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Sobre  a  Pobreza  em  Portugal,  uns  números  explicados   mariajoaoberhan@gmail.com     Todos  sabemos  o  que  é  ser  pobre.

 É  não  ter  com  que  satisfazer  as  necessidades   mais  elementares:  comer  o  suficiente,  viver  sob  um  tecto  protector,  vestir-­‐se  com   dignidade.   Mas   para   estudos   e   avaliações   dentro   da   União   Europeia,   define-­‐se   como   limiar   de   pobreza   o   valor   de   60%   da   mediana   do   rendimento   nacional   por   adulto  equivalente,  eufemisticamente  chamado  limiar  de  risco  de  pobreza.       Vamos  desdobrar:  a  mediana  do  rendimento  nacional  é  a  quantia  que  divide  os   portugueses  a  meio,  os  50%  que  vivem  com  mais  do  que  isso  e  os  50%  dos  que   vivem   com   menos.   Em   2010   este   número   foi   calculado   em   701€.1  Então,   60%   de   701  são  421€,  e  este  número  serve  para  definir  para  a  estatística  quem  está  em   risco   de   pobreza:   é   quem   dispõe   de   um   rendimento   líquido   inferior   a   421€   mensais2,  por  adulto  equivalente.       O   que   quer   dizer   adulto   equivalente?  Considera-­‐se  que  quando  as  pessoas  vivem   em   grupo,   algumas   despesas   não   se   duplicam.   Então,   para   estimar   despesas   do   agregado,   aparece   esta   noção   de   adulto   equivalente   que   diz   que   o   primeiro   adulto  do  agregado  conta  por  1,  outros  adultos  valem  0,5  e  as  crianças  valem  0,3.   Significa   isto   que   uma   casa   com   dois   adultos   e   duas   crianças   representa   (1+0,5+0,3+0,3=)   2,1   adultos   equivalentes   e   não   4   pessoas,   como   seria   no   caso   de  o  cálculo  ser  feito  per   capita.   Essa  família,  caso  viva  no  exacto  limiar  de  risco   de   pobreza,   tem   para   gastar   (2,1x   421)   884€   mensais,   para   todas   as   despesas:   renda,  água,  luz,  vestuário,  alimentação  e  transportes.       Feitas   as   contas   para   os   valores   teoricamente   disponíveis,   falta   saber   quantos   portugueses   vivem   com   menos   do   que   isto:   segundo   o   INE   são   18%,   mesmo   depois   de   entrarem   as   prestações   sociais   todas,   desde   pensões   a   subsídios   de   inserção   social.   Sem   as   pensões   os   18%   passariam   a   25%   e   sem   os   apoios   às   famílias   e   outras   prestações   sociais,   passariam   a   43%.   Quase   metade   dos   Portugueses.     Se   18%   é   a   proporção   de   portugueses   em   geral   a   viver   abaixo   do   limiar   de   pobreza,   a   proporção   de   famílias   com   idosos   e   com   crianças   é   maior:   quase   35%   das   famílias   com   3   ou   mais   crianças   é   pobre.   O   que   diz   alguma   coisa   sobre   a   solidariedade  nacional:  quem  escolhe  ter  filhos  que  se  vire.  Estamos  conversados   sobre  as  lágrimas  de  crocodilo  face  à  quebra  de  natalidade.     Os  18%  que  vivem  com  menos  de  421€  mensais  tanto  podem  viver  com  420€  ou   como  com  100.  Para  perceber  isto  faz-­‐se  outro  cálculo,  a  taxa   de   intensidade   de   pobreza,   que   mede   a   diferença   entre   o   limiar   de   pobreza   (os   421€)   e   o   rendimento  mediano  dos  que  vivem  com  menos  do  que  isso.   A  taxa  de  intensidade  foi  em  2010  de  23,2%  de  421€,  ou  sejam  323€.                                                                                                                  
1  Não  confundir  com  rendimento  médio.  O  rendimento  médio  mensal  líquido  dos  empregados  por  

2  Note-­‐se  que,  sendo  definido  com  base  no  rendimento  nacional,  este  valor  difere  muito  entre  países  

europeus:   pode   chegar   a   mais   de   1000€   (Luxemburgo,   Suíça,   Noruega   e   Islândia)   ou   ser   menos   de   500€  (Eslovénia,  Letónia,  Lituânia,  Polónia,  Estónia,  Hungria,  Bulgária,  Roménia  e  Portugal).    

