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CAPÃO DA CANOA 2

Capão da Canoa
Fábio Grossi

2007
CAPÃO DA CANOA 3

Prefácio
Era dia de eclipse total da Lua, dia claro, boa visibilidade, fiquei à
espreita. Parece que ninguém estava interessado em ver a sombra da
Terra ir encobrindo a Lua. Resolvi alertar todo mundo. Claro que não
podia deixar de telefonar para o meu querido amigo, Fábio. Quando Tauam
me disse que o Fábio estava em Porto Alegre e que a Ana não tinha ido
com ele, não acreditei. Ele foi com o Paulo e a Li. Mais surpresa fiquei
ainda, quando, de volta, Fábio me diz que tinha escrito um livro sobre a
viagem. E me mandou por email o texto para correção.
Além do texto, há fotos, muitas e belas fotos, mostrando aeroportos,
cidades, praia, o apartamento onde se hospedaram, a família da Li, as
pessoas com quem conviveram, os lugares por onde passaram, enfim o
mar e a montanha na exuberante paisagem da serra gaúcha.
As fotos foram tiradas de duas câmeras, do Paulo e do Fábio, que é
um expert em fotografia. E não me surpreende que haja fotos deslum-
brantes, verdadeiras obras de arte, algumas bem impressionistas e que
poderiam até ilustrar cartões postais.
O texto flui fácil, numa linguagem clara, simples e objetiva, compon-
do um diário ou crônicas de um jornal, relatando fatos do dia-a-dia.
O tom jocoso prende o leitor, na medida em que desperta o interesse
nele de conhecer a seqüência imediata da narrativa. Um texto que revela
bem a personalidade do Fábio, calmo, amável e gentil sempre.
Lendo e corrigindo o texto, quantas vezes não conseguia conter a
expectativa, ao querer antecipar o desfecho dos acontecimentos com
perguntas do tipo: E daí? O quê aconteceu? As respostas vinham imedi-
atas, satisfazendo minha curiosidade.
Em resumo, um livro em que texto e imagem se harmonizam e se
completam naturalmente.

Bauru, 19 de maio de 2007.
Besma Massad
CAPÃO DA CANOA 4

Sumário
Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3
Capão da Canoa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .5 Autor
Desde Sampa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .6 Fábio Simões Grossi
De Volta ao Relatório. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9
A Bronca do Comissário de Bordo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Fotografias
Chimarrão de Boas Vindas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 Eliane Ap. do Canto Monteiro
Os Gatos da Tia Lina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Fábio Simões Grossi
Quem Será este Senhor? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Paulo Roberto Pires Maciel
Capão da Canoa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Um Presente para Iemanjá . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 Revisão
6600 Metros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 Besma Massad - Betina
Tinturaria Fábio’s Grossi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
Alegoria das Duas Nuvens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Farofa com Tatuíra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
Churrascaria Estância Gaúcha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
Salvo pelo Photoshop . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
Show de Câmera . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
Sol, Mar e Lasanha ao Pene . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
Sopinha de Tudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
Gramado e Canela de Lambuja . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
Adeus Porto Alegre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88
CAPÃO DA CANOA 5

Paulo Maciel
Capão da Canoa

Fábio Grossi
2007
CAPÃO DA CANOA 6

07h30 da manhã do dia 3 de março de 2007

I
Desde Sampa

E stou em Porto Alegre, meio de carona nas férias de Paulo e
Eliane. Convidaram a mim e a minha esposa Ana Maria (prima de
Paulo), porém, acabei vindo sozinho, pra variar.
Resolvi fazer um pequeno relatório da minha viagem desde que pe-
gamos o avião em São Paulo.
A viagem de avião foi algo emocionante. Minha única viagem anterior
fora há muitos anos e eu já não me lembrava das sensações que sentira
àquela época.
Chegamos ao aeroporto de Congonhas em São Paulo uma hora antes
do embarque para o check-in e nos apresentamos no balcão da Gol. Fazia
muito calor naquele ambiente, provavelmente algum problema com o ar
condicionado. A todo instante eu me perguntava:
—Será que eu esqueci alguma coisa?
Passagem na mão, malas sobre o carrinho, esperando...Quando ouço
ou leio em algum lugar: “passagens e documentos à mão”. Paulo e Li
estavam a minha frente. Ele, visivelmente nervoso. É seu primeiro vôo.
-Minha identidade, onde eu a deixei? Está numa pochette dentro da
mala. Que vergonha, eu não devia mais estar usando aquela Pochette.
CAPÃO DA CANOA 7

Está totalmente fora de moda.
Chega a nossa vez. Paulo e Eliane foram chamados para um balcão
mais distante. O alaranjado da Gol se espalhava por toda parte central,
mas a fila não andava. Vendo que alguns passageiros já se adiantavam
para furar a fila, tratei de empurrar o carrinho para junto do balcão, onde
eles estavam por concluir o check-in e me apresentei.
Horário do embarque, número da plataforma e bilhete de controle da
bagagem...só faltava uma coisa, o avião.
Nós nos dirigimos então para a espera do embarque, passamos por
um amplo saguão, dobramos à direita, atravessamos algo como um tú-
nel e chegamos ao setor de revista. Pusemos nossas malas e pacotes
sobre a esteira do raio-x e passamos pelo detector de metais. Paulo e Li
foram obrigados a voltar, ele para tirar o chaveiro do bolso e ela para o
relógio, muito grande, que também acionou o alarme. Indagam sobre o

Fábio Grossi
conteúdo de uma das sacolas e Eliane brincou dizendo ser uma bomba.
Imediatamente Paulo desmentiu, explicando que era apenas um pequeno
objeto de decoração, uma fonte daquelas que se põe na sala para ouvir o
murmúrio d’água e relaxar. Chegamos à escada, que nos conduziria para
No Aeroporto de Congonhas, Paulo carrega o
o nosso local de embarque. Eliane perguntou se não era melhor tomarem pacote suspeito
café na cantina daquele andar. Ambos pararam para um café e eu fiquei
apreensivo, pois o horário do embarque estava marcado para dali a cinco
minutos. O relógio me parecia mais acelerado, talvez fosse o compasso
do coração, alterando a noção do tempo. Terminaram...fui ajudá-los com
uma sacola para nos apressarmos.
Chegamos à sala de espera e nos acomodamos no conjunto de cadei-
ras em frente ao portão 20. O tempo passa, o horário de embarque passa
e nada do embarque acontecer, me dirigi até o rapaz que parecia querer se
esconder atrás da tela do computador e o inquiri. O vôo estava atrasado, o
avião acabara de pousar. Assim que estivesse pronto, um novo horário e
novo portão de embarque seriam anunciados pelo sistema de som.
A vontade de fumar me conduz até um funcionário para saber se
havia por ali alguma sala apropriada. O local disponível era longe demais,
desisti de fumar e voltei conformado para a cadeira onde estavam minhas
malas. Teria que esperar mais de duas horas até o próximo cigarro.
Paulo e Eliane foram ao banheiro. Ao retornarem ouvimos as
CAPÃO DA CANOA 8

novas instruções:
...senhores passageiros do vôo 750 da empresa Gol com destino a
Porto Alegre...queiram, por gentileza, se dirigir até o portão 11 e aguar-
dar pela ordem de embarque.

Tenho que interromper o relatório
Estamos de saída para uma visita ao pai da Li
Ela pretende chegar a sua casa
por volta das dez horas
CAPÃO DA CANOA 9

16h40 do dia 04/03/200
Já estamos em Capão da Canoa Li e Paulo foram tirar um cochi-
lo. Aproveito para escrever mais um pouquinho.

II
De Volta ao Relatório.

Paulo Maciel
O portão 11 era bem distante de onde estávamos. Não tínhamos
mais os carrinhos do aeroporto para facilitar o transporte da
bagagem. Mesmo assim, sem ter mãos para tanta bagagem, começamos
É uma linda manhã para voar

a registrar com fotografias a nossa viagem.
Estas são algumas de uma série de fotos que pretendo incluir no relatório.
Começava a amanhecer. O céu, tingido de um azul avermelhado, po-
dia ser visualizado por detrás da parede envidraçada, que nos separava
da pista. Recortado a todo instante pelo perfil dos aviões, que cruzavam a
pista de embarque, prometia propiciar um vôo iluminado e tranqüilo.
Sugeri que desligassem o flash da máquina para evitar o reflexo no
vidro a nossa frente, e tiramos algumas fotos, antes do portão ser aberto
para dar acesso ao avião, que já se encontrava ali, “estacionado”.
Passa algum funcionário do aeroporto, de rádio-comunicador à mão
transmitindo em alto e bom som a posição de cada portão desocupado.
Lembrei-me da época em que organizava a espera por mesas vagas, no
restaurante do meu irmão. -Que coisa precária, pensei. Por que não usam
câmaras, como as tantas que vimos espalhadas a nos vigiar!
CAPÃO DA CANOA 10

Mais uma vez os alto-falantes nos informam sobre como proceder à
fila de embarque, primeiro em português e depois em inglês.
Não havia necessidade de pressa, registraríamos nossa entrada em
forma de curtas tomadas de vídeo, para não esgotar a memória das má-
quinas. Sendo os últimos a entrar ficaria mais fácil. Desci na frente e
preparei o enquadramento. Eliane passou e eu não havia começado a
filmagem. Pedi a Paulo que retornasse e gravei sua passagem até juntar-
se à Li, mais à frente. Filmei o nariz do avião, e desci a rampa filmando
até a porta. Desliguei a máquina e entrei.
Os comissários me olharam com ar superior. Parecia que eu podia ler
seus pensamentos: Mais um passageiro de primeira viagem.
Três bancos de cada lado, corredor estreito. Se alguma turbulência
nos pegar pelo caminho e o deslocamento for inversamente proporcional
ao tamanho da aeronave...

Paulo Maciel
Pensamento tolo. Tratei de silenciar os maus presságios.
Minha cadeira era junto ao corredor. Eliane foi sábia em colocar o
Paulo junto à janela com a máquina fotográfica. Isso, certamente, o dei-
xaria suficientemente distraído e menos tenso.
Nosso avião na área de embarque

Três dias depois do vôo e ele não se cansava de repetir
—Mas que delícia que foi... Já nem completava mais a frase,
pois estávamos carecas de saber.

A chefe dos comissários apresenta a tripulação e passa as instruções
sobre os procedimentos de emergência, enquanto um de seus subordina-
dos faz mímica e encena aquela baboseira de praxe.
Por termos comprado passagens em dias diferentes, minha poltrona
não é ao lado deles, porém, sobram muitos lugares vazios no avião, inclu-

Paulo Maciel
sive a poltrona do corredor junto a eles. Não tive dúvidas, sentei-me ali,
esperando que os comissários não criassem problemas.
Tudo bem, hora de levantar vôo. O comandante do avião nos dirige a
palavra informando o motivo de alguma demora e se posiciona atrás de Na decida da passarela
duas outra aeronaves, junto à cabeceira da pista.
CAPÃO DA CANOA 11

Mais quinze minutos e subiríamos.
—Prepare a máquina, filme toda a decolagem.
—Olha, aquelas pessoas parecem formiguinhas!
—E são formiguinhas, seu estúpido! Nós nem saímos do chão.
Piadinha infame. Mesmo assim, Li acha graça.
O avião anda um pouco. Alguns minutos e anda mais um pouco. E
finalmente decola.
A mesma sensação que eu sentira antes, é como dar a primeira volta
na roda gigante.
Dá um friozinho na barriga.

Paulo Maciel
Fotografando o avião por dentro

Paulo Maciel
Fotografando o exterior do avião
CAPÃO DA CANOA 12

18h21 do dia 05/03/2007
Pela manhã fomos à praia, andamos seis quilômetros e meio.
Depois do almoço tomamos uma chuva pelo caminho e resolve-
mos dormir um pouco.
Paulo ainda dorme, Li resolveu preparar um mate, depois de
lavar roupa e dar uma varrida na casa...

III

Paulo Maciel
A Bronca do Comissário de
Bordo
Mais fotografias do exterior

O avião inicia uma subida interminável, Paulo registra tudo.
Sinto um pouco de inveja de poder ver a paisagem se modifican-
do. Olhar para dentro do avião é angustiante. Ao mesmo tempo em que
sentimos leves balanços, por não termos a confirmação visual, as possíveis
variações de altitude parecem se agigantar na nossa imaginação.
De repente, nada a fazer para preencher o tempo. Começamos a
explorar as acomodações sem sair do lugar, uma vez que o aviso para
manter o cinto não se desliga, enquanto subimos.
Abre mesa.
Fecha mesa.
Altera-se a inclinação do banco.
CAPÃO DA CANOA 13

Algumas fotos do interior.
Muitas fotos do exterior.
—Toma cuidado para não tirar muita foto da asa do avião, vai
esgotar a memória.
Relembro a história da viagem de meu filho Tauan ao Chile, quando gas-
tou dois filmes com fotos da asa. Naquela época ainda não tínhamos a digital.
A pressão faz o ouvido pipocar. Li e Paulo mastigavam chicletes para
minimizar os efeitos. Ofereceram-me, mas eu recusei, já era tarde, meu
ouvido já passava pela terceira pipocada.
Finalmente o vôo se estabiliza na horizontal e o aviso se apaga.
Dou uma olhada pelo avião para achar alguma janelinha livre, eu
também quero registrar a asa, (tosse) digo, a paisagem.
Um mar de nuvens, crespas como flocos de algodão, parecem forçar
passagem para cima sem poder passar daquela altura.

Paulo Maciel
Contenho-me e tento tirar a menor quantidade possível.
O ar condicionado deixa o interior do avião bastante frio.
Retorno ao meu lugar, pois vão servir alguma coisa.
Conversamos sobre as refeições e lanches, que eram oferecidos nos
...e mais fotografias do exterior
tempos remotos. Os bons tempos da Varig.
Duas bolachinhas de água e sal, um biscoito recheado com chocolate.
—Suco de pêssego ou manga, guaraná diet...? Repete incansavel-
mente para cada passageiro que invariavelmente pede suco de pêssego,
mas, certamente, preferiria poder tomar uma dose de algo mais forte e
comer algo mais saboroso.
—Que lanchinho fraco! Esse é o comentário de Paulo, que voa pela
primeira vez.
Passam novamente o carrinho, oferecendo nova dose das mesmas
bebidas. Pergunto se pode ser a barrinha com chocolate e recebo duas.
Fico com uma e passo a outra.
Depois do lanche, passam recolhendo copos e celofanes. Faltam 40
minutos para o pouso. Volto para a janelinha no fundo do avião. Desta
vez pretendo registrar o pouso em vídeo. Os dois lados da última fileira
de banco estão livres. Do lado esquerdo uma chance de me aquecer com
uma réstia de sol. Do lado direito a melhor chance de uma boa filmagem.
Esperei até que o aviso fosse dado e então passei do direito para o esquerdo.
CAPÃO DA CANOA 14

Paulo já tinha esgotado a memória da sua máquina fotográfica. Ao
aviso de que iríamos pousar e que não eram permitidos aparelhos eletrô-
nicos, celulares e computadores, não deu bola. Pegou o notebook e co-
meçou a transferência. Acabou por receber uma bronca do comissário.
—Mas agora já iniciei a transferência, como é que eu faço?
—O Sr só terá mais dois minutos pra desligar isso!
Esperei que os comissários tomassem acento e tirei a câmara da capinha.
Registrei algumas tomadas curtas enquanto o avião manobrava em
curvas acentuadas para se posicionar na direção da pista. –...nublado e
com chuva, anunciou o comandante.
Ai meu Jesus Cristinho! pensei com meus botões.
Fora do avião, a asa parecia inclinar-se muito mais acentuadamente
do que se percebia, quando se olhava para dentro dele. Pura ilusão de
ótica, nosso corpo se inclina junto com as cadeiras e todo o resto.

Fábio Grossi
Reta final. Os flaps começam a se esticar para baixo e um rastro de
vapor se forma e se alonga atrás da asa, provavelmente provocado pela
pressão do ar.
Sem perceber apertei um pouco o botão de zoom. A imagem passava a
Registrando a chegada
uma velocidade maior e a descida parecia muito menos suave do que deveria.
O avião toca o solo e vibra um pouco. A imagem tremula violenta-
mente, minha mão não consegue segurar a câmara com firmeza e então
os freios entram em ação. Com um belo susto desligo a câmara.
Penso se não pousamos longe do começo da pista e, talvez, ela não
seja suficiente.
A velocidade diminui e começamos a taxiar.
Alívio!
Mudo para o modo foto e registro nossa aproximação.
CAPÃO DA CANOA 15

7h16 do dia 06/03/2007
O dia amanheceu lindo7, céu claro como nunca
esteve durante todo o tempo até agora

IV
Chimarrão de Boas Vindas

Paulo Maciel
D esembarcamos em Porto Alegre e seguimos até a esteira para
pegar nossa mala. Li aproveitou para ir ao banheiro. Ao retornar
não nos encontrou e ficou bastante assustada.
Esteira da bagagem em Porto Alegre

Havíamos sido informados que nossa bagagem estaria disponível, na
esteira do segundo saguão.
Depois de pegar a bagagem saímos doidos para fumar. Enquanto to-
dos os outros passageiros se apressavam para tomar um táxi, fumamos
tranqüilos, parados ali no ponto. Antes de pegar o táxi, porém, Eliane se
lembrou que deixara o endereço num pequeno pedaço de papel na cartei-
ra de Paulo. Paulo não se lembrava de nada, pois no dia anterior tinha
bebido bastante. Achar o tal papel foi uma maratona, que demorou mais
do que o tempo que usamos para fumar.
Em pouco tempo chegávamos ao pequeno prédio amarelo. Subimos
carregando toda bagagem. Li aperta a campainha e nos alerta: —tem que

Paulo Maciel
falar alto, ela não escuta direito.
Toca novamente a campainha, pois ninguém havia nos atendido.
Fomos atendidos pela prima Pedrolina, que abraça a Li calorosamen-
te e explica que pensaram que a campainha fosse na novela. Tia avó Maria e prima Pedrolina
CAPÃO DA CANOA 16

Só perceberam que era no próprio apartamento pela reação de indi-
ferença dos protagonistas.
Paulo a cumprimenta com seu jeito efusivo e me apresenta em segui-
da. Sempre fico preocupado com a aparência dos meus cabelos por causa
do comprimento. As pessoas mais velhas não são muito flexíveis, para
aceitar comportamentos não convencionais.
Tento agir com naturalidade e simpatia, mas acabo cometendo o mai-
or dos pecados, rejeito a primeira oferta de chimarrão. Digo que estamos
mais habituados a beber café.
Depois do café, fomos todos para sala e as três puseram a conversa

Paulo Maciel
em dia, enquanto rodavam a cuia de mão em mão entre elas. Um ritual
admirável. Foi quando me dei conta da gafe que cometera.

