You are on page 1of 27

Darcy Ribeiro e o enigma Brasil

:

um exercício de descolonização epistemológica

Recebido em 15/08/2011 Aprovado em 15/10/2011

Adelia Miglievich Ribeiro1

Resumo Darcy Ribeiro desafia a ausência de um modo singular de imaginapor parâmetros exógenos ditados por uma pretensa modernidade que ignora

ção sociológica a caracterizar o pensamento brasileiro, não se deixando guiar a positividade das experiências aqui existentes. Tomando, de um lado, “O processo Civilizatório” (2001), e de outro, “O Povo Brasileiro” (1995), busco, neste ensaio, uma hermenêutica do legado de Darcy Ribeiro. Minha hipótese é a de que há questões presentes na obra darcyniana capazes de gestar, ainda hoje, uma “crítica descolonizadora nas ciências sociais latino-americanas”, impactando a geopolítica do conhecimento que, historicamente, apartou as culturas que investigam, daquelas que são investigadas. Talvez, o pensamento social mameluco nos inspire a crer que a criatividade humana seja capaz de superar dade, somando às ciências sociais novas formas de cognição. Descolonização epistemológica.

os reais danos impostos historicamente pela lógica da modernidade-colonialiPalavras-chaves Darcy Ribeiro, O Processo Civilizatório, O Povo Brasileiro,

ological imagination to characterize the Brazilian thought, not allow themselves to be guided by a presumed modernity that ignores the positivity of the (2001), and the other, “The Brazilian People” (1995), in this essay, I seek a issues present in the Darcy´s studies still capable of carrying a “critical deexperiences available here. Taking on the one hand, “The Civilizin Process” hermeneutics of the Darcy Ribeiro´s legacy. My hypothesis is that there are colonizing the social sciences in Latin America”, impacting the geopolitics

Abstract Darcy Ribeiro challenges the absence of a particular way of soci-

of knowledge that historically separated the cultures that investigate from
Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011

1 Professora do Depto. de Ciências Sociais e dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais e de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Pesquisadora-Bolsista Sênior do Programa “Cátedras IPEA/CAPES para o Desenvolvimento” com o projeto de pesquisa “Modernidade-Colonialidade, Nação e Autonomia em Darcy Ribeiro: fundamentos e propostas de desenvolvimento”. Participou com artigo das coletâneas “América Latina e Brasil em perspectiva” (ALAS/UFPE), “Tempo negro, temperatura sufocante. Estado e sociedade no Brasil do AI-5” (Puc-Rio e Contraponto) e do Dossiê “Gênero e Ciências” (História, Ciência, Saúde – Manguinhos). Coordenou a

23

organização de “A modernidade como desafio teórico. Ensaios sobre o pensamento social alemão” (Pucrs).

those are investigated. Perhaps, the Mameluco social thought inspire us to believe that human creativity can overcome the historically real damage imforms of cognition. posed by the logic of modernity-coloniality, adding to the social sciences new Keywords Darcy Ribeiro, The Civilizin Process, The Brazilian People, Episte-

mological decolonizing.

Apresentação Na segunda metade do século XX, numa conjuntura internacional de

Guerra Fria, Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai foram abalados Paraguai, um general tornou-se presidente, em 1958, num golpe de Estado,

por movimentos políticos que resultaram em ditaduras civil-militares. No tendo sido reeleito por oito mandatos consecutivos, totalizando 35 anos do mais longo governo militar na América Latina. No Brasil, em 31 de março de 1964, os militares depuseram o Presidente da República João Goulart e assumiram o governo do país, até 15 de março de 1985. No Chile, em 11 de setembro de 1973, um golpe militar também colocou na presidência um

general que lá permaneceu até 1990. O Uruguai que, de 1933 a 1942, vivera a ditadura, mas saíra dela entre 1942 e 1973, quando experimentou um significativo período democrático, com a ascensão de movimentos de diversificação dos espaços culturais e intelectuais, especialmente entre 1945 e 1955, reviveu a força da ditadura quando seu presidente civil deu um golpe

de Estado, em seu próprio governo, em 27 de junho de 1973, apoiado pelos militares, que então permaneceriam no poder até 1985. Na Argentina, em então presidente eleito e instalando governos militares até 1983. 24 de março de 1976, as Forças Armadas assumiram o Estado depondo o Darcy Ribeiro experimentou o exílio real por 12 (doze) anos, em conse-

quência do Golpe Militar no Brasil, que, em 1964, desmontou o Governo de go, ao lado de nomes como a exemplo de San Tiago Dantas, Celso Furtado,

João Goulart, que conduzia o início das reformas estruturais no país. JanCarvalho Pinto, José Ermério, Oliveira Brito, Wilson Fadul, Almino Afonso e do próprio Darcy, então Chefe da Casa Civil, esforçava-se para arregimen24 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011

2 segundo Darcy Ribeiro. também dando aulas e seu encontro para recebê-lo. sua mulher. dentre outros textos. como já fizera o presidente deposto (RIBEIRO. restando a Darcy Ribeiro deixar o Brasil. O crítico uruguaio menciona. Participou. brasileiros seguiriam. a mestiçagem. É. ainda no Uruguai. num pequeno avião. situado a 500 quilômetros de Montevidéu. Outros dura brasileira. foram ao envolveu-se nas inúmeras tarefas da universidade. mediante a promoção de um cerbavam-se num contexto de severa crise econômica no país. facilitaria o êxito das “tropas mineiras”. não o fez de forma premeditafoi levado por amigos para Buenos Aires. 325). como a Enciclopedia Uruguaya. assim como João Goulart. Comissão de Cultura da Universidade da República do Uruguai. O avião. nesta última. constituem 25 . também para o Uruguai. Transculturación narrativa en América Latina e em O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. Aliava-se à tensa atmosfera política a forte propaganda norte-americana contra o Governo de João Goulart. Darcy Ribeiro num rompante. Fugia de Brasília para o Rio Grande do Sul e dali. É importante acentuar que o enfoque do regionalismo nos dois autores esteve presente na reflexão ocorrida nos seminários da Universidade da República. Darcy Ribeiro previa que o Brasil “estava prestes a romper-se”. para Ángel Rama. e Domingo por sinal. e a transculturação. que alçou ao poder o General Costa e Silva. em reação ao Golpe Militar. espraiando-se pelos escritos dos dois autores. p. escapando da ditaNo Uruguai. a Víspera e a Marcha. Salto. para evidenciar o relacionamento entre unidade e diversidade na América Latina. tendo. Porém. tempos de exílio. Darcy Ribeiro procurou imediatamente Mário Cassinoni. por não aceitar desencadear uma guerra civil. para Darcy Ribeiro. contudo. 1997. então estudante de Direito. hoje. os antagonismos exanas indústrias e no campo. dentre outros. pede asilo político. A discussão do regionalismo no contexto de América Latina e da transculturação aparece em Transculturación narrativa em América Latina. no Uruguai e permanece em As Américas e a civilização. com greves plebiscito para referendar as ditas reformas. A opção de João Goulart. em seus primeiros da. do projeto da reforma agrária. Diante das tropas da polícia do Uruguai. Em estado grave de doença.tar as forças progressistas do país e pressionar o Congresso na aprovação. Nesses textos. de importantes publicações. a viver de Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 A interlocução entre Ángel Rama e Darcy Ribeiro continua além das fronteiras geográficas. Luis Carlos Benvenuto. o amigo para o resto da vida2. Rama quem nota que a a maior tristeza de um povo colonizado é sentir-se condenado a não superar os limites da colonização. Darcy Ribeiro garantindo a remuneração para seu sustento e de Berta. professor na Universidade. aterrissou em Darcy Ribeiro que encontrou no Uruguai sua casa. representante estudantil na Comissão de Assuntos Universitários. Desde esse primeiro momento. Secretário da Carlevaro. Cassioni não pôde acolher pessoalmente Darcy. mas os contatos solidários imediatamente se estabeleceram. a sua estreia marcada pela entrevista concedida a Ángel Rama. seu amigo e reitor da Universidade da República. depois. As Américas e a civilização.

