Pelo Socialismo

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Enviados por mail Tradução do francês de TAM Colocado em linha em: 2013/02/10

VITÓRIA DE STALINEGRADO – 70.º Aniversário
(1943/02/02)

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70.º Aniversário da vitória soviética de Stalinegrado – 1943/02/02
Annie Lacroix-Riz1 A capitulação do exército de von Paulus em Stalinegrado, a 2 de fevereiro de 1943, marcou, para a opinião pública mundial, uma viragem militar decisiva, mas não foi a primeira. Esta vitória teve a sua origem nos preparativos da URSS para a guerra alemã, considerada inevitável: o último adido militar francês na URSS, Palasse, julgava-as pelo seu justo valor. Contra o seu ministério (da Guerra), obstinado em impedir as alianças franco-soviéticas e tripartidas (Moscovo, Paris, Londres) que teriam empurrado o Reich para uma guerra em duas frentes, este observador da economia de guerra soviética, do exército vermelho e do estado de espírito da população afirmou, desde 1938, que a URSS, dotada de «uma confiança inquebrantável na sua força defensiva», infligiria uma severa derrota a qualquer agressor. Os revezes japoneses nos confrontos na fronteira URSS-China-Coreia em 1938-1939 (onde Jukov já se notabilizara) confirmaram a opinião de Palasse: esses revezes explicam que Tóquio tenha prudentemente assinado em Moscovo, a 13 de abril de 1941, o «pacto de neutralidade» que poupou a URSS a uma guerra em duas frentes. Depois do ataque alemão de 22 de junho de 1941, a primeira viragem militar da guerra foi a morte imediata da Blitzkrieg2. O general Paul Doyan, representante de Vichy na comissão do armistício, anunciou-o assim a Pétain a 16 de julho de 1941: «Se
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Professora emérita de História contemporânea da Universidade de Paris VII – Denis Diderot. Termo alemão para guerra-relâmpago. Foi uma doutrina militar em nível operacional que consistia em utilizar forças móveis em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tivessem tempo de organizar a defesa – http://pt.wikipedia.org/wiki/Blitzkrieg – [NT]

