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Capítulo 1 – Introdução à Macroeconomia

Capítulo 1 – Introdução à Macroeconomia

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1.1) Considerações iniciais 1.1.1) O objeto da Macroeconomia A análise macroeconómica centra-se em 2 questões principais:

i)

Flutuações macroeconómicas: perceber a evolução cíclica da economia, o que leva a períodos de crise económica ou de expansão e procurar criar um referencial para entender e agir sobre essa realidade.

ii)

Crescimento económico: o que explica o processo de longo prazo que conduz ao crescimento económico, bem como as suas causas.

1.1.2) Definição de Macroeconomia Macroeconomia é o estudo da economia como um todo enquanto que a Microeconomia é o estudo de uma parte da economia (famílias, empresas ou mercados específicos, etc.), tomando o resto como dado.

E isso envolve a análise das relações entre agregados fundamentais como o PIB, emprego/desemprego, inflação, taxa de juro, taxa de câmbio, Balança de Pagamentos, consumo, investimento, exportações, importações, poupança, despesa pública, défice orçamental, dívida pública, etc.

1.1.3) Macroeconomia positiva vs. normativa Positiva: como são as coisas efetivamente. Normativa: como queremos que as coisas sejam. Implica intervenção por parte de um decisor de política económica (exº governo).

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Os objetivos do decisor de política económica são normativos mas aquilo que ele pode fazer para os alcançar é positivo.

1.1.4) Análise macroeconómica

1.1.4.1) Ciências sociais vs. Ciências naturais A Economia é uma ciência social.

As ciências naturais lidam com matéria inerte, sem crenças, expetativas, vontades ou tomada de decisões. Nesse caso, é possível, em geral, tentar definir regras (mais ou menos) simples que descrevam o comportamento desta matéria inerte com base em observações factuais.

Mas é muito difícil que o mesmo aconteça com as ciências sociais. Isso não equivale, no entanto, a dizer que é impossível prever alguns comportamentos económicos (por definição, humanos) com base no conhecimento dos objetivos e das restrições com que os indivíduos se deparam. E não é sequer necessário conhecer cada individuo específico, bastará conhecer comportamentos típicos. Claro está que poderão existir surpresas → daí a dificuldade de fazer previsões!

1.1.4.2) Comportamento racional Uma hipótese habitual em Economia é a de que as pessoas se comportam de modo racional, o que significa que se assume que elas adaptam as suas ações de modo eficiente face às suas vontades e objetivos.

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Claro que isto pode não ser verdade em casos individuais concretos. Mas a análise económica (e sobretudo a análise macroeconómica) está interessada na forma como as pessoas agem, em média, nas economias e nos mercados.

1.1.4.3) Observação vs. experiências controladas Uma das razões pelas quais algumas ciências naturais são mais precisas que as ciências sociais é o facto de elas poderem realizar mais facilmente experiências controladas. Estas ajudam a isolar causas pelo facto de recriarem situações que são mais simples de analisar do que seria possível a partir de experiências não controladas ou da mera observação.

Mas este tipo de experiências é, muito provavelmente, impossível de realizar em Economia. De facto, não saberíamos como ou seria muito difícil manipular os diferentes aspetos da economia de forma a testar o que queríamos, podendo levantar também problemas éticos. A ciência económica tem um ramo denominado economia experimental, que permite fazer repetições da mesma situação, mas são feitos em ambientes controlados e só tendem a prever bem o comportamento das pessoas em leilões.

Um outro aspecto importante das experiências é que podem ser repetidas. Isto é fundamental pois a obtenção do mesmo resultado em diferentes experiências dá mais confiança na validade das conclusões. Em Economia podemos observar economias diferentes em períodos diferentes mas não podemos observar a mesma população ou a mesma economia com as mesmas condições iniciais.

