Unidade

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Nas Tramas do Desenvolvimento Humano: Concepções e Teorias
Objetivos:
• Estudo do desenvolvimento, situando o ser humano em permanente mudança e movimento. Iniciaremos apresentando o conceito de desenvolvimento, enfocando as discussões em torno do seu caráter, normal ou patológico e contínuo ou descontínuo. Neste sentido, vamos constatar que há muitas visões e abordagens, no campo da ciência psicológica, que nos permitem refletir sobre a evolução do indivíduo nos seus diferentes aspectos e ao longo de diversas etapas ou fases. Partindo dessas discussões, situaremos as principais teorias que ousaram investigar em profundidade como acontece o nosso desenvolvimento ao longo da vida e quais características vamos apresentando à medida em que avançamos em nosso ciclo vital. Por fim, elegemos algumas destas teorias para subsidiarem uma reflexão sobre os fatores que intervêm nesse processo.

Capítulo 1
Concepções e controvérsias no estudo do desenvolvimento humano

Abordar o desenvolvimento humano é explorar terreno vasto, cuja natureza central é a de descoberta, mudança, avanços, novas aquisições e crescimento. Da concepção à morte, a cada instante e de forma singular, vivemos esse processo. Por conseguinte, diz respeito a nossa vida cotidiana com questões que vão desde a aquisição da fala ou do andar, passando pelo processo de aprendizagem escolar e pelas inquietações da adolescência, até as transformações biopsicossociais que a vida adulta e a velhice trazem consigo. São mudanças intensas, especialmente nos 20 primeiros anos de vida, que vão resultando em avanços no plano do pensamento, sentimento, comportamento etc, para níveis de complexidade cada vez maiores. Por exemplo, uma criança evolui do engatinhar para a marcha, do balbucio para a fala, do pensamento concreto para o abstrato e assim por diante. Podemos dizer que o estudo do desenvolvimento humano está relacionado ao como e ao porquê de o nosso organismo crescer e se modificar ao longo de nossa existência (GERRIG e ZIMBARDO, 2005) . Ao estudarmos o desenvolvimento humano, estamos lidando com mudanças universais, como no caso das transformações físicas e hormonais que marcam a puberdade. Por outro lado, como o ser humano é singular, as diferenças individuais também precisam ser consideradas. Afinal, nenhum indivíduo é igual ao outro. Cada adolescente vai viver as suas mudanças corporais de uma forma particular, atribuindo-lhes um significado específico, de acordo com suas experiências. Não faz sentido, então, falarmos de um desenvolvimento linear e universal, pois há também a diversidade cultural, social, política e econômica que constitui os contextos nos quais se desenvolvem os seres humanos. O desenvolvimento nos remete a múltiplos termos como: continuidade, crescimento, mudança, etapas, interações, conhecimento, ação, dentre outros. Diversas são as formas de entendê-lo, gerando distintas concepções sobre os fatores preponderantes nesse processo. Um clássico exemplo é a dicotomia hereditariedade versus ambiente, cuja polêmica estimula discussões até os dias de hoje, como poderemos constatar nas ideias explicitadas a seguir, que trazem três influentes concepções sobre o tema:

Procure lembrar-se de sua adolescência, destacando as principais características pessoais que você tinha naquela época. Compare-as com as de amigos seus que partilharam de experiências com você nesse período. Você perceberá que, mesmo em contextos semelhantes, havia muitas diferenças.

1.1. Concepções de desenvolvimento
• Inatismo: parte do pressuposto de que os eventos ocorridos após o nascimento não são relevantes para o desenvolvimento. Este seria influenciado apenas pelas qualidades e capacidades básicas do ser humano, praticamente prontas, desde o nascimento. Ainda presente nas escolas nos dias atuais, essa concepção se expressa, muitas vezes, na fala de educadores ao verem alguns alunos como incapazes