Coelho. ou ainda as idéias que contribuíram para criar um país legal entre as tradições sociológicas de diferentes contextos nacionais versus o país real. Cf. o tratamento da relação se limitou a apontar as idéias que estão dentro ou fora do lugar. a recepção pode implicar uma forma de transgressão. atrasado. 2002. O exílio de Darcy Ribeiro no Uruguai. 2008 apud. Suas palavras denotam essa percepção: dade.categorias teóricas importantes para o entendimento da cultura brasileira e da literatura latino-americana. 2006. que acaba por desviar a atenção do pesquisador da positividade das Se há tentativa para conhecer o perfil cognitivo da sociologia brasileira. ao notar a ausência de um modo singular de imaginação sociológica a Isso não é tão comum. empréstimo. MIGLIEVICH-RIBEIRO.. a capacidade de um povo interpretar sua própria si- nização de valores e interesses comuns. pondera Glaucia Villas Bôas (2006). caracterizar o pensamento brasileiro. tuação é instrumento simbólico para sua atuação na história.. (. não há que se Noutros termos. assim. ainda que sem atinar muito bem para quais armas deve usar para realizar esse anseio (RAMA. tal tentativa se limita a medi-lo exclusivamente por um conjunto de interpretações relacionadas às possibilidades de adequação do país a um modelo de modernidade construído ‘fora’ de seus limites territoriais. 11-12) perspectivas confirmam de modo impecável os cânones inter- 26 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . 53). pela orgadominantes os parâmetros de normatização da sociedade. que. sendo seu maior desejo o de alcançar a luz própria. p. Daí que o pensamento social contém um gérmen de criatividade social de consequências férteis a se desenvolver ou não. respectivamente. capaz de atuar no incremento de uma cosmovisão capaz de se opor ao status quo. Antes. os estudos realizados dessas pretativos que consagraram a imagem de um país fora do lugar. aponta. inadequado. sua tendência em se deixar guiar por parâmetros exógenos ditados por uma pretensa moderniexperiências aqui existentes. triste. (VILLAS BÔAS.) Em geral. p. entretanto. Ainda quando vêm dos estratos subestimar os estratos subordinados em sua competência para recepcionar e reelaborar as ideias produzidas. culturais e políticos. Em conseqüência do uso excessivo dessa medida. como luz refletida. 2009.

era fundado. uma vez que aquelas interpretações acentuavam a permanência no tempo de qualidades inerentes aos brasileiros.). Ganhou visibilidade uma geração de intelectuais emblemáticos no empenho de construção e defesa de uma sociedade democrática e moderna que. tais como a cora brandura e a conciliação (VILLAS BÔAS. porém. As concepções igualitárias.. de se defrontar com a eficácia simbólica das interpretações do caráter nacional brasileiro. com uma visão de imutabilidade da vida social. Em 1948. No Rio de Janeiro. tão conservadoras.. Roberto da Matta e Otávio Guilherme Velho. para a excepcionalidade de tais estudiosos. com uma percepção comum: a de que a história das ciências a antropologia brasileira. mas também Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 27 .. em 1958. o CLAPCS (Centro Latino-Americano de Pesquisas Sociais). uruguaios. aqueles intelectuais brasileiros. aderisse acriticamente a modelos importados. porém.) tal pulsão transformadora não é comum a todos os momentos históricos (. também ligado a UNESCO. vivenciavam uma rara e profícua ambiência para a elaboração de uma certa sociologia crítica. as mudanças na conjuntura política nem por isso. ar- gindo de tradições passadistas que insistiam em explicações deterministas gentinos. cujo primeiro diretor foi José Medina Echa- nio Candido. universalistas e progressistas da sociologia tiveram. p. mexicanos. num rearranjo do pensamento social brasileiro. 2006. a violência. dentre outros. o autoritarismo.. venezuelanos. a despeito das personalidades mulsociais no Brasil indissociava-se da construção de uma nação autônoma. Entre as décadas de 1950 e 1970. Marisa Peirano (1992) entrevistou personalidades célebres como Anto- mericana de Ciências Sociais). peruanos. Florestan Fernandes. Villas Bôas atenta. perguntando-lhes sobre tifacetadas. Também fuou essencialistas.repercutiram. ao to social brasileiro: se confrontarem com a forte carga conservadora persistente no pensamen- (. Deparou-se. em 1957. foi implementada a FLACSO (Faculdade LatinoAvarria. a desmesura. chilenos. Darcy Ribeiro. nascia a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina). Roberto Cardoso de Oliveira. contudo. 12) dialidade. que aliou o chileno Raul Prebich e o brasileiro Celso Furtado. sobretudo.

Encerra seus 30 anos de É nesse cenário que Darcy Ribeiro se propõe a pensar a nação brasileira e o Estado como não necessariamente sinônimos. dentre outros. historicamente. hoje. 1969). as teorias nascidas em solo ocidental. Darcy Ribeiro escreveu O processo civilizatório. o co28 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . 2004. O destaque é meu). conhecimento que. brasileiro. O processo Civilizatório (2001) não como uma afirmação da ciência eurocêntrica. sobretudo. p. LÓPEZ. – teoria do Brasil (1ª Edição. Por um processo civilizatório híbrido Percorrendo. escrito no Uruguai” chamados Estudos de Antropologia da Civilização. A partir daí. uma hermenêutica do legado de Darcy Ribeiro. 6. 2006). ouso. ainda hoje. onde se for- obra. Os brasileiros reflexão publicando O Povo Brasileiro. e de outro. Sua difusão deve-se mais diretamente aos tempos em que. uma “crítica descolonizadora nas ciências sociais latino-americanas” (CASTRO-GÓMEZ. No Brasil. Etapas da evolução sócio-cultural e publicou-o em 1968. Minha hipótese é a de que há questões presentes na obra darcyniana capazes de gestar. A respeito dessa Advindo da Escola de Sociologia e Política. disse: “É um livro latino-americano. viveu e trabalhou em diferentes países latino-americanos. 224). 2003). p. ouvindo os Seminários ministrados por Herbert Baldus. em São Paulo. contudo. 2003. inaugurou a série de 6 (seis) livros Américas e a Civilização: processo de formação e causas do desenvolvimen- to cultural desigual dos povos americanos (1ª Edição 1969). o nome de Darcy Ribeiro tem indis- cutível estatuto nos círculos universitários (VARGAS. Darcy Ribeiro compreendeu a vocação da Antropologia em sua competência para “elaborar uma teoria sobre o humano e sobre as variantes do humano e melhorar o discurso dos homens sobre os homens” (1997. mas como um diálogo promissor com como exercício de pensamento dialético. a América Latina. 2007. do qual fazem parte As (RIBEIRO. O Povo Brasileiro (1995) 1. impactando a geopolítica do quelas que são investigadas. apartou as culturas que investigam daTomando.mou. de um lado. cuja primeira edição data de 1995. No exílio. MIGNOLO. exilado. neste ensaio.