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o III Reich alcança na Rússia êxitos estratégicos inegáveis, o caminho tomado pelas operações não corresponde, contudo, àquilo que os seus dirigentes pensavam. Não tinham previsto uma tão feroz resistência do soldado russo, um fanatismo que a população também demonstrou, uma guerrilha tão poderosa na retaguarda, perdas tão sérias, um vazio tão completo diante do invasor, dificuldades tão consideráveis de abastecimento e de comunicações. Sem se preocupar com os seus mantimentos no dia seguinte, a Rússia incendeia as suas colheitas com lançachamas, faz explodir as suas aldeias, destrói o seu material de transporte, sabota as suas explorações». Este general vichysta considerou a guerra alemã tão gravemente comprometida que defendeu, naquele dia, a passagem da França do apoio alemão (ainda considerado necessário) para o apoio americano uma vez que, escreveu ele, «o que quer que aconteça, o mundo deverá, nas próximas décadas, submeter-se à vontade dos Estados Unidos». O Vaticano, a melhor agência de informações do mundo, alarmou-se, no início de Setembro de 1941, com as dificuldades «dos Alemães» e com um resultado «tal que Staline seria chamado a organizar a paz, concertado com Churchill e Roosevelt». A segunda viragem militar da guerra foi a contenção da Whermacht às portas de Moscovo, em novembro-dezembro de 1941, que consagrou a capacidade política e militar da URSS, simbolizada por Stalin e Jukov. Os Estados Unidos ainda não tinham oficialmente entrado na guerra. O Reich conduzia uma guerra de extermínio contra a URSS, irredutível até à sua retirada geral a Leste, mas o exército vermelho mostrou-se capaz de fazer fracassar as ofensivas da Wehrmacht, em particular a do verão de 1942, que pretendia ganhar o petróleo (caucasiano). Os historiadores militares sérios, designadamente anglo-americanos, nunca traduzidos e, portanto, ignorados em França, trabalham hoje mais do que nunca sobre as causas da vitória soviética, no final do confronto começado em julho de 1942, entre «dois exércitos de mais de um milhão de homens». Contra a Wehrmacht, o Exército vermelho ganhou «esta batalha encarniçada», seguida todos os dias pelos povos da Europa ocupada e do mundo, que «ultrapassou, em violência, todas as batalhas de Primeira Guerra mundial, por cada casa, cada fonte, cada cave, cada pedaço de ruína». Esta vitória que, como escreveu o historiador britânico John Erickson, «colocou a URSS no caminho de uma potência mundial», como a «de Poltava em 1709 [contra a Suécia] tinha transformado a Rússia em potência europeia». A vitória soviética de Stalinegrado, terceira viragem militar soviética, foi compreendida pelas populações como a viragem da guerra, tão flagrante que a propaganda nazi não a conseguiu dissimular. O acontecimento colocou sobretudo a questão do pós-guerra, preparado pelos Estados Unidos enriquecidos pelo conflito, contra a URSS, cujas perdas foram consideráveis até 8 de maio de 1945. A estatística geral dos mortos da Segunda Guerra Mundial testemunha a contribuição da URSS para o esforço militar geral e da parte que ela representou nos sofrimentos desta guerra de atrito: 26 a 28 milhões de mortos soviéticos (os números não param de ser reavaliados) em cerca de 50, metade dos quais civis. Houve menos de 300 000 mortos americanos, todos militares, nas frentes japonesa e europeia. Não é uma injúria contra a história sublinhar que os Estados Unidos, ricos e poderosos, mestres dos amanhãs de guerra, não conseguiram vencer a Alemanha e conquistar a paz a não ser porque a URSS infligiu uma derrota esmagadora à Wehrmacht. Não foi o 2

«general inverno» que a venceu, ele que não impediu a Reichswher de sair vitoriosa a Leste em 1917-1918. A França confirmou a russofobia, obsessiva desde 1917, que lhe valeu, entre outras coisas, a Derrocada de maio-junho de 1940, abstendo-se de homenagear a Rússia na ocasião de comemorar o 60º aniversário do desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944. O tema da salvação americana «da Europa» impôs-se ao cabo de anos de celebrações do citado desembarque. Os mais velhos de entre nós sabem, mesmo quando não são historiadores, que Stalinegrado deu aos povos a esperança de sair da barbárie hitleriana. A partir desta vitória, «a esperança mudou de campo, o combate mudou de ânimo». Não é senão por causa do matraquear ideológico obsessivo que as jovens gerações o ignoram. Bibliografia :

John Erickson, 2 vol., The Road to Stalingrad: Stalin’s War with Germany; The Road to Berlin: Stalin’ War with Germany, 1ª edição 1983, Londres; reedição, New Haven & London, Yale University Press, 1999; Geoffrey Roberts, Stalin’s Wars: From World War to Cold War, 1939-1953. New Haven & London,Yale University Press, 2006 (que deveria ser traduzida nos próximos tempos); Stalin’s general: the life of Georgy Zhukov, London, Icon Books, 2012; David Glantz et Jonathan M. House, Armageddon in Stalingrad: SeptemberNovember 1942 (The Stalingrad Trilogy, vol. 2, Modern War Studies, Lawrence, Kansas, University Press of Kansas, 2009; Alexander Werth, La Russie en guerre, Paris, Stock, 1964, continua fundamental.

