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SENADO FEDERAL

COLEÇÃO

CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

BRASÍLIA – 2007

Senado Federal
Mesa Diretora Biênio 2007/2008 Senador Renan Calheiros
PRESIDENTE

Senador Tião Viana
1º VICE-PRESIDENTE

Senador Gerson Camata
2º SECRETÁRIO

Senador Alvaro Dias
2º VICE-PRESIDENTE

Senador César Borges
3º SECRETÁRIO

Senador Efraim Morais
1º SECRETÁRIO

Senador Magno Malta
4º SECRETÁRIO

SUPLENTES DE SECRETÁRIO

Senador Papaléo Paes Senador Antônio Carlos Senador João Vicente Claudino

Agaciel da Silva Maia
DIRETOR-GERAL

Cláudia Lyra Nascimento
SECRETÁRIA-GERAL DA MESA

OS 04102/2007

No Governo Provisório de 15 de novembro de 1889, Rui Barbosa exerceu a função de Ministro da Fazenda. Dois fatos marcaram sua presença na gestão Deodoro: a Constituição de 1891, quase toda de sua autoria, e o encilhamento.

CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

1891

Mesa Diretora
Biénio 2003/2004 Senador José Sarney Presidente Senador Paulo Paim
1º - Vice-Presidente

Senador Eduardo Siqueira Campos
2º -Vice-Presidente

Senador Romeu Tuma
1º - Secretário

Senador Alberto Silva
2º- Secretário

Senador Heráclito Fortes
3º - Secretário

Senador Sérgio Zambiasi
4º - Secretário

Suplentes de Secretário
Senador João Alberto Souza Senador Geraldo Mesquita Júnior Senadora Serys Slhessarenko Senador Marcelo Crivella

Conselho Editorial
Senador José Sarney
Presidente

Joaquim Campeio Marques
Vice-Presidente

Conselheiros Carlos Henrique Cardim João Almino Carlyle Coutinho Madruga Raimundo Pontes Cunha Neto

O Conselho Editorial do Senado Federal, criado pela Mesa Diretora em 31 de janeiro de 1997, buscará editar, sempre, obras de valor histórico e cultural e de importância relevante para a compreensão da história política, econômica e social do Brasil e reflexão sobre os destinos do País.

CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS
VOLUME II

1891
ALIOMAR BALEEIRO

SENADO FEDERAL CENTRO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS -

CEE/MCT

ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO FAZENDÁRIA- ESAF/MF

Bloco A 70610-200-Brasília-DF Fax: (Oxx6l) 411-5198/5199 Http://www.br e-mail: cee@mct. Constituições Brasileiras.br Baleeiro. v. II. II.Comentários.CEE/MCT SPO. : il. Área 5.CEE/MCT Professora Elaine Rose Maia Endereço para correspondência: CENTRO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS . Título. 23 cm. 3. I..4(81) CDU 2a edição .Brasil. Coleção. Brasil História. I.2481 CDD 342.CEE/MCT PROFESSOR CARLOS HENRIQUE CARDIM Coordenação Geral de Ensino a Distância e Documentação .ESAF/MF PROFESSORA MARIA DE FÁTIMA PESSOA DE MELLO CARTAXO CENTRO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS .gov. Centro de Estudos Estratégicos.(Coleção. Coleção Constituições Brasileiras. Quadra 3. Constituição . 341. . . 2. 2) 1. Constituição Brasileira .rnct. Ministério da Ciência e Tecnologia.Brasília : Senado Federal e Ministério da Ciência e Tecnologia. 121 p. Aliomar. Constituições Brasileiras : 1891 / Aliomar Baleeiro. 2001.SENADO FEDERAL SENADOR JADER BARBALHO MINISTÉRIO DA FAZENDA MINISTRO PEDRO SAMPAIO MALAN MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA MINISTRO RONALDO MOTA SARDENBERG COLEÇÃO CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS PROFESSOR WALTER COSTA PORTO (organizador) ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO FAZENDÁRIA . Ccntro de Estudos Estratégicos.gov.

contou com apenas 700. indicava uma popula. depois do voto. dencial verdadeiramente disputada entre nós. por acompanhamento. Walter Costa Porto . seu poder de caucionar e orientar o mandato outorgado a seus representantes. é. e uma ção de quase dez milhões de habitantes efetiva fiscalização por parte do corpo mas. de modo extraordinário.Constituição foi algo verdadeiramente ral no país: 69 milhões de votantes se partilhado. em 1910. pelo Senado Federal e pela Escola de Administração Fazendária/MF faz. os eleitores representaram mais de 10% do contingente populacional. indispensável para que o cidadão exerça seu novo direito.da televisão. va resultou que a feitura de nossa atual Em primeiro lugar. pela primeira vez. nossas instituições políticas. alargado o corpo eleito.terceira perspectiva que incidiu sobre o damentalmente diferentes daquelas que relacionamento entre eleitores e eleitos: envolveram a preparação das Cartas ante. de como se moldaram. há que se destacar o papel dos meios de comunicação . à distância. foi. com relação às idéias e aos proos eleitores. a que se travou entre as candidaturas de Hermes da Fonseca e Rui Barbosa. o de alargar. Em segundo lugar.da maior participação popular e do dilatado conhecimento da elaboração legislatiriores.000 eleitoral. O primeiro recenseamento no tre eleitor e eleito. do rádio e dos jornais -. que estabelecia uma dualidade en1986. O conhecimento de nossa trajetória constitucional.000 eleitores.correção. em 1889. e somente na escolha dos constituintes de 1946 é que. visa um melhor respaldo à cidadania e à maior qualificação de nosso diálogo político. A reedição deste curso sobre as Constituições Brasileiras pelo Centro de Estudos Estratégicos/MCT. e que o "mandato representahabilitaram ao pleito de novembro de tivo". teve sua necessária Brasil. então. parte de um programa que. 3% da população. eram somente 200. nesses dois séculos.A COLEÇÃO "CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS" Desses dois fatores. em 1872. A primeira eleição presi. tornando possível a mais vasta divulgação e a discussão mais ampla dos eventos ligados à preparação do texto constitucional.gramas dos partidos. surgiu uma A elaboração da Constituição Brasileira de 1988 se deu sob condições fun. portanto.

25 Oposição a Deodoro pág. 27 Os projetos pág.SUMÁRIO A CONSTITUIÇÃO DE 1891 Aliomar Baleeiro I . 13 O clima emocional de 1889-1891 pág.Os PRÓDROMOS DA REPÚBLICA (1889-1891) pág. 29 O projeto do Governo Provisório pág. 13 Institucionalização do Governo Provisório pág. 21 Facções sem partidos organizados pág. 17 Governo Provisório pág. 29 .

34 Linhas gerais pág. 36 A dualidade da Justiça pág 37 Discriminação das rendas pág. pág. 39 Estados: competência. intervenção. 40 Municípios pág.A CONSTITUIÇÃO "LITERÁRIA" DE 1891 pâg. 40 Superior Tribunal Militar pág.A Constituinte pág. 30 O Apostolado Positivista e a Constituição pág. 31 II .41 Declarações de Direitos pág. 34 O Poder Legislativo pág 35 O Presidente e o Vice-Presidente da República pâg. etc. 41 .

48 Política do "café-com-leite" pág. 42 O militarismo na 1.III . 46 O impacto da guerra de 1914 .EVOLUÇÃO POLÍTICO-CONSTITUCIONAL DO BRASIL pág.1918 pág. 55 As desilusões sobre o Regime de 1891 pág. 51 IV . 49 A Constituição Positivista do Rio Grande do Sul pág.República pág. 51 Os coronéis e a estrutura rural pág. 58 .As CAUSAS DO MALOGRO DA CONSTITUINTE DE 1891 pág. 51 Classes médias e proletariado na lª República pág. 50 Pródromos da legislação social pág. 42 Revisionismo parlamentarista pág. 55 Efeitos retardados da pregação de Rui pág.

119 . 61 Crise econômica de 1929 pág. 71 QUESTÕES ORIENTATIVAS PARA AUTO-AVALIAÇÃO pág. DE 24 DE FEVEREIRO DE 1891 pág. 77 EMENDAS À CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1891 pág.Reforma Constitucional de 1926 pág. 64 O estopim da PB e a Revolução de 1930 pág. 65 O Autor pág. 73 LEITURAS RECOMENDADAS pág. 69 IDÉIAS-CHAVES pág.O parto da montanha . 63 Aliança liberal pág. 75 CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. 107 CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕES pág. 117 BIBLIOGRAFIA pág.

O Congresso e a Constituição — 1891 .

cuja modéstia espartana não incutia nos espíritos a mística e o esplendor dos tronos europeus. no d e c o t e . crachás que impressionam o h o m e m da rua. c o m o o Barão de Cotegipe profetizou à Princesa. as c o n d e c o r a ç õ e s . Em sua ingenuidade primitiva. Isabel acreditara ganhar durável popularidade. embora para os . Passada a euforia da promulgação da Lei de 13 de maio de 1888. Depois de dias de festejos e batucada. pensavam que poderiam subsistir s e m a dureza do trabalho quotidiano e árduo.A CONSTITUIÇÃO DE 1891 ALIOMAR BALEEIRO I . tornava esse perigo muito próximo. de almirante e general. n e m de amparo à p r o d u ç ã o agrícola.Os PRÓDROMOS DA REPÚBLICA (1889-1891) O clima emocional de 1889-1891 O p o v o brasileiro cansara-se da monarquia. c o m o qualquer sujeito respeitável da é p o c a . o País sentiu na carne as consequências do g e s t o g e n e r o s o que. pretos. muitos africanos ou filhos deles. O Imperador vestia trajes civis. s e m as fardas de dourados. a básica do País na é p o c a . O impacto sobre a produção foi tremendo. saturando o mercado de trabalho. O Conde D'Eu era cordialmente detestado e temia-se que viesse a manter sua copa-e-cozinha política quando o s o g r o fechasse os olhos. c o m a qual D. em 1888. Conta-se que a Princesa Imperial trazia c o n s i g o . E a moléstia do Imperador. fósforos para acender ela mesma as velas à boca da noite. recém-libertados. lhe custaria a perda do trono. quase todos abandonaram as fazendas e procuraram viver de biscates nas cidades. Não foram previstas medidas de gradual adaptação dos ex-escravos ao trabalho livre.

Por outro lado. fossem importados milhares e milhares de imigrantes italianos. o establishment dos velhos políticos. às quais creditavam o formidável desenvolvimento econômico dos Estados Unidos nos dois decênios após o término da Guerra de Secessão. Como isso exigia vultosas emissões. na lenta erosão do que restava do prestígio do trono e do regime. não conseguira captar a lealdade dos filhos. Silva Jardim. estadista enérgico e competente. muitas crianças nascidas por esse tempo ganhavam como prenome "Washington". desde 1888 e primeiro semestre de 1889. Afonso Celso (Visconde de Ouro Preto). do mesmo modo que um menino nascido em meio do século XIX. Afonso Celso. no fastígio da Carta de 1824. Logo o câmbio baixou. somada à tradição portuguesa contava oito séculos. da República. nos dois anos anteriores a 1888. Os que esperavam ascensão social é política com o próximo 3º reinado armaram o braço ameaçador dos libertos da "Guarda Negra" e dos capoeiristas contra os propagandistas. viscondes e marqueses. As questões militares dos anos anteriores destruíram a disciplina do Exército. antes ao par. um impulso inflacionário com inevitável reflexo no valor do mil-réis. ou pelo positivismo e pelas instituições norte-americanas. lutou como um leão na arena econômica e na política. que estava. facilitando-lhes o crédito para manutenção do trabalho agrícola por homens livres. fora batizado Benjamin Constant Botelho de Magalhães. escapou do assassínio. A substituição do braço escravo pelo livre importava a necessidade de aumento do numerário para pagamento semanal e regular dos trabalhadores assalariados. . manifestou-se. Por outro lado.14 • Aliomar Baleeiro Estados do Sul. no Diário de Notícias. nas hostilidades ostensivas ao Ministério Civil. Nas classes médias. desfalcadas as fileiras pela deserção dos fazendeiros e militares. "Hamilton". os jovens. "Jefferson". por fim. que. cada manhã. que desde 1870 se deixavam fascinar pela sereia republicana. metralhado pelos artigos que Rui escrevia. procurou aplacar a ira dos fazendeiros desapossados dos escravos. Um deles. banqueiros eexportadores. subindo celeremente o valor da libra esterlina em relação ao mil-réis. a velha estrutura monárquica. 13000. E. desmoronou-se toda em poucas horas na madrugada de 15 de novembro. solidarizando generais com subalternos. na relação de 27 pence por Rs. o ultimo Presidente de Gabinete. dos barões.

foram engordados por adesistas de toda a parte. E estavam divididos: Silva Jardim. defronte duma resma de papel almaço. sentou-se. mas não empregara suas armas poderosas numa pregação nitidamente republicana. prebendas e nobilitações da Coroa. militavam nos partidos monárquicos e solicitavam ou recebiam mercês. pois um mês depois de 15 de novembro se esboçavam reações saudosistas. na véspera. de caneta em punho. Por outro lado. se possível. Em verdade. descrevendo para os leitores dum jornal paulista como o povo assistira atônito e "bestificado" a súbita e rápida queda do trono. Defendia a Federação com o trono. E assim. ou mesmo sem ele ou contra ele. Não havia. quando alguns reivindicavam o título de "históricos". no cair da noite de 15 de novembro. institucionalizando os fatos da manhã.A Constituição de 1891 • 15 Ficou célebre a crônica de Aristides Lobo. às vésperas da República. hostilizava Quintino Bocaiúva. os republicanos constituíam minoria na opinião pública. antes que voltasse ao solo toda a poeira da cavalgada de Deodoro. um líder carismático. dos que arrastam multidões. o pequeno grupo de vencedores a 15 de novembro. Mas. era e foi toda vida um cético em relação às formas de Governo. Aliás. começou este Deodoro a assinar o Decreto orgânico que insti- . tendo dito Rui Barbosa que uma República poderia ser a de Francia ou a de Solano Lopez do mesmo modo que a monarquia poderia ser livre e democrática como a da Rainha Vitória. inclusive os que. porque vindos do Manifesto de 1870 ou pouco depois nos Clubes Republicanos. Rui Barbosa. entre eles. Rui Barbosa combatia o Governo e até a Coroa. não seria provável a sobrevivência da República sem essas ondas de adesismo.

uma ao lado do Ministro da Fazenda. incontestavelmente. em O Encilhamento. indústria. outra a mano com o Ministro da Agricultura. Nunca perdoou a Rui. encerrando uma carreira política que prometia ser brilhante. Como por um toque da varinha mágica. Os positivistas que. haviam trazido também sua picareta à demolição do regime. Lançavam-se empresas e as classes médias se embriagavam com o jogo da Bolsa. fáceis e gordos. E a inflação disparou num clima de especulação geral. Os líderes vencidos e seus simpatizantes. a cultura e a espantosa capacidade de trabalho de Rui Barbosa seduziram o velho Deodoro no primeiro semestre de 1889. Multiplicavam-se as sociedades anônimas. transformar-se numa potência industrial servida por largo setor terciário de comércio e Bancos. de improviso. . Toda a gente queria enriquecer depressa. o país agrário queria. As medidas financeiras. para que incorporasse ao novo regime. nem de capitais suficientes. companhias e iniciativas industriais. que sabiam ser o mais eficiente arquiteto da nova estrutura política a ser edificada. navegação etc. E a imprensa estrangeira martelava o novo regime. descrevem coloridamente o clima emocional da época. segundo o figurino de Augusto Comite. na França. intencionalmente meditadas para atrair ao novo regime a riqueza mobiliária — como fizera Alexander Hamilton no governo de Washington -. Demetrio Ribeiro. na esperança de ganhos rápidos. estavam com a boca cheia da "ditadura científica". a filosofia política do mestre. emigrados. Muitos militares.. embora não dispusesse de know-how. Seguiram-se a separação da Igreja e do Estado e. Era o "encilhamento" num quadro que recordava o de John Law. o jovem positivista do Rio Grande do Sul. desavindo-se com Rui. as classes urbanas do comércio. desde a primeira hora. em Uma Mulher como as Outras'. mas por isso mesmo despertaram ciúmes de outros membros do Governo Provisório. dia a dia. exonerou-se. inovações políticas e jurídicas de toda a espécie. baliam à porta de Benjamin Constant. como discípulo fiel e aplicado. excitavam as iniciativas desenvolvimentistas e com elas as especulações febris. O novo regime em plena atmosfera inflacionária excitou os banqueiros e empresários. bancos. Demétrio Ribeiro. que se dividiram em duas facções. O talento.16 • Aliomar Baleeiro tuía o Governo Provisório da nova República. trazido o Governo Provisório e alvejavam sobretudo a Rui Barbosa. cerca de dois séculos antes. e Afrânio Peixoto. exportação. O Visconde de Taunay.

O Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brazil decreta: Art. assegurar o livre exercício dos direitos dos cidadãos e a livre ação das autoridades constituídas. 7º Sendo a República Federativa Brazileira a forma de governo proclamada. quer nacionais. 3º Cada um desses Estados. e os novos Estados. lº Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de governo da nação brazileira a República Federativa. proveram a manutenção da família imperial. por governadores delegados do Governo Provisório. onde a ordem pública for perturbada. no exercício de sua legítima soberania. elegendo os seus corpos deliberantes e os seus governos locaes. livremente expressado pelo sufrágio popular. com apoio da força pública. ficam constituindo os Estados Unidos do Brazil. pelos governos que hajam proclamado. Art. pelos meios regulares. não se proceder a eleição do Congresso Constituinte do Brazil. . defesa e garantia da liberdade e dos direitos dos cidadãos. será regida a Nação brazileira pelo Governo Provisório da República. aguardando como lhe cumpre o pronunciamento definitivo do voto da Nação. 6º Em qualquer dos Estados. reunidas pelo laço da Federação. Art. DE 15 DE NOVEMBRO DE 1889 Proclama provisoriamente e decreta como a forma de governo da Nação Brazileira a República Federativa. estabelece as normas pelas quais se devem reger os Estados Federais. Art. fundaram um Governo Provisório. na falta destes. effectuará o Governo Provisório a intervenção necessária para. criaram os símbolos nacionais. 5º Os Governos dos Estados federados adaptarão com urgência todas as providências necessárias para a manutenção da ordem e da segurança pública. e onde faltem ao governo local meios eficazes para reprimir as desordens e assegurar a paz e tranquilidade públicas. Art. 2º As províncias do Brazil. e bem assim a eleição das legislaturas de cada um dos Estados. Art. ou. quer estrangeiros.A Constituição de 1891 • 17 Institucionalização do Governo Provisório Uma leitura dos primeiros atos ou decretos dos vencedores mostra como eles rapidamente institucionalizaram a República. o Governo Provisório não reconhece nem reconhecerá nenhum governo local contrário a forma republicana. alargaram o eleitorado a todos os cidadãos alfabetizados e dissolveram os órgãos vetustos do Poder Legislativo da Nação e das Províncias: DECRETO Nº 1. 4º Enquanto. decretará oportunamente a sua Constituição definitiva. Art.

lº A bandeira adoptada pela República mantém a tradição das antigas cores nacionais . DE 19 DE NOVEMBRO DE 1889 Estabelece os distintivos da bandeira e das armas nacionais. lº É concedida à família imperial. chefe do Governo Provisório . os Secretários de Estado das diversas repartições ou Ministérios do actual Governo Provisório. atravessada por uma zona branca. O território do Município Neutro fica provisoriamente sob a administração imediata do Governo Provisório da República. DECRETO Nº 2. pelos meios ao seu alcance. Sala das Sessões do Governo Provisório. DE 16 DE NOVEMBRO DE 1889 Prevê a decência da posição do ex-imperador e as necessidades do seu estabelecimento no estrangeiro. pois. representada pelas três armas do Exército e pela armada nacional. Considerando. a quantia de cinco mil contos de réis. Art. . symbolisam a perpetuidade e integridade da pátria entre as outras nações: Art. datada de hoje. e dos sellos e sinetes da República. 2º Esta concessão não prejudica as vantagens asseguradas ao chefe da dynastia deposta e sua família na mensagem do Governo Provisório. independentemente da forma de governo. em sentido oblíquo è descendente da esquerda para a direita. que essas cores.Eduardo Wandenkolk. 11.Quintino Bocayuva . 9º Ficam igualmente subordinadas ao Governo Provisório da República todas as repartições civis e militares até aqui subordinadas ao governo central da Nação brazileira.Benjamin Constant . 15 de novembro de 1889. Art. e a cidade do Rio de Janeiro constituída. de uma vez.lº da República. tendo no meio a esphera celeste azul. de que existem guarnições ou contingentes nas diversas províncias. DECRETO Nº 4. Ficam encarregados dia execução deste decreto. 8º A força pública regular. também provisoriamente. 10. Art.Silveira Lobo — Ruy Barbosa . na parte que a cada um pertença. Art. Marechal Manoel Deodoro da Fonseca. continuará subordinada e exclusivamente dependente do Governo Provisório da República.do seguinte modo: um losango amarello em campo verde. Art. entre as quaes as da constelação do Cruzeiro dispostas na sua si- . com a legenda — Ordem e Progresso — e ponteada por vinte e uma estrellas.18 • Aliomar Baleeiro Art. podendo os governos locaes. sede do poder federal.verde e amarella . decretar a organização de uma guarda cívica destinada ao policiamento do território de cada um dos novos Estados.

segundo a escripturação do ex-mordomia da casa imperial. Pedro II pensionava. DE 19 DE NOVEMBRO DE 1889 Art. provinciais e municipais. tudo segundo o modelo debuxado no annexo nº 1.A Constituição de 1891 • 19 tuação astronômica. Considerando que o Sr. quanto a situação de D. lº Ficam dissolvidas e extinctas todas as assembléias provinciaes creadas pelas leis de 12 de outubro de 1832 e 12 de agosto de 1834. D. qual se debuxa no centro da bandeira. Art. Art. DE 19 DE NOVEMBRO DE 1889 Assegura a continuação do subsídio com que o ex-imperador pensionava do seu bolso a necessitados e enfermos. Considerando a inconveniência de amargurar com esses sofrimentos immerecidos a fundação da República: Art. DECRETO Nº 7. do seu bolso. pensionados pelo imperador deposto. em tempo. DECRETO Nº 6. todos os cidadãos brazileiros no gozo dos seus direitos civis e políticos. se organisará. continuarão a perceber o mesmo subsídio. Considerando que seria crueldade envolver na queda da monarchia o infortúnio de tantos desvalidos. quanto a distancia e ao tamanho relativos. representando os vinte Estados da República e o Município Neutro. a necessitados e enfermos. 1º Consideram-se eleitores. viuvas e orphãos. Art. Art. viuvas e orphãos. para as camaras geraes. que souberem ler e escrever. 2º As armas nacionais serão as que se figuram na estampa annexa nº 2. viuvas e orphãos. Pedro II cada indivíduo e a quota que lhe couber. 2º O Ministério do Interior. expedirá as instruções e organisará os regulamentos para a qualificação e o processo eleitoral. servirá de symbolo a esphera celeste. enquanto durar a respeito de cada um a indigência. uma lista discriminada. Art. 3º Para os sellos e sinetes da República.Para cumprimento desta disposição. 2. a viuvez ou a menoridade em que hoje se acharem. . tendo cm volta as palavras — República dos Estados Unidos do Brazil DECRETO Nº 5. a moléstia. DE 20 DE NOVEMBRO DE 1889 Dissolve e extingue as assembléias provinciais e fixa provisoriamente as atribuições dos governadores dos Estados. enfermos. para muitos dos quaes esse subsídio se tornara o único meio de subsistência e educação. lº Os necessitados.

Representar ao Poder Federal contra as leis. § 3º Determinar os casos e regular a forma da desapropriação da propriedade particular. que poderão ser suspensos para serem devidamente responsabilisados e punidos. § 6º Criar empregos. mas sendo esta feita em hasta publica. § 10. § 4º Fixar a despeza publica do Escaldo e crear e arrecadar os impostos para ella necessários. a catechese e civilisação dos indígenas e o estabelecimento de colonias. no actual período de reconstrução nacional. trabalho. 3º O Governo Federal Provisório reserva-se o direito de restringir. e providenciar sobre seu alistamento." . ao bem publico e a paz e direito dos povos. de acordo com o Governo Federal. Contrahir emprestimos c regular o pagamento dos respectivos juros e amortisação. correcção e regimen delias. utilidade pública do Estado. provel-os de pessoal idoneo e marcar-lhes os vencimentos. aos governadores dos mesmos Estados competem as seguintes attribuições: § 1° Estabelecer a divisão civil. Regular a administração dos bens do Estado e autorisar a venda dos que não convir conservar.20 • Aliomar Baleeiro Art. judicial e eclesiástica do respectivo Estado e ordenar a mudança de sua capital para o logar que mais convier. 2º Até a definitiva constituição dos Estados Unidos do Brazil. nos Estados em que a matéria já não esteja regulada por lei. sobre a construção de casas de prisão. a excepção dos magistrados: perpétuos. § 12. resoluções e actos dos outros Estados da União. ampliar e supprímir quaesquer das atribuições que pelo presente decreto são conferidas aos governadores provisórios de Estados. organisação e disciplina. § 2° Providenciar sobre a instrução publica e estabelecimento próprios a promovel-a em todos os seus grãs. comtanto que estes não prejudiquem as imposições geraes dos Estados Unidos do Brazil. Art. que offenderem os direitos do respectivo Estado. podendo outrossim substituí-los conforme melhor convenha. suspender e demitir os empregados publicos dos respectivos Estados. § 8º Crear a força policial indispensável e necessária. § 11. Promover a organisação da estatística do Estado. § 13. § 5º Fiscalisar o emprego das rendas públicas do Estado e a conta de sua despeza. § 7º Decretar obras publicas e prover sobre entradas e navegação no interior do Estado. sobre casas de socorros públicos e quaesquer associações políticas ou religiosas. dependente a approvação do Governo Federal. § 9º Nomear. com recurso necessário para o Governo.