em suas palavras. então. apenas no âmbito propriamente da nação. quer dos que sobre ele mantinham as maiores restrições (BOMENY. nas ciências sociais em sentido estrito. Darcy é a dificuldade de tratar esta figura intelectual e pública militância política antes e após o Golpe Militar. sua das então novas instituições universitárias. contudo. mas das relações com outras É curioso que Darcy nos narre. na comunidade científica – sobretudo. encontrado quem o desejasse silenciar em sua franca apos- ta na nação como campo de luta e de possibilidades transformativas. leia-se aqui o não-vínculo a qualquer uma Há fortes indícios de que. por isso. a saber. Helena Bomeny. entretanto. tenha permitido o ofuscamento de sua que Darcy Ribeiro produzia um pensamento contra outro. considerados quase atávicos e. O polêmico autor te- tuais não mais eram os autodidatas. no prefácio à quarta edição venezuelana de O processo civilizatório. imutáveis. da inclusão de seu nome Eleger Darcy Ribeiro fonte de interesse e investigação acadêmica é um desafio. Se há um razoável consenso a respeito de sem controlar passo a passo. nota as dificuldades. também. os tempos do exílio somados aos enfrentamentos pós-anistia. que estudou as relações entre Darcy como intérprete do Brasil no compêndio do pensamento social brasileiro: Ribeiro e a Escola Nova. p.25). ainda. que sempre provocou quer de seus fiéis admiradores. a alerta anterior de le a encerrar a nação brasileira num julgamento essencializador. numa fase em que os intelecprodução intelectual. nada imparciais. não nações no mundo. as muitas impressões apaixonadas. já haviam se afastado bastante das convic– sua independência intelectual. Não se pode esquecer. 2001.nhecimento da obra de Darcy Ribeiro ainda parece superficial e mesmo eivado de preconceitos. Foi. aque- seus aspectos positivos quer negativos – mais negativos do que positivos ria. enções que marcaram a formação original de Darcy Ribeiro na Antropologia tre os antropólogos que. que sentiu medo do desastre de uma empreitada da magnitude daquele que empreendia: reescrever a teoria da história. quer de –. “sua raiva possessa contra todos os que Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 29 .

mas como pólos atualizados de uma mesma modernidade. rio para escapar ao que veriam como ridículo. nos círculos intelectuais brasileiros. p. que variavam desde altas civilizações até hordas pré-agrícolas e que reagiram à conquista segundo o grau de desenvolvimenindígenas e aos europeus. uma soberana arrogância ma prepotência com que encaram essa choldra que é seu país (Ibid. a mesma das obras de 2001. era o livro editaLewis Morgan. persistia. sem que tal condição impusesse a Darcy Ribeiro alguma trodutório. do. também. os povos americanos. reconhecia. na apresentação de O processo civilizatório (RIBEIRO. Porém. 2001.. em 1968. em relação aos povos . dentre as quais. pela Smithsonian Institution. que impedia efetivamente a participação autônoma da nação no debate internacional. A questão a conduzi-lo era: Como classificar. pela primeira vez. a fim de dar conta das especificidades de doze processos civilizatórios. entre nossos intelectuais. mal-contada. Anísio observava ainda. os povos indígenas. para Anísio Teixeira. diriam: o Brasil não é sério. a mesDesafiando a muitos. em seu texto ino tom irônico e quase leviano daqueles que preferem não se levar tão a sé- Anísio Teixeira. após o recebimento de um primeiro e arrasador parecer de uma importante editora internacional. 23) que salvou da morte precoce seus primeiros escritos. os africanos desgarrados de grupos em distintos graus de desenvolvimento para serem translada30 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 to que haviam alcançado? Como situar. afinal. 13). que. passam a compor o processo civilizatório. de outro lado. dos que se consideram superior ao meio ambiente onde nasceram. Darcy Ribeiro propõe nada menos que a escrita de uma nova teoria global explicativa do processo histórico. 13). p. e suas ideias publicadas receberiam depois quinze novas edições em vários idiomas que espalharam pelo mundo cerca de 160 mil exemplares.pensam que intelectual do mundo subdesenvolvido tem que ser subdesenvolvido também” (RIBEIRO. uns em relação aos outros. de quem era leitor. de um lado. Uma humildade. também faz referência ao fato da obra ter sido escrita a partir espécie de subordinação mental. p. do terceiro mundo. com dezoito formações socioculturais distintas. não percebidos como pré-estágios civilizatórios.

dos à América como mão-de-obra escrava? Como classificar os primeiro. de sociedades não contempladas no empenho verificado nos Grundades arcaicas. ções egípcia. 2001. não contamos com categorias teóricas adequadas. como classificar e relacionar as sociedades nacionais americanas por seu grau de incorpoagora. aliou as formações progressivamente mais híbridas. para Darcy Ribeiro. as chefias pastoris nômades. a saber. na segunda. que vieram depois – sucedendo-os no europeus que regeram a conquista? Os ibéricos. inca. 3) civilizações mundiais. os impérios mercantis escravistas e os impérios despóticos salvacionistas. cujas linhas de desenvolvimento histórico Categorias tais como escravismo. que nomeou de estados rurais artesanais. feudalismo. o capitalismo mercantil e os colo- Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 31 . Seriam ‘escravistas’ as sociedades coloniais e os estados estruturados depois da Independência? Seriam “feudais” ou “semifeudais”? Seriam “capitalistas”? (RIBEIRO. já explicativos da civilização europeia. árabe. maia. também. os impérios mercantis salvacionistas e o colonialismo escravista. 2) civilizações regionais. além dos drisse. tais quais as civilizarevelam modos de ser e viver inéditos. da civilização industrial? (RIBEIRO. p. O autor elabora uma tipologia a contemplar o que chamou: 1) socie- São cerca de 10 mil anos da história da humanidade que ganham inte- subtipos.8-9) ração aos modos de vida da civilização agrário-mercantil e. e os nórdicos. revelavam-se. p. agora a dar conta. os impérios teocráticos de regadio. designou formações sociais como aldeias agrícolas indiferenciadas e hordas pastoris nômades. Mesmo para as formações correspondentes ao período que se segue à conquista e avassalamento dos povos pré-colombianos. denominou configurações sociais.8-9) ligibilidade no esforço classificatório de Darcy Ribeiro. Na primeira formação. estreitos na compreensão do mundo social não-europeu. capitalismo e socialismo. que chegaram domínio de extensas áreas –. configuravam o mesmo tipo de formação sociocultural? Finalmente. 2001. no último grupo.

associativo e ideológico que atraves32 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . p. Focaliza. citadas por Gordon Childe e Leslie White. não há uma sequência evolutiva uni- forme. traga Esta construção ideal (diagnósticos homogêneos referentes aos sistemas adaptativo. projetou a civilização da humanidade (RIBEIRO. A da condição primitiva pode assumir diversas feições. a fim de apreender a lógica do movimento da auto-transfiguração humana. em sua totalidade. conforme o tipo de originalidade de sua releitura de Marx e Engels.nialismos modernos. social e ideológica inéditas no processo de mudança social. mas admite a força explicativa de um modelo teórico que se propõe a destrinalgum ensinamento weberiano. um campo de possibilidades ilimitadas apenas ensaiadas em sua tipologia das configurações históricas. marcado necessariamente pelo contato conflituoso entre os pólos dominador e dominado. sem citar. as revoluções culturais mais amplas e com- sua maneira. sua abordagem histórico-estrutural “assinala que o rompimento evolutivo propriedade que o dinamize” (RIBEIRO. 36. sem abdicar da possibilidade da síntese. Fiel ao materialismo histórico e dialético. porém. O destaque é meu). por fim. com isso. Não é impossível que Darcy Ribeiro. do que qualquer conceito a defini-la. A recusa da ideia de sequência evolutiva linear. É certo que nada mais distante de sua proposta do que pretender a coincidência entre as sociedades concretas e os modelos criados. podemos nos recordar da crítica de Weber ao marxismo. a expansão socialista. as revoluções tecnológicas sabendo. produz sua ênfase nas rupturas que abre. como marxista à descrevem. Se sua a percepção de que a realidade é mais complexa. 2001) Entre o primitivismo e a civilização. abre para Darcy char o capitalismo. a evolução humana adquire feições tecnológica. que estas jamais plexas. de Steward. sico da construção de nosso esquema de evolução sociocultural em sua Darcy Ribeiro elegera o desenvolvimento tecnológico como critério bá- proposta de uma história crítica da tecnologia. híbrida. cumpre a crítica ao evolucionismo mais rudimentar. daí a multiplicidade das formações socioculturais. ao ressaltar: recepção do conceito de evolução multilinear. quando o primeiro lamenta seu caráter dogmático e teleológico. 2001. o imperialismo industrial e neocolonialismo. Tal como nos Grundrisse.

