Historiografia em debate: a escravidão colonial nas obras de Jacob Gorender, Kátia Mattoso, João José Reis e Luiz Felipe

de Alencastro
José P. S. Júnior

1. Introdução

A historiografia brasileira já produziu várias obras sobre a escravidão, cada qual construída de acordo com a tendência e a metodologia adotadas por seus autores. Em 1933, Gilberto Freyre lançava “Casa-Grande e Senzala”, obra que caracterizava a escravidão como um sistema paternalista na relação entre senhores e escravos, evidenciada na grande miscigenação ocorrida no país. Esta obra de Freyre é de fundamental importância para o estudo historiográfico sobre a escravidão porque, além de ter sido inovadora na época, posteriormente veio representar um dos pontos centrais no debate entre os historiadores que negam e os que compactuam com as concepções freyrianas. Tendo em vista o estudo historiográfico, este trabalho monográfico analisa historicamente o desenvolvimento dos estudos relativos à escravidão no Brasil, fazendo referências a pontos de vista que se divergem ou que se compactuam, se rompem ou se completam, se negam, mas, por fim, enriquecem o entendimento histórico. Sendo assim, é mister o entendimento dos instrumentos metodológicos para a compreensão das obras que também são construídas historicamente em espaço e período determinados. A nossa análise então, mostra a dialética existente entre as construções historiográficas que, ao nosso ver, contribui para o entendimento histórico com a multiplicação de enfoques presentes nas diversificadas vertentes, que são apoiadas nas mais variadas fontes. A relação entre micro e macro-história está no germe da discussão entre o Marxismo e a Nova História. Estamos tão habituados a ver a história como um produto de categorias que às vezes nos esquecemos que expressões como Capitalismo, Socialismo, Evangelização, Escravatura e outras abstrações são formadas por homens e mulheres que também possuem as suas individualidades, embora estejam integradas ao contexto. No primeiro capítulo apresentaremos um histórico dos estudos sobre a escravidão no Brasil, abordando desde as pesquisas de Gilberto Freyre até os estudos de historiadores mais recentes, os quais serão o foco central de nossa análise. Para tanto, utilizamos análises historiográficas de autores como Suely Robles Reis Queiróz e Ciro Flamarion Cardoso para levantar dados gerais sobre o estudo de tal tema.

Já no segundo, capítulo abordamos a influência do Marxismo na construção do conhecimento histórico, primeiramente, por meio da Escola Paulista que teve a participação de pesquisadores como Florestan Fernandes e Emília Viotti da Costa. Em um segundo momento, temos a influência marxista de forma mais marcante na abordagem de Jacob Gorender a respeito do Modo de Produção Escravista. No terceiro e último capítulo, analisamos a penetração da Nova História na historiografia brasileira com a multiplicação de fontes e objetos históricos para os estudos sobre a escravidão no Brasil. Esses novos enfoques são observados por esta monografia, principalmente, nas obras de Kátia Mattoso e João José Reis. Além desses pesquisadores, verificamos também a tese do professor Luiz Felipe de Alencastro sobre a influência da relação Brasil-África para formação social e econômica do Brasil.

2.

A escravidão no Brasil: História e Historiografia

2.1. O mito da “Democracia Racial” sob suspeita

Em sua obra O Escravismo Colonial (1978), Jacob Gorender expõe a escravidão no Brasil, não como uma sucessão de eventos marcados pela cronologia, mas como um sistema econômico-social fundamentado no modo-de-produção escravista. Já em A Escravidão Reabilitada (1990), Gorender analisa as teses que surgiram na década de 80, que, conforme o autor, possuem caráter neopaternalista, ao defenderem que o escravo teria um certo espaço de negociação com os senhores. Para Jacob Gorender, as obras de Kátia Mattoso e Sílvia Lara, por exemplo, resgataram a concepção de escravidão benemerente que outrora Gilberto Freyre já havia edificado por meio de Casa-grande e Senzala (1933). Freyre argumentou contra a teoria racista de Oliveira Vianna e fez notáveis descobertas sobre as raízes africanas da cultura brasileira, mérito a respeito do qual a crítica de esquerda tem sido omissa. Mas isto veio conjugado a duas teses fundamentais: a do caráter patriarcal excepcionalmente benigno da escravidão lusobrasileira e a da vigência da democracia racial em nossa sociedade. O livro de Gilberto Freyre não foi contestado imediatamente após a sua publicação nem no Brasil nem no exterior onde, inclusive, obteve repercussão significativa, tendo o “mito da democracia racial” brasileira se alastrado pelo mundo acadêmico, visto que o estudo da escravidão negra no Brasil é pedra basilar para a compreensão do tráfico de escravos africanos dentro do processo de acumulação de capital. Porém, nos anos 50 e 60 surgiram várias teses que se opuseram frontalmente à concepção de relação benevolente entre senhores e cativos defendida por Freyre. Dentre esses que apresentaram teses refutando a concepção freyriana, podemos destacar Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Emília Viotti da Costa, Fernando Henrique Cardoso dentre outros.

. Outra ressalva fundamental para entender esse surto de mudança no tocante ao desenvolvimento de pesquisas universitárias. na vida cultural.”. O historiador José Roberto do Amaral Lapa. nos costumes. as “ [. Seguindo a linha interpretativa de Fernandes. propondo várias revisões em concepções edificadas na história brasileira. que a influência do pensamento marxista era evidente. O estudo sobre a escravidão foi um exemplo disso. Os intelectuais durante as décadas de 50 e 60 acompanhavam as mudanças no contexto nacional e mundial.. Para esses autores. em algumas universidades houve uma ampliação de autonomia e renovações em suas estruturas de pesquisa. Ponto de vista claramente influenciado pelo pensamento de Karl Marx.358) . perdurou na sociedade brasileira. Porém. São elas “A Metamorfose do Escravo” (1962) de Octávio Ianni e “Capitalismo e Escravidão” (1962) de Fernando Henrique Cardoso. é que a partir da década de 50. p. o sistema escravista brasileiro foi fundamental no contexto de acumulação de capital. Cabe salientar. Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni levantaram dados sobre a situação dos negros no Brasil. em contrapartida o interesse por temas de história não brasileira sofreu decadência significativa entre os mestrandos e doutorandos.. Segundo Leandro Konder (2000. foram responsáveis por refutar o “mito da democracia racial” no Brasil. Ao passo que a produção historiográfica brasileira avançava nas pesquisas de temas relacionados à História do Brasil.] mudanças que ocorriam na sociedade brasileira. Florestan Fernandes passou a desenvolver pesquisas em relação à situação do negro na sociedade brasileira. chegou à conclusão insatisfatória sobre essa produção. 1996. é mister remontarmos ao desenvolvimento das pesquisas universitárias no Brasil.. Esses intelectuais. Para a compreensão do estágio recente da historiografia brasileira. A consolidação dos cursos de pós-graduação em história apenas viria nos anos 80. visto que as idéias de Marx eram cada vez mais estudadas nas universidades brasileiras. o mundo estava em plena Guerra Fria.] multiplicação de enfoques teóricos e metodológicos” (FICO. não podiam deixar de influir nas modificações de pensar a história. e com ela também viria o que Carlos Fico e Ronald Polito chamam de evolução significativa na produção historiográfica com a “ [.194). durante três centenas de anos. temos que ressaltar que as décadas de 50 e 60. no quotidiano da população e nas relações com o mundo „lá fora´ (no exterior). dentre as quais destaca-se a Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. Dessas pesquisas surgiram duas obras de fundamental importância na historiografia sobre o negro no Brasil. propondo revisões a respeito do racismo no Brasil e ao caráter da escravidão negra que. Desta forma.Para entender essa mudança de postura no mundo acadêmico. nas atividades políticas. a partir dos anos 80 a produção de teses e dissertações deu grande salto. POLITO. o marxismo foi utilizado por vários autores da geração de 50 e 60 como um instrumento metodológico de análise. ao analisar a produção historiográfica brasileira dos anos 70 e início dos 80. p. “Para se ter uma .