Quintino de Sousa Bocaiúva (RJ. Rui Barbosa. integrada por Saldanha Marinho.A Constituição de 1891 • 21 E. juristas. e ainda Antônio Luís dos Santos Werneck. outro histórico como vice-presidente. Américo Brasileiense de Almeida Melo. foi nomeada a Comissão dos 5 para elaborar o projeto de Constituição Republicana. outro alagoano e também herói da Guerra do Paraguai. herói do Paraguai. em princípio. professor da Escola Militar (1851-1891). integravam o grupo de republicanos históricos de 1870. nº 1/1889. advogado e jornalista. Aristides Lobo. Meses depois. alagoano. na Pasta da Guerra. apaixonado e radical. na Marinha. paulista. chefe da esquadra Eduardo Wandenkolk. logo depois. positivista. 1836-1912). instituído pelo Dec. jornalista. na Agricultura. o velho estadista que servira altos cargos do Império e inscrevera-se entre os primeiros "históricos". na Pasta dos Negócios Estrangeiros. e teve como subchefe. Demétrio Ribeiro. presidente. o segundo. o último. gaúcho. na Pasta da Justiça. Ten. ex-deputado republicano no Parlamento do Império. e. Benjamin Constant Botelho de Magalhães. conciliante e hábil. Os outros membros foram Aristides da Silveira Lobo. a vice-chefia coube ao General Floriano Peixoto. Francisco Rangel Pestana e José António Pedreira de Magalhães Castro. ex-deputado. mais suave. jornalista. Saldanha (de cartola) e Zacarias Governo Provisório O Governo Provisório. tenso e voluntarioso. também Ministro da Fazenda. baiano (1849-1923). entendiam-se bem.-Cel. era chefiado pelo Marechal de Campo Manoel Deodoro da Fonseca. alagoano (1838-1896). embora de temperamentos diversos: o primeiro. positivista. finalmente. Manoel Ferraz Campos Sales (1841-1913). como Ministro do Interior. Campos Sales e Bocaiúva. .

pouco estável em face de contingências extremas. na obra da revolução. a quem nunca apraz ser achado de perfil. ninguém é mais orgulhoso.. em que há de dominar a influência de uma unidade. pela posição proeminente que ocupou na imprensa. é a força mental mais poderosa do Governo. incapaz de excessos agressivos das lutas ardentes." "Por mais que alardeie o seu desapego às posições políticas. e um espírito profundamente indefinível. porém profundamente conhecedor das ciências naturais e portador de uma sólida educação científica. uma vítima de seu orgulho. e as ciências sociais como um campo vasto em que intervêm as ciências naturais. como o espírito que semeou na força pública a idéia republicana. venceu os companheiros. ninguém tem mais consciência do próprio valor em relação ao meio em que vive e. com os contornos definidos à luz da crítica e das consequências da responsabilidade de Chefe do Partido (republicano). a quem não são desconhecidos os sistemas filosóficos dos sábios da época. bem-educado. cedo se incompatibilizaria e o combateria Bocaiúva: "espírito essencialmente diplomática. dado a estudos históricos. sua resistência à sugestão das ambições." "Espírito não tão erudito. precisam da absorção do mais forte. Bacharel fora do tipo comum. será sempre. ser o redator-chefe do jornal de mais peso político do País. Foi isto o que fez o Dr. "O Sr. absorvendo-os. durante longos anos. sua indiferença à florificação. "o espírito mais radical do Governo".. mais do que qualquer dos seus colegas e camaradas. Figura saliente. disposições mais francamente analistas. a quem não são estranhos os problemas de ciência." "Com armas tão fortes e parte integrante de um corpo coletivo. sem entretanto atrair sobre si o ódio dos áulicos e da dinastia. em que a paixão domina a calma. tem uma educação intelectual mais ou menos idêntica à dos colegas (ciências sociais com alheamento às naturais). possuindo. traçou os perfis dos homens do Governo Provisório Lobo. compreende-se o prestigio Benjamin Constant . teve a rara habilidade de. Inimigo das medidas radicais. mais aproximadas do mundo prático. dos contemporâneos. por isso mesmo. entretanto. Rui Barbosa. aproximado da verdade da doutrina daqueles que consideram o Direito como um produto de seleção. era o Dr. Para os espíritos se uniformizarem.. Benjamin Constant.22 • Aliomar Baleeiro Um bem-informado e culto observador da época. da qual foi não só a cabeça que elaborou o plano. como republicano que era". sem o querer. Rui Barbosa é o espírito verdadeiramente culto do Governo..

" "Irascível. submetia-se à convicção franca e leal da verdade e da justiça. acreditando resolver as questões de Estado como quem resolve negócios da vida interna de um batalhão. fazendo a Revolução e assegurando ao Governo Revolucionário a coesão." "Sem competência para julgar por si os problemas com que se enfrentou o Governo Provisório." Concedendo a competência técnica a Wandenkolk. a revolução não seria uma verdade a 15 de novembro. a propósito de Deodoro. História Constitucional da República dos listados Unidos do Brasil. págs.. afirma que nele "está um espírito profundamente feminil e sujeito às mil impressões da sugestão." "Toda a sua benemerência está nos serviços da sua espada. o respeito essenciais à consumação do seu trabalho criador. Rio. Sem educação de Governo. Moreira Maximino. que conviveu com os líderes do Governo Provisório. tendo ocupado posição saliente. explorando o lado fraco de sua organização. nunca esquecia sua educação militar. O juízo desse contemporâneo. vol. não obstante palavras de carinho que lhe dedicou várias vezes: Floriano Peixoto "Na carreira do Marechal Deodoro. porém. Muda de resolução com a mesma facilidade com que manobra um navio.A Constituição de 1891 • 23 que o rodeava no seio do Governo e o peso moral com que sua palavra influiu nas deliberações da ditadura. Na vida da República. sujeito às tempestades que passavam com a mesma facilidade com o que o agitavam. 1894. assim como à sugestão da amizade. encontramos. sem a sua audácia e ousadia. O seu maior título é a coragem posta em prova nos campos de batalha. incandescente. deixou-se arrastar pela influência do meio a um plano incompatível com a sua posição social". a vida gloriosa de um soldado amigo de sua pátria. entretanto. do espírito civil nenhum vestígio sério e real se encontra. Chagas e Cia. II. Seu espírito sofria mutações rápidas nas mãos do melhor artista. Sem o seu braço. a tranquilidade." E sobre Deodoro: "Se no passado do chefe do governo não se nos deparam os luminosos vestígios de um espírito adestrado nas especulações da ciência e das doutrinas filosóficas. Esses títulos ao . da Constituinte e do período posterior de Floriano (Helisbelo Freire. Tip. coincide até certo ponto com o de Rui Barbosa. mudava de opinião a capricho dos que melhor o pudessem convencer. 68 a 72). sem os hábitos que a vida governamental exige.

depois da desavença. Cesário Alvim. ao chefe do partido de Rui. na milícia das ambições. . em janeiro de 1891. foi transferido para a recém-criada Pasta da Instrução. depois dos maiores elogios ao propagandista. Crises se sucederam e." Demétrio e Lobo cedo se desligaram do Governo Provisório. honesta. ex-deputado. Deodoro queixou-se que isso não passou de pretexto. das qualidades mais indispensáveis ao exercício constitucional do poder numa República liberal. um mês antes da promulgação da Constituição de 24-2-1891. na administração do País. se voltavam para esse tipo ereto e sereno. histórico. Benjamin. que "reunia todas as condições para ter ocupado. O próprio Benjamin — dizem . todos os olhos. substituiu Demétrio. Francisco Glicério.24 • Aliomar Baleeiro nosso reconhecimento são inestimáveis. humana de uma ditadura benfazeja e necessária na transição entre os dois regimes. De cada vez que tinham de encarnar-se numa investidura. todos o evitavam. celebrizado no tempo da monarquia por um discurso violento contra Cotegipe no caso das popelines. Do meio para o fim. ao tribuno. veio fazer Francisco Glicério parte do Governo e teve papel de relevo no preparo do regulamento eleitoral que asseguraria uma Constituinte de republicanos e federalistas sem uma só voz dissonante dos vencidos em 1889. Mas. desinteressada. pertence ao seu chefe. ditadura na qual entrou com o contingente capital do seu prestígio no demento militar. ativa. rábula campineiro. todo o Governo Provisório se exonerou quando Deodoro exigia concessão do porto de Torres (RS) para um amigo dele e os Ministros a recusaram. em todos os seus grandes atos de política ou administração. sob as formas atuais um dos primeiros Lugares". mineiro. A sua figura histórica é a da encarnação inteligente." De Quintino Bocaiuva. Mas. não lhe deu a natureza nenhuma. De cada vez que elas necessitavam de um símbolo. "Contudo. tocando a Guerra a Floriano. com a sua confiança nos seus Ministros e a sua lealdade a eles na obra da primeira construção republicana.chegou a pôr a mão no cabo da espada numa discussão com Deodoro. nenhuma das iniciativas civis deste Governo. a influência de Rui Barbosa sobre Deodoro declinou. não passou da autoridade ornamental entre as instituições reinantes.

ex-magistrado. E ainda há a contar os saudosistas da Monarquia. aliás. Facções sem partidos organizados O Governo Provisório dissolveu em breve prazo as duas Casas da Assembléia Geral. não tinham organização interna. a cisão era notória entre os republicanos. havia. em 1889. o Liberal.acredita-se . o Conselho de Estado. b) os militares. como os de hoje. Não mais a dos "adesistas" e a dos "históricos". ao qual sempre servira. que vinham do Manifesto de 1870 e dos Clubes Republicanos. ex-deputado). Como já foi exposto. entretanto. ou hostilizaram a . Desapareceram os dois primeiros e famosos partidos monárquicos sem que houvesse qualquer ato expresso dos vencedores nesse sentido. como assinala Felisberto Freire. nem havia legislação que os regulassem. jamais atingira postos de maior relevo no regime anterior. todavia. encerrando as respectivas carreiras políticas. responsabilizando-a por parte das dificuldades do novo regime a esse tempo. d) os adesistas da véspera. obscuro. muitos dos quais também militares. No curso de 1890. o soldado heróico entrega-se a velhos monarquistas que aderiram na 25ª hora. c) os positivistas. o Conservador e o Republicano que. pelo menos. de Pernambuco. o Supremo Tribunal de Justiça e as Relações ou Tribunais existentes nas Províncias. que. Muitos políticos do velho regime aderiram ao novo e outros se recolheram à vida particular. chefiados por um amigo e compadre. o barão de Lucena (Henrique Pereira de Lucena. ou. 1834-1913. as Assembléias Provinciais. conservando.a restauração.A Constituição de 1891 • 25 Daí por diante. As facções se multiplicaram. que tentaram. Os republicanos anteriores a 15-11-1889 formavam contingentes de origem diversa: a) os juristas e profissionais de carreiras liberais. desejaram . três grandes partidos nacionais. pois o Judiciário se mostrou dócil e adesista.

Américo Brasileiense (1833-1896). "Dos jornais. sem outro objetivo senão a derrubada e a conquista dos cargos de Governador com o placet do Presidente da República e até sem ele. Ainda alimentaram esperanças de restauração pelo menos até o fim do Governo do Presidente Prudente de Morais. À exceção destes últimos. consta que J. os demais disputaram as eleições e em maior ou menor proporção ganharam cadeiras de senadores e deputados na Constituinte de 1890-1891. deputado à Constituinte pela Bahia) faz franca oposição à atualidade e tem muita gente que o acompanha. depois de Brasileiense ter ocupado por algum tempo o Governo de São Paulo. ao Constituinte e "histórico" Ubaldino Amaral (SC. que "a situação republicana está perdida e que a restauração monárquica está à parte." "Estão os republicanos do Governo batidos pelos de 15 de novembro e também pelos antigos correligionários?" Missivista e destinatário acabariam como juízes do Supremo Tribunal Federal. diz ter ouvido de Júlio Mesquita. Concordes em relação à República todos e em relação ao federalismo quase todos. Paulo.. tendo militares por sustentáculos". presidente da Comissão elaboradora do projeto constitucional. depois da censura e da repressão. logo em dezembro de 1889. Semeão (o Marechal e Senador) está de entente com o Pelotas (Visconde de — e Marechal. A inexistência de novos Partidos — fato que se prolongou até 1946 — favorecia a gênese dessas facções na Capital e doutras de caráter regional nos Estados. A corrente restauradora não pôde ser posta em dúvida pela correspondência de alguns elementos de prol e pelos fatos da revolução de 1893. Nessa fase inicial e breve da República. outro "histórico". quando os exilados se manifestaram na Europa e constituíram-se os "cortesãos da desgraça". dividiam-se em relação à extensão deste e em vários temas outros. e que o Custódio (de Melo.26 • Aliomar Baleeiro República na imprensa interna e. todos os Estados tiveram sucessivamente dois e três governadores. 1842-1920). chefe político do Rio Grande do Sul) e outros antigos monarquistas do Sul. de O Estado de S. na estrangeira. contra-almirante.. Numa carta dirigida em 12-2-1891. As próprias facções locais .

quando não era obra do Governo Federal a queda dos governantes locais. as práticas constitucionais e políticas desceram de nível a partir da República. no meado de 1890. a despeito de algumas tentativas. quando Cesário Alvim. Sob esse ponto de vista. quase sempre à sombra do Governo Federal por meio de ação nanu militari. os . não só prejudicou a coordenação e orientação da política. mas é responsável pelos Partidos estaduais indiferentes aos problemas do País e apenas embrenhados na disputa do mando local. Campos Tobias Monteiro. Oposição a Deodoro A inépcia política de Deodoro. se recusou a expedir o decreto assegurando enorme garantia de juros à empresa contratante do saneamento do Rio. Muitos desconfiavam dele e de suas intenções. a despeito de seu valor pessoal como soldado. Embora se lhe devesse a vitória e a sobrevivência da Revolução de 1889. Estes. segundo os grandes ideais e interesses da Nação. e de sua probidade inatacável. que se propagaram à Constituinte. como lhe exigira Deodoro. inclusive os membros do próprio Governo Provisório. conta que. é fato em que são acordes os historiadores e comentadores da política republicana. para pôr termo à ditadura. Ministro do Interior. Esse desaparecimento dos velhos partidos sem que outros se formassem. trataram de abreviar a elaboração da Constituição republicana.AConstituiçãode1891 • 27 os depunham por motins adrede preparados ou pela ação dos Comandantes das Armas. logo no ano imediato conseguira provocar vários focos de oposição. que secretariou Rui. temerosos dos atos do arbítrio e de desatino administrativo do Marechal. se comparadas com as do Império depois de 1840. replicando a um artigo anônimo de Campos Sales em outubro de 1894. como o bombardeio da Bahia em 1912.

poderá receber dos seus melhores amigos. a fim de impedi-lo de eleger Prudente de Morais para Presidente da República e forçar os deputados e senadores a sufragá-lo. Deodoro procurou intimidar o Congresso Constituinte. E. uma Constituição irrepreensível. transpira a preocupação de fazer votar imediatamente o projeto constitucional "que deve ser a primeira e a mais séria aspiração de todos os republicanos.. humana nas suas contradições inevitáveis. idealmente ilibada. sólida e praticável. incompatíveis com a mesma. E os receios não eram infundados. O interesse supremo da pátria.cujos conselhos cedo o levariam ao golpe de Estado e à deposição. política nos seus próprios defeitos. após lucubrações prolongadas e desanimadoras. de Rui. virginalmente pura. O Marechal imediatamente os substituiu por monarquistas obscuros que só aderiram depois do fato consumado de 15 de novembro..págs. e concilie todas as divergências. ao País uma Constituição sensata. dando causa ao pedido de exoneração dos Ministros republicanos do Governo em janeiro de 1891.28 • Aliomar Baleeiro membros do Governo Provisório secretamente se acordaram em precipitar o preparo do projeto constitucional. vol. Nossa primeira ambição deve consistir entrar já na legalidade definitiva. tendo como chefe do Grupo seu compadre — o Barão de Lucena . "Contribuir para a celeridade destes debates é prestar à Nação o serviço mais útil. tanto mais quanto o velho guerreiro pretendia impor certas idéias à Constituição. 371-5). XVII." (Nas Obras Completas. Deodoro continuou a insistir noutros projetos onerosos e temerários como o do Porto de Torres. não está em conquistar. Prudente de Morais . de todos os patriotas". dos seus servidores mais esclarecidos. evolutiva nas suas insuficiências naturais. sem nos deixarmos transviar. não está em colher nas malhas da lógica. tomo I. por último. que ela. na conjuntura atual. da eloqüência e do engenho essa fênix das Constituições. mas em dar. agora. que sorria a todas as escolas. imediatamente. Nas entrelinhas de certos trechos do alentado discurso de Rui no Congresso Constituinte em 16-11-1890. como aconteceu com muitos votos contrários.

Rui debatia com os outros Ministros. imprimindo-lhe redação castiça. Rui poliu o projeto. nem outras seriam adequadas desde que a quase totalidade dos republicanos desejava uma república presidencial federalista. exceto os positivistas desejosos da "ditadura científica" com preponderância absoluta do Executivo sobre o Legislativo. recursos extraordinários no STF e vários outros. artigo por artigo. e todos eles à noite. disposições incompatíveis com o Presidencialismo federativo do figurino norte-americano ou da cópia argentina de 1853.A Constituição de 1891 • 29 Os projetos No seio da Comissão dos cinco ou dos "históricos". obra de Alberdi. da Argentina e da Suíça. com os resultantes da construction da Corte Suprema em matéria de imunidade recíproca (Maryland versus Mae Callado. Homero Pires e Pedro Calmon investigaram o assunto nos exemplares de projeto dos cinco emendados do punho de Rui. além de ter melhorado a substância com os acréscimos de princípios da Constituição viva dos EUA. de 1819) de liberdade do comércio interestadual (Brown versus Maryland). Este queria unidade da magistratura. que foram comprimidos num só. enfim. Não se pode subestimar a mão-de-obra do brasileiro genial ao aprimoramento da primeira Constituição Republicana (fac simile do pro- . submetiam o trabalho vespertino à férula do Marechal. mas Tobias Monteiro. apareceram 3 projetos. Felisberto Freire. sóbria e elegante. Campos Sales e outros contestaram a importância da colaboração de Rui ao Projeto. Inspirava-se nas disposições expressas das Constituições dos EUA. confrontando-os com o texto afinal aprovado. à tarde. remetido em junho ao Governo Provisório. em sua casa. poder de o Presidente da República dissolver o Congresso. O projeto do Governo Provisório De 10 a 18 de junho de 1890.

engenheiros civis e militares. a despeito da composição heterogênea daquela Assembléia. 1895. Era unânime a Casa em relação ao objetivo principal. durante os quais discutiu. pois. médicos diplomados na Bahia e no Rio. oficiais do Exército e da Marinha. dos 205 deputados (havia ainda 63 senadores). predominando maciçamente as presidencialistas do tipo norte-americano. não podia deixar de ser por sua vez objeto de prescrições constitucionais. homens de profissões liberais e classes médias: juristas formados em São Paulo e Pernambuco. o Congresso Constituinte funcionou ininterruptamente no antigo Palácio Imperial (Quinta da Boa Vista) depois de sessões preparatórias no edifício onde existe. composta de muitos republicanos históricos e dos propagandistas do novo regime nos últimos 18 anos até 1889. vol. jornalistas e homens de letras. com prefácio de Pedro Calmon. artigo por artigo. muitos juristas liberais e vários jovens inexperientes. já transplantado para a Argentina. quando foi promulgada a primeira Constituição republicana. adesistas. portanto. Registrado que..30 * Aliomar Baleeiro jeto emendado pela mão de Rui está nas Obras Completas. observou Felisberto Freire. Instalado a 15-11-1890. 3º. como na Constituinte de 1824. a consolidação da República federativa e federal. Vários eram funcionários públicos. A estrutura desse anteprojeto foi preservada em sua essência e até em grande parte de sua redação. VI-VII: "Como classe armada. O direito público havia de prescrever preceitos que as afetassem e então é bem visível a falta de liberdade de que se ressentiram todas as discussões que afetaram a classe. o projeto que Rui Barbosa revira e acrescentara. 46 eram militares. tomo I. cit. vol. muitos militares. pág. alguns dos quais provindos da monarquia. Tinham experiência parlamentar apenas os que haviam feito suas primeiras armas na Câmara do Império. o Automóvel Club. por parte do elemen- . Três meses. hoje. em geral. XVII (1890). Eram eles. lúcido participante daquela Assembléia como deputado por Sergipe e governador deposto ou renunciatário no início do governo Provisório em sua Matéria Constitucional do Brasil. até 24-2-1891.

A deslocação das duas classes . após a proclamação da República. embora o oficial do Exército Tasso Fragoso. ligado às origens militares do golpe de 15 de novembro de 1889. logo nos primeiros dias da República. tendia a instilar no regime brasileiro germes do militarismo das repúblicas hispano-americanas da vizinhança no continente. da obrigatoriedade do serviço militar e muitos outros assuntos. de patente superior do Exército. o dos Estados Unidos.. um orador. da composição do Exército e da Armada pelo voluntariado sem prêmio e na falta pelo sorteio. que bem se pôde definir pelo predomínio da classe militar sobre qualquer outra. desde o primeiro dia. no sentido de que "a nova filosofia" tinha como "objetivo imediato" o de "incorporar o proletariado à sociedade moderna. as questões de que as forças de mar e terra são instituições nacionais permanentes. Ministro do Governo Provisório. Além dos pronunciamentos de Demétrio Ribeiro. Nenhum assunto que de perto afetasse questões militares foi francamente debatido na tribuna.a jurística e a militar. houvesse discursado. tachou essa emenda de acinte ao Exército. baixando consideravelmente a cotação política do jurista. da prerrogativa do direito de votar e ser votado. dentro dos limites da lei. os "cadetes filósofos".". O Apostolado Positivista e a Constituição Como vimos. Ela veio como uma consequência inevitável da situação política. Os assalariados do comércio e os operários ou artesãos praticamente não tiveram voz na Constituinte. Não é que os que nele tiveram assento impusessem essa restrição à liberdade de discussão. os positivistas que tinham infiltrações nos círculos de jovens militares.. a mais simples polêmica.A Constituição de 1891 • 31 to civil do Congresso. por proposta dos governadores dos Estados. Não. E porque um deputado propôs cm emenda que os comandantes dos distritos militares pudessem ser removidos pelo Governo Federal. Assim. ainda que a votação de uma ou outra emenda viesse atestar a existência de opiniões contrárias. afastando do modelo desejado. e de alguns oficiais do Exército e da Marinha nos postos iniciais da . de que elas são essencialmente obedientes. procuraram implantar no País a "ditadura científica" das idéias filosóficas e políticas de Augusto Comte. não despertaram o menor debate. em tom positivista." Esse aspecto. da criação de um foro privilegiado. E isto constitui um dos fatos mais expressivos da vida do governo republicano.

O capitão-tenente Nelson de Vasconcelos e Almeida. cujas esperanças residiam no positivismo de Benjamin Constant. além de Benjamin. nos primeiros dias da República. pelos cadetes filósoficos representados na manifestação a Demétrio. Esses discursos foram publicados no Diário Oficial e refletem o estado de espírito do grupo. constantemente fiscalizado pela opinião. e Tasso Fragoso. mantendo-se fiel à diretriz do chefe do Positivismo ortodoxo na França. que seja temporal e não espiritual. que. completavam os ensinamentos científicos de seu mestre Benjamin Constant com a pregação política de Miguel Lemos e Teixeira Mendes?" É que havia diretrizes e correntes nitidamente diferenciadas no Positivismo brasileiro. casando o seu propósito de um "regime da mais completa liberdade espiritual" com "um governo ditatorial e não despótico. o provecto historiador do positivismo no Brasil: "Diante de tão calorosas declarações no sentido da ditadura republicana. Pierre Laffitte. a maior parte dos quais nem sempre assimilara bem as idéias de Augusto Comte. os militares fizeram profissão de fé comtiana e ditatorial. continuou a .. feliz e próspera. convencionada e tenazmente o Apostolado Positivista. como acabamos de ver. por isso. em 11-12-89. Em manifestação a Demétrio Ribeiro. Mas. sob a presidência de Benjamin Constant. provocando-a mesmo a manifestar-se sobre todos os seus atos". como assinala Ivan Lins. com sede no Rio e influências fortes no Rio Grande do Sul. pela posse no Governo Provisório. os quais. batia-se. futuro deputado constituinte. se os republicanos se dividiam em vários grupos discordantes acerca da natureza da nova república. por Nelson Vasconcellos. a influência positivista. como se explica que.32 • Aliomar Baleeiro carreira. é necessário que o Governo seja ditatorial e não parlamentar. " O homenageado Demétrio agradeceu. De Miguel Lemos e Teixeira Mendes e de sua interpretação e maneira de aplicar os ensinos de Comte se afastara Benjamin Constant desde 1882. não haja sido então implantada essa forma de governo vivamente aconselhada pelo Apostolado Positivista e pleiteada. havendo sido tão grande. declarou com toda a franqueza: "Para termos uma República estável. mais tarde deputado à Constituinte. também se dividiam entre si os positivistas.. como seus colegas.

