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Quinteto de Andrew Hill

jazz 26 dom · novembro · 2006 21h30 · Grande Auditório · Duração 1h30 Piano Andrew Hill Trompete Byron Wallen Saxofone Jason Yarde Contrabaixo John Hebert Bateria Eric McPherson .

perplexidades mal resolvidas. parecendo já então colocar-se sempre à frente do seu tempo. delas extraindo as necessárias sínteses. É assim que. heterodoxos como ele e também essenciais às mudanças qualitativas do jazz moderno. contrariando pela sua prática musical os que de forma um tanto ilusória tenderiam amarrá-los a esta ou àquela direcção estética e estilo instrumental e geralmente provocando (sem que para tal contribuam através de estratégias preconcebidas) ambivalentes sentimentos de rendida admiração e de cautelosa perplexidade. não deixa de ser curioso constatar uma tácita sintonia de opiniões surgidas a respeito deste grande músico. Pertencendo a esta linhagem de músicos. se mostrasse soberanamente incólume a tão flagrantes divergências conceptuais. Talvez por isso. por vezes. em pleno primeiro contrato com a Blue Note – que acolhera tantos .De vez em quando. a indesmentível independência e liberdade ticos. Julgo que a realidade dos factos – ou seja. raros e singulares. enquanto tais convulsões estalavam à luz do dia – e como se não pretendesse nelas tomar partido – Andrew Hill avançava numa linha de pensamento musical que não conhecia balizas inamovíveis. Andrew Hill distingue-se entretanto pela circunstância de suscitar. surpreendentes convergências. quer da parte dos amadores de jazz mais apostados numa firme defesa do que consideram ser os intocáveis valores tradicionais do jazz quer daqueles que consideram o primado da improvisação livre e a subversão dos mais arreigados preceitos melódicos. ao mesmo tempo. umas vezes fundadas outras vezes superficiais. mesmo que esta esconda. surgem na história do jazz músicos assim: sempre prontos a desafiar qualquer indelével circunscrição a uma dada época. harmónicos e rítmicos a eterna cura para todos os sintomas de alegado conservadorismo. agora em períodos de estagnação e crise. antes parecendo de uma forma natural fazer a ponte entre estas posturas antagónicas. durante os quais se extremavam posições e se agudizavam confrontos esté- Uma rara e singular personalidade do jazz moderno (como que por entre os dedos) a definições e classificações apriorísticas. assim tornando ainda menos ajustados juízos de valor demasiado díspares e extremados. pianista e compositor nascido em Chicago duas décadas e meia antes da convulsa passagem dos anos de 1960 para os de 1970. afirmação e universalização desta música – não pode ser alheia a uma tal convivência de opiniões. É ainda significativo que o mesmo Andrew Hill. A este propósito. é igualmente interessante sublinhar que. mais tarde retomadas como exemplo frutificante por músicos bem mais jovens. do mesmo passo que reunia à sua volta outros músicos. e mesmo escapando de Andrew Hill. a sua importância para a história do jazz e o seu decisivo contributo para a imparável evolução.

companheiro de Andrew Hill nos seus primeiros discos e essencial à sua música. Entretanto. o justamente celebrado Dusk. Hill permaneceu fiel. também ele presente em algumas das mais importantes obras do compositor. Para o círculo se fechar agora.cultores do hard bop. esse persistente caminho de progresso e desenvolvimento. aos já referidos. ou o multi-instrumentista Greg Tardy que. isto sem esquecer. 2006 . Na mesma linha de invenção criativa – e após um período em que a actividade docente se tornou forçosamente primordial – devem somar-se. com o seu novo regresso à casa mãe e com a edição de Time Lines. contemporâneo destes mas só “descoberto” e editado pela primeira vez em 2004). simbolicamente. ao mesmo tempo. Registos discográficos de relevância irrecusável e dos quais. sempre imprimiram às obras de Andrew Hill e transmitiram aos que as fruem o permanente desafio da descoberta e a recusa da passividade sempre gerada pelo que é demasiado familiar ou facilmente reconhecível. surgia como uma evocação da exemplar modernidade de um Eric Dolphy. muito provavelmente o álbum cujo repertório ilustrará parte substancial do concerto desta noite. Sempre recusando. Essa enorme responsabilidade incumbirá a dois multifacetados e muito elogiados e promissores instrumentistas e compositores do novo jazz britânico – o trompetista Byron Wallen e o saxofonista Jason Yarde – que neste novo contexto se juntarão a uma base rítmica em constante e subterrâneo movimento. curiosamente. neste repertório. a ponto de este estilo se confundir com a própria identidade sonora que a individualizava perante outras editoras – o pianista e compositor cria álbuns fundamentais para a ulterior evolução do jazz e que pouco tinham que ver formalmente (à parte algumas semelhanças superficiais no plano sonoro e tímbrico) com esse hard bop reinante na casa. Manuel Jorge Veloso Novembro. como Point of Departure. apenas aqui se destacam uma mão cheia de exemplos marcantes. não como um dispositivo criativo isolado em si mesmo mas intimamente ligado ao (e interferindo com) o material escrito. dois outros álbuns editados mais tarde. Por outro lado. bem como a utilização de métricas contrastantes no plano rítmico. em 2006. como matriz temática. demonstram de maneira exuberante. já na transição dos anos de 1980 para 1990. ao princípio de que a composição era o primeiro e firme passo para a definição de vias multifacetadas e multidisciplinares de improvisação. ou seja. incógnitas) deste concerto residirá na avaliação de como se integrarão nesta súbita reformulação do quinteto que esteve na base do álbum Time Lines dois músicos que esta noite substituem essa figura histórica do jazz moderno que foi Charles Tolliver. um dos maiores desafios (e. entre outros. esse elemento identitário que nunca deixou de considerar inerente à própria linguagem musical que abraçou. gravado para a independente Palmetto Records. assegurada pela sobriedade de um John Hebert e pela desconcertante luminosidade de um Eric McPherson. a divisão das suas peças em subsecções contrastantes e o entendimento da improvisação. a recorrente utilização dos standards ou a mimetização de formas afins – mas jamais se afastando da criação de estruturas mais ou menos definidas e identificáveis que procurou tornar altamente maleáveis e flexíveis de modo a permitir-lhe (e aos seus pares) usufruir da máxima liberdade –. a segunda presença de Andrew Hill nos estúdios da Blue Note: Eternal Spirit e But Not Farwell. ainda nos anos de 1960. Black Fire ou Judgment! (aos quais é necessário juntar Passing Ships. durante a sua ilustre carreira.

