A plasticidade da sexuação feminina Jésus Santiago

Uma das principais exigências da civilização é que cada ser falante se inscreva no laço social de posse dos nomes masculino ou feminino. Com efeito, as formalidades do censo demográfico, baseado nos dados característicos dos habitantes que permitem dizer, por exemplo, se um cidadão é homem ou mulher, não passam de semblantes que se extraem da diferença anatômica. Quando um cidadão se defronta com os questionários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com perguntas do tipo – você é homem ou mulher? – ocorre-lhe questionar sobre a debilidade de tal iniciativa estatístico-populacional. Não é sem motivo que o psicanalista resista a enquadrar-se na demanda estatística do censo demográfico. Assim, se do ponto de vista do sexo e do gênero, um analista é homem ou mulher, do ponto de vista da sexuação, a resposta é, necessariamente, mais complexa e intrincada. Afirma-se isto em função da própria experiência de análise do analista. Isto significa que as exigências da civilização quanto à diferença entre o feminino e o masculino se fundamentam nas relações de gênero, ou seja, tratam esta diferença do ponto de vista dos semblantes. Por outro lado, a experiência da análise levada a seu termo concebe a diferença entre os sexos de um modo bastante distinto dos padrões impostos pela civilização. A experiência do final de uma análise não toma a dissimetria entre o feminino e o masculino como se tratasse apenas de semblantes. Nesse caso, o semblante é insuficiente porque é preciso considerar a sexuação, ou seja, o gozo que se extrai do evento fundamental da castração para o ser falante. Portanto, o fator imprescindível desse tempo de conclusão, é o gozo feminino expresso no fato de que um homem se deixa atravessar por esse gozo para que não seja enganado pelos semblantes fálicos e viris, semblantes que não valem nada em comparação com o real da pulsão. É nítido que sua posição sexual se ancora na sexuação, e não, nas relações de gênero. Ao contrário do gênero, a sexuação é uma escolha do sexo condicionada pela economia libidinal própria de um sujeito. É, nesse sentido, que se reafirma: capta-se “a sexuação também como escolha do sexo, ou seja, um sujeito indeterminado se faz de um sexo ou de outro” (Miller, J.-A. [1972-73]. L’orientation lacanienne, Les divins détails, inédit, cours du 15/03/89.) por meio do uso da satisfação pulsional.

Sob o prisma do gozo, o psicanalista se vê confrontado com uma política que o situa no lado feminino da sexuação. Sua política é o avesso do mestre, é a política do não-todo. Se a função da castração é um limite, a parte feminina da sexuação se suporta por uma relação com o ilimitado, isto é, o gozo do corpo, nas mulheres, não se encontra circunscrito pelo órgão fálico. Para um homem, a passagem de analisante à analista exige a intromissão do que se constitui como o essencial da sexuação feminina. Vale dizer que o gozo fálico ¬– atributo essencial da posição masculina –, concebido como um regime libidinal normatizado e, portanto, submetido aos limites estritos do significante é, em si, impróprio à conclusão da análise. Como se observou antes, supõe-se que, em sua prática, um psicanalista situa-se para além do mestre e do regime libidinal fálico que lhe dá suporte. Mesmo com relação ao falo, importa tomá-lo tal como faz uma mulher: o falo é não-todo diante da sua suposta existência universal. Desde a obra de Freud, sabe-se que uma mulher se relaciona com o falo sob a égide de uma falta anatômica: o pênis. Em outros termos, interessa ao psicanalista um regime de funcionamento que se baseia na incompletude do ser feminino, caracterizada pelo menos relativo à falta do órgão peniano. A esse respeito, assinala-se que, em Lacan, a incompletude transforma-se na inconsistência. A inconsistência designa uma estrutura lógica positiva, um conjunto aberto ao infinito, definido pela impossibilidade de constituir uma totalidade. A inconsistência é a resposta do discurso analítico ao amor do mestre pelo universal. Em suma, o feminino e, também o psicanalista, constituem uma objeção efetiva à obstinação do mestre em atingir o universal. Ainda que haja, sob a lógica da sexuação, duas fórmulas proposicionais concernentes ao lado masculino e duas outras concernentes ao lado feminino, apreende-se esses dois lados como tendências que, apesar de dissimétricas, não se sujeitam a uma fixação estática. É o próprio Lacan que esclarece esse ponto de vista: “quem quer que seja ser falante se inscreve de um lado ou de outro”(Lacan, J. [1972-73]. O seminário, livro 20. Mais ainda. Rio de Janeiro: JZE, p. 85.) . Ou ainda: “a todo ser falante, como se formula expressamente na teoria freudiana, é permitido, qualquer que ele seja, quer ele seja ou não provido dos atributos da masculinidade (...) inscrever-se nesta parte”(Lacan, J. [1972-73]. Ibid., p. 86.), precisamente, na parte mulher da sexuação. Isto quer dizer que pode haver algum trânsito de um sujeito tanto para o lado feminino quanto para o lado masculino da sexuação. A clínica psicanalítica evidencia esta mobilidade de várias maneiras. Na conferência intitulada A feminilidade, Freud afirma que a menininha no primeiro momento do Édipo, momento em que prevalece a excitação de seu clitóris, relacionando essa atividade com