Vista do apartamento em Porto Alegre
CAPÃO DA CANOA 17

6h33 do dia 07/03/2007
Não consigo acordar mais tarde, amanhece com sol e poucas
nuvens.

V
Os Gatos da Tia Lina

Paulo Maciel
T ia Maria é uma simpatia, lembra minha avó nhanhã (Isabel). Muito
falante, toma sempre a iniciativa da resposta ou da pergunta.
Neci, a prima querida está no apartamento da praia em Capão da
Tias Edena (em pé) e Lina (sentando-se)

Canoa, para onde devemos ir. A princípio estava combinado que iríamos
com o carro dela, mas somos informados de que deveríamos ir de ônibus.
Eliane liga para prima e recebe a confirmação, três tentativas de assalto
a deixaram suficientemente assustada para não querer mais fazer o tra-
jeto dirigindo. Oferece, entretanto, para que usemos o carro para passear
em Porto Alegre.
Iríamos almoçar com tia Lina (uma das filhas da avó materna) em
Pinheiro, bairro bem afastado de onde estávamos. As distâncias são enor-
mes, o caminho sinuoso com um belo traçado urbano e muitos bons pro-

Fábio Grossi
jetos arquitetônicos.
Chegamos ao bairro, sobre o qual Eliane nos conta uma triste história
de invasão por grupos de sem teto. Coisa comum em países com diferen-
ças sociais acentuadas como o Brasil.
Mais uma vez Eliane é recebida com muita emoção, pode-se notar o Gatos dóceis e enormes
quanto ela é querida.
CAPÃO DA CANOA 18

A pequena casa abriga uma quantidade enorme de gatos. O primeiro
se encontra refestelado sobre a mesa da sala, todo cinza, preguiçoso e
sossegado. Mal levanta a cabeça para olhar as visitas que acabam de
invadir o recinto. Eu e Paulo trouxemos nossos notebooks para trocarmos
as fotos da viagem enquanto elas põem a conversa em dia.
Depois das apresentações, pedimos licença para usar a mesa para
instalar nossa pequena central de informática. Desalojamos o primeiro
gato de seu confortável repouso e instalamos o equipamento. Tentamos
inutilmente conectar os dois micros entre si com um cabo usb, que eu
havia comprado na Santa Efigênia em São Paulo.
Pausa para o almoço, uma comida com quase nenhum sal ou tempe-
ro, mas saudável, apetitosa e muito bem vinda. Depois do almoço liga-
mos novamente o equipamento.
Depois de exibir algumas fotografias das filhas da Li para as tias,
sugerimos conectar o equipamento do Paulo na linha telefônica. Em pou-
cos instantes, Eliane estava falando com a filha Mariana e Paulo com o
filho Danilo pelo MSN.
Minha preocupação era encontrar algum programa para auxiliar com
o uso do cabo. Procura infrutífera, mas ainda teríamos a alternativa de
usar um cd-rw, que o Paulo trouxera.
Finalmente tive a oportunidade de me redimir, experimento meu pri-
meiro chimarrão. Não esperava que fosse gostar, foi uma agradável sur-
presa. Estou doido para ter uma boa cuia e criar um novo hábito na minha
casa, em Bauru. Não só pelo sabor agradável, mas por todo o ritual.
Hora de partir, Li queria apresentar sua cidade com um breve passeio

Fábio Grossi
pelo centro histórico.
Complicado achar um local para estacionar no meio fio. Mais uma
coisa nos encanta em Porto Alegre, a venda do bilhete para a zona azul é
automatizada com opção para moedas e cartão. Nada de ficar perdendo
Gato gigante sobre a mesa
tempo com vendedores, que desaparecem, quando achamos uma vaga
em Bauru.
Antes de qualquer coisa entramos em um shopping. Não para com-
prar qualquer coisa, mas porque Eliane estava doida para ir ao banheiro.
Saímos dali pelo piso inferior, ao nível da praça General Osório. Li
senta-se em um banco e pede que tire uma foto. Sentado ao seu lado, a
estátua de Mário Quintana simula uma conversa com Carlos Drummond,
em pé atrás do banco.
CAPÃO DA CANOA 19

Tiramos fotos do monumento ao centro da praça e do prédio do cor-
reio, um belo exemplo de preservação arquitetônica.
Seguimos até o Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli.
Não sabíamos se a entrada era franca e nos dirigimos à recepção. Não
havia qualquer indício de cobrança de ingresso, as paredes estavam sen-
do pintadas, mas o museu estava aberto à visitação.
Pergunto se podíamos fotografar sem flash. – Só a fachada do prédio,
as obras não, responde-me um dos recepcionistas. O olhar sisudo de am-
bos me faz guardar a máquina, instantaneamente. As exposições do térreo
eram de fotos atuais, passamos rapidamente o olhar e fomos para o se-
gundo piso. O ar condicionado estava desligado e o calor era insuportável.
Paulo demonstrava pouco interesse pelas obras, tentei conduzi-lo com
algumas definições de arte, mas a falta de conhecimento dos materiais,
expostos ali, me impediu de promover uma orientação segura e convincen-

Paulo Maciel
te. Sugiro continuarmos nosso passeio indo para a praça Júlio de Castilho.
Uma ladeira acentuada nos separa de nosso destino, hora de suar a camisa.
Caminhamos em passos lentos e tiramos algumas fotos pelo cami-
nho, uma forma de justificar as constantes paradas para tomar fôlego.
Meu primeiro chimarrão
O monumento é alto e rodeado de esculturas, entre as quais um
pequeno dragão com as patas dianteiras levemente erguidas, em relação
aos degraus da escada. Paulo deita-se sob a pata e pede que eu tire uma
foto. Eu e Li tiramos várias fotos. Repentinamente, quando já nos afastá-
vamos do monumento em direção à Catedral, olho para cima e me vejo
abaixo da traseira de um cavalo com o rabo levantado. Não importa quantas
pessoas já tiraram uma foto desse ponto, imediatamente peço à Li que
nos fotografe.
Visitamos a Catedral, imponente e muito bonita. Dois lindos vitrais,
absurdamente grandes, iluminam suas naves laterais. Tento discretamente
tirar algumas fotos do interior, mas a pouca quantidade de luz e a falta de

Fábio Grossi
um tripé, que mantenha a câmara estática, resultam em fotos pouco
nítidas. O tempo, que já estava fechado, ameaça piorar.
Hora de voltar para casa. Todos os caminhos levam a Roma, mas qual
deles deveria nos levar ao apartamento das tias????
Depois de muitas voltas e retornos, finalmente chegamos ao peque- Eliane, Mário Quintana e Carlos Drummond
no prédio amarelo, onde passaríamos a noite.
CAPÃO DA CANOA 20

Tomamos banho, a roupa suada foi substituída por algo mais leve e
apropriado e então saímos para um lanche.
Paramos em um barzinho, lugar simples, mas com um dono muito
simpático e atencioso.
Providenciou rapidamente uma mesa de plástico, meio instável, onde
mal se podia apoiar os cotovelos, pois esta logo se inclinava.
Aceitamos a sugestão para um cachorro americano e pedimos uma
Coca litro.
Encarar aquele sanduíche era uma decisão complicada. Veio sobre
dois papeis de tipos diferentes, incrustado em uma bandeja comprida de
plástico colorido. As laterais do pão desapareciam em baixo de uma mon-
tanha de recheio, o qual não era possível comer sem enfiar o nariz pela
metade. Tentei retirá-lo da bandeja e quase o derrubo inteiro. A cada

Eliane Monteiro
mordida, Paulo deixava cair parte do recheio pelo chão. Somente Eliane o
conduzia com habilidade sem derrubar nada, mas não conseguiu evitar
de se lambuzar.
Da Coca-Cola sobrou um pouco mais da metade. Paulo tomou a inicia-
tiva de levar o que restou para casa. Antes, porém, Li tinha que comprar
No início da ladeira
pílulas e saímos à procura de uma farmácia aberta. Andamos uma quadra
até a esquina de uma avenida movimentada e indagamos ao garoto, que
se entretinha no chão com alguma brincadeira, onde ficava a farmácia
mais próxima. Após nos indicar as três farmácias da vizinhaça, o garoto
pediu um gole da Coca-Cola. Aliviado por não ter mais que carregar aquele
peso, Paulo entrega-lhe o vasilhame com toda Coca-Cola que restara.
Andamos mais uma quadra e meia, até a única farmácia que ainda se
encontrava aberta. E já íamos saindo dela, quando descubro que alguma
coisa do sanduíche me provocar uma tremenda alergia. Comprei imedia-
tamente uma caixa de Polaramine e tomei um comprimido, alí mesmo,

Eliane Monteiro
sem água.
Fui dormir mais cedo, bastante cansado e coçando muito, acabei per-
dendo o último capítulo da novela.

Calma cavalinho, em cima de mim não!
CAPÃO DA CANOA 21
07h29 do dia 08/03/2007
Saí bem cedo para tirar algumas fotos do nascer do sol. O dia
está meio nublado, não sei se dá praia.

VI
Quem Será este Senhor?

Fábio Grossi
N o dia seguinte, ainda em Porto Alegre, acordei mais cedo que os
outros. Arrumei algumas coisas na mala e fui fumar na sacada do
quarto. Pouco depois, ouvi barulho na sala, finalmente alguém com quem
conversar. Tia Maria se encontrava deitadinha no sofá com um rádio de Comprando passagem para Capão da Canoa
pilha apoiado sobre o peito, inclinado na direção do ouvido, ligado ao
noticiário matutino.
Surpreendeu-se com a minha presença, como se tivesse esquecido
que havia visita na casa. Olhou-me como quem indaga:
—Meu Deus, quem será este senhor?
—Bom dia! Exclamei
—Ouvindo as notícias? perguntei eu, tentando puxar assunto.
Tia Maria sentou-se, antes que eu pudesse dizer para que não saísse
do seu conforto por minha causa. Não consegui evitar, sentou-se para se
sentir composta e passou a comentar as notícias, que ouvia ao rádio.
Conversamos sobre a temperatura e o tempo. Assunto que me inte-
ressava por causa da praia. Vi que ela não voltaria a deitar-se, enquanto
eu estivesse por lá, então pedi licença e voltei para o quarto.
Tentava ver se pegava algum sinal de rede wireless no notebook,
quando percebo o vulto da prima Pedrolina se levantando, no quarto semi-
escuro. Tratei de desejar bom dia, antes mesmo de vê-la. Tarde demais,
ela já vinha saindo ao corredor, só de camiseta e calcinha.
Que mancada! Penso eu encabulado.
CAPÃO DA CANOA 22

Fecho a porta, ligo o notebook na sacada do quarto e decido começar
um pequeno relatório de viagem, para não me esquecer o nome dos
lugares visitados. (foto da página 5)
Escrever nunca foi o meu forte, tenho problemas tanto de gramática
como de ortografia. Porém, à medida que escrevo, sinto que me divirto e
me sinto inspirado, para absorver cada pequeno detalhe de nossas férias.
Mal havia começado a redação e Paulo veio me avisar que sairíamos
logo, para comprar a passagem de ônibus e, em seguida, iríamos almoçar
na casa do pai da Li.
Despedimo-nos, apressadamente, logo após o café da manhã.
Retornaríamos ao apartamento depois do almoço para deixar o carro.
Tivemos alguma dificuldade para entrar na rua, em frente à estação
rodoviária. Paramos o carro em um estacionamento, atravessamos a rua

Paulo Maciel
e chegamos ao guichê de venda de passagens. Paulo entrou em uma fila
e Eliane em outra. Achei que era exagero entrar em outra fila, pois eram
todas muito curtas. Dei o dinheiro da minha passagem e pedi a máquina
emprestada para registrar o momento. Tirei duas fotos do Paulo. Quando
me preparava para fotografar a Li, um segurança me abordou perguntado Matando a saudade do pai
se eu tinha autorização do DAER para fotografar. Surpreso por uma abor-
dagem tão seca, não tentei argumentar.
—Desculpe, eu não sabia que era proibido fotografar aqui.
—É porque não sabemos com que intenção tu estás fotografando.
Raios, pensei mais tarde. Um lugar que nos filma de todos os ângulos
e não se pode fotografar. A lei deveria nos garantir direitos iguais. Um dia
ainda vou lutar por esse projeto.
Atravessamos a rua em direção ao estacionamento.
—Paulo, fotografa daqui de fora, disse eu ainda cismado com a história.
—Eu já fotografei na entrada, disse ele sorrindo.
Chegamos à casa do pai de Li, exatamente às dez horas.
-Viu como eu sou pontual, disse que chegaria as dez e cheguei. Seu
relógio havia acabado de sinalizar hora cheia.

Paulo Maciel
Posiciona o carro em frente à casa e buzina para que o pai, que se
encontrava na garagem, abra o portão.
Sr Ataides, um encanto de criatura, simpático, descontraído e muito
afetuoso. Fomos todos tão bem recebidos que não tenho palavras Sr. Ataídes e Sra. Nina
para agradecer.
CAPÃO DA CANOA 23

Sua segunda esposa Nina, também é muito simpática e parece cuidar
do marido com muito zelo.
Inicialmente apenas ele nos recebeu, demonstrando muita felicidade
pela visita da filha querida.
Também, fazendo muita festa, um pequeno cachorro basset, ao qual
constantemente repreendem, para evitar que ele faça feio. Até hoje, nunca
vi raça mais assanhada, têm todos um comportamento muito parecido.
Convida-nos a entrar, acautelando-se de pedir desculpas pelo espaço
apertado dos móveis.
Sentamos todos em um sofá em frente à tv. Trocavam conversa, quan-
do de repente entra correndo um gato. Ao nos ver, assustou-se e saiu
cantando pneus pela mesma porta. Todos riram da reação desesperada
do bichinho.
—Ela queria atravessar a sala, mas é muito tímida com estranhos,

Paulo Maciel
disse o pai de Li.
Eis que surge Nina carregando algumas sacolas com carne. Cumpri-
menta cada um, demonstrando estar igualmente feliz com a visita de Eliane.
Agita o ambiente, colocando para tocar um disco de música regional
Um autêntico churrasco gaúcho
gaúcha e nos oferece cerveja.
—Hoje eu também tomo, é dia de comemoração.
Todas as palavras do Senhor Ataídes são de elogio ao genro e, à
medida que bebemos, mais admiração e palavras de elogio são trocadas
por ambos.
—O senhor joga no meu time, diz Paulo todo contente. Eu vou levar
seu pai pra Bauru, duvida?
Enquanto conversamos, um churrasco estava sendo preparado. Elia-
ne e Nina saíram para comprar mais cerveja e cigarro.
Seu Ataídes nos conta a história da luta contra um câncer maligno,
que se instalou em sua boca e do padre que lhe apresentou a planta, que
permitiu a completa regeneração, depois de uma terrível operação. Conta

Paulo Maciel
também a história da mulher, que ele pode ajudar com a mesma planta e
que fez questão de lhe mostrar o seio completamente recuperado. Peço a
ele uma muda para levar pra Bauru.
Penso no meu cunhado e comento com Paulo. – Pena que não pudemos
Cena do filme - O cachorro mata pulgas
fazer nada por ele. Quem sabe possamos ajudar outras pessoas.
CAPÃO DA CANOA 24

Enquanto ainda preparavam a comida, Paulo e eu ligamos nossos notebooks
para trocar arquivos de foto. Uma pequena peça no DVD-room dele estava
quebrada. Achamos o pedaço quebrado e o prendemos com um disco.
De repente, o pequeno basset se põe a coçar o gato sob a mesa.
Chama-me a atenção, como faz o gato para pedir ao cachorro para ser
coçado. Esfrega-se de maneira provocante e se posiciona com a parte
que deseja coçar próxima a sua boca.
—Filma isso Paulo, tá digno do programa do Faustão.
—Vamos almoçar pessoal, a comida está na mesa, convida-nos dona Nina.
Uma quantidade exagerada, já tínhamos beliscado vários pedaços da
costela, mas a comida estava convidativa. A cenoura ralada com uma cor
viva, a alface verdinha, a maionese de batata muito saborosa e as carnes
impagáveis. Comi a me fartar.

Eliane Monteiro
Paulo, no entanto, não é tão glutão e logo se satisfaz. Seu Ataídes se
mostra indignado.
—Que é isso rapaz, não comeste nada!
—Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar? pergunta Paulo brincando.
—Pra conversar, retruca seu Ataides.
—Então estou indo embora, provoca Paulo Paulo e o Sr. Ataídes conversam a mesma língua
Logo estavam aos beijos e abraços. Era tudo alegria e Paulo repete
incansavelmente que quer levar o casal pra Bauru.
-Temos que ir embora! nos apressa Li com medo de chegar atrasada
à rodoviária.
Ainda tínhamos que devolver o carro e pegar nossa bagagem.
Estávamos todos meio altos, menos Li que volta dirigindo.
CAPÃO DA CANOA 25

18h11 do dia 09/03/2007
Depois de um almoço farto e saboroso na Churrascaria Recanto
Gaúcho, dormir era inevitável. Dormimos a tarde inteira

VII
Capão da Canoa

Eliane Monteiro
A pressadamente, chegamos ao apartamento no prédio amarelo,
devolvemos o carro, Li monta a fonte e deixa explicações sobre o
funcionamento para quando Neci voltasse da praia. Paulo retorna trazendo mais uma latinha
Seria um presente surpresa, mas levá-lo à praia para Neci trazê-lo de
volta, era um inconveniente desnecessário.
Chegamos à rodoviária com mais de uma hora de antecedência. Pau-
lo estava tagarela, muito contente com tudo e ora lembrava do vôo mara-
vilhoso, ora lembrava do sogro e da cerveja, que não podia faltar.
Mal entramos na rodoviária, já paramos na primeira lanchonete para
comprar cigarro e uma latinha para Paulo. Seguimos até a plataforma de
embarque e nos sentamos nas cadeiras vagas, não era exatamente em
frente a nossa plataforma, mas em um lugar de onde podíamos ver o
ônibus quando chegasse.
Paulo continuava tagarela e falando muitos palavrões em tom mais
alto que o normal.
Mas tudo que entra, uma hora tem que sair. Queria fazer xixi e foi
ao banheiro. Voltou indignado, tinha que pagar um real para fazer um
mísero pipizinho.
—Puta que o pariu! Me dá um dinheiro aí, estão cobrando um real
pra eu mijá.
CAPÃO DA CANOA 26

—Se pra dar uma mijadinha me cobram tudo isso, quanto vai custar
uma cagada?
—Fala baixo, Paulo, diz Li encabulada
—Dá mais algum pra comprar mais uma latinha, essa já “elvis”.
—Não tenho nenhum dinheiro trocado, fala Li tentando fazer com que
ele pare de beber.
—Toma aí, aproveita e traz uma Coca-Cola pra mim.
Paulo retorna, trazendo minha Coca e falando mais palavrões do que antes.
—Ai, meu Deus, onde fica o botãozinho pra desligar esse homem?
Paulo era pura felicidade e tagarelice. Faz uma pergunta retórica para
a mulher sentada ao meu lado, que já não continha o riso por perceber
sua evidente embriaguêz.
Exausto, depois de tanta excitação, Paulo se deita com as pernas
para o corredor e a cabeça no colo de Li.

