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Cesar Ramos

A PERFÍDIA CIENTÍFICA DE DESCARTES, HOBBES & ROUSSEAU

A PERFÍDIA CIENTÍFICA DE DESCARTES, HOBBES & ROUSSEAU
Protocolo Biblioteca Nacional- 008671-V01

Cesar Ramos

“ Este livro é para ser lido com calma e atenção. Assim como eu li Fritjof Capra e Betrand Russel, por exemplo. É um trabalho fantástico. Aprendi muito e me identifiquei muito com ele também. Aplaudo sua visão multifacetada, critica e culta no melhor sentido. É uma cultura que não precisa se exibir para se mostar culta. Estudantes brasileiros terão muito a aprender com esta obra. Trabalho de peso e importância e por isso está guardado aqui em meu arquivo especial como fonte de referência permanente”.
Clemente Nobrega *,

* Físico nuclear, consultor da revista Exame e autor dos best-sellers “A Empresa Quântica” e “Supermentes”.

Sumário
APRESENTAÇÃO 3 INTRODUÇÃO 4 I.A REBABEL 8 1.Pacto com Satanás 8 2. A má temática 11 3.O incomparável Newton 16 II. ORDEM E ATRASO 19 III. A ALIENAÇÃO DA DIALÉTICA 24 IV. NO RASTRO DO LEVIATÃ 35 V. O AXIOMA DO MÊDO 38 VI. BALÃO MÁGICO 51 VII. O PARASITA 54 1. Apagão do Iluminismo 54 2. Replay da má temática 61 3. Vilãsofia 65 4. A última homenagem 74 VIII. A IMPLOSÃO MATERIALISTA 77 NOTAS 84 REFERÊNCIAS 97

126/7 . Thomas. Apresentação Esse aspecto genético do paralelo entre o desenvolvimento científico e o político não deveria deixar maiores dúvidas. HOBBES & ROUSSEAU À memória de Mário Bernardino Ramos meu pai. p. A estrutura das revoluções científicas. Thomas Kuhn * _______________________________________________ * Kuhn.3 A PERFÍDIA CIENTÍFICA DE DESCARTES.

O costume narra a história sem comprometimento com relacões epistemológicas e efeitos obtidos. . carregada com centena de clássicos interdisciplinares. todavia. comprovado por séculos. ilusões riscadas há muitos séculos. tomamos a iniciativa de apresentar esta mini. "o da maioridade civil". O buraco negro de seu método traga incontáveis talentos e carentes de todo o gênero. entre os quais brilha o fulgurante trio escolhido para se exumar. mas também a Filosofia. mas de modo individualizado. a Sociologia. porém densa obra. amarram-se em ingênuas metafísicas. as disciplinas de humanidades começam a promover sua mutação. Nossa adolescência foi marcada por alguns ídolos. a Psicologia. a Economia? Que importância tomaram número e matéria para acenderam o fogo do ódio entre os povos? Infelizmente as ciências. a Arquitetura. pilhados em falsidade de propósito. ou a Medicina. mas também pela filosofia. flagrante da própria ciência exata que outrora os encobrira. Muito se tem escrito sobre suas travessuras. felizmente podemos assistir. No século XXI. Atinge inequívoco sucesso. o Direito. especialmente as humanas. ínfima contribuição ao vedamento de tão formidável lacuna. Dentre os dedicados e reconhecidos pelas faculdades exatas. Diante de tanta importância e até atualidade.4 QUE vetor partiu da Física para influenciar não só a Engenharia. já no limiar do século passado. Descartes ocupa destacado pedestal. esses antigos métodos de averiguação e prática serem completamente abandonados.

raízes de onde emanaram as ervas daninhas e o podre odor suavizado nas gotas dos falsos ideais. Sorel e Keynes aproveitaram a escuridão. onde a ética não se fratura. Mercê das facilidades de nossa era. agora é possível atingir essas subterrâneas e camufladas bases pseudo-científicas. Ao contraste usamos as teorias de Locke. Mill. Smith e Einstein. Para atingir o gancho onde se dependura essa dupla fatídica é que orgulhosamente apresentamos A perfídia científica de Descartes. algumas de suas mais perniciosas companhias. Darwin. mas faz-se também legal e legítima. Bentham. culturais. nova ordem que parece desordem. Hobbes e Rousseau. Com você. pela mesma aridez científica que outrora ofuscou a vã filosofia emerge o horizonte da nova era. mas com “somaléticas”. que brota nem toda expressa por números ou códigos comportamentais (posto que infinitamente mais ampla). Comte. Malthus. Hegel. políticas. sociais. a perfídia científica. sua razão.que aprendera diretamente com o mestre sua composição – e foi revestido pela tétrica mão do descendente JeanJacques Rousseau. Destarte. procedimento de reversão por convergência de aceleração crescente porque sem dialéticas. morais e espirituais propiciadas pela artimanha. e as graves consequências epistemológicas. Ao fascismo e ao comunismo foi apenas um lapso. jurídicas. Marx. . A moderna física é pródiga e encontra no sistema liberal seu álibi. filosófica e ideológica de Descartes. ecológicas. apagão do Iluminismo. cientificamente correta e apreciada. econômicas.5 O cimento cartesiano uniu os tijolos do edifício totalitarista de Thomas Hobbes . Hobbes e Rousseau.

Fosse por Copérnico ou por Colombo. de inúmeros matizes. pacíficas e harmônicas. (1854-1912). O valor da ciência. 167. . Deus e Universo. os novos panoramas aguardavam intrépidos e destemidos. conquistadores e missionários. Perú. China e Japão reservavam aos navegadores. Henry. culturas antigas e respeitáveis. p. _______________________________________________ * Poincaré. Henry Poincaré * O século XVI testemunhou várias descobertas. HOBBES & ROUSSEAU Introdução A ciência nos faz conhecer a verdadeira natureza das coisas? Ela nos faz conhecer as verdadeiras relações entre as coisas. Simultâneos acontecimentos abalavam as concepções ocidentais sobre Terra. Incas e aztecas exibiam o esplendor ignorando ensinamentos bíblicos e o correspondente sistema de privilégios e castigos.6 A PERFÍDIA CIENTÍFICA DE DESCARTES. México. África.

foi necessário uma Causa que compreendeu e comparou as quantidades de matéria dos vários corpos diferentes. mas geralmente as enquadram de modo isolado. essa causa não pode ser uma simples conseqüência cega do acaso. da estratégia política. da Sociologia. assim atendendo a especialização. por isso certa e acessível. real. o detalhe. pelo lado do Direito. pela realidade oferecida no telescópio de Galileu. da matemática. do Leviatã e do Contrato Social. por tudo. e físicos. a aproximação da lente. mas principalmente deliberadas mistificações daí oriundas alçaram o infindável vôo. Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau. no espaço e no tempo.” (2) Incontáveis enganos. canal acessado somente pelos mais merecedores: “Para construir esse sistema com todos seus movimentos. sequer tem na filosofia ou . das ciências humanas. mas sim uma especialista em mecânica e geometria. ou. principalmente. raros são as que contemplam os relacionamentos dessas distintas produções. passava a acreditar que Deus formulara Seu plano para ser decifrável através de um código.” (1) A ciência se precipitou na presunção: “É óbvio que um tal Deus não pode ser enganador. por isso constantemente abordados.7 Havia necessidade da substituição dos velhos conselhos espirituais. subvertendo o curso natural de todas as famílias. Quem se mantinha na fé. até por causa dos muitos absurdos inexplicáveis. são influentes precursores. excluímos os números. pelo lado da física. a ciência e a experiência calculável. advindos do estudo básico cartesiano. Há multiplicadas obras que investigam as razões do Método. René Descartes. Das letras. da ciência exata.

8 na ciência política alguma preocupação. da realidade desta simbiose. coelho saído de uma sangrenta revolução que o marketing diz democrática. conseguiram empurrar a humanidade ao precipício da insensatez. os episódios que deram causa e principalmente suas consequências ficassem resumidas àquelas parcas épocas. mas não: os intelectos desses monstros sagrados. e de modo decisivo. Chegaremos mais próximos da reorganização e de um reacomodamento natural. anteriormente. contudo. sempre conservados pelo poderoso de plantão como a ferramenta ideal para a dominação total. despedaçar em átomos tudo o que aprendera. até hoje impregnam hábitos e constituições. do massacre coletivo. Embora o linchamento de Mussolini e a queda do muro. Mais do que nunca é possível atingir suas subterrâneas e camufladas bases pseudo-científicas. “o homem que descobre uma nova verdade científica precisou. desde as peripécias de Cromwell até o oportunismo de Napoleão. Não há dúvidas. Como expressa Ortega Y Gasset. por isso apresentamos a dura exumação. paradoxalmente. ao gáudio do velho Popper. e daí às guerras civis e mundiais que se sucederam. e chega à nova verdade com as mãos . lançando um cocktail desintegrativo na torpe novela que dimensionaram estes filósofos mecanicistas. exclusivo objetivo que reparte com os “partidos” digladiantes do vasto campo democrático. raízes de onde emanaram as ervas daninhas e o podre odor suavizado pelas gotas dos seus falsos ideais. combinados. infelizmente suas perfídias não se extinguiram. O motivo do estudo seria inócuo se estas teorias.

Destarte e pela mesma aridez científica que outrora ofuscou a vã filosofia. desencontradas.. (4) As informações. Rousseau com seus efluentes Comte. enfeixadas. Hegel e Marx. nos dias de hoje são desvendadas ao mundo dos normais. nova ordem que parece desordem. sua razão. os quais. Descartes. sob os auspícios do gênio.9 sujas de sangue do massacre de mil superficialidades”. onde a ética não se fratura. eu . também possuem mútua correlação. Adam Smith e Albert Einstein. A diversidade investigativa atende a recomendação de Gaston Bachelard. censuradas por perigosas. ou de acesso dificultado. apesar de uma infinidade de mitos e obstáculos dogmáticos. outrora truncadas. curiosamente. surge o horizonte desta nova era. no que se segue. A moderna física é pródiga e encontra no sistema liberal seu álibi. que brota nem toda expressa por números ou códigos comportamentais (posto que infinitamente mais ampla). para quem “um conhecimento mais profundo é sempre acompanhado de uma abundância de razões coordenadas”. mas com “somaléticas”. permeamos o texto com conceitos de John Locke. “Se. O cidadão comum vê emergir. apropriamo-nos das mesmas palavras iniciais de Einsten. herméticas. mas faz-se também legal e legítima. (3) Para a melhor compreensão dos cabos que ligam Hobbes. Shaftesbury. Alexis Tocqueville.. modifica nosso entendimento simplesmente sobre tudo. Bentham. a majestosa reversão científica que. cientificamente correta e apreciada. procedimento de reversão por convergência de aceleração crescente porque sem dialéticas. À guisa de atenuar a forte tonalidade dos enquadramentos.

a ressalva: não apresentamos. ecológicas. culturais.. .o livro é menos escrito por nós. a perfídia científica. Com você. jurídicas. algumas de suas mais perniciosas companhias.(5) . muito mais pelos vultos. mas atiramo-nos na chance de uni-los .. morais e espirituais propiciadas pela comum artimanha. Hobbes e Rousseau. econômicas. será apenas em nome da clareza e da simplicidade”. entretanto. sociais. novas idéias .consignando. filosófica e ideológica de Descartes. de modo direto.10 vier a expressar minhas idéias um tanto dogmaticamente. políticas. e as graves consequências epistemológicas.

Não éramos O . (5) O “pacto” vingava por todo o lado. Pacto com Satanás conhecimento e a mistificação proliferaram graças ao dedo de Gutemberg.11 Capítulo I REBABEL Nenhuma disciplina poderá outorgar para si própria um lugar de onde deduzir um saber absoluto e final. a prestigiosa matemática ocupou este lugar. Era óbvio que haviam firmado um “pacto com o diabo”. a Igreja e seus estandartes derrocavam. duzentos e quatorze livros de matemática saíram publicados (4). Toffler relata o pitoresco: “Um conselho sem dúvida bem-intencionado. atribuído a Santo Agostinho. Quando as ciências. revelou-se então mais mutiladora do que a rainha! Michel Serres (1) 1. advertia os cristãos a manter distância das pessoas que sabiam somar ou subtrair. Galileu Galilei e Niklas Copérnico impressionavam o mundo.” (3) Na virada ao século XVI. a de maior alcance ocorreu um pouco antes da metade dessa era. Deus. Em 1455 Gutemberg escreve a Bíblia. Cêrca de mil tipografias em mais de 250 localidades distintas (2) se encarregaram de arrolar as novas razões: “De todas as revoluções tecnológicas do milênio.

proposições de várias procedências. de Dante (7). O conhecido crítico de Aristóteles (383-322 a. . Discorsi e dimonstrazioni matematiche intorno a due nuove scienze attenenti alla meccanica* inaugurava. escapou do crivo. A matemática é o cimento das ciências. Galileu descobriu que se fazia acompanhar de vários pequenos satélites. ____________________________________________ * Discorsi e dimonstrazioni matematiche intorno a due nuove scienze attenenti alla meccanica: Discursos e Demonstrações Matemáticas em torno de Duas Novas Ciências”. mais lógicas e práticas. O conhecimento anterior fora montada em cima de inconsistentes palavras. a era mecanicista. que acabara de ser inventado. Isto implicava que nada precisava necessariamente girar em torno da terra. Selou-lhe rudimentar aparelho amplificador da visão. Neste ano Galileu começou a observar o céu à noite. Ao focalizar o planeta Júpiter. “revanche de Platão”: “O sopro da morte atingiu a teoria aristotélicoptolomática em 1609. aos olhos incrédulos. é a defesa segura contra qualquer tentativa de acolher. os números traziam mais segurança. C. tornavam as atividades concretas. como Aristóteles e Ptolomeu haviam pensado”. pirateado. Agora.) mostrava. oficialmente.12 mais o “centro do universo. 1638. “com distorções de palavras”.” o sol não girava sobre a Terra. através de um telescópio. incompatíveis entre si. compõem os elos. é a garantia de sua coerência. a certeza do cálculo. publicado em Leida. (6) A lógica científico-matemática vinha para o lugar de “lendas” filosóficas e religiosas.” Nem o “Inferno”. ou luas. que giravam a sua volta.

Este é o engano basilar de Galileu e da produção científica efetivada nos séculos que lhe sucederam. mas o acesso ao completo texto da geometria euclidiana estava plenado. a premissa pintada como conclusão de pensamento. justamente. identificando o platonismo com matematicismo. Esta linguagem é a matemática e os caracteres são triângulos. enquanto “o . Quanto ao homem. o caráter platônico da ciência galileana”. mas completá-lo.13 Tornou-se Galileu o “pai da física matemática” (8) Poderíamos dizer. os físicos conseguiriam apreender a estrutura íntima da realidade”. A faculdade de conhecer o verdadeiro se resumia ao que os braços ou olhos podiam confirmar. que sua idéia foi a “mãe da pretensão científica”. quanto muito.” (9) Os caracteres nasceram deformados pela carga genética: “Não tenho dificuldades para admitir. (10) Alexandre Koyré confirma: “A grande idéia de Koyré. círculos e outras figuras geométricas. Em outras palavras: Galileu acreditava que. Letras serviam à fantasia. poderia ser. uma inexpressiva peça de toda a engrenagem do reino solar. graças à matemática. a subversão numérica das letras: “A filosofia está escrita neste grande livro que permanece sempre aberto diante de nossos olhos. mas não podemos entendê-la se não aprendermos primeiro a linguagem e os caracteres em que ela foi escrita. é que Galileu encarnava a herança do platonismo. estava provado: não estando mais no centro do universo. sem querer ofendê-lo. (11) O infeliz Platão expulsara os poetas de sua República.

embora de maneira alguma em todos. arruína completamente. Conduz a ela. Descartes sabia-o. não pode dispensar uma metafísica. através da luneta astronômica. a geometria nunca poderia explicar o real. Fica ainda absolutamente rejeitado o axioma identificando o real objetivo à percepção sensível: as qualidades são relativas a nossos sentidos e a matéria é quantitativa. em vez de partir dela. E Platão. que fora o primeiro a esboçar uma ciência desse tipo. que postula o valor real do matematismo. Uma ciência tipo cartesiana. o dogma da incorruptibilidade dos corpos celestes. O estudo da geometria não precede o da física. além de derrubar a ditadura de Aristóteles. (13) Foi uma lástima..” (15) . à ciência e à humanidade: “ ..” (14) Complementa Koyré: “Ocorre que para Aristóteles a geometria era apenas uma ciência abstrata. que constrói uma física geométrica. Uma ciência do tipo aristotélico não se apoia numa metafísica. a Teoria Geral da Relatividade de Einstein está mais próxima da teoria de Aristóteles do que qualquer uma das duas está da de Newton. Por isso. donde seu objetivo precípuo é aquele de aprender a verdade.” (12) O câmbio do paradigma ético de Aristóteles pelo pragmatismo totalitarista de Platão restringiu a ciência e subverteu a democracia: “Trata-se de uma revolução que.14 livro da natureza é dominado pelo rigor matemático. E tem mesmo que começar por ela. As suas leis não dominam o mundo físico. sabia-o igualmente. em alguns aspectos importantes.

menos ainda poliglotas. de uma ciência matemática do mundo. Holanda e Baviera. projeto platônico de construção de uma física matemática. Descartes. mais ainda. de Platão.” (17) Timeu desconcertou Descartes. Dono de uma vida peregrina. praticado. O primeiro a sentar foi esse René Descartes (1596-1650). Entremeios.” (16) Pegou o bonde errado: “Durante seu desenvolvimento pelo pensamento grego. desgostoso com a negligência das pessoas. Bretanha e finalmente Suécia.15 2. consumiu bastante tempo centrado em si mesmo. até receberam seus esforços. A França não lhe convinha. Eram poucos os que sabiam ler. Começamos . A má temática NÃO se chega à intimidade retalhando o corpo. formulava anotações. que partiu a reconstruir o sistema verdadeiro do mundo. com muitos talheres. países coincidentemente estranhos à comunidade latina. René passou a vida se alistando em exércitos estrangeiros. No post mortem tornou-se mundialmente conhecido. como Rousseau. o “fundador da moderna filosofia”: “Ao saber do processo contra Galileu em 1633. Em Estocolmo. mas o terreno estava plenado e a mesa posta. Descartes sustou a publicação de um importante tratado de física no qual adotava a teoria de Copérnico. banquete dos canibais. Descartes acabou falecendo. Esse pressuposto errôneo é vago e fluído no Timeu. mas não lhe renderam homenagens. a filosofia da natureza enveredou por um caminho equivocado. Muitas linhas descrevem sua própria história.

.” (18) Que modéstia comovente... Imaginamos Einstein ou Broglie a contarem-nos a vida. e que todos apreciarão minha franqueza. antes de exporem a Teoria da Relatividade ou a Mecânica Ondulatória? Ora. embora no juízo que faço de mim próprio trate sempre de me inclinar para o lado da desconfiança mais que para o da presunção. já tirei dele tais frutos que. mesmo espiritual. Que um sábio nos conte a sua biografia... dizendo que teve a sorte de descobrir um “método” que lhe permitira fazer grandes progressos no estudo das ciências e . não deixo de receber uma extrema satisfação dos progressos que penso já ter feito na procura da verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que.. Descartes fá-lo. em péssima redação: “Penso que tive muita sorte em me ter encontrado desde a juventude em certos caminhos que me conduziram a considerações e a máximas com as quais formei um método pelo qual me parece que tenho possibilidades de aumentar gradualmente o meu conhecimento e levá-lo ao mais alto ponto a que a mediocridade do meu espírito e a curta duração de minha vida poderão permitir-me chegar. sem ser nocivo para ninguém. olhando com olhos de filosófo as diversas ações e empresas de todos os homens.16 transcrevendo o notável exemplo de pretensão. não haja quase nenhuma que não me pareça vã e inútil.. Espero que ele (este escrito) venha a ser útil a alguns. e que. ouso crer que é a que eu escolhi. se entre as ocupações dos homens puramente homens houver alguma que seja solidamente boa e importante.. encantadora! O comentário de Alexander Koyré o aniquila: “. aí é que é surpreendente.

que não fornece necessariamente uma indicação particularizada dos actos a cumprir. mas apresentavam só discussões... Deram-lhe. E não lhe tinham dado nem uma nem outra." (20) Descartes fez história a partir da primeira da crise. O outro corresponde ao conceito de estratégia. Presumia o iluminado ser possível passar pela vida sem portar dúvidas. Tinham-lhe. ao sair da escola por excesso de dúvidas e decepções no estudo das letras. que descrevem detalhadamente a concatenação do que deve ser feito. Rene. impressa apenas em 1701. o aspecto principal parece ser o método como estratégia... Como traçar uma estratégia com tantas opções sugeridas? Como saber qual delas seria a verdade? “. Fora buscar conhecimentos claros e certos. Um corresponde às noções de ´receita´. mas somente do espírito dentro do qual a decisão deve ser tomada e do esquema global no qual as acções devem decorrer. ´procedimento´. a desculpa para vadiar.” (19) No que pode consistir esse método? Responde-nos Gilles-Gaston Granger: "Convém efectivamente distinguir dois pólos de todo irredutíveis da idéia de método. pelo menos. em suma. obra incompleta escrita provavelmente antes de 1628. _______________________________________________ * Descartes.” (21). prometido uma ciência e uma sabedoria (sagesse). . ´algoritmo´. Regulae ad directionem ingenii.17 que expõe a fim de que os leitores o possam aproveitar. advindos de um saber.

saiu ao turismo. Tencionava. curtir bisbilhotices. os filósofos de todos os tempos sempre admitiram que a matemática propicia um conhecimento superior e mais confiável do que o reunido em qualquer outro campo do saber..” (24) . tudo confesso em sofrível estilo literário. deixei inteiramente o estudo das letras. como eles. e por todo o lado a fazer reflexões sobre as coisas que se me apresentavam de modo a poder tirar delas qualquer proveito. logradas com raro sentimento de oportunismo. futilidades e tolices. inexorável consequência da precoce autoformatura filosófica: “Assim que a idade me permitiu sair da sujeição aos meus professores. a experimentar-me a mim mesmo nos encontros que a fortuna me propunha. enxergar as metáforas da natureza por algo que não fosse a simples e sempre discutível palavra. a recolher diversas experiências.18 Folgado. “por causa da certeza e da evidência de suas razões”: (23) Bertrand Russel explica: “Na matemática não há fatos fora de seu próprio campo que exijam comparação. a ver cortes e exércitos. principalmente Platão.. e resolvendo-me a não procurar outra ciência senão aquela que poderia encontrar-se a mim mesmo ou então no grande livro do mundo empreguei o resto de minha juventude a viajar. (22) O oportunista confesso escolhia a mesma trilha refletiva dos seus famosos contemporâneos e alguns antecessores. Só a matemática oferecia verdades encadeadas e certas. do qual é filho direto. contatar com pessoas de diversos humores e condições. Por causa desta certeza.

A linguagem matemática da ciência. no tratado “O Homem”.” (25) A. presunção que o levou a aplicar seus remédios baseados nas leis da física mecanista. Descartes sabe abordar a “medicina” com princípios afetos aos “animais-máquinas”. (27) Canguilhem explica: “A analogia com a mecânica animal tinha por efeito reduzir o maravilhoso. o tronco a física.19 A rainha mathésis universalis passava exibida por sábios interlocutores. que causa tanto desânimo ao leitor de outras áreas. que se reduzem a três principais – a medicina. já havia proposto De Humani Corporis Fabrica. Lemkow assinala o aspecto mais desumano que pode constatar: “Descartes sustentava que não apenas os vegetais e os animais. que tal um lubrificante sintético? Pois o engenhoso empirista . os reverenciados de Platão: “A ciência ocidental tornou-se matematizada.” (29) Não consta que tenha se preocupado com o significado de moral. mas. e os galhos que saem desses troncos são todas as outras ciências. A matemática cartesiana ignorava analogias e admitia apenas as equivalências” (28) A simploriedade mental decretava: “Toda a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica. Para a garganta inflamada. negar a espontaneidade do existente e garantir a ambição de uma dominação racional no curso da vida humana. em 1543. implantou-se como resultado do conflito entre as visões de mundo eclesiástica e leiga e seu propósito era justamente causar o afastamento do público comum. a mecânica e a moral.” (26) Tampouco neste particular Descartes soube ser original: André Vesálio. mas também o próprio corpo humano eram máquinas.

e até a descarga de neurônios em seu cérebro é uma incessante tempestade elétrica. nas grutas e nas fontes que estão nos jardins dos nossos reis. tudo baseado em ações mecânicas de trações e inchamentos: “Assim como podeis ter visto.20 descreve-nos portadores de um sistema hidráulico. os seus espíritos animais. Nas artérias e nas veias. Seu corpo é totalmente caótico em determinados níveis . aos outros diversos engenhos e molas que servem para as mover.... os seus músculos e os seus tendões..”. esse caos* é apenas uma das faces da ordem. irrigado por “tubos” condutores da constante circulação dos fluídos. circula o sangue. E deveras se podem perfeitamente comparar os nervos da máquina que vos descrevo aos tubos das máquinas destas fontes.. é a simples força pela qual a água se move ao sair da nascente que move diversas máquinas e até toca alguns instrumentos. Contração e dilatação produzem a pressão e impulsionam o movimento pelas artérias. ou pronuncia algumas palavras. Somos outros compostos: “. nestes “tubos”. que nossa .. numerosas enzimas e proteínas enchem cada célula. a água que as movimenta. pois não há dúvida de que nossas células são obrasprimas de uma função organizada. O trânsito é movido pelo motor denominado coração. (30) Hoje podemos bem distinguir. de que o coração é a nascente e as concavidades do cérebro são as aberturas. consoante a diversa disposição dos tubos que a conduzem. No entanto.átomos rodopiantes de oxigênio penetram na sua corrente sangüínea a cada respiração.

