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Monografia Jurídica Introdução à Teoria da Justiça em Platão (A República – Livro I) JOÃO PROTÁSIO FARIAS DOMINGUES DE VARGAS UFRGS/UFMG

Resumo O presente texto tem uma finalidade simples e um compromisso bem delimitado. A finalidade única é interpretar o Livro I do diálogo “A República”, de Platão. Por isso é uma introdução à teoria da justiça em Platão. O compromisso delimitado é o de ater-se o máximo possível ao conteúdo dos diálogos, buscando não ir além do mesmo, exceto para fins esclarecedores. Trata-se de um texto sobre o conceito de justo em Platão. Para tanto, o filósofo grego põe a ação discursiva na boca de seu professor, Sócrates, durante um banquete na casa de amigos, logo após uma procissão feita em honra a uma deusa. A discussão inicia pela questão da velhice e transcende para a questão do justo e do injusto, valendo-se do método maiêutico utilizado por Sócrates, a partir das afirmações ou teses de seus interlocutores. O debatedor do momento é o sofista Trasímaco que afirma que ser injusto é melhor do que ser justo. Sócrates se empenha em provar que a tese verdadeira é a oposto, i.e., que ser justo é melhor do que ser injusto, pois só ela traz a felicidade. O diálogo platônico tem dois momentos bem nítidas que permitem uma segmentação própria para a análise do mesmo. A primeira parte trata do “Encontro de Amigos”, que é abordado no Capítulo I da Parte I; o Capítulo II da Parte I enfoca a “Velhice: amor, riqueza e morte”. A Parte II do texto vai tratar do “Conceito de Justiça” e foi dividido em três Capítulos. O Capítulo I trata da “Definição de justiça”, como que de um modo introdutório, o Capítulo II trata do “Debate Geral sobre o Conceito de Justiça”, e o Capítulo III trata do “Debate Específico sobre o Conceito de Justo”

Modo de Citação VARGAS, João Protásio Farias Domingues de. Introdução à Teoria da Justiça em Platão (A República – Livro I). Belo Horizonte: UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Direito, Programa de Pós-Graduação em Direito – Doutorado em Filosofia do Direito, Disciplina Filosofia do Direito I, sob a orientação do Dr. Arthur de Almeida Diniz, 2003.

Lista de Abreviatura e Siglas MC – Martins Claret, Editora brasileira; EO – Edições de Ouro (Ediouro), Tecnoprinte, Editora brasileira; Tb. – Também; Op. cit. – Obra citada; Idem – A mesma obra anteriormente citada Ibidem – No mesmo lugar da obra anteriormente citada Cfe. – Conferir; Cfr. – Conferir.

INTRODUÇÃO “Conhece-te a ti mesmo”. Sócrates I O presente texto tem uma finalidade simples e um compromisso bem delimitado. A finalidade única é interpretar o Livro I do diálogo “A República”, de Platão. Por isso é uma introdução à teoria da justiça em Platão. O compromisso delimitado é o de ater-se o máximo possível ao conteúdo dos diálogos, buscando não ir além do mesmo, exceto para fins esclarecedores. Trata-se de um texto sobre o conceito de justo em Platão. Para tanto, o filósofo grego põe a ação discursiva na boca de seu professor, Sócrates, durante um banquete na casa de amigos, logo após uma procissão feita em honra a uma deusa. A discussão inicia pela questão da velhice e transcende para a questão do justo e do injusto, valendo-se do método maiêutico utilizado por Sócrates, a partir das afirmações ou teses de seus interlocutores. O debatedor do momento é o sofista Trasímaco que afirma que ser injusto é melhor do que ser justo. Sócrates se empenha em provar que a tese verdadeira é a oposto, i.e., que ser justo é melhor do que ser injusto, pois só ela traz a felicidade. São personagens do diálogo posto no Livro I: Sócrates, Polemarco, Nicérato, Glauco, Adimanto, Céfalo, Lísias, Eutidemo, Trasímaco, Carmantidas, Clitofonte. O texto foi dividido em duas partes. A primeira trata dos “Amigos de Sócrates”, e a segunda, do “Conceito de Justiça”. Cada parte é dividida em capítulos e, estes, em parágrafos, que são numerados, sequencialmente, desde o início do desenvolvimento, assim como suas subdivisões, os itens intitulados. O diálogo platônico tem dois momentos bem nítidas que permitem uma segmentação própria para a análise do mesmo. A primeira parte trata do “Encontro de Amigos”, que é abordado no Capítulo I da Parte I; o Capítulo II da Parte I enfoca a “Velhice: amor, riqueza e morte”. A Parte II do texto vai tratar do “Conceito de Justiça” e foi dividido em três Capítulos. O Capítulo I trata da “Definição de justiça”, como que de um modo introdutório, o Capítulo II trata do “Debate Geral sobre o Conceito de Justiça”, e o Capítulo III trata do “Debate Específico sobre o Conceito de Justo”. Utilizou-se a numeração internacional da segmentação das obras de Platão. O livro II abrange os números 327a-e a 354a-e; as citações foram postas em rodapé, para facilitar o acompanhamento pelo leitor. A riqueza de detalhes do texto não permite apenas uma única conclusão, variável conforme o enfoque. Apresentamos uma, ao nosso modo, dando um recorte transversal ao método utilizado na exposição do diálogo, que é o de palmilhar o texto e destacar os conteúdos dados, de modo a dar relevo a todas as questões que Platão pôs na profundidade das falas do diálogo. II Navarro1[1] afirma que quando Sócrates se aproximava dos trinta e oitos anos de idade, ocorreu-lhe a crise interior que alteraria substancialmente a natureza de sua especulação. Segundo Diógenes Laércio, Sócrates teria ido um dia ao templo de Apolo, em Delfos, incrustado nas montanhas da Hélade e sede de um famoso oráculo. No frontispício do templo liam-se as palavras “Conhece-te a ti mesmo”. Ele faria de tal máxima a chave-mestra de seu pensamento, base de toda sua reflexão filosófica, que daí em diante passou a ser centrada no homem e não mais no cosmo. Desde então, ele deu início a sua missão, de escrutador de consciências, para obedecer, segundo ele, ao que lhe ordenava o deus. Paul Tannery, em brevíssimo comento à vida, obra e doutrina de Platão, afirma que: “Platão é um caso especial entre os filósofos antigos, pois dele temos a obra completa. É costume cotejar as suas citações relacionando-as com a edição de Henri Estienne (3 vols.), de 1578, edição essa que é precedida por outra, - a dos Aldos, de 1513 (Veneza) e pelas duas edições da Basiléia (1534, 1556). A ordem dos diálogos adotada por Henri Estienne, ou, mais exatamente, por Serranus, foi quem preparou a versão latina, não é a dos manuscritos. A mais antiga classificação que se conhece dos diálogos é a de Trasilo (37). III
1[1]

Cfe. NAVARRO, NAVARRO, Eduardo de Almeida. Sócrates, o Mestre da Grécia e do Mundo, p. 15/16.

assim como de guerreiros para defender a sociedade. num primeiro momento. do Governo. A divisão do trabalho e a necessidade de trabalho manual. Mas quando a riqueza e a civilização se desenvolvem. mas sim de BÊNDIS. PLATÃO. que não é objeto do presente trabalho. vai aproximar o indivíduo do Estado. Para uma análise mais profunda da obra A República. pai do orador Lísias. na primeira pessoa. SÓCRATES narra. 4[6] 2[4] 3[5] Cfe. Afirma que foi com GLAUCO. o Livro I. Dissertam longamente sobre as razões da fórmula exagerada de Trasímaco. JAEGER. na mesma obra. que observa. A cerimônia religiosa consistia em uma procissão dos habitantes. No entendimento socrático. filho de Aríston e irmão mais velho de PLATÃO. portanto. em torno de 350 aC. que eles constatavam ser de opinião corrente. . PLATÃO.. desde logo. p. A República. trata do conceito de justiça. Estas são formadas pela necessidade que os homens têm uns dos outros para satisfazerem necessidades da vida. Sócrates atendendo ao que lhe fora pedido. e que lhes demonstre ser ela um bem desejável. O orador Trasímaco entra na conversação para defender a idéia de que a justiça se define pelo interesse do mais forte. Para facilitar a consulta. Sócrates observa que era a primeira vez que os atenienses a realizavam. Cfe. p. que a justiça é mera convenção. ao tratar da questão do justo. Livro I. O diálogo ora analisado é uma demonstração clara de uma paidéia posta em prática segundo um método de pesquisa que lembra. i. que Sócrates critica com sua costumada ironia. enfatizando o aspecto da educação pública. 749 e ss. Estas fábulas são concebidas de modo a inculcar-lhes verdades deste tipo: Deus é absolutamente bom. colocamos o resumo feito por Tannery: “Glaucon e Adimanto (irmãos de Platão) pedem então a Sócrates que lhe diga qual é a origem da justiça. Céfalo retira-se para prestar sacrifício aos deuses e seu filho Polemarco propõe uma definição da justiça tomada a Simônides – dar a cada um o que lhe é devido . Trata-se pois de saber qual a educação mais conveniente a estas duas classes. a alma. Isto nos leva a crer que a deusa tinha origem trácia e. cujo objetivo era contemplá-la. é preciso ir à fonte de Jaeguer2[4].O mesmo autor assim resume o Livro I da A República: “A cena se passa no Pireu. Paidéia.. Werner. Bêndis se confundia com ARTEMIS. é preciso guardiões para assegurar o cumprimento da justiça. Portanto.Encontro de Sócrates e Gláuco com Polemarco na festa de Bêndis. aquele que conhecemos hoje pelo nome de pesquisa-ação. São ainda de opinião de que a injustiça é natural ao homem e que se cada um de nós possuísse um anel de Giges. no Livro I. Martins Claret (MC). Para um aprofundamento maior sobre a origem da justiça em Platão. 4[6] Cfe. o que fez no dia anterior. nota 1. fundamental é ir ao Livro II. ora em análise. e que a injustiça é mais vantajosa do que a justiça. afirma que a procissão não havia sido mais LINDA do que a dos TRÁCIOS. de um ângulo ESTÉTICO. Se o Livro II trata da origem da justiça. Sócrates refuta-o e insiste principalmente no fato de que sem justiça sociedade alguma é possível”.e. isto é.11. 327 a-e. No tocante à Festa. A primeira forma de educação é dada sob forma de fábulas. A prece e a observação. A Formação do Homem Grego. poderíamos nos entregar a ela sem constrangimento. e que. pressuposto daquele. Daí a conversação deriva para a justiça. isto se deve apenas às vantagens que acarreta. A República. começa seu discurso pela origem das sociedades. é imutável e não é a causa do mal”. a uma festa religiosa realizada no PIREU. com dois objetivos: 1) fazer orações à deusa e 2) contemplar a cerimônia. e por isso é que a justiça esteve relacionada com o escambo. impõe-se entre eles. Alguns amigos reúnem-se em casa de Céfalo. fora da cidade de Atenas. e a conversação inicia-se entre Céfalo e Sócrates acerca da velhice e sobre os receios gerados pela aproximação da morte. PARTE I OS AMIGOS DE SÓCRATES Capítulo I Encontro de Amigos § 1º . Por essa razão. ver de que maneira a cerimônia era contemplada. se é preferível à injustiça. não se tratava de ATENAS. 3[5] 1. a celebração era das BENDIDÉIAS. como um todo. As orações consistiam em preces religiosas e Sócrates afirma que ele próprio e GLAUCO realizaram as preces. em que afirma: “o problema para o qual desde o primeiro instante se orienta o pensamento de Platão é o problema do Estado”.

5. O escravo afirma que está já aí. E nisso Glauco concorda de imediato.Não paira dúvidas de que. em sendo vontades contrapostas de grupos. vindo atrás dele. Pouco depois chega Polemarco. Sócrates pergunta onde está o seu senhor. para o grupo minoritário ainda resta uma possibilidade. O objetivo de Polemarco. A união de pessoas faz a força. pode-se afirmar que Sócrates estava com os filhos da elite ateniense e. Este. Glauco é o primeiro a se manifestar no assentimento. se nada tinham a fazer de especial na cidade? Demonstrava descontentamento em relação à cerimônia religiosa? Uma recusa à introdução da cerimônia trácia no seio ateniense? Estas respostas não são dadas pelo contexto. O escravo diz da intenção de Polemarco. uma conjectura. 3. O conflito provável de vontades é a tônica do diálogo neste ponto. Sócrates responde que sim. A influência de deuses de fora da cidade-estado Atenas também é patente. Podemos. que é a de que Sócrates o espere. Sócrates era amigo do irmão de Platão. portanto. O escravo alcança o grupo de Sócrates. do conjunto de atos apreendidos genericamente. Polemarco pergunta a Sócrates se este percebeu quantas pessoas faziam parte do grupo daquele. em torno de finalidades deduzidas hipoteticamente. de que a persuasão é impotente diante da recusa de ouvir. o narrador da estória. que não retornem à cidade de Atenas. da Ciência Política. 5[7] Cfe. como vimos acima. Nicérato é filho de Nícias. A República. o Contra Eratóstenes. Sócrates. pela resposta de Sócrates. no primeiro momento. p. o mesmo que aparece na obra Banquete. todos jovens. na primeira fala.. depreende-se. o início da República se dá com a narrativa de fatos que demonstram a prática religiosa do homem grego da época de Péricles. vendo Sócrates e Glauco. que é a quantidade de pessoas o que faz a força e que. A alternativa posta por Polemarco é clara: ou deve ser mais forte ou deve permanecer. Dada a origem dos integrantes dos dois grupos. 2. A conjectura de Polemarco. . afirmando que. Sócrates responde tecnicamente. Adimanto e outros mais. no diálogo. O escravo teve de correr para poder alcançar Sócrates. a de persuadir o grupo majoritário no sentido de permitir que a minoria siga o seu caminho e não permaneça no local. distingue-se uma conjectura bem feita e uma conjectura mal feita.. É o argumento de persuasão contra o argumento da força. a mando de Polemarco. Isto nos demonstra que Sócrates caminhava rápido e que estava mais próximo da cidade do que o grupo de Polemarco. e percebendo a pressa em retornar. que havia percebido. a questão se politiza. perceber que Sócrates tinha a ocupação em fazer uma boa conjectura da festa de Bêndis. PLATÃO. era pedir que Sócrates o esperasse. A recusa de ouvir torna ineficaz qualquer persuasão. afirmando que Polemarco não está conjecturando mal. não tendo certeza de que efetivamente estavam na festa. senhor do escravo. (MC). de Xenofonte. deve acatar a decisão do grupo mais forte. portanto. Platão dá a entender. como se expressa o contexto do diálogo. Sócrates e Glauco estavam por deixar o Pireu e retornar a Atenas.e. Adimanto é irmão de Glauco e de PLATÃO. O objetivo deste é que Sócrates e Glauco permaneçam “aqui”. Sócrates avistou. Terminada a cerimônia. expressa uma conclusão empírica.11 notas 3 e 4. segundo o entendimento expresso por Polemarco. 4. Polemarco era filho de Céfalo e irmão do famoso orador LÍSIAS. As palavras parecer e conjecturar são sintomáticas de ambiente de discussão. O argumento de persuasão e o argumento da força. Polemarco afirma que não haveria como Sócrates convencê-los. confirmando a espera. o mais fraco deve ceder ao mais forte. que simplesmente sustenta. enviou seu escravo. O escravo de Polemarco .e. Sócrates vestia um manto. caso os mesmos não queiram ouvi-lo. famoso político e general ateniense. i. Esta palavra é típica. agarrando pelas costas. Assim.. i. Diante do argumento de persuasão de Sócrates. Polemarco dá a entender que o grupo de Sócrates é minoritário e que. hoje em dia. ao que parece. i. Nicérato. i. inclusive. pois expressam o que parece aos sentidos sobre a realidade presente em uma visão panorâmica. a exemplo da expressão análise de conjuntura.5[7] A afirmação de que os integrantes do grupo de Polemarco vinham com ar de quem vinha da procissão indica que Sócrates estava deduzindo a procedência dos mesmos.e. sem maiores detalhamentos de seu conteúdo. autor de um dos mais célebres discursos.. dizendo que lhe parece que Sócrates está por se preparar para tomar o caminho de regresso a Atenas. mesmo sendo amigos. A diferença é que os dois grupos são amigos. de longe. Polemarco. tendo Sócrates como narrador e protagonista. no sentido de uma análise bem ou mal feita da realidade presenciada ou observada. O escravo não tem nome. Por que a pressa de Sócrates e de Glauco.e. na qualidade de observador. Assim. o grupo de Polemarco. diante da alternativa de força apresenta um argumento alternativo. quando foram interpelados por um escravo.

A terceira pergunta consecutiva. portanto. Com isto se verifica que Polemarco partiu.Polemarco. capaz de mudar a vontade. modernamente. 12 ss. mas apenas a aproximação. é o grupo de Sócrates que cede diante do argumento da força. nem o mês e nem o preciso ano em que esta festa ocorreu. afirma que o grupo minoritário deve ter certeza de que não será ouvido. 8[10] 6[8] 7[9] Cfe. i. O abuso da força é o tema do ponto apresentado por Platão. 8[10] Cfe. A República. neste caso. Polemarco afirma que primeiro vão jantar e que depois irão à festa. Nesta festa haverá muitos jovens e muita conversa. Não temos condições de saber o dia da semana. 8. um convite para jantar.12. . que Sócrates e Glauco fiquem e não façam outra coisa. afirmando que é assim mesmo. põe-se fim ao conflito hipotético. É Polemarco quem atualiza Sócrates. abdicando do argumento de força anteriormente posto. 7. 3) Sócrates não sabe que haverá uma festa noturna que contará com a presença de muitos jovens para conversar. A festa de Bêndis continuou pelo turno da tarde.e. (MC). Trata-se da intransigência surda. diante do reconhecimento da assertiva da força que se recusa a ouvir. MC. Tendo em vista que Sócrates se surpreende. afirmando que a festa noturna vai acontecer e que merece ser vista. para nós. (MC). p. Portanto. no tocante à continuidade da festa no turno da tarde e sobre o conteúdo da mesma. Podemos afirmar que o grupo majoritário utilizou dois gêneros de convencimento: o convencimento pela força e o convencimento pela palavra. Os argumentos persuasivos pela palavra foram: 1) Sócrates não sabe que a festa continua pela tarde e pela noite. 5) Sócrates é convidado para ficar. pp. próximo ao meio-dia. nos permite concluir que o momento em que está ocorrendo o preciso ponto do diálogo é perto do final da manhã. uma corrida de archotes a cavalo. dos amigos e da recusa de escutar argumentos persuasivos. agora. A expressão logo à tarde vai haver. permitindo a transigência.A corrida eqüestre com archotes7[9] 6. a competição de tochas em regime de corrida por revezamento a cavalo. i. que quer saber se a competição vai ocorrer a cavalo. com revezamento de tochas. a corrida de 4x100. O horário do encontro entre os amigos. Como são todos amigos. PLATÃO.12. quando os grevistas pedem audiência dos patrões ou autoridades públicas e este se recusam a ouvi-los ou reunir-se para dialogar. 6) Sócrates é convidado a não fazer outra coisa. A contrario sensu. da força surda e. que quer saber o que queres dizer. Argumentos persuasivos do grupo majoritário. é no turno da manhã que ocorre o encontro de Sócrates com Polemarco. i. Livro I. como vimos acima. pode-se concluir que as corridas de tochas eram feitas a pé. Sem dúvida que a vontade de Sócrates muda e. portanto.e. i. O reforço da nova pergunta.. Inclusive. A República. 328 a-e. Com isso.6[8] § 2º . que é no tocante à continuidade da festa inclusive à noite. em 350 aC. depreende-se que o argumento da força tornou-se um argumento persuasivo. Em honra à deusa houve uma Corrida de Archotes a Cavalo. caso não fossem amigos. Há uma terceira desatualização de Sócrates.e.e. i. demonstra e reforça a apreensão de Sócrates. e não obrigado a ficar. na linha de Sócrates. A desatualização de Sócrates. com revezamento de bastão. havia jogos olímpicos em homenagem aos deuses. demonstra um método próprio. reperguntando se a corrida de archotes é a cavalo. depreende-se que isso não fosse comum naquele tempo.e. É coisa nova! – afirma Sócrates. Houve. solicita. que lembra. dita por Adimanto. PLATÃO. o debate apresenta uma brincadeira que expressa uma realidade clara. passando as tochas uns para os outros. É Polemarco quem responde. Isto ocorre fartamente diante de situações de greve de trabalhadores. Esta parte do diálogo é importante pela sua atualidade perene. cega diante das pretensões das minorias ou dos mais fracos. Polemarco.. portanto. p. Obviamente.. nos jogos olímpicos. 4) Sócrates foi convidado para jantar com os amigos. para o uso de argumentos persuasivos. o que nos leva a crer que a cerimônia religiosa anteriormente tratada ocorreu pela manhã. A República.. PLATÃO. Não podemos deixar de referir que Sócrates estava desinformado duplamente. da maioria. 2) Sócrates não sabe que haverá uma competição inédita.