Fábio Grossi
Sento-me junto à janela do lado oposto ao do motorista. Quero apreciar a
paisagem, embora o tempo esteja bastante enevoado e prometendo chuva.
Logo ao sairmos da cidade, fotografo um jogo de futebol de várzea, o
visor da máquina é tão pequeno que não enxergo os jogadores.
Futebol de várzea na saída de Porto Alegre
Campos absolutamente planos se espalham até o horizonte. Os tons
variados de verde se alternam, indo quase do amarelo limão ao verde
musgo. A janela do ônibus é um limitador terrível. Tudo que está próximo
passa rápido e tende a ficar fora de foco. Mesmo tendo uma paisagem
que parece se repetir ao infinito, fotografo muitas vezes. Exploro os re-
cursos da máquina, tanto fotografando como filmando. Paradas rápidas
em rodoviárias de pequenos lugarejos também são registradas.
Começa a chover e eu tento registrar os pingos de chuva na superfí-
cie do vidro, é difícil, a câmara teima em fazer o foco na área externa.
Finalmente o ar frio embaça o vidro e a foto sai, não exatamente como eu
queria, mas...
Paramos em algum trecho da estrada em obras para alternância de pistas.

Fábio Grossi
As duas horas passam rápido e logo chegamos ao nosso destino.
Vejo o mar aparecer em alguns pontos ao longo das ruas.
—Li, o mar é pra lá? pergunto entusiasmado.
—Hummm, deixa eu ver...é, sim. Campo de arroz até onde a vista alcança
Respiro fundo. Finalmente o mar, depois de tantos anos sem ver praia,
CAPÃO DA CANOA 27

estou de volta ao meu elemento. O berço da natureza.
Chegamos à rodoviária onde a prima Neci nos aguarda. As várias
descrições feitas por Li e Paulo, logo permitem que eu a identifique entre
as pessoas.
Sentada, aparentando muita tranqüilidade, guarda-chuva em punho,
demora a se pôr em pé.
Sorridente, decidida, extrovertida, são imagens da primeira impres-
são que nos passa sua figura de pequena estatura.
Muito simpática e hospitaleira, foi aguardar nossa chegada na rodovi-
ária, que fica a quatro quadras de seu apartamento.
Ainda estava claro, embora nublado, não estava mais chovendo e
então fomos caminhando até o apartamento.
A chuva havia deixado muitas poças d’água nas ruas que, por serem
muito planas, não apresentam bom escoamento.

Fábio Grossi
Nossas malas, dotadas de rodinhas, cambaleavam no calçamento cons-
tantemente inclinado e eventualmente formado por ladrilhos de altura
irregular. Ao atravessar a rua, tínhamos que erguê-las para não passar
pelas poças.
Chuva a caminho de Capão da Canoa
As malas de Paulo eram mais largas, mais estáveis e ele se pôs à
frente de todos. Comecei a estranhar sua dianteira. Logo demonstra a
razão de sua pressa, queria mostrar que não se esquecera do endereço.
—Viu, como eu lembrei direitinho do lugar! exclama ele todo orgulhoso.
Em poucos minutos e, mais uma vez, estávamos todos desfrutando
de outra rodada de chimarrão.
Neci, já hospedava uma amiga gaúcha e agora hospedaria no peque-
no apartamento de dois quartos mais três pessoas.
Li conta a ela algumas coisas sobre nossa viagem e lhe diz sobre uma
surpresa que deixou no apartamento, em Porto Alegre, para não lhe cau-
sar o desconforto de viajar daqui para lá, carregando mais um pacote.

Fábio Grossi
—O que é que tu me trouxeste guria? pergunta curiosa.
—Uma surpresa, só vais saber quando chegares lá. Deixei instruções
com Pedrolina sobre como funciona.
Repentinamente, no meio do lanche, Paulo diz algo sem pensar e
revela a natureza do presente surpresa. No entanto, isso acaba se con- Neci nos recebe na rodoviária
vertendo numa vantagem, pois assim Li pode explicar alguma coisa sobre
CAPÃO DA CANOA 28

a troca das plantas artificiais, que vieram no enfeite, por outras naturais
que ela arranjou depois.
Assistimos o final da novela que eu havia perdido na noite anterior e
chegamos ao final de mais um dia dessa aventura deliciosa.
Arrumaram na sala o sofá-cama, onde eu iria dormir e eu pude sentir,
com a porta entreaberta, a brisa suave e gostosa que vinha do mar.

Fábio Grossi
O sofá-cama onde eu dormi na primeira noite
CAPÃO DA CANOA 29

18h56 do dia 11/03/2007
Pela manhã, usei a câmara FinePixe de Paulo para fazer fotos
do sol nascente, ficaram ótimas. Estamos em contagem regressi-
va, o tempo não para. Tem certas ocasiões que eu gostaria de
ter poderes para congelar o tempo.

VIII
Um Presente para Iemanjá

Paulo Maciel
Q ueríamos sair bem cedo para o primeiro dia de praia.
No café da manhã, os pães do dia anterior se repetem, entre
eles a cuca, um pão doce recheado com doce de leite e coco ralado. Pego
Camiseta, boné e pés à sombra

uma fatia e passo uma grossa camada de patê de fígado. Li me chama a
atenção para o estrago que eu estava fazendo. Já era tarde, como tudo,
alegando gostar daquela extravagante mistura. Confesso que não daria
para repetir a dose, não combinava mesmo.
Depois do café, Neci passa as instruções sobre as chaves e outros
detalhes antes de sair. Fomos fazer passeios diferentes, Neci foi fazer
caminhada, enquanto nós ficaríamos nas proximidades do apartamento.
Neci saiu antes da gente, combinando nos encontrar na praia mais tar-
de. Besuntamos nossos corpos com protetor e saímos carregando alguns
apetrechos. Só duas cadeiras para nós três. Parei numa loja e comprei mais
uma. Era dia quatro, em pleno domingo, no entanto o comércio estava todo
aberto, aproveitando o grande contingente de possíveis clientes.
A areia da praia estava bastante úmida, por causa da chuva do dia
anterior. Procuramos um lugar para montar o guarda-sol, pois o dia
amanhecera limpo, quase sem nenhuma nuvem.
CAPÃO DA CANOA 30

Uma brisa forte e constante soprava do mar em direção à praia, dei-
xando as ondas agitadas em todas as direções.
Montei o guarda-sol de tal modo direcionado ao vento que, para go-
zar da sombra, ficava sem visão das ondas. O medo de me queimar em
demasia me acompanhou por todos os dias. Uma experiência nas praias
da Bahia tinha sido o suficiente para justificar minha cautela.
Enquanto eu me protegia, Paulo e Li se expunham a mais não poder,
estendiam suas toalhas sobre a areia e se deitavam, desprezando qual-
quer regra de horário.
Vendedores ambulantes passavam empurrando carrinhos com man-
tas e redes, supostamente produzidas no nordeste.
Um deles se aproxima e me oferece seus produtos.
—Vai levar uma, patrão, é só hoje, amanhã a gente já está saindo de
volta com o caminhão.

Fábio Grossi
Eu sempre fui apaixonado por rede e pergunto o preço de uma com
um lindo barrado verde.
—Esta está a setenta, mas eu vou lhe fazer um precinho especial, só
sessenta real.
A praia a duas quadras
Digo que está muito caro e ele abaixa pra cinqüenta.
—Não, obrigado.
Ele se abaixa junto ao Paulo e lhe oferece por quarenta reais. Paulo
não pensa duas vezes e aceita a oferta.
—Aham, pra mim era cinqüenta, pra ele tu fez a quarenta? Por qua-
renta eu também queria! Não tem outra?
—Sinto muito, só aquela. Mas tem essa outra a trinta.
—Essa não é tão bonita.
—Vou lhe dar um brinde, a rede mais uma manta por trinta.
Era uma ótima oferta, enganou-se, se achava que eu fosse recusar. O
preço mínimo da manta era dez reais, a rede sairia por vinte.

Eliane Monteiro
Feita a compra, fui molhar os pés na água do mar. Pra minha surpresa
a água estava numa temperatura muito agradável. Mas não estava dis-
posto a dar uns mergulhos naquela hora.
Apenas me benzi e fiz uma pequena oração. Um ritual que me acom-
panha desde a infância. Ambulantes a caminho da praia
Voltei para a areia quando, repentinamente, uma onda mais forte se
aproximou de onde Paulo e Li se encontravam deitados.
CAPÃO DA CANOA 31

—Olha a água chegando aí, gente.
Saímos todos correndo, carregando nossas coisas para outro local
mais distante e seco.
Neci chegou nesse meio tempo. Sentou-se em uma das cadeiras e
ficamos conversando amenidades. Entre uma prosa e outra, nos faz um
convite irrecusável. Iríamos conhecer Gramado antes de voltar pra Bau-
ru. Ao sair da praia se ofereceu para levar nossas compras. O volume de
coisas era tão grande em relação a sua estatura que ela mais parecia uma
vendedora carregada de mercadoria.
Curtimos mais um bom tempo, antes de nos decidirmos retornar ao
apartamento para o almoço. Quando íamos saindo, Li percebe que suas
sandálias haviam sumido. Prefere acreditar que Iemanjá a tenha levado a
pensar que pudesse ser algum espertinho ali da praia.
O almoço seria uma gostosa receita de macarrão ao creme de leite.

Fábio Grossi
Macarrão na água e o gás acaba no meio do cozimento. Pedimos
outro botijão fazendo um interurbano no celular. Chique, né?
O entregador veio e voltou com o botijão, pois se enganou com o
número do apartamento. Tivemos que ligar de novo. Quando o almoço
Li pede para não fotografar a barriguinha
ficou pronto, pudemos saborear uma massa com a consistência bastante
alterada, mas especialmente saborosa. Um sucesso! Era nosso primeiro
almoço na praia.
Durante a tarde, era necessário repor as energias dos meses de tra-
balho. Li e Paulo dormiram até bem tarde.
Para compensar o almoço, resolvemos sair para um lanche leve.
Depois de um breve passeio, tentando descobrir o que parecia mais
apetitoso decidimos experimentar uns pastéis. Pedimos duas porções.
Uma espera interminável e quando finalmente chegaram, eu e Li pega-
mos os recheados com carne de siri e com camarão.
Paulo foi no tradicional. Pastel de queijo e óleo, muuuuuuuuito óleo,
não parava de escorrer óleo daquele pastel. Paulo trocou por outro e
deixou aquele escorrendo...até o dia seguinte.
CAPÃO DA CANOA 32

19h19 do dia 12/03/2007
O penúltimo dia em Capão da Canoa
foi sem nuvens, porém acompanhado de um vento frio durante o
dia todo
Acordamos todos às cinco horas da
manhã para fotografar o nascer do sol
Cada qual com uma câmara.

IX

Eliane Monteiro
6600 Metros
Plataforma de pesca Atlantida

E stávamos decididos a uma estadia saudável. Acordamos dispos
tos a fazer uma boa caminhada.
No dia anterior somente eu caminhara 2200 metros de praia. Nesse
dia caminharíamos até a plataforma de pesca. Uma espécie de píer para
pescadores administrado por um clube da região.
De onde estávamos na praia, embora seja uma praia retilínea, não
conseguíamos vê-la por causa da bruma e da distância. Era uma cami-
nhada e tanto, nosso ponto de partida era o posto de salva-mar de núme-
ro 76 e a plataforma ficava próximo ao posto 65.
Começamos o nosso passeio por volta das nove horas, sem cadeiras,
toalhas ou guarda-sol. Pegaríamos esses apetrechos no apartamento de-
pois da caminhada, devido à proximidade do mesmo.
No entanto, como o asfalto se apresentasse com muitas pedrinhas soltas,
e machucassem nossos pés para atravessar as ruas, calçávamos sandálias,
depois as tirávamos para caminhar na beira da água.
CAPÃO DA CANOA 33

Era extremamente incômodo caminhar carregando aquelas sandálias. Não
sei dizer o que era pior, pois das vezes que fui descalço à praia, sempre amal-
diçoava tal decisão, na ida e na volta.
Naquele dia ventava muito e Li reclamava que o chapéu de palha tendia
escapar-lhe da cabeça, por não ter uma baínha de tecido na parte interna.
Lá pela metade do caminho, fiquei curioso sobre que distância estarí-
amos percorrendo e tentei calcular levando em conta as distâncias entre
cada posto de salva-mar.
—Você tem boa noção de distância? perguntei à Li.
—Por que?
—Que distância você acredita que tenha desse posto até o próximo?
—Acho que deve ter uns trezentos metros.
Paulo também não sabia precisar, mas arriscou algum número e Li
apostou com ele.

Fábio Grossi
Fui até o posto e perguntei ao salva-vidas.
—Aproximadamente trezentos metros entre um posto e outro. Do bar
Onda à plataforma de pesca são três mil e trezentos metros.
Voltei com a resposta e Li vibrou.
A plataforma de pesca
—Ganhei, ganhei a aposta! Tá vendo como eu tenho boa noção
de distância?
Eu estava com as sandálias em uma das mãos e a câmera, em sua
capa, pendurada ao pescoço.
Ao longe já se podia ver alguma coisa da plataforma.
—Eu já consigo ver suas cores, azul e branco com uma parte em
vermelho e branco no começo, disse eu entusiasmado
Caminhávamos pela água, principalmente depois que passávamos
pela água dos canais. Embora fosse apenas esgoto pluvial, eventualmen-
te apresentava cheiro forte e com nojo lavávamos os pés caminhando por
dentro d’água por alguns metros.
Uma lufada de vento arranca o chapéu de Li, que sai girando pela

Fábio Grossi
borda como um pneu. Tentei agachar, mas percebi que a máquina pendu-
rada ao pescoço poderia mergulhar na água e eu não teria outra mão
para protegê-la, por causa da sandália. Teria sido mais um presente para
Iemanjá, se Paulo não pisasse nele afundando-o por inteiro. Corais e mariscos no pé do pilar
Curvou-se e tirou o chapéu amassado e ensopado. Senti-me culpado
CAPÃO DA CANOA 34

por não tê-lo pego enquanto só suas abas giravam sobre a água e me
justifiquei sobre a decisão de não arriscar minha câmera pra salvar um
chapéu de palha.
Pedi para ver o estado do cujo e repliquei.
—Espera, que já dou um jeito nele.
Dei umas boas sacudidas e depois fiquei balançando o braço para
frente e para trás, até que ele secasse ao calor do sol e a ação do vento.
Ainda não estava de todo seco, mas o suficiente para Li pedi-lo de volta e
colocá-lo novamente na cabeça.
Chegamos na plataforma curiosos, se poderíamos ir até a ponta tirar
algumas fotos. Os cartazes e tabelas eram bem claros e visíveis. Dois
reais e cinqüenta centavos por pessoa. Intimidados pelos cartazes nem
tivemos a ousadia de perguntar, se nos permitiriam entrar por alguns
instantes apenas para conhecer.

Fábio Grossi
Tiramos algumas fotos dali da praia mesmo e já íamos saindo quando
algo na base dos pilares me chamou a atenção. Pedi para que esperas-
sem e voltei para tirar mais algumas fotos. Entre colônias de algum tipo
de coral, muitos mariscos e alguns filhotinhos de siris. Tirei algumas fotos
O chapéu de palha de Li
por baixo da plataforma e também dos detalhes da base dos pilares e
então retornamos. Voltamos ao apartamento, pegamos os apetrechos e
de novo para a praia.
Eu já havia feito dois furos na areia e não acertava a inclinação do
guarda sol. Logo o garçom da barraca 16 veio nos atender. Experiente,
com seu acessório de furar areia sempre em punho, se prontifica a nos
atender. Usando algo semelhante a uma bomba de encher pneu de bici-
cleta, feito de canos de pvc de três quartos de polegada, logo perfura a
areia na posição correta. Apresenta-nos um cardápio, barraca da vó Nei-
de, uma folha impressa e plastificada com o preço de seus produtos.
Pedimos cerveja e uma porção de isca de violinha.
Na saída da praia, Paulo junta os cascos e os leva até a barraca

Fábio Grossi
para devolver.
—Tá esperando que te dê algum desconto no preço da cerveja? per-
gunta-lhe vó Neide, desacostumada de atitudes cavalheirescas.
Hora do almoço, provavelmente duas da tarde. Almoço às duas horas da tarde
Paulo tinha visto um Bufê Livre por sete reais e cinqüenta centavos,
CAPÃO DA CANOA 35

no caminho da rodoviária ao apartamento.
Um pequeno restaurante adaptado em uma casa, todo cercado com
uma espécie de tela, do tipo alambrado retangular. Sentamo-nos à mesa
mais próxima da calçada, o lugar mais ventilado, por causa do calor.
Pedimos três Cocas e fomos nos servir.
A comida era bem simples, corriqueira como a que se faz em casa.
Não era das mais saborosas, um único prato e não queríamos repetir nem
mais um pedaço de nada.
Depois da sobremesa, Paulo pergunta:
—Quanto deu nossa conta?
—Trinta com vinte, responde a menina responsável pelo caixa
—Aceita cartão?
—Não, senhor.
—E tem muita louça pra lavar?