194).2. Conforme Ronaldo Vainfas. principalmente pelo centenário da Abolição da Escravatura ocorrido em 1988. fórmula bem-humorada de reconhecer o pioneirismo de ambos no tratamento de certos temas de nossa história que só a custo. A penetração da Nova História na historiografia brasileira Assim. No caso de Gilberto Freyre. que o papel se inverteu: o marxismo que atacava anteriormente. 1997. o total de dissertações de mestrado foi de 275. 1996. naquele momento passou a ser vítima de críticas de autores que.” (FICO. de certa forma. POLITO. entre os que pesquisam a história cultural no Brasil. É claro que devemos salientar. Dentre essas teses e dissertações. a partir dos anos 80. que Freyre e Sérgio Buarque „faziam história das mentalidades sem o saber‟. que outrora tivera sido o catalisador que embasou as revisões sobre a história da escravidão no Brasil. um dos temas rememorados foi a escravidão negra no Brasil.156). A Nova História tardou em penetrar na historiografia brasileira. (VAINFAS. Jacob Gorender analisou e criticou a geração de pesquisadores da escravidão brasileira. dentre os quais. e graças à penetração da Nova História na universidade brasileira passaram a ser valorizados pelos pesquisadores. como a chamada Escola Paulista refutou o pensamento de Gilberto Freyre em relação à escravidão. também passavam a ter contato com a Nova História que passou a influenciar cada vez mais no contexto de pesquisa universitária. tendo em vista que o movimento operário foi um dos temas mais abordados por essa geração. p. entre 1973 e 1979. o pensamento de Marx. E apenas entre 1990 e 1993 foram defendidas cerca de 350 dissertações. entrando na vida acadêmica brasileira de fato apenas nos anos 80. ele caracterizou alguns como resgatadores do pensamento freyriano. isso se deve ao “boom editorial” ocorrido no Brasil naquela época com a tradução de vasta obra estrangeira e publicação de várias teses universitárias já incorporadas à Nova História. as idéias marxistas serviram como resistência intelectual. que nos anos 80. 2. p. estava desgastado e era alvo de críticas por parte de pesquisadores que passaram a refutar. Nota-se. porém é inovadora em vários outros como nos estudos das relações . A ausência do debate sobre a Nova História no Brasil durante os anos 70 é explicável pelo fato que os militares estavam no auge de seu governo. se por um lado a ditadura causava inibição no âmbito da Nova História. Segundo Ronaldo Vainfas: É comum dizer-se. Entre 1980 e 1989 este número elevou-se para 665. o marxismo. “Casa-grande e Senzala” (1933) é uma obra condenável em vários aspectos. naquele momento. Agora.idéia. produzindo obras ora vulgares ora mais sofisticadas.

texto que levantou a possibilidade de acordos entre senhores e escravos no cotidiano da escravidão. segundo o autor. (FICO. trabalha o imaginário do descobrimento ibérico. Todos esses autores.. “O Diabo e a Terra de Santa Cruz” (1986).] forte aspecto unificante destes 20 anos seria. e. p. e ainda temos também “Visão do Paraíso” (1956) que. muito visitado pela História Cultural no Brasil é a escravidão.] o livro que talvez tenha sinalizado a penetração da Nova História foi o de Laura de Mello e Souza..sexuais.205) . p. e está sendo. encontramos “Raízes do Brasil” (1936) que aborda temas como o espírito de “homem cordial” na formação do Brasil. Posteriormente. “ [. a multiplicação progressiva de objetos.(VAINFAS. Segundo Carlos Fico e Ronald Polito: [. são refutados por Jacob Gorender em sua obra “A Escravidão Reabilitada” (1990).161). “Teatro dos Vícios” (1993) de Emmanuel de Araújo. portanto. A Nova História só veio se inserir mesmo na historiografia brasileira a partir dos anos 80 e. Segundo Vainfas: O livro „precursor‟ talvez tenha sido “Ser Escravo no Brasil” (1982) de Kátia Mattoso. Podemos dizer. p. na qual o autor analisa as teses recentes sobre a escravidão negra no Brasil que. 1996. 1997. estariam resgatando a concepção de Gilberto Freyre na medida em que amenizavam ou extinguiam a relação entre: escravidão e violência física e/ou mental. temos “Trópico dos Pecados” (1989) do próprio Ronaldo Vainfas. desenvolve-se um leque maior de objetos de estudos que proporcionaram análises diferentes de assuntos da história brasileira. entre vários outros. mas também de espaços institucionais e públicos de atuação deste grupo de especialistas.. sobre a história da sexualidade e das moralidades.160). obra sobre as práticas mágicas e a feitiçaria no Brasil colônia”. pioneiramente. Já em Sérgio Buarque de Holanda. problemas e enfoques historiográficos. temos “Campos de Violência” (1988) de Sílvia Lara e “Visões da Liberdade” (1990) de Sidney Chalhold. características do cotidiano nos engenhos e religiosidade popular. Seguindo a linha de Mattoso. conforme Vainfas (1997. ainda. dentre outros. pondo abaixo a tese de que a escravidão e violência física eram sinônimos. os quais podemos chamar de revisionistas da escravidão. “Os Prazeres da Noite” (1991) de Margareth Rago. Outro tema que foi. que a partir do final dos anos 70 e início dos 80.. POLITO.

utilizou. que se completavam num só sistema colonial de exploração. Em Jacob Gorender. O escravismo na Bahia serviu de base para a pesquisa de Mattoso que. segundo Gorender.Tendo em vista o desenvolvimento historiográfico sobre a escravidão negra no Brasil acima exposto. Apesar da nossa análise focalizar como obra central “A Escravidão Reabilitada”. A “Escola Paulista” e a ampliação da pesquisa histórica Como já foi dito. Por fim. é mister entender o contexto que proporcionou tais . fortemente influenciada pela Nova História. além de enfoques da Nova História. Neste livro. 3. O marxismo aplicado nas Ciências Sociais 3. (re)desenham o caráter paternalista da relação entre senhores e cativos. de João José Reis e Eduardo Silva. por exemplo. as idéias de quatro autores recentes que escreveram sobre o sistema escravista brasileiro ora formulando análises novas ora reforçando aspectos já edificados por outros autores. não poderemos deixar de fazer referências ao livro “O Escravismo Colônia”l. O livro “Ser Escravo no Brasil”.1. analisaremos. analisaremos uma obra publicada em 2000 que aborda a formação do Brasil com base em um sistema escravista e sua relação com a África. Outra obra que servirá de análise para este trabalho será “Negociação e Conflito – A Resistência Negra no Brasil Escravista”. basicamente. obra em que o autor examina as teses surgidas na década de 80. instrumentos inovadores como a demografia. Para compreender essa ampliação das pesquisas acadêmicas. de Kátia Mattoso. mas sempre como objetos. também servirá de fonte pois representa uma tendência que surgiu na década de 80. ora os rotulam como heróis ora os consideram como vítimas. quando. principalmente por intelectuais da Universidade de São Paulo. o mito da democracia racial edificado em “Casa-Grande e Senzala” de Gilberto Freyre começou a ser refutado diametralmente a partir das décadas de 50 e 60. analisaremos “A Escravidão Reabilitada”. Esta é a idéia do professor Luiz Felipe de Alencastro que se encontra na obra “O Trato dos Viventes – Formação do Brasil no Atlântico Sul”. considerando algumas como construtoras de uma nova face da escravidão brasileira. no qual o Brasil foi construído. Os autores neste livro refutam a concepção maniqueísta de como os escravos negros têm sido vistos por historiadores que. o autor mostra a relação íntima entre a América portuguesa e as colônias portuguesas na África.

