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Capão da Canoa

Fábio Simões Grossi
2007
AUTOR
Fábio Simões Grossi

REVISÃO DO TEXTO
Besma Massad

PROJETO GRÁFICO
José Luiz Valero Figueiredo

DADOS DE CATALOGAÇÃO

Grossi, Fábio Simões
Capão da Canoa / Fábio Simões Grossi – Bauru
SP : Fábio&Valero, 2007.
1- Diário de férias - Romance
Prefácio

ra dia de eclipse total da Lua, dia claro, boa visibilidade, fiquei à espreita.
E Parece que ninguém estava interessado em ver a sombra da Terra ir enco-
brindo a Lua. Resolvi alertar todo mundo. Claro que não podia deixar de telefo-
nar para o meu querido amigo, Fábio. Quando Tauam me disse que o Fábio
estava em Porto Alegre e que a Ana não tinha ido com ele, não acreditei. Ele foi com
o Paulo e a Li. Mais surpresa fiquei ainda, quando, de volta, Fábio me diz que tinha
escrito um livro sobre a viagem. E me mandou por email o texto para correção.
Além do texto, há fotos, muitas e belas fotos, mostrando aeroportos, cidades,
praia, o apartamento onde se hospedaram, a família da Li, as pessoas com quem
conviveram, os lugares por onde passaram, enfim o mar e a montanha na exube-
rante paisagem da serra gaúcha.
As fotos foram tiradas de duas câmeras, do Paulo e do Fábio, que é um expert em
fotografia. E não me surpreende que haja fotos deslumbrantes, verdadeiras obras
de arte, algumas bem impressionistas e que poderiam até ilustrar cartões postais.
O texto flui fácil, numa linguagem clara, simples e objetiva, compondo um diário
ou crônicas de um jornal, relatando fatos do dia-a-dia.

CAPÃO DA CANOA 3
O tom jocoso prende o leitor, na medida em que desperta o interesse nele de
conhecer a seqüência imediata da narrativa. Um texto que revela bem a persona-
lidade do Fábio, calmo, amável e gentil sempre.
Lendo e corrigindo o texto, quantas vezes não conseguia conter a expectativa, ao
querer antecipar o desfecho dos acontecimentos com perguntas do tipo: E daí? O
quê aconteceu? As respostas vinham imediatas, satisfazendo minha curiosidade.
Em resumo, um livro em que texto e imagem se harmonizam e se completam
naturalmente.

Besma Massad

4 PREFÁCIO
Sumário

Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 3
Desde Sampa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 7
De Volta ao Relatório . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
A Bronca do Comissário de Bordo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
Chimarrão de Boas Vindas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Os Gatos da Tia Lina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
Quem Será este Senhor? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Capão da Canoa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Um Presente para Iemanjá . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
6600 Metros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
Tinturaria Fábio’s Grossi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
Alegoria das Duas Nuvens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
Farofa com Tatuíra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Churrascaria Estância Gaúcha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
Salvo pelo Photoshop . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Show de Câmera . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103
Sol, Mar e Lasanha ao Pene . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
Sopinha de Tudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
Gramado e Canela de Lambuja . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
Adeus Porto Alegre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147

CAPÃO DA CANOA 5
07h30 da manhã do dia 3 de março de 2007

I
Desde Sampa

CAPÃO DA CANOA 7
stou em Porto Alegre, meio de carona nas férias de Paulo e Eliane.
E Convidaram a mim e a minha esposa Ana Maria (prima de Paulo), porém,
acabei vindo sozinho, para variar.
Resolvi fazer um pequeno relatório da minha viagem desde que pegamos o avião
em São Paulo.
A viagem de avião foi algo emocionante. Minha única viagem anterior fora há
muitos anos e eu já não me lembrava das sensações que sentira àquela época.
Chegamos ao aeroporto de Congonhas em São Paulo uma hora antes do embar-
que para o check-in e nos apresentamos no balcão da Gol. Fazia muito calor
naquele ambiente, provavelmente algum problema com o ar condicionado. A
todo instante eu me perguntava:
—Será que eu esqueci alguma coisa?
Passagem na mão, malas sobre o carrinho, esperando...Quando ouço ou leio em
algum lugar: “passagens e documentos à mão”. Paulo e Li estavam a minha
frente. Ele, visivelmente nervoso. É seu primeiro vôo.

Um dia
maravilhoso
para voar

Minha identidade, onde eu a deixei? Está numa pochette dentro da mala. Que
vergonha, eu não devia mais estar usando aquela pochette. Está totalmente fora
de moda.
Chega a nossa vez. Paulo e Eliane foram chamados para um balcão mais distante.
O alaranjado da Gol se espalhava por toda parte central, mas a fila não andava.
Vendo que alguns passageiros já se adiantavam para furar a fila, tratei de empur-
rar o carrinho para junto do balcão, onde eles estavam por concluir o check-in e
me apresentei.
Horário do embarque, número da plataforma e bilhete de controle da bagagem...só
faltava uma coisa, o avião.

CAPÃO DA CANOA 9
Nós nos dirigimos então para a espera do embarque, passamos por um amplo
saguão, dobramos à direita, atravessamos algo como um túnel e chegamos ao
setor de revista. Pusemos nossas malas e pacotes sobre a esteira do raio-x e
passamos pelo detector de metais. Paulo e Li foram obrigados a voltar, ele para
tirar o chaveiro do bolso e ela para o relógio, muito grande, que também acionou
o alarme. Indagam sobre o conteúdo de uma das sacolas e Eliane brincou dizen-
do ser uma bomba. Imediatamente Paulo desmentiu, explicando que era apenas
um pequeno objeto de decoração, uma fonte daquelas que se põe na sala para
ouvir o murmúrio d’água e relaxar. Chegamos à escada, que nos conduziria
para o nosso local de embarque. Eliane perguntou se não era melhor tomarem
café na cantina daquele andar. Ambos pararam para um café e eu fiquei apreen-
sivo, pois o horário do embarque estava marcado para dali a cinco minutos.
O relógio me parecia mais acelerado, talvez fosse o compasso do coração,
alterando a noção do tempo. Terminaram...fui ajudá-los com uma sacola para
nos apressarmos.

No aeroporto
de Congonhas
Paulo
transporta
um pacote
suspeito

Chegamos à sala de espera e nos acomodamos no conjunto de cadeiras em
frente ao portão 20. O tempo passa, o horário de embarque passa e nada do
embarque acontecer, me dirigi até o rapaz que parecia querer se esconder atrás
da tela do computador e o inquiri. O vôo estava atrasado, o avião acabara de
pousar. Assim que estivesse pronto, um novo horário e novo portão de embarque
seriam anunciados pelo sistema de som.
A vontade de fumar me conduz até um funcionário para saber se havia por ali
alguma sala apropriada. O local disponível era longe demais, desisti de fumar e
voltei conformado para a cadeira onde estavam minhas malas. Teria que esperar

10 DESDE SAMPA
mais de duas horas até o próximo cigarro. Paulo e Eliane foram ao banheiro. Ao
retornarem ouvimos as novas instruções:
...senhores passageiros do vôo 750 da empresa Gol com destino a Porto
Alegre...queiram, por gentileza, se dirigir até o portão 11 e aguardar pela ordem
de embarque.

Tenho que interromper o relatório. Estamos de saída
para uma visita ao pai da Li. Ela pretende chegar a sua
casa por volta das dez horas

CAPÃO DA CANOA 11
16h40 do dia 04/03/2007
Já estamos em Capão da Canoa, Li e Paulo foram tirar
um cochilo. Aproveito para escrever mais um pouquinho

II
De Volta ao Relatório

CAPÃO DA CANOA 13
portão 11 era bem distante de onde estávamos. Não tínhamos mais os carri-
O nhos do aeroporto para facilitar o transporte da bagagem. Mesmo assim,
sem ter mãos para tanta bagagem, começamos a registrar com fotografias a
nossa viagem.
Estas são algumas de uma série de fotos que pretendo incluir no relatório.
Começava a amanhecer. O céu, tingido de um azul avermelhado, podia ser
visualizado por detrás da parede envidraçada, que nos separava da pista. Recor-
tado a todo instante pelo perfil dos aviões, que cruzavam a pista de embarque,
prometia propiciar um vôo iluminado e tranqüilo.
Sugeri que desligassem o flash da máquina para evitar o reflexo no vidro a nossa
frente, e tiramos algumas fotos, antes do portão ser aberto para dar acesso ao
avião, que já se encontrava ali, “estacionado”.
Passa algum funcionário do aeroporto, de rádio-comunicador à mão, transmitindo
em alto e bom som a posição de cada portão desocupado. Lembrei-me da época
em que organizava a espera por mesas vagas, no restaurante do meu irmão.
—Que coisa precária, pensei. Por que não usam câmaras, como as tantas que
vimos espalhadas a nos vigiar!
Mais uma vez os alto-falantes nos informam sobre como proceder à fila de embar-
que, primeiro em português e depois em inglês.
Não havia necessidade de pressa, registraríamos nossa entrada em forma de
curtas tomadas de vídeo, para não esgotar a memória das máquinas. Sendo os
últimos a entrar ficaria mais fácil. Desci na frente e preparei o enquadramento.
Eliane passou e eu não havia começado a filmagem. Pedi a Paulo que retornasse
e gravei sua passagem até juntar-se à Li, mais à frente.
Filmei o nariz do avião, e desci a rampa filmando até a porta. Desliguei a máqui-
na e entrei.
Os comissários me olharam com ar superior. Parecia que eu podia ler seus pensa-
mentos: Mais um passageiro de primeira viagem.
Três bancos de cada lado, corredor estreito. Se alguma turbulência nos pegar pelo
caminho e o deslocamento for inversamente proporcional ao tamanho da aeronave...
Pensamento tolo. Tratei de silenciar os maus presságios.
Minha cadeira era junto ao corredor. Eliane foi sábia em colocar o Paulo junto à
janela com a máquina fotográfica. Isso, certamente, o deixaria suficientemente
distraído e menos tenso.

Três dias depois do vôo e ele não se cansava de repetir
– Mas que delícia que foi... Já nem completava mais a
frase, pois estávamos carecas de saber

CAPÃO DA CANOA 15
A chefe dos comissários apresenta a tripulação e passa as instruções sobre os
procedimentos de emergência, enquanto um de seus subordinados faz mímica e
encena aquela baboseira de praxe.
Por termos comprado passagens em dias diferentes, minha poltrona não é ao
lado deles, porém, sobram muitos lugares vazios no avião, inclusive a poltrona
do corredor junto a eles. Não tive dúvidas, sentei-me ali, esperando que os comis-
sários não criassem problemas.
Tudo bem, hora de levantar vôo.
O comandante do avião nos dirige a palavra informando o motivo de alguma
demora e se posiciona atrás de duas outras aeronaves, junto à cabeceira da pista.
Mais quinze minutos e subiríamos.
—Prepare a máquina, filme toda a decolagem.
—Olha, aquelas pessoas parecem formiguinhas!
—E são formiguinhas, seu estúpido! Nós nem saímos do chão.
Piadinha infame. Mesmo assim, Li acha graça.
O avião anda um pouco. Alguns minutos e anda mais um pouco. E finalmente decola.
A mesma sensação que eu sentira antes, é como dar a primeira volta na
roda gigante.
Dá um friozinho na barriga.

16 DE VOLTA AO RELATÓRIO
Nosso avião
nos aguarda
na área de
embarque

Paulo, junto
à janela para
registrar a
decolagem e
ainda muito
nervoso

O avião
começa a
taxiar

CAPÃO DA CANOA 17
18h21 do dia 05/03/2007
Pela manhã fomos à praia, andamos seis quilômetros e
meio. Depois do almoço tomamos uma chuva pelo
caminho e resolvemos dormir um pouco.
Paulo ainda dorme, Li resolveu preparar um mate, depois
de lavar roupa e dar uma varrida na casa...

III
A Bronca do
Comissário de Bordo

CAPÃO DA CANOA 19
avião inicia uma subida interminável, Paulo registra tudo.
O Sinto um pouco de inveja de poder ver a paisagem se modificando. Olhar
para dentro do avião é angustiante. Ao mesmo tempo em que sentimos leves
balanços, por não termos a confirmação visual, as possíveis variações de altitude
parecem se agigantar na nossa imaginação.
De repente, nada a fazer para preencher o tempo. Começamos a explorar as
acomodações sem sair do lugar, uma vez que o aviso para manter o cinto não se
desliga, enquanto subimos.
Abre mesa.
Fecha mesa.
Altera-se a inclinação do banco.
Algumas fotos do interior.
Muitas fotos do exterior.
—Toma cuidado para não tirar muita foto da asa do avião, vai esgotar a memória.
Relembro a história da viagem de meu filho Tauan ao Chile, quando gastou dois

Fotografa
o avião
por dentro

filmes com fotos da asa. Naquela época ainda não tínhamos a digital.
A pressão faz o ouvido pipocar. Li e Paulo mastigavam um chiclete para minimizar
os efeitos. Ofereceram-me, mas eu recusei, já era tarde, meu ouvido já passava
pela terceira pipocada.
Finalmente o vôo se estabiliza na horizontal e o aviso se apaga.
Dou uma olhada pelo avião para achar alguma janelinha livre, eu também quero
registrar a asa, (tosse) digo, a paisagem.
Um mar de nuvens, crespas como flocos de algodão, parecem forçar passagem
para cima sem poder passar daquela altura.
Contenho-me e tento tirar a menor quantidade possível.
O ar condicionado deixa o interior do avião bastante frio.

CAPÃO DA CANOA 21
Retorno ao meu lugar, pois vão servir alguma coisa.
Conversamos sobre as refeições e lanches, que eram oferecidos nos tempos remo-
tos. Os bons tempos da Varig.
Duas bolachinhas de água e sal, um biscoito recheado com chocolate.
—Suco de pêssego ou manga, guaraná diet...? Repete incansavelmente para
cada passageiro, que invariavelmente pede suco de pêssego, mas, certamente,
preferiria poder tomar uma dose de algo mais forte e comer algo mais saboroso.
—Que lanchinho fraco! Esse é o comentário de Paulo, que voa pela primeira vez.
Passam novamente o carrinho, oferecendo nova dose das mesmas bebidas. Per-
gunto se pode ser a barrinha com chocolate e recebo duas. Fico com uma e passo
a outra. Depois do lanche, passam recolhendo copos e celofanes. Faltam 40
minutos para o pouso. Volto para a janelinha no fundo do avião. Desta vez
pretendo registrar o pouso em vídeo.
Os dois lados da última fileira de banco estão livres.

Fotografa
o exterior
do avião

Do lado esquerdo uma chance de me aquecer com uma réstia de sol. Do lado
direito a melhor chance de uma boa filmagem.
Esperei até que o aviso fosse dado e então passei do direito para o esquerdo.
Paulo já tinha esgotado a memória da sua máquina fotográfica. Ao aviso de que
iríamos pousar e que não eram permitidos aparelhos eletrônicos, celulares e com-
putadores, não deu bola. Pegou o notebook e começou a transferência. Acabou
por receber uma bronca do comissário.
—Mas agora já iniciei a transferência, como é que eu faço?
—O Sr só terá mais dois minutos pra desligar isso!

22 A BRONCA DO COMISSÁRIO
Esperei que os comissários tomassem acento e tirei a câmara da capinha.
Registrei algumas tomadas curtas, enquanto o avião manobrava em curvas acen-
tuadas, para se posicionar na direção da pista. –...nublado e com chuva, anun-
ciou o comandante.
—Ai meu Jesus Cristinho! pensei com meus botões.
ora do avião, a asa parecia inclinar-se muito mais acentuadamente do que se
percebia, quando se olhava para dentro dele. Pura ilusão de ótica, nosso corpo
se inclina junto com as cadeiras e todo o resto.
Reta final. Os flaps começam a se esticar para baixo e um rastro de vapor se
forma e se alonga atrás da asa, provavelmente provocado pela pressão do ar.
Sem perceber apertei um pouco o botão de zoom. A imagem passava a uma
velocidade maior e a descida parecia muito menos suave do que deveria.
O avião toca o solo e vibra um pouco. A imagem tremula violentamente, minha
mão não consegue segurar a câmara com firmeza e então os freios entram em
ação. Com um belo susto desligo a câmara.

Depois da
tensão na
aterrissagem
registro a
nossa chegada

Penso se não pousamos longe do começo da pista e, talvez, ela não seja suficiente.
A velocidade diminui e começamos a taxiar.
Alívio!
Mudo para o modo foto e registro nossa aproximação.

CAPÃO DA CANOA 23
7h16 do dia 06/03/2007
O dia amanheceu lindo7, céu claro como nunca esteve
durante todo o tempo até agora

IV
Chimarrão de
Boas Vindas

CAPÃO DA CANOA 25
esembarcamos em Porto Alegre e seguimos até a esteira para pegar nossa
D mala. Li aproveitou para ir ao banheiro. Ao retornar não nos encontrou e
ficou bastante assustada.
Havíamos sido informados que nossa bagagem estaria disponível, na esteira do
segundo saguão.
Depois de pegar a bagagem saímos doidos para fumar. Enquanto todos os outros
passageiros se apressavam para tomar um táxi, fumamos tranqüilos, parados ali
no ponto. Antes de pegar o táxi, porém, Eliane se lembrou que deixara o endere-
ço num pequeno pedaço de papel na carteira de Paulo. Paulo não se lembrava
de nada, pois no dia anterior tinha bebido bastante. Achar o tal papel foi uma
maratona, que demorou mais do que o tempo que usamos para fumar.
Em pouco tempo chegávamos ao pequeno prédio amarelo. Subimos carregando
toda bagagem. Li aperta a campainha e nos alerta: —tem que falar alto, ela não
escuta direito.
Toca novamente a campainha, pois ninguém havia nos atendido.

Tia avó
Maria e
prima
Pedrolina

Fomos atendidos pela prima Pedrolina, que abraça a Li calorosamente e explica
que pensaram que a campainha fosse na novela. Só perceberam que era no
próprio apartamento pela reação de indiferença dos protagonistas.
Paulo a cumprimenta com seu jeito efusivo e me apresenta em seguida. Sempre fico
preocupado com a aparência dos meus cabelos por causa do comprimento. As pessoas
mais velhas não são muito flexíveis, para aceitar comportamentos não convencionais.
Tento agir com naturalidade e simpatia, mas acabo cometendo o maior dos peca-
dos, rejeito a primeira oferta de chimarrão. Digo que estamos mais habituados a
beber café.
Depois do café, fomos todos para sala e as três puseram a conversa em dia,
enquanto rodavam a cuia de mão em mão entre elas. Um ritual admirável. Foi
quando me dei conta da gafe que cometera.

CAPÃO DA CANOA 27
6h33 do dia 07/03/2007
Não consigo acordar mais tarde, amanhece
com sol e poucas nuvens

V
Os Gatos da Tia Lina

CAPÃO DA CANOA 29
ia Maria é uma simpatia, lembra muito minha avó nhanhã (Isabel). Muito
T falante, toma sempre a iniciativa da resposta ou da pergunta.
Neci, a prima querida está no apartamento da praia em Capão da Canoa, para
onde devemos ir. A princípio estava combinado que iríamos com o carro dela,
mas somos informados de que deveríamos ir de ônibus. Eliane liga para prima e
recebe a confirmação, três tentativas de assalto a deixaram suficientemente assus-
tada para não querer mais fazer o trajeto dirigindo. Oferece, entretanto, para
que usemos o carro para passear em Porto Alegre.
Iríamos almoçar com tia Lina (uma das filhas da avó materna) em Pinheiro, bairro
bem afastado de onde estávamos. As distâncias são enormes, o caminho sinuoso
com um belo traçado urbano e muitos bons projetos arquitetônicos.
Chegamos ao bairro, sobre o qual Eliane nos conta uma triste história de invasão
por grupos de sem teto. Coisa comum em países com diferenças sociais acentua-
das como o Brasil.
Novamente, Eliane é recebida com muita emoção, pode-se notar o quanto ela é querida.

