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nº 25 julho - 2012 XIII CONGRESSO BRASILEIRO DE DIREITO NOTARIAL E DE REGISTRO PRÊMIO
nº 25
julho - 2012
XIII CONGRESSO BRASILEIRO DE DIREITO NOTARIAL E DE REGISTRO
PRÊMIO DE QUALIDADE TOTAL ANOREG
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ESPECIAL

Eliana Calmon defende a privatização dos cartórios Primeira brasileira a ingressar no STJ, em 1999,
Eliana Calmon defende a
privatização dos cartórios
Primeira brasileira a ingressar no STJ, em 1999, a corregedora Na-
cional de Justiça, Eliana Calmon, deixa o cargo em setembro deste ano.
Formada em Direito, Eliana Calmon iniciou a carreira na magis-
tratura como juíza federal e depois integrou o Tribunal Regional Fe-
deral da 1ª Região. Antes, havia sido procuradora da República. A mi-
nistra tem cursos no Brasil e no exterior na área do Direito e é autora
de vários livros e artigos técnicos, além de ter proferido palestras em
eventos nacionais e internacionais.
Durante sua gestão, a parceria com a Anoreg-BR, foi essencial
para o fortalecimento dos cartórios no país e o desenvolvimento de
novos projetos. Em entrevista, a ministra fala sobre a importância das
atividades notários e registradores.
Como a senhora avalia o trabalho da
anoreg-br?
Eliana Calmon: Os cartórios são fundamen-
tais para a vida do povo brasileiro, do mais
rico ao mais pobre. Nenhum cidadão pode
dispensar a atividade cartorial, que está pre-
sente em todos os atos de cidadania.
o que é preCiso para melhorar os serviços
ofereCidos pelos Cartórios no brasil?
Eliana Calmon: Os cartórios precisam prestar
serviços de qualidade e para isso é necessários
que sejam privatizados. Nós do governo, preci-
samos nos aproximar cada vez mais da Anoreg,
para juntos traçarmos a execução das políticas
determinadas pela constituição de 1988. A pri-
vatização dos cartórios precisa ser rápida, pois
o estado já demonstrou sua incapacidade para
fazer isso e o exemplo maior está na Bahia.
A privatização dos cartórios
baianos foi aprovada por unanimidade na
Assembléia Legislativa em agosto do ano
passado. No entanto, estes estabelecimentos
continuam sob a gestão do Tribunal de Jus-
tiça (TJ-BA) até a realização de concurso
público para ocupar as titularidades, pre-
visto para o segundo semestre deste ano.
A atuação da Corregedoria Nacio-
nal é no sentido de agilizar o concurso da Ba-
hia, para que ocorra o mais rápido possível.
Eliana Calmon
Corregedora Nacional de Justiça do CNJ

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ICE

índ ICE Direito de Família   Direito Tributário 2 Regime tributário aplicável ao tabelião e ao

Direito de Família

 

Direito Tributário 2 Regime tributário aplicável ao tabelião e ao oficial de registro: Pessoa Física ou Pessoa Jurídica? Por: Sandra Cristina Denardi

ao tabelião e ao oficial de registro: Pessoa Física ou Pessoa Jurídica? Por: Sandra Cristina Denardi

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Família, a união homoafetiva e a sociedade A de fato: O que mudou? Por: Gustavo

Família, a união homoafetiva e a sociedade

A

de fato: O que mudou? Por: Gustavo Tepedino

Página 06

Direito de Família

 
A Família, a união homoafetiva e a sociedade Certificação Digital A Certificação Digital: o notário

A

Família, a união homoafetiva e a sociedade

Certificação Digital A Certificação Digital: o notário e o registrador em busca de uma agenda positiva Por: Pedro Paulo Lemos Machado

Digital: o notário e o registrador em busca de uma agenda positiva Por: Pedro Paulo Lemos

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de fato: O que mudou? Por: Frederico Henrique Viegas de Lima

Página 09

Direito Civil

 
A necessidade de unificação do Direito Civil

A

necessidade de unificação do Direito Civil

na

América Latina com implicações no

Direito Sucessório

Por: Zeno Veloso

Página 12

Direito Administrativo Equilíbrio da relação jurídica do serviço delegado frente à atuação do Estado Por: Maurício Zockun

Equilíbrio da relação jurídica do serviço delegado frente à atuação do Estado Por: Maurício Zockun
 

Direito Administrativo

 

Página 54

O papel do notário e do registrador na  

O

papel do notário e do registrador na

 

prevenção do crime organizado Por: Pierpaolo Cruz Bottini

Página 16

Institucional

O Estado brasileiro e a população brasileira precisam dos senhores Por: José Eduardo Martins Cardozo

Direito Civil e Empresarial Recentes alterações legislativas em matéria Civil e Empresarial e seus impactos na atividade Notarial e Registral Por: Rodrigo Toscano de Brito

em matéria Civil e Empresarial e seus impactos na atividade Notarial e Registral Por: Rodrigo Toscano
matéria Civil e Empresarial e seus impactos na atividade Notarial e Registral Por: Rodrigo Toscano de

Página 59

Direito Civil

Direito Civil

Página 23

Princípios do Direito Civil Contemporâneo, sucessões e normas jurídicas transterritoriais:

Ementário Extrajudicial ENNOR divulga Orientações Práticas Notariais e de Registro

Ementário Extrajudicial ENNOR divulga Orientações Práticas Notariais e de Registro Página 60

Página 60

propostas e problematizações para um “código de princípios” Por: Luiz Edson Fachin

 

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Jurídico

Direito Civil

Natureza dos Serviços Notariais. Regime Jurídico do ISSQN. Inexistência de Decisão do STF Por: Hugo

Natureza dos Serviços Notariais. Regime Jurídico do ISSQN. Inexistência de Decisão do STF

Por: Hugo de Brito Machado

A necessidade de unificação do Direito Civil

A

necessidade de unificação do Direito Civil

na

América Latina com implicações no

Direito Sucessório Por: Christiano Cassettari

Página 34

 

Página 62

Direito Tributário

Institucional

Regime tributário aplicável ao tabelião e oficial de registro: Pessoa Física ou Pessoa Cerimônia do

Regime tributário aplicável ao tabelião e oficial de registro: Pessoa Física ou Pessoa

Cerimônia do PQTA 2011 premia notários e registradores por todo o Brasil

Cerimônia do PQTA 2011 premia notários e registradores por todo o Brasil

 

Jurídica?

Por: Antônio Herance Filho

Página 40

 

Página 66

 
  Revista de Direito Notarial e de Registro é uma publicação anual da Associação dos Notários

Revista de Direito Notarial e de Registro é uma publicação anual da Associação dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg/BR) e da Escola Nacional de Direito Notarial e de Registro (ENNOR), voltada para os profissionais dos serviços notariais e registrais do País, operadores do Direito e representantes dos poderes Executivo, Legislativo e

Judiciário do Brasil. As entidades não se responsabilizam pelos artigos publicados na revista, cuja opinião

Judiciário do Brasil. As entidades não se responsabilizam pelos artigos publicados na revista, cuja opinião expressa somente as ideias de seus respectivos autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos textos sem autorização. Endereço: SRTVS ,Quadra 701, Lote 5, Bloco A, Salas 601/604, Centro Empresarial Brasília, CEP 70340-906, Brasília/ DF - Fone: 61 3323.1555 - Site: www.anoreg.org.br. Presidente: Rogério Portugal Bacellar. Coordenação geral: Fernanda Castro. Jornalista Responsável pela Edição/ Redação: Alexandre Lacerda Nascimento. Coordenação/edição: Alexandre Lacerda Nascimento (MTB 13721). Redação: Alexandre Lacerda Nascimento (MTB 13721) Editoração, Produção e Diagramação: Peron Publicidade. Capa: Gustavo P. Ferraz. Impressão: JS Gráfica. Tiragem: 10.000. Colabore conosco, enviando suas sugestões, críticas ou notícias para o e-mail: anoregbr@anoregbr.org.br

 
Colabore conosco, enviando suas sugestões, críticas ou notícias para o e-mail: anoregbr@anoregbr.org.br  
Colabore conosco, enviando suas sugestões, críticas ou notícias para o e-mail: anoregbr@anoregbr.org.br  
Colabore conosco, enviando suas sugestões, críticas ou notícias para o e-mail: anoregbr@anoregbr.org.br   44

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ITORIAL

O Cartório de Hoje P rezado leitor, o objetivo das páginas que se seguem é
O Cartório de Hoje
P rezado leitor, o objetivo das páginas que
se seguem é retratar como os cartórios
brasileiros evoluíram, aprimoram seus ser-
viços, investiram em conhecimento em tec-
nologia e entraram para a modernidade, com
muito mais segurança jurídica.
Para quem não conhece, a Anoreg-BR é
a entidade de classe com legitimidade reco-
nhecida pelos poderes constituídos para re-
presentar as sete especialidades dos serviços
notariais e de registro, estrategicamente dis-
tribuídos em todos os municípios e distritos
do território nacional.
Atualmente, contamos com Anoreg’s em
todos Estados da Federação, bem como com
Institutos Técnicos que auxiliam nossos pro-
fissionais no dia-a-dia do serviço.
A profissão tem relevante função social
para a comunidade brasileira, pois garante a
todos atos jurídicos perfeitos, autenticidade,
segurança e eficácia. Os mais de 16 mil notá-
rios e registradores (conforme base do Con-
selho Nacional de Justiça) empregam hoje,
diretamente, mais de 500 mil pessoas e mais
de 1 milhão de cidadãos, indiretamente.
Os cartórios estão presentes nas etapas
mais importantes da vida dos cidadãos, por
isso, estão disponíveis a toda a sociedade,
como elo para a consolidação da Cidadania.
São necessários desde o nascimento ao óbi-
to, na vida familiar e nos negócios, passando
pelo casamento, pela compra da casa própria
e, enfim, uma infinidade de outras situações.
Isso porque os profissionais de ofícios e ta-
belionatos são delegados do Poder Público, o
que lhes confere fé pública. Ou seja, reconhece-
-se tudo o que é lavrado e atestado pelos notá-
rios e registradores como legítimo e real.
São eles, ainda, responsáveis pela eter-
nização dos atos (por meio das certidões,
escrituras e atas) e por tornar público (dar
publicidade) tudo que é lavrado nos ofícios
e tabelionatos. Esses profissionais também
atuam como uma espécie de consultor, tradu-
zindo a vontade das partes para a linguagem
jurídica, adequando-a às leis e orientando os
usuários dos serviços em relação às possíveis
consequências dos atos praticados.
No final do ano passado, durante a reali-
zação do último Congresso da Anoreg-BR,
em Maceió/AL, renomados professores pro-
feriam palestras sobre importantes temas
para toda a nossa categoria. Com apoio ins-
titucional da nossa Escola Nacional de No-
tários e Registradores – ENNOR voltamos a
editar essa Revista, contribuindo de forma
direta para que a sociedade brasileira veja o
quão importante são nossos serviços e o pa-
pel do cartório de hoje.
Boa leitura.
Rogério Portugal Bacellar
Rogério Portugal Bacellar,
presidente da Anoreg-BR

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dIREITO d E f A m í LIA A Família, a união homoafetiva e a sociedade
dIREITO d E f A m í LIA A Família, a união homoafetiva e a sociedade
dIREITO d E f A m í LIA A Família, a união homoafetiva e a sociedade
dIREITO d E f A m í LIA A Família, a união homoafetiva e a sociedade
dIREITO d E f A m í LIA A Família, a união homoafetiva e a sociedade
dIREITO d E f A m í LIA A Família, a união homoafetiva e a sociedade

A Família, a união homoafetiva e a sociedade de fato:

O que mudou?

A partir da promulgação da Constituição de 1988, observou-se crescente preo-

cupação com a dignidade da pessoa, com a igualdade e com a democracia nas relações familiares, no sentido de impedir a discrimi- nação e a opressão da mulher, que se sacrifi- cava em nome de uma suposta paz familiar e da união da família em torno do casamento. Essa antiquada concepção deu lugar, no direi- to contemporâneo, à noção de entidade fami- liar como instrumento de realização dos seus membros, vale dizer, dos cônjuges ou convi- ventes e especialmente dos filhos. Na esteira dessa visão instrumental da fa- mília, que altera a perspectiva formalista de unidade familiar, esta deixa de se resumir à unidade formal estabelecida pelo casamento, tendo-se assegurada a pluralidade das forma- ções familiares. Além das famílias formadas em torno do casamento, admitem-se, suces- sivamente, as uniões estáveis e as famílias monoparentais - que não estão previstas dire- tamente no Código Civil, mas que correspon- dem, segundo o IBGE, a cerca de 40 milhões de brasileiros que vivem em famílias mono- parentais, em sua grande maioria lideradas por mulheres. Ainda segundo o IBGE, 10 mi- lhões de mulheres são consideradas chefes de

IBGE, 10 mi- lhões de mulheres são consideradas chefes de O jurista Gustavo Tepedino palestrou durante

O jurista Gustavo Tepedino palestrou durante o Congresso de Direito Notarial e de Registro da Anoreg-BR

convertendo a ADPF, por voto do ministro Ayres Britto, em Ação Direta de Inconstitu- cionalidade,

convertendo a ADPF, por voto do ministro Ayres Britto, em Ação Direta de Inconstitu- cionalidade, defendendo que a interpretação do artigo 1.723 seria inconstitucional se não pudesse compreender em seu bojo outras for-

mas de união estável, inclusive aquela forma-

da por dois homens ou duas mulheres.

A solução, do ponto de vista técnico, seria discutível, vez que a Suprema Corte prefe- riu não considerar autossuficiente o preceito constitucional para garantir a admissão de famílias formadas por pessoas do mesmo sexo. Vale dizer: o STF preferiu interpretar que a possibilidade de famílias homoafetivas decorreria da interpretação do artigo do Có-

homoafetivas decorreria da interpretação do artigo do Có- “Temos que tentar buscar padrões de princípios lógicos

“Temos que tentar buscar padrões de princípios lógicos que possam refletir uma certa identidade cultural brasileira, porque hoje a família, em cada um dos estados que aqui está representado, é

vista de uma maneira diferenciada”

está representado, é vista de uma maneira diferenciada” digo Civil, o que denominou “interpretação

digo Civil, o que denominou “interpretação

construtiva”, a aplicar, portanto, apenas indi- retamente o texto constitucional. Em termos práticos, indagou-se se a de- cisão permitirá a conversão de união estável em casamento, ou se teria seus efeitos limi- tados ao reconhecimento da união estável.

A

ao

lado dos debates acerca dos próprios di-

questão tem sido alvo de viva discussão,

reitos sucessórios e patrimoniais.Acabou- -se concluindo, difusamente, que caberia a

conversão em casamento para toda união

estável, por conta do princípio da isonomia

e, em consequência, poderia o juiz celebrá-

-lo diretamente, nos termos do Código Civil, mesmo nas hipóteses de união homoafetiva. Tornou-se célebre o caso em que um juiz em

Goiás se recusou a celebrar o casamento en- tre duas pessoas do mesmo sexo. A reação foi impressionante, suscitando enorme discus- são. De fato, a Suprema Corte não declarou que o casamento homoafetivo era admitido, pronunciando-se apenas quanto à união está- vel; politicamente, porém, essa matéria se es- tabeleceu de tal maneira, que logo se afirmou que, admitida a união estável, pode esta ser convertida em casamento. Há quem diga que a conversão pode ser pre- tendida diretamente junto ao registro civil, des- de que com autorização judicial, ou, em alguns Estados, de maneira ainda mais liberal, sem a apreciação do Judiciário. No Rio de Janeiro, em que a Corregedoria atua de modo muito ativo na regulamentação do sistema registral, havia pouco espaço para essa liberdade. De qualquer maneira, observa-se crescente tendência à re- gulamentação. De parte a discussão sobre a conversão e o próprio reconhecimento do casamento como expressão da intimidade de cada indivíduo, da igualdade e da auto- determinação que fazem parte dos direitos personalíssimos, admite-se juridicamente a união homoafetiva, desde que estabelecida de forma séria e duradoura, como forma de constituição de família. Diante dessa realidade, o que mudou do ponto de vista patrimonial? Esta é uma questão extremamente delicada, porque o Superior Tribunal de Justiça, diante da dú- vida acerca da interpretação do artigo 1.829, sobre a concorrência patrimonial entre côn- juge e descendentes, manifestou-se também quanto à tutela sucessória dos companheiros, provocando implicações diretamente no caso das relações homoafetivas, em três acórdãos relatados pela ministra Nancy Andrighi e jul- gados por unanimidade pela 3º Turma. Com relação ao casamento, o artigo 1.829 estabelece a concorrência entre o cônjuge sobrevivente e descendentes, desde que não fosse casado com o falecido sob o regime da comunhão universal. O que imaginou o legislador? Que no regime da comunhão universal, como o patrimônio é único, con- figurando-se para o cônjuge meação ampla, não haveria concorrência; no regime de co- munhão parcial, esta só ocorreria se tivesse o cônjuge deixado bens particulares. Ainda segundo o STJ, havendo separação convencional não haveria concorrência su- cessória sobre os bens particulares. A deci- são do STJ se fundamenta na boa-fé objetiva

A deci- são do STJ se fundamenta na boa-fé objetiva famílias monoparentais, ou seja, vivem com

famílias monoparentais, ou seja, vivem com seus descendentes sem outro cônjuge ou com- panheiro. Tais formações se espraiam Brasil afora, com suas diferenças socioculturais, que se refletem diretamente no Direito. Passam a existir muitos modelos familia- res; dentre eles, a que mais clamor causou, por suas implicações ideológicas, culturais e religiosas, foi a família formada por pessoas do mesmo sexo, finalmente admitida pelo Supremo Tribunal Federal. Do ponto de vista jurídico, essa decisão do Supremo é interes- sante por vários aspectos. O artigo 1.723 do Código Civil, que foi levado a julgamento, faz referência à admissão da união estável entre homem e mulher. A linguagem textual do Código Civil reconhece como entidade fa- miliar a união estável entre homem e mulher configurada em convivência pública, contí- nua e duradora, estabelecida com objetivo de constituição da família. Esse artigo reproduz o parágrafo 3º do artigo 226 da Constituição da República, que afirma que “para efeito de proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como enti-

dade familiar, devendo a lei facilitar sua con- versão em casamento”. No caso, ajuizou-se ori- ginalmente no STF Ação de Descumprimento de Precei- tos Fundamentais (ADPF), ação residual para a hipóte-

se de desrespeito aos direi-

tos fundamentais. À época, sustentou-se que a ação cabí-

vel era a ADPF porque seria difícil considerar inconsti- tucional o artigo 1.723 do Código Civil, que tinha re- dação quase idêntica ao pró- prio texto constitucional. Foi nesta direção que marchou a ADPF, pedindo ao STF que declarasse desrespeitada a Constituição, pela negativa

dos órgãos do Estado na ad- missão de outras formas de famílias, além daquela que apenas exemplificativamen-

te havia sido mencionada no

texto constitucional. Ou seja,

o texto Constitucional não

era taxativo, assim como não era taxativo o Código Civil. Na discussão da Suprema Corte acabou-se

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dIREITO

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dIREITO d E f A m í LIA e na confiança. Segundo tal entendimento, que contraria

e na confiança. Segundo tal entendimento, que contraria a linguagem expressa do dispo-

o

afastamento do companheiro de qualquer

admissão de formações familiares cuja di- versidade põe em crise a segurança jurídica. O planejamento sucessório torna-se impera- tivo diante da pluralidade de arranjos fami- liares existentes. Por outro lado, as uniões estáveis suscitam controvérsias patrimoniais ainda não definitivamente pacificadas na jurisprudência, sendo recomendáveis, por isso mesmo, sempre que possível, contratos e testamentos que fixem, de forma cautelo- sa, o regime patrimonial adequado para cada modelo familiar. No cenário atual, em que se tem aludido

 

concorrência com herdeiros, promovendo-se

sitivo legal, quando se celebra o pacto ante- nupcial de separação de bens, implicitamente

absoluta separação patrimonial entre com-

panheiros, inclusive para fins sucessórios. Se esta absoluta segregação patrimonial dos bens particulares já foi admitida pelo STJ no caso do casamento, tornando insuscetível de concorrência com os descendentes o côn- juge sobrevivente casado em separação con- vencional, por maioria de razão será admitido pacto do gênero no caso dos companheiros, já que o artigo 1.845 prevê como herdeiros necessários os descendentes, ascendentes e

a

se pretende afastar qualquer relação patri-

monial com o outro cônjuge, incluindo as ex- pectativas sucessórias. Este é o entendimento

do STJ. Há que se atentar, contudo, à plura- lidade de realidades encontradas no país. De fato, as classes mais baixas da população normalmente esperam uma atuação interven- cionista do Estado, esperam uma particular proteção legal para tutelá-los, reduzindo-se

o

espaço da autonomia. As classes média e

   

alta, com interesse prático na celebração de testamentos e no planejamento sucessório, preferem normalmente a maior autonomia. As pessoas podem organizar melhor o seu futuro, o seu planejamento. A rigor, é muito difícil se lograr uma solução ideal para um país tão diversificado. No que tange à proteção sucessória dos companheiros, o STJ julgou, em sede do Re-

curso Especial n. 1.117.563, certo caso em que a filha do de cujus, que concorria com a companheira dele, alegava que esta não po- deria ter mais direitos do que se convivesse em casamento, no âmbito do qual não have- ria sucessão sobre bens particulares do côn- juge falecido. A Corte entendeu que, diante da igualdade de regimes patrimoniais entre

cônjuge, não se referindo ao companheiro (ao menos textualmente). Nesse sentido, o arti- go 1.725, segundo o qual, na união estável, salvo contrato escrito, aplica-se às relações patrimoniais, no que couber, o regime de comunhão parcial, poderia ser superado pelo contrato de união estável, que se faz hoje com muita frequência, afastando, assim, o compa- nheiro da sucessão. Em conclusão, diante da pluralidade de modelos familiares, há uma tendência de

à tendência de judicialização de padrões mo- rais de conduta, diversas questões de ordem política são submetidas à Suprema Corte, cuja atividade transcende a simples interpre- tação da norma jurídica, a exigir muito mais da formação do magistrado e do intérprete. Há que se tentar buscar padrões de compor- tamento fiéis aos princípios constitucionais, que possam refletir a identidade cultural bra- sileira, por mais que a família encontre as mais variadas representações em nosso país.

a

união estável e o casamento, a sucessão

 
Gustavo Tepedino (dir.) recebe homenagem do presidente da Anoreg-BR, Rogério Portugal Bacellar, após sua apresentação

Gustavo Tepedino (dir.) recebe homenagem do presidente da Anoreg-BR, Rogério Portugal Bacellar, após sua apresentação em Maceió (AL)

do companheiro deve se restringir à meação oriunda do patrimônio comum, não afetando também os bens particulares deixados pelo companheiro. A posição da 3º Turma, que não é definitiva, tem sido a de que os bens particulares são intocáveis, nas hipóteses de concorrência, tanto no caso do casamen- to, mesmo havendo separação convencional, quanto da união estável. Diga-se ainda que o artigo 1.845 do Có- digo Civil prevê como herdeiros necessários apenas os descendentes, os ascendentes e o cônjuge. O preceito é de duvidosa constitu-

cionalidade, por atribuir menos direitos aos companheiros do que aos cônjuges, de modo a criar hierarquia entre os modelos familiares. Há quem entenda inexistir qualquer vício de constitucionalidade, ao argumento de que as uniões estáveis não decorrem de ato formal,

 

como o casamento, mas sim da espontaneida- de do afeto. Nessa perspectiva, admitindo-se que nos contratos de união estável se defina

   
 

GuSTavo TEPEDINo

É professor titular de Direito Civil e ex-diretor da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é Doutor em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro da Academia Internacional de Direito Comparado.