Deveria ser importante para Sócrates entrar na casa de Céfalo. Assim que Sócrates adentrou na casa. Qual era o conteúdo do sacrifício. onde o grupo se encontrou primeiramente. assim se deve fazer. Não é explicitada a idade de Céfalo e nem a idade de Sócrates aqui. junto a um círculo de outras cadeiras. 4) cadeira almofadada e 5) estar velho. 7) uma alusão à amizade: casa de Céfalo é uma casa de amigos e de amigos muito íntimos. dizer. 2) uma exortação: Sócrates deveria descer mais ao Pireu para visitá-los. e 5) Céfalo. PLATÃO. pai de Polemarco. A República.12[14] Não se pode deixar de perceber que se tratam de sete argumentos que Céfalo utiliza. ao dizer que. A República. nota 6. p. com o grupo majoritário. incógnito nos “e outros mais”. em mesmo podemos deixar de mencionar a idéia de 2) sacrifício no pátio. (MC). se assim te parece.12. com uma coroa na cabeça. a companhia de jovens e as dificuldades físicas da velhice se apresenta como introdução temática do que vai dominar o diálogo durante todo o Livro I. E Sócrates reforça a capitulação. neste tocante. 11[13] Cfe. Carmantidas não é nomeado em nenhum outro texto de Platão. É por isso que Glauco afirma: . vendoo. a 3) coroa na cabeça. Sócrates vai à casa de Polemarco. As impressões de Sócrates sobre Céfalo. depois. Ele e Górgias são considerados os criadores da prosa artística. Dizendo de uma forma direta: um homem idoso com uma coroa na cabeça realiza um sacrifício no pátio em honra a determinado deus e. onde Sócrates e os irmãos de Platão estariam. O inusitado da entra na casa é o que fica demonstrado. (MC). 4) Clitofonte. MC. filho de Aristonimo. p. 5) um conselho: à medida em que vão murchando para os prazeres físicos. PLATÃO. Céfalo.12. sobre a idade dos prazeres físicos e dos prazeres da conversa. § 3º . Sócrates afirma que Céfalo estava bastante envelhecido e fazia tempos que não o via. apenas Trasímaco e Clitofonte entram no diálogo. A República. para convencer Sócrates a descer ao Pireu para visitar Céfalo e os amigos em sua casa. Sócrates e os outros se sentaram perto de Céfalo e havia muitas cadeiras dispostas em círculo. A República. por assim. (MC). é provável que tenha sido ele quem convidou Trasímaco para ir à casa de Céfalo. 12[14] PLATÃO. Trasímaco era um dos maiores sofistas. É. Platão não nos conta e nem se era sabido por Sócrates. Não se pode deixar de observar cinco idéias-chave desta passagem deste episódio: 1) círculo de cadeiras junto a Céfalo. NASSETTI afirma que do grupo de figura. A coroa era indício de que Céfalo havia acabado de fazer um sacrifício no pátio. nessa mesma medida aumentam o desejo e o prazer da conversa. Estava sentado numa cadeira almofadada. 3) Carmantidas de Paianieu. 3) uma constatação: Céfalo não tem mais forças para ir facilmente à cidade visitar Sócrates. nota 5. 12. Descreve a primeira impressão visual do amigo. O lá dentro fica contraposto ao lá fora.Bem parece que temos de ficar.A reunião de amigos na casa de Céfalo 9. 10[12] 10. como vemos.12. Livro I. Lísias era um estudante de retórica na época e. 9[11] Entendemos que Platão está presente no grupo majoritário. 10[12] . descansa. Esta saudação consiste em uma conversa que apresenta as seguintes observações: 1) uma queixa: Sócrates não desce mais da cidade ao Pireu para visitá-los. primeiramente. As observações de Céfalo a Sócrates. expressamente. Dentro da casa de Polemarco. Cfe. é Céfalo quem dá o tom. 2) Trasímaco de Calcedônia. bem como sobre a casa de amigos e a amizade íntima . 6) uma segunda constatação: Sócrates costuma ficar na companhia de jovens. 11. a amizade. Nela encontra 1) Lísias e Eutidemo. 328 a-e. Não é por acaso que Platão fala em estava lá dentro também. A discussão sobre os prazeres. Daí o possível “realismo” da narrativa. a demonstração da ignorância de Sócrates e a explicitação de convites sintetizam os argumentos que o convencem a ceder em sua pretensão de retornar à cidade. saudou-o. 9[11] Cfe. que é irmão de Polemarco. protetor da casa11[13]. Pietro Nassetti é o tradutor do diálogo. pela Martins Claret. dos debates que virão. É possível que o coroamento se deva ao ritual prestado ao AEUS HERKEIOS. levantando questões sobre quem e quando deve um amigo visitar o outro. vistos acima. naquele momento.Em suma. Portanto. novamente Glauco que concorda. PLATÃO. 4) um reforço à exortação: agora é a vez de Sócrates aparecer mais vezes na casa de Céfalo. p. chefe do ritual religioso em honra a Zeus do lar. p. sentado em uma cadeira almofadada.

329 a-e. O lamento dos velhos sobre os males da velhice. 2) os velhos são como viajantes que foram à frente dos mais novos percorrer um caminho que talvez os novos tenham de percorrer. 212. 13. Sócrates. nota 9. Afirma que. da comida e de outros da mesma espécie. p. 3) da experiência dos velhos serve para informar aos mais novos sobre as características destes caminhos. a manutenção da tradição. p.. Céfalo. MC. da distribuição etária no ensino formal fundamental no Brasil. 15[17] Cfe. Nissetti informa que Sófocles foi um famoso tragediógrafo do século V a. respeitando o velho ditado. dentre outros. de imediato. 16[18] A questão de grupos por faixa etária é uma realidade posta e. Os clubes de coroas. bem como todos aqueles que chegam à fase da existência denominada velhice. é sobre a velhice. como bem o demonstra a LDB/96. 13. posta na boca de Sócrates apresenta os seguintes argumentos: 1) Sócrates tem prazer em conversar com pessoas de idade bastante avançada. nota 7. p. Quer saber se é uma parte difícil da vida ou não. se a velhice fosse a culpada.O Ditado de Sófocles 13[15] 14[16] PLATÃO. A aproximação entre pessoas de gerações (aproximadamente ¼ de século) diferentes possibilita o trânsito da tradição.e. 13. 8. a transmissão dos conhecimentos da tradição.e. Livro I. também ele. Introduz a fala dizendo que. XV. na metáfora das caravanas nos desertos da vida. 13. os CLJs da Igreja Católica. A República. p. 328 a-e. na maioria das vezes. para dar início ao processo de tradição e. O limiar da velhice . a maior parte dos velhos lamenta-se de muitas coisas como 1) a saudade dos prazeres da juventude. que é a sabedoria adquirida com a experiência e a transmissão desta sabedoria aos mais novos. Consta da Ilíada. É o caso. Cabe ressaltar que NISSETTI afirma que a expressão limiar da velhice tem origem em Homero. A República.O tratamento dispensado aos velhos 12. 4) lamentam-se dos insultos que sofrem de seus parentes. como bem o lembra Ortega y Gasset. A compreensão platônica sobre a velhice. concordato e o tema em que se detém. antes de tudo. PLATÃO. 329 a-e. e. Afirma que Céfalo chegou a um período da vida denominado limiar da velhice. O velho ditado15[17]. portanto. que são os mais jovens que devem procurar os mais velhos para se informarem. 3) reclamam como quem não tivesse mais vida. A República. 5) entoam uma litania de quantos males a velhice lhes causa.Capítulo II Velhice: Amor. 17[19] PLATÃO. Livro I. suas trocas e continuidade. 329 a-e. Céfalo afirma que nas reuniões de idosos. os velhos juntam-se num grupo de pessoas semelhantes. é mais jovem do que Céfalo e.14[16] 14. Um deles foi Sófocles17[19]. segundo. Sócrates resolve inquirir Céfalo sobre o que pensa sobre a velhice. Livro I. do ponto de vista do inquirido. NISSETTI afirma que o velho ditado é citado em Fedro.g. perseguida. Sócrates. muitas vezes. diante das observações de Céfalo é. nota 8.. deveria experimentar os mesmos sofrimentos devidos à velhice. p. eis que privados de todos esses bens e não mais vivessem. Riqueza e Morte § 4° . 246 e XXIII. 2) a recordação dos gozos do amor. como parte. que ele. em 240c. EO. A isso corresponde o adágio popular cada qual com seu igual. que afirma que Quem é de uma idade agrada a quem é da mesma idade. § 5° . A República. que os velhos não devem negar. da bebida. MC. se ela é lisa e fácil ou áspera e cheia de dificuldades. A República. 60 e XXIV. Céfalo compreende que os velhos não acusam a verdadeira culpada ou causa disso tudo. Livro I. Céfalo assente em externalizar o seu ponto de vista mediante vários enfoques. 487. i. MC. 16[18] PLATÃO.13[15] Depreende-se daí que Sócrates explicita uma utilidade dos velhos. 13.C. Quando Sócrates diz que devemos informar-nos junto deles afirma duas coisas: primeiro. A resposta de Sócrates a Céfalo. MC. i. bem como da Odisséia. Diante deste quadro de lamentações. . 15. XXII. Ele próprio já encontrou anciões que não sentem a velhice da mesma maneira. Livro I. PLATÃO.

Céfalo afirma que o poeta Sófocles. 19. não se convencem. 21[23] Cfe. como sendo sentimentos que não como causa a velhice. mas sim da própria pessoa. respondeu que nem ele se tornaria ilustre se nascesse em Serifo e nem o ofensor se tornaria célebre se nascesse em Atenas. 330 a-e. PLATÃO. como que se livra de um déspota furioso e selvagem. O contraponto pobre de boa índole e rico insensato fica comparado ao homem nascido em uma cidade famosa. afirma que suspeita que a generosidade das pessoas não se deixa convencer quando Céfalo afirma isso. A República. mas sim da fama de sua cidade. afirma que aos que são ricos e se queixam da velhice. 14. literalmente é: “Sossega. Em outras palavras. mas sim pelo fato de que é rico. Livro I. A República. A República.20[22] Efetivamente. § 6º . PLATÃO. sem um temperamento tranqüilo e sem bom humor. com o homem nascido em uma cidade que não é famosa.. tb. sobre o amor sexual: Como passas em questão de amor? Ainda pés capaz de estar com uma mulher?18[20] Sófocles respondia de maneira muito peculiar. quer na juventude. por analogia. Nesta fase da vida as paixões cessam de nos puxar e nos largam. 19[21] Cfe. EO. Livro I. apresenta uma questão que lembra a noção de aparência. É-se liberto de uma hoste de déspotas ou tiranos furiosos. p. quando se deparava com alguém que lhe fizesse a seguinte pergunta. a vida é difícil para qualquer um. mas sim o caráter das pessoas. 14. A síntese das duas posições gera uma combinação de bem viver. 19[21] 17. mas não tanta quanto julgam ter. A sensatez torna as pessoas mais próximas da sabedoria dos velhos e o bom humor aproxima a velhice da juventude. portanto. 330 a-e. MC. que a riqueza é uma grande consolação. eis que podem achar que ele suporta a velhice desta forma não pela questão do caráter. p. mas sim a índole e sensatez da pessoa. ninguém é famoso fora de sua própria cidade e que. Céfalo. 329 a-e. A República. é o melhor caminho a ser escolhido no modo de se portar diante das coisas do mundo. [24] 22 Cfe. Em caso contrário. 13. frag. Livro I. Temístocles. A sensatez e a boa disposição constituem virtudes que se adquire socialmente. tampouco o rico insensato pode estar satisfeito com ela. Desse modo. quer na velhice. mas que os velhos não aceitam. a vida será pesada e difícil de viver. tanto jovem quanto velho. incluindo a questão do amor sexual. 20[22] Cfe. levando em conta a riqueza. Céfalo aduz que se fala a verdade. p. Céfalo interpreta a totalidade das reclamações dos velhos.22[24] 18[20] A afirmação. O Ditado de Temístocles . MC. para provar sua tese sobre a razão pela qual se pode suportar a velhice. pelo que se depreende. com base no ditado de Temístocles. O caráter das pessoas como causa. 8. Sófocles e o amor sexual na velhice. têm alguma razão. Em suma. Afirma que Temístocles foi ofendido por um habitante de Serifo. Grande paz e libertação de todos esses sentimentos é a que sobrevém na velhice. de modo que.A celebridade e a velhice21[23] 18. PLATÃO. O fardo da velhice e a riqueza. EO. Sócrates estava admirado com o que ouvia de Céfalo e o incentivou que continuasse falando. o que importa não é a cidade de nascimento ou a riqueza que possui. pode-se aplicar o mesmo raciocínio e dizer que se para um pobre de boa índole a velhice não pode ser um fardo leve. 9. se as pessoas forem 1) sensatas ou tranqüilas e 2) bem dispostas ou bem humoradas. a velhice será moderadamente penosa. Afirmava que: se sentia felicíssimo por ter escapado dele. a celebridade não vem do lugar de onde a pessoa nasce. Em função disto. estimulando mediante provocações. 329 a-e. mas pobre. ainda que rico. Céfalo utiliza o ditado de Temístocles. indignado. O ofensor afirmou que a celebridade de Temístocles não advinha de si mesmo.16. PLATÃO. . Livro I. como um escravo que conseguiu fugir de um amo delirante e selvagem. p. nem tu nem eu seríamos famosos”. MC. Entretanto. “Se fosses da minha terra e eu da tua. Assim. p. homem! Com a maior satisfação me livrei dele. Céfalo interpretava a assertiva do seguinte modo.

Hades – o reino dos mortos. A República. O avô Céfalo havia adquirido a sua fortuna um pouco mais ou menos igual à que ele possuía na atualidade e multiplicou-a várias vezes. não poderia atravessar e ficaria vagando no reino dos vivos. § 8º . reporta-se a Cérbero. Diz que ocupa uma posição intermediária entre o avô e o pai. Aduz que essa atitude geralmente dos que não adquiriram riqueza por si próprios. quando um homem se julga próximo da morte. na obra Semiótica.É exatamente neste ponto que Sócrates inquire Céfalo sobre a origem de sua riqueza. diz ele. que os idosos têm uma visão mais clara dessas coisas. Na margem do Reino dos Mortos. estraçalhando quem ainda não tivesse morrido e quisesse entrar. Livro I. Quando o homem se julga próximo da morte. 9. chamado Cérbero. 23[25] 24[26] Cfe.8 ss. afirma que os que a contrapõem por si próprios desenvolvem um apego duplo a ela. mas de tamanho um pouco maior do que a recebida. entram-lhe no espírito 1) temores e 2) preocupações que nunca experimentara antes. motivos de riso mas. desde o avô a fortuna é herdada e não construída. um cão de três cabeças. Cfe. A contrario sensu. A riqueza construída e os homens. com a incumbência de levar Aquiles para conversar com seu pai morto. dá-lhe um pedaço de bolo que. Semiótica. § 7º . tudo isso para além do amor natural advindo do proveito que a riqueza traz. começa a explicar com a fábula mitólogica do reino dos mortos. possibilitando a passagem. na velhice. Estes homens são de trato difícil pelo fato de que não querem falar de outra coisa senão de dinheiro. começa a atormentar o pensamento de que talvez sejam verdadeiras as fábulas. de modo que ficasse visível para Creonte que o morto tinha condições de pagar a travessia de barco. A resposta de Céfalo sobre o usufruto próprio da riqueza é impressionante. EO. 23. Havia um rio de larvas que separava o Reino dos Vivos e o Reino dos Mortos. Sócrates aproveita para fazer mais uma pergunta a Céfalo. 23[25] Conta a mitologia grega que Hades ficava do centro da Terra. Caso não tivesse as moedas. Na linguagem popular brasileira. Estas culpas era.Os temores e as preocupações da velhice 22. Sócrates justifica a pergunta pelo fato de perceber que céfalo não tem excessivo amor às riquezas. Céfalo conta que as fábulas narram a respeito do Hades e do castigo que espera os homens pelas culpas que tiveram enquanto vivos. PLATÃO. sem descanso. chamavase Creonte. 330 a-e. Conjectura que talvez seja pela fraqueza da idade ou por estar mais perto do além. p. O pai Lisânias reduziu sua herança a menos do que a existente agora. Efetivamente. trata-se do correspondente ao boi de piranha. Céfalo tem consciência de que a sua reflexão tem dificuldades para convencer facilmente aos outros. quando vivos. 21. para enganar Cérbero. levando os mortos. Sócrates pergunta a Céfalo se a maior parte de sua fortuna foi herdada ou adquirida Céfalo responde contando a respeito de sua família. A tradição de colocar duas moedas nos olhos dos mortos está ligada ao mito de Hades. O próprio Céfalo contenta-se em não deixá-la diminuída para seus filhos. comendo-o. do avô até ele.A origem da riqueza e a velhice 20. dorme imediatamente. . agora no tocante às vantagens que ele retira de sua própria riqueza. fazia a identificação de quem era vivo ou morto. A riqueza herdada e os homens. até que alguém se dispusesse a pagar o preço da travessia. com um amor semelhante ao dos poetas pelos seus poemas e aos dos pais pelos seus filhos. O barqueiro que atravessava o rio. Diante dessas assertivas. PEIRCE. Por isso. perto da morte. pois a aproxima da idéia da morte. Charles Sanders Peirce24[26]. Conta-se que a deusa Ceres. tendo enganado Creonte. Portanto. pp. valendo-se da expressão um osso para Cérbero.