Tias Edena
(em pé) e Lina
(sentando-se)

A pequena casa abriga uma quantidade enorme de gatos. O primeiro se encon-
tra refestelado sobre a mesa da sala, todo cinza, preguiçoso e sossegado. Mal
levanta a cabeça para olhar as visitas que acabam de invadir o recinto. Eu e
Paulo trouxemos nossos notebooks para trocarmos as fotos da viagem enquanto
elas põem a conversa em dia.
Depois das apresentações, pedimos licença para usar a mesa para instalar nossa
pequena central de informática. Desalojamos o primeiro gato de seu confortável repou-
so e instalamos o equipamento. Tentamos inutilmente conectar os dois micros entre si
com um cabo usb, que eu havia comprado na Santa Efigênia, em São Paulo.

CAPÃO DA CANOA 31
Pausa para o almoço, uma comida com quase nenhum sal ou tempero, mas saudável,
apetitosa e muito bem vinda. Depois do almoço, ligamos novamente o equipamento.
Depois de exibir algumas fotografias das filhas da Li para as tias, sugerimos
conectar o equipamento do Paulo na linha telefônica. Em poucos instantes, Eliane
estava falando com a filha Mariana e Paulo com o filho Danilo pelo MSN.
Minha preocupação era encontrar algum programa para auxiliar com o uso do
cabo. Procura infrutífera, mas ainda teríamos a alternativa de usar um cd-rw, que
o Paulo trouxera.
Finalmente tive a oportunidade de me redimir, experimento meu primeiro chimar-
rão. Não esperava que fosse gostar, foi uma agradável surpresa. Estou doido
para ter uma boa cuia e criar um novo hábito na minha casa, em Bauru. Não só
pelo sabor agradável, mas por todo o ritual.
Hora de partir, Li queria apresentar sua cidade com um breve passeio pelo
centro histórico.
Complicado achar um local para estacionar no meio fio.

Meu primeiro
chimarrão
uma agradável
surpresa

Mais uma coisa nos encanta em Porto Alegre, a venda do bilhete para a zona azul
é automatizada com opção para moedas e cartão. Nada de ficar perdendo tempo
com vendedores, que desaparecem, quando achamos uma vaga em Bauru.
Antes de qualquer coisa entramos em um shopping. Não para comprar qualquer
coisa, mas porque Eliane estava doida para ir ao banheiro.
Saímos dali pelo piso inferior, ao nível da praça General Osório. Li senta-se em
um banco e pede que tire uma foto. Sentado ao seu lado, a estátua de Mário
Quintana simula uma conversa com Carlos Drummond, em pé atrás do banco.
Tiramos fotos do monumento ao centro da praça e do prédio do correio, um belo
exemplo de preservação arquitetônica.

32 OS GATOS DA TIA LINA
Seguimos até o Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli. Não sabía-
mos se a entrada era franca e nos dirigimos à recepção. Não havia qualquer
indício de cobrança de ingresso, as paredes estavam sendo pintadas, mas o
museu estava aberto à visitação.
Pergunto se podíamos fotografar sem flash. – Só a fachada do prédio, as obras
não, responde-me um dos recepcionistas. O olhar sisudo de ambos me faz guar-
dar a máquina, instantaneamente. As exposições do térreo eram de fotos atuais,
passamos rapidamente o olhar e fomos para o segundo piso. O ar condicionado
estava desligado e o calor era insuportável.

Um gato
gigante
sobre
a mesa

Paulo demonstrava pouco interesse pelas obras, tentei conduzi-lo com algumas
definições de arte, mas a falta de conhecimento dos materiais, expostos ali, me
impediu de promover uma orientação segura e convincente. Sugiro continuarmos
nosso passeio indo para a praça Júlio de Castilho.
Uma ladeira acentuada nos separa de nosso destino, hora de suar a camisa.
Caminhamos em passos lentos e tiramos algumas fotos pelo caminho, uma forma
de justificar as constantes paradas para tomar fôlego.
O monumento é alto e rodeado de esculturas, entre as quais um pequeno dra-
gão com as patas dianteiras levemente erguidas, em relação aos degraus da
escada. Paulo deita-se sob a pata e pede que eu tire uma foto. Eu e Li tiramos
várias fotos. Repentinamente, quando já nos afastávamos do monumento em

CAPÃO DA CANOA 33
direção à Catedral, olho para cima e me vejo abaixo da traseira de um cavalo
com o rabo levantado. Não importa quantas pessoas já tiraram uma foto desse
ponto, imediatamente peço à Li que nos fotografe.
Visitamos a Catedral, imponente e muito bonita. Dois lindos vitrais, absurdamen-
te grandes, iluminam suas naves laterais. Tento discretamente tirar algumas fotos
do interior, mas a pouca quantidade de luz e a falta de um tripé, que mantenha a
câmara estática, resultam em fotos pouco nítidas.
O tempo, que já estava fechado, ameaça piorar.

Os detalhes
arquitetônicos
do Banco Safra

Hora de voltar para casa. Todos os caminhos levam a Roma, mas qual deles
deveria nos levar ao apartamento das tias????
Depois de muitas voltas e retornos, finalmente chegamos ao pequeno prédio
amarelo, onde passaríamos a noite.
Tomamos banho, a roupa suada foi substituída por algo mais leve e apropriado e
então saímos para um lanche.
Paramos em um barzinho, lugar simples, mas com um dono muito simpático
e atencioso.
Providenciou rapidamente uma mesa de plástico, meio instável, onde mal se po-
dia apoiar os cotovelos, pois esta logo se inclinava.
Aceitamos a sugestão para um cachorro americano e pedimos uma Coca litro.

34 OS GATOS DA TIA LINA
Eliane, Mário
Quintana
e Carlos
Drummond

No
início da
ladeira

Antes de
visitar o
museu uma
pose para um:
eu estive aqui

CAPÃO DA CANOA 35
Calma
cavalinho
em cima de
mim não!

Paulo
eo
dragão

Arquitetura
movimentada
e colorida de
Porto Alegre

36 OS GATOS DA TIA LINA
Encarar aquele sanduíche era uma decisão complicada. Veio sobre dois papeis
de tipos diferentes, incrustado em uma bandeja comprida de plástico colorido. As
laterais do pão desapareciam em baixo de uma montanha de recheio, o qual não
era possível comer sem enfiar o nariz pela metade. Tentei retirá-lo da bandeja e
quase o derrubo inteiro. A cada mordida, Paulo deixava cair parte do recheio
pelo chão. Somente Eliane o conduzia com habilidade sem derrubar nada, mas
não conseguiu evitar de se lambuzar.
Da Coca-Cola sobrou um pouco mais da metade. Paulo tomou a iniciativa de
levar o que restou para casa. Antes, porém, Li tinha que comprar pílulas e saímos
à procura de uma farmácia aberta. Andamos uma quadra até a esquina de uma
avenida movimentada e indagamos ao garoto, que se entretinha no chão com
alguma brincadeira, onde ficava a farmácia mais próxima. Após nos indicar as
três farmácias da vizinhaça, o garoto pediu um gole da Coca-Cola. Aliviado por
não ter mais que carregar aquele peso, Paulo entrega-lhe o vasilhame com toda
Coca-Cola que restara.

Eu acho que
esse cachorro
está fazendo
caca aqui

Andamos mais uma quadra e meia, até a única farmácia que ainda se encontra-
va aberta. E já íamos saindo dela, quando descubro que alguma coisa do sandu-
íche me provocara uma tremenda alergia. Comprei imediatamente uma caixa de
Polaramine e tomei um comprimido, ali mesmo, sem água.
Fui dormir mais cedo, bastante cansado e coçando muito, acabei perdendo o
último capítulo da novela.

CAPÃO DA CANOA 37
7h29 do dia 08/03/2007
Saí bem cedo para tirar algumas fotos do nascer do sol.
O dia está meio nublado, não sei se dá praia

VI
Quem Será este Senhor?

CAPÃO DA CANOA 39
o dia seguinte, ainda em Porto Alegre, acordei mais cedo que os outros.
N Arrumei algumas coisas na mala e fui fumar na sacada do quarto. Pouco
depois, ouvi barulho na sala, finalmente alguém com quem conversar. Tia Maria
se encontrava deitadinha no sofá com um rádio de pilha apoiado sobre o peito,
inclinado na direção do ouvido, ligado ao noticiário matutino.
Surpreendeu-se com a minha presença, como se tivesse esquecido que havia visita
na casa. Olhou-me como quem indaga: —Meu Deus, quem será este senhor?
—Bom dia! exclamei.
—Ouvindo as notícias? perguntei eu, tentando puxar assunto.
Tia Maria sentou-se, antes que eu pudesse dizer para que não saísse do seu
conforto por minha causa. Não consegui evitar, sentou-se para se sentir composta
e passou a comentar as notícias, que ouvia ao rádio.
Conversamos sobre a temperatura e o tempo. Assunto que me interessava por
causa da praia. Vi que ela não voltaria a deitar-se, enquanto eu estivesse por lá,
então pedi licença e voltei para o quarto.

Comprando a
passagem para
Capão da Canoa

Tentava ver se pegava algum sinal de rede wireless no notebook, quando percebo
o vulto da prima Pedrolina se levantando, no quarto semi-escuro. Tratei de desejar
bom dia, antes mesmo de vê-la. Tarde demais, ela já vinha saindo ao corredor, só
de camiseta e calcinha.
Que mancada! penso eu encabulado.
Fecho a porta, ligo o notebook na sacada do quarto e decido começar um peque-
no relatório de viagem, para não me esquecer o nome dos lugares visitados.(foto
da página 7)
Escrever nunca foi o meu forte, tenho problemas tanto de gramática como de
ortografia. Porém, à medida que escrevo, sinto que me divirto e me sinto inspira-
do, para absorver cada pequeno detalhe de nossas férias.

CAPÃO DA CANOA 41
Mal havia começado a redação e Paulo veio me avisar que sairíamos logo, para
comprar a passagem de ônibus e, após, iríamos almoçar na casa do pai da Li.
Despedimo-nos, apressadamente, logo após o café da manhã. Retornaríamos ao
apartamento depois do almoço para deixar o carro.
Tivemos alguma dificuldade para entrar na rua, em frente à estação rodoviária.
Paramos o carro em um estacionamento, atravessamos a rua e chegamos ao
guichê de venda de passagens. Paulo entrou em uma fila e Eliane em outra. Achei
que era exagero entrar em outra fila, pois eram todas muito curtas. Dei o dinheiro
da minha passagem e pedi a máquina emprestada para registrar o momento.
Tirei duas fotos do Paulo. Quando me preparava para fotografar a Li, um segu-
rança me abordou perguntado se eu tinha autorização do DAER para fotografar.
Surpreso por uma abordagem tão seca, não tentei argumentar.
—Desculpe, eu não sabia que era proibido fotografar aqui.
—É porque não sabemos com que intenção tu estás fotografando.
Raios, pensei mais tarde.

Eliane
pode matar
a saudade
do pai

Um lugar que nos filma de todos os ângulos e não se pode fotografar.
A lei deveria nos garantir direitos iguais. Um dia ainda vou lutar por esse projeto.
Atravessamos a rua em direção ao estacionamento.
—Paulo, fotografa daqui de fora, disse eu ainda cismado com a história.
—Eu já fotografei na entrada, disse ele sorrindo.
Chegamos à casa do pai de Li, exatamente às dez horas.
—Viu como eu sou pontual, disse que chegaria as dez e cheguei. Seu relógio
havia acabado de sinalizar hora cheia.
Posiciona o carro em frente à casa e buzina para que o pai, que se encontrava na
garagem, abra o portão.
Sr Ataídes, um encanto de criatura, simpático, descontraído e muito afetuoso.
Fomos todos tão bem recebidos que não tenho palavras para agradecer.

42 QUEM SERÁ ESTE SENHOR
Sua segunda esposa Nina, também é muito simpática e parece cuidar do marido
com muito zelo.
Inicialmente apenas ele nos recebeu, demonstrando muita felicidade pela visita
da filha querida.
Também, fazendo muita festa, um pequeno cachorro basset, ao qual constante-
mente repreendem, para evitar que ele faça feio. Até hoje, nunca vi raça mais
assanhada, têm todos um comportamento muito parecido.
Convida-nos a entrar, acautelando-se de pedir desculpas pelo espaço apertado
dos móveis.
Sentamos todos em um sofá em frente à tv. Trocavam conversa, quando de repen-
te entra correndo um gato. Ao nos ver, assustou-se e saiu cantando pneus pela
mesma porta. Todos riram da reação desesperada do bichinho.
—Ela queria atravessar a sala, mas é muito tímida com estranhos, disse o pai de Li.
Eis que surge Nina carregando algumas sacolas com carne. Cumprimenta cada
um, demonstrando estar igualmente feliz com a visita de Eliane.

Sr. Ataídes e
dona Nina
oferecem
o autêntico
churrasco
gaúcho

Agita o ambiente, colocando para tocar um disco de música regional gaúcha e
nos oferece cerveja.
—Hoje eu também tomo, é dia de comemoração.
Todas as palavras do Senhor Ataídes são de elogio ao genro e, à medida que
bebemos, mais admiração e palavras de elogio são trocadas por ambos.
—O senhor joga no meu time, diz Paulo todo contente. Eu vou levar seu pai pra
Bauru, duvida?
Enquanto conversamos, um churrasco estava sendo preparado. Eliane e Nina
saíram para comprar mais cerveja e cigarro.
Seu Ataídes nos conta a história da luta contra um câncer maligno, que se instalou
em sua boca e do padre que lhe apresentou a planta, que permitiu a completa
regeneração, depois de uma terrível operação. Conta também a história da mulher,

CAPÃO DA CANOA 43
que ele pode ajudar com a mesma planta e que fez questão de lhe mostrar o seio
completamente recuperado. Peço a ele uma muda para levar para Bauru.
Penso no meu cunhado e comento com Paulo. —Pena que não pudemos fazer
nada por ele. Quem sabe possamos ajudar outras pessoas.
Enquanto ainda preparavam a comida, Paulo e eu ligamos nossos notebooks
para trocar arquivos de foto. Uma pequena peça no DVD-room dele estava que-
brada. Achamos o pedaço quebrado e o prendemos com um disco.
De repente, o pequeno basset se põe a coçar o gato sob a mesa. Chama-me a atenção,
como faz o gato para pedir ao cachorro para ser coçado. Esfrega-se de maneira
provocante e se posiciona com a parte que deseja coçar próxima a sua boca.
—Filma isso Paulo, tá digno do programa do Faustão.
—Vamos almoçar pessoal, a comida está na mesa, convida-nos dona Nina.
Uma quantidade exagerada, já tínhamos beliscado vários pedaços da costela,
mas a comida estava convidativa. A cenoura ralada com uma cor viva, a alface
verdinha, a maionese de batata muito saborosa e as carnes impagáveis.

Cena do filme
O cachorro
mata pulgas

Comi a me fartar. Paulo, no entanto, não é tão glutão e logo se satisfaz. Seu Ataídes
se mostra indignado.
—Que é isso, rapaz, não comeste nada!
—Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar? pergunta Paulo brincando.
—Pra conversar, retruca seu Ataides.
—Então estou indo embora, provoca Paulo
Logo estavam aos beijos e abraços. Era tudo alegria e Paulo repete incansavel-
mente que quer levar o casal pra Bauru.
—Temos que ir embora! nos apressa Li com medo de chegar atrasada a rodoviária.
Ainda tínhamos que devolver o carro e pegar nossa bagagem.
Estávamos todos meio altos, menos Li que volta dirigindo.

44 QUEM SERÁ ESTE SENHOR
18h11 do dia 09/03/2007
Depois de um almoço farto e saboroso na
Churrascaria Recanto Gaúcho, dormir era inevitável
Dormimos a tarde inteira

VII
Capão da Canoa

CAPÃO DA CANOA 45
pressadamente, chegamos ao apartamento no prédio amarelo, devolvemos
A o carro. No apartamento, Li monta a fonte e deixa explicações sobre o
funcionamento para quando Neci voltasse da praia.
Seria um presente surpresa, mas levá-lo à praia para Neci trazê-lo de volta, era
um inconveniente desnecessário.
Chegamos à rodoviária com mais de uma hora de antecedência. Paulo estava
tagarela, muito contente com tudo e, ora lembrava do vôo maravilhoso, ora lem-
brava do sogro e da cerveja, que não podia faltar.
Mal entramos na rodoviária, já paramos na primeira lanchonete para comprar
cigarro e uma latinha para Paulo. Seguimos até a plataforma de embarque e nos
sentamos nas cadeiras vagas, não era exatamente em frente a nossa plataforma,
mas em um lugar de onde podíamos ver o ônibus quando chegasse.
Paulo continuava tagarela e falando muitos palavrões em tom mais alto que o normal.
Mas tudo que entra, uma hora tem que sair. Queria fazer xixi e foi ao banheiro.

Paulo volta
trazendo
outra lata

Voltou indignado, tinha que pagar um real para fazer um mísero pipizinho.
—Puta que o pariu! Me dá um dinheiro aí, estão cobrando um real pra eu mijá.
—Se pra dar uma mijadinha me cobram tudo isso, quanto vai custar uma cagada?
—Fala baixo, Paulo, diz Li encabulada
—Dá mais algum pra comprar mais uma latinha, essa já “elvis”.
—Não tenho nenhum dinheiro trocado, fala Li tentando fazer com que ele pare de beber.
—Toma aí, aproveita e traz uma Coca-Cola pra mim.
Paulo retorna, trazendo minha Coca e falando mais palavrões do que antes.
—Ai, meu Deus, onde fica o botãozinho pra desligar esse homem?

CAPÃO DA CANOA 47
Paulo era pura felicidade e tagarelice. Faz uma pergunta retórica para a mulher
sentada ao meu lado, que já não continha o riso por perceber sua evidente embriaguêz.
Exausto, depois de tanta excitação, Paulo se deita com as pernas para o corredor
e a cabeça no colo de Li.
Sento-me junto à janela do lado oposto ao do motorista. Quero apreciar a paisa-
gem, embora o tempo esteja bastante enevoado e prometendo chuva.
Logo ao sairmos da cidade, fotografo um jogo de futebol de várzea, o visor da
máquina é tão pequeno que não enxergo os jogadores.
Campos absolutamente planos se espalham até o horizonte. Os tons variados
de verde se alternam, indo quase do amarelo limão ao verde musgo.
A janela do ônibus é um limitador terrível. Tudo que está próximo passa rápido
e tende a ficar fora de foco. Mesmo tendo uma paisagem que parece se repetir
ao infinito, fotografo muitas vezes.
Exploro os recursos da máquina, tanto fotografando como filmando.

Futebol de
várzea na
saída de
Porto Alegre

Paradas rápidas em rodoviárias de pequenos lugarejos também são registradas.
Começa a chover e eu tento registrar os pingos de chuva na superfície do vidro,
é difícil, a câmara teima em fazer o foco na área externa. Finalmente o ar frio
embaça o vidro e a foto sai, não exatamente como eu queria, mas...
Paramos em algum trecho da estrada em obras para alternância de pistas.
As duas horas passam rápido e logo chegamos ao nosso destino. Vejo o mar
aparecer em alguns pontos ao longo das ruas.
—Li, o mar é pra lá? pergunto entusiasmado.
—Hummm, deixa eu ver...é, sim.