 

 estamos  a  usar  uma  medida  curta  demais.   em   2010   desceu   em   relação   a   2009:   7.   mas   são   apenas   os   desempregados   e   outros   preguiçosos   e   oportunistas   que   se   sujeitam   a   ser   pobres?  Não.  irresponsabilidade  ou  existe  um  plano?       Que  se  saiba.     E   que   faz   o   governo   com   estes   números?   Aparentemente.  o  que  dá  para  ver  que   aquele  limiar  deixa  gente  de  fora.3   %   face   a   8.   8)   o   agregado   não   pode   pagar   um   carro   e   9)   capacidade   do   agregado   para   manter   a   casa   adequadamente  aquecida.   5)   o   agregado   não   pode   pagar   um   telefone   (incluindo   telemóvel).   contas  de  serviços  de  utilidade  pública.  desemprego  e  inclusão  social.  frango.   Com   menos  de  280€  mensais  (40%  do  rendimento  mediano)  vivem  580  mil.5   %.   6)   o   agregado   não   pode   pagar   uma   televisão   a   cores.   mesmo   considerando   que   tudo   tem   o   seu   preço:   alguém   fez   contas  à  perda  de  capacidades  futuras  que  o  início  de  vida  com  privações  severas   representa?  Trata-­‐se  de  ignorância.   7)   o   agregado   não   pode   pagar   uma   máquina   de   lavar.  há  10%  de  portugueses  que  trabalham  e  sem  conseguir  ultrapassar   os  421€  mensais.  4)  capacidade  para  enfrentar   despesas  financeiras  inesperadas  [quantia  fixa  correspondente  ao  limiar  nacional  mensal  de  risco  de   pobreza   do   ano   prévio].   ignora-­‐os:   sabemos   que  o  contributo  das  transferências  sociais4  para  a  redução  do  risco  de  pobreza.     Sabemos   que   intenção   é   cortá-­‐los  ainda  mais:  alguém  terá  de  escolher  quem  não  vai  ser  apoiado:  pessoas   deficientes?  Os  idosos?  Os  desempregados?  As  crianças?  Os  bancos?     Vimos   o   que   significa   cortar   os   apoios   sociais:   é   quase   metade   da   população   a   viver  abaixo  do  mínimo  de  decência.     O   desemprego   atira   muita   gente   para   a   pobreza.  (metainformação  –  Eurostat)   4  Relacionadas  com  a  doença  e  incapacidade.   21%   acumularam  a  privação  em  pelo  menos  3  destes  9  items.   26%   não   conseguiu   aquecer   a   sua   casa   suficientemente   e   3%   não   conseguiu   ter   uma   refeição   com   carne   ou   peixe   pelo   menos  de  2  em  2  dias!   Mais   numerosos   do   que   os   que   viveram   abaixo   do   limiar   de   pobreza.  11%  atrasou-­‐se  com   rendas   e   despesas   correntes.     Com  que  consequências  imediatas?  Isso  tenta  ser  medido  pelos  indicadores   de   privação   material.  compras  a  prestações  ou  outros  empréstimos.  família.  pelo  menos  um  ministro  deste  governo.                                                                                                                   3  Os   nove   itens   a   considerar   são:   1)   atraso   no   pagamento   de   hipotecas   ou   pagamento   de   rendas.   29%   dos   portugueses   não   teve   capacidade   de  fazer  face  a  uma  despesa  sem  recorrer  a  um  empréstimo.Façamos  as  contas:  quase  dois  milhões  (1  890  000)  de  portugueses  vivem  com   menos   de   421€   por   mês   e   quase   um   milhão   vive   com   menos   de   323€.  3)  capacidade  para  pagar  uma  refeição  que  inclua   carne.  alguém  que  aprovou  estes   cortes.  Para  lá  de  noções  elementares  de  justiça  e   de   solidariedade.  gastou  para  dormir  um  noite  o  mesmo  que  a  família  de  quatro  pessoas  do   nosso   exemplo   tem   para   gastar   num   mês   –e   a   viver   mal.  2)  capacidade   para  pagar  uma  semana  anual  de  férias  fora  de  casa.   .   A   pergunta   é:   que   esperamos  para  correr  com  eles?         Tenho  pressa  de  viver  num  país  decente.  peixe  (ou  equivalente  vegetariano)  de  dois  em  dois  dias.   nove   items   que   procuram   representar   as   necessidades   económicas   das   famílias3:   em   2011.