Preferimos a divisão em versos por simplesmente preferi-lo. tendo vencido os gregos. a consciência leve também se apresenta em muitos casos. sim. Esta é a primeira vez no Diálogo que aparece a palavra INJUSTIÇA. Os versos de Píndaro. Mas. O velho que não tem lembrança de nenhuma INJUSTIÇA25[27] que tenha feito. Para ele. PLATÃO. eis que expressos por Platão não em forma poética. este valor depende do tipo de homem em que ela esteja. quer b) por omissão. 15. que é benéfica. afirma que está convencido de que a fortuna tem. que rege soberana a alma inquieta dos mortais” (grifos nossos)27[29] A palavra justiça vem junta com a palavra santidade no entendimento do poeta Píndaro. Ao par das consciências pesadas. Céfalo. Esta atitude dos velhos é muito semelhante às das crianças. 26[28] Cfe. A esperança é nutriz da velhice e companheira da jornada. associada à noção de lembrança de injustiça feita contra outros homens. a esperança. O grande valor das riquezas. muitos outros proveitos. Deduz-se que somente os justos possuem alguma esperança. e vive em negras apreensões. A República. A esperança afaga a alma do justo e o santo. A República. Livro I. Trata-se de um exame severo de consciência. destruiu todas as casas. 25[27] Cfe. Esperança e justiça na velhice. então o valor da riqueza este em ajudá-lo em grau considerável a 1) não enganar e 2) nem mentir. p. afirma que os velhos se enchem de suspeitas e receios. EO. citados por Céfalo a Sócrates. colhendo a expressão do poeta PÍNDARO. 28[30] Cfe. Assim. A esperança rege soberana a alma inquieta dos mortais. o maior bem é não mentir e nem enganar intencionalmente ou por omissão. MC. mas que. Livro I. que alimentar e acompanhar diga respeito às coisas do futuro. 25.9. p. Conta a lenda que Alexandre da Macedônica. Ainda que disso não seja tratado aqui. Céfalo admira-se com as palavra de Píndaro. deixando apenas em pé a casa de Píndaro. Entretanto.28[30] § 9º . mas sim em prosa. genericamente. 331 a-e. para além da própria morte. chega a perder o sono. ainda assim não nos é possível formar uma imagem precisa do que seja a esperança. O exame severo de consciência. esperança do quê? Esperança em quê? Se é nutriz e companheira. despertando. Entretanto. Quando o homem se convence de que a soma de seus pecados é grande. a desinformação sobre o que virá depois pode gerar a angústia (ou inquietude dos mortais) que a consciência do justo e clemente não precisa ter. o tema morte já foi introduzido em forma de medo da morte. . A esperança em Píndaro26[28]. não é isso que acontece para quem não tem a consciência pesada. 9. 331 a-e. 9. 26.24. Livro I. sopesando se haveria algum outro valor para a riqueza. p. o que demonstra a ligação entre o Direito e a Religião na época de Péricles. pode-se depreender que a esperança é alimentante e companhia. 27[29] Os versos não apresentam o formato posto no texto.29[31] Céfalo afirma que o homem quando parte para o outro mundo não leva apreensões por estar em dívida: 1) de sacrifícios para com algum deus ou 2) de dinheiro para com algum homem. PLATÃO. PLATÃO. e começam a repassar no espírito os males que por ventura tenham feito aos outros. quer a) intecionalmente.O homem justo e clemente na velhice 27. A República. muitas vezes. denominada por céfalo de nutriz da velhice. na velhice e na jornada. Logo após à citação. 331 a-e. cheio de pavor. EO. Podemos dizer. p. 29[31] Cfe. PLATÃO. passa a ter a companhia de uma constante grata esperança. Livro I. 330 a-e. são os seguintes: “A esperança acalenta a alma do que vive em justiça e santidade e é-lhe nutriz da velhice e companheira de jornada. É nesse momento narrativo que fala do grande valor das riquezas. para o homem sensato. A República. ainda no tocante à culpa. em seu sentido negativo. EO. Caso esteja nas mãos de um homem justo e clemente. Para Céfalo.

se havemos de dar crédito a SIMÔNIDES. Livro I.e. Do mesmo modo. i. 331 a-e. Sócrates. PARTE II CONCEITO DE JUSTIÇA Capítulo I Introdução a uma definição de justiça § 10 . Suponhamos que um amigo. as exceções. Sócrates inquire Polemarco sobre Simônides. perguntando qual o seu entendimento ou parecer acertado sobre o que afirmou Simônides a respeito da justiça. no mínimo. Cfe. p. A República. em seu juízo perfeito. PLATÃO. Polemarco atalha discordando de Sócrates. e afasta-se para ir sacrificar. a definição de Céfalo. Afirma que com certeza o que ele quer dizer não é aquilo a que se referiam os amigos há pouco. ficou. pois terá de atender aos sacrifícios religiosos. Com a saída de Céfalo. p. 32[34] Cfe. MC. PLATÃO. PLATÃO. ficou conhecido como um moralista austero. nem que se agisse bem em fazê-lo. Polemarco afirma que é justo é dar a cada um o que se lhe deve e entende que Simônides tem razão. . mencionado com base na poesia de Píndaro. EO. eis que quer abranger. Esse conceito merece ser posto em destaque. 332 a-e. ao afirmar que sem dúvida é assim. A República. Sócrates afirma que não tem razão alguma para duvidar de homem tão sábio e inspirado.31[33] Diante disso. afirmando-se como herdeiro de Céfalo. A pergunta de Sócrates é conceitual. Simônides era o maior poeta lírico grego. Livro I. eis que o filho mais velho. que não se trata de devolver a alguém o depósito feito quando esse alguém está fora 30[32] 31[33] Cfe. A Exceção de Sócrates à Justiça de Céfalo. 16. 10. no Diálogo. Polemarco reforça a idéia. Vimos anteriormente. Portanto. Sócrates parte para cima de Polemarco.A definição de justiça de Simônides32[34] 31. como se depreende. mas venha reclamar a arma quando estivesse doente mental.28. mas não tem plena certeza quanto ao que ele quer dizer com isso. Sócrates descreve uma possível exceção. Céfalo resolve sair fora do debate. Sócrates insiste na questão da justiça com Céfalo. sai para novo sacrifício ou Sócrates deduzira errado? Dois sacrifícios no mesmo dia? Não há resposta para isso no texto. perguntando a justiça é apenas isso. Pergunta-se: deve-se devolvê-la? Sócrates afirma que ninguém poderia afirmar que sim. Questiona-se se não haverá exceções nesses dois âmbitos. que vem a ser ela? Sócrates refere as duas menções de Céfalo: dizer a verdade e pagar as dívidas. 30[32] Quadro 2 Justiça é Dizer a verdade Pagar as dívidas 29. Pergunta: sobre essa justiça de que falamos. essencial e universalizada. tenha pedido para guardar uma arma.. EO. O herdeiro da fortuna e do debate. não se poderia também falar a verdade estrita. no Quadro 2. Céfalo concorda. que Sócrates havia afirmado que Céfalo havia acabado de fazer um sacrifício no pátio. É exatamente aqui que se inicia o debata platônico sobre a JUSTIÇA. p. incompleta. A exceção de Sócrates afirma que a justiça não se pode limitar a falar a verdade e a devolver o que recebemos. terminada a fala de Céfalo sobre a utilidade da riqueza para o homem sensato. também. 30. logo ao chegar à casa. coloca um problema de interpretação das palavras do poeta. 331 a-e. Segundo NASSETTI. afirmando que deixa nas mãos dos presentes a discussão. depois de Píndaro. para pessoa nesse esteado. rindo. A República. Neste momento do episódio. Agora. 10. baseada em Píndaro. tanto da fortuna quanto do debate. retorna a um tema recentemente tocado. Com isso. Livro I. sobre a Justiça.

quando o homem goza de saúde. A discussão sobre o justo. Lembramos que acima haviam chagado ao entendimento que justiça era dizer a verdade e pagar as dívidas. se se guiar pela ANALOGIA dos exemplos anteriores. o piloto. p. no pensamento de Simônides. Se é verdade que não se deve fazer mal aos amigos. na realidade. o que ela dá e a quem o dá? Neste ponto Polemarco expressa que. Sócrates que em tempo de paz a justiça seria inútil? Polemarco não concorda. o mal. ainda. no entendimento de Sócrates se refere à segunda parte da definição anterior. Sustenta que. perguntando. A pergunta implícita de Sócrates é qual é a coisa devida e apropriada de cada arte ou artífice? Sócrates principia por tatear na instrumentalização da definição de Simônides. em caso de insanidade. se não tem necessidade de médico. Afirma que a isso chamou DÍVIDA. a justiça. o que queria dizer era que o justo era dar a cada um o que lhe é apropriado. sobre a utilidade da justiça tanto nos tempos de paz quanto nos tempos de guerra. assim como a arte do Sapateiro para a aquisição de calçados.de seu juízo perfeito. A aplicação da definição em diversas artes. A justiça para os amigos e para os inimigos. A resposta é não.Justiça é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos 33. Neste ponto Sócrates passa a perguntar quem é mais capaz de fazer bem aos amigos e mal aos inimigos em determinadas circunstâncias. a resposta pode ser dar o bem aos amigos e o mal aos inimigos. Livro I. em se tratando de um inimigo. Neste ponto Sócrates duvida da resposta. o bem. Polemarco responde que a resposta pode ser o melhor para fazer a guerra ou combater ao seu lado. Quer saber que espécie de ações e para que efeito tem ele maior capacidade de favorecer os amigos e causar danos aos inimigos. É o caso da Agricultura para a obtenção de frutos. o debate vai em frente. pois se pergunta se. 32. Neste instante Sócrates conduz o debate para um enfoque sobre a amizade. pergunta Sócrates. não é correto devolver qualquer coisa que esteja em seu depósito. A semelhança entre a definição de Simônides e a de Ulpiano. A interpretação de Sócrates. algum mal. pois se trata de um mal. 34. Disso conclui. Em função disso.. que não se pode negar que um depósito seja uma dívida. aos navegantes. O homem justo . por polemarco. 2) E na culinária? – Condimentos aos manjares. . dever-se-ia devolver o que lhe é devido. com nova pergunta de Sócrates. Polemarco concorda que a idéia é que os amigos devem fazer o bem a seus amigos. perguntando a Simônides se é esse o seu entendimento sobre a expressão. quando Simônides afirma que o pagamento de uma dívida era justiça. Portanto. Naturalmente que. i. que não se deve pagar o que se deve aquele que tem um depósito de ouro. quando estão arrostados aos perigos do mar. os amigos e os inimigos marcam os primeiros passos definitórios de Platão. com o apoio de Polemarco. Sócrates reprisa. Afirma. Se é um mal devolver o depósito. Do mesmo modo. 11.e. Assim. alimentos e bebida para os corpos humanos. então deve-se devolvê-lo. 33[35] Cfe. A República. jurista romano clássico. Sócrates interpreta a assertiva de Simônides afirmando que envolveu poeticamente num enigma o que entendia por justiça e que. PLATÃO. pela boca de Sócrates. apropriando-se da expressão coisa devida e apropriada em diversos âmbitos do saber: 1) Qual é a coisa devida e apropriada que a Medicina dá? A resposta dada por Polemarco é . quando estão doentes.33[35] 35. não precisa de piloto quem não viaja. a definição de Simônides. § 11 . pergunta-se Sócrates se. Mas não para um amigo. Polemarco afirma que o tratamento a ser dispensado aos inimigos é o que lhe é apropriado.remédios. não pretendia incluir a exceção levantada por Sócrates. se pessoa está fora do juízo. é muito grande: justo é dar a cada um o que é seu. e nunca o mal. 3) E na arte que chamamos JUSTIÇA. é o caso do medico. Sócrates se pergunta o que pode ser dito sobre o homem justo. EO. 332 a-e. quando esta devolução prejudica o depositante.

nessa linha. também. PLATÃO. e. p.. pergunta Sócrates. pergunta-se Sócrates. MC. MC. A utilidade da justiça nos tempos de paz. Sócrates pergunta se o homem justo é mais útil do que o bom jogador num jogo de damas ou xadrez. Homero e Simônides estão de acordo em que a justiça é uma arte de furtar em proveito dos amigos e para dano dos inimigos. quando se trata de usá-los. É isto o que mostra o argumento. O melhor guarda de um acampamento será aquele que é mais capaz de roubar os planos do inimigo. o que vale não é a justiça. Aquele que é bom guarda de alguma coisa é também o melhor ladrão. 18. Afirma que o mais destro em dar golpes numa luta é também o mais hábil em se defender. PLATÃO. Em suma. Neste ponto Polemarco afirma que já não sebe mais o que disse. parece que o justo acabou convertendo-se em ladrão. Em caso de dinheiro improdutivo . em que caso o homem justo deve ser preferido. 19. Sócrates afirma que Polemarco. Portanto. O mesmo se diga quando se quer guardar um escudo ou uma lira. Vimos que a discussão se travava no tocante à utilidade da justiça nos tempos de guerra e se buscava saber se ela era também útil nos tempos de paz. O mesmo se diga para comprar um navio. p. p. o homem justo é preferível. se o justo é hábil em guardar dinheiro. se correta a linha de raciocínio interpretativo que vem sendo feita.justiça é útil quando qualquer outra coisa é útil 38.§ 12 – A utilidade da justiça nos contratos34[36] 36. É Polemarco quem diz que a justiça é útil nos contratos. perguntando-se. Sócrates vai além e pergunta se ela é útil nos contratos de sociedades ou em outras coisas mais. pela boca de Sócrates. A habilidades humanas. quando não se precisa de dinheiro e convém deixar o dinheiro improdutivo. Então. agora pondo em relevo a habilidade humana nas relações sociais. i. 34[36] 35[37] Cfe. Livro I. brinca Sócrates. EO. o mais capaz em inoculá-la secretamente. A República. . 333 a-e. Livro I. p. com a concordância de Polemarco. conclui que assim como todas as outras coisas: a justiça é útil quando elas são inúteis. Ao que Sócrates afirma que não pode sê-lo no tocante ao uso do dinheiro. mas sim a arte da viticultura. O debate prossegue. O debate continua entre Sócrates e Polemarco à procura de exemplos aplicativos de utilidade da justiça nos tempos de paz. e inútil quando são úteis. e. 334 a-e. o avo materno de Ulisses e um de seus personagens favoritos. mas que sustenta esta última parte. 11. A afirmação anterior está contida no historiador. A conversão do justo em ladrão. O mais hábil em prevenir uma doença é-o também em escapar-lhe. Na inutilidade das coisas. § 14 – O mais capaz do bem o é também do mal35[37] 40.. 39.g. já é a arte do soldado ou a arte do músico o que toma proeminência. caso mantenham ou sustentem aquela definição de justiça que estamos trabalhando. pois para se comprar e vender um cavalo. também será hábil em roubá-lo. 12. mas quando se trata de utilizar a podadeira. agora mais amplo. em que um armador será preferível. A resposta é quando se quer que um depósito seja bem guardado.. vai avançar o conceito de justiça. Este novo ponto de vista. 41. então. Disso se depreende que. É neste ponto que Platão desce HOMERO no diálogo. que diz: “se distinguia entre todos os homens pelo furto e pelo perjúrio”. será mais útil do que um pedreiro. ao falar de Autólico. no caso de uso em comum de prata ou de ouro. A República. Sócrates. 37. a justiça não tem grandes préstimos a fazer. se na construção de uma casa. A conclusão a que chegam é que a justiça é útil quando o dinheiro é inútil. Se a resposta é não. a justiça é útil ao indivíduo e à sociedade. adiante. entretanto.e. o citarista. conclui-se. Homero e Simônides: o justo ladrão. Polemarco afirma que em questões de dinheiro. § 13 . uma vez que para tocar cítara o melhor sócio será o citarista e não o homem justo. melhor será se associar a um entendido de cavalos. que é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos. Cfe. Concluem que quando se trata de guardar uma podadeira. EO. em que espécie de sociedade o homem justo será melhor sócio do que. Por outro lado.

dentro desta categoria. tornem-se injustos. nem o mestre de quitação pode fazer maus cavaleiros. em suas boas qualidades. que os homens a quem predicamos injustos. eis que há amigos maus. MC. A República. deve-se concluir que justo é fazer mal aos que não cometeram injustiças. ou esta última asserção está errada e as outras certas. então. Nisso obtém consenso provisório ou hipotético. A justiça como virtude humana. os bons serão nossos amigos e os maus nossos inimigos? Polemarco diz que sim. A República. Portanto. A conseqüência da linha de raciocínio chega ao absurdo. quando lhe aplicamos um dano que tornam piores as suas virtudes humanas. No entendimento de Polemarco. EO. assim também o justo. não podem tornar os homens ignorantes em música. Polemarco está de acordo que se deveria corrigir o erro de raciocínio em que caíram ao empregar as palavras “amigo” e “inimigo”. 335 a-e. Neste caso. Assim. além de percebê-lo. PLATÃO. por outro lado. afirma Sócrates. Livro I. É neste ponto que Sócrates corrige a expressão para justo é fazer bem aos nossos amigos quando são bons e mal aos nossos inimigos quando são maus. não pode tornar alguém injusto. Sócrates afirma: . A resposta é inexorável: aplicando-se um mal aos homens.§ 15 – Os verdadeiros amigos e inimigos 42. 43. EO. Os debatedores chegam à conclusão de que o erro foi em terem concluído que amigo é aquele que parece bom. sendo. A aplicação da nova definição. E. inimigos bons.36[38] Muitas vezes nos enganamos. na linha de discussão. 45. 334 a-e. tornam-se piores em suas virtudes humanas. afirma Sócrates. Do contrário. Para estes. é amigo só em aparência. Correção da definição 37[39]. Entretanto os bom são justos e incapazes de faltar à justiça. A justiça é uma virtude humana. p. Mas. ou vice versa. O mesmo raciocínio deve ser aplicado aos inimigos. PLATÃO. 20. p. MC. os bons serão os inimigos e maus os amigos. § 16 . pergunta Sócrates. Então vem a pergunta básica: E. ao serem prejudicados. afirma Sócrates. com a justiça. 36[38] 37[39] Cfe. Os bons são justos . ou que se supunha houvesse sido. O mesmo acontece com os cães. a quem cumpriria favorecer. por Simônides. De um modo mais geral ao dizer. se o bons são justos. esta asserção é IMORAL. Cfe. se tornam melhores ou piores no tocante à virtude humana.A justiça não pode produzir injustiça 46. 20. não podem fazer injustiça. ao que parece. aquele que só parece ser bom. 13. segundo Polemarco. será bom favorecer aos maus e fazer o mal aos bons. Neste ponto Sócrates volta à questão da amizade e se pergunta se os amigos e os inimigos são referidos como eles realmente são ou com o são apenas em aparência. o correto seria fazer bem aos justos e prejudicar aos injustos. pois desconhece a natureza humana. 44. Nestes casos. mas não o é. no tocante aos homens. se pergunta se o homem justo deve fazer o mal a quem quer que seja. estaríamos fazendo justamente o contrário do que havia sido afirmado. 13. a quem deveriam prejudicar e. com sua arte. p. Livro I. pergunta-se se os cavalos se tornam melhores ou piores quando se aplicam um mal a ele. desde que o classifique como inimigo mau. Entretanto. mas não em realidade. Assim. Sócrates não está satisfeito e. tomando por bom o que não o é e vice-versa. e a resposta que obtém é que não se tornam melhores. muitas vezes as pessoas se enganam sobre o bem e o mal. A aparência e a realidade.os bons não podem tornar ninguém mau com a virtude. E a forma de corrigir o erro? A proposta é a de que deveriam dizer que amigo é aquele que é realmente bom. p. portanto. A resposta é que é natural que cada um queira bem aos que considera bons e deteste os que lhe parecem maus. Assim como os músicos. . necessário. neste caso.

