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ABUSO DO EXERCÍCIO DO DIREITO DE RECORRER1 PAULO HENRIQUE DOS SANTOS LUCON Professor Doutor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Diretor do Instituto Brasileiro de Direito Processual. Membro do Instituto Ibero-Americano de Direito Processual e da Associação Internacional de Direito Processual. Advogado. Juiz do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. lucon@lucon.adv.br www.lucon.adv.br Sumário: 1. Da ignorância à má-fé dos litigantes. 2. Danos decorrentes da demora do processo. 3. Ônus processuais e tutela tempestiva. 4. Abuso do exercício de um direito processual. 5. Abuso do exercício do direito de recorrer e litigância de má-fé (CPC, art. 17, VII): a) recurso atacando matéria preclusa; b) recurso questionando entendimento consolidado pela jurisprudência. 4. Outras possíveis situações de abuso no âmbito recursal: a) fungibilidade recursal; b) falta de fundamentação. 5. Ainda sobre a disciplina dos recursos em geral. 6. Sanções ao litigante de má-fé. 7. Aplicação ex officio das sanções. 8. Abuso do direito de recorrer e disposições legais específicas: a) no agravo; b) nos embargos de declaração. 9. Advocacia e abuso do direito de recorrer. 10. Conclusões.
“... l’antico proverbio veneto, tra gli ingredienti che occorrono per vincer le liti, mette sì al primo posto l’‘aver ragion’, ma subito dopo aggiunge che occorre altresì ‘saverla espor’, ‘trovar chi la intenda’, e ‘che la vogia dar’, e alla fine ‘debitor che possa pagar’” – PIERO CALAMANDREI, “Il processo come giuoco”, p. 539.

1. Da ignorância à má-fé dos litigantes O abuso do direito processual manifesta-se das mais variadas formas ao longo de todo arco procedimental. CALAMANDREI elencava dois obstáculos que tornavam (e tornam) difícil ao juiz o cumprimento de seu ofício: a ignorância (ou imperícia) e a má-fé dos litigantes.2 A primeira é uma conseqüência inevitável do complicado tecnicismo jurídico que, na imensa maioria das situações, exige a intervenção de um especialista. Na verdade, apresentam-se diante do juiz as partes que, por ignorância da lei, acreditam de boa-fé ter razão quando não têm ou, mesmo tendo razão, não são capazes de expor de modo claro e tecnicamente preciso as suas pretensões. A segunda constitui obstáculo muito perigoso porque a parte tem consciência de ter praticado um ato ilícito e vale-se do debate judiciário para obter uma vantagem injusta, podendo assumir no processo três formas características: a) na primeira, sabedor de ser mais frágil que o adversário na questão de mérito e prevendo que a sentença definitiva lhe virá contrária, o litigante tergiversador vale-se de todos os pontos de apoio que as formas processuais lhe oferecem para tornar demorada a final solução do processo, com a esperança de cansar o adversário e de impor, antes do trânsito em julgado, uma vantajosa transação; b) na segunda forma característica, tendo plena consciência de não ter razão, o litigante temerário coloca-se audaciosamente no debate judiciário na esperança de levar a engano o juiz, ostentando diante dele a mais descabida segurança do seu “bom direito”; c) na última delas, estando convencido de ter razão, mas não tendo prova para demonstrá-la, o litigante tenta, na exposição dos fatos, conseguir a vitória com dizeres conscientes em juízo, mas sustenta coisa contrária ao verdadeiro.3 O exercício abusivo de um direito processual pode manifestar-se no conteúdo das alegações feitas por uma das partes litigantes ou na forma por meio da qual esta atua no processo, pessoalmente ou por seu procurador. O conteúdo diz respeito, em síntese, à existência de um dever de dizer a verdade, do qual decorre naturalmente um dever de completitude da verdade, ou seja, o dever de dizer toda a verdade; afinal de contas, meia-verdade é também meia-mentira. Já a forma relaciona-se com o respeito às “regras do jogo”, cujo denominador comum talvez esteja, nas palavras de BARBOSA MOREIRA, “no respeito aos direitos processuais da parte contrária e na abstenção de embaraçar, perturbar ou frustrar a atividade do órgão judicial, ordenada à apuração da verdade e à realização concreta da justiça”.4
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- Estudo atualizado e publicado originalmente in Aspectos polêmicos e atuais dos recursos, São Paulo, Revista dos Tribunais, São Paulo, 2001, vol. 4. Disponível em: http://direitoprocessual.org.br/content/blocos/100/1. 2 - “L’avvocatura e la riforma del processo civile”, n. 6, p. 32. 3 - Cfr. CALAMANDREI, “L’avvocatura e la riforma del processo civile”, n. 6, p. 32-33. 4 - “A responsabilidade das partes por dano processual no direito brasileiro”, p. 17.

47. Processo Civile e Costituzione. o legislador brasileiro. Lineamenti del nuovo processo civile di cognizione. 3. Além disso. p. 520-521). Entretanto. 10 . Neste caso. salvo se o recurso interposto tiver efeito apenas devolutivo (arts. uma clara tendência a prestigiar os graus de jurisdição e as decisões monocráticas.Nesse sentido são as observações de RICCI. art. A primeira das vantagens é a econômica.11 A segunda delas é que a demora na outorga da prestação jurisdicional “aumenta os custos para as partes e pressiona os economicamente fracos a abandonar suas causas. Evidencia-se.12 A presteza da atividade jurisdicional constitui aspecto 5 6 . V. pp. coibir o abuso do direito de recorrer. pp. Manual da acção executiva. por sua vez. SOUZA. 2. 631). é regra geral que a apelação interposta contra as sentenças proferidas no processo sumário tem apenas efeito devolutivo. reparações ou providências urgentes”. 63. LOPES-CARDOSO. “Il Progetto Rognoni di riforma urgente del processo civile”. já que as pessoas se vêem desestimuladas a cumprir a lei. que importa necessariamente a revisão da matéria fática (“A reforma no art. n. 11 . 2. PEÇANHA MARTINS critica os julgamentos monocráticos de segundo grau.CAPPELLETTI-GARTH.2 Sucintamente. vem optando por ampliar as penas àquele que. Estudos sobre o novo processo civil. p. TROCKER. das mais diversas naturezas. 479-480. recorre abusivamente. que. ou a aceitar acordos por valores muito inferiores àqueles a que teriam direito”. valorizar as decisões colegiadas com a supressão da figura do juiz instrutor na apelação (a lei processual italiana é bem clara no que tange à admissibilidade da instrução em segundo grau. e 47. É sabido e ressabido que a prestação jurisdicional intempestiva de nada ou pouco adianta para a parte que tem razão. permanece a regra segundo a qual as sentenças proferidas somente podem ser executadas depois do trânsito em julgado. sendo assim concedido apenas o efeito devolutivo à apelação (a) “quando a sentença se funde em escrito assinado pelo réu”. p. enquanto a sentença estiver pendente de recurso. 20. n. A prevalência de tal efeito tem um fundo político. 9. recentemente foi instituída a figura do juiz único em primeiro grau.O novo processo civil português desvencilhou-se dessa tendência ao prestigiar a execução provisória da sentença apelada. a a d). Ao contrário do que ocorre no processo de declaração. ao comentar o Projeto Rognoni de reforma do processo civil italiano (v. 111. a parte vencedora pode requerer a execução provisória em determinadas situações elencadas no próprio Código de Processo Civil. paulatinamente. n. parte final. o recurso de apelação terá efeito suspensivo se a sentença impuser a condenação à entrega de bem imóvel com fundamento na invalidade ou inexistência de contrato de arrendamento para habitação (cfr. i. Black’s law dictionary. justice and decency in dealings with another.1). 53. 266. com particular referência ao recurso de apelação. pp. 8 . n. ou ainda (d) “quando a suspensão da execução seja susceptível de causar à parte vencedora prejuízo considerável” (art. quando sabem que outras a descumprem reiteradamente e obtêm manifestas vantagens. (c) “quando arbitre alimentos. BARBOSA MOREIRA.756. 10 Entre adimplir com pontualidade e esperar a decisão desfavorável. Em segundo grau. Com a desconfiança das decisões dos juízos hierarquicamente inferiores. pp. existem também outras soluções que merecem ser estudadas: tornar irrecorríveis determinadas decisões ou mesmo impor o agravo retido como forma recursal única contra certos atos jurisdicionais em que não se evidencia prejuízo à parte. procurou-se. 598. p. TARZIA. 47.9 Essas penas têm. Danos decorrentes da demora do processo O sistema jurídico brasileiro procurou. 243. 249-251. 692. 12 . evitar o abuso do exercício dos direitos processuais significa impedir que o processo se converta em “instrumento de quem não tem razão”.5 No presente ensaio.BLACK. mais particularmente no tocante ao direito de recorrer. a parte vencida pode evitar a execução provisória suspendendo os atos executivos com o oferecimento de caução (art. principalmente com as novas alterações legislativas. o efeito suspensivo da apelação é expressamente previsto no art. 9 . Em caráter excepcional. retirando o efeito suspensivo dos recursos. 