48 CAPÃO DA CANOA
Respiro fundo. Finalmente o mar, depois de tantos anos sem ver praia, estou de
volta ao meu elemento. O berço da natureza.
Chegamos à rodoviária onde a prima Neci nos aguarda. As várias descrições
feitas por Li e Paulo, logo permitem que eu a identifique entre as pessoas.
Sentada, aparentando muita tranqüilidade, guarda-chuva em punho, demora a
se pôr em pé.
Sorridente, decidida, extrovertida, são imagens da primeira impressão que nos
passa sua figura de pequena estatura.
Muito simpática e hospitaleira, foi aguardar nossa chegada na rodoviária, que
fica a quatro quadras de seu apartamento.
Ainda estava claro, embora nublado, não estava mais chovendo e então fomos
caminhando até o apartamento.
A chuva havia deixado muitas poças d’água nas ruas que, por serem muito pla-
nas, não apresentam bom escoamento.

Começa a
chover no meio
do caminho

Nossas malas, dotadas de rodinhas, cambaleavam no calçamento constantemen-
te inclinado e eventualmente formado por ladrilhos de altura irregular.
Ao atravessar a rua, tínhamos que erguê-las para não passar pelas poças.
As malas de Paulo eram mais largas, mais estáveis e ele se pôs à frente de todos.
Comecei a estranhar sua dianteira. Logo demonstra a razão de sua pressa, que-
ria mostrar que não se esquecera do endereço.
—Viu, como eu lembrei direitinho do lugar! exclama ele todo orgulhoso.
Em poucos minutos e, mais uma vez, estávamos todos desfrutando de outra roda-
da de chimarrão.

CAPÃO DA CANOA 49
Neci, já hospedava uma amiga gaúcha e agora hospedaria no pequeno aparta-
mento de dois quartos mais três pessoas.
Li conta a ela algumas coisas sobre nossa viagem e lhe diz sobre uma surpresa
que deixou no apartamento, em Porto Alegre, para não lhe causar o desconforto
de viajar daqui para lá, carregando mais um pacote.
—O que é que tu me trouxeste, guria? pergunta curiosa.
—Uma surpresa, só vais saber quando chegares lá. Deixei instruções com Pedrolina
sobre como funciona.
Repentinamente, no meio do lanche, Paulo diz algo sem pensar e revela a nature-
za do presente surpresa. No entanto, isso acaba se convertendo numa vantagem,
pois assim Li pode explicar alguma coisa sobre a troca das plantas artificiais, que
vieram no enfeite, por outras naturais que ela arranjou depois.
Assistimos o final da novela que eu havia perdido na noite anterior e chegamos
ao final de mais um dia dessa aventura deliciosa.

Neci nos
recebe na
rodoviária de
Capão da
Canoa

Arrumaram na sala o sofá-cama, onde eu iria dormir e eu pude sentir, com a
porta entreaberta, a brisa suave e gostosa que vinha do mar.

50 CAPÃO DA CANOA
18h56 do dia 11/03/2007
Pela manhã, usei a câmara FinePixe de Paulo para
fazer fotos do sol nascente, ficaram ótimas
Estamos em contagem regressiva, o tempo não para
Tem certas ocasiões que eu gostaria de ter
poderes para congelar o tempo

VIII
Um Presente
para Iemanjá

CAPÃO DA CANOA 51
ueríamos sair bem cedo para o primeiro dia de praia.
Q No café da manhã, os pães do dia anterior se repetem, entre eles a cuca,
um pão doce recheado com doce de leite e coco ralado. Pego uma fatia e
passo uma grossa camada de patê de fígado. Li me chama a atenção para o
estrago que eu estava fazendo. Já era tarde, como tudo, alegando gostar
daquela extravagante mistura. Confesso que não daria para repetir a dose,
não combinava mesmo.
Depois do café, Neci passa as instruções sobre as chaves e outros detalhes antes
de sair. Fomos fazer passeios diferentes, Neci foi fazer caminhada, enquanto nós
ficaríamos nas proximidades do apartamento.
Neci saiu antes da gente, combinando nos encontrar na praia mais tarde. Besun-
tamos nossos corpos com protetor e saímos carregando alguns apetrechos. Só
duas cadeiras para nós três. Parei numa loja e comprei mais uma. Era dia quatro,
em pleno domingo, no entanto o comércio estava todo aberto, aproveitando o
grande contingente de possíveis clientes.

De camiseta
boné e pés
à sombra

A areia da praia estava bastante úmida, por causa da chuva do dia anterior.
Procuramos um lugar para montar o guarda-sol, pois o dia amanhecera limpo,
quase sem nenhuma nuvem.
Uma brisa forte e constante soprava do mar em direção à praia, deixando as
ondas agitadas em todas as direções.
Montei o guarda-sol de tal modo direcionado ao vento que, para gozar da som-
bra, ficava sem visão das ondas. O medo de me queimar em demasia me acom-
panhou por todos os dias. Uma experiência nas praias da Bahia tinha sido o
suficiente para justificar minha cautela.

CAPÃO DA CANOA 53
Enquanto eu me protegia, Paulo e Li se expunham a mais não poder, estendiam
suas toalhas sobre a areia e se deitavam, desprezando qualquer regra de horário.
Vendedores ambulantes passavam empurrando carrinhos com mantas e redes,
supostamente produzidas no nordeste.
Um deles se aproxima e me oferece seus produtos.
—Vai levar uma, patrão, é só hoje, amanhã a gente já está saindo de volta com
o caminhão.
Eu sempre fui apaixonado por rede e pergunto o preço de uma com um lindo
barrado verde.
—Esta está a setenta, mas eu vou lhe fazer um precinho especial, só sessenta real.
Digo que está muito caro e ele abaixa para cinqüenta.
—Não, obrigado.
Ele se abaixa junto ao Paulo e lhe oferece por quarenta reais.
Paulo não pensa duas vezes e aceita a oferta.
—Aham, pra mim era cinqüenta, pra ele tu fez a quarenta? reclamei indignado.

Apenas
à duas
quadras
da praia

—Por quarenta eu também queria! Não tem outra? perguntei em seguida.
—Sinto muito, só aquela. Mas tem essa outra a trinta.
—Essa não é tão bonita.
—Vou lhe dar um brinde, a rede mais uma manta por trinta.
Era uma ótima oferta, enganou-se, se achava que eu fosse recusar. O preço míni-
mo da manta era dez reais, a rede sairia por vinte.
Feita a compra, fui molhar os pés na água do mar. Para minha surpresa a água
estava numa temperatura muito agradável. Mas não estava disposto a dar uns
mergulhos naquela hora.
Apenas me benzi e fiz uma pequena oração. Um ritual que me acompanha
desde a infância.

54 UM PRESENTE PARA IEMANJÁ
Voltei para a areia quando, repentinamente, uma onda mais forte se aproximou
de onde Paulo e Li se encontravam deitados.
—Olha a água chegando aí, gente.
Saímos todos correndo, carregando nossas coisas para outro local mais
distante e seco.
Neci chegou nesse meio tempo. Sentou-se em uma das cadeiras e ficamos conver-
sando amenidades. Entre uma prosa e outra, nos faz um convite irrecusável.
Iríamos conhecer Gramado antes de voltar para Bauru. Ao sair da praia se ofere-
ceu para levar nossas compras. O volume de coisas era tão grande em relação a
sua estatura que ela mais parecia uma vendedora carregada de mercadoria.
Curtimos mais um bom tempo, antes de nos decidirmos retornar ao apartamento
para o almoço.
Quando íamos saindo, Li percebe que suas sandálias haviam sumido.
Prefere acreditar que Iemanjá as tenha levado, a pensar que pudesse ser
algum espertinho ali da praia.

Os ambulantes
com seus carrinhos
repletos de
redes e mantas

O almoço seria uma gostosa receita de macarrão ao creme de leite.
Macarrão na água e o gás acaba no meio do cozimento. Pedimos outro botijão,
fazendo um interurbano no celular. Chique, né?
O entregador veio e voltou com o botijão, pois se enganou com o número do
apartamento. Tivemos que ligar de novo. Quando o almoço ficou pronto, pude-
mos saborear uma massa com a consistência bastante alterada, mas especial-
mente saborosa. Um sucesso! Era nosso primeiro almoço na praia.
Durante a tarde, era necessário repor as energias dos meses de trabalho. Li e
Paulo dormiram até bem tarde.
Para compensar o almoço, resolvemos sair para um lanche leve.

CAPÃO DA CANOA 55
Depois de um breve passeio, tentando descobrir o que parecia mais apetitoso
decidimos experimentar uns pastéis. Pedimos duas porções. Uma espera intermi-
nável e quando finalmente chegaram, eu e Li pegamos os recheados com carne
de siri e com camarão.
Paulo foi no tradicional. Pastel de queijo e óleo, muuuuuuuuito óleo, não parava
de escorrer óleo daquele pastel. Paulo trocou por outro e deixou aquele
escorrendo...até o dia seguinte.

56 UM PRESENTE PARA IEMANJÁ
19h19 do dia 12/03/2007
O penúltimo dia em Capão da Canoa foi sem nuvens,
porém acompanhado de um vento frio durante o dia todo.
Acordamos todos às cinco horas da manhã para fotogra-
far o nascer do sol. Cada qual com uma câmara

IX
6600 Metros

CAPÃO DA CANOA 57
stávamos decididos a uma estadia saudável. Acordamos dispostos a fazer
E uma boa caminhada.
No dia anterior somente eu caminhara 2200 metros de praia. Nesse dia cami-
nharíamos até a plataforma de pesca. Uma espécie de píer para pescadores
administrado por um clube da região.
De onde estávamos na praia, embora seja uma praia retilínea, não conseguía-
mos vê-la por causa da bruma e da distância. Era uma caminhada e tanto, nosso
ponto de partida era o posto de salva-mar de número 76 e a plataforma ficava
próximo ao posto 65.
Começamos o nosso passeio por volta das nove horas, sem cadeiras, toalhas ou
guarda-sol. Pegaríamos esses apetrechos no apartamento depois da caminhada,
devido à proximidade do mesmo.
No entanto, como o asfalto se apresentasse com muitas pedrinhas soltas, e ma-
chucassem nossos pés para atravessar as ruas, calçávamos sandálias, depois as
tirávamos para caminhar na beira da água. Era extremamente incômodo cami-

Ao fundo a
plataforma
de pesca
Atlântida

nhar carregando aquelas sandálias. Não sei dizer o que era pior, pois das vezes
que fui descalço à praia, sempre amaldiçoava tal decisão, na ida e na volta.
Naquele dia ventava muito e Li reclamava que o chapéu de palha tendia escapar-
lhe da cabeça, por não ter uma baínha de tecido na parte interna.
Lá pela metade do caminho, fiquei curioso sobre que distância estaríamos percorren-
do e tentei calcular levando em conta as distâncias entre cada posto de salva-mar.
—Você tem boa noção de distância? perguntei à Li.
—Por que?
—Que distância você acredita que tenha desse posto até o próximo?
—Acho que deve ter uns trezentos metros.
Paulo também não sabia precisar, mas arriscou algum número e Li apostou com ele.

CAPÃO DA CANOA 59
Fui até o posto e perguntei ao salva-vidas.
—Aproximadamente trezentos metros entre um posto e outro. Do bar Onda à
plataforma de pesca são três mil e trezentos metros.
Voltei com a resposta e Li vibrou.
—Ganhei, ganhei a aposta! Tá vendo como eu tenho boa noção de distância?
Eu estava com as sandálias em uma das mãos e a câmera, em sua capa, pendu-
rada ao pescoço.
Ao longe já se podia ver alguma coisa da plataforma.
—Eu já consigo ver suas cores, azul e branco com uma parte em vermelho e
branco no começo, disse eu entusiasmado
Caminhávamos pela água, principalmente depois que passávamos pela água
dos canais.
Embora fosse apenas esgoto pluvial, eventualmente apresentava cheiro
for te e com nojo lavávamos os pés caminhando por dentro d’água por
alguns metros.

O chapéu
de palha
de Eliane

Uma lufada de vento arranca o chapéu de Li, que sai girando pela borda como
um pneu. Tentei agachar, mas percebi que a máquina pendurada ao pescoço
poderia mergulhar na água e eu não teria outra mão para protegê-la, por causa
da sandália. Teria sido mais um presente para Iemanjá, se Paulo não pisasse nele
afundando-o por inteiro.
Curvou-se e tirou o chapéu amassado e ensopado. Senti-me culpado por não tê-lo
pego enquanto só suas abas giravam sobre a água e me justifiquei sobre a deci-
são de não arriscar minha câmera para salvar um chapéu de palha.
Pedi para ver o estado do cujo e repliquei.
—Espera, que já dou um jeito nele.

60 6600 METROS
Dei umas boas sacudidas e depois fiquei balançando o braço para frente e
para trás, até que ele secasse ao calor do sol e a ação do vento. Ainda não
estava de todo seco, mas o suficiente para Li pedi-lo de volta e colocá-lo nova-
mente na cabeça.
Chegamos na plataforma curiosos, se poderíamos ir até a ponta tirar algumas
fotos. Os cartazes e tabelas eram bem claros e visíveis. Dois reais e cinqüenta
centavos por pessoa. Intimidados pelos cartazes nem tivemos a ousadia de per-
guntar, se nos permitiriam entrar por alguns instantes apenas para conhecer.
Tiramos algumas fotos dali da praia mesmo e já íamos saindo quando algo na
base dos pilares me chamou a atenção. Pedi para que esperassem e voltei para
tirar mais algumas fotos. Entre colônias de algum tipo de coral, muitos mariscos e
alguns filhotinhos de siris. Tirei algumas fotos por baixo da plataforma e também
dos detalhes da base dos pilares e então retornamos. Voltamos ao apartamento,
pegamos os apetrechos e de novo para a praia.
Eu já havia feito dois furos na areia e não acertava a inclinação do guarda sol.

Na base do pilar
colônia de corais,
mariscos e
filhotes de siri

Logo o garçom da barraca 16 veio nos atender. Experiente, com seu acessório de
furar areia sempre em punho, se prontifica a nos atender. Usando algo semelhan-
te a uma bomba de encher pneu de bicicleta, feito de canos de pvc de três
quartos de polegada, logo perfura a areia na posição correta. Apresenta-nos um
cardápio, barraca da vó Neide, uma folha impressa e plastificada com o preço
de seus produtos.
Pedimos cerveja e uma porção de isca de violinha.
Na saída da praia, Paulo junta os cascos e os leva até a barraca para devolver.
—Tá esperando que te dê algum desconto no preço da cerveja? pergunta-lhe vó
Neide, desacostumada de atitudes cavalheirescas.

CAPÃO DA CANOA 61
Hora do almoço, provavelmente duas da tarde. Paulo tinha visto um Bufê Livre por
sete reais e cinqüenta centavos, no caminho da rodoviária ao apartamento.
Um pequeno restaurante adaptado em uma casa, todo cercado com uma
espécie de tela, do tipo alambrado retangular. Sentamo-nos à mesa mais
próxima da calçada, o lugar mais ventilado, por causa do calor. Pedimos
três Cocas e fomos nos servir.
A comida era bem simples, corriqueira como a que se faz em casa. Não era
das mais saborosas, um único prato e não queríamos repetir nem mais um
pedaço de nada.
Depois da sobremesa, Paulo pergunta:
—Quanto deu nossa conta?
—Trinta com vinte, responde a menina responsável pelo caixa
—Aceita cartão?
—Não, senhor.
—E tem muita louça pra lavar?
—A essa hora não tem mais louça nenhuma, responde a menina com ar
de indignação.
—E como é que a gente faz pra acertar a conta agora? pergunta Paulo
ainda gracejando.
Eu tinha levado algum dinheiro, puxei do bolso e contei:
—Eu tenho trinta.
Mais do que depressa a menina trata de aceitá-los, para não ter que discutir.
—Fica por trinta mesmo, está certo.
—Depois a gente acerta, diz-me Paulo com intuito de me tranqüilizar.
Voltamos para casa e a “sestchia” se estendeu pela tarde toda.
De noite eu resolvi voltar à Lan House, que eu conhecera no dia anterior. Ali eu
podia conectar o meu notebook e mandar fotos por e-mail. Esperava poder me
conectar com o pessoal em casa pelo MSN.
Ao entrar não avistei o dono. Um cara simpático, atencioso, meio gordo,
com seus trinta e poucos anos e o corpo todo tatuado. Notei que havia um
bando de garotos, jogando animadamente. Tossi limpando a garganta para
chamar a atenção e localizar o responsável pelo turno. Logo um dos garotos
se levanta e vem me atender.
—Pois não!
—Eu queria ligar o meu note.
—Pode ligar ali.
A bateria não estava mais segurando a carga, era necessário ligá-lo à tomada. O
lugar que eu havia usado no dia anterior estava ocupado. Expliquei minha situa-
ção e o garoto retrucou dizendo:
—Infelizmente não tenho outra tomada disponível.
—Então eu volto amanhã, disse eu indignado com a má vontade do garoto em
resolver meu problema.

62 6600 METROS
Tomando
uma cerveja
para recuperar
as energias

No restaurante
bufe livre a
comida não era
tão boa

Lan House Rudá
Era só atravessar a
rua e estávamos
conectados com o
mundo

CAPÃO DA CANOA 63
Tomei o elevador imaginando como solucionar o problema. Era bastante simples,
bastava ligar o cabo de força em qualquer uma das CPUs, usando a tomada do
vídeo de qualquer um dos vários micros que ainda se encontravam disponíveis.
—Garoto burro, por sua má vontade não merece meu dinheiro! pensei enquanto
o elevador subia.
Terminava ali mais um dia da nossa aventura em Capão da Canoa.

64 6600 METROS
6h10 do dia 19/03/2007
Acordei sobressaltado com o barulho dos gatos
Nossas férias em Capão da Canoa se foram e eu já estou
em minha casa em Bauru, tentando resgatar da memória
os dias felizes que passamos por lá

X
Tinturaria
Fábio’s Grossi

CAPÃO DA CANOA 65
claro que não se deve levar muita roupa, quando passamos as férias na
É praia, qualquer tonto sabe disso. Nunca levem, como eu, cinco pares de
meia, oito cuecas, cinco calças, seis camisetas, uma camisa, dois pares de sapa-
to e até um lenço, pois você só vai carregar peso morto e ficar sem espaço para
transportar as lembranças que comprar.
Pois não é que o tonto, digo, pois não é que eu, no terceiro dia de praia, já
tinha quatro cuecas, duas camisetas para lavar e uma calça para tirar a man-
cha da perna.
Eu explico. As quatro cuecas deveriam ter sido lavadas durante o banho e, muito
provavelmente, teriam sido apenas três, suficientes para toda viagem. As camise-
tas não estavam sujas, mas suadas das caminhadas por “Sampa” e no passeio
em Porto Alegre. Caminhadas não são meu forte.
A perna da calça eu havia sujado em algum escapamento de carro no estaciona-
mento, onde paramos para fazer compras na 25 de março. Era minha melhor
calça ou a mais nova e eu estava determinado a tirar aquela mancha.

Vamos de novo
à plataforma
mas, dessa vez
Eliane não leva
seu chapéu de
palha

Ainda era cedo, ninguém tinha levantado e eu fui para o tanque. Lavei as cuecas,
pendurei e me preparei para enfrentar aquela mancha.
Mergulhei a perna da calça na água, peguei uma escova, derramei um pouco de
sabão em pó e comecei a esfregar. A mancha diminuiu um pouquinho de tama-
nho, mas continuava lá, indiferente ao meu esforço e me desafiando a exterminá-
la. Não tive dúvidas.
—Vou passar para algo mais forte, pensei apressadamente.
Agachei e procurei entre os produtos embaixo do tanque, pegando o primeiro
em que li o nome detergente. Era um tal de Ajax, detergente para limpeza geral.
—É esse mesmo, toma sua danada. E esguichei um pouquinho.
Na mesma hora a mancha empalideceu, ela e a calça também.
—Meu Deus, o que foi que eu fiz?