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2. É importante considerar também a cultura e a família na qual o indivíduo vive. Além dessas concepções divergentes. Essa visão do ser humano como passivo e moldado pelo ambiente. Assim. uma definição mecanicista do desenvolvimento e de aprendizagem. é ser que constrói e é construído nas permanente interação dos aspectos biológicos com o meio no qual está inserido. ou seja. As escolas passaram a buscar metodologia mais ativas e críticas. Normalidade e patologia no desenvolvimento humano O termo “normal”. entende o sujeito como ser ativo e interativo no mundo. a ideia de normalidade tem sido usada como instrumento de controle social. pensamentos e sentimentos “adequados” para a população em geral. O Homem é visto ao nascer como uma folha em branco a ser escrita pelo ambiente. faz referência à ideia de enquadro e ajustamento. acreditam que essas crianças não têm como mudar. pois suas dificuldades foram herdadas geneticamente. reconhecendo que em alguns aspectos o desenvolvimento pode ser visto como patológico e em outros não. formas e expressões do desenvolvimento. Vigotski e Wallon. ao abordarmos o desenvolvimento humano. a criança pode expressar dificuldades no andar. Por exemplo. a ideia da patologia está quase sempre asso- 12 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . tem. mas como um parâmetro científico para avaliar diversos caminhos. Segundo Foucault (1989). • Interacionismo: Essa perspectiva considera que são múltiplos os fatores constituintes do desenvolvimento humano. como consequência. pois alguns problemas considerados desviantes da média geral. ou seja. com diversas influências em sua trajetória. Nesse sentido. Afinal. É fundamental evitar rótulos ou estigmas para pessoas que apresentam diferenças em seu processo de desenvolvimento em relação à maioria dos indivíduos. mas no aspecto afetivo e cognitivo está dentro do que se espera na sua faixa etária. é preciso atentar para ritmos e singularidades dos sujeitos. • Empirismo ou ambientalismo: atribui grande poder ao ambiente como fator interveniente no desenvolvimento humano. está marcada por um ensino tecnicista no qual o professor é aquele que detém o conhecimento e o aluno deve apenas recebê-lo. a partir difusão das ideias de Piaget. não deve ser entendido como um julgamento de valor do que seja melhor ou pior. preocupando-se com o processo de conhecer e com as interações e mediações presentes em sala de aula. definindo a partir de determinadas camadas da sociedade os comportamento. fazer parte do desenvolvimento “normal”. Além do mais. outra polêmica importante. em determinados estágios. Por conseguinte. como um ser flexível que desenvolve suas características apenas em função das condições presentes no meio em que se encontra. Para Bee (2000) é tênue a linha entre o que se dá de forma atípica ou não. Tal concepção tem estado presente no âmbito educacional brasileiro. Ainda presente no cenário educacional. 1. podem.de aprender por serem filhos de analfabetos ou de pessoas marginalizadas. diz respeito à discussão sobre o que é “normal” e o que é patológico em determinados períodos de vida dos indivíduos. ao tratar da evolução humana.

Para cada fase do desenvolvimento. o pensamento na criança dos 7 aos 10 anos vai mudar significativamente na adolescência.3. Assim. indicando que haveria diferenças qualitativas importantes em determinados períodos do desenvolvimento humano. 1. merecem atenção e cuidados especializados. Por exemplo. sentir. melhorando continuamente seus movimentos. Assim. como já explicitado. As pessoas. depois se arrasta ou engatinha. ou negando determinados comportamentos e atitudes em crianças e adolescentes que. Você acha que essa pessoa é “normal”? PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 13 . nem todos adotam o mesmo ponto de vista. Essa descontinuidade no desenvolvimento tem sido chamada de fases ou estágios. imutável. Para entendermos melhor como se processa essa discussão dos estágios vamos. apresentar um panorama das principais teorias psicológicas que têm tratado do desenvolvimento. no aspecto motor a criança começa a sentar. quando se trata de definir se também no desenvolvimento há mudanças descontínuas. isto não é rígido. Contudo. Todavia. que nem sempre consideram o indivíduo em uma perspectiva holística. Continuidade versus descontinuidade no processo evolutivo A maioria dos teóricos do desenvolvimentos está de acordo quanto à continuidade de muitas mudanças que ocorrem ao longo da vida de modo gradual e tendendo a um aperfeiçoamento. seja no aspecto físico. comportar-se de modo distinto da fase anterior e com novas aquisições. Imagine que você está na rua e vê uma pessoa com roupa bastante colorida. pulando e cantando. quando muda de fase o ser humano passa a pensar. integrada. com “anormalidade”. afetivo. Outra característica importante que é estágios/fases têm uma sequência fixa. extravagante. Uma visão assentada nos parâmetros biomédicos. doença. Contudo. por exemplo. em contextos diversos podem passar pelas mesmas fases em idades diversas. cognitivo ou social.. passar da fase “A” para a fase “C”. a seguir. não sendo possível. os teóricos situaram determinadas faixas etárias. as crianças podem até passar pelos estágios em idades diferentes. Por exemplo.ciada com algo negativo. como seres singulares que são. isto não significa que devamos estar desatentos às diferenças individuais. sem ter passado pela “B”. de fato. mas o farão sempre na mesma ordem.

