A Zona Tórrida não é desabitada porque os Portugueses continuam a navegá-la, ela é na realidade povoadíssima; e, abaixo do Equador situa-se, como

tivemos ocasião de ver, o Castelo da Mina de Sua Alteza Sereníssima o Rei de Portugal. (Cristovão Colombo, nota marginal no seu exemplar de Imago Mundi e Pierre d’Ailly) Todos os mares são navegáveis. (Colombo em nota num outro livro).

É a partir destas duas citações que Sylvia Winter começa a discutir o significado das viagens extraeuropeias dos Portugueses em geral, de Colombo em particular. É verdade que são essas viagens que levam ao genocídio nas Américas, à escravatura, ao colonialismo, etc. Mas para ela deve igualmente ser salientado que elas constituem uma expansão não negligenciavel do espírito humano e de afirmação do novo paradigma da ciência na modernidade. Elas não são portanto apenas “más” elas foram também “boas” -- porque uma das suas consequências foi de a tornar possível a conceptualização de que há leis da natureza que são comuns e se manifestam da mesma maneira em todas as regiões do mundo. E, como Newton escreveu, se têm os mesmos efeitos ou consequências, elas devem ter as mesma causes. Essas viagens coincidem com a publicação em 1543 do tratado de Copérnico “De Revolutionibus orbium coelestium que leva a uma nova imagem da terra e do cosmos. Leva, também, à concepção de Newrton sobre a natureza ter de ser vista como homogénea, uniforme e simétrica. Esta nova concepção começa a ser aceite no século dezassete. Gradualmente, ela substituiu a concepção epistemológica da Europa Latina e Cristã segundo a qual a terra era dividida em regiões habitáveis e inabitáveis. Por outro lado, o universo existia na diferença de substancia entre o imutável de perfeiçao total da esfera celestial e o imperfeito da esfera decadente e corrupta do terrestre, quer dizer, da terra fixa e sem movimento no centro do universo. A concepção de duas esferas diferentes obedecendo a diferentes modelos matemáticos, como afirma Aristóteles, deixou ser aceite. Substituiu-a a concepção de que as diferentes regiões eram na realidade formadas pela mesma matéria, não eram diferentes e eram portanto governadas pelas mesmas forças e causas deste modo válidas para o Céu e para a Terra. Esta homogeneidade surge com o exito das viagens dos Portugueses: em 1434 eles dobram o Cabo Bojador até aí considerado impassável e a fronteira entre o que se considerava ser a zona temperada e por isso habitável e a Zona Tórrida cujo calor excessivo tornaria inóspita. Dez anos depois, eles chegam ao que hoje chamamos Senegal onde descobriam que a Zona Tórrida era “populadíssima” como escreveu Colombo na sua viagem a Elmina em 1482. Isso foi confirmado na viagem Atlântica de Colombo. A idéia de que apenas a Europa, por desígnio divino, existia acima da água do mar foi demonstrada errada. O desenvolvimento das ciências físicas e, portanto, o aparecimento de uma nova ordem baseada na auto-correcção do conhecimento tem aqui suas origens. Elas foram fundamentais para a aceitação gradual do facto de que o mesmo tipo de matéria formava todas as partes do universo porque formava todas as partes da terra. Em ambos os casos esta matéria era portanto governada pelas mesmas causas e forças. Isto queria dizer, como o percebeu Newton, que seria possível fazer uma analogia entre a natureza e as propriedades constantes que são encontradas em todos os corpos quaiquer que eles sejam. Para ele, a “analogia da Natureza é sempre consonante com ela própria”.

hoje. Através desta nova ordem. 500 anos depois das viagens europeias será que podemos dizer a partir de uma premissa semelhante. apesar de primárias. que há leis da cultura que são válidas igualmente para a cultura globalizada e tecno-industrial porque comuns a todas as culturas? Clifford Geertz indica que a nossa cultura contemporanea deve ser reconhecida como sendo não mais do que uma das formas localizadas de vida humana. a poderemos compreender melhor? Será que desse modo conseguiremos decifrar as leis que governam as nossas instituições como parte de um sistema auto-organizativo estável de linguagem? Poderá a nossa cultura hoje não ser mais do que uma outra forma de vida? SW continua explorando esta “analogia de duas analogias”. um caso entre casos. a espécie humana aparece pela primeira vez como tal no reino animal? Será que poderemos imaginar esse evento como uma ruptura no circulo de vida funcional e biologico e. portanto. continua SW. poderemos nós falar no aparecimento do valor. da cultura e do espírito? Por espírito eu quero dizer um fenómeno correlativo (ou propriedade emergente) que pode ter aparecido somente como consequência da evolução da capacidade de linguagem que empoderou o ramo da família dos primatas que a possuia para sair da ordem geneticamente regulamentada da natureza (ordo naturae) e para colocar em seu lugar uma ordem culturalmente instituida (ordo verborum). Há 25 mil anos pode dizer-se que o homem se compreendia a si próprio e a outras partes do seu mundo. do Logos? Em lugar do tempo. A Física moderna fala-nos do Big-Bang em que tempo e universo se combinam tornando escusada a pergunta sobre o que surgiu primeiro. seriam motivados de acordo com leis de uma nova ordem de existência. a maneira de pensar dos gregos sobre o comportamento humanos não teve seguimento e levou a nada. os comportamentos da espécie como uma forma de vida híbrida (porque tanto bios como logos). Se isto é assim será que essas leis podem ser agora consideradas como aplicáveis à nossa cultura local (globalizada) tal como o são a todas as outras?. prossegue SW. É por isso que hoje os estudantes universitários continuam a ler os diálogos de Platão como se eles pudessem esclarece-los sobre o comportamento humano. a regulação de comportamentos humanos e a sua hierarquização é a mais urgente das questões que enfrentamos como como espécie. Apesar de disciplinas como física e biologia terem registado grandes avanços não aconteceu nada de semelhante com uma ciência dos comportamentos humanos. portanto. F. porém. Esta é uma das razões porque confrontados como estamos hoje com a .Hoje. Haverá leis que funcionam para a nossa ordem sistémica mundial da mesma forma que o fazem para as culturas tradicionais que a antropologia ocidental soube apresentar de forma tao eloquente? Mais concretamente: poderemos nós pensar. um mundo dentro de mundos. Skinner. No entanto. Para B. inferir e predizer a nossa actual cultura globalizante a partir de uma analogia paralela à de Newton de “cultura como consonante consigo mesma”? Será que aplicando as montanhas de informação obtida do estudo dos corpos culturais não ocidentais ao estudo da nossa cultura. se desenvolveram para se tornarem a física e a biologia de hoje. ele é aquilo que ele compreende menos e pior. uma ordem que existe tanto em continuidade (o cérebro) como em descontinuidade (o espirito) com a analogia de Newton sobre a Natureza. como o académico camaronês Théofile Obenga e o académico italiano Ernesto Grassi propõem. Será que podemos imaginar um semelhante evento singular ou único em que. e ao contrário da fésica e biologia dos gregos que. ultrapassando os seus constrangimentos e comportamentos genéticos através da substituição da primazia do gene pelos “sinais sagrados” ou códigos governantes da Palavra.