mas também a composição demográfica e o sistema sócio-cultural. Para ele.transformações. enfim. Porém. Segundo o próprio Ianni: A análise dialética permite explicar as múltiplas manifestações da consciência social das diversas camadas de um sistema estratificado. A preocupação de Ianni se deu no tocante à formação social do Brasil. que foi um dos pioneiros a utilizar o marxismo como instrumento metodológico de análise. Nessa pesquisa. (GORENDER. A força-motriz dessa mudança se deu sob a influência teóricometodológica do marxismo. A economia. o autor mostra que o escravo teria impregnado não apenas a estrutura econômica. p. Conforme Leandro Konder. Segundo Ianni. Fernandes teve contato com o marxismo na sua juventude quando participou de grupo trotskista clandestino na luta contra o Estado Novo. o poder. p. teórico e pesquisador – ficou marcada pela polarização entre as atrações do marxismo. 371).. as leis. 2000. Como o autor utilizou o método dialético de Karl Marx como instrumento de análise.. esta padronização é digna de uma sociedade de castas. as relações sócio-culturais e. e a sociologia. 1995. o comportamento humano brasileiro foi erigido sobre um sistema de trabalho escravista. do qual saíram várias pesquisas acadêmicas de autores como Fernando Henrique Cardoso. O livro de Octávio Ianni “As Metamorfoses do Escravo” foi publicada em 1962. apresentando uma pesquisa sobre o sistema escravista na cidade de Curitiba no Paraná. devemos fazer uma ressalva: “Tratava-se [. dando-lhe o sentido fundamental. enquanto disciplina acadêmica. enquanto doutrina de militância revolucionária. bem como as suas expressões grupais ou . Segundo Jacob Gorender: A atividade de Florestan Fernandes como sociólogo – desenvolvida nas funções de professor. Octávio Ianni e Emília Viotti. 32) É nesse contexto dos anos 50 e 60 e sob a orientação metodológica de Fernandes que formou-se um grupo de estudos sobre o “O Capital” de Karl Marx. Esses três autores desenvolveram teses que refutaram profundamente o conceito benemerente de Freyre.] de um marxismo que não coincidia com o do PCB” (KONDER. a concepção de relação paternal entre senhores e escravos defendida por Gilberto Freyre é substituída pela luta de classes de dominantes por um lado e dominados por outro. a escravatura no Brasil se desenvolveu de uma forma totalizante. o núcleo de estudos do pensamento de Marx girava em torno do sociólogo Florestan Fernandes.

apresentá-lo na sua dialética” (COSTA. 1989.21) Nesta obra. deram aos fatores econômicos o principal motivo para a utilização da mão-de-obra escrava no Novo Mundo. esta perspectiva pareceu-me a melhor maneira de compreender o processo histórico e apanhá-lo em suas múltiplas dimensões. tanto internos como externos. disse que o livro pretendia ser mais do que um exercício universitário. obra de profunda fundamentação teórica. . transcende às explicações meramente econômicas dadas tanto à utilização da mão-de-obra escrava quanto aos motivos que levaram à abolição da escravatura. além das transformações no âmbito econômico no decorrer do século XIX. Antes de mais nada. “Da Senzala à Colônia” utilizou uma metodologia que. Jacob Gorender construirá essa concepção por meio de ”O Escravismo Colônia”l (1978). Sobre a utilização da dialética para analisar a abolição Viotti comenta: “Portanto. Também na década de 1960 foi publicada a obra “Da Senzala à Colônia” de Emília Viotti da Costa. um ponto de semelhança entre as idéias de outros autores da Escola Paulista e a análise de Viotti é a presença da dialética marxista em sua metodologia analítica. como outros “discípulos” de Florestan Fernandes.(IANNI. em termos do modo pelo qual as pessoas estão inseridas no sistema e conforme concebem-se a si mesmas e atuam socialmente. vários outros fatores.13) A autora. em prefácio da segunda edição. isto é. As rivalidades político-partidárias e a ideologia “pró direitos humanos” são exemplos da explanação da autora. p. No que tange à abolição.individuais. Seus traços ficaram indeléveis na herança que nos legaram a cultura negra e as condições sociais nascidas do regime da escravidão. nota-se. Posteriormente. 1989. teria sido os requisitos econômicos (carência de mão-de-obra européia ou nativa. não foram os fatores sócio-culturais ou étnico-sociais que definiram a utilização de mão-de-obra cativa tanto em Curitiba quanto em toda a colônia. Segundo Viotti: A escravidão marcou os destinos de nossa sociedade. tanto Octávio Ianni.(COSTA. inclusive. p. e de fato. que fez parte dos intelectuais da USP influenciados pela orientação de Florestan Fernandes. já na década de 1960.13). 1962. etc) os responsáveis primordiais por tal definição. Viotti aborda. em fins da década de 70. que nos anos 60 já se pensava em um modo de produção peculiar para caracterizar o sistema escravista. a obra de Viotti ultrapassou a tarefa de ser um simples trabalho limitado às “obrigações acadêmicas”. Para Ianni. Neste livro. que permearam os discursos abolicionistas. No entanto. a autora analisa a formação social brasileira marcada pela mão-de-obra cativa durante os três primeiros séculos de colonização no Brasil. Porém. capital obtido no tráfico de escravos. p.

o foco de análise teria sido os ciclos de produção da economia brasileira. Gorender defende que as relações de produção da economia colonial teriam de ser estudadas de dentro para fora. Entretanto. ainda. Gorender observa que: Ao invés de tomar os ciclos dos produtos de exportação como épocas ou sistemas econômicos. sua distribuição . Então. para entender . porém. por igual. o enfoque foi o patriarcalismo dos senhores de escravos. A primeira consiste nas relações entre os homens e a segunda são os meios pelos quais a produção é efetivada. alguns intelectuais da década de 1960. Em seus comentários. circulação e consumo. Modo de Produção e Formação Social No início de seu livro “O Escravismo Colônial”. ele propõe um estudo novo que ele denomina de modo de produção escravista.2. de salientar. trouxeram para o primeiro plano a ênfase dada ao latifúndio. Caio Prado Júnior descobriu neles manifestações seqüenciais de algo mais profundo. concluímos que. (GORENDER. para Gorender. explicavam a escravidão dentro do modo de produção capitalista. Pioneiramente. A partir dessa inovação em relação às teses anteriores. Seguindo em sua análise interpretativa. a escravidão não estava sendo analisada com a especificidade e profundidade com que o sistema escravocrata deve ser entendido. a relação entre senhores e escravos passou a ser entendida como uma relação entre empresários coloniais e mão-de-obra compulsória no sistema econômico agro-exportador.3. o modo de produção seria um sistema orgânico-produtivo composto de várias partes distintas que formam um todo. de uma realidade permanente e imanente – a estrutura exportadora da economia colonial. Temos. Com base nesta breve explicação. as teses de Nelson Werneck Sodré e Alberto Passos Guimarães. Entretanto. Na obra de Roberto Simonsen. o que quer dizer que a escravidão tem papel fundamental para compreensão da história brasileira. Gorender diz que houve um salto qualitativo em relação às obras anteriores em “Formação do Brasil Contemporâneo” de Caio Prado Júnior. dos quais a maioria concordava que a extinção do sistema escravista significou um divisor de águas na História do Brasil.17) Ao passo que as teorias marxistas penetravam mais na historiografia brasileira. A respeito do modo de produção não se compreende apenas a produção propriamente dita de bens materiais. como Fernando Henrique Cardoso e Fernando Novais. por exemplo. 1980. Posteriormente. Nas obras de Gilberto Freyre e Oliveira Vianna. p. que duas categorias são originárias do modo de produção: as relações de produção e as forças produtivas. Jacob Gorender diz que a história da escravatura no Brasil já havia sido pesquisada por vários historiadores.