Trasímaco. XERXES. Platão põe na narrativa de Sócrates que Trasímaco queria falar apenas para cobrir-se de glória. assim também o bom não pode fazer dano a quem quer que seja. ISMÊNIAS. p. indignado. 14. Crê que seja de PERIANDRO. Livro I. Livro I. A República. Assim. enquanto a discussão entre Polemarco e Sócrates ocorria. agachado como uma fera. desejosos de ouvir o debate até o fim só com os dois interlocutores. para impor os seus pontos de vista sobre o conceito de justiça. Cfe.40[42] 50. 335 a-e. não é obra própria do justo o causar dano a um amigo ou a qualquer outro. Tanto Polemarco quanto Sócrates ficaram encolhidos de medo. é que as pessoas podem escolher as definições de modo a justificar seus próprios procedimentos diante do poder que ostentam. EO. O conceito de justiça atribuído a Simônides atine ao poder39[41]. MC. 336 a-e. iniciando pelo debate geral sobre a temática. A indelicadeza do sofista Trasímaco. como se quisesse. 49. PLATÃO. eis que demonstra a falibilidade das definições e a sua descartabilidade. A República. nem de Bias. se alguém afirma que a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido. p. pois o justo é bom. p. Esta passagem é particularmente importante pelo fato de que demonstra que as definições são descartáveis em função do entendimento e da razão humana. estraçalhar fisicamente os presentes. posto que ela pode ser falha. 48. Esta questão epistemológica levantada por Platão através de Sócrates é de suam importância.e. A República. Não é necessário se morrer para defender uma definição. quem diz isso não é sábio porque não disse a verdade. PLATÃO. EO. PERDICAS. as definições são ou podem ser IDEOLÓGICAS. Sócrates. passemos à seguinte. 336 a-e. Do mesmo modo com que o calor não pode produzir o frio e nem a secura produzir umidade. 336 a-e. 22. 40[42] Cfe. qual fera. EO. 14. Se o homem justo deve fazer mal aos inimigos e bem aos amigos. o conceito de justiça atribuído a Simônides não pode ser de Simônides. 23. o injusto. PLATÃO. no meio de todos ali reunidos.não foi sábio quem disse isso.47. Essa afirmativa também é válida na analogia com a física. . o tebano ou de algum outro homem opulento e poderoso que fazia alta opinião do seu próprio poder e foi o primeiro a afirmar que a justiça é “fazer bem aos amigos e mal aos inimigos”. O justo é bom . MC.38[40] Logo. 38[40] 39[41] Cfe. mas fora impedido pelos outros presentes. Pítaco ou outro desses sábios e santos. 22. eis que em caso algum parece que fosse justo fazer mal a alguém. 14. p.. Em outras palavras. afirma que acha que o dito é de outro. irrompeu aos gritos. EO. e sim do seu contrário. Livro I. Ocorre algo inusitado quando Sócrates e Polemarco pararam de falar e fizeram uma pausa. A República. p. que trata do Conceito de Justiça. PLATÃO. 23. Afirma que esta definição de justiça FALHOU e que se precisa encontrar outra definição. Outra questão que levanta. TRASÍMACO não conseguiu se conter e levantou-se. Em busca de outra definição de justiça. eis que supunha que daria uma resposta admirável.41[43] Terminada a Primeira Parte da abordagem. MC. p. i. Trasímaco. Livro I. o mal. 14. MC. Portanto. tentava intervir. . p. 41[43] Cfe. p. também. arremetendo-se fisicamente contra os dois. entendendo com isso que o que se deve aos amigos é o bem e aos inimigos.

afirmando que Sócrates. que tudo parece saber. em vez de ficarem entediados com os extravios. mas o fato é que até aquele momento ainda não conseguiram avançar muito. Cfe. com sua ironia peculiar. afirma que o comportamento irritado de Trasímaco não foi razoável. ficarem compadecidos com aqueles que estão empenhados nesta busca. que é muito mais valiosa do que o ouro. p. o que é VANTAJOSO. não devem se limitar a perguntar e a refutar. na procura da justiça. Trasímaco quer: CLAREZA e PRECISÃO na determinação do CONCEITO DE JUSTIÇA. ainda que um pouco nervoso. 15. 52. MC. Era assim que via e expressava o seu desdém aos sofistas. 15. A República. 43[45] É interessante notar que Platão coloca Trasímaco como irônico que reclama da ironia de Sócrates. Assim. Compara a investigação da justiça com a procura de uma moeda de ouro. Solicita a ele que não seja duro com o grupo. O medo de Sócrates e a superstição do olhar do lobo. Trasímaco. 336 a-e. São dois irônicos? Quem sabe aqui esteja uma pista sobre a educação inicial sofista de Sócrates. 336 a-e.e. traiçoeiro. p. Por isso mesmo Sócrates se demora na explicação. 51. eis que mais fácil do que responder ao que é inquirido. mais uma vez se esconde atrás da ironia e de subterfúgios para evitar uma tomada de posição com uma resposta sobre o que é justiça. fui o primeiro a olhar para ele (o lobo)”. Não se fica fazendo concessões mútuas em vez de canalizar todas as forças em busca da verdade. Em suma. porque ele.. Trasímaco acusa a ESPERTEZA DE SÓCRATES. i. Trasímaco pergunta a todos que espécie de PALAVRÓRIO era aquele que estavam todos utilizando. MC. como os outros já haviam feito. p. por isso mesmo. Não aceita a resposta de que JUSTO é o que é NECESSÁRIO. a um animal selvagem. Explica que é cômodo perguntar. indiretamente. bruto. assim. mas sim de uma outra razão que não é explicitada. Em outras palavras. ocorre o mesmo. Platão coloca Sócrates na posição vantajosa da vítima e Trasímaco na condição de lobo. Está indignado com o resultado do debate até aquele ponto e afirma que quem deve dar a resposta é o próprio Sócrates. Não é por acaso que Platão compara o sofista a um lobo. Diz que. Sócrates vê o lobo antes de ser visto e. Livro I. deveriam. consegue não emudecer. p. com ar de superioridade. à velha superstição do susto do lobo e o emudecimento provocado. lidando com compensações e meias-culpas. desmedido. Com isso faz Sócrates passar por bonzinho. se querem mesmo saber O QUE É JUSTIÇA. EO. Afirma que. que consiste em 1) não querer ensinar.A Indignação do Sofista Trasímaco 51. agressivo. referindose.e. o erro não deriva da culpa dos condutores do debate.Capítulo II Debate Geral sobre o Conceito de Justiça § 17 . não ficariam os procuradores fazendo mesuras aos outros em vez de procurar o ouro. 23.. sem nada pagar ou dar em troca). Livro I. não se contenta com – nas suas palavras – PARVOÍCES42[44]. eis que pode ser que tenham se extraviado um pouco no exame do assunto. 23. implicitamente. todos os que estão empenhados nessa busca. Clareza e Precisão exigida pelo Sofista. a uma fera. EO. o que é ÚTIL. Por isso diz: “ao ver a sua crescer a sua fúria. . o que é PROVEITOSO ou CONVENIENTE. na busca do ouro. Nesta passagem põe o sofista como um destemperado. antes de tudo. Diz a Trasímaco que todos estão ansiosos por descobrir a verdade sobre o que é a justiça. A República. Nesse comportamento reside a razoabilidade. na aparência do modo como conduz os debates. A habilidade de Sócrates: o jogo do olhar do lobo. Trasímaco protesta mais uma vez. § 18 – Trasímaco é atacado por Sócrates 42[44] 43[45] Cfe. mas que isso não foi intencional. PLATÃO. Assim. Platão expressa o medo de Sócrates dizendo que este ficou estupefato ao ouvi-lo falar e que não conseguia sequer olhá-lo sem tremer. Trasímaco está cobrando de Sócrates a capacidade de se arriscar com a formulação de um conceito. PLATÃO. Portanto. tudo que é respondido. 2) ir a toda parte aprender com os outros e 3) sem sequer ficar grato aos que lhe ensinam (i. principalmente Sócrates. Sócrates é habilidoso ao tratar com Trasímaco furioso.

p. Ato contínuo afirma que. Assim. pois parte do princípio de que ninguém sabe a verdade da resposta e. o debate assume uma denotação nitidamente epistemológica. Trasímaco. Trasímaco quer regras postas dentro das quais o questionado não pode deixar de seguir. 2 g. acha que não pode ser apenas a aprendizagem. é um filósofo. A passagem é rápida. PLATÃO. levanta a questão da resposta para alguém a quem se perguntase “quantos são 12”. p. Agora. entretanto.e. mas sim sábios. para a questão do direito de resposta com liberdade de pensamento. se se pergunta “quantos são 12”. ele teria o direito de dizer o pensa.). Dicionário Eletrônico “Aurélio”. Sérgio Buarque de Holanda. i. 46[48] Cfe.e.. mas. pois eles não se consideravam filósofos. pelo lat.45[47] 54.. Verbete: sofista. qualquer resposta pode ser dada. o que faria este se fosse dada uma resposta sobre o que é a justiça. dentro dos termos de sua formulação. taxando tais respostas de parvoíces. ao se limitar as respostas possíveis. Sócrates vacila entre a identidade. que atribuía grande importância à linguagem. Sócrates entende que se tolhe o outro de dizer a verdade. como pensam os sofistas. tem que estar correta. e entre os quais se destacam Protágoras (480-410 a. A República. na verdade.53. C. e Górgias (485-380 a. 23. poderia sim. se há uma posição dogmática de que é possível se conhecer a verdade das coisas. entende que Sócrates se aventuraria a dar uma das respostas vedadas. Os debatedores usam as armas dos adversários. Trasímaco questiona a questão do cumprimento das regras impostas pelo interrogante. Sócrates aceita a imposição do pagamento.e. Percebe-se que Trasímaco usa os argumentos de Sócrates contra ele mesmo. que afirmava ser o homem a medida de todas as coisas. entende diferentemente de Sócrates. Sócrates deve pagar pelo que aprende com os mais sábios. a questão do conceito de justiça e a questão do conceito de número. MC. dá para se verificar que Trasímaco levanta a questão da não identidade de casos para a aplicação analógica de Sócrates. E acrescenta. Com isso está clara a antítese de concepções: a liberdade de pergunta e a liberdade de resposta. proibindo-se de afirmar que são 2x6.e. Estar-se-ia obrigando a dar uma resposta não verdadeira. se a identidade parecesse ao interrogado.] Adj. sofisma (1 e 2). i. ainda que proibíssemos de dar determinadas respostas. a eloqüência e a gramática. se se exclui determinados tipos de respostas. como 2x6. Entretanto. A ironia socrática se vale de conhecimentos da matemática para demonstrar que os sofistas. sophistés.. Neste ponto. mas sim o pagamento pela aprendizagem.postor'. Aqui. [Cf. assim como Sócrates usa os de Trasímaco contra ele próprio. É então que Trasímaco. Os sofistas desenvolveram especialmente a retórica. Assim. Cada um dos filósofos gregos contemporâneos de Sócrates que chamavam a si a profissão de ensinar a sabedoria e a habilidade. Assim. utilizando a liberdade sem limites posta por Sócrates. da questão da identidade. A República. Nesta época o tratamento da matemática era distinto do tratamento retórico. onde a pergunta básica é: é possível se conhecer a verdade? O que é a verdade?46[48] 55. mesmo que não fossem idênticos. como sofista. retomando a questão dos números. [Do gr.] S. não sabem o que dizem. uma resposta analítica. Portanto. do direito que tem este da impor limites ao interrogado. C. A identidade de casos e isonomia de tratamento. i. Sócrates considera o sofista um filósofo.). Filos. Era ofensivo chamar um sofista de filósofo. 337 a-e. A questão de Sócrates é interessante. 1999. p. que não aceita uma resposta tautológica ou analítica. FERREIRA. óbvia. Sócrates afirma a Trasímaco que ele próprio. p. afirmando que pagará quando tiver condições para 44[46] Cfe. se a resposta verdadeira for aquele precisamente proibida como resposta. é equivocada. que fosse diferente de todas as já formuladas até então e que fosse melhor do que todas. 15. Sócrates afirma que deve haver liberdade de resposta para quem se formula uma pergunta. Em outras palavras. 'sábio'. EO. 3x4. onde estava inserido o debate sobre a justiça. desde que esteja correta. posteriormente 'im. a saída de Sócrates passa. É o perigo da resposta condicionada negativa que Sócrates põe em evidência. PLATÃO. o interrogante não pode proibir a resposta que queira o interrogado dar. . 45[47] Cfe. então a dúvida de Sócrates não faz sentido. pois pergunta por que não seriam idênticos. quem efetivamente sabe. portanto. como foi feito por Trasímaco. dentro de sua liberdade de resposta.e. Não é por acaso que Trasímaco afirma que. Livro I. E pergunta qual seria a pena para Sócrates. 2 g. Este responde que seria pena que convém a todo ignorante. 2. Sócrates não quer regras limitadoras para o pensamento. 23. i. 15. esta seria a pena que considera digno a todo ignorante. Há que se notar que os sofistas da época se chamavam “Sábios” e não “amigos da sabedoria”. Trasímaco. ou é dado a empregá-los. i. ter-se-ia que dar uma resposta falsa. 1. MC. EO. Que argumenta com sofismas. A formulação da pergunta e a verdade da resposta. A questão da melhor resposta. Livro I. Sócrates afirma que “evidentemente ninguém poderia responder a uma pergunta formulada de tal maneira”. sophista. 337 a-e.. aprender com os que sabem. pelo contrário. 56. dar aquela que lhe parecesse a melhor. na analogia de Sócrates. 4x3 ou 6x2. Sócrates afirma que. que detém a verdade sobre as coisas44[46].

e. 49[51] Cfe. o que é bom para o mais forte deve ser bom para o mais fraco. e sabe que nada sabe. . pagar uma pena pecuniária. se assim julgar por bem fazê-lo. como é pago o ensino. para que Sócrates proceda como de costume: recusando-se a responder às perguntas e tomar as respostas dos outros para reduzi-las a pó. Livro I. 23.ironiza Sócrates. A primeira objeção aplicativa levantada por Sócrates é a de que.. mas não agradece o que recebe graciosamente. Se não se sabe. Justiça é o interesse do mais forte. MC. se há resposta. o argumento é de cunho moral. 337 a-e. Aqui estão duas concepções claras sobre a questão do ensino pago. paga simbolicamente. um epistemológico e outro metodológico. Em segundo lugar. na qualidade de ignorante. . mas não no momento. Trasímaco retoma a explicitação do método de Sócrates. pela formulação de Trasímaco. aproximadamente. somente pode dar respostas razoáveis aquele que afirma que sabe e que tem algo a dizer. Reconhece que aprende com os outros. Trasímaco levanta uma objeção de ordem prática. 47[49] 48[50] Cfe. afirma. PLATÃO. Em suma. os amigos custearão. i. concorda que deve pagar. mas nega que seja ingrato. i.49[51] § 19 – A definição de Justiça de Trasímaco 59. categoricamente. é uma artimanha da retórica. mas o filósofo só pode questionar. 337 a-e. 338 a-e. tanto o é que é ele quem distribui. 58. Sócrates não se dá por satisfeito com a formulação e parte para a análise de entendimento. dinheiro.e. somente quando tiver dinheiro para pagar47[49]. PLATÃO. i. É a INGRATIDÃO DE SÓCRATES. Sócrates refuta esta afirmação com uma pergunta: como pode responder aquele que não sabe. mas somente quando tiver dinheiro para tanto. p. é a ignorância e o impedimento que estão em jogo. Diz que ouvirá a lição de Trasímaco e que o louvará. coletivamente. Portanto. p. 15. EO. mas a todo tempo anda a aprender com os outros. p. através de Glauco. Cfe. em uma leitura moderna. Livro I. MC. que eles irão pagar a Trasímaco. louvores. portanto. A República. 16. que perdura até os dias atuais. reserva-se o direito de crítica sobre os ensinamentos postos mediante pagamento. 23. A República. Portanto. implicitamente. uma autoridade pode proibi-lo de enunciá-la. Explicita o que. que JUSTO nada mais é do que o interesse. O questionamento do método de Sócrates. o pagamento comunitário em favor de Sócrates e explica que há um investimento como se fosse uma aposta. No caso. 15. Trasímaco aceita. p. mesmo julgando ter algumas idéias vagas. p. da ignorância não tem resposta para dar e a autoridade pode impedir uma resposta cabível. ambos envolvendo a questão da possibilidade de se alcançar a verdade. numa modalidade comunitária (“todos nós faremos uma contribuição em favor dele”)48[50]. Atente-se para o fato de que o Diálogo foi escrito no século V a.. Faz Sócrates concordar em pagar.. Sócrates questiona esta afirmação. não há resposta. A questão do ensino pago. não tem como responder acertadamente. Literalmente. Afirma que Sócrates distorce as palavras do interlocutor para pegar o sentido mais prejudicial ao argumento posto. Sócrates.. não há saída para a situação. ela é proibida. Platão não se cansa de criticar os sofistas por ensinarem somente mediante pagamento pelo conhecimento adquirido. sem ter certeza alguma da verdade das coisas. que não concorda com a assertiva de que a pena é apenas a moral de aprender com quem sabe. para ele. que consiste em recursar a ensinar. EO. no início do século XXI. quem nada sabe.c. A República. na qualidade de aluno ou aprediz. Trata-se. a aprendizagem de Sócrates. mas que não deixa de ser o seu equivalente moral. Livro I. PLATÃO. ou. que o sofista não questiona. é proibido de anunciá-las por um homem de autoridade? Esta pergunta envolve dois enunciados básicos que afirmam implicitamente dois pontos de vistas. Questiona. dizendo que o sofista é sábio e que o filósofo é ignorante. a conveniência ou o adequado ao mais forte. o regime alimentar dado a um lutador que é forte deve ser o mesmo para alguém que não é lutador e que é mais fraco. por não ter dinheiro para pagar aos outros. mesmo que se tenha alguma idéia vaga a ser dada como resposta. ainda assim.. e reconhece que não sabe nada. 24. MC. Neste caso. Em outros termos. EO. portanto. Defende-se dizendo que. mas tem de. XXV séculos atrás. que Trasímaco levanta. de um custeio social do ensino. 57.e.tal. Trasímaco anuncia e afirma. Os amigos de Sócrates o acudem e afirmam. Em primeiro lugar. que é tudo quanto possui. p. a contraprestação é o dinheiro e não o louvor. portanto. mediante LOUVORES. como retribuição. i.e. Sócrates confessa que não tem dinheiro para ter acesso ao saber de Trasímaco. o que Platão chama de arrogância.