A natureza funcionava de acordo com leis mecânicas. Japiassu acrescenta: “A antiga oposição homem/Deus substituía-se pela oposição homem/mundo. a provocação de experiências com vista a fins bem delimitados.” (32) O “homem” surgido dessa pretensa racionalidade fez-se ambíguo: “objeto” para o saber e “sujeito” que conhece. Ele havia colocado tudo aos nossos pés. e tudo no mundo material podia ser explicado em função da organização e do movimento de suas partes. A ciência com seu método propõe a dicotomia sujeito-objeto.” (31) No tempo de Descartes a vela era a rainha da noite. Melhor ainda: pela oposição Sujeito/Objeto. pretensão sem par: “Não havia propósito. vida ou espiritualidade na matéria.21 atividade cerebral resulta em pensamentos coerentes. A ciência contém no seu método os germes que levaram as suas mais famosas aberrações como atividade social. O racionalismo “legitimava-O”. apenas supôs que o bom Deus não iria enganar suas criaturas.” (33) Algumas conseqüências podem delineá-las cientistas: “Sabe-se de antemão que o mal continua. cabia-nos rastrear suas charadas. a ignorância dos elementos nãoessenciais e o esquecimento do todo. eis que Ele não seria a causa do erro. que provinha do “gênio .” (34) Descartes não se desfez da fé. a curiosidade desinteressada e o desapego do primeiro. o isolamento e controle do segundo. A concepção da natureza como uma máquina perfeita a tornava previsível por que governada por leis matemáticas exatas.

à verdade buscada por todos. em afirmar e publicar em toda parte que é Deus quem estabelece essas leis na natureza. Este é o exemplo mais clássico. econômicos: “A natureza só é bela para o cientista depois de classificada e arrumada. apenas lhe necessitasse a dar corda. eu vos peço. depois do sexto dia da criação. em sete dias.” (35) Deus foi aceito como o criador do movimento. tique-taque previsível: “A confecção de relógios. claramente. é certamente delicado e trabalhoso. “manhoso e enganador”. evoluído desde Bacon . que todo o sistema seria originário do impulso inicial deste Alguém que. Só o pensamento exato levaria ao conhecimento destas leis inteligíveis. partia o esperançoso Descartes atrás da “chave do universo” vangloriando-se que a ciência “nada mais era do que geometria”. Descartes assegura: “Não temais. Pressupô-se.” (38) . de tal modo que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e ordenado do pulso dos animais. o tal “Diabo”. tendo elaborado ponto a ponto uma espécie de um colossal relógio. ecológicos. políticos.” (36) Com tanta indicação. jurídicos. Em carta a Mersena. sempre empenhado no seu papel. por exemplo. O mundo funcionaria. automaticamente. A façanha está na descoberta desta “ordem. assim como um rei estabelece leis em seu trono.(37) Na picada transitam devastadores científicos.22 mau”. caricaturado por Descartes no esboço filosófico-platônico “Meditação Primeira”.a previsão do tempo discorrendo num eterno linear.

23 3." Arthur Koestler analisa os “gigantes”: primeiro. O incomparável Newton Newton... se aspiramos a uma compreensão mais profunda das relações. cit. * entre os quais o pioneiro grego Platão. abstrações. O polonês Copérnico dera a letra: * Célebre oração de Newton: "Se fui tão longe foi porque estava apoiado no ombro de gigantes. o carrasco inglês Francis Bacon e o francês Descartes. 84 . que tem de ser substituído por outros. convincente e brilhante lógica que atingiu.. Galileu Galilei e René Descartes: ". Johannes Kepler: ". descobriste o único caminho que na tua época era possível para um homem com os mais elevados padrões de pensamento e criatividade. The Sleepwalkers. como aquele. Lemkow. o seguidor italiano Galileu.uma mente para a qual toda a realidade última. da verdade e da beleza estava contida na linguagem dos números. mais afastados da esfera da experiência imediata. consagrando-o pela sintética. perdoa-me. 1978. a geometria analítica". a essência da religião. as vãs filosofias. Isaac Newton ampliou espetacularmente o cientificismo em voga." Depois. Arthur. Anna F. ao tempo em rechaçou.prometeu reconstruir o universo inteiro a partir apenas de matéria e extensão e que inventou a mais bela ferramenta de raciocínio matemático.. Albert Einstein (39) “APOIADO no ombro dos gigantes”. Os conceitos que criaste guiam ainda hoje o nosso pensamento em física.. Sabemos. no entanto. Koestler. p.

. de rios.. É como uma bola. Ou. Mandelbrot protesta: “A maior parte da natureza é muito. o Verbo não tinha nada a influenciar ou a mistificar *. de relâmpagos. lògicamente. quem poderia no templo esplêndido colocar essa luminária num melhor lugar do que aquele donde pode iluminar tudo ao mesmo tempo? Em verdade. porém muito irregular. digam respeito às qualidades ocultas ou às mecânicas.” (40) Tudo era suscetível de explicação. outros ainda o seu reitor. e as hipóteses. de montanhas. Número se faz provado e provável. (41) Entender a “filosofia da natureza” através desses preconceitos foi fatal à humanidade. não têm lugar na filosofia experimental”.. muito complicada. por outra.” (42) . O mote enviava o homem a descobrir a prova pela matemática. pelo número. Como se poderia descrever uma nuvem? Uma nuvem não é uma esfera. Newton foi bastante claro: “tudo que não é deduzido dos fenômenos deve ser chamado de hipótese. Com efeito. outros o Espírito. Se você quer fala de nuvens. o Verbo se mostrava. Célebre se tornou sua premissa “Hypoteses non fingo”: “Sobre isto. Uma montanha? Uma montanha não é um cone. sejam as metafísicas ou físicas. desde que combinasse com a explicação mecânica. não foi impropriamente que alguns lhe chamaram a pupila do mundo..24 “E no meio repousa o Sol. nesta. a linguagem geométrica aprendida na escola é inadequada.

25 A magia do arcoíris se desfez no espectro newtoniano; no lugar da filosofia natural, a renovada e sedutora metafísica: “A natureza toda se transformou em um palco de impulsos e atrações, de dentes e alavancas, de movimentos de partes ou de elementos aos quais eram diretamente aplicadas as fórmulas de movimentos produzidos por bem conhecidas máquinas.” (43) A cientista da Nasa, Barbara Ann Brennam, Master em Física Atmosférica na Wisconsin University, compreende: “A mecânica newtoniana descreveu com êxito os movimentos dos planetas, das máquinas mecânicas e dos fluidos em movimento contínuo. O enorme sucesso do modelo mecanicista levou os físicos do século XIX a acreditarem que o universo, com efeito, era um imenso sistema mecânico que funcionava de acordo com as leis básicas da natureza. Consideravase a mecânica newtoniana a teoria definitiva dos fenômenos naturais... Tudo podia ser descrito objetivamente. Todas as reações físicas tinham uma causa física, como bolas que se chocam numa mesa de bilhar.” (44) A pesquisadora ainda lembra: “essa maneira de ver as coisas era muito confortadora.” (45) Alfred North Whitehead foi dos pioneiros conscientes do grave deslize cometido, tão longo quanto profundo, pelo qual despenca a massa humana: “Por mais que tenham sido ditas com orgulho, as palavras de Newton... repousam num completo equívoco sobre a capacidade da mente humana para lidar com a natureza externa.” (46) Prigogine também assegura:

26 “A natureza não tem um nível simples. Quanto mais tentamos nos aprofundar, maior a complexidade com que nos defrontamos. Nesse universo rico e criativo, as supostas leis de estrita casualidade são quase caricaturas da verdadeira natureza da mudança. Há uma forma mais sutil de realidade, uma forma que envolve leis e jogos, tempo e eternidade... Em lugar da clássica descrição do mundo como um autômato, retornamos ao antigo paradigma* grego do mundo como uma obra de arte.” (47) Este paradigma de arte foi privilégio de Atenas, mas não de Esparta. É compatível com a democracia liberal, não com o totalitarismo bestial. Não são poucos os que reconhecem, até se penitenciam. Sir James Lightill foi dos mais célebres: “Hoje em dia todos nós estamos profundamente cônscios de que o entusiasmo que nossos precursores tinham em relação aos feitos maravilhosos da mecânica newtoniana levou-os a fazer generalizações nesta área de previsibilidade, na qual de modo geral talvez tenhamos tendido a acreditar, antes de 1960, mas que hoje reconhecemos que era falsa. Queremos nos desculpar coletivamente por haver confundido o público instruído em geral, fazendo-os acreditar em idéias sobre o determinismo de sistemas que satisfazem as leis de movimento de Newton, as quais, a partir de 1960, foi provado serem incorretas.” (48)

27

Capítulo II ORDEM E ATRASO

Nunca podemos provar uma teoria, para corroborá-la; o que podemos é pô-la à prova, em situações cruciais, para ver se ela resiste. Karl Popper (1)

SE caos é a virtualidade da ordem na aparente
desordem, podemos afirmar que a ordem planificada desorganizou a natureza e, por conseqüência, as relações sociais. A França contribui com notáveis discípulos de seu fruto, Descartes. Um deles enveredou pela Ciência do Direito, a ciência teóricamente mais fácil de ser organizada, bastando estipulá-la. O extraordinário filósofo e jurista Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (1798-1857), nosso conhecido e amado Augusto Comte, encarregou-se do transplante do método cartesiano de aferição científica para o estudo e contrôle da massa avolumada. Em arquitetura ordenativa-normativa, era possível e agora recomendável balizar as ciências jurídicas, econômicas, sociais e governos na esteira de contundentes comparações, como esta, do precursor Descartes: “Tal como uma casa construída por um só arquiteto será mais bela que aquela na qual vários construtores trabalharam, também uma cidade construída por gerações sucessivas não tem tanta

astronomia. aplicando os princípios da mecânica newtoniana às ciências da natureza e da sociedade humana. pois é mais fácil a um só seguir um plano racional e apartar-se das contingências que constituem os hábitos e os costumes dos habitantes do país. que lhe foi mestre. seria preciso que alguém empreendesse.. biologia e medicina.. tendo sido construídas pouco a pouco. de uma vez para sempre. na segunda parte do Discurso do Método. Não foi mesmo necessário utilizar nenhuma originalidade: “O próprio Descartes esboçara as linhas gerais de uma abordagem mecanicista da física. não possuem nenhuma certeza e não ensinam a ordem verdadeira das coisas. gostou do juspositivismo*. recursos e utilidades: “Descartes nos diz com toda a clareza.” (2) O ferramental cartesiano veio com muitas instruções. Por isso. Os pensadores do século XVIII levaram esse programa ainda mais longe. reconstrui-las e pô-las em ordem. (4) Sorman endossa e aponta a gravidade do rumo tomado: .” (3) O trem platônico pintado com cores de Rousseau e Saint-Simon. o “direito” da imposição. [ele só não pode conhecer o tédio de Brasília!] do mesmo modo também as ciências.28 ordem como a que foi construída de uma só vez. que uma legislação que é obra de um só vale mais do que a que foi elaborada por vários através das transformações da história. As recém-criadas ciências sociais geraram grande entusiasmo e alguns de seus proponentes proclamaram terem descoberto uma “física social”.

” (6) Bohr os enquadra fina ironia: “Qual a diferença entre um especialista e um filósofo? Um especialista é alguém que começa sabendo um pouco sobre algumas coisas. Finalmente veio Augusto Comte. vai sabendo cada vez mais sobre cada vez menos e acaba sabendo tudo sobre o nada.. Louis de Broglie examinou a perfídia e teceu o veredito a Descartes. e oposto à METAFÍSICA e à teologia. É.29 “.. persuadindo-nos de que só o que era demonstrável. a culpa inicial cabe a Descartes. apropriado também a Comte : ______________________________________________ * Juspositivismo: “Postura filosófica segundo a qual o único conhecimento genuíno é o obtido pelos métodos da ciência.” (7) O erro foi crasso. aliado do EMPIRISMO e do MATERIALISMO. Já um filósofo é alguém que começa sabendo um pouco sobre algumas coisas. Ele foi o primeiro a negar a sabedoria inconsciente. p. . 179.. portanto.” Nader. era verdadeiro. vai sabendo cada vez menos sobre cada vez mais e acaba sabendo nada sobre tudo.. imaginando que não havia leis fora das desejadas pelo homem.” (5) Russel constatava: “A humanidade positiva será regida pela autoridade moral de uma élite científica. que instalou de vez a universidade no positivismo*. Rousseau substituiu-o. P. ao passo que o poder executivo será confiado a especialistas técnicos. fez as ciências humanas oscilarem para a sociologia e eliminou todo o ensinamento sério da economia.. ainda maior. Este arranjo não é diferente do estado ideal da República de Platão. Seu dano.

Augusto utilizou justamente as premissas religiosas de que o tempo e o Universo tinham nascido “quando o Divino impôs forma e ordem no caos”. A tradição e o mito esperavam novel anunciante: “Outro exemplo de Ser Positivo é o “Deus Organizador”. em 1839. Tal qual Descartes.. ” (8) O star positivista acumulou todos os (pré)conceitos cartesianos em sua “Teoria Geral da Sociologia”. outra grega . Pela formosura. p. uma latina. Ciência e Tecnologia Hoje.30 “No comêço do desenvolvimento da ciência moderna. pois que nunca se pode conhecer ao mesmo tempo a figura e o movimento. mas na época.* A presunção espatifa-se pelo Big-Bang. a palavra "caos" está indefectivelmente ligada à idéia de profunda desordem. 275. alcançou todas as atenções acadêmicas: “Augusto Comte criou.“socius” e “logos”. . a palavra “Sociologia”. Nicolas. (9) Guiou-lhe também Timeu. a obra cosmológicoplatônica. P. ______________________________________________ *Caos: “Na linguagem corrente. As relações de incerteza exprimem precisamente que uma tal descrição com todo rigor é impossível. Descartes dizia que devíamos esforçar-nos em explicar os fenômenos naturais por figuras e movimentos. em que a divindade (ou divindades) exerce o papel de controlador da oposição primordial entre Ordem e Caos. aplicando-se tanto a uma disposição espacial quanto a uma situação social perturbada. formada pela fusão de duas raízes. veio a calhar." in Witkowski. por Bergè.

nos termos de sua percepção ou interesse. não haverá ordem e acordo possíveis senão sujeitando os fenômenos sociais e todos os demais a leis naturais invariáveis. o homem (o próprio. (10) O ideal do homem. ou simplesmente deuses maléficos que lutam contra outros deuses em batalhas cósmicas relatadas muitas vezes em textos épicos. a desordem. Então.. Partindo do pre(mal)suposto. Descartes e o "filósofo" recém passado Napoleão) pôs-se a ordenar as coisas. somente a clareza matemática é que poderia calibrar. e é simbolizado em vários mitos por monstros como serpentes ou dragões. a ordem vital e material. deveria também “colocar as coisas em ordem”. em progressão regular da simplicidade à complexidade. Descartes apresenta período que o condena: “Não admito como verdadeiro o que não possa ser deduzido. pela lógica. percorrido com tanta escuridão. depois. com a clareza de uma demonstração matemática. de noções comuns de cuja verdade não podemos duvidar. “único caminho capaz de nos libertar do erro e levarnos ao conhecimento da verdade”. como no caso do Eubuma elis dos babilônios”. na obediência às tais “leis invariáveis”: “Doravante. (11) No tortuoso caminho. Comte "enxergou" uma sociedade evoluindo na ordem que entendia natural e explícita: primeiro. Platão reaparecera nas lentes de Galileu. A tanto. como Platão. à Sua imagem e semelhança.” (12) Pascal incitara. em filosofia política.31 O Caos representa o Mal. Comte. o indivíduo subordinado à ordem social. ordenar até as relações sociais em proporções precisas. Como todos os fenômenos da ..

Demorou anos para o genial iconoclasta aceitar os revolucionários fenômenos. por ironia. onde promoveu suas idéias de reconciliação do CATOLICISMO com o PROTESTANTISMO. C.. com o cálculo. fit mundus.” (14) Com esse tolo modo de decifrar. 240 ** Razão: greco-latino.” (13) Leibniz* difundiu a mesma razão** . paradoxos afiançados de plano por Max Planck e Niels Bohr. ______________________________________________ * Leibniz. a cobertura da inútil torre. da incerteza e das probabilidades. anomalias inexplicáveis até mesmo pela linguagem matemática. malgrada a confirmação dos fenômenos quânticos. inclusive no Vaticano.. todos ficamos persuadidos. Sequer Albert Einstein escapou. p. nem que sejam desejáveis. latim. penso que não há necessidade de admitir outros princípios da física. (1646-1716) "RACIONALISTA inveterado. . degrau por degrau. Ratio. contar. não aceitou de plano as novas conjeturas ." Rohmann. Gottfried Wilhem von.32 natureza podem ser explicados deste modo. tem sentido originário de calcular. procurava aplicar os princípios matemáticos a todos os campos do pensamento. a Rebabel. .o mundo estaria realizado de acordo com os cálculos divinos: “Cum Deus calculat. Seus profundos conhecimentos jurídicos eram tais que lhes concederam audiência em todas as cortes européias. A aparente desordem nada mais é do que uma "ordem invisivel". induzidos a subir. Reor.“Deus não joga dados”. a nova babel.

. os regimes fascistas. baseado na classificação. o de massa. proveniente de um processo indutivo. apenas absorve incríveis coincidências.. Einstein e Leopoldo Infeld acabaram se divertindo deles próprios: “Quando se estuda Mecânica pela primeira vez tem-se a impressão de que tudo nesse ramo da ciência seja simples. à maneira da zoologia.” (15) Por várias fontes científicas colhemos semelhante resultado: "Mostra Bobbio que a totalidade ordenada de um sistema jurídico não deriva da dedução more geométrico de certos princípios gerais como postulava Leibniz. " (16) A "religião da humanidade" fêz-se na grande coluna dos regimes de direita. Expõe também que a sistematicidade não deriva da organização da matéria normativa. caminho percorrido por progressão contínua. Dificilmente se suspeitaria da existência de uma pista importante que ninguém notou durante trezentos anos. que teria permitido a passagem de uma jurisprudência exegética para uma jurisprudência sistemática. técnicas aprendidas na Lógica. ordenada. do simples ao complicado. por paradoxo reconhece: "A filosofia de . por isto pretensamente clara. positivista jurídico confesso. naturalmente com a melhor das intenções. nazistas e arremêdos. Bobbio. fundamental e resolvido para sempre. visando facilitar o acesso ao pensado verdadeiro.33 A suposição de alcançar a certeza através da obediência a um método atado em conjunto de regras palpáveis. A pista negligenciada está relacionada com um dos conceitos fundamentais da Mecânica. da análise dos Geômetras e na Álgebra.

nossa futura atração. Pode conduzir à formação de um Estado totalitário." (17) Para os totalitários de esquerda.34 Comte pode inspirar uma organização totalitária da sociedade. deterministas e finitos do “capital”. este sim. . Marx se encarregou da tarefa. edificada pelos critérios materialistas. a grande obssessão.

É língua muito transitiva a dos pássaros. Se é vermelha tinge a outra de vermelho. Ele não contava com o insólito. Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã. O . E Deus viu que a luz era boa. E Deus disse: Exista a luz. e as trevas noite.35 Capítulo III A ALIENAÇÃO DA DIALÉTICA A história das descobertas científicas e técnicas revela-nos quanto o espírito humano carece de idéias originais e de imaginação criadora. Elaborada a tarefa. E a luz existiu. Albert Einstein (1) Gênesis traz subjacente várias idéias de separações e antagonismos. A terra. No Paraíso o casal não conhecia a ciência. até a mordida na maçã: “Na língua dos pássaros uma expressão tinge a seguinte. Não havia discordância. cristalina estratégia platônica: “No Princípio Deus criou o céu e a terra. porém. estava informe. e vazia e as trevas cobriam a face do abismo. e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. criados à Sua imagem e semelhança. muito menos a dialética. que dirá algum confronto. E chamou a luz de dia. nós é que passamos a dividir tudo. Já que Ele havia completado a obra e entregue aos iguais. a Terra foi entregue sob a égide dos novos senhores. e separou a luz das trevas. E fezse tarde e manhã: o primeiro dia”.

razão e fé conjugaram suas forças para condenar a Terra e seu principal hóspede à liturgia da submissão: “A filosofia mecânica forneceu uma resposta para o problema da ordem cósmica e. ardis. sempre envolvidas por ordenamentos numéricos. da ordem social.) foi apenas um lapso: “Em Atenas. Se comunica por encantamentos. da água.36 Não carece de conjunções nem de abotoaduras. portanto. C.” (2) Da serpente a Platão (428-347 a. e assim tornamo-nos senhores e dominadores da natureza. exumando-o. Subsequentes classificações. análises superficiais e grande prejuízos: “Compreendendo as ações do fogo. do “bem” e do “mal”. Ciência e religião. superstições. completaram a gloriosa história de experiências.” (3) Copérnico. E por não ser contaminada de contradições A linguagem dos pássaros Só produz gorgeios.” (5) Sem o menor questionamento. mas ao fazê-lo indicou a necessidade de poder e domínio sobre a natureza. o macête se estendeu: .” (4) No afã de entender o “divino” pela linguagem sugerida. à separação do “joio e do trigo”. das estrelas e dos céus. mutilam o objeto. Descartes e Newton disso não tomaram conhecimento. do ar. Galileu. podemos usar essas forças em todos os propósitos para as quais são apropriadas. Bacon. Eurípedes e Platão foram acusados de roubar idéias de outros autores e filósofos. cortando-o em pedacinhos à análise.

A psicologia. biologia. biológica por essência. e com tal sucesso que a metodologia newtoniana foi transformada na base conceitual de todas as áreas de atividade intelectual. como também política. virou “política positivistasociológica”: “A influência de Comte no desenvolvimento posterior da psicologia é indiscutível. Wundt e de Wilhelm Dilthey utilizaram a mesma mecânica para construir o versátil modêlo Volk. histórica. social e até moral.mas não só a ele .” (7) Populações. não só científica. obviamente enfatizado aqui o caráter científico da psicologia. veículo que conduziu a massa mercê de sua hermenêutica. Ela se revela na própria obra de Wundt.a idéia mecanicista do mundo torna-se uma idéia adquirida muito para além dos círculos científicos.designa o patrimônio psíquico hereditário”.na física. governos e estudos se alienaram na dialética telepositivista: “No decorrer do século XIX.37 “Graças ao cartesianismo . ela contribui muito para reformar a visão comum da natureza. “ (8) O projeto ideológico-psicológico não detinha segredos. a orientação mecanicista tomou raízes mais profundas . (10) . psicologia e nas ciências sociais.” (6) Os “táticos da ocupação” se encarregaram da logística: “O raciocínio quantitativo tornou-se sinônimo de ciência. fantasiado trajeto. química.” (9) Bachelard desmonta o Volk: “Termo inoportuno porque evoca muito mais a sociologia do que a genética .

apareceu bem oportuno. a síntese da dialética constituiria. contudo. Soupault observa: “A lógica tem sido o veneno que lentamente tem paralisado todas as forças da imaginação do homem.o domínio da psicologia das massas cada vez mais justificado: “A ciência política opera com material humano e os fundamentos do poder e da obediência são de natureza psicológica”. peça por peça e função. da religião. lógico. do moral. enfatizando os prejuízos (?!) da mentalidade gregária nebulosa. a “verdade” da disciplina. sufoca todas as vocações. Colocados os fenômenos como elementos de um sistema unido. Assim reuniu a manada. proposição da “Ciência da Lógica. da lei. ______________________________________________ * Volkerpsychologie: Psicologia de massa. difusa. A busca do entendimento pela revisão passada. O Estado ( que em si não existe. até acertarem-se ponteiros) acreditava-se na lógica seguinte ou no destino manifesto a partir desse determinado estado de coisas e isto já provara Comte. (11) O que acontece com a pretensão? Além de alimentar o crime de massa. de aplicação em massa . a Volkerpsychologie reforçou a unidade imprescindível aos propósitos totalitaristas . subliminar confirmação da propositura roussoniana. P. etc. a dinâmica interna dos fatos (de novo as concepções dialéticas em cima do universo-relógio a ser esmiuçado. afinal. coerente.38 O termo. Wundt atraiu os incautos passageiros com a flauta da Volkerpsychologie*. mas sim o eventual governante) punha-se como criador da arte. Na observação do der Gang der Sache selbst. Cabia ao cidadão ser seu produto. do pacífico povo.