Paulo Maciel
—A essa hora não tem mais louça nenhuma, responde a menina com
ar de indignação.
—E como é que a gente faz pra acertar a conta agora? pergunta Paulo
ainda gracejando.
Prédio da Prefeitura Municipal de Capão da Canoa
Eu tinha levado algum dinheiro, puxei do bolso e contei:
—Eu tenho trinta.
Mais do que depressa a menina trata de aceitá-los, para não ter
que discutir.
—Fica por trinta mesmo, está certo.
—Depois a gente acerta, diz-me Paulo com intuito de me tranqüilizar.
Voltamos para casa e a “sestchia” se estendeu pela tarde toda.
De noite eu resolvi voltar à Lan House, que eu conhecera no dia ante-
rior. Ali eu podia conectar o meu notebook e mandar fotos por e-mail.
Esperava poder me conectar com o pessoal em casa pelo MSN.
Ao entrar não avistei o dono. Um cara simpático, atencioso, meio
gordo, com seus trinta e poucos anos e o corpo todo tatuado. Notei que
havia um bando de garotos, jogando animadamente. Tossi limpando a
garganta para chamar a atenção e localizar o responsável pelo turno.
Logo um dos garotos se levanta e vem me atender.
—Pois não!
—Eu queria ligar o meu note.
CAPÃO DA CANOA 36

—Pode ligar ali.
A bateria não estava mais segurando a carga, era necessário ligá-lo à
tomada. O lugar que eu havia usado no dia anterior estava ocupado.
Expliquei minha situação e o garoto retrucou dizendo:
—Infelizmente não tenho outra tomada disponível.
—Então eu volto amanhã, disse eu indignado com a má vontade do
garoto em resolver meu problema.
Tomei o elevador imaginando como solucionar o problema. Era bas-
tante simples, bastava ligar o cabo de força em qualquer uma das CPUs,
usando a tomada do vídeo de qualquer um dos vários micros que ainda
se encontravam disponíveis.
—Garoto burro, por sua má vontade não merece meu dinheiro! pen-
sei enquanto o elevador subia.
Terminava ali mais um dia da nossa aventura em Capão da Canoa.
CAPÃO DA CANOA 37
6h10 do dia 19/03/2007
Acordei sobressaltado com o barulho dos gatos. Nossas férias
em Capão da Canoa se foram e eu já estou em minha casa em
Bauru, tentando resgatar da memória os dias felizes que passa-
mos por lá.

X
Tinturaria Fábio’s Grossi

Eliane Monteiro
É claro que não se deve levar muita roupa, quando passamos as
férias na praia, qualquer tonto sabe disso. Nunca levem, como
eu, cinco pares de meia, oito cuecas, cinco calças, seis camisetas, uma
Caminhada

camisa, dois pares de sapato e até um lenço, pois você só vai carregar peso
morto e ficar sem espaço pra transportar as lembranças que comprar.
Pois não é que o tonto, digo, pois não é que eu, no terceiro dia de
praia, já tinha quatro cuecas, duas camisetas pra lavar e uma calça para
tirar a mancha da perna.
Eu explico. As quatro cuecas deveriam ter sido lavadas durante o banho
e, muito provavelmente, teriam sido apenas três, suficientes para toda via-
gem. As camisetas não estavam sujas, mas suadas das caminhadas por
“Sampa” e no passeio em Porto Alegre. Caminhadas não são meu forte.
A perna da calça eu havia sujado em algum escapamento de carro no
estacionamento, onde paramos para fazer compras na 25 de março.
Era minha melhor calça ou a mais nova e eu estava determinado a
tirar aquela mancha.
Ainda era cedo, ninguém tinha levantado e eu fui para o tanque.
Lavei as cuecas, pendurei e me preparei para enfrentar aquela mancha.
Mergulhei a perna da calça na água, peguei uma escova, derramei
um pouco de sabão em pó e comecei a esfregar.
CAPÃO DA CANOA 38

A mancha diminuiu um pouquinho de tamanho, mas continuava lá, indi-
ferente ao meu esforço e me desafiando a exterminá-la. Não tive dúvidas.
—Vou passar para algo mais forte, pensei apressadamente.
Agachei e procurei entre os produtos embaixo do tanque, pegando o
primeiro em que li o nome detergente. Era um tal de Ajax, detergente
para limpeza geral.
—É esse mesmo, toma sua danada. E esguichei um pouquinho.
Na mesma hora a mancha empalideceu, ela e a calça também.
—Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Joguei logo água por cima na tentativa de diluir o produto e recuperar
a cor do tecido. A mancha se espalhou por mais alguns centímetros. A
cagada estava feita. Mergulhei a calça toda na água do balde e esperei
por algum milagre, que não aconteceu. Eu só me aventurei a lavar as

Paulo Maciel
camisetas, um dia antes de voltarmos. Mas essa é uma história que fica
pra outro dia.
Nesse dia não me lembro de nenhuma outra mancada, só sei que
desisti da tinturaria e voltei para o meu relatório. Também não tirei uma
foto sequer, mas Paulo tirou muitas e então eu posso descrever o que
fizemos no resto do dia.
Saímos para caminhar, pois fazia um lindo dia de sol. Li levou uma
canga e suas sandálias, mas dessa vez desistiu do chapéu. Fomos nova-
mente em direção da plataforma e voltamos do meio do caminho, pois ela
parecia ter ficado mais distante.
Tiramos fotos sob o portal do “Verão Gaúcho”, para marcar nossa pre-
sença e buscamos nossos apetrechos de praia pra curtir mais um solzinho.
Eis que surge, entre os habituais ambulantes de rede, uma figura
pitoresca, com seu palavreado cantarolado e sem nenhum sotaque regi-
onal, um vendedor de pastéis.
—Bom dia meussss senhores e minhassss senhorassss, é um lindo dia
desssste ano de dois mil e sete nessssta maravilhosa praia de Capão da

Paulo Maciel
Canoa. Vão quererrrr saboriarrrrr um delicioso passsstel quentinho? Tem
de siri, tem de camarão, tem de queijo e tem de palmito, passstel assssado
com massa fressssquinha, falava ele acentuando os esses e erres.
Li, que parecia já conhecê-lo de outras épocas, se apressou em pedir
um pastel de camarão.
CAPÃO DA CANOA 39

Ofereceu-me uma mordida e eu logo percebi que não seria suficiente,
pedi outro do mesmo tipo, desta vez acompanhado por uma Liber, que
leváramos num isopor.
—Muito obrigado, senhora e senhoresss, tenham todosss um bom dia
e um bom ano de dois mil e sete e até mais verrr pois estaremosss aqui
todosss osss diasss para atênde-losss, se Deusss quiserrrr e perrrrmitirrrr.
Passem bem e muuuuuuiiiito obrigado!
Era realmente uma figura engraçada. Parecia não ter noção do que
falava, de tão artificiais que eram suas construções verbais e a maneira
como as repetia. Embora o seu pastel fosse maravilhoso, certamente, ele
sabia que era daquela encenação que advinha o seu sucesso nas vendas.
Voltei da praia mais cedo, pois já eram 12h30 e o protetor já não era
garantia de nada. Paulo e Li ficaram mais um pouco e voltaram contando
sobre as gracinhas do cachorrinho do salva-vidas que registraram em foto.
Depois do almoço, sempre acompanhada por uma taça de um delici-

Paulo Maciel
oso vinho rose, que a prima Neci nos presenteara, o descanso era inevi-
tável. Desta vez, entretanto, acordamos mais cedo, eram 16h20 quando
fomos à Lan House para nos comunicarmos com os nossos. Tentei inutil-
mente encontrar alguém on-line, mas mandei um e-mail com algumas O baset do salva vidas
fotos para a família e os amigos.
Gastei meus quinze minutos e fui acompanhar o tempo de Paulo e Li,
que preferiram comprar meia hora. Ambos se revezavam falando com seus
filhos no MSN de Paulo, ora ele conversava com Danilo, ora ela com as filhas.
Fiquei controlando o tempo, achando que os ajudava.
—Faltam cinco minutos...faltam dois...falta um
Paulo saiu dali aborrecido por não conseguir falar direito com Danilo e
por Li ter usado o seu endereço de MSN e não o dela.
Li, por sua vez, indagava se havia algo a esconder e não aceitava a
argumentação intransigente de Paulo.
No dia seguinte os ânimos continuavam acirrados, mas não vou con-

Paulo Maciel
tar o que aconteceu. Em vez disso vou criar uma alegoria para nos lem-
brarmos de não repetir a dose.

Indo a Lan House Ruda
CAPÃO DA CANOA 40

E ra uma vez, duas grandes nuvens que se
conheceram em uma montanha muito alta
e muito linda. Seus dias eram de muita labuta e
reconstrução constantes.
Alegoria das Duas
Toda vez que viam seus espaços diminuírem,
por causa das chuvas, juntavam forças e
Nuvens
agregavam logo novos flocos recém formados ao
seu domínio.
Certo dia, cansados da rotina que os alimentava,
resolveram dar um passeio pela costa do continente.
Pediram ao vento que os acompanhassem nessa
aventura, pois que seria muito bem vindo para
gozarem juntos de novos ares.
Foi o vento, prontamente, sem pestanejar, pois
já estava cansado dos uivos incessantes dos
rochedos montanhosos.

Fábio Grossi
Partiram os três, curtindo os tobogãs montanha
abaixo e sentido o friozinho da sensação de
liberdade que se oferecia.
Passaram-se os dias e o sol escaldante do litoral
já não tinha forças para levantar mais nenhuma
gota de orvalho do mar. Então as nuvens
começaram a se dissipar no imenso céu.
CAPÃO DA CANOA 41

—É por tua culpa. Disse ele à companheira
sem refletir.
—Agora queres voltar correndo para nosso lar?
Pois não há uma brisa que nos leve.
—Se é por minha causa, parto eu sem vós e os
deixo buscar recursos no mar abafado. Disse o
vento preocupado.Como não resolviam a
pendenga, ela pôs-se a chover num canto e o vento
se ocultou por algumas horas atrás de um
penhasco próximo.
Vendo que suas palavras ríspidas tornavam
mais difícil a solução do problema, pois além de
sua companheira se dissolver ainda mais rápido,
não teriam a força do vento para soprá-los de volta.
Arrependido por seu julgamento precipitado e
intolerante, voltou-se à companheira e ao vento
amigo e desculpou-se.
Rapidamente, como que por encanto, as forças
da natureza se puseram a seu favor e espessos
flocos solidários se juntaram. E o vento, que não
sabia ter um amigo tão consciente do valor dessa
amizade, voltou a soprar forte, tentando tornar
o passeio cada vez mais agradável e favorável,
até que resolvessem voltar para sua montanha.
CAPÃO DA CANOA 42

Sei que a alegoria não corresponde em gênero, número e grau aos
fatos que se desenrolaram naquele dia. Minha intenção é estabelecer um
ponto de referência para nossa própria intolerância, no cotidiano das re-
lações humanas.
Quantas vezes não acordamos mal humorados, esquecendo que nenhu-
ma das pessoas ao nosso redor merece sofrer por nossa desarmonia interior?
De fato, quando nossa natureza é orientada para o bem e para o
justo, a tolerância e a humildade devem nortear nossas ações.
O fato é que, já de saída para o almoço, estávamos plenos da certeza
que dali para frente nada estragaria nossas férias novamente.
Seguimos para o restaurante próximo, onde iríamos conhecer a qua-
lidade do tradicional PF (prato feito).
Decepcionamo-nos com o PF, mas adoramos a novidade que o local
oferecia. Poderíamos levar nossos notebooks e conectá-los gratuitamen-

Fábio Grossi
te à Internet via wireless.
De noite, como havíamos prometido ao dono do estabelecimento, lá
estávamos nós.
Nove horas e quarenta e cinco minutos da noite, mais meia hora até
que meu equipamento conseguisse carregar todos os drivers e progra- Paulo mal humorado

mas instalados e plim plim, a aldeia global entrava em ação... estávamos
conectados com nossos filhos e filhas.
Falei com minha querida filha Lara, que custou a configurar seu MSN
para funcionar com a webcam. Eu estava ansioso para contar as novida-
des sobre o local e mais ainda para saber se estava tudo bem em casa.
Saímos do bar quando faltavam quinze minutos para meia noite. Cus-
tou para que conseguíssemos estabelecer uma comunicação perfeita.
Estávamos determinados a voltar constantemente ao local, mas essa
é mais uma história que deixarei para depois.

Fábio Grossi
Já passou...
CAPÃO DA CANOA 43

12h34 do dia 21/03/2007
Fico cada dia mais entusiasmado em escrever meu pequeno
diário, relatório ou qualquer outro rótulo que se queira dar. Hoje
eu pesquisei na Internet sobre Tatuíra. Tatuí (que significa peque-
no tatu em tupi) ou tatuíra (Emerita brasiliensis) é o nome dado
ao pequeno crustáceo decápode, que mede cerca de 3 a 4 cm
e que é encontrado fazendo escavações de pouca profundida-
de nas praias arenosas brasileiras. Tem coloração branca. Sua
semelhança com os tatus valeu-lhe o nome comum.

XI

Fábio Grossi
Farofa com Tatuíra
Sol nascente em Capão da Canoa

J á estávamos no dia oito de março, nosso quarto dia na praia de
Capão da Canoa. Acordei com pernilongos, pois me esqueci de
fechar a janela ao dormir. Acho que devia estar fazendo uma temperatura
agradável e eu não liguei o ventilador de teto. Ele sempre ajuda a espan-
tar os bichinhos impertinentes.
Estava sem sono, ainda eram cinco horas da manhã, muito cedo para
fazer qualquer coisa... ou talvez não.
Sem fazer muito barulho, vesti bermuda, camiseta e boné, peguei
minha P10 da Sony e fui à praia registrar o nascer do sol.
—Será que é seguro? perguntei-me ao sair do prédio.
Na quadra seguinte, o vigia do supermercado ainda estava trabalhan-
do. O resto da rua estava totalmente deserto e somente as luzes da cida-
de a iluminavam.
—Boa noite!
CAPÃO DA CANOA 44

Fábio Grossi
Fábio Grossi
—Boa noite! respondeu ele com ar desconfiado.

Fábio Grossi
—É seguro tirar fotos na praia a essa hora?
—Não tem perigo, não, respondeu com convicção.
Tirar foto do quê nessa escuridão? foi o pensamento que ocorreu
sobre o que estaria ele pensando a meu respeito.
Mas em pouco tempo, antes mesmo que eu atingisse o final do quar-
teirão, uma luminosidade já se impunha contra o azul profundo, criando
um imenso “degradê” de tons mais claros.
Apressei o passo, não queria perder o grandioso espetáculo que, cer-
tamente, a natureza me ofereceria.
Eliminadas as que ficaram fora de foco ou tremidas, ainda sobraram
quarenta e oito registros dessa manhã maravilhosa.
CAPÃO DA CANOA 45

Já não tinha dúvidas sobre como ocupar minhas insônias matinais.
Quando voltei ao apartamento, Paulo e Li já tinham se levantado e se
preparavam para a praia.
—Hoje no almoço vocês vão conhecer um novo prato, disse eu duran-
te o café da manhã.
—Se você fizer um arroz pra acompanhar, eu preparo uma farofa
de corrupto.
—O que é corrupto? perguntou Li sem saber a quê eu estava
me referindo.
Expliquei que se tratava daqueles pequenos bichinhos, que se enter-
ram rapidamente na areia logo que a onda se afasta.
—O pessoal do lugar os usa como isca.
—Ah, tatuíra!? exclama ela em tom de dúvida.

Eliane Monteiro
—Não sei qual o nome que vocês dão aqui, eu e a Lara comemos isso
na Bahia e é uma delícia. Lá a gente conheceu pelo nome de corrupto.
Municiei-me de um saquinho plástico para pôr os bichos e fomos
para a praia.
Pensei em fazer minha caminhada pegando os bichos aqui e ali du-
Caça ao Tatuíra
rante o trajeto, mas ao começar minha jornada de caça, notei que não
conseguiria pegar o suficiente para forrar o fundo da frigideira.
O bicho é ligeiro, mas quando o pomos de costas, se finge de morto.
Eu queria evitar o excesso de areia no saquinho para facilitar a limpeza e
o preparo do prato. Desenterrava-o e com a mão semi-serrada mergulha-
va-o na onda para limpar a areia. Pô-los no saquinho estava sendo a
parte mais difícil, pois o vento não colaborava nem um pouco. Soprava
forte e quando eu abria a boca do saco, ele se inflava e sacudia forte.
Paulo se aproximou para fotografar e notando minha dificuldade, sugeriu
que eu pusesse um pouco d’água no fundo. Fiz isso e a situação ficou um

Eliane Monteiro
pouco melhor, mas o processo ainda era lento.
Depois de tirar algumas fotos, Paulo resolveu me ajudar, passou a
câmera para Li e começou a escavar em um único lugar, ampliando aos
poucos o diâmetro do buraco. Esse processo mostrou-se muito produtivo,
pois os bichinhos brotavam a toda hora, nadando no pequeno laguinho
que se formara e eu os coletava com rapidez, já enxaguados. Não demo- Bichinho ligeiro
rou nada para termos o suficiente.
CAPÃO DA CANOA 46

De volta ao apartamento, Paulo acompanhava descrente a movimen-
tação na cozinha enquanto eu e Li preparávamos o almoço.
Depois de lavado e escorrido, exprimi umas gotas de limão e deitei
em uma frigideira quente. Usei margarina com um pouco de óleo de gi-
rassol para não queimar.
A cor era agradável, o cheiro inebriante, parecido com o de camarão
frito. Umas pitadas de manjericão e para complementar uma cebola cor-
tada em rodelas. Esperei até que a cebola ganhasse aquele tom transpa-
rente, identificando maciez e então finalizei com a farinha de mandioca,
bem pouca para manter a umidade da farofa.
Enquanto aguardava que o arroz terminasse de cozinhar, tirei dois
tatuíras da frigideira e os coloquei sobre a pia para esfriar e eu poder
prová-los. Provei um e Li provou o outro fazendo comentários elogiosos.

Paulo Maciel
Paulo, sempre mais reservado e cauteloso, tirou um direto da frigideira e,
sem olhar para o bichinho para não perder coragem, mandou para dentro
da boca. Provado e aprovado por todos servimo-nos de farta porção.
—Nossa, dava pra vender na praia!
—Com tanto bichinho dando sopa pela praia toda, ninguém ia
Preparo da farofa de tatuíra
querer comprar.
—Duro deve ser convencer as pessoas a experimentarem.
Conversa vai, conversa vem, não sobrou um tatuíra na frigideira.
Mais tarde Paulo e Li tiveram azia, não se pode dizer que foi por causa
da farofa, afinal eu não senti nada, mas os dois resolveram riscar essa
iguaria do nosso cardápio. Tatuíra, never more.
À noite, voltamos ao bar com conexão wireless para notebook gratui-
ta, como havíamos combinado. Entramos sem muita cerimônia, uma vez
que já tínhamos estado ali no dia anterior e o movimento da praia estava
muito baixo, ou seja, o bar estava com poucos fregueses.
Pedimos as bebidas de praxe e uma porção de batatas, por sinal
muito boa, macia, sequinha e crocante por fora.