Doutor em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro da Academia Internacional

a

relação patrimonial, será coerente admitir

e membro da Academia Internacional de Direito Comparado. a relação patrimonial, será coerente admitir 8 88

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A Família, a união homoafetiva e a sociedade de fato: O que mudou? Q uero
A Família, a união homoafetiva
e a sociedade de fato:
O que mudou?
Q uero abordar alguns pontos que
foram colocados nesse julgamen-
to da ADPF 132 como, por exemplo, a
posição do ministro e Advogado Ge-
ral da União, Luís Inácio Adams. Ele
parte de um suporte fático. Qual é o
suporte fáticopara que possamos falar
em reconhecimento da união estável?
Afeto, exercício de liberdade, desejo
de convivência íntima e duradoura
para fins comuns. Então o ministro
Adams introduz no julgamento do
Supremo elementos que, nos últimos
anos, referem-se à união estável ou a
união homoafetiva estável. Nas jorna-
das de Direito Civil foi colocado que
toda esta discussão deu-se por causa
de questões patrimoniais. Justamen-
te quando duas pessoas tinham uma
convivência e depois, quando um de-
les falece, vem a família do falecido
buscar o patrimônio. Neste momento
começa uma disputa judicial.
Desde logo, podemos lembrar-nos
do caso do filho do Jorge Guinle, no
Rio de Janeiro, que foi um dos pri-
meiros casos onde tivemos uma de-
cisão a esse respeito. Depois as pes-
soas começaram a tentar avaliar esta
situação sob outra ótica, como bem
colocou o ministro Adams, por meio
do afeto, do exercício de liberdade, e
então este reconhecimento tornou-se
um caminho sem volta. Em seu voto,
o ministro Carlos Ayres Brito deixou
muito claro que aquele julgamento
continha diretrizes, pois não queria
fechar a questão a ferro e fogo. A de-
cisão não é uma questão encerrada,
muita água ainda vai rolar debaixo
da ponte, e aí caberá ao julgador de
primeira instância ver qual é a faceta
Advogado e professor de Direito Civil, Frederico
Henrique Viegas de Lima falou durante o
Congresso da Anoreg-BR em Maceió (AL)

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dIREITO d E f A m í LIA Os palestrantes que abordaram o tema sobre as
dIREITO d E f A m í LIA Os palestrantes que abordaram o tema sobre as
dIREITO d E f A m í LIA Os palestrantes que abordaram o tema sobre as
dIREITO d E f A m í LIA Os palestrantes que abordaram o tema sobre as
dIREITO d E f A m í LIA Os palestrantes que abordaram o tema sobre as
dIREITO d E f A m í LIA Os palestrantes que abordaram o tema sobre as

Os palestrantes que abordaram o tema sobre as novas possibilidades de família foram homenageados ao final de suas apresentações

que tem que se dar a esta decisão. Caberá aos notários e aos registradores aplicarem esta

decisão na prática. É sobre isso que tratarei

a partir de agora. O que fica da decisão da Suprema Corte é justamente o norte que deve ser agora cons- truído e é claro que essa construção eviden-

temente é social. Pois bem, qual é a atuação que os notários e registradores devem ter? Segundo o ministro Carlos Ayres Britto, em primeiro lugar é necessário aceitar a exis- tência deste tipo de relação. A Anoreg-BR divulgou uma nota orientativa aos notários

e registradores dizendo que estes deveriam

aceitar estas relações. Não se pode fechar os olhos a essas situações. Principalmente por parte dos Tabeliães de Notas, a respeito da possibilidade de lavratura de escrituras de união estável homoafetiva, ato já existente há muitos anos, mas que envolvia pessoas de sexos diferentes. A aceitação dessa nova realidade, para a qual não podemos virar as costas, é a neces- sidade de que os notários façam este tipo de escritura, pois não é ilegal, não é imoral, não tem nada ao contrário, até mesmo é uma rea- lidade social. Embora tenhamos sempre que avaliar a inserção topográfica do direito dos diferentes Estados que temos em nosso País. É mais fácil justificar uma união estável na zona sul do Rio de Janeiro, do que justificar talvez, no interior do norte do País. Com cer- teza, socialmente sim. Recentemente o Brasil concedeu o pri- meiro visto para um estrangeiro, um cuba-

no, fundado em uma união homoafetiva e chegou-se inclusive a mencionar a cidade onde ele morava, Araçatuba, que já está sob investigação para ver se não existe uma união homoafetiva de fachada. Este tipo de união é notícia em jornal, então é uma realidade para a qual você não pode virar as costas. Claro que o notário só faz aquilo que tem convicção. Se não tiver convicção, não deve fazer. Coloco aqui duas convicções, uma ligada à outra. A primeira é a convicção re- ligiosa. Sabemos que antigamente havia a questão do divorcista e do não divorcista. A questão das pessoas que falam da homoafeti- vidade e da não homoafetividade, fundados em religiosidade, principalmente da igreja católica que foi a que saltou mais a frente, com maior visibilidade. Se você é um Tabe- lião de Notas e não concorda com este tipo de ato em razão de sua religiosidade, parece-me que você pode negar-se a fazer o ato e aí a pessoa vai procurar outro Tabelião. Fazendo um paralelo com a oposição de consciência com o que a Constituição determina. Se você tem oposição de consciência por pegar em ar- mas, o Estado não pode obrigá-lo, então não vejo porque um Tabelião de Notas não possa opor-se a este ato. Recentemente o Superior Tribunal de Jus- tiça reconheceu a possibilidade de um casa- mento homossexual. Quais as bases fáticas deste julgamento? Tudo isso começou com uma habilitação de casamento no Rio Grande do Sul. Neste processo chegou um casal ho- moafetivo desejando se casar. O registrador

civil falou que não habilitava e suscitou dúvi- da. Esse pedido foi para o Tribunal de Justiça, sempre com negativa de se fazer essa habili- tação. Somente o STJ permitiu que houvesse a habilitação. Aquelas duas mulheres pude- ram se casar. Aí vem a pergunta: essa decisão vale para todo mundo? Não, não vale. Você tem um duplo caminho a seguir. Primeiro, se o STJ já admitiu e se eu, como registrador ci- vil, não admitir, vou criar mais um processo, que vai tramitar até o STJ para que o casal possa contrair matrimônio. Se aquela habilitação é possível, não ten- do nenhum vínculo de impedimento, a não ser o fato de serem pessoas do mesmo sexo, parece-me que não há motivo para que não se possa fazer esta habilitação. Da mesma for- ma, podem existir fortes convicções que po- dem leva-lo a não realiza-la. Juridicamente é perfeitamente possível, agora como falei an- tes, a questão de religiosidade, de consciência de um registrador civil achar que não deve fazer. Considero que também não estaria er- rado, mas prefiro a primeira hipótese, pode- -se sempre fazer a habilitação. Teríamos um segundo gênero de habilitação de casamento, em relação a essas pessoas do mesmo sexo, seguindo a orientação jurisprudencial. Na 5ª Jornada de Direito Civil, patroci- nada pelo Conselho da Justiça Federal e pelo Centro de Estudos Judiciários e STJ, alguns enunciados aprovados são bastante interes- santes e lidam com a atividade dos notários

interes- santes e lidam com a atividade dos notários “Se o enunciado admite a existência da

“Se o enunciado admite a existência da separação judicial e do divórcio, então, por óbvio, também possibilita a lavratura de uma escritura de separação”

judicial e do divórcio, então, por óbvio, também possibilita a lavratura de uma escritura de separação”
judicial e do divórcio, então, por óbvio, também possibilita a lavratura de uma escritura de separação”

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estivesse e que abandonasse o lar, deixando as pessoas e perderia a propriedade. Claro que

estivesse e que abandonasse o lar, deixando as pessoas e perderia a propriedade. Claro que não é perda de propriedade, é uma coisa justa, aquela pessoa que fica com o lar, con- tinua com todas as despesas e tem esse prazo de dois anos. Mas algumas coisas já começam a ser colocadas, alguns problemas, então têm dois enunciados. Eu vou começar pelo mais exten- so, que seria o enunciado de direito de famí-

lia, que foi remetido depois para a comissão do direito das coisas, como eu falei, que ele coloca alguns termos, algumas terminologias para o direito. Ele diz o seguinte: a aquisição da propriedade, na modalidade de usucapião prevista no Artigo 1.240 do Código Civil, só pode ocorrer em virtude de inadimplemento de seu pressuposto anteriormente ao divórcio. Ou seja, ele fala que tem que ser em primeiro

lugar essa ocorrência, antes de você pedir o divórcio ou então, ainda, fazendo o jogo com

o enunciado que eu falei antes, a própria se- paração ou divórcio implementa as condições tem que ser antes do fim do término daquele período que você pode ter aquela aquisição.

E diz o seguinte: o requisito do abandono do

lar deve ser interpretado de forma cautelosa, verificando se o afastamento do lar conjugal representa descumprimento simultâneo de outros deveres conjugais, tais como assistên- cia material e dever de sustento do lar, one- rando desigualmente aquele que se manteve na residência familiar e que se responsabi- liza unilateralmente com as despesas oriun- das da manutenção da família e do próprio imóvel, justificando a perda da propriedade e alteração do regime, quanto ao imóvel, objeto de usucapião. Tem outros enunciados aqui que falam

a respeito de direito das coisas, protesto ju-

dicial, pessoa jurídica, mas eu queria só me deter em dois enunciados que são de direitos sucessórios, de direito de família. Antes de falar a minha interpretação do que é um o testamento vital, eu vou ler o enunciado: É válida a declaração de vontade expressa em documento autêntico, também chamado de testamento vital em que a pessoa estabelece disposições sobre tipos de tratamento de saú- de e do não tratamento que deseja para o caso de se encontrar sem condições de manifestar a sua vontade. É testamento? Não sei, acho

de manifestar a sua vontade . É testamento? Não sei, acho “Se você é um Tabelião

“Se você é um Tabelião de Notas e não concorda com este tipo de ato em razão de sua religiosidade, parece-me que você pode negar-se a fazer o ato e aí a pessoa vai procurar um outro Tabelião”

o ato e aí a pessoa vai procurar um outro Tabelião” que posso falar uma besteira,

que posso falar uma besteira, mas acho que isso é um codicilo metido a besta, fundamen- talmente. Da mesma forma que o professor Henri de Page falou um dia que o direito de uso era usufruto em miniatura, me parece que testamento vital, nada mais é que um co- dicilo metido a besta. Você está estabelecen- do essa nova modalidade de testamento, dis- pondo sobre sua vida e enfermidade e acho que é perfeitamente válido e as pessoas po- dem seguir aquela vontade. Acho que temos que ver com um pouco de cautela, não assim, sair por aí utilizando isso a torto e a direito, porque acho que existem casos e casos. Mas esse testamento que vem se conformando na doutrina e na jurisprudência, então está cada vez mais utilizado. Eu vou ficar por aqui em relação a esses enunciados, mas só dizendo que há enuncia- dos muito interessantes, que um deles trata da possibilidade sobre as permutas, para quem é registrador imobiliário, outro fala da quebra da territorialidade no títulos e documentos, que é possível, tem outro enunciado de di- reito das coisas também que é muito interes- sante que fala sobre a eficácia do registro, da eficácia de presunção que tinha no código de 1916 e desapareceu no código de 2002. Teve a necessidade de alguém falar qual a presun-

ção do registro, se ela é relativa ou se ela é absoluta.

FREDERICo HENRIquE vIEGaS DE LIma

É advogado e Professor Titular de Direito Civil da Universidade de Brasília (DF)

Titular de Direito Civil da Universidade de Brasília (DF) e registradores. Um enunciado que tem a

e registradores. Um enunciado que tem a ver com o tema que estamos abordando é a res- peito da existência, inexistência ou sobrevi- vência da separação judicial, frente à Emenda 66 da Constituição e, por incrível que pare- ça, aprovou-se um enunciado dizendo que a Emenda Constitucional nº 66, de 2010, não extinguia o instituto da separação judicial e extrajudicial. Claro que é uma questão de opção, a pes- soa pode querer se separar e não e divorciar, mas considero que se perdeu um pouco o sen- tido a emenda, porque decorrido mais de um ano da emenda, se vontade do legislador foi estabelecer somente o divórcio, é claro que a separação extrajudicial desaparece. E por que isso é importante para os senhores? Princi- palmente, porque se discutiu muito se haveria ainda, a possibilidade de se lavrar uma escri- tura de separação judicial. Se o enunciado admite a existência da separação judicial e do divórcio, então, por óbvio, também possibili- ta a lavratura de uma escritura de separação. Outro enunciado que considero importan- te é o que diz que é possível a conversão de união estável entre pessoas do mesmo sexo em casamento, observados os requisitos exi- gidos para a respectiva habilitação. É possí- vel o casamento de pessoas do mesmo sexo, desde que preencham todos os demais requi- sitos inerentes a própria habilitação como sempre se exigiu. Existem outros dois enunciados relacio- nados a dois ramos do Direito, um em Direi- to de Família e outro em Direito das Coisas. Ambos dizem respeito ao artigo 1240-A, do Código Civil, que é a criação de uma nova espécie de usucapião ou pelo menos assim chamado. O Artigo 1.240-A diz o seguinte:

“aquele que exercer por 2 (dois) anos, inin- terruptamente e sem oposição posse direta, com exclusividade sobre o imóvel urbano de até 250 m² (duzentos e cinquenta )metros quadrados, cuja a propriedade divida com o ex-cônjuge ou ex-companheiro que aban- donou o lar, utilizando para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio inte- gral, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural”, ou seja, o usucapião como alguns chamam, usucapião do abando- no, usucapião fundado na culpa. A própria professora Maria Berenice saiu em todos os jornais da época, dizendo que voltou a culpa como forma de separação ou como forma de divórcio e que estaria penalizando quemaqui

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dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina

A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina com implicações no Direito Sucessório 1

T ínhamos combinado, depois dessa conferência notável do professor Édson Fachin, uma verdadeira aula magma,

tínhamos combinado fazer, em seguida, pequenas e pontuais abordagens, rápidas, práticas, dentro do espírito da palestra inicial, da conferência majestosa que ouvimos, do direito positivo da América Latina, comparando pontos, chaman- do atenção para algum detalhe, algum aspecto. Falarei do direito argentino e do paraguaio, enquanto que o professor Christiano Cassetari abordará o do Uruguai e o do Chile. Se é assim, comecemos pelo direito argentino, lembran- do que esse direito tem muito a ver com essa figura, cuja foto eu tenho o prazer de lhes mostrar, nesse pequeno livro que escrevi, e que se chama “Teixeira de Freitas e Pontes de Miranda”. Teixeira de Freitas é, praticamente, o autor do Código Civil da Argentina. Velez Sarsfield, que escrevia o projeto de Código argentino, ao receber o Esboço, de Teixeira de Freitas, em uma jogada, digamos assim, internacional, di- plomática (que Silvio Meira, o grande biógrafo de Teixeira de Freitas conta com detalhes), Vélez deve ter dito: “o meu Código está pronto, eu não tenho mais nada a fazer”. Eu faço essa observação, até homenageando Vélez Sarsfield, ao con-

observação, até homenageando Vélez Sarsfield, ao con - O palestrante Zeno Veloso é homenageado pela presidente

O palestrante Zeno Veloso é homenageado pela presidente de honra da Anoreg-BR, Lea Portugal

1 Palestra realizada no XIII Congresso de Direito Notarial e de Registro, realizado pela ANOREG na cidade de Maceió, em 18 de novembro de 2011.

O

  mais de 4.000 artigos. No aludido art. 3.565, está dito que os filhos do
 

mais de 4.000 artigos. No aludido art. 3.565, está dito que os filhos do autor da suces-

do que no direito português é conferida essa quarta parte ao cônjuge sobrevivente em con-

são herdam por direito próprio e em partes iguais, salvo os direitos que este Título se dão ao viúvo ou viúva sobrevivente. Então, a primeira observação com relação ao Código Civil argentino e a sua interligação com o brasileiro, é que a lei argentina apre- senta em primeiro lugar, na ordem da suces- são hereditária, na ordem da sucessão legíti- ma, que eles chamam sucesiones intestadas , os descendentes, especialmente o filho, que é um herdeiro privilegiado. Os filhos herdam por direito próprio e em partes iguais, mas sem prejuízo dos direitos que se conferem ao cônjuge sobrevivente. En- tão, vejam aí, logo, uma ligação importante conosco. No novo direito sucessório brasilei- ro, o cônjuge concorre com os descendentes, dependendo do regime de bens. Quanto a su- cessão dos ascendentes, na Argentina, diz-se que, na falta de hijos e diescendientes, here-

dam los ascendientes, sem prejuízo dos direi- tos declarados nesse Título ao cônjuge sobre- vivente. O Código Civil argentino, logo em seguida dos descendentes, da primeira classe dos sucessíveis, chama os ascendentes, se- gunda classe sucessória. Quem estava ontem aqui, e me deu o prazer de me escutar, deve estar vendo, claramente, como estão bastante unificadas, é claro, embora não formalmente essas ordens legislativas: brasileira e argen- tina. Tanto lá, como aqui, são convocados os descendentes, em seguida, os ascenden- tes, sem prejuízo da participação do cônjuge.

Confiram-se os arts. 1.829, incisos I e II, do Código Civil brasileiro, e os arts. 3.565 e 3.567 do Código Civil argentino. O art. 3570 do Código Argentino aborda

corrência com os descendentes sem, todavia, aquela ressalva do nosso direito de que ele precisa, para tal, ser ascendente dos herdeiros com quem está concorrendo. Caso sobraram descendentes e cônjuge sobrevivente, isto é, se sobreviveram viúvo ou viúva e filhos, já falei; e se sobraram, fi- caram, sobreviveram ascendentes e cônjuge? Como é a solução? Na Argentina, o cônjuge herdará a metade dos bens próprios do fa- lecido e também a metade dos bens que te- nham sido adquiridos onerosamente durante

a

convivência, que lá são chamados de bens

“gananciales”. É também uma solução seme- lhante à solução brasileira, essa do Código Civil argentino, art. 3.571, e a outra metade caberá aos ascendentes. Se não ficaram, se não sobreviveram as- cendentes, nem descendentes os cônjuges se herdam reciprocamente, excluindo a todos os parentes colaterais, diz o art. 3.572 do Có- digo Civil argentino. Esta regra é exatamen- te igual à brasileira, do art. 1.838 de nosso novo Código. Se não há descendentes, nem ascendentes, chama-se o herdeiro da terceira classe, o cônjuge sobrevivente, que exclui os colaterais. O cônjuge está à frente dos colate- rais. Isto não ocorre, no Brasil, com relação aos companheiros, o que se apresenta como uma falha grave, profunda, imperdoável do

direito brasileiro, que, no Artigo 1.790, inciso III, diz que o companheiro concorre com os colaterais. E, ainda o que é pior, concorre em situação diminuída, porque havendo compa- nheiro sobrevivente e colateral do falecido, o companheiro receberá 1/3 da herança e os colaterais receberão 2/3 da herança. Embora não seja o tema, talvez fosse interessante eu mexer mais um pouquinho na herança dos companheiros. Em várias palestras, por todo

questão de ficarem viúvo ou viúva e filhos, resolvendo que o cônjuge sobrevivente terá na sucessão a mesma parte de cada filho. Isso

a

é

o nosso 1.829, I, do Código Civil, com-

o

Código Civil Argentino que é freitiano,

binado com o Artigo 1.832. Quer dizer, na concorrência do cônjuge sobrevivente com filhos, a cota é igual, sendo que no Brasil, quando o cônjuge sobrevivente é ascenden- te dos herdeiros com que está concorrendo, terá direito mínimo a ¼ da cota hereditária, ¼ do patrimônio hereditário, o que, sem dú- vida, é um benefício especial para o cônjuge sobrevivente, e a inspiração, no caso, veio da legislação portuguesa. Essa regra não é en- contrada no direito argentino, mas aparece no art. 2.139, I do Código Civil português, sen-

Brasil, eu conto a história do Nagibão. Aconteceu lá de Manaus, minha terra querida do coração, diga-se de passagem. Ele era casado, não teve filhos e depois, já madurão, prometeu para a esposa, no mo- mento da morte dela, “não vou casar mais com ninguém”, mas a carne é fraca, ele não podia casar, havia prometido, mas não po- dia deixar de amar. Conheceu uma cabocla belíssima, morena, , cabelos compridos, em uma cidade chamada Manacapurú. Apaixo- nou-se perdidamente e viveu com ela por felizes 15 anos. E viveu tão gostosamente

com ela por felizes 15 anos. E viveu tão gostosamente trário de muitos que procuram diminuí-lo

trário de muitos que procuram diminuí-lo ou criticá-lo. Ele acompanhou um gênio do di- reito sul-americano, e o outro deles é Francis- co Cavalcanti Pontes de Miranda, aliás, filho desta terra em que eu estou lhes falando, e uma das maiores honras da minha vida é ser cidadão honorário das Alagoas, em grande

parte por ter divulgado, e muito, e desde sem- pre, essa figura alagoana, brasileira, mundial, de Pontes de Miranda. Na parte das sucessões, entretanto, o Có- digo argentino, não é um Código Freitiano.

