu relativo prestígio ao grupo que formou a Força Expedicionária Brasileira em um momento político dramático e intenso. Não convocaram as enfermeiras para desfilar! (Enfermeira Virgínia Portocarrero) A exclusão das Enfermeiras Febianas da Parada da Vitória reforça mais uma vez a diferença existente entre os sexos relativas à ocupação dos espaços públicos. e eles não convocaram a gente. posto que a diferença entre os sexos não apenas diferencia. A maior decepção que tivemos. ela acabou por contribuir para tornar o grupo manifesto.. Em destaque na foto em tela. mas também subordina e desiguala as mulheres em relação aos homens.. Elas estavam fardadas na ocasião. Apesar de uma certa discrição da imprensa naquela ocasião. considerada por Pierre Bourdieu como um tipo de violência simbólica. as Enfermeiras Febianas não participaram oficialmente deste desfile. Nós não fomos chamadas. pois as relações de comunicação são também relações de poder simbólico onde se atualizam as relações de força entre os produtores e os consumidores das informações. apesar de pouco nítida. quando as enfermeiras passaram. ouvimos alguns desfazendo de nós. as enfermeiras (MEDEIROS..

147) quando afirma que não é sem motivo que boa parte do povo brasileiro não percebeu o valor e a presença das enfermeiras na guerra. p. no que se refere à presença de mulheres em guerras. desde os tempos mais remotos. e diferentemente. p. 2002).141). os homens e mulheres vivem juntos os grandes acontecimentos. opera na interioridade dos agentes. 2007. porém. tanto as circunstâncias acerca da participação das enfermeiras na guerra como da sua exclusão dos rituais alusivos à comemoração da vitória. Perrot (1998) sublinha que a participação da mulher é requerida ou tolerada. pois o trabalho de inculcação ideológica foi tão forte que parece que as próprias enfermeiras acabaram esquecendo de si mesmas. fazendo-os agir de acordo com as disposições que lhes foram inculcadas.22). Ademais. talvez por isso se confirme a dominação masculina sofrida pelas enfermeiras. Juntos. e pouco. e acrescenta que. que em todo tempo e em toda parte definem que os homens estejam coletivamente encarregados de manifestar o sagrado (SEGALEN. as rupturas do tempo. comungo da opinião de Silva (1995. paz e feminilidade. “no teatro da memória. as mulheres tendem a ser uma leve sombra” (PERROT. que desta vez não tiveram lugar no desfile.. Deste modo. delas mesmas. tanto que. Aliás. leva ao entendimento de que as guerras representam um espaço e um tempo de reafirmação da diferença sexual. na qualidade de ajudantes ou de enfermeiras. Além disso. De certo modo. quando relatam os episódios de guerra. p. em razão de sua situação na sociedade do momento (id. diferentemente do que acontecera às vésperas de seu embarque para a guerra. falam da importância de tudo e de todos. Esta análise aponta para a idéia de que a sociedade moderna reproduz as grandes divisões sexuais. como ilustrou a foto nº 1. associam-se guerra e virilidade.94 hierarquizante do mundo em masculino e feminino. .

nós vamos.. porque a gente tinha medo! (Enfermeira Virgínia Portocarrero) A utilização do uniforme e dos emblemas militares por elas em um evento alusivo à participação da FEB na guerra se constituiu em uma estratégia de imposição de sua identidade de enfermeira militar.. via de regra. p. galões. definir os poderes femininos permitidos por uma situação de sujeição e de inferioridade significa entendê-los como uma reapropriação e um desvio dos instrumentos simbólicos que instituem a dominação masculina contra seu próprio dominador (SOIHET. nem se expressam sempre num discurso de recusa ou rejeição. 1998. e “funcionam como apelos mediante os quais se pode lembrar àqueles que poderiam esquecer [ou que preferiam esquecer] o lugar que lhes confere a instituição” (BOURDIEU. Há que se considerar que as fissuras à dominação masculina não assumem. a partir da mobilização para a guerra.103). Nós não vamos desfilar. recortei o trecho abaixo que evidencia algumas estratégias de resistência empreendidas pelas enfermeiras face à sua exclusão do Desfile da Vitória: Eu fui! Me fardei.107). porque o povo vai ver que nós fomos [à guerra]. Nós combinamos: “Bem. e fui. Elas nascem no interior do consentimento. Fiquei no meio do povo. a forma de rupturas espetaculares. o que evidencia a assimilação das prescrições ditadas pelo Estatuto dos Militares e .” “Vocês não vão desfilar?” [algum popular deve ter perguntado] “Não! Nós não vamos desfilar!” [elas responderam] Não podia nem dizer. por ocasião dos questionamentos feitos acerca da não-participação delas no desfile. mas vamos lá.. quando a incorporação da linguagem é reempregada para marcar uma resistência. Sobre esta noção. uma vez que os signos exteriores ao corpo [medalhas. sinalizam a posição social através de instrumentos simbólicos. p... 1997. O depoimento da Enfermeira Febiana também traz à tona a censura à expressão do pensamento. Assim. uniformes] juntamente com os signos incorporados [habitus militar]..95 O estudo que fiz dos discursos e práticas das Enfermeiras Febianas evidenciou estratégias que lhes permitiram deslocar ou subverter em dados momentos as relações de dominação.

Além disso. o posicionamento quase que passivo verificado pela aceitação tácita daquela agente demarcou um sentido das distâncias. sua ousadia e destemor ao enfrentar simbolicamente o Exército e o poder público. Desta forma. se tudo fosse cumprido à risca. agremiações políticas ou em público. de certa forma. o artigo 13 do RDE incluía entre as transgressões: discutir pela imprensa assuntos políticos ou militares. lançava um pesado manto de controle e dominação sobre os militares e também sobre a sociedade em geral. revela. Ademais. ou aceitar discutir política partidária ou religião no interior no quartel. de um sentimento de verdadeira afeição mútua (PEDROSA. de evitar ao máximo a politização do retorno dos expedicionários através de restrições em prestar . a vida do quartel muito concorreria para a formação da grande família militar. seria permitida a reclamação pelo subordinado. edificada pelo discurso ditatorial do Governo. onde o espírito de coesão resultaria. a fomentação ideológica em torno do simbolismo da FEB foi o estopim para que as lideranças governamentais e militares tratassem.179-180). sistematicamente “reformados” pelo Estado Novo. A própria Carta Magna de 1937. e comparecer fardado a manifestações ou reuniões de caráter político. a marcar e a sustentar.96 pelo Regulamento Disciplinar do Exército (RDE) da época. O regulamento dizia ainda que. regulamentava que as Forças Armadas deveriam fidelidade e obediência à autoridade do presidente da República. tomar parte. repartição ou estabelecimento. suspendiam-se as liberdades de pronunciamento político. p. através da desmobilização. Aparentemente. a respeitar e a fazer respeitar. e. 1998. Com isso. e submetiam-se todos os militares à rígida subordinação e disciplina. Entretanto. a violência simbólica. em seu artigo 161. dado que se percebeu no trecho do depoimento destacado acima sobre a restrição em discutir opinião reivindicatória no campo político. em grande parte. As ordens deveriam ser cumpridas sem hesitação. no que diz respeito à sua visão de mundo de dominada. só depois de cumpridas. o fato da depoente ter se feito presente e vestida com sua farda no Desfile da Vitória. provocar.

. pois ao se fazerem ver e crer porta-vozes autorizados. e não em sua crença.. . ao tempo em que estampa as apreensões do Governo sobre a força simbólica da FEB: É. uniformes. então porta-vozes autorizados a expressar o discurso legítimo e consagrador acerca de sua participação na Segunda Guerra Mundial. todos eles ficaram com medo quando nós voltamos. e outros atributos. logo em seguida. Essas ordens acabaram por produzir as conseqüências políticas desejadas. O trecho abaixo elucida as restrições que foram impostas aos expedicionários. p. Não podiam andar fardados nem nada [os febianos]. Ele seguia a cartilha do Hitler. 1998. Assim. O Dutra era fascista. Aí. ou menos ainda em sua pretensão singular (BOURDIEU. seriam dispensados por fim.. era nazista. fizeram-se objeto de crença garantido e certificado.. porque sua realidade é garantida pela instituição e materializada pelos títulos.31-32).. símbolos..31). Essa estratégia do Governo visou impedir a visibilidade social desses expedicionários. Houve um pavor geral! (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) Além dessas proibições. cada agente tende a acreditar que é. galões.. p.. uma outra determinação que se operou logo após os desfiles de chegada dos escalões febianos ao Rio de Janeiro foi a de que eles ficariam aguardando. nos quartéis. o qual tem sua realidade expressa na aparência. p. suas dispensas e o pagamento dos soldos devidos.105). e. 2005. 2005. pois poucos foram os expedicionários que se envolveram em política no crepúsculo do Estado Novo (FERRAZ.97 declarações públicas e até mesmo de andar uniformizados pelas ruas ou portar medalhas e condecorações (FERRAZ.

98 2. da reserva [caso das Enfermeiras Febianas]. da reserva [caso das Enfermeiras Febianas] e assemelhados. vermelha (Revista O VerdeOliva. e a fita – de seda chamalotada. reformados.821. destaquei nas páginas as circunstâncias que envolveram a entrega da referida medalha: 47 Essas medalhas foram criadas através do Decreto-Lei nº 6. de 17 de agosto de 1944. e Cruz de Combate47. que prestaram serviços relevantes de qualquer natureza referentes ao esforço de guerra. no centro. de 13 de outubro de 1944. de Guerra. . 49 A Medalha de Campanha tem como características: a cruz de malta de bronze. O critério de concessão das medalhas que foram recebidas por elas era assim48: . Os expedicionários geralmente destacam a maior importância da Medalha de Campanha49 em relação à Medalha de Guerra. n.107. sem nota desabonadora. Consta nos assentamentos das Enfermeiras Febianas que elas receberam as duas primeiras. preparo de tropa.Medalha de Campanha: Concedida aos militares da ativa. pelo seu valor simbólico. a legenda “FEB” contornada por uma coroa de louros.3 .1985. verticalmente dispostas em três partes iguais. sobre os três ramos da cruz.Medalha de Guerra: Concedida aos oficiais da ativa.795.821. com a finalidade de premiar àqueles que haviam participado da Força Expedicionária Brasileira. a data 16-VII-1944 – que é a do desembarque. ou desempenho de missões especiais confiadas pelo Governo dentro ou fora do país. de 13 de outubro de 1944. 48 As medalhas mencionadas foram regulamentadas pelo Decreto nº 16. e civis. fev. que tomaram parte da Campanha da Itália junto à FEB. e . na Europa. da Força Expedicionária Brasileira. sendo a do centro. posto que só receberam a primeira aqueles que realmente estiveram nos campos de batalha. Neste sentido. regulamentado pelo Decreto nº 16.AS CONDECORAÇÕES DE GUERRA COMO INVESTIDURA DE BENS SIMBÓLICOS ÀS EX-ENFERMEIRAS FEBIANAS Como parte das homenagens prestadas pelo Governo aos febianos foram criadas as Medalhas de Campanha. contra-capa). símbolo da glória militar. nas cores verde e vermelha.