Assim. foi reincorporada por sociólogos como uma confirmação oferecida pela história natural dos processos que atravessam a história humana”. o mais grave.(15) Para completar. na forma de evolução social também apregoada por Schäffle. firmando a hegemonia dos mais aptos. Nos Principles of Sociology (1. soube carrear ao liberalismo uma grande “confusão”. aperfeiçoado pela competição e pela luta nos embates tribais. clara consagração a Hegel. conforme pinça Schwartz: “Depois de ter sido incorporada por Charles Darwin como uma metáfora para ilustrar o mecanismo evolutivo das espécies biológicas. entendida “lei do mais forte” e. O próprio Estado seria um produto social da evolução. (14) Como Stuart Mill. (16) ou seja. foi neste pântano teórico que caíram quase todos os estudos sociológicos a partir daí. pela luta direta. quase no fim do século o extraordinário professor polonês Ludwig von Gumplovicz utilizou esses conceitos em Die Sociologische Staatsidee (1892). vol. Spencer mesclou a tradição racionalista dos economistas clássicos com a versão moderna da natureza .a evolução. Social Statics fora publicado nove anos antes da Origem das Espécies e The Man versus State veio em 1884. explorações de sonhadores e evasão de clarividentes.” (12) Herbert Spencer (1820-1903) e Albert Schäffle (13) enriqueceram o comboio. (17) . 1876) o primeiro desenvolve um paralelo entre a organização e a evolução dos organismos vivos e das sociedades. as relações sociais passaram a ser observadas pela “tal” lei de sobrevivência.39 Em nome da lógica foram condenadas descobertas científicas e invenções poéticas.

” (18) O entendimento de que “da guerra da natureza. a teoria darwineana incitou a presença decisiva e “protetora” do paladino despótico. bem como da teoria da população de Malthus. Young. se . além do “bem” e do “mal”. Paul Johnson descreve-nos a meritosa contribuição sócio-política da nova ciência: “A noção de Darwin relativa a sobrevivência do mais adaptável foi elemento chave tanto para o conceito marxista da luta de classes quanto para as filosofias raciais que deram forma ao hitlerismo”. da morte. Darwin.40 R. Houve. Wallace denunciara e. Mahan. da sociedade à natureza viva. de Hitler. demonstrara a “curiosa” simultaneidade. Esta eloqüente frase foi proferida pelo parente símio. com R. ainda. assim não o é. Sorel e Rousseau. da teoria de Hobbes sobre a guerra de todos contra todos e da teoria econômica burguesa da concorrência. para não dizer vício de origem do trabalho de Darwin. Hegel. nosso Charles. forma-se o mais nobre objeto que somos capazes de conceber: a produção de animais superiores” o menos avisado pensaria ser discurso nazista. (20) Robert Downs confirma: “Consciente ou inconscientemente o Mein Kampf. Marx. pois. (19) Acima dos conflitos. e Nietzsche. Hobbes. porém. deve muito a Maquiavel.” (21) Downs esqueceu ou não quis citar Descartes. Mackinder e Freud. da fome. uma forma de predição à virtual influência nos totalitarismos daí em diante: “Toda a teoria darwineana da luta pela existência é simplesmente a transferência.

Ao que retruca Brodsky: “Não. não podia deixar de ter como conclusão o deus-terreno de Hegel.” (22) O poeta e ensaísta Octavio Paz relata seu diálogo com Joseph Brodsky: “As origens do autoritarismo estão em Hegel. Georg Wilhelm Friederich Hegel.um grande admirador. de antemão. desvirtuada: “Nas ciências humanas. no Leviathan seu símbolo e . o caminho da compreensão objetiva. pois o pesquisador aborda muitas vezes os fatos com categorias e pré-noções implícitas e não conscientes que lhe fecham. e a ciência. E uma história que tem no Príncipe sua revelação. que dividiu o homem em dois e que substituiu a alma por eu”. O mal começou com Descartes. por em dúvida verdades adquiridas e abrir-se inteiramente aos fatos.” (24) O que resta? Em “Considerações sobre Descartes” Koyré responde-nos: “Um amontoado de riquezas e um amontoado de escombros: tal é o resultado desta atividade fecunda . foi apenas mais uma ponte estendida ao incomensurável equívoco: “A filosofia política moderna acha sua primeira forma sistemática em Hobbes. não basta. Alí começou o mal”.41 bem que este conduz um prolongamento darwiniano. na vontade geral de Rousseau sua solução ideal. (23) O Direito passou envergado. (1770-1831) que forneceu as razões dos choques dialéticos à Darwin e Marx. vem muito antes. mas seu germe vital está em Maquiavel. de quem Hegel foi . como acreditava Durkheim. aplicar o método cartesiano. pois.podemos também acrescentar.não preciso lembrar .

até para se valorizar: “Ser é ser pensado”. ou. pelo menos. é certo que devo existir. O problema é que quando a aplicamos aos caranguejos e às tartarugas. privado de suas normas tradicionais. não deixou por menos: “A lógica é um instrumento muito elegante e fizemos bom uso dela nesses dois mil anos. às borboletas e à formação do hábito. (portanto.42 e confusa. mas o erro proveniente de falsa premissa dialética trouxe ao baile o “cogito”. e nada na idéia de mente que pertença que ao corpo. acabar. lançado em seu “Discurso do Método”. o que não pensasse não existiria.” (25) Bateson. também sem originalidade. configurado numa sobreposição hierarquica. logo existo”. Bem. O homem sente-se perdido num mundo incerto. Onde tudo era possível. pois..” (28) Percebia o francês tudo dividido. (26) O talentoso Descartes até se preocupou com os desígneos humanistas.. que tudo demoliu e nada soube construir. (30) . parte por parte.” (29) Hegel. tal qual o Universo para ele se mostrava: “Não há nada no conceito de corpo que pertença a mente. se ando. o “penso. usou o mesmo princípio... antes do aparecimento da humanidade os seres já eram seres. logo existo”. para todas essas coisas lindas a lógica simplesmente não serve”. Onde nada era seguro.” (27) Ao elementar equívoco Antônio Damásio contrapõe com o leitmotiv de sua obra: “No entanto. numa implícita alusão a Darwin. poderíamos dizer igualmente “Ando. de 1637. numa espécie de vulgata epistemológica.) Russel também ironiza: “De outro modo.

” (31) Concentrando-se na res cogitan e na res extensa." (32) Trata-se da flamante postura platônica. com as ciências humanas ocupando-se da primeira e as chamadas ciências naturais da segunda. mas são as mesmas descobertas que. empírica e epiléptica dialética assim criticada por Villey: “Descartes rompeu algo ao dividir o mundo em res cogitans e res extensa. mas ainda baliza a civilização: “A partir dessa perspectiva a divisão entre mente e corpo tornou-se verdade absoluta. o pensamento e a . que está na base do seu pensamento. Alguns séculos depois do sonho febril de Descartes continuamos a nos deparar justamente com essa divisão. coexistindo dentro do mesmo ser como as duas faces hostis da mesma moeda. O esteio é prejudicial por vários motivos. prejudicando. quer dizer. estampada nos diversos aspectos da vida moderna. antagonismos. ao mesmo tempo que cada face se tornou antagônica à outra. vetores contrapostos. conduziu às mais admiráveis descobertas. Por eles. a tentativa de elucidar os fenômenos passou por esta protodecomposição desvirtuante.43 O mundo teria se livrado das barbáries se ambos não tivessem pensado. finalmente. estanques e heterogêneos. exceto contrariedades. de plano. a correta apreciação dos respectivos objetos: "O princípio da simplificação. hoje arruínam nossa visão simplificadora. não assimilam comunicação. os vértices do conhecimento chamado objetivo se entenderam duplicados. corpos e espíritos. Pensando em simplificar e ordenar o estudo. que animou as ciências naturais.

um conhecimento incompleto e obtuso. valor e fato. completo.” (33) Decompondo o pensamento e ordenando-o nessa pretensa lógica. objeto também de cômputo e comparação quantitativa. homem e natureza. da “intuição” a “dedução”. O flagrante equívoco metodológico condena seu produto. o “mundo das coisas. Marcelo Gleiser ensina: . etc. o selo científico. dever ser e ser. o justo) que não se admitem cientificamente por não serem mensuráveis e sim obscuras e imprecisas das causas finais. desorientando o investigador. do ato livre e o “mundo objetivo da física quantitativa. Assim vão surgindo outros dualismos: sujeito e objeto. reduzidos a uma soma de indivíduos isolados. eventualmente responsáveis pelo objeto analisado. suprimem do foco movimentos periféricos. Descartes e seus seguidores não tem pudor em romper a homogenia. destarte. Em outras palavras. como sintetizou Villey. Obtém. todavia. fomentando apenas a especialização e desprezando o conhecimento abrangente. suporte de pensamento e da vontade. passivo. Assim a natureza fica mutilada: das qualidades (o belo. que tampouco se prestam aos cálculos e pressupõem uma ordem teleólogica numa natureza não cindida dos conjuntos sociais naturais. induzindo ao erro diante da parcial identificação da fonte.44 matéria que. inerte. seu trem epistemológico tem conotação própria de dinâmica desenhada para rápido desenvolvimento tecnoestratégico. conhecimentos morais e ciências denominadas objetivas. submetido às leis determinantes da mecânica”. representam respectivamente “o mundo das lamas. não suporta. Na ânsia pela “câmera em close” à visão pormenorizada.

onde cérebro e mente assumem estranhos e independentes papéis. “os opostos se complementam”. certo e errado. Seria como procurar sempre o caminho mais difícil e doloroso para se chegar ao mesmo destino. Ao velho . subdividido nos diferentes compartimentos dele. Nem Descartes tampouco Freud conseguiriam sequer colar este ser tão esfacelado. cheia de conflitos. Sigmund Freud (1856-1939).”(36) Foi este o campo de consagração (ou “campo de concentração” ?) do famoso professor dr. assim como se baixa a febre. o doente jamais teria cura total.45 “Não é uma coincidência que em 1947. embora em seu tempo já existisse o conselho de David Bohm: “É urgente que compreendamos o perigo de continuar com o processo de fragmentação do pensamento. luz e sombra. cabia atender à questão primeira: dividido o próprio homem em duas substâncias. com a seguinte inscrição em latim “contraria sunt complementa”. é o palco da confusão cartesiana.. como poderia Descartes depois reuni-lo? (35) Chopra realça: “A necessidade de dualidade do ego gerou um mundo de bem e mal.”(37) A observação procede. fértil arquitetura à manipulações. (34) A natureza vista “rebelde”. Ela passa a mero artefato. Fracionado o objeto ad lib.. ao contrário . mas propunha seus “trabalhos” para amenizá-la. quando Bohr foi condecorado com a Ordem do Elefante da Coroa dinamarquesa.o austríaco acabou concordando que a histeria/esquizofrenia instalada não poderia ser “extirpada”. ele tenha escolhido o símbolo taoísta do Yin e Yang como seu brasão de armas.

que vem menos fàcilmente à mente. Finalmente. A pesquisa de ponta se acha obrigada a reintroduzir o observador na observação. embora seja bastante mais antiga em termos evolutivos. (38) O pesquisador contemporâneo Michel Serres arrola a grande perda de tempo ocasionada pela indução ao método cartesiano de averiguação e exercício em todos os campos de formação científica: “As disciplinas foram fragmentadas e. os neurotransmissores e os neuromoduladores”.46 sizudo era conveniente a mais completa mistificação. nem desconhecimento. e do cérebro para todas as partes do corpo. A outra via. ora como partícula. é a corrente sangüínea. A física descobre agora a necessidade de conceber outras operações para melhor perceber a complexidade da matéria. nunca curando. impediu-se o diálogo e a polêmica intercientífica. como os hormônios. Existem duas vias principais de interconexão. não há mais dúvidas. A via em que normalmente se pensa primeiro é a constituída por nervos motores e sensoriais periféricos que transportam sinais de todas as partes do corpo para o cérebro. tampouco lugar para empulhação: “O cérebro e o corpo encontram-se indissociavelmente integrados por circuitos bioquímicos e neurais recíprocos dirigidos um para o outro. Freud e muitos diletantes ignoraram as revoluções científicas que aconteciam já no início do século XX. Estes percursos casuais e aleatórios nos remetem a . As ciências contemporâneas progridem com a contradição: a partícula se manifesta ora como onda. ela transporta sinais químicos. ao se fazer isto. arrumava proventos até o paciente falir ou morrer.

de outro. elas perfazem a intrigante complementariedade. com volume. que as finas e minúsculas partículas do sangue se transformavam em espíritos animais. em relação as quais o erro de Descartes continua a prevalecer.” (40) Agora preocupa-nos a total profilaxia. Porque não censurá-lo por uma dessas noções? A razão é simples: há muito tempo que sabemos que ele estava errado nesses aspectos concretos.. a sugestão de que o raciocínio.47 Cristóvão Colombo. Não foi traçando seu destino que ele descobriu a América. com dimensões e com funcionamento mecânico de um lado. e a substância mental. sem volume. embotando as distinções dualistas tradicionais. Fowler reforça-nos: “O mundo é uma rede complexa de inter-relações na qual as categorias de sujeito e objeto se fundem. e as perguntas sobre como e por que circula o sangue receberam já uma resposta que nos satisfaz completamente. os quais poderiam mover os músculos. indivisível. as idéias de Descartes são consideradas evidentes por si mesmas.. O mesmo não sucede com as questões relativas à mente. o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo.” (41) .” (39) Apenas um reparo – onda e partícula não são contraditórias. Para muitos. Descartes pensava que o calor fazia circular o sangue. sem necessitar de nenhuma reavaliação. entre substância corporal. infinitamente divisível. embora num primeiro instante assim fossem observadas. desde a raiz: “É esse o erro de Descartes: a separação abissal entre corpo e a mente. sem dimensões e intangível. ao cérebro e ao corpo.

terminaram ceifadas. por séculos enganada em todos os ramos do conhecimento. o impulso de conquistá-la. talvez no último instante. estupefatos. nas florestas do Equador. para o lamento do grande Werner Heisenberg. O retorno à natureza está sendo desesperadamente buscado em toda a parte. Domesticaram os homens.” (44) . furam poços. que lhes obedecem e os servem como escravos. há algumas décadas atrás: “A cisão cartesiana penetrou fundo na mente humana nos três séculos após Descartes e levará muito tempo para ser substituída por uma atitude realmente diferente diante do problema da realidade. Esse impulso se esgotou quase ao ponto do desastre. modificam a floresta. vivem tribos índias sem contato algum com os civilizados. “bull-dozers” que.. E os homens brancos alimentam-nos e abrem-lhes passagem através da floresta. Um dia chegam ao seu território centenas de caminhões.’ "(42) A civilização seguiu o penoso caminho. explicaram entre eles semelhante acontecimento: ‘Acabam de chegar animais novos. escavadoras. Raízes milenares.. tapávamos a ciência. ao ser de uma Cia de Petróleo. O tiro à lua se volta contra o tolo executor: “Hoje em dia não existem espíritos da natureza porque os mortais decidiram se separar da natureza. de todas as espécies. Granger preferiu ser espirituoso: “Um viajante conta que. Eis como os índios. O antigo impulso de viver dentro da natureza cedeu espaço ao seu oposto.48 Enquanto descobríamos a América.” (43) A atitude continua inalterada. abrem estradas.

. tampouco a do vácuo ou mesmo imaginar uma possibilidade de condutividade espacial.. por menor que fosse que não pudesse ser dividida ainda mais. a ciência físico-matemática. Os pais da filosofia ocidental argumentavam que a matéria conseguia se dividir infinitamente e que não existia nenhuma unidade. a filosofia cartesiana ainda encoraja milhares de pesquisadores contemporâneos e. podemos dizer. em tantas parcelas que forem possíveis e requeridas para melhor resolvê-las”. mostra-se inutilizável em ciências humanas onde o progresso do conhecimento não caminha do simples ao complexo.49 Posta a coerência aparentemente lógica. Infelizmente as idéias deles foram lançadas ao esquecimento pela influência nefasta de Platão e Aristóteles. O atomismo foi derrotado e permaneceu nas sombras durante 2. a trilharem a mesma trajetória.” (46) A física nuclear Anna Lemkow também levanta o alto custo da experiência: .. não passou pela cabeça de Descartes e seus cometas reverem a possibilidade do átomo. mas do abstrato ao concreto por uma oscilação contínua entre o conjunto e as partes. válido até certo ponto na matemática e nas ciências físico-químicas. Relatam-nos Coveney e Highfield: “Os atomistas também usaram os átomos para explicar fenômenos sensoriais como o paladar e o olfato. a embarcarem no trem..500 anos.” (45) No afã de conhecer pormenores. futuros. com destino inverso ao pretendido: “O segundo preceito do método cartesiano “dividir cada uma das dificuldades.

conquistar e explorar a natureza por completo). o mais notável e competente arquiteto econômico que produziu a civilização.e enfeitiçou . universo de matéria e universo de vida. industrializados e de Terceiro Mundo. A visão reducionista-mecanicista-materialista cultivou inúmeras dicotomias. a dicotomia entre conhecimento e valores. entre gerações presentes e gerações futuras.a incomensurabilidade de mente e matéria. a falsidade das premissas cartesianas: “Foi igualmente pela recusa do dualismo cartesiano. podemos muito bem nos apoderar do máximo possível.” (49) Locke preferiu observar a teoria preferida de Einstein: . alienações: alienação de si (o vácuo espiritual) e. mente e matéria.. John Locke (1632-1704). cismas. observador e objeto. meios e fins.” (47) “Descartes deu início ao que veio a ser chamado dualismo cartesiano .o pensamento filosófico e científico até os nossos tempos”. e pela defesa da observação e da análise contra o espírito sistemático que Locke se impôs como um “mestre de sabedoria” aos filósofos franceses do século XVIII. dos outros. fragmentações. o construtor da democracia britânica e Adam Smith (1723-1790). corpo e mente. que dominou.50 “Podemos julgar uma filosofia por seus frutos. por conseqüência. alienação da natureza (autômatos não podem sentir muito por outros autômatos . entre ricos e pobres.se somos apenas máquinas. (48) Parte do pensamento filosófico e científico conseguiu se safar. entre ciências e humanidades. logo perceberam as armadilhas.

51 "Há duzentos anos, o filósofo John Locke escreveu, em seu grande tratado 'Sobre o entendimento humano': 'Se encontrarmos as pedras de xadrez nas mesmas posições que as deixamos, diremos que elas não foram movidas, ou permaneceram imóveis, mesmo que o tabuleiro, nesse interim, tenha sido transportado para outro cômodo. Da mesma forma diremos que o tabuleiro não se moveu, se ele permanecer no mesmo lugar em que se encontrava na cabine, embora o navio esteja andando. E diremos, também, que o navio se encontra no mesmo lugar, desde que se mantenha à mesma distância da terra, embora o globo tenha dado uma volta completa. Na verdade, as pedras de xadrez, o tabuleiro e o navio, tudo isso mudou de lugar em relação a corpos situados muito mais longe'. Esse quadro das pedras que se movem, embora se mantenham no mesmo lugar, representa um dos princípios da relatividade, a relatividade de posição. Mas isto também sugere outra idéia, a da relatividade de movimento" (50) Também o depoimento de Adam Smith simplesmente antecipa as preocupações e as provas que seriam oferecidas por Einstein: “Um sistema de filosofia natural pode parecer muito plausível, encontrar uma recepção generalizada no mundo e mesmo assim não ter fundamento sobre a natureza, nem guardar nenhuma espécie de semelhança com a verdade. Por quase todo um século, uma nação muito engenhosa considerou os vértices de Descartes uma explicação bastante satisfatória para as revoluções dos corpos celestes. Entretanto, a humanidade se convenceu com a demonstração de que as supostas causas

52 desses efeitos maravilhosos não apenas não existiam de fato, como eram absolutamente impossíveis, e, caso realmente existissem, não poderiam produzir os efeitos que lhes eram atribuídos.” (51) A Teoria da Relatividade, a ciência nuclear e a realidade virtual, visivelmente demonstrada em qualquer monitor, consagram Locke, Smith, Tocqueville, Jefferson, Poincaré, Einstein, Planck, Bohr, Bose, Schrödinger, Heisenberg, Popper, Whitehead, Hayek, Sen, Prigogine, e atestam a impropriedade metodológica cartesiana. Por ironia, é a própria ciência que, pela mesma cadeira matemática endeusada, deparou-se com a paradoxal impossibilidade da verdade absoluta: “Outra noção que chegou ao mundo da ciência como um soco no estômago, trazida pela Teoria do Caos, foi o reconhecimento de que, a partir de uma certa escala de considerações, é impossível separar as coisas, resolvê-las individualmente e depois tornar a juntá-las para obter a solução final. Idem para a proporcionalidade de causa e efeito. Causas pequenas se amplificam em efeitos catastróficos.” (52) Não nos seria lícito e muito menos justo, todavia, simplesmente lançar às chamas todo o trabalho e técnica empregada, esforços aperfeiçoados e exercitados por mais de três séculos. O apoio logístico cartesiano serve à investigação e ao conforto. Inúmeras dessas ferramentas foram e serão, reconheça-se, essenciais para o desenvolvimento da vida e da mais avançada ciência. Por seu método alcançamos construir nossas moradias e velozes veículos; a correlação algébrico-geométrica, traduzida atualmente como geometria analítica,

53 permite à NASA o sucesso de suas empreitadas; a biologia, a medicina em geral, diante às prementes soluções que se vêem envoltas, nele se agarram desde a primeira lição. A matemática e a exumação esbanjam resultados, importantes e necessários, até para o trivial. Quase tudo se deve ao método, impossível pensar em sua ausência... provocaria um buraco negro na existência da civilização. Em nome do atual estágio científico e social, porém, urge enfatizar: Descartes se equivocou nas premissas, por incompletas e preconceituosas. O tempo, malgradas coincidências, não é tão toscamente engrenado tal qual relógio, quando se sabe que depois das três, vem as quatro. São apenas convenções. Nem satélites, tampouco computadores podem descrever o que virá. Certamente nunca conseguirão. O futuro é delineado a cada instante, pela natureza e por cada um de nós.

Platão: DUAS . quando lhe tiramos a quilha. Fustel de Coulanges (1) Estado: dominação dos perversos. a dos seres humanos. sem forma de embarcação. surgiram de modo simultâneo e complementar. podendo ser morto ou reduzido a escravidão. não é mais República. exposto à ira dos inimigos e de seus deuses. de Johannnes Althusius (1557-1638) até hoje obtém êxito: “Assim como o navio não é mais do que madeira. pois além dos muros urbanos cada homem passa a ser estrangeiro. família.54 Capítulo IV NO RASTRO DO LEVIATÃ Perdendo a pátria o antigo perde tudo. sem direitos. “Seis Livros da República”. específicamente domínio sobre uma parte da natureza. liberdade e religião. num só corpo. sem um poder soberano que una todos os seus membros e partes.” (3) A metáfora nem era original. saíra da Grécia com o ás no volante. bens. também a República. A primeira. que sustenta o costado. a popa e o convés. sem defesa. Leon Tolstói (2) estratégias de domínio da natureza. a proa. e todos os lares e colégios.

Dividir o poder seria dissolvê-lo. salva os companheiros de navegaçaõ.” (5) O rigor e a lógica da soberania de Bodin só se põem verdadeiros na relevância da indivisibilidade(6) do poder. o francês é mais relevante do que Althusius e até mesmo do quase contemporâneo Maquiavel: “A obra mais importante do período de formações dos grandes Estados territoriais é De La Republique.” (7) “É necessário que os soberanos não estejam. de Jean Bodin. exceto a utopia impregnada: “A responsabilidade absoluta do soberano exige e pressupõe a dominação absoluta de todos os sujeitos.” (8) . quebrando ou aniquilando as leis inúteis para fazer outras. Napoleão.. depois desta dupla. e assim coesos. mediante a arte. algo que seria revivido pelo vizinho Hobbes. hipnotizados. na forma de governo. mesmo sem nenhuma dinastia a encantá-los. Na respeitável observação do senador italiano Norberto Bobbio. tendo por norma apenas a arte. Stálin. do que a mera aplicação da lei?" (4) Jehan Bodin (1530/1596) nascera ainda antes de Althusius. sem necessitar de leis escritas. nazistas e soviéticos se atiraram à miragem.55 " Do mesmo modo que o piloto.. sujeitos às ordens de outrem e que possam dar leis aos súditos. a tempo de ser cognominado “pai” do governo absoluto. estando sempre atento ao que é melhor para a nau e para os navegadores. de forma alguma. pelo filósofo da catástrofe. pelo patrício Rousseau e sua criação prática. Hitler e Mussolini. Hegel e seus exteminadores Lenin. obter resultados melhores. assim não se deverá igualmente esperar que aqueles que possuem aptidão para o governo possam.

no que o seguiu . cumpre tomar todo o cuidado para que uma coisa tão sagrada não seja desprezada ou posta em dúvida por disputas. da obediência aos súditos. Na Guerra dos Cem Anos. outra versão francesa do maquiavelismo. Ética. levou a idéia da razão de Estado na busca de fazer da França a maior potência européia. refrão positivista. Catarina de Médici.. depois. viu-se envolta pela interessante mística: “. aparece somente depois da teoria de Jean Bodin sobre a soberania. quase toda lastreada nas formulações do Direito Romano. por exemplo. e que esse é o principal fundamento do poderio dos monarcas. se havia alguma.. do temor de proceder mal e da amizade mútua para com cada qual. agere. pois. Richelieau. seguido pelo duque de Guise . Tornavam-se.mesmo os ateus estão de acordo acerca de que não há coisa que mais mantenha os Estados e as Repúblicas do que a religião.” (10) No esquema infalível do Vaticano.56 A legislação de outrora. de Aristóteles e de Santo Tomás de Aquino. pisoteadas. se esvaiam execradas.” (9) Bodin carregou o vagão platônico no qual viajaria Descartes: “A idéia cartesiana de um Deus legislador. da execução das leis. em 24 de agosto de 1572. pois deste ponto depende a ruína das Repúblicas. pupila de Maquiavel.leitura daquela natureza pela pena racionalista virava facere. a regente responsável pelo extermínio de milhares de huguenotes na famosa noite de São Bartolomeu. verbo originário de legere . Legislar. sobrou um aumento sempre crescente de poder. a França recebeu o absolutismo aperfeiçoado na ascendência do Rei Francisco I (1515-1547).chefe da fação católica mais fanática. inúteis. da reverência dos magistrados.

de propósito ou não e a necessidade premente de união para enfrentar a ficção ou a circunstância faz a teoria absolutista girar pelo tempo e espaço. A insegurança disseminada.” (11) Que crédito científico pode merecer essa sociologia. discutir. deviam ser prontas e objetivas. levando sempre em conta as invasões. O “inimigo comum” estava perfeitamente identificado. Há sempre que se considerar. Sagazes dela se locupletam para sedimentarem escusos arquétipos. Suas respostas. perdurando ainda hoje.57 Colbert. Embora embriões da sociedade civil. a óbvia ignorância dos responsáveis pela sobrevivência das gentes. já vimos sobejamente que os sistemas se baseavam na força bruta. essa ciência política amante de “divindades” reais e lucros irreais? . Na Guerra dos Trinta Anos o objetivo se pensara alcançado e o reinado viu-se mais forte. Governos não podiam titubear. além da costumeira má-fé de inúmeros aspirantes. imperioso liquidá-lo. ambos responsáveis diretos pelo mercantilismo francês. os operadores do festival de barbarismos apontados pela história. Sua obra exerceu influência nos escritos de Hobbes e Filmer. Bodin continua saboreando homenagens: “Suas teorias tiveram grande repercussão na França e na Inglaterra.