1.1.5) Modelos

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 Uma forma de tentar perceber fenómenos que são complexos e difíceis de manipular no seu estado natural é recorrer a modelos. Estes são formas de representar relações conhecidas ou conjeturadas de uma forma que permita realizar experiências no modelo mesmo quando tal não é possível naquilo que é modelizado. No caso de modelos, o raciocínio é por analogia. Esperamos que quando as analogias são fortes nos aspetos conhecidos, também o sejam nos aspetos não conhecidos.

 Os modelos devem ser adaptados ao objetivo que visam analisar, simplificando no que não é essencial nesse contexto de estudo. Um modelo económico pode ser associado a um mapa. Para ser útil, tem de ser altamente simplificado. Um bom modelo, como um bom mapa, ajuda-nos a perceber melhor um território não familiar.

 Em Economia usamos:  modelo gráficos  (sobretudo) modelos matemáticos, equações que expressam importantes relações económicas.

Exemplo (muito simples):

C = 0,95 Y

(função consumo)

(1.1)

C - variável endógena: variável cujo valor é determinado pelo modelo Y – variável exógena: variável cujo valor é determinado fora do modelo 0,95 – parâmetro: número que caracteriza a relação entre variáveis do modelo

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Pode também ler-se da seguinte maneira: Y (o PIB) é a variável independente, que causa C, a variável dependente.  O modelo em (1.1) é linear, mas existem modelos não-lineares;  O modelo em (1.1) é estático – representa uma relação a-temporal entre variáveis. Mas os modelos podem ser dinâmicos – os valores atuais de algumas variáveis dependem do valor passado ou esperado delas próprias ou de outras variáveis.

Exemplo: (1.2)

Os modelos são usados para 2 utilizações principais:

i) ii)

Como instrumento de medição Como ferramenta para experiências contra-factuais

Exemplos:

i)

Suponhamos que queremos conhecer a sensibilidade de C face a Y. Com dados para C e Y, podemos estimar o parâmetro (o que era 0,95) econometricamente.

ii)

Uma experiência contra-factual é uma em que alteramos os factos representados no modelo de modo a serem diferentes do que são atualmente. Com isso, queremos apurar o que aconteceria caso essa variável/parâmetro se alterasse (ceteris paribus – e tudo o resto constante). O modelo ajuda, pois, a modelizar cenários alternativos ao que existe atualmente. Exemplos:  O que aconteceria a C se Y aumentasse de 500 para 650 u.m.?

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 E se o parâmetro (propensão marginal a consumir) baixasse de 0,95 para 0,8?

1.2) PIB 1.2.1) Definição Algumas questões-chave: - Quão rico é um país? Qual o seu PIB? → Referência ao nível

- Qual a sua taxa de crescimento? → Referência à taxa de crescimento

Estas são talvez as mais importantes questões económicas/variáveis económicas (PIB) e sobre elas ouvimos falar permanentemente, tanto em termos mais científicos como na comunicação social. Para além da sua importância intrínseca, o PIB é importante porque praticamente todas as variáveis relevantes ou são suas componentes (ex: consumo, investimento, salários, lucros, etc.) ou têm uma relação importante com ele (ex: inflação, desemprego).

Definição: o PIB é o valor de mercado de todos os bens e serviços finais, produzidos num dado período (usualmente 1 ano) com base nos fatores de produção localizados dentro das fronteiras do país.

1.2.2) População e PIB per capita Quando queremos saber a dimensão da economia, o PIB é a variávelchave.

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Mas também podemos querer saber qual o rendimento médio de cada indivíduo. Nesse caso, importa saber o PIB per capita:

Este é usado sobretudo como medida de bem-estar enquanto que o PIB capta o poder político e económico de um país.

E é importante notar que o ranking de 2 países pelos 2 critérios pode ser muito diferente. E também o crescimento registado nas 2 variáveis pode ser muito diferente.