Brasília. contra-capa [fac-símile].Medalha de Campanha Localização: Revista O Verde-Oliva. . Ilustração nº 8 .99 Ilustração nº 7 .Diploma da Medalha de Campanha concedido à Enfermeira Altamira Pereira Valadares [frente] Localização: Álbum Biográfico das Febianas (1976).1985. organizado pela Enfermeira Altamira Pereira Valadares [fac-símile]. fev.107. n.

a qual estava sob comando do tenente-coronel médico Achilles Paulo Gallotti nesta ocasião. 123. Foto nº 4 . foi transferida para a Rua Moncorvo Filho.100 A fotografia a seguir estampa o ritual de entrega da Medalha de Campanha aos militares que participaram do esforço de guerra no Serviço de Saúde da FEB. Inicialmente foi instalada no pavimento térreo das instalações do edifício da Divisão de Saúde situada na Praça da República. de 1943 a 1975 (SILVA. 50 Organização Militar de Saúde do Exército Brasileiro criada pelo presidente da República Nilo Peçanha em 1909. funcionavam a Escola de Saúde do Exército. 2001. onde. . e a Farmácia Central do Exército. Em 1938. p. entre seus dois prédios frontais. Esta unidade fica situada à Rua Moncorvo Filho. A cerimônia em tela foi realizada na área externa da Policlínica Militar50.Solenidade de entrega da Medalha de Campanha na Policlínica Militar Localização: Acervo particular da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero [fac-símile]. no Centro do Rio de Janeiro. além dos serviços de atendimento do pessoal militar e seus familiares. 81-83). de 1941 a 1976. entre os quais se fizeram presentes algumas enfermeiras.

com postos de major ou capitão. No grupamento em forma. bem como a indumentária utilizada. (13) não identificada. calcanhares unidos. cabeça erguida. todos provavelmente médicos. 21 oficiais. (2) não identificada. numa escada que dava acesso à farmácia. estavam presentes cerca de 24 graduados. (12) não identificada. As características desta posição são: postura marcial imóvel. Com relação às pessoas presentes naquela solenidade. a presença de duas mulheres e seis homens em trajes civis. Sua disposição no arranjo fotográfico. existem 20 oficiais. as enfermeiras que estavam fardadas (da esquerda para a direita) são: (1) Zilda Nogueira Rodrigues. ladeada por três autoridades militares. expressão facial neutra. 51 Posição tomada após o comando verbal: “Sentido!”. pernas unidas. (4) Alice Neves Maia. mãos espalmadas com dedos unidos tocando a parte lateral da região coxal. contei com o apoio das depoentes deste estudo [Enfermeira Virgínia Portocarrero e Enfermeira Elza Cansanção Medeiros]. sendo a maioria composta por médicos. além de dois homens também em trajes civis. (9) Gema Imaculada Ottolograno. pés formando um ângulo de aproximadamente 90º. num plano de destaque. Na primeira fila. destacados do restante do grupamento. (8) Olímpia de Araújo Camerino. (3) Ondina Miranda de Souza. À frente do grupamento encontra-se a bandeira nacional. com postos de capitão. 52 Conforme depoimentos de Virgínia Portocarrero e de Elza Cansanção Medeiros. percebese que a presença feminina está minoritariamente representada. em geral. observa-se a presença de 10 oficiais.101 Para a descrição dos elementos da fotografia e identificação dos participantes do evento que a mesma estampa. encontram-se perfilados na posição de sentido51 aproximadamente 87 militares fardados. Observa-se ainda. (10) Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero. Na segunda fila. leva à suposição de que sejam servidores civis da Policlínica Militar e/ou convidados da cerimônia. Na quarta e penúltima fila do grupamento encontram-se 13 Enfermeiras Febianas fardadas52. Na última fila. em geral. localizados mais à direita da porta. dentre os quais estava o general Souza Ferreira [Diretor de Saúde do Exército na época]. (5) Carmem Bebiano. Esta posição é executada para a atenção dos militares às ordens de manobras que virão em seguida. (6) Nicia de Moraes Sampaio. . na terceira fila. provavelmente todos médicos. (7) não identificada. cotovelos levemente flexionados e discretamente projetados para a frente. (11) não identificada (provavelmente Altamira Pereira Valadares).

pois. 2003). também. e que evidenciam “o ajustamento entre as estruturas objetivas e as estruturas interiorizadas por esses agentes sob a forma de um senso prático. posto que é sabido que o uniforme tem função adicional de padronizar as atitudes e o comportamento de quem o veste. e. posições essas que são determinadas pelo volume de capital acumulado. as enfermeiras que não estavam fardadas (da esquerda para a direita) são: (1) não identificada. (7) não identificada. (8) não identificada. totalizando 21 Enfermeiras Febianas presentes.102 Atrás do dispositivo em forma. o rito cerimonial. Não obstante. (4) Maria Belém Landi. (6) Silvia Pereira Marques. BARREIRA. passaram a exprimir uma forma inculcada de dedicação ao alto comando e à instituição. de garantir a homogeneidade ao grupo (PERES. essas personagens sociais visaram sustentar a manutenção do habitus militar angariado. Assim. esta condição não foi observada na conduta de todas as Enfermeiras Febianas que participaram da solenidade em questão. Contudo. parte das enfermeiras homenageadas optou por fazer uso do fardamento. não consegui identificar claramente as motivações pelas quais elas apresentaram-se àquele evento desprovidas de suas fardas. evidencia uma estratégia de luta no sentido de evocar a sua pertença àquela corporação. O fato delas estarem posicionadas junto ao grupamento em forma. ao que parece. ao apresentarem-se fardadas. (2) Maria Luiza Vilela Henry. expressando um sentimento de quase devoção ao cumprirem. Apesar de intrigante. O posicionamento das pessoas constatado no espaço fotográfico revela uma distribuição hierárquica consoante com as posições ocupadas pelos agentes no campo do Exército. diligentemente. e. de serem vistas como militares. O que não deixou de ser uma estratégia para se fazerem presentes. . (5) Novembrina Augusta Cavallero. (3) Neuza de Mello Gonçalves. que facilita a orientação nos domínios concernentes da existência 53 De acordo com os depoimentos prestados por Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero e Elza Cansanção Medeiros. havia ainda oito Enfermeiras Febianas não fardadas53. por conseguinte. de dar continuidade à construção de uma idealização social sobre a figuração delas no campo do Exército. ainda que nas últimas fileiras. após a última fila.

ou simbolicamente desenhada pela inculcação dos valores masculinos (FONSECA. 2000. À frente.89). pois o ritual institucional tende a “integrar as oposições propriamente sociais como se fossem propriedades de natureza natural” (BOURDIEU.98). 2002. p.39. retratando a histórica subordinação da enfermagem à medicina. a diferenciação social que existia entre os presentes naquela cerimônia. a disposição delas no . uma vez que o habitus. e mais as mulheres são delas excluídas (SEGALEN. Portanto. Aliás. quanto mais acentuados são os símbolos da masculinidade [como eram e ainda são os eventos militares]. Além disso. “os” militares. Ademais. mediante a interiorização das estruturas externas. 1996. Portanto. ou seja. geralmente a divisão dos gêneros pode ser percebida em atividades produtivas e de interação social. enquanto a segunda é exercida principalmente por homens. médicos. Nesse sentido. embora a homenagem também fosse dirigida às enfermeiras que atuaram no Serviço de Saúde da FEB juntamente com os outros militares presentes. a exposição do poder emanado das autoridades que comandavam aquela formatura renova o sentimento inculcado e instituído em posicionar essas mulheres como personagens sociais periféricas. num plano de menor destaque.19). FERREIRA-SANTOS. seguidos de outros militares. mais as atividades tendem para o ritual e a codificação. 1998. embora na condição de homenageadas. em que a primeira representa uma profissão tradicionalmente feminina. a foto congela elementos que representam [solenemente]. evidencia o reconhecimento do valor de seu capital social naquele cenário. o espaço delimitado que foi ocupado pelas Enfermeiras Febianas.103 social”. 1973. e. como na área da saúde mais especificamente. “as” enfermeiras. enquanto princípio da realidade social. “interiorização no sentido de que se assume ou se aceita aquilo a que está destinado” (PINTO. p. também médicos em sua grande maioria. militares e civis. p. médicos e enfermeiras. faz com que cada um perceba os limites dos seus possíveis. p. pois. o ritual de entrega das medalhas consagrou as diferenças entre homens e mulheres. 49).

106). ou melhor. sob seu aspecto por excelência tutelar. a despeito de sua condição hierárquica e. vale ressaltar que o “verdadeiro milagre produzido pelos atos de instituição [consagração] reside. sem dúvida..99. que suave experiência representou para as nossas tropas em ação a presença da mulher brasileira. quiçá à hora derradeira. concebido como um “ritual de consagração”. via legítima reconhecida para tal. vossas faces transfiguradas para eles em outras faces longínquas. que naqueles instantes supremos puderam ter em vós as suas representantes credenciadas.E quanto a vós. a lenir sofrimentos.. como consolastes os que tombaram. ao que parece.104 espaço fotográfico não as colocou em relevo. como dito. gentis enfermeiras militares. p. A esse respeito. que. de mães. Sendo assim. portanto. pincei o seguinte trecho. uma vez que os rituais institucionais têm efeito de consignação estatutária. mas determinam a incorporação de um habitus consoante com as expectativas sociais ligadas àquela categoria. como animastes os que continuaram a lutar. de irmãs. a medalha outorgada àquelas mulheres em um ritual institucional. o lugar ocupado por cada um dos agentes na composição da formatura fora plasticamente prescrito do seguinte modo: A frente para os homens. A retaguarda às mulheres. que ratifica alguns aspectos ora analisados: . a permitir a tantos que pudessem fitar. pelos socorros que . pois aquele que é instituído sente-se obrigado a estar de acordo com aquilo que dele se espera. Durante esta solenidade foi proferido um discurso pelo general João Afonso de Souza Ferreira. Deste modo. era responsável pela Diretoria de Saúde do Exército na época. esta suposta intenção [dominadora] serviu para cristalizar a manutenção dos posicionamentos derivados do poder institucional. Por outro lado. para além dos mares. Deste discurso. permitiu que as Enfermeiras Febianas capitalizassem lucros simbólicos concernentes à sua participação na guerra. de noivas ou de esposas. na visão esfaimada pela distância. ao lado dos queridos entes! Como foi doce e refrigerante a vossa presença. Graças vos sejam dadas pelos bens que dispensastes. que sua existência serve para alguma coisa” (BOURDIEU. de seu capital. no fato de que eles conseguem fazer crer aos indivíduos consagrados que eles possuem uma justificação para existir. à altura de sua função. os quais demarcam não apenas a passagem de um estado a outro. 1998.