Foucault avalia: “Pode-se dizer que. como um dever e uma técnica. Cingiu assim os homens com seus atilhos de pavor. a estóica. encantou-os com seus feitiços. o cuidado de si foi considerado.. O indivíduo é que possui valor. o indivíduo. um sábio astuto. junto. A Sêneca. por consequência. em toda a filosofia antiga. o ser reflete a alma. altamente sedutora doutrina.. O descortínio de um mundo tão grande. e aterradores relâmpagos do raio aos olhos cegam. em cúpulas gigantes. e os intimidou – e a desordem mudou-se em lei e ordem. entretanto. Disse onde moram os terríveis deuses das alturas. ao mesmo tempo. rodeando-os de deuses em esplêndidos sólios.” (2) Com o descobrimento.58 Capítulo V O AXIOMA DO MÊDO Então veio... . o primeiro inventor do medo aos deuses. Crítias (1) OS estóicos derrubaram o mito da tribo orgânica. desaparecia a filosofia antiga e. uma obrigação fundamental e um conjunto de procedimentos cuidadosamente elaborados. em que a verdade se ocultava sob os véus de mendaz sabedoria. Forjou um conto. de onde ruge o trovão. parece.

indevida e completamente descabida do Estado. Do seu leito natural. Franceses. A Companhia da Baía de Hudson colonizava o Novo Mundo. reduzia o ser a insignificante tamanho. O atraso foi lamentável. a Companhia de Plymouth seguia-lhe os passos. há três séculos de Maquiavel. virava objeto da insaciável cobiça do Rei e. entre os cidadãos. e. o Estado. do Estado. açambarcando o imenso território como se fosse sua propriedade natural. Suecos e Dinamarqueses seguiram todos este exemplo. de modo que nenhuma grande nação europeia se beneficiou ainda da liberdade de comércio para as Índias Orientais. Em seu testemunho só cabia o lamento: “Os Portugueses monopolizaram o comércio das Índias Orientais durante cerca de um século. também a Companhia Inglêsa das Índias Orientais pode fincar sua administração no seio da Índia. graças aos privilégios. Quando os Holandeses.59 tão vasto. A primeira a se desarranjar foi a Economia. e só indiretamente e através deles é que as outras nações europeias conseguiam enviar ou receber bens desse país. Os Inglêses.” (3) Nesse ambiente vieram ao mundo as primeiras formações mercantilistas . próprio a ser tragado a granel pela garganta do bem superior. começaram a intrometer-se. no início do século passado.dádivas do soberano a seus amigos e parentes. Adam Smith. aventura de duzentos anos. por conseguinte. a Companhia de Londres formava o quarteto de maior realce: "Políticas mercantilistas para promover o comércio exterior do reino à custa dos . os Portugueses outorgaram todo o comércio das Índias Orientais a uma companhia exclusiva. ainda convivia com a intromissão inoportuna.

Não necessitavam seus governantes muita criatividade para tratar do ingresso de divisas no País. mesmo com a avalanche de argumentos bélicos. exercitando libertar-se de intempéries políticas e barbarismos governamentais.” (6) As contribuições dos cidadãos inglêses para com a Coroa. mas a brasa da tirania reascendeu pelas mãos do segundo Stuart. exceto para enganar e depois dizimar o povo inca. O déspota sabia como sugar recursos provenientes do suor alheio. Felipe II. Pela metade do século. especialmente os holandeses. começaram à época de Cromwell e tiveram prosseguimento com Carlos. assim declarava a Petição de Direito. de 1628. “O Torturador”.60 rivais. pai do Estado Leviathan. (5) Robert Nisbet quase concorda: “poucos são os escritores que tiveram maior influência do que Hobbes no desenvolvimento do moderno Estado centralizado. até porque daí saía a alimentação para o enorme contingente requisitado para a formação da “Invencível Armada”. a moderna democracia engatinhava célere. Foi quando um grande retrógrado e sofista da ciência política inglêsa suspirou batizado de Thomas Hobbes (1588-1679)." (4) A Espanha levava a vantagem inicial pelo domínio da inesgotável fonte da América Latina. restritas pelo Parliament. contornando o poder legislativo ao revigorar leis obsoletas. mantinha fortíssimo controle sobre o comércio e a agricultura. Carlos I. até Hegel”. “o maior filósofo político da Idade Moderna. no dizer de Bobbio. multas por . eram controladas.

a fim de aferir a intensidade do obscurantismo e conseqüentes rapinagens predatórias. quando da aproximação da Invencível Armada à costa britânica. (7) Não nos é tão difícil remeter a imaginação àquela época.61 descumprimentos e tungas diversas. escrita por juristas que com freqüencia tiveram um envolvimento prático direto nos negócios de Estado. Stuart culminou a afronta ao anglo-cidadão com a coincidente simpatia ao monopolismo católicoromano. especialmente as ship moneys *. Como morcego. Bobbio relembra como “as primeiras histórias das instituições foram histórias do direito. A guerra civil se precipitou levada a cabo pelo destemido puritano deputado Oliveiros Cromwell. (9) ______________________________________________ * Ship moneys : Contribuição pecuniária compulsória à construção de navios. que desapareceu em Lonres quando Hobbes ainda era criança”. o imperialismo preconizado por Maquiavel e agora por Hobbes fazia da escuridão geral seus instantes prediletos. .” (8) Thomas Hobbes havia nascido de parto prematuro. primeiro e único verdadeiramente “ditador” conhecido em terras inglêsas. para consagração de Hobbes. A mãe deu luz a um semi-macunaíma fruto do acasalamento com um “vigário de pouca cultura e temperamento violento.

que havia freqüentado assiduamente a corte fazendo-se passar por matemático (mesmo que pouco soubesse dessa disciplina) se desgostou ali. estava presente na execução do próprio “amigo” Carlos I (1648)..” (11) Bemvindos eram os avalistas à essa pretensa verdade objetiva : “Nos primeiros anos. aparentemente. regressou à Inglaterra nos tempos de Cromwell e publicou uma obra muito malvada. em 1605. 1629-1630. presenciou a conspiração de Poudres. as execuções de Strafford e Laud. tese apoiada. o assassinato de Henrique IV. a partir duma concepção puramente materialista da natureza do homem.” (10) Chevallier complementa: “Hobbes justifica racionalmente o poder absoluto. (1610) em Paris. egoísta e perseguido por fobias.62 O filho do vigário cresceu em Oxford. pela doutrina dos decretos absolutos. de título muito raro: Leviathan.” (12) Russel levanta: . fez três viagens de estudo ao Continente (1610-1613. Sua tese principal era de que todos os homens atuam devido a uma necessidade absoluta. a derrota naval de Naseby (1645).. doutrina de geral aceitação nesses tempos.. Sustentava que o interesse e o mêdo eram os princípios fundamentais da sociedade.. 1634-1637) que lhe permitiram entrar em contato com os grandes filósofos e cientistas da época (aproximou-se de Descartes e Galileu). para depois ser estigmatizado por outras atrozes coincidências: embora amigo íntimo dos Stuart (pelo menos se passava com tal) e até tutor de Lord Cavendish. para a ascensão do encomendado Cromwell: “Hobbes. por fim.

63 “Durante esses anos em Paris.. “ (14) Wilson de Lima Bastos também possui a ficha de Hobbes: “Sucessor de Bacon. Foi adepto da moral utilitarista. A sensoriedade perde seu brilho e converte-se na sensoriedade abstrata do geômetra. em certas ocasiões entre 1621 e 1625. não menos que a Bacon. A admiração de Hobbes pela matemática era maior do que sua habilidade nessa ciência. e o professor facilmente venceu a controvérsia. sem dúvida. Hobbes chegou a conviver com outro belo par . ele .” (13) Na grande ilha.” (15) Até Engels pode reconhecer suas raízes: “Hobbes sistematiza o materialismo de Bacon.. sofreu influência da filosofia matemática de Descartes e afirmava que toda a substância é corpórea e todos os fenômenos se reduzem a movimentos. O movimento físico sacrifica-se ao movimento mecânico ou matemático. mais uma vez associou ao círculo de Mersenne e conheceu Descartes. Pelo relato de um antiquário seu contemporâneo.. sabe-se que Hobbes. também seu pensamento filosófico. secretariou Bacon ajudando-o a traduzir alguns de seus Ensaios para o latim. a política e as intrigas da Corte afetaram sua existência e..” (16) Bertrand Russel ironiza: “É bastante conhecida a história do primeiro contato de Hobbes com Euclides: ao abrir casualmente o livro no Teorema de Pitágoras. a geometria é proclamada à ciência fundamental.o carrasco da natureza: “Thomas Hobbes é outro filósofo cuja vida está vinculada à monarquia inglêsa.

ou. a começar pelo mais ferrenho defensor do “utilitarismo”. em suas viagens internacionais. que as únicas ciências a progredirem o bastante para transformar radicalmente a concepção do cosmos haviam sido as que aplicaram o procedimento rigorosamente demonstrativo da geometria. isto é impossível’. aqueles produzidos pelas rudimentares . a filosofia civil.” (18) “Dessa matematização do saber científico. um clarão provocado pela idéia da utilidade da geometria na medição dos campos." (20) Todos exibiam o mesmo desiderato. protótipo da ética geométrica. Não se pode duvidar que este tenha sido para ele um momento de volúpia. como ele a chama. a originalidade da vida consistia em escapar da morte. ao chegar aos axiomas. pela falta de distinção entre a ciência e a filosofia. na qual não se pode deixar de ver uma plena adesão ao clima cultural do século de Descartes. de trás para frente. e prosseguiu lendo as demonstrações. tão somente.” (17) Para Hobbes. acabou se convencendo. até que. como alguns dos maiores cientistas do tempo. através dos contatos que fez. o também britânico Jeremy Bentham. Preferia a má temática: “Depois de se ter dedicado durante anos a estudos exclusivamente humanistas. Hobbes se convenceu.” (19) A bandeira do altruísmo social. deve participar – segundo Hobbes – também a ciência política. mesmo inglêsas.64 exclamou: ‘Meu Deus. "incansável e infeliz autor de projetos legislativos que deveriam instaurar o reino da felicidade sobre a terra. mas os fenômenos objeto de computação só poderiam ser. (!?) sensibilizou gerações.

desse modo. embora repleto deles e de sentidos. recebendo impulsos provocados por corpos em ação externa. movimento “animal” um pouco diferenciado porque “suscetível a paixões e vontade pelo lado interno. o Estado poderá ser figurado como o primeiro produto artificial da idade moderna. Como muito bem diz Japiassu. que será chamado precisamente de idade da técnica. encarando o rigor mecanicista das forças naturais. é dotado de cérebro consciente. a instintos.65 ferramentas e parca imaginação. mas o homem. (22) Confuso em pensamento. inicia-se certamente aquele processo de tecnicização . “a inteligência só pode aplicar-se à vida reconhecendo a originalidade da vida”. Hobbes e Bentham não souberam atentar para o fato de que tanto animais irracionais como o próprio homem são submissos a necessidades elementares. em desejo. O raciocínio político encetado por cálculo. produto da circulação de seu sangue.” configurações tipicamente dialéticas e cartesianas que os trens da psicologia e da tirania souberam muito bem transportar ao longo dos séculos: “O conceito de pessoa cede lugar ao de máquina. Hobbes só podia mesmo conceber o “homemmáquina”. (21) Esta filosofia não pode ser mais preconceituosa. Sua tradução numérica não pode ser mais arbitrária. E a partir dessa figuração do Estado como máquina. em discurso. por isso alienado: “O utilitarismo considera que o prazer e a dor são critérios que determinam a justeza da ação do indivíduo”. por tudo que pode ser “tomado em conta” forja um sistema de pensamento encadeado num subjetivismo extremado.

ávido de paz para si próprio.. o primeiro passo de uma cadeia causal que uma vez em movimento não necessitava maior ajuda..converte-se em Estado neutro. com as obssessões de um coração cheio de temor. do positivismo jurídico. pelo qual este último . mas convertido em máquina sem vida. a filosofia de Hobbes “foi pior ainda”: “Para ambos a tarefa da filosofia foi de reduzir tantos fenômenos como fora possível a um sistema de explicações baseado nas leis de movimento. fanaticamente mecanicista.” (23) Chevallier o entende: “É fruto da curiosa combinação de um potente e rigoroso espírito. assim. sem nada vital nem mágico nele. Para Hobbes. pela primeira vez. perfume.tornando-se independente de qualquer conteúdo político ou convicção religiosa ..” (24) Se para Jean-Baptiste Rousseau a filosofia de Descartes cortara o pescoço da poesia. Eis-nos.” (27) .. como para seu país. Deus não era mais do que o primeiro motor.. (26) Ralph Cudworth protesta: “Criaram um mundo morto e de madeira. que está a milhares de quilômetros do Estado medieval. não a expressão poética”.66 do Estado. diante do Estado moderno. sabor e som. em Estado com mecanismos de comando. A ciência havia estendido os limites do universo.. em nenhuma parte.”(25) O transplante foi desastroso: “A concepção do universo que por sua influência alcançou aceitação geral era um mecanismo dirigido por princípios matemáticos e falta de cor. que marchava de acordo com forças capazes de ser formuladas matematicamente. como se fora uma estátua talhada.

que autorizaria a intervenção de técnicos qualificados. mas antes a representação da ordem política como um gigantesco autômata. Marx não o menciona. conforme prova claramente esta obra. mas a afinidade é evidente por vários ângulos: “Materialista inveterado. de 1630: “À maneira de Descartes. nada mais exato do que a matemática. (28) Para tanto. Hobbes via tudo como tangível e todos os fatos como mecânicos” (32) .67 Bastos explica: “O essencial para Hobbes não era a desmistificacão do poder. cujas conclusões tornaram-se atualmente indiscutíveis. poderiam modificar o curso da vida social num sentido favorável a maioria dos interessados”. indicava o próprio homem como repositório de mecanismos. ele concebe o mundo nos termos de um estrito mecanismo. Nossas ações seriam previsíveis porque se pensava restritas a apetites ou aversões à matéria. como os dedicados de então.” (29) Por isso suas aventuras no campo: “Sabe-se que Thomas Hobbes ficou fascinado pela geometria euclidiana. Governantes sensatos.” (31) Thomas.” (30) O protótipo mecanicista-social veio no Short Tract on First Principles... mas combinava. aquela que ele mesmo diz ser “a única ciência que até agora Deus quis presentear o gênero humano. a geometria. inspirados pela razão científica. em termos de movimentos que caracterizam corpos definidos pela sua extensão e forma. mas antes de Descartes. tudo embrulhado no puro e primário empirismo*.

Descartes para ambos..” (33) Russel enfatiza: “Assim como Galileu e Descartes. o materialismo simplesmente não tem objeto.” (34) ___________________________________________________ *Empirismo: "O empirismo sustenta que toda a afirmação para que expresse conhecimento está limitada por algum processo experimental". já velha analogia do relógio. coroando-lhe com a pretensa cientificidade que reduziu a nação à mera engrenagem. se matéria é apenas energia em repouso. 88.Arrogância Fatal . é preciso conhecer os elementos de que ela é constituída. segundo a qual qualquer conhecimento deriva da experiência. Hobbes sustenta que tudo o que experimentamos é causado pelo movimento mecânico dos corpos externos. Lacoste. Os erros do socialismo . Jean.p.68 (Aqui jaz a mais notável gafe científica de Hobbes. dando o exemplo do relógio. defendida em particular por D. “Ratiotinatio est computatio”. Friedrich August von. 223. machina machinarum: “Na própria introdução ao De Cive declara que. e apenas dela". repetida por Marx. avança no pano e só colhe o vazio!) O homem dotado de razão seria capacitado a operar cálculos. Então. Galileu para a física. p. . julga-se Hobbes à altura para revolucionar a política. Empirismo: "Doutrina. Hayek. "A Filosofia no Século XX". Hume. Como touro espanhol. Se E=mc2. para se conhecer uma coisa. cujo funcionamento só pode ser plenamente compreendido quando desmontamos.. o que o platônico Euclides fizera para a geometria. ou seja.

enquanto o governo o tinha sob suspeita devido a seus ataques ao papado. Como Bacon e Maquiavel. mas os franceses souberam afastá-lo. considerando a filosofia como uma espécie de matemática.” (35) Somada ao grave equívoco metodológico. subtrai. não titubeando em professorar essa matéria cuja essência mal arranhava. intitulado The Leviathan. que soma. ao galante de Cromwell: “De volta à Inglaterra. o despotismo. Os ensinamentos foram exercitados em Paris (1646). mesmo virtual. tornou-se um dos precursores do materialismo positivista. o método. a conclusão.” (37) Que belo motivo para uma ciência política. Em 1651 Hobbes apresentou o resultado dos mirabolantes cálculos. Hobbes gravitava em torno do poder. Rousseau cataria a garrafa do gênio. Trevor Roper sintetiza o enredo. com as consequências: “O axioma. alocada a serviço da sua “produção teórica”: “O medo constante de uma morte violenta impede a humanidade de respirar. Foi logo visto como oportunista e repudiado até por outros exilados.69 Os parcos conhecimentos não lhe impediram de ministrar matemática. inevitavelmente. o qual tomamos emprestado para anúncio do capítulo. ao futuro rei Charles II. a lógica.” (36) Ele próprio não teve escrúpulos em esconder: “O temor e eu somos irmãos gêmeos. o programa (problema) mental de Hobbes. o medo. na França também de quarentena.” (38) . Em fins do mesmo ano. Um século depois. a traumatizada sensibilidade pessoal foi. consagrar-se-ia pioneiro da sociologia positivista. combina e separa as coisas suscetíveis dessas operações.

como o universo. bastante conhecido de Hobbes. como assegura Dewey: “Um empirismo que se contente com a repetição dos fatos passados não encontra possibilidade para a liberdade”.70 Sem dúvida que os traumas pessoais foram preponderantes na formulação teórica desse triste sujeito. era esse um dos fundamentos da doutrina política do primeiro e mais célebre teórico do absolutismo. e.”(42) . mas coube a Cromwell. Jean Bodin. é uma simples máquina. armado por Hobbes. Para Hobbes a mente humana. de resto. o “Rei divino” defenderia o povo diante das fatalidades impostas pelo espírito “maligno” do indivíduo.(39) Decerto ele nem sabia o que com ela fazer: “A tradição de Hobbes nunca concebia a imaginação como força criadora. ou seja. A presunção de reincidência dos infortúnios vividos só poderia excluir a democracia e a liberdade. impor a doutrina de Bodin e Boussuet: “Afirmando que a autoridade provinha de Deus. ele restabeleceu o que praticamente equivalia ao direito divino dos reis.” (40) As fontes de Bodin e Bousset continuavam usadas a justificar a pretensa lógica do Estado absolutista para a defesa da população: “ A indivisibilidade do poder soberano é uma das idéias fixas de Hobbes. Nos trinta anos de reinado católico dos sucessores Charles II e Jaime II invocou-se a autoridade religiosa para a imposição dos respectivos desmandos. e de uma máquina não cabe esperar nenhuma criação.” (41) Na imprescindível religião.

non veritas. E aqueles que empreendem reformar o Estado pela desobediência verão que assim o destróem”..” . o simples capricho real já determinava a obediência incondicional: “Autorictas. como a curto prazo será dissolvido. mas unicamente com vista ao seu próprio interesse.”* (43) O individualismo benevolente e confiante do internacionalista Hugo Grotius diluia-se no pessimismo dito realista de Hobbes: “Retirem seja de que Estado for a obediência (e conseqüentemente a concórdia do povo) e ele não só não florescerá. de modo que a perda da convivência social traz consigo doença e sofrimento. facit legem: "É a autoridade. ou. nasce do temor mútuo que existe entre os homens. portanto excedendo a Verdade. e não da boa vontade mútua. e não a verdade. facit legem.” (46) ______________________________________________ * Autorictas.” (45) Não é o que pensa o notável neurocientista chileno Humberto Maturana. não o faz a fim de conseguir a sua realização pessoal. non veritas.71 Além de Deus. por exemplo: “A constituição biológica humana é a de um ser que vive no cooperar e compartir. Quando o homem procura a comunidade. quem faz as leis. em virtude de uma tendência natural que o faz procurar seus semelhantes. como pensava o fundador da Escola. vejamos a seqüência do seu pensamento pelo detalhista Prelot: “A essência da natureza humana é o egoísmo e não a necessidade altruísta da vida em comum. (44) Para melhor aquilatarmos a preponderante mediocridade que comandou o raciocínio de Thomas Hobbes..

Toynbee não perdoa o absurdo: “Em termos religiosos. ele era “a razão em ato”. afinal. quiçá mais apropriado. este tratamento do indivíduo.” (50) Dessa incrustração metida a racional também saiu a cola do “cientismo marxista” ou. como para Maquiavel no século anterior. “marciano”. é uma negação da relação pessoal entre a alma e Deus e uma substituição do culto de deus por um culto da comunidade humana . ainda. pelo que possui de inusitado e desumano: “ .. em troca da segurança.72 Giddens também desfaz a confusão de Hobbes: “No entanto. o egoísmo deveria ser distinguido do individualismo.” (47) Tanto para o novo maquinista do Estadomonstro.. característica do Estado burocrático moderno. isto é..a historiografia hobbesiana foi descobrindo conexões cada vez mais estreitas entre sua concepção materialista e mecanicista do mundo e o nascimentocrescimento-triunfo da ciência moderna.o Leviathan. “marxiano”. considerado simplesmente como parte da comunidade.” (51) . nem (necessariamente) leva a ele. O culto do Leviathan é uma enormidade moral. (no sentido de um grande absurdo ou de uma anomalia moral) mesmo em sua forma mais nobre ou suave..” (48) The Leviathan (presumia-se) só poderia realizar o bem à nação. o povo deveria conceder tudo ao soberano. “a interpretação do Estado em termos mecanicistas nos quais se reflete a gradual tecnização do aparelho estatal. a machina machinarum. ou. que nem brota dele. a repulsa ao isolamento que está onde não devia estar. (49) Carl Schmitt. apreciava esta estupenda máquina. no auge nazista.

e foi filosoficamente elaborada por Santo Agostinho. no primeiro e segundo. destarte rotulando-os virtuais desestabilizadores. o “filósofo do mêdo” rechaça a formação e a vigência de partidos. como se sabe. doença. em tese. Ingenuidade ou esperteza? Daí ao Leviathan passaram-se nove anos de mau juízo sobre nossa natureza: “O Estado de Natureza descrito por Hobbes é aquele em que cada um vive por sua conta e precisa cuidar da própria defesa. . pelo que termina em uma guerra de todos contra todos”. como corolário da tese do Pecado Original. morte. The Elements of Law Natural and Politic apresenta a célebre conclusão. na Bíblia. bestas selvagens. na verdade premissa. as crenças infundadas já vinham atravessando gerações: “A afirmação mitológica da maldade inata na natureza humana encontra-se. preconceito: homo homini lupus. de cujas vontades e ações dependem esses acontecimentos temerosos.medo de fome.* De Cive pousou dois anos depois. “factions or conspiracies”.. a mente humana cria seres ilusórios mais ou menos análogos a ela mesma.” (53) A superstição. Por dois capítulos. pode explicar: “Com o homem primitivo é acima de tudo o medo que invoca noções religiosas .(52) Einstein.73 Em 1640.” (54) _______________________________________________ * Homo homini lupus: o homem é lobo do homem. Ela está explicitada no episódio de Caim e Abel.. Já que nesse estágio da existência a compreensão das conexões causais é geralmente pouco desenvolvida.