O

na

Argentina, onde ele é muito mais conheci-

Señor Freitas, é assim que chamam Freitas

do, falado, debatido, discutido, citado do que na sua própria pátria, nesse seu Brasil, e eu

poderia fazer toda uma palestra para explicar isso e para lamentar isso. Alias, Teixeira de Freitas andou por sua terra, dr. Portugal, a ci- dade de Curitiba. Em certa época da sua vida, ele foi viver em Curitiba e lá morava numa casa que era a antiga sede da Telepar, empre-

sa de

lida, não existe mais. Há uma dúvida: não

se

no Paraná. O Paraná, também meu Estado do coração, Curitiba, que eu amo tanto, soube homenagear esse grande Teixeira de Freitas que é da Bahia, da cidade de Cachoeira. On- tem umas pessoas aqui, baianas, me falavam da cidade de Teixeira de Freitas, que é uma homenagem a esse mestre, mas na verdade ele nasceu às margens do Rio Paraguaçu, no

sabe, exatamente, o que foi fazer Teixeira

Telecomunicação. Essa casa foi demo-

Recôncavo, na cidade de Cachoeira, na histó- rica Cachoeira.

não tem muito de Teixeira na parte das suces- sões, justo porque ele, no Esboço, não chegou às sucessões. Infelizmente, a idéia de se ter um Código Civil, via Teixeira de Freitas, foi abandonada no Brasil, pelo ciúme, pela inve-

ja

não chegou a escrever sobre sucessões, ele não fez um Esboço de Código Civil na parte das sucessões, de maneira que o direito su- cessório da Argentina, embora todo o resto seja de Teixeira de Freitas, tenha recebido a influência de Teixeira de Freitas, sem tirar o mérito de Vélez Sarsfield, o direito sucessório argentino não é influenciado por Teixeira. É trabalho pessoal e exclusivo de Vélez. Bem, vamos, então, ao Código Civil Ar- gentino, que estabelece a ordem da sucessão legítima a partir do art. 3.565. Vejam que o Código Civil Argentino é bem extenso, com

circundante e outros aspectos. E o mestre

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dIREITO C I v I L que não comprou mais nada, não trabalhou mais, ele era
dIREITO C I v I L que não comprou mais nada, não trabalhou mais, ele era
dIREITO C I v I L que não comprou mais nada, não trabalhou mais, ele era
dIREITO C I v I L que não comprou mais nada, não trabalhou mais, ele era
dIREITO C I v I L que não comprou mais nada, não trabalhou mais, ele era

que não comprou mais nada, não trabalhou mais, ele era um homem muito rico e ficou com 15 imóveis em Manaus. Para encurtar

a história, morreu de repente, ele dormia

em rede, não parava de comer, e nosso ára- be simpático, comunicativo, ficou muito gordo, e morreu de um infarto fulminante. Essa mulher, companheira de 15 anos, imaginou que era a única herdeira dele, porque era tudo para ele, era a mulher dele, foi com quem ele morreu, ele viveu e morreu nos braços daquela senhora. Mas um sujeito, que tinha vindo para o Ama- zonas com ele, há 50 anos, correu para o Líbano, foi procurar um primo de Nagibão, que encontrou e trouxe para Manaus. Esse primo apresentou-se como único herdeiro do Nagibão. Parece mentira, parece uma coisa irreal, mas é isso que diz um código da América Latina, que se chama Código

Civil Brasileiro, art. 1.790, caput, e inci- so III. Esta mulher ficaria, como ficou, sem absolutamente nada, porque o parente longínquo, talvez nem conhecido mais era, veio lá do Líbano, depois de 50 anos que estavam separados e sem visitar o paren- te, mas apareceu só para receber a herança dele. Por incrível que pareça, é isso o que diz o Código Civil Brasileiro neste ponto, sobre a herança dos companheiros, Se não houve bens adquiridos onerosamente du- rante a convivência, a companheira sobre- vivente não é dona de nada e coisa alguma

e a herança toda vai para o colateral. Ab-

surdo maior não pode haver. Agora, vejam que regra interessante é a do

Artigo 3.573 do Código Civil argentino, que é também copiada em outro artigo, com outro número, é claro, do Código Civil paraguaio.

É que na sucessão do cônjuge, ela não ocor-

rerá se o cônjuge, ao celebrar o casamento, estava enfermo e morreu dessa enfermidade nos 30 dias seguintes, a não ser no caso em que esse casamento foi celebrado para regu- larizar uma situação de fato anterior, uma

união estável anterior. Quer dizer, era o medo da utilização do casamento “in extremis”, e isso nós não temos no Brasil. Pode até haver

o casamento “in articulo mortis”, na Argen-

tina, mas ele não terá efeito sucessório. Ve- jam como é interessante: se o cônjuge estava

enfermo no momento daquele casamento e morreu da dita enfermidade 30 dias depois, o sobrevivente não será herdeiro. É uma saída inteligente, a não ser que aquele casamento

“in extremis”, “in articulo mortis” tenha sido celebrado para remediar ou resolver uma si- tuação anterior que já existia: a união estável, em que a possibilidade de fraude está afasta- da, pelas circunstâncias. Já vou me apressando e terminado, por- que ainda tenho que observar alguma coisa sobre o direito paraguaio. O art. 3.576 do Có- digo Civil argentino diz que a viúva que per- manece nesse estado e que não teve filhos, ou que se os teve não sobreviveram no momento em que se abriu a sucessão do sogro ou da sogra, terá direito à quarta parte dos bens que

ou da sogra, terá direito à quarta parte dos bens que “O cônjuge está à frente

“O cônjuge está à frente dos colaterais. Isto não corre, no Brasil, com relação aos companheiros, o que se apresenta como uma falha grave, profunda, imperdoável do direito brasileiro, do novo Código Civil Brasileiro que, no Artigo 1.790, inciso III, diz que o companheiro concorre com os colaterais”

III, diz que o companheiro concorre com os colaterais” teria correspondido a seu esposo nas ditas

teria correspondido a seu esposo nas ditas su- cessões. É uma disposição interessantíssima, que não temos no Brasil, só que não tem no Brasil. O direito comparado é mais ou menos isso, é tentar uma unificação futura, pegar o que está comum, juntar, ver o que não deve ser utilizado, e afastar, ver o que pode ser aproveitado, e aproveitar. Talvez essa regra do art. 3.576 do Código Civil Argentino fosse interessante para nós. Não havendo descendentes, nem ascen- dentes, nem viúvo ou viúva, herdarão do de-

nem ascen- dentes, nem viúvo ou viúva, herdarão do de- 1414 funto seus parentes colaterais mais

1414

funto seus parentes colaterais mais próximos, até o 4º grau, inclusive, diz o art. 3.585 do Código Civil argentino, que corresponde ao art. 1.839 de nosso Código Civil. O art. 3.586 do Código Civil argentino prevê que o meio- -irmão, em concorrência com irmãos de pai e

mãe, herdam a metade do que corresponder a estes; a solução existe, também, no art. 1.841 do Código Civil brasileiro, como, também, na legislação francesa, portuguesa, italiana, espanhola. No Paraguai, a mesma regra está no art. 2.592 do Código Civil. Quanto à sucessão testamentária, são formas ordinárias de testar, na Argentina, o testamento particular, o testamento público

e o testamento cerrado, o que corresponde

ao que prevê a legislação brasileira. O tes- tamento conjuntivo é proibido, tanto na Ar-

gentina, como no Brasil. A capacidade para outorgar testamento deve ser verificada no momento em que o ato é outorgado, assim na Argentina, quanto no Brasil. Na Argen- tina não se admite o codicilo, que nosso Código Civil regula, no art. 1.881. Autores argentinos, como Zannoni, ar- gumentam que um dos inconvenientes do testamento público é que as disposições podem facilmente ser conhecidas por ter- ceiros. Essa opinião é corrente, também, no Brasil. Mas trata-se de um grave equívoco. Não creio que o tabelião possa dar certidão de um testamento público estando ainda vivo o testador. O testamento se chama pú- blico porque redigido por um notário públi- co, e não porque esteja disponível a quem quer que seja. O testamento do vivo ainda não é eficaz. Nada justifica que seja dado conhecimento de seu conteúdo a terceiros, durante a vida do seu autor. Neste pouco tempo que resta, e ansiosos estamos para escutamos as lições do profes- sor Cassetari, digamos algo sobre a legisla- ção paraguaia. O art. 2.583 do Código Civil paraguaio afirma que os filhos do autor da sucessão herdam em partes iguais. Na falta de descendentes, prevê o art. 2.584, herdam os ascendentes, sem prejuízo dos direitos do cônjuge sobrevivente. O direito hereditário dos cônjuges vem regulado no art. 2.586:

será igual ao que corresponda a cada um dos

filhos do falecido que concorram com ele; à terça arte da herança, se concorre com os pais do falecido, e à metade, se só existe um deles;

à metade, se falecidos os dois sogros, e con- correm outros ascendentes.

“Há dois meses, como tabelião, redigi uma escritura pública de inventário e partilha, seguindo os
“Há dois meses, como tabelião, redigi uma escritura pública de inventário e partilha, seguindo os

“Há dois meses, como tabelião, redigi uma escritura pública de inventário e partilha, seguindo os ditames do Código Civil brasileiro de 1916, e não o vigente Código Civil, pela simples razão de o autor da herança ter morrido no ano de 2002, quando o atual Código Civil já estava aprovado e publicado, mas não se achava, ainda, em vigor – estava na “vacatio legis””

achava, ainda, em vigor – estava na “vacatio legis”” 3.654); no Paraguai, três testemunhas (Código Civil,

3.654); no Paraguai, três testemunhas (Código Civil, art. 2.639); no Brasil, apenas duas (Có- digo Civil, art. 1.864, II). Tanto o Código Civil argentino (art.3.666), quanto o Código Civil paraguaio (art. 2.651), no testamento cerrado, exigem a presença de cinco testemunhas; no Brasil, o Código Civil (art. 1.868, I) requerer somente duas testemunhas. Nesse tema, refe-

rente às testemunhas nos testamentos, a legis- lação dos três países é conflitante e é necessária uma unificação legislativa. Em linhas gerais, e até porque o assunto não pode ser aprofundado no tempo que foi defe- rido, para não falar em minhas próprias limi- tações, era o que tinha a dizer, agradecendo o convite, e a boa atenção que me dispensaram.

agradecendo o convite, e a boa atenção que me dispensaram. O renomado jurista Zeno Veloso fala

O renomado jurista Zeno Veloso fala sobre o Direito Civil na América Latina durante o Congresso da Anoreg-BR

ZENo

vELoSo

é professor de Direito Civil e de Direito Constitucional Aplicado na Universidade Federal do Pará e na Universidade da Amazônia; Diretor regional do Instituto Brasileiro de Direito de Família-IBDFAM; membro da Academia Brasileirade Letras Jurídicas, membro fundador do Colégio Notarial do Brasil. Membro da Anoreg,

fundador do Colégio Notarial do Brasil. Membro da Anoreg, O art. 2.592 do Código Civil paraguaio

O art. 2.592 do Código Civil paraguaio enuncia que, não havendo descendentes, as-

cendentes, nem cônjuge, herdarão os colate- rais até o 4º grau, inclusive. Assim também regulam o direito brasileiro e o argentino. As formas ordinárias de testar, no Pa- raguai, são o testamento particular, o tes- tamento público e o testamento cerrado, como no Brasil, como na Argentina. O art. 2.620 do Código Civil paraguaio afir- ma que a validade do testamento, quanto

à forma, depende da observância da lei

que vigora no tempo de sua outorga: “Una ley posterior no trae cambio alguno, ni a favor ni em perjuicio del testamento, aun- que sea dada en vida del testador”. O art. 2.618 do Código Civil paraguaio diz que as três formas ordinárias de tes- tamento têm a mesma eficácia jurídica. Não temos a mesma regra explícita em nosso Código Civil, mas ela existe, im- plicitamente. Não há diferença hierárqui-

ca, no Brasil, entre testamento público, o cerrado ou o particular. Pode, por exem- plo, um testamento particular revogar um testamento público; um testamento cerra- do revogar um testamento particular. Tanto na Argentina, como no Para- guai, quanto no Brasil, a forma do tes- tamento segue a lei do tempo em que o testamento foi outorgado – “tempus regit actum”; quanto ao conteúdo das disposi- ções testamentárias, a lei que se aplica é

a da morte do testador, ou da abertura da

sucessão. Essa distinção é fundamental. No Brasil, na Argentina, no Paraguai, a sucessão é regulada pela lei vigente ao tempo da morte do autor da herança. Há dois meses, como tabelião, redigi uma escritura pública de inventário e partilha, seguindo os ditames do Código Civil brasileiro de 1916, e não o vigente Código Civil, pela simples razão de o autor da herança ter morrido no ano de 2002, quando o atual Código Civil já estava aprova- do e publicado, mas não se achava, ainda, em vigor – estava na “vacatio legis”. Na Argentina, o testamento privado, ou hológrafo, ou particular é obra exclusiva do testador, não se requerendo a presença de tes- temunhas (Código Civil, art. 3.639), e o mesmo ocorre no Paraguai (Código Civil, art. 2.628). No Brasil, o testamento particular exige a pre- sença de três testemunhas (Código Civil, art. 1.876). O testamento público, na Argentina, requer três testemunhas (Código Civil, art.

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dIREITO

Adm I n ISTRATI v O

dIREITO Adm I n ISTRATI v O O papel do notário e do registrador na prevenção
dIREITO Adm I n ISTRATI v O O papel do notário e do registrador na prevenção
dIREITO Adm I n ISTRATI v O O papel do notário e do registrador na prevenção
dIREITO Adm I n ISTRATI v O O papel do notário e do registrador na prevenção
dIREITO Adm I n ISTRATI v O O papel do notário e do registrador na prevenção
dIREITO Adm I n ISTRATI v O O papel do notário e do registrador na prevenção

O papel do notário e do registrador na prevenção do crime organizado

A melhor forma hoje de combater atos como lavagem de dinheiro não é arma,

não é polícia, não é camburão, é informação. Porque com informação sabemos onde está o dinheiro, sabemos que a melhor forma de evitar, de prevenir esse tipo de criminalida- de que é sofisticada, que trabalha de forma empresarial é cortando o que há de mais importante para essa criminalidade, que é o fluxo financeiro, ou seja, é necessário saber onde estão os bens, onde estão os patrimô- nios, para onde vai, como é feita essa troca de patrimônio. Certamente esse tipo de in- formação é uma informação que pode muitas vezes ser encontrada nos cartórios, nas notas e nos registros, na compra de um imóvel, na compra de um veículo, na elaboração de uma procuração, muitas vezes ali está um dado fundamental para você descobrir, desbaratar toda uma organização criminosa. Antes de entrar nesse tema específico eu acho necessário e fundamental fazer um rá- pido retrospecto de como o Poder Executivo começou a perceber na atividade do notário e do registrador algo importante, não só como uma prestação de serviço pontual para a po- pulação. Porém, mais do que isso, como algo

para a po- pulação. Porém, mais do que isso, como algo Advogado e Professor, Pierpaolo Cruz

Advogado e Professor, Pierpaolo Cruz Bottini proferiu apresentação sobre a colaboração de notários e registradores no combate aos crimes de lavagem de dinheiro

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  muitas vezes faz muito mais do que só o tra- tem dois elementos que
 

muitas vezes faz muito mais do que só o tra-

tem dois elementos que são fundamentais para qualquer projeto de reforma do sistema judicial brasileiro. Primeiro, vocês trabalham de forma cada vez menos burocrática e cada vez mais informatizada e em segundo lugar vocês têm informações, vocês têm dados. Então se nós juntássemos essa boa von- tade de prática, de desburocratização com a informação, aí podíamos ter um modelo para em vários setores melhorar e aprimorar o funcionamento do sistema judicial. Quando nós desenhamos toda a política de reforma do judiciário, então nós trouxemos a ANOREG-BR e junto com a ANOREG-BR elaboramos uma série de propostas e projetos que na nossa visão poderiam aprimorar o siste- ma judicial brasileiro. Eu vou falar alguns deles aqui, porque esse foi o primeiro contato, foi a primeira parceria de sucesso e depois disso uma série de outras vieram. Mas em primeiro lugar,

 
  balho dele. Ele faz mediação, ele resolve pro- blemas, ou seja, de alguma forma se

balho dele. Ele faz mediação, ele resolve pro- blemas, ou seja, de alguma forma se ele agir bem naquela localidade a imagem do sistema judicial vai estar prestigiada. Por outro lado, se ele agir mal, se ele for desidioso, omisso, afeta a imagem do sistema judicial. Vejam, embora vocês não sejam do Poder Judiciário, embora quem desenha a política de vocês não seja o Poder Judiciário, assimcomo não dese- nha a do advogado, assim como não desenha

 

a

de vários setores, mas vocês fazem parte de

 

um sistema de prestação de justiça, de distri-

buição de justiça, solução inclusive de casos concretos, então sim é importante, vocês fa- zem parte disso tudo que podemos chamar de Sistema Judiciário. Diante disso, quando foi criada a Se- cretaria de Reforma do Judiciário uma das primeiras entidades que foi conversar com

   
 
 

o

secretário, na época o Sérgio Renault (eu

 

trabalhava em uma das Diretorias), foi a ANOREG-BR, foi o Rogério Bacellar, foi um grupo de notários e registradores falar que queriam colaborar. E a princípio pensamos:

como vamos colaborar, trabalhar juntos com os notários e registradores para construir um sistema de aprimoramento do Sistema Judi- cial? E aí nós percebemos, o que é fundamen- tal, que o sistema de notários e registradores

quando nós discutíamos a forma ou melhor, por que o judiciário não funcionava no país? A pri- meira constatação que se fez é: o judiciário fun- ciona de maneira morosa, o judiciário funciona

muito mal, não é por que faltam juízes, não é por que há pouco investimento no judiciário, mas é por que há um excesso de litigiosidade no país. Então primeiro ponto, vamos pensar propostas para reduzir a litigiosidade no

vamos pensar propostas para reduzir a litigiosidade no Ao final de sua palestra, Pierpaolo Bottini recebeu
vamos pensar propostas para reduzir a litigiosidade no Ao final de sua palestra, Pierpaolo Bottini recebeu

Ao final de sua palestra, Pierpaolo Bottini recebeu homenagem das mão da presidente da Anoreg-SP, Laura Vissotto

“Parece-me que, na construção da política criminal de combate à criminalidade organizada, o papel do notário e do registrador é fundamental”

estratégico para o desenvolvimento de polí- ticas públicas de grande importância para o

Estado Brasileiro. Eu vou falar, e aqui só um pouco, quero resgatar a época que eu fui do Ministério da Justiça, fui Secretário de Re- forma do Judiciário, para mostrar um pouco como começou essa relação e quais foram esses desdobramentos, para que possamos contextualizar um pouco esse nosso debate. Vejam. Em 2003, foi criada a Secretaria

de

Reforma do Judiciário e criada em meio a

uma grande polêmica, porque a idéia foi vista

com bastante reserva até pelo próprio Poder Judiciário, porque como o Poder Executivo cria uma Secretaria para reformar o Poder Judiciário? Então nós, do Poder Judiciário, vamos criar uma secretaria para reformar o Poder Executivo também, ou seja, um em- bate, uma espécie de mal entendido de falha de comunicação, que com o passar do tempo

foi sendo debelado, foi sendo desconstruído.