O Processo Civilizatório explicita uma plêiade de formações questionam as hierarquizações espúrias do colonizador. p. Apresentando em cada uma delas certas alterações significativas) está muito distante do possível. Darcy Ribeiro buscou evidenciar que “a posição em que se encontra uma sociedade não corresponde a qualidades inatas ou a qualidades imuveis de transformação” (RIBEIRO. pode-se afirmar que o socioculturais concretas. de qualquer pretensão positivista e totalizadora em seu livro ao justificar-se. porém. em um de seus artigos. a interdependência e a simultaneidade dos processos de constituição das sociedades humanas. de marcar a pluralidade. Em oposição à representação dicotômica das representações modernas. com a finalidade. por exemplo. os modos de intervenção dos fenômenos culturais em condições de subdesenvolvimento como de- táveis de sua cultura.sassem todas as formações. Darcy Ribeiro escapa. Ainda assim. foi Marx quem me pediu q escrevesse O processo civilizatório. senão. Também em oposição aos julgamentos terminados por causas atávicas das respectivas formações econômico-sociais. p. o herdeiro de Marx Ribeiro. ele esperava uma obra mais lúcida e alentada do que minhas forças permitiam. (RIBEIRO. 47-8). que A Europa mesma é desconstruída como bloco monolítico. 135). seu informe como Senador da República: Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 33 . em larga medida. em sincronicidade (RIBEIRO. 2001. p. Obviamente. apesar de tudo. a circunstâncias susceptí- na natureza para a produção de bens e para a institucionalização de novas relações sociais. a contrastar com um outro igualmente uniforme. 2001. destacando os elementos de criatividade nas culturas como. 2001. por fim. em virtude do âmbito de dispersão das variações de conteúdo de cada cultura. p. em Carta. 47-8) Ainda assim. 2001. materialismo histórico e dialético orienta e dá unidade à narrativa de Darcy Em acordo com Vargas (2003) e López (2006). sou eu. é irônico diante dos que contestam sua opção metodológica: Conforme se verifica. 31) fico com o direito de crer que. (RIBEIRO.

) tual da multiplicidade de situações concretas registradas pela uma explanação teórica ideal construída pela redução conceiarqueologia. a posição em que se encontra uma sociedade na ordem mundial não corresponde a qualidades inatas ou a qualidades imutáveis de sua cultura.. p. em sua codeterminação. no mesmo processo de transfiguração étnica e nas expansões civilizatórias de formações socioculturais singulares.. porém. demonstra as variações nos processos de cada sociedade particular. os modos de intervenção na natureza para a produção de bens e para a institucionalização de novas relações sociais. veis de transformação. 45) a definição de suas etapas básicas e dos processos de transição dernização reflexa ou atualização histórica. um modo autônomo de dirigir a si própria (aceleração evolutiva) ou permanece escrava de formas exógenas de produção econômica. 135). onde também se situa o curso da expansão ibérica pelo mundo. quer no plano da 34 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . 1978. 1991. A luta de classes expressa-se. pois. configurada pelo tipo de relação que desenvolve com as demais sociedades. isto é. Dialeticamente. Não subestima. Assim. por exemplo. como critérios de comparação de sociedades. movimentos de criatividade cultural. como recurso analítico (RIBEIRO. Darcy Ribeiro destaca os elementos de criatividade ram conflitos que se expressaram em conquistas de territórios nos pro- Os conteúdos ideológicos de dominação nas relações sociais deflagra- cessos civilizatórios.. porém. ou Seu conceito de aceleração evolutiva. p.) estabelecer as bases e os limites dentro dos quais nos propomos formular um esquema evolutivo geral (. formulado em contraposição à mo- não. em larga medida.. senão. seja pela destruição física ou pelo desenno novo mundo. pela etnologia e pela história. mediante de uma a outra dessas etapas. os embates entre ambos os projetos de desenvolvimento de uma sociedade. e considera-os. (RIBEIRO. depende de circunstâncias susceptínas culturas como. promove.Tentaremos (. e pela forma com que conquista. a um paradigma simplificado da evolução global das sociedades humanas. nos efeitos da deculturaizamento de suas matrizes étnicas em formações mercantil-escravistas ração dos povos subordinados.

aqui. ao se alterar. por sua vez. O primeiro define a inserção subordinada de povos atrasados em formações socioculturais estruturadas e em sistemas tecnologicamente superiores. a superação do atraso que não se dá pela modernização reflexa ou conservadora. A atualização histórica e a aceleração evolutiva referem-se a distintos desdobramentos históricos dos processos civilizatórios. a multiplicidade das formas de produção num mes- Entendendo o subdesenvolvimento como produto de um processo de Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 35 . (2005). Uma produtividade humana acrescida. implicando em efetiva perda de autonomia ou em sua destruição como entidade étnica. (RIBEIRO. operando. quer no plano institucional. como um incentivo à criação de formas ampliadas de mutualidade. ativadas por dois processos básicos. Estes efeitos sodos quais. Segundo a interação conflitiva entre sociedades tendentes a conduzir à dominação das mais avançadas sobre as mais débeis ou atrasanúcleos cêntricos. de uma A história opera. tratar-se-ia da mobilização de fatores própria sociedade que avista o desenvolvimento. como uma sucessão de interações com- petitivas destes componentes dos modos de produção. de fato. cada um mações paralelas. autônoma. afeta os demais e lhes impõe transfor- ciais constritivos. mais tarde. contudo. Como também notou Silva Jr. Falamos. p. endógenos e/ou exógenos. 83-84) das e a conversão destas últimas em proletariados externos dos incorporação histórica. que torne o homem capaz de produzir excedentes sobre o consumo. pela criatividade e conhecimento da revolução tecnológica. não conduz à liberdade mas à escravidão e às guerras de dominação. configurando situações complexas que nunca são rigidamente deterministas nem linearmente evolutivas. Primeiro a estratificação da sociedade em classes e. permite estruturar unidades sociais cada vez maiores. 1978.técnica. tanto faz. tem-se a possibilidade do desenvolvimento autônomo – portanto. Através da aceleração evolutiva. sucessivas reordenações das relações de produção e a correspondentes transfigurações das classes sociais.

