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ISSN da publicação: ISSN 2175-6880 (Online)

Anais do Evento 2010 Volume 4 Trabalhos apresentados no Grupo de Trabalho 04 - Políticas Internacionais, Política Externa e Migrações Internacionais

Coordenadores: Profª Drª Danielly Silva Ramos Becard (UFPR) Prof. Dr. Alexsandro Eugenio Pereira(UFPR) Prof. Dr. Márcio de Oliveira (UFPR) Ludmila Culpi Andréa Benetti de Oliveira

Ementa: O GT reunirá trabalhos centrados em temas de relações internacionais contemporâneas, com ênfase nos estudos de segurança internacional, processos de integração regional, análises de política externa, estudos de política externa em perspectiva comparada e migrações internacionais. O GT também pretende reunir trabalhos que discutam avanços recentes nas teorias das relações internacionais e nas teorias explicativas do fenômeno das migrações internacionais, bem como a aplicação desses avanços no desenvolvimento de análises sobre temas contemporâneos da política internacional.

Anais do Evento
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é demonstrado o papel que a CSS desempenha na política externa atual. Anais do Evento www. na agenda da política externa brasileira no governo Lula. na gestão Lula esta iniciativa ganha grande prioridade e renovada conotação estratégica. É argumentado que apesar da CSS há anos fazer parte da agenda diplomática brasileira. É argumentado que o envolvimento do país em inúmeras iniciativas de CSS constitui não apenas um elemento da diplomacia solidária sustentada na gestão Lula. Palavras-chave: Cooperação Sul-Sul – Política Externa – Cooperação Internacional para o Desenvolvimento – Governo Lula. Em seguida.seminariosociologiapolitica.ufpr.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 3 .COOPERAÇÃO SUL-SUL PARA O DESENVOLVIMENTO E SUA DIMENSÃO ESTRATÉGICA NA POLÍTICA EXTERNA DO GOVERNO LULA Fernanda Cristina Nanci Izidro Gonçalves O objetivo deste artigo é evidenciar a dimensão estratégica que é atribuída à Cooperação Sul-Sul (CSS). entendida como uma modalidade da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Para compreender esta questão é apresentado um breve histórico sobre a inserção da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e da CSS na política exterior brasileira. mas um instrumento importante da política exterior capaz de contribuir para a realização de interesses nacionais.

A COOPERAÇÃO SUL-SUL PARA O DESENVOLVIMENTO E SUA DIMENSÃO ESTRATÉGICA NA POLÍTICA EXTERNA DO GOVERNO LULA Fernanda Cristina Nanci Izidro Gonçalves 1 1. é importante destacar que a CSS como empregada neste artigo diz respeito “a um âmbito geográfico específico da cooperação para o desenvolvimento” (Leite. Este uso distinto do termo. promover o crescimento sustentável e contribuir para o desenvolvimento social” (Agência Brasileira de Cooperação). o termo é empregado de modo abrangente fazendo referência ao amplo espectro de relações do Brasil com outros países do Sul.seminariosociologiapolitica.gov. é dotada de uma dimensão estratégica na agenda da política externa brasileira na gestão do Presidente Lula.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 4 . Introdução O objetivo deste trabalho é evidenciar como a Cooperação Sul-Sul (CSS). modificar realidades. englobando coalizões e parcerias estratégicas. De modo geral. Nesse sentido. No entanto.ufpr. por exemplo. a CSS é referente a uma modalidade de cooperação específica realizada entre países em desenvolvimento que faz parte da ampla CID (Leite. 2010. um uso mais abrangente e outro mais específico. p. Nesse sentido. visto sua atual recorrência nas produções acadêmicas sobre política externa brasileira e a falta de precisão conceitual sobre o assunto. para os especialistas na área. 2010.br/abc/coordenacoesCGPDIntroducao. deixando evidente qual tipo de CSS é aqui estudado. alterar e elevar níveis de vida. CSS é um conceito utilizado para designar “um amplo conjunto de fenômenos relativos às relações entre países em desenvolvimento – desde a formação temporária de coalizões no âmbito das negociações multilaterais até o fluxo de investimentos privados” (Leite. 2010).1). 1 Anais do Evento www. cujo mandato se iniciou no ano de 2003.abc. De forma geral. Para tanto. é referente uma modalidade particular da ampla CID 2 . ou seja. p. Mestranda em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) – fnanci@gmail. entendida como uma modalidade da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (CID).1).com 2 Cumpre salientar que a CSS ora referida é sinônimo de Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento (CTPD) ou cooperação horizontal. torna necessário precisar o termo ora abordado. o objetivo desta modalidade de cooperação é “produzir impactos positivos sobre populações.asp > Acesso em: 03 jun. 2010. Disponível em: <http://www. é necessário primeiramente clarificar o termo CSS aqui endereçado.