"Além do mais. que delas fez aos acontecimentos de seu tempo. mais ou menos precisas e passageiras. vertida para o vernáculo. ter-lhe-ia sido impossível impor a sua vontade a esse respeito. embora diverso sob muitos aspectos. cometidos a esse propósito resultam de que não se separaram suficientemente as concepções fundamentais de Augusto Comte das aplicações. ou algumas aplicações que repetem indefinidamente e pode mesmo dizer-se quase maquinalmente. Benjamin Constant "Paris. graças à luta que. da completa liberdade de discussão e de exposição. Transcrevo aqui. proclama freqüentemente a necessidade do regime ditatorial. Pierre Laffitte influiu decisivamente sobre Benjamin Constant no sentido de ser afastada da nossa República a ditadura republicana. a correspondência de Laffitte com Benjamin Constant a esse respeito: "Ao Sr. o que não se deu. Mas as aplicações que delas fez e a concepção que sempre estabeleceu da necessidade. adquirimos uma experiência de que não dispunha Augusto . faziam sérias restrições à orientação de Miguel Lemos e Teixeira Mendes. É esta uma tarefa muito fácil e que deviam tentar aqueles que. O erro procede também de se dar a algumas expressões de Augusto Comte o sentido corrente e vulgar. Se o tivesse querido. na ditadura. os erros. assim. com efeito. quase inevitáveis. também. Augusto Comte não haveria de querer instituir uma doutrina para homens sem cérebro e não poderia crer que nos pudesse dispensar para sempre de toda reflexão pessoal. os quais. e crendo mesmo sê-lo. Deve-se reconhecer. desde 1870. juntam uma capacidade muito pequena. enquanto ele próprio lhes atribui um sentido filosófico análogo. a uma grande validade. Aplicam-se estas reflexões sobretudo aos abusos que vários positivistas têm feito da palavra ditadura de que tanto se tem falado. divergindo ainda de Miguel Lemos e Teixeira Mendes noutro ponto importante ao achar que a Constituição devia emanar de uma Constituinte. sustentamos em França para o estabelecimento de uma República ao mesmo tempo orgânica e progressista. mas. arrogando-se o título de positivistas. o que entende ele por esse regime? É preciso reconhecer que suas vistas talvez careçam de precisão. impugnando. p e r m i t e m m e l h o r precisar a teo- ria de Comte e despreendê-la do caráter por demais absoluto que lhe tem sido atribuído. 1º de Arquimedes 102 (26 de março de 1890) "Senhor. distanciados do Apostolado. "Augusto Comte. não tiram de Augusto Comte senão algumas fórmulas. empregando-a até contra o próprio positivismo. que pode recusar o Orçamento. que o público tem sido enganado pelos exageros de algumas pessoas que. a tese do apostolado Constituição sem Constituinte. e da fiscalização de uma Assembléia financeira eleita.A Constituição de 1891 * 33 contar no Brasil muitos aderentes. Mas.

Dividia-se em cinco Títulos. creio. a preponderância do Governo sobre as Assembléias. mas nunca passou pela cabeça dos sábios homens de Estado da Inglaterra quererem dispensar-se da orientação política de um chefe único e confiar a direção dos negócios a uma Assembléia sem responsabilidade. desde Roberto Walpole até os nossos dias. essa experiência pode conduzir-nos a observações históricas que lhe faltaram. mas apresentam alguma coisa de que se possam assustar os partidários sinceros de uma liberdade real? Ademais. e a Luís Felipe "o mais imperfeito". Por conseguinte. Tal a verdadeira concepção da ditadura. a palavra ditadura designa. por isso. No fundo. William Pitt presidiu também. a seu ver. cuja incoerência não pode cessar senão pela subordinação a um ministério firme e dirigido por um chefe. durante 21 anos. a Inglaterra foi durante esse período governada por uma série de ditadores. a Inglaterra. e foi por isto que o parlamentarismo pôde fazer na Inglaterra coisas tão grandes e colocou tão alto esse grande país. e. preponderância que se caracteriza sobretudo pela iniciativa. caracteriza-se como a mais concisa das seis Constituições da República. um pensamento característico vai esclarecer o meu pensamento. porquanto o Parlamento sofria sempre a direção do primeiro-ministro e a recebe ainda até que o ditador provisório não se encontre mais de acordo com a opinião pública.34 • Aliomar Baleeiro Comte. e. . em segundo lugar. pode-se discutir sobre estas idéias e combatê-las. Roberto Walpole governou. dessa ação diretora governamental. enfim. numa única pessoa. subdivididos em Seções e estas em Capítulos. porquanto chama a Luís XVIII "o melhor dos ditadores surgidos em França desde Danton". "A Inglaterra realizou esse regime. De certo." I I –A CONSTITUIÇÃO "LITERÁRIA" DE 1891 Linhas gerais A Constituição de 24 de fevereiro de 1891 era vazada em 91 artigos e mais oito das Disposições Transitórias e. durante um grande número de anos a seus destinos. sem quebra do respeito do que devemos ao grande gênio do Mestre. pela concentração. "Em primeiro lugar. Augusto Comte não atribui de modo algum à palavra ditadura o sentido de poder pessoal absoluto que lhe querem conferir.

O Título IV tratava "dos cidadãos brasileiros". o ânimo de conservar a nacionalidade de origem. Não se fala em Territórios nacionais. proibição de guerra de conquista.400km2 no planalto central para a futura capital. Regula o estado de sítio. sob regime representativo e presidencial. isto é. Nesse Título I. todavia. que. se achando no Brasil a 15-11-1889. o Fundador da República". O Poder Legislativo O Poder Legislativo era exercido pelo Congresso com a sanção do Presidente da República. colocando-se nela "uma lápide em homenagem ao grande Patriota. O art. serviço militar obrigatório e organização do Exército e da Armada. dentro de 6 meses após a Constituição. modo de reforma da Constituição. isto é. está a Declaração de Direitos assegurados pela Constituição aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País. Nas Disposições Transitórias. estruturando a forma de governo. tratava da "Organização Federal". como nos EUA. foi admitido o veto parcial.A Constituição de 1891 • 35 O Título I. permitia intervenção federal nos Estados e estabelecia os princípios constitucionais que estes deveriam respeitar para não sofrerem aquela medida extrema. integrada pelas antigas Províncias erigidas em Estados e pelo Distrito Federal (Rio. dizendo quais os que gozavam dos respectivos direitos e incluía a "grande naturalização". dos mais discutidos no regime dessa Constituição. O Título II era reservado aos Estados-Membros. responsabilidade dos funcionários. O Título III regulava os Municípios num artigo único e breve. não se falando em direitos ou garantias a estes. concessão de uma pensão vitalícia a D. Reservava-se logo uma zona de 14. instituição de um Tribunal de Contas. o antigo "Município Neutro"). a de todos os estrangeiros que. especificando as restrições que comporta nas medidas de repressão. regulavam-se os Três Poderes nacionais. segundo a clássica divisão de Montesquieu. não declarassem. Só depois de 1926. O Título V cuida das Disposições Gerais e é acompanhado das Transitórias. o 68. poderia vetar projetos de lei. determinava-se a eleição do lº Presidente e do lº Vice-Presidente pelo Congresso. cabendo o usufruto desse imóvel à viúva daquele estadista. A . Nesse Título IV. o mais longo. 69. a República Federativa. mas só no todo. Pedro II. compra da casa em que faleceu Benjamin Constant.

Substituía o Presidente nos impedimentos e sucedê-lo-ia no de feita o Vice-Presidente. Chefiava Exército. Diferentemente do Pre- . Os deputados eleitos diretamente na proporção de um para 70. prestava contas anualmente. nomeava funcionários. Declarava-se que o Executivo seria exercido pelo Presidente da República.000 habitantes e os senadores. A eleição de ambos era direta e por maioria absoluta. Uns e outros eram invioláveis por suas palavras e opiniões no exercício do mandato e gozavam de imunidade. renovando-se pelo terço em cada triênio. entre a Constituição escrita de 1891 e a Constituição viva de 1824. Deodoro renunciou no lº ano e Floriano não mandou preceder à nova eleição. 41). Se a vaga por morte ou outra causa do Presidente ocorresse nos dois primeiros anos do quatriênio.36 • Aliomar Baleeiro legislatura era de três anos. concedia anistia e legislava sobre todas as matérias de competência da União. o que representou um golpe de Estado e provocou revolta da Armada e turbulência no País. O naturalizado podia ser eleito depois de quatro anos para deputado e de seis para senador. que se increpava a este. não podendo ser presos nem processados sem licença da Câmara. Presidente e Vice deveriam contar mais de 35 anos. O Presidente nomeava e demitia livremente os Ministros de Estado — o que caracterizava o presidencialismo norte-americano e contrastava com as práticas gerais do reinado de Pedro II. "como chefe eletivo da Nação" (art. regulava o comércio exterior e interno. salvo flagrante. decorridos dois anos. declarava guerra e fazia a paz. declarava o estado de sítio. para o qual fora eleito. nem era obrigado a escolher Ministros de confiança desta ou exonerá-los se perdessem essa confiança: diferença fundamental. autorizava empréstimos. ser brasileiros natos e estar no exercício dos direitos políticos. far-se-ia nova eleição. eram eleitos por 9 anos. ressalvado o "poder pessoal". resolvia sobre tratados com nações estrangeiras. sucedia o Vice. três para cada Estado. Estabeleceu-se o regime presidencialista de tipo norte -americano e. que tinha a incumbência de presidir o Senado. O Congresso votava o Orçamento anual. em conseqüencia o Poder Executivo não podia dissolver a Câmara dos Deputados. a guerra e a paz. Armada como comandante supremo. Mas. fixava as forças de terra e mar.

o processo e julgamento caberiam ao Supremo Tribunal. em função da revolta da Armada. Nos crimes comuns. seriam julgados pelo Senado.A Constituição de 1891 * 37 sidente do Conselho de Ministros do Império. de 8 de janeiro de 1892. não poderia ser destituído. ao lado da Estadual e também o Supremo Tribunal Federal. Os crimes de responsabilidade seriam regulados em lei logo na 1ª Sessão Legislativa. depois de declarada procedente a acusação. fez a Câmara. O impeachment foi regulado à maneira da Constituição norte-americana. com este. Deste e dos Juizes Federais - . A lei dos crimes de responsabilidade foi aprovada pelo Congresso em 1891 e o Decreto nº 30. O Deputado. mas afirma-se que Deodoro desconfiou de que isso fora tramado para condená-lo e isso o teria levado ao golpe fatal de dissolução do Congresso em novembro de 1891. foi sancionado por Floriano Peixoto logo depois de restaurado o Congresso. que aceitasse um Ministério. caso em que. mas respondia pelos crimes qualificados em lei. caso em que ficaria desde logo suspenso de suas funções. salvo nos crimes de responsabilidade conexos com os do Presidente. O mesmo ocorria com seus Ministros de Estado. diversamente do Império. Este julgaria também. instituindo a Justiça Federal. perderia o mandato. ou Senador. o Ministro do Supremo Tribunal. depois de declarada procedente a acusação pela Câmara dos Deputados. após a renúncia de Deodoro. O Ministro não era responsável pelos conselhos dados ao Presidente. Assim. Os Ministros. Mas. comunicando-se com este por escrito. que eram responsáveis exclusivamente para com ele e não para com a Câmara: outro contraste com o Império. nos crimes comuns e nos de responsabilidade. nos crimes de responsabilidade. Os Ministros. salvo impeachment. A dualidade da Justiça A Constituição de 1891 consagrou os dois decretos de Campos Sales no Governo Provisório. poderiam conferenciar pessoalmente com as Comissões Parlamentares. O Presidente seria processado e julgado pelo Senado. seriam processados e julgados pelo Supremo. não poderiam comparecer às sessões do Congresso. nos crimes de responsabilidade. comandada por Custódio de Melo como reação ao golpe de novembro de 1891.

Havia garantia constitucional da vitaliciedade.38 • Aliomar Baleeiro ditos "seccionais" . as de Direito Marítimo. embora a lei pudesse criar outros Tribunais da União. ela não os criou. o Executivo podia fazer por ato do Imperador. Estes deviam ser nomeados pelo Presidente da República dentre cidadãos de "notável saber e reputação. dizer que a lei era . ou de um destes contra outro. Mas. as de interesse da União. competia-lhe a revisão criminal. e alguns a exerceram. as causas julgadas pelos juizes e tribunais federais. Mas o Senado assentou que só juristas poderiam ser Ministros do STF. no Império. Como o texto não dizia que o "saber" deveria ser especificamente "jurídico". Os Juízes e Tribunais Federais julgariam as causas fundadas na Constituição. elegíveis para o Senado" (isto é. causas entre União e Estados. E. os presidentes dos Tribunais eram eleitos por seus pares e o Procurador-Geral da República seria designado pelo Presidente da República entre os Ministros do Supremo. isto é.se compunha a Justiça Federal. Diferentemente da Constituição dos Estados Unidos. Em grau de recurso. chegou a exercer o cargo. Floriano nomeou para o STF um general e um médico. Nenhuma disposição proibia a atividade político-partidária dos juizes. as nações estrangeiras e a União ou Estado. e irredutibilidade de vencimentos. os dos Ministros diplomáticos. as de estrangeiro fundadas em contrato com a União ou em tratados internacionais. em recurso extraordinário. E os juízes e Tribunais poderiam declarar a inconstitucionalidade de leis e decretos. Este. mas só em caso concreto. causas entre um Estado e cidadão de outro. os crimes políticos e os contra a União (moeda falsa. O Supremo julgaria originariamente os crimes comuns do Presidente e de quaisquer dos Ministros. as decisões dos Tribunais e juízes dos Estados quando se discutisse vigência e validade de leis federais negadas pela Justiça Estadual: divergência de interpretação entre Tribunais Estaduais. contrabando etc. questões de Direito Criminal ou Civil Internacional.). maiores de 35 anos). salvo sentença condenatória. Foi abolida a suspensão de juízes que. conflitos entre juizes federais ou entre estes e os estaduais. Barata Ribeiro.

isto é. Estados e Municípios podiam cobrar taxas (tributos como contraprestação de serviços específicos prestados ao contribuinte) e as rendas de seus bens e serviços não coativos (rendas industriais e comerciais). contanto que não prejudicassem os "gerais". telégrafo. Entre os impostos de transmissão de propriedade compreendia-se o causa mortis (sobre heranças e legados) que os Estados arrecadavam. A CF de 1891 discriminou os impostos federais e estaduais pelo nomen iuris e declarou que quaisquer outros impostos não discriminados no texto seriam de competência concorrente.A Constituição de 1891 • 39 inaplicável naquela causa por ser contrária à Constituição. sobre indústrias e profissões. Os Estados deixaram para os Municípios o imposto predial urbano (casas e terrenos) e permitiam que eles arrecadassem cumulativamente o de indústrias e profissões. determinando-se que estes escolheriam alguns de seus impostos para os Municípios (só pela CF de 1934. como pode fazer hoje. e pelos Estados. os contribuintes pagavam esse imposto ao Estado e aos Municípios. taxas de correio. Aos Estados. poderiam ser decretados cumulativamente em via ordinária. mas a União sucessivamente criou o imposto de consumo (aliás. União. impostos de exportação de seus produtos. estes passaram a ter expressamente impostos exclusivos). A Justiça não revogava a lei inconstitucional nem a declarava tal em tese erga omnes. Estes cobravam as taxas de seus serviços (luz. selos sobre os atos de seu governo e negócios de sua economia. pela União. direitos de entrada e saída de navios. os sobre imóveis rurais e urbanos. isto é. o de renda. sobre transmissão de propriedade (sisa sobre bens de raiz). Competiam exclusivamente à União impostos de importação. e o de vendas mercantis. lixo etc. taxas sobre seus correios e telégrafos. Qualquer outra pessoa na mesma situação teria que propor ação para o mesmo fim. exclusivamente. Discriminação das rendas Grande inovação foi uma expressa divisão dos tributos entre a União e os Estados. os nacionais. Estes foram de pouca iniciativa.) O Ato Adicional de 1834 havia introduzido a competência de as Províncias decretarem seus impostos. . ampliou o já existente a várias mercadorias). Isto é. selos.

Uma lei de 1904 pôs cobro a esse abuso. que adotou uma Constituição de inspiração positivista. Os Estados não podiam recusar fé a documento da União ou de outros Estados. pelo art. 6º.40 • Aliomar Baleeiro Os Estados. o Rio Grande do Sul. II (forma republicana e representativa. . inamovibilidade e vitaliciedade dos juízes e irredutibilidade dos vencimentos deles. denegar extradição. Cada Estado se regeria pela Constituição e leis que adotasse. as minas e terras devolutas de seu território. 64. isto é. reelegeu Borges de Medeiros durante 20 anos. temporariedade de funções eletivas. capacidade de ser eleitor ou elegível da Constituição. regime eleitoral com garantia das minorias. Estes estavam arrolados nos doze incisos do art. Todavia. possibilidade de o Legislativo reformar a Constituição Estadual). havia apenas o art. "respeitados os princípios constitucionais da União". 68 que mandava ao Estado assegurar aos Municípios a autonomia em tudo quanto respeitasse ao seu "peculiar interesse". intervenção etc. autonomia dos Municípios. debates na Câmara etc. presidencialismo. Os Estados receberam. A violação desses princípios era um dos casos de intervenção federal nos Estados. guerrear entre si. insistiam em exigir impostos interestaduais. Até hoje as terras devolutas (exceto as situadas numa faixa de 150km ao longo das fronteiras com o estrangeiro e as necessárias às estradas de ferro e fortificações) são estaduais. responsabilidade dos funcionários. polemicamente: Rui e Amaro Cavalcanti. direitos políticos e individuais da Constituição a todos. Municípios Exceto a disposição sobre rendas que lhe deviam ser atribuídas e tiradas dos impostos estaduais. não reeleição dos Presidentes e Governadores. com as antigas Províncias. rejeitar a moeda federal. pela importação ou pela exportação para outros Estados. Estados: competência. independência e harmonia dos Poderes. para seu patrimônio. Desde os primeiros anos após a vigência houve clamar contra isso.

pelo Príncipe Regente. como nos Estados Unidos. 77. no art. O Rio Grande do Sul tolerou que cada Município instituísse sua própria carta. por exemplo. 1937. como órgão administrativo com funções jurisdicionais. inclusive Rui. anterior à criação das Províncias. 1967 e na Emenda nº 1/1969. e assim mesmo em poucos pontos. segundo sugestões de Rui Barbosa provendo a essa lacuna de regime monárquico. Mas a Constituição de 1891 regulou-o fora do Capítulo do Judiciário. veio a ser emendada somente em 1926. a Constituição de 1891 determinava. nem muito menores dos que figuraram nas Constituições de 1934. como se. o futuro D. Superior Tribunal Militar Além de instituir um Tribunal de Contas. foro esse composto de um Supremo Tribunal Militar. pondo-o entre as Disposições Gerais. Declaração de Direitos O art. embora fosse atacada desde quase a sua vigência pelos revisionistas. que os militares de terra e mar teriam foro especial nos delitos militares. . ou se era apenas uma projeção dos Estados. no Título "Da Declaração de Direitos". Conservava-se assim um Tribunal Militar fundado em 1808. o Estado podia estabelecer a nomeação dos Intendentes ou Prefeitos. aplicável a todos. para garantia aos militares.A Constituição de 1891 • 41 Esse dispositivo vago trouxe muitas discussões. 1946. João VI. A Constituição de 1891. 72 trazia um longo e solene rol dos direitos e garantias assegurados aos brasileiros e estrangeiros residentes no País — não muito diversos dos que estavam inscritos na Carta de 1824. e Conselhos de Justiça. cujos membros seriam vitalícios. Debateu-se muito (Castro Nunes e outros) se o Município brasileiro continuava a tradição colonial e ibérica. Em geral. a Constituição de cada Estado determinou que os Municípios seriam regulados por uma "lei orgânica".

Vereador. depois da Independência. o militarismo das repúblicas hispano-americanas — fonte e base do caudilhismo típico de todas elas — teve surtos esporádicos no reinado de Pedro I que. dorme o sono da indiferença. em geral. tinham Deputados e Senadores estaduais. Os Estados.42 • Aliomar Baleeiro A Constituição de 1891 não obrigava os Estados à uniformidade de denominações dos cargos do Executivo ou das Câmaras Municipais. tinha o título de Intendente.EVOLUÇÃO POLÍTICO-CONSTITUCIONAL DO BRASIL O militarismo na 1ª República No período monárquico. Prefeito era Intendente ou Superintendente. . nosso Senhor e amo. "El Rei. às vezes. Um Estado dava o nome de Governador e outro o de Presidente ao Chefe do Executivo. pela adoção do sistema bicameral de suas Assembléias Legislativas." Angelo Agostini Revista Ilustrada (1887) III . Os jornais que diariamente trazem os desmandos desta situação parecem produzir em Sua Majestade o efeito de um narcótico.

de permanecerem no serviço militar do Brasil. tornaram-se incômodos e turbulentos. exilou deputados e reprimiu brutalmente a revolução que os pernambucanos em 1824 opuseram ao imperial golpe de Estado do ano anterior. no Império. no Rio. na possibilidade de interferir nos destinos do País. Vestia-se de civil e. havia apenas 47 brasileiros. a 7 de abril de 1831. recém-publicada: a maioria dos oficiais era estrangeira. conta que em festas de quartel. na Bahia. Otávio Tarquínio de Sousa. dissolveu a Constituinte de 1823. no Rio). Logo que. cem deles foram mortos e feridos em combates de rua. Francisco de Lima e Silva. o Imperador garantiu lugar no Exército brasileiro aos que quisessem ficar. apoiando-se na Guarda Nacional. A Regência. quando envergava uniforme. Mas esses mercenários. procurou cercar-se de oficiais da tropa de linha. conseqüentemente. Para 98 oficiais portugueses. participou da Regência Trina. Apoiado nesses militares. que lhe fez ministrar a Regência. até certo ponto justificáveis pela Guerra da Cisplatina. gradualmente reduziu a tropa de linha em número e. fato esse gerador de desgosto entre os patriotas desconfiados das preferências lusófilas do trono. . historiador especializado nesse período e biógrafo de Pedro I. atitude verberada por seu confessor e conselheiro íntimo Frei Arrábida. Fez vir mercenários irlandeses e alemães e até pensou em utilizá-los para restringir as liberdades pleiteadas pelos brasileiros. a tropa aderiu ao movimento e o monarca teimoso e imprudente acabou sem dispor sequer de sua própria guarda no palácio de São Cristóvão. até que se revoltaram. eram filiados aos dois grandes Partidos e dentro deles procediam como políticos civis. a duras penas. ele dançava de par com os oficiais. e numa reação dos brasileiros. Quando. sem damas. os portugueses foram batidos em 2-7-1823 e embarcados a pulso de volta à ex-metrópole. o povo do Rio rebelou-se contra o primeiro Imperador no Campo de Sant' Ana (atual Praça da República. preferia o de Almirante. afinal. Pedro II não tinha o gosto do aparato militar pela própria educação humanística. os militares de prol. milícia de civis. pai do futuro Duque de Caxias. sobretudo os portugueses de nascimento. José Honório Rodrigues expõe isso na Constituinte de 1823. Por outro lado.A Constituição de 1891 • 43 logo depois de afastar os Andradas.