276. do Código de Processo Civil. patrimonialmente. Além disso.Cfr. 56-57). portanto. 653-654. Inconstitucionalidade e ilegalidade”. que ampliou ainda mais os poderes do relator. em relação ao processo de declaração. por assim dizer. antes da Reforma de 1990. d. 7 . 45. de 17 de dezembro de 1998. pois são favorecidas a especulação e a insolvência. Comentários ao Código de Processo Civil. p. 557 do CPC. o legislador valoriza de forma clara as decisões dos juízes de segundo grau. era feita apenas pelo juiz instrutor). por isso. Acesso à justiça. como efeito secundário e reflexo. constituindo verdadeira denegação de justiça. p. que não têm contato direto com as partes nem tampouco com as provas. o claro intuito de evitar que o processo tenha uma tramitação longa. 692.3). O processo com duração excessiva tem efeitos sociais graves. V. de outro lado. fixe a contribuição do cônjuge para as despesas domésticas ou condene em indemnização cuja satisfação seja essencial para garantir o sustento ou habitação do lesado”. 1. n.A expressão é de JOSÉ OLYMPIO DE CASTRO FILHO.4). na clássica monografia Abuso do direito no processo civil.. No atual sistema. Em resumo. ao devedor passa a ser muito mais vantajoso. 7 Pior ainda.V. a demora do processo desprestigia o Poder Judiciário e desvaloriza todos os operadores do direito. e. é a tendência gradativa de afastar a colegialidade dos julgamentos de segundo e terceiro graus. continua a prestigiar a regra vetusta do efeito suspensivo dos recursos. tudo converge ao respeito do fair play. Não obstante esses dispositivos. . 692. não se tratará das questões atinentes a contrapor o acesso à justiça ao tecnicismo jurídico. Não obstante. (b) “quando a sentença ordene demolições. herdada principalmente do sistema das ordenações lusitanas. acentuando-se as diferenças entre aqueles que podem esperar (e tudo têm a ganhar com a demora da prestação jurisdicional) e os que têm muito a perder com a excessiva duração do processo. na exata medida em que se opta conscientemente por valorizar muito pouco as decisões dos juízes de primeiro grau. o exeqüente ou qualquer outro credor pode ser pago prestando caução (art.6 2.Na Itália. .8 No lugar de valorizar as decisões dos juízes de primeiro grau. procura-se analisar o abuso processual. 1. equity. a segunda opção. Demonstração inequívoca disso é a lei n.

o dilema situa-se entre duas posições antagônicas e inconciliáveis: intervir a favor do autor ou abster-se de proceder a esta intervenção. II/49.V. “Superior Tribunal de Justiça e acesso à ordem jurídica justa”. Os resultados obtidos por meio do processo devem então. p. 8. V. na medida do que for praticamente possível. caracterizado pelo fato de ser uma conseqüência direta e imediata da simples permanência. mas especificamente causado pela distensão do tempo do processo (op. pois ele não é genericamente ocasionado. v. p.13 É natural que um processo assim provoca não apenas efeitos negativos àqueles que dele participaram. em que situações substanciais são muito bem definidas. n. 5. considerado como imperativo do próprio interesse. daquela concreta situação lesiva que está na própria origem do processo. ROBERTO GOLDSCHMIDT. p.) 19 . a questão reside no tempo necessário para que as decisões judiciais projetem seus efeitos no mundo exterior. pp. Constitución y proceso. o problema da demora na outorga da prestação jurisdicional definitiva tem várias origens: o grande número de recursos e remédios oferecido pelo ordenamento jurídico contra os atos decisórios emanados dos órgãos jurisdicionais. mas também a toda a coletividade. n..3 fundamental para o acesso à justiça. Spunti per una riflessione”.V.). n. um dano provocado pela demora necessária para se conseguir a vitória. 99 e ss. JOÃO BATISTA LOPES. mediante a convicção do juiz diante do direito e da prova constante dos autos. “Garantia da prestação jurisdicional sem dilações indevidas como corolário do devido processo legal”.. 8. a excessiva duração da instrução probatória etc. cit. Tudo resume-se a preservar a chamada “ordem jurídica justa”. juntamente com um evento determinado. “O juiz e a tutela antecipada”. 5o. dentro de um procedimento que impõe regras de participação a serem cumpridas. Por tudo isso.18 entendida aqui como um verdadeiro canal de “abertura de caminhos para obter soluções justas para conflitos e eliminação de estados de insatisfação — justas porque conformes com os padrões éticos e sociais da nação”. GIMENO SENDRA. por se contrapor ao andamento normal do processo. p. FINZI define o periculum in mora como “quel danno marginale. Ônus processuais e tutela tempestiva Os sujeitos parciais do processo têm o ônus de praticar todos os atos destinados à defesa e ao ataque. § 35. 16 . pois a demora exagerada na solução dos litígios atinge muito mais aqueles que não têm recursos para suportar a espera. 15 A duração do processo é a ocasião propícia durante a qual. 6-7. como conseqüência natural e procurando refletir o efetivo interesse dos jurisdicionados. pp. cumprir o binômio justiça–utilidade. poupando o réu dos danos decorrentes de atos práticos e materiais que podem ulteriormente revelar-se injustos. Derecho procesal civil. che non vi sarebbe se non nella ipotesi di ritardo nella esecuzione.A expressão dano marginal. p.Nesse sentido. p. 18 . p. percebe-se que o chamado abuso do direito de recorrer em relação à demora da prestação jurisdicional constitui verdadeira gota no oceano. 137-139.21 Os limites legítimos dessas barreiras são as garantias constitucionais eleitas. A razão de ser do processo está na sua aptidão de atuar na vida das pessoas do modo mais justo e no menor espaço de tempo possível. 161 e s.. “Les grands principes de la procédure civile: nouveaux aspects”. Sobre o direito ao processo sem dilações indevidas. e Tempo e processo. é atribuída por CALAMANDREI (Introduzione allo studio sistematico dei provvedimenti cautelari. 251. cit. produz-se lesão de grandes proporções a uma das partes. p. 319. 20 . 174-176. No entanto. 21 . Derecho justicial material civil.V. O ônus. tem estreita relação com a possibilidade processual de fazer valer suas razões. também.. Por isso.Nesse sentido. os efeitos suspensivos dos recursos e a desvalorização das decisões de primeiro grau. n. HABSCHEID. Em resumo. pp. ANDOLINA. 20 Nesse quadro. “Costo e durata del processo civile. VIGORITI. pp. II/50.19 3. 16 Isso porque. não existe processo no qual não se verifique. insculpida no art. o direito processual pode ser considerado como o direito da incerteza. e che scompare con la esecuzione provvisoria” (op. 17. viola a garantia da tutela jurisdicional justa e útil. 17 . XXXV. pp. p. CRUZ E TUCCI. cit. já que o seu desfecho é uma incógnita: depende essencialmente da atuação dos sujeitos do 13 14 . JAMES GOLDSCHMIDT. loc. “Questioni controverse in tema di esecuzione provvisoria”. decorrente da lentidão do processo. pp. § 2º. cfr. o direito processual procura a certeza jurídica. do estado de insatisfação do direito. 20). p. o sistema processual é responsável por definir precisamente a extensão temporal do processo considerada satisfatória para o Estado e legítima para os jurisdicionados. a excessiva demora no julgamento desses recursos e remédios. De tudo isso.Cfr. FINZI. 3. 203. 3.14 Como se percebe. 3. a bem da verdade. 63-88. 18-21. 15 . durante o tempo correspondente ao desenvolvimento do processo.Essa expressão deve ser atribuída ao processualista Kazuo Watanabe (cfr. e ainda. Esse dispositivo não assegura apenas o acesso formal aos órgãos jurisdicionais. estão as preclusões e o ônus de afirmar e provar.17 Sob o enfoque processual. “Cognizione” ed “esecuzione forzata” nel sistema della tutela giurisdizionale. Para o magistrado. “Assistência Judiciária e o Juizado Especial de Pequenas Causas”. “Questioni controverse in tema di esecuzione provvisoria”.DINAMARCO. pois toda possibilidade impõe à parte o ônus de ser diligente. mas deve procurar garantir o resultado substancialmente justo do processo. ou seja. . Todos os obstáculos que a lei processual impõe devem constituir verdadeiras regras de participação e são indispensáveis para que a relação jurídica processual desenvolva sua marcha destinada a um provimento jurisdicional. . Tal tipo peculiar de dano pode ser denominado “dano marginal em sentido estrito” ou mesmo como “dano marginal de indução processual”. o dano marginal decorrente da demora do processo tem graves efeitos na vida das pessoas. 173) a ENRICO FINZI. Ao contrário do direito material. relativamente à parte vitoriosa. ANDOLINA refere-se também ao dano marginal que individualiza o plano dogmático do título executivo. n.