1998.56 O trecho acima reafirma a exclusão das Enfermeiras Febianas enquanto participantes nos quadros de efetivo do Exército. e fazei. o poder de enunciação que. 2004. calcado no sentimento humanístico e num comportamento gentil. do que sofrestes na longínqua terra italiana. 56 O grifo é meu. em seu discurso [legitimamente masculino].”54 55 A palavra e a sua circulação contam mais do que o espaço material. privilegiou o aspecto feminilizante em detrimento do profissional. sede orgulhosos de vossa Medalha de Campanha! Ostentai-a em vossos peitos generosos com a altivez de quem soube oferecer à Pátria querida o melhor de si mesmo. Desta forma. o diretor de Saúde do Exército proferiu ainda as seguintes palavras: Oficiais. em qualquer campo de batalha. nesta oportunidade. . É ela que modela a esfera pública. o juramento sagrado de que sereis assim dignos e bravos como o fostes então. dócil e carinhoso. ao terminar o seu discurso.2). enfermeiras. ao vê-la. o pavilhão mil vezes sacrossanto e o nome mil vezes querido do nosso grande Brasil. praças do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro. p. pelo carinho que prodigalizastes. percebe-se que. condição angariada pelo grupo. aquela autoridade militar. que tece a opinião pública. Curiosamente. publicado no Boletim Interno nº 233. todas as vezes que for preciso defender. uma 54 Transcrição parcial do discurso do diretor de Saúde do Exército em solenidade de entrega da Medalha de Campanha na Policlínica Militar. ao tocá-la. de 12 de outubro de 1945. CAPELLE et al. da Diretoria Geral de Saúde do Exercito. enaltecendo seu significado tutelar de substituta dos papéis femininos. que fora legalizada e legitimada durante a guerra pelo general Mascarenhas de Moraes.55. ao abordar aspectos sobre a participação daquelas enfermeiras no front. no caso do discurso proferido pelo Diretor de Saúde do Exército. 55 Os grifos são meus. uma vez que elas não foram referidas no chamamento final do discurso do general Souza Ferreira como “oficiais”. p. o que promoveu e reforçou as assimetrias de gênero no campo do Exército (PERROT. e que exerce. definiu o valor simbólico da presença das enfermeiras na guerra.105 prestastes. e lembrai-vos.

através desse rito institucional que foi respaldado pelas autoridades militares presentes. demarcou-se e reproduziu-se as diferenças hegemônicas entre o masculino e o feminino de modo tênue. publicou uma pequena nota.106 vez que a eficácia das palavras se exerce na medida em que o público-alvo reconhece quem a exerce como podendo exercê-la de direito. formatou-se. que acabou por promover no círculo social do Exército uma maior visibilidade ao grupo. como se estivesse contribuído para fundá-la por conta do reconhecimento que lhe concede (BOURDIEU. no Rio de Janeiro. conforme noticiado. por meio de uma oratória que desconsiderou simbolicamente o título anteriormente conferido. “(des) nomeou-as oficialmente”. a qual informava que Graziela Affonso de Carvalho havia sido a primeira enfermeira brasileira a receber condecoração de guerra. Neste sentido. Por esse discurso. porém poderoso. sujeitando-se a tal eficácia.95). p. uma vez que. devido a uma queda que lesionou a coluna vertebral. detentor do poder simbólico naquela ocasião. Ao que consta no seu resumo biográfico organizado . onde muitos feridos se alinhavam em carriolas para acompanhar a homenagem àquela enfermeira acamada. ressalto que o fato das Enfermeiras Febianas terem recebido a Medalha de Campanha configurou-se como um elemento estratégico proficiente. acabou por se consagrar os feitos de guerra daquelas mulheres. o que violou simbolicamente o capital social atinente ao título militar [de oficiais] daquelas enfermeiras. No tocante ainda à condecoração das Enfermeiras Febianas. A entrega da medalha. de maio de 1945. o general Souza Ferreira. Não obstante. e por trazer como produto um ganho simbólico que se mostrou socialmente naquele momento. então. foi realizada em tocante cerimônia no pátio principal do Hospital Central do Exército. que já se encontrava baixada há quatro meses após ter sido evacuada do teatro de operações da Itália. o Jornal O Globo. 1998.

. Teve uma série de problemas. Foi praticamente uma das vítimas de guerra! (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) A foto nº 5 ilustrou a reportagem sobre a condecoração da Enfermeira Graziela Affonso de Carvalho. Não perguntaram se ela já tinha tido caxumba ou doença contagiosa.. estava molhada. podre as suas carnes.. caiu e bateu com a cabeça... Sobre as circunstâncias do acidente sofrido pela Enfermeira Graziela Affonso de Carvalho. no dia da enchente.. uma das depoentes assim expressou: Ela caiu. e botaram ela pra trabalhar na enfermaria de contagiosos. Botaram um gesso na coluna dela. botaram ela pra trabalhar. O gesso não secou..107 por Valadares (1976. do mês de maio de 1945 [fac-símile]. E não examinaram ela direito! Ela tinha rachado a coluna! E ela foi pra Nápoles. Uma daquelas estava escorregadia.Enfermeira Graziela Affonso de Carvalho Localização: Reportagem nº 6..505 do Jornal O Globo. Ficou uma coisa horrível! Quando tiraram o gesso. Fez vinte e seis horas de caminhão pra chegar em Nápoles. umas táboas que serviam de ponte. Ela ficou inchada. ao tempo que congelou um momento de sua internação no HCE. um tumor no cérebro. Ela se contaminou e foi pra cama. em 1945: Foto nº 5 . e ela escorregou... Podre por causa do gesso. mandaram ela aqui pro Brasil... ele estava todo mole e. inclusive. p. E chegando lá. a água já estava subindo. e depois disso ela não teve mais recuperação.. Sofreu! Sofreu barbaramente! Em vez de mandarem para os Estados Unidos. Nós tínhamos umas valas de escoamento e umas pontezinhas. ela foi condecorada nesta ocasião pelo presidente da República Getúlio Vargas. Apodreceu as carnes..87)..

Ao ter se deixado fotografar. Através da interpretação do texto fotográfico. ou seja. que estampam um olhar sóbrio. no campo social. Graziela expôs sua vulnerabilidade e sua provável intenção em ser reconhecido o valor simbólico de seu trabalho. ao ter sido publicada num jornal de grande circulação à época. houve as que trouxeram indeléveis os sinais da guerra. sem marcas do sacrifício. e por extensão a do grupo de Enfermeiras Febianas. Ademais. um rosto que esteticamente expressa o sentimento sublime da tragédia de que foi vítima esta “heroína”. alicerçada pelo poder político daquele governante. e. ao lado das enfermeiras que vieram ilesas. esse martírio exemplar serviu para consagrar a história daquela enfermeira. Assim. ao mesmo tempo. A foto fixa o drama particular advindo de problema de saúde. e sacralizaram para o grupo o simbolismo inspirado na atuação heróica de Ana Néri. Deste modo. mitifica pela sua atuação na Guerra do Paraguai (BATISTA. algo entristecido. observa-se a captação pela câmera de vestígios cristalizados da situação vivida por aquela mulher. se não o cansaço e o sofrimento da campanha. 2005). . reúne os atributos necessários ao reconhecimento de um martírio exemplar. que foi notadamente encarnado por esta enfermeira.108 O texto fotográfico leva à presunção de que a Enfermeira Graziela Affonso de Carvalho esteja acamada numa enfermaria de uma unidade hospitalar. as quais sacrificaram seu físico pela vitória do Brasil. aspecto bastante singular da experiência histórica do grupo de enfermeiras estudado. o fato de ter recebido a medalha das mãos do presidente da República promoveu a possibilidade de ser construída uma referência coletiva da representatividade social do grupo de Enfermeiras Febianas. aparentemente desalentador. símbolo nacional da Enfermagem.

4 . p. o hospital remanescente. os leprosos.. Ficaram 12 dias e 12 noites ao relento e com pouca comida.57 Sobre as condições da viagem de regresso do último grupamento de Enfermeiras Febianas para o Brasil. que também estava no navio. Pior que a guerra. uns ficaram na parte interna. Outro episódio lamentável é que. escoltarmos a prisioneira Margarida Hirschmann que.85).. quem não coube no interior alojou-se em cima. Para que o sacrifício e a pressa? Resultado. Antes de deixarmos a Itália. a Margarida Hirschmann. muitos passaram mal. uma coisa horrível. Este grupo somente chegou ao porto do Rio de Janeiro em 3 de outubro de 1945 (CAMERINO. Elza Miranda da Silva. que ainda se encontravam na Itália. catastrófica mesmo! Já havia terminado a guerra. com um hospital improvisado a bordo aonde foram transferidos os doentes do 35th Field Hospital. o balouçar do navio. . e ainda. No décimo dia começou a baixar todo mundo com pneumonia.200 pessoas. na viagem de regresso. a lembrança dos submarinos [nazistas] nos deixavam apreensivas. 1983. Elas retornaram junto com o quinto e último escalão da FEB no navio de transporte americano James Parker. recebemos ordem superior para. pois era outubro e o conflito acabara em maio (MORAIS.202). mantinha na Rádio de Milão. Silvia de Souza Barros. 2000.. além das enfermeiras e uma prisioneira. p.109 2. durante a nossa campanha. de Parola]. o enjôo. os tuberculosos e outras coisas horríveis. de uma outra Enfermeira Febiana deste grupo. mas ali estavam reunidos [cerca de] 3. Regressamos num navio que era o iate do dono da fábrica de canetas Parker e foi uma das piores coisas por que passei. porque a capacidade do iate era de 800 passageiros e bem apertados. Bertha de Moraes e Jacyra de Souza Góes [oriundas do 38th Evacuation Hospital. inclusive três enfermeiras. embarcavam de Nápoles para o Brasil as últimas enfermeiras brasileiras da FEB. em parceria com o 57 Formavam este último grupo as enfermeiras Maria Apparecida França e Olímpia de Araújo Camerino [provenientes do 7th Station Hospital em Livorno]. O relato a seguir. ratifica e complementa [de forma mais amena] o que fora exposto no trecho anterior: A nossa permanência no mar. destaquei o trecho a seguir: . os queimados. voltando de navio para o Brasil. o uso obrigatório dos salva-vidas. no convés..O RETICENCIOSO RETORNO DAS ÚLTIMAS ENFERMEIRAS No dia 20 de setembro de 1945.

preparamos os nossos doentes para entregá-los aos companheiros do Hospital Central do Exército. assim. concluía-se. a não ser a consciência do dever cumprido (MORAIS. chegamos ao nosso querido Brasil. com missão prolongada e concluída. .110 italiano Emilio Baldini. Com o desembarque no Brasil deste último grupo. O desejo insopitável era agarrar a bagagem o mais cedo possível e sumir. viajou confinada em nosso camarote. a missão do primeiro grupamento de Enfermagem do Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial. p. considerada traidora. com dedicação. 1949. 1983. tão logo o navio ancorou em nosso porto. remanescentes. dignidade e espírito humanitário (CAMERINO. 85). No final da viagem. um programa ofensivo ao Brasil. que os acolheram carinhosamente. a melancólica arribada ao porto do Rio: chegar tropa da Itália já era coisa vista e não interessava mais. Essa prisioneira. sem nenhuma paga. também. ali. e foi entregue à Polícia Civil do Rio de Janeiro.420). melancólica e silenciosamente do que restava da FEB. E foi assim que. Com o 5º e último escalão de regresso da FEB. destaquei o trecho abaixo. Para fazer o desfecho deste capítulo. no Armazém 13 do Cais do Porto do Rio. que era guarnecido por policiais militares. Ainda envolvi o James Parker num último olhar de pesar e de saudade: ele representava o ponto final numa história de sacrifícios. desliguei-me para sempre. p. em 3 de outubro de 1945. intitulado “AuriVerde. Éramos. que revela emblematicamente e de modo emocionante os sentimentos de uma das últimas Febianas que chegaram ao Brasil: Depois. conscientemente.