É certo que não foi estranho à conspiração de que resultou o 7 de abril de 1831. como acontecera a antepassados da dinastia dos Braganças. se tinha raízes civis desde 1870. Todavia. perdendo a Batalha de Itazaigó (Passo do Rosário). constituinte de 1823. De tudo. resultou a República. Some-se a isso a influência positivista com os seus sonhos de "ditadura científica". Ministro de Estado e diplomata. Impunha-se como político e não como soldado. era Quintino Bocaiúva e Pinheiro Machado constituído de civis e sofreu. integrava o Partido Liberal e foi senador. o ressentimento dos homens de farda contra a influência dos juristas (o jornal os trata de "legistas"). Caxias era um dos líderes do Partido Conservador e presidiu o Conselho de Ministros. que. foi incontestavelmente o produto de uma conspiração de quartéis e de uma passeata militar. do militarismo das repúblicas vizinhas. antes da Guerra do Paraguai. depois de mortos Caxias e Osório. o Governo Provisório. muito embora Sérgio Buarque de Holanda aponte um jornal de militares em que se revela. Isso culminou nas "questões militares". que. o outro grande soldado do Império. destarte. mas como políticos civis dentro dos quadros partidários a que pertenciam. além de ter sido ministro. deputado e senador. na maioria de seus membros. Rompeu com Pedro I e escreveu-lhe carta atrevidíssima. como classe e em nome desta. quando o Exército já não contava com os dois chefes gloriosos e de grande autoridade moral sobre a tropa.44 • Aliomar Baleeiro O Marquês de Barbacena. . não foi feliz na Guerra da Cisplatina. Só depois da Guerra do Paraguai os oficiais começaram a apresentar. impregnara os jovens oficiais liderados por Benjamin Constant. Não procuravam influir corno chefes militares. que só explodiriam na década de 1880. Osório. Livrou-se. o Império. de começo. profetizando-lhe fim de vida num asilo de loucos. reivindicações profissionais. já vimos.

O malogro do atentado contra o Chefe da Nação e o homicídio do Marechal Bittencourt. Campos Sales. se fez eleger Presidente em fevereiro de 1891. As tentativas militaristas. E foi verdade. secretamente conspiraram para depor Prudente e instalar a "ditadura científica". Os oficiais que fizeram a República e a defenderam em 1893. Isso permitiu a Prudente de Morais. juristas e civis de São Paulo. na maioria juristas e liberais. até depois da morte deste. a Câmara derrotou o Vice-Presidente por ele escolhido. e elegeu Floriano. sob ameaças. trouxeram a este súbita popularidade ao lado da condenação aos florianistas. Para contrabalançar o prestígio militar de Deodoro. dizer que pacificara o país e consolidara a ordem civil. onde oficiais alçavam e logo depois derrubavam governos fardados ou paisanos. e do próprio golpe de Floriano. muitos dos quais positivistas. depois do golpe de estado de 3-11-1891. por essa época. animados do esprit de corps insinuaram a permanência de Floriano e. ligados a Quintino Bocaiúva. passado o quatriênio de Rodrigues Alves Campos Sales (1889-1903). Não obstante. na maioria militares. ministro da Guerra. na defesa da vida de Prudente. Glicério. deu novo surto ao militarismo favorecido pela necessidade da tropa para repressão da revolução gaúcha de 1893 e da chamada "guerra de Canudos". sem quarteladas e . embora se permitisse algumas violências que o atritaram com o Supremo Tribunal. com a dissolução do Congresso. encontravam palco nos governos estaduais. o Almirante Wandenkolk.A Constituição de 1891 • 45 a influência de Rui e dos "republicanos históricos". que. de Augusto Comte. isto é. Embora grande a percentagem de militares na Constituinte de 1890-1891. a sua influência foi abafada pela dos civis. em 1895. Aristides Lobo. O Governo deste. candidato da Oposição. ao terminar seu tormentoso período presidencial. não convocada eleição presidencial depois da renúncia de Deodoro.

sobretudo da Escola Militar. Marechal Hermes da Fonseca. o de coibir a degradação da 1ª República. de 1922 em diante. Mas. Rui. O Governo de Hermes. que deveria cair em 24-10-1930. desfraldou francamente a bandeira do revisionismo. Há um interregno de tranqüilidade dos quartéis. os levantes. aliás tímido.46 • Aliomar Baleeiro único sem estado de sítio nos 40 anos da 1ª República. que anos antes já se decepcionara com a obra de que foi co-autor. eram aspirações de militares aos cargos de governadores de Estado. embora não os animasse um propósito militarista. a inquietação dos jovens cadetes e tenentes irrompeu de novo. dizem que à míngua de cuidados médicos oportunos. durante os 40 anos da Constituição de 24-2-1891. foi marcado pelas "Salvações". Onze . que. o General Travassos. depois de 4 horas de interrogatório. expondo na plataforma da Campanha Civilista de 1910 alguns pontos que. deveriam ser emendados. voltaram a registrar-se no governo de Rodrigues Alves. Os políticos. em muitos casos. Passou à história como "Campanha Civilista" a de Rui contra Hermes (1909-1910). sobrinho de Deodoro. foi abatido do alto do seu cavalo branco à frente dos amotinados. Veio a morrer do ferimento recebido na coxa. logo de início surpreendido por uma revolta de marinheiros que se apoderaram dos novos couraçados "Minas" e "São Paulo". Num deles. usando a força armada a pretexto de cumprir decisões judiciais sobre duplicatas de Assembléias. que sublevara os rapazes daquela Escola e os arrastara de armas em punho em plena rebelião pelas ruas. mas. antes. capitaneados por Pinheiro Machado. como recurso para evitar que Afonso Pena fizesse do ministro e conterrâneo David Campista seu sucessor. O desastroso quatriênio do Marechal (1910-1914) gerou no país uma repulsa a novas experiências de presidentes fardados. alimentavam firmemente o ânimo de não reformá-la e conseguiram isso pelo espaço de 35 anos. Somente em 1910. em sua opinião. que levantou a candidatura do Ministro da Guerra. até que o militarismo recrudesce por obra dos civis.

que.A Constituição de 1891 • 47 pontos lhe pareciam intocáveis: a) república. Este sistema. c) manutenção do território de cada Estado em 1910. 5º) competência da União para intervir nos conflitos econômicos e tributários entre os Estados. isto é. entretanto. José Maria dos Santos e outros. Sílvio Romero. mas também foi exposto e advogado por um pensador indiferente ao trono caído. contando com arautos em livros. e) liberdade religiosa com separação entre Igreja e Estado. 10º) autorização do veto parcial. parecendo-lhe que esse sistema político não se conciliaria com a Federação. Essa aspiração do retorno ao Governo de Gabinete. desaparecendo a competência estadual para isso. de então por diante reapareceria de quando em quando. Esses pronunciamentos foram reunidos num pequeno volume sob o título de Presidencialismo e Parlamentarismo. é discutido pelo maior dos brasileiros nesse dia. o pensamento de Rui evolveu claramente para o parlamentarismo. 2º) unificação da magistratura. . conflagrando o Rio Grande do Sul. 3º) definição dos "princípios constitucionais" a que deviam obedecer os Estados. desde o 3º ano da República. g) vedação de impostos interestaduais. 4º) garantias efetivas à magistratura. 6º) restrições ao estado de sítio. porque em 1893. ainda que suspeitado de mascarar a restauração monárquica. 72 a 78). mostrando agudamente o erro da adoção do presidencialismo. f) competência da Justiça para julgar a inconstitucionalidade das leis. b) federação. Os pontos a alcançar seriam: lº) unificação da legislação processual. 9º) supressão das "causas orçamentárias". que publicou "cartas abertas" a Rui Barbosa. k) intangibilidade da Declaração dos Direitos e Garantias (arts. entretanto. disposições legislativas estranhas à receita e à despesa. Com o tempo. 8º) supressão do cargo de Vice-Presidente da República. h) irretroatividade das leis. j) autonomia dos Estados. Esse rol exclui o parlamentarismo. dos quais Raul Pilla continuaria a ação até a Revolução de 1964. simultaneamente. como Medeiros e Albuquerque. a volta do Governo de Gabinete não só serviu de pretexto ao movimento revolucionário de Silveira Martins. 7º) polícia dos empréstimos estrangeiros aos Estados e Municípios. d) igualdade de representações no Senado. e ainda hoje merecem leitura e reflexão. i) ilegibilidade dos Ministros e livre nomeação deles pelo Presidente da República. parece-nos. pela saudade dos 50 anos de paz e liberdade do Império. marca os primeiros revisionistas.

O STF negou habeas corpus a ambas (Leda Boechat Rodrigues. ambas foram fechadas pela Polícia paulista. cuja envergadura de asas abrange os oceanos. Ruíram as velhas monarquias. o da moralidade e o da força desses "Comuns". em 1889). Com o Presidencialismo. a Áustria-Hungria. mas em 1918. e outras. onde havia um "Centro Monarquista" e uma organização estudantil com o mesmo colorido. nos períodos presidenciais de Floriano e Prudente. I). que apenas simulavam um Governo de Gabinete do tipo britânico. onde elas se fecundam. Seu progresso é o da inteligência. Sobre este escreveu: "... a essas lutas pelas ideias nas regiões mais altas da palavra. Surgiu o primeiro Estado comunista com a Revolução Russa de 1917. era bem calorosa a adesão de Rui ao parlamentarismo. vol. em quase toda a parte. como a Rússia." "Com o governo parlamentar. inclusive em São Paulo. tem sido para o bem. No Presidencialismo. a Turquia. ". inclusive em 1922 no prefácio da Queda do Império (reedição dos artigos do Diário de Notícias. a Alemanha. em cujo seio reside o viveiro inesgotável de seus estadistas". houve um movimento monarquista. uma praça de negócios. já se disse. só no governo parlamentar existe o terreno capaz de dar teatro a essas cruzadas morais. acabou não nos últimos dias de 1900. . em algumas frases..48 • Aliomar Baleeiro Nos últimos anos de sua vida. a honra do regime parlamentarista é que." Registre-se que. Considerai o desenvolvimento dessa Grã-Bretanha. exclusivo depositário da autoridade para o bem e para o mal.. não há senão um poder verdadeiro: o de Chefe da Nação. História do Supremo Tribunal. O século XIX. as Câmaras Legislativas constituem uma escola. com o fim da guerra mundial iniciada em 1915.

isto é. As massas proletárias exacerbaram suas reivindicações. sendo obrigado a aceitar a candidatura de Afonso Pena. que. à família. Daí por diante. surgiram novas Constituições. As idéias democráticas dos séculos XVII e XVIII já não eram recebidas como subversão. contendo dispositivos relativos às garantias aos funcionários públicos. também ex-monarquista até 1889. nos 3 quatriênios seguidos de Prudente. anarquistas e comunistas. ao pacto silencioso entre Minas e São Paulo. aos operários. Essa massa de fatos e idéias teve impacto fortíssimo na opinião brasileira. daí por diante. pelo qual os dois mais populosos e fortes Estados se revezavam por seus filhos na presidência da República. Wenceslau Braz e Rodrigues Alves Este não conseguiu que o sucedesse outro paulista. em todas as nações civilizadas. às minorias parlamentares (p. ex.A Constituição de 1891 • 49 Esboroaram-se impérios coloniais. como já vimos. um quatriênio para um dos dois Estados. Política do "café-com-leite" Era a alcunha que davam. Campos Sales e Rodrigues Alves (1895-1906). apareceram agrupamentos socialistas. aos filhos naturais. . deveria ser a rotação SP-MG. embora Afonso Pena tivesse tido veleidade de conservar com Minas o cargo. Bernardino de Campos. ou toleradas. Em toda a Europa. antes de 1930. esteve por 12 anos nas mãos de estadistas do primeiro daqueles dois Estados. pouco a pouco. o que teve como resultado a candidatura militarista de Hermes. o direito de instaurar comissões de inquérito quando solicitadas por 115 ou 1/3 dos membros de uma Câmara) etc. Imediatamente após a guerra. transferindo-o a seu jovem e brilhante Ministro David Campista. mais ou menos aceitas.

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Mas, depois deste, funcionou a política do "café-com-leite": Wenceslau Braz, de MG (1914-18); Rodrigues Alves, SP (eleito pela 2ª vez, 1918-22, mas que faleceu sem tomar posse, rompendo-se o pacto e, daí, surgindo Epitácio, PB (1919-22); Artur Bernardes, MG (1922-26); Washington Luís, SP (1926-30). Nilo Peçanha tentou opor-se à candidatura de MG (Bernardes) unindo o Rio de Janeiro à Bahia. O paulista Washington Luís cometeu o erro de impor, para sua sucessão, outro político de São Paulo, Júlio Prestes, que foi eleito pela fraude da máquina, como os antecessores. Mas, o Governador de MG, Antonio Carlos (da família do Patriarca da Independência), ressentido com a preterição, segundo o café-com-leite, instigou a candidatura do Governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas. Vencido, este, aliado a Minas Gerais e a Paraíba, com apoio dos revolucionários exilados desde 1922 e 1924, desfechou o movimento vitorioso de 1930, pondo por terra a 1ª República, daí por diante chamada de "República Velha". São Paulo viria a ser proscrito da Presidência da República, a despeito de tentativas, nos 44 anos seguintes a 1930. E o Rio Grande do Sul já teve 5 Presidentes de 1930 a 1974, governando o Brasil durante 29 anos em 4 décadas (Vargas, Jango, Costa e Silva, Médici e Geisel).

Derrotados na Constituinte de 1890-91, os positivistas poucas e secundárias emendas conseguiram introduzir na Constituição Federal de 1891. Sem lugar em São Paulo, onde predominaram juristas liberais, nem no resto do Brasil, os positivistas tiveram bom êxito, entretanto, no Rio Grande do Sul, graças à liderança e à energia de um de seus prosélitos, Júlio de Castilhos, que deu cunho transparentemente comtiano à Constituição gaúcha, aproximando-a da "ditadura científica do mestre". A Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, em contraste com a dos outros Estados, tinha poderes limitados quase que só à matéria financeira e orçamentária. Não se proibia a reeleição do Governador, o que permitiu a Borges de Medeiros, constituinte de 1890-91 e sucessor de Júlio de Castilhos, perpetuar-se no governo por mais de 20 anos, dele só saindo por força do acordo de Pedras Altas, que pôs fim à revolução local não

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reprimida pela União. Esta se limitou a promover entendimento a fim de que o velho caudilho gozasse o último quatriênio em troca da promessa de não se reeleger mais. As profissões liberais, no Rio Grande do Sul, poderiam ser exercidas livremente, sem prova de habilitação técnica, segundo o figurino positivista. O habeas corpus quase não existia no Rio Grande do Sul e Júlio de Castilhos promoveu o processo de juízes que o concederam. Mas aquele acordo de 1924 não impediu que o positivismo viesse a influir, indiretamente, no Brasil pela ditadura de Vargas. Pródromos da legislação social Sob o impacto das idéias nascidas ou expandidas pela vitória das nações democráticas e aliadas na guerra mundial de 1914-18, a legislação brasileira enriqueceu-se com a primeira Lei de Acidentes do Trabalho, de 1919. Em 1924, a Lei Eloy Chaves criou o lº Instituto de Aposentadorias, o dos Ferroviários. O Deputado Henrique Dodsworth fez passar, em 1926, a 1ª Lei de Férias para trabalhadores. Em 1923, um projeto de Agamenon Magalhães e Pacheco de Oliveira pretendia fundar um Instituto de Pensões para empregados no Comércio. Outro se criou para os trabalhadores de Docas. Na Câmara, discutiu-se um Código de Trabalho, participando dos debates, dentre outros, Afrânio Peixoto, antes de 1930. Um publicista russo, Mirkine-Guetzévitch, divulgava a "racionalização do poder" nas novas Constituições européias e era traduzido no Brasil. Foram os pródromos da legislação social que, logo após a Revolução de 1930, Lindolfo Collor induziria Vargas a aceitar. Classes médias e proletariado na 1ª República Os coronéis e a estrutura rural Embora as classes médias, geralmente havidas como base e sustentáculo do processo democrático, já existissem nas cidades maiores do País antes da Independência, delas saindo a maior parte dos deputados e senadores, em verdade a Nação continuava a ser "o país essencialmente

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agrícola", porque sua estrutura econômica se assentava na produção e exportação do açúcar (da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, sobretudo), gado (desde o Rio Grande do Sul até o Norte, o Oeste e Centro-Oeste), algodão (Leste até o Nordeste), fumo (Bahia, Alagoas e Rio Grande do Sul, sobretudo), minerais (Minas Gerais, Goiás, Bahia, Mato Grosso), madeiras (Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Paraná e Pará), acrescidos do cacau no século XIX (Bahia sobretudo, Pará e Espírito Santo), café (São Paulo, Minas Gerais e Paraná, sobretudo), borracha e castanha (Amazônia) etc., além dos alimentos de consumo geral do povo (mandioca, feijão, milho, arroz, açúcar etc., quase por toda a parte). A maior parte da população brasileira vivia nas zonas rurais, num regime semifeudal, porque, pela distribuição gratuita das terras públicas no regime colonial luso das sesmarias, enormes latifúndios pertenciam a poucos e nelas se instalavam como simples "posseiros" agregados, vaqueiros, "contratistas", os sem-terra indicados ao trabalho agrário e dependentes dos proprietários. Muitos ocupantes de terras devolutas, antes de adquirir o domínio ou propriedades delas, exerciam posse sobre vastas áreas, como se fossem donos. Essa estrutura rural, que começou a ser corrigida pela Lei de Terras de 1850 e pelo seu regulamento de 1854 ("registro do vigário", para as posses), permitia o domínio efetivo dos "senhores de engenho e dos coronéis". Estes recebiam esse título porque o Governo lhes dava patentes honoríficas de oficiais da Guarda Nacional, prática que permaneceu depois da República, até os dois primeiros decênios deste século. Os "coronéis" eram os notáveis ou líderes locais dos sertões, porque podiam dar ou negar pequenos lotes de terra aos agregados, que protegiam contra abusos da polícia ou a utilizavam para os próprios abusos. Às vezes, guerreavam-se pela posse de terras, glebas de minerais ou apenas por questões de prestígio, machismo, ou mesmo política partidária local, comandando seus agregados com Winchester de repetição em punho. Cabia-lhes o alistamento dos eleitores e a realização das eleições. Por economia de trabalho, despesas de transporte e alimentação dos eleitores, forjavam atas eleitorais falsas, dando-os como presentes aos atos de pleito. Na realidade, os eleitores existiam e eram deles e votariam obedientemente em quem eles quisessem. A ata falsa era mais por motivos de comodidade do que mesmo de simulação de eleitorado inexistente, tanto que muitos desses "coronéis" continuaram a ganhar eleições nos seus feu-

denunciava o vazio e o falso das instituições. em repetidas conferências e discursos. Os governadores faziam questão de ornamentar as bancadas com grandes nomes das letras: Coelho Neto. mas não raro comprado com dinheiro. às vezes roubava escancaradamente as urnas. senão antes. fraudavam os resultados. sem embargo da simulação de eleições em certas seções. Medeiros e Albuquerque. sapatos. . não tinha consciência cívica ou política. a causa principal do malogro da 1ª República e da sua condenação pela opinião pública onde ela existia. o analfabetismo na maior parte do Brasil atingia a 50% ou mais. desencantando-os da República e dos homens públicos da época. às vezes. Humberto de Campos. havia voto verdadeiro. foi.A Constituição de 1891 • 53 dos quando. A industrialização era tentada desde o meado do século XIX. mas só se incrementou depois daquela guerra. E as Juntas. O proletariado. Sabiam que era inútil ou quase inútil o sacrifício no interior. a "degola" na apuração do Congresso completava a obra pela "política dos governadores". Quem perdia. ao lado da "política dos governadores". roupas. Curioso é que as eleições falsas punham no Parlamento reais valores morais e intelectuais. que começou a formar-se lentamente só depois da 1ª Guerra. talvez. também eram tímidos e integravam-se no rebanho dos caboclos submissos. ao lado da inevitável mediocridade. Nas cidades mais importantes. salvo honrosas exceções. A desmoralização das eleições. sabidamente fraudulentas. votando alguns membros dela somente nos pleitos federais das capitais de Estado. desinteressavam-se das eleições. Finalmente. as classes médias. Nessa época. mais cultas. bebidas etc. começou o eleitorado a comparecer aos colégios eleitorais e votar de verdade. conquanto alfabetizados. De 1910 em diante. Afrânio Peixoto. Esta pregação iria impregnar o espírito dos cadetes e jovens oficiais do Exército. O proletariado agrícola era assim manipulado pelos chefes e seus cabos eleitorais. Rui Barbosa. Os descendentes de imigrantes. Por isso mesmo. a partir do Código Eleitoral de 1933. Moniz Sodré. rapidamente. Amaro Cavalcanti e vários foram congressistas.

inclusive na Inglaterra. as eleições ou eram também falsas. Nas nações civilizadas. os assalariados e pobres.54 • Aliomar Baleeiro Em defesa dos políticos de então. só foram divulgadas a partir do fim do século XIX. oficialmente. aliás. que excluía os ignorantes. Essas técnicas. os trabalhos do Parlamento. Sobre a influência dos chefes sertanejos nas eleições é recomendável a leitura de Vítor Nunes Leal. como meio de impedir a coação ou o suborno. Presidente do Supremo Tribunal Eleitoral. na monografia Coronelismo. A própria "cédula oficial" entregue ao eleitor pela Mesa Eleitoral no ato de votar. que este ano causou a mais agradável impressão. pelo modo elevado como se refere aos progressos do Brasil." Angelo Agostini Revista Ilustrada (1888) . custosas e que exigiam certo grau de educação das massas. "No dia 20. o Imperador encerrou. graças ao Ministro Edgard da Costa. Enxada e Eleições. ou acessíveis apenas à parte culta do povo graças ao "censo alto". lendo a fala do trono. só foi posta em prática a partir de 1958. poder-se-á argumentar que o povo brasileiro era muito pobre e muito ignorante para usar técnicas eleitorais aperfeiçoadas.

após a renúncia deste. apoderou-se aquele da presidência da República e cometeu verdadeiro golpe de Estado não realizando a eleição para o sucessor do resignatário." Em 6 de abril de 1892. que veio a ser considerado o maior poeta do Brasil nas duas primeiras décadas deste século.. O Congresso concordou em entrar em recesso. contra o voto apenas do Ministro Pisa e Almeida. Floriano reage prendendo e deportando vários civis. Floriano reage. quando. e agita-se o Rio. mas. como lhe impunha a Constituição de 1891. 13 generais protestam contra a falta de convocação da eleição presidencial. cujas mãos Rui beijou num gesto comovido. os quais gozavam de imunidades. . já quase moribundo. para outra que dissolve os governos locais. que permaneciam no cárcere ou no desterro. reformando-os. não há progresso apreciável. Rui apressa-se em requerer um habeas corpus em favor dos presos. após extinguir-se o prazo de 72 horas do estado de sítio. várias pessoas promovem manifestação de rua a Deodoro. porque a vaga se abrira antes dos dois primeiros anos do quatriênio. pouco tempo depois de sua elevação à presidência. Poucos dias depois. apoiando-se no Congresso restabelecido.. ficaram estremecidas a confiança e as relações entre os dois homens públicos.A Constituição de 1891 • 55 IV – AS CAUSAS DO MALOGRO DA CONSTITUINTE DE 1891 Efeitos retardados da pregação de Rui Rui fora companheiro e amigo de Floriano no Governo Provisório de Deodoro. Floriano promove ou aceita a deposição dos governadores estaduais que se haviam solidarizado com Deodoro quando este desfechou o golpe de dissolução do Congresso. inclusive parlamentares. figurava Olavo Bilac. O Supremo Tribunal lhe nega a ordem pedida. apoiando-se na fraqueza dos governos locais. Acontece que. precedidos de uma fanfarra militar que passava no momento. Entre os presos. Rui renuncia ao mandato de Senador e comenta: "De uma ditadura que dissolve o Congresso.

magnética e aliciadora à sua palavra apostolar. carregada de seiva. Era necessária lenha nova. depois. que deturpara completamente a Constituição de 1891. correu perigo de vida pelas ameaças dos florianistas fanáticos. Em 1917. Essas atitudes de desassombro. onde quer que se registrasse abuso de poder contra as liberdades públicas e direitos individuais. não raro. durante os quais conseguiu incutir no Supremo Tribunal o seu papel de guardião da Constituição e das leis. batendo às portas dos Tribunais. quando se implantou o serviço militar obrigatório).56 • Aliomar Baleeiro Rebenta a revolta da esquadra. para Londres. Foi também o advogado de outras vítimas da violência e da ilegalidade e. De Rui. Não perdia oportunidade. E depois fez terrível libelo contra a "política". disse-lhes que não seria "com carvões cobertos pela cinza da experiência que se reanimará a lareira extinta". dizia Pinheiro Machado. O admirável estilo literário de seus discursos. que sua pregação . mesmo que essa não fosse político-partidária. onde permaneceu até o fim do reinado de Floriano.. porque assim continuou pela vida afora ao longo de 30 anos. na opinião geral. em geral estudantes. "o maior dos brasileiros". que transformara num pântano insalubre a política nacional. artigos e peças forenses emprestava força persuasiva. Era. Rui consegue retirar-se para Buenos Aires e. Hermes da Fonseca por exemplo. que nem sempre foi por ele poupado: "Rui tem mais coragem do que talento". ou utilizando a tribuna do Senado ou a pena de jornalista.. Não é de espantar pois. saudando num teatro o batalhão de atiradores baianos (jovens voluntários. Outros habeas corpus requereu ele contra os perseguidos por Prudente após o atentado em que pereceu o Ministro da Guerra. não cessou de submeter à mais severa crítica as mazelas do regime. Da Campanha Civilista de 1909-10 e da oposição ao quatriênio de Hermes até a campanha de 1919 e até morrer em 1923. algumas vezes em favor de adversários e até inimigos. fizeram de Rui um mito nacional.

como Rui denunciou na conferência "A imprensa e o dever da verdade". conduzindo uma coluna móvel de guerrilha durante dois anos de extremo a extremo do país. Em 1924. Anos antes. mas criaram. intrigou contra este os meios militares. um diplomata inglês. envolvido pelo furor partidário. no Congresso e até na corrupção da imprensa por meio dos dinheiros públicos desde os tempos. para isso. Em 1923. depois Marechal-do-Ar. Rui ainda foi ao Senado e votou o estado de sítio. As catilinárias de Rui não foram a causa única da queda da 1ª República. quando já assumira a presidência o ex-Governador de São Paulo. ainda vivo. do qual escreveu uma página de heroísmo um grupo de 18 homens. confessou que conspirara uma vez e ela fora e seria a última. Governador de Minas. revoltam-se dois navios da esquadra. já no fim de sua presidência. o clima psicológico de descrença no regime. foi de Leste a Oeste. austeros. os insurretos partem para o Sul. Em 1921. sem o qual o movimento das armas não se expandiria nem encontraria simpática acolhida de grande parte da opinião. cruzando o São Francisco e. internando-se na Bolívia. the President. não hesitando em saudá-lo num discurso. até o Ceará. explode a revolução em São Paulo. Hambloch. onde. reconciliou-se com Hermes da Fonseca. aliás. no seio do povo e sobretudo da juventude militar. . manda prendê-lo pelo Marechal Botafogo. fraudada nas eleições. em oposição à candidatura oficial de Artur Bernardes. pratica um ato de indisciplina e Epitácio Pessoa. no mesmo dia 5 de julho. A campanha do candidato Nilo Peçanha. que pinta os Presidentes do Brasil como reis absolutos (1930). Washington Luís. Subiu de Sul a Norte. dentre eles o então Tenente Eduardo Gomes. como no crepúsculo da monarquia conseguira Benjamin Constant. Esse fato deflagrou a revolta do forte de Copacabana. Ninguém mais tinha ilusões sobre a República ou sobre o cumprimento da Constituição. recebendo novo contingente que o Capitão Luiz Carlos Prestes ali rebelara. sobretudo os juvenis (1921). Hermes. de Campos Sales. pelos sertões. depois de ocupar a cidade.A Constituição de 1891 • 57 tenaz e convincente penetrasse na opinião e alcançasse os espíritos maleáveis dos jovens das escolas militares. Outros intelectuais denunciavam o malogro da Constituição de 1891. publicou em Londres His Majesty.