quando se pensa em efetividade do processo. A solução parece estar muito mais na melhor estruturação dos órgãos jurisdicionais e na mudança de comportamento dos cidadãos. 33. A responsabilidade processual civil. pois a busca incessante pela verdade constitui fonte de eternização dos conflitos e justificativa de práticas burocráticas. TROCKER. com brevidade e eficácia. 370. CHIOVENDA observa que o litigante tem o dever de agir de boa-fé. V.23 o verdadeiramente importante é minimizar riscos. pp. 2) a obrigação de não afirmar conscientemente coisas contrárias à verdade.24 Aos sujeitos parciais. A instrumentalidade do processo. Por isso. Cfr. muitas vezes. n. p. a lei impõe cumprir as regras de concentração e aceleração do processo. 22 23 24 25 26 27 28 29 30 - Cfr. Parece claro não ser relevante para o processo atingir um grau de certeza absoluta. embora tenham estreita relação com a sua efetividade. concorrendo para se obter. por sua manifesta inconsistência. p. “na condução e intervenção no processo. mas não se pode negar que. que afeta diretamente os interesses em jogo. mas para protelar a solução do litígio ou para desviá-la da correta apreciação judicial. 271. devem os magistrados. Além disso. Nesse sentido.1. 116 e ss. 252. 266. Nesse campo. assim. “Abuso de direito processual no ordenamento jurídico brasileiro”. SATTA. n. n. V. é inadmissível que o litigante esteja convencido. Entretanto.. V. p. Não são raros os casos em que nada ocorre no processo. Assim. Nesse sentido. é a grande capacidade que tem o Estado de fomentar litígios. Tal exigência tem por fim permitir que resultados sejam obtidos sem maiores delongas. LUHMANN. o direito processual deseja sempre cumprir a sua missão de realizar justiça no momento em que o julgador põe fim ao processo. de as pessoas observarem a sua tramitação de acordo com os fins para que esta foi criada”. como conseqüência. para que esse comportamento seja assim direcionado é preciso que o Estado tenha um efetivo interesse de promover a educação dos cidadãos. p. 33. FERNANDO LUSO SOARES.. 165. p. 17 venha a ocorrer. pp. 3) a obrigação de comportar-se em relação ao juiz e ao adversário com lealdade e correção”30. DINAMARCO.28 Segundo o correto entendimento de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR. 6-7. A instrumentalidade do processo. por meio do apuro de técnicas que garantam a efetiva participação dos sujeitos do processo. inconstitucionais. encontra no fator tempo um de seus elementos característicos e naturais. qual seja. as penas ao litigante de má-fé devem ser efetivamente aplicadas sempre que uma das hipóteses previstas nos incisos do art. com elas. DINAMARCO. Se às partes são imputados encargos gravíssimos em razão do não-cumprimento dos prazos processuais. adormecendo os autos sobre as prateleiras dos juízos. mas nem sempre isso é possível. com a observância das garantias asseguradas pela Constituição Federal. “consiste o abuso de direito processual nos atos de má-fé praticados por quem tenha uma faculdade de agir no curso de processo. que estabelece o princípio da cooperação no processo. que compreende: “1) a obrigação de não sustentar teses de que. “Sintesi del diritto processuale belga”. por isso. no descumprimento de um dever. tais aspectos. Instituições de direito processual civil. 1. integrantes do arco procedimental. vol. mas que dela se utiliza não para seus fins normais..27 4. em função do grande volume de processos ou da desídia de certos magistrados e auxiliares da justiça. 22-23. “Il processo nell’unità dell’ordinamento”. Mas não somente às partes cumpre seguir as regras de concentração e de aceleração do processo: todos os integrantes do Poder Judiciário têm o dever de impedir a eternização dos conflitos. cada vez mais o processo se afasta da certeza jurídica. as partes devem também ter consciência de que existem regras que coíbem a utilização abusiva do processo. esp. O processo é uma relação jurídica dinâmica e.4 processo. HABSCHEID. 271. § 48. Principii di diritto processuale. os mandatários judiciais e as próprias partes cooperar entre si. aos integrantes do Poder Judiciário deve haver a previsão e a efetivação de sanções em razão da demora injustificada na prestação jurisdicional. Há uma estreita relação entre a efetividade da tutela jurisdicional e a duração temporal do processo. o resultado justo da prestação jurisdicional”. Limitações impostas pelo sistema jurídico devem ser vistas com naturalidade. . tem-se em mente um processo que cumpra o papel que lhe é destinado. embaraçando. ainda. 53.22 Por óbvio. 745-746. n. p. STORME. Abuso do exercício de um direito processual O abuso processual existe justamente em função de haver um dever processual consistente na “necessidade imposta pelo processo. p. já que exige o cumprimento de atos indispensáveis. 242. p. pp. do Código de Processo Civil português. Outro ponto de estrangulamento da atividade jurisdicional. Legitimação pelo procedimento. 26 Como é natural. conceder a tutela a quem tiver razão no menor tempo possível. “Les grands principes de la procédure civile: nouveaux aspects”. 270 e ss. no sentido de tentar resolver pessoalmente seus problemas jurídicos naqueles casos em que não é necessária a intervenção do juiz. inerente ao Brasil. aspecto essencial de toda e qualquer alteração estrutural. Processo civile e Costituzione. pp.25 O grave problema do atraso do Poder Judiciário na solução dos litígios atinge também todos os países europeus. III. 113. 29.29 O abuso de direito processual revela-se. a justa composição do litígio”. Bem expressivo é o art. por meio de atos ilegais e. são externos ao processo.