111 CAPÍTULO 3 Os efeitos simbólicos advindos da participação das Enfermeiras Febianas na Segunda Guerra Mundial .

foram discutidos os efeitos simbólicos advindos da atuação dessas enfermeiras no campo do Exército Brasileiro.112 Introdução Nos capítulos anteriores foram abordados os processos de mobilização e de desmobilização das Enfermeiras Febianas. A leitura atenta do texto evidencia uma série de críticas à recepção que as Enfermeiras Febianas tiveram ao retornarem ao solo brasileiro. ex-aluna da Escola de Enfermagem Anna Nery. .125). uma vez que as armaram para defenderem seu reconhecimento. onde o que estava em jogo era a “reapropriação coletiva do poder sobre os princípios de construção e de avaliação da identidade do grupo que. 1989. busquei abordar uma parte dos vários aspectos que legitimaram sua nova visão de mundo. por ocasião do término da guerra. ainda que muitas vezes veladamente. auto-defensivo. motivado pelo seu habitus (re) atualizado após a guerra. neste último capítulo. p. essas mulheres foram lançadas de um país provinciano para uma frente de ordem mundial. Assim. Para tal. e experimentaram situações que acabaram por estruturar nelas novas ideologias mais críticas acerca de sua posição no interior do campo social. de autoria da Enfermeira Febiana Altamira Pereira Valadares. os quais permitiram alçar frente num movimento de contestação e de resistência. Inicio este capítulo com a transcrição do texto “Exaltação”. em geral o dominado abdica em favor do dominante enquanto aceita ser negado” (BOURDIEU. Esses bens simbólicos traduziram-se em ganhos para o grupo. A proclamação de sua “exaltação” se configura como uma estratégia de contestação e de subversão das estruturas hierárquicas vigentes no campo. Como visto.

sim. Até parece ironia. Que vive. Partindo para o Velho Mundo. deixando o santo lar. O que vale é a consciência da caridade ter praticado. senão a alegria. Mas. o povo assim te recebeu. mas isto aconteceu. Até mesmo seus parentes quiseram te menosprezar. Recebendo-te friamente. Nada querias. ao voltar à Pátria. se em teu íntimo sentistes A suprema satisfação do dever a que cumpristes. Defender-te-ei com meu fuzil. No teu amado Brasil. que sente a mesma aurora! . Somos humanas. A todos que tombavam em defesa do Brasil. a mágoa te veio assaltar. Dentro dos seus recursos de enfermeira improvisada. em todas elas havia o mesmo coração. em busca de aventuras. canta e chora. a saudade a torturar. por todos os lados. como um pária. Não fostes pensando na glória de teu nome figurar. senhores. Nos corações dos que sofriam. Não importa o que pensem. o nome de seu lar. alguns não souberam te acatar. aqui estou para te exaltar. com a pena far-te-ei brilhar! Enfermeiras da “F. Não fostes como pensaram. A mulher brasileira procurou sempre elevar Nas terras alheias. Sofreram misérias sem nome. Cada uma fez o máximo pela Causa Aliada. nas terras d’além mar Mas. com o desejo de aliviar as criaturas.B. até quiseram te difamar! Fostes bem acolhidas. um ateu. Sentiram o frio e a fome. que souberam a luta enfrentar.E. Que sentia os açoites da sua missão. nem pensastes. e ainda mais senhoras. Nisto.”. Nas páginas da história como heroína singular. querias era servir. Foi esta a recompensa que teu povo te deu. Pois daquele que cuidastes.113 EXALTAÇÃO Enfermeiras do meu Brasil. Mas. Sofrendo as inclemências do mal.

Este poema nos remete a uma série de elementos para discussão. após séculos de jornada. Mas a tua real vitória querida. Amém. Pois um dia a verdade surgirá a flutuar. entrarás.114 Qual a nossa emoção quando em terra estranha. nem receies que te venham magoar. cólera. pois partistes conformada. Só ficou o teu nome. louvor. Era então como família. num formato poético. que encerra uma expressão que denota uma relativa ambigüidade. nada mais resta. e de lavrar suas percepções e indignações em nome do grupo. para a Morada.. Os brasileiros se uniam num só coração. na história. então a Pátria amada. mas nem por isso totalmente abstrato. No Reino de DEUS. Víamos tremular ufana a bandeira da Nação! No estrangeiro longe do nosso torrão.. unidos como irmãos. Aí. consagrado. engrandecimento” que o termo [Exaltação] propõe. ou se estaria também se valendo do significado de “irritação. A paz eterna Encontrarás. fama. suas . a começar pelo próprio título [Exaltação]. uma vez que procurou cumprir um dever e um privilégio seu em falar em nome do grupo. ela se fez porta-voz destas enfermeiras. Competência esta que materializou. Já de ti. sobreexcitação do espírito”. interrogo se a autora teria feito alusão ao significado de “glorificação. No céu. Compreenderá que estava muito enganada. ela utilizou-se de uma força argumentativa para bradar de modo exaltante e exaltado pela defesa das Enfermeiras Febianas. Desta forma. Através de seu texto. está na glória De ser filha dileta de DEUS! Pelos arcanjos ser levada. fúria. Ao ter se valido desta dualidade. Ao som dos hinos. celebração. Que lutavam e sofriam pela Paz e União! Nada temas.

de abstração da necessidade de se ter um corpo feminino regularmente incorporado ao seu efetivo. . Ademais. Desta forma. as sujeições e os limites que constituíram a existência social das Enfermeiras Febianas. portanto. Além disso. Ao fazer transparecer seus mecanismos mentais ela enfrentou. a sua existência enquanto grupo que aspira o reconhecimento social. ao tempo em que fez valer o capital simbólico de que era possuidora. manifesto. Por isso. o país experimentava fases pacíficas politicamente e militarmente no pós-guerra imediato. Assim. Logo após a guerra. essa evidência esmaeceu-se. num primeiro instante. o que delimitou a expressividade do grupo de enfermeiras no cenário social. mantida. ao terem sido desmobilizadas. Neste sentido. O texto “Exaltação” é exemplar no que Bourdieu (1998. pressuponho que a estrutura da distância sexual neste campo estaria. a autora tomou partido ao que se impôs negativamente ao destino daquelas enfermeiras. Assim. ela confiou às palavras a função de difusoras da causa das “enfermeiras improvisadas”. uma vez que professa publicamente a ruptura com a ordem social estabelecida ao enunciar um novo consenso a respeito da identidade do grupo. p. a expressividade dramática deste texto reside na divulgação pública do grupo. por ora. ou pelo menos tentou enfrentar. a visibilidade alcançada pela participação feminina no campo do Exército Brasileiro pôs em evidência uma ruptura de paradigmas que fez mover a fronteira existente entre homens e mulheres. num novo mundo democrático. e mais ainda. o que atesta.118) chama de “discurso herético”.115 acepções. a fim de fazê-lo visível. houve poucas pessoas interessadas de fato em defender a permanência daquelas mulheres nas Forças Armadas nesse momento. reconhecido. Iniciava-se um processo de obscurecimento da visibilidade da participação daquelas enfermeiras no Exército Brasileiro. “Enfermeiras de guerra” não teriam mais lugar num novo mundo de paz. para si e para a sociedade.

Aliás.116 De certo que.. quase que infalivelmente as exclui dos jogos de poder e das perspectivas de carreira. o “máximo” era ele [general Souza Ferreira]! Ninguém ia se meter nessa época. a construção social da imagem de “enfermeira de guerra” não foi consolidada eficazmente no imaginário popular. 2007. Além disso. sempre coube à mulher a menor remuneração no mercado de trabalho e as posições menos favorecidas. Provavelmente. o que poderia tornar essas posições desvalorizadas ou declinantes.. O depoimento abaixo corrobora esta afirmação: . uma vez que o referido ato já havia sido deliberado pelo general Souza Ferreira. sob a óptica de Bourdieu (1999). o que. com freqüência. Se o meu pai [general Tito Portocarrero] estivesse na Diretoria de Saúde. (Enfermeira Virgínia Portocarrero) .. mas os terrenos de excelência masculina [como o do Exército] tendem a se reconstituir (PERROT. porque o sistema hierárquico militar [verticalizado] não permitiria interferências na prática. Um outro elemento detectado através da análise dos depoimentos foi a forma praticamente estacionária e imparcial assumida por boa parte dos chefes militares da época quanto à reação acerca da desmobilização das Enfermeiras Febianas. talvez ele “se doesse”. as fronteiras podem se deslocar. Chefe do Serviço de Saúde na época em questão. parafraseando Perrot (2007). e autoridade máxima nas questões ligadas ao Corpo de Saúde do Exército. mas ele estava no Colégio Militar recentemente... Aliás. a permanência delas traria o sentimento de feminilização das posições. grande parte da explicação sobre a pouca visibilidade que foi angariada pelas Enfermeiras Febianas refere-se ao fato de que pouco foi feito para tornar conhecida e reconhecida. p. sua atuação.169). Caso contrário.. oficialmente e publicamente. há que se considerar que. Talvez. uma mulher “que desaparece” não representa muita coisa no espaço público. Deste modo. essa situação sirva para explicar parte da intenção do Exército à época em não manter mulheres em seus quadros. geralmente.

enquanto meios em que se produz e se reproduz a crença nos pilares “tradição. ou seja. que se deteve na análise do impacto da Segunda Guerra Mundial no cotidiano dos paulistanos. Sobre tal proposição. e. disciplina e hierarquia”. a despeito da mobilização civil e do apelo suscitado na população quando do torpedeamento dos navios brasileiros a partir de 1941 e quando do retorno festivo dos expedicionários ao Brasil em 1945. Desta análise em curso. talvez a participação da FEB na Segunda Guerra Mundial não tenha atingido plenamente a população brasileira por não ter sido sedimentada eficazmente a representação simbólica daqueles combatentes.117 Na estrutura das instituições militares. pois o escalonamento das ordens que eram emanadas não favorecia possíveis interferências. ou reivindicações. revelam que a memória da guerra não foi inteiramente apropriada pela população nem pelas elites. pudesse ter apenas uma presença periférica e risível em um sistema mundial. orientados em não subvertê-la. situação esta advinda do rigoroso manto de controle e dominação que era facultado aos chefes militares. o qual limitava o acomodamento de ações daqueles subordinados que se faziam parte. com mínimo impacto sobre o país e com uma participação brasileira que é mais lembrada em tom de humor e de quase desconfiança. estudos como o de Roney Cytrynowicz (1998). Sob outra lente. e tampouco foi devidamente registrada como história contemporânea do Brasil. estão envolvidos num processo de promoção de um esforço individual e coletivo para legitimar a crença oriunda de um sistema de forças que impõe aos agentes radicados no campo a sua subordinação. reforça-se a idéia de que muito pouco poderia ser feito pelas enfermeiras desmobilizadas acerca do pleito pela sua manutenção no efetivo do Exército. ponderações. como se o Brasil. Este autor propôs que a guerra foi considerada um evento "externo". os indivíduos estão sujeitos ao poder de manter a ordem. por . ou seja. através de regulamentos rígidos e pouco flexíveis. excluído a priori do mundo.