a CSS também não é uma inovação na política externa brasileira. 1982). para que elaborem políticas públicas que permitam gerar crescimento econômico. Leite. a exclusão social e a fome. sua origem pode ser atribuída aos anos 1950 e 1960. Como exemplos de acordo podem ser citados o G-20 com outros países em desenvolvimento e o IBAS firmado com África do Sul e Índia. afirmar o Brasil como ator relevante na política internacional. p. devido em grande parte às mudanças ocorridas na ordem internacional. De forma semelhante. Índia e África do Sul. o Brasil busca aproximar-se dos países do Sul. é durante o início do século XXI. No entanto.. Anais do Evento www. sendo percebida de maneira distinta pelo governo Lula e ganhando uma renovada conotação estratégica. 2008.ufpr. promovendo alianças e acordos com parceiros estratégicos 3 na tentativa de reduzir a assimetria nas relações com países mais poderosos e aumentar a capacidade de negociação brasileira buscando encontrar assim “um espaço diferenciado de atuação no reordenamento do pós-Guerra Fria” (Pecequilo. 3 Cabe destacar a maior proximidade com os países em desenvolvimento.150).br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 5 . por consequência. que esta modalidade de cooperação ganha grande importância na agenda externa nacional. 2005. a busca por consolidar ações favoráveis com os países do Sul não se dá apenas em termos de alianças e parcerias estratégicas. período de criação do Movimento dos Países Não-Alinhados (MNA) e do Grupo dos 77 (G-77) que buscavam alcançar a autodeterminação e afastar-se da grande influência política e econômica dos países dominantes no sistema internacional (Joy-Ogwu. visto a participação do Brasil em diversos encontros que tratavam do tema e sua posição como prestador de cooperação para diversos países do Sul. Essa conotação é motivada pela nova percepção que o governo tem da ordem internacional e do papel que cabe à política externa. mas também na modalidade da cooperação para o desenvolvimento por meio da CSS que.. promover o comércio entre os países e preservar os interesses nacionais (Ayllón. consolidar a democracia e. Enfim.Embora aparentemente a CSS seja uma novidade. embora seja baseada em princípios de solidariedade e coresponsabilidade. sobretudo a partir dos anos 1970.2). Rússia. assim como o aprofundamento das relações com China. caberia consolidar o consenso global de um multilateralismo compatível com os objetivos de desenvolvimento (Oliveira. combater a pobreza.seminariosociologiapolitica. não deixa de oferecer benefícios para o país ao representar um instrumento da política externa capaz de reforçar as relações Sul-Sul.] ser eficaz na defesa de condições mais adequadas aos países em desenvolvimento. parceiros estratégicos. 2010). No entanto. p. Movido por essa percepção. que deve nesse contexto: [.

de acordo com a diplomacia solidária implementada no governo Lula 4 . é primeiramente apresentado um histórico sobre a CID. Em seguida. Após. de acordo com Amorim (2005).Sendo assim.17) não descarta uma dimensão ética nesta questão. Nesse tocante. Lima (2007. Segundo Ayllón (2006). percebida como uma modalidade da CID. é evidenciado como a CSS. enquanto o termo ajuda externa refere-se à assistência ao desenvolvimento e à assistência militar e prevê uma relação desigual entre doador e receptor sem que necessariamente seu objetivo seja o desenvolvimento. contribuindo para objetivos da política externa. demonstrando como o Brasil se insere nesse tipo de cooperação. a cooperação para o desenvolvimento significa o objetivo do A diplomacia solidária caracteriza-se pelo princípio da não-indiferença. 4 Anais do Evento www. surge no sistema internacional e passa a fazer parte da agenda externa brasileira. é abordado o papel que a CSS passa a desempenhar na política externa do governo Lula. assim. Este novo princípio seria um vetor conceitual presente no discurso diplomático atual. pois destaca a vinculação entre esta prática e o “compromisso expresso do governo Lula com a política de inclusão social e eliminação da pobreza”. que Lima (2007. como ajuda externa. Ademais. sobretudo na gestão de Lula. a CSS também permite ao Brasil ampliar sua influência no cenário internacional. a CSS vai ganhar relevância inédita no programa de política externa brasileira. são apresentadas as condições que permitiram essa nova visão sobre a cooperação internacional e são também contemplados os propósitos que permitem explicar porque a CSS ganha tamanha relevância na atualidade. p. nesse novo século e. agindo. Para demonstrar o papel estratégico que é atribuído à CSS no governo Lula. sobretudo em momentos de crise política e social (Amorim. Entretanto. 2005). tão importante quanto o princípio da não intervenção que durante anos faz parte da diplomacia brasileira.seminariosociologiapolitica. uma breve conclusão é apresentada compreendendo considerações finais sobre as principais questões abordadas.ufpr. Ao final. de exercer um papel protagônico no âmbito internacional.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 6 . mobilizando diversos atores governamentais e da sociedade civil que passam a atuar junto ao governo fomentando programas e desenvolvendo iniciativas de cooperação que viabilizam ao país ampliar vínculos com diferentes países do Sul e contribuir para a melhoria nas condições de vida destes. demonstrando a importância que é conferida a essa modalidade de cooperação em sua gestão. é frequente a utilização do termo ajuda externa como expressão similar à cooperação ao desenvolvimento. p.17) apresenta como “revelador das novas disposições internacionais do País”. 2. No entanto. A Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (CID) Ao tratarmos do tema da CID torna-se necessário distinguir seu significado de termos comumente usados como sinônimos. O princípio da não-indiferença baseia-se na disposição de colaborar sempre que preciso com países vizinhos e amigos do Brasil.