CAPÃO DA CANOA 67
Joguei logo água por cima na tentativa de diluir o produto e recuperar a cor do
tecido. A mancha se espalhou por mais alguns centímetros. A cagada estava
feita. Mergulhei a calça toda na água do balde e esperei por algum milagre, que
não aconteceu. Eu só me aventurei a lavar as camisetas, um dia antes de voltar-
mos. Mas essa é uma história que fica para outro dia.
Nesse dia não me lembro de nenhuma outra mancada, só sei que desisti da
tinturaria e voltei para o meu relatório. Também não tirei uma foto sequer, mas
Paulo tirou muitas e então eu posso descrever o que fizemos no resto do dia.
Saímos para caminhar, pois fazia um lindo dia de sol. Li levou uma canga e
suas sandálias, mas dessa vez desistiu do chapéu. Fomos novamente em dire-
ção da plataforma e voltamos do meio do caminho, pois ela parecia ter ficado
mais distante.
Tiramos fotos sob o portal do “Verão Gaúcho”, para marcar nossa presença e
buscamos nossos apetrechos de praia para curtir mais um solzinho.

Na praia um
delicioso pastel
de camarão

Eis que surge, entre os habituais ambulantes de rede, uma figura pitoresca,
com seu palavreado cantarolado e sem nenhum sotaque regional, um vende-
dor de pastéis.
—Bom dia meussss senhores e minhassss senhorassss, é um lindo dia desssste ano
de dois mil e sete nessssta maravilhosa praia de Capão da Canoa. Vão quererrrr
saboriarrrrr um delicioso passsstel quentinho? Tem de siri, tem de camarão, tem
de queijo e tem de palmito, passstel assssado com massa fressssquinha, falava ele
acentuando os esses e erres.
Li, que parecia já conecê-lo de outras épocas, se apressou em pedir um pastel
de camarão.
Ofereceu-me uma mordida e eu logo percebi que não seria suficiente, pedi outro
do mesmo tipo, desta vez acompanhado por uma Liber, que leváramos num isopor.

68 TINTURARIA FABIO’S GROSSI
—Muito obrigado, senhora e senhoresss, tenham todosss um bom dia e um bom ano de
dois mil e sete e até mais verrr pois estaremosss aqui todosss osss diasss para atênde-
losss, se Deusss quiserrrr e perrrrmitirrrr. Passem bem e muuuuuuiiiito obrigado!
Era realmente uma figura engraçada. Parecia não ter noção do que falava, de tão
artificiais que eram suas construções verbais e a maneira como as repetia. Embora o
seu pastel fosse maravilhoso, certamente, ele sabia que era daquela encenação que
advinha o seu sucesso nas vendas.
Voltei da praia mais cedo, pois já eram 12h30 e o protetor já não era garantia de
nada. Paulo e Li ficaram mais um pouco e voltaram contando sobre as gracinhas do
cachorrinho do salva-vidas, que registraram em foto.
Depois do almoço, sempre acompanhada por uma taça de um delicioso vinho rose,
que a prima Neci nos presenteara, o descanso era inevitável.
Desta vez, entretanto, acordamos mais cedo, eram 16h20 quando fomos à Lan House
para nos comunicarmos com os nossos.

Indo à Lan para
mandar notícias
para casa

Tentei inutilmente encontrar alguém on-line, mas mandei um e-mail com algumas
fotos para a família e os amigos.
Gastei meus quinze minutos e fui acompanhar o tempo de Paulo e Li, que preferi-
ram comprar meia hora. Ambos se revezavam falando com seus filhos no MSN
de Paulo, ora ele conversava com Danilo, ora ela com as filhas.
Fiquei controlando o tempo, achando que os ajudava.
—Faltam cinco minutos...faltam dois...falta um
Paulo saiu dali aborrecido por não conseguir falar direito com Danilo e por Li ter
usado o seu endereço de MSN e não o dela.
Li, por sua vez, indagava se havia algo a esconder e não aceitava a argumenta-
ção intransigente de Paulo.

CAPÃO DA CANOA 69
No dia
seguinte Paulo
ainda estava de
mal humor

Esta foto foi
tirada durante
o vôo entre
São Paulo e
Porto Alegre

70 TINTURARIA FABIO’S GROSSI
No dia seguinte os ânimos continuavam acirrados, mas não vou contar o que
aconteceu. Em vez disso vou criar uma alegoria para nos lembrarmos de não
repetir a dose.

E
ra uma vez, duas grandes nuvens que se conheceram em uma mon-
tanha muito alta e muito linda. Seus dias eram de muita labuta e
reconstrução constantes.
Toda vez que viam seus espaços diminuírem, por causa das chuvas, juntavam
forças e agregavam logo novos flocos recém formados ao seu domínio.
Certo dia, cansados da rotina que os alimentava, resolveram dar um passeio
pela costa do continente. Pediram ao vento que os acompanhassem nessa
aventura, pois que seria muito bem vindo para gozarem juntos de novos ares.
Foi o vento, prontamente, sem pestanejar, pois já estava cansado dos uivos
incessantes dos rochedos montanhosos.
Partiram os três, curtindo os tobogãs montanha abaixo e sentido o friozinho
da sensação de liberdade que se oferecia.
Passaram-se os dias e o sol escaldante do litoral já não tinha forças para
levantar mais nenhuma gota de orvalho do mar. Então as nuvens começaram
a se dissipar no imenso céu.
—É por tua culpa. Disse ele à companheira sem refletir.
—Agora queres voltar correndo para nosso lar? Pois não há uma brisa que nos leve.
—Se é por minha causa, parto eu sem vós e os deixo buscar recursos no mar
abafado, disse o vento preocupado.Como não resolviam a pendenga, ela pôs-
se a chover num canto e o vento se ocultou por algumas horas atrás de um
penhasco próximo.
Vendo que suas palavras ríspidas tornavam mais difícil a solução do proble-
ma, pois além de sua companheira se dissolver ainda mais rápido, não teriam
a força do vento para soprá-los de volta.
Arrependido por seu julgamento precipitado e intolerante, voltou-se à com-
panheira e ao vento amigo e desculpou-se.
Rapidamente, como que por encanto, as forças da natureza se puseram a seu
favor e espessos flocos solidários se juntaram. E o vento, que não sabia ter
um amigo tão consciente do valor dessa amizade, voltou a soprar forte, ten-
tando tornar o passeio cada vez mais agradável e favorável, até que resolves-
sem voltar para sua montanha.

Sei que a alegoria não corresponde em gênero, número e grau aos fatos que se
desenrolaram naquele dia. Minha intenção é estabelecer um ponto de referência
para nossa própria intolerância, no cotidiano das relações humanas.
Quantas vezes não acordamos mal humorados, esquecendo que nenhuma das
pessoas ao nosso redor merece sofrer por nossa desarmonia interior?

CAPÃO DA CANOA 71
De fato, quando nossa natureza é orientada para o bem e para o justo, a tolerân-
cia e a humildade devem nortear nossas ações.
O fato é que, já de saída para o almoço, estávamos plenos da certeza que dali
para frente nada estragaria nossas férias novamente.
Seguimos para o restaurante próximo, onde iríamos conhecer a qualidade do
tradicional PF (prato feito).
Decepcionamo-nos com o PF, mas adoramos a novidade que o local ofere-
cia. Poderíamos levar nossos notebooks e conectá-los gratuitamente à Internet
via wireless.
De noite, como havíamos prometido ao dono do estabelecimento, lá estávamos nós.
Nove horas e quarenta e cinco minutos da noite, mais meia hora até que
meu equipamento conseguisse carregar todos os drivers e programas insta-
lados e plim plim, a aldeia global entrava em ação... estávamos conectados
com nossos filhos e filhas.
Falei com minha querida filha Lara, que custou a configurar seu MSN para funci-
onar com a webcam. Eu estava ansioso para contar as novidades sobre o local e
mais ainda para saber se estava tudo bem em casa.
Saímos do bar quando faltavam quinze minutos para meia noite. Custou para
que conseguíssemos estabelecer uma comunicação perfeita.
Estávamos determinados a voltar constantemente ao local, mas essa é mais uma
história que deixarei para depois.

72 TINTURARIA FABIO’S GROSSI
12h34 do dia 21/03/2007
Fico cada dia mais entusiasmado em escrever meu
pequeno diário, relatório ou qualquer outro rótulo que se
queira dar. Hoje eu pesquisei na Internet sobre Tatuíra.
Tatuí (que significa pequeno tatu em tupi) ou tatuíra
(Emerita brasiliensis) é o nome dado ao pequeno crustá-
ceo decápode, que mede cerca de 3 a 4 cm e que é
encontrado fazendo escavações de pouca profundidade
nas praias arenosas brasileiras. Tem coloração branca.
Sua semelhança com os tatus valeu-lhe o nome comum

XI
Farofa com Tatuíra

CAPÃO DA CANOA 73
á estávamos no dia oito de março, nosso quarto dia na praia de Capão da
J Canoa. Acordei com pernilongos, pois me esqueci de fechar a janela ao
dormir. Acho que devia estar fazendo uma temperatura agradável e eu não liguei
o ventilador de teto. Ele sempre ajuda a espantar os bichinhos impertinentes.
Estava sem sono, ainda eram cinco horas da manhã, muito cedo para fazer
qualquer coisa... ou talvez não.
Sem fazer muito barulho, vesti bermuda, camiseta e boné, peguei minha P10 da
Sony e fui para à praia registrar o nascer do sol.
—Será que é seguro? perguntei-me ao sair do prédio.
Na quadra seguinte, o vigia do supermercado ainda estava trabalhando. O resto
da rua estava totalmente deserto e somente as luzes da cidade a iluminavam.
—Boa noite!
—Boa noite! respondeu ele com ar desconfiado.
—É seguro tirar fotos na praia a essa hora?

Caça ao
tatuíra
com Paulo
ajudando
ficou bem
mais fácil

—Não tem perigo, não. respondeu com convicção.
Tirar foto do quê nessa escuridão? foi o pensamento que ocorreu sobre o que
estaria ele pensando a meu respeito.
Mas em pouco tempo, antes mesmo que eu atingisse o final do quarteirão, uma
luminosidade já se impunha contra o azul profundo, criando um imenso “degradê”
de tons mais claros.

CAPÃO DA CANOA 75
Apressei o passo, não queria perder o grandioso espetáculo que, certamente, a
natureza me ofereceria.
Eliminadas as que ficaram fora de foco ou tremidas, ainda sobraram quarenta e
oito registros dessa manhã maravilhosa. Já não tinha dúvidas sobre como ocupar
minhas insônias matinais.
Quando voltei ao apartamento, Paulo e Li já tinham se levantado e se prepara-
vam para a praia.
—Hoje no almoço vocês vão conhecer um novo prato, disse eu durante o café
da manhã.
—Se você fizer um arroz pra acompanhar, eu preparo uma farofa de corrupto.
—O que é corrupto? perguntou Li sem saber a quê eu estava me referindo.
Expliquei que se tratava daqueles pequenos bichinhos, que se enterram rapida-
mente na areia logo que a onda se afasta.
—O pessoal do lugar os usa como isca.
—Ah, tatuíra!? exclama ela em tom de dúvida.

É um bicho
ligeiro, mas
não nada
muito bem

—Não sei qual o nome que vocês dão aqui, eu e a Lara comemos isso na Bahia
e é uma delícia. Lá a gente conheceu pelo nome de corrupto.
Municiei-me de um saquinho plástico para pôr os bichos e fomos para a praia.
Pensei em fazer minha caminhada pegando os bichos aqui e ali durante o trajeto,
mas ao começar minha jornada de caça, notei que não conseguiria pegar o
suficiente para forrar o fundo da frigideira.
O bicho é ligeiro, mas quando o pomos de costas, se finge de morto. Eu queria
evitar o excesso de areia no saquinho para facilitar a limpeza e o preparo do
prato. Desenterrava-o e com a mão semi-serrada mergulhava-o na onda para
limpar a areia. Pô-los no saquinho estava sendo a parte mais difícil, pois o vento
não colaborava nem um pouco. Soprava forte e quando eu abria a boca do saco,

76 FAROFA COM TATUÍRA
17ª foto
Ø 24 mm
diaf f/5.2
tempo 1/125 s
ISO 100

23ª foto
Ø focal 8 mm
diaf f/5.2
tempo 1/125 s
ISO 100

33ª foto do dia
Ø focal 10 mm
abertura f/0,7
comp. -1.3
tempo 1/60 s
ISO 100
luz do dia
solarizada

CAPÃO DA CANOA 77
39ª foto
Ø f 24 mm
abert.f/5.2
comp. -1
temp 1/125 s
ISO 100
luz do dia
solarizada

42ª foto do dia
Ø focal 9 mm
abertura f/6.3
comp. -1
tempo 1/100 s
ISO 100
luz do dia

44ª foto do dia
Ø focal 8 mm
abertura f/5.6
comp. -1
tempo 1/100 s
ISO 100
luz do dia

78 FAROFA COM TATUÍRA
ele se inflava e sacudia forte. Paulo se aproximou para fotografar e notando
minha dificuldade, sugeriu que eu pusesse um pouco d’água no fundo. Fiz isso e
a situação ficou um pouco melhor, mas o processo ainda era lento.
Depois de tirar algumas fotos, Paulo resolveu me ajudar, passou a câmera para Li
e começou a escavar em um único lugar, ampliando aos poucos o diâmetro do
buraco. Esse processo mostrou-se muito produtivo, pois os bichinhos brotavam a
toda hora, nadando no pequeno laguinho que se formara e eu os coletava com
rapidez, já enxaguados. Não demorou nada para termos o suficiente.
De volta ao apartamento, Paulo acompanhava descrente a movimentação na
cozinha enquanto eu e Li preparávamos o almoço.
Depois de lavado e escorrido, exprimi umas gotas de limão e deitei em uma
frigideira quente. Usei margarina com um pouco de óleo de girassol para
não queimar.
A cor era agradável, o cheiro inebriante, parecido com o de camarão frito. Umas
pitadas de manjericão e para complementar uma cebola cortada em rodelas.

Etapa de
preparo da
farofa com
tatuíra

Esperei até que a cebola ganhasse aquele tom transparente, identificando maciez
e então finalizei com a farinha de mandioca, bem pouca para manter a umidade
da farofa.
Enquanto aguardava que o arroz terminasse de cozinhar, tirei dois tatuíras da
frigideira e os coloquei sobre a pia para esfriar e eu poder prová-los. Provei um e
Li provou o outro fazendo comentários elogiosos. Paulo, sempre mais reservado e
cauteloso, tirou um direto da frigideira e, sem olhar para o bichinho para não
perder coragem, mandou para dentro da boca. Provado e aprovado por todos
servimo-nos de farta porção.
—Nossa, dava pra vender na praia!
—Com tanto bichinho dando sopa pela praia toda, ninguém ia querer comprar.
—Duro deve ser convencer as pessoas a experimentarem.

CAPÃO DA CANOA 79
Conversa vai, conversa vem, não sobrou um tatuíra na frigideira.
Mais tarde Paulo e Li tiveram azia, não se pode dizer que foi por causa da farofa,
afinal eu não senti nada, mas os dois resolveram riscar essa iguaria do nosso
cardápio. Tatuíra, never more.
À noite, voltamos ao bar com conexão wireless para notebook gratuita, como
havíamos combinado. Entramos sem muita cerimônia, uma vez que já tínhamos
estado ali no dia anterior e o movimento da praia estava muito baixo, ou seja, o
bar estava com poucos fregueses.
Pedimos as bebidas de praxe e uma porção de batatas, por sinal muito boa,
macia, sequinha e crocante por fora.
Eu, como sempre, vou de Líber — cerveja sem álcool por causa dos remédios
para controle do Parkinson — pois adoro o sabor da cerveja e essa marca
me conquistou.
Ocupamos as mesas mais próximas do roteador, por causa do sinal e instalamos
nosso equipamento.

No bar
com
conexão
wireless
gratuita

O lugar que nós estávamos era uma mistura de restaurante, bar, padaria, loja de
conveniências e cyber café. Montado em uma casa com três espaços distintos e
interligados. Na parte da frente, uma varanda coberta com algumas mesas; no
corpo da casa um balcão de padaria, o caixa e algumas gôndolas com produtos;
na parte do quintal um terraço coberto com mesas, tv, uma ilha de computadores
e espaço para karaokê.
Eu estava feliz com a idéia de podermos mandar fotos e relatarmos nossa
estadia com freqüência. Porém meu notebook não estava muito disposto a
colaborar comigo. Estava demorando muito para ligar e começar a funcio-
nar por causa do Norton Antivírus, programa muito pesado para o pobre
processador Transmeta da PCChips.

80 FAROFA COM TATUÍRA
8ª foto do dia
Ø focal 8 mm
abertura f/2.8
tempo 1/100 s
ISO 100

16ª foto do dia
Ø focal 24 mm
abertura f/5.2
comp. -1.3
tempo 1/100 s
ISO 100

Repentinamente, ouvimos alguns gritos e xingamentos vindos da parte interna da casa.
Logo em seguida um garçom se apresentou, dizendo que teríamos que encerrar
nossa conta, pois estariam fechando a casa por algum problema de cunho pessoal.
Fui pagar a conta no caixa e notei que a mulher falava com alguém ao telefone,
estava muito irritada com a ausência do dono do estabelecimento, possivelmente
seu marido.
Pediu-me desculpas pelo inconveniente, deu-me o troco e voltou a resmungar e
praguejar para os funcionários que não sabiam onde se enfiar.
Saímos dali boquiabertos, supondo que a mulher estivesse com tpm.
Embora a proposta do bar fosse muito interessante, não voltamos mais para con-
ferir se o ânimo da mulher tinha melhorado.

CAPÃO DA CANOA 81
16h00 do dia 22/03/2007
Estou enrolando um pouco para reiniciar
o texto, não sei que ênfase dar aos acontecimentos do
dia 9. Embora tenha sido um dia de muitos prazeres
culinários, não ocorreu nada curioso
ou engraçado, digno de registro

XII
Churrascaria
Estância Gaúcha

CAPÃO DA CANOA 83
ela primeira vez levamos chimarrão para tomar na praia, é incrível como o
P líquido quente dessa bebida sacia a sede.
O dia estava muito limpo e com uma brisa suave, próprio para ficar curtindo ao
sol e ouvindo o murmúrio das ondas.
Entretanto, eu estava decidido a fazer minha caminhada todos os dias e segui em
direção à plataforma de pesca mais uma vez. Lembrei-me que todas as vezes em
que estive na praia colecionei algumas conchinhas para guardar de recordação.
Como não tinha levado saquinho fui catando com uma das mãos e colecionando-
as na outra após enxaguá-las. Pegava todas que achasse interessante, fosse pelo
colorido ou pelo formato. Não havia muita variedade, mas quando cheguei na
plataforma já estava com a mão cheia.
Entrei por baixo da plataforma com a água batendo pela cintura e de um dos
pilares retirei dois mariscos grandes, era o que cabia na outra mão.
Voltei apertando o passo, pois já tinha se passado muito tempo.

A manta
de quatro
tons de
Eliane

—Pensei que você tivesse se afogado, já ia comunicar seu sumiço ao salva-vidas,
disse Paulo fazendo graça.
Sentei numa das cadeiras e servi-me de uma cuia de chimarrão com o que restara
de água quente na garrafa térmica.
—He, vida dura! exclamei debochando.
Li me conta que conseguira trocar uma das mantas pelo par correto. Desde que
chegamos à praia, e compramos redes e mantas no primeiro dia, ela vinha ten-
tando encontrar uma com padrão igual. Acabou comprando uma de padrão
semelhante, mas se arrependeu. Não sei quem teve mais sorte, se ela ou o vende-
dor que, para trocar a manta, forçou a venda de mais uma.