Paulo Maciel
Eu, como sempre, vou de Líber - cerveja sem álcool por causa dos remédi-
os do Parkinson - pois adoro o sabor da cerveja e essa marca me conquistou.
Ocupamos as mesas mais próximas do roteador, por causa do sinal e
instalamos nosso equipamento. Chimarrão após o almoço
O lugar que nós estávamos era uma mistura de restaurante, bar,
padaria, loja de conveniências e cyber café. Montado em uma casa com
CAPÃO DA CANOA 47

três espaços distintos e interligados. Na parte da frente, uma varanda
coberta com algumas mesas; no corpo da casa um balcão de padaria, o
caixa e algumas gôndolas com produtos; na parte do quintal um terraço
coberto com mesas, tv, uma ilha de computadores e espaço para karaokê.
Eu estava feliz com a idéia de podermos mandar fotos e relatarmos
nossa estadia com freqüência. Porém meu notebook não estava muito
disposto a colaborar comigo. Estava demorando muito para ligar e come-
çar a funcionar por causa do Norton Antivírus, programa muito pesado
para o pobre processador Transmeta da PCChips.
Repentinamente, ouvimos alguns gritos e xingamentos vindos da parte
interna da casa.
Logo em seguida um garçom se apresentou, dizendo que teríamos
que encerrar nossa conta, pois estariam fechando a casa por algum pro-

Eliane Monteiro
blema de cunho pessoal.
Fui pagar a conta no caixa e notei que a mulher falava com alguém ao
telefone, estava muito irritada com a ausência do dono do estabeleci-
mento, possivelmente seu marido.
Pediu-me desculpas pelo inconveniente, deu-me o troco e voltou a res-
No bar com conexão wireless gratúita
mungar e praguejar para os funcionários que não sabiam onde se enfiar.
Saímos dali boquiabertos, supondo que a mulher estivesse com tpm.
Embora a proposta do bar fosse muito interessante, não voltamos
mais para conferir se o ânimo da mulher tinha melhorado.
CAPÃO DA CANOA 48

16h00 do dia 22/03/2007
Estou enrolando um pouco para reiniciar o texto, não sei que
ênfase dar aos acontecimentos do dia 9. Embora tenha sido um
dia de muitos prazeres culinários, não ocorreu nada curioso ou
engraçado, digno de registro.

XII
Churrascaria Estância Gaúcha

Eliane Monteiro
Pela primeira vez levamos chimarrão para tomar na praia, é incrível E tome chimarrão
como o líquido quente dessa bebida sacia a sede.
O dia estava muito limpo e com uma brisa suave, próprio para ficar
curtindo ao sol e ouvindo o murmúrio das ondas.
Entretanto, eu estava decidido a fazer minha caminhada todos os
dias e segui em direção à plataforma de pesca mais uma vez. Lembrei-
me que todas as vezes em que estive na praia colecionei algumas
conchinhas pra guardar de recordação. Como não tinha levado saquinho
fui catando com uma das mãos e colecionando-as na outra após enxaguá-
las. Pegava todas que achasse interessante, fosse pelo colorido ou pelo
formato. Não havia muita variedade, mas quando cheguei na plataforma
já estava com a mão cheia.
Entrei por baixo da plataforma com a água batendo pela cintura e de
um dos pilares retirei dois mariscos grandes, era o que cabia na outra mão.
Voltei apertando o passo, pois já tinha se passado muito tempo.
—Pensei que você tivesse se afogado, já ia comunicar seu sumiço ao
salva-vidas, disse Paulo fazendo graça.
CAPÃO DA CANOA 49

Sentei numa das cadeiras e servi-me de uma cuia de chimarrão com
o que restara de água quente na garrafa térmica.
—He, vida dura! exclamei debochando.
Li me conta que conseguira trocar uma das mantas pelo par correto.
Desde que chegamos à praia, e compramos redes e mantas no primeiro
dia, ela vinha tentando encontrar uma com padrão igual. Acabou com-
prando uma de padrão semelhante, mas se arrependeu. Não sei quem
teve mais sorte, se ela ou o vendedor que, para trocar a manta, forçou a
venda de mais uma.
Ficamos mais um tempo curtindo o mormaço e o ruído das ondas.
Estávamos num paraíso: sol, sossego, brisa fresca e o pensamento perdi-
do nos prazeres da vida. Por toda essa tranqüilidade, nos esquecemos do
tempo e quando nos demos conta já era bem tarde. Tínhamos planejado

Eliane Monteiro
almoçar fora e os restaurantes não estariam abertos depois das 14 horas.
Tomei banho, me arrumei e enquanto eles tomavam banho cozinhei
os dois mariscos.
Comi um e dei o outro para Li experimentar.
—Esse vai ser o nosso almoço de amanhã. Finalmmente Eliane encontra a manta igual
Li aprovou a idéia, marisco ela já conhecia e não tinha medo que
fizesse mal.
Nosso café da manhã era sempre muito gostoso, mas nossas experi-
ências de almoço em restaurantes foram bastante frustrantes até então.
Paulo tinha pego de um panfleto, distribuído na praia, que anunciava
um bufê livre com carnes grelhadas. O anúncio parecia interessante, pois
se tratava de uma churrascaria. Seguimos então para o endereço que era
bem próximo e fomos os últimos a chegar. Logo depois de entrarmos, as
portas foram fechadas para encerrar o expediente.
As opções do bufê eram bem variadas e o aspecto da comida bastante

Eliane Monteiro
atraente. Como resultado, fiz um prato muito grande com um pouco de
cada coisa. Embora tivéssemos chegado tarde ao local, fomos muito bem
tratados, o garçom trouxe-nos todos os grelhadod de que a casa dispunha.
Paulo fez questão de registrar o tamanho do meu prato e quando
saímos Li tirou mais uma foto para mostrar os dois glutões de barriga
estufada. Pura onda, Paulo come como um passarinho, nunca se excede a A manta de quatro tons de Eliane
não ser na cerveja.
CAPÃO DA CANOA 50

Não tínhamos alternativas, depois de um almoço daqueles era neces-
sário um descanso.
O jantar já estava planejado, a carne que compráramos dias antes
não duraria muito tempo na geladeira.
Li vinha prometendo uma receita de rolo de carne ao forno muito
gostosa. Receita que tinha baixado na Internet e ambos já haviam prova-
do e aprovado.
Paulo fez o arroz, perfeito e soltinho. Mas a comilança do almoço não
deixou muito espaço para o jantar. E foi assim que pela primeira vez eu

Paulo Maciel
fui obrigado a aceitar apenas um pequeno pedacinho do rolo de carne, só
para não fazer desfeita.
O almoço do dia seguinte já estava garantido, embora muito saboro-
so ninguém agüentou comer muito no jantar daquele dia.
Prato caprichado

Eliane Monteiro
Os barrigudinhos da mamãe
CAPÃO DA CANOA 51
13h17 do dia 23/03/2007
Estou pronto para começar mais uma passagem
divertida de nossas aventuras nesse passeio
delicioso. Cuia de chimarrão do lado do teclado e garrafa
térmica com água bem
quente, um autêntico convertido.

XIII
Salvo pelo Photoshop

Fábio Grossi
C aí da cama outra vez. Propositalmente, é claro. Fiquei bem
entusiasmado com as primeiras fotos do sol nascendo no
mar de Capão da Canoa. Dessa vez saí mais cedo, passei pelo vigia
O dia amanheceu com uma tonalidade incrível

do supermercado, cumprimentando-o e segui rápido para pegar os
primeiros raios de sol.
As cores estavam mais vivas, mais intensas. Segui pelo lado direito
do canal para fotografá-lo despejando suas águas no mar. A praia em si
não apresenta muitos elementos naturais como rochas, contornos ou ve-
getação que se possa incluir como elemento de composição. Fotografar o
canal era uma forma de criar fotos diferentes das tiradas anteriormente.
O reflexo do céu na água, que corta de forma sinuosa as areias da
praia, cria um recorte curioso transformando o pequeno e raso leito num
largo espelho d’água indo para o mar.
Tiro várias fotos, sem me importar muito com o lixo preso às bordas,
são sacos plásticos e canudos de refrigerante fáceis de retocar no Photoshop.
Se me detenho para retirar o lixo deixado por estúpidos usuários
inconscientes, corro o risco de perder momentos fugazes desenhados
pela luz que se altera rapidamente.
A praia era a mesma, a máquina também, mas a cor do céu, a luz
CAPÃO DA CANOA 52

Fábio Grossi
Fábio Grossi
filtrada pelas nuvens do horizonte e a disposição para criar elementos

Fábio Grossi
visuais diferentes fazem da fotografia uma forma de expressão ímpar.
Com um pouquinho de boa vontade, é possível fazer centenas de fotogra-
fias de um mesmo tema sem se repetir.
Embora minha câmera seja de um modelo bem simples, não consigo
fazer fotografia sem explorar cada recurso. Aumento e diminuo o fator de
luminosidade, altero os tons usando a regulagem do branco para cada
temperatura de luz, uso recursos automáticos de solarização, sépia e
todos os demais. Toda essa maratona tem que ser feita de modo rápido e
preciso, são muitas fotos e algumas são eliminadas segundos depois se,
pelo visor, percebo que não ficaram boas.
Já havia tirado umas quarenta fotos, quando alguém me toca o ombro.
—Oi! diz em voz tímida o garoto.
CAPÃO DA CANOA 53

Fábio Grossi
Fábio Grossi
Era o filho do zelador do prédio onde estávamos hospedados.

Fábio Grossi
Eu já havia conversado casualmente com ele em duas outras vezes.
Uma vez quando pegava ondas sem prancha e o instruí, para que não
levantasse a cabeça se quisesse ir mais longe com a onda. E uma segun-
da vez, quando o vi pescando na beira da praia com um pedaço de tela de
nylon e ele me dirigiu a palavra, contando que conseguiu ir muito mais
longe no jacarezinho, seguindo minha dica.
Desta vez ele trazia uma vara de pesca pequena de bambu e usava
tatuíra como isca.
—Oi, veio de vara hoje, a rede não deu certo?
—Deu sim, mas com vara eu pego peixes maiores.
—E a isca?
CAPÃO DA CANOA 54

Fábio Grossi
Fábio Grossi
Ele abriu a mão mostrando o bichinho e eu fotografei sem regular a máquina.

Fábio Grossi
O foco estava regulado para infinito, sua mão ficou fora de foco e só
os seus pés e as bolhas de espuma deixada na areia da praia ficaram
nítidos. Não tive coragem de apagá-la.
—Vai ali que eu vou tirar mais uma.
Ele se afastou e fez uma pose estudada, estufando o peito e seguran-
do a vara com a pontinha dos dedos.
Esperei que ele se distraísse com a pesca e tirei outras fotos. Voltei
a fotografar o sol e em três delas consegui um efeito que deixaram o
mar dourado.
Viro-me para onde estava o garoto e lá vinha ele todo eufórico com seu
primeiro peixe do dia. Uma coisinha insignificante que mal aparece na foto.
CAPÃO DA CANOA 55

Mas a imagem ficou ótima, a espontaneidade do garoto e a ilumina-
ção deixaram a foto com uma beleza surreal.
Terminada a sessão de fotos, voltei para o apartamento e já nos pre-
paramos para sair de novo. Desta vez vamos pegar mariscos nas colunas
da plataforma de pesca.
Minha coleção de conchas estimula Li a fazer uma igual, antes ela só
colecionava aquelas com o formato semelhante ao símbolo da Shell. Des-
sa vez saímos os três colhendo as conchinhas atraentes, que encontráva-
mos pelo caminho. Ela foi guardando todas no saquinho que levávamos
para trazer os mariscos.
Curiosamente, estava muito mais escasso o número de conchas que
no dia anterior. Lá pela metade do caminho, encontramos uma família e
nas mãos da mãe um balde lotado das que estávamos sentido tanta difi-
culdade para encontrar.
—Tá explicado! exclamei brincando.

Paulo Maciel
—Acordaram mais cedo.
—Pois é, respondeu Li desanimada.
É claro que brincávamos com a situação, tantas conchas daquele jeito
devem ter sido fruto de alguns dias na praia. Mesmo assim Li conseguiu
Procurando as conhas no caminho
juntar muito mais do que eu, afinal eram mais dois a ajudá-la.
Chegamos ao nosso destino depois de lavar várias vezes os pés, por
causa das águas nos canais. Numa das vezes entrei tanto na água que
uma onda traiçoeira molhou-me os bolsos das pernas da bermuda, onde
eu havia posto o dinheiro. Paulo estava tão afiado com a câmera que
registrou o momento como se tivesse combinado.
—Até chegarmos lá, a bermuda seca, disse Li se referindo à distância.
Pois chegamos e ela realmente tinha secado, só que não tinha a mes-
ma cor do resto. Tirei a camiseta, a bermuda e fiquei de sunga. Equilibrei
a roupa dobrada sobre um tronco fincado na parte seca da praia e já ia
entrando, quando percebi que havia outros banhistas por perto.

Paulo Maciel
Pedi a Paulo que ficasse de olho na roupa, enquanto eu fosse pegar os
mariscos. Ele queria registrar o momento com sua câmera, então sugeriu que
eu mudasse a roupa para outro lugar mais visível, usando a borda de concreto
que se projetava para fora da mureta, na altura do piso da plataforma.
Entrei n’água carregando uma pequena faca e pensei que Li estivesse Pegando mariscos na base do pilar
me acompanhando com o saco plástico. Li experimentou a temperatura
da água e achou que estivesse fria demais.
CAPÃO DA CANOA 56

As ondas estavam mais fortes e junto aos pilares havia uma depressão
acentuada. Consegui desgarrar dois mariscos do emaranhado de vegetal
ao qual eles costumam se fixar. Eram dos grandes, não havia muitos da-
quele tamanho e seria trabalhoso tirá-los um a um com as ondas batendo
tão forte. Virei-me para pô-los no saco e então percebi que Li não tinha me
acompanhado. Saí da água ao seu encontro explicando a situação: demo-
raria muito fazer aquela operação com ela tão longe. A um passo do pilar,
era bem mais raso do que ela pensava, a água batia na altura da coxa.
Entrei novamente disposto a enfrentar a força das ondas, ela acompa-
nhou tentando convencer-me a tirar uma penca para separá-los depois.
Apalpando sob a água encontrei uma borda saliente por onde eu podia
segurá-los. Puxei sem fazer tanta força e uma manta de mariscos despren-
deu-se com facilidade do pilar corroído. Dois tantos daquele foram suficien-
tes para encher o saquinho, embora eu soubesse, numa primeira olhada,

Paulo Maciel
que muitos não seriam aproveitados. Devíamos tê-los escolhido ali mesmo
na beira da praia, mas a pressa e a inexperiência nos fez carregar um saco
pesado, marcando-nos as mãos pelos três quilômetros de caminhada.
Eu não tinha a noção do peso até que, a meio caminho da volta, tirei
o saquinho das mãos de Paulo. Li vinha insistindo para carregá-lo, mas Sacola de mariscos estava bastante pesada

dois cavalheiros não podiam deixar uma dama carregar um peso daque-
les. Complexo machista mais besta.
Senti um alívio danado, quando já bem perto do apartamento Paulo
se ofereceu para carregá-lo novamente.
Chegamos ao apartamento e fomos direto ao serviço, ninguém to-
mou banho. Sentamo-nos na varanda usando as cadeiras de praia, no
chão um balde com os bichos e uma panela para os escolhidos.
Paulo botou água para ferver enquanto separávamos uma porção con-
sistente. Entre as pencas vários filhotes de siri se revelavam assustados.
Paulo brincou com os bichinhos, registrando em filme um dos maiores,
não passava do tamanho de uma tampa de refrigerante.

Paulo Maciel
Depois de cansá-los colocou todos enfileirados no beiral da sacada e
sarcástico perguntava:
—Siri sabe voar? Em seguida os atirava do sétimo andar onde estáva-
mos, no gramado do canteiro central da avenida dizendo:
Seleção dos mariscos maiores
—Voa sirizinho, voa.
CAPÃO DA CANOA 57

Eu o repreendi por tamanha malvadeza, mas ele replicou dizendo que
com o peso dos bichinhos e a grama macia eles teriam boa chance de
sobreviverem.
Separados os mariscos, fomos à cozinha preparar o almoço. Enquan-
to eu picava tomate e cebola para os mariscos, Li requentou o arroz, o
rolo de carne e ainda separou os moluscos das conchas depois de cozi-
dos. Macios e com seu sabor característico, os mariscos foram um gosto-
so complemento para aquele almoço.
Estava tudo perfeito, mas ainda não tínhamos tomado nosso banho.
Aproveitei enquanto eles se banhavam para descarregar as fotos no meu
notebook. Ao saírem do banho encontraram-me irritado por terem me
fotografado quase sempre de perfil. Tenho a coluna acentuadamente cur-
vada e o abdomem se projeta para frente de uma forma antiestética.