339 a-e. quando a fazem mal. 16. vêm Polemarco e Clitofonte afirmar a certeza alcançada por Sócrates. ainda que qualificado pela expressão “do mais forte”. Trasímaco não se dá por vencido e retoma a argumentação por um outro caminho. que a justiça é tanto fazer o que convém quanto o que não convém ao interesse do mais forte. deixaram de ser governantes. bem como que os governantes dos Estados não são absolutamente infalíveis. sendo o conteúdo deste mando o estabelecimento de que: 1) é JUSTO para os governados o que convém aos governantes e 2) aos que se afastam do estebelecido pela lei devem ser castigados como violadores das LEIS e da JUSTIÇA. p. Em suma. i. a aristocracia e a democracia. se justo é fazer o que não convém aos governantes. no erro. i.. EO. precisamente na parte em que erra deixou de ser profissional. usa. O médico não é médico precisamente quando erra com os seus clientes. 340 a-e. Livro I. MC. Livro I. como fica a justiça diante da justiça de obedecer e da injustiça do conteúdo da lei? Neste caso. é concluir-se que em toda parte só existe um PRINCÍPIO DE JUSTIÇA: O INTERESSE DO MAIS FORTE. Cobra de Trasímaco de infringir as suas próprias regras de debate. Ambos concordam em que a JUSTIÇA É UMA ESPÉCIE DE INTERESSE. . que são os mais fracos.Sócrates replica que não. não erra. E isso ocorre simplesmente porque é o governo quem possui o PODER. Diz que estas diferentes formas de governo fazem leis. EO. Sócrates confirma que Trasímaco entende que é JUSTO que os governados obedeçam aos governantes. Trasímaco levanta a questão das três formas de governo: a tirania. neste ponto. contraditoriamente. o justo é praticar o injusto em alguns casos. enquanto governantes. respectivamente. a verdade alcançada pela análise de Sócrates. quando fazem leis boas. EO. quando reclamou precisão e clareza. que está apenas tentando compreender melhor o argumento de Trasímaco. A República. 18. O governante é infalível. O erro da formulação de Trasímaco. A justiça como uma espécie de interesse. 64. os governantes podem fazer leis boas ou leis más. p. não agiu na qualidade de governante. leis injustas. contra os seus próprios interesses de governantes. Entretanto. quando estes se equivocam com leis que contrariam os seus próprios interesses. quando erra. PLATÃO.e. 27. A República. se é justo que as leis sejam obedecidas pelos governantes e pode haver leis que contrariem o interesse dos governantes. os súditos. Razoável. e não apenas ao interesse. Trasímaco parte para uma explicação maior. politicamente.afirma Trasímaco -. MC. Assim. tendo em vista os seus respectivos INTERESSES. usa-a. o calculador não é calculador precisamente quando erra o cálculo. Eis uma antinomia no argumento. p. que são os mais fortes. porque lhe faltou ciência. por agir de modo insidioso na argumentação. Em outras palavras. refere-se ao Estado. não só é justo fazer o que convém ao mais forte mas. uma questão de ordem. Neste sentido. quando erram. Afirmada a antinomia que torna imprestável o argumento de trasímaco em favor da tese de que justiça é “fazer o que mandam os governantes”. ainda que não fossem estas as palavras de Trasímaco. o seu contrário. conclui Sócrates que.51[53] 62. antes de tudo.. Platão. PLATÃO. As falhas da tese de Trasímaco52[54]. Afirma com precisão: em todos os Estados rege o mesmo PRINCÍPIO DE JUSTIÇA: o interesse do governo. Quando um profissional erra. PLATÃO. 60. Alega que ele está carecendo de mais clareza na explicação. devem obedecer ao que supõe ser o interesse do mais forte. Ficou estabelecido. i. Sócrates passa ao exame da formulação de Trasímaco. portanto. agora. Assim. às vezes. 63. estas estão em conformidade com o interesse do governante e. 16. O mesmo vale para os governantes. tirânicas. 25. . O governante é infalível. 339 a-e. 50[52] 51[53] Cfe. que estão sujeitos a errar. por não estar convencido da veracidade da mesma. p. A República. frente aos governantes. e justo é também obedecer às ordens dos governantes. são infalíveis. é que ele questiona. o mesmo argumento que Trasímaco utilizou contra ele antes. portanto. p. p. por vezes. Trasímaco acusa Sócrates de agir de má-fé na discussão. ainda assim prevalece o interesse do mais forte. Segundo Trasímaco.. Sócrates levanta. Diz que é precisamente pelo fato de a definição de justiça de Trasímaco estar vinculada ao interesse do mais forte. pelo argumento de Trasímaco. Livro I. se podem errar.e.e. pois antes havia proibido a Sócrates de usar a palavra “interesse” e. Com o estabelecimento das leis. aristocráticas e democráticas. 26. A justiça que comete um erro contraria o interesse do mais forte. MC. 61. também. Portanto. Cfe. o que não convém ao mais forte. Justiça é o interesse do Governante50[52]. Afirma que não entende por mais forte ao que erra. portanto. os governantes mandam. quando erra. põe a força do grupo para reafirmar. 52[54] Cfe. cumprir a lei seria contrariar o interesse do mais forte.

EO. Sócrates admite que virou pelo avesso a tese de Trasímaco. pensa Trasímaco. para a discussão sobre a imperfeição da arte quanto à sua finalidade. A demolição da tese de Trasímaco. 19. para o qual exerce a profissão. 20. EO. bem como o dano do súdito e do servo. mas sim a conveniência do poderoso e governante. PLATÃO. em caso de imperfeição. p. que a demoliu por completo. o corpo. 55[57] Cfe. mas sim no interesse do doente. p. e não como simples marinheiro. PLATÃO. O piloto não prescreve o que é bom para ele piloto. p.e. Nenhuma arte se preocupa com as suas necessidades. para Platão. mas sim o que convém ao governado e sujeito à sua arte. que o justo seja a realidade do bem alheio. Do mesmo modo – continua Sócrates – procede o piloto. O médico é o governante que tem por súdito o corpo humano. O mesmo se diga da equitação em relação a ela mesma.54[56] Ela não tem nenhum interesse estranho ao seu objeto. A medicina não procura a conveniência da medicina. os governados por ela. Estabelece que os pastores e vaqueiros engordam ovelhas e vacas tendo em vista o bem das ovelhas e das vacas.55[57] § 21 – Teoria da injustiça 67. Sócrates parte. levando à conclusão de que a finalidade da arte é proporcionar a cada um o que convém. A República. 19. e não os do próprio pastor e vaqueiro. as ovelhas são engordadas no exclusivo interesse do patrão. A República. A arte não tem defeito algum. mas o que o é para o seu subordinado. em que atua como chefe de marinheiros. EO. MC. Livro I. Livro I. esta. mas sim o seu próprio interesse. na medida em que é governante. A República. pois sequer aprendeu a limpar o nariz ranhento. 20. Livro I. portanto. eis que o seu objeto é o cavalo. Ao afirmar isso. 56[58] Cfe. 29. que tem uma imagem distorcida da realidade. § 20 – O sentido essencial das palavras e seus atributos 65. p. Trasímaco não se contenta e parte para a baixaria. que diz o que diz e faz tudo quanto faz. de que a justiça é o interesse do mais forte. Nesta linha de argumento. As artes governam e dominam aquilo que constitui o seu objeto. ocupa-se apenas com as necessidades de seu objeto. agora. A tese do desinteresse dos governantes. PLATÃO. perquirindo se. Aqui. MC. pois ela é incorruptível e pura. mas sim a do seu objeto. ad infinitum. MC. 66. segundo Trasímaco. EO. Pergunta até se Sócrates tem mãe. na medida em que é chefe. MC. 343 a-e. no sentido moderno da palavra. o seu proveito pessoal. objeto de seu governo. p. em qualquer lugar de comando. O mesmo ocorre no tocante aos governantes das cidades. afirma Sócrates. A finalidade da arte ou da ciência 53[55]. não necessitaria do concurso de uma outra arte para suprir as suas deficiências. e o que lhe é vantajoso e conveniente. i. pois não tem nenhuma. Eles não passam noites em claro pensando o que é melhor fazer para satisfazer os interesses dos súditos. que não sabe sequer distinguir entre um pastor e ovelhas. 66. de outra e. A discussão entre Sócrates e Trasímaco avança. O interesse dos pastores e vaqueiros56[58]. examina ou prescreve o que é vantajoso a ele mesmo. Sócrates compara a arte do chefe de marinheiros e do médico. Conclui Sócrates que a arte não necessita de uma outra arte para suprir-lhe as imperfeições e. Não é verdade. . considera ou ordena o que convém a si mesmo. mas não no entendimento de Sócrates. assim. é o oposto. É governante de marinheiros. 30. nenhum chefe. É neste sentido que nenhum médico irá prescrever a um doente o que for melhor para ele médico. exemplificando. no entendimento de Sócrates. O interesse da medicina é o corpo. 342 a-e. Sócrates vai conduzindo a análise para chegar ao ponto em que demonstra que ninguém que tenha governo. Em outras palavras. e é tendo esse homem em atenção. 341 a-e. p.Neste ponto a discussão avança para uma distinção fundamental: o sentido das palavras: 1) o sentido popular (lato) e 2) o sentido rigoroso da mesma (estrito). Sócrates conclui que não há ciência ou disciplina alguma que examine ou ordene a conveniência do mais forte. PLATÃO. A República. 28-29. p. Trasímaco volta à investida e parte por uma outra linha de argumentação para reafirmar a sua tese inicial. mas sim o que convém aos subordinados. Livro I. arte é sinônimo de ciência. 53[55] 54[56] Cfe. no sentido rigoroso da palavra. 343 a-e. Na verdade. p. imperfeição alguma. Cfe. 30. mas sim a do ser inferior..

69. quando cumula a medida. i. arrebata o alheio. de Trasímaco. ao ameaçar ir embora. . enquanto o INJUSTO é o que APROVEITA E CONVÉM A CADA UM EM PARTICULAR. nas relações com o Estado. e todo benefício que nos conferires te será amplamente recompensado”. Livro I. PLATÃO. arrombadores. tem mais força. está fazendo vistas grossas à importância de TENTAR DEFINIR NORMAS DE CONDUTA pelas quais possa cada um deles viver de maneira mais proveitosa sua própria vida. p. ainda quando se dê facilidades para alguém e permita tudo fazer do que quer. 342 a-e. A República. MC. Definição de normas de conduta para a vida59[61]. Cfe. Segundo ele. p. p. o injusto sempre sai ganhando e o justo perdendo.. p. quando um homem – continua Trasímaco -. e não em pequenas porções. 57[59] 58[60] Cfe.É a INJUSTIÇA que governa os simples e justos. A tirania é. Dito isto. eis que acredita ele – Sócrates –que a injustiça seja mais vantajosa do que a justiça. não guardes para ti a tua ciência. 70. Como se isso não bastasse. EO. ao dissolver-se a sociedade.continua Trasímaco -. Em primeiro lugar. MC. MC. 342 a-e.o JUSTO É O INTERESSE DO MAIS FORTE. 342 a-e. sempre que o justo se associa ao injusto. Sócrates aproveita o momento e parte para a investida. 59[61] Cfe. p. Trasímaco responde que dá importância sim à investigação que estavam fazendo. de Trasímaco58[60]. 20. EO. O justo leva sempre o prior em comparação com o injusto. falando longamente sobre a aparência de que Trasímaco não dá importância alguma para “eles”. Esta passagem é muito importante pelo fato de que Sócrates. p. 68. Sócrates chega. .. Os simples e justos fazem o que convém ao mais forte e dedicam-se a promover a FELICIDADE DELE. além de seqüestrar as riquezas dos cidadãos. eis que se nega a compartilhar com os outros o que diz saber. ao afirmar “Por favor. A distinção entre ciência (Ciência do Direito) e técnica de controle social (Direito Positivo). Aduz. As vantagens da injustiça57[59]. mas não diz efetivamente no que consiste o que afirma. p. o justo com os mesmos bem contribui mais e o injusto menos. A República. Resulta daí que – e aqui Trasímaco conclui com clareza o seu entendimento . Trasímaco perde o interesse pelo debate e quer se retirar. A República. MC. ao fazer pouco caso da investigação. A provocação intelectual de Sócrates60[62]. tendo sido retido por Sócrates e os outros presentes ao debate. 344 a-e. quando há a mesma coisa a receber. Livro I. sem impor restrições. A teoria da tirania. uma vez que não se preocupa que os mesmos vivam melhor ou pior. amigo. estelionatários e ladrões. chamam-no de DITOSO e BEM-AVENTURADO não só os cidadãos. privado ou público. por ser precisamente justo. que não está convencido da tese de Trasímaco. Trasímaco conclui que em lugar de INJUSTIÇA EXTREMA. seja sagrado ou profano. 21. a tirania age pela fraude ou pela força. 71. por isso. Trasímaco conclui afirmando que isso ocorre porque os HOMENS CENSURAM A INJUSTIÇA POR MEDO DE SEREM VÍTIMAS DELA. No tocante à ocupação de cargos públicos. que em todas essas coisas ocorrem ao inverso. na linha de que a injustiça é que reina sobre a noção socrática de justiça. PLATÃO. Leva ao extremo a provocação. Por outro lado. Ele conta com o poder para auferir grandes vantagens. A injustiça.e. Quando alguém é descoberto a cometer algum desses ATOS DE INJUSTIÇA EM PARTICULAR. sempre que há uma contribuição. seqüestra aos próprios cidadãos e os escraviza. de busca de normas de conduta aplicáveis à vida das pessoas. os amigos e conhecidos passam a odiá-lo quando se nega a lhes fazer favores contra a justiça. Em segundo lugar. liberdade e domínio do que a justiça. 31.e. o justo sai sem nada e o injusto com muito. seqüestradores. nos contratos privados. inclusive. É aqui que entra a teoria da tirania. quase alegando que ele estava fugindo do debate. sinônimo de injustiça extrema. Livro I. 31. mas não de COMETÊ-LA. 20. referese que o debate não é apenas conceitual sobre a justiça. pela primeira vez no Diálogo. que está longe de ser a sua própria. i. Isso já não acontece com o injusto. mas em massa. 32. PLATÃO. Chamam-lhes sacrílegos. 30. pelo fato de que VIOLARAM A JUSTIÇA em alguma de suas partes com um desses CRIMES. o grupo de pessoas que está ouvindo o debate. em lugar de ser designado com esses termos infames acima vistos. em sabedoria ou na ignorância. PLATÃO. mas todos aqueles que ouvem falar da consumação de sua injustiça. a afirmar que Trasímaco. p. EO. mas sim prescritivo. EO. para Trasímaco. somos um grupo numeroso. o injusto torna-se feliz e mais desgraçados os que padecem a injustiça sem sequer cometê-las. 60[62] Cfe. Livro I. A República. o justo abandona os seus negócios privados. é castigado e dobre os maiores opróbrios. afirma que Trasímaco enuncia o que sabe. sem aproveitar nada do público. Em suam. Trasímaco. 20. afirma dois argumentos. Sócrates provocava Trasímaco a continuar o debate.

e de maneira suficiente. relembrando o debate sobre a medicina como a arte do médico. não tem por finalidade velar pelo bem demais ninguém. diz que. como governo. No nosso modesto entender. não a força dos argumentos utilizados não foi suficiente para gerar persuasão. limita-se a descrever como ocorre a injustiça. Por isso afirma que Trasímaco faz afirmações persistentes. É neste ponto que Sócrates faz uma longa fala sobre a questão da técnica (arte) e sua finalidade. para uma questão ética. não explicita o seu pensamento no sentido de eleger o critério básico para o fundamento moral da justiça. i. Fica. 32. PLATÃO.Trasímaco afirma algo que da maior riqueza em matéria de debates: “ . então. porém à base de ilusões.e.e. parece que os argumentos não entram na cabeça do outro. i. não transcende.e. entretanto. ainda que haja homens injustos capazes de violar direitos – atente o leitor para a expressão jurídica -. As compreensão de Sócrates61[63].. 344 a-e. de PERELMAN. ó bem aventurado. de modo que eles entrem. brincando de levar a sério Trasímaco. Livro I. Sócrates havia afirmado no diálogo anterior. é o que externaliza Trasímaco em sua fala. p. Toma os ditos de Trasímaco como uma prescrição moral e parte para um feroz ataque. A República. se Trasímaco afirma que o homem é injusto por natureza ou que ele deva ser injusto em função das vantagens auferidas com a injustiça. p. A finalidade da arte do pastor é aquela referente à própria arte. já naquela época. Livro I. quer este seja uma pessoa pública ou particular. sobre o comportamento humano certo ou errado. A República. gerando persuasão. ao exigir que Trasímaco afirme que não andamos acertados preferindo a justiça à injustiça. Não se pode enfiar os argumentos na cabeça. 21. gerando persuasão. o seguinte: “Esta mesma impressão é talvez a de outros dentre nós. justificando o porquê de sua descrença nas vantagens da injustiça sobre a justiça.e. EO. p.. Não estando alguém persuadido.. MC. de argumentos que convencem. convencia-se somente mediante argumentos que gerasse persuasão sobre o outro. A Teoria da Retórica.E como hei de convencer-te? Se não ficaste persuadido com o que eu disse há pouco. 73. fazendo a transição para uma discussão política bem mais ampla. como se fosse uma lâmina. como ele a vê na vida particular e na vida pública. i. 345 a-e. 345 a-e. MC.” 61[63] 62[64] Cfe. senão do súdito de que cuida. na cabeça do outro. necessária se faz a transcrição parcial: “Por estas razões. 21. Sócrates diz talvez aqui haja outros que pensem como eu. mediante os caminhos da 1) fraude ou 2) da força. afirma: “Não. sobre a atitude renitente de Sócrates. quando damos maior valor à justiça do que à injustiça”. por Zeus. Cfe. parece. A idéia de “enfia-los” fisicamente. Sócrates aproveita o gancho e vai comparar o Governo com o Pastor. neste ponto Sócrates transforma a questão conceitual em uma questão moral. Sócrates não leva isto em conta. i.72. PLATÃO. ao provocar. em definitivo. portanto. Trasímaco está empenhado em convencer a Sócrates e fica indignado pelo fato de Sócrates não se dar por persuadido. 63[65] Cfe. 32. Livro I. 33. O processo é mais complicado. . não faças tal!”. Trasímaco não prescreve um comportamento injusto. Por isso Sócrates. Quando alguém é convencido de algo. 345 a-e. Limita-se a rebater. eu concluí há pouco que é forçoso que concordemos que todo o governo. No fundo é a questão do que é dito como sendo o que é ou como o que deve ser. que mais hei de fazer-te? Ou hei de pegar os argumentos e enfia-los na tua cabeça?”63[65] A discussão é sobre o convencimento e a persuasão à base de argumentos. de modo provocativo. MC. Em síntese: a finalidade de qualquer arte é conseguir do seu objeto o máximo de bem estar. que ocorre somente através da persuasão dos argumentos de quem quer convencer. A República.e.. no final da fala. PLATÃO. inclusive a moderna. até este ponto. quase da indelicadeza. p. Por isso. Coerência e mudança de pensamento62[64]. novamente Trasímaco a convencer a todos das vantagens da injustiça.e. trabalha neste mesmo contexto. Livro I. PLATÃO. Sócrates. mudando as concordâncias com argumentos anteriores. ou não. p. MC. portanto. não force os argumentos a tal ponto de agressão física sobre o interlocutor64[66]. E é essa a dificuldade sentida por Trasímaco diante de Sócrates. EO. p. tanto para as ovelhas quanto para o próprio pastor. que é a de conseguir do seu objeto o máximo de bem-estar.. que erramos. e não minha apenas. Dada a importância. A República. chamando-o de bendito homem. Chega ao extremo. Inúmeras vezes.. quem fala se vê em apuros pelo fato de não se fazer entender ou não convencer com base no que afirma. Convence-nos. EO. 32. 21. 64[66] Cfe. i. § 22 – Recompensa pelo Exercício de Cargos Públicos 75 – A finalidade do Verdadeiro Governante do Estado . que em Platão. p. i.