Desse modo. razão pela qual se optou por explicitar o abuso do exercício do direito de recorrer como causa para a aplicação das penas de litigância de má-fé. “O direito de recorrer e seus limites”. Exegese. A lei n. deixou claro ser o litigante considerado de má-fé se “interpuser recurso com intuito manifestamente protelatório”. de protelação e diz respeito à resistência ativa ou passiva: pela primeira. qual é a diferença entre recurso protelatório e recurso manifestamente protelatório? Antes de tal modificação legislativa. II. n. a dificuldade está. CARNELUTTI. Como contrapartida necessária. art. tem ele o poder de indeferir “as diligências inúteis ou meramente protelatórias” e “prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da justiça” (art. que lealdade e prontidão são deveres que não dizem apenas às partes litigantes. “Abuso de direito processual no ordenamento jurídico brasileiro”. o abuso do exercício do direito de recorrer constituía modalidade de “resistência injustificada” no processo. por considerá-lo litigante de má-fé (CPC. que a disciplina anterior se mostrava insuficiente para obstar os recursos manifestamente protelatórios. 16)”.V. d) dever de utilidade. desfecho único do processo executivo. depreende-se que o abuso do direito de recorrer. em que situações pode tal abuso se configurar. v. rumo à tutela de mérito. que tem a intenção de impedir. a condenação às custas processuais era aplicada apenas ao 31 32 . há omissão que conduz ao retardamento do processo. que acarreta ao recorrente não só a privação do reexame do ato judicial impugnada. 356. 125. não resta dúvida. na definição desse abuso ou melhor. que tem interesse primário na correta administração da justiça. de 23 de junho de 1998. 536. Por isso. La responsabilità processuale. mediante verdadeiro ato emulativo. que as partes e seus procuradores não devem “formular pretensões” “cientes de que são destituídas de fundamento”. Instituciones del proceso civil.5 Se de um lado existem deveres no processo. A diferença entre o recurso protelatório e o recurso manifestamente protelatório está na caracterização deste último: o dolo é elemento essencial e deve se fazer presente. 32 Fica claro. 125. IV do art. 96. já estava previsto no nosso ordenamento jurídico. ou à tutela satisfativa.MEDINA.HUMBERTO THEODORO JÚNIOR. 12. 17. 34 . consoante o disposto no inc. como causa para a litigância de máfé. retardar. 33 . FERNANDO LUSO SOARES. No sistema do Código de Processo Civil. portanto. 376. b) deveres das partes. concedida ao fim do processo de conhecimento. mas ao próprio Estado. p. p. p. pela segunda. Parece o recurso abusivo inserir-se na chamada emulação. 5. III do art.34 Isso significa. I. de outro existem direitos.FRANCESCO CORDOPATRI. Já os deveres processuais específicos resultam da função desempenhada no processo “pelo sujeito vinculado a cada dever” e dividem-se em: a) deveres do juiz. 284. 53. d) deveres dos funcionários judiciais. III). Mas. tem o juiz o dever de fiscalizar a atividade das partes velando “pela rápida solução da lide” (art.35 O litigante de má-fé age de modo consciente e voluntário e provoca ato injusto e lesivo à parte. c) deveres dos mandatários. Depreende-se também. p. 35 . art. Os deveres processuais gerais dizem respeito a todos aqueles que participam do processo e são de quatro espécies: a) dever de verdade. como sujeição a multa ou condenação em perdas e danos que o juiz ou tribunal lhe imponha. constitui “forma qualificada de inadmissibilidade do recurso.V. ‘por despeito ou represália’. sendo certo que a violação daqueles gera a lesão destes. II). 166. No direito romano. p. . VII. 14 do Código de Processo Civil. com arrimo em Pereira Braga. ao art. Comentários ao Código de Processo Civil. sempre que presentes certos requisitos que a lei impõe. Abuso do exercício do direito de recorrer e litigância de má-fé (CPC. Nesse caso. 19. o poder abstrato de recorrer ao tribunal a fim de obter determinada tutela jurisdicional é utilizado in concreto de forma abusiva. p. segundo os escopos do legislador. há a prática de ato (ou atos) que dificulta ou impede o regular andamento do processo. p. não basta que a culpa do recorrente seja leve. VII) O abuso do direito de recorrer. 17 do Código de Processo Civil. 9.33 Essa explicação diz muito mais respeito ao efeito do abuso do exercício do direito de recorrer. c) dever de prontidão. Mencionado dispositivo é passível de ser aplicado sempre que se constatar a prática de ato processual com intuito único de chicana. b) dever de lealdade. e a terceiros com interesse jurídico presente ou futuro no processo.31 Tais direitos não se referem apenas e tão-somente às partes litigantes. v. espécie do gênero abuso do direito processual. BARBI.668. modalidade de abuso de direito processual na qual se evidencia “a prática de atos ‘sem utilidade’ e com o propósito de ‘causar dano a outrem’. a eficácia imediata da decisão. n. A responsabilidade processual civil. ao inserir o inc. mas a todos os sujeitos envolvidos no processo. . no que concerne aos sujeitos parciais do processo. e) deveres dos auxiliares do processo. prevista no inc. 17 do Código de Processo Civil. afinal de contas.

Isso quer dizer que. b) contrária a posicionamento consolidado pela jurisprudência. BEDAQUE. 235-236. “Preclusão (processo civil)”. Poderes instrutórios do juiz. São situações de “recurso com intuito manifestamente protelatório”. 42 Não há.Cfr. a preclusão é um instituto que diz respeito apenas às partes e não tem o condão de afetar os poderes do juiz na busca pela verdade real e pela realização do direito justo. é preciso proceder à analise das três espécies de preclusão. Acórdãos colacionados por THEOTÔNIO NEGRÃO. os próprios órgãos jurisdicionais acabam desprestigiados. bastando. No campo dos recursos. Historicamente. mostram-se um tanto severos. n. Saraiva. sob pena de fazer dela um mal talvez até maior que a sua existência.Cfr. 102-103. 165. III. pp. principalmente no campo do direito probatório. principalmente aquela economicamente frágil. n. 162. 545-546. ou (b) de haver realizado um ato incompatível com o exercício de tal faculdade (preclusão lógica) ou (c) de haver já consumado a faculdade de um modo e não de outro (preclusão consumativa). 520.40 Na maior parte dos casos.38 Por outro lado. 423424. a preclusão com a instrumentalidade do processo. 116. p. portanto. 31a ed. mas não com referência ao juiz superior”. No que concerne especificamente à disciplina dos recursos. que tem efeitos negativos sobre os direitos da parte contrária e sobre a própria administração e dignidade da justiça. 117. construídas pela jurisprudência. (b) preclusa ou (c) contrária a entendimento há muito pacificado pela jurisprudência.MONIZ DE ARAGÃO. p. esse entendimento deve ser visto com amplitude ainda maior. basta a presença da culpa grave para que seja o litigante considerado de má-fé. 42 . em sentido semelhante. quando o meio de impugnação suscita matéria (a) já transitada em julgado.6 improbus litigator. Mire-se em dois casos: a) do litigante que alega matéria preclusa ou.Cfr. 38 . 91 e ss. 65-66. 16-17. 2000.37 Essa interpretação estende-se igualmente ao recente inc.. 104. também. VII que. Nos casos dos incisos I e VI. a) Recurso atacando matéria preclusa Preclusão é a perda. provocando verdadeira dilação indevida no processo. pp. pp. não há um concurso de vontades. p. a parte titular de direitos. v. 39 . “Abuso de direito processual no ordenamento jurídico brasileiro”. V. 43 O destinatário final das provas é o juiz e a preclusão não pode obstar o conhecimento da verdade. o que constituiria campo inigualavelmente fértil para a chicanice e a protelação indefinida dos processos”. impondo-se sempre o requisito inafastável do dolo para sua aplicação. n. . a preclusão representa um limite às partes e não ao juiz. em um grande número de situações. A diferença clara é que. apenas a presença de culpa grave.36 No entanto. Por outro lado. Por meio do recurso manifestamente protelatório. “Cosa giudicata e preclusione”. fica sujeita a acordos desfavoráveis.. Código de Processo Civil e legislação processual em vigor. em alguns casos. Comentários ao Código de Processo Civil. Sobre a isonomia processual. pp.. 17. v. HUMBERTO THEODORO JÚNIOR. 233. ou quando outro julgador está atuando no caso concreto. BARROSO. p. pp. CALAMANDREI. p. 35. . La condanna nelle spese giudiziali. n.Foi CARNELUTTI quem primeiro estendeu ao processo a noção de negócio jurídico indireto. Manual de direito processual civil. 57. que pode dela se valer para impedir rediscussão em torno de um ponto já decidido. p. ao se valer da expressão “manifestamente protelatória”. BARBI. não se exige somente a intenção do agente para sua configuração. 43 . respectivamente “deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso” e “provocar incidentes manifestamente infundados”. LIEBMAN. “facilmente infringíveis num processo que siga à risca critério oposto e por isso proporcione às partes conduzi-lo a seu talante e a serviço de seus interesses. no caso. São Paulo. 41 . 40 . “Garantia do tratamento paritário das partes”. 17.39 Alguns desses exemplos. LUCON. o próprio conceito de improbus litigator está intimamente ligado ao dolo processual. pelo menos de acordo com o modo como vêm citados. CHIOVENDA. n. “Il processo come giuoco”. quanto naquela em que se verifica a culpa grave.Instituições de direito processual civil. 28. Acesso à justiça e preclusão civil. extinção ou consumação de uma faculdade processual pelo fato de a parte (a) não haver observado a ordem assinalada pela lei ao seu exercício (preclusão temporal). como se negar que a preclusão é instituto fundamental para a boa administração da justiça. 17 do Código de Processo Civil. p 150. o improbus litigator deve pretender de forma deliberada um efeito repudiado pelo direito e intencionalmente lesivo.V. por meio do qual os contratantes procuram obter uma vantagem econômica indevida por meio de um outro tipo de negócio (Sistema del diritto processuale. p. p. o legislador brasileiro distanciou-se das origens remotas do atual instituto denominado litigância de má-fé: no que se refere a determinados incisos do art. deixou clara a possibilidade de configuração tanto na situação em que se evidencia o dolo (intenção de prejudicar a parte contrária). notas 28 e 29 ao art. É de CHIOVENDA o entendimento segundo o qual “as questões são preclusas com relação ao juiz que as decidiu. 115. Com um meio de impugnação temerário. p.Cfr. é preciso compatibilizar. pp.41 É certo que a preclusão funda-se na garantia constitucional do tratamento paritário das partes no processo (isonomia) e na lealdade processual. 36 37 . 160. 14. n.