C. por isso. p. em 9 de junho de 1937..Estado x cidadão .. _______________________________________________ * Rosseli. do Poder Executivo. autoritário sem limites (. A prepotente e covarde antítese proposta .” (56) Qual consequência? Responde-nos Rosseli*: “Sem homens livres não há possibilidade de um Estado livre.” (55) A consequência do “falso sistema” pilhado por Taine foi lamentada por Bertrand de Jouvenel: “O Minotauro é um protetor sem limites. contudo. O estado civil só seria possível mediante a condução paternalista autoritária.” (57) Manuel da Costa Andrade reitera: “Nada.. Cardim. na Normandia. ele não vislumbrou nenhum papel ao Judiciário. por isso mesmo. (58) Estaria Hobbes.74 Na queda religiosa. Taine desconsidera essa “natureza” humana sentida por Hobbes: “O homem não é inimigo do homem a não ser por meio de um falso sistema de governo. Cit. por isto também exclusiva. 15 .) As pessoas têm o sentimento de que já não há espaço para o que dantes se chamava de vida privada. Carlo (1899-1937). assassinado brutalmente pelo regime fascista espanhol. interessado numa produção constitucional? Além de abominar partidos. mas.H. o medo recíproco e generalizado poderia ser minimizado com a praticidade leviatânica. depois de impiedosa perseguição.tornava cada vez mais nítida a discrepância da contenda. mais instante e mais oportuno do que a proclamação e apelo para a dignidade humana como valor polar da ordenação constitucional”.

O modelo mostra a certeza da onipresença salvadora do soberano e seu Estado. um Leviathan.”. apta a alimentar e socorrer da natureza perversa do semelhante: “É como um gigante constituído de homens comuns..” (62) Tudo veio mesmo relembrado pelos pregadores católicos da Idade Média. É maior e mais poderoso do que o homem e. 104:26). é como um deus.. The Leviathan é “uma espécie de crocodilo. como se sabe.” aduz Meira Penna. pela segurança do todo. “legitimado pela maioria. montado e mostrado como uma engenharia perfeitamente organizada. dragão. (60) A capa original traz o desenho do monstro coberto por uma multidão de indivíduos microscópicos grudados como sanguessuga no corpo do boi. em nome do todo. como corolário da tese do Pecado Original.” (61) Meira Penna aprimora o liame: “A afirmação mitológica da maldade inata na natureza humana encontra-se. baleia ou serpente marinha. por conseguinte.” (59) A célebre obra tem o título extraído da Bíblia. embora compartilhe com os homens comuns a mortalidade. embora para Thoreau e para muitos a maioria governe não porque possui “maior probabilidade de estar com a razão. termo citado em Jó (41:1) e nos Salmos (74:14. e foi filosoficamente elaborada por Santo Agostinho. mormente quando Aurelius Augustinos * valorizou o sino daquele . na Bíblia.75 O cidadão sucumbia diante do todo. Ela está explicitada no episódio de Caim e Abel. mas porque é fisicamente mais forte. nem porque isso pareça mais equitativo para com a minoria.

existe algo que o constitui como tal e este algo é a soberania. prover e congregar: “Recordem o esquema do Leviatã: enquanto homem construído. que Hobbes diz ser precisamente a alma do Leviatã” (64) Einstein rechaça a premissa usada por Bodin. a presença do grande protetor substituto. o Leviatã não é outra coisa senão a coagulação de um certo número de individualidades separadas. mas no coração do Estado. mas Abel não fez o mesmo. mister. . unidas por um conjunto de elementos constitutivos do Estado. Boussuet e Hobbes: “É nisso que aqueles que se empenham em melhorar a sorte do homem podem fundar suas esperanças: os seres humanos não estão condenados.” (65) ______________________________________________ Aurelius Augustinos : Nome original de Santo Agostinho. a aniquilar uns aos outros ou ficar a mercê de um destino cruel que eles mesmos se afligem. quando todos se congregarão” (63) Até lá. o Estado e seus tentáculos que penetram as veias sociais a rientar. defender. em sua cabeça. fiel ao seu caráter peregrino e de hóspede temporário. em razão de sua constituição biológica. É que a Comunidade dos Santos não é deste mundo. embora aqui tenha dado origem a cidadãos através dos quais se realiza sua peregrinação até que chegue o tempo de seu reino. ou melhor.76 pecado original e da essencial maldade do homem enquanto habitante da Terra: “Está escrito que Caim fundou uma comunidade.

na qualidade de membro. Ungido na sagração indireta. fez da Civitas Dei uma Civitas Terrena. como até a França. De fato. Rohden: “O conceito espiritual do reino de Deus degenerou numa instituição eclesiástica. não só a vida imediata inglêsa. Os ingleses atiraram a garrafa do gênio ao mar. no status civilis. embora até então propugnasse o filósofo do medo pela soberania real. diferentemente da linha eletiva por hereditariedade real sugerida por Maquiavel. entretanto.77 Einstein. com o agravante que esta cidade terrena é acintosamente proclamada como sendo a cidade de Deus. financeira que. rápido. substituindo a força do espírito pelo espírito da força. aí obteve seu maior triunfo. ensejando um “Cromwell” bem . militar. mas na costa francesa Rousseau a cataria para destampá-lo. pelo Parliament. não foram poucos os quadros tingidos com sangue. mas isso poderia ser bloqueado ou abandonado. O direito divino foi direito à morte: “Uma cabeça de rei cortada: espantoso sacrilégio que pudera ser cometido sem que o fogo do Céu aniquilasse imediatamente os culpados!” (66) Descreve-nos sobre o significado dessas confusões o prof. jurídica. política. sequer estava nos planos. ordem e obediência incondicional ao Estado. O governante absoluto agora poderia ser escolhido pelo próprio povo. Boussuet e Bodin. Cromwell estava.” (67) Todos possuiam sobradas razões para se resignarem com o pressuposto de que o estado natural do homem seria a guerra. do qual soube dispor o demagogo deputado para assumir o total poder inglês. Foi com essa balela que Hobbes acabou influenciando.

" (70) Thomas e Jean-Jacques não conheceram Marilyn: “Uma formiga submete-se a seu destino. integralmente submetidos aos interesses da sociedade global. a começar por Rousseau. Em verdade. nesses agrupamentos.Napoleão Bonaparte. a partir de então. onde procuraram misturar o . peões ao diletante: “ O único meio para isso é que todos consintam em renunciar a seu próprio poder e em transferi-lo para uma única pessoa ( uma pessoa física ou jurídica. ante a sorte individual de seus componentes. etc. terá o poder suficiente para impedir o indivíduo exerça seu próprio poder em detrimento dos outro. alienar-se no ideal supremo da igualdade radical.) a defesa da espécie parece ser o objeto soberano.78 mais faminto . um ser humano modela o seu.” (69) Existe na cruel proposta algum resquício de democracia? A sociedade vista por ambos é a mesma massa ignorante. formigas. em conseqüências. os indivíduos são apenas partes de um todo e.” (68) Para o duo perverso o indivíduo naturalmente deve se anular. Desinteressada e indiferente. térmitas. mais ou menos confessadamente (antes menos do que mais) tantos autores que se seguiram. como por exemplo uma assembléia). irracional: “Nas sociedades dos irracionais (das abelhas. mantém-se a comunidade.” (71) Poder-se-ia aproveitar algo se os presursores fossem menos dogmáticos na confirmação da ciência pelo poder totalitário. que. Davy corrobora-nos: “O De Corpore Político e o De Cive contém uma imensa quantidade de conceitos políticos em que se inspiraram. G.

” (75) Convém relembrar. Bismarck. a ditadura entronizada como lei suprema. O chefe de governo paira acima do bem e do mal. precursor do totalitarismo. (74) Joseph Viatoux confirma e acrescenta: “A doutrina do Estado de Hobbes é a mesma doutrina do Estado totalitário contemporâneo.ídolo e mentor intelectual de Mussolini. Nietzsche e Sorel . atingindo o ápice da performance há meio século. Franco. Tudo o que favorece o nacionalismo é bom. idêntico nas proposituras da dupla alemã: “A filosofia política de Hobbes culmina na conclusão de que “might is right” . a flagrante influência de Hobbes no pensamento de dois alemães defensores do extermínio . (72) Meio e fim apontam para o único horizonte: “A última conseqüência lógica da filosofia de Hobbes é o absolutismo estatal. e liga-o com Maquiavel. desde Tom Paine a Jacques Mourgon. as trágicas conseqüências foram gradualmente ampliadas. sendo o Governo suprema norma ética. . Lenin. De nação em nação. (76) Napoleão. de continente a continente. claramente. Vico. Mussolini. Salazar. o que o desfavorece é mau.” (73) Carl Schmitt não deixa por menos: Hobbes foi. Rohden destaca o maniqueísmo estratégico. Tito. também o começo de seu declínio. Roosevelt.79 conhecimento com seus próprios interesses e neste ponto há uma concordância geral de muitos estudiosos. Hitler. por fim.Hegel e Nietzsche. não havendo ética contrária a ele. Mao. depois de levar de roldão numerosos adeptos.poder é direito. estrelaram ótimas performances e ainda tiveram muitas crias.

ele não tiraniza. Ele cobre a superfície da sociedade com uma teia de normas complicadas. mas amolecida. guiada. ofusca e estupefaz um povo. os homens raramente são forçados a agir. dobrada. diminutas e uniformes.” (77) . oportunistas líderes políticos e inocentes povos. o poder supremo estende seus braços por sobre toda a comunidade. mas previne a existência. para sobressaírem no meio da multidão. cujo pastor é o govêrno. interesseiros.80 ideólogos. através das quais as mentes mais brilhantes e as personalidades mais fortes não podem penetrar. O equívoco ou o ardil científico-filosófico oferecido por Thomas Hobbes foi por demais grandioso. no tempo e no espaço: “Após ter então agarrado cada membro da comunidade e tê-los moldado conforme a sua vontade. embarcados em inúmeras estações. mas constantemente impedidos de atuar. enerva. até que cada nação seja reduzida a nada além de um rebanho de animais tímidos e trabalhadores. tal poder não destrói. A vontade do homem não é destruída. rumo ao precipício da estupidez. mas comprime.

Charles II foi se agigantando. deslize histórico. morria seu cavaleiro Lord Protector Cromwell.. mais conhecimento e. primeiro na pele de Charles II. A subserviência a Roma era o grande temor. “ (2) NO . Por esta época (1666) Locke tornava-se médico de Anthony Ashley Cooper (1621-1683). o ex-aluno de matemática do professor Hobbes. ainda veio para estreitar a ligação com o catolicismo. trabalhava com menor incidência empírica do que o próprio Locke: “Devemos os Dois Tratados ao prodigioso conhecimento das questões de Estado adquirido por Locke no curso de seus frequentes diálogos com o primeiro conde de Shaftesbury. The Parliament reindroduzia as dinastias reais. De 1660 a 1685. injustiça intelectual. Poucos sabem desse Lord Ashley. fazendo com que o catolicismo voltasse a ter força. o irmão que o sucedeu.81 Capítulo VI BALÃO MÁGICO A liberdade é uma necessidade fundamental para o desenvolvimento dos verdadeiros valores. desafiando. Albert Einstein (1) auge do intrépido Leviathan. Milhares conhecem Locke. pode-se afirmar. Provavelmente Ashley possuia mais capacidade.. a Câmara dos Comuns. o qual acabou por atribuir-lhe a função de assessor-conselheiro. paulatinamente. por várias ocasiões. mas Jaime II. acabando por gerar revoltas no seio da população.

.. contudo. Ashley ganhou este título honorífico Conde Shaftsbury. foi planejada para combater a interpretação mecanicista da realidade. porém.” (4) O paradigma fez-se no grande diferencial... Estava. dariam completa razão a estas suas precoces palavras: “Newton era um mero materialista. era forte. de fato.. mas sobrepujou a filosofia daqueles em seus esforços para salvar as artes dos efeitos das idéias mecanicistas: aspirou fundar bases não só para a verdade e a bondade. Sua intuição. como também para a beleza. também. Einstein e principalmente Max Planck. Brett relata-nos outras peculiaridades da rica percepção do “padrinho” de Locke: “Shaftesbury se deu conta. Em seu sistema o espírito é sempre passivo.82 Seis anos após Locke ter começado a lhe prestar serviços. L. espectador ocioso de um mundo externo. há motivos para suspeitar que qualquer sistema que se baseie na passividade de espírito deve ser falso como sistema. Se deu conta.. Por paradoxo e coincidência. que as doutrinas de Hobbes solapavam toda a interpretação espiritual do universo e convertiam a moral em simples conveniência. Tornou-se Presidente do Conselho de Colonização e Comércio da Royal Society discordando do grande Newton. que estas doutrinas e outras parecidas destruíam os estímulos da arte e as grandes obras artísticas da humanidade. na terra de Newton havia resistência ao mecanicismo cientificista: “Na GrãBretanha. trezentos anos depois. algo que nem Locke ousou. A filosofia de Shaftesbury. mais perto da verdade.” (3) R. em particular no final do século XVII. a metáfora do relógio foi tratada com muito .

como Sir William Petty. Ali estavam presentes o revolucionário cientista médico Thomas Sydenham e o Alchymistarum * Roberto Boyle. As primeiras incursões ao universo científico foram acompanhadas pelos amigos pessoais. O relógio sempre apareceu ali como uma metáfora de arregimentação e compulsão irracional. A plêiade tinha claro escopo: “A sociedade se comprometia a buscar conhecimentos úteis ao progresso do comércio e colaborar para fortalecer os alicerces da religião contra todas as manifestações de ateísmo mecanicista. de expurgados ex-colaboradores de Cromwell e de avulsos. época em que começou seu Ensaio sobre o Entendimento Humano. O exercício da física deveria ser restrito a homens de mentes mais livres. Locke. ______________________________________________ * Alchymistarum: Distinção conferida pela Nobili Anglo e Societate Regia. abrigo de cientistas de Oxford e Cambridge. dos EUA.” (5) Lord Shaftesbury tornou-se Chanceler. Compunham uma heterogeneidade mutuamente complementar. Secretário para a Apresentação de Benefícios. quase todos integrantes da recémfundada Royal Society.83 mais ambivalência do que no continente. pode participar da confecção constitucional da Colônia de Carolina. Na estada em Exeter House (residência Shaftesbury em Londres) Locke convivia com os círculos intelectuais e políticos que por ali gravitavam. este até então modesto agrimensor irlandês. . pesquisador capaz de oferecer algumas dúvidas quanto à velha teoria aristotélica dos quatro elementos.

apontando seu “desrespeito às antigas jurisdições eclesiásticas e civis. especialmente dos que compunham o Magic Group. em 1679.” (7) A ovelha negra marcava seu protesto com virulência. chegando ao ponto de atacar diretamente um daqueles famosos membros.. por isso não divulgados. Sete anos após. quando escreveu o documento. ao antigo govêrno..Além disso. e em 1671 Henry Stubbe disparou contra o pragmatismo baconiano. a Coroa cedia.. de 1662.. ele conheceu a França: “ . R. assim como Maquiavel. Locke . eles a levariam para suas oficinas e a obrigariam a consistir exclusivamente de molas. Boyle e formulou sua obssessão num inóquo Dialogus Physicus sive de Natura Aeris. (6) Os participantes possuíam outro segredo em comum: elementos obsessivamente políticos não deveriam ter acesso. o maior associado de Hobbes. pesos e rodas”. tendo como alvo o universo coperniciano. Hobbes foi a ovelha negra da sociedade inglêsa do seu tempo. A lógica argumentativa daqueles súditos mais ilustres. Bobbio relembra: “Como se comentou recentemente.(8) Apesar de naturalmente persistirem esses interessados no status de domínio. entre alguns marcados. no século precedente. Locke e Shaftesbury consideravam realmente o despotismo como um mal francês e. bem como aos governadores do reino”. por ali jamais transitou. Thomas Hobbes. mas os principais conceitos de Locke eram subversivos. De 1675 a 1679.84 se os mecanicistas fossem elaborar uma física sozinhos. balançaram o sistema. a Universidade de Cambridge organizou debate sobre filosofia experimental.

É certo. por Cambridge. onde vive o cidadão: "A democracia inglesa é a única democracia moderna que combina o sentido de independência e excelência com o impulso da classe média em direção à liberdade de consciência e à responsabilidade pessoal. um lógico mais exato que o senhor Locke. desde o núcleo até a extremidade. correspondence. de John Lough editor. Berkeley e Los Angeles. um grande matemático.” (13) Felizmente. Les relations intellectuelles de Locke avec la France. que a semente que germinou pela geração subsequente veio das mãos de Locke.85 acabava de voltar da França. tosca. mais metódico. antiecológica e antieconômica montaria do Leviathan para ascender pelo balão mágico da Revolução Gloriosa. a coletânea Locke’s travels in France (1675-1679) as related in his journals." (12) A frase de Voltaire poderia servir de epitáfio: “Talvez nunca tenha havido espírito mais sensato. não de Hobbes: "Montesquieu dizia que os ingleses eram o povo mais livre do mundo porque limitavam o poder do rei pela lei. and other papers. . não era. da University of California Press." (11) A Inglaterra apeava da limitada. após estudar o mal francês enquanto sistema político. perniciosa. Também há o estudo de Gabriel Bonno. contudo.” (9) Sobre a estada francesa.E o mundo começava a tomar conhecimento que poderia viver sob a égide democrática dividindo o poder. (1955) (10) São obras raras a nosotros aqui do terceiro mundo. existe a edição de 1953. contudo.

Apagão do Iluminismo receio do saque. Michel Foucault (1) Os livros de física. dificultando predadores ou dividindo carniças. chega a passar por “natural”. ou matilhas.Os povos. fornecem aos nossos filhos uma ciência tão socializada. tratados como manadas. O relativista sistema de Direito O .86 Capítulo VII O “PARASITA” O problema é ao mesmo tempo distinguir os acontecimentos. Gaston Bachelard (2) 1. ultimamente. graças a permanência curiosíssima dos concursos universitários. nem que fosse na guarida de Maquiavel e. deveriam estar unidos. uns a partir dos outros. Qualquer alienação era preferível ao terror. de Thomas Hobbes. sacrifício à sobrevivência. da violência e da morte provocava o desespero nas gentes. pacientemente. que vem sendo copiados uns dos outros. tão imobilizada que. diferenciar as redes e os níveis a que pertencem e reconstituir os fios que os ligam e que fazem com que se engendrem.

Para alcançar a meta e refrear o “homem lobo do homem”. confiável .que por isso mesmo precedem a formação de todo o grupo social e são reconhecíveis através de pesquisa racional . recomeçava a enxurrada de teorias utilitaristas de moral. levantado pelo Direito Natural. para a paz (guerra) de todos e comum defesa (ataque). _____________________________________________ * Direito Natural: Base constitutiva das relações entre cidadãos do Reino Unido. direitos e deveres naturais..87 Natural. Montesquieu e dos vários artífices iluministas só servia de moldura. pelo próprio fato de serem derivados de uma lei natural. mister aquele tipo de contrato (?!) no qual cada subscritor concordasse em renunciar ao direito de governar a si mesmo.) John Locke enalteceu o “Direito Natural” como a principal fonte. tonificado e investido de um poder soberano ainda maior do que o dos antigos reis.. na sucumbência da vontade individual! Em lugar do bem inerente a cada nascido. Só um contrato no qual um dos contratantes deixava de sê-lo (?!). Na cascata de Bodin. tudo salpicado na abstrata bandeira do bem comum e necessidade geral. 12. de acordo com sua concepção (interesse). Spinoza. é que poderia salvar a população. direitos e deveres que são. Lessing. Adam Smith. O jusnaturalismo é "a doutrina segundo a qual existem leis não postas pela vontade humana . porque montado numa força proveniente da soma dos poderes de todos. para entregar-se nas mãos de um gestor. como em toda e qualquer lei moral ou jurídica. p. para não dizer a única científica.das quais derivam. imbuído da competência de a tudo julgar." (Bobbio. Liberalismo e Democracia. política e valor econômico. o povo se viu governante. Norberto.* a filosofia de Locke.

American Democracy. mas o defere à parte maior da inteira sociedade. Prof. eliminas. Estado. no caso contrário.) . O Antigo Regime e a Revolução. que não sejam direitos já possuídos por cada indivíduo que age sozinho no justo estado de natureza inicial. trazida pela longa experiência. p. Na base de tudo está a convicção. governo.. não há poderes nem direitos exercidos legalmente por associações. p. a liberdade política não estimula um individualismo arrojado. todo o poder. sociedade. cit.) Alexis Tocqueville. J.127) Baruch Spinoza antecipara-se na observação de que “ninguém transfere a outros o próprio direito natural de modo tão definitivo que depois não volte a ser mais consultado. A. de que os que possuem direitos são compelidos a respeitá-los.. N..” (Spinoza. apresentação de Tocqueville. já lembrando Montesquieu quando propugnara pela virtude. enunciou o comportamento da cidadania pelas relações: “A idéia de direitos é meramente a idéia da virtude inserida no mundo político. John. 17/18. Dentro do contexto de democracia inglêsa.) John Rawls oferece concernente apreciação: “Todas as formas de cooperação social legítima são portanto obra de indivíduos que nela consentem voluntariamente. ela reforça a coesão e a unidade da sociedade. Bobbio. pois somente os homens livres podem cooperar verdadeiramente. Essays on the law of nature. da qual ele é um membro. Ao contrário. A. ao mesmo tempo. cit. p. inclusive pelo Estado. toda a cidadania. Foi claro: “Se eliminas a lei da natureza. pois. para uma teoria geral da política. 283. entre os homens. 145. (Locke. Locke e o Direito Natural. cit. Justiça e Democracia. 11. B. eles próprios serão os principais prejudicados. p. Bobbio. p.” (Tocqueville. Zevedei Barbu.88 e justa da própria Ciência Jurídica.” (Rawls. a ordem e a sociedade”. Norberto. atributo sem o qual não pode haver o sistema democrático.

a mãe era sacrificada. Os sintomas patológicos foram equivalentes: “Rousseau alude expressamente ao medo da morte que. Seu nome: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). foi o de se ter deixado preceder.89 O coletivo e seu correspondente científico . que Voltaire escreve sob o título O Sentimento dos Cidadãos (1765): o tumulto provocado na alma de Rousseau leva-o à .eram prestigiados com a força extraordinária de um insígne e letrado tripulante. Crescendo. pelo mundo afora. freqüentemente tomado como um dos “iluministas”.-J. À natureza. As aventuras megalomaníacas tem tudo a agradecer a excepcional sofista. para manifestar esta verdade.o determinismo cartesiano . mas abandonou seus próprios filhos num asilo de enjeitados: “O verdadeiro erro de J. diz. como em Hobbes. domina o homem. também ele veio com sua vida pautada pelo desastre. conhecido “inimigo na trincheira” do Grupo Enciclopédia. compele o homem usar todos os meios à disposição para escapar da morte. Desde o início assemelhado com Hobbes. duzentos anos adiante. mas que se fez como um dos maiores “corta-luzes”. pelo libelo anónimo.” (3) Já no próprio nascimento Jean-Jacques convivera com a morte . quiçá principal responsável pela confusão que ainda perdura no conceito de democracia e que redundou no cobertor de todas as ditaduras que se seguiram. Pregava sublimes reformas educacionais. “peso pesado” de fama mundial. Rousseau não foi o de ter entregue cinco crianças às Crianças Abandonadas. fracassou em quase todas ocupações. Sua filosofia: a “lógica” político-matemática. injurioso.

depois de terlhe enviado o “Discurso sobre a Desigualdade dos Homens”. Infelizmente. mais sincero que nunca ao dizer – escrever – que chegou a negar o ter tido filhos (Devaneio. Sua vida é uma longa cadeia de romances. Optou combatê-lo. Rousseau só aprendeu bobagens: “ Descobriu-se que Rousseau estava de posse de uma fita que roubara da patroa. Por seu próprios meios. a “teoria aberrante segundo a qual não convém ensinar as ciências à criança: esta deve descobri-la por seus próprios meios” (5).” (6) Historiadores qualificam a personalidade: “Caráter volúvel. propôs o que lhe atenuava a consciência. foi para ele simultaneamente mãe e amante. voltou ao calvinismo. 4. cada qual mais descontrolado e superficial.. Por isso ele é mais sincero do que nunca ao contar – escrever – o roubo da fita da pobre Marion e o silêncio que dá origem à expulsão injusta. permitiram-no estreitar uma ligação com o círculo da Enciclopédia.90 redaccção das Confissões. época em que Rousseau viveu em Paris. sua estada serviu apenas à clarividência de que não se afinava ao grupo. não lucrou com o convívio. deixou o calvinismo e se tornou católico. um edifício de asneiras. inconstante. consideravelmente mais velha do que o jovem leviano. até para ele próprio. (8) . nas quais fulgura o decreto: “O homem que pensa é um animal degenerado”. opondo-se especialmente a Voltaire.. Essa dama. (4) Em Èmile. Caminhada)”. mais tarde.” (7) Os doze anos decorridos entre 1744 e 1756.

seu novo livro contra o gênero humano. Rousseau prejudicou. o prazer da imaginação. A dialética platônica permeia sua própria personalidade.. melhor expressados na suspeita àqueles que recebiam sua amizade.. meu prezado senhor. e não posso tolerar o mundo como ele é(. Caminhada). eu não tenho a menor simpatia pelo mundo.e a recordação do pobre Marion persegue Rousseau durante cinquenta anos . muito obrigado.91 O sagaz ativista rebateu: “Recebi.outra. Nunca foi usada tanta inteligência humana para nos reduzir a meros animais.’ “ (10) E tome perfídias: "Rousseau não receia reconhecer que lhe aconteceu mentir e mentir muito. seu anfitrião lhe disse: ‘Senhor. logo ele. profundamente dividida. Entretanto.. embora soubesse ser integralmente maquiavélica. conflituosa.) a humanidade me repugna. como já há mais de sessenta anos perdi esse hábito.. o “idealista democrático”: “Quando James Boswell visitou Rousseau que mais do que qualquer outro francês do seu tempo influenciou a opinião pública contra a propriedade. . quando estava na sociedade dos seres vivos. Para estudá-lo." (11) Como Descartes. sinto que é infelizmente impossível readquiri-lo. mas uma coisa é mentir. que não prejudica ninguém (4. Vivo aqui num mundo de fantasia. negando a verdade e ofendendo a justiça . urge “máscara anti-poluente”. e muito.. na descoberta de complicadas e imaginárias conspirações para traí-lo e arruiná-lo.” (9) Jean-Jacques preferia evidenciar uma aura de estoicismo e auto-suficiência por truque ou má índole. a gente tem ganas de se jogar de quatro patas depois de ler sua obra..

sem acusá-lo frontalmente. Seus contemporâneos. todas suas misérias internas. Mes maux sont comptes par mes jours. Souvent le chatiment surpasse la faiblesse. do que gerações que lhe sucederam. todavia. “porque seus contemporâneos não foram capazes de alcançar tão alto conhecimento”. Imprudent quelquefois. Diderot. como alguém que só fosse reconhecido muito tempo depois. diante de si e do mundo.92 Condutas mórbidas de sexo e religião ocupavam a primeira fila de seus desejos: “Os meus gostos e pensamentos parecem oscilar sempre entre o nobre e o vil. trahi par la tendresse.de que tanto se orgulhava . a vida e a pessoa desse homem prestam-se admiravelmente para estudos de psicanálise”. Aliás. onde bem caracteriza a personalidade obtusa do renegado. Simplesmente o rejeitou. que pode bem conhecer a figura. inclusive. . talvez por um impulso do subconsciente de encontrar libertação psíquica nessa confissão pública dos seus pecados mais íntimos.” (12) Rohden comenta os procedimentos do “confesso”: “No seu famoso livro “Confissões” desabafa. A cidadania suíça . (13) Verso próprio mostra o que espelhava sua alma: “Deplace par le sort. dedicou-lhe uma obra romanceada – “Jacques. haja visto o hiato subsequente. Bizarro foi o mundo ocidental transformar o fatalista em herói post-mortem.foi-lhe suprimida: Genebra também identificou o adereço.” (14) O Parlamento de Paris o motivou à vida errante. persecute toujours. demonstraram muito mais conhecimento. o fatalista e seu amo”.