Mas concorriam para esse desencanto sobre as instituições constitucionais as causas de que já nos ocupamos aqui. passavam por crises e convulsões antiliberais: o fascismo tornou-se vitorioso com Mussolini em 1922-23. engrossavam as fileiras dos contestantes do establishment. no plano federal e estadual. e o Presidente Américo Tomás foram depostos e exilados. Esses fatos ecoam no Brasil onde poucos compreendem bem os alvos. entregue pelos militares ao Professor de Finanças Oliveira Salazar e que duraria até maio de 1974. as seguintes: Nilo Peçanha . era geral no Brasil a desilusão sobre o regime republicano da Constituição de 1891. edita a sua Política Geral do Brasil. assumia certo cinismo em relação às práticas deturpadas. dentre as quais. Os que caíam deste. libelo contra o presidencialismo e apologia do parlamentarismo. As nações liberadas ou que tiveram sua estrutura político-constitucional. ou porque fossem candidatos frustrados. porque erraram nos cálculos de probabilidade das sucessões presidenciais. Mas geram em muitos espíritos a receptividade às mudanças violentas da estrutura constitucional como remédio aos velhos males. como Nilo Peçanha. que também fora defendido em livro de Medeiros e Albuquerque. Portugal. reformada de fond en combles.58 • Aliomar Baleeiro José Maria dos Santos.. depois de várias desordens. o trono da Espanha se vê em luta com a crescente onda republicana etc. quando o sucessor deste. desde que elas lhe assegurassem a permanência no poder. Na quadra de 1920-30. depois da guerra de 1914-19. deixa-se empolgar por um governo totalitário corporativista. o nazismo agitava a Alemanha em busca do poder. o Professor Marcelo Caetano. precipuamente. O pequeno grupo governante. ainda em 1930. Seabra. Primeiro-Ministro. Vargas etc. a ideologia e os objetívos de cada movimento europeu.

para Epitácio Pessoa . pela intervenção. ao mesmo tempo. punindo-o pelo fato de lhe ter disputado a candidatura presidencial em 1921-22. além de atingir civis. que os havia apoiado na campanha presidencial e que recebia adesão da maioria de seus adversários. agravadas pelas "degolas" na apuração delas no Congresso. liquidou a situação de Nilo. Bernardes. exercitou-se militarmente. e. Hermes também adotou o mesmo processo empregado na Bahia em 1912. pelas quais o Presidente recém-eleito castigava os governadores ou as situações estaduais. Em 1919. Exemplos: tendo a situação baiana sustentado Rui na "Campanha Civilista" de 1910.AConstituição de 1891 • 59 a) A mentira eleitoral das "eleições a bico-de-pena". 6° da Constituição de 1891 (dispositivo que Campos Sales chamava enfaticamente de "o coração da República"). contra que se sublevaram de armas na mão vários chefes sertanejos em diversos municípios. que se atiraram ao mar na tentativa de salvar a vida. sob o subterfúgio de fazer cumprir mandado do Juiz Federal Paulo Fontes. ou o grupo dissidente daquelas oligarquias. isto é. A força federal. alguns trazidos pelos jesuítas. No Amazonas. por decreto de Epitácio. Hermes vencedor. para garantir a posse de Seabra. Governador da Bahia. aceitasse a cédula de Vice-Presidente na candidatura de Nilo Peçanha. oligarquias. dado como eleito . Bernardes derrubou-lhes a situação. fez bombardear com uma hora de prazo a cidade de Salvador. no Estado do Rio. incendiando o Palácio do Governo e a Biblioteca Pública onde se guardavam livros dos séculos XVII e XVIII. dizimou vários soldados da polícia estadual. Foi intervenção manu militari. sem decreto. Como Seabra. premiava com a ascensão ao governo a oposição local. dar posse a Goes Calmon. a intervenção da Bahia. novamente candidato a governador. que se haviam oposto a sua candidatura. com base em pretextos calcados no art. b) As intervenções federais. por obra da intervenção de Epitácio em 1919.

.. o PRP de São Paulo. perfeitamente conscientes de quanto a eleição de um de seus filhos poderia melhorar as suas condições de desenvolvimento. quando Rio Grande do Sul. protegendo amigos e perseguindo adversários. que garantia a hegemonia de São Paulo e Minas Gerais. formava um partido relativamente organizado. contestando a eleição oficial de Arlindo Leoni: caso típico de duplicata de eleições fraudulentas de parte a parte. sacrificando aquelas regiões exportadoras de produtos primários. paraibano. resultantes da "política dos Governadores". Nos Estados maiores. porque os chefes locais falsificavam as eleições federais e estaduais e o governador lhes dava em retribuição as chamadas "posições". Governador de São Paulo. Nos Estados mais atrasados esse grupo se reduzia a umas poucas famílias. d) As oligarquias estaduais. sendo que a do chefe único dava por sucessor a este um parente ou um títere (p. o grupo era mais numeroso e. talvez com boas intenções. Minas Gerais e Paraíba se opuseram à eleição de Júlio Prestes. com maiores oportunidades (por exemplo. o Norte e o Leste viviam ressentidos com a política do "café-com-leite". A presidência de Epitácio. Um grupo reduzido detinha o poder e nele se eternizava. isto é. revezando-se governadores paulistas e mineiros na Presidência da República em detrimento das aspirações e interesses dos outros Estados. c) A política do "café-com-leite". as nomeações de delegados e subdelegados de polícia. fundada. o PRM de Minas Gerais). professores e outros cargos com os quais conservavam o poder local.60 • Aliomar Baleeiro pela oposição que aderira ao bernardismo. no Ceará). tarifa protecionista etc. A "Política dos Governadores" correspondia a uma política dos intendentes (hoje prefeitos). . por Campos Sales nos dois primeiros anos do século. Washington Luís foi eleito sem estrépito pelo consenso das situações estaduais escarmentadas por esses episódios. Borges de Medeiros exercia verdadeira ditadura pessoal e opressiva. bem ou mal. No Rio Grande do Sul. que garantia o progresso do Sul com investimentos ferroviários. ex. juízes de paz. A dissensão entre as situações viria a ocorrer em 1930. Aciolys. demonstrou isso. encanando investimentos vultosos em obras de açudagem e combate às secas do Nordeste. reelegendo-se durante 20 anos.

prefaciando O Poder Artur Bernardes Judiciário na Revisão Constitucional. no sentido filosófico da palavra. opunha-se o establishment político.Reforma Constitucional de 1926 O movimento revisionista de Rui e outros. O parto da montanha . mas a elite no poder ostentava certo cinismo. crendo talvez que seu domínio seria invencível. Aliás. 1923 e 1924. tomou a iniciativa de empreender a reforma. A elas. há vários anos. porque o establishment (as oligarquias estaduais coroadas pela oligarquia federal nelas apoiada) não sentia nem compreendia a necessidade das reformas básicas. pela "Política dos Governadores". toda oligarquia que dispõe da força armada e do Tesouro imagina que nada a abaterá. no sentido oposto aos do reformador. Por ironia da história. pela "degola" na apuração no Congresso e pela inclinação de cada Presidente a escolher um coestaduano para sucessor. Guimarães Natal. e a inquietação da juventude militar. esmagada em 1922. no sentido de sua melhoria em prol da democracia e do liberalismo. o primeiro Presidente revisionista. a começar pela farsa eleitoral. Toda a Nação se decepcionara com o regime republicano de 1891 em virtude das causas acima resumidas. a compreensão de que chegaria a época de reformas aptas a extirpar os velhos vícios políticos que medravam à sombra da Constituição Federal de 1891. buscava corrigir os defeitos da Constituição de 1891. Artur Bernardes. exatamente para dar mais vigor aos poderes incontrastados do Chefe da Nação. por um lado. Faltou aos estadistas do período republicano. senão pelo concurso destas e aquelas. escreveu em 1929. desprezando a experiência histórica de que nenhum grupo no poder pode evitar a queda por um conjunto de causas endógenas ou exógenas. sobretudo os da década de 1920-30. Ministro do Supremo Tribunal Federal de 1905 a 1927. Essa elite não acreditou nunca que a reação das idéias com Rui e outros. de Moniz Sodré: .A Constituição de 1891 • 61 e) O imobilismo do texto da Constituição Federal de 1891 em face das aspirações gerais. poderia abalar os alicerces de sua dominação.

em sua prática. mas os males que deles resultarem serão um estímulo a mais para avigorar a reação contra as deturpações políticas. que tanto embaraçam e assustam os déspotas. justamente alarmada com os riscos. supôs que com essas emendas desfecharia o golpe decisivo nos assomos de independência. para o perfeito equilíbrio político. "À veemência dos protestos levantados pela oposição em ambas as Casas do Congresso. trouxera ao nosso mecanismo político. Essas emendas continham o pensamento capital da reforma. senão proibidos pela polícia. de que dispõe o governo. sob as vistas diretas deste. que nos aviltam e nos deprimem. contra as projetadas deformações do regime. que se consubstanciaram no § 5º do art. e que. realmente. e com fundadas razões. que corriam as garantias constitucionais à mercê de reformadores da Lei Suprema. Suspeita. em estado de sítio. que. de intuitos reacionários. não passando as demais de ridículo disfarce para iludir a opinião nacional. a reforma não pôde desde logo ser bem conhecida na extensão das alterações. entre nós." O projeto. proposta e submetida à discussão e votação do Congresso. teria sido elaborado no Palácio do Presidente. inscientes de sua missão constitucional. a princípio tão calorosos e arrogantes. com a imprensa amordaçada pela censura e os comícios vigiados. na inópia de conhecimentos mesmo mais rudimentares da arte de governar. e contra o qual os recursos legais têm sido ineficazes e os extralegais de execução quase impossíveis. dinheiro e forças armadas esquecidas dos deveres que lhes impõe o art. "Com chave de ouro fecha Moniz Sodré o seu precioso livro comentando as emendas. inspirados pela mentalidade curta de um chefe de Estado tão abaixo das exigências de suas altas funções. 60 e § 22 do art. "Todo o insucesso do regime. segundo se disse na época. não tem outra origem a não ser a desmarcada concentração nas mãos do Executivo de poderes. não promovendo a responsabilidade dos Presidentes pelos excessos e abusos que praticam – e não são poucos – resulta esse regime de ditadura. em que degenerou o presidencialismo. é sem dúvida de temer-se o perigo apontado. 14 da Lei Fundamental da República. "De não exercer o Congresso a sua função constitucional. 72 da Constituição reformada. constituídos de membros designados pelos ditadores estaduais. atento o irresistível aparelho de coerção. não tomando contas ao Executivo.62 • Aliomar Baleeiro "Elaborada sob a inspiração do espírito estreito e acanhado de um chefe local. "Com os Congressos que temos. arvorado em árbitro dos destinos da República pela fraude das urnas e o apoio material de forças armadas. assim tem sido interpretada e aplicada. a mando do grande ditador federal. deverão estar divididos pelos dois outros órgãos da soberania. é que principalmente devemos o recuo dos propugnadores da revisão. atacando o texto de 1891 . que.

seria possível vetar um artigo ou parágrafo. nadava em prosperidade e euforia. Permitiu-se o veto parcial. Era necessário alimentá-los pelos cofres públicos. substituindo a libra esterlina e Londres. caem de chofre as cotações na Bolsa de Nova Iorque e continuam caindo lá e. vir e permanecer. provocam o desemprego de outros. no decênio da guerra de 1914-18. pouco foi alterado. graças à resistência de uns tantos parlamentares. O dólar e Nova Iorque passaram à base dos negócios bancários. sem salários. Estes. chegou ao ponto de vetar-se uma palavra "não". sem que se introduzisse outro remédio rápido e eficaz para defesa de outros direitos individuais. . como nos EUA. permitindo o que se proibira. no mundo todo. No final. milhões e milhões de indivíduos aptos e capazes não acham trabalho e ficam reduzidos literalmente à fome nos Estados Unidos e nos principais países da Europa.A Constituição de 1891 • 63 com 76 emendas dirigidas a 38 dos 91 artigos. houve pedido do Líder do Governo. passando aos EUA à liderança econômica antes exercida pela Inglaterra. deixam de consumir na média anterior e. O abuso. depois. Os preços dos produtos e serviços baixam por toda a parte. Reformou-se o Regimento Interno para verdadeira alteração do projeto original. Eis senão quando. O habeas corpus foi restringido à proteção do direito de ir. apoiado pelas assinaturas de 81 Deputados. as empresas perdem o incentivo de investir e despedem trabalhadores. Em breve. Agora. em seguida. o veto de 1891 só poderia ser aposto ao inteiro teor dos projetos aprovados pelo Congresso. sucedendo-se isso em ondas concêntricas como as que faz uma pedra atirada à superfície tranqüila das águas. em outubro de 1929. Em conseqüência. Logo de início. por isso. Sobrevém a maior crise de depressão econômica conhecida na história do mundo. Crise econômica de 1929 O mundo. porque. retirando-se 43 das 76 emendas. Os vencimentos dos juízes foram submetidos com razão aos impostos gerais.

estudioso da História. Pareceu ao Governo que surgira apenas um surto de improbidade no comércio e. em parte. sua gravidade e intensidade. a exemplo do que conseguira Raymond Poincaré com o franco na França em 1926. Do ponto de vista político-partidário. tomara como idéia fixa de seu quatriênio a estabilização do mil-réis. como Lord Keynes veio a sugerir em 1935 e Roosevelt fez nos EUA com o New Deal. que tinha como candidato a Vice o Governador da Bahia. como João Neves da Fontoura. Washington Luís. ex-Governador de São Paulo. como em toda parte. mantendo-se quando já declarada a depressão. percorreram vários Estados. penhoras e despejos. Assim. substituindo-a por outra drástica e complicada. poderia ser conjurado por incremento nos gastos públicos. era apoiado por oradores fogosos. no Brasil. candidato de Minas. foi marcado pela amargura. bonitão. limitou-se quase que a reformar a Lei de Falência de 1908.64 • Aliomar Baleeiro O fenômeno alarmante e duradouro estende-se à América do Sul. É deposto o Presidente da Argentina. onde o preço do café para exportação cai à metade. Vargas. Em caravanas. por isso. seguindo os exemplos de Rui. inclusive ao Brasil. Rio Grande do Sul e Paraíba. sem que o Governo tivesse clara noção do fenômeno. crescia com a sua teimosia em eleger um sucessor paulista. tomou empréstimos externos e pôs em prática medidas constritoras do crédito. que. agravou as conseqüências dos efeitos. A Justiça congestionava-se com pedidos de falência. que viria continuar sua detestada política econômica de estabilização. talvez destituído de sagacidade política. empobrecimento e desespero de quase todos os indivíduos. homem íntegro. Vital Soares. em contraste com a simpatia do início de seu Governo. Para esse fim. o ano de 1930. elevando o clamor contra o Governo e a sua continuação com Júlio Prestes. . a impopularidade do Presidente Washington Luís. Tudo isso agravou esse fenômeno. Esse quadro catastrófico da economia agrava em nosso País a crise política da sucessão de 1929-1930. Ao invés de tratar das causas.

quando João Pessoa. apoiando a candidatura de Vargas. perseguiu um adversário do sertão. Rancoroso. assim. estava preso a velhas correntes e interesses partidários de seu Estado que o elegera jovem Deputado à Constituinte de 1891 e a Senador depois de aposentar-se no Supremo Tribunal Federal. de começo. inclusive econômica. faziam coletas entre simpatizantes do Governo da Paraíba para adquirir munições com que enfrentasse os insurrectos. ameaçara os adversários. ainda que não o dissesse claramente. No mínimo. paraibano. invadiu-lhe a propriedade e apresentou nela cartas íntimas a uma senhora. exercia o governo do Estado e entrou em oposição ao Presidente da República. como anunciou no jornal oficial do Estado. já enfraquecida. tendo um chefe sertanejo proclamado a República de Princesa. Essas raízes de partidarismo local intolerante e outras razões exacerbaram as lutas locais. carregando de emoção o País. que era o candidato a vice na chapa presidencial de Vargas. dividindo-se. em 1913. João Pessoa. O Governador da Paraíba. a política local. parente de Epitácio. Inimigos de Washington publicavam manchetes: "Presidente da República. Esse adversário. aproveitava-se dos ecos das pregações do baiano glorioso. franqueando-as à leitura pública.A Constituição de 1891 • 65 Esse movimento pró-Vargas tinha o nome de Aliança Liberal e retomava a bandeira democrática de Rui. já agora inimigo pessoal. dizendo os gaúchos que iriam . ligado à família do Barão de Lucena. eliminou do rol dos candidatos ao Congresso seu antecessor e correligionário João Suassuna. O estopim da PB e a Revolução de 1930 Epitácio. João Pessoa. ferido em sua dignidade e em seus direitos individuais. por que assassinaste João Pessoa?" O homicida foi preso e processado em Pernambuco e embora o crime obedecesse a motivos e atos pessoais da vítima. Jovens estudantes paraibanos. que viriam a ter desfecho trágico no governo de Washington Luís. um município paraibano. a fim de conseguir o clima emocional para a Revolução com que. matou a tiros o Governador da Paraíba em meados de 1930. noutros Estados. a Campanha da Aliança Liberal. procurou ligar o fato à candidatura presidencial. Houve luta armada.

Juarez Távora. Rio Branco. viviam dificilmente no exílio da Argentina e países vizinhos (Juarez Távora. onde já se combatia. Aranha e João Neves conseguiram articular a revolução. como Góes Monteiro. comprometeram-se com a Aliança liberal. como eleitos. Washington Luís não tivera o bom senso e a finura política de anistiá-los. que.66 • Aliomar Baleeiro amarrar os seus cavalos no obelisco da Av. ao cair da tarde do dia 3-10-30. no Rio. Vargas disso se aproveitou e aliciou-os. Siqueira Campos. que tinha dois jovens líderes civis ativos e enérgicos em Oswaldo Aranha e João Neves da Fontoura. Eduardo Gomes. 1923 e 1924. Caíram os governadores de Alagoas e Sergipe. Outros oficiais. as colunas revolucionárias marcharam do sul e do norte para o Rio. Em pleno céu azul. Embora os Governadores de Minas Gerais e Rio Grande do Sul vacilassem. fornecendo-lhes recursos para a volta clandestina ao País. Logo depois. inclusive os integrantes da Coluna Prestes. de surpresa. Washington Luís fez "degolar". enquanto se combatia em Minas Gerais. não acreditava nos avisos de que algo se tramava no Rio Grande do Sul. Algumas centenas de mortos tombaram nas três frentes de luta. . não reconhecer. onde entraram em contato com jovens tenentes das turmas posteriores àqueles motins (Juraci Magalhães. os candidatos de João Pessoa à Câmara. Bizarria Mamede. Esperava-se a batalha decisiva em Itararé. João Pessoa (nome da Capital da Paraíba depois do assassínio do Governador) e Recife. isto é. Além disso. os Geisel e vários outros). aproveitando-se da emoção causada pela morte de João Pessoa. Vargas dissimulava tudo e fazia jogo dúplice com Washington Luís. já tenente-coronel. iludido por suas cartas conciliantes e resignadas. subleva a unidade do Exército lá e marcha para Pernambuco. a força federal foi atacada pela estadual e aderentes civis em Porto Alegre. que estava escondido na Paraíba. quando os gaúchos investissem contra a fronteira sul de São Paulo. a força estadual de Minas Gerais investe contra a federal. Luís Carlos Prestes. João Alberto e vários outros). Filinto Müller. Minas Gerais e Paraíba. enquanto nenhuma resistência séria era oferecida à tropa gaúcha em Santa Catarina e Paraná. Cordeiro Faria. Aqueles jovens oficiais. que se rebelaram em 1922. Nas 24 horas seguintes. Vencedores em Porto Alegre.

No Rio. este filho do ex-Governador de Sergipe. já haviam penetrado as fronteiras da Bahia e já estavam a menos de 200 quilómetros de Salvador. À tarde deste último dia. Mena Barreto e o Almirante Isaías de Noronha constituíram-se em Junta Militar para chefia do governo. não estavam dispostos à luta fratricida entre grupos partidários. autorizou aos governos estaduais o recrutamento de jagunços enviando-lhes somas vultosas para isso. que. Na Paraíba. Sezefredo dos Passos. O País estava convulsionado e desejoso de que tudo aquilo acabasse logo e de qualquer modo. no desespero. depois de uma resistência obstinada e máscula. por vontade do Presidente. dentro do recinto. só lhes inspiravam desprezo. o do governo federal mais do que o dos Estados rebelados. não percebeu o complô e deixou-se apanhar de surpresa entre 23 e 24 de outubro de 1930. nas imediações da cidade baiana de Alagoinhas. que investira de punhal contra o jovem Simões Lopes. além de 4 outros oficiais. morreram na luta o General Lavanère e o Capitão Paulo Logo. Depois de duas semanas. no Norte. O Ministro da Guerra. E cometeu o erro psicológico de convencer reservistas do Exército. Na Câmara. seu filho. que. alguns generais e almirantes conspiraram no Rio para um golpe que depusesse o Presidente Washington Luís e pacificasse o País. de parte a parte. . no íntimo. João Suassuna. que. Nos últimos dias.A Constituição de 1891 • 67 Washington Luís. os debates eram tão apaixonados que o velho Deputado gaúcho Simões Lopes abateu a tiros. o seu colega pernambucano Sousa Filho. valesse o rio de sangue. até onde o acompanhou o Cardeal Dom Leme. era assassinado o ex-Governador da Paraíba. onde os aguarda um batalhão enviado desta cidade. Os Generais Tasso Fragoso (tenente positivista do 15 de novembro de 1889). em 4-10-30. ao entrar a terceira semana de outubro. que já começara a correr. alguns governadores haviam fugido com a aproximação dos revolucionários. porque não considerava que um candidato eleito pela fraude. Faria causa comum com os rebeldes. afinal o Presidente Washington Luís deixou-se conduzir preso ao Forte de Copacabana.

um lugar no reino dos ceús!".Última fala do trono: "Augustos e digníssimos senhores representantes do subsídio: religião e mais religião é do que o país mais precisa. ao menos. para assim conquistar. Angelo Agostini Revista Ilustrada (1889) .

