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Magalhães Luís > Debates teologicos O mundo cristão ou o da CINA ou o do Cristianismo redivivo não seria o mesmo sem a mensagem que Paulo transmitiu ao Império Romano. Para conquistar os fiéis, ele fez concessões que desagradaram aos discípulos de Jesus – e ainda despertam acirradas discussões entre pensadores e religiosos. Afinal, Paulo espalhou ou deturpou a palavra de Yeshua? Ivonete Silva e ----------------- gostam disto. Magalhães Luís

Estamos no ano 34 da era cristã. Passaram-se poucos anos desde a morte de Yeshua. A sua mensagem espalhou-se rapidamente por toda a Palestina e os seus discípulos eram implacavelmenteperseguidos, principalmente pelos judeus. Os seguidores de Yeshua são acusados de heresia e traição à Lei de Moisés. Em Jerusalém, um jovem judeu chamado Saulo (Shaul) faz verdadeiras atrocidades com os do "Caminho". Persegue-os furiosamente, invade as suas casas e os manda para a prisão. Informado de que, a cada dia, cresce a comunidade do "Caminho" em Damasco, na Síria, pede e obtém do Sinédrio, o Supremo Tribunal da comunidade judaica de Jerusalém, cartas de recomendação aos rabinos daquela cidade, autorizandoos a caçar os hereges. Acompanhado de alguns homens, percorre a cavalo os cerca de 200 quilómetros até Damasco. Depois de sete dias de viagem, sob um sol escaldante, consegue finalmente avistar as muralhas da cidade. Mas, de repente, uma forte luz vinda do céu incide sobre ele e assusta o seu cavalo, que o atira ao chão. Naquele instante, o jovem judeu ouve uma voz que diz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Atónito, ele indaga: “Quem és, Senhor?” A voz responde: “Yeshua, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e te dirão o que deves fazer”.

O séquito de Saulo permanece mudo de espanto, sem entender de onde vem aquela voz. Saulo, por sua vez, ergue-se do chão, mas não consegue ver nada. Em Damasco, permanece três dias e três noites em jejum, refletindo sobre o estranho acontecimento, até ser visitado por Ananias, um discípulo de Yeshua, que lhe diz: “Saulo, meu irmão, o Senhor me enviou. O mesmo que te apareceu no caminho por onde vinhas. É para que recuperes a vista e fiques repleto do Espírito Santo”. Neste exato momento, duas escamas caem dos olhos de Saulo, que volta a ver. Em seguida, ele é batizado. Convertido, Saulo de Tarso tornou-se aquele que talvez tenha sido o mais

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a conversão de Paulo mudou para sempre os rumos da religião cristã e da CINA. mas eles pregaram numa região. em grande parte. professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica (PUC). ele deturpou os ensinamentos de Yeshua – a ponto da mensagem cristã ou messiânica que sobreviveu ao longo dos séculos ter origem não em Yeshua. concorda: “O cristianismo. de São Paulo. Os textos bíblicos são as únicas fontes disponíveis para se reconstituir a história do Apóstolo – acreditar neles é uma questão de fé. Mas. narrado em detalhes no livro Atos dos Apóstolos.2 importante difusor da palavra de Yeshua/Jesus: Shaul (Paulo). Paulo foi o apóstolo que teve a maior repercussão com o passar dos séculos”. não um cristianismo. tal como existe hoje. expressa em cartas enviadas às comunidades que fundava. A influência de Paulo é indiscutível. Isto não quer dizer que o trabalho dos 12 apóstolos tenha sido irrelevante. afirma o teólogo Pedro Lima Vasconcellos. A sua importância na construção da Igreja primitiva é tão grande que muitos estudiosos atribuem a ele o título de pai do cristianismo. deve muito a Paulo. 2 . “Sem dúvida. mas em Shaul. Não é possível provar que ele tenha de fato acontecido. O termo apóstolo. ainda hoje é considerada o alicerce da jurisprudência. especialista em cristianismo e judaísmo antigos. Paulo levou a palavra do Massiach para lugares distantes. da moral e da filosofia modernas do Ocidente. entretanto. ele provavelmente não teria passado de mais uma seita judaica”. Enquanto a maioria dos apóstolos que conviveram com Jesus restringiram sua pregação à Palestina. da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). responsável pelo caráter universal da doutrina cristã e a sua mensagem. para uma corrente de historiadores e teólogos. O historiador André Chevitarese. é frequentemente usado para se referir a Paulo. Para muitos teólogos. que viria a ser devastada pelos romanos entre os anos 66 e 70. do Segundo Testamento. de que ele tenha conhecido Yeshua. diz o biblista Jerome Murphy-O’Connor. a Palestina. O episódio acima. Tenha ocorrido de forma tão espetacular ou não. professor da Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém e um dos maiores estudiosos do santo. no sentido de evangelizador. como a Grécia e Roma. Paulo foi um personagem fundamental nos primeiros anos do cristianismo. teria marcado radicalmente a vida de Paulo. Estes pensadores julgam ser mais correto dizer que o que existe hoje é um “paulinismo”. “Paulo desempenhou um papel maior na evangelização dos primeiros cristãos”. Não há evidências históricas. O seu trabalho de evangelização foi. Se não fosse o Apóstolo.