No Brasil.. E é neste cenário que foram projetadas as Enfermeiras Febianas. destaquei o fragmento abaixo que registra a percepção de uma delas acerca das notícias veiculadas pela mídia por ocasião da chegada das enfermeiras ao Brasil: Ignorou! Não deram destaque. Aliás.. pelo poder que alcançaram. as quais sofreram os reflexos deste processo. a presença no além-mar foi de cerca de 26 mil homens apenas. uma vez que não foram sequer convidadas para os desfiles da vitória na Capital Federal após o término da guerra. Ou seja. Pouquíssimas entrevistas! Não houve um movimento. Uma entrevista aqui. e o impacto social do retorno desses veteranos não teve a mesma relevância do que nas outras sociedades. conseqüência esta estrategicamente arquitetada pelos mandatários do poder. Uma notinha ou outra é o que saía. o lucro simbólico de terem sido consagrados pela sua hegemonia durante a guerra. a Europa foi diretamente afetada. Maximiano (1995) tece o seguinte comentário sobre o impacto da Segunda Guerra no Brasil: A experiência de guerra não ecoou na sociedade brasileira como ocorreu nos Estados Unidos ou na Europa. Os americanos mobilizaram 16 milhões de combatentes. Não havia família que não tivesse algum parente trajando uniforme ou ajudando no esforço de guerra. a Segunda Guerra Mundial provocou uma gigantesca comoção na sociedade estadunidense. em número e expressividade.. que ativou a pleno vapor o maior parque industrial do mundo. outra ali. Depreende-se do trecho acima e das fontes consultadas que os norte-americanos tiveram. eles conseguiram fazer valer suas visões de mundo. foram sociedades fortemente afetadas pela guerra.118 não ter ocorrido uma referência pública forte que permitisse estabelecer uma identificação evidente do povo com aquelas personagens.. e que espalhou .. que objetivaram promover o esquecimento dos febianos na memória coletiva. que ofuscou de certa forma a sua visibilidade. (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) No que diz respeito à esfera social. uma notinha. Assim.. Com relação ao silêncio da imprensa acerca do retorno das Enfermeiras Febianas.

Aliás. achei que eles estavam certos: devia ter tomado algum álcool para resistir melhor ao frio (VALADARES. Assim. de manuais de higiene até pacotes de preservativos. 1992. o efetivo norte-americano mobilizado para a guerra foi bastante superior ao brasileiro. p. O trecho abaixo ilustra parte do farto cotidiano supracitado. Era uma guerra de esbanjamento: nos bares para oficiais montados da Austrália até o Mediterrâneo. Lembro-me de que uma vez. Com elas surgiam novos . mais tarde. Na verdade. lá em Valdibura [Itália]. Os americanos gostavam de beber whisky. Pensava que eu tinha tomado aquela quantidade de álcool e continuava sóbria. Foi justamente e forçosamente com esses detentores do monopólio legítimo do poder que tecemos nossas alianças político-militares. por exemplo. more”. que foi testemunhado durante a guerra por uma das Enfermeiras Febianas: Naquele tremendo inverno. 2001. 2002). mas não cai”. vendo meu copo vazio. que inundou o país com fitas de Hollywood. cada soldado do rico exército ianque recebia uma série de utilidades que iam do talco anti-piolhos até latas de cerveja. o que possibilitou o transporte rápido do fantástico volume de mensagens que diariamente saía da nação para seus guerreiros (NEVES. e o enchia. enquanto o Exército Brasileiro havia enviado apenas 67 enfermeiras. conversávamos amistosamente durante as folgas. Eu não gostava.127-128). Ele depois comentou: “A Altamira é como a Torre de Pisa: inclinada.345 atuaram no teatro de operações europeu (BELLAFAIRE.000 mulheres para prestarem seus serviços durante a Segunda Guerra Mundial. bebia-se uísque e cerveja à farta. Comparativamente e como logicamente esperado. eu jogava o whisky fora. o Exército dos Estados Unidos mobilizou cerca de 59. a guerra trouxe consigo a “Política da Boa Vizinhança”. Além do soldo. Enchiam meu copo. característica que se projetou inclusive ao contingente de enfermeiras. das quais 17.119 mais de 15 milhões de pessoas fardadas e uma brutal quantidade de sujeitos por quase todos os lugares do planeta. Disfarçadamente eu jogava o conteúdo fora. os EUA montaram um sistema de microfilmagem de documentos em larga escala. Com relação ao correio. p.8687). um médico americano insistia: “more.

que se entranhavam entre as classes médias e abastadas. e de filmes de guerra. Sensível a esta “nova ordem social”. que se tornou um grande ícone da representação feminina do ocidente. pois boa parte da força produtiva masculina estava empenhada nos esforços de guerra. vestidas com luvas e chapéus [itens obrigatórios nas saídas à rua] surge também a figura da mulher que levava um cigarro à boca. p. simpatizante do feminismo. Ao que parece. Esta heroína das HQ‟s teve a função.120 hábitos de vida. essa representação social forte da figura feminina perdeu parte de sua eficácia simbólica e as vendas das revistas passaram a decair (NEIS. ao som de Glenn Miller e sua orquestra. Também é o tempo dos grandes musicais hollywoodianos. e penetram em lugares até então fechados a elas. leia-se: com o retorno à antiga ordem sexual. filmes inclusive em que era dado um novo papel à mulher. com o retorno dos homens após a guerra. durante a Segunda Guerra. ocorre a criação do personagem Zé Carioca por Walt Disney. de mostrar para as mulheres que elas eram capazes de cuidar de si mesmas. A despeito disso. uma série de conquistas advindas de lutas por . Marston defendia a idéia de que. criou a personagem Mulher Maravilha [Wonder-Woman]. e que promoviam mudanças de suas concepções e de seus valores. 2005. agora operária e participante do esforço de guerra. Entretanto. e da exportação pelo Brasil de Carmem Miranda. 2006). ao lado de mulheres glamurosas. Nesse contexto. essa revolução simbólica do habitus das mulheres norte-americanas consagrou. em 1942. o psicólogo e jornalista William Moulton Marston. geralmente as mulheres substituem os homens mobilizados durante as guerras.37). no campo da história das mulheres. Suas histórias foram um sucesso de venda nos Estados Unidos. o governo norte-americano passou a estimular estrategicamente uma maior participação profissional das mulheres. e que com a mesma naturalidade sentava-se à direção de um carro (MOREIRA. Assim.

a demarcação de “novos espaços” pelas mulheres.... de militar de alta patente. ao mesmo tempo elas se imiscuem em lugares e tarefas masculinas nas quais se saem muito bem. Enfermeira Virgínia Portocarrero. os substituem. bem podes avaliar as manifestações de entusiasmo do nosso povo.121 novas posições e novos ideais. está plasticamente estampado no trecho abaixo: Minha adorada filhinha. Festas nunca imaginadas se preparam para recebê-los. conforme abordado acima. Nesta vertente. de mulheres atuando como soldados. . Parte significativa dessas conquistas foi justamente atrelada à Segunda Guerra Mundial. Do trecho grifado. sua percepção de mundo enquanto pai. de mulheres executando tarefas masculinas. reproduziu. Todos indagam da data do regresso de nossos heróis e homenagens.. O general Tito Portocarrero. No front. ao locar no espaço os homens na frente de batalha e as mulheres na retaguarda.143-144) enfatiza que a guerra encerra em sua simbologia a ordem dos sexos. mas também. elas lhes dão suporte. esperam e choram por eles. Eles combatem. legitima-se sucintamente. Nenhum outro assunto ocupa ainda as conversações e a imprensa.. que elucidou a prerrogativa desse (re) direcionamento da ordem dos sexos. celebrando a vitória definitiva sobre a Alemanha e o conseqüente esmagamento do nazi-fascismo. Um exemplo dessa “transposição de lugares e tarefas”. meu valente soldadinho do Brasil (Acervo pessoal da Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero).. cuidam deles.. de mulheres atualizando seu habitus. p. Perrot (2007.58 Este fragmento é parte constante de uma carta escrita em 9 de maio de 1945 pelo general Tito Portocarrero à sua filha. Na sacada do nosso apartamento está nossa bandeira que tremulou em tua homenagem principalmente.. mas satisfatoriamente. ainda que no plano privado. elas passaram a atuar em diferentes tipos 58 O grifo é meu. Mas. ao chamar carinhosamente sua filha de “meu valente soldadinho”. Foi no bojo dessa revolução simbólica que as enfermeiras brasileiras lançaram-se nessa “missão divinal” de irem para a guerra.

1983. as enfermeiras brasileiras passaram a usar os produtos dos norte-americanos [uniformes. PORTOCARRERO. p. 2001. p. tudo aquilo englobado na rubrica das maneiras [de se comportar. de evacuação [evacuation hospital] e de campanha [field hospitals].117.114-119.211212. ou seja. Entretanto. Estas chefes transmitiam suas ordens para as Enfermeiras Febianas através da oficial de ligação. que foram instalados em várias cidades italianas. as melhores estratégias acabam por ser adotadas pelos grupos e são incorporadas pelos agentes como parte de seu habitus. p. Essa expansão do padrão norte-americano tendeu a inculcar disposições as quais determinaram a incorporação de novos signos. qualidade dos uniformes e da lingerie]. 1983. que era brasileira. A posição desvantajosa em que elas foram incorpadas nos hospitais do front italiano decorreu de diversos fatores que envolveram competência técnica. além de questões relativas à hierarquia. 1998). equipamentos. que em geral era exercida por enfermeiras com patente de major ou capitão. domínio do idioma oficial. as brasileiras ficaram agregadas à chefia de enfermagem norte-americana [chief nurse]. o que acabou por influenciar simbolicamente na configuração de sua prática. e atendiam também militares de outras nacionalidades (SILVA. SANTOS. mesmo sem o domínio da língua inglesa. p. de se postar]. Nesses hospitais. aparência pessoal [padrão étnico. incorporação de habitus militar. Sobre este processo de assimilação. de estacionamento [station hospitals]. de se vestir. 2002. CAMERINO. hábitos de consumo. pois ao longo do tempo. independentemente de suas qualificações. tinham as mesmas atribuições e trabalhavam em conjunto com as norte-americanas. Assim. viabilizada por essa participação conjunta entre os serviços de Enfermagem dos dois países (BARREIRA. artigos de toalete etc]. medicamentos. BAPTISTA. as Febianas.72).122 de hospitais do Exército Norte-Americano: de retaguarda [general hospitals]. de trabalhar. destaquei o seguinte trecho: .