Paulo Maciel
—Ah! Vocês querem ver eu acabar com essa barriga?
Em menos de cinco minutos a foto estava retocada no Photoshop e
esteticamente aceitável. Paulo ainda deve ter a foto original, mas quem
quiser vê-la, vai ter que falar com ele.
Depois do banho, saímos os três a passear pelo centro comercial do
Mariscos do almoço lavados e cozidos
bairro. Fomos até o banco, Paulo queria tirar algum dinheiro, usando o
sistema 24 horas, mas não acertava a senha da conta recém criada na
Caixa Econômica. Tentou duas combinações, não arriscou a terceira, pois

Paulo Maciel reeditada por Fábio Grossi
teria o cartão bloqueado.
Voltamos ao apartamento e tivemos a oportunidade de apreciar o
mais lindo pôr-do-sol da temporada. O céu estava tingido de um verme-
lho tão intenso que mais parecia um gigantesco incêndio românico.
Eu estava bastante cansado e ao invés de ficar assistindo tv com os
dois, preferi ir para a cama mais cedo.
Onze e trinta da noite ouço meu celular tocar insistentemente.
—Alô?
—E aí, tudo bem? Disse a voz do outro lado da linha.
Eu estava tão sonado que não consegui descobrir quem era. O sotaque
tão diferente e fora do padrão regional me deixou mais confuso ainda.
Pensei que fosse engano, mas respondi de maneira mecânica.
—Tá, tudo bem. Milagre do Photoshop
—Está curtindo o passeio? E eu continuava sem saber com quem falava.
CAPÃO DA CANOA 58

Paulo Maciel
Paulo Maciel
Certamente, a pessoa do outro lado sabia quem eu era.
—Tá ótimo, estou me divertindo muito.
—Eu fiquei pensando se você tinha ou não levado o celular.
—Trouxe, sim, mesmo de férias pode surgir alguma coisa importante...
—Estou sentindo falta das nossas reuniões de quarta feira. Finalmen-

Paulo Maciel
te aliviado, descubro quem era o dono da voz misteriosa.
—E aí Valero, está tudo bem aí em Bauru?
—Está tudo certo. Quando é que você volta?
—Dia 16, eu também sinto falta das nossas reuniões.
—Então está bem, aproveite bastante, curta bastante.
Conversamos rapidamente por mais alguns segundos. Eu não acredi-
tava no que estava acontecendo. Isso que é um amigo de verdade. Está
sempre ligado e procurando fazer contato. Voltei para cama satisfeito e
pensando em como era bom ter um amigo como ele.
CAPÃO DA CANOA 59

16h16 do dia 24/03/2007
Estou conseguindo escrever um capítulo por dia, nesse ritmo
daqui cinco dias termino toda história do nosso passeio.

XIV
Show de Câmera

Fábio Grossi
A cordei ansioso para fotografar o nascer do sol mais uma vez. No
dia anterior, vendo o resultado de minhas fotos, Paulo ofereceu
sua FinePix para que eu fizesse um teste.
Desta vez poderia usar o zoom ótico de dez vezes, trazendo o hori-
zonte para mais perto, comprimindo o campo entre o sol e a praia. Podia
também enquadrar cenas mais amplas do que com a minha P10. Além
disso, o visor interno ajudava bastante no enquadramento e visualização
das fotos tiradas.
—Maravilha! pensei entusiasmado com as possibilidades.
Segui para a praia, mas desta vez não vi o vigilante em seu posto.
—Acho que no domingo ele também descansa.
Meus pensamentos mantinham uma espécie de diálogo, se isso é
possível, eu tinha que descobrir a melhor regulagem da máquina fazen-
do-me perguntas e tentando respondê-las.
—Qual a definição da imagem?
—Três ponto cinco mega pixel, essa é a resolução máxima dela.
Sem os óculos tento ler o menu e faço uma opção errada. Confundo
RAW com B&W. Tiro minhas quatro primeiras fotos em Preto e Branco.
—O que fiz eu de errado, cadê a cor? Descubro a regulagem de dioptria
e acerto melhor o foco do visor.
—Imbecil! Está em PB.
CAPÃO DA CANOA 60

Fábio Grossi
Fábio Grossi
Examino as fotos, estão ótimas, não foi de propósito, mas decido
guardá-las. Às vezes o acaso nos surpreende positivamente.

Fábio Grossi
Não conheço todos os recursos da máquina, mas logo percebo que
ela responde com eficiência a todos os meu caprichos.
Cinqüenta e seis fotos, não tinha contado, mas estava satisfeito, fo-
tografei o suficiente para um dia. Volto ao apartamento e descarrego no
notebook para examinar melhor a qualidade do material.
Paulo e Li acordam e me encontram embasbacado com a qualidade
das imagens.
—É uma mais linda que a outra, sua máquina é fantástica!
—Olha que definição! Olha isso, ela congela a espuma, do jeito
que eu queria.
Eu estava simplesmente encantado.
CAPÃO DA CANOA 61

—Pode usar quando quiser, está à disposição, disse Paulo, demons-
trando sua amizade incondicional.
Eu não queria deixar o computador, mas a praia estava nos chamando.
Pegamos nossos apetrechos e nos dirigimos para um novo local, des-
ta vez ficamos exatamente ao lado do posto de salva-mar. Não seria
preciso montar o guarda sol, espalhamos nossas coisas, isopor com cer-
vejas, cadeiras e toalhas tomando conta da área sombreada.
Éramos os primeiros a chegar, ventava muito, mas o sol estava forte,
irradiando uma luz dura, com céu bem limpo num tom de azul mais escuro.
Luz dura é uma terminologia usada em fotografia para descrever a
luz que provoca sombras bem definidas e muito contrastadas.
O posto de salva-mar é uma estrutura de madeira em forma de pirâ-
mide e piso elevado, acho que tenho uma foto para ilustrar.
A idéia de usar a sombra daquela estrutura não era exclusividade

Fábio Grossi
nossa. Por mais que delimitássemos nosso espaço com nossos apetre-
chos, um passo pra cá ou um passo pra lá já não é território de ninguém.
Foram chegando e se acomodando, em pouco tempo estávamos rodea-
dos de gaúchos obesos e tagarelas, sem nenhuma noção de proxemia.
O sol ajudou bastante nos efeitos de reflexo
Todos querendo aproveitar a mesma sombra.
Não nos alteramos, estávamos ali para curtir. Peguei minha câmera e
resolvi que faria apenas filmes. Queria registrar o ruído incessante das on-
das daquele lugar. Diferente de outras praias, cujas ondas se quebram em
intervalos mais ou menos regulares e compassados, as ondas em Capão da
Canoa se quebram várias vezes ao longo da praia. Isso gera um ruído forte
e contínuo, bem menos relaxante que o outro ao qual estou acostumado.
Comento o fato com a Li, me esquecendo que esse é o ruído de mar
com o qual ela se identifica.
—Eu acho relaxante, você não acha?! diz ela sem entender do
que eu falava.

Paulo Maciel
Fui até a beira da água e entrei com cuidado para não ser surpreen-
dido por onda mais forte que pudesse molhar a câmera. Comecei com
cenas mais longas, acompanhando o movimento das ondas até passarem
por mim. Depois, tentei inutilmente registrar os peixinhos que vinham
nas ondas atrás das tatuíras e voltavam apressados junto com o refluxo. O posto de Salva-mar
Voltei para o nosso guarda-sol coletivo e apontei a câmera na direção
dos “pombinhos” que se apressaram em mostrar seus dentes dizendo xis.
CAPÃO DA CANOA 62

Vendo-os imóveis alertei dizendo:
—É filme.
—É filme? repete Paulo desmanchando a cara para foto e caindo na
gargalhada.
—Dá um beijinho aí, propus brincando.
Paulo se curva sobre Li e a beija com um forte ruído de beijo estalado.
—Eu decidi que agora à tarde só farei filme, disse-lhes depois do
corte de cena.
Fiz uma tomada do entorno e voltei a apontar a câmera para os dois.
Desta vez, não dizem nada, levantam os pés do chão e começam a
pedalar no ar.
Hora do almoço. Baterias esgotadas, deixamos recarregando e sem
câmeras, fomos a outro rodízio de grelhados. Como não há registro, não
sei dizer o nome do lugar, mas lembro bem que um aviso alertava sobre

Paulo Maciel
a cobrança extra para pratos que voltassem cheios de comida.
O coração de frango estava uma delícia e a banana empanada tam-
bém, fazia tempo que eu não curtia esse prato tão simples e fácil de fazer.
Lembrei-me que em casa, domingo após domingo, a comida não traz
opção diferente: Massa e joelho de porco. Voltando para o nosso guarda-sol coletivo

De onde será que vem essa tendência à obesidade?
—Não seria da sua mamãe? perguntaria com ironia minha esposa.
Aquele seria um domingo atípico, digno de recordação.
CAPÃO DA CANOA 63

00h52 do dia 26/03/2007
Hoje eu desenvolvi o primeiro projeto gráfico para uma possível
edição impressa desse texto. Pensei na possibilidade de editar
um cd, mas estou reticente em relação a isso.

XV
Sol, Mar e Lasanha ao Pene

Fábio Grossi
M eu entusiasmo em relação à beleza do nascer do sol e as fotos
que eu vinha tirando convenceram Paulo a acordar mais cedo.
Embora Eliane não estivesse muito convencida, pois esfriara um pouco
durante a noite, resolveu acompanhar-nos com sua pequena câmera digital.
Eu tinha sido contundente.
—Não há tempo para escovar os dentes, café da manhã ou qualquer
outra perda de tempo, deixem tudo para depois da sessão de fotos.
Tanto exagero fez com que Li nem pensasse em colocar uma roupa
mais fechada. Vestiu-se com o que estava mais à mão, uma blusa ridicu-
lamente pequena da prima Neci.
Na saída do prédio Paulo torce ligeiramente o pé e quase leva um
tombo. Reclama dos bifocais, mas mesmo sentindo alguma dor, resolve
continuar com o que havíamos planejado.
Chegamos à praia no horário previsto, mas por algum capricho da
natureza o sol estava sonolento e resolveu se levantar mais tarde.
—É esse o horário, gente! Senão não dá pra fotografar, quando os
primeiros raios tingem o céu antes dele despontar no horizonte.
—Mas não tem luz nenhuma, como é que eu vou fotografar? pergunta
Paulo desconfiado.
CAPÃO DA CANOA 64

Fábio Grossi
Fábio Grossi

Fábio Grossi
Ele havia levado um pequeno tripé e no horizonte podíamos ver as
luzes de uma embarcação. Sugeri a ele que montasse o tripé sobre a
mureta que separa a praia da calçada e tentasse usar o máximo do zoom
para fotografá-las. Teria sido uma excelente foto, se ele conhecesse bem
a regulagem de sua própria máquina.
Paulo agachou-se junto à mureta, colocou a máquina sobre o tripé
montado, mas não havia jeito dele acertar a mira. A posição incômoda ou
algum outro motivo fez com que ele se demorasse tanto, que a pequena
embarcação foi-se embora sem ser fotografada.
Sem tripé, eu e Li pusemo-nos a fotografar com a máquina apoiada
na mureta fazendo o enquadramento a esmo.
CAPÃO DA CANOA 65

Fábio Grossi
Eliane tenta se protejer do vento frio

Eliane
O tempo de exposição era enorme e as máquinas registravam as luzes

Paulo Maciel
que ainda não víamos de forma plena. Os primeiros registros foram feitos
em torno das cinco e quarenta e são imagens de grande efeito dramático.
Cada um de nós tirou aproximadamente sessenta fotos, já eram seis
e trinta quando resolvemos voltar.
Reclamando do vento frio, Li estava ansiosa por sair dali. Porém, a meio
caminho do apartamento resolvo convidá-los para tomarmos café em algu-
ma padaria, poupando Li do trabalho que se dispunha a fazer diariamente.
Caminhamos na direção oposta à da padaria chegando ao único esta-
belecimento que encontramos aberto àquela hora, um posto de gasolina.
—Não adianta Fábio, vamos embora. Nada aqui funciona antes das oito.
Mesmo assim, fui até o posto e perguntei ao funcionário.
CAPÃO DA CANOA 66

—A melhor padaria e a única que vão encontrar aberta fica logo alí,
passando a sinaleira.
Eu logo percebi que ele se referia ao semáforo, que denominam sinal
em algumas regiões e farol em outras.
—Vamos. Eu já sei onde é.
Saí apertando o passo para alcançar o Paulo, que já se punha de volta
por onde viemos.
De repente, tropeço em uma saliência da calçada e saio catando ca-
vaco por entre os dois que debocham dizendo:
—Calma! Aonde vai com tanta pressa.
Não cheguei a cair, mas depois da torção de pé do Paulo era bom ficar
esperto. O saci devia estar solto por ali. E há quem não acredite nos pestinhas.
O café estava bem gostoso, embora com um sabor diferente que só
mais tarde fui descobrir que se tratava de uma máquina de Nescafé.

Paulo Maciel
Li pediu alguns biscoitos e nos ofereceu dizendo que se chamavam
“cueca virada”.
—Hummm, gostosinha essa cueca furada! exclama Paulo pouco depois.
Voltamos para o apê onde, como sempre, nos besuntávamos com
Eliane e a lua
nossos protetores antes de ir para praia. Porém, desta vez o céu não
estava muito limpo e o sol brincava conosco de esconde-esconde.
Ao invés da tradicional caminhada, preferi lutar com as ondas e me
despedir do querido amigo mar, uma vez que no dia seguinte voltaríamos
pra Porto Alegre. Para variar, resolvi não levar minha cadeira, pois rara-
mente eles usavam as cadeiras que insistiam em levar.
Ao sair da água, com o sol encoberto pelas nuvens e o vento sopran-
do um pouco mais frio que os outros dias, encontrei-os sentados e sem
intenção de se deitarem.
—Justo hoje que eu não trouxe cadeira vocês vão ficar sentados?
—Ah é, engraçadinho! Por que é que você não trouxe a sua? disse Paulo
—Porque vocês nunca se sentam, trazem cadeira, mas ficam sempre

Paulo Maciel
deitados nas toalhas.
Peguei uma pequena prancha que se encontrava perdida na areia e
sentei-me sobre ela.
Eles estavam desanimados com a ausência do sol, mas não demorou muito Lavando as camisetas no penúltimo dia
ele voltou a aparecer. Paulo e Li estenderam suas toalhas, cedendo-me o lugar.
CAPÃO DA CANOA 67

Eu só não sei precisar a hora que saímos da praia.
Sei, por ter anotado, no rascunho, que o almoço daquele dia foi
macarrão pene ao sugo e que depois saímos pelo centro comercial e
tomamos chuva.
A quantidade de macarrão que Li fez no almoço era tão grande que no
jantar demos uma incrementada com queijo e presunto e ela se transfor-
mou numa saborosa lasanha.

Eliane Monteiro
Por todo lugar que andávamos, Eliane não conseguia
ver uma flor sem fotografá-la

Eliane Monteiro
CAPÃO DA CANOA 68

16h00 do dia 26/03/2007
Tentei criar outro projeto gráfico que ficou bem melhor, mas o
PageMaker é um programa difícil e eu gastei a manhã inteira
nisso.

XVI
Sopinha de Tudo

Fábio Grossi
Ú ltimo dia de praia e estamos querendo curtir ao máximo. Não
estamos tristes, pelo contrário. O convite para conhecer Grama-
do nos entusiasma bastante.
Último dia de praia

Logo cedo, enquanto Li fazia uma rápida faxina no apartamento, Pau-
lo e eu fomos à rodoviária para comprar as passagens.
Nossa intenção era pegar o último ônibus da tarde para chegar em
Porto Alegre à noite.
Fomos conversando pelo caminho sobre a maravilhosa férias que ti-
véramos e o quanto a Ana perdera por não ter aceito o convite.
Chegando ao guichê, dei dinheiro a Paulo para que ele comprasse a
minha passagem.
—Quero três pra Porto Alegre.
—Pois não, são cinqüenta e nove com dez.
—Como é? Pergunta Paulo sem entender a conjugação numeral.
—Cinqüenta e nove com dez. Repete a vendedora.
Paulo fazia aquilo de pirraça, ele conhecia as diferenças regionais,
mas não achava a lógica.
—Cinqüenta e nove com dez dá sessenta e nove. Argumentava ele.
CAPÃO DA CANOA 69

Ficamos fazendo troça da história e logo me lembrei:
—Tenho que anotar isso no meu resumo, isso se eu não esquecer até
chegarmos ao apê.
—Então vamos registrar já.
Paulo regulou a máquina para o modo filme e passou para as minhas mãos.
—Tá legal, eu filmo você perguntando quanto é a passagem e
respondo, imitando a moça.
Aperto o botão e espero ele dizer:
—Quanto é?
—Cinqüenta e nove com dez.
—Como?
—Cinqüenta e nove com dez.
Aperto novamente o botão e devolvo a máquina.

Fábio Grossi
Paulo resolve olhar a gravação para ver se ficou bom, mas nela só
apareciam nossos pés enquanto ríamos da encenação.
Eu apertara o botão errado da primeira vez.
—Deixa quieto, você acha que eu vou esquecer disso?
Olhando para o chão no caminho de volta, catei algo brilhante e dou-
Olha o passarinho!
rado, mas era apenas um pedacinho de plástico desprendido de algum
brinquedo. Atirei-o de volta pensando:
—Um dia ainda acho algo valioso.
Na praia, eu já tinha me despedido das águas, não queria entrar
novamente. Tudo que eu queria era fazer mais algumas fotos, agora em
plena luz do dia.
Minha máquina tinha ficado no apê para carregar a bateria, então
peguei a Finepix do Paulo emprestada.
Um tom de azul esverdeado e espumas muito brancas eram um con-
vite ao deleite visual.
Estava fotografando o mar vazio e já tinha feito quatro disparos, quando
giro para o lado e noto que uma moça magra – coisa rara nessa praia –

Fábio Grossi
vinha passando por mim.
Fiz um enquadramento rápido e disparei.
A moça passou ligeiro fingindo me ignorar. Caminhava por dentro d’água
com uma bolsa de pano levantada à altura do ombro para não molhar.
De novo!
Girei o corpo noutra direção e continuei a tirar fotos da arrebentação
das ondas. Queria pegar o momento em que ela se eleva ao máximo,
CAPÃO DA CANOA 70

Fábio Grossi
Fábio Grossi
formando uma pequena crista antes de quebrar.

Fábio Grossi
Mal tinha tirado mais três fotos, quando olho para o lado e vejo a
mesma moça caminhando na direção oposta. Passou bem perto, como se
quisesse ser fotografada novamente.
A provocação não ficou sem resposta, mas desta vez fotografei-a de
costas para completar o quadro.
Mais algumas fotos e voltei para o nosso guarda-sol e, ao me aproxi-
mar, ouço Paulo comentado alto para que eu pudesse ouvir:
—Aposto que ele esgotou a memória da minha máquina.
Mostro as fotos que tirei e já aviso a Eliane que não apague as fotos
da moça, pois eu que havia tirado.
Paulo pede que eu tire algumas fotos caprichadas de Li.
CAPÃO DA CANOA 71

Deitada na areia e a contra-luz, Eliane faz algumas poses, mas as
fotos ficam escuras demais. Eu não sabia onde ligar o flash forçado, então
pedi que eles me acompanhassem até perto da água e com uma posição
mais favorável da luz refiz a sessão.
Na última pose, Li pede que eu a fotografe de costas, mas a areia
agarrada à pele foi motivo para Paulo fazer algumas piadinhas.
—Coxa à milanesa? dizia ele rindo muito.
O tempo passava lento e gostoso, não havia pressa pra sair da praia.
Perto de onde estávamos um ambulante fazia uma oferta irrecusável a
um senhor idoso e aparentemente rico.
—Cento e cinqüenta, é minha última oferta, é pegar ou largar.
Ele tentava vender uma linda rede amarela, semelhante à que Paulo
comprara no primeiro dia. Aproximei-me para examinar melhor o produto
e mostrei que estava interessado, porém o preço teria que ser negociado.