equidade.] um conjunto de intervenções de caráter internacional orientada à troca de experiências e recursos entre os países do Norte e do Sul para atingir metas comuns baseadas em critérios de solidariedade.9). interesse mútuo. 2006. das políticas. sustentabilidade e co-responsabilidade. Outro ponto comum é que o objetivo de desenvolvimento não engloba apenas o setor econômico.. 2007). econômico e cultural nos países do Sul (Ayllón. da saúde. visto que este conceito passa por modificações decorrentes dos acontecimentos. Embora a definição dos autores seja distinta. De modo geral. Todavia. Ayllón.ufpr. mas também relacionado ao incentivo de ações coletivas para o desenvolvimento internacional por meio de diferentes setores e atividades. como as áreas da educação. Anais do Evento www. o autor a define como [. social. ao conflito Norte-Sul decorrente do processo de descolonização e à dinâmica da globalização (Ayllón. Outra definição pode ser emprestada de Milani (2008) que a compreende como um regime integrado por atores tanto governamentais como não estatais. eficácia. 2007). 2008). como a Cooperação Norte-Sul (CNS). e ela deve procurar o aumento permanente dos níveis de desenvolvimento político. a percepção de que dois ou mais interesses coincidem e podem ser alcançados por ambas as partes (Ayllón.desenvolvimento e uma iniciativa comum entre doador e receptor. p. isto é. a CSS e a Cooperação Triangular. 2006. mas também social. a cooperação entre países em desenvolvimento apoiada financeiramente por países do Norte ou organizações internacionais (Xalma. percebe-se que ambos relacionam a CID à meta explícita do desenvolvimento. da cooperação científica e tecnológica. É importante ressaltar que a CID compreende diferentes estratégias e possibilidades de interação entre os países doadores e receptores. da comunicação e dos programas de reforma do Estado e de administração pública. em termos gerais.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 7 . visto que diversas ações são movidas para o estabelecimento do desenvolvimento sustentável dos países. A finalidade primordial da cooperação ao desenvolvimento deve ser a erradicação da pobreza. De acordo com Ayllón (2006). baseado em normas e instituições. de crescimento econômico. não existe uma definição única de CID. da formação técnica. a evolução histórica da CID pode ser relacionada ao conflito Leste-Oeste.seminariosociologiapolitica. dos pensamentos e dos valores existentes nas relações entre os países. do desemprego e da exclusão social..

Os países do Sul. Anais do Evento www. 2009). desenvolvimento e direitos humanos. foi introduzida na agenda multilateral o tema do desenvolvimento. Nesta época a cooperação era de cunho econômico. Antonini. 2009). A vinculação do desenvolvimento aos temas sociais. sociais e políticos dos Estados Unidos (EUA) e da União Soviética (URSS) com países aliados (Ayllón. Com o fim da Guerra Fria surgem novos desafios decorrentes da mudança nos interesses e nas relações do Norte com o Sul e também provenientes das novas dinâmicas que passam a fazer parte do cenário internacional como resultado do processo de globalização e da intensificação de vínculos entre os países. Nesta nova conjuntura surgiram questionamentos à cooperação. estratégicos e comerciais dos países doadores e não conseguiam surtir os efeitos esperados (como erradicar a fome e o subdesenvolvimento). a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e a Organização das Nações Unidas para a Educação. fazendo com que a agenda de desenvolvimento se subordinasse às demandas de ajuste estrutural e de estabilização financeira (Hirst. Antonini. estão inseridas nesse período (Ayllón.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 8 .A divisão bipolar do mundo a partir de 1945 tornou a CID um instrumento útil para fortalecer os vínculos econômicos. visto que os países receptores estavam limitados pelos interesses econômicos e pelas práticas estabelecidas pelos doadores. 2007). Nesse contexto. buscavam através de leituras teóricas (como a Teoria da Dependência) e meios políticos (como a Conferência de Bandung e o G-77) evidenciar suas demandas e a necessidade de mudar a agenda de desenvolvimento (Hirst. 2007). o aumento das intervenções humanitárias fez com que houvesse uma avaliação da vinculação entre paz. a Ciência e a Cultura (UNESCO). De acordo com Hirst e Antonini (2009). redimensionando o estreito enfoque através do qual a cooperação era concebida no imediato pós-guerra. nesta época. Neste contexto. 2009). 2007).seminariosociologiapolitica. agências especializadas da ONU ou vinculadas a ela foram criadas 5 . por exemplo. No entanto. de redistribuição e de governabilidade democrática foi um passo significativo neste momento.ufpr. Antonini. o que fez com que as políticas e as estratégias dos programas de assistência fossem reorientadas. Em meio às 5 A criação de organizações e programas como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). os anos 1980 trouxeram novos obstáculos para a cooperação. abrindo maior espaço de atuação para os países do Sul que através delas tinham um canal para efetuar demandas (Ayllón. os projetos de assistência eram utilizados como meios de influência relacionados aos objetivos políticos. modificando inclusive a política de vários países doadores (Hirst. Com o surgimento de novos países – decorrente do processo de descolonização – e o ingresso destes na Organização das Nações Unidas (ONU).