seus desejos sexuais frequentemente ativos e dirigidos à mãe, experimenta sua satisfação de um modo masculino, ou seja, sua sexualidade assume conotações fálicas. O mesmo se pode dizer, a propósito deste modo de satisfação masculino, quando uma mulher exerce atividades de cuidados maternos junto ao filho. A meu ver, esse teor plástico da sexuação se deduz da formulação lacaniana do gozo feminino. É o que tornou possível Lacan localizar o místico São João da Cruz do lado do não-todo. O místico, neste caso, se aproxima do transexualista bem-sucedido na medida em que experimenta a ideia de um gozo que extrapola o registro fálico. A experiência mística mostra, assim, como “não se é forçado, quando se é macho, de se colocar do lado (Lacan, J. [1972-73]. Ibid., p. 81.). Deduz-se daí que um homem pode-se situar do lado do não-todo, ainda que o falo seja o que lhe atrapalha quanto a isso. Entretanto, o psicanalista não é um místico. Levar em consideração o gozo não-todo da sexuação, no caso do analista, não equivale conferir-lhe um lugar feminino. É Eric Laurent que esclarece esse ponto decisivo acerca da posição do analista na contemporaneidade. Não se trata da feminização dos analistas, do estímulo em convertêlos em Tirésias, mas, do psicanalista em condições de contrapor a homogeneização do mundo ao fazer vacilar os semblantes que apontam para a consistência do Outro (Laurent, E. El superyó feminino. In: Posiciones femininas del ser. Tres haches: Buenos Aires, 1999, p. 109.). Ao contrário do escritor e poeta Charles Péguy, “tudo começa pela mística e acaba em política”(Péguy, Ch. Notre jeunesse. Editions Gallimard, Folio Essai: Paris,1993, p. 115.). Ou seja, o poeta opõe a mística à política. A mística, para Lacan, é uma política do gozo que subverte as posições sexuais intituídas pelos semblantes da civilização. Se tanto o gozo místico como o feminino exprimem uma política é porque se demarcam do caráter contável e localizável do gozo fálico. Cabe ao psicanalista que, também é um homem, ir além de falicismo por mais que a virilidade possa ser uma marca constitutiva de sua existência. É atributo da prática analítica desvelar a verdade do falo enquanto um semblante impotente para cernir o modo em que o sujeito vive a pulsão para além do horizonte fetichista da fantasia masculina (Miller, J.-A. Mulheres e os semblantes. In: O feminino que acontece no corpo. Caldas, H.; Murta, A.; Murta, C.. Scriptum: Belo Horizonte, p. 77. ). O desvelamento desta verdade suscita a presença da vertente opaca do gozo feminino que concerne igualmente ao sujeito masculino, com a condição de que ele seja não-todo fálico. Refere-se à opacidade na medida que o final da análise implica, logicamente, um indizível, um

inominável do gozo. O gozo, que escapa a qualquer nomeação, Lacan, em seu Seminário, Mais, ainda, o toma como algo da mulher ou do místico, uma vez que desse gozo muito pouco se diz e apenas se experimenta. O homem, no entanto, não se mostra imune a esse inominável, pois, sua existência libidinal não se apresenta, necessariamente, submetida à obviedade do gozo fálico. Se a trajetória da experiência da análise desgasta e dissolve o cenário fetichista da fantasia, colocando em cheque a certeza ilusória de seu ideal viril, abre-se espaço para um uso inventivo de sua parte de gozo singular e não-todo. No fundo, acreditar no ideal viril é a forma que certos homens encontram para suprir a falta paterna. E é justamente essa crença no viril que alimenta a suposição d’A mulher, ou seja, daquilo que contesta o não-todo feminino ao buscar fazer existir a chamada espécie-mulher.

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