não são considerados um retrato fiel dos acontecimentos. afirma José Bortolini. A sua conversão foi uma farsa”. por onde passava uma estrada que ligava a Europa à Ásia. Com base nestas duas fontes. em 1928. legitima a submissão feminina e esboça uma doutrina da salvação distinta daquela que. Os Essénios (Issi'im) eram uma das correntes do judaísmo há 2 mil anos. bem como o pagamento de impostos. expressa uma visão romanceada do apóstolo. Os seus relatos.” Paulo: Judeu. teria sido defendida por Jesus. num modelo de discípulo”. Outra fonte de informação sobre o apóstolo são as cartas (ou epístolas) escritas por ele para as comunidades cristãs que tinha fundado. quando ele já poderia estar caindo no esquecimento. afirma Fernando Travi. o alemão Albert Schweitzer. Paulo defende a obediência dos cristãos ao opressivo Império Romano. mestre em exegese bíblica e autor do livro Introdução a Paulo e suas Cartas. entre outras coisas. Nelas. com mais de 200 mil habitantes. que foi também dos maiores discípulos de Paulo. São comentários pessoais à parte da experiência pessoal de Yeshua”. padre da Congregação Pia Sociedade de São Paulo. livro escrito pelo evangelista Lucas. sabemos que Paulo era um judeu detentor de cidadania romana. Lucas. que declarou: “Paulo mostra-nos com que completa indiferença a vida terrena de Yeshua foi tomada”. “Ele criou uma religião híbrida. As principais críticas da corrente antipaulina concentram-se em pontos polémicos das cartas do Apóstolo.3 “As cartas de Paulo são uma fraude nos ensinamentos do Massiach. transformandoo num herói ou. grego e romano Para entender melhor o papel de São Paulo na origem e construção do cristianismo é preciso voltar no tempo e acompanhar de perto a sua vida. faz a apologia da escravidão. Situada na província romana da 3 . O principal relato sobre ele está presente nos Atos dos Apóstolos. na Ásia Menor. Opinião semelhante tem o prémio Nobel da Paz de 1952. Ele nasceu em Tarso. fundador e líder da Igreja Essênia Brasileira. afirmou o líder pacifista indiano Mahatma Ghandi. no entanto. convertidos na primeira hora ao cristianismo. mais do que isso. criado num ambiente culturalmente grego. Um mundo cheio de guerra. A prova disto é o mundo que nos cerca. então. segundo os teólogos antipaulinos. onde atualmente está a Turquia. “A mentira que foi Paulo tem durado tanto tempo à base da violência. de sofrimentos e de desespero. Era uma cidade grande. “Os Atos devem ter sido escritos cerca de 15 a 20 anos após a morte de Paulo.