CAPÃO DA CANOA 85
Ficamos mais um tempo curtindo o mormaço e o ruído das ondas. Estávamos num
paraíso: sol, sossego, brisa fresca e o pensamento perdido nos prazeres da vida.
Por toda essa tranqüilidade, nos esquecemos do tempo e quando nos demos
conta já era bem tarde. Tínhamos planejado almoçar fora e os restaurantes não
estariam abertos depois das 14 horas.
Tomei banho, me arrumei e enquanto eles tomavam banho cozinhei os dois mariscos.
Comi um e dei o outro para Li experimentar.
—Esse vai ser o nosso almoço de amanhã.
Li aprovou a idéia, marisco ela já conhecia e não tinha medo que fizesse mal.
Nosso café da manhã era sempre muito gostoso, mas nossas experiências de
almoço em restaurantes foram bastante frustrantes até então.
Paulo tinha pego de um panfleto, distribuído na praia, que anunciava um bufê
livre com carnes grelhadas. O anúncio parecia interessante, pois se tratava de
uma churrascaria. Seguimos então para o endereço que era bem próximo e

Paulo não
perde tempo e
já tira uma foto
do meu prato
caprixado

fomos os últimos a chegar. Logo depois de entrarmos, as portas foram fechadas
para encerrar o expediente.
As opções do bufê eram bem variadas e o aspecto da comida bastante atraente.
Como resultado, fiz um prato muito grande com um pouco de cada coisa. Embora
tivéssemos chegado tarde ao local, fomos muito bem tratados, o garçom trouxe-
nos todos os grelhados de que a casa dispunha.
Paulo fez questão de registrar o tamanho do meu prato e quando saímos Li tirou
mais uma foto para mostrar os dois glutões de barriga estufada. Pura onda, Paulo
come como um passarinho, nunca se excede a não ser na cerveja.

86 CHURRASCARIA ESTÂNCIA GAÚCHA
Não tínhamos alternativas. Depois de um almoço daqueles era necessário um descanso.
O jantar já estava planejado, a carne que compráramos dias antes não dura-
ria muito tempo na geladeira.
Li vinha prometendo uma receita de rolo de carne ao forno muito gostosa. Recei-
ta que tinha baixado na Internet e ambos já haviam provado e aprovado.
Paulo fez o arroz, perfeito e soltinho. Mas a comilança do almoço não deixou muito
espaço para o jantar. E foi assim que pela primeira vez eu fui obrigado a aceitar
apenas um pequeno pedacinho do rolo de carne, só para não fazer desfeita.

CAPÃO DA CANOA 87
13h17 do dia 23/03/2007
Estou pronto para começar mais uma passagem divertida
de nossas aventuras nesse passeio delicioso. Cuia de
chimarrão do lado do teclado e garrafa térmica com
água bem quente, um autêntico convertido.

XIII
Salvo pelo Photoshop

CAPÃO DA CANOA 89
almoço do dia seguinte já estava garantido, embora muito saboroso nin-
O guém agüentou comer muito no jantar daquele dia.
Caí da cama outra vez. Propositalmente, é claro. Fiquei bem entusiasmado com
as primeiras fotos do sol nascendo no mar de Capão da Canoa. Dessa vez saí
mais cedo, passei pelo vigia do supermercado, cumprimentando-o e segui rápido
para pegar os primeiros raios de sol.
As cores estavam mais vivas, mais intensas. Segui pelo lado direito do canal para
fotografá-lo despejando suas águas no mar. A praia em si não apresenta muitos
elementos naturais como rochas, contornos ou vegetação que se possa incluir
como elemento de composição. Fotografar o canal era uma forma de criar fotos
diferentes das tiradas anteriormente.
O reflexo do céu na água, que corta de forma sinuosa as areias da praia, cria um
recorte curioso transformando o pequeno e raso leito num largo espelho d’água
indo para o mar.

6ª foto
Ø f 9 mm
abert.f/3,2
temp 1/40 s
ISO 100
luz do dia

Tiro várias fotos, sem me importar muito com o lixo preso às bordas, são sacos
plásticos e canudos de refrigerante fáceis de retocar no Photoshop.
Se me detenho para retirar o lixo deixado por estúpidos usuários inconscien-
tes, corro o risco de perder momentos fugazes desenhados pela luz que se
altera rapidamente.
A praia era a mesma, a máquina também, mas a cor do céu, a luz filtrada pelas
nuvens do horizonte e a disposição para criar elementos visuais diferentes fazem
da fotografia uma forma de expressão ímpar. Com um pouquinho de boa vonta-
de, é possível fazer centenas de fotografias de um mesmo tema sem se repetir.

CAPÃO DA CANOA 91
Embora minha câmera seja de um modelo bem simples, não consigo fazer foto-
grafia sem explorar cada recurso. Aumento e diminuo o fator de luminosidade,
altero os tons usando a regulagem do branco para cada temperatura de luz, uso
recursos automáticos de solarização, sépia e todos os demais. Toda essa marato-
na tem que ser feita de modo rápido e preciso, são muitas fotos e algumas são
eliminadas segundos depois se, pelo visor, percebo que não ficaram boas.
Já havia tirado umas quarenta fotos, quando alguém me toca o ombro.
—Oi! diz em voz tímida o garoto.
Era o filho do zelador do prédio onde estávamos hospedados.
Eu já havia conversado casualmente com ele em duas outras vezes. Uma vez
quando pegava ondas sem prancha e o instruí, para que não levantasse a cabe-
ça se quisesse ir mais longe com a onda. E uma segunda vez, quando o vi
pescando na beira da praia com um pedaço de tela de nylon e ele me dirigiu a
palavra, contando que conseguiu ir muito mais longe no jacarezinho, seguindo
minha dica.

14ª foto
Ø f 9 mm
abert.f/3.2
temp 1/100 s
ISO 100

Desta vez ele trazia uma vara de pesca pequena de bambu e usava tatuíra como
isca.
—Oi, veio de vara hoje, a rede não deu certo?
—Deu sim, mas com vara eu pego peixes maiores.
—E a isca?
Ele abriu a mão mostrando o bichinho e eu fotografei sem regular a máquina.
O foco estava regulado para infinito, sua mão ficou fora de foco e só os seus pés
e as bolhas de espuma deixada na areia da praia ficaram nítidos.
Não tive coragem de apagá-la.
—Vai ali que eu vou tirar mais uma.

92 SALVO PELO PHOTOSHOP
13ª foto
Ø f 9 mm
abert.f/3.2
temp 1/80 s
ISO 100
fluorescente

15ª foto
Ø f 9 mm
abert.f/3.2
temp 1/40 s
ISO 100
tungstênio

33ª foto
Ø f 21 mm
abert.f/5
temp 1/80 s
ISO 100
tungstênio

CAPÃO DA CANOA 93
O primeiro
peixe do dia,
tão pequeno
que mal dá
para vê-lo

Mais
atenção
com o foco

Segurando
a vara com
a pontinha
dos dedos

94 SALVO PELO PHOTOSHOP
Ele se afastou e fez uma pose estudada, estufando o peito e segurando a vara
com a pontinha dos dedos.
Esperei que ele se distraísse com a pesca e tirei outras fotos. Voltei a fotografar o
sol e em três delas consegui um efeito que deixaram o mar dourado.
Viro-me para onde estava o garoto e lá vinha ele todo eufórico com seu primeiro
peixe do dia. Uma coisinha insignificante que mal aparece na foto. Mas a ima-
gem ficou ótima, a espontaneidade do garoto e a iluminação deixaram a foto
com uma beleza surreal.
Terminada a sessão de fotos, voltei para o apartamento e já nos preparamos
para sair de novo. Desta vez vamos pegar mariscos nas colunas da platafor-
ma de pesca.
Minha coleção de conchas estimula Li a fazer uma igual, antes ela só colecionava
aquelas com o formato semelhante ao símbolo da Shell. Dessa vez saímos os três
colhendo as conchinhas atraentes, que encontrávamos pelo caminho. Ela foi guar-
dando todas no saquinho que levávamos para trazer os mariscos.

Procurando
conchas no
caminho

Curiosamente, estava muito mais escasso o número de conchas que no dia ante-
rior. Lá pela metade do caminho, encontramos uma família e nas mãos da mãe
um balde lotado das que estávamos sentido tanta dificuldade para encontrar.
—Tá explicado! exclamei brincando.
—Acordaram mais cedo.
—Pois é, respondeu Li desanimada.
É claro que brincávamos com a situação, tantas conchas daquele jeito devem ter
sido fruto de alguns dias na praia.
Mesmo assim Li conseguiu juntar muito mais do que eu, afinal eram mais dois
a ajudá-la.

CAPÃO DA CANOA 95
Chegamos ao nosso destino depois de lavar várias vezes os pés, por causa
das águas nos canais. Numa das vezes entrei tanto na água que uma onda
traiçoeira molhou-me os bolsos das pernas da bermuda, onde eu havia posto
o dinheiro. Paulo estava tão afiado com a câmera que registrou o momento,
como se tivesse combinado.
—Até chegarmos lá, a bermuda seca, disse Li se referindo à distância.
Pois chegamos e ela realmente tinha secado, só que não tinha a mesma cor do
resto. Tirei a camiseta, a bermuda e fiquei de sunga. Equilibrei a roupa dobrada
sobre um tronco fincado na parte seca da praia e já ia entrando, quando percebi
que havia outros banhistas por perto.
Pedi a Paulo que ficasse de olho na roupa, enquanto eu fosse pegar os
mariscos. Ele queria registrar o momento com sua câmera, então sugeriu
que eu mudasse a roupa para outro lugar mais visível, usando a borda de
concreto que se projetava para fora da mureta, na altura do piso da
plataforma.

Surpreendido
pela onda,
Paulo estava
muito atento
e regisrou

Entrei n’água carregando uma pequena faca e pensei que Li estivesse me acom-
panhando com o saco plástico. Li experimentou a temperatura da água e achou
que estivesse fria demais. As ondas estavam mais fortes e junto aos pilares havia
uma depressão acentuada. Consegui desgarrar dois mariscos do emaranhado de
vegetal ao qual eles costumam se fixar. Eram dos grandes, não havia muitos
daquele tamanho e seria trabalhoso tirá-los um a um com as ondas batendo tão
forte. Virei-me para pô-los no saco e então percebi que Li não tinha me acompa-
nhado. Saí da água ao seu encontro explicando a situação: demoraria muito
fazer aquela operação com ela tão longe. A um passo do pilar, era bem mais
raso do que ela pensava, a água batia na altura da coxa.

96 SALVO PELO PHOTOSHOP
Entrei novamente disposto a enfrentar a força das ondas, ela acompanhou tentan-
do convencer-me a tirar uma penca para separá-los depois.
Apalpando sob a água encontrei uma borda saliente por onde eu podia segurá-
los. Puxei sem fazer tanta força e uma manta de mariscos desprendeu-se com
facilidade do pilar corroído. Dois tantos daquele foram suficientes para encher o
saquinho, embora eu soubesse, numa primeira olhada, que muitos não seriam
aproveitados. Devíamos tê-los escolhido ali mesmo na beira da praia, mas a
pressa e a inexperiência nos fez carregar um saco pesado, marcando-nos as
mãos pelos três quilômetros de caminhada.
Eu não tinha a noção do peso até que, a meio caminho da volta, tirei o saqui-
nho das mãos de Paulo. Li vinha insistindo para carregá-lo, mas dois cavalhei-
ros não podiam deixar uma dama carregar um peso daqueles. Complexo
machista mais besta.
Senti um alívio danado, quando já bem perto do apartamento Paulo se ofereceu
para carregá-lo novamente.

Pegando
mariscos na
base do pilar

Chegamos ao apartamento e fomos direto ao serviço, ninguém tomou banho.
Sentamo-nos na varanda usando as cadeiras de praia, no chão um balde com os
bichos e uma panela para os escolhidos.
Paulo botou água para ferver enquanto separávamos uma porção consistente.
Entre as pencas vários filhotes de siri se revelavam assustados. Paulo brincou com
os bichinhos, registrando em filme um dos maiores, não passava do tamanho de
uma tampa de refrigerante.
Depois de cansá-los colocou todos enfileirados no beiral da sacada e
sarcástico perguntava:
—Siri sabe voar? Em seguida os atirava do sétimo andar onde estávamos, no
gramado do canteiro central da avenida dizendo:

CAPÃO DA CANOA 97
—Voa sirizinho, voa.
Eu o repreendi por tamanha malvadeza, mas ele replicou dizendo que com o
peso dos bichinhos e a grama macia eles teriam boa chance de sobreviverem.
Separados os mariscos, fomos à cozinha preparar o almoço. Enquanto eu picava
tomate e cebola para os mariscos, Li requentou o arroz, o rolo de carne e ainda
separou os moluscos das conchas depois de cozidos. Macios e com seu sabor
característico, os mariscos foram um gostoso complemento para aquele almoço.
Estava tudo perfeito, mas ainda não tínhamos tomado nosso banho. Aproveitei
enquanto eles se banhavam para descarregar as fotos no meu notebook. Ao
saírem do banho encontraram-me irritado por terem me fotografado quase sem-
pre de perfil. Tenho a coluna acentuadamente curvada e o abdomem se projeta
para frente de uma forma antiestética.
—Ah! Vocês querem ver eu acabar com essa barriga?
Em menos de cinco minutos a foto estava retocada no Photoshop e esteticamente aceitá-
vel. Paulo ainda deve ter a foto original, mas quem quiser vê-la, vai ter que falar com ele.

Foi duro
carregar
aquele saco
de mariscos
até o apê

Depois do banho, saímos os três a passear pelo centro comercial do bairro.
Fomos até o banco, Paulo queria tirar algum dinheiro, usando o sistema 24 ho-
ras, mas não acertava a senha da conta recém criada na Caixa Econômica.
Tentou duas combinações, não arriscou a terceira, pois teria o cartão bloqueado.
Voltamos ao apartamento e tivemos a oportunidade de apreciar o mais lindo pôr-
do-sol da temporada. O céu estava tingido de um vermelho tão intenso que mais
parecia um gigantesco incêndio românico.
Eu estava bastante cansado e ao invés de ficar assistindo tv com os dois, preferi ir
para a cama mais cedo.
Onze e trinta da noite ouço meu celular tocar insistentemente.

98 SALVO PELO PHOTOSHOP
Selecionando
os mariscos
maires para a
mariscada

Com
bastante
tomate e
cebola

Depois de
cozidos alguns
ficam bem
vermelhos

CAPÃO DA CANOA 99
Salvo pelo
Photoshop,
essa é a foto
retocada

Ao pôr do sol
parecia que a
terra estava
pegando fogo

Foram raros
os momentos
com nuvems
como estas

100 SALVO PELO PHOTOSHOP
—Alô?
—E aí, tudo bem? disse a voz do outro lado da linha.
Eu estava tão sonado que não consegui descobrir quem era. O sotaque tão
diferente e fora do padrão regional me deixou mais confuso ainda.
Pensei que fosse engano, mas respondi de maneira mecânica.
—Tá, tudo bem.
—Está curtindo o passeio? E eu continuava sem saber com quem falava. Certa-
mente, a pessoa do outro lado sabia quem eu era.
—Tá ótimo, estou me divertindo muito.
—Eu fiquei pensando se você tinha ou não levado o celular.
—Trouxe, sim, mesmo de férias pode surgir alguma coisa importante...
—Estou sentindo falta das nossas reuniões de quarta feira. Finalmente aliviado,
descubro quem era o dono da voz misteriosa.
—E aí Valero, está tudo bem aí em Bauru?
—Está tudo certo. Quando é que você volta?
—Dia 16, eu também sinto falta das nossas reuniões.
—Então está bem, aproveite bastante, curta bastante.
Conversamos rapidamente por mais alguns segundos. Eu não acreditava no que
estava acontecendo. Isso que é um amigo de verdade. Está sempre ligado e
procurando fazer contato. Voltei para cama satisfeito e pensando em como era
bom ter um amigo como ele.

CAPÃO DA CANOA 101
16h16 do dia 24/03/2007
Estou conseguindo escrever um capítulo por dia, nesse
ritmo daqui cinco dias termino toda história
do nosso passeio

XIV
Show de Câmera

CAPÃO DA CANOA 103
cordei ansioso para fotografar o nascer do sol mais uma vez. No dia anterior,
A vendo o resultado de minhas fotos, Paulo ofereceu sua FinePix para que eu
fizesse um teste.
Desta vez poderia usar o zoom ótico de dez vezes, trazendo o horizonte para
mais perto, comprimindo o campo entre o sol e a praia. Podia também enquadrar
cenas mais amplas do que com a minha P10. Além disso, o visor interno ajudava
bastante no enquadramento e visualização das fotos tiradas.
—Maravilha! pensei entusiasmado com as possibilidades.
Segui para a praia, mas desta vez não vi o vigilante em seu posto.
—Acho que no domingo ele também descansa.
Meus pensamentos mantinham uma espécie de diálogo, se isso é possível, eu
tinha que descobrir a melhor regulagem da máquina fazendo-me perguntas e
tentando respondê-las.
—Qual a definição da imagem?
—Três ponto cinco mega pixel, essa é a resolução máxima dela.

5ª foto
Ø f 15 mm
abert.f/3,1
temp 1/10 s
ISO 64

Sem os óculos tento ler o menu e faço uma opção errada. Confundo RAW com
B&W. Tiro minhas quatro primeiras fotos em Preto e Branco.
—O que fiz eu de errado, cadê a cor? Descubro a regulagem de dioptria e acerto
melhor o foco do visor.
—Imbecil! Está em PB.
Examino as fotos, estão ótimas, não foi de propósito, mas decido guardá-las. Às
vezes o acaso nos surpreende positivamente.
Não conheço todos os recursos da máquina, mas logo percebo que ela responde
com eficiência a todos os meu caprichos.

CAPÃO DA CANOA 105
Cinqüenta e seis fotos, não tinha contado, mas estava satisfeito, fotografei o sufi-
ciente para um dia. Volto ao apartamento e descarrego no notebook para exami-
nar melhor a qualidade do material.
Paulo e Li acordam e me encontram embasbacado com a qualidade das imagens.
—É uma mais linda que a outra, sua máquina é fantástica!
—Olha que definição! Olha isso, ela congela a espuma, do jeito que eu queria.
Eu estava simplesmente encantado.
—Pode usar quando quiser, está à disposição, disse Paulo, demonstrando sua
amizade incondicional.
Eu não queria deixar o computador, mas a praia estava nos chamando.
Pegamos nossos apetrechos e nos dirigimos para um novo local, desta vez fica-
mos exatamente ao lado do posto de salva-mar. Não seria preciso montar o
guarda sol, espalhamos nossas coisas, isopor com cervejas, cadeiras e toalhas
tomando conta da área sombreada.

7ª foto
Ø f 17 mm
abert.f/3,1
temp 1/11 s
ISO 64

Éramos os primeiros a chegar, ventava muito, mas o sol estava forte, irradiando
uma luz dura, com céu bem limpo num tom de azul mais escuro.
Luz dura é uma terminologia usada em fotografia para descrever a luz que provo-
ca sombras bem definidas e muito contrastadas.
O posto de salva-mar é uma estrutura de madeira em forma de pirâmide e piso
elevado, acho que tenho uma foto para ilustrar.
A idéia de usar a sombra daquela estrutura não era exclusividade nossa. Por
mais que delimitássemos nosso espaço com nossos apetrechos, um passo pra cá
ou um passo pra lá já não é território de ninguém. Foram chegando e se acomo-
dando, em pouco tempo estávamos rodeados de gaúchos obesos e tagarelas,
sem nenhuma noção de proxemia. Todos querendo aproveitar a mesma sombra.