o Brasil passa além de receptor a ser um país prestador de cooperação técnica para o desenvolvimento. Inicialmente o país se insere como receptor de cooperação. Cabe ressaltar ainda nesse contexto. 1994). Em geral. as Conferências Globais e os Objetivos do Milênio estabelecidos no âmbito da ONU que retomam temas centrais para o desenvolvimento (como meio ambiente. 2009. os fatores da Guerra Fria. mas que aparecem dessa vez acompanhados pela mobilização de setores da sociedade civil e da opinião pública internacional (Hirst. como a inserção racional da cooperação técnica na política exterior. 2007).transformações normativas por que passava a comunidade internacional nesse período. no momento atual o sistema de CID se encontra em uma fase de transição em que as agendas e arranjos institucionais da época da Guerra Fria não respondem mais às exigências da atualidade e em que ainda não há também um novo modelo de cooperação que responda às necessidades do mundo globalizado. direitos humanos. Antonini. sobretudo de cooperação técnica para o desenvolvimento nos anos 1960 (Cervo. questões sociais) que foram negligenciados em períodos anteriores. Antonini. 2009).ufpr. Com relação ao papel do Brasil nesta modalidade de cooperação podemos concluir que é relativamente recente. a cooperação técnica passou a ser percebida no Brasil como cooperação para o desenvolvimento sendo criadas condições para o aproveitamento favorável das iniciativas. É nesse cenário de transformações que surge a agenda de desenvolvimento humano como um aspecto central para o desenvolvimento e redução da pobreza. Antonini. Segundo Cervo (1994). a cooperação passou a fazer parte da prática política do país. Ayllón.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR . a idéia de que para assegurar a paz é preciso estabelecer ações que eliminem as causas da guerra (como injustiça. O conceito de desenvolvimento humano foi lançado pelo PNUD na década de 1990 e era contraposto a visão economicista de algumas instituições financeiras multilaterais (Hirst.seminariosociologiapolitica. Conforme Ayllón (2006) nos leva a compreender. 1994). Essa era percebida como um instrumento capaz de modificar o perfil de desenvolvimento do país e mobilizou inúmeras entidades internas e externas destinadas a promover esse fim (Cervo. exclusão política. Com o surgimento da Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento (CTPD) nos anos 1970. a implantação de agências internas bem preparadas em termos de recursos humanos e equipamentos para cooperar e a flexibilidade para aceitar fins próprios e não-próprios da cooperação proveniente dos países avançados. 2009). Nesse sentido. tornando esta um componente 9 Anais do Evento www. da descolonização e da globalização permitem explicar as dinâmicas que compõem e modificam a CID ao longo dos anos. refletindo-se na “Agenda para a Paz” (Hirst. marginalidade sócio-econômica) ganha força.

como o MNA. Estes são realizados tanto no âmbito da ONU. No entanto. Cabe ressaltar que estes são princípios atribuídos à CSS. Outra característica é a equidade. Essa década foi a de maior ativismo em termos de impulso à CSS. a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e o G-77. durante os últimos cinquenta anos a CSS se consolidou como uma modalidade dentro da Cooperação Internacional. é importante destacar que no caso brasileiro. 6 Anais do Evento www.seminariosociologiapolitica. isto não significa que seja um instrumento desinteressado. 1994). os países em desenvolvimento e recém independentes percebem que os fluxos de Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) são insatisfatórios para suas necessidades de desenvolvimento e percebem o potencial da CSS como forma de promover desenvolvimento. a Unidade Especial de Cooperação Sul-Sul. visto que resulta em diversos benefícios para o país.ufpr. como a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento. como será exposto. Embora o objetivo deste artigo não seja analisar os princípios e finalidades da CSS. tecnológicos e culturais do Brasil e criar condições favoráveis para a penetração dos interesses brasileiros em outros países em desenvolvimento (Cervo. o que significa que seus benefícios devem ser distribuídos de forma igualitária entre os envolvidos na ação de cooperação. A Cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento (CSS) De acordo com Xalma (2008). Segundo a autora.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 10 .de sua política exterior que. como o aprofundamento de relações políticas e comerciais com diferentes países do Sul. buscava criar e fortalecer vínculos econômicos. é realizada com base no consenso. Nesse período. os anos 1970 merecem especial atenção. Questiona-se se a CSS não objetiva o lucro. A distribuição de custos também está inserida neste critério. embora a CSS tenha traços que a remetam à diplomacia solidária sustentada no governo Lula. 3. Ademais. Conscientes de suas capacidades nacionais e coletivas os países do Sul passam. A CSS gradativamente foi deixando de ser apenas uma experiência pontual e se tornando parte da estratégia de cooperação de muitos países que a perceberam como um meio importante para o processo de desenvolvimento. a colaboração é realizada voluntariamente e sem condicionalidades. a CSS é baseada na horizontalidade. ou seja. entre diferentes objetivos. o que significa que independente das diferenças nos níveis de desenvolvimento relativo entre os países. não estabelece condicionalidades e não é guiada pelos interesses políticos e econômicos dos países doadores. Xalma (2008) argumenta que a partir dos anos 1960 começam a ocorrer diversos encontros que passam a fundamentar a CSS. portanto a desenvolver a modalidade de CSS. muitos destes princípios básicos são questionados. ou seja. a execução de uma ação de cooperação deve ser baseada em uma negociação comum. Nesse contexto. como em outras organizações intergovernamentais. os participantes devem arcar com custos proporcionais às suas possibilidades 6 .