93 Outro paradoxo foi enterrá-lo na mesma tumba do grande desafeto Voltaire. tinha existência peculiar. o que. não se interessou em captar as mensagens expressas por Locke e Montesquieu. que provém sempre de uma racionalidade artificial. Costumes inglêses eram detestáveis. John Locke e Montesquieu se anteciparam a Rousseau e a Revolução Francesa ao requererem a separação entre Estado e Igreja. que “as rubras postas de carne era uma das causas da notória barbárie inglêsa. visto que "supõe aquilo que está em questão". porém. O “filosofo político” francês teve comportamento antagônico. sofreram a ridicularização deste Rousseau ocupado em demonstrar.” (17) Será que spaguetti poderia “endireitar” os inglêses? E Napoleão. responsabilidade individual. recusando-se a fazer dela um romance. no velho estilo platônico. especialmente o beef. Rousseau não alcançou. para Rousseau. sobre as quais se deitou a recompô-las à sua maneira. preocupando-se no ataque: "Locke escrevera a história da alma. nada criando. mas sua análise é falsamente histórica. apenas contrapondo. Locke não precisou atacar convicções religiosas e se afastou do determinismo materialista cartesiano. riscada por livre escolha. para o vigor da soberania popular. (16) Cada vida. A Rousseau interessava somente a apreciação coletiva. (15) Sob o crivo teórico. mesmo com o entendimento empírico exposto na “Tábula Rasa”. “a tantos quantos quisessem”. para Locke. certamente foi uma honra e uma necessidade: Sabine o identifica como um “parasita”. Hábitos alimentares. logo comeria carne ou criancinhas? Ou .

Aproveitando-se da acepção inglêsa de que no nascimento o bebê não tenha o “pecado original”. os oprimidos dos opressores.” (19) A exceção conseguiu sobreviver. na habilidade retórica.. porque ele próprio responsabilizar-se-ia pelo seu destino. talvez soe bem. o indivíduo é uma tábula rasa. do bonito: “O homem nasce livre em todo o lugar se encontra acorrentado”.94 os dois e mais um pouco? O que diria Rousseau se conhecesse as parrilladas argentinas ou o espeto corrido do gaúcho? Mas teria ele. Jean-Jacques propunha os românticos preceitos que iriam livrar escravos de patrões. tudo é possível a um legislador hábil e sábio pois. o povo do rei. disponibilidade financeira para pagar sequer um filet a cavalo? Embora demonstrasse só hostilidade.. Sem a proteção dos pais. ele a distorceu. mas na verdade o homem não nasceu livre. sem a proteção proporcionada a esses pais pela sociedade. vago no mundo. para enxergar nos cidadãos britânicos os “burros de carga”. não teria podido sobreviver. Liberdade na sociedade significa que um homem depende tanto dos demais como estes dependem dele. desde que houvesse um governo verdadeiramente democrático. Nasceu como uma frágil criança de peito. sempre alardeado pela Igreja Católica. mesmo órfã. o feio. (18) Ao que pondera Von Mises: “. conseguiu confundir. na ironia aos preceitos de Locke lá adotados: “Todo o povo é aquilo que a natureza de seu governo o faz. os jovens dos velhos.” (20) . meros figurantes do teatro real. perante esse legislador.

eventual abusado penalmente safado que usa sua soberania em causa própria. são via de regra mal- . pensadas. a que vinculou seus interesses”. pesadas. além de se ocuparem com interesses particularizados.95 Havia alguma concordância com o contemporâneo e patrício Montesquieu. Rousseau advogava a simples transferência do poder. covardemente. na “alienação total de cada associado com toda a comunidade”. mantendo-o unificado numa pretensa vontade popular representada por ação ditatorial. através de seus “representantes” . como titular de um poder soberano e inalienável. acabou se alienando no partido ou no grupo.” (21) O professor Bonavides retoma: “Até mesmo o cidadão que Rousseau fizera rei na ordem política. antes de promulgadas. enquanto Montesquieu dispôs a expressa divisão do poder na alternativa à Monarquia. Jamais se questiona se os “representantes” não estariam sujeitos as conveniências políticas. debatidas e resolvidas. estudadas. Ambos prepararam a Revolução. a da maioria. a fim de evitar radicalismos. porém. mas não com o método. (prerequisitos essenciais à virtude democrática). Dessa total alienação emerge um comandante moralmente inatingível.de “legisladores racionais”. precipitações. mesmo crimes e para que as decisões fossem. (22) Os representantes. tampouco com as concepções do inigualável autor de “O Espírito das Leis”. na promovida união de todos os indivíduos contra cada cidadão! Pobre do cidadão: “A ideologia chega ao seu ponto máximo quando coloca o direito como instrumento acionado por uma “vontade”.

para designar o seu patrão. mesmo a mais irracional.. e as apostas a acompanham naturalmente. ainda mais numa sociedade totalmente atrasada. Peões são fáceis de serem movimentados: . se bem divulgada. péssimos tradutores e piores formuladores. um jogo com o bem e o mal. (. mas qualquer ideologia. o jogador. onipotente.) Até mesmo votar pelo direito não é fazer alguma coisa por ele. combinam centralização e soberania popular.” (25) O jogo continua: recomenda-se não se alterarem regras. tutelar. bastava “que se conhecesse suas paixões dominantes e houvesse boa mão no encadeá-la através de ilusões”.. mas eleito pelos cidadãos. (23) Benjamin Constant (1767-1830) flagrou a perfídia: “Nossos contemporâneos imaginaram um poder único... com questões morais. com um ligeiro matiz moral. os cidadãos saem por um momento da dependência... Em 1792 continuava fácil subjugar as massas. como o de damas ou o gamão... Isso lhes dá um pouco de alívio..” (24) Thoureau igualmente tratou do alerta. mas sabemos de antemão serem elas sempre alteradas. O caráter dos eleitores não é comprometido. Num sistema desse gênero. tem chance de êxito. para beneficiar seu mentor.) Há muito pouca virtude nas ações das massas de homens.96 informados. na singela analogia: “Qualquer eleição é uma espécie de jogo. É apenas expressar timidamente aos homens o nosso desejo de que ele prevaleça. até hoje negligenciado. Consolam-se do fato de estarem sob a tutela pensando que eles mesmo escolheram os tutores. e depois nela reingressam. (.

como a psicologia social já demonstrou exaustivamente. Lênin e Hitler depois. ou seja o ‘clichê’. souberam construir a "opinião pública": “A fim de melhor compreender a arte da propaganda. entrando assim a constituir a chamada opinião pública. emoções.” (27) .97 “A massa se rege por sentimentos. Hitler estudou as técnicas propagandistas dos marxistas. A opinião das massas formando a opinião pública será por conseqüência irracional. a ‘frase feita’. a idéia pré-fabricada.” (26) Napoleão de cara. como diz Prelot. preconceitos. Não se iluda o publicista democrático a esse respeito. cunhando a expressão agora uso corrente no vocabulário político da propaganda: o ‘estereótipo’. a organização e os métodos da Igreja Católica. numa economia de esforço mental. que se apodera das massas e elas. aceitam e incorporam ao seu ‘pensamento’. a publicidade norteamericana e a psicologia freudiana. a propaganda britânica da Primeira Guerra Mundial.

aparece sob dois aspectos indissolúveis e complementares: de um lado. Diderot.." (29) “É assim que o cartesianismo. George H. inspira Holbach. XVIII. no século.” (30) Bertrand Russel também relaciona: “Afinal. Sabine (28) MAIS do que atacar as proposições básicas do iluminismo britânico. contribuiu muito para promover o materialismo dos séculos XVIII e XIX. como Idéia da Razão. Rousseau obtinha justamente no espólio cartesiano sua razão de existir e de propor: "Depois de ter percorrido o círculo estreito do seu vão saber. logo existo. fato que deve ter contribuído à sua exclusão do grupo Enciclopédia. o próprio Rousseau. o rígido determinismo da explicação cartesiana do mundo material.” (31) O próprio Engels confirma: “Entretanto. o materialismo transferiu-se da Inglaterra para a . Helvetius.98 2. Replay da má temática A ciência contém no seu método os germes que levaram as maiores aberrações como atividade social. é necessário acabar por onde Descartes começara. Eu penso. é ele que encontramos na fonte dos panfletos anti-religiosos assim como na origem do materialismo mecanicista.. tanto físico como biológico. Eis tudo o que sabemos. como método analítico. em especial quando associado à física de Newton.

“democrático” porque nascido como produto da chamada “vontade geral”. mas é possível é a subtração de todos. Tomaram para si o destino milhões. o materialismo não tem objeto. gostaram da inversão. Não só o Corso.” (33) Sobre cada qual.” (34) Realmente até poderia ser uma meta plausível. Hitler. coloca com eficiência o abstrato numeral da soma de todos como a verdade suprema a ser seguida e acatada. Valeram-se. Perón.” (32) Se E=mc2. que havia surgido do cartesianismo e com a qual se refundiu. caso “colado” em Maquiavel: “A soma de todos os bens individuais é. do subterfúgio. esta expressa. para não mencionar outros menos citados. onde o indivíduo se perde no grande corpo do Leviatã tonificado. um conceito extremamente misterioso que ele nunca define com clareza. contada e “legitimada” por estratégicos plebiscitos apurados em arbitrários resultados. o ideal supremo de Machiavel. Mussolini. se matéria é apenas energia estática. não fosse um pequeno desvio semântico: é impossível a soma todos. por outra: a tradução do anseio geral. Ou. pelo todo maior. precisa e ladinamente. mas a racionalidade cartesiana inverteu até mesmo as razões humanísticas. a aritmética cartesiana. arbitrária e friamente. Lênin e Stálin. assim questionada por Hans Kelsen: “Rousseau introduz aqui o conceito da 'vontade geral' distinguindo-o do conceito de 'vontade de todos'.99 França onde se encontrou com uma segunda escola materialista de filósofos. sem a menor dúvida. aclamado como “justo”. destarte. não se torna utópica e . dita uma norma não condizente com ninguém em particular. mercê da tal “inalienabilidade” de poder. (A lei. também Bismarck.

como denominar “Contrato” (trato com outro) um termo no qual uma das partes é forçada a participar? A “autoridade soberana” tampouco é divisível como preconizou Rousseau . porque se é parte do todo. (38) Se misturarmos todas as cores. a vida das comunidades não é uma simples soma das vidas individuais." (36) Vejamos a procedência de Jacques Barzun: “Por um paradoxo da existência social do homem.” (37) A proposta roussoniana é completamente inverossímel. teremos um cinza escuro. desconforme com a ciência de ponta.” (35) Aquela premissa só deriva em sofisma. pelo bizarro: “A relatividade consiste em conceber o mundo não como uma soma de acontecimentos (ou de pessoas. porque dele nada emana: “ A justiça. E nós nunca dominamos a história.. porém. a moral.. porque estamos sempre dentro dela.que falem seus próprios contemporâneos e os sofridos operários russos. tanto quanto nós. mesmo a nossa pro´ria história. posto que desatende a cada um. Finalmente. relembrando Thoreau.100 irreal. portanto incorreta. o direito. a liberdade só se realizam na medida em que se realizam singularmente nos indivíduos. Sobrou-lhes algum resquício de poder das tais Revoluções. os quais sequer são considerados cores. a pretensão de entender e legitimar um Direito emanado do todo... portanto a todos?) É inviável. quiçá preto. digo eu) mas de relações”. Quando se trata do todo. somos impotentes. ditas democráticas? . Karl Jaspers puxa a máscara: "A verdade é que nunca se conhece o todo. e Luckács também o é.

a volontè générale.” (39) Michel Villey detectou o charlatanismo: “Certamente o mito de “uma vontade geral com a qual se identifica a própria vontade de um modo quase místico.. a razão prática por que se permite que uma maioria governe. e continue a fazê-lo por um longo tempo. quando o poder finalmente se coloca nas mãos do povo. Afinal. O Estado . mas sim que a maioria é fisicamente mais forte. não no sentido físico de quantidade. Simon reforça: “O ideal de emancipar-se das velhas ataduras e o não menos certo propósito de formar um Estado altamente centralizado e racional foram proporcionados. não é a de que isto pareça mais justo para uma minoria. de tal maneira que. que eu. pela presente. de fato. entretanto. ao obedecer a vontade do povo somente. pela vontade geral. não desejo ser considerado membro de nenhuma sociedade juridicamente constituída a qual não tenha me associado. jamais.” (42) Einstein também arrasou com a “vontade coletiva” guiada pelos executores: “Creio que a missão mais importante do Estado é proteger o indivíduo e possibilitar que ele desenvolva uma personalidade criativa. Ives R. alguém permanece tão livre como no estado de independência nativa foi apresentado como premissa axiomática. era pretensioso e parecia elementar: “Os indivíduo podem enganar-se. Henry Thoureau. significando “valor” em sentido de qualidade.101 O sofisma..”(41) Talvez por esta contradição semântica tenhamos conhecido as declarações de Henry David Thoreau: “Saibam todos. “ (40) Axiomática deriva do grego axia.

Hans Kelsen admitiu: “Não se pode negar que. um revoltado que não merecia atenção. Mas Einstein. que a chamada “vontade do povo” é uma figura de retórica e não uma realidade. a quem interessaria? Depois das funestas experiências de Hitler e Mussolini. Bonavides o acompanha: “Nem sequer um doutrinário da democracia como Rousseau. Horizontal mais horizontal não dá vertical. enquanto massa de indivíduos de diferentes níveis econômicos e culturais. princípio tão aplaudido por Hegel. nós não deveríamos ser escravos do Estado. Somando e multiplicando-se quantidades. que somente o indivíduo tem uma vontade real.” (45) Kelsen faz-se num dos maiores. exceto a cadeia..nunca chegaremos a ter o valor positivo do “1”.102 deveria ser o nosso servidor. com a concepção organicista da volonté générale.. pode forrar-se a essa increpação uma vez que o poder popular assim concebido acabou gerando o despotismo de multidões. a ditadura dos ordenamentos políticos. somando ou multiplicando zeros. espaço e casualidade e que deste mundo de facticidades quantitativas não há nenhum caminho causal para o mundo da Realidade qualitativa..” (46) . sujeita às categorias ilusórias de tempo.” (44) Thoreau era tido como “anarquista”. Factual mais factual não dá Real. o povo não tem uma vontade uniforme.” (43) Rohden o explica por outros termos: “.. nunca teremos qualidades. Einstein admite que tudo que gira no plano das facticidades empírico-analíticas está numa dimensão meramente quantitativa. o autoritarismo do poder. senão o maior jurista de nosso século. portanto “nocivo”.

103 Os russos demoraram setenta anos para se darem conta do engôdo. (47) . Locke: “É também extremo respeito pelo indivíduo e consideração pela dignidade pessoal”. Tiveram que esperar Gorbachev. A Perestroika significa a (re)ascenção do velho paradigma de estóicos e de J.

lógica que não vacila em relegar o indivíduo à esterilidade criativa. compõe a mesma aquarela que serviu à badalação de Hobbes e seus trancados. tudo saliente em construção redacional de apurado maniqueísmo. de espírito tão mecanizado. Rousseau buscou obstinadamente desmoralizar o trabalho de Locke. esta natureza. no qual os homens foram criados e viveram durante milhares de anos. punha-se a decretar: “O estado de natureza. Não requer a menor criatividade. ao cidadão. o sono da razão e o desconhecimento da moralidade. pois. o desprezo e o desrespeito ao ser. Vilãsofia É necessário medir o que é mensurável e tornar mensurável aquilo que não o é. Galileu Galilei (48) ALÉM da rejeição à vida inglêsa. Cego. o puro e verdadeiro estado de natureza. O homem no estado de natureza é robusto. Implica o isolamento vagabundo. tão repleto de preconceitos.” (49) Este estado estúpido confundido como selvagem. quando não nefasta. só traduzi-lo. de toda a relação regular. a descrença nos semelhantes. a ausência de toda a linguagem.104 3. Repressão vira “orientação educacional-coercitiva”: “Mas a admiração pelo . ao indivíduo. empirismos e metas pessoais. é. vista tal qual Bacon como indomável. são e ágil. o estado selvagem. especialmente as concepções sobre o estado da natureza.

“tolerando” o indivíduo no homem extraordinário e mitológico em dois casos: “Legislador”. na realidade projeta um “maquiavelismo ao quadrado: o autor do Príncipe não só daria conselhos sobre fraudes mas também com fraudes”. No “abre-alas” saltita a idéia política mais característica. (51) O "capaz de mudar a natureza humana" via em Maquiavel um “grande republicano” que. Bertrand de Jouvenel. motivo pelo qual dever-se-ia extingui-la.105 legislador . obrigado pelos tempos. (Ele só não foi marxistaleninista porque não viu a realização do seu sonho. embora não se saiba. de qualquer modo. reputando a propriedade privada como principal origem de infortúnio.) O arsenal de ataque desfilou naquele “Discurso”. para todos pesadelo. (52) para a desgraça daqueles que lhe seguiram! No “Plano Para a Constituição da Córsega” Rousseau chegou a dizer que o Estado devia ser o único proprietário. desdenhara seu amor pela liberdade. em vez de justificar moralmente o maquiavelismo. Tocqueville e até Trotsky perceberam a . “assumindo a iniciativa de fundar uma nação. Rousseau dela se apropriou. morrendo duzentos anos antes da tragédia russa. se foi ele ou Diderot quem cunhou a expressão. fingindo dar lições aos reis e educando des grandes aux peuples.por aquele que. Fillipo Burzio notou que tal interpretação.” (50) Schwartzenberg foca Rousseau acompanhando de perto a Maquiavel. para fundar o Estado e lhe fornecer suas leis e “Ditador” para garantir sua sobrevivência. deve sentir-se capaz de mudar a natureza humana” chega até Rousseau. com certeza. a “Vontade Geral”.

. submeteram-se. ao derrubar o feudalismo e o absolutismo monárquico. .. a perversos domínios.. quando o povo retirava paulatinamente o poder do rei em sua própria defesa e os EUA proporcionavam ao mundo verdadeiras lições de cidadania e civilidade. por muitos anos. sustentada na retórica da Justiça Social e da Redistribuição. graças a competência dos compatriotas Rousseau e Descartes. até a Rússia e a África. há séculos. da igualdade e da fraternidade. um verdadeiro Frankstein: uma nova classe de democratas. ______________________________________________ * A Magna Carta inglêsa é de 1215. gerara.a classe políticoburocrática que. que observava: “aquele a quem esta afeta a redistribuição jamais se esquecerá de si próprio. Jefferson se reportou: “Quanto à Revolução Francesa. nosso autor é. a chicana centenária em nome dessa tal vontade até hoje cometida: “Jouvenel inspira-se na intuição de Tocqueville no sentido de que o movimento revolucionário democrático. talvez. a lenda nacional pretende que ela colocou no lugar da Monarquia de um rei despótico o reinado glorioso da liberdade. os cidadãos franceses e vizinhos.” (53) Enquanto a Inglaterra partira decidida.. Ninguém melhor para julgar o fenômeno do que o próprio Trotsky. Na verdade.* às soluções verdadeiramente democráticas. apodera-se do Estado para dele se locupletar. sem o saber. o primeiro analista moderno a usar essa expressão “Nova Classe Dirigente” .aquilo que os russos chamam a Nomenklatura .106 manobra implícita.

impôs ao País o reinado do Terror. participativo e aspirante democrata.. definir o papel das massas no contexto político em questão. Nesse estágio. isto é. em outras palavras. O turbilhão suicida só pode ser estancado pela instauração de uma ditadura militar. . Burke também estava por perto: “Diferentemente de seus vizinhos do outro lado do Canal. tensões de toda a espécie. mais absoluta que a Monarquia do Antigo Regime. que era impossível de dominar.107 Essa suave apresentação elimina as desordens sangrentas. As boas intenções converteram-se no horror do massacre e da guerra civil. cuja multiplicação.ou se privaram de um conjunto básico de circunstâncias que são necessárias para a experiência da liberdade política. ou. muito menos igualdade e. na linguagem mais simples e sugestiva. ordenadas.” (55) Resultado: aquele povo. a custa de centenas de milhares de vítimas e de enormes devastações.” (54) As “desordens” sangrentas foram estratégicamente promovidas. nem liberdade. Primeiramente as idéias dos filósofos. foram adotadas pelos líderes da Revolução e transmitidas as massas. durante e depois da Revolução.exceto se encararmos como “fraternidade” o terrorismo praticado antes. particularmente Rousseau. menos ainda. cuja tarefa central era de mobilizar as massas. criados e fomentados conflitos.. fraternidade . não conheceu nem democracia. com o propósito de criar apoio para suas políticas. na repartição dos saques e. o papel dos intelectuais era totalmente correlacionado com o dos políticos. a cooperação e a participação nos assuntos públicos. os franceses foram privados .