21-22). para termos um quadro de enfermeiras adequado serão precisos anos de estudo. Ao que indicam os dados coletados. Assim. nada conseguiremos. as enfermeiras norte-americanas e brasileiras eram “unidas” pela condição feminina e “separadas” pelo capital simbólico. diferentemente das brasileiras. 1949.421). elas trabalhavam juntas e muitas vezes executavam as mesmas tarefas. mas o reconhecimento de suas posições no espaço delineava formalmente as linhas de poder estabelecidas. as Enfermeiras Febianas detiveram um poder proporcional ao seu capital que adveio. p.123 Os bons exemplos devem ser imitados e um bom exemplo é a organização militar americana. sendo um princípio gerador e unificador que traduz as características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo de vida único (BOURDIEU. em boa parte. Não só deveríamos criar nossa organização feminina. ao mesmo tempo. p. e por isto considerada legítima. Sem essa orientação geral.59 Nesse sentido. que vincula as práticas e os bens dos agentes. Neste sentido. concordo integralmente com Pierre Bourdieu quando afirma que uma das funções do habitus é a de dar conta da unidade de estilo. no Serviço de Saúde e dos seus componentes. o cotidiano e a influência das enfermeiras norteamericanas junto às brasileiras no front determinaram a imposição de uma visão de mundo hegemônica. de trabalho e entusiasmo (MORAIS. pois. imposição que acabou por estabelecer a manifestação de uma violência simbólica. . a aproximação estabelecida concorreu para a (re) atualização do habitus profissional das Enfermeiras Febianas no que diz respeito à 59 O grifo é meu. pois. Esta situação advinha das relações de poder assimétricas. como deveríamos trazer algumas especialistas para nos orientarem de início. 1996. Ademais. pelo menos na parte que nos interessa aqui. A despeito dessas “desvantagens”. determinadas pelas diferentes posições ocupadas pelas agentes de cada grupo e pela força do capital delas no campo. as enfermeiras norte-americanas possuíam posto hierárquico e soldo bem definido. da experiência conjunta com as nurses americanas. na luta pela imposição da visão legítima do mundo social.

a atualização do seu capital delineou a redefinição de ganhos que foram verificados no aumento de seu poder simbólico. psicológico. que reposicionam pensamentos e reprocessam novas tomadas de ação. a anestesia e os novos aparelhos eram até então praticamente desconhecidos (CAMERINO. 1992). ingleses. conforto e comida (NEVES. p. Além disso. de novas tecnologias para desenvolver o trabalho profissional de enfermagem. Deste modo.128).124 apropriação por parte delas de valores simbólicos. que trazem como resultado a mobilização de novos valores. As diferenças eram evidentes. alemães e italianos (PORTOCARRERO. 1983. sobretudo. ideológico. Em conseqüência. A penicilina. Na atualidade. pois a natureza desta condição encerra em si o contato com dificuldades e embates. e. nossos hospitais ainda são fechados ou mal funcionam por falta de verba. p. ao longo do tempo em que atuaram ao lado das norte-americanas. Nesta ocasião. Há que se considerar também que a personificação delas na qualidade de “enfermeiras de guerra” conferiu-lhes um poder que elas não possuíam anteriormente. mas também os choques moral. de terem trabalhado com equipes norte-americanas altamente preparadas e organizadas para enfrentamento de situações de guerra (BERNARDES. as brasileiras travaram contato com o moderno sistema de saúde norte-americano. A (re) atualização do habitus das Enfermeiras Febianas foi em boa parte fruto da absorção de outras culturas. 1983. .115). americanos. como produto de outros contatos sociais. material.000 feridos num dia. sem que faltassem enfermeiras. não foi somente o choque cultural o que se verificou naquela ocasião.71-72). 2003. o sangue. enquanto que há praticamente sessenta anos. os norte-americanos mantinham os seus em operação na Itália de tal forma que podiam receber mais de 1. com a gente e com as coisas do mundo desenvolvido. p. nos hospitais de campanha elas atenderam indistintamente pacientes brasileiros.

o que foi nitidamente observado nos sentimentos e ideologias expressados pelas Enfermeiras Febianas por ocasião de seu regresso. o que passou a estar em jogo. seu capital simbólico foi atualizado pela experiência que angariaram e por todas as transformações de atitudes que esta experiência implicou. de maneira lícita. que pretendeu reapropriar coletivamente para o grupo de Enfermeiras Febianas o poder sobre os princípios de construção e de avaliação de sua própria existência. principalmente após a guerra. Esta extensão de seus ideais definiu modificações em seu habitus. a instituição de uma identidade legítima possibilitou. ou mesmo a desejarem. as atitudes inculcadas pelo discurso patriótico que anunciava a necessidade de enfermeiras para a guerra predispôs boa parte daquelas jovens a aceitarem. o questionamento por parte do grupo sobre os limites constitutivos das ordens social e mental . mais combativo. Deste modo. o que era de se esperar. Intrínseca a essas atitudes. de certa forma. a incorporação de um posicionamento mais politizado e.125 Ademais. foi o poder de se apropriar de vantagens simbólicas associadas à posse de uma identidade legítima. Esta revolução simbólica contra a dominação simbólica e os seus efeitos de intimidação objetivou a conquista de uma posição. trouxe como conseqüência para a visão de mundo das Enfermeiras Febianas a ampliação das interpretações acerca do significado de suas participações na guerra. Essa renovação de seu habitus impôs novos princípios de di-visão. uma vez que a percepção legítima do grupo pelo grupo se fez notar nas atitudes e nas declarações explícitas acerca de sua consagrada experiência. a fim de se fazer reconhecer não somente como um grupo de vencidas. Assim. o que lhes conferiu o poder de definir novas formas de definição do mundo social em conformidade com as suas novas necessidades e interesses. Como implicação deste processo. participar do “mundo militar”.

para cada caso. que deveriam ter sido distribuídos a contento ao grupo de Enfermeiras Febianas para o (re) conhecimento de sua significação simbólica e. porque eu me faço conhecida. até então. embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão. de sua função social. em ajudar na defesa do nosso soldado. são sempre determinadas pelos interesses de um grupo que as forjam. Só o fato de termos nos apresentados pra guerra já foi um feito extraordinário! Porque. o agradecimento merecido! Hoje ainda falam um pouquinho. com tudo diferente do que estávamos acostumadas.. Nós não recebemos. um país tipicamente pacífico como é o nosso..126 estabelecidas pelos mandatários do poder. que encerrou princípios que elas construíram sobre o reconhecimento de sua própria existência: Nós fomos muito injustiçadas sempre. Pela análise do depoimento acima.. limites estes que foram transgredidos. já teriam esquecido da gente há muito tempo (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros).. ou seja.. [cujas] revoluções nós resolvemos com meia dúzia de palavrões e poucas balas. Parte dos privilégios dessa consagração simbólica residem nas palavras [emocionadas] do fragmento abaixo. presume-se que tenha persistido no universo particular da depoente a idéia da aquisição de direitos. Sair do país. pra ir viver numa barraca de lona.. das nossas casas com conforto. como referido por Chartier (1990.. e tal. . pelo menos no campo simbólico. Não surpreende o fato desse esforço autodefensivo que impregnou o trecho acima. com vistas à rentabilizar o seu capital social.. Sem falsa modéstia. pegando dezesseis graus abaixo de zero. Nós enfrentarmos uma guerra. por conseguinte. É mais na conversa que ganhamos. com alimentação. p. Aliás. Daí. pela obrigação do patriotismo em defender a nossa gente. o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza.17): As representações do mundo social construídas. de manifestar para si e para o grupo disposições éticas capazes de melhor transfigurarem no mundo social os valores inculcados por ela(s) acerca dessa representação. em procurar dar o melhor... Porque se não fosse eu me fazer conhecida.

Eu costumava dizer: “Monta em cima! Cada veia uma agulha! Cada buraco uma sonda!” Essa era a maneira de “brincar” e a determinação era essa realmente. ressalto o seguinte fragmento: O papel que desempenharam as enfermeiras brasileiras junto às forças da liberdade pode ser assinalado como daqueles merecedores de gratidão do nosso povo. com esse garoto. Depois que limpei direitinho. Um outro recorte também delineia os aspectos dificultosos que caracterizaram a prática das Enfermeiras Febianas nos hospitais de campanha: . Ele continuou vivendo. que era de sete às sete durante quinze noites.. amornei uma ampola de soro e comecei a “seringar” pra tirar aquela lama. cheia de lama. tiraram as partes que estavam “estragadas”.. quando foi de manhã. E assim nós fizemos com ele.. Suas lembranças passaram a serem empregadas para decifrar suas verdades. Não tinha descanso. Em conseqüência. aquilo tudo que “não prestava”.. eu resolvi lavar a cabeça dele pra ele morrer com a cabeça limpa. fundamentos à exaltação objetiva de sua atuação no campo social. a equipe da manhã resolveu.. o recorte abaixo revela a natureza prática da profissão de Enfermagem. boa parte dos traços de seus discursos reconhecem e definem um conjunto de valores positivos de suas experiências. p. Esse militar foi salvo da enchente e eu ainda tive notícias dele por três meses (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros). Eram sete horas da noite quando eu cheguei. pra ele morrer com a cabeça fechada. não! O negócio era duro mesmo! Aí. nós estávamos pegando o plantão. sempre procurando dar uma morte melhor pra ele. A elas não faltou espírito de patriotismo. costurar a cabeça dele. Nós trabalhávamos com um espelho no bolso: “Encostou. Sobre esta assertiva.. para atendermos ao chamado do Brasil na hora mais grave de sua história (DIEGUES JÚNIOR in CAMERINO. botei um cortinado de gaze. metade foi embora! Fecharam e botaram o doente lá pra ele morrer. O “miolo” dele. Embaçou? Tem vida”.. “com as idéias limpas”. numa situação peculiar e sob a égide de uma guerra da qual tomaram parte as Febianas: Teve um caso de um pracinha alemão de 17 anos que chegou com a caixa craniana “rachada”. 1983. de suas efusões pessoais. quando foi lá pela uma hora da tarde. massa encefálica “para fora”.. nem igualmente entusiasmo cívico. Fecharam a cabeça dele. Passando para um outro enfoque. e trazer.127 Parte desse movimento origina-se da incorporação de um capital que é fruto de um trabalho de inculcação e de assimilação do grupo sobre si mesmo. Peguei soro morno.88).

Chegava a um ponto em que a gente não agüentava mais de total exaustão. sargentos e soldados em ação contínua. 2000. de princípios definidores [fundamentais] da missão da Enfermagem na guerra e de seu nexo inquebrantável com a prática necessariamente humanizada que esta missão encerra: As medalhas não significam grande coisa. O enfermeiro não tem pátria. tratava. pés de trincheira e “clínica médica”. não media sacrifício par que o ferido fosse bem atendido (CAMERINO. um em cima do outro. não tem política. cuidei não só de brasileiros. Com a rendição.206). Aconteceu ter visto um companheiro nosso bem mal e deixá-lo esperando ser tratado e atender um alemão que morria e salvamos os dois. graças a Deus! Essa era a regra do jogo (MORAIS. as brutalizantes condições humanas que se apresentaram às enfermeiras nos “hospitais de sangue” apóia a expressão da opinião contida no trecho seguinte. alemães e italianos. . é descrita parte da rotina do 16th Evacuation Hospital: Vinham surdos. franceses e ingleses. como pegar aquele pessoal para se fazer triagem rapidamente e acudir os mais graves? Nessa ocasião. Neste sentido. e os médicos. eram entregues às enfermeiras que lhes aplicavam o sangue. era uma missão de guerra e humanitária. O trabalho era estafante! A equipe de enfermagem. a estrutura do trabalho operativo das Enfermeiras Febianas na guerra. em primeiro lugar. Além de cuidar de todos. trabalhamos 72 horas consecutivas. trabalhamos 72 horas só com alemães! (MORAIS. mas também de russos. no plano de suas idéias. ao mesmo tempo. dezesseis. eu inclusive. neuróticos. americanos. que revela aspectos da amplitude do trabalho que elas desenvolveram. bem apertados. loucos. E agora.208). No meu mister que. não tem raça. 1983). artérias rompidas. composta de enfermeiras brasileiras e americanas. O fragmento abaixo demonstra plasticamente a incorporação por uma das Enfermeiras Febianas. Ao que indica o trecho do depoimento acima. 2000. algumas enfermeiras.128 Na rendição da 148ª Divisão Alemã. fraturas diversas. mas havia. p. os casos mais graves. em média. o plasma e os medicamentos. p. Depois de atendidos pelos médicos na sala de operação. Numa ambulância cabiam oito homens. não tem cor. caracterizava-se por uma rotina estressante. vieram também três hospitais alemães de campanha e várias ambulâncias da mesma procedência. Aqui. grandes chocados. que envolvia o enfrentamento de complexas situações de emergência clínica e cirúrgica.