la CTPD pasa a entenderse como una dimensión más dentro da Cooperación Internacional. Conforme argumentam Ekoko e Benn (2002). voltando a utilizar a CSS como um importante instrumento para o desenvolvimento (Xalma. A América Latina vem exercendo lugar central neste âmbito com diversos países. que não buscava substituir os tradicionais programas de cooperação. 2008). cujas iniciativas vem sendo intensificadas. 2008. Benn. Índia e Tailândia. não foram realizadas muitas ações de cooperação entre países em desenvolvimento. também fazem parte do grupo de países que compartilha conhecimento em setores de especialidade (Ekoko. a CTPD. 2008). Este plano instituiu uma nova modalidade de cooperação.14). Brasil. p. permitindo que os países em desenvolvimento pudessem aproveitar suas capacidades e cooperar uns com os outros em busca de maiores benefícios. visto que eles passam a conhecer os Anais do Evento www. Após o impulso conferido à CSS na década de 1970. essa troca de experiência presente na CSS fortalece a capacidade dos países receptores da cooperação e também beneficia os países prestadores.seminariosociologiapolitica. conhecido como Plano de Ação de Buenos Aires (Xalma. 2002). a CSS atualmente se encontra em processo de expansão. adotando um papel ativo e cada vez mais importante na transferência de capacidades entre países em desenvolvimento. os anos 1980 marcaram uma fase de inflexão.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 11 . como China. México e Venezuela. participando de inúmeras ações de cooperação que objetivam o desenvolvimento econômico e social de outros países (Xalma.ufpr. visto que impulsionou a CSS com a criação em 1974 da Unidade Especial de Cooperação Sul-Sul e adotou no ano de 1978 o Plano para Promover e Realizar a Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento. social e político a outros países em desenvolvimento por meio da CSS. cabe destacar o papel dos países de renda média. mas a eles acrescentar. que perderam espaço como receptores de AOD e passaram a repassar suas experiências nos setores econômico. Devido à crise econômica que atingiu diversos países da região. Segundo Xalma (2008). una modalidad de cooperación al desarrollo que complementa a la Cooperación Técnica tradicional ( Xalma. entre eles Argentina. Chile. A partir de ese momento la Cooperación Técnica entre Países en Desarrollo adquiere una mayor relevancia pues los países pasan a considerarla como un elemento cada vez más importante para la promoción del desarrollo. sendo protagonizada por diversos países. 2008). En concreto. Neste âmbito. É apenas na década de 1990 que a CSS inicia uma fase de expansão.A ONU teve um papel importante nesse sentido. recuperando impulso no momento em que os países se recuperam da crise econômica e fortalecem suas capacidades internas. Países em desenvolvimento de outras regiões.

O Brasil é um dos países que vem investindo bastante nesta modalidade de cooperação. o que também os auxilia na resolução de seus próprios problemas de desenvolvimento.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 12 . No entanto. embora prestador de cooperação para países em desenvolvimento e conferindo a CSS objetivos políticos. É exatamente essa dimensão atual da CSS na agenda internacional brasileira que será abordada a seguir. argumentem que a CSS ainda permanece às margens da tradicional CID e tenha atraído modestos recursos da comunidade internacional. Desse modo. Caribe e África são alvos da cooperação brasileira que se estende a diversas áreas. O Brasil se insere na CSS desde a década de 1970. engajando-se nesta modalidade e tornando-se prestador de cooperação para diversos países em desenvolvimento. Esta é considerada um instrumento relevante para a política externa brasileira e tornou-se na atualidade uma atividade prioritária do governo brasileiro (Fonseca. 2008). em certas áreas. a Argentina. entre outros setores. Entretanto. esta não é uma nova ação na trajetória do país. como aprofundar laços com outros países e criar condições propícias para a penetração dos interesses brasileiros no exterior. apesar da prioridade conferida à CSS no atual governo. 2008). englobando saúde. obtendo credibilidade e confiança. 1994. o país passou a possuir bom conceito na comunidade internacional em matéria de cooperação.desafios de desenvolvimento dos outros Estados. o que por sua vez. é crescente a percepção de que a CSS é uma modalidade de extrema relevância na capacitação dos países em desenvolvimento pela sua capacidade de transferir tanto conhecimento como experiências que são comuns a esses países. é importante destacar que nesse período a CSS não tinha a mesma conotação estratégica e relevância que possui na atualidade. 2008).seminariosociologiapolitica. Valler Filho. Anais do Evento www. Nesse tocante. se tornar exportador de conhecimentos para países que passaram a demandar a cooperação técnica brasileira. Embora alguns autores. como Ekoko e Benn (2002). Países da América Latina. agropecuária. formação profissional. como o Peru. com o estabelecimento da CTPD. o México e o Paraguai (Cervo.ufpr. educação. fortaleceu a presença do Brasil no cenário internacional (Valler Filho. percebe-se que o progresso brasileiro em matéria de cooperação internacional aumentou a importância da cooperação prestada a outros países em desenvolvimento. o que tornou possível que posteriormente pudesse.

Este movimento é. A vertente de viés liberal. duas correntes que sustentam diferentes visões sobre a inserção internacional do Brasil e sobre temas de cooperação fazem parte do pensamento diplomático brasileiro no seio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. a CSS não é uma novidade na agenda da política externa brasileira. A nova conjuntura internacional após o 11 de setembro de 2001 fez com que a diplomacia brasileira. conferindo maior importância a pretensão brasileira de assumir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. A corrente autonomista defende uma projeção mais autônoma do Brasil na política internacional. O Brasil. procurando aproveitar as oportunidades de inserção internacional de forma mais ativa no cenário pós-Guerra Fria para buscar a ampliação de sua capacidade de negociação no sistema internacional (Yassine. decorrente da nova conjuntura internacional multilateral dos anos 1990. repensasse a Conforme Saraiva (2008) argumenta. entre países em desenvolvimento. confere maior apoio do Brasil aos regimes internacionais. do tipo de inserção internacional do Brasil e também da ascensão dentro do Itamaraty da corrente de pensamento autonomista da diplomacia brasileira com a chegada de Lula à Presidência 7 . defende a inserção internacional partindo da concepção de soberania compartilhada e busca uma liderança mais discreta na região sul-americana. a nova percepção que o governo atual têm da ordem mundial e do papel que cabe ao Brasil nessa nova configuração de poder modifica a visão do país sobre a CSS. Diante dessa nova conjuntura internacional e da visão do governo brasileiro de que o país deve se inserir de forma mais ativa no plano externo. a prática da CSS ganha protagonismo inédito nas iniciativas externas do país e se converte em um mecanismo bastante importante da política exterior.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 13 . ampliando a importância que é conferida a esta modalidade de cooperação na agenda externa brasileira e seu impacto na formulação da política exterior. Conforme Saraiva (2008) sustenta. está hoje em posição de maior influência na política mundial do que na década de 1950 e 1960. A Cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento (CSS) na agenda da política externa brasileira do Governo Lula Conforme mencionado.ufpr.4. 2008). sua esfera de atuação está ampliada e o país passa a formar diversas alianças e acordos de cooperação. sob a administração do então Presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC). a busca de um papel de liderança do país na região sul-americana e maior relevância à CSS. as iniciativas de CSS têm ocupado um papel cada vez mais destacado nas iniciativas da política externa brasileira. O Brasil desde a década de 1970 vem atuando no marco da CSS. assim como outros países do Sul. buscando junto a outros países do Sul e potências emergentes influenciar diversas áreas da política internacional e potencializar sua atuação no plano externo para melhorar seu posicionamento político e econômico (Yassine. 2008). 7 Anais do Evento www.seminariosociologiapolitica. de acordo com a autora. Contudo. Nesse novo contexto.