entre 1963 e 1969. que corrigiu a notação das já intrigantes composições daquele jovem. habitado pela comunidade negra. Em 1961 mudou-se para Nova Iorque onde foi acompanhador de Dinah Washington. O seu álbum de 1964. Tony Williams e Freddie Hubbard. como Eric Dolphy. Também tocou com Miles Davis e Johnny Griffin em clubes locais. Sam Rivers. Começou a tocar piano aos treze anos. e Smokestack. uma discografia eclética que inclui álbuns como Black Fire. Com seis anos tocava acordeão. O trombonista Bill Russo. trabalhando com Rahsaan Roland Kirk em Los Angeles no ano seguinte. antes de Alfred Lion. Woody Shaw. Joe Henderson.© Thomas King Andrew Hill nasceu em Chicago em 30 de Junho de 1937 e cresceu no coração do South Side dessa cidade. os anos Blue Note não lhe trouxeram fama e proveito. o fundador da Blue Note. Earl “Fatha” Hines gostou do que ouviu e disse-lhe: “Eu devia ser o teu professor”. que compunha os arranjos para Stan Kenton. mas fama . dançava tap dance e cantava às portas dos night clubs e dos teatros da vizinhança. Point of Departure permanece como um título essencial do jazz dessa década. Judgment!. Infelizmente. A primeira gravação em que participou foi editada em 1954 pela Vee Jay. Com essa editora Hill construiu. Em 1952 (com quinze anos) começou a tocar em bandas e em 1953 acompanhou Charlie Parker no Greyatone Ballroom em Detroit. compositor alemão então exilado nos Estados Unidos. Neste discos participavam alguns dos melhores e mais brilhantes músicos da era post-bop. também encorajou Hill e apresentou-o a Paul Hindemith. Compulsion. o ter contratado como líder. com o quinteto do contrabaixista Dave Shipp.