Pela blasfémia. as pessoas que iam apedrejar o condenado deveriam tirar suas próprias vestes e 4 . Nas tempos de estudante. Mas o Apóstolo nunca se declarou romano nas suas cartas. Muitos historiadores supõem que ele tenha nascido por volta do ano 5 da era cristã. que na época já haviam se assentado em várias cidades do império. a Tarso de então era predominantemente grega – um dos mais efervescentes centros de cultura do mundo helénico. A cidadania romana. Mas também era cosmopolita. Aos 15 anos. Cidadão romano ou não. um nazareno – nome dado aos que seguiam os ensinamentos de Cristo. escreve o teólogo no livro Paulo: Biografia Crítica. é um ponto controverso da biografia de Paulo. é datado entre 6 e 4 a. citada nos escritos de Lucas. era dono de uma oficina onde se fabricavam tendas. caso fossem condenados à morte. ainda hoje. como o direito de participar das assembleias que decidiam questões sobre a vida e a organização da cidade e a isenção do pagamento de alguns impostos. que a teriam obtido por mérito ou comprado por uma volumosa quantia. chegando a rivalizar com Atenas. Estêvão foi fiel a sua fé e declarou que Jesus era o Messias: tal afirmação provocou a ira dos colegas. Paulo foi educado na casa de seus pais. onde matriculou-se na escola de Gamaliel. Segundo Lucas. Era. especula-se.4 Cilícia. núbios e sírios – além dos judeus (como a família de Paulo). Um dos alunos mais brilhantes era um jovem chamado Estêvão. Estêvão foi levado diante do Sinédrio e condenado à morte por apedrejamento. bem como a data dos principais acontecimentos da sua vida. Paulo teve uma formação académica de primeira – nos parâmetros atuais. inclusive de Paulo. portanto. Conforme o costume da época. Paulo presenciou uma situação que estaria na origem de sua “cristofobia”. Para o biblista Murphy-O’Connor. algo equivalente a um doutorado em Harvard. Suas ruas estreitas viviam apinhadas de gente e as suas casas abrigavam povos de várias regiões: egípcios. motivo de controvérsia. segundo descobertas históricas recentes. O ano exato do nascimento de Paulo. Ele mesmo. na sinagoga e na escola ligada a ela. Tê-la garantia alguns privilégios. bretões.C. Paulo provavelmente fazia parte de uma elite – seu pai. são. Os cidadãos romanos também não podiam ser crucificados. Em uma discussão. Paulo herdara a cidadania do pai ou do avô. deixou Tarso e mudou-se para Jerusalém. o silêncio é compreensível: “Não havia razão para Paulo mencionar a sua posição social em cartas a comunidades que ele desejava convencer de que a ‘nossa pátria está nos céus’ ”. gauleses. alguns anos mais novo do que Jesus – cujo nascimento. aliás. dominava este ofício. Abrigava um porto fluvial movimentado e se impunha como um importante pólo comercial. um dos sábios mais respeitados do mundo judaico.

havia voltado. Foi quando aconteceu a sua conversão no caminho de Damasco. que já era um intransigente defensor da lei e dos costumes judaicos. viveu algum tempo na comunidade cristã damasquina. convidado por Barnabé. onde a igreja dos nazarenos crescia rapidamente. Durante 15 dias. Neste período. estudou e refletiu sobre os ensinamentos de Cristo. em 5 . O missionário viajante Paulo tinha cerca de 28 anos quando ocorreu o seu encontro místico com Jesus. Foi nesta ocasião que aconteceu o primeiro encontro com Pedro. Os da seita do "Caminho" (termo inicial para os crentes em Yeshua) de Jerusalém o receberam com desconfiança. agora cristianizado. “Diferentemente do que acontecia em Jerusalém. um ex-colega da escola de Gamaliel convertido ao cristianismo. Paulo mais uma vez teve de fugir: o destino foi Tarso. Coube a Barnabé. chegou a Jerusalém. Após seis dias de caminhada.5 colocá-las aos pés de uma testemunha. onde fez as suas primeiras pregações. um dos discípulos mais próximos de Jesus. A partir deste episódio. onde permaneceu por sete ou oito anos. decidiu agir na Síria. Havia três anos que ele tinha deixado a cidade. Mais uma vez. provocou a fúria da comunidade judaica e teve de deixar a cidade numa fuga cinematográfica.. no Egito. ele escondeu-se num cesto que foi descido pelas muralhas. até ser expulso pelos judeus. Mas não tardou para o Sinédrio saber que Paulo. que se estendia do mar Vermelho até Damasco. viu nos seguidores de Yeshua uma ameaça real à sua própria religião. Por volta de 45 d. Por volta do ano 37.C. Antióquia era a terceira maior cidade do Império Romano. Era noite e Paulo andou por cinco horas até sentir-se a salvo. ainda estavam vivas na memória as atrocidades cometidas por Paulo. No martírio de Estevão. Foi então que passou a cultivar um ódio crescente pelos nazarenos e tornou-se um implacável perseguidor dos membros desta seita. apresentá-lo aos apóstolos. Depois de Roma e Alexandria. Afinal de contas. Paulo mudou-se para Antióquia da Síria. margeando a Palestina pelo leste. Refugiou-se por cerca de dois anos na Arábia – território dominado pela tribo dos nabateus –. Como os portões da cidade estavam vigiados. a sua cidade natal. onde os seguidores de Jesus ainda estavam ligados à lei e aos rituais judaicos. Depois de ter-se tornado um fervoroso discípulo do Nazareno. retornou a Damasco. a testemunha era Paulo. Nada se sabe sobre a sua vida neste período. eles permaneceram juntos. Paulo. Depois de muito aterrorizar os cristãos de Jerusalém. Diante do perigo que corria em Jerusalém.