Fábio Grossi
—Meu amigo aqui pagou quarenta numa verde linda com barrado em
diagonal, você sabe de qual tipo eu estou falando. Não sabe? Pois é o que
eu ofereço. Quarenta reais, se você me fizer por esse preço eu fico.
Vendedor astuto. Avalia-me da cabeça aos pés e jogando a rede em
meu colo disse em tom de desafio:
—E se eu aceitar teus quarenta, que tu faz?
—Eu aceito. respondi prontamente sem dar chance dele desistir da oferta.
Já era o quinto produto volumoso que eu teria que transportar ao
voltar para Bauru.
—Não conta pro senhor ai ao lado o preço que tu pagou, ta?
E saiu empurrando seu carrinho de três rodas, empilhado até as tam-
pas com mantas e redes.
Tomaz, o garçom do quiosque da vó Neide, o de número 16, veio nos
oferecer seus préstimos. Desta vez, como a praia se encontrasse com
poucos clientes, se demora mais na conversa fiada. Conta-nos que seu
ex-patrão era bauruense, e curioso por causa do comprimento dos meus

Fábio Grossi
cabelos pergunta:
—O senhor é estilista?
Conto-lhe um pouco sobre mim e ele fica meio surpreso. Como será
que ele me via?
É engraçado como algumas pessoas têm uma visão estereotipada de tudo.
CAPÃO DA CANOA 72

Atribuem valores para a aparência e não para a essência, depois fi-
cam surpresos quando o arquétipo não corresponde.
Aproveitamos a praia até o toco do osso, íamos almoçar fora e depois
fazer cera até as 19 horas. Minha preocupação me leva a uma decisão
crucial, eu não conseguiria enfiar todas as coisas que comprei na mala,
que já estava bastante pesada. Eu teria que comprar um carrinho para
aliviar o peso na coluna.
Acreditando que nas pequenas lojas da proximidade encontraria um
do tipo desmontável, avisei a Paulo que enquanto eles tomassem banho,
eu faria isso e logo retornaria para almoçarmos juntos.
A busca pelo tal carrinho levou-me a quilômetros de distância pelo
centro da cidade, tudo que eu consegui encontrar foi uma daquelas saco-
las enormes de fibra plástica e zíper.
Voltei preocupado, sabendo que eles não esperariam todo aquele tem-
po. Subi ao apartamento, procurando por algum bilhete que indicasse
onde estavam. Nada de bilhete.

Paulo Maciel
Desci e fui ao bar mais próximo para fazer um lanche sozinho. Con-
versando com o dono do bar, descubro que na esquina, em direção opos-
ta a que eu escolhera antes, havia o tal carrinho para vender.
Toda a economia que eu fizera na compra das mantas e redes ia
agora na compra daquele carrinho. Tive que pagar quarenta reais por um
Vó Neide e Tomaz
modelo que no comércio em São Paulo custa somente dezoito reais. Eu só
conseguia pensar no alívio de peso extra que ele proporcionaria.
Retornei ao prédio quase ao mesmo tempo que eles. Percebendo que
eu perdera a noção do tempo em minha empreitada, trouxeram-me um
delicioso pedaço de torta que eu devorei vorazmente.
Já não importava mais, até a cadeira de praia eu resolvera levar comigo.
—O que você vai fazer com uma cadeira de praia em Bauru?
—Onde nós vamos enfiar essa cadeira no carro?
Perguntavam indignados.
A estrutura da cadeira permitiria dar maior firmeza ao conjunto, mas
com o quê amarrar tudo ao carrinho?
Voltei à loja e comprei dois elásticos com ganchos, próprios para
essa finalidade.
Minha bagagem estava pronta, bem amarrada e eu estava tranqüilo
por saber que havia solucionado meu problema.
CAPÃO DA CANOA 73

As camisetas que eu deixei para lavar, um dia antes da partida, ainda
estavam úmidas. Então, foram colocadas em um saco plástico dentro da
mala. A muda da avelã eu mantive na areia no mesmo balaio feito de
caixa de leite e só escorri o excesso de água. No ônibus eu o colocaria no
chão junto aos pés.
Eu não conseguia me tranqüilizar. Enquanto Paulo e Li tiravam um
cochilo, minha ansiedade aumentava.
Fumei um cigarro sentado à varanda, mais um e mais um. Meus pés
estavam inchados e eu me deitei no sofá da sala para aliviar a pressão e
a sensação de peso.
Não se passou muito tempo e já estávamos de partida.
Cada qual arrastando sua mala e se virando com as bagagens de mão.
Sobre a calçada irregular a mala de Eliane se desequilibrava a todo

Paulo Maciel
instante, por causa da distância muito pequena entre as rodinhas. Então
resolvemos andar pela rua, próximo ao meio fio.
Sem problemas! Fora da temporada as ruas estão vazias, sem tráfego.
A grande sacola, com a rede e as mantas compradas por eles, não se
estabilizava sobre a mala e Li parava a todo instante para reequilibrá-la.
Muda de avelã, dada pelo Sr Ataídes
Sobre o meu carrinho, amarrado com os elásticos, coloquei toda a
bagagem mais pesada, mas o notebook continuava a tiracolo. O carrinho
não era suficientemente grande para suportar todo o volume.
Ao chegarmos no pátio da rodoviária, olho para o chão e vejo um
pequeno anel.
—Opa! Achei alguma coisa.
Agachei, peguei o anel e o coloquei no dedo mínimo.
Mostrei-o a Li que exclamou:
—Está todo riscado na lateral!
—Alguém deve ter pisado nele, mas é bonitinho, disse eu meio melindrado.
E voltei a pô-lo no dedo.
Quando na volta para Bauru passamos numa loja de bijuterias
na 25 de março em São Paulo, vimos o mesmo modelo de
anel por 30 centavos a dúzia.
O motorista enfiou minhas coisas no bagageiro com a tradicional de-
licadeza que lhes é peculiar.
Tomamos nossos acentos no ônibus e deixamos Capão da Canoa.
CAPÃO DA CANOA 74

Estávamos felizes porque tivéramos a oportunidade de desfrutar todos os
dias daquela praia encantadora.
Minha cadeira era junto à janela, do mesmo lado que a do motorista,
no meio do ônibus e atrás do Paulo.
Exatamente atrás de mim, sentou-se um sujeito resfriado que tossia
e chupava o nariz incessantemente.
Ao meu lado, um sujeito troncudo não dava espaço para que eu apoi-
asse os braços.
Toda vez que eu tentava reclinar o encosto sentia respingos de saliva
do sujeito gripado, que parecia tossir propositalmente mais forte.
Punha o encosto outra vez na vertical e já me sentia espremido
e sem conforto.
—Pessoas gripadas deviam sentar-se em lugares especiais, de preferên-
cia atrás do motorista que tem um vidro a protegê-los, pensava eu indignado.

Paulo Maciel
Com o boné, que não saía mais da cabeça, onde quer que eu fosse,
cobri o rosto o quanto pude e viajei por mais de meia hora com o banco
parcialmente reclinado. Foi quando eu descobri aliviado que, ao dormir, o
sujeito da gripe não tossia mais. Reclinei meu banco e dormi tranqüilo o
Pegando onda (jacaré)
resto do caminho até Porto Alegre.
Chegando lá pegamos um táxi. O motorista corria tanto e se manti-
nha tão colado ao carro da frente, que o nosso pensamento – meu, de
Paulo e de Li – se tornaram um só:
—Dá menos medo andar de avião do que andar com esse maluco,
dirigindo assim.
Chegamos rapidamente no nosso destino. Ao tirar minha bagagem
do porta-malas, meio descomposta pelo movimento todo que veio so-
frendo, a mala se desconjunta do resto do carrinho e não consigo mais
prendê-la na mesma posição.
Empurro o carrinho com uma das mãos e puxo a mala com a outra.
Tivemos que dividir a carga para pegar o elevador. Subi na frente com

Paulo Maciel
uma parte da carga e Neci já nos esperava à porta de seu apartamento.
Ajudou-me arrastando parte da bagagem e voltou ao elevador para
receber Paulo e Li, que subiram logo atrás.
Após o banho Neci nos ofereceu uma gostosa sopinha de tudo. Dentro do ônibus para Porto Alegre
Sopa de tudo é aquela que tem um pouco de cada coisa e não se pode
identificar um ingrediente que predomine.
CAPÃO DA CANOA 75

Era uma sopa deliciosa, feita anteriormente e conservada no freezer,
sem nenhum tempero forte que pudesse comprometer a saúde da tia Maria.
Enquanto a sopa esquentava, sentamo-nos em volta da mesa na pe-
quena cozinha e ficamos conversando.
Sem nos conhecer direito, a garotinha Vitória e seu irmãozinho nos
olhavam sorrateiramente. Ele, meio cansado das artes do dia, foi logo se
deitar no sofá em frente à tv e adormeceu.
Vitória, a sobrinha de Neci, sentido seu espaço ser invadido, sentou-
se irritada no meio da cozinha com seu porta trecos repletos de pequenos
brinquedos e não se movia.
—Olha! Obedece a dinda, senão não vem mais, dizia Neci a pequena
garotinha.
—Você não quer sentar aqui com o tio, perguntei tentando convencê-
la a sair do chão e desimpedir a passagem.

Paulo Maciel
Ela acenou com a cabeça, dizendo que não.
—Eu te dou um anel, você quer?
Ela novamente acena que não.
Paulo não perde tempo, e me zomba:
Vitória Clic-clic
—A menina é esperta, ela sabe o valor dessa coisa.
Fui ligar o notebook para descarregar as fotos da máquina de Paulo e
mostrá-las a nossa anfitriã.
Vitória, curiosa como qualquer criança esperta, queria mexer no tecla-
do. Ensinei-a como apertar o botão do mouse para alternar entre as fotos. A
partir de então ela não dava mais trégua, bastava eu ligar o computador e lá
estava ela, esticando o dedinho para apertar o botão que eu mandasse.
A sopa ficou pronta. Logo de cara, já percebo algo diferente de todas
a sopas que conhecia. Rodelas de milho verde, cortadas com sabugo eram
servidas juntamente com o resto.
Não estavam ali apenas para enfeitar, devíamos pegá-las com as mãos,
pois com a colher não era possível.
Nada comum é o que fazíamos depois. Sem lavanda ou guardanapo,
chupávamos os dedos como crianças, sem ninguém a julgar nossos mo-
dos ou ensinar regras de etiqueta.
Contei-lhes, de forma breve, uma história passada por minha mãe
sobre a sopa de pedra. Na história, dois pobres, famintos, porém sábios,
CAPÃO DA CANOA 76

Paulo Maciel
colocavam numa panela com água a ferver uma pedra bem lavada de
tamanho médio. A todo curioso que passava, diziam estar fazendo a sopa
de pedra e que seria bem-vindo se quisesse ficar para participar da ceia.
Ninguém que parasse deixava de contribuir com algum produto para
enriquecer tal caldo absurdo.
Ao final, reunidos a mais seis ou sete curiosos, retiravam a pedra e
saciavam a fome com uma suculenta “sopa de pedra”.
Nunca vira, entretanto, uma sopa que nos fazia lamber os beiços e
chupar os dedos como aquela.
CAPÃO DA CANOA 77

20h28 do dia 27/03/2003
Estou pasmo com o tamanho do texto, já estou a onze dias em
Bauru e não consegui terminá-lo.
Minha irmã acabou de ligar reclamando
a falta de notícias.

VII
Gramado e Canela de Lambuja

Fábio Grossi
O dia amanheceu depois de mim, eu já o aguardava de máquina
em punho para registrar seus primeiros sinais.
Aos poucos as outras pessoas da casa foram se levantando, tínhamos
Cervejaria Scoll na estrada para Gramado

um longo passeio e devíamos sair cedo para aproveitá-lo bem.
Sete e meia da manhã e estávamos no carro prontos para o passeio. Eu e
Neci no banco de trás, Eliane dirigindo e Paulo fotografando tudo que podia.
Preparei minha máquina para registrar uma eventual mudança de
cenário na paisagem da estrada, mas tudo que consegui perceber foi um
enorme número de fábricas instaladas ao longo da rodovia.
—Isso se parece com uma cidade que meu filho construiu no SimCity
– um jogo de computador – era uma longa rodovia ladeada por indústrias
de todo tipo.
Longa mesmo, não chegávamos nunca e o espaço que eu tinha para
mexer as pernas no banco traseiro do Pólo não era suficiente para aliviar
a tensão, que o banco provocava em meu joelho. Se existe algum estudo
de ergonomia pra esse carro devem ter usado crianças como modelo.
Eu não queria pedir que parassem o carro para eu dar uma esticada
na perna, para não perceberem o meu desconforto no banco de trás.
CAPÃO DA CANOA 78

Massageava a perna na tentativa de amenizar a dor e observava o tempo
de estrada que ainda tínhamos pela frente.
Foi um alívio chegarmos ao posto de gasolina onde Eliane parou para
usar o banheiro. Os banheiros eram trancados e devíamos pegar a chave
no caixa. A curiosidade do posto, além do jardim todo florido, era o tama-
nho da placa pendurada à chave para que nenhum incauto esquecesse de
devolvê-la ao sair.
Eliane queria conversar com Neci, então passou para o banco de trás
e cedeu a Paulo seu lugar ao volante.
—Vá no banco da frente, disse Eliane.
Foi a frase mais reconfortante do dia.
Neci queria nos mostrar o Parque da Ferradura, mas paramos ainda na
cidade num belvedere ao lado do hotel Toscana, de onde podíamos visua-

Fábio Grossi
lizar a grandeza do cenário montanhoso que teríamos para desfrutar.
Comecei a fotografar avidamente e Li recomendou que tomássemos
cuidado ou ficaríamos sem espaço para o que tinha por vir.
Seguimos até o Parque do Caracol e Neci se informou sobre a distân-
cia até o Parque da Ferradura. Eram mais sete quilômetros de estrada de
Canteiro florido no posto de gasolina
terra e pedriscos. Uma estrada rústica como aquela era o prenúncio do
que teríamos pela frente, comecei a temer pelo que viria.
—A Ana ia se sentir muito bem aqui, estradas e trilhas em terreno
acidentado, pensei em silêncio.
Comecei a puxar o fôlego, pois sabia que ia precisar de muito ar para
um passeio daquele tipo. Tão diferente da praia, plana, tranqüila...
Chegamos à portaria. Sete reais por pessoa, quatro reais para crian-
ças e pessoas com mais de sessenta e cinco.
—Alguém no carro tem mais de sessenta e cinco? pergunta Neci su-
gerindo uma piada.
—Alguém com essa idade devia receber para fazer um passeio des-
ses, pensei em silêncio.

Fábio Grossi
Não que eu achasse o passeio desinteressante, mas sou meio avesso
a esforços desnecessários. Por mim deveria ser tudo mecanizado com
escadas rolantes e elevadores.
Deixamos o carro no estacionamento e começamos a explorar o lu- Vista do belvedere em Gramado
gar. Trilha do...tantos minutos, trilha da...tantos minutos. Faríamos a menor
delas, pois ainda havia outros passeios planejados.
CAPÃO DA CANOA 79

PARQUE DA FERRADURA

< Plataforma de observação

Paulo Maciel
Degraus altos e irregulares

Fábio Grossi
Degraus irregulares, alguns altos demais até para mim que sou rela-
tivamente alto. Imaginava quando a Neci começaria a pedir ajuda. Mas
ela se virou muito bem.
Mais alguns metros e chegávamos a uma plataforma de madeira, um
mirante de boas dimensões de onde podíamos ver todo o contorno do rio
em forma de ferradura e que dá nome ao lugar.

Paulo Maciel
Tiramos várias fotos, mas nenhuma das máquinas tinha abrangência su-
ficiente para fotografar todo o percurso do rio em uma única imagem. Nem
me lembrei que poderia emendar duas ou três em um programa gráfico.
—Vamos? sugeriu Neci.
—Agora é que a coisa pega, pensei. Paredão de rocha ao lado da plataforma
Começamos a escalada com coragem e determinação.
CAPÃO DA CANOA 80

Fábio Grossi

Paulo Maciel
PARQUE DA FERRADURA - Trilhas rústicas, lindo
Lembrei do filme limite vertical... cenário, caminhada exaustiva

No meio do caminho Paulo nota uma ponta de ferro fincada na terra,
resto da estrutura que segurava um degrau e comenta conosco.
—Temos que avisar alguém sobre essa ponta de ferro, disse eu preo-
cupado que alguém pudesse espetar o pé.
—Avisar a quem? pergunta Li.
—Ao porteiro.
—E como vamos indicar a posição exata? pergunta Paulo.
—Não faço idéia.
Estávamos quase atingindo o cume, com a respiração ofegante e a
camiseta ensopada, quando alguém solta:
—Fuma, desgraçado!
CAPÃO DA CANOA 81

Imediatamente retruquei:
—E isso por que eu fumo Dallas suave. Imagina se fosse do comum?
Exageros à parte, o lugar é lindo, mas o preço do ingresso é
exageradamente alto para a estrutura que apresenta. Voltamos para o
carro, pois não havia mais nada para vermos ou fotografarmos ali.
—Agora vamos ao Parque do Caracol, vocês vão conhecer a cachoeira
véu de noiva, disse Neci.
Eu só conseguia pensar em quando iríamos comprar os famosos e
consagrados chocolates de Gramado.
—Você não queria tirar uma foto do portal? pergunta Paulo ao deixar-
mos o local.
Levantei a máquina através do teto solar e disparei de costas para o
mesmo. Examino e vejo que a foto ficou torta com o horizonte inclinado,
mas depois eu acertaria no Photoshop.