106 SHOW DE CÂMERA
17ª foto
Ø f 57 mm
abert.f/3,1
temp 1/150 s
ISO 400

53ª foto
Ø f 15 mm
abert.f/4
temp 1/343 s
ISO 64

O posto de
salva-mar era
uma pirâmide
com pernas
altas

CAPÃO DA CANOA 107
19ª foto
Ø foco 57 mm
abert.f/3,1
temp 1/350 s
ISO 400

20ª foto
Ø foco 57 mm
abert.f/3,1
temp 1/340 s
ISO 400

33ª foto
Ø foco 57 mm
abert.f/3,1
temp 1/350 s
ISO 400

108 SHOW DE CÂMERA
Não nos alteramos, estávamos ali para curtir. Peguei minha câmera e resolvi que
faria apenas filmes. Queria registrar o ruído incessante das ondas daquele lugar.
Diferente de outras praias, cujas ondas se quebram em intervalos mais ou menos
regulares e compassados, as ondas em Capão da Canoa se quebram várias
vezes ao longo da praia. Isso gera um ruído forte e contínuo, bem menos relaxante
que o outro ao qual estou acostumado.
Comento o fato com a Li, me esquecendo que esse é o ruído de mar com o qual
ela se identifica.
—Eu acho relaxante, você não acha?! diz ela sem entender do que eu falava.
Fui até a beira da água e entrei com cuidado para não ser surpreendido por
onda mais forte que pudesse molhar a câmera. Comecei com cenas mais longas,
acompanhando o movimento das ondas até passarem por mim. Depois, tentei
inutilmente registrar os peixinhos que vinham nas ondas atrás das tatuíras e volta-
vam apressados junto com o refluxo.
Voltei para o nosso guarda-sol coletivo e apontei a câmera na direção dos “pom-
binhos” que se apressaram em mostrar seus dentes dizendo xis.
Vendo-os imóveis alertei dizendo:
—É filme.
—É filme? repete Paulo desmanchando a cara para foto e caindo na gargalhada.
—Dá um beijinho aí, propus brincando.
Paulo se curva sobre Li e a beija com um forte ruído de beijo estalado.
—Eu decidi que agora à tarde só farei filme, disse-lhes depois do corte de cena.
Fiz uma tomada do entorno e voltei a apontar a câmera para os dois.
Desta vez, não dizem nada, levantam os pés do chão e começam a pedalar no ar.
Hora do almoço. Baterias esgotadas, deixamos recarregando e sem câmeras,
fomos a outro rodízio de grelhados. Como não há registro, não sei dizer o nome
do lugar, mas lembro bem que um aviso alertava sobre a cobrança extra para
pratos que voltassem cheios de comida.
O coração de frango estava uma delícia e a banana empanada também, fazia
tempo que eu não curtia esse prato tão simples e fácil de fazer. Lembrei-me que
em casa, domingo após domingo, a comida não traz opção diferente: Massa e
joelho de porco.
—De onde será que vem essa tendência à obesidade?
—Não seria da sua mamãe? perguntaria com ironia minha esposa.
Aquele seria um domingo atípico, digno de recordação.

CAPÃO DA CANOA 109
00h52 do dia 26/03/2007
Hoje eu desenvolvi o primeiro projeto gráfico
para uma possível edição impressa desse texto. Pensei na
possibilidade de editar um cd, mas estou reticente
em relação a isso

XV
Sol, Mar e
Lasanha ao Pene

CAPÃO DA CANOA 111
eu entusiasmo em relação à beleza do nascer do sol e as fotos que eu vinha
M tirando convenceram Paulo a acordar mais cedo.
Embora Eliane não estivesse muito convencida, pois esfriara um pouco durante a
noite, resolveu acompanhar-nos com sua pequena câmera digital.
Eu tinha sido contundente.
—Não há tempo para escovar os dentes, café da manhã ou qualquer outra
perda de tempo, deixem tudo para depois da sessão de fotos.
Tanto exagero fez com que Li nem pensasse em colocar uma roupa mais fechada.
Vestiu-se com o que estava mais à mão, uma blusa ridiculamente pequena da
prima Neci.
Na saída do prédio Paulo torce ligeiramente o pé e quase leva um tombo. Recla-
ma dos bifocais, mas mesmo sentindo alguma dor, resolve continuar com o que
havíamos planejado.
Chegamos à praia no horário previsto, mas por algum capricho da natureza o sol
estava sonolento e resolveu se levantar mais tarde.

19ª foto
Ø foco 24 mm
abert.f/5,2
temp 1/3 s
ISO 100

—É esse o horário, gente! Senão não dá pra fotografar, quando os primeiros
raios tingem o céu antes dele despontar no horizonte.
—Mas não tem luz nenhuma, como é que eu vou fotografar? pergunta Paulo desconfiado.
Ele havia levado um pequeno tripé e no horizonte podíamos ver as luzes de uma
embarcação. Sugeri a ele que montasse o tripé sobre a mureta que separa a
praia da calçada e tentasse usar o máximo do zoom para fotografá-las. Teria sido
uma excelente foto, se ele conhecesse bem a regulagem de sua própria máquina.
Paulo agachou-se junto à mureta, colocou a máquina sobre o tripé montado, mas não
havia jeito dele acertar a mira. A posição incômoda ou algum outro motivo fez com que
ele se demorasse tanto, que a pequena embarcação foi-se embora sem ser fotografada.

CAPÃO DA CANOA 113
Sem tripé, eu e Li pusemo-nos a fotografar com a máquina apoiada na mureta
fazendo o enquadramento a esmo.
O tempo de exposição era enorme e as máquinas registravam as luzes que ainda
não víamos de forma plena.
Os primeiros registros foram feitos em torno das cinco e quarenta e são imagens
de grande efeito dramático.
Cada um de nós tirou aproximadamente sessenta fotos, já eram seis e trinta quan-
do resolvemos voltar.
Reclamando do vento frio, Li estava ansiosa por sair dali. Porém, a meio caminho
do apartamento resolvo convidá-los para tomarmos café em alguma padaria,
poupando Li do trabalho que se dispunha a fazer diariamente.
Caminhamos na direção oposta à da padaria chegando ao único estabelecimen-
to que encontramos aberto àquela hora, um posto de gasolina.
—Não adianta Fábio, vamos embora. Nada aqui funciona antes das oito.
Mesmo assim, fui até o posto e perguntei ao funcionário.

16ª foto
Ø foco 24 mm
abert.f/5,2
temp 1/6 s
ISO 100

—A melhor padaria e a única que vão encontrar aberta fica logo alí, passan-
do a sinaleira.
Eu logo percebi que ele se referia ao semáforo, que denominam sinal em algumas
regiões e farol em outras.
—Vamos. Eu já sei onde é.
Saí apertando o passo para alcançar o Paulo, que já se punha de volta por onde viemos.
De repente, tropeço em uma saliência da calçada e saio catando cavaco por
entre os dois que debocham dizendo:
—Calma! Aonde vai com tanta pressa.
Não cheguei a cair, mas depois da torção de pé do Paulo era bom ficar esperto.
O saci devia estar solto por ali. E há quem não acredite nos pestinhas.

114 SOL, MAR E LASANHA AO PENE
O café estava bem gostoso, embora com um sabor diferente que só mais tarde fui
descobrir que se tratava de uma máquina de Nescafé.
Li pediu alguns biscoitos e nos ofereceu dizendo que se chamavam “cueca virada”.
—Hummm, gostosinha essa cueca furada! exclama Paulo pouco depois.
Voltamos para o apê onde, como sempre, nos besuntávamos com nossos proteto-
res antes de ir para praia. Porém, desta vez o céu não estava muito limpo e o sol
brincava conosco de esconde-esconde.
Ao invés da tradicional caminhada, preferi lutar com as ondas e me despedir do
querido amigo mar, uma vez que no dia seguinte voltaríamos pra Porto Alegre.
Para variar, resolvi não levar minha cadeira, pois raramente eles usavam as ca-
deiras que insistiam em levar.
Ao sair da água, com o sol encoberto pelas nuvens e o vento soprando um pouco
mais frio que os outros dias, encontrei-os sentados e sem intenção de se deitarem.
—Justo hoje que eu não trouxe cadeira vocês vão ficar sentados?
—Ah é, engraçadinho! Por que é que você não trouxe a sua? disse Paulo

45ª foto
Ø foco 8 mm
abert.f/5,6
temp 1/100 s
ISO 100

—Porque vocês nunca se sentam, trazem cadeira, mas ficam sempre deitados nas toalhas.
Peguei uma pequena prancha que se encontrava perdida na areia e sentei-me
sobre ela.
Eles estavam desanimados com a ausência do sol, mas não demorou muito ele
voltou a aparecer. Paulo e Li estenderam suas toalhas, cedendo-me o lugar, eu só
não sei precisar a hora que saímos da praia.
Sei, por ter anotado, no rascunho, que o almoço daquele dia foi macarrão pene
ao sugo e que depois saímos pelo centro comercial e tomamos chuva.
A quantidade de macarrão que Li fez no almoço era tão grande que no jantar demos
uma incrementada com queijo e presunto e ela se transformou numa saborosa lasanha.

CAPÃO DA CANOA 115
16h00 do dia 26/03/2007
Tentei criar outro projeto gráfico que ficou
bem melhor, mas o PageMaker é um programa difícil
e eu gastei a manhã inteira nisso

XVI
Sopinha de Tudo

CAPÃO DA CANOA 117
ltimo dia de praia e estamos querendo curtir ao máximo. Não estamos tristes,
Ú pelo contrário. O convite para conhecer Gramado nos entusiasma bastante.
Logo cedo, enquanto Li fazia uma rápida faxina no apartamento, Paulo e eu
fomos à rodoviária para comprar as passagens.
Nossa intenção era pegar o último ônibus da tarde para chegar em Porto Alegre à noite.
Fomos conversando pelo caminho sobre a maravilhosa férias que tivéramos e o
quanto a Ana perdera por não ter aceito o convite.
Chegando ao guichê, dei dinheiro a Paulo para que ele comprasse a minha passagem.
—Quero três pra Porto Alegre.
—Pois não, são cinqüenta e nove com dez.
—Como é? Pergunta Paulo sem entender a conjugação numeral.
—Cinqüenta e nove com dez. Repete a vendedora.
Paulo fazia aquilo de pirraça, ele conhecia as diferenças regionais, mas não
achava a lógica.
—Cinqüenta e nove com dez dá sessenta e nove. Argumentava ele.

Usei a
câmera do
Paulo para
tirar algumas
fotos com dia
mais claro

Ficamos fazendo troça da história e logo me lembrei:
—Tenho que anotar isso no meu resumo, isso se eu não esquecer até chegarmos ao apê.
—Então vamos registrar já.
Paulo regulou a máquina para o modo filme e passou para as minhas mãos.
—Tá legal, eu filmo você perguntando quanto é a passagem e respondo, imitan-
do a moça.
Aperto o botão e espero ele dizer:
—Quanto é?
—Cinqüenta e nove com dez.
—Como?
—Cinqüenta e nove com dez.
Aperto novamente o botão e devolvo a máquina.

CAPÃO DA CANOA 119
Paulo resolve olhar a gravação para ver se ficou bom, mas nela só apareciam
nossos pés enquanto ríamos da encenação.
Eu apertara o botão errado da primeira vez.
—Deixa quieto, você acha que eu vou esquecer disso?
Olhando para o chão no caminho de volta, catei algo brilhante e dourado, mas
era apenas um pedacinho de plástico desprendido de algum brinquedo. Atirei-o
de volta pensando:
—Um dia ainda acho algo valioso.
Na praia, eu já tinha me despedido das águas, não queria entrar novamente.
Tudo que eu queria era fazer mais algumas fotos, agora em plena luz do dia.
Minha máquina tinha ficado no apê para carregar a bateria, então peguei a
Finepix do Paulo emprestada.
Um tom de azul esverdeado e espumas muito brancas eram um convite ao deleite visual.
Estava fotografando o mar vazio e já tinha feito quatro disparos, quando giro para o
lado e noto que uma moça magra – coisa rara nessa praia – vinha passando por mim.

As cores
nesse
horário são
completamente
diferentes

Fiz um enquadramento rápido e disparei.
A moça passou ligeiro fingindo me ignorar. Caminhava por dentro d’água com
uma bolsa de pano levantada à altura do ombro para não molhar.
Girei o corpo noutra direção e continuei a tirar fotos da arrebentação das ondas.
Queria pegar o momento em que ela se eleva ao máximo, formando uma peque-
na crista antes de quebrar.
Mal tinha tirado mais três fotos, quando olho para o lado e vejo a mesma
moça caminhando na direção oposta. Passou bem perto, como se quisesse ser
fotografada novamente.
A provocação não ficou sem resposta, mas desta vez fotografei-a de costas para
completar o quadro.

120 SOPINHA DE TUDO
Olha o
passarinho!

De novo!

Com mais
luz fica mais
fácil congelar
o movimento

CAPÃO DA CANOA 121
Um raro
momento em
que ambos
estão sentados

Com a luz
correta as
fotos ficam
muito boas

Faço um novo
enquadramento
para não ficar
repetitivo

122 SOPINHA DE TUDO
Mais algumas fotos e voltei para o nosso guarda-sol e, ao me aproximar, ouço
Paulo comentado alto para que eu pudesse ouvir:
—Aposto que ele esgotou a memória da minha máquina.
Mostro as fotos que tirei e já aviso a Eliane que não apague as fotos da moça,
pois eu que havia tirado.
Paulo pede que eu tire algumas fotos caprichadas de Li.
Deitada na areia e a contra-luz, Eliane faz algumas poses, mas as fotos ficam
escuras demais.
Eu não sabia onde ligar o flash forçado, então pedi que eles me acompanhassem
até perto da água e com uma posição mais favorável da luz refiz a sessão.
Na última pose, Li pede que eu a fotografe de costas, mas a areia agarrada à
pele foi motivo para Paulo fazer algumas piadinhas.
—Coxa à milanesa? dizia ele rindo muito.
O tempo passava lento e gostoso, não havia pressa pra sair da praia.

Cuidado com
os exageros!
Lembra do
que aconteceu
com a
Cicarelli?

Perto de onde estávamos um ambulante fazia uma oferta irrecusável a um se-
nhor idoso e aparentemente rico.
—Cento e cinqüenta, é minha última oferta, é pegar ou largar.
Ele tentava vender uma linda rede amarela, semelhante à que Paulo comprara no
primeiro dia. Aproximei-me para examinar melhor o produto e mostrei que estava
interessado, porém o preço teria que ser negociado.
—Meu amigo aqui pagou quarenta numa verde linda com barrado em diagonal,
você sabe de qual tipo eu estou falando. Não sabe? Pois é o que eu ofereço.
Quarenta reais, se você me fizer por esse preço eu fico.
Vendedor astuto. Avalia-me da cabeça aos pés e jogando a rede em meu colo
disse em tom de desafio:
—E se eu aceitar teus quarenta, que tu faz?

CAPÃO DA CANOA 123
—Eu aceito, respondi prontamente sem dar chance dele desistir da oferta.
Já era o quinto produto volumoso que eu teria que transportar ao voltar para Bauru.
—Não conta pro senhor aí ao lado o preço que tu pagou, tá?
E saiu empurrando seu carrinho de três rodas, empilhado até as tampas com
mantas e redes.
Tomaz, o garçom do quiosque da vó Neide, o de número 16, veio nos oferecer
seus préstimos. Desta vez, como a praia se encontrasse com poucos clientes, se
demora mais na conversa fiada. Conta-nos que seu ex-patrão era bauruense, e
curioso por causa do comprimento dos meus cabelos pergunta:
—O senhor é estilista?
Conto-lhe um pouco sobre mim e ele fica meio surpreso. Como será que ele me via?
É engraçado como algumas pessoas têm uma visão estereotipada de tudo. Atribu-
em valores para a aparência e não para a essência, depois ficam surpresos
quando o arquétipo não corresponde.

Vó Neide e
Tomaz, o
garçon de
praia

Aproveitamos a praia até o toco do osso, íamos almoçar fora e depois fazer cera
até as 19 horas. Minha preocupação me leva a uma decisão crucial, eu não
conseguiria enfiar todas as coisas que comprei na mala, que já estava bastante
pesada. Eu teria que comprar um carrinho para aliviar o peso na coluna.
Acreditando que nas pequenas lojas da proximidade encontraria um do tipo
desmontável, avisei a Paulo que enquanto eles tomassem banho, eu faria isso e
logo retornaria para almoçarmos juntos.
A busca pelo tal carrinho levou-me a quilômetros de distância pelo centro da
cidade, tudo que eu consegui encontrar foi uma daquelas sacolas enormes de
fibra plástica e zíper.

124 SOPINHA DE TUDO
Voltei preocupado, sabendo que eles não esperariam todo aquele tempo. Subi
ao apartamento, procurando por algum bilhete que indicasse onde estavam.
Nada de bilhete.
Desci e fui ao bar mais próximo para fazer um lanche sozinho. Conversando com
o dono do bar, descubro que na esquina, em direção oposta a que eu escolhera
antes, havia o tal carrinho para vender.
Toda a economia que eu fizera na compra das mantas e redes ia agora na
compra daquele carrinho. Tive que pagar quarenta reais por um modelo que no
comércio em São Paulo custa somente dezoito reais. Eu só conseguia pensar no
alívio de peso extra que ele proporcionaria.
Retornei ao prédio quase ao mesmo tempo que eles. Percebendo que eu perdera
a noção do tempo em minha empreitada, trouxeram-me um delicioso pedaço de
torta que eu devorei vorazmente.
Já não importava mais, até a cadeira de praia eu resolvera levar comigo.
—O que você vai fazer com uma cadeira de praia em Bauru?

Paulo me
fotografa
pronto para
pegar uma
onda

—Onde nós vamos enfiar essa cadeira no carro?
Perguntavam indignados.
A estrutura da cadeira permitiria dar maior firmeza ao conjunto, mas com o quê
amarrar tudo ao carrinho?
Voltei à loja e comprei dois elásticos com ganchos, próprios para essa finalidade.
Minha bagagem estava pronta, bem amarrada e eu estava tranqüilo por saber
que havia solucionado meu problema.
As camisetas que eu deixei para lavar, um dia antes da partida, ainda estavam
úmidas. Então, foram colocadas em um saco plástico dentro da mala. A muda da
avelã eu mantive na areia no mesmo balaio feito de caixa de leite e só escorri o
excesso de água. No ônibus eu o colocaria no chão junto aos pés.

CAPÃO DA CANOA 125
Eu não conseguia me tranqüilizar. Enquanto Paulo e Li tiravam um cochilo,
minha ansiedade aumentava.
Fumei um cigarro sentado à varanda, mais um e mais um. Meus pés
estavam inchados e eu me deitei no sofá da sala para aliviar a pressão e
a sensação de peso.
Não se passou muito tempo e já estávamos de partida.
Cada qual arrastando sua mala e se virando com as bagagens de mão.
Sobre a calçada irregular a mala de Eliane se desequilibrava a todo ins-
tante, por causa da distância muito pequena entre as rodinhas. Então re-
solvemos andar pela rua, próximos ao meio fio.
Sem problemas! Fora da temporada as ruas estão vazias, sem tráfego.
A grande sacola, com a rede e as mantas compradas por eles, não se
estabilizava sobre a mala e Li parava a todo instante para reequilibrá-la.
Sobre o meu carrinho, amarrado com os elásticos, coloquei toda a baga-
gem mais pesada, mas o notebook continuava a tiracolo.