pergunta-se Platão se é possível que ele aufira alguma outra vantagem da sua arte. dentro da discussão sobre a legitimidade do pagamento de salário para o exercício de cargos públicos. e que sabe muito bem que não é o prazer o que os verdadeiros governantes do Estado devem buscar. se for remunerado mediante salário. não importando que o súdito seja uma pessoa pública ou particular. a um salário. a arte dos lucros. Tendo em vista os lucros de salário do exercício de cargos públicos. na teoria do direito do consumidor. Tendo em vista que a finalidade do emprego da arte pelo artífice é sempre a do bem do outro. uma vantagem específica. ainda que afirmem o contrário. A arte do lucro acompanha todas as artes que produzem alguma coisa a alguém. governar. Em contraponto a isso. Traz dois outros exemplos: que o fato de alguém ficar melhor com o exercício de profissão lucrativa. a do arquiteto. mesmo quando trabalha de graça. Não é. A arte dos lucros acompanha as outras artes pelo artífice. i. a arte que aufere lucros. Platão afirma que ninguém quer. em detrimento do bem dos súditos. transcende. Por isso. E isso porque há utilidade no emprego da arte para o outro. Não é da própria arte que advém a vantagem do lucro. agora. 33 ..e. 346 a-e. Afirma que todos os cargos públicos. tanto das pessoas públicas quanto das privadas. de modo que possa tirar proveito pessoal do próprio exercício do cargo. A utilidade da arte é para o súdito. O artífice é útil. i. tratar e curar os males 65[67] Cfe. e o consumidor. A questão é claramente epistemológica. sempre. duvida que Trasímaco entenda assim. o artífice é o Fornecedor moderno do produto ou do serviço. nem por isso se chamará de medicina esta arte. e não do próprio artífice.. Platão se refere à arte dos lucros como aquela que aufere salário ou rendimentos. em relação ao que ao domínio que aquele tem sobre o processo de emprego de sua própria arte. tu pensas que os governantes dos Estados. sempre.e. Ainda que não use o termo. As artes se diferenciam das outras por esta potência específica. o Governo. e que as vantagens seriam apenas para os súditos. 77 – Recompensa para os Governantes . espontaneamente. A medicina proporciona a saúde. Livro I. de modo que as artes não possam ser confundidas. Se o artífice não receber um salário pelo emprego de sua arte. no sentido de um poder ou capacidade específica de um campo prático do conhecimento humano. na visão avançada de Platão. aqueles que são verdadeiros governantes. nem por isso se poderá dizer que a sua arte é médica. portanto. por isso mesmo. O mesmo se diga em relação que não se deve chamar de arte dos lucros á medicina quando esta possibilita.. i. MC.e.. é sempre o mais fraco.e. mas nem sempre o é para o artífice. i. o que busca o bem dos súditos e. A República. mas o trabalho do artífice empregando a arte é o que lhe dá direito ao salário.e. Cada arte produz o seu efeito e as vantagens dos artífices se aplica a cada uma. governam por prazer?” Naturalmente que Trasímaco responde que não. pela vontade do candidato.. capaz de proporcionar um salário. Como provocação. de modo que Platão erige a própria vantagem peculiar como sendo um efeito da faculdade adicional de cada arte. ainda que nem sempre ao artífice. por oposição.Esta recordação é de suma importância. o salário. o mais forte. p. é pelo fato do exercício da arte empregada em benefício de outrem que o artífice adquire o direito a uma contraprestação pecuniária. Cada arte tem uma vantagem peculiar que a distingue de todas as outras. já era a de garantir os direitos públicos e os direitos privados. Comparativamente. Exemplifica: os artífices ganham um salário pelo fato de empregarem uma faculdade adicional à arte dos lucros. assim como a arte de pilotagem possibilita a segurança na navegação. o mais fraco. Inaugura-se aqui uma visão ética do gerenciamento do Estado. A questão da definição rigorosa vem à tona. só é exercido com aceitação. e o outro.. Assim. para algo mais profundo ainda.e. i. o ganho de salário. A arte é empregada para a conveniência do outro e não do artífice. a casa. exemplifica com o fato de um piloto se sentir melhor de saúde ao navegar no mar. que busca o bem próprio. que o Governante deve buscar o bem do público e do particular. ainda que as práticas possam estar permeadas. um falso. PLATÃO. i. Esta distinção impõe dois tipos de Governantes do Estado: um verdadeiro. Platão retira que nenhuma arte nem governo proporciona o que é útil a si mesmo. Por isso afirma que a medicina produz a saúde. mas proporciona e prescreve o que é útil ao súdito. trata da conceituação das artes e suas distinções em função de seus resultados. de modo que o nome dado possa distingui-las no falar. pois Sócrates afirma que a finalidade do governo é velar pelo bem dos súditos. pelo resultado que seu emprego aufere. e não de si. A questão da faculdade adicional de cada arte vem à baila no mesmo diálogo da distinção essencial entre as artes pelo seu produto final. através de Sócrates. 76 – Faculdade Adicional e Vantagem Específica de cada Arte 65[67]. mas de algo que é adicionado à arte. no final desta afirmação. vimos acima. mas que pensa que o fim do governo é o prazer do próprio governante. Dessa ilação. O artífice é sempre. Há uma designação específica para cada arte. para curar. como uma garantia para o bem do outro. ao perguntar: “Ora. Ela é deduzida da própria vantagem peculiar de cada uma. Platão fala em potência específica da arte. à exceção do de governante. Platão. nesta relação. compensação pecuniária.

Platão. Estes homens de bem também não querem governar por honrarias. 35. Livro I. Essa visão negativa de Platão. A partir deste ponto. mas como quem vai por uma necessidade. até. Somente em caso de necessidade. Porém. quando governam. é qual é o critério objetivo para se saber quem é o melhor para o governo em cada pleito. dando-se. A República. nem mesmo iguais. 78 – Castigo para quem recusa ocupar cargos no Governo66[68] . que exigem abertamente recompensas por seus cargos. o 66[68] 67[69] Cfe. Afirma que o salário das boas pessoas é aquele que é devido pelo Estado aos mais perfeitos que governam pelo seu próprio consentimento. que seria sensato preferir não receber benefício algum a ter o trabalho de ajudar a ele próprio e aos outros. seriam tratados como mercenários. Conclui-se. Mas. em pleno século XXI. mesmo que não o queiram. nesta discussão irônica e hipotética da validade da tese de Trasímaco. não como quem vai tomar conta de um benefício para si. Em persistindo o problema moral do oferecer-se para governar. Pareceria. Capítulo III Debate Específico sobre o Conceito de Justo § 23 – O Método de Discussão 80 – Fixação do Objeto da Discussão sobre o Justo67[69] . Platão faz Sócrates tirar ilações morais desta questão. havia uma competição positiva para governar. o benefício do outro e a recompensa ou castigo. Desta discussão. Qual das duas afirmações é a mais verídica – a de Trasímaco ou a oposta: a vida do justo é melhor do que a do injusto? Glauco afirma que a vida do justo é mais vantajosa. que naquela época. portanto. e 348 a-e. da tese dos dois salários (dinheiro ou honraria) e a tese do castigo. é reprovável. o que é o melhor para si mesmo. sem ter pessoas melhores do que eles. PLATÃO. o que seria vergonhoso. E pergunta para Glauco. Porém. PLATÃO. evolui da discussão da tese dos dois salários (dinheiro ou honraria) para a tese do castigo. implicitamente. quando não houver ninguém melhor do que quem governa. nem para com ele gozar. O Capítulo II tratará disto. dinheiro ou honrarias. se a vida do injusto ou a vida do justo. Platão concilia o pagamento de salário para o exercício do poder com a questão da moralidade do exercício do próprio poder. Os homens de bem não queriam governar por causa das honrarias ou das riquezas. E vão para o poder. aceitável. E. de origem moral. afirma ainda. na verdade. p. porque não as estimam.alheios sem que lhe paguem um salário. 79 – Competição Negativa para não governar . 347 a-e. se não quisermos governar nós mesmos. E fá-lo para pegar um gancho e iniciar a discussão sobre o justo. p. sendo. quem quer exercer o poder político não é homem de bem. parece. Platão afirma reafirma a tese de que o verdadeiro governante não nasceu para velar pela sua própria conveniência. . é que os homens de bem consentem em governar. em sua especialidade. Platão usa a expressão competição negativa para não governar. É neste ponto que Sócrates faz um novo desafio. nunca os homens de bem exerceriam os cargos do governo. mas sim pela dos seus subordinados. a partir da intervenção de Glauco. porque. MC. que tiram vantagem da sua posição. o que. deixando o poder apenas para os maus. influencia muitos pontos de vista até hoje em dia. 347 a-e. de que a justiça seja a conveniência do mais forte. Por isso. Essa discussão sobre a utilidade da arte. em não haver homens melhores do que eles. no Ocidente. Por esse singelo motivo é que. 34 Cfe. haveria uma competição negativa entre os homens de bem de modo que cada qual faria de tudo para evitar ocupar os cargos. se não fossem constrangidos. necessário que os constrangessem a tal. em troca de dinheiro ou honrarias. bem como um castigo para aqueles que se recusarem a governar. é preciso proporcionar uma recompensa aos que querem consentir em governar. MC. MC. o Diálogo toma um rumo mais específico. até este ponto. para tanto. portanto. 34. p. de que a vida do injusto é melhor do que a vida do justo. Por essa razão – afirma Platão – é que os homens bons ocupam as magistraturas. E isto porque o maior castigo é ser governado por quem é pior do que nós. onde são debatidos conceitos com maior precisão. in fine. a está refutando mais uma vez. e que não estava convencido dos benefícios trazidos para a vida do injusto afirmados por Trasímaco. apenas poderíamos contar com maus governantes. Aquele que pretende exercer bem a sua arte. jamais faz ou prescreve. ou como ladrões. até. no dizer de Platão. posto que era uma vergonha o amor às honrarias e riquezas. no ver de Platão. Em sendo assim. Trata-se. mas para o cliente. senão. que quem se oferece para o cargo não é homem bom. A República. Questão que ele deixa em aberto. Por isso afirma que é necessário examinar de novo a afirmação de Trasímaco. a tese de Trasímaco. Livro I. para que possam relegá-lo. o que é preferível.

A República. que Trasímaco operou uma inversão. 36. Livro I. discute. Livro I. seria necessário juízes para resolver a questão. que não faz nenhuma diferença entre o que ele pensa como verdade e o que ele afirma no que fiz. Trasímaco afirma que não faz diferença alguma se o que ele pensa ou não. e. p. Sócrates afirma que há dois métodos possíveis para a discussão. como vimos acima. mas o oposto. (contestação) opondo argumento a argumento do outro. 36. como vêm fazendo até então (conciliatório). MC. sobre o que é bom e o que é mau no tocante ao que se diz. 81 – Dois Método de discussão: litigioso e conciliatório68[70] . que só mais tarde será enfrentado por Aristóteles em sua lógica formal. 36. Se o furto não é descoberto. 348 a-e. fica em aberto. a virtude e a sabedoria estão neste último. 71[73] Cfe. da boca pra fora. é considerado do outro.Pensamento e Afirmação70[72] . Neste método. PLATÃO. p. dando-se a uma o nome de virtude e à outra o nome de vício. Sócrates vai sintetizando o pensamento de Trasímaco. que chamaríamos de litigioso e. Sócrates se ocupa em distinguir o que Trasímaco pensa e o que ele diz. outra rodada de resposta dos primeiros (tréplica). O injusto se considera digno de prevalecer sobre o justo e sobre a ação justa. 348 a-e. A discussão seguinte leva neste sentido o entendimento do leitor. O injusto quer superar tanto o seu semelhante quanto o seu oposto. i. digno de superar a gente. Livro I. 35 e p. mas uma sublime ingenuidade e que a injustiça. Para tanto. e Trasímaco responde que não. A República. Os presentes concordam com o método conciliatório. 349 a-e.. Essa questão. Livro I. assim como neste grupo estão o belo e a força. Sócrates começa retomando a afirmação de Trasímaco e confirma a tese como sendo que a perfeita injustiça é mais útil do que a perfeita justiça. o método ou processo de discussão. Aqui Platão efetua uma dicotomia entre pensamento e fala. em geral. chamando de injusto o que é justo e de justo o que é injusto. posto que faz uma indagação sobre o posicionamento moral de Trasímaco. Os que são capazes de ser perfeitamente injustos são bons e sensatos. o da justiça e o da injustiça.e. Trasímaco a firma que a justiça não é um vício. Platão dá a entender que Sócrates percebe. Sócrates afirma. medir o que cada um disse em cada um dos argumentos. é proveitoso. 349 a-e. E afirma que este método é melhor porque os debatedores serão. desde que afirme o que diz e que seja ou não refutado. É a questão do pensamento verdadeiro e do pensamento falso. p. PLATÃO. juízes e advogados. na vez do outro (réplica) ele responder a cada contra-argumento. enumerando quantos benefícios traz ser justo. PLATÃO. pois põe no grupo oposto tudo quando. seria necessário contar os bens. em que é perquirido. 37 . MC. MC. Livro I. Sócrates extrai que a justiça e a injustiça podem ser qualificadas por nomes. 84 – Competição total e o Justo71[73] . Cfe. de conciliatório. dizendo por dizer. p. 35. Essa questão é muito importante. ao mesmo tempo. Para tanto. O inteligente é bom e o justo não é nem bom e nem justo72[74]. é uma prudência. outro. previamente. Nos dois grupos. para ser sempre ele quem tem mais do que todos. 72[74] Cfe. § 24 – Caracterização do Injusto 82 – Justiça e Virtude69[71] . MC. O que Sócrates quer saber é se Trasímaco concorda mesmo com o que afirma ou se só está testando a capacidade de Sócrates com uma afirmação em que não acredita efetivamente. A República. a cada ponto. Não quereria superar o outro nem em um ato justo. Sócrates propõe um segundo método. Por isso. PLATÃO. ainda. MC. 83. antes de prosseguir. posto que o norte da discussão é outro: provar a falsidade da afirmação original de Trasímaco: a injustiça é mais útil do que a justiça. PLATÃO. e. sobre a concordância do outro na afirmação feita. perguntando se é o que ele pensa que é a verdade ou se está zombando com sua fala. 349 a-e. depois. 68[70] 69[71] Cfe. O justo não quer superar o seu semelhante. O injusto luta por superar o homem injusto e a ação injusta. Sócrates pergunta se um homem justo iria querer superar outro homem justo em qualquer coisa.de convencer Trasímaco de que não é verdadeira a afirmação sustentada de que a vida do injusto seja melhor do que a vida do justo. concorde com Trasímaco. O primeiro consiste em um falar de cada vez. 70[72] Cfe. A República. desde o início. afirmando que não seria educado e nem de boa índole querer em tudo superar. Só o injusto quereria superar o outro em tudo. p. mesmo não sendo mau caráter. neste ponto. um. com força para submeter à sua autoridade Estados e nações. A República. entre juízo e proposição.

O homem injusto se parece com o homem inteligente e bom e o justo não se parece com isso. 73[75] 74[76] Cfe. O sábio é mais sensato e o que é sensato é bom. dizendo ora “Bem!”. Cfe.O Poder de Convencimento de Sócrates 85 – Descrição Cênica do Convencimento . levou-o a suar e a corar. A República. Aqui ocorre uma mudança no método anterior. tanto mais que era no verão. que concordamos que a justiça é virtude e sabedoria. Ora. A República. Livro I. tem a qualidade daqueles com quem se parece. tenta mudar as regras do método antes acertado. não consentia que falasse à vontade. diante da transição para outro enfoque de sua tese. o músico é o sábio e o não-músico é ignorante. mas sim o que lhe é contrário. Sócrates. então. opta por interrogar Trasímaco. Sócrates intervém confirmando que nunca iria proceder contra a própria opinião de Trasímaco. p. Platão faz a transição para a discussão de mais um ponto controvertido sobre a questão do justo: a sua ligação com a idéia de força – injustiça é força. . in fine. Este. Trasímaco se convenceu a si próprio de que não era de todo verdadeira a sua afirmação. com o convencimento. o justo se revela como bom e sábio e o injusto como ignorante e mau. Platão faz uma descrição cênica do momento que merece ser transcrita: “Trasímaco. com isso. O mesmo acontece no tocante ao médico e a medicina. Assim. Mas não é o que Trasímaco quer: ele quer apenas acenar com a cabeça se sim ou se não. PLATÃO. 38. e 39. O que é mau e ignorante iria querer prevalecer sobre o que lhe é semelhante e sobre o que lhe é diverso e oposto. Trasímaco. O homem bom e sábio não quer superar o que lhe é semelhante. pois. Sócrates. O mesmo se diga de um médico no tocante à dieta de bebida ou de comida que prescreve. Foi então que vi uma coisa que nunca antes vira: Trasímaco corar”. logo. então. Afirma que relativamente a toda espécie de ciência ou de ignorância. estava discursando como um demagogo. se a falasse. Percebe-se que a Síntese de Platão leva Trasímaco à contradição lógica. entendendo que esta era a vontade do mesmo. Neste conhecimento sobre música. porém. 350 a-e. mas só o que é diverso e oposto a ele. 37. Trasímaco. Logo. deixemos este ponto acertado!”: “Assim. Agora. se o quiser. considerando-se digno em superá-lo. Sócrates fazia afirmações em forma de perguntas e só buscava a afirmativa do interlocutor para confirmar ou negar a afirmação. pois o que vai ocorrer é que Trasímaco quer dizer menos do que já dizia antes e. Trasímaco não considera excelente criatura um músico que. Sócrates confirma a sua própria regra conciliatória. suando espantosamente. quando afina a lira. exclamei: . E Trasímaco consente no interrogatório. Sócrates sintetiza73[75] o pensamento de Trasímaco. ao afirmar “Bem. Cada um. afirma que não queria contrariar Sócrates. não com a facilidade com que agora esclareço. Livro I. No primeiro. vê-se que há apenas um ensaio de mudança do método. assim como se pode dizer de uma pessoa que é um músico e de outra que não o é. Em sendo interrogatório. dificultar o convencimento perseguido por Sócrates. A mudança de comportamento verbal de Trasímaco. utilizaria o modo das VELHIHAS QUE CONTAM HISTÓRIAS. e não iria fazer o mesmo que o outro sábio. 350 a-e. de modo a sustentar o posto do que afirmara em sua tese inicial. concordou com tudo isso. 86 – Rediscussão das regras do Método74[76] . Diante deste ponto. deixemos este ponto acertado!” Neste ponto. o homem injusto e o homem justo. qualquer sábio iria querer superar os atos e as palavras de outro sábio. o justo se assemelha ao homem sábio e bom e o injusto ao mau e ao ignorante. MC. Portanto. O injusto não quer superar nem o seu contrário e nem o que lhe é semelhante. p. mas arrastadamente e a custo. O ignorante pretenderia superar tanto o sábio quanto outro ignorante. ao passo que o justo não quer superar o que lhe é semelhante. Um é bom naquilo em que é sábio e o outro é mau naquilo em que é ignorante. Suor e corar são sinais externos de uma mudança de espírito. uma que ele.Bem. e a injustiça maldade e ignorância. entretanto. Daí o espantamento de Platão no tocante à arte de Sócrates para o convencimento. Neste ponto de convencimento da narrativa. § 25 . concordamos antes que cada um deles tem as qualidades daquele a quem se assemelha. mas não quando se trata de um nãomédico. pretende superar outro músico na tensão ou distensão das cordas. pede a Sócrates que ou deixe ele falar à vontade ou que o interrogue. MC. PLATÃO. Afirma que não lhe agradou muito a síntese de Sócrates e que tinha uma resposta a dar para a conclusão. Sócrates fará a pergunta e Trasímaco responderá com sua própria formulação. ora balançando a cabeça que sim ou que não. sabia que Sócrates iria afirmar que ele. mas sim um não-músico.