Em 1935. Uma Introdução à Ciência das Finanças. Elegeu-se. foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal que. . Cinco Aulas de Finanças e Política Fiscal. Conspirou contra a regime e assinou o Manifesto dos Mineiros. foi eleito Deputado à Assembléia Constituinte do Estado da Bahia. Com o advento do Estado Novo. Deputado à Constituinte de 1946. dedicando-se. Entre muitas obras. Aliomar Baleeiro foi autor de Direito Tributário Brasileiro.O Autor ALIOMAR BALEEIRO iniciou-se como advogado. Limitações Constitucionais ao Poder de Tributar. ainda pela Bahia. retornou à advocacia. ao magistério. A Tributação e a Imunidade da Dívida Pública. depois. presidiu. também. foi Deputado Federal por aquele Estado. Esse Outro Desconhecido. onde foi escolhido para compor a Grande Comissão de Constituição daquela nova unidade da Federação. em Salvador. o Direito Tributário na Constituição. O Supremo Tribunal Federal. Em 1965. Em seguida.

no sentido oposto ao do reformador. • A partir de 1910. • A mentira eleitoral das eleições a bico-de-pena. de clara inépcia política a despeito de seu valor pessoal como soldado e de sua probidade inatacável. a unificação da legislação processual. veio dar mais vigor aos poderes incontrastados do Chefe da Nação.IDÉIAS-CHAVES • Os positivistas pretendiam que o Governo implantado a partir de 1889 fosse "ditatorial e não parlamentar". agravadas pelas degolas na apuração pelo Congresso. de 1926. divididos em diretrizes e correntes nitidamente diferenciadas. 6º da Constituição e a alternância de paulistas e mineiros na Presidência da República. Esta a diferença fundamental entre a Constituição escrita de 1891 e a Constituição viva de 1824. entre outros pontos. Por ironia da História. a unificação da Magistratura e garantias efetivas a esta. mas. a única reforma. as intervenções federais com base no art. O movimento revisionista visava maior democratização e liberalização das instituições. • A elaboração da primeira Constituição republicana foi abreviada por temor dos atos de arbítrio e desatino administrativo do Marechal Deodoro da Fonseca. concorreram para o desencanto geral com respeito às instituições criadas em 1891. . • A Constituição de 1891 estabeleceu um regime presidencialista do tipo norte-americano: o Poder Executivo não poderia dissolver a Câmara dos Deputados e nem era obrigado a escolher Ministros da confiança desta. restrições ao estado de sítio e autorização do veto parcial. na chamada política do café-com-leite. Rui desfraldou a bandeira de revisão da Carta de 1891. não conseguiram fosse implantada a "ditadura republicana" pelo projeto que se inspirou nas Cartas dos EUA. Argentina e Suíça e foi polido por Rui Barbosa. sugerindo.

Qual o papel de Rui Barbosa na instalação do Governo Provisório. Por que não conseguiram os positivistas implantar. uma "ditadura republicana"? 6. na consolidação e na revisão das instituições da 1ª República? 5. Em que aspectos fundamentais se diferenciavam as Constituições de 1824 e 1891? . Quem. segundo o autor.QUESTÕES ORIENTATIVAS PARA AUTO-AVALIAÇÃO 1. Como desapareceram os dois grandes partidos do Império. O que era a política do café-com-leite? 7. Qual a influência dos militares na Constituinte de 1890-1891? 4. armou "o braço ameaçador dos libertos da Guarda Negra"? 2. como desejavam. o Conservador e o Liberal? 3.

os diversos itens do projeto. No segundo livro. com vagar. . de que modo se elaborou. ao longo dos dois volumes da obra. como se explica e fundamenta cada uma das disposições da Constituição de 24 de fevereiro de 1891".LEITURAS RECOMENDADAS Obras fundamentais ao conhecimento da Carta de 1891 são A Constituição Republicana. Liberdades e Garantias. I por JOÃO BARBALHO Na apresentação da reedição da obra. O primeiro livro se inicia com a notícia que relata a designação. reeditada em 1979 pelo Senado Federal em coedição com a Universidade de Brasília. dá conta das sessões preparatórias e dos trabalhos da Assembléia. são examinados. de João Barbalho. da comissão de cinco membros para elaboração do projeto constitucional. e Comentários à Constituição Federal. em geral pouco considerado pela historiografia brasileira". pelo Governo Provisório. Comentários à Constituição Federal. Depois. desde a Organização Federativa até os Direitos. o Senador Petrônio Portella a considera "um estudo pioneiro sobre o relevante papel exercido pelo Congresso Constituinte de 1891. o que em si contém. de Agenor de Roure. João Barbalho procura mostrar "de onde procede.

por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias. Art. 3º Fica pertencendo à União. em Estados Unidos do Brasil.CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. DE 24 DE FEVEREIRO DE 1891 Nós. decretamos e promulgamos a seguinte: CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL DISPOSIÇÕES PRELIMINARES DA TÍTULO I ORGANIZAÇÃO FEDERAL Art. que será oportunamente demarcada. uma zona de 14. Art. os representantes do povo brasileiro. 2º Cada uma das antigas províncias formará um Estado. sob o regime representativo. e constitui-se. Parágrafo único. no planalto central da República. enquanto não se der execução ao disposto no artigo seguinte. continuando a ser a capital da União. . 1º A Nação brasileira adota como forma de governo. o atual Distrito Federal passará a constituir um Estado. estabelecemos.400 quilômetros quadrados. e o antigo município neutro constituirá o Distrito Federal. reunidos em Congresso Constituinte para organizar um regime livre e democrático. a República Federativa proclamada a 15 de novembro de 1889. para nela estabelecer-se a futura Capital Federal. Efetuada a mudança da capital.

em duas sessões anuais sucessivas e aprovação do Congresso Nacional. 3º Taxas de selo. § lº. a União. Art. 5º Incumbe a cada Estado prover. porém. 2º Direitos de entrada. nºI.78 • A Constituição de 1891 Art. mediante anuência destes. em caso de calamidade pública. 4º Para assegurar a execução das leis e sentenças federais. 4º Taxas de correios e telégrafos federais. a requisição dos respectivos governos. Art. § 3º As leis da União. ou desmembrar-se. 2º Para manter a forma republicana federativa. os solicitar. (*) Art. as necessidades de seu governo e administração. podendo. todavia. salvo: lº Para repelir invasão estrangeira. 7º É da competência exclusiva da União decretar: 1º Impostos sobre a importação de procedência estrangeira. saída e estadia de navios. os atos e as sentenças de suas autoridades serão executados em todo o país por funcionários federais. 3º Para restabelecer a ordem e a tranqüilidade nos Estados. prestará socorros ao Estado que. mediante aquiescência das respectivas assembléias legislativas. 8º É vedado ao Governo Federal criar. Art. para se anexar a outros. ou formar novos Estados. 9º. a expensas próprias. sendo livre o comércio de cabotagem às mercadorias nacionais. distinções e preferências em favor dos portos de uns contra os de outros Estados. ou de um Estado em outro. salvo a restrição do art. a execução das primeiras ser confiada aos governos dos Estados. . § 2º Os impostos decretados pela União devem ser uniformes para todos os Estados. 9º É da competência exclusiva dos Estados decretar impostos: (*) A Emenda Constitucional de 3 de setembro de 1926 transcrita ao final deu nova redação a este artigo. 4º Os Estados podem incorporar-se entre si. bem como às estrangeiras que já tenham pago imposto de importação. 2º A criação e manutenção de alfândegas. subdividir-se. 6º O Governo Federal não poderá intervir em negócios peculiares aos Estados. de qualquer modo. § lº Também compete privativamente à União: lº A instituição de bancos emissores. Art.

o produto do imposto para o Tesouro Federal. Além das fontes de receita discriminadas nos arts. porém. 3º Sobre transmissão de propriedade. Art. Art. Parágrafo único. e entre estes e os de outros Estados que não se acharem servidos por linhas federais. 11. e bem assim sobre os veículos. de terra e água. nº 1. como aos Estados. § 2º É isenta de impostos. Art. 2° Sobre imóveis rurais e urbanos. 12. 2º Estabelecer. § lº Também compete exclusivamente aos Estados decretar: lº Taxa de selo quanto aos atos emanados de seus respectivos governos e negócios de sua economia. § 4º Fica salvo aos Estados o direito de estabelecerem linhas telegráficas entre os diversos pontos de seus territórios. § 3º Só é lícito a um Estado tributar a importação de mercadorias estrangeiras quando destinadas ao consumo no seu território. 3º Prescrever leis retroativas. 7º. que os transportarem. 13. O direito da União e dos Estados de legislarem sobre viação férrea e navegação interior será regulada por lei federal. 7º e 9º. 9º e 11. Art. e reciprocamente. cumulativamente ou não. sobre produtos de outros Estados da República. ou na passagem de um para outro. como à União: lº Criar impostos de trânsito pelo território de um Estado. revertendo. subvencionar ou embaraçar o exercício de cultos religiosos. É proibido aos Estados tributar bens e rendas federais ou serviços a cargo da União. criar outras quaisquer. A navegação de cabotagem será feita por navios nacionais. 10. É vedado aos Estados. . a produção dos outros Estados. quando for de interesse geral. no Estado por onde se exportar. é lícito à União.A Constituição de 1891 • 79 1º Sobre a exportação de mercadorias de sua própria produção. podendo a União desapropriá-las. não contravindo o disposto nos arts. ou estrangeiros. 2º Contribuições concernentes aos seus telégrafos e correios. 4º Sobre indústrias e profissões.

destinadas à defesa da pátria no exterior e à manutenção das leis no interior. § lº Só ao Congresso compete deliberar sobre a prorrogação e adiamento de suas sessões. aos seus superiores hierárquicos. se a lei não designar outro dia. 15. SEÇÃO I Do Poder Legislativo CAPÍTULO I DISPOSIÇÕES GERAIS Art. o Executivo e o Judiciário. 16. com a sanção do Presidente da República. 14. por qualquer causa.80 • A Constituição de 1891 Art. em sessões públicas. a 3 de maio de cada ano. As deliberações serão tomadas por maioria de . 17. independentemente de convocação. A Câmara dos Deputados e o Senado trabalharão separadamente e. inclusive renúncia. A força armada é essencialmente obediente. Art. O Congresso reunir-se-á na Capital Federal. adiado ou convocado extraordinariamente. § 3º O Governo do Estado em cuja representação se der vaga. Art. § 2º Cada legislatura durará três anos. O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional. § 2º A eleição para Senadores e Deputados far-se-á simultaneamente em todo o país. e funcionará quatro meses da data de abertura. podendo ser prorrogado. São órgãos da soberania nacional o Poder Legislativo. § lº O Congresso Nacional compõe-se de dois ramos: a Câmara dos Deputados e o Senado. Deputado e Senador. mandará imediatamente proceder à nova eleição. As forças de terra e mar não são instituições nacionais permanentes. dentro dos limites da lei. Art. ao mesmo tempo. e obrigada a sustentar as instituições constitucionais. quando não se resolver o contrário por maioria de votos. 18. harmônicos e independentes entre si. § 3º Ninguém pode ser.

Neste caso. comissões. . A cada uma das câmaras compete: . Art. 3º Os cargos de acesso e as promoções legais. quando da aceitação resultar privação do exercício das funções legislativas. desde que tenha sido eleito.A Constituição de 1891 • 81 votos. que serão fixados pelo Congresso. ou comandos. palavras e votos no exercício do mandato.Nomear os empregados de sua secretaria. e ajuda de custo. poderá celebrar contratos com o Poder Executivo nem dele receber comissões ou empregos remunerados. 2º As comissões ou comandos militares. para a seguinte. sem licença da respectiva Câmara.Regular o serviço de sua policia interna.Organizar o seu regimento interno. de bem cumprir os seus deveres. Os deputados e os senadores. Os membros das duas câmaras. porém. salvo nos . 19. sem prévia licença de sua Câmara. Parágrafo único. ao tomar assento. de que tratam os nºs 1 e 2 do parágrafo antecedente. 20. não poderão ser presos. § 2º Nenhum deputado ou senador. Nenhum membro do Congresso. salvo caso de flagrância em crime inafiançável. 22. achando-se presente em cada uma das câmaras a maioria absoluta dos seus membros. no fim de cada legislatura. se o acusado não optar pelo julgamento imediato. Art. levado o processo até pronúncia exclusive. Art. Art. em sessão pública. desde que tiverem recebido diploma até a nova eleição. poderá aceitar nomeação para missão. contrairão compromisso formal. para resolver sobre a procedência da acusação. nem processados criminalmente. 21. Art. 23. . a autoridade processante remeterá os autos à Câmara respectiva. § lº Excetuam-se desta proibição: 1º As missões diplomáticas. . Os deputados e senadores são invioláveis por suas opiniões.Verificar e reconhecer os poderes de seus membros.Eleger a sua Mesa. . Durante as sessões vencerão os senadores e os deputados um subsídio pecuniário igual.

CAPÍTULO II DA CÂMARA DOS DEPUTADOS Art. 28. 69. O Congresso declarará. O deputado ou senador não pode também ser presidente ou fazer parte de diretorias de bancos. § 2º Para este fim mandará o Governo Federal proceder. 26. 25. Compete à Câmara a iniciativa do adiamento da sessão legislativa e de todas as leis de impostos. não devendo esse número ser inferior a quatro por Estado. 27. Art. garantida a representação da minoria.82 • A Constituição de 1891 casos de guerra ou naqueles em que a honra e a integridade da União se acharem empenhadas. mediante o sufrágio direto. os casos de incompatibilidade eleitoral. das leis de fixação das forças de terra e de mar. Art. § lº O número dos deputados será fixado por lei em proporção que não excederá de um por setenta mil habitantes. e para o Senado. desde já. o qual será revisto decenalmente. 24. A Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo eleitos pelos Estados e pelo Distrito Federal. ao recenseamento da população da República. companhias ou empresas que gozem dos favores do Governo Federal definidos em lei. Parágrafo único. em lei especial. Art. mais de seis. Art. 2º Para a Câmara. ter mais de quatro anos de cidadão brasileiro. Esta disposição não compreende os cidadãos a que refere-se o nº 4 do art. 29. Art. São condições de elegibilidade para o Congresso Nacional: lº Estar na posse dos direitos de cidadão brasileiro e ser alistável como eleitor. A inobservância dos preceitos contidos neste artigo e no antecedente importa perda do mandato. da discussão dos projetos oferecidos pelo Poder Executivo e a declaração de procedência ou improcedência da acusação contra o Pre- . O mandato legislativo é incompatível com o exercício de qualquer outra função durante as sessões.

será presidido pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal. renovando-se o Senado pelo terço trienalmente. Art. eleitos pelo mesmo modo por que forem os deputados. nos termos e pela forma que ela prescreve. . nas ausências e impedimentos. 31. quando deliberar como tribunal de justiça. 34. O senador eleito em substituição de outro exercerá o mandato pelo tempo que restava ao substituído. onde só terá voto de qualidade. Parágrafo único. 53. em número de três senadores por Estado e três pelo Distrito Federal. CAPÍTULO IV DAS ATRIBUIÇÕES DO CONGRESSO Art. 30. O Senado compõe-se de cidadãos elegíveis nos termos do art. Art. CAPÍTULO III DO SENADO Art. § 3º Não poderá impor outras penas mais que a perda do cargo e a capacidade de exercer qualquer outro. § lº O Senado. nos termos do art. sem prejuízo da ação da justiça ordinária contra o condenado. 33. e será substituído.A Constituição de 1891 • 83 sidente da República. 32. Compete privativamente ao Senado julgar o Presidente da República e os demais funcionários federais designados pela Constituição. Art. 26 e maiores de 35 anos. pelo vice-presidente da mesma Câmara. Compete privativamente ao Congresso Nacional: lº Orçar a receita. § 2º Não proferirá sentença condenatória senão por dois terços dos membros presentes. O vice-presidente da República será presidente do Senado. e contra os ministros de Estado nos crimes conexos com os do Presidente da República. O mandato de senador durará nove anos. fixar a despesa federal anualmente e tomar as contas da receita e despesa de cada exercício financeiro.

7º Determinar o peso. o tipo e a denominação das moedas. Resolver definitivamente sobre os tratados e convenções com as nações estrangeiras. Fixar anualmente as forças de terra e mar. Mobilizar e utilizar a guarda nacional ou milícia cívica. e fazer a paz. legislar sobre ela e tributá-la. 18. e aprovar ou suspender o sítio que houver sido declarado pelo Poder Executivo. 19. na emergência de agressão por forças estrangeiras ou de comoção interna. 16. Adotar o regime conveniente à segurança das fronteiras. o valor. 5º Regular o comércio internacional. 11. Conceder ou negar passagem a forças estrangeiras pelo território do país para operações militares.84 • A Constituição de 1891 2º Autorizar o Poder Executivo a contrair empréstimos e a fazer outras operações de crédito. Autorizar o governo a declarar guerra. 5º. criar ou suprimir entrepostos. ou seus agentes responsáveis. . alfandegar portos. nos casos previstos pela Constituição. a inscrição. 21. 15. 17. 8º Criar bancos de emissão. Declarar em estado de sítio um ou mais pontos do território nacional. Legislar sobre a organização do Exército e da Armada. Conceder subsídios aos Estados na hipótese do art. Mudar a capital da União. 6º Legislar sobre a navegação dos rios que banhem mais de um Estado. 3º Legislar sobre a dívida pública e estabelecer os meios para o seu pagamento. 4º Regular a arrecadação e a distribuição das rendas federais. 12. Resolver definitivamente sobre os limites dos Estados entre si. 20. ou se estendam a territórios estrangeiros. bem como o dos Estados entre si e com o Distrito Federal. os do Distrito Federal e os do território nacional com as nações limítrofes. 10. 9º Fixar o padrão dos pesos e medidas. 13. na ausência do Congresso. se não tiver lugar ou malograr-se o recurso do arbitramento. 14. Legislar sobre o serviço dos correios e telégrafos federais.

mas não privativamente: lº Velar na guarda da Constituição e das leis e providenciar sobre as necessidades de caráter federal. no país. ao Congresso. sem privilégios que tolham a ação dos governos locais. Criar ou suprimir empregos públicos federais. 55 e seguintes da Seção III. 25. Regular os casos de extradição entre os Estados. (*) Nova redação pela Emenda Constitucional de 3 de setembro de 1926. Incumbe. outrossim. 29. bem como sobre a polícia. a agricultura. Estabelecer leis uniformes sobre naturalização. 35. 34. (*) Art. Organizar a justiça federal. 3º Criar instituições de ensino superior e secundário nos Estados. Decretar as leis orgânicas para a execução completa da Constituição. 28. 26. 2º Animar. 27. 33. Legislar sobre a organização municipal do Distrito Federal. aos funcionários federais. 30. bem como a imigração. fixar-lhes as atribuições e estipular-lhes os vencimentos. o desenvolvimento das letras. Decretar as leis e resoluções necessárias ao exercício dos poderes que pertencem à União. 4º Prover a instrução secundária no Distrito Federal. Submeter à legislação especial os pontos do território da República necessários para a fundação de arsenais. 24. o ensino superior e os demais serviços que na Capital forem reservados para o governo da União.A Constituição de 1891 • 85 22. a indústria e o comércio. artes e ciências. Conceder anistia. Comutar e perdoar as penas impostas. 32. . comercial e criminal da República e o processual da justiça federal. 23. nos termos do art. por crime de responsabilidade. Legislar sobre o direito civil. Regular as condições e o processo da eleição para os cargos federais em todo o país. Legislar sobre terras e minas de propriedade da União. Prorrogar e adiar suas sessões. 31. 35. ou outros estabelecimentos e instituições de conveniência federal.

e. ou contrário aos interesses da Nação. aí se sujeitará a uma discussão e a votação nominal. o sancionará e promulgará. presidente (ou vice-presidente) do Senado. ao Poder Executivo. ou no Senado. o Presidente dará publicidade às suas razões. 38. Não sendo a lei promulgada dentro de 48 horas pelo Presidente da República nos casos dos §§ 2º e 3º do art. se obtiver dois terços dos sufrágios presentes. faço saber aos que a presente virem que o Congresso Nacional decreta e promulga a seguinte lei (ou resolução)". (*) Nova redação pela Emenda Constitucional de 3 de setembro de 1926. 2º "O Congresso Nacional decreta. no caso de ser esta negada. Art. porém. considerando-se aprovado. § 4º A sanção e a promulgação efetuam-se por estas fórmulas: 1º "O Congresso Nacional decreta. à Câmara onde ele se houver iniciado.. . 37. que. 37. quanto já estiver encerrado o Congresso. § 3º Devolvido o projeto à Câmara iniciadora. se o aprovar. se o primeiro não o fizer em igual prazo. a promulgará. § lº Se. O projeto de lei adotado numa das câmaras será submetido à outra. Art. negará sua sanção dentro de dez dias úteis. aquiescendo. e esta. o Presidente da República o julgar inconstitucional.86 • A Constituição de 1891 CAPÍTULO V DAS LEIS E RESOLUÇÕES Art. todos os projetos de lei podem ter origem indistintamente na Câmara. nesse mesmo prazo. para a formalidade da promulgação. o projeto será remetido à outra Câmara. sob a iniciativa de qualquer de seus membros. 29. usando da seguinte fórmula: "F. com os motivos da recusa. como lei. 36. Neste caso. daquele em que recebeu o projeto. o presidente do Senado ou o vice-presidente. e eu sanciono a seguinte lei (ou resolução)". que. e eu promulgo a seguinte lei (ou resolução)". enviá-lo-á ao Poder Executivo. o enviará. e pela mesma maioria. Salvas as exceções do art.(*) § 2º O silêncio do Presidente da República no decênio importa a sanção. devolvendo-o. se o aprovar pelos mesmos trâmites.

Exerce o Poder Executivo o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil. 42. emendado na outra. Os projetos rejeitados. 39. § 2º No impedimento.A Constituição de 1891 • 87 Art. ou falta do Vice-Presidente. à sanção. considerar-se-ão aprovadas. sem elas. o presidente da Câmara e o do Supremo Tribunal Federal. ou Vice-Presidente da República: lº Ser brasileiro nato. eleito simultaneamente com ele. ao Poder Executivo. se aceitar as emendas. Se. . ou não-sancionados. que só poderá reprová-las pela mesma maioria. da presidência ou vice-presidência. 40. Art. volverá à primeira. no caso de impedimento. do período presidencial. SEÇÃO II Do Poder Executivo CAPÍTULO I DO PRESIDENTE E DO VICE-PRESIDENTE Art. § 1º Substitui o Presidente. como chefe eletivo da Nação. § lº No caso contrário. no de fato. 3º Ser maior de trinta e cinco anos. § 3º São condições essenciais para ser eleito Presidente. 41. proceder-se-á a nova eleição. O projeto de uma Câmara. serão sucessivamente chamados à Presidência o vice-presidente do Senado. não poderão ser renomeados na mesma sessão legislativa. e sucede-lhe. no caso de vaga. enviá-lo-á. que. o Vice-Presidente. sendo então remetidas com o projeto à Câmara iniciadora. Art. volverá à Câmara revisora. modificado em conformidade delas. e se as alterações obtiverem dois terços dos votos dos membros presentes. não houverem ainda decorridos dois anos. § 2º Rejeitadas deste modo as alterações o projeto será submetido. 2º Estar no exercício dos direitos políticos. por qualquer causa.

§ lº A eleição terá lugar no dia lº de março do último ano do período presidencial. O Presidente e o Vice-Presidente perceberão subsídio. a substituição far-se-á nos termos do art. Art. a integridade e a independência. § lº O Vice-Presidente que exercer a presidência no último ano do período presidencial não poderá ser eleito Presidente para o período seguinte. . 43. esta afirmação: "Prometo manter e cumprir com perfeita lealdade a Constituição Federal. o Presidente pronunciará. CAPÍTULO II DA ELEIÇÃO DO PRESIDENTE E DO VICE-PRESIDENTE Art. O Presidente e o Vice-Presidente não podem sair do território nacional sem permissão do Congresso. ou se este não estiver reunido. 46. sucedendo-lhe logo o recém-eleito. § 3º Se este se achar impedido. 41. sob pena de perderem o cargo. não podendo ser reeleito para o período presidencial imediato. fixado pelo Congresso no período presidencial antecedente." Art. 44. Art. no mesmo dia em que terminar o seu período presidencial. em sessão do Congresso. prover o bem geral da República. O Congresso fará a apuração na sua primeira sessão do mesmo ano. procedendo-se na Capital Federal e nas capitais dos Estados a apuração dos votos recebidos nas respectivas circunscrições. ante o Supremo Tribunal Federal.88 • A Constituição de 1891 Art. § 4º O primeiro período presidencial terminará a 15 de novembro de 1894. O Presidente e o Vice-Presidente da República serão eleitos por sufrágio direto da Nação e maioria absoluta de votos. observar as suas leis. improrrogavelmente. 47. com qualquer número de membros presentes. O Presidente exercerá o cargo por quatro anos. §§ lº e 2º. Ao empossar-se do cargo. 45. sustentar-lhe a união. ou faltar. § 2° O Presidente deixará o exercício de suas funções.