Antes de partir para a segunda viagem. líder da comunidade cristã em Jerusalém. pela primeira vez. Paulo era contra. tendo à frente Pedro e Tiago Menor. como a obrigatoriedade da circuncisão para os pagãos convertidos ao cristianismo. sempre na companhia de outros discípulos. Paulo empreendeu quatro viagens evangelizadoras. 13:9. perigo por parte dos meus irmãos de raça. o mesmo a quem é atribuído um dos quatro evangelhos. ele encontrava forte 6 . perigos no mar. Durante 12 anos. seguiam pelas estradas romanas. de 46 a 58. Este fato revestese de importância porque pela primeira vez os seguidores de Jesus não são mais vistos como judeus dissidentes. Em suas pregações. Foram à ilha de Chipre e percorreram a Ásia Menor (veja mapa) antes de retornar a Antióquia. A primeira viagem. Nesta ocasião. Paulo foi intimado a participar do Concílio Apostólico de Jerusalém. perigos na cidade. percorrendo 30 quilómetros por dia. ele tinha cerca de 40 anos. afirma padre Bortolini. feitas a pé ou de navio. Pregava nas sinagogas. vieram à tona as divergências entre Paulo e o grupo de judeus-cristãos. que reuniu a nata do cristianismo primitivo. em casas e praças de grandes centros urbanos. foi feita em companhia de Barnabé e de Marcos. pois a circuncisão era encarada como a porta de entrada do judaísmo. boa parte dos neocristãos vinha do paganismo”. A questão era importante e polémica. Eram jornadas árduas. perigos no deserto. os convertidos assumiam que adotariam integralmente a cultura judaica. em 49. como escreve o Apóstolo numa de suas epístolas aos Coríntios: “Sofri perigos nos rios. surgiu pela primeira vez nesta cidade. Quando viajavam por terra. Ao aceitá-la. onde. A estratégia pastoral de Paulo era bem definida. que funcionavam como pólos irradiadores da mensagem. Ao sair. designava um líder responsável pelo rebanho. perigo por parte de ladrões. passando pelo norte da África. como designação dos discípulos de Jesus. O perigo os espreitava. Foi um encontro tenso. pois acreditava que o sacramento do batismo era suficiente para a conversão. Foi de lá que Paulo – descrito em textos apócrifos como “um homem pequeno com uma grande cabeça careca” – partiu para sua primeira jornada missionária. É a partir desta primeira expedição que Paulo deixa de ser chamado pelo nome judeu Saulo – a mudança é narrada por Lucas no Ato dos Apóstolos. A assembleia discutiu assuntos delicados. que se estendia da Grã-Bretanha ao Oriente Médio. visitando boa parte do Império Romano. perigos por parte dos falsos irmãos”. O termo cristão. outro discípulo cristão. perigo por parte dos pagãos.6 Antióquia se respirava ar novo – lá. entre 46 e 48.