” (57) Kant percebeu o engôdo: “Um governo fundado no princípio da benevolência para com o povo. naquela França. famílias e indivíduos." (56) A explicação é decorrente: “A vontade geral que não tolera exceção é a exceção pura e simples. ou seja. Quesnay e Tocqueville eram ouvidos? “Vendido” como meio de salvação nacional a um custo barato. pelo mundo afora. Assim a soberania de Rousseau revela-se uma ditadura permanente. um governo paternalista. esse governo é o pior despotismo que se possa imaginar. todavia.108 em seguida. o homem comum acabou por aderir. profissões. são obrigados a se comportar passivamente. mesmo que estes o carregassem aos trágicos destinos. como filhos menores que não podem distinguir entre eles o que lhes é útil ou prejudicial. se nem mesmo os conterrâneos Constant. por assim dizer espalhados pelo corpo social. aos condutores do infortúnio. até entusiasticamente. no qual os súditos.” (58) Quantos. Não se tinha visto no mundo um poder semelhante desde a queda do império romano. poderiam conhecer obras as obras de Kant. com o intrépido “herói” Napoleão: "Mas afastemos estes resquícios e perceberemos um poder central imenso que atraiu e engoliu em sua unidade todas as parcelas de autoridade e influência antes disseminadas numa porção de poderes secundários. de ordens. para esperar que o chefe do Estado julgue de que modo eles devem ser felizes. como é o caso do governo do pai em face dos filhos. conseqüências e exatas predições assim proferidas por Constant: . classes.

de “desejarem a igualdade na escravidão”. 21. “igualdade de quê?” Sen. J. Norberto Bobbio lhe explica: “Tocqueville se revela um escritor liberal e nãodemocrático. o sistema do mais ilustre desses filósofos. invencível” pela igualdade e embora “desejem a igualdade na liberdade são também capazes. apesar de terem uma inclinação natural para a liberdade.sob a capa do “governo do povo” escondia-se o monstro totalitário. desastrosos pretextos a mais de um tipo de tirania”. Rousseau e mostrarei que. pois. insaciável. todavia. forneceu. . Jamais demonstra a menor hesitação em antepor a liberdade do indivíduo à igualdade social. transportando para os tempos mais modernos um volume de poder social. J. eterna. (60) O enigma da igualdade é seu objeto. (59) Alexis Tocqueville nunca duvidou . de soberania coletiva que pertencia a outros séculos. como aqui sustento. À tirania da maioria Tocqueville dedica o capítulo sétimo da segunda parte do Livro I de “A Democracia na América”. preocupação do Nobel de Economia 98 Amartya Sen*. se não podem obtê-la. que era animado pelo amor mais puro a liberdade. A.109 “Examinarei. este gênio sublime. ___________________________________________________ * “A pergunta central na análise e avaliação da desigualdade é. p.. na medida em que está convencido de que os povos democráticos. tem “uma paixão ardorosa.

pelo protecionismo e sobretudo pelos monopólios. É a teoria da igualdade aplicada à inteligência. chega a considerar a opinião da maioria como o único limite aos poderes governativos. pelo contrôle alfandegário. também o da maioria . no número mais do que na qualidade dos legisladores.e.” (62) A grande sociedade passou a ser dedicada a esse pretenso bem-estar da maioria.seja submetido a limites.. Hayek também distingue as razões de Tocqueville: “O liberalismo exige que todo o poder . pela intervenção do Estado na vida econômica. repousa sobre o argumento de que “existem mais cultura e mais sabedoria em muitos homens reunidos do que num só”. que supunha suficiente a garantia de liberdade jurídico-formal para ação do homo economicus engendrar automaticamente um estado social e cultural de felicidade – foi desmoralizado. aquilo que Paul Goodman aponta como “sociolatria”. portanto. ao contrário. preparo e educação para a democracia de massa. A democracia. na prática. O homem deveria modificar-se e adaptar-se em favor do meio social. o liberalismo – que se inspirava na doutrina econômica clássica.” (61) O socialista Lukács reputa à causa rotulada democrática o eclipse liberal durante os séculos XIX e XX: “Para Lukács. até perder sua . (63) O argumento iluminista era desprezível porque as “nossas idéias e até o próprio egoísmo nasciam junto com esta sociedade”.110 O princípio da maioria é um principio igualitário na medida em que pretende fazer com que prevaleça a força do número sobre a força da individualidade singular..

A respiração. Jamais admitiu que sua personalidade fosse absorvida pelo todo. nenhuma opção para dispor e comandar. um JeanJacques a mais. da física. A exceção Rousseau reservou a si próprio. de plano. como a natureza dá a cada homem o poder absoluto sobre seus membros.111 própria personalidade. Assim. sequer. virava. porém. mas Jean-Jacques era coerente com o pensamento do patrício e isto não se pode negar: “Este pensador peculiar . (66) Rousseau oferece à mostra o tamanho da mordida que sofreu da mosca da ciência exata. do . podemos desmanchá-lo com a simples lembrança de que não temos nenhum poder. apenas. este claro excludente de democracia. o pacto social dá ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus. O “absolutismo”. pela habilidade do artífice francês. evidenciar o ardil da premissa.” (64) Obviamente trata-se de um dos mais notáveis sofismas. pelo todo absorvido. a metade de nossas operações pessoais. podem. contrariu sensu.” (65) Miguel Reale tem no genebrino “o Descartes da política”. ávido em se afirmar. entre inúmeras outras.embora freqüentemente considerado irracionalista ou romântico . jamais saberíamos de sua existência.também se apoiou no pensamento cartesiano e dele dependeu fundamentalmente. o funcionamento do fígado e a impossibilidade de andarmos de cabeça para baixo. Seria. princípio “democrático-racional”: “Torna-se necessária (ao Estado ou a Cidade) uma fôrça universal e compulsiva para mover e dispor cada parte da maneira mais conveniente a todos.

o legislador é responsável por tudo. a simples objeto manipulável por um comando absoluto. Hegel e seus seguidores da palavra “opinião” pelo termo “vontade” foi provavelmente a inovação terminológica mais fatídica na história do pensamento político. Povo bem cuidado. “a substituição por Rousseau. É um deus exmachina. (69) Napoleão manteve seu povo não por sentir-se responsável... de cada pessoa. que pretendeu representar o novo César e o novo Augusto do cesarismo imperial francês”. mais carne para canhão. quando dispõe sobre a fôrça necessária para mover as coisas e quando se manifesta sobre os membros. homogeneidade e universalidade de cada ente. conforme a lápide: “Afinal. (67) Macksoud reforça o liame: “Esta substituição teve fundamento no cartesianismo de Rousseau e foi o produto de um racionalismo construtivista que imaginava que todas as leis foram inventadas como expressões de vontade para um dado fim.” (70) . produz mais riquezas para o Estado e sua Corte. Algo que será como Napoleão. um povo sadio trabalha melhor. como para outros edificadores da Cidade Ideal do Racionalismo desarvorado. muito menos por caridoso. Para Hayek. reduzindo a diversidade.112 número. aumentando a população disponível para o alistamento militar.” (68) Bonaparte espreitava a chance do colossal malentendido: “Para Rousseau. mas para usufruir de fortes e destemidos lutadores. além de que se reproduz mais.

113 A trama, a ardilosa dubiedade de Rousseau foi oportuna e convenceu, por restringir homem e política àquela mera questão aritmética: “Se o Estado for composto de dez mil cidadãos, cada um deles terá a décima milésima parte da autoridade soberana”. (71) Ou seja, fatalmente, quanto mais gente, menos poder para cada um... Pode isto ser chamado de “método democrático”? A trapaça varou o EspaçoTempo: “O homem no estado natural de Rousseau se tornou, no século XIX, o ‘povo’ de Mazzini e o ‘proletariado’ de Marx. “ (72) O mestre Miguel Reale observa como os verdugos sobrevivem aos tempos: “O que efetivamente caracteriza o homem moderno é a confiança em seus poderes demiurgos, em sua capacidade de penetrar nas leis da natureza, não pelo prazer estético-intelectual de expressá-las, mas pela necessidade de convertê-las em instrumento de seus projetos existenciais.” (73) Goffredo Telles Junior também explica como se perpetua a prática da lex sugerida: “Isto também pode suceder quando um governo impõe a uma sociedade um Direito Objetivo em discordância com os ideais do sistema de referência da coletividade. Em tais casos, o Direito Objetivo é um Direito artificial. É um Direito que não exprime a realidade biótica da sociedade. É um Direito corrompido e corruptor. Ele forçará o surgimento de interações humanas à margem do campo de sua competência. Grande parte da vida social se processará fora de seus domínios.” (74) O maior e mais conhecido exemplo deste direito artificial vem pela lei do trabalho, a fascista.

114 Antecipando-se no rumo invertido, Rousseau, em 1762, portanto a tempo de influir diretamente na sangrenta Revolução e nos seus terríveis desdobramentos, publicou o “seu” “Contrato Social”, onde o cidadão perdia sua liberdade natural em troca dessa pseudo-liberdade apregoada, chamada civil para diferenciar-se da religiosa, copiando neste particular a propositura de John Locke; a obra francesa, todavia, desvirtuou-a, não descuidando de enfeitá-la com uma sofisticada engambelação, nítida tendência reacionária à espontaneidade individual demagogicamente arranjada, a qual permitiu e até induziu a que as cúpulas reutilizassem alguns maquiavélicos ditames, aperfeiçoando-os: “Assim é que em Locke, antes do contrato, os indivíduos em estado de natureza são completos, dotados de todas as suas características civilizadas, quer dizer, da razão, do julgamento moral, do direito de propriedade e da liberdade. Vê-se logo o contraste com Jean-Jacques Rousseau e com a tradição francesa, para qual é o Estado que cria, a partir do indivíduo natural, ainda não efetivamente humano, um ser novo a quem deverá ensinar tudo.”(75) Enfeitando o manto filosófico, resplandece o colar da república platônica de Hobbes; se Rousseau não o tingisse com as cores da soberania popular, poder-seia chamá-lo “plagiador”, até por repetir a cátedra de colocar o ser humano como carente de norma de ação mais elevada além de impulsos, apetites e más inclinações. O homem não poderia ser possuidor de regra de pensamento mais importante do que fantasias subjetivas, alheias à formação social. Considerado isoladamente, o indivíduo se apresenta nocivo, um animal governado por instintos bruscos;

115 para ser corretamente entendido, ele deve considerar-se só como membro da sociedade e por ela subordinado. O ordenamento requer a esterilização de cada um em particular... em massa. Quando alguém deseje isoladamente algo diverso da ordem imposta, é entendido como um capricho proveniente de alguém que “não percebe corretamente seu próprio bem, nem seus desejos naturais”. Prelot o atinge com o exocet *: “Para sua mais completa felicidade e também para sua desgraça, os homens possuem duas faculdades: a liberdade de aquiescerem ou de resistirem e a possibilidade de se aperfeiçoarem.” (76) Com Hobbes, o genebrino compartilhava daquelas idéias sobre nosso estado natural e a guerra assume a preponderância; explicitou-a na exposição do famoso Discurso. Este foi o Estado “vendido” como natural: “A guerra é a saúde do Estado. Ela coloca em movimento, automáticamente, em toda a sociedade, aquelas forças irresistíveis que buscam a uniformidade e cooperam com o governo entusiásticamente na tarefa de coagir grupos minoritários e os indivíduos isolados sem identificação com o grupo, obrigando-os a obedecer. Os mecanismos do governo não só estabelecem as punições mas aplicam-nas fazendo com que essas minorias sejam silenciadas pela força ou passem por um processo sutil de persuasão que acabará por convencê-las de que foram convertidas...
___________________________________________________ *Exocet: Míssil de longo alcance, de fabricação francesa, muito utilizado na Guerra das Malvinas.

Mas no século dezessete o serviço militar obrigatório foi novamente imposto sob o nome de milícia.116 a nação atinge uma uniformidade de sentimentos. ordem.... confiantes. vestido. que só poderia ser obtido através da guerra.” (77) E tome imposto para recruta forçada da carne à granel: “Sabe-se que o objetivo da talha foi de permitir ao rei comprar soldados que dispensassem os nobres e seus vassalos do serviço militar. regra. alimentado e toda sua dependência tornariam por demais cruel pegar um outro homem que um homem do baixo povo.. E você dirige um olhar cheio de adoração para o Estado. “A mediocridade do soldo do soldado”. escreve um deles. como um filho olha para o Pai. sagrado. . hierarquia* de valores que culmina com o ápice do ideal do Estado. e o líder e determinante de todas as suas ações concretas e de todas as suas idéias. impondo-lhes suas regras firmes mas bondosas e em quem podem depositar todas as suas ansiedades. como se o Estado fosse o símbolo quase pessoal da força do rebanho...” (78) _________________________________________________ * Hierarquia: soma de hieros. mais arkhia. cada indivíduo se identifica com o todo e sente-se muito mais forte com esta identificação. Um povo em guerra volta a ser criança no sentido mais literal do termo: são obedientes. “a maneira como está deitado. cheios de fé ingênua na total sabedoria e no poder absoluto do adulto que toma conta deles... e desta vez só recaiu sobre o povo e quase exclusivamente sobre o camponês... provavelmente oriunda da figura geométrica do arco. temores e responsabilidades. respeitosos.

desaguando a tal “vontade geral” de modo claramente irracional. em primeiro lugar. evidentemente. por “economia de esforço mental” foi assimilada. do qual se serviram também todas as ditaduras modernas”. Mas não perde sua máxima característica: a de constituir excelente estratégia à conquista e manutenção de poder por qualquer príncipe que a adote. de fato.”(79) Norberto Bobbio enfatiza: “O conceito de democracia é inseparável do conceito de direitos do homem. este devidamente consubstanciado no invólucro democrático. dado a vagueza do carácter. Maquiavel e Hobbes. Pelo fato de excluir qualquer minoria em nome da maioria. mecanicista. por mais dourada que possa ser a receita de Rousseau. “Povo” é um conceito ambíguo. preconceituosa. depois de trinta anos de estudos. a idéia de democracia. falsa. tivessem a pretensão da “racionalidade”. dobrou-se a grande diferença: “É o valor da liberdade e não o da igualdade que determina. em que pese tudo de Rousseau. quando nos referimos a uma democracia. determinista.117 A “opinião publica” francesa. Em uma palavra. (80) Bobbio demonstra a certeza de Tocqueville. Alemães e japoneses da década de . por tudo. ela é. seria mais correto falar de soberania dos cidadãos e não soberania popular. dogmática. na reinversão objetiva do direito natural rumo ao despotismo. antidemocrática. Hans Kelsen. não se pode mais justificar a democracia. como de Descartes. Se se elimina uma concepção individualista da sociedade. conseguiu sucesso. E. construída de cima para baixo. Tenho dito freqüentemente que. parcial.

dita espelho nacional do aclamado patriotismo. fulgurantes personalidades desprezíveis e sentimentos impregnados de inveja. Hiroíto e Mao Tsè Tung jogaram seus compatriotas ao total infortúnio. não deve ser considerada tão fora de propósito outro brado de Thoreau: “Não há senão uma escassa virtude na ação de multidões de homens. frustração. livre. ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e embrutecimento. Hitler. cobiça.118 quarenta que o digam. até em maior escala.” (82) . criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime. este também reproduziu. ao precipício. Mussolini. Se alguns milagres de virtude foram produzidos pela maioria. Aprendamos com Einstein: “Nos mecanismos universais.” (81) Destarte. ódio e destruição. Lênin. o mecanismo Estado não se impõe como o mais indispensável. Mas é a pessoa humana. No trilho do ufanismo.

. A última homenagem O “Contrato Social”. São de Rousseau as palavras: “A sensibilidade recíproca é a correspondência interna de todas as partes. constitui para todos os membros do Estado. a doutrina do ser corporativo estabelecendo padrões morais válidos para seus membros e o teórico condicionamento implícito do governo. O Corpo político. que obviamente representa os exclusivos interesses da classe dominante” (83) O princípio regente da “Vontade Geral” vingou pelas atrações lingüísticas e étnicas. precipitando a cascata da comunidade possuidora de uma personalidade corporativa ou moi commun. na analogia ao princípio vital dos organismos. laços psicológicos de identificação e manifestações espirituais emergentes de comum condicionamento. não passou desapercebida nem por alguns simpatizantes marxistas. Hegel que passaria por perto. abstração rigorosamente improvável. alguns bem marcando a mistificação: “Por existir de forma tão abstrata e ao mesmo tempo tão violenta. e que dá origem às leis. a analogia organicista transladada a averiguação do grupo social. é também ente moral possuidor de vontade. instrumento desta vontade geral.. o Estado continua cada vez mais a impedir a liberdade individual em nome da mentira chamada “bem comum”. que tende sempre à preservação e bem-estar do todo e de suas partes. a norma do que é justo ou injusto. combustível da satânica locomotiva do Dr. em suas relações mútuas e com o Estado.119 4. e essa vontade geral.” (84) . por conseguinte.

Permanece “livre” no interior dela. o “imperador quererá o melhor para todos”. porque identificado.” (85) Talvez pudéssemos especular um pouco. sem responsabilidade. Na massa. A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mesma. então. não tendo igualmente porque o governante prejudicar alguém em particular.120 O laser de Einstein atinge o comboio de Rousseau. dando razão simultânea a Locke e a Hobbes: enquanto indivíduo." (86) Na característica de infalibilidade. responsáveis pelos seu próprios quadros. seu comportamento. Necessariamente. a sociedade estará inexoravelmente votada ao malogro. algo notoriamente extraído do Leviathan e do princípio da divindade que tanto sustentaram . Hegel e Marx: “O homem solitário pensa sozinho e cria novos valores para a comunidade. o homem tem comportamento responsável. como nas revoluções francesa e russa: "O exercício das paixões individuais. As paixões coletivas. Rousseau tentou estigmatizar a soberania como algo que jamais faria algum mal ao povo. freqüentemente. e o ser humano privado da possibilidade de se comunicar. A não ser assim. porque o progresso moral da sociedade depende exclusivamente de sua independência. Hobbes. o homem altera. É o reino da desmedida e da insensatez. Inventa assim novas regras morais e modifica a vida social. ou seja. liberdade com responsabilidade. não encontram nenhuma barreira racional. determinado fundamentalmente pelo temperamento de cada um. Tudo pode acontecer. encontra-se normalmente limitado e circunscrito aos quadros da vida social.

(87) Ainda tinha um maior sofisma reservado: “A fim de que o contrato social não se torne fórmula vazia. bastaria simplesmente equacionarem-se os contendores. sem ele. seriam absurdas. tirânicas e passíveis dos mais terríveis abusos. por demais ingênuos. Será que a voz do povo francês vibrando com o movimento da guilhotina poder-se-ia dizer originaria ou expressão divina? O senhor Jean-Jacques sempre tendeu a parcialidade.”(88) Forçar a ser livre? É possível ou compreensível esta formulação? Samuel Johnson conforta-nos: “Rousseau sabe que está falando bobagem e ri do mundo por lhe dar atenção. capacitado a elaborar frases de efeito. alardeava que. como se massa pudesse ter liberdade. Isto nada mais significa que forçá-lo a ser livre. assume ele tacitamente a disposição.portanto sem poder do Estado: pois o Estado é o povo como Soberano”.. A maior soma expressaria a Vox apregoada. Na controvérsia própria dos imperfeitos humanos. Isto.121 loucos e oportunistas. mesmo. os bairristas franceses e seus descendentes também: “A doutrina da soberania nacional dominou quase todo o direito político da França pós-revolucionária . atingir-se-ia a liberdade das massas.. Podemos verificar ainda similitude e inspiração nos escritos eclesiásticos que davam conta da voz do povo como a voz de Deus Vox Populi vox Dei. com seu método. apenas... que dirá responsabilidade: “Não há liberdade do povo sem poder do povo . de que quem quer que recuse obedecer a vontade geral será compelido a fazê-lo pelo todo.” (89) Fomos e somos. dá caráter legitimo às disposições civis que.

encontraram na maquiagem democrática que lhe foi peculiar.. Sua passagem.” (90) Não por acaso. na França e em todo o mundo. nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente. Como Voltaire. Os homens de 89 tinham derrubado o edifício.122 na idade liberal de seu constitucionalismo. Benjamin Constant expressou o lamento: “A França viu-se molestada por experiências inúteis cujos autores.. “vendida” como Geral. para substituir a Igreja com o culto patriótico do Estado Ressacralizado” (92) Todos os candidatos a príncipes que se seguiram. 3. foi profícua o suficiente para ser muito bem aproveitada. mas suas fundações permaneceram na própria alma de seus . pois. Aron e Kolakowski. portanto ao observar com que maravilhosa facilidade a centralização foi restabelecida na França no começo deste século. faleceu onze anos antes.. concordam com a tese de que o socialismo representa aquela pseudo “religião civil” que Rousseau pretendeu criar. irritados pelo pouco êxito que alcançaram. Com efeito.” (91) Rousseau não presenciou o massacre da Revolução de seus patrícios e o desdobramento da sua vontade. tentaram forçá-la a usufruir de um bem que ela não desejava e contestaram-lhe o bem que ela queria. o disfarce necessário para surpreender as gentes de seus respectivos tempos e lugares: “Não nos espantemos. como Hanna Arendt. o art. da Declaração assevera que ‘o princípio de toda a soberania reside essencialmente em a Nação’ e que ‘nenhuma corporação. até hoje: “Muitos outros filósofos modernos. entretanto..

Georges Sorel. Fichte. inspirado em Hippólyte Taine. Não podemos novamente entender Thoureau quando. ou do partido mais forte ou. pilotada por Napoleão. com certeza! .” (93) Ao povo. mas o revestimento da democracia pervertida consegue tornar lógico e por isto legitima as tiranias extremadas levadas a cabo pelos que implementam a cartilha. Ninguém menos do que o próprio Napoleão Bonaparte pode reconhecer e enaltecer as qualidades do defunto: “Era um mau homem.” (95) O mundo também.. Hegel.. Karl Marx e F. Aí a escada de acesso à locomotiva do infortúnio. estar o poder nas mãos de tirano por herança ou por soma de votos não altera nada. Mas talvez a França fosse mais feliz com isto. Bismarck.123 destruidores e foi sobre estas fundações que puderam erguê-lo novamente e torná-lo mais sólido do que jamais o fora. em nome de todos. de um grupo ou mesmo de um indivíduo que se apossa do poder. ainda. um homem perverso.. Hobbes.. Engels. Hitler e seus admiradores mais ou menos fiéis.. Stálin. O cidadão se restringe aos ditames da massa. Aí reside a “liberdade” apregoada por Rousseau.. afirmava que “. É verdade que eu também não seria nada. mais freqüentemente. 10 milhões de exemplos de ignorância não fazem o conhecimento. Mussolini. Comte. Descartes. Sem ele não haveria Revolução Francesa.. para o próprio desfrute..” ? (94) A mais realista e significativa homenagem JeanJacques Rousseau a recebeu no cemitério de Ermenonville. Lênin.

O utilitarismo colheu o ensejo e ofereceu a plataforma por onde decolou a esquadrilha marxista. S. mas por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis. precisamente por não serem criativas e não . as massas. Mateus (1) Um saco de batatas consiste de uma certa quantidade de batatas enfiadas dentro de um saco. Na verdade.124 Capítulo VIII A IMPLOSÃO MATERIALISTA Guardai-vos dos falsos profetas. momento fértil ao plantio da discórdia. demagogos e diletantes captavam simpatias. e as direcionavam aos seus interesses. Oportunistas. que vêm a vós com vestes de ovelhas. A Poor Law (Lei dos Pobres). Karl Marx (2) A Grã-Bretanha acendia o estopim da Revolução Industrial. o movimento cartista e orquestradas manifestações espelhavam a impetuosidade das ambições. Von Mises compreende o processo cruzador dos séculos: “O principal erro do pessimismo tão alastrado é a crença de que as idéias e as políticas destrutivas de nossa era emergiram do proletariado e são uma “revolta de massas”. nuances que corroboravam funestos prognósticos.

pelo rádio. Galileu abrira a picada: “Galileu partiu da observação de fatos isolados para o estabelecimento de leis rigorosas que permitiam a previsão dos acontecimentos futuros. na tentativa de tornar o País anfitrião um “reboliço”. Hobbes.. La Place. mesmo sendo eles incisivos na conclamação direta à luta de classes. no respeito ao direito de expressão. As ideologias que produziram todos os danos e catástrofes de nosso século. São proezas de pseudo-intelectuais e pseudoestudiosos. Rousseau. Bentham. Karl repetiu a presunção já no prefácio de “O Capital”: “O alvo final desta obra é expor claramente. Parafraseando Kepler no estudo das mecanicistas leis interplanetárias e tomado pela picada de Descartes. Newton. permite que até estrangeiros se arvorem em palpites. Os intelectuais são responsáveis pela conversão das massas ao socialismo e ao intervencionismo. Então as massas os seguirão. Bacon. (4) Em se tratando de “futurologia”. não são uma façanha da turba. à aniquilação da propriedade. especulava a possibilidade de “uma inteligência suficiente . (5) Dois séculos depois.”(3) Karl Henrich Marx (1818-1883) e Friederich Engels (1820-1895) foram acolhidos com hospitalidade ou indiferença. é preciso mudar a mentalidade dos intelectuais. Comte e Darwin. jamais com hostilidade. foram disseminadas pela imprensa.125 desenvolverem filosofias próprias. seguem líderes. Foram propagandas das cadeiras das universidades e dos púlpitos. Hegel. Para reverter o processo. Mill. Em essência é a isso que se chama método científico”.. a lei do movimento na sociedade moderna”. O Reino Unido. pelos romances.