compras a prestações ou outros empréstimos. a qual “atribui um peso de 1 ao primeiro adulto de um agregado. (metainformação – Eurostat) .       Glossário Rendimento por adulto equivalente: INE: resultado obtido pela divisão do rendimento líquido de cada família pela sua dimensão em número de adultos equivalentes e o seu valor atribuído a cada membro da família. expressa em percentagem deste limiar. 0. 7) o agregado não pode pagar uma máquina de lavar. Rendimento Monetário Líquido: INE: Rendimento monetário obtido pelos agregados e por cada um dos seus membros. peixe (ou equivalente vegetariano) de dois em dois dias. Rendimento disponível: EUROSTAT: rendimento anual total de um agregado. transferências públicas e privadas e outras fontes de rendimentos. proveniente de todas as fontes: salários. 3) capacidade para pagar uma refeição que inclua carne. 5) o agregado não pode pagar um telefone (incluindo telemóvel). dentro do agregado". Os nove itens a considerar são: 1) atraso no pagamento de hipotecas ou pagamento de rendas. rendimentos sobre patrimónios. o qual corresponde a 60 % do rendimento nacional mediano por adulto equivalente. (metainformação – Eurostat) Taxa de intensidade da pobreza: Diferença entre o rendimento mediano equivalente disponível de indivíduos abaixo do limiar de risco de pobreza e o limiar de risco de pobreza. 8) o agregado não pode pagar um carro e 9) capacidade do agregado para manter a casa adequadamente aquecida. É utilizada a escala de equivalência modificada da OCDE. 6) o agregado não pode pagar uma televisão a cores. ajustado tendo em conta o número de pessoas pertencentes a cada agregado. frango. (metainformação – Eurostat) Taxa de privação material: Percentagem da população com uma forte carência de pelo menos 3 dos nove itens de privação material na dimensão da «pressão económica e bens duradouros».3 a cada criança. propriedade e transferências privadas).5 aos restantes adultos e 0. contas de serviços de utilidade pública. após dedução dos impostos devidos e das contribuições para a segurança social. 4) capacidade para enfrentar despesas financeiras inesperadas [quantia fixa correspondente ao limiar nacional mensal de risco de pobreza do ano prévio]. 2) capacidade para pagar uma semana anual de férias fora de casa. A utilização desta escala permite ter em conta as diferenças na dimensão e composição do agregado. proveniente do trabalho (trabalho por conta de outrem e por conta própria). após deduções de impostos. Taxa de Risco de Pobreza: Proporção de indivíduos com um rendimento equivalente abaixo do limiar de risco de pobreza. O rendimento total disponível é. de outros rendimentos privados (rendimentos de capital. depois. taxas e contribuições para a segurança social. rendimentos de empregados por conta própria. das pensões e outras transferências sociais.