A República.e. torna o indivíduo incapaz de atuar. Sócrates vai além e efetua uma segunda pergunta: se um Estado que se apodera de outro exercerá a sua dominação sem a justiça. É o que se observa com a expressão de Sócrates. Este responde evasivamente. se. a incapacita para atuar de acordo consigo mesma. Trasímaco – como eu disse – porque não te limitas a dizer que sim e que não com a cabeça. Trasímaco concorda novamente. no que Trasímaco responde que permaneceria a mesma força. Cfe. piratas. se não observassem a justiça uns com os outros? Trasímaco responde que não teriam que observar a justiça uns com os outros e que seria melhor para eles que observassem a justiça entre eles próprios. 38. sem a justiça. PLATÃO. Sócrates sintetiza afirmando que certamente seria melhor para eles. poderiam executar um plano ilegal que empreenderam em comum.Justiça e Injustiça 87 – Fixação do Enfoque no Tema76[78] . Livro I. se não é assim. precisa examinar a mesma questão por outro lado. afirmando que. no que concorda Trasímaco. 88 – Submissão de um Estado por Outro77[79] . por outra faceta. nação. se a injustiça existir em um só indivíduo. 77[79] Cfe. concordando com Sócrates. então ficará fácil demonstrar que a justiça é mais forte do que a injustiça. pp. tornam-na inimiga de si mesma. portanto. ou iria mantê-la tal qual a tinha. É neste ponto que começa pela questão da Guerra e da Submissão de Estado por outro Estado. 89 – A força e os efeitos da injustiça78[80] . 78[80] Cfe. MC. perguntando se a injustiça se originar numa só pessoa. agora. A resposta de Trasímaco é espirituosa: “ – É para te ser agradável”75[77]. a justiça é sabedoria e justiça. 75[77] 76[78] Cfe. Se não o é. o melhor dos Estados e o mais perfeitamente injusto. e. suscitando a revolta e a discórdia em si mesmo. MC. devido às dissensões e discordâncias. Trasímaco afirma que é isso o que deve fazer. sem enfraquecimento. e de todos os que lhe são contrários e que são justos. além disso. E isso porque. quando ela se formar entre homens livres e escravos. partia-se da tese de Trasímaco. de um estratagema. No primeiro método. 351 a-e. na verdade. Livro I. p. sim. Afirma que o propósito da discussão é descobrir o que é justiça em relação à injustiça. afirmando. em primeiro lugar. mas respondes muito bem”. Sócrates diz que. com um “pode ser”. A República. Sócrates faz uma longa fala neste ponto. se estas não ficarão divididas.Absolutamente”. Sócrates reconhece que a questão não é tão simples quanto está fazendo parecer. p. antes. Nesta mesma linha. se ela. para. § 26 . 39. ou ter diversos Estados sujeitos ao seu Império?. Livro I. o de causar ódio onde quer que surja. PLATÃO. não fará também com que se odeiem uns aos outros. em forma de pergunta retórica. então. logo em seguida. 39-40. E pergunta. A resposta é dada com um “. i. fazer dele próprio inimigo de si mesmo e dos justos. se a justiça é a sabedoria com justiça. portanto. este o resultado da injustiça. MC. Sócrates faz uma quarta pergunta: Se é. PLATÃO. afirmando que vai formular exatamente a mesma pergunta feita há pouco. para afirmar que. A República. com que se revoltem e fiquem incapazes de empreender qualquer coisa em comum? Trasímaco responde afirmativamente. 350 a-e. seja num Estado qualquer. PLATÃO. ao passo que a justiça gera a concórdia e a amizade. retoma a afirmação de Trasímaco: a injustiça é mais poderosa e mais forte do que a justiça. para Trasímaco. em qualquer entidade em que se origine. a fim de levar metodicamente ao fim a argumentação: “que é a justiça em relação à injustiça?”. E uma segunda subpergunta é feita por Sócrates. as contendas. que a injustiça parece ter uma força tal. porque a injustiça produz nuns e noutros as revoltas. rancorosas e adversárias uma das outras e dos que são justos. e por isso. 40. em primeiro lugar. com certeza não perderia a sua própria força. Para tanto. . ladrões ou qualquer outra classe. produz os mesmos efeitos que por natureza opera. como afirma o próprio Trasímaco. afirmando que ficarão. Trasímaco concorda com a afirmação contida na primeira pergunta de Sócrates: é injusto para um Estado tentar submeter injustamente outros Estados e reduzi-los à escravatura. Trasímaco concorda. A República. exército ou qualquer outra coisa. então. 351 a-e. a diante: “Estou satisfeitíssimo. o que ninguém deixaria de reconhecer. os ódios. uma vez que injustiça é ignorância. Diante desta resposta. Livro I. parte-se das perguntas de Sócrates.Trata-se. E vai além. acima de todos. utilizará da justiça ou será forçado a usá-la. exercerá a dominação com a injustiça. p. Sócrates faz uma nova síntese.. Isto porque. 352 a-e. Sócrates faz uma terceira pergunta: um Estado ou um exército. MC. afirmando que é “só para não discutir contigo”. Sócrates complementa a mudança do método. que Sócrates interpreta com um sim. Sócrates faz uma subpergunta: se o ódio se originar entre duas pessoas. ou é forçado a usar dela? Trasímaco dá uma resposta condicional.

Afirma que os justos mostram ser mais sábios. com o assentimento retido de Trasímaco. enquanto o injusto vive mal. ou melhor do que as outras. 42. Transcendendo. ou sabedoria e virtude. o injusto. e o que não vive bem é o inverso. assim como os ouvidos. não praticar injustiças uns com os outros. p. 92 – Função da Alma81[83]. uma vez que os que são completamente maus e inteiramente injustos são também são também inteiramente incapazes de atuar. com maior perfeição. A República. mas sim em se ser feliz. A justiça é uma virtude da alma. Sócrates retoma a temática da justiça e se pergunta se pode haver uma virtude que lhe é própria em tudo aquilo que está encarregado de uma função. devido ao defeito. 42 . Livro I. Afirma Sócrates. governar. p. 41. ou mal. A alma é justa e o homem justo vive bem. Sócrates começa pela bordas. Não há vantagem em se ser desgraçado. que desistiu de opinar. Podemos podar uma videira com uma faca. Livro I. ao passo que os injustos nem sequer são capazes de atuar em conjunto. MC. Livro I. que ele mesmo. graças à virtude que lhes é própria. enquanto todos comem. 352 a-e. os olhos. Como surgiu um novo argumento. pelo menos. MC. PLATÃO. Muda a analogia. A República. E isso porque não se poupariam uns aos outros. pois são especificidades dela. Podemos dizer que também existe uma virtude da alma. a esse propósito. o de que é mais vantajosa a injustiça do que a justiça. É evidente que há neles qualquer coisa de vislumbre de justiça que os obriga a. e quem tem uma boa. 93 – O homem justo é feliz82[84]. O homem justo é feliz e. um lanceta ou com outros instrumentos.90 – Os deuses são justos?79[81]Sócrates transcende da questão dos homens para os deuses gregos e se pergunta se esses são justos. § 27 – Justiça e Felicidade 91 – A função de cada coisa80[82]. perguntando-se se há uma função própria do cavalo. 354 a-e. este afirma que isso é o Festim das Bandidéias de Sócrates. antes de descobrir o que procuravam – o que é a justiça -. Portanto. mas sobre a regra de vida que devemos adaptar. Pergunta-se: é possível ver com outra coisa que não sejam os olhos. diante da dificuldade de compreensão de Trasímaco. deliberar e todos os demais atos da mesma espécie. Cfe. Assim. que nada ficou sem saber com esta discussão sobre o tema. é o que precisamos agora analisar – afirma Sócrates. Não é justo atribuir essas funções a qualquer outra coisa que não seja a alma. A República. pelo menos. Trasímaco desiste de fazer o contraponto e Sócrates continua. Portanto. 79[81] 80[82] Cfe. se levam uma empresa em comum. PLATÃO. Sócrates. a afirmar que quem tem uma alma má. MC. em continuidade à mesma linha de raciocínio. privados de sua virtude própria. se for privada da sua virtude própria. Ao se lançarem em atos injustos. 40. de levar a cabo solidamente uma empresa em comum. e 353 a-e. PLATÃO. são em parte maus na sua injustiça. p. forçosamente. Se os justos têm uma vida melhor e são mais felizes do que os injustos. 81[83] Cfe. que têm uma função. Usa uma analogia. 82[84] Cfe. governa mal e dirige mal. No tocante à vida. e que é a seguinte: superintender. para ele. ela é uma função da alma. A República. jamais a injustiça será mais vantajosa do que a justiça. também os ouvidos. A função de cada coisa é aquilo que ela executa. Sócrates prossegue. a injustiça é um defeito. largando esse assunto. então teve de se abster de passar daquele assunto para esse. faz tudo isso bem. MC. Se a função se desempenha bem. PLATÃO. A alma não desempenhará as suas funções. Os injustos não são capazes de atuar em conjunto. Isso nos leva. afirma que a Alma tem um função que pode ser desempenhada por toda e qualquer coisa que exista. desempenham mal a sua função. Se os olhos não cumprirem bem a sua função. p. O que leva Sócrates a concluir que o injusto também é odioso para os deuses. enquanto atacam suas vítimas. mas com coisa alguma se executaria tão perfeitamente a tarefa como com uma podoa feita para isso. O que vive bem é feliz e venturoso. desgraçado. teríamos um defeito e não uma virtude. Livro I. Com esta conclusão demolidora da tese originária de Trasímaco. A função do cavalo ou de qualquer animal é aquela que se pode exercer por meio daquele animal unicamente ou. De tal sorte que daí resultou agora. melhores e mais capazes de atuar. assim como todas as outras coisas. Sócrates. o que torna o justo seu amigo. precipitou-se a examinar. diz-se justamente que essa é a sua função. E nisso reside a sua função. 353 a-e. têm também uma virtude. Trasímaco afirma que sim. se não tivessem eles a sua virtude própria. se ela era um vício e ignorância. ou só ela. 352 a-e. ouvir com outra coisa que não sejam os ouvidos? Portanto. E complementa afirmando o enfoque de sua fala: a discussão não é à deriva. se fossem totalmente injustos.

que. Sobre a morte. Por isso. cada qual com seu igual. tem a consciência leve. a velhice será sentida será só um pouco penosa. pesa-lhe no sono o pavor. Na casa.. são a saudade dos prazeres da juventude. Sófocles é trazido à baila em um de seus versos. se aquele que a construiu ou aquele que a herdou. Lá também estariam os próprios irmãos de Platão. da justiça e da velhice: a esperança acalenta a alma do justo e lhe serve de nutriz na velhice. seja por vontade ou por omissão. sobre a utilidade dos velhos. De pronto. Quanto à origem da riqueza e quem a mantém melhor. e a angústia vem com ela sempre. o homem justo não deve. prepara o castigo em função da culpa pelos males causados durante a vida. Os velhos têm que encontrar os velhos para poderem conviver com mais facilidade. Dente eles estão Trasímaco. bem dispostas e bem humoradas. enganar e nem mentir. Após algum debate sobre argumento de persuasão e argumento de força. chamada Bendidéias. onde o primeiro convence pelas idéias e o segundo pela imposição física da maioria. Sócrates é interpelado pelo escravo de Polemarco que o convida a esperar seus amigos. em suas reuniões. um dos maiores sofistas da época. O limiar da velhice ocorre com os sinais do próprio corpo. e reclama como se não tivessem mais vida para viver. ir a um banquete na casa de Céfalo. encontram-se só gente da nata da sociedade ateniense: filhos da alta sociedade da época. i. o espírito tem temores e preocupações nunca experimentadas antes. É insatisfatória para o filósofo a definição de Píndaro. Sócrates pegou o gancho do poema de Píndaro e enfoca a questão da justiça com Céfalo. não se deve levar consigo o peso de ter sido impiedoso para com os deuses ou por ter ficado devendo dinheiro a alguém. menos ainda pode vir a saber se se dá o caso de ser ela uma virtude ou não. A velhice exige um severo exame de consciência do homem. Os assuntos prediletos dos velhos. são considerados os criadores da prosa artística. Na questão da celebridade. mas. apresentados em “Introdução a uma Definição de Justiça”. a velhice é menos rigorosa se se tem bens para suprir as necessidades. e a contemplar a cerimônia de origem trácia. nas últimas linhas do Livro I. Por isso. aduz Platão que. É em Píndaro que Platão vai buscar o enlevo sobre a questão da esperança. Convidam Sócrates a permanecer no local para assistir à Corrida de Tochas a Cavalo e. juntos. desde que não saiba o que é a justiça. decidindo-se que é por conta própria que se torna grande e conhecido. Começa a história contando que foi com Glauco ao monte Pireu oferecer orações a Dêndis. A conversa de Sócrates dom Céfalo apresenta um debate coloquial que evolui para a situação do homem na velhice. Conclusão Vimos na Parte I “Os Amigos de Sócrates”. dialogada. antes de ir embora. com o cansaço físico e a dificuldade de memória dos fatos mais recentes.e. Os pobres sofrem mais na velhice do que os ricos. O excessivo apego à riqueza é um mal. vai ao encontro . Do contrário. O diálogo é uma narrativa de Sócrates. na manutenção da tradição. que sopesa tudo quanto fez em vida. No tocante à riqueza. quando esta se aproxima. o Hades. em uma conversa fraterna. ou Arthemis. que se queixa do abandono de Sócrates por ele. “Debate Geral sobre o Conceito de Justiça” e “Debate Específico sobre o Conceito de Justo”. entre Céfalo e Sócrates. no debate sobre o sexo na velhice. Porém. extrai a máxima dos versos e da fala de Céfalo: “justo é dizer a verdade e pagar as dívidas”. como descreve Platão. como uma companheira de jornada para a alma inquieta dos mortais. a recordação dos gozos do amor. já que é difícil conviver com as mudanças introduzidas pela juventude. e se quem a possui é ou não é feliz. Sócrates cede ao convite. do contrário. Se foi bom. depois. Na parte II. O estilo de vida dos velhos depende muito do caráter da própria pessoa. feita em primeira pessoa. discorremos sobre o “Conceito de Justiça”. afirmando. Encontra o velho amigo Céfalo e o percebe muito envelhecido. Quando se morre. Riqueza e Morte”. com quem. será um pesadelo. Céfalo entende que é um dom da velhice não ter mais que ficar escravo do amor delirante e selvagem da juventude. pelos nomes. Se são sensatas e tranqüilas.Arremata. são insultados pelos parentes e queixam-se muito dos males que a velhice traz. e Górgias. opta pelo primeiro. da bebida e da comida. segmentados em “Encontro de Amigos” e “Velhice: Amor. O medo da morte é inevitável. A esperança é amiga da velhice para o homem justo. Os velhos são úteis porque possuem a sabedoria adquirida com a experiência e podem transmiti-las às gerações futuras. foi discutido se alguém é famoso devido à sua cidade ou é por si mesmo. O reino dos mortes. o pobre de boa índole vive a velhice melhor do que o rico insensato. ponderando o que a vida oferece e o que fica depois da morte.