a ordem internacional percebida no governo Lula oferece espaço para uma presença mais afirmativa e consistente do Brasil no mundo. Dessa forma.14) assemelha-se ao modelo da “autonomia pela mudança da ordem”. 2008). em especial pela afirmação da necessidade de articulação da ação coletiva de países intermediários como o Brasil. Nessa visão. Assim.] componente ofensivo e não defensivo no ordenamento mundial e.. mas também respeitando as limitações que enfrenta um país em vias de desenvolvimento (Saraiva. buscando transformar. 2007).13-14) pelo [. É movido por esse contexto que o atual governo confere maior importância à CSS na ação externa. combinada à construção de pólos regionais de poder. a CSS – que vem ocupando maior espaço na 14 Anais do Evento www. que reconhece a importância dos EUA. o que propiciou uma maior aproximação com os países do Sul e o fortalecimento do multilateralismo (Saraiva. como caracterizada por Villa (2005. p. não apenas em termos de alianças e parcerias estratégicas. p. Essa estratégia é realizada através da promoção de alianças Sul-Sul e de acordos com parceiros estratégicos na tentativa de reduzir a assimetria nas relações com países mais poderosos e aumentar a capacidade de negociação brasileira (Cepaluni. O governo Lula adota um modelo de inserção internacional que segundo Lima (2007. 2009). com vistas à transformação da ordem por via da mudança das normas internacionais vigentes. mas também na modalidade da cooperação para o desenvolvimento. A chegada de Lula à Presidência no ano de 2003 reforçou essa tendência. que é articulada através da estratégia de busca de “autonomia pela afirmação”. Esta estratégia distinta de inserção é movida por uma nova visão da ordem internacional. buscando consolidar e reforçar ações favoráveis com os países do Sul. A chegada do novo Presidente ao poder fortaleceu a corrente autonomista do Itamaraty conferindo uma nova direção à estratégia de inserção internacional do país. 2005).. diante dessa conjuntura. o Brasil em um dos principais atores do sistema internacional (Villa. um mundo mais competitivo abre espaço para um movimento contrahegemônico em que outras potências médias e países importantes poderiam se tornar pólos de equilíbrio atenuando a primazia dos EUA (Lima. Essa estratégia pode ser compreendida de acordo com Lima (2007.17). dessa forma. porém tem outra percepção da ordem econômica em função do enfraquecimento do dólar frente ao euro. p. Essa nova estratégia é delineada de forma a inserir o Brasil no sistema internacional agindo de acordo com um papel mais ativo e consistente. contribuindo assim para atenuar a excessiva unipolaridade do sistema internacional. 2007).seminariosociologiapolitica.forma de inserção internacional do país. Vigevani.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR .ufpr.

Nesse sentido.] Nesse sentido. Esta é também relacionada a elementos de solidariedade e a obrigação moral que o atual governo assumiu de ajudar outros países de menor desenvolvimento (Moreira.18). 2005). isso não significa necessariamente “que as ações brasileiras se pautem apenas pela lógica da solidariedade”. Leite. um mecanismo da diplomacia solidária implementada no governo Lula. segundo Fonseca (2008). mediante transferência de conhecimento sem qualquer imposição. a CSS é uma atividade sem fins lucrativos e desvinculada de interesses comerciais. não tendo fins comerciais ou lucrativos. Esta. p.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 15 . Contudo. o Brasil nos últimos anos vem fazendo da cooperação entre países em desenvolvimento um instrumento fundamental da política externa brasileira. com o objetivo de compartilhar êxitos e práticas em áreas demandadas pelos outros países em desenvolvimento. Ademais. representando uma ferramenta fundamental para o reforço das relações Sul-Sul. “o Brasil não seria guiado por interesses políticos e econômicos de curto prazo. as tornando cada vez mais sólidas.. constitui na atualidade um ato soberano de solidariedade. p. Segundo o Embaixador Luiz Enrique Pereira da Fonseca (2008).ufpr. melhorar o nível de vida destes países e alcançar crescimento sustentável e desenvolvimento social por meio da transferência de conhecimentos especializados.18). Segundo o Embaixador Lauro Barbosa da Silva Moreira (2005. permite maior intermediação entre o Brasil e outros países em desenvolvimento por meio de atividades que buscam aperfeiçoar o conhecimento recíproco e fortalecer as relações entre as partes. Nos termos dos autores. De acordo com as fontes oficiais. que também já ocupou a direção da ABC.seminariosociologiapolitica. p. para a afirmação do Brasil como ator relevante na política internacional e para a promoção do comércio entre os países do Sul..diplomacia brasileira desde meados da década de 1970 – ganhou uma maior conotação estratégica. como a ABC (2010). no governo Lula a CSS não é vinculada apenas a uma dimensão estratégica da política externa..] princípios da solidariedade e da co-responsabilidade. é reconhecida como apreciável fonte de soluções para problemas que afligem inúmeros países em estágio de desenvolvimento semelhante ao do Brasil.. conforme sustentam Ayllón e Leite (2009. de projetos de capacitação e de reformas institucionais.2). No entanto. É untied e procura sempre atuar de acordo com as prioridades dos países parceiros. Anais do Evento www. a cooperação prestada pelo Brasil aos países do Sul é fundamentada nos [. mas pela realização de interesses comuns em prol do desenvolvimento” (Ayllón. ex-diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Essa dimensão solidária da CSS é sobretudo ressaltada pelas fontes oficiais do governo. 2009. E essas soluções estão naturalmente imbuídas de evidente conteúdo social [.