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Bibliografia restrita :

Geoffrey Roberts, Stalin’s Wars: From World War to Cold War, 1939-1953. New Haven & London: Yale University Press, 2006 (que deveria ser traduzida nos próximos tempos); Stalin’s general: the life of Georgy Zhukov. London, Icon Books, 2012; Alexander Werth, La Russie en guerre, Paris, Stock, 1964, continua fundamental

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II
Honra e gratidão eterna do povo francês aos heróicos combatentes de Stalinegrado
[Texto com apelo a uma Manifestação na Praça da Batalha de Stalinegrado, em 2013/02/02]

O General de Gaulle e os franceses reconheceram o papel decisivo da União Soviética na vitória sobre o hitlerismo. Agora que, da escola aos meios de comunicação social, passando pelas declarações do «Parlamento Europeu», uma propaganda que a toda a hora pretende misturar a União Soviética com o Terceiro Reich, os verdadeiros democratas guardam no coração os combatentes de Stalinegrado, de Kursk e de Leninegrado que, à custa de sacrifícios inauditos, destruíram a máquina de guerra nazi, permitiram a contraofensiva geral do Exército vermelho e a tomada de Berlim, enquanto a oeste se abria, enfim, a segunda frente contra a Besta imunda hitleriana. O imperativo da história conduziu durante a segunda Guerra Mundial à «bela e boa aliança» entre a URSS e a França combatente, repousando sobre a cooperação entre povos livres, iguais e fraternos, cooperação sempre atual no plano europeu e mundial. O general de Gaulle deu uma bela ilustração disso na sua chegada a Moscovo, em 20 de junho de 1966; respondendo ao presidente NV Podgorny, evocou a grande Rússia que tinha visto em 1944: «armada pelo espírito guerreiro que iria garantir a sua vitória e, em grande medida, a da França e dos seus aliados», depois, na receção no Kremlin, sublinhando o sentimento de solidariedade dos franceses, insistiu no «papel capital que a União Soviética teve na vitória decisiva» que, em 30 de junho, precisou ele, levou a URSS «ao mais alto grau do poder e da glória». Nesta ocasião foi assinada uma declaração bilateral que deu um impulso considerável a uma cooperação multiforme. O domínio espacial ainda o testemunha. O que quer que se pense da URSS e da sua história – e isso apela, no nosso ponto de vista, a numerosos debates isentos de intolerância e de caricatura – ninguém pode negar que a batalha de Stalinegrado toma na História um lugar ao mesmo nível da de Maratona, em que as jovens democracias gregas travaram o Império Medo3, ou da de Valmy4, em que o exército da Revolução francesa rechaçou os invasores da Europa contrarrevolucionária.

Os medos foram uma das tribos de origem ariana que migraram da Ásia Central para o planalto iraniano, posteriormente conhecida como Média. Há historiadores que não fazem distinção entre os medos e os persas, por isso também se fala em Império medo-persa. [NT] 4 A Batalha de Valmy é a primeira vitória decisiva do exército da França durante as guerras da Revolução francesa que se seguiu ao derrubamento da monarquia dos Bourbons. Deu-se em 20 de Setembro de 1792, depois de um exército prussiano comandado pelo duque de Brunswick ter tentado marchar sobre Paris. Depois da batalha, a jovem Convenção nacional ficou suficientemente revigorada para declarar o fim oficial da monarquia em França e a implantação da Primeira
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Em 2 de fevereiro de 2008, em Paris, comemorámos o 65º aniversário da vitória de Stalinegrado, pois a cimeira da ignomínia tinha sido influenciada pelos governos pró-fascistas dos Países Bálticos que, com a cobertura da União Europeia, erguiam monumentos à glória das SS. A nossa solidariedade é com a poderosa e legítima reação de protesto que se manifestou na Rússia e nos países da CEI5 em defesa da honra e do heroísmo dos combatentes que sacrificaram a sua vida pela liberdade. No momento em que a UE, arrogantemente pilotada por Berlim, esmaga os povos, a sua soberania nacional e as suas conquistas sociais, no momento em que dirigentes do MEDEF 6 apelam publicamente à «mudança de ares» para liquidarem a nação e as conquistas do CNR, no momento em que os povos se levantam cada vez mais contra as guerras imperialistas e contra a ditadura dos mercados financeiros e do seu braço armado, a NATO, ameaçando a Rússia e os estados da CEI com o escudo antimísseis americano, no momento em que a criminalização do comunismo na Europa de leste suscita uma caça às bruxas liberticida e prepara a revanche póstuma dos fascismos, Os signatários deste apelo, representantes de sensibilidades políticas distintas