O

Ministério da Justiça não era reformar o Ju-

próprio Judiciário percebeu que a ideia do

diciário, não era interferir no Judiciário, mas colaborar com o desenvolvimento daquilo que chamamos Sistema de Justiça Brasileira, que é muito mais do que o Poder Judiciário, é muito mais amplo que o Poder Judiciário. É algo que engloba, sem dúvida, o Poder Judi- ciário, mas engloba todos aqueles atores que

de

justiça no Brasil. Isso significa Ministério Público, Advo- cacia, Advocacia Pública, Defensoria e sem dúvida alguma, o sistema notarial e de regis- tro, porque o notário e o registrador muitas vezes é o único sujeito, é a única presença do Estado em determinadas localidades e ele

uma forma ou de outra ajudam a distribuir

1717

dIREITO

Adm I n ISTRATI v O

dIREITO Adm I n ISTRATI v O minha cada vez mais para a política pública. Além
dIREITO Adm I n ISTRATI v O minha cada vez mais para a política pública. Além
dIREITO Adm I n ISTRATI v O minha cada vez mais para a política pública. Além
dIREITO Adm I n ISTRATI v O minha cada vez mais para a política pública. Além
dIREITO Adm I n ISTRATI v O minha cada vez mais para a política pública. Além

minha cada vez mais para a política pública. Além disso, nós constatamos que um segun- do problema, fora a morosidade, pelo qual

o judiciário era ou ainda é desacreditado, é

muitas vezes um sujeito que é parte em um processo, e tenho certeza que aqui todos tem alguma experiência pessoal com isso, o su-

jeito que é parte no processo, depois de toda

a via-crúcis, de todo o processo, de todos os

recursos, chega ao final do processo uma de- cisão judicial transitada em julgado na área cível, dizendo que alguma pessoa tem que me dar algum bem da vida ou algum dinheiro ou alguma coisa. Aí eu passo para o segundo calvário, a segunda via-crúcis que é executar essa decisão judicial. O processo de execução judicial também é um martírio, porque você

de execução judicial também é um martírio, porque você “O Poder Executivo já percebeu que vocês

“O Poder Executivo já percebeu que vocês tem capacidade de auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas para a justiça, para a cidadania e também no combate ao crime organizado”

para a cidadania e também no combate ao crime organizado” precisa achar bens do devedor porque

precisa achar bens do devedor porque rara- mente alguém vai e paga. E para achar bens

do devedor o que eu faço? Aí começamos também a pensar uma série de formas, uma série de reformas, de projetos de lei para dar efetividade a decisão judicial. Porque muitas vezes você movimenta aquele aparato estatal que tem um custo para a sociedade, se ao fi- nal aquilo não tem efetividade nenhuma, não

é só o poder judiciário quem tem um descré-

dito, é todo um sistema que tem descrédito.

país. Tem muito processo, o número de processo no país é excessivo, precisamos tirar isso do judiciário. E como tiramos isso do judiciário? Aí foi apresentada uma série de propostas que os senho- res conhecem, várias delas inclusive na Emenda Constitucional 45, de 2004: foi aprovada súmula vinculante, para dimi- nuir o número de projetos repetitivos; foi aprovada a repercussão geral do recurso extraordinário, para diminuir o número de questões bagatelares, que chegavam nos tribunais superiores. Ou seja, o pri- meiro passo da reforma foi criar uma série de instrumentos que diminuíam os litígios. Só que a súmula vinculante e a repercussão geral, elas tiveram um efeito muito grande para os Tribunais Superio- res. Elas reduziram o número de proces- sos nos Tribunais Superiores em cerca de 60%, mas elas não resolveram o proble- ma do 1º grau. Na verdade, o 1º grau con- tinuou com o mesmo número de litígios, com o mesmo excesso de litígios. Eu posso dizer, e aqui os senhores certa- mente conhecem, nós elaboramos então (na verdade não é elaboramos, mas apontamos) como prioritário aquele projeto da separação, do divórcio, do inventário e da partilha, que, quando é consensual, quando é feito entre maiores de idade e sem filhos etc pudesse ser desjudicializado, que pudéssemos fazer fora do Poder Judiciário, que pudéssemos tirar isso do Poder Judiciário. Essa proposta constou do 1º pacto por um Judiciário mais rápido e republicano, quando o Presidente da República sentou-se com os dois Presidentes das Casas do Congresso Na- cional e sentou-se com o Presidente do Supre- mo e eles assinaram um pacto para aprovar uma série de propostas para que o Judiciário fosse mais rápido e republicano. Dentre elas, estava o nosso projeto com a ANOREG-BR. Um projeto que teve uma tramitação rápida, se pensarmos do ponto de vista de processo legislativo, e que foi aprovado a contento. Eu não preciso falar do resultado, os senho- res conhecem o resultado desse processo. A Laura Vissotto estava me contando agora, até os resultados práticos disso, ou seja, talvez o único diploma legislativo que tenha realmen- te afetado e diminuído a litigiosidade em 1º grau foi esse projeto que nós fizemos em con- junto com a ANOREG-BR. Mas não só isso e vejam como isso ca-

Então qual foi a ideia? A ideia foi uma série de projetos que fizessem com que essa decisão judicial fosse executada com mais rapidez e aí foi onde entrou mais uma vez a nossa parceria, nós começamos a perceber que existia uma série de mecanismos que fa- cilitava a execução da decisão dos juízes e que não necessitavam se quer, de alteração legislativa. Que mecanismos eram esses que eram muitos bem sucedidos? Os mecanismos de penhora on line. Olhamos como funciona- va a penhora on line bancária, o que era o pe- nhora on line bancária, que todo mundo fala, que todo mundo discute, que alguns gostam e outros odeiam. Mas no fundo o sistema de penhora on line bancária era um sujeito no Banco Central chamado chamado João Gou- lart, que era o sujeito responsável por receber todas as ordens judiciais de penhora de conta bancária, ele pegava aquelas ordens judiciais, tirava xerox, carimbava e mandava para to- das as instituições as financeiras do país, em papel, Correio e Correio. Ele começou a ficar com lesão por esfor- ços repetitivos, porque ele ficava carimban- do milhares de coisas por dia. Qual a ideia genial que o Sr. João Goulart teve naquela época, o diretor do Banco Central, faz uns 10 anos atrás, ele resolveu transformar isso em e-mail. Ele falou: em vez de mandar carta, manda um e-mail, nós bolamos um sistema de segurança e eu mando por e-mail para as instituições bancárias. Vejam: aquilo que demorava 4, 5 meses, passou a demorar 48 horas para o bem e para o mal. Com todos os vícios que tem, mas certamente isso garantiu eficácia às decisões judiciais. Pois bem, dada essa experiência da pe- nhora on line bancária, buscou-se desen- volver um sistema de penhora on line de carros, de veículos e depois, e aí me parece que era fundamental para que nós comple- tássemos esse ciclo, montar um sistema de penhora on line de imóveis. Ou seja, se eu tenho uma decisão judicial contra uma pes- soa, se ele tiver uma conta no banco ou um carro ou um imóvel eu consigo executar essa decisão judicial. Se o sujeito não tiver nenhum desses 3 vai ficar complicado, mas se ele tiver esses 3 eu consigo executar. Aí nós começamos com a ANOREG-BR a pensar em uma forma de desenvolver um sistema de penhora on line de imóveis. Agora, qual foi o grande problema e isso me parece fundamental. É que,enquanto para

de penhora on line de imóveis. Agora, qual foi o grande problema e isso me parece

1818

uma série de experiência. Eu posso falar, por exemplo, logo depois a Secretaria Nacional de

uma série de experiência. Eu posso falar, por exemplo, logo depois a Secretaria Nacional de Direitos Humanos percebeu que os no- tários e registradores mais do que ajudar no sistema judicial, podiam ajudar no acesso à cidadania e começaram a fazer uma parceria para aquele projeto de identificação civil de todos os brasileiros e, mais uma vez, outra parceria foi feita com o Poder Executivo. Uma dessas parcerias, é aí que vem o nos- so tema aqui hoje, é a parceria que começou a ser desenhada também com o Ministério da Justiça, mais especificamente com a Secreta- ria Nacional de Justiça, mais especificamen- te com o Departamento de Recuperação de Ativos de Coordenação Internacional que é o projeto para o combate ao crime organizado.

que é o projeto para o combate ao crime organizado. “Notário e registrador são chamados como

“Notário e registrador são chamados como protagonistas para combater a lavagem de dinheiro e a partir desse momento vocês ganham respeitabilidade, ganham em valor institucional, mas por outro lado, todos vocês vão ter uma série de obrigações”

lado, todos vocês vão ter uma série de obrigações” E vejam: viemos em uma crescente de

E vejam: viemos em uma crescente de aproximação entre essa atividade de vocês e o Poder Executivo. O Poder Executivo per- cebeu que vocês têm capacidade de auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas para a justiça, para a cidadania e também no combate ao crime organizado. E por que no combate ao crime organizado? Vou fazer só um parêntese sobre como hoje o crime orga- nizado estrutura-se e como a criminalidade de hoje é muito diferente da criminalidade de

meio século atrás, para perceber como, muito

mais importante do que polícia, é um sistema de dados e de informações bem organizado. Porque ,vejam, o que era o crime há 50, 60 anos atrás? Qual era o paradigma de crime? Paradigma de crime era uma pes- soa matando outra pessoa, ou uma pessoa furtando outra pessoa, uma pessoa rou- bando, estuprando, injuriando, seja lá o que for. Mas em regra tinha-se um crime individual, com uma vítima clara, o nexo de casualidade muito claro, eu atirei e ele morreu. No máximo quando se falava de organização de crime, você tinha pequenas organizações, você tinha o chamado bando,

a chamada quadrilha, que era um grupo de

4, 5, 10 pessoas. Mesmo a máfia não era algo absolutamente organizado, absoluta- mente estruturado, e eu estou falando da máfia dos Estados Unidos e da Itália. No Brasil nem isso existia. Então o crime era algo simples, era algo tão simples, que eu, com a prisão dos membros daquele bando, acabávamos com o bando, ou seja, era per- sonalizado, era personificado, era um cri- me de resultado, era um crime individual. Com o passar do tempo, e aí por uma série de motivos, mas com o passar do tempo essa criminalidade foi se sofisticando e isso trouxe uma série de problemas para aqueles que pen- sam uma política criminal de repressão, de con-

trole de criminalidade. Em primeiro lugar o cri- me, que era individual, deixou de ser individual

e passou a ser praticado por um grupo muito

grande de pessoas, muitas vezes por empresas. Ou seja, um grupo hierarquizado, um grupo es- truturado, um grupo com muita gente, então eu começo a ter os grandes, começo a ter o tráfico de drogas, sem dúvida nenhuma, começo a ter cartéis de tráfico de drogas, de tráfico interna- cional de droga e percebam como a coisa fica complicada, porque em primeiro lugar eu não

tenho mais a figura do criminoso. Eu tenho algo um pouco abstrato da criminalidade e quanto mais abstrato fica, menos pessoal fica, porque eu já não resolvo o problema do tráfico de droga

prendendoosujeitoquelevaadroga, porqueele

é fungível, ele é substituível. Eu troco ele a todo

momento seja lá por quem for. Eu não consi- go mais fazer esse tipo de combate à crimina- lidade. Em segundo lugar, isso é organizado e estruturado; então, se eu não prendo o cabeça, eu não consigo fazer aquilo parar de funcionar. Mas aquilo deixa de ser nacional, aquilo passa

o

funcionar. Mas aquilo deixa de ser nacional, aquilo passa o a ser transnacional. questão bancária eu

a ser transnacional.

questão bancária eu tenho um órgão central, chamado Banco Central, para quem eu mando

a ordem judicial e ele distribuí para todo mun-

do, enquanto para o sistema de veículos, ainda

que seja controverso, mas bem ou mal, existe um Denatran, que eu posso mandar e ele distri- bui para todo mundo, e eu sei que aqui há ques- tionamento sobre isso, mas enfim, existe. Isso não acontecia em relação aos cartórios: quem é

o órgão central dos cartórios? Para quem o juiz

vai mandar? Ele vai ter que mandar para todos os cartórios de imóveis do país, qual é o órgão

central para quem eu mando? Então começa- mos a discutir isso e a questão é: não é o Minis- tério da Justiça, que ele não tem competência legal para fazer isso. É o CNJ? E aí começa uma discussão, o judiciário tem competência para organizar e coordenar os cartórios ou apenas para fiscalizar os cartórios? Então havia uma controvérsia e naquele momento começou-se a gestação de uma ideia de montar um Conselho Nacional dos Notários e Registradores, batiza- do de CONOR, que dentre outras funções teria essa possibilidade. Ou seja, alguém que fosse notificado e tivesse atribuição legal de mandar essa notificação para todos os cartórios do país, para que nós pudéssemos montar um sistema de penhora on line também de imóveis. E percebam, como então, começamos a tra- tar essa informação de maneira sistematizada e isso vai ter um impacto no combate a lavagem de dinheiro e no crime organizado fundamen- tal, e é por isso que eu fiz essa introdução. Mas o que eu quero dizer aqui, em suma é: de uma conversa inicial que a gente não sabia muito bem como os notários e os regis- tradores poderiam contribuir com o aprimo- ramento do sistema judiciário nacional, nós já tínhamos nas mãos pelo menos 2 projetos bastante concretos. Um primeiro projeto, um projeto de desjudicialização de uma série de coisas, que foi aprovado e está funcionando muito bem e outro projeto que podia ajudar com o prestígio da justiça, conferindo eficá- cia as decisões judiciais, mas para isso a gen-

te precisava de um órgão central e aí começa-

mos a elaborar um segundo projeto, que era o Conselho Nacional de Notários e Registrado- res sobre o qual vamos falar daqui a pouco. Isso mostrou uma parceria de sucesso ini- cial entre Poder Executivo e notários e regis- tradores, tão de sucesso, que chamou atenção de uma série de outros órgãos do governo. É claro que eu vou falar aqui só os que eu tive contato, mas enfim, certamente nós temos

1919

dIREITO

Adm I n ISTRATI v O

dIREITO Adm I n ISTRATI v O tizar dados, ou seja, certamente vocês sabem que a
dIREITO Adm I n ISTRATI v O tizar dados, ou seja, certamente vocês sabem que a
dIREITO Adm I n ISTRATI v O tizar dados, ou seja, certamente vocês sabem que a
dIREITO Adm I n ISTRATI v O tizar dados, ou seja, certamente vocês sabem que a
dIREITO Adm I n ISTRATI v O tizar dados, ou seja, certamente vocês sabem que a

tizar dados, ou seja, certamente vocês sabem que a polícia do Rio de Janeiro não prendeu o traficante Nem porque ela saiu interrogando as pessoas e querendo saber onde ele estava. Ela sabia exatamente onde o Nem ia estar e qual o momento, porque ela colheu dados, ela ouviu telefones etc, etc Isso é um trabalho de inteligência, em- bora rudimentar nesse caso, mas é um tra- balho de inteligência. É dessa forma que você consegue combater o crime organiza- do internacional, ou seja, você precisa de dados, de informações de inteligência. Eu costumo dizer e até quando fazemos essa conversa e vejam, eu sou advogado de defe- sa, eu sei bem o que isso significa, é muito mais efetivo para o combate ao crime or- ganizado a criação do COAF do que eu au- mentar em 1 milhão de pessoas o efetivo da polícia federal, porque o COAF me dá in- formação. O COAF me fala, olha, essa mo- vimentação financeira é atípica, portanto, vão atrás disso, vão atrás dessas pessoas. Lavagem de dinheiro não acontece na es- quina, ela não acontece no bar, na sinuca, na- queles lugares em que a gente imagina a crimi- nalidade acontecendo. Então certamente esse trabalho de inteligência é bastante importante. Bom, como é que montamos esse sistema de inteligência para combate ao crime orga- nizado e a lavagem de dinheiro? Eu tenho a inteligência policial, eu tenho as escutas te- lefônicas etc., etc. Mas, o Estado brasileiro, a exemplo dos Estados da Europa resolveu criar, principalmente para combater o crime organizado e a lavagem de dinheiro, o siste- ma de cooperação com particulares. O que significa isso? Que a nossa legislação estabe- lece, ela identifica alguns setores da socieda- de onde a prática de lavagem de dinheiro é mais sensível, sensível não porque os setores façam lavagem de dinheiro, mas porque eles trabalham com instrumentos, por meio dos quais é possível praticar a lavagem de dinhei- ro, identifica esses setores e estabelece para esses setores duas tarefas fundamentais. Primeira tarefa conhecer o seu cliente, seja você, se estiver em um desses setores, já vou falar quais são, se eu tiver em um desses setores eu preciso conhecer quem é minha clientela, eu preciso saber quem está usando os meus serviços. Eu preciso ter um cadastro dos clientes, eu preciso conhecer essas pes- soas. E em segundo lugar, notificar as autori- dades quando eu me deparar com uma situa-

Então eu preciso, de uma forma ou de outra, de informação sobre como aquilo funciona no outro país, sobre como se dão as relações entre os países e isso dificul- ta muito o combate ao crime organizado. Porque o sujeito pratica uma parte do crime aqui, lava dinheiro em outro lugar, passa por outro lugar e o dinheiro volta lícito para o Brasil. Ou seja, eu tenho toda uma estrutura sofisticada, complexa, de oculta- ção dos resultados do crime organizado. Então o crime cada vez mais se sofistica, cada vez mais eu tenho um descolamento do crime original para onde está o dinheiro do crime. Ninguém mais enterra dinheiro, em- bora ontem o pessoal tenha descoberto não sei quantos milhões enterrados, mas enfim, hoje em dia é um pouco demodé enterrar dinheiro. O sujeito pega aquele dinheiro, dá um jeito de lavar e coloca em uma ilha, em um paraíso fiscal em outro lugar e depois trás isso com cara de lícito para o Brasil. Então o que eu quero dizer para vocês

é que o crime organizado se sofisticou e se sofisticou de tal forma que o direito pe- nal puramente repressivo ele não dá conta, ele não resolve. A delegacia de polícia por mais competente que ela seja, sozinha, ela não consegue investigar esse crime, porque eu não consigo interrogando alguém saber como funciona aquela quadrilha, até por- que, muitas vezes, o sujeito que eu prendo e que eu interrogo não sabe como funciona a quadrilha. Eu preciso de algo mais sofisti- cado, mais elaborado. Começou-se a perceber no Ministério da

Justiça que aumentar a pena, aumentar a pri- são, colocar mais polícia na rua talvez resolva

o problema simbólico da criminalidade orga-

nizada. Quando eu ocupo a Rocinha, quando eu ocupo o Morro do Alemão e do Vidigal simbolicamente, isso é importantíssimo. Eu não tenho mais o crime organizado com o rifle na porta desses lugares, isso é muito im- portante. Mas eu não terminei aqui com lava-

gem de dinheiro, eu não terminei aqui com o tráfico de drogas nem com o tráfico de armas, eu fiz uma operação simbólica fundamen- tal, mas eu preciso ir além. E para ir além, não basta apenas esse sistema repressivo, eu aí preciso sim de outro tipo de estratégia. E que estratégia é essa? Inteligência policial, investigação policial bastante sofisticada e elaborada. E o que significa inteligência po- licial? Significa colher, organizar e sistema-

ção atípica, com uma movimentação atípica. Então nesses setores eu tenho meus clientes

e eu sei o que é uma operação padrão; só que

eu também sei o que é uma operação atípica. E, quando eu me deparo com uma operação atí- pica eu sou obrigado a notificar as autoridades. Bom, onde isso acontece? O Artigo 9º da Lei de Lavagem de Dinheiro vai elencar todas essas entidades. Por exemplo, o sistema bancá- rio; então o sistema bancário tem todas essas regras. Qual é a regra? Eu tenho um cadastro dos meus clientes e sempre que eu notar uma manifestação atípica eu informo o meu órgão controlador, que no caso é o COAF. Então eu tenho o cadastro. É como aconte- ceu em uma operação recente. Eu vejo que um dos meus clientes sacou muito dinheiro em es-

pécie na véspera de eleição; eu falo: isso é uma movimentação atípica, mando para o COAF. Não estou falando que é crime, nem que não é crime, nem que tem relação com o ilícito, nem que não tenha relação. Estou notificando uma operação atípica, porque o meu órgão contro- lador falou que essas são operações atípicas e você precisa me avisar. Da mesma forma isso acontece com corretoras de valores, da mesma forma isso acontece em uma série de setores da sociedade, mercado de bolsa de valores, merca- do imobiliário, pessoas jurídicas que são corre- toras de imóveis tem que seguir essas regras e assimpor diante. Pois bem, o que acontece e dentro disso, aonde se insere o notário e o registrador? Aqui me parece importante, fundamental é a notícia que vocês tiveram uma reunião com o COAF. Isto parece-me bastante significati- vo, embora vocês diretamente não estejamali dentre esses obrigados diretamente. Isso não precisa estar na lei, mas é possível que seja feito um convênio ou uma série de situações já que o notário e o registrador têm um ca- dastro de clientes. Porque na verdade o ato de vocês é realmente cadastrar tudo o que passa; porém, mais do que isso, seria importante eu ter uma série de regras que algumas Correge- dorias estabelecem e outras não, para quando eu identificar alguma movimentação atípica eu precisar avisar. Agora a pergunta é: avisar

a quem então? Aí, eu posso fazer uma série

de relações etc., mas no fundo, no fundo o eu quero dizer para vocês é que na medida em que o nosso sistema de combate a lavagem de dinheiro é um sistema em que o Estado optou por identificar alguns setores sensíveis e, junto com esses setores sensíveis, buscar

em que o Estado optou por identificar alguns setores sensíveis e, junto com esses setores sensíveis,

2020

  E eu estou dizendo que isso é uma con- versa, porque isso está acontecendo
 

E eu estou dizendo que isso é uma con- versa, porque isso está acontecendo com a advocacia agora e não sabemos muito bem

co ou atípico. Agora isso vem junto com uma responsabilidade. Se eu deixar de notificar, se eu deixar de informar eu posso tanto ter uma sançãoadministrativa, comoeventualmenteser acusado de partícipe de um sistema de lavagem de dinheiro. É isso que temos que pesar, é isso que temos que nos posicionar. Eu acho, ainda assim, que o fato de vocês terem esse poder imenso que é informação, certamente traz aí um ônus que é colaborar com a identificação de fato, de lavagem de dinheiro. Agora se isso nãotiver muitobemregulamentado, muitobem especificado, o que vai haver na verdade é uma criminalização de alguns atos de notários e re- gistradores. Então me parece que aí eu já estou adiantando aqui minha conclusão. Parece-me que, se realmente o legislador quiser trazer o notário e o registrador para dentro desse sis- tema de combate a lavagem de dinheiro, ele precisa organizar um órgão nacional que esta- beleça com clareza quais são as regras dentro das quais vocês vão trabalhar. Porque se isso não estiver muito bem elaborado pode gerar aqui uma criminalização e todo mundo vai virar partícipe de lavagem de dinheiro se, por equívoco, deixar de notificar algo que alguém achava que tinha que se notificar.

o

que queremos. Então por isso é que estou trazendo essa questão.

Se a partir do momento que o Estado me designa como um colaborador para o combate

à

lavagem de dinheiro e me manda notificar

qualquer atividade atípica, o que acontece se eu não fizer? Se eu não fizer, eu vou ter uma

sanção administrativa, vou perder a minha delegação, vou ter as sanções dentro da Cor- regedoria ou eu vou ser acusado de partícipe na lavagem de dinheiro porque eu não notifi- quei? Percebam que é algo bastante compli-

cado. Mas enfim, o que eu quero dizer e aqui

até caminhando para alguns apontamentos

conclusivos, porque acho que aqui podemos fazer uma conversa bastante interessante. Mas vejam, o que eu quero dizer é que

o

Ministério da Justiça, desde muito tempo,

vendo todas essas experiências exitosas cha-

mou a ANOREG-BR para começar a discutir

essa proposta de combate à lavagem de di- nheiro. E, dentre essas hipóteses, começou-se

a

se desenhar o por que não, então, identificar os notários e os registradores como parceiros

e

colaboradores, como entidades obrigadas a

a

notificar qualquer movimento atípico? Pois bem, estamos nesse momento e o que quero chamar atenção é, nesse momento que está se discutindo no Congresso Nacional uma nova lei de lavagem de dinheiro. E essa nova

lei de lavagem de dinheiro, qual é a tônica dessa nova lei, qual é a ideia dessa nova lei e por que ela impacta tanto aqui? Essa nova lei de lavagem de dinheiro, além de aumentar e muito o conceito de lavagem de dinheiro, além de aumentar e muito a pena para lavagem de dinheiro, ela aumenta e muito o rol de entida- des obrigadas a colaborar com o combate, com

identificação, com o combate à lavagem de

Esse é o momento da discussão, isso é importante de ser observado. E veja, agonia parecida nós passamos e os advogados tam-

E veja, agonia parecida nós passamos e os advogados tam- “Acho que nós podemos montar um

“Acho que nós podemos montar um sistema de combate a lavagem de dinheiro em que todos participemos em cada uma das áreas, mas a contribuição se limitaria à comunicação”

dinheiro. E eu digo para vocês, dependendo da interpretação que nós fizermos dessa nova proposta, tanto os notários e os registradores,

quanto os advogados entram nessa situação e vão ter que prestar informações a respeito do que se passa na sua atividade. E a pergunta que eu faço aqui é: o que nós dizemos em relação a isso, qual é a nossa posi- ção em relação a isso? Nós temos esses dados, aqui vou falar primeiro dos notários (depois até falo dos advogados) vocês tem esses dados, vocês têm essas informações, vocês podem ter um órgão central que normatize o que é típi-

podem ter um órgão central que normatize o que é típi- movimentos atípicos para investigar o
podem ter um órgão central que normatize o que é típi- movimentos atípicos para investigar o

movimentos atípicos para investigar o que está acontecendo, eu não vejo por que não, al- gumas atividades como notários e registrado- res também estarem dentro desse sistema de prevenção do combate ao crime organizado, até porque nenhum de nós aqui, gosta de cri- me organizado, nenhum de nós aqui, quer ter em volta de si o crime organizado. Agora para que isso seja feito, e aí eu dis-

se

para vocês que é muito mais uma conversa

uma construção do que qualquer exposição, para que isso seja feito, precisamos superar alguns obstáculos. Em primeiro lugar, eu pre- ciso saber, efetivamente eu preciso padronizar

o

e

que seria uma movimentação atípica dentro

dos diversos setores de notários e registradores.