e à busca de prestígio e de apoio para que o Brasil venha eventualmente ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (Ayllón. e ao mesmo tempo o específico. à preservação dos interesses nacionais em países onde estejam ameaçados. o interesse coletivo. buscar angariar prestígio e ampliar a influência do Brasil no plano internacional. percebem as alianças Sul-Sul e as práticas de cooperação horizontal como uma forma de atenuar as desigualdades do sistema internacional e ampliar sua participação no mundo.A cooperação com países menos desenvolvidos guarda. mas também como forma de promover seus interesses.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 16 . aumentar sua capacidade de barganha e desempenhar papéis mais afirmativos. inclusive no que diz respeito a CID. diplomata brasileiro. p. mesclando interesses nacionais com valores universais.18). criar condições favoráveis para a abertura dos países aos interesses brasileiros. isto é. ou seja. serviços e investimentos brasileiros. Devido a uma conjuntura internacional menos rígida e com brechas favoráveis aos países em desenvolvimento nesse novo século. visto que permite ao país tornar compatível dois planos de sua política externa: pensar o universal. 2008). Nos termos de Valler Filho (2008). que percebem oportunidades na ordem internacional para tentar reduzir as assimetrias nas relações internacionais. utiliza esta modalidade de cooperação não apenas como meio de promover solidariedade entre os países. sem dúvida. Anais do Evento www. percebe-se que embora relacionada a elementos de solidariedade. Desse modo. países como o Brasil.seminariosociologiapolitica. O envolvimento do Brasil em inúmeros projetos de cooperação com os demais países em desenvolvimento configura a estratégia da política exterior de utilizar a cooperação como um suporte para a ação diplomática e também como um meio para a promoção da solidariedade entre os países (Valler Filho. fortalecer laços com diversos países considerados importantes e estratégicos. a cooperação prestada aos países em desenvolvimento se tornou um importante instrumento no contexto em que o Brasil vem buscando fortalecer seu papel no processo de tomada de decisões a nível internacional. 2008). o interesse nacional ou regional. 2009. relação com objetivos mais amplos ligados à abertura de mercados para produtos. procurando modificar a tradicional arquitetura de poder de forma que possa se beneficiar da nova distribuição de poder mundial (John de Sousa. aproximar-se de novos parceiros. O Brasil vem atuando dentro desse contexto. Leite. buscando exercer um papel ativo no estabelecimento da agenda internacional. em sua condição de país em desenvolvimento e com seus objetivos de tornar-se um país com atuação mais consistente no cenário internacional. O Brasil. a CSS não é destituída de interesses.ufpr.

É “responsável por toda a cooperação técnica internacional estabelecida entre o governo brasileiro e outros países ou organismos internacionais. p. Ademais. permite aproximar duas lógicas aparentemente distintas. Conquanto o Brasil ainda seja considerado um doador pequeno em termos quantitativos (John de Sousa. agricultura. 2010. por exemplo. como Ministérios. a ABC aprovou e coordenou 236 projetos e atividades de CSS que atingiram 58 países em desenvolvimento. De acordo com informações provenientes da ABC 8 . Sua principal função é negociar.gov. mas que se cruzam nas iniciativas de cooperação implementadas no governo Lula: a lógica da solidariedade. implementar e acompanhar os programas e projetos brasileiros de cooperação técnica. 2009). comércio exterior. vem se engajando na Cooperação Triangular passando a fazer parte de diferentes programas de cooperação.1). entre outras áreas. enquanto um instrumento da política externa brasileira.abc. junto a organizações internacionais e países desenvolvidos. Leite. 2008). 9 8 Anais do Evento www. com base nos acordos firmados pelo Brasil com outros países e organismos internacionais” (ABC. Em suma. coordenar. e a da busca dos objetivos nacionais. o país vem desenvolvendo ações de cooperação. educação. Disponível em: <http://www. 2005. sua ação na área da cooperação ao desenvolvimento é destacada devido ao seu produtivo engajamento na transferência de práticas e conhecimentos técnicos que podem ser utilizados em países com problemas semelhantes e também pela cooperação ser executada em diversas áreas mobilizando não apenas atores governamentais. a CSS brasileira está concentrada nos setores de formação profissional. No ano de 2008.br/projetos/cooperacaoPrestada.Desse modo. do Oriente Médio e da Oceania (ABC. De modo geral. como empresas e organizações não-governamentais (Ayllón. as práticas de cooperação são destacadas pelas iniciativas conjuntas na modalidade de triangulação. como. Caribe e África e dirigindo ações mais pontuais para países da Ásia. O Brasil.asp> Acesso em: 01 fev. O objetivo é promover o desenvolvimento social. sempre presente na retórica governamental e em consonância com os valores universais. saúde. compartilhando as experiências do Brasil em áreas em que o país obteve impactos positivos e detém conhecimento 9 . torna-se possível pensar que a CSS.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 17 . cultura.ufpr. integrando o grupo de países prestadores de cooperação ao A ABC é parte integrante do MRE. o Brasil está superando seu perfil de país receptor e construindo um papel diferente no cenário internacional. Leite. 2009). buscando transferir experiências e conhecimentos técnicos adquiridos para países da América Latina. 2010). que financiam o intercâmbio técnico para o país receptor.seminariosociologiapolitica. tecnologia da informação. no Haiti (Ayllón. mas também parceiros da sociedade civil. Centros de Pesquisa e Universidades. igualmente presente na retórica presidencial e vetor tradicional da política exterior brasileira.