os turcos e os romanos). 1980. com isso. em parte. como veremos no próximo capítulo. nas conquistas germânicas). por se tratar de um modo de produção historicamente novo com características específicas e distintas dos modelos preexistentes.. tentador equiparar o escravismo colonial com o capitalismo e isto nos conduz a um beco sem saída . caracterizado por uma economia predominantemente natural. Isso.. ou então se produz uma ação recíproca que dá nascimento a uma forma nova. os ingleses neste século na Irlanda e. a priori. Porém. Segundo Gorender. buscando o conhecimento histórico em sua totalidade. e o escravismo colonial. ela dá lugar a dois modos de produção diferenciados: o escravismo patriarcal.”(GORENDER. E.. Gorender recorre à explanação de Marx: O povo conquistador submete o povo conquistado ao seu próprio modo de produção (por exemplo. o estudioso que pretende analisar o escravismo colonial. que se orienta no sentido da produção de bens comerciáveis. A escravidão por si só não indica um modo de produção. o escravismo colonial no Brasil não é concebível por nenhuma das três possibilidades expostas por Marx. p. encontrará o seguinte problema: como se deu o confronto entre conquistadores e conquistados no século XVI em terras que viriam a se tornar o Brasil ? Para explicar isso. é fundamental compreender o modo de produção que lhe serve de base. segundo ele. seria possível analisar a formação social no Brasil escravista. é “ . fundamental e estável nas relações de produção.53) Para Gorender. do ponto de vista marxista. a uma síntese (em parte. na Índia). Gorender defende que a característica mais essencial no ser escravo reside na condição de ser propriedade de outra pessoa. 1980. p.. (GORENDER. Combatendo profundamente os conceitos paternalistas freyrianos acerca da relação senhor-cativo. o objeto de estudo de “O Escravismo Colonial” é o modo de produção escravista e a formação social oriundo dele. quando essa produção passa a ser produtiva. Por isso. ou ele deixa subsistir o antigo modo de produção e se satisfaz com um tributo (por exemplo. Esta condição se encontra . Essa busca de entendimento da escravidão em sua totalidade sistêmica incomodou alguns historiadores que pesquisaram a escravidão nas duas últimas décadas do século XX. Jacob Gorender busca analisar o escravismo colonial ao nível categorial-sistemático. ele ainda ressalta que o historiador deve se empenhar a fundo no estudo da economia política do modo de produção escravista para não ser tentado por analogias simplistas e anacronismos históricos.58). Tendo como base as explicações acima descritas.a formação social de determinada sociedade. Assim. Segundo ele.

seriam totalmente pertencentes ao seu proprietário. portanto. pois pertence à espécie humana. bens e o trabalho do cativo. o debate acerca de sua significação se acirrava. em sua obra. crescendo o interesse pelo estudo sobre a escravidão no Brasil. Então. trabalho e punição são termos indissociáveis no âmbito escravista colonial.conjugada com outro conceito: a sujeição pessoal. Escravidão: o debate reabilitado Ao passo que o centenário da abolição da escravatura . considerando-os resgatadores das concepções freyrianas. Para Gorender. Essa idéia de sujeição faz com que o conceito de escravidão passe de caráter brando freyriano ao conceito violento abordado pelos marxistas. ela já era exteriorizada pelos escravos por meio de suicídios. que tentaram aplicar. apresentando enfoques novos sobre o tema. Jacob Gorender expõe.2. em tempo e espaço determinados. por exemplo. Sendo assim. com a publicação de várias pesquisas históricas a partir da década de 1980. as teorias marxistas na análise do sistema escravista no Brasil(1). devemos salientar que. se acomodarem “confortavelmente” diante do sistema. a sujeição pessoal dos escravos não deve ser confundida com acomodação dos escravos perante o sistema escravista. estamos diante de uma contradição: coisa versus homem.se aproximava. que a escravidão colonial edificou um modo de produção único e específico. após terem suas reivindicações atendidas. Para Gorender. assassinatos de seus senhores. Diferentemente de Sodré. Entretanto. Gorender. ele rompe também com historiadores marxistas. estariam propondo uma relação entre senhores e escravos em que os últimos teriam uma certa autonomia para agir através de resistências para. Jacob Gorender analisou e refutou vários historiadores dessa nova geração. de forma estática. Sendo assim. por exemplo – que estariam negando a coisificação a que os escravos estariam submetidos dentro do sistema. fugas e rebeliões. Os anseios. Em “A Escravidão Reabilitada” (1990). como acomodar com tal violência ? Para concluirmos nossa análise das teorias contidas em “O Escravismo Colonial”. Um dos historiadores influenciados pelo autor norte- . segundo Jacob Gorender. escravo. estaria retratando a idéia desses pesquisadores que. Na década de 1980 são publicadas algumas pesquisas – de Kátia Mattoso e de Stuart Schwartz. “resistência-acomodação”. a maior influência externa para esses historiadores teria vindo do norteamericano Eugene Genovese. ao mesmo tempo que é coisa é pessoa. Apoiado nas idéias de Aristóteles e Montesquieu. além de refutar as concepções freyrianas. 3. O binômio utilizado por Stuart Schwartz. Jacob Gorender afirma que o conceito de escravidão se embasa na sujeição de um ser humano à outrem.13 de maio de 1988 . O cativo na sua condição de propriedade é uma coisa. Antes mesmo desta contradição fazer parte dos discursos historiográficos. como Nelson Werneck Sodré.