ao contrário do equilíbrio de de fazimento do nosso povo (RIBEIRO. Lévi-Strauss. Por isso. das gentes.20). também inspirado por Boas. Mas. Nele. dialeticamente. identificará que da crueldade e do aniquilamento nero humano. em que a miscigenação é o fato inédito. Kroeber. o atroz processo Afasta-se de qualquer essencialismo. a transculturação – contrariando o pensamento das elites locais temerosas diverge radicalmente de Freyre ao enfatizar. nas quais a lógica a presidir as diferentes formas de organização do trabalho é a sua exploração mais eficiente. 1995. primeiramente. p. antagonismos do autor de Casa Grande & Senzala (1997). ganha vida o povo brasileiro como um novo gêA segunda parte de seu livro O povo Brasileiro (1995) traz o expressivo título Brasil: criatório de gente. Isso se deu. Da ninguendade ao povo brasileiro: uma perspectiva dialética da história posto ao reconhecimento das singularidades das regiões nativas em suas diferenças. a totalidade da estrutura do subdesenvolvimento não pode ser rompida senão através da gestação de tonomamente às sociedades futuras. coerente com as ideias de Boas.mo território é característica das chamadas sociedades incorporadas. consistia Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 36 . em face das metrópoles. o antropólogo Darcy fala da instituição social que explica o Brasil em seu nascedouro: o cunhadismo. Gilberto Freyre responde aos ensina- Apenas no final do século XIX. Herskovis. em sua análise do povo brasilei- ro. iniciou-se um movimento intelectual dis- mentos de Boas na diferenciação fundamental entre raça e cultura e admite de um rebaixamento – em seu papel criativo na invenção da nova cultura mestiça latino-americana. uma sociedade capaz de se acelerar evolutivamente para se incorporar au- 2. mas não inferioridade. para incorporar estranhos à sua comunidade. a partir da matriz culturalista que impregnou o pensamento de Franz Boas e sobre a qual teorizou Malinowski. e percebe-o como fruto de contínuos e violentos atos que permitiram a construção do Estado-Nação. Darcy Ribeiro. Essa antiga prática indígena. Em que pesem as ambiguidades conhecidas de sua obra.

. 83) efetivamente ocupou o Brasil. termo originalmente referido a uma casta de escravos que os árabes tomavam de seus pais para criar e adestrar em suas casas-criatórios. 1995. do isola- 37 .. onde cresciam os mamelucos até mica sobre o povo de que foram tirados” (Ibid. mas sua integração. a linha evolutiva prévia das populações indígenas subju- na constituição do Brasil. incorporação.) Sem a prática do cunhadismo. Assim que o homem estranho à tribo a assumisse. p. a saber. mil laços que o aparentavam a todos os membros do grupo. “No processo de formação e transformação das etnias. A função do cunhadismo na sua nova inserção civilizatória foi fazer surgir numerosa camada de gente mestiça que era impraticável a criação do Brasil. com a perda da autonomia étnica dos núcleos engajados. que “se revelassem talentosos no exercício do mando e da soberania islâOs brasileiros-brasilíndios-mamelucos expandem o domínio português rompe-se. castigando as gentes de sangue materno. hostilizado e. com todas as suas consequências de mutação cultural Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 nacional. çava graças ao sistema de parentesco classificatório dos índios.108). uns com os outros. mar. (. O mameluco rejeita a mãe índia que lhe deu a luz e opõe-se aos irmãos de sangue das Américas. também.. ao mesmo tempo em que é desconhecido por seu pai branco e banido entre os irmãos de ultra- O brasileiro nasce no processo de distinção de suas matrizes originais. p.). Tem-se não a assimilação étnica. Oprimido e opressor.. hostil. Na usurpação da identidade étnica. assim. sobrevive a nova etnia – mento à integração. a instituição funcionava como uma forma vasta e eficaz de recrutamento de mão-de-obra para os trabalhos pesados (. a contradição constrói a identidade dos brasilíndios chamados mamelucos pelos jesuítas espanhóis. O segundo caso se dá pela atualização histó- rica. automaticamente. todos os membros de um povo. Isso se alcan- Como cada europeu posto na costa podia fazer muitíssimos des- ses casamentos. (RIBEIRO. deixava de sê-lo e estabeleciam-se.. Inter- gadas como mão-de-obra servil de uma nova sociedade integrada numa etapa mais elevada da evolução sociocultural.em lhes dar uma moça índia como esposa. que relaciona.

depois. num só tempo. atua como uma mó desumanizadora e deculturadora de eficácia incomparável. qualquer povo é desapropriado de si. povo brasileiro. 28). Com o desenvolvimento da cana-de-açúcar é que passaram a chegar em grandes levas. primeiro. p. deixando de ser ele próprio. a partir de 1538. fundada na apropriação de seres humanos através da violência mais crua e da coerção permanente. exercida através dos castigos mais atrozes. Destaca o principal dos conflitos havidos na história brasileira: o estes que alcançavam o caráter mais cruento no enfrentamento dos negros a seus senhores. 161). nasce o cer o brasileiro-mulato. acerca de como pretos humanos uma vez que a racionalidade do escravismo é oposta à condição com valores morais. quando transfigurado etnicamente na linha consentida pelo senhor. ao contrário. constituindo-se no grande negócio dos europeus. Ele mesmo responde que a submissão apenas pode ser explicada pela força da opressão que exigiu a mais fervorosa vigilância e o uso constante dos castigos preventivos capazes de levar o ser humano a se esquecer de si. para ser outro. Palmares é o caso exemplar do enfrentamento inter-racial que também continha um projeto de sociedade na forma do igualitarismo e da economia solidária. 1995.e social e de redefinição do ethos tribal” (RIBEIRO. Exalta a fuga como a mais forte motivação do cativo para se manter vivo. lembro: a razão instrumental nenhum compromisso possui Darcy se interroga. p. como podemos nós fazê-lo. Não menos dolorosa é a transfiguração étnica que fez nasOs primeiros contingentes de negros foram introduzidos no Brasil. 118) e índios submetidos a tal processo de deculturação puderam permanecer humana – ora. (RIBEIRO. 2005. que é a mais compatível com a preservação dos seus interesses. p. o Brasil. A pronta ação repressora que sustenta o latifúndio e as lutas dos subalternos constróem. Submetido a essa compreensão. Antagonismos . para ser ninguém ao ver-se reduzido a uma condição de bem semovente. como um animal de carga. A empresa escravista. prova- velmente. 2005. 38 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 racial que não oculta. em que imensos capitais eram investidos (RIBEIRO. os elementos classistas3.

pode ser notada a partir de meados do século XVI. Nada aqui. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si. identidade do brasileiro. Darcy Ribeiro defende a noção de um povo novo nascido na maioria dos de desafricanização do negro e de deseuropereização do europeu (1995. a seu ver. porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres. p. como falsa. O povo brasileiro. orgulhosos de sua tão proclamada. portanto. p. O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo. dos mamelucos. diferenciada e autônoma em seu pro- ros exóticos de exportação e daí extrair seus valores pecuniários. Brasil que se construía a si mesmo em consonância à sua base ecológica e Acerca da democracia racial brasileira. afundada na ninguendade. (Ibid. Darcy é objetivo: “O espantoso é que os brasileiros. dirigida por vontades e motivações externas e uma comunidade cativa. O destaque é meu) cesso de desenvolvimento. (RIBEIRO. outra etnia. e é a partir dessa carência essencial. para livrar-se da ninguendade de não-índios. Darcy Ribeiro. “dinamizada por uma cultura sincrética e singulariza- Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 39 . raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais. somos um povo em ser. postula Darcy. uma nova etnia nacional. Cf. p. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Mas. As feitorias ultramarinas destinadas a produzir gêne- Essa célula cultural neobrasileira.131) 4 países da América Latina resultado dos processos de desindianização do índio. p.. plasmaram a da pela redefinição de traços culturais delas oriundos” (RIBEIRO. em tudo se diferenciavam da colonização europeia nos países centrais4. Um país de mestiços. o surgimento do que chamou “gênero humano novo” uma vez que. 453. nas colônias dos Estados Unidos. O brasilíndio como o afro-brasileiro existiam numa terra de ninguém. caboclos e mulatos que. nem poderia. brasileiros. como se fossem castas e guetos” (RIBEIRO. ‘democracia racial’. 1995. 1995. 19). que eles se vêem forçados a criar a sua própria identidade étnica: a brasileira. 24). Canadá e Austrália. 1995. não-europeus e não-negros. p. dos índios e dos africanos mor- Darcy Ribeiro não verifica. aproximava-se deste. naqueles países houvera tão apenas povos europeus transplantados. p. por mais que se forçasse um modelo ideal de europeidade. já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. impedido de sê-lo. sem identidade. 453. etnicamente falando. esse é o às suas formas de produção. os quais não são iguais aos seus ascendentes de uma ou tos. 1995. Um 3 povo mestiço na carne e no espírito. 20). associada ao modo de produção açucareiro.Nós.