Para termos uma visão mais detalhada, podemos usar indicadores complementares:

i)

Rendimento mediano: rendimento da pessoa que está exatamente a meio da distribuição (há 50% mais ricos e 50% mais pobres) Análise detalhada da desigualdade, da pobreza e da riqueza (ver próxima seção)

ii)

1.2.3) Desigualdade e pobreza (Texto de apoio)

1.2.4) Evolução do PIB ao longo do tempo Os níveis do PIB ou do PIB per capita são variáveis-chave. Mas é também crucial ter noção da forma como esses valores estão a evoluir ou

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estabelecer comparações entre crescimento atual e passado. Para isso precisamos de calcular taxas de crescimento e é também útil representar esse crescimento graficamente. Podemos, por exemplo, querer calcular:

- Taxas de crescimento - Taxas médias de crescimento anual

1.2.5) Variáveis reais vs. variáveis nominais PIB (USA)1960 = 526 biliões dólares PIB (USA)2009 = 14256 biliões dólares ▼ Este crescimento não significa que a economia seja, em 2009, 27 vezes maior do que era em 1960!!

O que acontece é que este crescimento incorpora 2 componentes: i) o crescimento das quantidades produzidas ii) o crescimento dos preços

Para conhecermos quanto é que a economia efetivamente cresceu, é necessário expurgar a componente de crescimento dos preços.

i) ii)

Crescimento de quantidades: crescimento real Crescimento conjunto das quantidades e dos preços: crescimento nominal

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Daqui deriva uma distinção importante:

Variáveis nominais: são variáveis medidas a preços correntes Variáveis reais: são variáveis medidas a preços constantes (valor corrigido de alterações registadas nos preços), i.e., o valor da moeda encontra-se fixo no tempo).

1.3) Índices de preços Por que é que o preço de um só bem não serve como representação adequada de todos os preços de mercado? Porque os vários preços não se movem de modo proporcional em todos os períodos. Eles crescem a taxas diferentes e até podem diminuir (ex: televisão). Logo, precisamos de uma média ponderada (sendo os ponderadores o peso de cada bem e serviço no cabaz de consumo de uma dada economia) da evolução dos preços de vários bens. Para ilustrar as diferentes abordagens possíveis, iremos calcular um nível geral de preços para um exemplo muito simples. Em geral, os preços crescem (inflação). Se descerem, diz-se que há deflação (ou desinflação).

1.3.1) Índice de Laspeyres Um índice que pondera os acréscimos de preços pelos pesos na despesa no período base é conhecido como índice de Laspeyres.

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Princípio de substituição: quando o preço relativo de um bem diminui, a quantidade vendida tipicamente aumenta, enquanto que a quantidade vendida do outro bem cai.

Como consequência, o índice de Laspeyres tende a sobrestimar o aumento médio dos preços. Tipicamente, as substituições levam à redução do peso no total da despesa dos bens com crescimento mais rápido nos preços. Esta sobrestimação da inflação é denominada de enviesamento de substituição. Para reduzir este problema, é preciso ir atualizando o período base com alguma frequência.

E existe ainda um outro problema que conduz à mesma necessidade de atualização do período base: o enviesamento de novos produtos – estes não tinham peso no período base se esse for muito atrás no tempo (exº computadores, telemóveis).

1.3.2) Índice de Paasche Um índice alternativo usa os pesos na despesa referentes ao período corrente.

Apesar do índice de Paasche mitigar o enviesamento de substituição próprio do índice de Laspeyres, sofre de outro – enviesamento de mudança de qualidade: quando o preço de um bem aumenta, as pessoas tendem a substitui-lo por bens menos desejados, de pior qualidade. Ora, o índice de Paasche não avalia a perda de satisfação associada a esta troca.

Outra dificuldade: tem de ser recalculado em todos os períodos pois os pesos mudam.

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1.3.3) Índice de Fisher Visa suprir as limitações dos índices anteriores.

(4.1)

ou seja, calcula, a média geométrica dos fatores preço calculados de acordo com Laspeyres e Paasche.

Nota: A análise relativa aos índices de preços deve ser complementada com as respetivas fórmulas de cálculo, as quais foram expostas e aplicadas no exercício 18.