conquistava desde logo o direito de ficar com a renda antes obrigatoriamente entregue ao senhor. para Stuart Schwartz. p.1. O que sabemos de concreto é que escravos de ganho forcejavam até o limite das energias para juntar o dinheiro exigido pela alforria. representou.”( SCHWARTZ. „parece que não lhes convinha trocar a escravidão pura pela escravidão assalariada‟.29). O cativo seria ator de vontade própria. mesmo para ser „escravo assalariado‟. que no livro “A Escravidão Reabilitada” possuem certamente resposta positiva. O historiador não apresenta nenhum caso concreto de indivíduo tão amoroso da escravidão que a preferisse à liberdade. Gilberto Freyre sendo (re)abilitado ? Estas e outras questões. 4. A escravidão no novo mundo: uma Nova História 4.22). 1990. Para Schwartz. J. Entretanto. cujo trabalho recebeu o seguinte comentário de Gorender: J. Esta é a dura crítica de Gorender acerca das pesquisas de Reis. Reis foi ao ponto de afirmar que os escravos de ganho de Salvador. 2001. (GORENDER. E esse caráter ativo do escravo dentro do sistema será que pode ser entendido como um resgate da concepção de brandura na relação paternal entre senhores e cativos ? Estaria o mito da “democracia racial” sendo (re)construído ? Estaria. uma vez livre. P. a historiografia tradicional deixou em aberto a questão da história cultural e social da escravidão. porém de ficção. Adaptação do Africano ao Brasil O 13 de maio de 1988. “Jacob Gorender (1990) vê nessa atenção à vida e à cultura dos escravos numa tentativa de „reabilitar‟ o modelo patriarcal de Freyre e de se afastar do entendimento como sistema coercivo. uma vez que podiam marcar o tempo de trabalho segundo critério pessoal. essas idéias não agradaram a todos. Por exemplo. Seguindo as críticas analíticas.americano teria sido João José Reis. ele ainda afirma que a historiografia novista dos anos 1980 deu um novo caráter à escravidão e à posição do escravo frente ao sistema. relativo às comemorações do centenário da Abolição. o crescimento das pesquisas sobre a escravidão no Brasil. enfim. . Já não se trata de história. Porque o escravo de ganho. capaz de ações autônomas no interior do sistema escravista. de forma positiva. colocando em evidência novos enfoques sobre o tema. só podem ser entendidas a partir da análise das obras caracterizadas por Gorender como amenizadoras da escravidão. apesar de reconhecer a importância das análises feitas pelo historiador baiano sobre a Revolta dos Malês.

e executar um trabalho útil. Mesmo sem apresentar exemplos concretos de sua argumentação. evitando resistências que prejudicassem a produção. ocorriam outros tipos de resistência como fugas. ele tinha que aprender três lições: falar a língua dos senhores. No que tange ao tratamento diferenciado entre os negros de engenho e os escravos urbanos. por sua vez. os cativos buscavam a inserção social por meio do respeito ao tripé apresentado por Mattoso. um universo novo com as cores novas da terra brasileira. que. O “ser obediente” ou “não ser obediente”. Se pensarmos materialmente. se a questão é colocada no plano psicológico. o escravismo se aproximava mais da escravidão na Idade Antiga do que a escravidão patriarcal oriunda da África. Para a autora. Porém. obedientes e humildes. os compradores-proprietários percebiam que os cativos também eram homens e uma certa espécie de intimidade poderia se estabelecer entre eles. ela faz uma ressalva: a aparente obediência e fidelidade dos escravos era uma forma sutil de resistência contra os dominantes que queriam despojá-los de sua herança cultural e moral. o fator de semelhança se encontrava na obediência. Essa adaptação dependia ao que Mattoso chamou de “repersonalização” e de uma certa aceitação de sua posição no corpo social. porém ainda não havia abordado sobre a adaptação dos africanos cativos ao novo ambiente. A autora. para o cativo manter a condição de aparente docilidade perante os senhores.A historiadora Kátia Mattoso. Percebendo esta possibilidade de “trégua” ou amenização na luta de classes e até um meio quase exclusivo de sobrevivência. obediência e fidelidade”: sobre este tripé era encenada a vida dos escravos. rezar ao Deus dos senhores. abre o debate com a seguinte questão: a escravidão no Brasil teria sido uma continuação da escravidão que ocorria no interior da África ? Para ela. No entanto. Ela ainda reforça que. passaria por um processo de dessocialização. . dentro da obediência. se fossem fiéis. suicídios e revoltas. Mattoso defende que os senhores preferiam a persuasão à imposição violenta. caracterizava o escravo como bom ou não para o proprietário. que foi pioneira na utilização metodológica de conceitos da Nova História em pesquisas sobre a escravidão. poderia recriar o seu mundo destruído. O assunto é importante porque o africano ao ser separado de sua sociedade e trazido para o Novo Mundo. O escravo que não sofresse violentações freqüentes se identificaria com a família patriarcal. apesar de tudo. o que implicaria em despersonalização. parece inegável que para a própria sobrevivência. que eram mercadorias muito particulares dos senhores porque. “Humildade. em sua obra “Ser Escravo no Brasil” (1982). os escravos seriam considerados como coisas e dificilmente poderíamos entender que o cativo pudesse ter personalidade. defende que a historiografia brasileira tinha avançado no estudo da escravidão. o escravo necessitava de se adaptar ao mundo dirigido pelos brancos. Quando este tipo de relação não funcionava. definia o maior ou menor grau de inserção dos negros em seu novo ambiente. o escravo resguardado na obediência.

Reco Chico . Segundo Mattoso. não foi menos importante.. mucama. Expressões genuinamente africanas (Ex. os crioulos não tiveram muita dificuldade. aprendiam desde muito cedo o português. A historiadora narra um episódio. comportamentos.”(MATTOSO. O fato dos escravos. Os aprendizados do sinal da cruz e de algumas orações eram mais importantes do que a pregação de que “os homens deveriam amar uns aos outros como Deus os amou”. não saberem escrever. da qual. p. culinária.. explica a ausência de relatos ou memórias. em sua maioria esmagadora. inclusive. Para o escravo. ele também queria que os cativos aprendessem a rezar ao seu Deus. após uma vida de privações e punições. ficava ainda mais fácil para os senhores. pois o sacerdote ficava muito mais vinculado às suas aspirações senhoriais do que as que poderiam vir do bispado.: moleque. Os negros africanos. houve também um processo inverso que. a sociedade escravista contou com o apoio da Igreja para ensinar aos cativos as virtudes da paciência. cultura. aprendiam somente o básico. Gilberto Freyre descreve muito bem em “Casa-Grande e Senzala” (1933). geralmente com os feitores que também eram sucumbidos por tal atividade. hilário dessa natureza: Certas orações jaculatórias deformadas tornaram-se fórmulas incompreensíveis e privadas de sentido: „Resurrexit sicut dixit‟. nascidos no país. pelo fato da educação escolar ter sido privilégio somente de parte da população branca. apesar de menos intenso. “. da humildade e da submissão à ordem estabelecida. Caso o padre fosse residente na fazenda. a felicidade dos céus somente pode ser alcançada.Em relação à língua. no entanto. Assim como a língua e a cultura européia penetravam na cultura e no cotidiano dos escravos. virou „Reco. Sendo assim. a missão de conformar os escravos de sua condição. talvez. Da mesma forma que o senhor pretendia que os escravos compreendessem as suas ordens através da língua.115) Kátia Mattoso prossegue a sua explanação dizendo que a preocupação da Igreja nas fazendas estaria muito mais voltada para a formalização dos ritos católicos na sociedade do que com a evangelização em si. é fácil imaginar algumas discrepâncias ocorridas em missas celebradas em latim para cristãos que mal falavam o português. visto que. A influência africana ainda marcou profundamente a sociedade no que tange à religião. molambo. no mínimo. Essas lições foram muito úteis para conter os desânimos que porventura resultassem em revoltas contra o sistema. Sendo assim. 1982. mandinga) também passaram a ser usadas no cotidiano da sociedade e se concretizaram na língua dominante. que certamente contribuiria para a construção do conhecimento histórico. por exemplo. a Igreja tinha também a missão de fazer que a vida dura dos escravos nas fazendas se transformasse em penitência que poderia resultar em salvação da alma.