Paulo recebeu a alcunha de “Apóstolo dos gentios”. que não entendiam por que deveriam se submeter ao ritual de iniciação judaico para tornar-se cristãos. diante da multiplicidade de línguas e dialetos daquela época. língua da elite judaica. esteve preso por alguns meses – ao longo de sua vida. a língua materna de Jesus e corrente na camadas populares da Palestina. o Apóstolo deve ter permanecido quatro anos atrás das grades. Ao final do encontro. Paulo saiu vitorioso. em contraposição a Pedro. o mais antigo documento do Novo Testamento. a capital da Ásia Menor. fundando importantes núcleos cristãos. recorria a intérpretes. o trabalho braçal ficava por conta de escribas: Paulo as ditava e as assinava de próprio punho para autenticar o documento. Sabe-se 7 . Na terceira viagem missionária. a Epístola aos Tessalonicenses. de 53 a 57. Mesmo sendo poliglota. em 51. A segunda jornada missionária começou depois do Concílio de Jerusalém e estendeu-se até 52. Foi também nesta jornada que Paulo escreveu. Paulo discordava e teve uma acirrada discussão com Pedro. Paulo deteve-se por três anos em Éfeso. “Foi por causa desta passagem [da Ásia para a Europa] que o cristianismo sobreviveu e se desenvolveu”. Lá. porque ele se tornara digno de censura”. não se sabe como foi recebido por Tiago. Nem Lucas nem Paulo deixam claro se ele aceitou o dinheiro “impuro” da coleta. na qual foi escrita a maior parte dos livros do Antigo Testamento. coletou dinheiro para os cristãos pobres de Jerusalém. Pedro defendia que os neocristãos não poderiam sentar-se à mesa com gentios – seus iguais até pouco antes.7 resistência dos pagãos. Nas cartas paulinas. O Apóstolo também se expressava em hebraico. Paulo visitou várias cidades gregas. chamado de “Apóstolo dos judeus”. Durante essa jornada. No retorno à Terra Santa. Este era o idioma universal. O ponto alto desta jornada foi a pregação na Europa. a Epístola aos Gálatas. por causa dessa liberalização que Paulo arrebanhou um número tão grande de fiéis. Nela. a palavra de D'us deixava a Ásia e espalhava-se por um novo continente. em Antióquia]. Chefe da igreja de Jerusalém. comparável ao que hoje é o inglês. Depois de acirradas discussões. percebe-se a tensão existente entre Paulo e os 12 apóstolos que conviveram com Cristo. argumenta padre Bortolini. Numa de suas cartas. Foi. Pela primeira vez. O motivo da briga foram dois preceitos alimentares judaicos. Paulo afirma que “enfrentou abertamente [Pedro. Em muitas ocasiões. em parte. a mesma língua usada por Paulo nas suas pregações. Deveriam também rejeitar sobras de carnes de animais sacrificados aos deuses pagãos. A maioria delas foi escrita em grego. presume-se. e em aramaico. o Apóstolo encontrava dificuldade para se comunicar nas suas peregrinações.

foi levado pelos guardas para fora da cidade e degolado. No outono daquele ano. o tribuno romano Cláudio Lísias o encarcerou de novo. já que o Novo Testamento não dá indicações do que aconteceu com ele após a prisão em Roma. escreveu a sua derradeira carta ao discípulo Timóteo. Paulo empenhou-se em reconstruir a comunidade. junto 8 . Paulo foi saudado pela comunidade cristã e permaneceu em prisão domiciliar. sob a acusação de introduzir gentios na sinagoga. já que não se sabe o dia exato da sua conversão. foi em Cesaréia. Pouco se sabe a respeito dos anos seguintes da vida de Paulo. acabou por receber o nome do Apóstolo. onde amargou dois anos de reclusão.8 apenas que foi na volta a Jerusalém que Paulo foi preso. Eis que ele pediu para ser julgado em Roma pelo imperador – direito conferido aos cidadãos romanos. Aproveitou esse período para transmitir a palavra de Deus. vigiada por soldados. o Apóstolo foi enviado à capital imperial. recobrou milagrosamente a visão. na praça do Templo. Encontrava-se com as pessoas. Mas. Ele sabia que não escaparia da morte. uma cidade com quase 1 milhão de moradores. erguida a basílica de São Paulo Extramuros. quando ela o colocou sobre os seus próprios olhos. no momento da sua execução. Diz a lenda que. A festa de São Paulo é celebrada em 29 de junho. Depois de dois anos de cativeiro. um dos líderes da igreja de Éfeso. Paulo teria devolvido o véu à mulher e. Por isso. O império era chefiado por Nero. No local de seu martírio foi construída a praça Tre Fontane e perto dali. Desta vez. Na prisão. os cristãos eram duramente perseguidos e tinham que se reunir em catacumbas para escapar da fúria insana do imperador. Como a cidade de São Paulo foi fundada neste dia. segundo a tradição. acredita-se que tenha empreendido uma viagem à Espanha ou visitado as igrejas cristãs que fundara na Grécia e Ásia Menor e retornado a Roma na primavera de 67. Os judeus estavam furiosos com a presença do pregador na cidade e. que anos antes havia ateado fogo na cidade e jogara a culpa pelo desastre nos seguidores de Jesus. junto ao seu túmulo. acusado de chefiar a seita dos nazarenos. viravam presa para as feras do Coliseu. perto de Jerusalém. mas não podia sair de casa. A conversão de Paulo é comemorada no dia 25 de janeiro. Ao deparar com essa situação. seu processo foi encerrado sem uma sentença condenatória. uma cega de nome Petronila aproximouse do Apóstolo e ofereceu-lhe um véu para cobrir-lhe o rosto. Foi uma escolha aleatória. temendo pela sua segurança. Quando capturados. No outono de 60. Não tardou e foi preso.