nem nosso futuro num futuro comum” (RIBEIRO. (RIBEIRO. Todos nós brasileiros somos. 446). um dos mais coenhum contingente separatista. na dura busca de sua identidade. 1995. p. uma nova identidade étnico-social. os manuais das civilizações do Velho Mundo. Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida. 118). política. brasileiros. que também somos. o poder do senhor de engenho estendia-se à à qual se juntava a camada parasitária de armadores e comerciantes. é dialeticamente de nossa ninguenda- Se nascemos ninguém. 1995. também. a de brasileiros. por igual. 120) iniciado com a vinda da burocracia administrativa metropolitana de Lisboa 40 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 O trabalho de construção do Estado pelas elites brasileiras do século 19. até hoje. nehumilhada e ofendida por uma minoria dominante (RIBEIRO. para se guiar. 13). A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal. não tendo sido de. p. somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. nasceu. que se de- portadores de açúcar e importadores de escravos – que era também quem nominou brasileiro e precisou realizar um “esforço inaudito de autorreconstrução no fluxo do seu próprio desfazimento” (RIBEIRO. de determinismo na dialética darcyniana: “nosso passado. conformando uma oligarquia sociedade inteira cujas elites integravam um sistema único a reger a or- Dentro do seu domínio. pois. que os brasileiros se ergueram como um dos povos. sem ter. por exemplo. Todos nós. p. recusando a mãe índia ou a mãe preta e rejeita- mais homogêneos linguística e culturalmente e. Uma cúpula homogênea congregava interesses internos e externos e submetia a estes um não-povo. nosso presente não era necessariamente o passado deles. religiosa e moral. um povo. . Nada há o alheio. De uma massa de trabalhadores explorada. p.dem econômica. a mão possessa que os supliciou. hoje. do não-ser. 1995. através de séculos. 1995. exfinanciava os senhores de engenho. sos socialmente do ponto de vista de não se abrigar aqui. dos pelo pai português (o europeu). sairia dela sem ficar marcado indelevelmente.

13). muitas vezes. ao contrário. 225). não se importava com seu povo. seus marcos históricos e geográficos. seus textos básicos. p. p. os intelectuais latino-americanos não facilmente separariam as históricas opressões sofridas no colonialismo e neocolonialismo. 2001. cultura e costumes. BHABHA. 286). também. SOARES. não se descolou da É verdadeiro que o nacionalismo é a declaração de pertencimento a um lugar.para o Rio de Janeiro e consolidado na aliança dos interesses das elites provinciais e governo central. embora deixe claro que não Renato Ortiz (apud. Noutro aspecto. informado pela contundência do debate nacional-popular sobre a identidade cultural e influenciado pelas problemática nacional. do empenho no fortalecimento de sua nação. 2007. um modo de autodeterminação em sua luta por reconhecimento. seus inimigos e heróis oficiais que garantem a legitimidade da retórica do pertencimento. é a percepção da independência entre essas duas linhas de orientação que o motiva a discutir o paralelo e verificar sua reRevista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 41 . pois. dificilmente seria por ele construído. povo brasileiro. a uma herança cultural. que impunha a divisão internacional do trabalho cada vez mais acentuadamente. Negociando espaços de enunciação e buscando cartografar geografias ideias anticolonialistas em movimento nos anos 1950. Nos modos citadinos de ser brasileiro. 2005. para o povo colonizado. jamais se confundiu. de resistência (VOLPE. 2008) traça um paralelo entre o ISEB5 e pretende estabelecer uma filiação direta entre ambos os movimentos intelectuais. Darcy. Este era operativamente integrado ao nascente sistema econômico capitalista de âmbito mundial (RIBEIRO. com a gestação do que busco em Renan (apud. indissociado da integração latino-americana. os nacionalismos bem sucedidos experimentaram práticas colonizadoras ao relegar à ilegitimidade e à inferioridade os outros povos. quase sagrados. reforçava-se a submissão de um como os hábitos patrimonialistas e autoritários. a um povo. ainda não superados. Todos os nacionalismos têm seus pais fundadores. é a afirmação de uma pátria criada por uma comunidade de língua. p. o pensamento pós-colonial de Frantz Fanon. Com o tempo. não construiu seu Estado e. expressão povo-nação a um projeto empresarial moderno e capitalista (o Estado) que. sua afirmação como nação é. Uma nação que inexistia como plebiscito diário.

Acesso em 14 de julho de 2011 Bhabha traz outra passagem de Renan. é a construção de um discurso sobre a sociedade que desempenha a totalização procer para lembrar – é um lugar de “identificação parcial” inscrita povo. citado por Bhabha (2007. de se esquecer para lembrar de sua origem. o centro tornou-se conhecido pela elaboração teórica do chamado nacional-desenvolvimentismo. Aquele tempo estranho – esqueno plebiscito diário que representa o discurso performático do nismo. Cf. que Darcy Ribeiro encerre O povo brasileiro com uma louvação a uma Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 42 . entendida como crenças compartilhadas e comunidade imaginada. portanto. (BHABHA. de 14 de julho de 1955. O ISEB e o desenvolvimento. não-resolvida. trata-se de perceber as tensões nessa cidência histórica entre povo e Estado mas. também. 225). em que este diz acerca 6 levância no debate contemporâneo. possamos ler O Povo Brasileiro sem aceitar acriticamente a coin- dade cultural. O plural grupo de intelectuais que o criou objetivava o ensino e a divulgação das ciências sociais para fins de análise crítica da realidade brasileira. Renan. para que possa cotidianamente (re) começar sua narrativa de nação.608. 37. O Brasil. a partir da metáfora do senhor e do escravo. formada e transformada no âmbito da esfera política que nós identificação e suspeitar do ambíguo discurso da cultura nacional que se mais se despojam de relações de dominação cultural. como todo construto simbólico. Em que pesem suas diferentes fases até a extinção com o Golpe de Estado de 1964. 2007. A identidade nacional. 226) blemática da vontade nacional. Não é gratuito. fgv. Ser obrigado a esquecer – na construção do presente nacional – não é uma questão de memória histórica. o plebiscito diário que menciona- mos no texto. nascido da violência da dominação do europeu sobre o índio e o negro há de se lembrar e. contraditória. exceto como promessa.5O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) foi criado pelo Decreto n. como uma afirmação perpétua da vida. seu vivo antago- Talvez. p. bem como as várias controvérsias entre seus membros. mantém entre tendências regressivas e outras progressistas. compromissada com a promoção do desenvolvimento nacional. http://cpdoc. mas que jaNesse sentido. Mas. O Brasil de JK. p. Sem dúvidas. o que supõe a práxis dialética: negação e superação7. como órgão do Ministério da Educação e Cultura do Governo Juscelino Kubitschek. de inspiração hegeliana. a identidade nacional é um tipo específico de identichamamos de Estado-Nação. ao contrário. Trata-se de povoar a memória nacional. a constituição do povo brasileiro na superação da nin- guendade ainda não se deu. de novas possibilidades libertadoras da identificação cultural. é complexa. A nação obriga o exercício da memória e do esquecimento simultaneamente. compreende este estranho esquecimento6. ABREU.br/producao/ dossies/JK/artigos/Economia/ ISEB. 2011.