mas devido às más condições de trabalho e às péssimas condições de higiene. Esta argumentação traz forte refutação. Porém. além de aprender a língua dominante e rezar na Igreja católica. com já foi dito. Gorender comenta que “. obedecer é trabalhar bem. 4. os senhores lhes oferecia uma alimentação rica em calorias para suportar o trabalho árduo. a grande mortalidade negra no Brasil era evidente . o cativo era peca fundamental no processo produtivo. Para o escravo. os senhores contavam com a vigilância dos feitores que muitas vezes usavam das punições como medidas exemplares para o resto do grupo quando algum cativo “saísse da linha”. Para esses últimos. Sendo agentes dentro da malha escravista. pois os senhores preferiam estratégias mais sutis para manter a disciplina. Mattoso afirma que o escravo tinha um valor na sociedade e que os senhores sabiam disso. Sobre o resgate do pensamento freyriano. principalmente por Jacob Gorender. Os autores afirmam que a negociação. a autora defende que esta prática não era tão freqüente. Por reconhecer esse valor no escravo. 1982. Kátia reitera a ternura. tendo o valor de compra e o valor que o seu trabalho proporcionava na produção. a relação entre os cativos e os senhores variava entre a violência e a barganha.. (MATTOSO.2. p.” (GORENDER. p. mesmo que implícita. era fundamental para o bom funcionamento do sistema escravista. 1990. kist‟ é tudo quanto resta da prece de Bento XIII: „Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo‟”.. não porque o trabalho era pesado em demasia. mas dificilmente como agentes dentro do sistema.115) Em meio a fatos lúdicos como o citado anteriormente. Se os barões cediam e concediam para . a qual será a delineadora de nossa explanação sobre o assunto. acima da evangelização. kist. Negociação ou Conflito ? Por muito tempo a historiografia brasileira tratou os escravos ora como vítimas ora como heróis. diarréias. Inclusive o nome deste subtítulo faz referência à obra “Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista” (1989) de João José Reis e Eduardo Silva.21) Contrariando ainda as idéias de Gorender. era legitimada pela Igreja. para os senhores.disse‟. E para isso. o que mais importava era a obediência e a humildade na vida de trabalho que. Apesar dos “cuidados senhoriais”. como foi mostrado. marcada pela “negociação maliciosa” de ambas as partes. „kist. se Gilberto Freyre tantas vezes elogiou a doçura das relações escravo-senhor no Brasil. acarretando freqüentes doenças tais como bronquites. porque Mattoso não apresenta dados e exemplos que sustentem que os fazendeiros preferiam formas menos violentas do que o chicote para manter a ordem nas fazendas. pneumonia. sífilis e tuberculose.

o resultado se expressava por meio de fugas. buscando todas as suas explicações possíveis. p. E. “as relações sociais no Brasil dos séculos XVII. “Felizarda. novos enfoques estão sendo abordados pela historiografia novista. chegavam a até depositar excedentes de seu ganho para uma almejada compra da alforria.18) Por reconhecerem a importância do papel dos escravos na produção. De um lado o tipo Zumbi dos Palmares. ritmos e interesses sem ceder a algumas reivindicações escravas.. sem negociação o sistema se desengrenava. a imensa massa populacional que foi transferida da África para o Brasil não pode ser considerada apenas como força de trabalho. rebeliões. sua proprietária. pelo simples fato de serem escravos. E de fato. Enfim. Podemos citar o trabalho de Sílvia Lara sobre a criminalidade. pois. A propósito.. assassinatos ou até suicídios. Um dos grandes problemas que esses pesquisadores enfrentam é a escassez de fontes escritas. na figura dos escravos de ganho que. ainda temos as recentes pesquisas sobre a presença de negros perante às autoridades para denunciar abusos físicos ou morais de seus senhores. 1989. representando a ira revoltosa frente à escravidão. Para demonstrar o crescente interesse em focalizar o escravo como participante ativo dentro do sistema. p. Entretanto. complexas. o fato de perceber que os escravos também tinham voz ativa não quer dizer que eles formavam um bloco homogêneo. que pretendia abocanhar as economias que amealhara para comprar a própria liberdade. defendendo a mesma causa.”. A noção de classe não era marcante entre os escravos. Para Eduardo Silva. e do outro lado. também temos as pesquisas de Kátia Mattoso e Stuart Schwartz sobre a questão das manumissões (cartas de alforria). Outros estudos abordam a participação dos negros na economia. muitas vezes os senhores cediam na negociação temendo sabotagem nas máquinas ou fugas.” (SILVA. narra Eduardo Silva. XVIII e XIX são. Pai João. essas relações são complexas porque as relações sociais são . algo mais do que sobreviver. por exemplo”. embora isso possa ser superado por meio da exploração de outras fontes. imagem da submissão conformada. bem mais do que a imagem simplificadora refletida pela clássica oposição entre os homens livres dominantes e os homens pretos dominados. Eduardo Silva diz que elas devem ser exploradas ao máximo.melhor controlar. Quando a negociação falhava ou nem sequer chegava a acontecer. A historiografia tradicional propagou a idéia de que existiram dois pólos distintos de escravos. Essa concepção começou a mudar quando alguns historiadores novistas passaram a abordar a história do escravo visto na perspetiva de que eles também são formadores da sociedade brasileira e não apenas objetos. por vezes. Nem sempre os senhores conseguiam impor as suas vontades. os escravos pediam e aceitavam para melhor viver. como a existência das fontes é muito mais qualitativa do que quantitativa. “recorreu ao Poder Judiciário contra Ana Maria da Conceição. principalmente.123). Para Kátia Mattoso (1989.

p. mas qualitativamente. amiúde. Para Reis. A luta por ganhos pessoais é comum na história dos subalternos. reforça esta idéia. a fuga foi.155) Embora as fugas e os levantes terem representado minoria entre os negros escravos. as fugas também aconteciam em decorrência de quebra de acordo dos senhores com os escravos que. Em relação às posições dos autores de “Negociação e Conflito”. geofagia. Por que questionar o escravo que faz isso ? Por que „exigir‟ dele que sua luta seja sempre para destruir o „sistema‟ ?. estrangulamento. a expressão violenta da revolta interior do escravo inadaptado. estudei o escravo como sujeito do processo de trabalho e como sujeito histórico. Ninguém questiona o operário que luta por mais salários ou melhores condições de trabalho. O professor João José Reis. Eduardo Silva chama a atenção para o crescente interesse em desenvolver pesquisas sobre as fugas e revoltas de escravos no Brasil colonial. sofriam punições físicas que tanto poderiam servir como lição para o grupo. abrindo questões para o debate historiográfico. Eduardo Silva destaca dois tipos de fugas: as “fugas-reivindicatórias” e as “fugas-rompimento”. capaz de lutar contra a opressão coisificante. que leva ao suicídio. a historiadora diz que “É o medo. enforcamento. como também suscitava revolta interior que poderia se exteriorizar através de fugas de fato. visto que o simples fato de existir a sua possibilidade. O leque de enfoques perpassa desde fugas físicas até às fugas extra-racionais. já marca os limites da dominação e da negociação. por exemplo. que visava a liberdade em outro mundo.complexas e não podem ser definidas por teorias que extinguem outras explicações que não se enquadram nas leis estabelecidas. Em relação a este assunto.”. como o suicídio. o escravo: fazia revoltas pontuais para „corrigir‟ o sistema. Sobre os suicídios. Para ele. essas contestações não podem ser analisadas quantitativamente.(1) Ele ainda afirma que a negociação é a guerra por outros meios. um medo para o qual todos os métodos são válidos: asfixia engolindo a língua. Muitas vezes. Gorender faz o seguinte comentário: . Mas o . o que não quer dizer que queriam acabar com o sistema. tema o qual a historiografia deixou por muito tempo à mercê. sempre... em entrevista concedida ao autor deste trabalho monográfico. Elas não podem ser banalizadas. as “fugas-reivindicatórias” eram as que visavam atendimento de algumas necessidades dos cativos. na verdade. Mattoso argumenta que juntamente com o suicídio e o assassinato. em tudo o que escrevi sobre a escravidão. (MATTOSO. 1989.