referiu-se a Hill como o seu “último grande protegido”. e até ao falecimento da sua mulher La Verna. em 1989. “Summer Jazz Intensive”. East Wind. O seu novo sexteto Point of Departure. Soul Note. Doutorado pela Colgate University. tocou com o vibrafonista Bobby Hutcherson e em Junho desse ano interveio numa sessão “allstars” dos anos 1960 na City University de Nova Iorque. pela terceira vez. Nomeado professor associado da Portland State University. De modo que a resposta à pergunta ‘o que significa voltar a assinar. aclamado unanimemente pela crítica. Eu tinha gravado Dusk [em 2000] que me trouxe numerosos prémios e me permitiu tocar em salas de concerto cheias. Em vez disso. em 1986. Formou também um trio com o contrabaixista Scott Colley e o baterista Nasheed Waits. Em 1989 e 1990 registou dois discos com. “Descobri que tinha cancro em Julho de 2004 e foi o fim do meu mundo como eu o conhecia. que retirou o nome do seu álbum mais conhecido para a Blue Note. Mil Folhas. quarteto. Vinte anos mais tarde. do famoso clube de jazz de Nova Iorque Knitting Factory). Retomando a sua ligação com a Blue Note. no Festival do Monte Fuji. visto que assinalava o meu regresso e uma mobilidade ascendente. tocando ocasionalmente em festivais de jazz e gravando alguns discos para editoras independentes como Steeplechase. o saxofonista Greg Osby. entre outros. formou-se para a edição de 1998 do Texaco Jazz Festival por sugestão de Michael Dorf (fundador. pontuação máxima. Como disse Hill. ensinando na Califórnia. 27/05/06) classificouo com 5 estrelas. o New York Times chamou a Hill “um dos heróis dos anos 1960”. “A princípio concebi Time Lines de certa forma como uma retrospectiva. diz ele) e nos últimos anos foi redescoberto por uma nova geração de músicos e de aficionados do jazz. foi seu compositor residente entre 1970 e 1972. Em Portugal. e no Bennington College. Actualmente Hill apresenta-se por todo o mundo em trio. Alfred Lion. Recentemente. em que se celebrava o legado da Blue Note. Michigan. . Reúne. Nas notas que escreveu para o texto que acompanhava o disco que em 1978 gravou para a Artists House. do clube Sweet Basil. na que foi a sua segunda passagem pela Blue Note. em prisões e em escolas públicas. designadamente a crianças com perturbações emocionais. Depois dele se retirar. lirismo e uma evolução ousada”. De seguida. Harvard. voltou-se para o ensino. Toronto. Mas não fui capaz de o fazer. elementos de todos os diferentes géneros que eu abracei apareceram nesta música. deixei a ‘casa’ para entrar no mundo”. Hill lamentava as dificuldades que tinha com a sua música e a sua carreira no ambiente musical da época. “Fui criado e apoiado criativa e economicamente por Alfred Lion. Rodrigo Amado (in Público. tocou e dirigiu workshops e residências nas Universidades de Wesleyan. os críticos da revista Down Beat consideraram-no “Disco do Ano”. mudou-se para a Costa ocidental. com Louis Spitzer. Hill gravou com o seu quinteto o CD Time Lines. 4/02/06) atribuiu-lhe 9 pontos em 10 e Raul Vaz Bernardo (in Expresso. aí fundou uns célebres cursos de verão. Arista-Freedom. Em 1970. na série Jazz at Lincoln Centre Duets. Desde então o sexteto tem-se apresentado em concertos memoráveis como o Lincoln Centre Out of Doors Summer em 1999. considerando este primeiro concerto do sexteto um “regresso triunfante” de Andrew. Depois do segundo casamento foi viver para os arredores de Nova Iorque (“por amor”. Na Primavera de 2000. com a Blue Note’ é: apesar de estar a viver uma doença terminal. para ganhar a vida. quinteto (como nesta noite) e em big band. Actual. Não era um mau mundo. aconselhado por James Brown. numa forma coesa.e pobreza.

uma rapariga cujo drama pessoal a imprensa acaba de contar: primeiro despedida do seu lugar de ama depois da morte acidental da criança que tinha ao seu cuidado.consigo encarar o meu trabalho e o futuro com entusiasmo”. (. A Jazz Journalist Association atribuiulhe o “Best Composer Critics’ Choice Award 2000-2001”. Pirandello faz certamente incidir uma luz premonitória sobre estes processos de vitimização tal como os conhecemos hoje na nossa famosa sociedade do espectáculo chegada ao estádio da “tele-realidade”. Dusk foi considerado o melhor álbum do ano pelas revistas Down Beat e Jazztimes. a seguir abandonada pelo noivo. tentou suicidar-se.. ganhou o Jazzpar. . Sonda e aviva assim o nosso olhar de espectador – que gosta de se imbuir da infelicidade dos outros ou perfurar o seu segredo – com a intenção deliberada de não o satisfazer: quando a arte se propõe a ambição de deixar a vida surgir no que ela tem de informe e irredutível é o espectador que está nu. próximo espectáculo teatro 29 qua · 30 qui · novembro 21h30 · Grande Auditório · Duração 2h10 Vêtir ceux qui sont nus (Vestir os nus) de Luigi Pirandello Um espectáculo do Teatro Nacional de Estrasburgo O escritor Ludovico Nota recolhe em sua casa Ersilia. Em 2003. um dos mais importantes prémios de jazz internacionais. Em 2001.) Em Vestir os nus.. Stéphane Braunschweig os portadores de bilhete para o espectáculo têm acesso ao parque de estacionamento da caixa geral de depósitos.. Ainda em 2003 foi considerado pela Jazz Journalist Association o Compositor de Jazz do Ano. Enquanto “humorista” que provavelmente leu bem Ibsen. Pirandello não se pode impedir de escrutinar o caos íntimo dos seres reais por trás das belas imagens com as quais cada um quereria parecer-se. faz impiedosamente cair as suas máscaras sabendo sempre talvez que a sua nudez não dará por isso acesso à sua verdade..

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