Tenta vislumbrar. o homem de Marx é o mesmo homo oeconomicus de Bentham. pretensão que fez tantos naufragarem no mar das ilusões: “O sistema marxista é determinista ou não é marxista.” (8) Determinista significa previsível. a física quântica derruba os dois pilares da velha ciência. a analogia do relógio: “O socialismo científico abordou a sociedade da mesma forma que Newton abordou o comportamento dos corpos celestes. limitada. pela ótica sócio-política." (11) Antes da filosofia. fatalista. a ciência econômica. qualquer tentativa de deduzir logicamente conceitos e postulados fundamentais a partir de experiências elementares está fadada ao fracasso.. a causalidade e o . insensatez mecanicista extremada. desde Marx aos nossos dias.” (9) A pretensão. conhecendo as leis da física e a velocidade e a posição de cada partícula do universo. retirou-lhe a cobertura: "Pelo que vimos. a própria ciência. a preferida de Marx. (10) O elegante socialista Norberto Bobbio não vê cientificidade na epistemologia marxista: "Marx tratou muitas vezes da natureza da ciência que ele de modo especial cultivou. Mas a filosofia das ciências sofreu muitas transformações radicais.” (7) A dimensão marxista é dogmática. parte do cúmulo filosófico.126 suficiente.” (6) Einstein a fechou: “ . calculável: “Psicologicamente. por tudo parcial.. preconceituosa e nada original. conseguiria prever seu futuro completo. ou seja. encantada na égide exata. o código matemático absoluto. investigando suas imutáveis “leis de movimento”.

poderíamos antecipar seu futuro desenvolvimento e “O Capital” tem a pretensão de ser a obra que descreve o desenvolvimento das leis econômicas da sociedade moderna. passados quase um século de provas) toda sua ciência se dissolve.127 determinismo. por absoluta falta de objeto. crê ser possível compreender a realidade de tal forma que. isto é. Agindo em termos de probabilidades e estatística. então é possível que aquela quantidade desconhecida chamada 'espírito' possa guiar o destino humano entre as infinitas incertezas de um universo caprichoso. a qual ele não pode conhecer: se E=mc2. ela abandona a idéia de que a natureza exibia uma seqüência inexorável de causa e efeito. o livre arbítrio ganhou novo argumento a seu favor. que toda a realidade e matéria obedece a leis que são absolutamente determinadas não apenas é materialista. representado pelo dinheiro e pelos finitos bens materiais alarmados por Malthus: “Marx.” (13) Vale para Marx a maior questão. abandona a antiga esperança de que a ciência. porém não apenas isto. pois se os acontecimentos físicos são indeterminados e o futuro imprevisível. enquanto alguém que advoga que toda a realidade e matéria. Gurvitch percebeu o erro de base. possa prever a história do universo em qualquer tempo. Como conseqüência dessa rendição. uma vez descoberta suas leis. Aceitando a incerteza. de paradigma: . se Einstein estivesse com a razão (e parece que está. como também determinista. conhecendo o estado atual e a velocidade de qualquer corpo material no universo." (12) As experiências elementares indicavam a medida do capital. enquanto materialista.

seitas. A originalidade baconiana se prestou. a operação de domínio e modificação forçada da natureza. (16) o fim do pensamento e o começo da ação. especialmente o de Bacon. produtores. sociedades científicas e de auxílio. consumidores. usuários. Somente assim teria evitado a cilada do “determinismo econômico” no qual finalmente caiu. permanecendo caracterizada por um pluralismo inextricável. A trama da vida social sob o aspecto macrossociológico não é menos complexa que sob o aspecto microssociológico. ampliada. classes sociais.. também elas eram totalmente variáveis e que sua hierarquia. se unem e se opõem. partidos políticos. de produção. paróquias. Todos esses grupos se entrecruzam e se limitam. conventos. operários e patronais com suas federações e confederações. congregações.. ora se dispersam. de venda. cooperativas de consumo. sindicatos. equipes esportivas e de turismo e assim ao infinito. [Marx] deveria reconhecer que as relações entre os degraus ou as camadas da realidade social que distinguira.128 “ .. comunas. ordens religiosas. sindicatos de iniciativa.” (15) Marx agravou o erro de muitos. se organizam e permanecem inorganizados. serviços públicos... regiões. “pai do materialismo inglês”. Estados. se alterava sem cessar conforme os tipos de sociedade. caixas de segurança social. na verdade um campo de .” (14) Complementa o competente autor: “As sociedades globais atuais compõem-se duma pluralidade quase infinita de agrupamentos particulares: famílias.. profissões. à translação ao campo social. igrejas. ora formam blocos maciços. municipalidades. departamentos. enquanto forças dinâmicas da mudança.

trata-se de transformá-lo. como foi o caso de todos que caíram em suas querelas. mas seria melhor que para frente.”(20) Há quem o ponha direto na oficina fascista: “A mecânica social marxista obedece a mesma estrutura lógica da mecânica fascista. jamais deixará de fazê-lo e. para o despenhadeiro. vislumbra já seu próximo passo.129 batalhas sangrentas. de cunho social. posto que unitário: “Há uma coincidência entre Comte e Marx.”(17) Ele completa a basófia: “O ser que já iniciou a apropriação da natureza por meio do trabalho de suas mãos. após cada conquista. pois aquele via na sociologia e na política positiva o coroamento sintético de todo o edifício da ciência positiva.” (18) O próximo passo é para trás. peões que podem não só ser sacrificados. impulso de coice. como também ter seu sacrifício “racionalmente” defendido e justificado” (21) O “cienticismo social”. coloca o povo a serviço do sistema de poder e controle. misturada com a sinistra insensibilidade do darwinismo social e com um insolente ateísmo positivista. nada sociais. e não o inverso: . Marx propôs: “Os filósofos tem se limitado a interpretar o mundo de maneiras diversas. sequer. Não pode ser a estratégia marxista considerada. ambos tomam os homens como peões num tabuleiro de xadrez. seja positivista ou socialista. Numa das “Teses sobre Feuerbach” . do intelecto e da fantasia.” (19) Roszac também percebeu liames e semelhanças: “Marx é veiculo da inflexibilidade da realpolitik do século XIX.

Mas planejamento central dependia de conhecimento e." (23) “Ser tolerante seria mais perigoso que ser severo ou cruel. (24) Para impor a ideologia. um planejamento inteligente de cima para baixo possibilitou concentrar recursos nos setoreschaves e acelerar o desenvolvimento tecnológico. pois as consequências de qualquer complacência derramaria mais sangue e seriam mais devastadoras que a severidade momentânea”.130 “O que a ciência faz é precisamente mascarar.. cogita-se do fim da farsa: “Um segundo pilar na catedral da teoria socialista foi o planejamento central. ocasiona uma cegueira parcial da inteligência humana.. já nos anos 1920. Em vez de permitir que o “caos” do mercado determinasse as regras da economia.. sem prestar atenção a seus desejos e sem reconhecer nenhuma lei como superior à vontade do governo.” (22) "O totalitarismo aspira o oposto da democracia: ele luta para pulverizar a sociedade e estabelecer um controle completo sobre esta. o economista austríaco Ludwig . sua função ideológica de justificar o poder.) Sabemos por experiência (. deformar o irracionalismo das relações humanas e dissimular a heteronomia dessas mesmas relações. A racionalidade. por detrás da racionalidade..) que o totalitário não é propício à tolerância”. que é totalmente onipotente (. pois. como ideologia. nenhum tem dúvidas em solapar direitos individuais: “Racionalização significa a transformação do mundo dominante em nome de um plano racional: a organização construída sobre um método e uma seleção racionais. entorpecida pela propaganda dos que a forjam. (25) Desde há muito.

produtos: a negação dos fins do socialismo. não servos. a servos. que faz cair pode terra a atual superstição do materialismo”." (30) . mister livrar-se do paradigma cartesiano. Toda a nossa tecnologia baseia-se nesse fato. o seu “problema de cálculo”. posso dizer que a conclusão fundamental dos estudiosos do campo quântico é que a matéria-prima do mundo não é material.” (29) Norberto Bobbio se alinha: "Afirmo que os princípios de liberdade e de justiça são certamente ideais comuns do socialismo. abandonou “O Capital”. Socialismo sem democracia leva fatalmente à ditadura. isto é. consciência. praticamente desconhecido: “Joachim Reig (Introdução à tradução espanhola de E. desprovida de razão: “Sintetizando.131 von Mises identificou a falta de conhecimento. do garrote totalitarista: “Querer o socialismo sem a democracia é pretender uma contradição: o socialismo significa homens livres. não número. depois de tomar conhecimento das obras de Jevons e Menger. ou como a chamou. (28) Se a companheirada ainda almeja servir a sociedade. número. (27) A montagem é totalmente “ideológica”. fato de incomensurável importância. não produtos. as coisas essenciais do universo são não-coisas. (26) Talvez por isso Marx tenha desistido de completar “O Capital”.1976) afirma que Marx. von Bohm Bawerk sobre a teoria da exploração de Marx. produtores. depois de dezessete anos de trabalho. como o calcanhar de aquiles do socialismo”.

(31) Nem hoje.”(34) O cisco caia nos pés dos carrascos bolcheviques. não era irrelevantes.132 O Primeiro-Ministro da Espanha. o quartel-general do ateísmo. no fim da vida: 'Eu não sou marxista'. pelo contrário: “Moscou. Karl Marx não seria marxista. todavia." (32) A confirmação do pecado científico veio em nosso século. viu na Teoria da Relatividade incompatibilidade entre ela e o materialismo soviético fundamentado no marxismo.uma tentativa de mudar. também comunga da idéia: “Hoje. Por trás de tudo estava a desconfiança de Stálin de qualquer idéia remota associada a valores burgueses.” (33) As razões. Felipe Gonzalez. na confissão dos próprios discípulos da “comunidade inferior de indivíduos padronizados” cruelmente implantada.. mas a máscara científica se dissolvia como açúcar: . nem quando vivia: “. Ele estava levando adiante aquilo que os comunistas chineses mais tarde chamariam de Revolução Cultural . As esquerdas tem de conviver com a realidade de mercado e abandonar o radicalismo”.. vivo e pensador inteligente. era empurrado para baixo do tapete. A farsa era incompatível com a verdade: “A Teoria da Relatividade foi condenada. por decreto e uso da polícia. proscrito por Lenin. as atitudes humanas fundamentais em relação a uma gama de conhecimentos. não porque (como na Alemanha Nazista) Einstein fosse judeu.Talvez por isso Marx tenha declarado. mas por razões igualmente irrelevantes: Marx havia dito que o Universo era infinito e Einstein havia tirado certas idéias de Mach.

porque os pontífices do Governo haviam declarado que o átomo não podia ser dividido. do tempo de Lenine.” (40) . não porque forças “agem” sobre eles. o estudo da microenergética parece-nos conduzir a uma desmaterialização do materialismo.. e sem matéria não haveria materialismo. se fez grande silêncio sobre a teoria de Einstein. possivelmente com resultados de grande alcance.” (39) A ciência agora se ocupa em desfazer seus nós: “Assim.” (36) Vale a pena transcrevermos todo ensinamento: “Os corpos se tornam. Fala o mestre Bertrand Russel: “Os corpos se movem como o fazem porque esse é o mais fácil movimento possível na região de espaço-tempo em que se encontram.133 “Na União Soviética.” (37) O ser da matéria não se separa de sua atividade.” (38) Heisenberg também foi enfático : “ . tampouco as “leis” de movimento descritas por Kepler e Newton refletem a ciência. a física atômica fez a ciência afastar-se da tendência materialista que ela tivera durante o século XIX. um dos pilares do comunismo. modificar consideravelmente a visão que o homem culto tem do universo. mas só coincidência. Einstein ainda completa: “A massa de um corpo é a medida de seu conteúdo de energia. por ser a base da matéria.” (35) Nem o comunismo. assim. Isto pode. se nos for permitido usar esta linguagem metafórica. mais cedo ou mais tarde.. muito mais independentes uns dos outros do que eram na física newtoniana: há um acréscimo de individualismo e uma diminuição de governo central. A interação é total.

arrastadas pelo rio devastador. (41) E gosta do Brasil. o Direito. carregar populações do mundo inteiro. Empregou. “o socialismo está morto.134 A Filosofia. Karl pecou por miopia. a Economia. com grande festa e muita champagne. também necessitam da mais completa reversão. infelizmente. a Sociologia. mas Leviathan ainda vive”. metade da população a defendê-lo e outra metade a defender-se. debaixo das pedras do muro que propiciou construir. todas lastreadas nos primatas parâmetros. antes de ser enterrado. mas conseguiu embrulhar. vigarice. onde ainda hesitam alguns suspiros. ou talvez tenha sido vítima de uma precipitação de origem juvenil. na melhor das hipóteses. Como disse James Buchanan. FIM .

Descartes e o Mecanismo. racismo. Schwartz. relacões sociais. Time-Life. Albert. ciências sociais e religião. 21. Galileu. educação. 126-7 Introdução 1. p. cit. Newton. p. Isaac. 298. 178. Rohmann. p. Joseph. 42. Bachelard.REBABEL 1. Descamps. 2. Revista Veja. 45/48.. Ferdinand. Cris. Pacto com Satanás 1.135 A PERFÍDIA CIENTÍFICA DE DESCARTES. cit. "Viagens de Descobrimento". Serres. 4. p. A Filosofia do Não. HOBBES & ROUSSEAU NOTAS Apresentação Kuhn. ano 31/ número 51. “Rebelião das massas”. p. 113. p. Einstein. Capítulo I . 2. Thomas. cit.. p. p. Gutemberg. cit. Especial do Milênio. . Jose Ortega y. 5. 3. C. Escritos da maturidade: artigos sobre ciência. Michel. 3. Alquié. G. 98.

253. Descartes. Galilei.. Russel.. A Revolução Científica Moderna. 18. Ronan. A . A. 50. Gilles Gaston. Galileu Galilei. 58.. . Imprensa Nacional-Casa da Moeda.. p. 2. Gilles-Gaston. cits. Fritjof. cit. P.. Hawking. p. 12. 20. 7. 19. Método. Vol. Geymonet. p. 42. Colin A. O ponto de mutação. Koyré. 2001.. Koyré. p. 1992. Whitehead. 128. Considerações Sobre Descartes. Geymonat. Porfírio. p. Koyré. Ludovico. Considerações Sobre Descartes. 58 14. 1588.Da Renascença a Revolução Científica.41. Galileu Galilei. Capra. p. Koyré. 21. B. in MétodoTeoria/Modelo (Enciclopédia Einaudi. p.. p. Thuillier. 31. A Razão. Alfred North. Idem. cit. Einstein. p. cit. Dante. A. cit.. A. T. p. Galileu Galilei. ibidem. cit. 302. Hilton. Silva.. 9. cit. cit. Palestra na Academia Florentina. Toffler. p. cit. cit. Geymonat. Ludovico. cit. 20. 81. Descartes. Kuhn. O Conceito da Natureza. Considerações Sobre Descartes. 38/39.. p. 61. Japiassú. A má temática 16. cit. p. 319. "A Geografia do Inferno de Dante Tratada Matematicamente". Albert. 21) Lisboa. 277. e Toffler. III . 112. p. Granger. Galileu Galilei. 10. 11. Descartes. História Ilustrada da Ciência.136 4. 15. Platão. vol. Estrutura das Revoluções Científicas. p. Ludovico. Alighieri.. 6. S. 8. 13. 10. Stephen W. Granger. p. 5. A. 17. R. p. Platão. Galileu. H. 18. p.

cit. van Albada. cit. cit. A Contracultura. R. p. Capra. 84/5 30. B. Hilton. Vinte lições espirituais para você criar a vida que deseja. T. André (1514-1564). p.Maslow. Christian. p. Ètudes d'histoire et de philosophie des sciences. Chopra. A.O. Ciência e sociedade: do consenso à revolução. 67. cit. Descartes.. O Ponto de Mutação.137 22.Hagstrom. cit. Galileu. Roszac. Ferdinand. 28. Descartes.. 84. Descartes e o Mecanismo. 26. G. Alquié.Haberer. J. Theodore. ibidem. 36. . J. p. 97. Descartes. R. Rene. 18. cit. Nascimento e Morte das Ciências Humanas. 31. Vesálio.226.Whitehead. Idem. p. F. 24. Bacon. A Revolução Científica Moderna. 34. p. F. 40 23.K. Deepak. Idem.. História do Pensamento Ocidental. Schwartz. Descartes. p. Ph. Novo Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da Natureza. Henry. 66. 28. Rene. 37. p. p. R.S. 91. Russel. cit.Kuhn. R. Hilton..Gil. 137. Alquié. p. O Caminho do Mago. Descartes. Deus. A. 56. Les Principes de la Philosofie. p. 173/4. Francis. John. 38. Oliva. Alberto. p. 27. Japiassú. 32. A.Merton. p. p. G. 29. 35. 24. . p. Descartes. W. 25. cit. 38. Rene. Descamps. 33. Japiassú. Lemkow. 29. O Homem. Rene. cit.Horton. 221 e 222. Jorge Dias de organizador e artigos de R.N..Roqueplo. Ferdinand. p. p. Descartes.B. Canguilhem. Fritjof.

p. Benoit. 49. Descartes.. p.. Capítulo II. cit. I. Bachelard. cit. Russel. O novo espírito científico. O Ponto de Mutação. Alexandre. Albert.. Sir James. 3. Alfred North. A. cit. Considerações Sobre Descartes. 15. cit. Pereira.138 3.. cit. Einstein viveu aqui. p. 44. 10.. A Solução Liberal. B. 333. cit. p. Prigogine. Gustavo A. 31. C. . p 164. Dewey. 4. p. Fritjof. Peter e Highfield. Barros. Newton. Théorie de la Quantification dans la Nouvelle Mécanique. p. Abraham. 46.. Niels. in Fadiman. p. Pais. . cit. I. Brennann. Roque Spencer Maciel de. 41. 43. 69. ibidem. 45. 54. Ferguson. Lightill. De Broglie. Clifton. Gaston. John. Châtelet. P. ORDEM E ATRASO 1. Karl. p. 123. cit. F. Perelman.O incomparável Newton 39. 2. Julio Cesar R. Roger. 242.. cit. Abraham. 43.. Sutil é o Senhor. p. Sorman. p. 7. p. Newton. 6.. p. 2001. 40. Isaac. 87. Guy. Caponi. 42.. cit. Mandelbrot. Popper. Pais. 5. Copérnico. 118. Matemática. Carvalho.S. Bohr. 44. Maria Cecilia M. 397. p. A Teia da Vida. p. Koyré. R. Alberto. 42. B. p. Einstein. Idem. M. Coveney. textos de Oliva. cit. 47. Thuillier. Capra. 8. 48. Descartes. Louis. p. p. 363.. Capra. Whitehead. Livro I. N. 63.. Fritjof.M. por Barros. Organizador.

15. M. in Jornal Folha de São Paulo. Albert. L. 16. 118. "Nos Meandros da Política".. IV. 455. 16. p. 10. p. Penna. Wilson de Lima. A. 36. Comte. A Evolução da Física. A ALIENAÇÃO DA DIALÉTICA 1. p. cits. A.. Robert E. Peter.139 9. 17. Fritjof. Alquié. 6. Capra. Barros. cit. 164. A Dança do Universo Dos Mitos de Criação ao Big-Bang. p. Retrato do artista quando coisa. C. Leibniz. Descartes. Manoel. 55. Gleiser. cit. Henry. cit.. p. Carlos Henrique. 198. 12. Bobbio. in Cardim. Meacham. p. John. cit.. N. H. p. p. cit.. Rene. Koyré. O ponto de mutação. Caderno Mais. e Standish. . cit. in Cardim. 11.. C. G. A. . 2. p.78. C. 41 Capítulo III. Descartes. Gleiser. Augusto. tradução Luiz Roberto Mendes Gonçalves. 31. Burke. Augusto. Edward McNall. Comte. Bastos. 192. p. 9. Hilton. Augusto. 7.. Comte.3.C. p. e Infeld. p. Augusto. cit. p. 8. Comte. Comte. Nascimento e Morte das Ciências Humanas. cit. São Paulo. Einstein. 101. t. 5. p. Einstein A. 310. p. Eurípedes. p. 4. 24 de junho de 2001. Ferraz.86. Lerner. Lafer. Vol 2. Japiassú. Rene. Marcelo. Marcelo. 672. A. Como Vejo o Mundo. p. Miguel Reale.. p. 13... F. Perelman. 60. 22/30. Burns. Bobbio. A propriedade das idéias. Cors. N. cits. Lemkow. 129. p. 3. 14. cit.. Platão.

Direito. Caderno Cultura. 184. RogerGérard. 699. 41. Bachelard. ed. Herbert e Schäffle. e Young. Pierre. 15. Hegel.Mito e Alienação na Ciência Moderna. O Momento Criativo . Eide M. 84. Schäffle. Murta. p. Quillet. Estado. 22. Herbert. Spencer. 143. Porto Alegre. Sociedade Civil. Hilton. G. Joseph. cit. Hilton. p. Paul. Freud e o Surrealismo. Capra. Spencer. Albert. 8. p. p. 12. Conversas com pessoas notáveis. História das Idéias Políticas. Beneval de. p. O mal começou em Descartes. cit. Robert Bingham. Gregory. p. "Introdución à la Política. p. Darwin. p. p. 21. Japiassú. 56.. 1972. Bonavides. Miranda. 2. cit. Brodsky.W . 17. Koyré. . 126. 4. Jorge Xifra. Pontes. p. A. Downs. 18. Spencer. Japiassú. ob. Wallace. Tempos Modernos: O mundo dos anos 20 aos 80. p. 16. 21. Carvalho. cit. 2. cit. 63. Oliveira. p. Schwartzenberg. Alexandre. Gaston. Nascimento e Morte das Ciências Humanas. Ballantine. George. 19. 23. Bateson. Charles. p. Soupault. transcrito pelo jornal "Zero Hora". cit. Nova York. Norberto. Sabine. Joseph. Sabedoria Incomum. cit. 200. 20. P. Carvalho. Sciences studies. R. 13. Sociologia Política. Fritjof. Octávio. Barcelona. p. p. Phillipe. Paul. Curso de Derecho Constitucional".. Heras. Bobbio. cit. Albert. 63. p. jornal "La Nación". Johnson. 24. 42.. Estudos Sobre Hegel. 26. "Nascimento e Morte das Ciências Humanas". cit.140 10. 14. 51. 30 de marco de 1996. Schwartz. 11. cit. 1971.R. Murta. Bau und Leben des sozialen Körpers (1875-1878). cit. Eide M. p. Nietzsche. cits. 57. Herbert. 25. Paz. Steps to na ecológy of mind. 25. p.

Vinte lições espirituais para você criar a vida que deseja. D . 38.. Ainda assim suplicava a Isabel que se dignasse "atribuir matéria e extensão a alma. 42. Capra.. 2001. 30. 181. 41. pois tal não é mais nem menos que concebê-la unida ao corpo. A partir de 1643 Descartes corresponde-se abundantemente com a Princesa Isabel. 39. B. 51. 55. “Einstein´s Cosmic Religion” 1979. 15. p. Fritjof. Bohr. 48. M. p.. p. 48 Sousa. Russel. O Caminho do Mago. A. p. 31. 37. 40. p. 49. 35. W. 28. p. 36. L.. cit. Michel. Russel.. Sabedoria Incomum. Lemkow. Hegel. M. 28. F. Gilles-Gaston.. p. cit. 96. 24. A. Damásio.. W. 279. cit. 113.. p. p. Ciência com Consciência. Vinte lições espirituais para você criar a vida que deseja. Morin. Reale. 72 Coveney. Deepak. Rene. W. 228. p. vol.. 82/8 Locke. O Novo Paradigma. Goldman. Jammer.... 281 Damásio. Chopra.141 27. A. p. David. Sousa. N. Edgar. 16 Chopra. p. Serres. p. 29. Gleiser.. 44. p. 307. cit. Capra. p. G. Bohm.. cit. C. 33. p. p. p. 32. B. R. cit. 34. . Anna F. Heisenberg. 45/46. Walter de. A Razão. cit. 103. Conversas com pessoas notáveis. 153.." Alquié. Goytisolo. Idem. 125. O Caminho do Mago. p. Fritjof. F. 103 Fowler. Villey. Dean R. p. Châtelet. cit. mas não soube responder a questão da "remontagem". p. P. Max.. 279. Descamps. p. História da Filosofia. . 43. Juan Vallet de. 45. e Highfield. Damásio. O Direito Como Experiência. 47. cit. p. John. Michel. 45. Descartes. 46.II.. p. Granger.

. cit. Bodin. R. L. p. Clemente. Resumo. NO RASTRO DO LEVIATÃ 1. Leon. Perelman. Capítulo IV. 172. cit. 95. 316. 325. cit. A Revolução Científica. N. p. Foucault. 3. Fadiman. Hobbes. cit. desprezando o interesse do indivíduo. Poeta Crítias. Nos Meandros da Política. p. Hilton. 117. Bastos. Jean.. p. p.. 2. 4. Barnett. 18. L. Bobbio. N. 1576. 173. criador do método qualificado como "genético". A Teoria das Formas de Govêrno. Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. 11. Wilson de Lima. Tomo I. Popper.. O AXIOMA DO MÊDO 1.. Bodin. 5... cit. 122. Coulanges. Teoria dos Sentimentos Morais. 8. p. cit. Adam. W. 9. Capítulo V.33 51. 22. 748. Bodin.. Clifton org. cits. Japiassú. J. Bobbio.. Platão. Cit. 2. J. Bodin. Jean Jacques. considerava a família como última instância. 230.142 50. Smith. T. A Sociedade Democrática e Seus Inimigos. p. 388/9 52. M. 55. p. p. République. cit. Chevallier. Koselleck. p. Fustel. 7. em Cardim. p. ob cit.. 56. Nóbrega. 160. cit. Johannnes. p. C. . Bastos. Jean. Jean. p. Locke. Chevallier.H. Jean Jacques. Filmer. tio de Platão e líder dos Trinta Tiranos em Atenas após a guerra do Peloponeso. porque submisso à causa maior. Smith. Tolstói. 4.. 10. 3. 163. M.. p. cit.. Adam. John E. K. p. Chevallier. 6. Bodin. p. Wills. p. 242/243. Jean. C. Frase de Althusius. Reinhart. p.

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