Fábio Grossi
—Vamos embora, disse eu sem ânimo para outra tentativa.
Chegamos ao segundo Parque. Neci gentilmente, como fizera no par-
que anterior, pagou os quatro ingressos. Eu já não temia tanto, pois a
estrutura desse era bem melhor. Tinha até elevador e teleférico. Oito
Portal de entrada do Parque do Caracol fotografado
reais por pessoa, mas tudo lá dentro era cobrado. ao saírmos.
—Que exploração! Paga para entrar, paga para andar. É por isso que
vem tão pouca gente assim, pensei.
Sobrava-nos novamente a opção das trilhas, e lá fomos nós.
Dessa vez, no entanto, a decida era suave e os degraus bem
dimensionados e regulares.
Chegamos em um entroncamento com duas opções, ou continuáva-
mos a decida mais suave até o topo da cascata ou teríamos que descer
927 degraus, equivalentes a um prédio de 49 andares, num desnível
aproximado de 160 metros para atingir a base. Em um painel o texto em
vermelho alertava:
* Não recomendado para cardíacos, asmáticos, hipertensos, diabéti-

Fábio Grossi
cos, sedentários;...
Em letras pretas e vermelhas dizia não ser permitido descer após as
16h30min.
Que dúvida! Parque do Caracol, cachoira véu de noiva
—Alguém vai querer descer? perguntei com ironia.
Ninguém respondeu.
CAPÃO DA CANOA 82

PARQUE DO CARACOL - CANELA

< Em frente ao portal pelo lado interno

Paulo Maciel
Eliane Monteiro
Aviso no começo da escadaria

Fomos descendo a trilha mais suave e fotografando a cascata de vá-
rios ângulos, à medida que nos aproximávamos. Dessa vez Neci exausta
e com medo de um retorno puxado decidiu parar no meio do caminho.
Ficou aguardando que retornássemos com a língua de fora. Mas se enga-
nou redondamente. A subida foi tão tranqüila quanto a descida. Bem,
nem tanto. Mas também não foi nenhum pesadelo.
Dentro do parque havia um lugar muito atraente para crianças cha-

Fábio Grossi
mado Cidade Fantasma do Velho Oeste, onde o ingresso dava direito a
uma volta no trenzinho. Na entrada a recepcionar os visitantes uma ca-
veira vestida com uniforme de soldado americano ficava recostada em
um canhão com rodas. Não sei o que o velho oeste americano tem a ver
Esqueleto de soldado do velho oeste
com um parque nacional no Rio Grande do Sul, mas a caveira era muito
engraçada e Paulo quis tirar uma foto ao seu lado.
CAPÃO DA CANOA 83

Mais adiante tiramos fotos ao lado de um mini trem transportando anões.
Mais duas fotos e pronto, tinha esgotado toda memória da minha máquina.
—Não foi por falta de aviso, disse Li sorrindo.
Ela e Paulo ainda tinham memória para muitas fotos, então fiquei
despreocupado porque, o resto da nossa viagem não ficaria sem registro.
O parque era servido também de algumas lojas com artigos de recor-
dação. Enquanto Paulo e Li compravam alguns imãs de geladeira e outras

Neci (com a máquina de Eliane)
pequenas lembranças, entrei em uma loja de chocolates e perguntei o
preço de alguns. Não comprei nada, iríamos a uma loja em Gramado
cujos preços eram a metade dos praticados ali.
Finalmente, em Gramado paramos na loja dos sonhos de qualquer
chocólatra. Repleta de barras, bombons e outros formatos de confeitos
daquela matéria-prima. Aquela, sim, representava uma boa lembrança
de quem estivera em Gramado.
Preparei uma caixinha de barras variadas para esposa, um pacote de
bombons para quem aparecesse em casa e três pacotinhos de chocolates
com flocos de arroz para os filhos e o genro.
—Dever cumprido! Visitei Gramado e estou levando a prova do crime
Comprando chocolates em Gramado
comigo, pensei eu apressadamente.
—Agora vocês são meus convidados para um café colonial no Bela
Vista, disse Neci gesticulando de um jeito faceiro, próprio de pessoas
felizes e de bem com a vida.
Paramos o carro do outro lado da rua, lugar sombreado em frente a
uma loja de calçados, pois senão os chocolates estariam todos derretidos
quando voltássemos.
Neci sugeriu que entrássemos na loja para tentar disfarçar, afinal
estávamos parando em vagas particulares da loja em questão. Senti que
não fosse necessário entrarmos em bando e atravessei a rua aguardando
do outro lado. Esqueci-me de como o gênero humano se distrai vendo
coisa para comprar, mesmo não tendo a intenção imediata em fazê-lo.

Paulo Maciel
Passaram-se alguns bons minutos até que saíssem de lá.
O ambiente formal e sóbrio do café Bela Vista era um convite a uma postu-
ra cerimoniosa. Até Paulo que é sempre efusivo se comportava de maneira mais
calma e comportada, até o momento em que começam a nos servir. A quanti- Café colonial no Bela Vista
dade, variedade e aparência da comida eram absurdamente ricas.
CAPÃO DA CANOA 84

Não sabíamos por onde começar, ora doce ora salgado, ora assado,
ora grelhado, era tudo saborosamente degustado.
Elogiávamos e comentávamos o sabor de cada prato até que Eliane
lembrou:
—Reservaram um lugar para a torta?
Recostada na parede bem a minha frente um enorme balcão refrige-
rado oferecia a mais variada quantidade de tortas doces que eu já vira
em um restaurante.
Fomos todos nos servir, Neci foi a última e mereceu um comentário.
—E se ela quiser pegar um pedaço na prateleira mais alta, não tem
ninguém para ajudá-la?
Neci demonstrou ser perfeitamente capaz de se virar sozinha, se equi-
librando na ponta dos pés e com os braços totalmente esticados para
cima, foi exatamente da última prateleira que habilmente retirou um pe-

Paulo Maciel
daço de torta.
Arrematando o delicioso café e para ajudar na digestão de tantos pro-
dutos, cada qual pede um tipo de chá. Acostumado ao sabor do chimarrão,
pela primeira vez consigo tomar o meu, de maçã, sem usar açúcar.
Saímos dali celebrando o pecado da gula, mais uma injustiça social num Café colonial no
país de tantos pecados. Mas o passeio ainda não terminara. Iríamos agora
conhecer o Lago Negro, até que enfim um parque com entrada franca.
Formado por um enorme espelho d’água, de uma composição lodosa,
o lago era rodeado por uma trilha plana de pedriscos bem compactados e
ornamentado com farta quantidade de hortênsias em ambos os lados.
Ao entrarmos no parque Neci se deitou no gramado viçoso dizendo:
—Estou cansada, vou dormir um pouquinho.
Pura onda. Foi logo fotografada e se levantou em seguida.
Fizemos todo trajeto andando sem pressa e parando para fotografias
de quando em quando. Ao final do trajeto chegamos em uma mina d’água
onde três imagens disputavam espaço numa pequena gruta.

Paulo Maciel
—Minha santinha, se eu perder essa barriga volto aqui ano que vem
trazendo uma vela do meu tamanho.
—Nós ouvimos isso! disse Paulo rindo muito.
Do jeito que sou sedentário só mesmo no Photoshop ou na base do
Neci no gramado do Lago Negro
milagre poderia resolver meu problema.
CAPÃO DA CANOA 85

PARQUE LAGO NEGRO

< Lago Negro cercado por hortências

Eliane Monteiro
Uma paradinha para foto - passeio em volta do Lago

Paulo Maciel
Pensei que voltaríamos para casa, mas Li sugere um novo passeio.
Queria rever o mini mundo, um parque temático com réplicas em minia-
tura de várias edificações mundiais.
Eu já havia visto em fotos o tal parque e não me agradava em nada
a forma como se apresentava. Embora as réplicas fossem bem feitas e
guardassem boa proporção entre si, o resultado como um todo era

Paulo Maciel
catastrófico. Miniaturas de ferrovias, praias com banhistas e brinque-
dos de plástico dividiam o espaço tentando compor um universo
ficcional. Não sei dizer se é preconceito de minha parte, mas tem cer-
tas coisas que não engulo com facilidade e uma delas é a do tipo que
ludibria o sentimento lúdico para oferecer soluções de gosto duvidoso. Gruta com imagens e a fonte d’água
Parece que a educação estética fugiu do nosso país.
CAPÃO DA CANOA 86

—Não é um encanto esse parque? pergunta-me Li entusiasmada. PARQUE MINI MUNDO
—Acho que deve agradar a muitas crianças, respondo sem muita ce-
rimônia.
—Crianças e adultos, contesta Li sem conhecer mais amiúde meu
ponto de vista.
Não importava muito, na oportunidade adequada eu me explicaria.
Retornamos a Porto Alegre. O transtorno com o joelho se repetiu,
mas agora eu sabia por quanto tempo eu teria de suportá-lo.
Vitória clic-clic aguardava ansiosa por nosso retorno. No elevador do
prédio Neci recomendou que não deixássemos a menina perceber que
trazíamos chocolate.
Enquanto tomavam banho, liguei o notebook para transferir o con-
teúdo das máquinas.

Paulo Maciel
Li planejara uma visita a sua prima Marli e ao sair do banho pediu que
eu me apressasse. Respondi que embora estivesse agradecido de conhe-
cer seus parentes, me encontrava cansado demais para ir a qualquer
outro lugar naquele dia. Não tivesse meu joelho doído tanto naquele ban-
co traseiro, eu teria ido com muito prazer.
O castelo encantado
Aproveitei quando Vitória saiu para passear com eles e fui examinar
meu chocolate. Tinham sido embalados em plástico bolha para evitar o
calor, porém, os que não tinham unidades embaladas individualmente
fundiram-se todos num único bloco.
—Paciência! Devem estar gostosos do mesmo jeito, pensei.
Neci, que não tinha ido com eles, perguntou se eu aceitaria um prato
da sopa.
—Nossa, eu adorei aquela de ontem!
—Pois é aquela mesmo, eu mantenho porções congeladas no freezer.
Enquanto esquentava a sopa, aproveitei para tomar banho, vesti uma
roupa mais confortável e já estava terminando de tomar a sopa quando

Paulo Maciel
eles retornaram.
Vitória ansiosa por mexer no PC não saía de perto, vendo que não lhe
dávamos bola, aprontou um bico e correu para o colo da dinda com cara
de choro.
Percebendo a razão por que ela estaria chorando, me aproximei Sonho e fantasia
perguntando:
—Quer que eu ponha um joguinho pra você brincar no computador?
CAPÃO DA CANOA 87

PARQUE MINI MUNDO

< Jogando uma moeda no poço dos desejos

Fábio Grossi (com a máquina de Eliane)

Eliane Monteiro
Muitos pedidos, sonhos e fantasias

A manha cessou como por encanto. Levantou-se do colo e foi me
puxando pela mão até o notebook.
Liguei o jogo Pinball do Windows, em menos de cinco minutos ela já
estava sabendo como jogar e até como reiniciar o jogo. Mostrei a ela
como desligar o equipamento apenas baixando a tampa. O mais difícil foi
Neci convencê-la do horário de ir para cama, pois eu já tinha ido.
CAPÃO DA CANOA 88

13h41 do dia 28/03/2007
Sinto que poderia me alongar contando as histórias e inserindo
detalhes indefinidamente. Mas não me parece sensato fazê-lo,
pois o primeiro objetivo desse trabalho era passar as informa-
ções aos amigos.

VIII
Adeus Porto Alegre

Fábio Grossi
E ram cinco da manhã quando, já viciado pelo hábito, acordei pro
curando o botão da P10.
—Fotografias, aqui vamos nós.
Neci sugerira que eu fotografasse a vista do entorno, subindo aos
terraços do pavimento superior. Mostrou-me cada uma das varandas e
disse que eu ficasse à vontade para subir, ainda que o sobrinho estivesse
dormindo no sofá-cama da pequena saleta.
Sem acender as luzes, para não causar incômodo, fui pé ante pé ao
começo da escada. Descalço para não fazer ruído comecei a subir os
degraus. De repente...BAMMMM! Chutei sem querer o porta treco que
Vitória deixara no terceiro degrau. A caixa foi ao chão provocando um
forte barulho.
Não havia o que fazer. Continuei subindo, tomando o cuidado de não
esbarrar em mais nada que pudesse despencar lá de cima.
A cama do jovem sobrinho tomava quase toda a extensão em frente
da porta que dava acesso à varanda e, aos pés dela, uma cadeira empilhada
de roupas terminava impedindo completamente a passagem.
CAPÃO DA CANOA 89

Fábio Grossi
Fábio Grossi
Decidi por tirar fotos da varanda lateral passando por um quarto

Fábio Grossi
temporariamente desocupado.
Ao empurrar a porta provoquei um novo barulho, pois a dita cuja
estava meio emperrada enroscando no batente. Saí rapidamente pela
porta da varanda e enquanto ajustava a máquina para as primeiras fotos,
ouvi alguém indo ao banheiro do andar em que eu me encontrava. Prova-
velmente acordara o sobrinho que voltou em seguida para a cama.
De onde eu estava não tinha visão do sol nascente. Pensei em voltar
para o quarto onde tinha dormido, pois de lá teria a visão desejada. Saí
da varanda voltando pelo quarto e deparei com a porta deste fechada
novamente. Sabia que ao tentar abri-la provocaria um novo barulho.
—Bem, lá vai! E...VRUMMM!!!!
CAPÃO DA CANOA 90

O jovem se sentou assustado olhando pra mim.
—Bom dia! Desculpe por ter te acordado, a Neci pediu que eu tirasse
fotos do nascer do sol aí da varada. Eu não queria te incomodar, mas já
que você acordou, será que eu posso passar por aqui?
E afastando a cadeira com roupas cheguei enfim ao lugar que queria.
Tirei várias fotos e ao entrar o rapaz dormia profundamente. Passei
pelos pés da cama tomando cuidado para não incomodá-lo mais.
O almoço desse dia seria na casa da irmã de Li. Não vou me alongar
entrando em detalhes desnecessários.
Karina, a irmã querida, era vizinha das tias Lina e Edena. Recebeu-
nos calorosamente e tratou de fazer perceber logo que não era pessoa de
cerimônias. Enquanto entrávamos na casa, lembro-me de Li dizendo:
—Hoje viemos filar bóia na sua casa.

Paulo Maciel
—É só você me ajudar com a comida, respondeu Karina.
De repente sinto minhas pernas serem abraçadas. Olho para baixo
e um toquinho de gente, para quem eu mal dera atenção, estava me
dando boas vindas.
Agachei-me sensibilizado com o gesto amistoso da pequena Bruna e
A pequena Bruna
correspondi ao cumprimento da forma correta que deveria ter feito a principio.
Mais tarde ouço as duas se falando na cozinha:
—Quem acreditaria que nos damos tão bem a ponto de fazermos o

Fábio Grossi (Com a máquina de Paulo)
almoço juntas. Quando éramos mais novas brigávamos como cães e gatos.
Enquanto preparavam o almoço atribuíram algumas tarefas a Paulo,
que correspondeu resignado.
Estendeu a roupa no varal, arrumou a mesa do almoço...
Logo após o almoço, Li e Karina foram levar Bruna à escola maternal,
pois ela havia perdido o horário da condução.
O calor era muito forte e acabamos todos tirando um gostoso cochilo
sob a brisa do ventilador.
Li havia se comprometido com Neci a devolver o carro até as
cinco horas, mas Karina e a tia Edena queriam comprar lembranças
para suas duas filhas que ficaram em Bauru. Foram conosco até o
Carrefour e com Li orientando sobre gostos e tamanhos, compraram
tudo rapidamente. Despedimo-nos ali mesmo no estacionamento. Li e Karina preparando o almoço
Chegamos no prédio exatamente no horário combinado.
CAPÃO DA CANOA 91

Abrimos a porta do elevador e deparamos com Neci que já estava de
saída com alguém que lhe oferecera carona. Mais tarde saíram os três
para comprar alguns potes de nata, um creme de leite pasteurizado, com
a consistência da nossa margarina, sem sal e que só se encontra por lá.
De sabor suave é excelente para acompanhar cucas e roscas. Pedi a Li
que comprasse três potes para mim. Era mais um volume que se somava
aos outros no caminho de volta.
Voltaram do supermercado trazendo os potes e outras coisas que
não reparei.
—Vamos ao banco retirar dinheiro? perguntei a Paulo, pois já eram
21h30 e depois das 22 horas o caixa eletrônico não funciona.
Vitória, que já não desgrudava, percebendo que não iria, abriu um
berreiro. Da calçada se podia ouvir seus gritos no oitavo andar.

Paulo Maciel
Aos quinze minutos do horário de encerramento a porta automática
já não nos deu acesso.
Ao voltarmos do banco de mãos abanando, a sopinha de tudo nos
aguardava pela terceira vez.
Acordamos bem cedo para o vôo que seria às oito horas. O carrinho de malas embalado para viagem
Pela manhã não tivemos problemas para sacar o dinheiro necessário
para pagar os pedágios até Bauru.
A bagagem não cabia toda no porta-malas do Polo, então uma das
malas foi colocada no meio do banco traseiro.
Escondida atrás da mala, só se podia ouvir a voz de Neci orientando
Li sobre o caminho a tomar até o aeroporto.
Desta vez eu estava preparado para filmar a decolagem e a aterrissa-
gem. O vôo tranqüilo e rápido só me emocionou mais fortemente quan-
do, antes da aterrissagem, ficamos esperando uma vaga e sobrevoando a
cidade de Santos.
A praia da minha infância estava ali, ao alcance dos meus olhos, tão
próxima da minha realidade e, no entanto tão distante no tempo.

Paulo Maciel
Ao aterrissarmos em São Paulo, um sentimento nostálgico ainda me
acompanhava. O avião começou a taxiar quando ouço a aeromoça anun-
ciar. O chocolate se encontra na parte dianteira da aeronave. Vou pedindo
passagem para não me separar dos amigos no desembarque e enfren- Sobrevoando Santos antes de pousar
tando caras feias pelo corredor.
CAPÃO DA CANOA 92

O comandante anuncia que a saída poderia ser feita também pelas
portas traseiras da aeronave e o grupo “rosnante” pelo qual eu passara
se volta saindo por trás.
Paulo e Li esperam tranqüilos e seguem depois de mim. Paro na porta
e pergunto à aeromoça:
—Cadê o meu?
—O seu o que senhor?
—O meu chocolate, vocês não ofereceram chocolates de brinde?
Pedindo desculpas pelo mal entendido ela explica que o chocolate

Paulo Maciel
pertencia a alguém que houvera perdido ao entrar no avião.
Paulo e Li que me seguiam de perto saíram às gargalhadas debo-
chando do meu mico.
E aqui termino a redação desse relatório esperando que você tenha
gostado tanto quanto eu ao escrevê-lo. Taxiando para desembarcar em São Paulo

18h10 do dia 28 de março de 2007

FIM