Ou seja, no setor de imóveis, o que é uma mo- vimentação atípica? No setor de Notas, o que é uma procuração atípica? Eu preciso na verdade,

ter

regras hoje são absolutamente fragmentadas no país, cada um fala uma coisa diferente. Aí eu volto mais uma vez à ideia do CO- NOR. Por que não criar um órgão nacional, que tenha dentre outras atribuições, a pos- sibilidade de, assim como o COAF faz, ele estabelecer uma série de regras, o que sejam movimentações atípicas e determinar que quando um de vocês se se depare com essa situação, informe o CONOR. Isso não signifi-

ca

uma série de regras e, como sabemos, essas

dizer que alguém praticou crime, isso sig-

nifica dizer que algo aqui chamou a atenção. CONOR está aqui e você aciona o Ministério Público, você aciona a polícia, você faça o que você quiser. Eu notário não vou me meter nisso, eu simplesmente informo a vocês. Então a primeira questão é que, para eu operacionalizar esse tipo de coisa, eu preciso

ter as entidades, eu preciso ter as estruturas. Mas aí eu tenho uma segunda questão, que

vidade do notário e do registrador não é uma atividade absolutamente particular, porque vocês são delegados do serviço público. No- tário e registrador são chamados como prota-

me parece mais importante ainda. A ati-

gonista para combater a lavagem de dinheiro.

A

peitabilidade, ganham em valor institucional.

partir desse momento, vocês ganham res-

Mas por outro lado, a partir desse momento,

todos vocês vão ter uma série de obrigações.

E

mento que assumimos essa obrigação de ser um colaborador do Estado no combate à lava- gem de dinheiro, se eu descumprir essa obri- gação, o que acontece comigo?

a pergunta que fazemos é: a partir do mo-

2121

dIREITO

Adm I n ISTRATI v O

dIREITO Adm I n ISTRATI v O bém, porque o advogado também vai entrar nisso. O

bém, porque o advogado também vai entrar nisso. O advogado também vai ser obrigado,

pela nova lei, a se identificar e eu não estou falando do advogado criminalista, porque

se houver uma regulamentação, se houver um Conselho, se houver alguém que dê segurança para a atividade de vocês. Mas enfim, a ideia aqui, é um pouco para dizer isso. Todas essas parcerias entre o executivo

ção de metas, que é o desenvolvimento de po-

 

líticas públicas. Isso hoje o CNJ está fazendo. Mas a minha pergunta é: o CNJ, na verdade, ele tem essa vocação para desenvolver políti- cas públicas nessa SEA? E vejam, eu estou falando aqui como um dos maiores defensores do CNJ, sem- pre apoiei a criação do CNJ, eu acho que o CNJ prestou um papel relevantíssimo para a democratização, para a transparência do ju- diciário, para trazer o judiciário para a luz, para discutir o judiciário com a sociedade. Acho que o que o Ministro Gilmar Mendes fez com o mutirão carcerário foi fundamen- tal. Mas enfim, agora será que é institucional- mente dentro do nosso ordenamento, função do Judiciário desenvolver políticas públicas para notários e registradores? Se a resposta for sim, o nosso problema está resolvido. Se

o

advogado criminalista, quando entra na

discussão, a lavagem de dinheiro já aconte- ceu. Estou falando do advogado tributarista, do advogado empresarial que quando está auxiliando seu cliente a montar um sistema tributário, a montar um sistema comercial, a

e

notários e registradores são interessantes, desde a reforma do judiciário, passando pelo

registro civil e agora, nesse momento, pela lavagem de dinheiro, que talvez seja o ponto aqui, então, crucial para a gente saber qual é

montar uma fusão ou uma aquisição, se ele identificar ali algo atípico, ele tambémvai ser obrigado a comunicar as autoridades. O que para o caso dos advogados é mui-

o

o

nosso papel, qual é a nossa cara, qual que

efetivamente é a nossa participação nisso. Mas vocês, percebam, e tanto vocês como

executivo percebem, que esse papel, essas

to

mais complicado, porque o advogado sabe

informações, essa sistematização de informa- ções é fundamental para o desenvolvimento de qualquer política pública. E isso me leva aqui, ao final da minha fala. O exercício dessas atividades que cada vez mais deixa de ser uma atividade só de presta- ção de um serviço para os indivíduos que vão ao meu cartório e passa a ser uma atividade de coordenação e de desenvolvimento e imple-

a

a

daquela informação dentro de um sistema de

confidencialidade. Então perceba que esta- mos em um momento, que é um momento um pouco difícil, ou seja, nós precisamos discu-

tir

isso fundamente, nós precisamos nos po-

resposta for sim, o CNJ vai ser o órgão para

sicionar. Até onde um advogado que sabe que seu cliente pratica lavagem de dinheiro deve informar o poder público, deve informar a autoridade pública. Porque uma coisa é o ad- vogado e o notário que ajuda alguém a lavar

dinheiro, aí ele é partícipe sem dúvida nenhu- ma. A minha dúvida é: eu não estou falando do sujeito que se envolveu na quadrilha. Eu estou falando do advogado, e aqui também

é

é

qual eu mando o pedido de penhora on line, o

CNJ vai ser o órgão que elabora como vai ser

contribuição de cada um dos senhores no

mentação de políticas públicas, precisa de algu- ma coordenação e quem é que coordena, quem

o órgão central de vocês? E agora já concluin- do, eu já disse isso um pouco antes, mas quem

é

combate à lavagem de dinheiro. O CNJ, se a

resposta for sim, é ele que vai desenhar qual

a política padrão do registro civil do país. Agora se a resposta for não, é evidente- mente que a minha impressão é que a respos-

que coordena? Foi criado e essa era a nossa

indagação na secretaria de reforma. Foi criado

ta é não, mas se for sim está resolvido; se for não, eu preciso de um órgão, eu preciso criar algo que tenha essa função, que tenha essa le- gitimidade e que órgão é esse? E aí eu volto ao projeto do Conselho Nacional de Notários

o

notário que percebe uma movimentação

o

Conselho Nacional de Justiça e o Conselho

atípica, mas para não perder a amizade da- quela pessoa, para não perder o cliente, sim- plesmente deixa de delatar, ou para manter a confidencialidade deixa de delatar. Qual é a sanção para isso? Eu tenho uma sanção ad- ministrativa? Eu passo a ser partícipe ou eu não passo? Claro que o advogado por conta da confidencialidade, me parece que aqui a situação é um pouco diferente, mas na mesma medida, eu acho que vocês precisam discutir qual é o papel de vocês aqui. Entãoaminhaideiaaqui eraser muitomais, trabalhar muito mais na instigação do debate do que efetivamente trazer algo pronto. Mas qual é o limite que nós queremos, nós precisa-

é

o

Nacional de Justiça constitucionalmente tem algumas atribuições sim sobre os notários e re-

gistradores. E a pergunta é: quais são essas atri- buições? Até onde vão essas atribuições? Que na verdade vai desaguar na pergunta, até onde vai a atribuição do Poder Judiciário nessa SEA. Parece-me, e aqui é claro, que o assunto

e

Registradores. Independentemente de como

ele vai ser composto, de quem vai participar, da formatação e dos detalhes é fundamental a criação de um órgão que possa então, (não fis- calizar, podemos até discutir isso, mas a fiscali- zação fica com o CNJ), mas implementar essas medidas. É para quem eu vou mandar o ofício do penhora on line, é quem vai estabelecer as regras e padronizar, por exemplo, como vai ser feito o divórcio extrajudicial. Porque sabemos que quando saiu a lei, nós tivemos uma série de

problemas de padronização no país.

polêmico. Mas parece-me nessa primeira interpretação que o Judiciário tem o poder,

dever e obrigação de fiscalizar a ativida-

de dos senhores. Isso ele tem que fazer, ele precisa estabelecer regras, resoluções, dizer como funciona para que ele possa fiscalizar. Agora, fora a fiscalização, eu tenho outra fun- ção que é o planejamento, que é a determina-

mos entrar nessa discussão? Acho que precisa

sim. O notário e o registrador precisam, sim, participar, eles são protagonista no combate à lavagem de dinheiro? Sim. Vocês têm um pa- pel delegado do Estado, vocês têm informações relevantes, vocês têm capacidade e certamente

 

PIERPaoLo

É Professor Doutor do Departamento de Direito Penal, Criminologia e Medicina Forense da Faculdade de Direito da USP, é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo, Mestre em Direito Penal pela Universidade de São Paulo, Doutor em Direito Penal também pela USP, membro da Diretoria da Associação Internacional de Direito Penal, Associação

 
 

CRuZ BoTTINI

,se vocês entrarem, vocês vão entrar em outro grau. Vocês já têm uma respeitabilidade gran- de, já têm um prestígio grande. Vão entrar em outro patamar. Mas eu acho que só pode vir

 

Brasileira, Membro da Comissão Julgadora do Prêmio Innovare, Diretor da Comissão de Direito Penal Econômico do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, esteve à frente da Secretária de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça no período de 2005 a 2007 e do departamento de Modernização Judiciária do mesmo órgão de 2003 a 2005. Também foi membro efetivo do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

 
órgão de 2003 a 2005. Também foi membro efetivo do Conselho Nacional de Política Criminal e
2003 a 2005. Também foi membro efetivo do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.  

dIREITO

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E

Em PRESARIAL

Recentes alterações legislativas em matéria Civil e Empresarial e seus impactos na atividade Notarial e
Recentes alterações legislativas em
matéria Civil e Empresarial
e seus impactos na atividade
Notarial e Registral
H oje, na verdade, nós vamos falar sobre
um tema bastante difuso e eu confes-
so a vocês que me parece que Congressos
dessa natureza são encontros que precisam
trazer novidades. Todo congresso é sinôni-
mo de novidade, não podemos sair de um
congresso sem ouvir informações novas,
sem saber o que está se passando de novo
no nosso dia a dia. Quando propomos um
tema como esse, as alterações recentes que
temos na nossa legislação e o impacto que
temos na atividade notarial e registral, na
verdade elas servem justamente para tra-
zer essas novidades que são bem típicas de
eventos exatamente dessa natureza.
Eu sempre digo também que a atividade
do notário e do registrador é tão sensível, mas
tão sensível, que qualquer modificação prin-
cipalmente de natureza civil não só de natu-
reza civil propriamente, mas principalmente
as de natureza civil acabam influenciando
muito o dia a dia do notário e do registrador.
Essas últimas alterações, pelas quais nós
passamos, estou trazendo-as aqui e, para isso,
eu considerei como marco temporal o último
evento, portanto de novembro de 2010 para
cá. Estou pontuando, dentro deste intervalo,
quatro legislações que advieram de novem-
bro de 2010 para novembro de 2011.
A primeira delas é uma que diz respeito à
participação de menores em sociedade. Essa já
é deste ano, que foi trazida pela Lei 12.399/11.
Tem uma segunda alteração, que tra-
ta da criação da EIRELI, inserida entre
nós pela Lei 12.441/11, que trata só sobre
esse assunto, especificamente.
Também vamos nos ater à Lei 12.424/11,
que trouxe, entre nós, o já conhecido, e até
agora assim chamado, embora já me pareça
um pouquinho equivocada essa denomina-
ção, de usucapião por abandono do lar.
Por último, há outra alteração que diz respeito
ao regime de separação obrigatória de bens.
Muito bem, vista essa parte introdutó-
Rodrigo Toscano de Brito abordou as mudanças
trazidas pela Eireli nos atos dos registros públicos

dIREITO

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E

Em PRESARIAL

dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL sociedade unipessoal estava se fazendo refe- rência
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL sociedade unipessoal estava se fazendo refe- rência
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL sociedade unipessoal estava se fazendo refe- rência
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL sociedade unipessoal estava se fazendo refe- rência
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL sociedade unipessoal estava se fazendo refe- rência

sociedade unipessoal estava se fazendo refe- rência a uma só pessoa. No Brasil, utilizamos uma nomenclatura que me parece melhor, mais adequada falan- do da empresa individual de responsabilidade limitada. Parece-nos que essa nomenclatura de fato será mais adequada. Há uma obser- vação muito importante principalmente para quem faz registro civil de pessoas jurídicas. É que nós tivemos uma reforma, uma altera- ção no nosso artigo 45 do Código Civil bra- sileiro. O artigo 45 fala das pessoas jurídicas

ria, vamos fazer aqui agora uma passagem, primeiro sobre essa temática que envolve o direito empresarial e a atividade notarial e de registro. Esse tema foi alterado pela Lei

12.399 que já está em vigor entre nós. Dita lei alterou o nosso Código Civil no Artigo 974 especificamente. Segundo as novas regras, só será possível o registro de contratos ou alterações contratuais de sociedade que en- volva sócio incapaz, desde que atendidos os seguintes pressupostos: o sócio incapaz não pode exercer a administração da sociedade;

o capital social deve ser totalmente integrali- zado; o sócio relativamente incapaz deve ser assistido e o absolutamente incapaz deve ser representado por seus representantes legais. Na verdade, parece-me que ,do ponto de vis-

ta prático, não há uma grande alteração. Apenas

se inseriu a regra expressamente no Código para deixar mais clara essa possibilidade aqui, no caso do contrato social, que envolve incapaz. Aqui uma primeira observação, e eu gosta- ria muito que o doutor Rodolfo estivesse aqui conosco à Mesa justamente para que pudésse- mos discutir um pouquinho mais a frente esse assunto. Essa norma especificamente está diri- gida para as sociedades que são tidas como so- ciedades empresárias e há uma dificuldade no Brasil, hoje em dia, embora saibamos da possi- bilidade de aplicação dessas regras também às sociedades simples, que são registradas pelos registradores civis de pessoas jurídicas. Essa é uma temática que podemos nos voltar um pou- co mais para ela adiante, mas me parece que um

dos grandes temas que não podemos deixar de tocar aqui, hoje à tarde, é esse que diz respeitoa empresa individual de responsabilidade limita- da que vai usar a sigla EIRELI. Na verdade isso é resultado de uma alte- ração que nós temos no nosso Artigo 980 do Código Civil, tendo sido acrescentado, ainda,

o artigo 980A, letra “A”, do nosso Código Ci-

vil e nesse artigo especificamente foi regrada

a tal empresa individual de responsabilidade limitada ou simplesmente EIRELI.

Na verdade, isso não é nenhuma novidade para os Europeus. Na Espanha já havia, aliás, há muito tempo, desde o começo do século passado, as sociedades unipessoais, assim chamadas no direito espanhol. Logicamente que a nomenclatura não me parece a mais adequada no caso dos espanhóis quando ele fala de sociedade unipessoal, parece-me que

a sociedade pressupõe a existência de mais

de um sócio. Então, quando se falava sobre

No rol das pessoas jurídicas de direito privado, foi acrescentado, no inciso sexto, as empresas individuais de responsabilidade li- mitada. Vejam que ao lado das associações, das fundações, das sociedades, das organi- zações religiosas e dos partidos políticos nós vamos passar a ter a empresa individual de responsabilidade limitada. Um dos grandes problemas que teremos que enfrentar aqui, e Rodolfo me falava agora há pouco sobre isso, pois infelizmente eu não pude estar na semana passada na Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal, mas eu já soube que houve a discussão sobre a possibili- dade de se registrar a EIRELI no registro civil de pessoas jurídicas. Houve um embate nesse sentido, na discussão do enunciado que dizia respeito ao assunto. Particularmente, já tenho uma opinião formada sobre o tema, quanto à possibilidade do registro. Mas, antes, eu queria só mostrar para vocês o que é, afinal, a EIRELI; queria deixar aqui bem claro, para que todo mundo já possa tra- balhar com essa possibilidade, sabendo do que é que se trata. O conceito foi trazido pela lei, quando diz que a EIRELI é aquela constituída por uma única pessoa, que é titular da totalida- de do capital social e o que se capitalizar nessa pessoa jurídica, vai pertencer a uma só pessoa. Esse capital social deve estar totalmente inte- gralizado e não pode ser inferior a 100 vezes o maior salário mínimo vigente no país. Houve uma restrição nesse sentido e parece que o legislador quis evitar que houvesse uma grande quantidade de EI- RELIs entre nós, justamente fazendo uma limitação de valores através do volume de investimento do capital social. Há uma primeira dúvida aqui e ela me pare- ce bastante interessante para o nosso dia a dia. É a de se saber se podemos ter uma EIRELI for- mada por uma pessoa jurídica. Não me parece haja limitação nesse sentido, mas o Departa- mento Nacional de Registro de Comércio já se pronunciou contra a possibilidade. Eu também não posso deixar de dizer aqui para vocês, estou me lembrando disso aqui agora, que essa ideia de se trazer a EIRELI foi justamente para se evitar uma “hipocrisia”, por assim dizer, que o Brasil vinha vivendo ao lon- go de muitos anos. Passamos por um momento bastante “hipócrita” de se ter as sociedades de uma só pessoa, na verdade com aquele sócio ali que, normalmente, diz-se que é osócio“sópara constar” e compor o quadro societário. Vocês

constar” e compor o quadro societário. Vocês “Vejam que ao lado das associações, das fundações, das

“Vejam que ao lado das associações, das fundações, das sociedades, das organizações religiosas e dos partidos políticos nós vamos passar a ter a empresa individual de responsabilidade limitada”

a ter a empresa individual de responsabilidade limitada” que nós temos no nosso rol, tradicionalmente. No

que nós temos no nosso rol, tradicionalmente. No início da vigência do Código Civil, exis- tia menção a três pessoas jurídicas. Ainda em 2003 o Código Civil foi reformado pela primeira vez para acrescentar mais duas pes- soas jurídicas e, agora, nós tivemos o acrés- cimo de mais uma pessoa jurídica entre nós. É bom lembrar que essa lei, que trata da EI- RELI, ainda não está em vigor, ela entra em vigor no dia 12 de janeiro de 2012, portanto em mais dois meses, quando já vamos poder aplicar essa norma especificamente.

no dia 12 de janeiro de 2012, portanto em mais dois meses, quando já vamos poder
final, faz-se uma referência especificamente ao tipo societário daquela sociedade. Se uma sociedade anônima,
final, faz-se uma referência especificamente
ao tipo societário daquela sociedade. Se uma
sociedade anônima, menciona-se S/A; se uma
limitada, menciona-se LTDA. No caso da
EIRELI, faremos menção, ao final do nome
empresarial, à sigla EIRELI, para fazer essa
referência especificamente.
Aqui há também um ponto interessantís-
simo que muito provavelmente, muitos dos
registradores de pessoas jurídicas vão passar
por essa situação. É a possibilidade de trans-
“Nós tínhamos
bastante essa
presença da pessoa
com 99,9% e o
outro com 0,01%
apenas “para
constar”, como
se diz, quando,
na verdade, a
sociedade era de
um só, era um
só que mandava,
determinava,
administrava”

formação da sociedade limitada em EIRELI e da EIRELI em sociedade limitada. É muito provável que no Brasil venhamos a ter essa primeira hipótese com mais frequência, por- que nós temos muitas sociedades limitadas que são formadas pelo tal sócio “único”, “só para constar” e, esse sócio, vai querer sair da sociedade, já que não é mesmo sócio. Em razão desse e de outros motivos, é muito provável que haja migrações de socie- dade limitada para EIRELI e nessas circuns-

tâncias eu acho que não há problema nenhum de se fazer a migração. Há um outro ponto interessantíssimo aqui que diz respeito à dissolução da sociedade li- mitada por ausência da pluralidade de sócios. Pode ser que a sociedade tenha dois sócios e um venha a falecer. Nesse caso, eu posso mui- to bem, ao invés de continuar com a socieda- de, transformá-la em EIRELI. Parece-me que isso é possível, não há dúvida nenhuma que poderemos levar a cabo essa modificação nos registros públicos. De igual forma, é possível que a pessoa queira continuar, eventualmen- te, como empresário individual. Também acho que é sempre importante lembrar que, havendo lacuna na lei sobre regras que dizem respeito à EIRELI, deve-se levar em conta as regras sobre sociedade limitada. Houve o veto do parágrafo 4º do Artigo 980A, da Lei 10.424, que dizia que somente o patrimônio social da empresa responderá pe- las dívidas da empresa individual de respon- sabilidade limitada, não se confundindo em qualquer situação com o patrimônio da pes- soa natural que a constitui, conforme descrito em sua declaração anual de bens e entregue ao órgão competente. A razão do veto deu-se justamente por conta da expressão “qualquer situação”. A Presidência da República acabou tendo receio que, com essa expressão, aca- basse com a possibilidade de desconsideração da personalidade jurídica, no caso das EIRE- LIs. E, infelizmente, esse veto aconteceu. Eu sou, particularmente, bastante favorável à proteção do patrimônio dos sócios. Outro dia recebi no nosso escritório um in- vestidor alemão que me fez uma pergunta sim- ples, mas interessante. Indagava: afinal, neste país tem ou não sociedade de responsabilidade limitada? No início da semana, eu estava ou- vindo uma palestra magnífica que o professor Zeno fez lá em Belo Horizonte, na segunda-fei- ra, e ele disse que todo jurista tem que ter uma resposta bem pronta na ponta da língua que é o sempre útil “depende”. Tudo depende. Eu tive que responder para o alemão que “depende”, porque nós dependemos, por exemplo, da legislação trabalhista. Os juízes trabalhistas não desconsideram a persona- lidade jurídica no seu sentido mais técnico. Apenas vão direto ao patrimônio dos sócios, muitas vezes sem qualquer despacho, consi- derando os elementos da desconsideração. Já se vai diretamente ao patrimônio dos sócios, sem qualquer motivação sobre a possibilida-

dos sócios, sem qualquer motivação sobre a possibilida- sabem que o Brasil é um país extremamente

sabem que o Brasil é um país extremamente “cítrico”, utilizam muito da figura dos laranjas. Infelizmente, e em face de ser um país bastante cítrico, nós tínhamos bastante essa presença da pessoa com 99,9% e o outro com 0,01% ape- nas “para constar”, como se diz, quando, na verdade, a sociedade era de um só, era um só que mandava, determinava, administrava. En- tão, para que esconder uma realidade que não tinha mais sentido? É exatamente nessa linha

de

raciocínio que adveio a EIRELI entre nós.