este estudo procurou primeiramente apresentar a trajetória da ampla CID. O conceito de CSS utilizado não diz respeito a CSS em sua forma abrangente. mas sim a CSS como uma modalidade da cooperação para o desenvolvimento. O presente trabalho buscou demonstrar que é apenas a partir do início desse século que a CSS ganha maior conotação estratégica. quando é criado o modelo de CTPD. demonstra que o Brasil como um país doador na área da cooperação ao desenvolvimento. demonstrando a vinculação do Brasil a essa prática. o país pôde tornar-se na década de 1970 prestador de cooperação em diferentes áreas para países que. 5.ufpr.desenvolvimento (Ayllón. ela não era considerada uma atividade prioritária da política externa e também não tinha a mesma dimensão estratégica que possui na agenda internacional no governo atual. foi apresentada uma breve trajetória da CSS. Considerações Finais Este trabalho buscou demonstrar o protagonismo que é conferido a CSS na agenda da política externa brasileira no período atual. sendo demonstrado que o Brasil insere-se como prestador nesta modalidade de cooperação nos anos 1970. viam na cooperação internacional um meio importante para o processo de desenvolvimento. assim como ele. Em seguida. visto sua condição de país em desenvolvimento e sua busca por fazer da cooperação internacional um instrumento que auxiliasse o país a modificar seu perfil de desenvolvimento. Embora nesse período o Brasil percebesse a CSS como um instrumento importante para fortalecer a sua presença no cenário internacional e aprofundar vínculos com outros países.seminariosociologiapolitica. A esse respeito. tornando-se uma ferramenta fundamental da política exterior. beneficiando-se das oportunidades que surgiam neste âmbito de cooperação. por ser tanto um país em desenvolvimento do Sul que ainda recebe cooperação de países desenvolvidos. que engloba diferentes relações sustentadas pelo Brasil com outros países do Sul.br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 18 . ainda tem um longo caminho a percorrer. Seu papel ambíguo neste sentido. foi demonstrado que o país inicialmente aparece como receptor de CID. e mais especificamente na modalidade da CSS. 2006). Foi argumentado que essa nova dimensão atribuída a CSS é motivada pela nova visão que Anais do Evento www. 2008). Como havia se beneficiado da transferência de conhecimento dos países mais desenvolvidos na área da CID. como por ser um participante importante do sistema internacional que tem um papel cada vez mais ativo na área da CID (John de Sousa. Dessa forma.

br PPGSOCIO/UFPR – PPGCP/UFPR 19 . Referências Bibliográficas: AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO. recebendo menos cooperação de países mais desenvolvidos e se tornando prestador em diversas iniciativas de cooperação para o desenvolvimento na modalidade da CSS. Via ABC. percebe-se que o Brasil está modificando seu perfil na área da CID. Embora esta possa ser percebida como uma atividade recente da ação externa do país e o Brasil ainda não se apresente como um grande doador em termos quantitativos. Por fim. por conseguinte. Disponível <http://www. y acarrea una profundización de los vínculos de diálogo”.seminariosociologiapolitica.90). pela prioridade conferida às relações Sul-Sul. Nesse contexto insere-se o protagonismo inédito conferido à CSS na agenda internacional. ABC.asp> Acesso em: 01 fev. auxiliar no processo de afirmação do Brasil como um ator relevante na política internacional e promover o comércio com países do Sul. Conforme sustenta Valler Filho (2008.gov. como também opera como um instrumento importante da política exterior capaz de auxiliar na concretização de objetivos nacionais. a cooperação prestada pelo Brasil aos outros países em desenvolvimento “aporta reconocimiento y otorga credibilidad al país. 2005. sua imagem no cenário internacional. jul. O que é a Agência Brasileira De Cooperação. 2010.br/projetos/cooperacaoPrestada. é perceptível que o envolvimento brasileiro em iniciativas de cooperação para o desenvolvimento não apenas funciona em adequação com a lógica da solidariedade sustentada pelo governo. em: ______. tem da ordem internacional e do papel que cabe ao país exercer na nova arquitetura de poder global. visto que é capaz de reforçar as relações Sul-Sul. Essas são percebidas como um meio de reduzir a assimetria nas relações internacionais e ampliar a capacidade de barganha do país. entre outros movimentos. Essa percepção distinta promove uma mudança na forma de inserção internacional do país que é caracterizada. p. como também como um suporte para a realização dos interesses nacionais. Esta se torna um instrumento duplo na política exterior. ao assumir o governo em 2003.o governo Lula. visto a sua capacidade de abrir países à influência brasileira. Disponível em: Anais do Evento www. servindo tanto como uma forma de promover solidariedade entre os países. ampliar vínculos com os países do Sul e trazer reconhecimento para o país no plano externo. fortalecendo.abc.ufpr. inserindo-se na diplomacia solidária do governo Lula.

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