operando-se preclusão consumativa. assinado por duas testemunhas e acompanhado do extrato da conta corrente respectiva. já que pode a parte alegar em recurso vício na manifestação de vontade com relação ao ato anterior.ex. 540. podendo haver a antecipação de muitos atos executivos. pois atenta contra a própria administração da justiça. Petições padronizadas dirigidas aos Tribunais Superiores. greve nos serviços judiciários etc. é título executivo extrajudicial”. p. 46 Depois de muitos anos. com arrimo em BARBOSA MOREIRA. reconhecimento jurídico do pedido. problemas podem surgir e haver a necessária apreciação pelos órgão jurisdicionais. Basta citar um exemplo bem recente: o Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo considerava os contratos de abertura de conta corrente como títulos executivos. a preclusão no âmbito recursal gera o não-conhecimento imediato do recurso. na maior parte dos casos. As variáveis são tantas (e tão igualmente relevantes). 11 daquele Tribunal e estava. segundo o que se sustenta na doutrina e na jurisprudência. por assim dizer. Questões controvertidas e novas teses surgem na doutrina e na jurisprudência e é preciso respeitá-las. dentro das três espécies de preclusão. que se mostra indispensável a análise detalhada do caso concreto. Preclusão consumativa.Nesse sentido. “O direito de recorrer e seus limites”. MEDINA. do Código de Processo Civil. Conclusão parcial.V. 44 Preclusão lógica. 45 . VI. também aqui é extremamente difícil estabelecer com exatidão a aplicação do art. Isso porque. eventual recurso deve ser havido como abusivo. “O juízo de admissibilidade no sistema dos recursos cíveis”. é preciso dizer que. uma vez consolidado o entendimento dos Tribunais Superiores por meio de súmula. A perda de faculdade processual pela circunstância de a parte já a ter exercido. b) Recurso questionando entendimento consolidado pela jurisprudência. depois de julgamento de embargos de divergência perante o Superior Tribunal de Justiça. devem também ser consideradas como demonstrações inequívocas de má-fé. Na imensa maioria das situações. Por outro lado. principalmente quando já existe forte orientação jurisprudencial em sentido contrário. portanto.7 Preclusão temporal. A livre manifestação de pensamento é garantia fundamental do Estado democrático de direito e o processo deve observá-la. que não podem ser propostas a não ser que o litigante esteja imbuído no espírito máximo da chicana e da má-fé processual. A simples circunstância de um recurso questionar entendimento consolidado pela jurisprudência não deve ser considerada como demonstração inequívoca de litigância de má-fé. a questão teve entendimento consolidado em sentido diametralmente diverso. não há como negar que existem certas teses jurídicas um tanto mirabolantes. Além disso. Como o leitor pode perceber. 11 do Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo: “o contrato de conta corrente. 118. MEDINA. sem que haja um dispêndio de tempo a prejudicar o recorrido.Súmula n. Mas não há dúvida de que. é bem mais difícil de ocorrer do que a preclusão lógica. tentando renovar de forma genérica outros recursos já apreciados nos próprios Tribunais Superiores. Talvez seja essa. Todavia. na maior parte das situações não há prejuízo para o recorrido. 17. Seria justo impor a pena de litigância de má-fé à parte que interpôs recurso questionando a validade de tal Súmula? Essas observações apenas têm por escopo demonstrar que não é possível. pode ocorrer de a parte atender determinação judicial constante de uma decisão. definir situações processuais estanques destinadas a permitir considerar de má-fé o litigante. é certo que não se configura o abuso do direito de recorrer. sedimentado.. p.). em matéria recursal. é certo que o prejuízo do recorrido em tais casos é extremamente mitigado.45 Mas o exame do caso concreto é sempre indispensável. o meio de impugnação é incompatível com ato anterior (p. tal como ocorre quando o recorrente suscita irregularidade de intimação. 540. 46 . Nesse caso. Recorrer fora do prazo está longe de configurar um abuso do direito de recorrer. Esse posicionamento gerou a Súmula n.. na viabilidade das razões apresentadas pelo recorrente. A resposta objetiva reside. transação etc. Daí a ocorrência de preclusão consumativa e lógica. 44 . mesmo estando configurado o abuso. independentemente de o posicionamento ser majoritário ou não. mas nem por isso é possível presumir ipso facto a ocorrência de um abuso de direito processual. o recorrente não tem a consciência de que está interpondo recurso fora do prazo. . a mais comum a evidenciar a ocorrência de abuso de direito processual. Não obstante essa análise sucinta e separada das espécies de preclusão em relação ao abuso do direito de recorrer. Aqui. na maior parte das situações. pois o meio de impugnação interposto aos Tribunais Superiores não tem o condão de suspender a execução do julgado. feito por estabelecimento bancário a correntista. Eventual recurso é ato logicamente incompatível e esbarra no próprio ato anterior. sob pena de transformar o processo em verdadeiro instrumento destinado a satisfazer déspotas pouco ou nada esclarecidos. “O direito de recorrer e seus limites”. No entanto. p.

“A reforma no art. ou de Tribunal Superior”. violando o disposto nos arts. Não basta. MEDINA. p.9. v. É preciso que o julgador verifique. p. sem a mínima menção à matéria jurídica. A ausência de fundamentação ou motivação deficiente não configura. “se a decisão recorrida estiver em manifesto confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal. in DJU 28. por decisão monocrática. não há dúvida de que as razões de um recurso devem ser adequadas. com clareza. que o recorrente tenha sido displicente ou demonstre pouco conhecimento jurídico para configurar o abuso do direito de recorrer. com a anulação ou reforma da decisão impugnada. tornase indispensável a intenção de prejudicar. art. Inconstitucionalidade e ilegalidade”. é irrefutável que. REsp n. segundo HUMBERTO THEODORO JÚNIOR. há erro grosseiro quando a parte interpõe um meio de impugnação no lugar de outro e a lei processual é expressa e clara ao mencionar qual é o recurso correto. 551. o recorrente interpõe o meio de impugnação com o objetivo exclusivo de ganhar tempo. de 17 de dezembro de 1998.. 557 do CPC. MEDINA. p. a todo o recurso considerado manifestamente infundado podem ser impostas as sanções pecuniárias previstas nos arts. § 2o”. “Abuso de direito processual no ordenamento jurídico brasileiro”. Outras possíveis situações de abuso no âmbito recursal: a) fungibilidade recursal. há forte orientação de que o art. 24. Ainda sobre a disciplina dos recursos em geral No capítulo denominado “Da ordem dos processos no tribunal”. 50 Corroborando o que se afirma. Além disso.. 516 do mesmo diploma. Aliás. 17 e 18 do Código de Processo Civil. de modo que o relator jamais poderá aplicar. não está correta uma interpretação extensiva ao § 2 o do art. intenção de lesar a contra parte.433. 4a T. atecnicismo. à consecução de um fim: reexame da matéria. dificilmente aplicam essas sanções. ou mesmo procura discutir questões decididas e preclusas antes mesmo da sentença. portanto. deve ser vista de dois diferentes modos. há de ser necessariamente acompanhado da intenção deliberada de prejudicar. as sanções previstas no referido dispositivo legal nos recursos de apelação e embargos infringentes. p. ou de Tribunal Superior. parece haver abuso do direito de recorrer quando a parte age de má-fé. com a redação conferida pela lei n. b) falta de fundamentação a) Fungibilidade recursal. quando a parte interpõe recurso especial ou extraordinário sem haver qualquer fundamentação acerca de matéria federal ou constitucional.49 Não obstante esse posicionamento. No entanto. deram provimento. 9. já que a lei processual é clara ao fazer referência ao recurso de agravo. nos casos em que exigida em lei – CPC. “O direito de recorrer e seus limites”. 557 do Código de Processo Civil não se aplica aos recursos de apelação e embargos infringentes. bem como à ação rescisória. p. Athos Carneiro. rel. 542. mas.756. Min. assim como na ação rescisória. 557. a intenção deliberada do litigante de prejudicar a parte contrária. que poderá negar “seguimento a recurso manifestamente inadmissível. já que ele. o abuso de um direito processual. de acordo com o seu § 1o-A. o Superior Tribunal de Justiça estabeleceu que “é nulo o julgamento sem revisão. sendo certo que entendimento diverso representa revogação de lei processual vigente e constitucional. Um recurso pode ser admitido no lugar de outro desde que não se evidencie má-fé ou erro grosseiro. No entanto. prima facie. 47 48 49 50 51 - V. 16. Sem um arrazoado idôneo.48 Configurado parece estar esse abuso. Cfr. 8. por si só. No campo da fungibilidade recursal. Quanto ao erro grosseiro. 557. nem mesmo por julgamento colegiado essas sanções poderão ser estabelecidas.51 Por esse enfoque. Mas a ausência de razões suficientes não é causa para aplicação de uma sanção processual. a tentativa de provocar um simples reexame das questões fáticas. no entanto. Portanto. j.47 b) falta de fundamentação. Os tribunais. Mas a má-fé depende necessariamente de uma análise subjetiva do caso. por não ser possível julgamento monocrático de segundo grau nesses casos. 541. De qualquer forma. do Supremo Tribunal Federal. o art. exatamente por ser muito difícil configurar a intenção de prejudicar. in statu assercionis.218-0-RS. . infringindo o art.1992. na maior parte dos casos. Há má-fé quando a parte interpõe um recurso de prazo maior no lugar de outro para ter um benefício indevido.8 6. o relator poderá dar provimento ao recurso”. não configura um abuso processual. se o apelante altera o objeto do processo com as razões de apelação. 516 e 517 do Código de Processo Civil. STJ. prejudicado ou em confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do respectivo tribunal. 122. 56.u.9. PEÇANHA MARTINS. liminarmente. improcedente. procrastinando o processo. “O direito de recorrer e seus limites”.1992. ao recurso manifestamente descabido ou improcedente. 7. que devem ser levados em consideração: falta de técnica do advogado. o relator poderá negar seguimento. foram atribuídos imensos poderes ao relator.