A muda de
avelã que o
Sr Ataíde
nos deu

O carrinho não era suficientemente grande para suportar todo o volume.
Ao chegarmos no pátio da rodoviária, olho para o chão e vejo um
pequeno anel.
—Opa! Achei alguma coisa.
Agachei, peguei o anel e o coloquei no dedo mínimo.
Mostrei-o a Li que exclamou:
—Está todo riscado na lateral!
—Alguém deve ter pisado nele, mas é bonitinho, disse eu meio melindrado.
E voltei a pô-lo no dedo.
Quando na volta para Bauru passamos numa loja de bijuterias na 25 de março
em São Paulo, vimos o mesmo modelo de anel por 30 centavos a dúzia.

126 SOPINHA DE TUDO
O motorista enfiou minhas coisas no bagageiro com a tradicional delicadeza que
lhes é peculiar.
Tomamos nossos acentos no ônibus e deixamos Capão da Canoa. Estávamos
felizes porque tivéramos a oportunidade de desfrutar todos os dias daquela
praia encantadora.
Minha cadeira era junto à janela, do mesmo lado que a do motorista, no meio do
ônibus e atrás do Paulo.
Exatamente atrás de mim, sentou-se um sujeito resfriado que tossia e chupava o
nariz incessantemente.
Ao meu lado, um sujeito troncudo não dava espaço para que eu apoiasse os braços.
Toda vez que eu tentava reclinar o encosto sentia respingos de saliva do sujeito
gripado, que parecia tossir propositalmente mais forte.
Punha o encosto outra vez na vertical e já me sentia espremido e sem conforto.
—Pessoas gripadas deviam sentar-se em lugares especiais, de preferência atrás
do motorista que tem um vidro a protegê-los, pensava eu indignado.
Com o boné, que não saía mais da cabeça, onde quer que eu fosse, cobri o rosto
o quanto pude e viajei por mais de meia hora com o banco parcialmente reclina-
do. Foi quando eu descobri aliviado que, ao dormir, o sujeito da gripe não tossia
mais. Reclinei meu banco e dormi tranqüilo o resto do caminho até Porto Alegre.
Chegando lá pegamos um táxi. O motorista corria tanto e se mantinha tão colado ao
carro da frente, que o nosso pensamento – meu, de Paulo e de Li – se tornaram um só:
—Dá menos medo andar de avião do que andar com esse maluco, dirigindo assim.
Chegamos rapidamente no nosso destino. Ao tirar minha bagagem do porta-
malas, meio descomposta pelo movimento todo que veio sofrendo, a mala se
desconjunta do resto do carrinho e não consigo mais prendê-la na mesma posi-
ção. Empurro o carrinho com uma das mãos e puxo a mala com a outra.
Tivemos que dividir a carga para pegar o elevador. Subi na frente com uma parte
da carga e Neci já nos esperava à porta de seu apartamento.
Ajudou-me arrastando parte da bagagem e voltou ao elevador para receber Pau-
lo e Li, que subiram logo atrás.
Após o banho, Neci nos ofereceu uma gostosa sopinha de tudo.
Sopa de tudo é aquela que tem um pouco de cada coisa e não se pode identificar
um ingrediente que predomine. Era uma sopa deliciosa, feita anteriormente e
conservada no freezer, sem nenhum tempero forte que pudesse comprometer a
saúde da tia Maria.
Enquanto a sopa esquentava, sentamo-nos em volta da mesa na pequena cozi-
nha e ficamos conversando.
Sem nos conhecer direito, a garotinha Vitória e seu irmãozinho nos olhavam
sorrateiramente. Ele, meio cansado das artes do dia, foi logo se deitar no sofá em
frente à tv e adormeceu.
Vitória, a sobrinha de Neci, sentido seu espaço ser invadido, sentou-se irritada no meio
da cozinha com seu porta-trecos repletos de pequenos brinquedos e não se movia.
—Olha! Obedece a dinda, senão não vem mais, dizia Neci à pequena garotinha.

CAPÃO DA CANOA 127
—Você não quer sentar aqui com o tio, perguntei tentando convencê-la a sair do
chão e desimpedir a passagem.
Ela acenou com a cabeça, dizendo que não.
—Eu te dou um anel, você quer?
Ela novamente acena que não.
Paulo não perde tempo, e me zomba:
—A menina é esperta, ela sabe o valor dessa coisa.
Fui ligar o notebook para descarregar as fotos da máquina de Paulo e mostrá-las
a nossa anfitriã.
Vitória, curiosa como qualquer criança esperta, queria mexer no teclado. Ensinei-
a como apertar o botão do mouse para alternar entre as fotos. A partir de então
ela não dava mais trégua, bastava eu ligar o computador e lá estava ela, estican-
do o dedinho para apertar o botão que eu mandasse.
A sopa ficou pronta. Logo de cara, já percebo algo diferente de todas a sopas
que conhecia. Rodelas de milho verde, cortadas com sabugo eram servidas junta-
mente com o resto.
Não estavam ali apenas para enfeitar, devíamos pegá-las com as mãos, pois com
a colher não era possível.
Nada comum é o que fazíamos depois. Sem lavanda ou guardanapo, chupáva-
mos os dedos como crianças, sem ninguém a julgar nossos modos ou ensinar
regras de etiqueta.
Contei-lhes, de forma breve, uma história passada por minha mãe sobre a sopa
de pedra. Na história, dois pobres, famintos, porém sábios, colocavam numa
panela com água a ferver uma pedra bem lavada de tamanho médio. A todo
curioso que passava, diziam estar fazendo a sopa de pedra e que seria bem-
vindo se quisesse ficar para participar da ceia.
Ninguém que parasse deixava de contribuir com algum produto para enriquecer
tal caldo absurdo.
Ao final, reunidos a mais seis ou sete curiosos, retiravam a pedra e saciavam a
fome com uma suculenta “sopa de pedra”.
Nunca vira, entretanto, uma sopa que nos fazia lamber os beiços e chupar os
dedos como aquela.

128 SOPINHA DE TUDO
20h28 do dia 27/03/2003
Estou pasmo com o tamanho do texto, já estou a onze
dias em Bauru e não consegui terminá-lo. Minha irmã
acabou de ligar reclamando a falta de notícias

VII
Gramado e Canela
de Lambuja

CAPÃO DA CANOA 129
dia amanheceu depois de mim, eu já o aguardava de máquina em punho
O para registrar seus primeiros sinais.
Aos poucos as outras pessoas da casa foram se levantando, tínhamos um longo
passeio e devíamos sair cedo para aproveitá-lo bem.
Sete e meia da manhã e estávamos no carro prontos para o passeio. Eu e Neci
no banco de trás, Eliane dirigindo e Paulo fotografando tudo que podia.
Preparei minha máquina para registrar uma eventual mudança de cenário na
paisagem da estrada, mas tudo que consegui perceber foi um enorme número
de fábricas instaladas ao longo da rodovia.
—Isso se parece com uma cidade que meu filho construiu no SimCity – um jogo
de computador – era uma longa rodovia ladeada por indústrias de todo tipo.
Longa mesmo, não chegávamos nunca e o espaço que eu tinha para mexer as
pernas no banco traseiro do Pólo não era suficiente para aliviar a tensão, que o
banco provocava em meu joelho. Se existe algum estudo de ergonomia para
esse carro devem ter usado crianças como modelo.

Cervejaria
Skol na
estrada para
Gramado

Eu não queria pedir que parassem o carro para eu dar uma esticada na perna,
para não perceberem o meu desconforto no banco de trás. Massageava a per-
na na tentativa de amenizar a dor e observava o tempo de estrada que ainda
tínhamos pela frente.
Foi um alívio chegarmos ao posto de gasolina onde Eliane parou para usar o
banheiro. Os banheiros eram trancados e devíamos pegar a chave no caixa. A
curiosidade do posto, além do jardim todo florido, era o tamanho da placa
pendurada à chave para que nenhum incauto esquecesse de devolvê-la ao sair.
Eliane queria conversar com Neci, então passou para o banco de trás e cedeu
a Paulo seu lugar ao volante.
—Vá no banco da frente, disse Eliane.
Foi a frase mais reconfortante do dia.

CAPÃO DA CANOA 131
Neci queria nos mostrar o Parque da Ferradura, mas paramos ainda na cidade
num belvedere ao lado do hotel Toscana, de onde podíamos visualizar a grande-
za do cenário montanhoso que teríamos para desfrutar.
Comecei a fotografar avidamente e Li recomendou que tomássemos cuidado ou
ficaríamos sem espaço para o que tinha por vir.
Seguimos até o Parque do Caracol e Neci se informou sobre a distância até o
Parque da Ferradura. Eram mais sete quilômetros de estrada de terra e pedriscos.
Uma estrada rústica como aquela era o prenúncio do que teríamos pela frente,
comecei a temer pelo que viria.
—A Ana ia se sentir muito bem aqui, estradas e trilhas em terreno acidentado,
pensei em silêncio.
Comecei a puxar o fôlego, pois sabia que ia precisar de muito ar para um pas-
seio daquele tipo. Tão diferente da praia, plana, tranqüila...
Chegamos à portaria. Sete reais por pessoa, quatro reais para crianças e pesso-
as com mais de sessenta e cinco.

Canteiro
florido no
posto de
gasolina

—Alguém no carro tem mais de sessenta e cinco? pergunta Neci sugerindo uma piada.
—Alguém com essa idade devia receber para fazer um passeio desses,
pensei em silêncio.
Não que eu achasse o passeio desinteressante, mas sou meio avesso a esforços desne-
cessários. Por mim deveria ser tudo mecanizado com escadas rolantes e elevadores.
Deixamos o carro no estacionamento e começamos a explorar o lugar. Trilha
do...tantos minutos, trilha da...tantos minutos. Faríamos a menor delas, pois ain-
da havia outros passeios planejados.
Degraus irregulares, alguns altos demais até para mim que sou relativamente alto.
Imaginava quando a Neci começaria a pedir ajuda. Mas ela se virou muito bem.

132 GRAMADO E CANELA DE LAMBUJA
Vista da
paisagem em
um belvedere
de Gramado

Hotel Toscana
ao lado do
belvedere em
Gramado

Arquitetura de
Gramado chama
a atenção do
visitante

CAPÃO DA CANOA 133
Plataforma
de observação
no Parque da
Ferradura

Enorme paredão
de rocha ao lado
da plataforma

Trilhas rústicas,
sem conservação
e degraus muito
irregulares

134 GRAMADO E CANELA DE LAMBUJA
Mais alguns metros e chegávamos a uma plataforma de madeira, um mirante de boas
dimensões de onde podíamos ver todo o contorno do rio em forma de ferradura e que
dá nome ao lugar.
Tiramos várias fotos, mas nenhuma das máquinas tinha abrangência suficiente para
fotografar todo o percurso do rio em uma única imagem. Nem me lembrei que poderia
emendar duas ou três em um programa gráfico.
—Vamos? sugeriu Neci.
—Agora é que a coisa pega, pensei.
Começamos a escalada com coragem e determinação. Lembrei do filme limite vertical...
No meio do caminho Paulo nota uma ponta de ferro fincada na terra, resto da estrutura
que segurava um degrau e comenta conosco.
—Temos que avisar alguém sobre essa ponta de ferro, disse eu preocupado que alguém
pudesse espetar o pé.
—Avisar a quem? pergunta Li.
—Ao porteiro.

Fiquei
imaginando se
Neci conseguiria
subir sem ajuda

—E como vamos indicar a posição exata? pergunta Paulo.
—Não faço idéia.
Estávamos quase atingindo o cume, com a respiração ofegante e a camiseta ensopada,
quando alguém solta:
—Fuma, desgraçado!
Imediatamente retruquei:
—E isso por que eu fumo Dallas suave. Imagina se fosse do comum?
Exageros à parte, o lugar é lindo, mas o preço do ingresso é exageradamente alto para
a estrutura que apresenta. Voltamos para o carro, pois não havia mais nada para ver-
mos ou fotografarmos ali.

CAPÃO DA CANOA 135
—Agora vamos ao Parque do Caracol, vocês vão conhecer a cachoeira véu de
noiva, disse Neci.
Eu só conseguia pensar em quando iríamos comprar os famosos e consagrados
chocolates de Gramado.
—Você não queria tirar uma foto do portal? pergunta Paulo ao deixarmos o local.
Levantei a máquina através do teto solar e disparei de costas para o mesmo.
Examino e vejo que a foto ficou torta com o horizonte inclinado, mas depois eu
acertaria no Photoshop.
—Vamos embora, disse eu sem ânimo para outra tentativa.
Chegamos ao segundo Parque. Neci gentilmente, como fizera no parque anteri-
or, pagou os quatro ingressos. Eu já não temia tanto, pois a estrutura desse era
bem melhor. Tinha até elevador e teleférico. Oito reais por pessoa, mas tudo lá
dentro era cobrado.
—Que exploração! Paga para entrar, paga para andar. É por isso que vem tão
pouca gente assim, pensei.

Entrada
do Parque da
Ferradura

Sobrava-nos novamente a opção das trilhas, e lá fomos nós.
Dessa vez, no entanto, a decida era suave e os degraus bem dimensionados e regulares.
Chegamos em um entroncamento com duas opções, ou continuávamos a decida
mais suave até o topo da cascata, ou teríamos que descer 927 degraus equiva-
lentes a um prédio de 49 andares, num desnível aproximado de 160 metros para
atingir a base. Em um painel o texto em vermelho alertava:
* Não recomendado para cardíacos, asmáticos, hipertensos, diabéticos, sedentários;...
Em letras pretas e vermelhas dizia não ser permitido descer após as 16h30min.
Que dúvida!
—Alguém vai querer descer? perguntei com ironia.
Ninguém respondeu.

136 GRAMADO E CANELA DE LAMBUJA
Portada do
Parque do
Caracol, foto
da vista
interna

Painel de
orientação aos
visitantes sobre
a condulta e os
horários a
observar

Cascata
Véu de Noiva
no Parque do
Caracol

CAPÃO DA CANOA 137
Caminhamos
até alcançar
o leito do rio
no alto da
cachoeira

Paulo pede
para ser
fotografado
ao lado do
esqueleto

O trenzinho
dos anões no
Parque do
Caracol

138 GRAMADO E CANELA DE LAMBUJA
Fomos descendo a trilha mais suave e fotografando a cascata de vários ângulos, à
medida que nos aproximávamos. Dessa vez Neci exausta e com medo de um retorno
puxado decidiu parar no meio do caminho. Ficou aguardando que retornássemos
com a língua de fora. Mas se enganou redondamente. A subida foi tão tranqüila
quanto a descida. Bem, nem tanto. Mas também não foi nenhum pesadelo.
Dentro do parque havia um lugar muito atraente para crianças chamado Cidade
Fantasma do Velho Oeste, onde o ingresso dava direito a uma volta no trenzinho.
Na entrada a recepcionar os visitantes uma caveira vestida com uniforme de
soldado americano ficava recostada em um canhão com rodas. Não sei o que o
velho oeste americano tem a ver com um parque nacional no Rio Grande do Sul,
mas a caveira era muito engraçada e Paulo quis tirar uma foto ao seu lado. Mais
adiante tiramos fotos ao lado de um mini trem transportando anões.
Mais duas fotos e pronto, tinha esgotado toda memória da minha máquina.
—Não foi por falta de aviso, disse Li sorrindo.

Comprando
chocolate em
Gramado

Ela e Paulo ainda tinham memória para muitas fotos, então fiquei despreocupado
porque, o resto da nossa viagem não ficaria sem registro.
O parque era servido também de algumas lojas com artigos de recordação.
Enquanto Paulo e Li compravam alguns imãs de geladeira e outras pequenas
lembranças, entrei em uma loja de chocolates e perguntei o preço de alguns. Não
comprei nada, iríamos a uma loja em Gramado cujos preços eram a metade dos
praticados ali.
Finalmente, em Gramado paramos na loja dos sonhos de qualquer chocólatra.
Repleta de barras, bombons e outros formatos de confeitos daquela matéria-prima.
Aquela, sim, representava uma boa lembrança de quem estivera em Gramado.

CAPÃO DA CANOA 139
Preparei uma caixinha de barras variadas para a esposa, um pacote de bombons
para quem aparecesse em casa e três pacotinhos de chocolates com flocos de
arroz para os filhos e o genro.
—Dever cumprido! Visitei Gramado e estou levando a prova do crime comigo,
pensei eu apressadamente.
—Agora vocês são meus convidados para um café colonial no Bela Vista,
disse Neci gesticulando de um jeito faceiro, próprio de pessoas felizes e de
bem com a vida.
Paramos o carro do outro lado da rua, lugar sombreado em frente a uma loja de
calçados, pois senão os chocolates estariam todos derretidos quando voltássemos.
Neci sugeriu que entrássemos na loja para tentar disfarçar, afinal estávamos
parando em vagas particulares da loja em questão. Senti que não fosse
necessário entrarmos em bando e atravessei a rua aguardando do outro lado.
Esqueci-me de como o gênero humano se distrai vendo coisa para comprar,

Café Colonial
no Bela Vista
em Gramado

mesmo não tendo a intenção imediata em fazê-lo. Passaram-se alguns bons
minutos até que saíssem de lá.
O ambiente formal e sóbrio do café Bela Vista era um convite a uma postura
cerimoniosa. Até Paulo que é sempre efusivo se comportava de maneira mais
calma e comportada, até o momento em que começam a nos servir. A quantida-
de, variedade e aparência da comida eram absurdamente ricas. Não sabíamos
por onde começar, ora doce ora salgado, ora assado, ora grelhado, era tudo
saborosamente degustado.
Elogiávamos e comentávamos o sabor de cada prato até que Eliane lembrou:
—Reservaram um lugar para a torta?
Recostada na parede bem a minha frente um enorme balcão refrigerado oferecia
a mais variada quantidade de tortas doces que eu já vira em um restaurante.

140 GRAMADO E CANELA DE LAMBUJA
Exagero e
gula juntos
no mesmo
lugar

Neci se diz
cansada e
deita-se para
um cochilo no
gramado do
Parque

Parque do
Lago Negro
em Gramado

CAPÃO DA CANOA 141
Passeio pela
trilha em volta
do Lago Negro

Gruta com
imagens e
nascente
d’água no
Lago Negro

Mini Mundo
O sonho e
a fantasia
de adultos
e crianças

142 GRAMADO E CANELA DE LAMBUJA
Fomos todos nos servir, Neci foi a última e mereceu um comentário.
—E se ela quiser pegar um pedaço na prateleira mais alta, não tem ninguém
para ajudá-la?
Neci demonstrou ser perfeitamente capaz de se virar sozinha, se equilibrando na
ponta dos pés e com os braços totalmente esticados para cima, foi exatamente da
última prateleira que habilmente retirou um pedaço de torta.
Arrematando o delicioso café e para ajudar na digestão de tantos produtos, cada
qual pede um tipo de chá. Acostumado ao sabor do chimarrão, pela primeira vez
consigo tomar o meu, de maçã, sem usar açúcar.
Saímos dali celebrando o pecado da gula, mais uma injustiça social num país de
tantos pecados. Mas o passeio ainda não terminara. Iríamos agora conhecer o
Lago Negro, até que enfim um parque com entrada franca.
Formado por um enorme espelho d’água, de uma composição lodosa, o lago era
rodeado por uma trilha plana de pedriscos bem compactados e ornamentado
com farta quantidade de hortênsias em ambos os lados.