“Elas são muito diferentes em estilo literário e conteúdo”. Marcos. Na opinião de Fernando Travi. Gerações e séculos passaram até que a corrente paulina com o seu forte apelo em favor do Império Romano ganhasse ascendência sobre a corrente apostólica”. Paulo não tinha a pretensão de formular tratados teológicos. Foi uma forma encontrada pela Igreja Católica para homenagear. Opinião parecida tem o pastor batista americano Edgar Jones. “As ideias de Paulo. Com elas. 9 . no entanto. como os Manuscritos do Mar Morto. dizem os estudiosos. Uma corrente de biblistas defende que nem todas foram de fato escritas por Paulo – algumas teriam sido redigidas pelos seus discípulos após a morte do Apóstolo. “Elas são o resultado de experiências vivenciadas pelas comunidades paulinas”. “Jesus Nazoreu deve ser cuidadosamente diferenciado do Jesus de Paulo. O fato é que. como num plano de sabotagem. Elas foram redigidas entre os anos 50 e 60 e são os mais antigos documentos da história do cristianismo – os quatro evangelhos canônicos de Mateus. afáveis aos dominadores. autor do livro Paulo: O Estranho. a corrente paulina saiu-se vitoriosa. A influência do Apóstolo na consolidação da doutrina cristã pode ser medida pelo fato das suas epístolas representarem quase metade dos 27 livros do Novo Testamento. Lucas e João ficaram prontos apenas entre os anos 70 e 100. diz Fernando. afirma Pedro Vasconcellos. os dois líderes máximos do cristianismo primitivo. todas as cartas são de autoria de Paulo. Cristianismo ou paulinismo? As 13 cartas escritas por São Paulo sintetizam o pensamento do apóstolo. uma liderada pelos discípulos de Paulo e outra pelos seguidores dos apóstolos de Yeshua. diz ele. afirma o André Chevitarese. o Evangelho dos 12 Santos (ou da Vida Perfeita) e o Evangelho Essénio da Paz. que viria a moldar a doutrina cristã. Paulo divulgou uma doutrina falsificada em nome do messias”. até ao século 4. de escrituras datadas dos primeiros anos do cristianismo.9 com a de São Pedro. da PUC. a descoberta. “Existem sérios indícios de que. líder da Igreja Essênia Brasileira. Se são uma rica fonte de difusão da doutrina cristã. foram definitivamente incorporadas à doutrina cristã”. estes documentos são também a principal causa da controvérsia sobre o Apóstolo. no século passado. diz o teólogo. indica que boa parte do conteúdo das cartas de Paulo está em oposição aos ensinamentos de Jesus. o cristianismo dividia-se em duas correntes distintas. Para as Igrejas. de uma só vez. Quando o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano.