Será que é possível transformar este estado de coisas? [Sim. A manutenção desta dicotomileva também à desvalorização da espécie humana como um todo (Joan Marble Cook) porque passou a descrever o ser humano segundo um modelo de um organismo natural em lugar da descrição Judeo-Cristá segundo a qual a humanidade foi criada à imagem de Deus. e exploração para tantos outros. Esta desvalurizaçãp virou-se contra a própria Europa em Auschwitz. (147) . novas fontes de alimentação e como cultivá-las (para acabar com a fome).solução de problemas que temos de resolver nós não nos voltamos para uma ciência de comportamentos mas antes para a ciência e tecnologia onde temos algum poder.. Todo o seu progresso tem sido feito à custa da destruição do seu meio ambiente que ele não pode reparar nem prever... Cada uma das novas fontes através das quais o homem aumentou o seu poder na terra tem sido usados para diminuir as possibilidades de sobrevivência dos seus vindouros. novas formas de acabar com o lixo (para acabar com a poluição ambiental). aos reservatórios dos Indios (onde as taxas de suicidio de jovens são as mais elevadas do miundo) e os seus contrapartes globais. Mas há aqui um paradoxo. nos campos da morte da Bosnia ou Camboja. Higiene. Ambiental que nos libertaria da crença (essencialmente liberal) num homem/mulher interior como a fonte causal dos nossos comportamentos. responde SW mas isso terá de passar pela ultrapassagem do conflitual ou isto ou aquilo dos celebrantes euro-americanos dissidentes idios e seus aliados marxistas e ambientalistas. De um modo geral se pode dizer que as soluções tecno-científicas serviram para tornar as coisas piores. o controle de nascimentos (para conter a explosão demográfica).etnocídio – e ecocídio e uma subjugação humana sem precendentes na história humana. É necessária uma nova interpretação para lidarmos intelectualmente com a realidade de duas faces de Janos de um acontecimento que foi tanto gloriosa para a gradual expansão das áreas do pensamento humano e o primeiro passao num processo de genocídio.. De uma perspectiva ecuménica seria esta a unica maneira de celebrarmos Colombo que representou triunfo e auto realização para parte da população humana e a expansão da sua forma de vida e cultura – para o europeu ocidental – e a expropriação. habitação e transportes (para resolver o problema dos ghetos – são como que devolvidas e chegam a nós para nos afectar a novos níveis. inferiorização. Iria além dos limites da aproximação reducionista dos recentes clones da sociobiologia. Paradoxalmente Skinner sugere a invençaõ de uma “tecnologia do comportamento” baseada na manipulação socio. os crescentes desempregados em todo o mundo. E parte a um nível sistémico-mundial é parte do nosso mundo desenvovido. nos Gulags. Os problemas que procuramnos resolcver através da ciência e tecnologia como. e os massacres do Ruanda e Burundi. a guerra tem hoje novos horrores com a invenção de armas nucleares e a obtenção de felicidade é largamente responsável pela poluição em todo o mundo. medidas para controlar a doença (melhoria da higiene e sanitação). os sistemas antibalisticos (para anular a ameaça de holocausto nuclear). P. Esta desvalorização estende-se também aos getos e favelas. por exemplo. sanidade e medicina tornaram mais agudos os problemas populacionais. Snow chama de duas culturas – a cultura das ciencias naturais e a cultura das disciplinas que lidam com os nossos comportanmentos individuais e sociais. A reescrever] Esta transformação conceptual leveria-nos a complementar a autonomia partcial do nosso conheccimento como espécie derrubando e destriuindo as barreiras a que C.

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