não há como negar que essa sanção de natureza pecuniária prejudica sensivelmente os hipossuficientes econômicos. Emb. extraord. do Código de Processo Civil. V. 54 . “Condições de admissibilidade dos recursos cíveis”. j. Além da disposição de caráter geral estabelecida no art.10. 359. pois visa a impedir o exercício irresponsável do direito de recorrer uma vez que. 10. pp.56 O beneficiário de todas essas sanções é a parte e não o Estado. 328). STF.756 em matéria de recursos civis”. o interesse de um processo sem atos de improbidade é do próprio Estado. muitos outros artigos referem-se ao tema. Min. em agr. decl. as classes médias” (“Algumas inovações da lei 9. O caráter indenizatório desses dispositivos é extremamente claro e indenizar significa tornar indene.. 2a T. Aplicação ex officio das sanções Em razão de serem esses atos considerados atentatórios à própria administração da justiça.756. de certa forma. Celso de Mello. o ofendido deverá demonstrar a extensão dos danos sofridos por meio de cognição ampla e exauriente do juiz. 557. 9. j.038/90. além da condenação às perdas e danos. o litigante de má-fé será condenado ao pagamento dos honorários advocatícios e as despesas suportadas pelo lesado (CPC. 246. 2a T. não tem qualquer caráter ressarcitório. desse modo. pretendem precipuamente os órgãos jurisdicionais descongestionar o Poder Judiciário. Sanções ao litigante de má-fé A sanção a quem age de má-fé. evitando a multiplicação de recursos. 18. Emb. previstas.Voto do ministro Celso de Mello no STF. § 2o do art.1999. em ordem a conferir efetividade à resposta jurisdicional do Estado”. manifestadas por litigantes imbuídos de má-fé. 19. e ineficazes para os muito pobres. BARBOSA MOREIRA observa que “sanções pecuniárias têm sempre algo de odioso. Litigância de má-fé. nos embargos de declaração.Compartilha desse entendimento. Esse dispositivo é também resultado da lei n. p. n. ainda que venha a ser considerado vitorioso ao fim do processo. “Questões sobre a lei 9. . VII. a sanção mencionada pode ser aplicada não somente por requerimento da parte interessada. 610. art. p. o tribunal condenará o agravante a pagar ao agravado multa entre um e dez por cento do valor corrigido da causa. A dúvida reside em saber se essas sanções podem ser cumuladas àquelas específicas.9 8. de 17 de dezembro de 1998 e encontra. p. DONALDO ARMELIN. ainda. 16 do Código de Processo Civil.10. 19. 34. “Apontamentos sobre as alterações ao Código de Processo Civil e à lei 8. Ainda nesse sentido.52 Não obstante. p. “fundamento em razões de caráter ético-jurídico (privilegiando. em rec. 246.V.53 A multa. 557). relacionando o recolhimento da multa como condição para a interposição de novo recurso. GRECO FILHO. o art. compensando economicamente a parte em razão do dano suportado.1999. A dúvida é saber se. rel.57 Com esse dispositivo. art. mas apenas punitivo e inibitório. Em resumo. por exemplo.564-0-RS. v. Essas sanções pertencem à disciplina geral do abuso do direito de recorrer. sem o depósito prévio da multa. § 2 o. a) Agravo No que se refere a esse recurso.564-0-RS. 213. “As alterações do Código de Processo Civil introduzidas pela Lei n.u. a sanção imposta ao improbus litigator pode perfeitamente conter a condenação à indenização pelos prejuízos ocasionados. pois isso caracterizaria inadmissível bis in eadem. que não têm mesmo como fazêlo. cujo valor será arbitrado em quantia não superior a 20% do valor da causa ou liqüidado por arbitramento (CPC. porque discriminatórias em razão da fortuna: são irrelevantes para os muito ricos.. é a condenação a ressarcir a outra parte por prejuízos ocasionados. evidentemente. § 2 o). 57 . em que pese o objetivo principal de preservar a boa administração da justiça. 66-69. ausente está pressuposto objetivo de admissibilidade de novos recursos (v. MEIRELLES DE OLIVEIRA. 64. MEIRELLES DE OLIVEIRA. Abuso do direito de recorrer e disposições legais específicas O legislador brasileiro vem. 9. também busca imprimir celeridade ao processo de administração da justiça. exagerando com relação ao chamado abuso do exercício do direito de recorrer. Parece certo que a cumulação de multas não é possível.54 Sem a comprovação do depósito.756. 55 Todavia. reg. decl. 18). mas também de ofício. estabelece: “quando manifestamente inadmissível ou infundado o agravo. segundo o Supremo Tribunal Federal. bem como a imposição de multa pelo ato abusivo. esse intento será alcançado.12. golpeando apenas. n..u. ficando a interposição de qualquer outro recurso condicionada ao depósito do respectivo valor”. 56 . bem como elevando o recolhimento da multa à categoria jurídica de pressuposto objetivo do recurso. Como é natural. Litigância de má-fé.Cfr. 55 . em agr. . v. o postulado da lealdade processual). objetivamente. em rec. 17. considerando constitucional o § 2o do art. Diante da enorme quantidade de 52 53 . 557. segundo o disposto no art. atribuindo-lhe um coeficiência de maior racionalidade. de 17..Nesse sentido. p. o escopo é reduzir sensivelmente o número de agravos por meio da imposição de sanções. de modo significativo. reg. Outro ponto que constitui óbice ilegítimo e prejudica sensivelmente os litigantes hipossuficientes economicamente é a existência de recursos que somente podem ser protocolizados em Brasília.756/98”. de 17 de dezembro de 1998”. p. HUMBERTO THEODORO JÚNIOR. Sendo o valor do prejuízo sofrido superior a esse limite de 20%. 9. extraord.98”. representando verdadeiro óbice ao direito de ampla defesa. que não se incomodam de pagar.V.756. impostas pela lei 9. e afastar pretensões ilegítimas. ARAKEN DE ASSIS. Além disso. o recurso não será conhecido.