Apelam à população da França para que continue o combate dos heróis de Stalinegrado e da resistência antifascista e patriótica para defesa da independência nacional, da democracia, das conquistas sociais, para que um novo Reich euro-atlântico destruidor das liberdades não tome a sucessão de Hitler, sob mantos pseudodemocráticos; Apelam ao combate, por todas as formas, ao racismo e à xenofobia de Estado; Condenam o anticomunismo, que não confundem com a discussão contraditória e argumentada sobre o balanço da primeira experiência socialista da história, no qual vêem sobretudo uma arma ideológica da oligarquia capitalista para destruir o conjunto das conquistas democráticas do nosso povo e de todos os povos; Exigem que o serviço público das televisões7 e da rádio de França programe emissões sobre o Exército Vermelho e o seu marco histórico de 1943 com as vitórias de Stalinegrado, Kursk, o lançamento da ofensiva final sobre Berlim e a cooperação do general de Gaulle com a URSS, com o seu mais belo desfecho: o regimento Normandie-Niemen, assim como a participação

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República. Valmy permitiu o estabelecimento duradouro da revolução, sendo assim considerada como uma das batalhas mais decisivas da história. http//:pt.wikipedia.org/wiki/Bataille_de_Valmy – [NT] 5 CEI: Comunidade de Estados Independentes - organização supranacional, envolvendo 11 repúblicas que pertenciam à União Soviética, fundada em dezembro de 1991. http//:pt.wikipedia.org/wiki/Comunidade_dos_Estados _Independentes. – [NT] 6 MEDEF – Movimento de Empresas de França é uma organização patronal fundada em 1998, que representa os dirigentes das empresas francesas: http//:pt.wikipedia.org/wiki/Medef – [NT] 7 Solicitar ao Sr. Alain le Garrec, mediador das televisões em França, 7, Esplanada Henri de France 75015 Paris.Tel: 01 5 622 99 61.

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soviética no combate dinamizado pelo mineiro ucraniano Vasil Porik, de 1942 a 1944, nas minas e nos bairros mineiros do Norte-Pas-de-Calais, e desencadeado pela Grande Greve Patriótica de maio-junho de 1941. Respeitando as suas próprias convicções, os signatários apelam igualmente à concentração de 2 de fevereiro de 2013, na Praça da Batalha de Stalinegrado, em Paris. É uma exigência do futuro celebrar o 70º aniversário da vitória de Stalinegrado em união das forças patrióticas, republicanos e antifascistas e exprimir a eterna gratidão aos combatentes do Exército Vermelho nesta cidade-mártir onde se decidiu o futuro da humanidade. Multiplicando as iniciativas descentralizadas na semana anterior que vão no mesmo sentido deste aniversário, os subscritores desta declaração apelam à mobilização dos trabalhadores, dos homens e mulheres, dos jovens defensores da paz, do progresso e da independência nacional decididos a contribuir para a derrota do fascismo, do racismo e da xenofobia de Estado e do imperialismo, e que mobilizem outros para fazer ressoar na capital da França, A CONCENTRAÇÃO NACIONAL COM UMA REPRESENTAÇÃO INTERNACIONAL que se realiza no SÁBADO, 2 DE FEVEREIRO 2013 Ás 14h30 (para os organizadores) e às 15h00 (para a manifestação), PRAÇA DA BATALHA DE STALINEGRADO (metro Stalinegrado) com intervenções e deposição de flores no monumento dos heróis de Stalinegrado Coordenador: Pierre Pranchère, antigo resistente, deputado honorário, 2 Puy Salmont 19800 Saint-Priest de Gimel, correio eletrónico: Pierre.pranchere@orange.fr – Tel: 05 55 21 35 55.

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