é a morte! (Enfermeira Elza Cansanção Medeiros) É no meio hostil de guerra que se evoca a destinação social da “Enfermagem de Guerra”. o recurso à violência com suas conseqüências imediatas: o sangue derramado.33. Na guerra. ao prefaciar uma das obras da major Elza Cansanção (1987). tem-se estampada a “visão” pessoal de uma das Febianas sobre a difícil missão da Enfermagem na guerra: Esse era o nosso trabalho: salvar vidas! Eu costumo dizer: “o campo de batalha da enfermagem é diferente do campo de batalha do soldado numa coisa: o soldado luta para a morte. o recorte a seguir destaca as apreensões particulares de uma das Enfermeiras Febianas sobre o drama vivido nesses hospitais: Depois da guerra comecei a pensar melhor nela. consagrando-a enquanto profissão. a qual tem. sacrifícios e vigílias que as Enfermeiras Febianas tiveram que enfrentar para o desempenho de suas missões. se fez . nosso inimigo. Percebi que a gente acha mais ou menos naturais os acontecimentos de que está participando. Só mais tarde me dei conta de que tudo aquilo foi algo anormal na vida de qualquer pessoa: só na guerra é que se tentam salvar homens eviscerados ou com estilhaços de granada no crânio. Nela existem limites além dos quais a violência deixa de parecer uma coisa normal e sem perigo para tornar-se insuportável ou mesmo diabólica. Corroborando esta idéia. [pausa] Nosso campo de batalha. Este fragmento enfoca a consciência da grande amplitude de agressões físicas. historicamente e estrategicamente.73) muitos foram os sofrimentos. chegou a afirmar que não pode haver nada que retrate melhor a guerra e seus pesadelos do que um hospital de campanha. 1999. por sua amplidão ou pelos processos empregados (CORVISIER. a morte. a mutilação. 2001. Joaquim Xavier da Silveira [ex-febiano]. a qual. Neste sentido. 59). p. p. o que faz com que elas reflitam sobre as manifestações de crueldade individual ou coletiva que são operadas. em sua origem.129 De acordo com Portocarrero (1983. psíquicas e espirituais ao ser humano que a guerra pode acarretar. intensifica-se a sensibilidade das pessoas à violência. e a enfermagem luta com a morte”. p. por exemplo (VALADARES. No fragmento abaixo.89). no momento em que eles ocorrem.

prática essa que tinha na época um caráter bem diferenciado do modelo brasileiro de prática de enfermagem. Ao que parece. Entretanto. aquelas “enfermeiras brasileiras de guerra” inscreveram na História da Enfermagem Brasileira o ingresso em um campo praticamente inédito à profissão. o que. A despeito dessas objeções. mas não por muito tempo. apesar desses pesares. de fato.130 [e se faz] necessária nos campos de batalha. submete seus agentes a realidades estressantes que. Sobre essa “Enfermagem de Guerra”. deveria ter importado aos planejadores do Serviço de Saúde do EB a vivência daquelas enfermeiras em tais situações. concorreu para que se desse visibilidade à Enfermagem. pois é através dela que se salvam vidas e se aliviam o sofrimento dos soldados. Aliás. Suas práticas foram ditadas pelas circunstâncias que se apresentaram a elas: circunstâncias adversas num conflito de monta como foi a Segunda Guerra. pois foi a única categoria profissional [com mulheres] a participar efetivamente nas composições dos Quadros de Serviço das Forças Armadas no Brasil. por vezes. Não tínhamos. bem maior de qualquer exército. a fim de enriquecer futuros treinamentos voltados para a prática da “enfermagem operativa”. além da vocação. a desmobilização pouco coerente dessa “tropa” abreviou arbitrariamente a possibilidade de prováveis lucros no campo da Enfermagem Militar. que exige competência técnico-profissional e preparo psíquico. da mobilização ocorrida em 1944 para a constituição da “Enfermagem Febiana” [suscitada pelo apelo patriótico promovido pelo discurso político estadonovista para a defesa . defendo que sua importância no cenário de guerra é notória. passam desapercebidas. Faz-se conveniente citar que as Enfermeiras Febianas não foram preparadas adequadamente para o enfrentamento de situações de guerra. de certo modo. profissionais de Enfermagem gabaritadas para prestarem a devida assistência. O caráter dificultoso de seu exercício. devido à mesma ter sido feita necessária em um conflito de ordem mundial de grande alcance político-social.

Depois da guerra. a fim de atender uma nova perspectiva de mercado de trabalho. em um contexto de política de proteção à saúde do trabalhador. destaco o caso específico das enfermeiras norte-americanas. decorrente da medicalização da assistência que se encontrava em expansão. elas retornaram a uma sociedade que se mostrou pronta para aceitá-las como membros profissionais do sistema de saúde norte-americano. deixava-se de . uma demanda considerável pelos cursos das escolas de formação em Enfermagem da época. a Segunda Guerra mudou a sociedade norte-americana de forma irrevogável e redefiniu a situação e as oportunidades da enfermeira profissional (BELLAFAIRE. p. cuja experiência adquirida durante a guerra serviu para ampliar seus horizontes e expectativas profissionais. Valendo-me da sugestão da Enfermeira Bertha Morais (1949). A Segunda Guerra operou uma nova configuração para a Enfermagem Brasileira também.131 da Nação. gerando. desenvolveu-se um notável esforço de modernização dos hospitais brasileiros e parcela considerável das diplomadas passou a ser por eles absorvida. 1997. muitas dessas enfermeiras aproveitaram as crescentes oportunidades educacionais oferecidas pelo governo dos Estados Unidos. 2002). Devido à experiência angariada nos hospitais de campanha. e ostensivamente enaltecida nos principais jornais brasileiros]. veio à tona a Enfermagem como uma profissão que possibilitou o acesso das mulheres a uma atuação pública. Desse modo.79). abrindo espaços aqui para as enfermeiras e submetendo-as a novas influências da política e da enfermagem americanas (BARREIRA. De fato. com isso. Ao mesmo tempo. elas puderam continuar seus estudos graças à ajuda monetária fornecida por leis que estabeleciam diversos direitos e benefícios aos veteranos e membros das Forças Armadas dos Estados Unidos. o que se constituiu em um lucro simbólico para a Enfermagem Brasileira. Assim. que sugeriu que “os bons exemplos devem ser imitados”.

Assim. reconheço seu mérito pelo esforço que desprenderam em fazerem-se presentes e ativas. 2004. 1999. No campo das conquistas femininas. elas conseguiram romper [simbolicamente] os elos . na vanguarda. entendo e defendo que a conquista do serviço militar para aquelas mulheres [mesmo que temporalmente] representou uma arma simbólica que erodiu as barreiras que lhes impedia o acesso à sua “Bastilha”. 6). a fim de desafiar a ordem e os limites do espaço social militar. Assim. histórico. No âmbito político-social. 2007. 135. a queda da ditadura. e a conseqüente retomada de nossa evolução democrática. enquanto significativa revolução do século XX.143). a “eliminação” das minorias nazifascistas. constituiu brechas nos sistemas de poder favoráveis à reivindicação latente da igualdade dos sexos (PERROT. que abarcava a idéia de não serem vistas como vítimas. p. Outros ganhos também verificados foram o restabelecimento da liberdade de imprensa para o movimento de integração nacional. que proclamava enfaticamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres (CAIRE. cientes de seu valor social e. a Segunda Guerra Mundial. (BARREIRA. p.132 ser característica da enfermeira brasileira a saúde pública. Retornando ao microcosmo das Enfermeiras Febianas. e ainda pela constatação dos valores estratégicos do território nacional.152). como no caso da “Carta das Nações Unidas”. mas como mulheres que vão à luta em prol de seus ideais. p. ALMEIDA FILHO. assinada em 26 de junho de 1945. além do reaparelhamento e modernização das Forças Armadas. a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. No âmbito dos textos internacionais passou a existir um direito e uma realidade de acesso das mulheres à condição militar no pósguerra. Por fim. por extensão. 2002. concedeu alguns ganhos que foram evidenciados por um certo favorecimento para o aumento da projeção internacional do Brasil. especialmente através da FEB. por estes instrumentos fomentavam-se o engajamento feminino. p. posicionando-se numa perspectiva reivindicatória. por terem buscado a tomada de suas histórias na mão.

. um sorriso.421). O depoimento a seguir é emblemático neste sentido: E nunca mais se diga que a zona de combate não é lugar para mulher! Venham ver o que uma enfermeira pode fazer de bom e milagroso a um homem ferido! Muitas e muitas vezes. um lençol bem esticado. 1949.133 das correntes da dominação que as subjugavam. uma face de mulher fazem mais pelo ferido do que um litro de plasma (MORAIS. p. uma mão carinhosa sobre uma testa escaldante.