o fato de que. Mais alegre porque mais sofrida. p. Tais restrições não retiram da obra o mérito da ênfase no fator interétnico como central na formação das estruturas sociais do Brasil colonial. 454-455) da articulação da identidadevontade nacional: “Contudo cada cidadão francês tem de ter esquecido [é obrigado a ter esquecido] a noite de massacre de São Bartolomeu. sobejamente. 1995. encontrou-se prejudicada. Tarefa muito mais difícil e penosa. mesmo sociedade Tupi..nova romanidade. os Urubus-Kaapor (RIBEIRO. que havia realizado trabalho de campo em uma Não se tratava. escrito por Darcy Ribeiro. cerca de 95% destes terem sido publicados após os anos ganização familiar da sociedade colonial. Na verdade das coisas. 2007. a Nação Latino-Americana sonhada por a nós mesmos como um gênero humano novo que nunca exismais bela e desafiante. mais do que qualquer filiação ao relativismo ou ao pluralismo cultural (BHABHA. dos 233 títulos incluídos na bibliografia de O Povo setenta. Brasileiro (1995). Considerações Finais Em Uma antropologia mameluca a partir de Darcy Ribeiro. pode explicar talvez. Os parênteses são do autor). no caso de Darcy Ribeiro. à parte outras motivações. de nada similar à fábula das 3 raças. (RIBEIRO. Observa que. 7 Os discursos críticos pós-coloniais exigem formas de pensamento dialético que não recusem ou neguem a alteridade que constitui o domínio simbólico das identificações psíquicas e sociais. que é comunidade européia. BHABHA. 2007. Arruti chama atenção para o fato de O Povo Brasileiro. por conseguinte. Uma Roma tardia e tropical (. p.242). O aparente desinteresse contrasta. com sua condição de novo fenômeno editorial. que seria representada pelo Brasil. Nosso destino é nos unificarmos com todos os latinoamericaa América anglo-saxônica.. o que somos é a Bolívar (…). da sociedade pós-contato. para fundarmos. 1996). conforme visto. p. estando ausentes desde os trabalhos contemporâneos sobre a or- aos não-iniciados o quanto a compreensão da sociedade Tupinambá e. apre- sentar-se com um texto de ciências sociais sem ser assim recebido entre os pares. ou os massacres que ocorreram no Midi no século XIII” (RENAN apud. Somos povos novos ainda na luta para nos fazermos tiu antes.). mas também muito nova Roma. Melhor porque incorpora em si mais humanidades. tal como ocorre na nos por nossa oposição comum ao mesmo antagonista. 226. No Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 43 . quanto as etnografias realizadas a partir dos anos setenta sobre povos Tupi contemporâneos.

pela instrumentalização dos conceitos de aceleração evolutiva e de atualização histórica (modernização reflexa). 2006. os esforços de descolonização epistemológica viriam a permitir que se atentasse para a face obscura e escondida da modernidade: a colonialidade. porém. mas como pólos atualizados de um mesmo sistema econômico moderno. Seu livro foi escrito a fim de buscar informações que subsidiem novas escolhas humanas. o para- latino-americana (MIGLIEVICH-RIBEIRO et al. parte do entendimento de que o conhecimento está organizado em regiões/redes de poder e regiões/redes subalternizadas. se não que ressaltou com a agência humana em seu devir. ao contrário. não como précas. Em O Processo Civilizatório (2001). Teve seu início com os chamados “intelectuais da diáspora negra”. como Homi Bhabha. diversas feições. no sen- da humanidade como histórias partilhadas. nas produções teóricas de diversos outros autores. sob a rubrica de pensamento pós- colonial8. A diferença 44 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . contudo. hoje. pela crítica à modernidade como imposição de um modo de vida que se avaliou como superior às demais experiências de associação humana ou cultural. os estudos culturais. era contada apenas da perspectiva do colonizador e se proclamava absoluta. cosmopolitismo. em rota de colisão. Seu neoevolucionismo não o condenou a repetir prognósticos de outrora. 2006). Sérgio Costa. estágios civilizatórios. narrou-se uma história marcada pela opressão que se. Expressa-se. O empreendimento contemporâneo. a covista da história crítica das tecnologias. escreveu a história Entendo que Darcy Ribeiro participou como intelectual público. uma vez que a história não é mecânica. Teoria social. sob o ponto de Não há em O Processo Civilizatório respaldo à tese da história unilinear. É fato que Darcy Ribeiro inseriu. antiracismo. De seus três eixos principais – a orientação sistêmica/construtivista. 2009). caso latino (e brasileiro). até o século XIX. Edward Said. como já descrito. entrecruzadas e interdependentes. o rompimento evolutivo da condição primitiva assume nele.8 O pensamento pós-colonial não constitui uma matriz teórica única. suas lutas. Cf. suas trajetórias. Dois Atlânticos. dentro e fora da Europa. Stuart Hall. assimétriem caráter definitivo. os povos americanos no mapa mundi.. COSTA. Segundo Mignolo (2002). Tais estudos também se empenham em participar da redefinição do universal e do humanismo. etaneidade dos povos ditos avançados e dos atrasados. do esforço de rememoração/reinvenção da história das gentes e do Brasil. Trata-se de uma variedade de contribuições com orientações distintas unidas. revelando. não poucas vezes. no sentido proposto por Randeria (apud. tido mannheimiano.Gayatri Chakravorty Spivak e Paul Giroy. as operações de subalternização da produção digma da modernidade/colonialidade – a última traz mais fortemente a marca das ciências sociais latino-americanas pelas teorias nascidas nos centros de poder inscrevem-se nas práticas acadêmicas mais rotineiras.

58). classe. discutindo sobre o povo da América Hispânica. gênero. afinal. Por isso.RIBEIRO. não foi uma frivolidaintelectual brasileiro que vivia. cabendo. o episódio em que quem era. isto é. 283) com o qual tem que se defrontar a teoria crítica no mundo de- a escapar do apelo do livro: a formação e o sentido do Brasil. 2001. móveis. isso Que Ribeiro atribua ao Primeiro Mundo um papel não relevante na realização das sociedades futuras e não lhe reserve senão insuficiências como o socialismo evolutivo.. a base demográfica de um território (. Bonn. tais quais as das sociedades Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 45 . 2005. 283): Heinz Rudolf Sonntag. Conforme ressaltou representou uma ousadia sem paralelo à época: a proposta de se revisitar a história da humanidade sem reforçar a crença de “que o umbigo do mundo se situa ainda em algum lugar em Viena. das mãos de um de conhecimento e objetos de conhecimento. no Epílogo à Edição Alemã (in RIBEIRO.) é com MIGLIEVICH. seu exílio. e respondeu sem rodeios: “é o que se tem. Washington ou Roma” (in RIBEIRO. de Simon Bolívar. se não quiser correr o risco de desaparecer. a repartição entre sujeitos de que O Processo Civilizatório partisse do Terceiro Mundo. no caso brasileiro. há séculos. O subtítulo de O Povo Brasileiro não nos autoriza este. p. porém. ainda. p. o que este que temos que contar. a nação ainda seja a principal fonte identitária hoje. 2001). etnia. O desafio está lançado. fruto das incessantes articulações das diferenças. no Uruguai. Talvez. (SONNTAG in RIBEIRO. significa um desafio senvolvido imediata e seriamente. foi perguntado sobre mora nesta terra. Antonio Carlos Peixoto narra-nos. dentre outras identificações.. as múltiplas e incessantes diferenças o pluralismo das possibilidades de vida humana e expressam interseções que avançam para além das dicotomias entre eu e o outro mas evidenciam entre raça.(colonial) epistêmica tem legitimado. É nesse sentido que as ideias de povo e nação podem. p. Berlim. servir como categorias de entendimento de realidades. portanto. cambiantes. Moscou. o povo. construídas relacionalmente. é com este que temos que trabalhar” (apud. abrigar a différance.