1990. mas o negro salvaguardou os valores essenciais das civilizações africanas – os religiosos. os escravos tentavam romper definitivamente. mas sobretudo. p. as “fugas-rompimento” eram as que aconteciam com objetivos mais radicais do que as fugas que visavam reformulação nas relações de trabalho. em sua totalidade era escravista. não foi. José Gordilho de Barbuda.145). o de salientar na subjetividade do escravo a fonte do potencial de acomodação ao regime opressor. As fugas em busca de liberdade definitiva aconteciam por quebra de acordos sistêmicos entre os senhores e os escravos. Estes conquistavam no dia-a-dia concessões e “brechas” que. A permissão de culto a outros deuses que não fossem da religião oficial. Os policiais invadiram o templo religioso.. porque a sociedade brasileira. “. o combate à autonomia e à indisciplina escrava se dava por meio da combinação entre violência e negociação. Da mesma forma que os senhores reprimiam os escravos. Na maioria das vezes essas fugas malograram não só pela recaptura dos capitães-domato. quando o liberto africano Joaquim Baptista denunciou ao presidente da Província. destruíram objetos rituais e ainda prenderam cerca de 36 pessoas. Por vezes. como o direito de dançar. Segundo Kátia Mattoso (1989. como o de outros historiadores.meu enfoque. o visconde de Camamú. por meio de fugas. Concluindo as explicações de Eduardo Silva. com o tempo. sobre a invasão e saque da polícia em um terreiro de candomblé num bairro de Salvador chamado Accú. Porém. com os senhores que desrespeitavam os tais “acordos sistêmicos”. (GORENDER. as fugas passam não só a se destinarem à regiões isoladas. mas também às grandes cidades. passavam a fazer parte da vida deles. visando não só “brechas” materiais como também concessões supra-racionais.” Um exemplo da inquietação negra diante de repressões religiosas aconteceu em 1829 na Bahia. Isso se deveu. ao que Eduardo Silva chamou de “falência do paradigma ideológico tradicional”. o que tornava as fugas definitivas muito mais difíceis. formando quilombos. cabendo aos fugitivos se aglomerarem em regiões de difícil acesso. cantar e cultuar os seus deuses. representando um modus vivendilegitimado. o chicote e a malícia. Somente a partir do momento em que a campanha abolicionista ganha força em meados do século XIX. pois associavam os . ao romper os marcos da sociedade africana e ao misturar cuidadosamente as etnias. p. um dos líderes do terreiro procurou a justiça e denunciou a tal intolerância. absolutamente. a escravidão conseguiu destruir as estruturas sociais. variava entre os que aceitavam como forma de controle social e os que reprimiam.. estes usavam métodos que se opunham às imposições senhoriais. de aceitação da escravidão como sistema contratual. o que o aproximava singularmente do capitalismo. Para João José Reis.25).

e utilizadas como válvulas de escape que. O caso da invasão da polícia no terreiro de Accú na Bahia e a reação dos negros através da denúncia perante a autoridade maior da província. Segundo Stuart Schwartz. no sistema colonial. Segundo Mattoso (1989. algumas oportunidades em que os senhores permitiam que os negros produzissem para si em um espaço próprio e em seu dia de folga. buscando somente à repressão e com eles a sociedade dominante somente se preocupava quando suspeitava que poderiam pôr em perigo a ordem pública. existiram. Tanto Eduardo Silva. escondidos.151). foi publicado como livro em 1847 no Rio de Janeiro. o senhor aumentava a . de certa forma. Outro aspecto que fazia parte da negociação. até a permissão de freqüentarem a missa nos domingos. O documento acima citado do Barão de Pati do Alferes. ser vendido para proveito dos escravos. como atuante no processo histórico. a partir daí. foi abordado primeiramente por Ciro Flamarion Cardoso. e a posteriori por Eduardo Silva e João José Reis: as “brechas camponesas”. e continha métodos de como administrar uma fazenda. inclusive. entende-se que ele relatava métodos utilizados na prática desde longa data. O Barão de Pati do Alferes relata que o controle dos escravos poderia ser feito desde a organização dos escravos em grupos na hora do trabalho. o sincretismo religioso ainda existente até os nossos dias atuais. Isso porque “Ao ceder um pedaço de terra em usufruto e a folga semanal para trabalhá-la. o ideológico. Outro mecanismo de controle social descrito era a criação de uma margem de economia própria para os cativos. as teorias de Gorender refutaram tal idéia porque não se encaixavam nas leis aplicadas ao sistema colonial que ele havia construído. principalmente. mas sobretudo. “Sem dúvida os cultos africanos existiram sempre no Brasil colonial. O objetivo de Silva foi abordar não só os aspectos econômicos. Conforme esses historiadores.”. gerando. quanto João José Reis e Kátia Mattoso concordam em um ponto: a permissão às religiões africanas eram obtidas por meio de negociação. As religiões africanas coexistiram com a fé católica entre os negros. do Barão de Pati do Alferes.rituais ora à “feitiçarias diabólicas” ora a desordens sociais que poderiam desencadear em rebeliões. o excedente poderia. mesmo que indireta. o qual auxiliava a manutenção do sistema. Eduardo Silva teve como base o seguinte documento: “Memória sobre a fundação de uma fazenda na província do Rio de Janeiro”. mas. intermitentes. p. Conforme esses autores. O conteúdo do livro abordava desde a forma adequada de plantar o café até as normas organizacionais de vigilância e controle que se deveria ter diante os escravos. que na verdade era Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. Para explicar o que seria esta “brecha camponesa”. demonstra que a participação dos negros não pode ser encarada apenas como secundária. mascarava um pouco a opressão pertinente à escravidão. Como esse livro se transformou em um guia prático de fazendeiro.