resulta que justiça é a arte de furtar em proveito dos amigos e em prejuízo dos inimigos. Pode ter só uma aparência de justiça. O mesmo ocorre com os governantes. É cômodo perguntar sem responder. filho de Céfalo. em sendo uma virtude humana. devendo fazer o bem aos amigos e o mal aos inimigos. Se Sócrates quer aprender com Trasímaco. com mais força o é para o mais fraco. Não é verdadeira a expressão que afirma que justo é fazer o mal aos que não cometeram injustiças. Platão compara o sofista com o lobo. A proposição de Trasímaco sobre a definição do justo é: “justo é o interesse. é contra o ensino pago. É com a saída do dono da casa que assume a conversa o seu filho Polemarco. o interesse é o que distingue as mesmas. até porque amigo e inimigo é relativo a uma posição dada e específica de quem observa. que é tudo o que possui. Sócrates aplica a definição de Simônides e a sua interpretação aos diversos campos das artes. fazendo sempre o contraponto entre o “devido e o apropriado”. A questão da verdade vem à tona. Sócrates afirma que pagará com louvores. para estar correta. quem erra é o . a definição grega é a mesma do romano Ulpiano: “justo é dar a cada um o que é seu”. A finalidade da arte é proporcionar a cada um o que convém. se for Sócrates quem aprender. O princípio de justiça de todo governo é o “interesse do governo”. pois lhe faltou ciência. mas como outro. É valendo-se de um método que investigam a verdade de uma formulação. Trasímaco acusa Sócrates de se esconder atrás de sua ironia e de subterfúgios para evitar uma tomada de posição como resposta à determinação do que é a justiça. que sai para render sacrifício aos deuses. Trasímaco. afirmando que este não quer ensinar a ninguém. a conveniência ou o adequado ao mais forte”.do pensamento de Simônides. com uma conclusão defintiva. Por isso é preciso ir em busca de uma nova definição de justiça. o princípio da justiça no Estado é o interesse do mais forte. De pronto pega o gancho da definição de justiça dada por Simônides: “justo é dar a cada um o que se lhe deve”. vai a toda parte aprender com os outros e sequer fica grato ou paga pelo que lhe ensinam. Em síntese. deve ser interpretada como “justo é dar a cada um o que lhe é apropriado”. Quando um profissional erra. Há um sentido popular ou lato das palavras. Os governantes fazem as lei e estas expressam o que é convém a eles e que os que não cumprem a lei são vioadores da justiça e são castigados. para os contratos ou pactos feito entre os homens. nada deverá. em tempos de paz. fazendo as vezes de anfitrião de Sócrates. Sócrates. afirma que é inconvincente dizer que justo é o que é necessário. O ensino tem que ser gratuito. No tocante ao justo. se não for assim. É o que na modernidade chamamos de definição ideológica. como no caso da alimentação de um lutador e de quem não o é. pois o justo só pode ser bom. aristocracia e democracia. Se aproximar o Justo de Simônides e o Ladrão de Homero. Aqui tem lugar um debate acirrado a cerca da metodologia de investigação da verdade à base da maiêutica. O louvor é o equivalente moral do dinheiro no ensino. No enfoque sobre a amizade. afirma Sócrates. pois ela não é verdadeira. A justiça é útil e serve. Trasímaco entende que deve ser pago o professor pela aprendizagem recebida. Os amigos de Sócrates se dispõem a pagar pela aprendizagem. Trasímaco enfrenta Sócrates no tocante ao método. com suas perguntas e respostas. A arte não erra. Na guerra. trazido à baila por Polemarco. quando erra. não agiu como governo. Trasímaco é o lobo e Sócrates é o cordeiro. É preciso clareza e precisão na determinação do conceito de justiça. pois só servem para justificar o próprio procedimento diante do poder que quem as sustenta. A justiça não pode produzir injustiça. o Justo de Simônides leva ao entendimento de que há uma justiça para os amigos e uma para os inimigos. para ver a sua adequação. senão não será justo. o outro lado. se for Trasímaco. É preciso que haja liberdade de resposta para quem é perguntado. Trasímaco afirma que nas três formas de governo. porém a realidade demonstra que não o é. As definições que não são essenciais são descartáveis. pois ele é que tem poder. ao incutir medo. Se o que é bom para o mais forte. ingressa na conversa com rudeza e indelicadeza contra Sócrates. Discute-se a questão do ensino e do pagamento pelo ensino dado. Inclusive se debate a validade do uso da analogia por Sócrates para se chegar à verdade. até no olhar. e um sentido rigoroso ou estrito. quando a definição de que dispomos falha em sua universalidade. terá de pagar a este pelo que aprender. afirma Sócrates. de um lado. em suas vítimas. Sócrates acha que deve ser gratuito todo ensinamento feito. duvida que a definição a ele atribuída seja dele efetivamente. por oposição a uma definição embasada. tirania. buscando salvar Simônides. Sócrates entende a expressão de Simônides. A justiça é útil inclusive quando o dinheiro é inútil. Verdade e método permeiam o diálogo todo. Não é justo que o dinheiro fique improdutivo. precisamente no que erra deixou de ser profissional. Logo. o justo é aniquilar o inimigo. pois ele perde a sua utilidade social. útil. vantajoso e proveitoso a alguém. não haverá guerra ou a guerra será perdida. O governo é infalível. Sócrates parte para a análise e só vai terminar ao final do Livro I. o sofista.

mas o seu próprio interesse. a arte de governar tem por objeto os governados. A discussão evolui para a justiça na política. No tocante à competição pelo ser melhor do que o outro.artífice. e ainda são chamados de ditosos e bem-aventurados. injustiça aos outros. Trasímaco formula a teoria da tirania. escravizam. público ou privado. não de si mesma. Sócrates entende que a justiça é uma virtude e a injustiça é um vício. Para debater essa questão crucial. O interesse da medicina é o corpo. para Sócrates. do contrário. os injustos sempre saem ganhando em relação aos justos. com tese. A injustiça tem uma força capaz de incapacitar para que o homem ou o Estado atue de acordo consigo mesmo. não tem por fim velar pelo bem a não ser dos súditos. pois abandonam tudo o que é seu para gerenciar. juiz e advogado. somente os piores governantes é que quererão exercê-los. A justiça é uma virtude do homem. O litigioso é o do modo judicial. enquanto que no outro é sempre um juiz que decide o debate entre só advogados. sem se importar com o dano do súdito. A felicidade está na alma do homem justo. Esse ataca novamente e afirma que o interesse do Pastor não é no bem das ovelhas. é necessário o uso da regra de justiça entre eles. Portanto. O homem é injusto por natureza e deve ser injusto em função das vantagens que a injustiça aufere ao injusto. seqüestram riquezas e pessoas. o melhor para o Estado é remunerar os cargos durante o seu exercício. o justo só quer superar o que é injusto. tanto na vida particular quanto na vida pública. Sócrates se pergunta “o que é a justiça em relação à injustiça?” É injusto um estado tentar submeter injustamente outros Estados e reduzi-los à escravatura. a justiça é a conveniência do mais forte. mas não por cometê-las. pois ela não preserva o homem e nem o seu meio. e não o próprio governo. O conciliatório é o modo socrático típico. e assim prossegue até à conclusão final. É por isso que a injustiça não pode gerar felicidade. A finalidade do Estado é velar pelo bem dos súditos. mediante punição. de graça. o que é dos outros. Ela só se ocupa de seu objeto. Dois métodos concorrem: o litigioso e o conciliatório. o debate é interessante. o consentimento do interlocutor. a discórdia esfacelará o grupo. Ninguém deve trabalhar de graça. então. a injustiça é mais vantajosa do que a justiça. . Inclusive nos contratos privados. sejam esses públicos ou privados. injusto é o que aproveita e convém a cada um em particular”. Um estado que se apodera de outro. A injustiça extrema torna o injusto feliz e infeliz o justo que sofre sem tê-la cometido. todo governo. O injusto quer superar tanto o justo quanto o injusto. contestação. Só o justo pode ser feliz. Os homens bons não o quereriam porque não querem passar a vergonha de serem tidos como avarentos ou interessados em honrarias. mas sim a conveniência do poderoso e governante. Mesmo entre os injustos. Por isso não é o bem alheio o objeto do justo. réplica e tréplica antes da decisão final ou sentença. germina a revolta e gera a desagregação. Por isso. na hora. capaz de produzir um bem a alguém. em conjunto. Tirania é a Injustiça extrema. Sócrates afirma que a finalidade de qualquer arte é conseguir do seu objeto o máximo de bem estar. e estes promovem a felicidade do poderoso. A injustiça gera o ódio. A injustiça é ruim tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. para que possam fazer. O governo verdadeiro vela pelo bem dos súditos. gerando inimizade de si mesmo. ao mesmo tempo. ou exerce o domínio sem justiça ou é forçado a dela se utilizar. o corpo que é tratado. Por isso. Do contrário. Para Trasímaco. são renegociadas as regras do jogo de debate entre Sócrates e Trasímaco. Os homens censuram a injustiça por medo de serem vítimas delas. Trata-se de uma faculdade adicionar a toda arte o salário a ser retribuído. como governo. os cargos públicos devem ser remunerados pelo Estado para quem os exerce. Trasímaco sintetiza: “justo é o interesse do mais forte. a vida do injusto é melhor do que a vida do justo. arrebata o alheio sagrado ou profano. que se expressa como uma vantagem específica. pois. A injustiça não pode ser regra de vida. A função da alma é conduzir a vida. Os tiranos fazem guerra. Se assim é. os justos sempre saem perdendo. Essa é a prescrição moral de Trasímaco no tocante à norma de conduta prescrita para os homens. pelo seu próprio bem. deixando os cargos para os maus. no varejo ou a granel. Sócrates afirma que os deuses são justos porque são sábios e bons. Trasímaco afirmara que a perfeita injustiça é mais útil do que a perfeita justiça. Tendo em vista que toda arte tem uma potência específica. devido às dissensões e discordâncias. É a consumação da injustiça. Sócrates virou do avesso a tese de Trasímaco. Nos negócios públicos. É a injustiça que governa os simples e os justos. em que progride a cada afirmação e busca. antes de ir em frente. O tirano age pela fraude ou pela força. ou ter diversos Estados sujeitos ao seu Império. entende Sócrates que nada mais justo que haja uma retribuição pecuniária em pagamento pelos serviços prestados pelo artífice. em grupo. Sócrates diz que este é preferível àquele porque cada um dos debatedores é. o falso. mas de seu objeto. Com isso se evita a competição negativa entre os homens de bem para não governar. não na do injusto. como vimos acima. torna os homens livres escravos. A medicina não busca a conveniência da medicina. Para evitar de obrigá-los.

por Leonel Vallandro. 60. TANNERY. Tradução de Emílio Campos Lima. 3. A República I (pp. Diálogos III. Coleção A Obra-Prima de Cada Autor. 36. Traduzido por Pietro Nasseti. Esperamos que a leitura tenha sido proveitosa. Lisboa: Fundação Caluste Gulbenkiaian. publicado pela Presses Universitaires de France. JAEGER. a obra e a doutrina de Platão. de 1952. 2. 2001. do original francês “Le Problème de Socretes Le Socrate historique et lê Socrate de Platon”. PLATÃO. Bibliografia 1. Fedro. PLATÃO. Werner. In: PLATÃO. 2001. 127p (pp. 6. Paul. A República. São Paulo: Martins Claret. Die Formung des Griechischen Menschen). Tradução de Artur M. Tradução do original grego. Traduzido por Pietro Nasseti. Coleção A Obra-Prima de Cada Autor. 2001. A vida. Essas são as conclusões do presente texto. . Paidéia. 236p. Parreira. Livro III – À Procura do Centro Divino. s/d. 320p.Essas foram as conclusões de Platão no diálogo do Livro I da República. 1995. Apologia de Sócrates. Sócrates. São Paulo: Martins Fontes. 4. NAVARRO. Coleção Universidade. o Mestre da Grécia e do Mundo. O Problema de Sócrates (O Sócrates Histórico e o Sócrates de Platão). Rio de Janeiro: Tecnoprint. 11-49). s/d. do original alemão “Paideia. A República. São Paulo: Martins Claret. 749-863). 5. 1413pp. São Paulo: Martim Claret. MAGALHÃES-VILHENA. In: PLATÃO. A Formação do Homem Grego. Eduardo de Almeida. Vasco de.

...........................................11 4.................... O exame severo de consciência.......................................................10 CAPÍTULO I – ENCONTRO DE AMIGOS..........................26 PARTE II – CONCEITO DE JUSTIÇA...................................O Ditado de Sófocles.................................................................11 3..................................................1 SUMÁRIO.................................................................................................................................................................................. A riqueza construída e os homens......................26 § 10 ............................................................................................27 § 11 .............22 23.................4 PARTE I – OS AMIGOS DE SÓCRATES...................................... O Ditado de Temístocles........................................................ A justiça para os amigos e para os inimigos..........................................................................................................................................................12 § 2º ...................................................................................18 § 5° .....................................................................................................................12 5......16 CAPÍTULO II – VELHICE: AMOR..............................................................2 LISTA DE ABREVIATURA E SIGLAS....................................O homem justo e clemente..........................................................................................................................................16 11.......................Encontro de Sócrates e Gláuco com Polemarco na festa de Bêndis... O homem justo...................28 33...................................................................................................................................................... Hades – o reino dos mortos...................................................................19 § 6º ........................................................................................21 20.................................................................... A resposta de Sócrates a Céfalo............................................ A riqueza herdada e os homens............ Esperança e justiça na velhice...................... Dentro da casa de Polemarco......... A interpretação de Sócrates....................................................................................................27 32....................................................... O lamento dos velhos sobre os males da velhice...............................................A definição de justiça de Simônides................................................................................... As impressões de Sócrates sobre Céfalo..............20 § 7º ............................................ Sófocles e o amor sexual na velhice......................................... O velho ditado.23 26....19 17.......................................Justiça é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos...15 10.......................................28 .............20 19................17 13....................................O tratamento dispensado aos velhos..............18 14.......................................... A desatualização de Sócrates.................Índice Analítico RESUMO...............................................................................................................22 22....... A conjectura de Polemarco...................17 § 4° ..........................................................................1 MODO DE CITAÇÃO........................................................21 § 8º ......................................................... O horário do encontro entre os amigos............................... O caráter das pessoas como causa........................20 18................................................................................ O fardo da velhice e a riqueza............................................................14 § 3º ...................................3 INTRODUÇÃO........................... Quando o homem se julga próximo da morte.............................19 16................................................... A Exceção de Sócrates à Justiça de Céfalo..........24 27............................................................................14 8.........................................................25 29.........................................A corrida eqüestre com archotes...................................................................................................................................24 § 9° ..............................28 35................................................................... As observações de Céfalo a Sócrates........................................................A reunião de amigos na casa de Céfalo............... Argumentos persuasivos do grupo majoritário....................13 7..........................................10 1.............................................................................Os temores e as preocupações da velhice..............................................................................22 24.........................................................................................................................................................................A celebridade e a velhice....................................................................26 31..............10 § 1º ........................... O grande valor das riquezas.................................................................................... Sócrates insiste na questão da justiça com Céfalo............................................................................................................................................................................................A riqueza herdada e a velhice...............................................................10 2.............................................................21 21...........................................................................................................25 30...........1 APRESENTAÇÃO.........................................................................................................17 12. Sócrates inquire Polemarco sobre Simônides.................................28 34.................. O argumento de persuasão e o argumento da força................................................................................................................................................................................................................................................................................. RIQUEZA E MORTE..........18 15............................................. A prece e a observação................................................... O escravo de Polemarco.24 28...........................................................13 6....................................................................................................... A aplicação da definição em diversas artes................................................................... O herdeiro da fortuna e do debate........15 9...............................26 CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO A UMA DEFINIÇÃO DE JUSTIÇA......................23 25........................................................................................................................... A união de pessoas faz a força........................... O limiar da velhice............................................ A esperança em Píndaro...

...........................................................................................................................................................................37 § 18 – Trasímaco é atacado por Sócrates............... A provocação intelectual de Sócrates...........................41 59............................... A justiça como virtude humana...............46 67............................................................................................................ Os bons são justos.............. Na inutilidade das coisas.......................................................55 80 – Fixação do Objeto da Discussão sobre o Justo............................................... O erro da formulação de Trasímaco.................................................................30 40.......................................................................................................................................... O medo de Sócrates e a superstição do olhar do lobo....40 58......42 60.......29 36...................................................................50 75 – A finalidade do Verdadeiro Governante do Estado...........................................................................44 § 20 – O sentido essencial das palavras e seus atributos..................................................................................................................................................... A formulação da pergunta e a verdade da resposta.................................................. Clareza e Precisão exigida pelo Sofista...............................................................................§ 12 – A utilidade da justiça nos contratos....................54 § 23 – O Método de Discussão............................................49 § 22 – Recompensa pelo Exercício de Cargos Públicos................ A conversão do justo em ladrão.30 39........................................................... As vantagens da injustiça........31 42....................... Justiça é o interesse do Governante... A teoria da tirania........................................A justiça não pode produzir injustiça.....................................................................................................................................48 73...........................................................39 57.................... A aplicação da nova definição....................... O questionamento do método de Sócrates...........45 66.......................................................................................39 56.............40 § 19 – A definição de Justiça de Trasímaco....................................................justiça é útil quando qualquer outra coisa é útil...................................52 78 – Castigo para quem recusa ocupar cargos no Governo..................................................................... O justo é bom...................................................................56 82 – Justiça e Virtude...34 CAPÍTULO II – DEBATE GERAL SOBRE O CONCEITO DE JUSTIÇA........................................................ A utilidade da justiça nos tempos de paz............................................................................29 § 13 ...........................................................................................................................................................43 64................................................................38 54.........................44 66......................... Coerência e mudança de pensamento.....................................43 63...53 79 – Competição Negativa para não governar.............................................. As falhas da tese de Trasímaco....................36 § 17 .................................................................................... A demolição da tese de Trasímaco............................................................................................................................................................................47 70..........31 § 15 – Os verdadeiros amigos e inimigos............................................................................................................................................. Homero e Simônides: o justo ladrão............................................................... Definição de normas de conduta para a vida............................................................................................................................... A questão do ensino pago.......30 38.........36 51.. de Trasímaco.............. O conceito de justiça atribuído a Simônides atine ao poder..............................38 53......55 § 24 – Caracterização do Injusto..32 44................ A indelicadeza do sofista Trasímaco.................A Indignação do Sofista Trasímaco......... A finalidade da arte ou da ciência.......... A aparência e a realidade............................................................... Correção da definição................................................56 ..............................................................................................................................................33 49................................................................................................................................................................... A justiça como uma espécie de interesse..................................................................................47 71..........................................................................................................48 72......................................... As compreensão de Sócrates.... O interesse dos pastores e vaqueiros..............................33 47.................................................................32 45...38 55...................................................................................................................................................................... não erra...50 76 – Faculdade Adicional e Vantagem Específica de cada Arte...........................................................................................31 41........... A identidade de casos e isonomia de tratamento..........................................................................................................45 § 21 – Teoria da injustiça. A habilidades humanas...........................................................33 46...................................29 37............................44 65........................................................................................... O governante é infalível...........................32 § 16 ........................................................ A questão da melhor resposta...........................................................46 68............................................................................................................................33 48.......................................................................................36 51..............................54 CAPÍTULO III – DEBATE ESPECÍFICO SOBRE O CONCEITO DE JUSTO... Em busca de outra definição de justiça..........................46 69.......................................36 52....................................................................................................................................55 81 – Dois Método de discussão: litigioso e conciliatório........................................................................................... Justiça é o interesse do mais forte..................................34 50..........................................................................................................................................................................31 43.................42 61........30 § 14 – O mais capaz do bem o é também do mal.......... A tese do desinteresse dos governantes.......................... A habilidade de Sócrates: o jogo do olhar do lobo..............43 62.............. Em caso de dinheiro improdutivo.................................... Sócrates considera o sofista um filósofo......................................................................................................51 77 – Recompensa para os Governantes.........................................

...63 92 – Função da Alma.........................56 84 – Competição total e o Justo....................................................Pensamento e Afirmação..................................................83.............................................................................................................................................................................71 ÍNDICE ANALÍTICO.........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................64 BIBLIOGRAFIA...58 86 – Rediscussão das regras do Método.........................................................................................57 § 25 ..........Justiça e Injustiça.....................................62 91 – A função de cada coisa.....................................................................................................60 88 – Submissão de um Estado por Outro.....................................................60 89 – A força e os efeitos da injustiça....................................................................63 93 – O homem justo é feliz..........61 90 – Os deuses são justos?...........64 CONCLUSÃO..73 ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................60 87 – Fixação do Enfoque no Tema.........................................................................................................................................................................................................................58 85 – Descrição Cênica do Convencimento................................................................................................................62 § 27 – Justiça e Felicidade..............................59 § 26 ........................................................................................................O Poder de Convencimento de Sócrates.................