5º Prover os cargos civis e militares de caráter federal. salvo nos casos a que se referem os arts. conforme as leis federais e as necessidades do Governo Nacional. § 3º O processo da eleição e da apuração será regulado por lei ordinária. e 52. o Congresso elegerá. nº 28. Em caso de empate. . 8º Declarar imediatamente a guerra nos casos de invasão ou agressão estrangeira. Compete privativamente ao Presidente da República: lº Sancionar. dentre os que tiverem alcançado as duas votações mais elevadas. 7º Declarar a guerra e fazer a paz nos termos do art. expedir decretos. nº 11.A Constituição de 1891 • 89 § 2º Se nenhum dos votados houver alcançado maioria absoluta. um. ou que o tenha deixado até seis meses antes. instruções e regulamentos para sua fiel execução. 2º Nomear ou demitir livremente os ministros de Estado. que se achar em exercício no momento da eleição. considerar-se-á eleito o mais velho. que remeterá ao secretário do Senado no dia da abertura da sessão legislativa. 3º Exercer ou designar quem deva exercer o comando supremo das forças de terra e mar dos Estados Unidos do Brasil. salvo as restrições expressas na Constituição. nos lº e 2º graus. CAPÍTULO III DAS ATRIBUIÇÕES DO PODER EXECUTIVO Art. 9º Dar conta anualmente da situação do país ao Congresso Nacional. por maioria dos votos presentes. na eleição direta. 48. § 2°. quando forem chamadas às armas em defesa interna ou externa da União. § 4º São inelegíveis para os cargos de Presidente e Vice-Presidente os parentes consanguíneos e afins. 4º Administrar o Exército e a Armada e distribuir as respectivas forças. 34. do Presidente ou Vice-Presidente. indicando-lhe as providências e reformas urgentes em mensagem. promulgar e fazer publicar as leis e resoluções do Congresso. 6º Indultar e comutar as penas nos crimes sujeitos à jurisdição federal. 34.

Art. Os ministros de Estado não poderão comparecer às sessões do Congresso. O deputado ou senador que aceitar o cargo de ministro de Estado perderá o mandato e proceder-se-á imediatamente a nova eleição. mediante proposta do Supremo Tribunal. designá-los-á em comissão. quando cumprir. CAPÍTULO IV DOS MINISTROS DE ESTADO Art. Entabular negociações internacionais.90 • A Constituição de 1891 10. 16. 15. 11. por si. na qual não poderá ser votado. celebrar ajustes. até que o Senado se pronuncie. nº 21. Declarar. 50. nos casos de agressão estrangeira. convenções e tratados. agentes de sua confiança que lhe subscrevem os atos e cada um deles presidirá a um do ministérios em que se dividir a administração federal. sempre ad referendum do Congresso. 49. 80). Nomear os magistrados federais. O Presidente da República é auxiliado pelos ministros de Estado. 65. Nomear os demais membros do Corpo Diplomático e os agentes consulares. Convocar o Congresso extraordinariamente. 6º. e art. o estado de sítio em qualquer ponto do território nacional. Os ministros de Estado não poderão acumular o exercício de outro emprego ou função pública nem ser eleitos Presidente ou Vice-Presidente da União. Nomear os membros do Supremo Tribunal Federal e os ministros diplomáticos. deputado ou senador. Manter as relações com os Estados estrangeiros. . 13. 14. sujeitando a nomeação à aprovação do Senado. submetendo-os. e só se comunicarão com ele por escrito. ou grave comoção intestina (art. Parágrafo único. Art. art. Na ausência do Congresso. 12. ou seus agentes responsáveis. 34. nº 3. e aprovar os que os Estados celebrarem na conformidade do art. ou pessoalmente em conferências com as comissões das Câmaras. à autoridade do Congresso. 51.

Decretada a procedência da acusação. § lº Esses delitos serão definidos em lei especial. 7º A guarda e emprego constitucional dos dinheiros públicos. 8º As leis orçamentárias votadas pelo Congresso. pelos crimes qualificados em lei. nos crimes comuns. ou perante os Tribunais. 53. 6º A probidade da administração. depois que a Câmara declarar procedente a acusação. § lº Respondem. o processo e o julgamento. 52. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra: lº A existência política da União. CAPÍTULO V DA RESPONSABILIDADE DO PRESIDENTE Art. e nos conexos com os do Presidente da República. ficará o Presidente suspenso de suas funções. nos de responsabilidade. pela autoridade competente para o julgamento deste.A Constituição de 1891 • 91 Os relatórios anuais dos ministros serão dirigidos ao Presidente da República e distribuídos por todos os membros do Congresso. Os ministros de Estado não são responsáveis perante o Congresso. Parágrafo único. 5º A segurança interna do país. 2º A Constituição e a forma de Governo Federal. pelos conselhos dados ao Presidente da República. quanto aos seus atos. Art. 4º O gozo e exercício legal dos direitos políticos ou individuais. Art. O Presidente dos Estados Unidos do Brasil será submetido a processo e a julgamento. § 3º Ambas essas leis serão feitas na primeira sessão do primeiro Congresso. § 2º Nos crimes comuns e de responsabilidade serão processados e julgados pelo Supremo Tribunal Federal. 3º O livre exercício dos poderes políticos. . 54. porém. perante o Senado. § 2º Outra lei regulará a acusação. e. perante o Supremo Tribunal Federal.

com sede na Capital da República. quantos o Congresso criar. 55. O Poder Judiciário da União terá por órgão um Supremo Tribunal Federal. O Supremo Tribunal Federal compor-se-á de quinze juízes. os juízes federais inferiores. Art. ou entre estes uns com os outros. b) os ministros diplomáticos nos crimes comuns e nos de responsabilidade. dentre os membros do Supremo Tribunal Federal. 59. § 2º O Senado julgará os membros do Supremo Tribunal Federal nos crimes de responsabilidade. c) as causas e conflitos entre a União e os Estados. Art. dentre os cidadãos de notável saber e reputação. bem como o provimento dos ofícios de justiça nas circunscrições judiciárias. Os juízes federais são vitalícios e perderão o cargo unicamente por sentença judicial. § 1º Os seus vencimentos serão determinados por lei e não poderão ser diminuídos. § 1º A nomeação e a demissão dos empregados de secretaria. d) os litígios e as reclamações entre nações estrangeiras e a União ou os Estados.92 • A Constituição de 1891 SEÇÃO III Do Poder Judiciário A r t . 57. e tantos juízes e tribunais federais. nomeados na forma do art. o Procurador-Geral da República. competem respectivamente aos presidentes dos tribunais. . 58. cujas atribuições se definirão em lei. 56. 48. Ao Supremo Tribunal Federal compete: 1. e) os conflitos dos juízes ou Tribunais Federais entre si. § 2º O Presidente da República designará. assim como os dos juízes e tribunais de um Estado com os juízes e os tribunais de outro Estado. Processar e julgar originária e privativamente: a) o Presidente da República nos crimes comuns e os ministros de Estado nos casos do art. Os Tribunais Federais elegerão de seu seio os seus presidentes e organizarão as respectivas secretarias. Art. e este. elegíveis para o Senado. nº 12. Art. ou entre estes e os dos Estados. 52. distribuídos pelo país.

Rever os processos findos. fundadas em disposições da Constituição. e) os pleitos entre Estados estrangeiros e cidadãos brasileiros. a justiça federal consultará a jurisprudência dos tribunais locais. leis e regulamentos do Poder Executivo. g) as questões de direito marítimo e navegação. c) as causas provenientes de compensações. § lº Das sentenças das justiças dos Estados em última instância haverá recurso para o Supremo Tribunal Federal: a) quando se questionar sobre a validade ou a aplicação de tratados e leis federais. quando houverem de interpretar leis da União. e o art.(*) Art. § 1º. e a decisão do tribunal do Estado considerar válidos esses atos. 60. assim como as de que tratam o presente artigo. § 2° Nos casos em que houver de aplicar leis dos Estados. propostas pelo Governo da União contra particulares ou vice-versa. indenizações de prejuízos ou quaisquer outras. quer em contratos com o Governo da União. ou em contratos celebrados com o mesmo Governo. as justiças dos Estados consultarão a jurisprudência dos Tribunais Federais. b) todas as causas propostas contra o Governo da União ou Fazenda Nacional. ou das leis federais. assim no oceano como nos rios e lagos do país.A Constituição de 1891 • 93 2. . (*) Nova redação pela Emenda Constitucional de 3 de setembro de 1926. em disposição da Constituição Federal. 81. ou a defesa. e a decisão do tribunal do Estado for contra ela. b) quando se contestar a validade de leis ou de atos dos governos dos Estados em face da Constituição. ou entre cidadãos de Estados diversos. d) os litígios entre um Estado e cidadãos de outro. Julgar. 3. reivindicações. quer em convenções ou tratados da União com outras nações. 60. em grau de recurso. ou essas leis impugnadas. as questões resolvidas pelos juízes e Tribunais Federais. Compete aos juízes ou Tribunais Federais processar e julgar: a) as causas em que alguma das partes fundar a ação. f) as ações movidas por estrangeiros e fundadas. nos termos do art. e vice-versa. diversificando as leis destes.

em cujo território estiverem situados. Art. alterar. 2º Espólio de estrangeiro. 63. ou suspender as suas sentenças. As justiças dos Estados não podem intervir em questões submetidas aos Tribunais Federais. É facultado aos Estados: . quando a espécie não estiver prevista em convenção. aos quais a polícia local é obrigada a prestar auxílio. Art. E.94 • A Constituição de 1891 h) as questões de direito criminal ou civil internacional. Os próprios nacionais. § 2° As sentenças e ordens da magistratura federal são executadas por oficiais judiciários da União. nas matérias de sua competência. Em tais casos. que não forem necessários para serviços da União. i) os crimes políticos. situadas nos seus respectivos territórios. passarão ao domínio dos Estados. a justiça federal não pode intervir em questões submetidas aos tribunais dos Estados. construções militares e estradas de ferro federais. 65. nem anular. ou ordens. Art. cabendo à União somente a porção de território que for indispensável para a defesa das fronteiras. respeitados os princípios constitucionais da União. As decisões dos juízes ou tribunais dos Estados. haverá recurso voluntário para o Supremo Tribunal. § lº É vedado ao Congresso cometer qualquer jurisdição federal às justiças dos Estados. Pertencem aos Estados as minas e terras devolutas. Parágrafo único. salvo quanto a: lº Habeas corpus. Cada Estado reger-se-á pela Constituição e pelas leis que adotar. 61. porão termo aos processos e às questões. ou tratado federal. alterar ou suspender as decisões ou ordens destes. excetuados os casos expressamente declarados nesta Constituição. TÍTULO II DOS ESTADOS Art. reciprocamente. 64. 62. fortificações. quando invocado por eles. nem anular. Art.

São cidadãos brasileiros: lº Os nascidos no Brasil. Parágrafo único. por que esta matéria se reger (art. reclamados pelas justiças de outros Estados. 3º Fazer ou declarar guerra entre si e usar de represálias. 67. ainda que de pai estrangeiro. TÍTULO IV DOS CIDADÃOS BRASILEIROS SEÇÃO I Das qualidades do Cidadão Brasileiro Art. ou judiciária da União. 48. na Capital da República. As despesas de caráter local. de natureza legislativa. Art. ou de qualquer dos Estados. 2º Em geral todo e qualquer poder ou direito que lhes não for negado por cláusula expressa ou implicitamente contida nas cláusulas expressas da Constituição. segundo as leis da União. nº 16). . Art. administrativa. 4º Denegar a extradição de criminosos. nº 32). o Distrito Federal é administrado pelas autoridades municipais. 66. não residindo este a serviço de sua nação. 68. ou do Distrito Federal. Os Estados organizar-se-ão de forma que fique assegurada a autonomia dos municípios. TÍTULO III DO MUNICÍPIO Art. É defeso aos estados: lº Recusar fé aos documentos públicos. Salvas as restrições especificadas na Constituição e nas leis federais. em tudo quanto respeite ao seu peculiar interesse. 34. incumbem exclusivamente à autoridade municipal. 2º Rejeitar a moeda ou a emissão bancária em circulação por ato do Governo Federal.A Constituição de 1891 • 95 1º Celebrar entre si ajustes e convenções sem caráter político (art. 69.

Os direitos de cidadão brasileiro só se suspendem ou perdem nos casos aqui particularizados. enquanto durarem os seus efeitos. São eleitos os cidadãos maiores de 21 anos. congregações. 4º Os religiosos de ordens monásticas. § 2º Perdem-se: a) por naturalização em país estrangeiro. embora nela não venham domiciliar-se. 3º Os filhos de pai brasileiro. § 1º Suspendem-se: a) por incapacidade física. 70. § 2º São inelegíveis os cidadãos não-alistáveis. sem licença do Poder Executivo Federal. ou estatuto. se estabelecerem domicílio na República. que estiver noutro país a serviço da República. e forem casados com brasileiros ou tiverem filhos brasileiros contanto que residam no Brasil. § lº Não podem alistar-se eleitores para as eleições federais. b) por condenação criminal. ou moral. salvo se manifestarem a intenção de não mudar de nacionalidade. companhias. 6º Os estrangeiros por outro modo naturalizados. sujeitas a voto de obediência. que importe a renúncia da liberdade individual. que se alistarem na forma da lei. o ânimo de conservar a nacionalidade de origem. achando-se no Brasil aos 15 de novembro de 1889. regra. Art. ou para as dos Estados: lº Os mendigos. Art. 2º Os analfabetos. dentro em seis meses depois de entrar em vigor a Constituição.96 • A Constituição de 1891 2º Os filhos de pai brasileiro e os ilegítimos de mãe brasileira. 5º Os estrangeiros que possuírem bens imóveis no Brasil. nascidos em país estrangeiro. 71. 4º Os estrangeiros que. . não declararem. 3º As praças de pret. b) por aceitação de emprego ou pensão de governo estrangeiro. ou comunidades de qualquer denominação. excetuados os alunos das escolas militares de ensino superior.

. 72. § 4º A República só reconhece o casamento civil. SEÇÃO II Declaração de Direitos Art. ou deixar de fazer alguma coisa. A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no país a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade. aos poderes públicos. bem como os títulos nobiliários e de conselho. ficando livre a todos os cultos religiosos a prática dos respectivos ritos em relação aos seus crentes. desde que não ofendam a moral pública e as leis. observadas as disposições do direito comum. § 6º Será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos. § 7º Nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial. desconhece foros de nobreza e extingue as ordens honoríficas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias. à segurança individual e à propriedade nos termos seguintes: § lº Ninguém pode ser obrigado a fazer. ou o dos Estados.A Constituição de 1891 • 97 § 3º Uma lei federal determinará as condições de reaquisição dos direitos de cidadão brasileiro. § 2º Todos são iguais perante a lei. nem terá relações de dependência ou aliança com o Governo da União. § 3º Todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e livremente o seu culto. § 8º A todos é lícito associarem-se e reunirem-se livremente e sem armas. associando-se para esse fim e adquirindo bens. § 5º Os cemitérios terão caráter secular e serão administrados pela autoridade municipal. senão para manter a ordem pública. denunciar abusos das autoridades e promover a responsabilidade dos culpados. não podendo intervir a polícia. A República não admite privilégio de nascimento. mediante petição. § 9º É permitido a quem quer que seja representar. cuja celebração será gratuita. senão em virtude de lei.

§ 15. salvas as exceções especificadas em lei. É inviolável o sigilo da correspondência. com todos os recursos e meios essenciais a ela. Em qualquer assunto é livre a manifestação do pensamento pela imprensa. com os nomes do acusador e das testemunhas. Ninguém poderá ser conservado em prisão sem culpa formada. e mediante ordem escrita da autoridade competente. de noite. em virtude de lei anterior e na forma por ela regulada. independentemente de passaporte. desde a nota de culpa. nem de dia. § 20. Nenhuma pena passará da pessoa do delinqüente. ou pela tribuna. As minas pertencem aos proprietários do solo. reservadas as disposições da legislação militar em tempo de guerra. qualquer um pode entrar no território nacional ou dele sair. mediante indenização prévia. À exceção do flagrante delito. § 12. § 18. A casa é o asilo inviolável do indivíduo. entregue em vinte e quatro horas ao preso e assinada pela autoridade competente. nos casos em que a lei a admitir. Aos acusados se assegurará na lei a mais plena defesa. se prestar fiança idônea. § 13. O direito de propriedade mantém-se em toda a plenitude. sem dependência de censura. § 19.98 • A Constituição de 1891 § 10. . senão para acudir a vítimas de crimes. salva a desapropriação por necessidade ou utilidade pública. quando e como lhe convier. salvas as limitações que forem estabelecidas por lei a bem da exploração deste ramo de indústria. senão depois de pronúncia do indiciado. nem levado à prisão. com a sua fortuna e bens. Fica igualmente abolida a pena de morte. Fica abolida a pena de galés e a de banimento judicial. § 14. salvos os casos determinados em lei. senão nos casos e pela forma prescritos na lei. respondendo cada um pelos abusos que cometer nos casos e pela forma que a lei determinar. ou desastres. Não é permitido o anonimato. § 17. § 11. sem consentimento do morador. § 21. Em tempos de paz. senão pela autoridade competente. ninguém pode aí penetrar. Ninguém será sentenciado. ou nela detido. § 16. a prisão não poderá executar-se.

Aos autores de obras literárias e artísticas é garantido o direito exclusivo de reproduzi-las pela imprensa ou por qualquer outro processo mecânico. os postos e os cargos inamovíveis são garantidos em toda a sua plenitude. Art. que a lei estatuir. § 29. Por motivo de crença ou função religiosa. ou militares. As patentes. e os que aceitarem condecorações ou títulos nobiliárquicos estrangeiros perderão todos os direitos políticos. A aposentadoria só poderá ser dada aos funcionários públicos em caso de invalidez no serviço da Nação. É garantido o livre exercício de qualquer profissão moral. § 30. porém. Art.A Constituição de 1891 • 99 § 22. 75. sendo. quando haja conveniência de vulgarizar o invento. . não haverá foro privilegiado. nenhum cidadão brasileiro poderá ser privado de seus direitos civis e políticos nem eximir-se do cumprimento de qualquer dever cívico. (*) Nova redação pela Emenda Constitucional de 3 de setembro de 1926. Os cargos públicos civis. são acessíveis a todos os brasileiros. vedadas as acumulações remuneradas. 73. Os que alegarem motivo de crença religiosa com o fim de se isentarem de qualquer ônus que as leis da República imponham aos cidadãos. ou abuso de poder. ou será concedido pelo Congresso um prazo razoável. A lei assegurará também a propriedade das marcas de fábrica. Os herdeiros dos autores gozarão desse direito pelo tempo que a lei determinar. § 28. ou coação. É mantida a instituição do júri (*). por ilegalidade. § 27. observadas as condições de capacidade especial. Art. Os inventos industriais pertencerão aos seus autores. § 26. 74. por sua natureza. pertencem a juízos especiais. aos quais ficará garantido por lei um privilégio temporário. intelectual e industrial. § 24. A exceção das causas que. § 31. Dar-se-á o habeas corpus sempre que o indivíduo sofrer ou se achar em iminente perigo de sofrer violência. Nenhum imposto de qualquer natureza poderá ser cobrado senão em virtude de uma lei que o autorize. § 23. § 25.

§ 4º As autoridades que tenham ordenado tais medidas são responsáveis pelos abusos cometidos. em caso de agressão estrangeira. Art. 80. o Presidente da República lhe relatará. restringir-se-á. § lº Este foro compor-se-á de um Supremo Tribunal Militar. durante o estado de sítio. Os militares de terra e mar terão foro especial nos delitos militares.100 • A Constituição de 1891 Art. Poder-se-á declarar em estado de sítio qualquer parte do território da União. § 2º A organização e atribuições do Supremo Tribunal Militar serão reguladas por lei. nº15). Art. as medidas de exceção que houverem sido tomadas. 77. e dos conselhos necessários para a formação da culpa e julgamento dos crimes. 2º O desterro para outros sírios do território nacional. a impor: 1º A detenção em lugar não destinado aos réus de crimes comuns. 78. quando a segurança da República o exigir. ou comoção intestina (art. passada em julgamento nos tribunais competentes. TÍTULO V DISPOSIÇÕES GERAIS Art. e correndo a Pátria iminente perigo. O cidadão brasileiro investido em funções de qualquer dos três poderes federais não pode exercer as de outro. motivando-as. mas resultantes da forma de governo que ela estabelece e dos princípios que consigna. § 3º Logo que se reunir o Congresso. § 2º Este. 34. 48. nº 21). § lº Não se achando reunido o Congresso. Art. 76. A especificação das garantias e direitos expressos na Constituição não exclui outras garantias e direitos não-enumerados. exercerá essa atribuição o Poder Executivo Federal (art. suspendendo-se aí as garantias constitucionais por tempo determinado. 79. porém. Os oficiais do Exército e da Armada só perderão suas patentes por condenação em mais de dois anos de prisão. cujos membros serão vitalícios. nas medidas de repressão contra as pessoas. .

Art. O Exército Federal compor-se-á de contingentes que os Estados e o Distrito Federal são obrigados a fornecer. 81. Art.A Constituição de 1891 • 101 Art. em defesa da Pátria e da Constituição. § 3º Fica abolido o recrutamento militar forçado. § 2º Na revisão não podem ser agravadas as penas da sentença revista. que poderá ser requerida pelo sentenciado. ao desempenho dos seus deveres legais. em matéria-crime. 34. de acordo com o nº 18 do art. no ato da posse. Art. por qualquer do povo. 83. O funcionário público obrigar-se-á por compromisso formal. Os funcionários públicos são estritamente responsáveis pelos abusos e omissões em que incorrerem no exercício de seus cargos. assim como pela indulgência ou negligência em não responsabilizarem efetivamente os seus subalternos. § lº Uma lei federal determinará a organização geral do Exército. poderão ser revistos. O Governo da União afiança o pagamento da dívida pública interna e externa. Parágrafo único. § 2º A União se encarregará da instrução militar dos corpos e armas e da instrução militar superior. Os processos findos. 82. 84. ou ex officio pelo Procurador-Geral da República. as leis do antigo regime. § 1º A lei marcará os casos e a forma da revisão. 85. enquanto não-revogadas. para reformar ou confirmar a sentença. pelo Supremo Tribunal Federal. Todo brasileiro é obrigado ao serviço militar. Art. 86. Art. Art. a qualquer tempo. Continuam em vigor. 87. § 3º As disposições do presente artigo são extensivas aos processos militares. . em benefício dos condenados. Os oficiais do quadro e das classes anexas da Armada terão as mesmas patentes e vantagens que os do Exército nos cargos de categoria correspondente. na forma das leis federais. constituídos de conformidade com a lei ânua de fixação de forças. no que explícita ou implicitamente não for contrário ao sistema de governo firmado pela Constituição e aos princípios nela consagrados.

Os Estados Unidos do Brasil em caso algum se empenharão em guerra de conquista. § 2º Essa proposta dar-se-á por aprovada se no ano seguinte o for. sendo apresentada por uma quarta parte. . em três discussões. § lº Considerar-se-á proposta a reforma. dos membros de qualquer das Câmaras do Congresso Nacional. mediante três discussões. as de Aprendizes Marinheiros e a Marinha Mercante. no decurso de um ano. É instituído um Tribunal de Contas para liquidar as contas das receita e despesa e verificar a sua legalidade. § 4º Não poderão ser admitidos como objeto de deliberação. ou das Assembléias dos Estados. 88. e em falta deste pelo sorteio. 89. antes de serem prestadas ao Congresso. por dois terços dos votos numa e noutra câmara. com aprovação do Senado. pelo menos. Art. for aceita. representado cada Estado pela maioria de votos de sua Assembléia. Art. sem prêmio. ou quando for solicitada por dois terços dos Estados. Art. por maioria de dois terços dos votos nas duas câmaras do Congresso. previamente organizado. no Congresso. § 3º A proposta aprovada publicar-se-á com as assinaturas dos presidentes e secretários das duas câmaras. direta ou indiretamente. 91. e somente perderão os seus lugares por sentença. por si ou em aliança com outra nação. mediante sorteio. por iniciativa do Congresso Nacional. Os membros deste Tribunal serão nomeados pelo Presidente da República. será ela promulgada pela Mesa do Congresso e assinada pelos membros deste. 90. Concorrem para o pessoal da Armada a Escola Naval. projetos tendentes a abolir a forma republicana federativa ou a igualdade da representação dos Estados no Senado. quando. Aprovada esta Constituição.102 • A Constituição de 1891 § 4º O Exército e a Armada compor-se-ão pelo voluntariado. A Constituição poderá ser reformada. e incorporar-se-á à Constituição como parte integrante dela. Art.