A partir dessa idéia. que o tráfico de escravos é que impulsionou todas as outras transformações na formação brasileira.3. provocado pelo apego do escravo a terra e a relativa amenização da escravidão. conforme Alencastro (2000. sem influência da Coroa que pudesse ser definitiva para o intercâmbio. pois a análise de Eduardo Silva se baseou em um livro em um local e tempo determinado. que devemos reconhecer. os colonos que na África ficavam. nos séculos XVI e XVII. englobando uma zona de produção escravista situada no litoral da América do Sul e uma zona de reprodução de escravos centrada em Angola. É claro. é que Alencastro justifica que a relação entre Brasil e África. entretanto. que fornecia escravos para trabalharem nos latifúndios brasileiros.9). “. a colonização portuguesa.28).. comportamentos. religiões. se intensificou de uma forma “quase” autônoma. Quando se fala em colonização. A ilusão de propriedade “distrai” da escravidão e prende. logo se fará a seguinte pergunta: quer dizer então que o Brasil se formou fora do Brasil ? O historiador Luiz Felipe de Alencastro abordou em sua obra “O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul” (2000) como a formação do Brasil se deu sob influência forte do contato com a África.” Na exploração da costa africana pelos portugueses. a partir da relação entre Brasil e África. Essa relação. Eduardo Silva revela que a maior preocupação não era a diminuição dos custos produtivos nem o aumento da economia de subsistência. 1989. p.” (SILVA. mas sobretudo o controle social e a manutenção do sistema. mas também esteve presente no intercâmbio de culturas. não tinha o total controle sobre as terras conquistadas. ao mesmo tempo que fornecia uma válvula de escape para as pressões resultantes da escravidão. Brasil: Formação Fora do Brasil Quem se depara com o subtítulo. a Coroa ainda não estava totalmente organizada e as suas colônias também não estavam totalmente sob o seu jugo. Não podemos.. pois. Ao contrário do que se pensa. que. A iniciativa de Portugal em ocupar as terras do Novo Mundo só veio trinta e quatro . de certa forma. p. o escravo a terra. após o aumento do tráfico. entretanto essa hegemonia não acontecia de imediato. deu lugar a um espaço econômico e social bipolar.quantidade de gêneros disponíveis para alimentar a escravaria numerosa. ao poucos adquiriam certa autonomia diante da Coroa Portuguesa. fundada no escravismo. mais que uma vigilância feroz e dispendiosa. 4. logo pensamos que o controle dos colonizadores sobre os colonizados acontecia de forma coesa e concreta. generalizar esta prática e dizer que ela foi preponderante no Brasil escravista. não se limitou ao aparato econômico com o comércio de homens.

não pode ser reduzido ao comércio de negros.. Na verdade. Todo o restante vinha. trazendo mercadorias brasileiras (mandioca. social e cultural. esse sistema avassalador de mercantilização de homens impede que se considere o tráfico negreiro como um efeito secundário da . 2000. Sobre isso. visto que apenas seis dos doze chegaram a vir no Brasil.anos após o descobrimento com a instauração das capitanias hereditárias que.21) Em fins do século XVI e início do XVII. africanos – distintos dos vínculos europeus -. na segunda metade do século XIX. Assim como o tráfico aumentou com o aumento da produção de açúcar. o “Elo perdido de nossa história. (ALENCASTRO. cachaça. principalmente. Tais condicionantes marcam a originalidade da formação histórica brasileira. O trato negreiro. Para ele. a unidade na própria Terra de Santa Cruztambém era falha e quase inexistente. afirmando o íntimo contato que se firmou com a instauração da mão-de-obra escrava. como totalmente influenciadores da sociedade brasileira. etc ) em troca da mercadoria que se concretizou no comércio luso-brasílico: o escravo africano. Diferentemente dos historiadores anteriormente analisados. do Rio de Janeiro. os condicionantes atlânticos. Segundo as explicações de Alencastro. o intercâmbio entre o Brasil e a costa africana aumentou de tal sorte que uma estatística do século XVII analisada por Alencastro mostra que apenas 15% dos navios que entravam no porto de Luanda vinham da metrópole. a acumulação de capital proveniente do comércio de cativos fez com que as zonas produtivas ampliassem as suas áreas e. da demografia. mas abordou o tráfico de escravos. só desapareceram do horizonte do país após o término do tráfico negreiro e a ruptura da matriz espacial . p. a escravidão e a reprodução de cativos na costa africana. transporte. devido ao aumento da produção de açúcar e às prerrogativas oferecidas pela Coroa para entrada de mão-de-obra africana. ele consegue trazer a relação entre o Brasil e a costa africana para o primeiro plano. nos âmbitos econômico. no entanto. Alencastro defende que a relação entre o Rio de Janeiro e Angola era muito mais intensa do que entre o Rio de Janeiro e São Luís do Maranhão. Segundo o historiador: . nos ditos de Alencastro. “desencravasse” a economia brasileira. a concretização do tráfico de escravos no final do século XVI suscitou transformações fundadoras da economia brasileira. nem sobre a dialética presente na relação entre senhores e escravos. o tráfico extrapola o registro das operações de compra. De consequências decisivas na formação histórica brasileira. Visto de um ângulo econômico-social. a continuidade da história colonial não se confunde com a continuidade do território da Colônia. pouco interesse despertou nos donatários. da sociedade e da política da América portuguesa. Se o domínio da Coroa sobre as colônias não acontecia de fato. Com isso. da Bahia e do Recife.. o comércio de escravos para o Brasil cresceu em fins dos Seiscentos. e venda de africanos para moldar o conjunto da economia. Luiz Felipe de Alencastro não pesquisou sobre as características do sistema escravista.

juntamente com esses novos enfoques.”(ALENCASTRO.escravidão. Conclusão O estudo historiográfico de autores como Jacob Gorender. com argumentações convincentes. apesar de serem restritas a certos limites. ao nosso ver. a busca de outras fontes e o contato com outras disciplinas se mostrou iminente. que. anteriormente. nos deu a noção da variedade de abordagens analisadas recentemente.42). literatura. é um aspecto positivo. após a análise das obras de historiadores recentes que utilizaram metodologias e argumentações diversas em pesquisas sobre a escravidão no Brasil. ao nosso ver. Esta crítica nos leva a seguinte indagação: a historiografia recente estaria realmente resgatando conceitos anteriormente abordados ? Depois de nossa análise. acreditamos que várias pesquisas realmente se mostraram inovadoras. 5. 2000. devida à ampliação de explicações sobre um mesmo ponto. os quais devem ser analisados e interpretados de forma inteligível e coerente. objetos. principalmente. depoimentos. os quais pesquisaram a escravidão no Brasil. pois a existência de algo que se opõe faz com que as argumentações busquem a maior contudência possível em suas explicações. cantigas e outras colaborações de outras disciplinas como a Arqueologia e a Psicologia. Como este tipo de fonte é muito escasso na história dos escravos brasileiros. Por fim. por exemplo. métodos e fontes resgatados pelos historiadores influenciados por conceitos que a Nova História trouxe à historiografia brasileira. estatísticas demográficas. Porém. Foram utilizadas como fontes. As pesquisas de João José Reis e Eduardo Silva sobre a negociação entre senhores e escravos. o debate historiográfico faz com que o entendimento sobre tal tema cresça. Kátia Mattoso. pois também não podemos generalizar as práticas como uma “verdade absoluta”. embora se aproximam de explicações de historiadores de outras gerações. não eram utilizadas. Já por outro lado. o surgimento de novos enfoques. A dialética existente no choque entre . p. A isso se deve. João José Reis e Luiz Felipe de Alencastro. A crítica de Jacob Gorender às obras dos historiadores chamados novistas é que eles estaríam resgatando a concepção freyriana ao passo que apresentavam pesquisas que se aproximavam do paternalismo defendido por Gilberto Freyre acerca da relação entre senhores e escravos. temos também a refutação. acreditamos que a multiplicação de objetos não pode ser confundida com a ausência de fatos e fontes. portanto. visto a importância primordial que se dava ao documento oficialmente escrito. nos apresenta uma abordagem nova. O surgimento de novas abordagens também trouxe à tona a exploração de outras fontes que.

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