É importante também que se faça uma dis- tinção entre empresário individual e EIRELI. Embora possa parecer igual, no primeiro mo- mento, o conceito de empresário individual não sofreu modificação, não há nenhuma mo-

dificação nesse sentido entre nós, até porque o empresário individual não é pessoa jurídica, ele não está no rol do Artigo 45 do Código Civil Brasileiro. Ele é uma pessoa natural apenas considerada como empresário individual. Também a própria lei restringiu a possi- bilidade de formação de mais de uma EIRE-

LI

vier a se consolidar a possibilidade de se fazer o registro das EIRELIs no registro ci- vil de pessoas jurídicas, não sei exatamente quem é que vai fazer esse controle, porque é muito difuso do ponto de vista prático. Cada pessoa só pode ter uma EIRELI e é nessa medida, logicamente, que a gente não vai poder controlar isso em um só registro civil de pessoas jurídicas, porque a pessoa pode fazer um registro de uma EIRELI em um determinado local e vim a fazer, por exemplo, um registro empresarial de uma EIRELI em uma junta comercial ou até em outro Estado, sendo bastante difícil para fazer uma espécie de controle nesse senti- do. Claro que quem vai fazer esse “contro- le” é o próprio interessado, eventualmente, que esteja litigando com uma pessoa que seja titular de uma EIRELI propriamente. Eu já tinha falado do capital social que no mínimo pode ser um capital de 100 sa- lários mínimos vigentes no Brasil. Agora mesmo, esse capital social deveria ser de R$54.500,00. Isso certamente adveio para que haja uma limitação e para evitar uma grande quantidade de EIRELIs entre nós. Quanto ao nome empresarial, do mesmo modo que fazemos o registro das limitadas, vocês já devem ter percebido isso, quando vamos promover o registro de uma sociedade limitada, coloca-se o nome da sociedade e, ao

pela mesma pessoa. Aliás, se realmente

dIREITO

C I

v I L

E

Em PRESARIAL

dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL dono do patrimônio dele em conjunto com
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL dono do patrimônio dele em conjunto com
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL dono do patrimônio dele em conjunto com
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL dono do patrimônio dele em conjunto com
dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL dono do patrimônio dele em conjunto com

dono do patrimônio dele em conjunto com outra pessoa, “só para constar”, será titular da empresa sem o tal sócio. Na atividade dessa pessoa, titular, por exemplo, de uma sociedade de participações, eu não vejo nenhum elemento de empresa, aliás, muito pouco provável sequer vai ter uma secretária para auxiliá-lo. A pessoa às vezes até dá andamento sozinho, sem ele- mento o empresarial em jogo. Por que essa pessoa não pode ser tida como uma EIRELI que possa ser registrada no registro civil de pessoa jurídica? Eu não estou vendo proibi- ção nenhuma, aliás, a lei não proibiu. Sequer a lei diz onde é para ser registrado propria-

de ou não de se desconsiderar a personalidade jurídica. Diante disso, tive de responder para

o alemão que realmente depende. Numa re-

lação de crédito empresarial, por exemplo,

seria aplicada a regra da responsabilidade li- mitada, mas na relação trabalhista, isso não ocorreria. Infelizmente, as nossas regras tri- butárias e trabalhistas fazem com que nós te- nhamos que responder o “depende”. Depende realmente da hipótese que se apresenta. Aqui vem o ponto que eu acho que é o mais polêmico, considerando a natureza deste evento. É que eu acho que o regis- tro da EIRELI, embora tenha esse nome, “Empresa Individual de Responsabilidade Limitada”, não é de competência exclusiva das juntas comerciais. E por que não? Por- que o nosso Código Civil fez uma biparti- ção entre o conceito de empresário e o de não empresário, de sociedade empresária

e sociedade simples. Todos esses conceitos

são levados a diante a partir do próprio con-

ceito de empresário que está no artigo 966

do nosso Código Civil. Esse artigo diz que

é empresário aquele que exerce uma ativi-

dade econômica organizada, com intuito de fazer circular ou produzir bens ou serviços. Na verdade, é um conceito bastante amplo porque trata de circulação de bens ou servi- ços e trata de produção de bens ou serviços. E, diz-se, um pouco mais adiante, no pa- rágrafo único do artigo 966, que é possível que algumas pessoas, principalmente os pro- fissionais liberais, aqueles que exercem um

atividade artística, literária, científica, essas pessoas são não-empresárias por natureza e além dessas, outras que não exercem ativida- de como sendo atividade econômica organi- zada. Nada impede que seja econômica, que vise lucro, mas não pode ser organizada no sentido de existência de órgão, de organismo. Diante disso, não vejo problema ne- nhum em se ter o empresário individual de responsabilidade limitada constituído sem

o elemento de empresa, que é exatamente a

atividade econômica organizada. Nada impe- de que ele exerça a atividade dele sendo um não-empresário, por exemplo, ou seja, sem ter atividade econômica organizada. Por exemplo, eu tenho certeza absoluta,

e quem atua aqui com planejamento patri- monial sucessório, empresarial, sabe o que estou dizendo, que muitas das nossas pró- ximas constituições de pessoas jurídicas, ao invés de ter um ancestral comum sendo

Há um outro ponto interessantíssimo, que vai atingir diretamente a atividade do notá- rio. Vocês sabem que temos uma regra no Brasil, que está estampada no artigo 1.647,

do Código Civil, que diz que a pessoa casada

só pode alienar o patrimônio imobiliário se o

outro cônjuge concordar, se o outro cônjuge estiver de acordo, anuindo, a não ser que o regime de bens seja o regime de separação absoluta. E nessa terminologia de “separação absoluta” cabe uma discussão enorme, mas achamos, eu particularmente acho, que nes- sa separação absoluta só está se referindo à separação convencional. A separação obriga-

tória não estaria aqui envolvida por uma série de motivos que caberia uma palestra só para isso. O professor Zeno, que tem opinião in- teressante sobre o tema, sabe exatamente do que eu estou falando. Mas enfim, o fato é que eu acho que tere- mos um embate interessante, porque na me- dida em que o 1.647 diz que eu preciso da outorga, o 978 diz que o empresário casado pode, sem necessidade de outorga do outro, qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integram o patrimônio da empresa ou gravá-los de ônus real. Ou seja, isso já é uma regra que já está posta entre nós, não é novidade nenhuma. Aí você diz:

por que é que você está se preocupando? Es- tou me preocupando com o seguinte: existem duas hipóteses, pelo menos, em que a pessoa constitui sociedade para, digamos, guardar o patrimônio que constituiu ao longo da vida.

A primeira se dá quando eu tenho outro sócio

que não é o meu cônjuge, mas o tal “sócio só para constar”. Nesses casos, pode ser que o cônjuge não esteja sabendo exatamente o que está se passando na sociedade. Eu posso angariar todo meu patrimônio dentro dessa pessoa jurídica e na hora de me separar, por exemplo, começo a fraudar o ca- samento e começo a vender tudo que eu tenho

em nome da pessoa jurídica e, quando vier um decreto de separação de fato, ou alguma medida cautelar que venha impedir a alienação de bens, eu já terei alienado tudo, inclusive contando com a boa-fé do adquirente, porque está res- paldado no 978 do Código Civil, dizendo que

o sócio pode alienar sozinho, sem anuência do

cônjuge. Essa é a primeira hipótese. A segunda hipótese se dá quando eu tenho dentro da minha sociedade o próprio cônjuge. Eu constituo a sociedade para guardar o meu patrimônio, mas nela o cônjuge é sócio. No

guardar o meu patrimônio, mas nela o cônjuge é sócio. No “É muito provável que haja

“É muito provável que haja migrações de sociedade limitada para EIRELI e nessas circunstâncias eu acho que não há problema nenhum de se fazer a migração”

que não há problema nenhum de se fazer a migração” mente. Simplesmente eu acho que é

mente. Simplesmente eu acho que é possível que isso aconteça em razão dessas questões. Vocês sabem que nós temos essa dicoto- mia no Brasil. As Juntas Comerciais destina- das aos registros empresariais propriamente, empresário individual, sociedade empresária e EIRELIs, não há dúvida nenhuma nesse sentido. Mas eu não vejo problema nenhum em termos um espelho disso nos registros civis de pessoa jurídicas. Justamente com a possibilidade de registro do não-empresário, seja aquele que se organiza através de EIRE- LI, seja através de sociedades simples.

registro do não-empresário, seja aquele que se organiza através de EIRE- LI, seja através de sociedades
uma separação do casal mais adiante, e o membro do casal, o cônjuge ou o

uma separação do casal mais adiante, e o membro do casal, o cônjuge ou o companhei- ro, que se sentiu prejudicado por conta de um ato de alienação dessa natureza, embora ele vá querer buscar algum tipo de indenização do notário, eu acho que ele não irá conseguir, justamente em face do permissivo do artigo 978, do Código Civil. Outro ponto aqui, que é interessante, é a necessidade que vai ter o tabelião de pedir, logicamente como de regra já faz, o contrato social de uma empresa, por exem- plo, para verificar o ato que constituiu a EIRELI. Ele precisa saber quem é o titular daquela EIRELI, quais as regras regentes daquela EIRELI, especificamente. Pois bem, são esses os pontos que mais chamam a atenção no que diz respeito à che- gada da EIRELI, entre nós. Agora vou mudar de assunto para tratar de uma outra novidade, essa também influencia principalmente a ati- vidade do registrador de imóveis. Eu agora vou falar sobre outra problemáti- ca, que é a da usucapião por abandono de lar. Aliás, esse é um assunto bastante interes- sante entre nós, introduzido este ano pela Lei 12.424/11, que é uma lei que veio tratar tam- bém sobre outros assuntos relacionados ao programa “Minha Casa, Minha Vida”.

Essa lei trata de uma infinidade de assun- tos e um deles é exatamente esse: o usucapião ou a usucapião por abandono de lar. Foi inserido mais um artigo na lei, utilizando-se dessa técnica legislativa brasileira de usamos sempre esses “A´s”, “B´s”, “C´s”, “D´s”, etc. Hoje vemos no Código do Processo Civil, no artigo 475, por exemplo, o artigo 475A até o 475P. No nosso caso em análise, foi inserido o artigo 1.240A, letra “A”, no Código Civil. E o que se pretende com o dispositivo? Para todo mundo entender exatamente o que se passa, existia separações em que o cônjuge ao se separar simplesmente desapa- recia, ou o marido ou a mulher, ou o compa- nheiro ou a companheira, ou o companheiro ou a companheira homoafetiva. É importante lembrar que agora não fazemos mais nenhum tipo de qualificação da união, seja ela casa- mento ou união estável. Não estamos mais muito preocupados se ela é hétero ou homoa- fetiva, todas essas regras são aplicadas nes- ses casos também. E uma dessas pessoas saía do lar e simplesmente ia embora e deixava o patrimônio em nome dos dois, primeiro em razão do regime de bens, depois até poderia tentar se fazer uma partilha através de uma ação própria e essa ação com citação por

contrato, os interessados inserem uma cláu- sula bem expressa (!), dizendo que eu posso alienar o meu patrimônio sozinho. Essa me parece mais grave, porque o cônjuge assinou porque quis. Ele teoricamente, ou de uma for- ma ou de outra, deveria ter lido e não deveria ter concordado. Essa cláusula representa uma espécie de outorga permanente para aliena- ção de bens do casal, que na verdade, estão sendo considerados como bem da sociedade. Onde é que eu estou vendo o problema um pouco mais adiante? É que na empresa indi- vidual de responsabilidade limitada eu não preciso dar satisfação nem ao tal “sócio para constar”, nem muito menos ao cônjuge. Eu vou constituir a minha empresa sozinho, vou integralizar todo meu capital através do meu patrimônio imobiliário e, conforme a regra do 978, voualienar tudoquequiser, quandoquiser, independentemente da outorga do cônjuge. E o tabelião? Como vai ficar nessa situa- ção? Ele vai ver ali uma empresa individual de responsabilidade limitada. Tem de exigir a outorga do cônjuge? A resposta é negativa. O tabelião está adstrito ao artigo 978, que prevê que o empresário pode vender bens indepen- dentemente da outorga do cônjuge. Portanto, o notário estará protegido pelo artigo 978. O que implica dizer que, se por acaso houver

artigo 978. O que implica dizer que, se por acaso houver O palestrante recebeu homenagem entregue
artigo 978. O que implica dizer que, se por acaso houver O palestrante recebeu homenagem entregue

O palestrante recebeu homenagem entregue pela presidente de honra da Anoreg-BR, Léa Portugal

dIREITO C I v I L E Em PRESARIAL edital, e a pessoa não aparecia,
dIREITO
C I
v I L
E
Em PRESARIAL
edital, e a pessoa não aparecia, mas sempre
ficava ali um condomínio formado e havia
esse inconveniente. Afinal de contas, onde
está um dos proprietários do imóvel, o dono
da metade, o meeiro? Onde estaria o meeiro
ou a meeira?
O legislador então, para evitar esse pro-
blema disse o seguinte, e fez isso, em sua
grande parte, para resolver problemas rela-
cionados ao próprio programa “Minha Casa,
Minha Vida”. Tanto é que está lá no âmbito
da própria lei, em razão da população de bai-
xa renda, que tem esse tipo de problema, logi-
camente como todo ser humano tem. Enfim,
acabava não se regularizando fundiariamente
esses imóveis e isso evitava as incorporações,
os outros grandes empreendimentos que ha-
viam de ter em uma determinada área. E a
solução que foi encontrada foi essa.
Se por acaso um dos membros do casal
passar dois anos fora de casa sem dar notícia,
a outra fica exercendo posse sem oposição de
ninguém, seja o marido, seja mulher, e o imó-
vel que está sendo considerado é um imóvel
urbano de até 250 metros quadrados, portan-
to, não são muitos os casos, mas de até 250
metros quadrados e ainda, essa propriedade
ficou sendo exercida pelo cônjuge ou pelo ou-
tro cônjuge que ficou no bem, em razão do
abandono do lar do outro. Aqui vem um pon-
to que acho interessante, embora essa usuca-
pião esteja sendo relacionada à usucapião por
abandono do lar ou de lar.
Eu acho que o ponto principal não é o
abandono de lar. O ponto principal aqui é
justamente o exercício da posse, o que in-
fluencia para nós é o exercício possessório.
Se não está havendo o exercício possessório
por outro, não importa se ele abandonou o lar
ou não, é isso que vale aqui para a aquisição
da propriedade pela usucapião. Até porque o
próprio abandono de lar por si só não é sufi-
ciente para configurar a usucapião. Eu posso
ter abandono de lar, mas aquele que saiu de
casa, por exemplo, e figurativamente, ligar
“Eu acho que o
ponto principal
não é o abandono
de lar. O ponto
principal aqui
é justamente
o exercício da
posse, o que
influencia para
nós é o exercício
possessório”
isso é ato de posse, que inclusive evitaria a
perda dos 50%.
Como disse, há outros requisitos. É que
esse bem imóvel deve estar sendo usado para
moradia própria ou da família, a pessoa não
pode ter outro bem imóvel, seja rural ou ur-
bano. Além disso, se, por acaso, as leis muni-
cipais tiveremprevisão para tanto, parece-me
que se as leis municipais sobre ITBI vierem
a tocar nesse assunto, ela tem que falar ape-
nas sobre os 50%, porque a pessoa não estará
adquirindo a propriedade como um todo, até
porque metade já é da outra pessoa. A rigor,
ainda que a lei não traga previsão nesse sen-
tido, o ITBI só pode ser cobrado, de qualquer
forma, sobre a transmissão dos 50%.
E, por último, vamos tratar rapidamente
da reforma pela qual passamos, em dezem-
bro de 2010. Essa, acho que todos já estão
cientes dela e isso interessa muito aos regis-
tradores civis de casamento e aos notários. É
que a idade para o casamento por separação
obrigatória não é mais de 60 anos, mas sim
70 anos. Aliás, o professor Zeno sempre foi
de de afastar o “animus domini”? Mas a lei
autorizou a aquisição da propriedade pela
usucapião e, se a lei autorizou, parece-me
que está valendo normalmente.
Também há uma hipótese interessante.
A do outro cônjuge que abandona o lar e
que fica pagando IPTU em nome dele. Ele
saiu, abandonou o lar, mas o boleto vem no
nome dele, ele paga no nome dele, enfim,
crítico dessa regra, não só a que se referia
aos 60 anos, mas também aos 70, como hoje.
Conforme bem frisado pelo professor Zeno,
aparentemente, a regra afronta a dignidade da
pessoa idosa.
Mas, enfim, nosso legislador modificou
a lei e nessa modificação alterou para os 70
anos a idade objetiva para que se tenha o re-
gime de separação obrigatória de bens, o que
implica dizer que a pessoa que está com 65
anos hoje, pode escolher o regime de bens do
casamento, inclusive fazendo regime híbrido.
e
dizer: lembra da minha meação!!! Não vai
esquecer-se da minha meação
Isso não é uma posse mansa, pacífica,
exercida com “animus domini”, ao lon-
go de um determinado tempo. Aliás, essa
questão do “animus domini” aqui também
RoDRIGo ToSCaNo
DE BRITo
Doutor e Mestre em Direito Civil Comparado pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo - PUC-SP. Professor de Direito Civil da UFPB nos cursos de graduação e pós-gradu-
ação. Professor de Direito Civil do Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ. Professor
convidado nos cursos de pós-graduação da UFPE e da Escola Superior da Magistratura (ES-
é
bastante interessante, porque não há ri-
gor “animus domini”, porque se eu tenho
um outro dono que eu sei quem é inclusive,
onde é que eu vou buscar essa possibilida-
MA-PB) e Escola Superior da Magistratura Trabalhista (ESMAT-PB). Presidente do Instituto
Brasileiro de Direito de Família na Paraíba - IBDFAM-PB. Membro da Diretoria Nacional
do Instituto Brasileiro de Política e Defesa do Consumidor - BRASILCON. Membro do
Instituto dos Advogados de São Paulo.

dIREITO

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Princípios do Direito Civil Contemporâneo, sucessões e normas jurídicas transterritoriais: propostas e
Princípios do Direito Civil
Contemporâneo, sucessões e
normas jurídicas transterritoriais:
propostas e problematizações para
um “código de princípios”
1 . NoTa PRévIa 2
Duas observações introdutórias são
necessárias. A primeira é para prestar
minhas honras à Associação dos Notários
fronteiras materiais, como é o caso da he-
rança digital, da declaração antecipatória de
vontade com eficácia superveniente à incapa-
cidade, e assim por diante.
e
Registradores do Brasil, cujo trabalho
traduz relevante contribuição ao Direito.
A segunda é para especificar, desde logo,
o sentido e o alcance da presente reflexão. A
finalidade é a seguinte: expor a importância
dos princípios numa dimensão contemporâ-
nea do Direito Civil, problematizando-os na
perspectiva de uma ideia codificadora das re-
lações interprivadas, especialmente do direi-
to das sucessões na América Latina.
O Direito das Sucessões contemporâneo tem
a
árdua tarefa de captar as transformações so-
ciais que ocorrem ao seu entorno, especialmente
no tocante à tecnologia e à família, evitando a
reprodução acrítica de definições e abstrações
que não ofereçam respostas às crescentes exi-
gências sociais. Memória e movimento, portanto,
conectam as questões sucessórias e os registros.
Nessa busca incessante pela adequação do
Direito à sociedade, como uma das possíveis
propostas, não raro vem à cena a ideia de se
elaborar um código latino-americano de prin-
cípios aplicáveis às relações interprivadas, e,
por conseguinte, aos fatos sucessórios.
Repensar o Direito sob uma perspecti-
va crítica é algo necessário à operabilidade
de um projeto de codificação transnacional,
em especial num tempo em que as relações
sociais estão postas em um plano que trans-
cende as fronteiras nacionais e os bens as
2. a FoRça JuRíDICa DoS
PRINCíPIoS No DIREITo
CIvIL CoNTEmPoRâNEo
Dada a crucial importância dos prin-
cípios à construção de uma ordem legal
preocupada em oferecer respostas justas e
adequadas às questões de fato que lhe são
apresentadas, defendemos a concreção ma-
terial dos direitos fundamentais envolvidos
na relação sucessória in concreto.
Os princípios devem ser pensados segun-
do o sistema em que atuam, oferecendo a uni-
dade e a coerência necessárias à sua operabi-
lidade, de forma que todas as demais regras
possam se estruturar sobre eles.
Defender os princípios, nessa medida, signi-
fica valorizar a heterogeneidade social, a força
criativa dos fatos e o pluralismo jurídico, cuja
síntese normativa somente se revela possível
pela reestruturação do sistema jurídico, no Bra-
sil ou na comunidade supranacional.
Arrostam-se, assim, os princípios às re-
gras, ensejando que proposições mais abstra-
tas, dotadas de uma aplicabilidade mais am-
pla e maleável, possam incidir sobre regras
fechadas que se aplicariam segundo o método
do tudo ou nada de Dworkin 3 .
Vale mencionar, entretanto, que regras são
necessárias ao sistema jurídico, uma vez que
O professor Luiz Edson Fachin abordou a questão
da unificação do Direito Civil na América Latina

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dIREITO C I v I L um modelo exclusivamente principiológico conduz à inoperabilidade prática do próprio
dIREITO C I v I L um modelo exclusivamente principiológico conduz à inoperabilidade prática do próprio
dIREITO C I v I L um modelo exclusivamente principiológico conduz à inoperabilidade prática do próprio
dIREITO C I v I L um modelo exclusivamente principiológico conduz à inoperabilidade prática do próprio
dIREITO C I v I L um modelo exclusivamente principiológico conduz à inoperabilidade prática do próprio

um modelo exclusivamente principiológico conduz à inoperabilidade prática do próprio ordenamento, impossibilitando a concretização daquilo que é principiologicamente previsto 4 . Trata-se, portanto, de conferir abertura ao Direito, aceitar que as regras devem ser orien- tadas pelos princípios que lhe dão fundamento. Devemos, portanto, estar atentos à inovação social, ao avanço da tecnologia em uma socie- dade globalizada, à importância das regras e, principalmente, dos princípios que as norteiam. Assim, poderemos aproximar o Direito das questões de fato, conferindo a devida importância na apreciação de cada caso concreto e, principalmente, oferecendo saí- das para os entraves gerados pela ausência de regras que se refiram às novas tecnolo- gias que se apresentam para a sociedade. Se às novas tecnologias ainda não há re- gras sucessórias e testamentárias, devemos nos valer daquelas que temos, orientando-as pelos princípios jurídicos e, assim, oferecen- do uma resposta satisfatória à sociedade, à pessoa humana concretamente considerada. Afinal, segundo Perlingieri, “não existe um número fechado de hipóteses tuteladas:

tutelado é o valor da pessoa sem limites5 . O operador jurídico deve buscar concre- tizar o mandamento principiológico sempre que possível, valendo-se das regras que possui, isso porque os princípios são normas cuja com- preensão transcende o mero raciocínio dogmá- tico e que permitem a aplicação de uma dada regra em casos por ela não antes previstos.