134 Considerações Finais .

Desta forma. oficialmente. Por terem sido recrutadas para atuarem através de uma profissão essencialmente feminina. mediante a introspecção de um apelo patriótico que. Esta mobilização serviu para elucidar os moldes da metáfora da Pátria-Mãe. Como esperado. a incorporação de enfermeiras em seus quadros. ao se fazerem ver Enfermeiras da Reserva do Exército. a qual promoveu a transposição dos valores imagéticos da vocação feminilizante da mulher no seio familiar para o recrutamento de “enfermeiras-soldado”. de certo modo. as quais foram incorporadas ao Exército Brasileiro através da Força Expedicionária Brasileira para prestarem seus cuidados aos soldados que iriam lutar nos campos de batalha na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. o estatuto das forças não-combatentes do pessoal que integra os serviços de saúde militar em tempo de guerra. a princípio.135 A criação do Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército em 1943 materializou a formação de um grupo que contou com um efetivo de 67 mulheres. elas não ofereceram. minimizou um pouco a retração da história da mulher brasileira no meio militar. a exemplo . a despeito dos enfermeiros que eram regularmente formados pela Escola de Saúde do Exército desde 1921. que iriam atuar nos hospitais de campanha durante a guerra. houve muita resistência em aceitar-se esta participação feminina nos efetivos do Exército Brasileiro. sempre permitiu que as mulheres estivessem presentes no front e compartilhassem os perigos e os sofrimentos dos combatentes. essas “voluntárias da Pátria” assumiram o risco de ir além dos limites que circundavam o universo feminino à época em seu terreno profissional. que afirmava ser no lar o lugar da mulher. Ademais. A mobilização dessas enfermeiras no contexto estadonovista pode ser considerada como uma ruptura do discurso paternalista. Nunca antes na história da Força havia sido permitida. um risco tão acentuado para a “feminilização” do espaço militar.

uma questão que chamou a atenção neste estudo foi a forma como eram veiculadas as notícias publicadas no país sobre a participação das Enfermeiras Febianas na guerra. quase sempre diminuta. Para dar voz às Enfermeiras Febianas. Conjugado com esta idéia. é claro. ao estar contida no grande campo da História da Enfermagem Brasileira. ao ampliarmos a questão. um efetivo feminino. Essa era a intenção que se fazia transparecer.136 da atuação emblemática de Ana Néri na Guerra do Paraguai. mas não lhes foi conferido. não se constituiu em uma história isolada por si só. em seus quadros. Aliás. e pouco foram vistas. e da morte dos soldados nos hospitais de . este estudo valeu-se da História Oral Temática. a falta de preparo que assaltou repentinamente o Exército no sentido em ter que incorporar às pressas. Apesar disso. tudo leva a crer que elas estariam incorporadas ao Exército Brasileiro somente durante a guerra. as hesitações e as lacunas encontradas nas fontes previamente consultadas. da dor. o direito a posto militar e nem o direito a uma remuneração condizente. considero a aparição das Enfermeiras Febianas para a Segunda Guerra Mundial um epicentro da história das mulheres brasileiras nas Forças Armadas. Ao contrário. uma vez que elas foram aceitas pela Força. Soma-se a isso. História esta que. deve-se incitar o estudo dos problemas que tal conciliação poderia causar em tempo de paz. a qual revela uma diversidade de condições adversas que se assemelham com aquelas que há muito as enfermeiras brasileiras tiveram que enfrentar. No entanto. ela conserva um traço comum com a história das mulheres na Enfermagem. e que mostrou-se como um importante veículo que propiciou o desvendar de um passado histórico em que elas pouco se fizeram ver. sem revelar com mais detalhes as agruras e os problemas enfrentados advindos dos sofrimentos. que contribuiu positivamente ao minimizar os silêncios. de início.

e da forma discreta como foram estrategicamente projetadas no cenário social. LEONZO. Uma vez desmobilizadas. A despeito desses prejuízos. e alistouse no Batalhão Voluntários do Príncipe D. a fim de que não cultivassem no país o “perigoso ideal febiano de combater os regimes totalitários”. passou a ter o direito de usar o próprio nome: “Soldado Maria Quitéria de Jesus”. Ao término da campanha pela manutenção da Independência do Brasil. 1998). como demanda simbólica advinda desta desmobilização. Assim. o capital simbólico que elas incorporaram marcou de forma significativa a História da Enfermagem Militar Brasileira. contrariando a idéia alinhavada de que os heróis de guerra são sempre homens. Após ter sido ferida em combate. de 2 de outubro de 2003. Maria Quitéria seguiu para o Rio de Janeiro. . o que dificultou o (re) conhecimento da atuação daquele que foi o primeiro grupamento feminino regularmente organizado de Enfermagem no campo do Exército Brasileiro. sem mencionar claramente aspectos de sua importância no cenário social e militar. as enfermeiras que compuseram a FEB foram também esquecidas.105. em vez de ser excluída das forças. sua condição feminina foi descoberta. materializaramse as posições de poder e prestígio ocupadas pelos detentores da força institucional do Exército àquela época. arrisco afirmar que as Enfermeiras Febianas foram verdadeiras heroínas ao dizerem “não” e ao terem ido à luta. Pedro. 60 Comentário alusivo à Maria Quitéria de Jesus. ou pelo menos mulheres travestidas de homens60. decorrentes de suas posições na estrutura do campo político. legitimaram a contribuição do Exército para a conservação da ordem política. e ainda. pois as autoridades militares investidas de sua função de manutenção da ordem simbólica. Neste sentido. devido a seus atos de bravura.137 campanha. mas. numa época que alijava as mulheres de uma inclusão mais efetiva no mundo social. elas foram desmobilizadas da FEB. Após uma atuação nos hospitais de campanha que foi digna de inúmeros elogios. a exemplo do que ocorreu com a maioria dos expedicionários. onde foi recebida em audiência pelo imperador D. Pedro I . que lhe conferiu a Medalha de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro (Noticiário do Exército nº 10. que abandonou a casa paterna e alistou-se em um regimento de artilharia como o “Soldado Medeiros” e lutou contra a resistência à Independência do Brasil na Bahia.

o simbolismo contido nos discursos das Enfermeiras Febianas faz com que nos deparemos com significantes e significados de embates contra a imposição de uma série de contraditórias a sua existência no mundo social. elas realizaram um trabalho contínuo de autorepresentação ao longo de sua permanência nesse campo. a força da atuação das Enfermeiras Febianas fez-se sentir através de contrapoderes que atuaram tanto no campo privado quanto no público. colocando às claras uma óptica às vezes crítica. do sim ao não. essa dicotomia condicionou as . os militares em relação à sua imagem de virilidade e à sua posição histórica de dominação. do interior do país para a Europa. Ao longo de sua permanência no campo do Exército e ao tomarem contato com o “mundo exterior”. nos efeitos simbólicos advindos de sua aparição pública. durante e após a guerra. contribuíram para a compreensão do caminho dificultoso que foi percorrido pelas enfermeiras estudadas na consecução de seus objetivos. a fim de imporem a sua visão de mundo ou a visão da sua própria posição nesse mundo. Ou seja. a visão de sua identidade social. Para tal. do lar à guerra. Apesar da impregnação da dominância masculina. das forças das alianças. Há que se considerar que a presença feminina deva ter ameaçado. aspecto que refletiu. do que representou sua representação. e às vezes romântica. em boa parte. do silêncio à expressão. que elas enfrentaram uma série de lutas contra a resistência à sua presença no meio militar. Ademais. Neste caso.138 É notório e verificável nos depoimentos e discursos das Enfermeiras Febianas. do avental para a farda. O poder oriundo do exercício de seu habitus (re) atualizado promoveu um movimento dicotômico da memória e do esquecimento. produto de suas lutas simbólicas em diversos cenários e situações. ou seja. verificou-se uma (re) atualização de seu habitus. mesmo que simbolicamente. e das relações de poder experimentadas. antes. a identificação das forças de resistência operadas.

naturalmente. de certo. O que salta à vista. quando a guerra começou. é a percepção da imensidão do que não foi abordado neste estudo. contra a exclusão e o ostracismo.139 Enfermeiras Febianas a consagrarem uma atitude de “interdição do esquecimento” e. Haveria. e também não procurei tecer argumentos ceticistas sobre a aparição destas mulheres no mundo social. entretanto. que não tive a pretensão real de definir o otimismo dos prováveis ganhos sobre a participação das Enfermeiras Febianas no Exército. ao encerrar este “percurso”. apoiou sobremaneira a análise dos dados. através de sua bravura e pertinácia num contexto político-social patriarcal que alijava as mulheres de uma maior projeção no campo social. além da defesa da Pátria. mas também de sua opção “esdrúxula”. mas sim. de luta pela valorização de suas reminiscências. o entendimento dos efeitos simbólicos advindos da participação das Enfermeiras Febianas no campo do Exército Brasileiro envolve outras circunstâncias que . Por fim. preocupei-me em apresentar as estratégias de resistência em lutas simbólicas que visaram o deslocamento das fronteiras entre dominantes e dominados. Para aquelas mulheres. muito a ser dito sobre o que envolveu a aparição das Enfermeiras Febianas no mundo público. o que viabilizou o alcance do entendimento acerca da marginalização natural sofrida pelos “sujeitos vencidos” desta história e da teia complexa dos interesses em jogo. e para trazer à tona aspectos calcados em um referencial teórico que. a abertura de novos espaços. Porém. Coube-me neste estudo a aproximação com as múltiplas versões e interpretações sobre essa temática. Busquei engajar-me para alcançar resultados que tornassem menos nebulosa a atuação das Enfermeiras Febianas. Devo ressaltar. Nesta vertente. há mais de sessenta anos. é por dever de justiça que devo destacar o seu sacrifício. elas alcançaram. por conseguinte. o futuro ainda nebuloso não trazia a certeza da vitória não só da guerra.

Entretanto. este seria um outro front.140 avançam temporalmente.. e exigem um estudo minucioso através de uma análise acurada. ..

141 .

142 Referências .

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152 Anexo / Apêndice .

153 ANEXO I – Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da EEAN/ HESFA .

Elza Cansanção Medeiros 15. 7. 2. Haydée Rodrigues Costa 61 Listagem realizada a partir do “Álbum Biográfico das Febianas” (1976). 8. 3. . 5. Gema Imaculata Ottolograno 19. organizado pela Enfermeira Altamira Pereira Valadares. Graziela Affonso de Carvalho 20. Dirce Ribeiro da Costa Leite 12. 6. Elza Miranda da Silva 17. 4. Fausta Nice Carvalhal 18. Carmem Bebiano 11. Elza Ferreira Vianna 16. Guilhermina Rodrigues Gomes 21. Acácia Cruz Alice Neves Maia Altamira Pereira Valadares Amarina Franco Moura Antonieta Ferreira Aracy Arnaud Sampaio Arminda Célia Barroso Bertha de Moraes Carlota Mello 10. Edith Fanha 13. Elita Marinho 14.154 APÊNDICE A – Listagem nominal (em ordem alfabética) das enfermeiras que atuaram na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial61 1. 9.

Hilda Ribeiro 25. Maria Conceição Suarez 44. Lúcia Osório 39. Lília Pereira da Silva 37. Maria Belém Landi 42. Maria Apparecida França 41. Jandira Bessa de Meirelles 31. Jurgleide Doris de Castro 35. Jacy Chaves 29. Jacyra de Souza Góes 30. Jandira Faria de Almeida 32. Ilza Meira Alkmin 27. Ignácia de Mello Braga 26. Lygia Fonseca 40. Lindáurea Galvão 38. Maria Hilda de Mello . Maria do Carmo Cerreia e Castro 45. Juracy França Xavier 34. Lenalda Lima Campos 36.155 22. Joana Simões de Araújo 33. Isabel Novaes Feitosa 28. Maria de Lourdes Mercês 46. Heloísa Cecília Vilar 24. Maria Celeste Fernandes 43. Helena Ramos 23.

Semiramis de Queiros Montenegro 62. Novembrina Augusta Cavallero 56. Neuza de Mello Gonçalves 53. Sylvia Pereira Marques 64. Olímpia de Araújo Camerino 58. Virgínia Leite 65. Maria Luiza Vilela Henry 50. Roselys Belém Teixeira 60. Mathilde Alencar Guimarães 51. Maria José Aguiar 48. Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero 66. Olga Mendes 57. Nicia de Moraes Sampaio 54. Silvia de Souza Barros 63.156 47. Ondina Miranda de Souza 59. Zilda Nogueira Rodrigues . Wanda Sofia Magewsky 67. Nair Paulo de Melo 52. Sara de Castro 61. Maria José Vassimon de Freitas 49. Nilza Cândida da Rocha 55.