afirma Fernando. deve-se diferenciar a doutrina religiosa paulina das opinões do apóstolo sobre a ordem social. Jesus. Para os defensores de Paulo. que pregava um mundo livre de opressões. que é preciso analisar o contexto histórico para entender os seus escritos: “A sua falha em condenar a escravidão torna-se compreensível quando sabemos que cerca de 60% da população de qualquer cidade grande daquele tempo era formada por escravos. comunga da mesma opinião: “Paulo é uma figura basilar do cristianismo. de Roma. E continua: “É também por isso que pagais impostos. por isso. um exemplo desta “afabilidade” está presente na Epístola aos Romanos. a vossos senhores nesta vida. a idéia de liberdade é plena. este texto foi tirado do seu contexto e tornouse. em simplicidade de coração. com temor e tremor. odedecei. “Esta passagem revela que ele estava a serviço das autoridades romanas. “O texto só tinha valor para quem vivia em Roma. o que influenciou muito a doutrina protestante. Para outros teóricos. uma atitude crítica seria incompreensível”. Para os antipaulinos. de Jerusalém. mas quando ela é extrapolada para o meio social. surge o seu conservadorismo”. por sua vez. Toda a economia estava estruturada em torno deste fato e. afirma o biblicista Jerome MurphyO’Connor. escreve Paulo. como a Cristo”. pois não há autoridade que não venha de Deus. professor da Universidade Metodista de São Paulo e doutor em literatura bíblica. “A teoria de Igreja de Paulo é fundamentada no antiautoritarismo. insurgia-se contra as leis de Estado”. o apoio dado pelo apóstolo à escravidão tem sido usado pela Igreja ao longo dos séculos para legitimar situações espúrias de dominação e diverge radicalmente da palavra de Cristo. Na sua igreja. mestre em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico (PIB). onde qualquer movimento de desobediência seria esmagado”. ao longo dos séculos. diz o pastor luterano Milton Schwantes. Aquele que se revolta contra a autoridade opõe-se à ordem estabelecida por Deus”. O apóstolo dos pagãos também é bombardeado por suas posições a respeito 10 . uma teoria metafísica do Estado. Outro ponto controverso das epístolas paulinas refere-se à defesa que o seu autor faz da escravidão. diz o teólogo Pedro Vasconcellos. O sacerdote franciscano Jacir de Freitas Faria. e as que existem foram estabelecidas por Deus.10 Para os críticos de Paulo. Paulo é taxativo: “Servos. “Cada um se submeta às autoridades constituídas. Na Epístola aos Efésios. mas não podemos deixar de ser críticos a ele nesta relação com o Império Romano”. pois os que governam são servidores de Deus”. mais uma vez. A corrente pró-paulina argumenta.

“Paulo acreditou firmemente na igualdade entre os sexos e. 2002 11 . Edições Loyola. ao receberem a mensagem de D'us. (. fiel ou não a Jesus. possibilitando que ela se tornasse uma religião mundial. Alguns exegetas munidos de preconceito interpretaram erroneamente os textos paulinos”. que elas tenham roupas decentes. fossem inseridos de forma igualitária na comunidade cristã”. afirma Fernando Travi. Na carta endereçada à comunidade cristã de Colosso. Paulo foi. considerado por muitos o pai do cristianismo. “Ele criou condições para que os povos não-judaicos. Yeshua diz: ‘Eu sou o caminho. Carlos Mesters. Outro petardo disparado pelos críticos diz respeito à doutrina da salvação defendida por Paulo.. Os seus defensores. 2001 Paulo Apóstolo: Um Trabalhador que Anuncia o Evangelho. da PUC. a verdade e a vida’. da UFRJ. ele incentivava a participação das mulheres na vida social. ao contrário. É a doutrina da salvação em que o herói derrama o seu sangue e todos são perdoados por causa dele. “Paulo diz que os pecados são perdoados se a pessoa acreditar que Jesus morreu na cruz/estaca por ela. Não permito que a mulher ensine. Conservador ou radical. a mulher conserve o silêncio. que o acusam de misoginia. argumentam que. Para saber mais: Na livraria: Paulo – Biografia Crítica.11 das mulheres. Paulus.. afirma o André Chevitarese. diz MurphyO’Connor.) Durante a instrução. ele escreve: “Quanto às mulheres. Para Jesus. se enfeitem com pudor e modéstia. A Idade Média. Jerome Murphy-O·Connor. Enquanto isso. Paulo. A suas palavras atraem até hoje a ira das feministas. Paulus. 1996 Introdução a Paulo e suas Cartas. Temos que libertá-lo das ideias erróneas ao seu respeito perpetuadas ao longo dos séculos”. “Creio que houve uma transformação conservadora da mensagem de Paulo. as mulheres exerciam todos os ministérios. por outro lado. José Bortolini. ocorreria de outra forma e o mundo em que vivemos seria totalmente diferente. sem dúvida. com toda submissão. diz Pedro Vasconcellos. em suas igrejas. marcada pela força da Igreja Católica. ou domine o homem”. a história da humanidade teria tomado outro rumo. Os defensores de Paulo discordam e afirmam que o Apóstolo foi mais uma vez mal interpretado. Nada seria como é. um dos poucos evangelizadores – se não o único – a fazer o cristianismo passar da cultura semita à greco-romana. a salvação será dada àqueles que seguirem os seus ensinamentos”.

Neil Elliott.org/b2tableofcontents.html 12 .voiceofjesus. 1998 Na internet Paul – The Stranger (livro eletrônico de Edgar Jones sobre a vida de Paulo) http://www. Paulus.12 Libertando Paulo: A Justiça de Deus e a Política do Apóstolo.