Eliane atira
uma moeda
no Poço dos
Desejos

Ao entrarmos no parque Neci se deitou no gramado viçoso dizendo:
—Estou cansada, vou dormir um pouquinho.
Pura onda. Foi logo fotografada e se levantou em seguida.
Fizemos todo trajeto andando sem pressa e parando para fotografias de quando
em quando. Ao final do trajeto chegamos em uma mina d’água onde três ima-
gens disputavam espaço numa pequena gruta.
—Minha santinha, se eu perder essa barriga volto aqui ano que vem trazendo
uma vela do meu tamanho.
—Nós ouvimos isso! disse Paulo rindo muito.

CAPÃO DA CANOA 143
Do jeito que sou sedentário só mesmo no Photoshop ou na base do milagre pode-
ria resolver meu problema.
Pensei que voltaríamos para casa, mas Li sugere um novo passeio. Queria rever o mini
mundo, um parque temático com réplicas em miniatura de várias edificações mundiais.
Eu já havia visto em fotos o tal parque e não me agradava em nada a forma como
se apresentava. Embora as réplicas fossem bem feitas e guardassem boa propor-
ção entre si, o resultado como um todo era catastrófico. Miniaturas de ferrovias,
praias com banhistas e brinquedos de plástico dividiam o espaço tentando com-
por um universo ficcional. Não sei dizer se é preconceito de minha parte, mas
tem certas coisas que não engulo com facilidade e uma delas é a do tipo que
ludibria o sentimento lúdico para oferecer soluções de gosto duvidoso. Parece
que a educação estética fugiu do nosso país.
—Não é um encanto esse parque? pergunta-me Li entusiasmada.
—Acho que deve agradar a muitas crianças, respondo sem muita cerimônia.
—Crianças e adultos, contesta Li sem conhecer mais amiúde meu ponto de vista.

Vitória clic-clic
está pronta para
usar o mouse do
notebook

Não importava muito, na oportunidade adequada eu me explicaria.
Retornamos a Porto Alegre. O transtorno com o joelho se repetiu, mas agora eu
sabia por quanto tempo eu teria de suportá-lo.
Vitória clic-clic aguardava ansiosa por nosso retorno. No elevador do prédio Neci
recomendou que não deixássemos a menina perceber que trazíamos chocolate.
Enquanto tomavam banho, liguei o notebook para transferir o conteúdo das máquinas.
Li planejara uma visita a sua prima Marli e ao sair do banho pediu que eu me
apressasse. Respondi que embora estivesse agradecido de conhecer seus paren-
tes, me encontrava cansado demais para ir a qualquer outro lugar naquele dia.

144 GRAMADO E CANELA DE LAMBUJA
Não tivesse meu joelho doído tanto naquele banco traseiro, eu teria ido com
muito prazer.
Aproveitei quando Vitória saiu para passear com eles e fui examinar meu chocolate.
Tinham sido embalados em plástico bolha para evitar o calor, porém, os que não
tinham unidades embaladas individualmente fundiram-se todos num único bloco.
—Paciência! Devem estar gostosos do mesmo jeito, pensei.
Neci, que não tinha ido com eles, perguntou se eu aceitaria um prato da sopa.
—Nossa, eu adorei aquela de ontem!
—Pois é aquela mesmo, eu mantenho porções congeladas no freezer.
Enquanto esquentava a sopa, aproveitei para tomar banho, vesti uma roupa mais
confortável e já estava terminando de tomar a sopa quando eles retornaram.
Vitória ansiosa por mexer no PC não saía de perto, vendo que não lhe dávamos
bola, aprontou um bico e correu para o colo da dinda com cara de choro.
Percebendo a razão por que ela estaria chorando, me aproximei perguntando:
—Quer que eu ponha um joguinho pra você brincar no computador?
A manha cessou como por encanto. Levantou-se do colo e foi me puxando pela
mão até o notebook.
Liguei o jogo Pinball do Windows, em menos de cinco minutos ela já estava
sabendo como jogar e até como reiniciar o jogo. Mostrei a ela como desligar o
equipamento apenas baixando a tampa. O mais difícil foi Neci convencê-la do
horário de ir para cama, pois eu já tinha ido.

CAPÃO DA CANOA 145
13h41 do dia 28/03/2007
Sinto que poderia me alongar contando as histórias
e inserindo detalhes indefinidamente. Mas não me parece
sensato fazê-lo, pois o primeiro objetivo desse trabalho
era passar as informações aos amigos

XVIII
Adeus Porto Alegre

CAPÃO DA CANOA 147
ram cinco da manhã quando, já viciado pelo hábito, acordei procurando o
E botão da P10.
—Fotografias, aqui vamos nós.
Neci sugerira que eu fotografasse a vista do entorno, subindo aos terraços do
pavimento superior. Mostrou-me cada uma das varandas e disse que eu ficasse à
vontade para subir, ainda que o sobrinho estivesse dormindo no sofá-cama da
pequena saleta.
Sem acender as luzes, para não causar incômodo, fui pé ante pé ao começo da
escada. Descalço para não fazer ruído comecei a subir os degraus. De
repente...BAMMMM! Chutei sem querer o porta-treco que Vitória deixara no ter-
ceiro degrau. A caixa foi ao chão provocando um forte barulho.
Não havia o que fazer.
Continuei subindo, tomando o cuidado de não esbarrar em mais nada que pudes-
se despencar lá de cima.

Mal o sol
começa a
nascer e eu já
registro seus
primeiros
sinais

A cama do jovem sobrinho tomava quase toda a extensão em frente da porta que
dava acesso à varanda e, aos pés dela, uma cadeira empilhada de roupas termi-
nava impedindo completamente a passagem.
Decidi por tirar fotos da varanda lateral passando por um quarto tempora-
riamente desocupado.
Ao empurrar a porta provoquei um novo barulho, pois a dita cuja estava meio
emperrada enroscando no batente. Saí rapidamente pela porta da varanda e
enquanto ajustava a máquina para as primeiras fotos, ouvi alguém indo ao ba-

CAPÃO DA CANOA 149
nheiro do andar em que eu me encontrava. Provavelmente acordara o sobrinho
que voltou em seguida para a cama.
De onde eu estava não tinha visão do sol nascente. Pensei em voltar para o
quarto onde tinha dormido, pois de lá teria a visão desejada. Saí da varanda
voltando pelo quarto e deparei com a porta deste fechada novamente. Sabia que
ao tentar abri-la provocaria um novo barulho.
—Bem, lá vai! E...VRUMMM!!!!
O jovem se sentou assustado olhando para mim.
—Bom dia! Desculpe por ter te acordado, a Neci pediu que eu tirasse fotos do
nascer do sol aí da varada. Eu não queria te incomodar, mas já que você acor-
dou, será que eu posso passar por aqui?
E afastando a cadeira com roupas cheguei enfim ao lugar que queria.
Tirei várias fotos e ao entrar o rapaz dormia profundamente.
Passei pelos pés da cama tomando cuidado para não incomodá-lo mais.

As luzes da
cidade se apagam
a medida que o
céu se ilumina

O almoço desse dia seria na casa da irmã de Li. Não vou me alongar entrando
em detalhes desnecessários.
Karina, a irmã querida, era vizinha das tias Lina e Edena. Recebeu-nos calorosa-
mente e tratou de fazer perceber logo que não era pessoa de cerimônias. Enquan-
to entrávamos na casa, lembro-me de Li dizendo:
—Hoje viemos filar bóia na sua casa.
—É só você me ajudar com a comida, respondeu Karina.
De repente sinto minhas pernas serem abraçadas. Olho para baixo e um toquinho
de gente, para quem eu mal dera atenção, estava me dando boas vindas.

150 ADEUS PORTO ALEGRE
Logo o
céu parece
incendiar, de
tão intensa a
sua cor

A pequena
Bruna e um
sorriso maroto

Li e Karina
preparando
o almoço

CAPÃO DA CANOA 151
Depois do
almoço a
soneca era
sagrada

Amanhece em
Porto Alegre, dia
de voltar para
casa em Bauru

No aeroporto,
meu carrinho é
devidamente
embalado em
plástico

152 ADEUS PORTO ALEGRE
Agachei-me sensibilizado com o gesto amistoso da pequena Bruna e correspondi
ao cumprimento da forma correta que deveria ter feito a principio.
Mais tarde ouço as duas se falando na cozinha:
—Quem acreditaria que nos damos tão bem a ponto de fazermos o almoço
juntas. Quando éramos mais novas brigávamos como cães e gatos.
Enquanto preparavam o almoço atribuíram algumas tarefas a Paulo, que
correspondeu resignado.
Estendeu a roupa no varal, arrumou a mesa do almoço...
Logo após o almoço, Li e Karina foram levar Bruna à escola maternal, pois ela
havia perdido o horário da condução.
O calor era muito forte e acabamos todos tirando um gostoso cochilo sob a brisa
do ventilador.
Li havia se comprometido com Neci a devolver o carro até as cinco horas, mas
Karina e a tia Edena queriam comprar lembranças para suas duas filhas que
ficaram em Bauru. Foram conosco até o Carrefour e com Li orientando sobre

Mais uma
vez o avião
nos aguarda
no portão de
embarque

gostos e tamanhos, compraram tudo rapidamente. Despedimo-nos ali mesmo no
estacionamento. Chegamos no prédio exatamente no horário combinado.
Abrimos a porta do elevador e deparamos com Neci que já estava de saída com
alguém que lhe oferecera carona. Mais tarde saíram os três para comprar alguns
potes de nata, um creme de leite pasteurizado, com a consistência da nossa
margarina, sem sal e que só se encontra por lá. De sabor suave é excelente para
acompanhar cucas e roscas. Pedi a Li que comprasse três potes para mim. Era
mais um volume que se somava aos outros no caminho de volta.
Voltaram do supermercado trazendo os potes e outras coisas que não reparei.

CAPÃO DA CANOA 153
—Vamos ao banco retirar dinheiro? perguntei a Paulo, pois já eram 21h30 e
depois das 22 horas o caixa eletrônico não funciona.
Vitória, que já não desgrudava, percebendo que não iria, abriu um berreiro. Da
calçada se podia ouvir seus gritos no oitavo andar.
Aos quinze minutos do horário de encerramento a porta automática já não nos
deu acesso.
Ao voltarmos do banco de mãos abanando, a sopinha de tudo nos aguardava
pela terceira vez.
Acordamos bem cedo para o vôo que seria às oito horas.
Pela manhã não tivemos problemas para sacar o dinheiro necessário para pagar
os pedágios até Bauru.
A bagagem não cabia toda no porta-malas do Polo, então uma das malas foi
colocada no meio do banco traseiro.
Escondida atrás da mala, só se podia ouvir a voz de Neci orientando Li sobre o
caminho a tomar até o aeroporto.

Sobrevoamos
Santos por três
vezes antes de
pousar

Desta vez eu estava preparado para filmar a decolagem e a aterrissagem. O vôo
tranqüilo e rápido só me emocionou mais fortemente quando, antes da aterrissa-
gem, ficamos esperando uma vaga e sobrevoando a cidade de Santos.
A praia da minha infância estava ali, ao alcance dos meus olhos, tão próxima da
minha realidade e, no entanto tão distante no tempo.
Ao aterrissarmos em São Paulo, um sentimento nostálgico ainda me acompanhava.
O avião começou a taxiar quando ouço a aeromoça anunciar. O chocolate se
encontra na parte dianteira da aeronave. Vou pedindo passagem para não me
separar dos amigos no desembarque e enfrentando caras feias pelo corredor. O

154 ADEUS PORTO ALEGRE
comandante anuncia que a saída poderia ser feita também pelas portas traseiras
da aeronave e o grupo “rosnante” pelo qual eu passara se volta saindo por trás.
—Cadê o meu?
—O seu o quê, senhor?
—O meu chocolate, vocês não ofereceram chocolates de brinde?
Pedindo desculpas pelo mal entendido, ela explica que o chocolate pertencia a
alguém que houvera perdido ao entrar no avião.
Paulo e Li que me seguiam de perto saíram às gargalhadas debochando do meu mico.
E aqui termino a redação desse relatório, esperando que você tenha gostado
tanto quanto eu ao escrevê-lo.

18h10 do dia 28 de março de 2007

.

CAPÃO DA CANOA 155
Pós Texto

auru, 29 de junho de 2007
B Fazer este livro foi uma aventura à parte. Eu não imaginava que tivesse
disposição para fazê-lo de forma tão profissional e disciplinada. Ao convidar
meus amigos diletos, Betina e Valero, para participarem comigo dessa empreita-
da, sabia que não poderia deixar por menos. Afinal e sobretudo por serem meus
amigos, não poderia jamais faltar-lhes com devido respeito profissional.
A participação deles, fazendo a revisão do texto e o projeto gráfico, resultou em
algo que me deixou extremamente feliz e orgulhoso. Embora soubesse que meu
texto era muito pessoal e sem grande valor literário, senti que ele cresceu e ga-
nhou um significado especial. Virou um livro de verdade.
Não quero aqui expressar meu agradecimento apenas a estes dois, que evidente-
mente foram especiais, mas gostaria de agradecer também a todos que direta ou
indiretamente contribuíram para que esse projeto se tornasse possível. Aos meus
amigos Paulo e Eliane que tão gentilmente partilharam suas férias comigo, me
tratando como a um irmão e permitindo que eu fizesse uso de suas fotos, suas
histórias pessoais, enfim, a intimidade de suas vidas particulares.

CAPÃO DA CANOA 157
Aos parentes e amigos do Rio Grande do Sul, que nos acolheram com um carinho
e consideração dignos de elogios. Foi um grande prazer conhecê-los e espero
que eles não se sintam ofendidos com os comentários ou uso de suas imagens.
Espero que cada pessoa, a quem foi dada uma cópia dessa edição limitada,
possa entender o que ela significa para mim em termos de realização pessoal. É
com um enorme prazer que eu compartilho com todos vocês os momentos diverti-
dos dessa aventura que resolvi registrar e perpetuar para sempre.

Fábio Simões Grossi

158
Índice Fotográfico por Ordem de Apresentação

Identifique o autor pela inicial
E - Eliane Ap. do Canto Monteiro
F - Fábio Simões Grossi
P - Paulo Roberto Pires Maciel
pág . . . . . . . . . autor pág . . . . . . . . . autor pág . . . . . . . . . autor
07 . . . . . . . . . . . . . P 60 . . . . . . . . . . . . . F 111 . . . . . . . . . . . . F
09 . . . . . . . . . . . . . P 61 . . . . . . . . . . . . . F 113 . . . . . . . . . . . . F
10 . . . . . . . . . . . . . F 63 . . . . . . . . . P/F/P 114 . . . . . . . . . . . . F
13 . . . . . . . . . . . . . P 65 . . . . . . . . . . . . . P 115 . . . . . . . . . . . . F
17 . . . . . . . . . P/E/P 67 . . . . . . . . . . . . . P 117 . . . . . . . . . . . . F
19 . . . . . . . . . . . . . E 68 . . . . . . . . . . . . . P 119 . . . . . . . . . . . . F
21 . . . . . . . . . . . . . P 69 . . . . . . . . . . . . . P 120 . . . . . . . . . . . . F
22 . . . . . . . . . . . . . P 70 . . . . . . . . . . . F/F 121 . . . . . . . . F/F/F
23 . . . . . . . . . . . . . F 73 . . . . . . . . . . . . . F 122 . . . . . . . . F/F/F
25 . . . . . . . . . . . . . P 75 . . . . . . . . . . . . . E 123 . . . . . . . . . . . . F
27 . . . . . . . . . . . . . P 76 . . . . . . . . . . . . . E 124 . . . . . . . . . . . . P
29 . . . . . . . . . . . . . F 77 . . . . . . . . . F/F/F 125 . . . . . . . . . . . . P
31 . . . . . . . . . . . . . F 78 . . . . . . . . . F/F/F 126 . . . . . . . . . . . . P
32 . . . . . . . . . . . . . P 79 . . . . . . . . . . . . . P 129 . . . . . . . . . . . . F
33 . . . . . . . . . . . . . F 80 . . . . . . . . . . . . . E 131 . . . . . . . . . . . . F
34 . . . . . . . . . . . . . P 81 . . . . . . . . . . . F/F 132 . . . . . . . . . . . . F
35 . . . . . . . . . F/E/F 83 . . . . . . . . . . . . . P 133 . . . . . . . . F/F/F
36 . . . . . . . . . E/E/F 85 . . . . . . . . . . . . . E 134 . . . . . . . . F/F/P
37 . . . . . . . . . . . . . P 86 . . . . . . . . . . . . . P 135 . . . . . . . . . . . . P
39 . . . . . . . . . . . . . P 89 . . . . . . . . . . . . . F 136 . . . . . . . . . . . . F
41 . . . . . . . . . . . . . F 91 . . . . . . . . . . . . . F 137 . . . . . . . . E/P/F
42 . . . . . . . . . . . . . P 92 . . . . . . . . . . . . . F 138 . . . . . . . . F/F/P
43 . . . . . . . . . . . . . P 93 . . . . . . . . . F/F/F 139 . . . . . . . . . Neci
44 . . . . . . . . . . . . . p 94 . . . . . . . . . F/F/F 140 . . . . . . . . . . . . P
45 . . . . . . . . . . . . . F 95 . . . . . . . . . . . . . P 141 . . . . . . . . P/P/E
47 . . . . . . . . . . . . . E 96 . . . . . . . . . . . . . P 142 . . . . . . . . E/E/P
48 . . . . . . . . . . . . . F 97 . . . . . . . . . . . . . P 143 . . . . . . . . . . . . F
49 . . . . . . . . . . . . . F 98 . . . . . . . . . . . . . F 144 . . . . . . . . . . . . P
50 . . . . . . . . . . . . . F 99 . . . . . . . . . P/P/P 147 . . . . . . . . . . . . F
51 . . . . . . . . . . . . . F 100 . . . . . . . . P/P/P 149 . . . . . . . . . . . . F
53 . . . . . . . . . . . . . P 103 . . . . . . . . . . . . F 150 . . . . . . . . . . . . F
54 . . . . . . . . . . . . . F 105 . . . . . . . . . . . . F 151 . . . . . . . . F/P/F
55 . . . . . . . . . . . . . P 106 . . . . . . . . . . . . F 152 . . . . . . . . F/F/P
57 . . . . . . . . . . . . . E 107 . . . . . . . . F/F/P 153 . . . . . . . . . . . . F
59 . . . . . . . . . . . . . F 108 . . . . . . . . F/F/F 154 . . . . . . . . . . . . P

CAPÃO DA CANOA 159
D

Este livro, com 160 páginas, de autoria de Fábio Simões Grossi, foi escrito em
março de 2007. O texto foi revisado por Besma Massad (Betina) em maio do
mesmo ano. Seu projeto gráfico foi totalmente criado por José Luiz Valero Figueiredo,
inclusive o projeto da capa.
O texto foi composto em Futura Book, corpo 9, fonte desenhada por Paul Renner,
entre os anos de 1927 e 1928. Os títulos de abertura de capítulos foram compos-
tos em Bauer Bodoni, corpo 29, fonte criada em 1926 pelo tipógrafo Heinrich
Jost (1889-1949), para a Bauer. As legendas foram compostas em Bodoni BK BT,
corpo 8, criada em 1790 por Morris Fuller Benton e Giambattista Bodoni.
Os papéis usados foram: no miolo o Couché Lumimax, 115g/m² da Votorantim e na
capa o Triplex Art Premium, 250g/m² da Ripasa.
A impressão digital do miolo foi realizada em Julho de 2007, em uma DocuColor
250 da Xerox, na Gráfica e Editora sena. A impressão e o acabamento da
capa, com lombada costurada e capa colada, foram realizados pela gráfica
Avalon,Bauru,SP.

Obs. Este livro só poderá ser publicado comercialmente com a autorização
de todas as pessoas mensionadas ou identificadas por imagem fotográfica.