§ 7º Em caso de empate. por ato do Congresso. se nenhum candidato a obtiver. § 5º No primeiro ano da primeira legislatura. separando-se em Câmara e Senado. § 2º O Presidente e o Vice-Presidente. 1º Promulgada esta Constituição. decidindo-se por sorteio. elegerá em seguida por maioria absoluta de votos. correspondentes aos três terços. 3º À proporção que os Estados se forem organizando. não podendo em hipótese alguma ser dissolvido. o Presidente e o Vice-Presidente dos Estados Unidos do Brasil. à de um dos outros. Art. e liquidará a responsabilidade da administração federal no tocante a esses serviços e ao pagamento do pessoal respectivo. considerar-se-ão favorecidos os mais velhos. § 3º Para essa eleição não haverá incompatibilidades. o Governo Federal entregar-lhes-á a administração dos serviços. discriminará o Senado o terço de seus membros. § 6º Essa discriminação efetuar-se-á em três listas. até que o Estado sujeito a esse regime a reforme. eleitos na forma deste artigo.A Constituição de 1891 • 103 DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS Art. ocuparão a presidência e a vice-presidência da República durante o primeiro período presidencial. § 4º Concluída ela. Art. § lº Essa eleição será feita em dois escrutínios distintos para o Presidente e o Vice-Presidente respectivamente. na primeira votação. de modo que se distribua ao terço do último triênio o primeiro votado no Distrito Federal e em cada um dos Estados. graduando-se os senadores de cada Estado e os do Distrito Federal pela ordem de sua votação respectiva. recebendo-se e apurando-se em primeiro lugar as cédulas para Presidente e procedendo-se em seguida do mesmo modo para o Vice-Presidente. por maioria relativa na segunda. logo nos trabalhos preparatórios. e. . encetará o exercício de suas funções normais a 15 de junho do corrente ano. que mais conveniente a essa adaptação parecer. reunido em assembléia geral. pelo processo nela determinado. que pela Constituição lhes competirem. e aos dois terços seguintes os outros dois nomes na escala dos sufrágios obtidos. 2º O Estado que até o fim de ano de 1892 não houver decretado a sua Constituição será submetido. quando a idade for igual. o Congresso. e. o Congresso dará por terminada a sua missão constituinte. cujo mandato há de cessar no termo do primeiro e do segundo triênios.

. o Governo Federal abrir-lhes-á para esse fim créditos especiais. a contar de 15 de novembro de 1889. Parágrafo único. 8º O Governo Federal adquirirá para a Nação a casa em que faleceu o Dr. Art.Pedro de Alcântara. até que sejam aproveitados ou aposentados com ordenado correspondente ao tempo de exercício. na cidade do Rio de Janeiro. ex-Imperador do Brasil. terceiro da República. serão aposentados com todos os seus vencimentos. o usufruto da casa mencionada. garanta-lhe. entrará em vigor a classificação das rendas estabelecidas na Constituição. a todas as autoridades. 5º Nos Estados que se forem organizando. por todo o tempo de sua vida. a quem o conhecimento e execução desta Constituição pertencerem. que a executem e façam executar e observar fiel e inteiramente como nela se contém. Benjamin Constant terá. subsistência decente. 4º Enquanto os Estados se ocuparem em regularizar as despesas. A viúva do mesmo Dr. Publique-se e cumpra-se em todo território da Nação. Art. em vinte e quatro de fevereiro de mil oitocentos e noventa e um. Os que não forem admitidos na nova organização judiciária. 7º É concedida a D. 6º Nas primeiras nomeações para a magistratura federal e para a dos Estados serão preferidos os juízes de direito e os desembargadores de mais nota. durante o período de organização dos seus serviços. portanto. Os que tiverem menos de 30 anos de exercício continuarão a perceber seus ordenados. Mandamos. Benjamin Constant Botelho de Magalhães e nela mandará colocar uma lápide em homenagem à memória do grande patriota . e tiverem mais de 30 anos de exercício. As despesas com os magistrados aposentados ou postos em disponibilidade serão pagas pelo Governo Federal. enquanto viver. fixará o quantum desta pensão. uma pensão que.104 • A Constituição de 1891 Art. Sala das Sessões do Congresso Nacional Constituinte. segundo as condições estabelecidas por lei. O Congresso ordinário. Art. em sua primeira reunião. Art.o fundador da República.

Deputado pelo Estado de Minas Gerais. Dr. Senador pelo Estado de São Paulo. Dr. Deputado pelo Estado do Paraná. Senador pelo Estado da Paraíba. idem. . Vice-Presidente do Congresso. João de Matta Machado. José de Paes de Carvalho. Senador pelo Estado do Pará. Eduardo Mendes Gonçalves. António Euzébio Gonçalves de Almeida. Deputado pelo Estado da Bahia.A Constituição de 1891 • 105 Prudente José de Morais Barros. 2º Secretário. Manoel Francisco Machado. Presidente do Congresso. 3º Secretário. Tenente-Coronel João Soares Neiva. 1º Secretário. idem. 4º Secretário. Senador pelo Estado de Amazonas. Joaquim José Pães da Silva Sarmento. Leovigildo de Souza Coelho.

EMENDAS À CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1891 Nós. mandamos publicar as seguintes emendas à mesma Constituição. j) os direitos políticos e individuais assegurados pela Constituição. c) o governo presidencial. II) para assegurar a integridade nacional e o respeito aos seguintes princípios constitucionais: a) a forma republicana. g) a capacidade para ser eleitor ou elegível nos termos da Constituição. 90 da Constituição Federal e para o fim nele prescrito. h) um regime eleitoral que permita a representação das minorias. 6º da Constituição pelo seguinte: "Art. aprovadas nas duas Câmaras do Congresso Nacional. salvo: I) para repelir invasão estrangeira. . de acordo com o § 3º do art. i) a inamovibilidade e vitaliciedade dos magistrados e a irredutibilidade dos seus vencimentos. 6º O Governo Federal não poderá intervir em negócios peculiares aos Estados. d) a independência e harmonia dos Poderes. b) o regime representativo. k) a não-reeleição dos Presidentes e Governadores. Presidentes e Secretários do Senado e da Câmara dos Deputados. Substitua-se o art. ou de um Estado em outro. f) a autonomia dos municípios. e) a temporalidade das funções eletivas e a responsabilidade dos funcionários.

independentemente de provocação. a Despesa e tomar as contas de ambas. privativamente. 4º Regular a arrecadação e a distribuição das rendas federais. prorrogado o orçamento anterior. ao Supremo Tribunal Federal requisitar do Poder Executivo a intervenção nos Estados.. nos demais casos compreendidos neste artigo. Compete privativamente ao Congresso Nacional: lº Orçar. cuja incapacidade para a vida autônoma se demonstrar pela cessação de pagamentos de sua dívida fundada. quando qualquer dos poderes públicos estaduais a solicitar (nº III). § 2º Compete. relativas a cada exercício financeiro. quando até 15 de janeiro não estiver o novo em vigor. por mais de dois anos. pôr termo à guerra civil. a fim de assegurar a execução das sentenças federais (nº IV). privativamente. para decidir da legitimidade de poderes em caso de duplicata (nº III). 3º Legislar sobre a dívida pública e estabelecer os meios para o seu pagamento." Substitua-se o art. § 1º Cabe. anualmente a Receita e fixar. . por solicitação de seus legítimos representantes.108 •Emendas l) a possibilidade de reforma constitucional e a competência do Poder Legislativo para decretá-la. quando o Congresso decretar a intervenção (§ lº). ao Presidente da República intervir nos Estados. 34 da Constituição pelo seguinte: "Art. ao Congresso Nacional decretar a intervenção nos Estados para assegurar o respeito aos princípios constitucionais da União (nº II). e. § 3º Compete. 2º Autorizar o Poder Executivo a contrair empréstimos e a fazer outras operações de crédito. e para. IV) para assegurar a execução das leis e sentenças federais e reorganizar as finanças do Estado. quando o Supremo Tribunal a requisitar (§ 3º). privativamente. III) para garantir o livre exercício de qualquer dos poderes públicos estaduais. anualmente. respeitada a existência dos mesmos. e para reorganizar as finanças do Estado insolvente (nº IV). 34. independente de solicitação.

. e sobre o alfandegamento de portos e a criação ou supressão de entrepostos. ou se estendam a territórios estrangeiros. 23. 16. 6º Legislar sobre a navegação dos rios que banhem mais de um Estado. comercial e criminal da República e o processual da justiça federal. 18. as forças de terra e mar. 12. Autorizar o Governo a declarar guerra. 22. os do Distrito Federal e os do território nacional com as nações limítrofes. Conceder ou negar passagem a forças estrangeiras pelo território do país. 17. 14. 8º Criar bancos de emissão. Legislar sobre o serviço dos correios e telégrafos federais. quando até 15 de janeiro não estiver a nova em vigor. prorrogada a fixação anterior. e a fazer a paz. anualmente. a inscrição. 15. ou seus agentes responsáveis. o valor. 13. podendo autorizar as limitações exigidas pelo bem público. Resolver definitivamente sobre os tratados e convenções com as nações estrangeiras. 21. 19. 20. Mudar a capital da União. e aprovar ou suspender o sítio que houver sido declarado pelo Poder Executivo. para operações militares. 9º Fixar o padrão dos pesos e medidas. 11. Resolver definitivamente sobre os limites dos Estados entre si. legislar sobre ela e tributá-la. Fixar. Regular as condições e o processo da eleição para os cargos federais em todo o país. na ausência do Congresso. 7º Determinar o peso. Conceder subsídios aos Estados na hipótese do artigo SP. 10. Legislar sobre o direito civil. se não tiver lugar ou malograr-se o recurso do arbitramento. Adotar o regime conveniente à segurança das fronteiras. Legislar sobre a organização do Exército e da Armada.A Constituição de 1891 •109 5º Legislar sobre o comércio exterior e interior. Estabelecer leis sobre naturalização. Declarar em estado de sítio um ou mais pontos do território nacional na emergência de agressão por forças estrangeiras ou de comoção interna. o tipo e a denominação das moedas.

33. o ensino superior e os demais serviços que na Capital forem reservados para o Governo da União. 37 pelo seguinte: "§ 1º Quando o Presidente da República julgar um projeto de lei. Conceder anistia. 30. aos funcionários federais. nem alterar.110 •Emendas 24. não as podendo conceder. fixar-lhes as atribuições e estipular-lhes os vencimentos. inconstitucional ou contrário aos interesses na- . Regular os casos de extradição entre os Estados. 35. Não se incluem nessa proibição: a) a autorização para abertura de créditos suplementares e para operações de crédito como antecipação da Receita. por leis especiais. Organizar a Justiça Federal. inclusive os das Secretarias das Câmaras e dos Tribunais. no todo ou em parte. por crimes de responsabilidade. 28. Legislar sobre o trabalho. 29. Decretar as leis orgânicas para a execução completa da Constituição. Submeter à legislação especial os pontos do território da República necessários para a fundação de arsenais. Legislar sobre a organização municipal do Distrito Federal. nos termos do art. ou outros estabelecimentos e instituições de conveniência federal. 34. § lº As leis de orçamento não podem conter disposições estranhas à previsão da Receita e à Despesa fixada para os serviços anteriormente criados. bem como sobre a polícia. Legislar sobre licenças. 55 e seguintes da Seção III. 25. Decretar leis e resoluções necessárias ao exercício dos poderes que pertencem à União. 26. Comutar e perdoar as penas impostas. Criar e suprimir empregos públicos federais. 27. b) a determinação do destino a dar ao saldo do exercício ou do modo de cobrir o déficit. Prorrogar e adiar suas sessões. 32. § 2º É vedado ao Congresso conceder créditos ilimitados." *** Substitua-se o § 1º do art. aposentadorias e reformas. 31.

nos crimes comuns e nos de responsabilidade. d) os litígios entre um Estado e habitantes de outro. 59 e 60 da Constituição pelo seguinte: "Art. indenização de prejuízos. III. nos crimes comuns. nos casos do art. c) as causas provenientes de compensações. processar e julgar: a) as causas em que alguma das partes fundara ação. a contar daquele em que o recebeu. devolvendo. o vetará. II. dentro de dez dias úteis. 52. e) os conflitos dos juízes ou tribunais federais entre si. À Justiça Federal compete: Ao Supremo Tribunal Federal: I. em disposição da Constituição Federal. d) os litígios e as reclamações entre nações estrangeiras e a União ou os Estados.A Constituição de 1891 • 111 cionais. . total ou parcialmente. Aos juízes e tribunais federais. ou entre estes. e) os pleitos entre Estados estrangeiros e cidadãos brasileiros. julgar em grau de recurso as questões excedentes da alçada legal resolvidas pelos juízes e tribunais federais. uns com os outros. ou entre estes e os dos Estados. nesse prazo e com os motivos do veto. ou quaisquer outras propostas pelo Governo da União contra particulares ou vice-versa. leis e regulamentos do Poder Executivo. b) os ministros diplomáticos. em matéria-crime. ou a parte vetada. e os ministros de Estado. reivindicações. b) todas as causas propostas contra o Governo da União ou Fazenda Nacional. ou a defesa. ou em contratos celebrados com o mesmo Governo. rever os processos findos. processar e julgar originária e privativamente: a) o Presidente da República. o projeto." Substituam-se os arts. c) as causas e conflitos entre a União e os Estados. à Câmara onde ele se houver iniciado. assim como os dos juízes e tribunais de um Estado com os juízes e os tribunais de outro Estado. fundadas em disposições da Constituição.

h) os crimes políticos. § 2º Nos casos em que houver de aplicar leis dos Estados. vice-versa. para a justiça federal ou local. contra a intervenção nos Estados. e a decisão do tribunal do Estado considerar válidos esses atos. as justiças dos Estados consultarão a jurisprudência dos tribunais federais. d) quando se tratar de questões de direito criminal ou civil internacional. quando houverem de interpretar leis da União. quer em convenções ou tratados da União com outras nações. aos quais a polícia local é obrigada a prestar auxílio. a Justiça Federal consultará a jurisprudência dos tribunais locais e. c) quando dois ou mais tribunais locais interpretarem de modo diferente a mesma lei federal. § lº Das sentenças das justiças dos Estados em última instância haverá recurso para o Supremo Tribunal Federal: a) quando se questionar sobre a vigência ou a validade das leis federais em face da Constituição e a decisão do tribunal do Estado lhes negar aplicação. g) as questões de direito marítimo e navegação. a posse.112 • Emendas f) as ações movidas p o r estrangeiros e fundadas. na vigência do estado de sítio." . a legitimidade e a perda de mandato dos membros do Poder Legislativo ou Executivo. § 5º Nenhum recurso judiciário é permitido. § 4º As sentenças e ordens da magistratura federal são executadas por oficiais judiciários da União. b) quando se contestar a validade de leis ou de atos dos governos dos Estados em face da Constituição. quando invocado por eles. podendo o recurso ser também interposto por qualquer dos tribunais referidos ou pelo procurador-geral da República. quer em contratos com o Governo da União. assim no oceano c o m o nos rios e lagos do país. não poderão os tribunais conhecer dos atos praticados em virtude dele pelo Poder Legislativo ou Executivo. e a verificação de poderes. federal ou estadual. ou das leis federais. a declaração do estado de sítio. § 3º É vedado ao Congresso cometer qualquer jurisdição federal às justiças dos Estados. o reconhecimento. ou essas leis impugnadas. assim como.

72 da Constituição pelo seguinte. § 2º Todos são iguais perante a lei. aos poderes públicos. ou deixar de fazer alguma coisa. cuja celebração será gratuita. com sua fortuna e seus bens. Em tempo de paz. não podendo intervir a polícia senão para manter a ordem pública. bem como os títulos nobiliárquicos e de conselho. A representação diplomática do Brasil junto à Santa Sé não implica violação deste princípio. § 9° É permitido a quem quer que seja representar. observadas as disposições do direito comum. § 8º A todos é lícito associarem-se e reunirem-se livremente e sem armas. denunciar abusos das autoridades e promover a responsabilidade dos culpados. § 5º Os cemitérios terão caráter secular e serão administrados pela autoridade municipal. nos termos seguintes: § lº Ninguém pode ser obrigado a fazer. à segurança individual e à propriedade. § 3º Todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e livremente o seu culto. desde que não ofendam a moral pública e as leis. A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no país a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade. A República não admite privilégios de nascimento.A Constituição de 1891 • 113 Substitua-se o art. . senão em virtude de lei. § 10. § 7º Nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial. mediante petição. nem terá relações de dependência ou aliança com o Governo da União ou o dos Estados. § 4º A República só reconhece o casamento civil. ficando livre a todos os cultos religiosos a prática dos respectivos ritos em relação aos seus crentes. "Art. qualquer pessoa pode entrar no território nacional ou dele sair. § 6º Será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos. desconhece foros de nobreza e extingue as ordens honoríficas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias. associando-se para esse fim e adquirindo bens.

Dar-se-á o habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar em iminente perigo de sofrer violência por meio de prisão ou constrangimento ilegal em sua liberdade de locomoção. § 14. . ou desastres. § 18. ou pela tribuna. A casa é o asilo inviolável do indivíduo. É inviolável o sigilo da correspondência. Ninguém poderá ser conservado em prisão sem culpa formada. em virtude de lei anterior e na forma por ela regulada. Ninguém será sentenciado. § 19. sem dependência de censura. § 12. § 15. desde a nota de culpa. Fica abolida a pena de galés e a de banimento judicial. salvo a desapropriação por necessidade. sem consentimento do morador. senão pela autoridade competente. Fica igualmente abolida a pena de morte. com os nomes do acusador e das testemunhas. § 13. nem levado à prisão. § 20. Não é permitido o anonimato. mediante indenização prévia. § 17. ninguém pode aí penetrar. entregue em 24 horas ao preso e assinada pela autoridade competente. a prisão não poderá executar-se senão depois de pronúncia do indiciado. salvo os casos determinados em lei. À exceção do flagrante delito. Em qualquer assunto é livre a manifestação do pensamento pela imprensa.114 • Emendas § 11. a bem da exploração das mesmas. reservadas as disposições da legislação militar em tempo de guerra. ou utilidade pública. e mediante ordem escrita da autoridade competente. de noite. § 22. Aos acusados se assegurará na lei a mais plena defesa. salvo as limitações estabelecidas por lei. b) As minas e jazidas minerais necessárias à segurança e defesa nacionais e as terras onde existirem não podem ser transferidas a estrangeiros. § 16. ou nela detido. senão para acudir a vítimas de crimes. se prestar fiança idônea. O direito de propriedade mantém-se em toda a sua plenitude. nem de dia. a) As minas pertencem ao proprietário do solo. com todos os recursos e meios essenciais a ela. Nenhuma pena passará da pessoa do delinqüente. senão nos casos e pela forma prescritos na lei. salvo as exceções especificadas em lei. nos casos em que a lei a admitir. respondendo cada um pelos abusos que cometer nos casos e pela forma que a lei determinar. § 21.

À exceção das causas.Manoel Joaquim de Mendonça Martins. § 31. § 26. nem vencimento algum. Aos autores de obras literárias e artísticas é garantido o direito exclusivo de reproduzi-las pela imprensa ou por qualquer outro processo mecânico. § 33. Presidente do Senado . Nenhum emprego pode ser criado. As disposições constitucionais assecuratórias da irredutibilidade de vencimentos civis ou militares não eximem da obrigação de pagar os impostos gerais criados em lei. 1º Se- cretário do Senado. nem eximir-se do cumprimento de qualquer dever cívico.A Constituição de 1891 • 115 § 23. quando haja conveniência de vulgarizar o invento. § 28. Por motivo de crença ou de função religiosa nenhum cidadão brasileiro poderá ser privado de seus direitos civis e políticos. § 29. – Estácio de Albuquerque Coimbra. § 34." Rio de Janeiro. civil ou militar. intelectual e industrial. § 24. É permitido ao Poder Executivo expulsar do território nacional os súditos estrangeiros perigosos à ordem pública ou nocivos aos interesses da República. § 30. 3 de setembro de 1926. Nenhum imposto de qualquer natureza poderá ser cobrado senão em virtude de uma lei que o autorize. É garantido o livre exercício de qualquer profissão moral. § 32. que por sua natureza pertencem a juízos especiais. aos quais ficará garantido por lei um privilégio temporário ou será concedido pelo Congresso um prêmio razoável. § 25. Os herdeiros dos autores gozarão desse direito pelo tempo que a lei determinar. . pode ser estipulado ou alterado senão por lei ordinária especial. Os que alegarem motivo de crença religiosa com o fim de se isentarem de qualquer ônus que as leis da República imponham aos cidadãos e os que aceitarem condecoração ou títulos nobiliárquicos estrangeiros perderão todos os direitos políticos. A lei assegurará a propriedade das marcas de fábrica. Os inventos industrias pertencerão aos seus autores. não haverá foro privilegiado. § 27. É mantida a instituição do júri.

por Angelo Agostini. 611 (Quintino de Sousa Bocaiúva e Pinheiro Machado.. GB). 26-6-1875). caricatura de Raul. p. II. Silva. 1895-1910. in Fon-Fon. III. Rio de Janeiro. 548 (Benjamin Constant.. arquivo Plínio Doyle). Vol. Museu da República. p. 1975. Livraria José Olympio Ed. 1887). 1976. Coleção História do Brasil. Afonso Arinos de Melo. in Revista Ilustrada. S. 1976. II (Pedro II. II. 1963 (Saldanha e Zacarias. Museu Republicano de Itu. p. 1985 (Francisco de Paula Rodrigues Alves). Vol.. Afonso Arinos de Melo. Herman. p. Coleção História do Brasil. e São Paulo. Três.. por Oscar Pereira da Silva. 1868). Rio de Janeiro. 1985 (Manoel Ferraz Campos Sales. Vol. Rio de Janeiro. Museu Histórico Nacional. in Revista Ilustrada.CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕES Referências das ilustrações por ordem de entrada: Viana Filho. Silva. 543 (Marechal Deodoro da Fonseca.. II. Bloch Editores S. Vol. Ed. arquivo Plínio Doyle). Ed. Franco. Museu Republicano de Itu. 1973. caricatura in Vida Fluminense. A. A. O Poder Civil – 1895-1910. Vol. 709 (Venceslau Brás e Rodrigues Alves. p. Rio de Janeiro. Vol. O Poder Civil. Rodrigues Alves: Apogeu e Declínio do Presidencialismo. A. Rio de Janeiro. 1973. Hélio. Ed. Ed. 554 (Floriano Peixoto. p. Franco. e São Paulo. p. III. GB). da Universidade de São Paulo. Rio de Janeiro. Pedro II. in O Malho). SP). Hélio. Rio de Janeiro. SP). por Oscar Pereira da Silva. Luiz. p. 643 (Francisco Glicério.. arquivo de João Lira Filho). Três. Vol. da Universidade de São Paulo. Livraria José Olímpio Ed. Livraria José Olympio Ed. Livraria José Olímpio Ed. 1976. 1949. Ed. Coleção História do Brasil. Bloch Editores S. História da Caricatura no Brasil. 40 (foto. Rio de Janeiro. III. Araken. 26 (charge D. p. Rodrigues Alves: Apogeu e Declínio do Presidencialismo. por Pereira Neto. Pedro II através da Caricatura. Rui & Nabuco. p. Livraria José Olympio Ed. Afonso Arinos de Melo. 562 (C) Congresso e a Constituição. e São Paulo. Távora. . 551 (Prudente de Moraes. Coleção Documentos Brasileiros. Rodrigues Alves: Apogeu e Declínio do Presidencialismo. Lima. óleo de Edouard Viennot. capa). Franco. Bloch Ed. A. 1891). Bloch Editores S. 1973. da Universidade de São Paulo.

118 • Crédito das Ilustrações Távora. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 1888). Bloch Editores S. Museu da República. Vol. Museu da República. por Angelo Agostini. GB). III. Bloch Editores S. Museu da República. p. Pedro II através da Caricatura. 1889).. charge "Altas Cavalarias". 622 (Artur Bemardes. Lima. Távora. GB). 620 (Epitácio Pessoa. Araken. por Angelo Agostini. 46 (D. p. 47 (D. Bloch Ed. p. Pedro II através da Caricatura. Rio de Janeiro. A. Pedro II. I. 1963. Rio de Janeiro. . p. 1975. charge "Última Fala do Trono". Lixto). Vol. 1975. Livraria José Olímpio. p. Coleção História do Brasil. Herman. por K. in Revista Ilustrada.. p. Pedro II. por Krönstrand. GB). Araken. por Krönstrand. 607 (Nilo Peçanha. charge "A Fala do Trono". 1976. História da Caricatura Brasileira. Ed. S. A. in Revista Ilustrada. 275 (Hermes da Fonseca.. A.

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SEEP Subsecretaria de Edições Técnicas CONSELHO EDITORIAL .CEE/MCT Escola de Administração Fazendária .ESAF/MF Uma publicação do Conselho Editorial do Senado Federal. Senado Federal Centro de Estudos Estratégicos .Esta coleção é resultado de uma parceria entre o Conselho Editorial do Senado Federal. Os discursos ouvidos na introdução do CDRom são de Afonso Arinos e Ulisses Guimarães e foram proferidos no encerramento da Constituinte em 5/10/1988. o Centro de Estudos Estratégicos CEE/MCT e a Escola Fazendária ESAF/MF. Cada volume é comentado por um especialista que analisa e contextualiza as versões de nossa Carta Magna. Produzido e impresso na Secretaria Especial de Editoração e Publicações .

VOLUME I Otaciano Nogueira VOLUME II Aliomar Baleeiro VOLUME III Ronaldo Poletti VOLUME IV Walter Costa Porto VOLUME V Aliomar Baleeiro e Barbosa Lima Sobrinho VOLUME VI Themístocles Brandão Cavalcanti. Luiz Navarro de Brito e Aliomar Baleeiro VOLUME VI a Emendas Constitucionais VOLUME VII Caio Tácito .