3. a DESTERRIToRIaLIZação Do DIREITo PRI vaDo E a PRINCIPIoLoGIa SEm FRoNTEIRaS Se outrora inegável foi reconhecer a ne- cessidade de uma profunda transformação no conceito de sujeito de direito e conferir força normativa aos princípios que fundamentam a ordemjurídica, hodiernamente igualmente ine- gável é o reconhecimento da necessidade de se desterritorializar não apenas o direito privado como tambéma principiologia que o conduz.

o direito privado como tambéma principiologia que o conduz. Entretanto, esta desterritorializaçãonãosig- nifica
o direito privado como tambéma principiologia que o conduz. Entretanto, esta desterritorializaçãonãosig- nifica

Entretanto, esta desterritorializaçãonãosig- nifica imposição; pelo contrário, deve significar um debate dialógico entre as diferentes realida- des e os diferentes sistemas jurídicos que com- põe a sociedade contemporânea, marcada por suas contradições e suas particularidades 6 . Não se trata, portanto, de homogeneizar, unificar, o direito sucessório latino-americano em todos os seus conceitos e regras, mas de conferir-lhe eficácia perante situações que transcendem as fronteiras nacionais e que pos- samdizer respeito a direitos fundamentais. Defende-se, assim, a existência de uma força normativa que perpassará todos os or- denamentos, mas sem destruir-lhes a mul- tiplicidade cultural. Esta integração deve se operar tendo-se em vista os problemas da rea- lidade contemporânea, buscando-se concreti- zar os direitos constitucionalmente previstos em cada ordem jurídica, bem como os direi- tos novos, inerentes ao avanço tecnológico. Para que a tutela desses novos direitos ganhe vez e voz nas relações interpriva- das, importante se faz compreender os limites e as possibilidades da transterri- torialização dos princípios jurídicos. Ao se engendrar essa transterritorialização principiológica, as pessoas, informações e titu- laridades que interagem globalmente poderão ser mais adequadamente tuteladas pelo Direito. A eficácia está justamente em oferecer respostas mais concretas aos anseios con- temporâneos captados das relações de fato,

aplicando-se à espécie regras locais orienta- das por princípios transnacionais.

4. oS oBJETIvoS DE um CóDIGo DE PRINCíPIoS Não se pode pretender com a elaboração de um código de princípios a unificação ab- soluta, mesmo porque isto não se restringe a uma mera questão de fronteiras. Deve-se respeitar o pluralismo social e ju- rídico de cada sociedade, a força criativa dos fatos e as vicissitudes locais, uma vez que “o território não é apenas o lugar de uma ação pragmática e seu exercício comporta, também, um aporte da vida, uma parcela de emoção, que permite aos valores representar um papel7 . Não obstante o reconhecimento de interes- ses sucessórios ligados às vicissitudes locais, não podemos ignorar as disparidades havidas nos testamentos em que uma parte pretende dis- por de titularidades ainda não devidamente re- gulamentadas, como no caso da herança digital. Junto a isso, caminham também as preocu- pações de uma sociedade de informação, cujos dados pessoais e bancos de dado podem, impro- priamente, seremtidos por uma herança digital, o que não é o caso, uma vez que estaríamos violando a privacidade e a dignidade de outras pessoas, terceiros alheios à relaçãosucessória 8 .

4.1. TRâNSITo JuRíDICo E SuCESSõES Sob a batuta do avanço tecnológico se

E SuCESSõES Sob a batuta do avanço tecnológico se 2 O autor registra o agradecimento ao

2 O autor registra o agradecimento ao acadêmico pesquisador Felipe Frank, da Faculdade de Direito da UFPR, pela contribuição com as pesquisas que consubstanciaram o presente estudo. 6ª Ed. Coimbra: Almedina, 2002. p. 1146. 4 DWORKIN, Ronald. Levando os Direitos a Sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

3030

  ricano de princípios sucessórios, que tem por substrato uma demanda fática ambivalente: o amparo
 

ricano de princípios sucessórios, que tem por substrato uma demanda fática ambivalente: o amparo à família do de cujus e a tutela dos interesses relevantes juridicamente. Sabendo-se que os princípios sucessórios podem se prestar a interesses aparentemente contrapostos, necessária se faz sua pondera- ção, verificando-se toda a complexidade que se põe em jogo, desde a família até a globalida- de de sujeitos que são concretamente afetados. Por este motivo, destacamos a importân- cia das sucessões relacionadas a titularidades virtuais na tutela das famílias e da coletivi- dade internacionalmente considerada, bem como a importância dos notários neste com- plexo processo de inovação jurídica. Esta crítica deve conduzir o pensa- mento de uma principiologia sucessória mais extensa, protetiva e eficaz às trans- formações da realidade. Espera-se, assim, que este “código de prin- cípios transnacionais” promova uma abertura do Direito interno e promova a concretização da dignidade da pessoa humana, tutelando casos e interesses que são concretos, mas que dizem respeito a titularidades virtuais.

5. a CoDIFICação Como PRoCESSo Visando direcionar este repensar da Co- dificação, Hernandez Gil propõe alguns pas- sos para entender a codificação 9 . O primeiro seria o de não considerar a co- dificação uma meta imóvel, que permanece estanque no decurso do tempo. O segundo passo seria o de não tomar a codificação como um elemento do pas- sado, um mero marco na história do direi- to e que hoje não mais guarda correspon- dência com o mundo dos fatos. Após, o terceiro, consubstancia-se na caracterização da codificação como processo, cuja dinamicidade seria tanto interna (de sua própria estrutura) quanto externa (de seus axiomas fundantes). Por quarto estaria o de não se considerar

a codificação como um sistema lógico-formal enclausurado em sua própria racionalidade. O quinto consubstancia-se na atividade revisora daquilo que no código está dispos- to, atividade esta que não pode se encerrar no âmbito legislativo, devendo receber im- portantes contributos e ressignificações da doutrina e da jurisprudência. Por fim, em sexto lugar, deve a codi- ficação reconhecer a autonomia do direito em relação a si própria, de forma a não ne- gar a capacidade transformadora da crítica e dos princípios jurídicos que a norteiam. A estes seis passos, podemos incluir um sétimo, que consiste no reconhecimento da multiplicidade de fontes para que, a partir des- se reconhecimento, possam ser reconhecidos pelo direito eventuais elementos virtuais que possam integrar as titularidades postas em circulação em um plano transnacional e que podem ser objeto de uma relação sucessória.

 
  6. PENSaNDo Em um CaSo CoNCRETo – a moRTE DE STEvE JoBS Pensando sobre um

6. PENSaNDo Em um CaSo CoNCRETo – a moRTE DE STEvE JoBS Pensando sobre um caso hipotético, ima- ginemos que falece alguém chamado Steve

Jobs. Perguntamos como se daria a sucessão:

“Marca notória da sociedade contemporânea, o avanço teconlógico permite o aumento dos bens materiais e imateriais nela produzidos e conduz à complexidade das formas de sucessão”

a) dos bens por ele deixados;

b) das idéias ainda não divulgadas;

c) dos projetos que estão em desenvolvi-

mento e que dizem respeito à sua marca;

d)

da exploração da marca e dos produtos

por ele criados;

e)

da exploração de sua própria imagem e

da imagem de sua empresa;

f)

da forma de aprimoramento do que já

existe, digo, do procedimento de inovação da tecnologia que ele próprio criou;

g)

dos dados por ele armazenados.

Se a resposta parece difícil de ser dada de pronto, agora imaginemos tudo isso posto em um plano transnacional, em que esses bens digitais, esses projetos em andamento, enfim, tudo o que lhediziarespeito, estãoespalhadospelomundo.

   

evidencia a transformação da sociedade contemporânea, que já não mais experi- menta uma relação prosaica de trânsito jurídico das titularidades, mas, sim, o in- cremento dos meios de comunicação e de transmissão das titularidades, bem como a potencialização das possibilidades de cria- ção de novas formas de pertencimento. Marca notória da sociedade contemporânea,

o

bens materiais e imateriais nela produzidos e

avanço teconlógico permite o aumento dos

conduz à complexidade das formas de sucessão. Este fato deve ser apreendido pelo juris- ta contemporâneo para que se possa reser- var os interesses envolvidos, especialmen-

te

porque podem dizer respeito a inúmeras

pessoas que serão por eles afetadas.

4.2. FamíLIa E GLoBaLIDaDE:

PRoBLEmaTIZaNDo PaRaDoxoS Trata-se, portanto, de questionar os obje- tivos e a finalidade de um código latino-ame-

4 CANOTILHO. J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 6ª Ed. Coimbra: Almedina, 2002. p. 1146. 5 PERLINGIERI, Pietro. Perfis do direito civil. Rio de Janeiro: Renovar,1999. p. 156. 6 AZEVEDO. Antonio Junqueira de. O Direito pós-moderno e a codificação. In: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, vol. 94. São Paulo: USP, 1999, p. 11.

In: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, vol. 94. São Paulo: USP,

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dIREITO

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dIREITO C I v I L 7. quaDRo ComPaRaTIvo DaS FoRmaS DE TESTamENTo Na aRGENTINa, vENEZuELa
dIREITO C I v I L 7. quaDRo ComPaRaTIvo DaS FoRmaS DE TESTamENTo Na aRGENTINa, vENEZuELa
dIREITO C I v I L 7. quaDRo ComPaRaTIvo DaS FoRmaS DE TESTamENTo Na aRGENTINa, vENEZuELa
dIREITO C I v I L 7. quaDRo ComPaRaTIvo DaS FoRmaS DE TESTamENTo Na aRGENTINa, vENEZuELa
dIREITO C I v I L 7. quaDRo ComPaRaTIvo DaS FoRmaS DE TESTamENTo Na aRGENTINa, vENEZuELa

7. quaDRo ComPaRaTIvo DaS FoRmaS DE TESTamENTo Na aRGENTINa, vENEZuELa E BRaSIL Responder, portanto, àquelas pergun- tas faz-nos pensar sobre a função do Di- reito e como ele pode servir à promoção da dignidade das pessoas que se correla- cionam sob essas novas formas de titula- ridades ou que delas dependem. Sabe-se que a existência da pessoa natural para o Direito finda com a morte e assim compete ao Direito das Suces- sões regular a forma como os bens do de cujus, seus direitos e obrigações subsisti- rão para além de sua própria existência, cabendo-lhe guarnecer tanto a família que amparou o de cujus em vida quanto aqueles que são indicados expressamente pelo de cujus para suceder (art. 1784 e ss. CCB; 807 e ss. CCV; 3279 e ss. CCA). A questão em debate aqui diz respeito à possibilidade de se transmitir bens virtuais mortis causa, ou seja, de se deixar uma he- rança digital, que pode ser devidamente re- gistrada pelos notários e tabeliães. Pensamos que a sucessão legítima não traz maiores problemas quanto à proble- mática que colocamos, pois seguirá o regime legal sempre que o de cujus não tiver deixado um testamento ou este for considerado nulo (art. 1784 a 1856, CCB; 807 a 848, CCV, 3545 a 3605, CCA). Entretanto, a sucessão testamentária, derivada da vontade última do de cujus, deve ser elaborada de acordo com as de- terminações legais, indicando-se expres- samente quais os sucessores e quais os bens que serão contemplados, o que se apresenta como que um desafio, especial- mente no plano internacional (art. 1857 e ss. CCB; 833 e ss. CCV; 3606 e ss. CCA). Destaque-se que essas duas modalidades de sucessões não se excluem. No Brasil, na Vene- zuela e na Argentina, por exemplo, o testador apenas pode dispor de parte de seus bens, ou seja, daquelesquenãodizemrespeitoàlegítima

(art. 1789, CCB; 883, CCV; 3591, CCA). Reside aqui a primeira limitação legal ao testamento. O testamento é ato formal e, por isso, deve respeitar as leis e as formalidades nela dispostas para que seja válido (art. 1857 e ss.; 854, CCV; art. 3607, CCA). Quanto ao testamento público, no Bra- sil, deve ser feito por escritura pública, por tabelião em seu livro de notas, em língua portuguesa, lido em voz alta pelo tabelião a duas testemunhas, assinado pelo testador e pelas testemunhas (art. 1864, CCB).

pelo testador e pelas testemunhas (art. 1864, CCB). “A questão em debate aqui diz respeito à

“A questão em debate aqui diz respeito à possibilidade de se transmitir bens virtuais mortis causa, ou seja, de se deixar uma herança digital, que pode ser devidamente registrada pelos notários e tabeliães”

ser devidamente registrada pelos notários e tabeliães” Na Venezuela, o testador declarará peran- te o tabelião

Na Venezuela, o testador declarará peran- te o tabelião e das testemunhas sua vontade, que será reduzida por escrito. O tabelião deve ler o testamento, devendo firmar, juntamente com as testemunhas e o testador, o documen- to, que devem expressar o cumprimento des- tas formalidades (art. 854, CCV). Na Argentina, o testamento público deve

ser feito por tabelião na presença de três tes- temunhas, devendo aquele reduzir a termo

a vontade do testador, indicando o local de

sua assinatura e os dados das testemunhas, devendo ser lido para o testador e as testemu- nhas, que assinarão o documento juntamente com o tabelião (art. 3654 a 3658, CCA). Quanto ao testamento particular, no Brasil, deve ser escrito pelo testador, lido

a três testemunhas e assinado por elas e

pelo testador (art. 1876, CCB), podendo esta modalidade de testamento ser feita em outra língua (art. 1880, CCB) Em todos esses países, será nulo o testa- mento que for feito por incapaz ou dirigido a quem não tem legitimação para suceder por

testamento, que tiver objeto ilícito ou impos- sível ou por inobservância da prescrição le- gal. A nulidade pode se dar tanto em relação ao todo quanto à parte, podendo apenas uma ou outra disposição ser tida por nula. Verifica-se, pois, que para a presente reflexão a problemática gira em torno do objeto a ser testado. Embora não haja disposição legal espe- cífica quanto a bens virtuais, verifica-se que pelo princípio da autonomia privada e da dig- nidade da pessoa humana, que deve ser tute- lada em seu mais largo aspecto, essa modali- dade de bem é passível de ser testada. Não se pode negar o testamento que te- nha por objeto uma herança digital sob pena de se negar não apenas um ato jurídico com- pletamente lícito, mas, também, a própria possibilidade de desenvolvimento da pessoa humana concretamente considerada, seja ela

o testador, seja ela o herdeiro. Destacamos que, pela volatilidade do objeto

em questão, não cabe, s.m.j, ao notário indicar

o limite de cinquenta por cento do patrimônio

do de cujus, uma vez que, especialmente nos

casos da herança digital, este montante é dúctil, variando diariamente em seu valor agregado. Assim, apenas em sede de jurisdição é que será possível aferir até qual parte pôde

o testador dispor de seu patrimônio digital.

parte pôde o testador dispor de seu patrimônio digital. 7 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização:

7 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 111. 8 RODOTÀ. Stefano. a vida na sociedade de vigilância. Rio de Janeiro: Renovar, 2008. 9 Idem Ibidem. p. 615-617.

3232

8. CoNCLuSão Conceber, portanto, um código de princípios que abarquem estes valores, podendo atuar como

8. CoNCLuSão Conceber, portanto, um código de princípios que abarquem estes valores, podendo atuar como verdadeiros manda- dos de otimização das legislações locais, implica o superar de uma racionalidade formalista atrelada às codificações em prol do reconhecimento dos fatos como fonte do direito e que, como tal, deve ser reconhecida e protegida juridicamente.

como tal, deve ser reconhecida e protegida juridicamente. “Por óbvio, o legado digital deve ser acompanhado

“Por óbvio, o legado digital deve ser acompanhado de todos os acessórios que possibilitem a sua plena fruição pelo legatário”

que possibilitem a sua plena fruição pelo legatário” Com esta crítica em mente, e arrimados no

Com esta crítica em mente, e arrimados no pensamento de Hernandez Gil, afirma-se que pensar o Direito segundo uma men- talidade mais flexível em relação à dog- mática, senão antiformalista, obriga o ju- rista a repensar o tema da codificação 10 . Percebe-se que o formalismo não se encerra na codificação, mas na mentalidade que é codi- ficada. Assim, a elaboração dialética de princí- pios hábeis a concretizar a dignidade da pessoa

humana no plano de suas relações privadas não se confunde com a afirmação de um Código dotado de verdade absoluta, de um dogma que deve ser seguido e não questionado.

TRêS CoNCLuSõES aPRESENTamoS:

1) Não cabe mais pensar em codifi- cação como busca por um direito ideal e racional, isento de transformações fáticas

e resignificações axiológicas. 2) A internacionalização do direito cami- nha paralelamente à internacionalização da economia e da tecnologia, devendo-se pensar criticamente tanto a elaboração quanto a pos-

terior aplicação de um código latino-america- no de princípios, uma vez que estes consubs- tanciarão a complexidade e as contradições da sociedade hodierna. 3) Não compreende o conceito de herança digital o banco de dados pessoais armazena- dos por determinada empresa ou determinado cidadão, sob pena de estar se dispondo sobre

a privacidade de outrem. Assim, devemos re-

conhecer o avanço tecnológico e colocar seus produtos em função da pessoa concretamente considerada, desde o plano contratual até o sucessório, buscando materializar a justiça, a

solidariedade e a dignidade da pessoa huma- na que norteiam as relações jurídicas.

Nas palavras de Helena Kolody,

No movimento veloz

de nossa viagem,

embala-nos a ilusão

da fuga do tempo. Poeira esparsa no vento,

apenas passamos nós.

O tempo é mar que se alarga

num infinito presente.

LuIZ

EDSoN

FaCHIN

É professor Titular de Direito Civil da Faculdade de Direito da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Mestre e Doutor em Direito das Relações Sociais pela PUC/SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo); pós-dou- torado no Canadá pelo Ministério das Relações Exteriores do Canadá; membro do IAB (Instituto dos Advogados Brasileiros), do IAP (Instituto dos Advogados do Paraná); membro da comissão do Ministério da Justiça sobre a Reforma do Poder Judiciário; atuou como colaborador no Senado Federal na elaboração do novo Código Civil bra- sileiro; membro da Associação Andrès Bello de juristas franco-latino-americanos; autor de diversas obras e artigos.

Igualmente, pode o testador deixar lega- do quando se referir não à universalidade da herança, mas a um bem individualizado que integre o patrimônio do de cujus quando da abertura da sucessão (art. 1912 e ss., CCB; 895 e ss. CCV; 3751 e ss. CCA). Verifica-se que também o legado pode ser digital, como quando, por exemplo, envolver uma marca (ex: Apple) ou mes- mo um determinado produto (ex: os direi- tos sobre a patente do iphone). Verifica-se que, no caso de legado digi- tal, a coisa não é indeterminada, ou, caso assim se entenda, não o é de modo absolu- to, mas apenas de forma relativa, permane- cendo-se hígida a disposição legatária (art. 1915, CCB; 905, CCV; 3756, CCA). Pode, ainda, o legado ter seu tempo demarcado, estabelecendo-se o prazo pelo qual poderá o legatário fruir dos bens de- rivados do legado, ainda que digital (art. 1921, CCB; 921, CCV; 3793, CCA). Sabendo-se que no legado de coisa infun- gível o legatário adquire o domínio quando

da abertura da sucessão (ou quando da morte,

a depender da legislação adotada, como no

caso do Direito Venezuelano) e que no legado de coisa fungível o legatário somente adquire

o domínio quando da partilha, impende apli- car esta lógica ao legado digital. Assim, no caso do legado digital, será necessário analisar se o bem legado é ou não fungível para se determinar não

a posse, mas o início da titularidade da-

quele bem ao legatário, bem como o dies a quo desta para que ele possa perceber os frutos de seu legado (art. 1923, p. 2º, CCB; 929, CCV; 3766, CCA). Por óbvio, o legado digital deve ser acompanhado de todos os acessórios que possibilitem a sua plena fruição pelo le- gatário. Afinal, de nada adiantaria ter determinada franquia de um produto sem poder explorar-lhe suas funcionalidades, uma vez que estas poderiam estar atrela- das a softwares de outros produtos.

10 HERNANDEZ GIL, Antonio. Formalismo, Antiformalismo y Codificación. In: Conceptos Jurídicos Fundamentales. Madrid: Espasa-Calpe, 1987.

Formalismo, Antiformalismo y Codificación. In: Conceptos Jurídicos Fundamentales. Madrid: Espasa-Calpe, 1987. 3333

3333

dIREITO

C

I

v

I

L

dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina
dIREITO C I v I L A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina

A necessidade de unificação do Direito Civil na América Latina com implicações no Direito Sucessório

na América Latina com implicações no Direito Sucessório Christiano Cassetari abordou as diferenças e semelhanças

Christiano Cassetari abordou as diferenças e semelhanças entre os códigos dos países da América Latina no Congresso da Anoreg-BR

E m nossa palestra gostaríamos de ressaltar dois pontos importantes acerca da suces-

são testamentária, importantíssimos para os tabeliães que realizam, diariamente, testa- mentos em seus cartórios. O primeiro refere-se a capacidade testamentária ativa (para fazer o testamento), que está normatizada no caput do artigo 1.860 do Código Civil1, onde verificamos que os incapazes não podem testar. Mas, todavia, segundo o parágrafo único do citado dispositivo podem testar os maiores de 16 anos. Haveria nessas disposições alguma antinomia? Negativa é a resposta haja vista que o legislador in casu está se referindo a uma capacidade especial, também conhecida como legitimação. Ao determinar que o maior de 16 anos pode testar temos a chamada capacidade testamentária ativa, ou seja, para o ato do testamento essa pessoa torna-se capaz. Assim sendo, podemos afirmar que o maior de 16 anos é relativamente incapaz para qualquer ato da vida civil, porque a parte geral do Código Civil assim determina, menos para testar, pois para esse ato ele

1 “Art. 1.860. Além dos incapazes,

não podem testar os que, no ato de fazê-lo, não tiverem pleno discernimento.