UFMG. (1997) “Uma antropologia Mameluca a partir de Darcy Ribeiro. Não por to. Belo Horizonte: Ed.fgv. 301-12. reinventamos também as ciências sociais. Revista da Faculdade de Letras. em seu empenho intelectual. a dialética darcyniana nos inspire a crer que a criatividade humana é capaz de superar os reais danos impostos pela lógica da mo- dernidade-colonialidade na história de homens e mulheres e fundar. novas ca- ca a fim de que assumam. Referências bibliográficas ABREU. Helena (2001). Belo Horizonte. BOMENY. outra razão.. perseguimos suas pistas. Sociologia de um indisciplinado. BHABA. ao contrário do que historicamente testemunhaautodeterminação das pessoas e grupos numa Constituição que se intitula tegorias de análise e ressignificou outras. hoje. Alzira (2011) O Brasil de JK. http:// cpdoc. noutro âmbilos em novos ou antigos etnocentrismos. dessa vez.br/producao/dossies/JK/artigos/Economia/ISEB. Homi (2007) O local da cultura.latino-americanas. Darcy Ribeiro propôs. aceitamos os novos desafios. 198-238.. respostas mais plausíveis. Ed. não a exclusão ou dizimação das diferenças. uma vez submetidas a uma densa crítica epistemológimos. José M. Sérgio (2006) “Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós46 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . Darcy Ribeiro. elaboramos inéditas questões e. Hoje. social mameluco – tomo de empréstimo da antropologia mameluca de Arruti relações humanas concretas mais simétricas. p. é possível redefinir o Estado-Nação. mas a pluralidade e a democrática. O ISEB e o desenvolvimento. o universalismo. UFMG. o pensamento (1997) – provê as ciências sociais de novas formas de cognição.”. quiçá. assim como. p. Acesso em 14 de julho de 2011 ARRUTI. 21 (1). sem essencializar um ou outro e sem forjáTalvez. COSTA. 1995: O Povo Brasileiro. No mínimo.

v. 8. Acesso MIGLIEVICH-RIBEIRO. 137-160. América Latina e Brasil em perspec- Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 47 . Paulo tiva. v. Universidad Pedagógica y Tecficas de América Latina y El Caribe. edição 1933]) “Características gerais da colonizae híbrida”.) Peau Noire..colonial”. Maceió: EDUFAL. 1. José Willington. 60. Javier Ocampo (2006) “Darcy Ribeiro: Sus ideas educativas sobre La universidad y El proceso civilizatório de America Latina”. Paris: Éditions du Seuil. 09-25. SINAIS – Revista Eletrônica – Ciências So- ______ (2010) Modernidade-Colonialidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais . http://redalyc. Casa-Grande e Senzala. 117. In: ______. Adelia M. GERMANO. E. NAVARRETE. V. Nação e Autonomia em Darcy PES para o desenvolvimento. Henrique & MEDEIROS. año/vol. Masques Blancs. Projeto de pesquisa. Ribeiro em O povo brasileiro”. p. FREYRE. p. p. Rio de Janeiro. Colômbia. p. FANON. Julio Mejia. Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Edição n. Gilberto (1997 [1ª.mx . nológica de Colômbia Tunja. Rogério (Org. p. escravocrata LÓPEZ. Franz (1971 [1952]. 06. Ribeiro: fundamentos e propostas de desenvolvimento. Memória e Ciências Sociais. UFES. 205-241.CCHN.uaemex. São Paulo: Record. COSTA. Diogo (2009) “Aspectos do pensamento social crítico latinoamericano: intelectuais e produção do conhecimento”. (2009) “A antropologia dialética de Darcy ciais. “O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro: crítica ou reforço à noção de “caráter nacional brasileiro”? In: Alice Anabuki Plancherel (Org.134. Recife: UFPE. Universiem 3 de março de 2011. SOARES. España y Portugal (Redalyc).). 1. 52-72. Red de Revistas Cientídade Autônoma Del Estado de México. Vitória . Revista Historia de Educación Latinoamericana. In: MARTINS.vol. ção portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária. ______. Programa IPEA/CA- ______ (2005). 21 nº.).

Colonialidade. Informe de distribuição restrita do Senador Darcy Ribeiro. ______. São Paulo: Companhia das Letras. Buenos Aires: Clacso/ Unesco. Aníbal (2000) “Colonialidad del poder. UFMG.MIGNOLO. pp.. Paulo Sérgio Ribeiro da (2005) Modernização e suas contradi- ções: notas sobre a experiência da interação LAMAV/UENF e a indústria cerâmica em Campos. 1995. Colonialidad del saber: eurocentrismo RIBEIRO.). do desenvolvimento cultural desigual dos povos americanos. Walter (2003). Falas. ______ (1996) Os índios e a civilização. Memórias. Histórias locais/Projetos globais. ______ (2001) O processo civilizatório. ______ (1988) “O dilema da América Latina: O Dilema da América Latina: estruturas de poder e forças insurgentes”. Monografia de con48 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . (1991) “Teorias do atraso e do progresso” in Carta. Teoria do Brasil.1970. 1. Perspectivas latinoamericanas. Darcy (1995) O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Campos dos Goytacazes: UENF. 1978. en: Edgardo Lander (comp. Petrópolis: Vozes. das Letras. 2001. São Paulo: Companhia das Letras.. Belo Horizonte: Ed. 1988. Etapas da evolução sociocultural. Reflen. Latina”. xões. Rio de Janei- ______ (1978) Os brasileiros: 1. Petrópolis: Vozes. eurocentrismo y América y ciencias sociales. saberes subalternos e pensamento liminar. São Paulo: Cia. Brasília: Gabinete do Senador Darcy Ribeiro. 201-246. A integração das populações indígenas no Brasil moderno. SILVA Jr. ______ (1970) As Américas e a Civilização Processo de formação e causas ro: Civilização Brasileira. QUIJANO.

ar/objetos _digitales/215/Vargas.pdf .3. Glaucia (2006) Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro. Mendoza.Confluencia1. vol. gital. año 1. 1-12. Rio de Janeiro: FGV. Revista Confluência. SOARES. http://bdiem 4 de agosto de 2010.edu. p. Acesso VILLAS BÔAS. como modelos culturais no entre-mundos. Argentina. http://www.clusão do curso de graduação em Ciências Sociais.uenf. sujeto y resistencia em América Latina”. n.2. Sonia (2003) “Identidad. Paulo Marcondes Ferreira (2008) Identidade e Modernização grama de Pós-Graduação em Políticas Sociais. Acesso em 30 de novembro de 2010.uncu. Agenda Social. Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 49 . br/Uenf/Pages/CCH/Agenda_Social/ . Revista do Pro- VARGAS. invierno.