60 Como afirmado. 16.u. a definição legal de quais as decisões que (a) comportam recurso de agravo.. muito melhores do que punir o litigante. os embargos declaratórios. em rec. da AASP n. A parte não opõe os embargos de declaração prequestionadores para retardar o processo. e (b) são suscetíveis de interposição de recurso de agravo apenas na forma retida. o mesmo dispositivo. (in Bol. 61 . é de política legislativa. que merecem um estudo mais profundo. Portanto.99.608-SP. 98 do Superior Tribunal de Justiça é clara ao afirmar que “os embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório”. sendo os embargos “manifestamente protelatórios”. 59 . conseqüentemente. v. equivocadas são as decisões que condenam a parte ao pagamento de multa em razão da oposição de embargos declaratórios prequestionadores.148). Todavia. o art. existem. A exigência do depósito prévio. “em lugar de se atacar as causas.756/98”. b) Embargos de declaração. não podem ser considerados procrastinadores.. 58 . em agr. segundo o entendimento do legislador. no correto entendimento de BARBOSA MOREIRA. da coisa julgada”. Min. j. que tem por fim possibilitar a integração ou correção de decisão monocrática ou colegiada. p. mas a menção. “Abuso de direito processual no ordenamento jurídico brasileiro”. Introdução aos recursos cíveis e à ação rescisória. foi claro ao estabelecer que.u.THEODORO JÚNIOR. No tocante a esse meio de impugnação. a multa imposta nos primeiros embargos considerados procrastinatórios não precisa ser depositada desde logo para que o recurso a seguir interposto seja admitido – o seu recolhimento não é requisito de admissibilidade do recurso seguinte. matéria jurídica não significa indicação expressa de dispositivos constitucionais e legais. a Súmula n. 62 . 60 . 538. 479-480.V. Comentários ao Código de Processo Civil. extraord. Adhemar Maciel. 246.06. diz respeito apenas aos novos embargos declaratórios protelatórios opostos contra a decisão que apreciou os primeiros. 140. n. VII)”61. impostas pela lei 9. “o juiz ou tribunal.038/90.. BARBOSA MOREIRA. 266. 210. sendo certo que outras soluções. em sua parte final. quando têm por escopo prequestionar matéria legal e constitucional.10 decisões proferidas no curso do processo e da conseqüente e enorme possibilidade de interposição do recurso de agravo. ainda voto do ministro Celso de Mello no STF. v. rel. 162. “Apontamentos sobre as alterações ao Código de Processo Civil e à lei 8. n.59 São sugestões de alteração da lei processual. Superior Tribunal de Justiça que “o prequestionamento consiste na apreciação e na solução. a multa é elevada a até dez por cento (10%). Existem outras soluções mais radicais.62 Essa disciplina especial em relação aos embargos declaratórios tem a sua razão de ser.. 479-480. 266.1999. como a concentração dos atos processuais e a possível consagração de um recurso único.Cfr. condenará o embargante a pagar ao embargado multa não excedente de um por cento sobre o valor da causa”.. SÁLVIO DE FIGUEIREDO TEIXEIRA.u.58 O problema. das questões jurídicas que envolvam a norma positiva tida por violada inexistindo a exigência de sua expressa referência no acórdão impugnado”64. p. declarando que o são. pp. art. 120. 2a T. para o Supremo Tribunal Federal. que têm a desvantagem de impor o exame de um grande número de questões ao julgador. v. n. a punição de expedientes procrastinatórios. 600) e que repudiam comportamentos caracterizadores de litigância maliciosa. ficando condicionada a interposição de qualquer outro recurso ao depósito do valor respectivo”. mas com o objetivo único de viabilizar as instâncias especial e extraordinária. in DJU de 1. n.STJ. permitindo o conhecimento em grau superior de toda a matéria impugnada.10. 2. A propósito.564-0-RS. “já que repetidos indevidamente podem provocar a suspensão indefinida do feito e. No entanto. j. da tese jurídica em contraste com as particularidades do caso concreto. como bem observado. o depósito prévio da multa constitui pressuposto objetivo de admissibilidade de novo recurso que a parte venha a interpor. 63 . par. Corte Especial. busca-se atalhar seus efeitos”. pelo tribunal de origem.Comentários ao Código de Processo Civil. 19. como está cristalino no texto legal. 144. reg.217-MG. 64 . visa a conferir real efetividade ao postulado da lealdade processual.DONALDO ARMELIN.63 Entretanto.1999. assentou o Col. rel. Aliás. O prequestionamento é requisito indispensável (e exigência inafastável) para o conhecimento dos recursos especial e extraordinário dirigidos aos Tribunais de superposição e deve ser respeitado pelos tribunais de grau inferior. 17. pois esse recurso “enseja vasta possibilidade de chicana e maliciosa procrastinação do processo”. não se admitindo a impugnação de todas as interlocutórias e valorizando a preclusão em relação ao questionamento das partes litigantes.2. ún. em ordem a impedir que o processo judicial se transforme em instrumento de ilícita manipulação pela parte que atua em desconformidade com os padrões e critérios normativos que repelem atos atentatórios à dignidade da justiça (CPC. como aqueles que se traduzem na interposição de recurso com intuito manifestamente protelatório (CPC. 246. i. Por outro lado. em julgamento de embargos de divergência. mais uma vez. Esse pressuposto de admissibilidade objetivo. no acórdão recorrido. tornou-se fundamental.BERNARDO PIMENTEL SOUZA.. Emb. . 2a T. de Divergência em Resp. estabelece que “na reiteração dos embargos protelatórios. “longe de inviabilizar o acesso à tutela jurisdicional do Estado. com arrimo no REsp n. pp. é certo que os embargos de declaração não podem ser isoladamente o meio para suscitar a matéria jurídica que já poderia ter sido ventilada anteriormente nas razões recursais..e. art. decl. p. Emb. Min. Além disso. p.

contudo. é certo que não teria esse dever o menor sentido se a atividade das partes fosse rigidamente vinculada em cada uma de suas manifestações. “Dos embargos declaratórios prequestionadores”. ser considerados condutas de má-fé. no Brasil. no exercício profissional. 60. a questão polêmica que certamente surgirá diz respeito à responsabilidade civil do advogado.1996) estabelece que “o advogado é responsável pelos atos que. que a efetiva constatação do dolo ou da culpa grave é imperativa para a aplicação de toda e qualquer sanção por abuso de direito processual. a todos aqueles que participam do jogo chamado processo. o processo é sem dúvida um prélio. p. que o induziria a imaginar o consórcio para o qual legifera composto unicamente de pessoas boas.. a discricionariedade (leia-se. LODI. existem regras de conduta dirigidas aos competidores.65 11. pp. . a propósito. é preciso que o julgador pondere acerca de dois fatos incontroversos e. é essencialmente refratário a uma rigorosa disciplina moralista do comportamento daquelas”.V. aqui. Por outro lado. mas deve se preservar também do excessivo otimismo. “o bom legislador deve ser dotado de uma certa imaginação. positivamente a resposta talvez esteja na análise particular do caso concreto. Na verdade. sobrepairam as exigências éticas e sociais inerentes à significação do processo como instrumento de função essencial do Estado (“A responsabilidade das partes por dano processual no direito brasileiro”. Conclusões No Código de Processo Civil. 32 do Estatuto da Advocacia (lei n. econômico e social de um povo. “Algumas inovações da lei 9. 545. notórios: o primeiro diz respeito à existência de inúmeros recursos no sistema processual civil brasileiro com inúmeros requisitos. a liberdade que tem a parte no processo é largamente discricional. p. se é certo que muitas vezes o advogado se envolve excessivamente com a causa. para conseguir prever com suficiente aproximação como serão acolhidas por aqueles que deverão observar as leis que ele se encarrega de pôr em vigor: e nestes cálculos preventivos deve se preservar do pessimismo.66 Diante de uma situação como essa. de seu procurador. o sócio responde subsidiária e ilimitadamente pelos danos causados aos clientes por ação ou omissão no exercício da advocacia. 537-562. é também certo que o julgador deve levar em conta esses elementos no momento de decidir por impor ou não determinada sanção processual. desprovidos de todo o senso de reverência às leis. 8. utilizando-se das regras processuais da melhor forma possível. mais uma vez. Como visto. mas a prudência é filha da virtude e a imposição de sanções pecuniárias contra os abusos processuais deve ter caráter excepcional. n. ocasião em que o julgador deve sopesar a condição da parte e. sendo corretíssima a segura ponderação de ENRICO TULLIO LIEBMAN segundo a qual “o processo civil. 16). “visto do ângulo dos litigantes e de seus interesses. p.Cfr. O certo é que a ciência processual não conseguiu isolar preceitos genéricos que possam. pp. de 4. já que é muito difícil saber onde precisamente termina o regular exercício do direito de uma parte e começa o abuso de um direito processual. e estudiosos de como iludi-las. pouco elucidadora. 124. competindo para prestar zeloso 65 66 .11 É óbvio que. por ser vida. Se o legislador deve conhecer o nível moral. Mas essa discricionariedade encontra obstáculos dentro das próprias regras do jogo que é o processo civil. a isso.Manual de direito processual civil. de outro. na maior parte dos casos. Talvez a resposta esteja no fato de não ser possível estabelecer situações estanques em torno dos chamados abusos dos direitos processuais.67 12. Aliás. porque não dizer. pois. que em nada concorreu para a interposição do recurso inadmissível. “Il processo come giuoco”. É preciso lembrar. 329. Por outro lado. o art. como contrapartida necessária. já são centenas de milhares. de um lado. ou seja. tendo a violação surgido no próprio acórdão.906. 445-453. muitos deles de difícil compreensão. Mas as coisas não são tão simples assim. 67 . Se. sem dúvida. tudo se passa de modo dinâmico. O mesmo diploma dispõe em seu art. BARBOSA MOREIRA. esp. Os preceitos éticos e jurídicos existem na legislação processual e devem ser respeitados. 68 . com a sua estrutura contraditória em que a cada uma das partes se atribui a tarefa de sustentar as suas próprias razões. tais sanções podem violar frontalmente a ampla defesa.68 As regras de lealdade e probidade das partes destinam-se a regular a conduta dos competidores e. liberdade) das partes deve ser inexistente. Para BARBOSA MOREIRA. e como tal não pode excluir o recurso à habilidade na escolha e na realização das táticas julgadas mais eficazes para a obtenção do resultado vantajoso. p. . que o levaria a considerar a média dos cidadãos como desonestos e rebeldes. destinada sempre a superar seu adversário. deve ser leal e proba. colaborando com isso o cliente que a todo momento pressiona seu constituinte. mas vão. praticar com dolo ou culpa”.7. CALAMANDREI. porque o processo é vida e. o dever de lealdade e probidade das partes é um tanto vago e indeterminado. o segundo relaciona-se com a boa formação acadêmica dos advogados (e porque não dizer dos juízes) que. porque não dizer. Mas como a forma negativa é. a parte (e seu procurador!) precisa ser hábil. mas temperada por um senso histórico. sem prejuízo da responsabilidade disciplinar em que possa ocorrer”. os embargos declaratórios devem ser considerados suficientes para viabilizar a interposição dos recursos especial e extraordinário. atingir diretamente o bolso do cliente. Não obstante essas considerações.Sobre o tema.756 em matéria de recursos civis”. o que dirá o juiz (principalmente de primeiro grau) que convive diariamente com ele! Como superiormente observado por CALAMANDREI. 17 que “além da sociedade. Advocacia e abuso do direito de recorrer As sanções previstas nos embargos declaratórios e no agravo podem ocorrer por erro técnico do advogado. de um modo absoluto.