Parágrafo único. Podem testar os maiores de

dezesseis anos.”

terá capacidade especial. É por esse motivo que o maior de 16 anos poderá testar sem a necessidade de assistência. Porém, é interessante o tema pois os Códigos Civis uruguaio e chileno adotam uma idade menor do que a brasileira, fazendo uma distinção entre homens e mulheres. A doutrina clássica, sempre reconheceu que as mulheres amadurecem mais cedo do que os homens e por isso se justificaria, antigamente, uma diferença de idade. Esses códigos adotam como idade mínima para testar 14 anos para o homem

e 12 anos para a mulher. Isso está no artigo 831 do Código Civil Uruguaio e 1.005 do Código Civil Chileno. No Brasil não há mais distinções de idades entre homens e mulheres no Código Civil. No casamento, por exemplo,

o Código Civil de 1916 fazia distinção, mas

a partir do momento que a Constituição Federal estabeleceu uma igualdade de direitos entre homens e mulheres, então não mais se justificaria essa diferenciação. O segundo ponto interessante de se ressaltar é a questão da incapacidade testamentária passiva. O Código Civil vigente regula esse assunto nos artigos

1.7982, 1.7993, 1.8004 e 1.8015. Esses artigos apresentam várias situações em que certas pessoas não

1.7982, 1.7993, 1.8004 e 1.8015. Esses artigos apresentam várias situações em que certas pessoas não podem ser herdeiros testamentários, como por exemplo, as pessoas que não forem concebidas ou não estejam vivas no momento da abertura da sucessão. Os Códigos Civis, tanto do Uruguai quanto do Chile, reproduzem a regra, mas colocam uma questão, importante, que deve ser ressaltada, sobre o aspecto religioso, pois em tais países o padre que confessou o falecido não pode ser herdeiro testamentário. Essa é uma regra contida nos artigos 839 do Código Civil Uruguaio6 e que é reproduzida, também, no artigo 965 do Código Civil Chileno7.

Essas regras de cunho religiosos eram muito importantes em Roma, quando era uma vergonha alguma pessoa falecer sem ter deixado testamento. Por esse motivo, nessa época o testamento podia

É importante lembrar que as regras de incapacidade testamentária passiva

 

devem sempre ser analisadas no momento

da

abertura da sucessão, pois não podemos

esquecer que um testamento celebrado hoje

ser feito verbalmente, o que no Brasil não

ele

é um ato que existe, que é válido, mas

é

permitido, pois podia ser feito em praça

os

seus efeitos somente serão produzidos

pública oralmente. É daí que surgem os testamentos militares, aeronáuticos e marítimos, onde em função das questões bélicas as pessoas que estavam servindo na guerra tinham que deixar, expressamente, disposições de última vontade ao seu superior hierárquico antes de irem guerrear.

no

momento em que ocorrer a abertura da

sucessão, ou seja, o óbito do testador. Por esse motivo é que não há problema nenhum de se testar mais do que a parte disponível havendo herdeiros necessários, pois não é o momento de se verificar isso. Já pegamos um caso em nosso escritório de um cliente que queria fazer um testamento deixado 100% dos seus bens para o seu

Art. 1.798. Legitimam-se a suceder as pessoas nascidas ou já concebidas no momento da abertura da sucessão.”

2

 
no momento da abertura da sucessão.” 2   companheiro homoafetivo, antes da decisão do STF na

companheiro homoafetivo, antes da decisão do STF na ADIN 4277. Essa pessoa não tinha descendentes, nem cônjuge e colaterais, mas tinha o pai e a mãe vivos. Ora, seguindo a ordem cronológica

3

Art. 1.799. Na sucessão

testamentária podem ainda ser chamados a suceder:

 
 

I

- os filhos, ainda não concebidos, de pessoas

“É importante lembrar que as regras de incapacidade testamentária passiva devem sempre ser analisadas no momento da abertura da sucessão”

 

indicadas pelo testador, desde que vivas estas ao abrir-se a

 

sucessão;

natural da vida, os pais falecem primeiro que seus filhos, motivo pelo qual fizemos

e

II - as pessoas jurídicas;

III - as pessoas jurídicas, cuja organização for

determinada pelo testador sob a forma de fundação.”

o

testamento em que ele deixou 100% dos

4

Art. 1.800. No caso do inciso I

 

do artigo antecedente, os bens da herança serão confiados, após a liquidação ou partilha, a curador nomeado pelo juiz.

Salvo disposição testamentária em contrário,

a curatela caberá à pessoa cujo filho o testador esperava ter por herdeiro, e, sucessivamente, às pessoas indicadas no art. 1.775.

§

   

bens para o seu companheiro, acreditando que essa ordem natural seja seguida. Mas

claro que há um risco nessa situação, que

seria a inversão dessa ordem natural, ou seja,

é

 
 

§

Os poderes, deveres e responsabilidades do

 

curador, assim nomeado, regem-se pelas disposições concernentes

à

curatela dos incapazes, no que couber.

   

ele

falecer e os pais ainda estarem vivos.

 

§

Nascendo com vida o herdeiro esperado, ser-

Caso isso ocorra, o Código Civil resolverá

lhe-á deferida a sucessão, com os frutos e rendimentos relativos à deixa, a partir da morte do testador.

 

o

problema no artigo 1.9678 que trata da

 

§

Se, decorridos dois anos após a abertura

redução das exposições testamentárias, pois nesse dispositivo quando se testa mais do que

lei permite, o próprio Código reduz esse testamento até os limites da legítima, ou seja,

a

da sucessão, não for concebido o herdeiro esperado, os bens reservados, salvo disposição em contrário do testador, caberão aos herdeiros legítimos.”

 

Art. 1.801. Não podem ser nomeados herdeiros nem legatários:

5

 

I

- a pessoa que, a rogo, escreveu o testamento,

ele

não vai ser nem nulo, nem anulável, ele

nem o seu cônjuge ou companheiro, ou os seus ascendentes e irmãos;

 

vai ser apenas parcialmente ineficaz, porque

 

II - as testemunhas do testamento;

eficácia vai ser reduzida somente naquele percentual autorizado pela lei. A possibilidade de se correr esse risco dentro do testamento talvez seja interessante, e acredito que nós sempre deveremos pensar nele, pois se fazemos

a

III - o concubino do testador casado, salvo se este,

     

sem culpa sua, estiver separado de fato do cônjuge há mais de

 

cinco anos;

 

IV

- o tabelião, civil ou militar, ou o comandante

ou escrivão, perante quem se fizer, assim como o que fizer aprovar

Podemos afirmar que no Brasil o número de testamentos é crescente atualmente, principalmente com o advento do Código Civil de 2002, em razão da grande celeuma existente na sucessão legitima, mormente na questão da concorrência do cônjuge com o descendente e

na sucessão do companheiro, pois por meio dele

possível tentar minimizar alguns dos efeitos causados nessas regras pela referido Código.

é

o

testamento.”

 

6

831. No pueden disponer por

testamento:

1º. - Los impúberes, esto es, los varones menores de catorce años y las mujeres menores de doce. Los que hayan cumplido respectivamente esa edad, podrán testar libremente, aunque se hallen bajo la patria potestad. 2º. - Los que se hallaren bajo interdicción, por razón de demencia aunque tuvieren intervalos lúcidos. 3º. - Los que, sin estar bajo interdicción, no gozaren actualmente del libre uso de su razón, por demencia, ebriedad u otra causa. En este caso, el que impugnare la validez del testamento deberá probar que el que lo hizo no gozaba del libre uso de su razón. 4º. - Todo el que de palabra o por escrito no pudiere expresar su voluntad claramente. Los individuos no

comprendidos en las prohibiciones de este artículo son hábiles para disponer por testamento.”

o

testamento respeitando a legítima

sempre, nunca teremos a chance de conseguir outro efeito, que é o almejado pelo testador.

Art. 1.967. As disposições que excederem a parte disponível reduzir-se-ão aos limites dela, de conformidade com o disposto nos parágrafos seguintes.

8

 

§

Em se verificando excederem as disposições

habitualmente en los dos últimos años anteriores al testamento; ni la orden, convento, o cofradía de que sea miembro el eclesiástico,

testamentárias a porção disponível, serão proporcionalmente reduzidas as quotas do herdeiro ou herdeiros instituídos, até onde

 
 

ni sus deudos por consanguinidad o afinidad hasta el tercer grado

baste, e, não bastando, também os legados, na proporção do seu valor.

 

inclusive. Pero esta incapacidad no comprenderá a la iglesia parroquial del testador, ni recaerá sobre la porción de bienes que el dicho eclesiástico o sus deudos habrían heredado abintestato, si no hubiese habido testamento.”

 

§ 2º Se o testador, prevenindo o caso, dispuser

7 Art. 965. Por testamento otorgado durante la última enfermedad, no puede recibir herencia o legado alguno, ni aun como albacea fiduciario, el eclesiástico que hubiere confesado al difunto durante la misma enfermedad, o

que se inteirem, de preferência, certos herdeiros e legatários, a redução far-se-á nos outros quinhões

que se inteirem, de preferência, certos herdeiros e legatários, a redução far-se-á nos outros quinhões ou legados, observando-se a

seu respeito a ordem estabelecida no parágrafo antecedente.”

 

dIREITO

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dIREITO C I v I L Como dito anteriormente, em Roma fazia-se testamento verbal e no
dIREITO C I v I L Como dito anteriormente, em Roma fazia-se testamento verbal e no
dIREITO C I v I L Como dito anteriormente, em Roma fazia-se testamento verbal e no
dIREITO C I v I L Como dito anteriormente, em Roma fazia-se testamento verbal e no
dIREITO C I v I L Como dito anteriormente, em Roma fazia-se testamento verbal e no

Como dito anteriormente, em Roma fazia-se testamento verbal e no Brasil o mesmo é proibido, já que ele deve ser feito por escritura pública, na forma cerrada com aprovação do tabelião de notas ou por escrito particular. O Uruguai segue essa regra no artigo 792 do Código Civil Uruguaio9, dizendo que o testamento deve sempre ser escrito, mas o Código Civil Chileno autoriza o testamento verbal no artigo 1.03310. O Código Civil Chileno autoriza o testamento verbal na forma nuncupativa (in extremis vitae momentis), no caso de risco de se perder a vida. No Brasil nós temos o testamento particular que pode ser feito, também, na forma nuncupativa, dispensando a assinatura das testemunhas (no testamento particular exige-se uma testemunha a mais do que na forma pública). O exemplo que costumamos dar é o do advogado que subindo as escadarias do fórum sofre um infarto fulminante. Nesse caso, ali mesmo na própria escada, ele poderia pegar um papel e uma caneta para estabelecer a sua disposição de última vontade, e falecer tranquilamente sem precisar colher a assinatura das três testemunhas. O Código Civil Chileno permite, neste caso, que isso seja feito verbalmente, ou seja, a pessoa que estivesse sofrendo o infarto poderia dizer a alguém que está ao seu lado qual seria o seu ato de disposição da sua última vontade. Claro que teria que ter testemunha para isso, mas não deixa de ser interessante o sistema chileno nesse sentido, por admitir o testamento verbal que muito foi utilizado na época do Direito Romano. Outra questão interessante de ressaltar é que não há hierarquia entre as formas de testamentos. O testamento pode ser revogado por um outro feito posteriormente, exceto na parte que reconhece filhos, por previsão expressa do Código Civil no inciso III do art. 1.59711.

9

792. El testamento es siempre

escrito.

10

Art. 1033. El testamento verbal

será presenciado por tres testigos a lo menos.

11 Art. 1.597. Presumem-se

concebidos na constância do casamento os filhos:

I - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos,

depois de estabelecida a convivência conjugal;

pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal; O vice-presidente de Registro Civil da Anoreg-BR, Mario

O vice-presidente de Registro Civil da Anoreg-BR, Mario de Carvalho Camargo Netto entregou homenagem da Anoreg-BR ao palestrante Christiano Cassetari

Assim, podemos revogar um testamento por outro de qualquer espécie, ou seja, sendo ele um testamento público eu posso revogar por particular e o particular posso revogar pelo cerrado e assim sucessivamente, porque não há uma hierarquia entre eles. No Uruguai também se segue a mesma regra no artigo 1.000 do Código Civil Uruguaio12: não há hierarquia, mas no Chile há sim uma hierarquia. Testamento solene diz o artigo 1.213 do Código Civil Chileno13 só pode ser revogado por outro solene. O testamento solene para os chilenos é o que mais ou menos se equipararia ao nosso testamento público. Digo mais ou menos porque ele pode ser feito perante o escribano, com três testemunhas (lá se exige uma a mais do que no Brasil), mas pode ser feito também perante cinco testemunhas solenemente. Para mim parece ser temerário permitir que um testamento seja feito sozinho pelo testador. Eu sou partidário do Código Civil Brasileiro quando elenca o testamento público como um dos negócios jurídicos mais solenes que existe, pois deve ser lido e assinado na presença das

desde que tenha prévia autorização do marido.

12 1000. La revocación que de un

testamento solemne se hiciere en otro menos solemne o especial, otorgado en los casos previstos por la ley, caducará con este

testemunhas simultaneamente, tem uma

série de outros requisitos que o fazem ser

o ato mais solene que nós temos dentro

do nosso país, mas no país vizinho há, portanto, limitações com relação a isso. Outra questão importante de se

destacar são as limitações para o testamento,

o que nós aqui no Brasil chamamos de parte

indisponível. Quando uma pessoa deseja fazer um testamento para não ser aplicada a

sucessão legítima, ela tem restrições mormente

a questão da parte indisponível que se forma

quando alguém tem herdeiros necessários ou reservatários, onde 50% do seu patrimônio não estaria suscetível de ser objeto de testamento. Nos nossos países vizinhos essas regrinhas são diferentes. Lá se chama de asignacionesforzosas, oCódigoCivil Uruguaio trata disso no artigo 87014 e impõe como limitação para o testamento três situações. A primeira seria a questão relacionada aos alimentos. Quando se deve alimentos a alguém, diz o Código Civil Uruguaio que essa dívida alimentar entra como uma restrição testamentária. O nosso Código Civil trata dessa transmissão da obrigação alimentar no Direito de Família e não no Direito Sucessório, pois ele determina

14 “870. Asignaciones forzosas son

II

- nascidos nos trezentos dias subsequentes à

testamento, después del plazo fijado en los artículos 811, 816 y

las que el testador es obligado a hacer y que se suplen cuando no

dissolução da sociedade conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento;

824

y subsistirá el anterior.

las ha hecho, aún en perjuicio de sus disposiciones testamentarias expresas. Estas asignaciones son:

III

- havidos por fecundação artificial homóloga,

13

Art. 1213. El testamento solemne

1º. - Los alimentos que se deben por la ley a ciertas

mesmo que falecido o marido;

puede ser revocado expresamente en todo o parte, por un

personas.

IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar

de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga;

V - havidos por inseminação artificial heteróloga,

testamento solemne o privilegiado. Pero la revocación que se hiciere en un testamento privilegiado caducará con el testamento que la contiene, y subsistirá el anterior.

2º. - La porción conyugal. 3º. - Las legítimas.”

con el testamento que la contiene, y subsistirá el anterior. 2º. - La porción conyugal. 3º.
  separado para a sucessão, acreditando, nesse caso, que como não houve a extinção do
 

separado para a sucessão, acreditando, nesse caso, que como não houve a extinção do vínculo conjugal o cônjuge deveria ser chamado à sucessão. A única restrição para o cônjuge não ter direito a essa porção conjugal de ¼ seria a existência de uma separação judicial em que foi apurada a culpa da pessoa. Mesmo que separado ele tem direito sucessório, mas se separado por

acabam argumentando pela extinção da culpa, que é uma situação prática totalmente desagradável e complicada de se verificar, processualmente falando, pois provar-se a culpa numa separação já é complicado estando

as

pessoas vivas, imaginem depois de mortas. Aterceira restrição está na legítima do

cônjuge que vai concorrer com o descendente

o ascendente, também a exemplo do que

acontece no nosso Código Civil, lembrando que para nele ocorrer a concorrência do cônjuge há que se fazer uma análise do regime de bens, pois dessa forma ela pode ou não ocorrer. Já no Uruguai a concorrência é automática, independentemente do regime de bens do casal, conforme o artigo 88718. O sistema chileno é um pouco diferente e interessante, pois, no artigo 1.16719, o Código Civil Chileno trás as asignaciones forzosas, que são restrições para se testar. Nesse artigo encontramos, também, como restrição, a questão dos alimentos, Mas, em segundo lugar, ao invés de tratar da porção conjugal, como no Uruguai, o citado código eleva para o segundo lugar a questão da legítima, que seria a metade do patrimônio conforme determina o artigo 1.18420. Assim, nos

e

 

O

Código Civil Uruguaio fala em

  O Código Civil Uruguaio fala em

A

segunda restrição do Código Civil

“No Uruguai quando a pessoa tem alguma ação de alimentos julgada procedente, que impõe uma obrigação alimentar, esses alimentos também entram não só como uma restrição dentro da sucessão legítima por conta da dívida que deve ser paga, mas também na testamentária para o cálculo do monte-mor disponível”

 

18

887. Habiendo un solo hijo

legítimo o natural reconocido o declarado tal o descendencia con derecho a representarle, la porción legitimaria será la mitad de

los bienes; si hay dos hijos, las dos terceras partes; si hay tres o más hijos, las tres cuartas partes. Dicha porción legitimaria se dividirá por partes iguales entre los legitimarios que concurran. No habiendo hijos legítimos ni naturales reconocidos o declarados tales ni descendencia con derecho a representarlos, la mitad de la herencia será la legítima de los ascendientes (artículo 885, numeral 3º). Lo que resta del acervo, deducida la porción legitimaria según lo dispuesto en los precedentes incisos, es

la

parte de los bienes de que el difunto ha podido disponer en

vida o en muerte, a favor de cualquiera, aunque sea extraño. Lo que cupiese a cada uno de los herederos forzosos en la porción legitimaria, será su legítima rigorosa.

19

Art. 1167. Asignaciones forzosas

son las que el testador es obligado a hacer, y que se suplen

cuando no las ha hecho, aun con perjuicio de sus disposiciones testamentarias expresas. Asignaciones forzosas son:

 

1.

Los alimentos que se deben por ley a ciertas

 

personas;

 

O

que chama a atenção no Código

     

2.

Las legítimas;

 

3. La cuarta de mejoras en la sucesión de los descendientes, de los ascendientes y del cónyuge. 1. De las asignaciones alimenticias que se deben a

 

culpa sua e a culpa tiver sido reconhecida, nesse caso, ele estaria excluído da sucessão. No Brasil, a doutrina sempre repudiou

ciertas personas.

 

20

Art. 1184. La mitad de los bienes,

 

Art. 1.700. A obrigação de prestar

previas las deducciones indicadas en el artículo 959, y las agregaciones que en seguida se expresan, se dividirá por cabezas

 

estirpes entre los respectivos legitimarios, según las reglas de la sucesión intestada; lo que cupiere a cada uno en esa división será su legítima rigorosa. No habiendo descendientes con derecho a suceder, cónyuge sobreviviente, ni ascendientes, la mitad restante es la porción de bienes de que el difunto ha podido disponer a su arbitrio. Habiendo tales descendientes, cónyuge o ascendientes, la masa de bienes, previas las referidas deducciones y agregaciones,

o

 

881. La porción conyugal es la

questão da apuração de culpa. Atualmente há uma grande discussão acerca disso, e se

a

 

o

instituto da separação ainda persiste após a

 

se

dividirá en cuatro partes: dos de ellas, o sea la mitad del acervo,

emenda constitucional 66. Os defensores do seu fim, dentre os quais eu me incluo, também

para las legítimas rigorosas; otra cuarta, para las mejoras con que el difunto haya querido favorecer a su cónyuge o a uno o más de sus descendientes o ascendientes, sean o no legitimarios, y otra cuarta, de que ha podido disponer a su arbitrio.

y otra cuarta, de que ha podido disponer a su arbitrio. no artigo 1.70015, que a

no artigo 1.70015, que a obrigação de prestar alimentos transmite-se aos herdeiros do devedor na forma do artigo 1.694. Há uma discussão doutrinária se o que se transmite

aos herdeiros são apenas os alimentos vencidos, ou seja, aqueles que se venceram ao tempo na vida do de cujus, do falecido, e que não foram pagos, ou se a transmissão seria

da

obrigação alimentar, o que transferiria

para o herdeiro a necessidade de continuar honrando com aquele pensionamento.

alimentos que se deve, mas mesmo assim,

se pensarmos pela Lei brasileira, sendo uma dívida alimentar, as dívidas são

pagas antes da partilha, antes de se apurar qual seria o monte-mor ou monte partível. No Uruguai quando a pessoa tem alguma ação de alimentos julgada procedente, que impõe uma obrigação alimentar, esses alimentos também entram não só como uma restrição dentro da sucessão legítima por conta da dívida que deve ser paga, mas também na testamentária para o cálculo do monte-mor disponível.

Uruguaio é a chamada porção conjugal.

O

reserva para o cônjuge de ¼ do patrimônio, isso está no artigo 881 do Código Civil Uruguaio16. Aqui no Brasil nós temos também uma reserva legal para o cônjuge de 1/4 somente nas hipóteses em que ele

Código Civil Uruguaio apresenta uma

concorre com descendentes do falecido, pois,

se

apenas descendentes, eles receberão toda a

essa concorrência não existir, havendo

herança. No Uruguai há a diferenciação da porção conjugal, que é garantida ao cônjuge, independentemente do regime de bens. No Chile, essa porção conjugal que existia no Código Civil Chileno acabou sendo posteriormente revogada.

Civil Uruguaio é que as pessoas separadas são chamadas a suceder, pois o artigo 87517 desse diploma legal chama o cônjuge

15

alimentos transmite-se aos herdeiros do devedor, na forma do art.

1.694.

16

cuarta parte de los bienes del difunto, en todos los órdenes de sucesión, menos en el de los descendientes legítimos o naturales reconocidos o declarados tales. Habiendo tales descendientes, el viudo, o viuda, será contado entre los hijos a los efectos del