v. porque não dizer imprecisos (mirese. v. Apenas dois exemplos: enquanto na Dinamarca a imensa maioria das ações não são contestadas (mais de noventa por cento). Saraiva. CARSON. de Ellen Gracie Northfleet. Morano. coord.12 obséquio à legalidade (talvez tenha sido este o mais grave erro do Código de Processo Civil vigente: ter imaginado os juízes e os advogados melhores do que são)”69. Cândido Rangel. a resposta. com toda a certeza. London. . “A responsabilidade das partes por dano processual no direito brasileiro”. BARBOSA MOREIRA. na maior parte dos casos. italiana por J. ocorre exatamente o contrário. Instituições de direito processual civil. Foro Italiano. Nápoles. “L’avvocatura e la riforma del processo civile”. Revista dos Tribunais. in Opere giuridiche. 1993. 1998. v. com conceitos muitas vezes vagos e. dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Pádua. retirando-se o efeito suspensivo de muitos deles. na jurisprudência dominante).. José Carlos.V. . “O juízo de admissibilidade dos recursos cíveis”. permitindo que excessos ocorram na aplicação das sanções. da 5a ed.Cfr. 19. Instituciones del nuevo proceso civil italiano. 207 e ss. da 2 a ed. in Devido processo legal e tutela jurisdicional. “Garantia da prestação jurisdicional sem dilações indevidas como corolário do devido processo legal”. “Il processo civile danese”. p. 1968. de Teresa Arruda Alvim Wambier e Nelson Nery Jr. III. trad. in Temas de direito processual.. Giuffrè. Francesco. Saraiva. autoriza a concessão de antecipação de tutela quando restar caracterizado “o abuso do direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu”. in Opere giuridiche. Piero. Fabris.. 1938. 1996. se conforma com a sentença (exatamente por ser imediatamente executiva). 152-153. Revista dos Tribunais. 1988.. Odgers on High Court pleading and practice. ----------. Saraiva. BEDAQUE. I.. Forense. Acesso à justiça (em co-autoria com Bryant Garth). 1966. 1935. in Aspectos polêmicos e atuais dos recursos cíveis. trad. in Recursos no Superior Tribunal Justiça. Introduzione allo studio sistematico dei provvedimenti cautelari. e rev.756 em matéria de recursos civis”. in Revista de Direito da Procuradoria Geral do Estado da Guanabara. de Teresa Arruda Alvim Wambier e Nelson Nery Jr. ----------. São Paulo. coord.71 Nos chamados abusos do direito de recorrer. 72 . Tempo e processo. maiores poderes e. São Paulo. Roma. in Opere giuridiche. São Paulo.V. Principii di diritto processuale civile. talvez (por respeito ao legislador). Revista dos Tribunais. Acesso à justiça e preclusão civil. “Superior Tribunal de Justiça e acesso à ordem jurídica justa”. 1960. Napoli. nesses casos. JOLOWICZ. no Brasil. já que o legislador processual brasileiro. Milão. Buenos Aires. 1999.“Il processo come giuoco”. Araken de.. de Teresa Arruda Alvim Wambier e Nelson Nery Jr. ao optar por reprimi-lo atingindo economicamente a parte.038/90. São Paulo. Francesco. o litigante interpõe recurso de apelação.. “Il processo come giuoco”. La responsabilità processuale. Isso significa. as dificuldades são enormes. Alexandre de Alencar. La sapienza ed. 1983. p. in Saggi di diritto processuale civile. v. ----------. São Paulo. no sentido de valorização das decisões de primeiro grau. CALAMANDREI. por exemplo. italiana. Cedam. Morano. pp. 7a ed. 1993. esteja na modificação da própria disciplina dos recursos. § 15 e ss. Roma. reside na possibilidade de se conceder tutela antecipada em grau recursal. p. ----------. 1998. Abuso do direito no processo civil. Revista dos Tribunais. de uma mudança de mentalidade. Como dito. São Paulo. 1991. ----------. coord.. atribuindo a esses julgadores. II e III. São Paulo. São Paulo. B. Porto Alegre.. 2a ed. 1991. CASTRO FILHO. CARNELUTTI. in Aspectos polêmicos e atuais dos recursos cíveis. Guimarães Menegale. CORDOPATRI. “Condições de admissibilidade dos recursos cíveis”. Revista dos Tribunais. de caráter estrutural. 23a ed. Giuseppe. impostas pela lei 9. CARSON. 3a ed. Malheiros. agraváveis pela forma retida. ----------. Jovene. ----------. São Paulo. La condanna nelle spese giudiziali. 1999. 1969. EJEA. Odgers on High Court pleading and practice. 538. Nápoles. 2a ed. v.. 273. na quase totalidade dos casos. 1991. DINAMARCO. de um lado. no Brasil. III. Nápoles. “Cosa giudicata e preclusione”. ASSIS. IX. BARROSO. “L’amministrazione della giustizia civile: Inghilterra e Galles”. CAPPELLETTI. José Roberto dos Santos. 6ª ed. Sweet & Maxwell/Stevens. D.. Morano. notas de Enrico Tullio Liebman. vol. 1966.. pp. Saraiva. II. II. Mauro. José Olympio de. 1965. maiores responsabilidades. ----------. tornando irrecorríveis algumas decisões ou. Comentários ao Código de Processo Civil. “Algumas inovações da lei 9.72 Trata-se. ----------.. Rio de Janeiro. com Rogério Lauria Tucci). vol. São Paulo. 70 enquanto na Inglaterra o litigante. trad. coord.73 Bibliografia ARMELIN. retirar o efeito suspensivo presente no meio de impugnação ofertado. antes de tudo.Uma solução muito positiva e que evita a consumação de danos em razão de um recurso manifestamente infundado. Poderes instrutórios do juiz. São Paulo. Saraiva. CHIOVENDA. 355. 1998. quando muito. O art. 1973. José Rogério. a propósito. Sérgio A. II. de outro. Comparações são necessárias não somente para se tentar implementar um determinado instituto ou certas idéias. A instrumentalidade do processo. Rio de Janeiro.756/98”. CRUZ E TUCCI.. Donaldo. 69 70 . Forense. ampliou de forma excessiva a liberdade do julgador. EVA SMITH. Editor. LUCON. O modo de ser de um brasileiro no processo civil certamente difere de um cidadão estrangeiro em relação ao seu processo civil. “Apontamentos sobre as alterações ao Código de Processo Civil e à lei 8. in Aspectos polêmicos e atuais dos recursos cíveis. vol. Sistema del diritto processuale civile. ----------. 1993 (em coop. Eficácia das decisões e execução provisória. ----------. 1999. 73 . 45 71 . mas também para diferenciar e criar soluções diversas. Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. 1988.

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