Para Figueiredo (2004). a importância dos aspectos afetivos. Embora cada uma delas tenha suas funções e características. Sexualidade rompe com genitalidade e biológico.Capítulo 2 As teorias do desenvolvimento A forma de pensar o desenvolvimento humano tem se dado de diferentes maneiras ao longo da história da Psicologia desde sua fundação por Willhem Wundt. Neste sentido. pensamentos tão bem como acreditávamos. mental e afetivo-social. sentimentos. em seu processo de construção no seio de intensas transformações econômicas. ego e superego. Com isto. 2. formado em medicina e atuando na área da neurologia. o amplo leque de abordagens que detém o seu olhar sobre o desenvolvimento. Freud resgata. diferentes visões sobre o Homem em sua constituição física. Assim. ao período da adolescência. leva-nos a perceber a complexidade dos mesmo. a flexibilidade e o pluralismo como marcas da Psicologia Evolutiva contemporânea.1. tem gerado múltiplos enfoques e. realizados em colaboração com os renomados médicos Joseph Breuer e Jean Martin Charcot. nenhum sistema teórico expressou melhor e mais profundamente a falência do sujeito da modernidade com suas pretensões de autocentramento. em 1816. Viveu grande parte de sua vida na Áustria. e morreu em 1939. Ao postular que a maior parte da nossa atividade psíquica é de natureza inconsciente. A esse respeito. autonomia. em Freiberg (atual República Tcheca). políticas e sociais. Freud desenvolveu a psicanálise a partir de seus trabalhos clínicos com pacientes histéricos. motivos. Freud nos fez enxergar que não conhecemos nossos desejos. Em 1923. por conseguinte. em cada uma delas. A teoria psicanalítica de Sigmund Freud Sigmund Freud nasceu em 1856. em uma época marcada por rupturas de concepções filosóficas e ideológicas e pelo florescimento das universidades. Freud construiu os conceitos que vieram a embasar a primeira tópica ou esquema proposto por ele para a estrutura do psiquismo: Consciente. com a publicação da obra O ego e o id. Não é por acaso. Pré-consciente e Inconsciente. está no campo da fantasia e dos desejos. dando ênfase especial. para o campo do fenômeno psicológico. Nesse cenário. apresentaremos a síntese das principais teorias psicológicas que versaram sobre o tema. Rompendo com o racionalismo preponderante na ciência da época e com a ideia do Homem capaz de controlar a si e ao mundo. Esta ciência. atitudes. elas 14 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Freud retoma a tarefa de descrever o psiquismo tratando de sua dinâmica e economia na proposição de uma segunda tópica composta pelas estruturas: id. transparência da consciência e força de vontade. Palacios (2005) destaca a amplitude. das pesquisas científicas e das artes. colocou em dúvida a tão festejada preponderância da razão no desenvolvimento humano.

A energia da pulsão sexual. denominada fálica (3 aos 5 anos). As exigências sociais nesse período podem tornar essa fase conflituosa para criança. Sua ênfase está no sentido do prazer. A sexualidade infantil possui um sentido diferente da sexualidade adulta. Emerge do próprio “eu” e visa proteger o indivíduo das repressões inconscientes ligadas às fantasias e desejos que não são aceitáveis pela consciência. claramente. é o momento em que a criança começa a perceber as diferenças sexuais anatômicas e a vivenciar o prazer na manipulação dos órgãos geni- Observe diferentes bebês no primeiro ano de vida e você poderá perceber. principalmente quanto à imagem que o indivíduo tem de si. não está relacionada ao aspecto biológico.então. Trata-se de uma força intrapsíquica voltada para a busca de satisfação que pode ser de dois tipos: sexual/erótico ou agressivo/destrutivo. constituindo o narcisismo infantil. • Fase oral: Caracteriza-se pela concentração da libido na região bucal. não sendo socializado e não respeitando qualquer convenção. Estes são uma força impulsora de um movimento constante. da sucção dos lábios etc. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 15 . objetivando alcançar o máximo de gratificação ou descarga para o id. Deste modo. é a libido. É a parte visível de cada um de nós que sofre as pressões do meio e equilibra a relação do sujeito com os outros. de organização e disciplina. esse universo de prazer pela região da boca. colocando-o em uma posição menos onipotente frente à realidade na qual o sujeito está inserido. presente no ser humano desde o nascimento. 2002). Essa fase desempenha papel importante na constituição da personalidade. ela utiliza a excreção (retendo ou expelindo) como um ato dirigido ao “outro”. especialmente nas vivências futuras de prazer e desprazer. Busca satisfação incondicional do organismo.atuam de modo profundamente interrelacionado. do contato com objetos como chupeta. • Fase anal: Na época em que a criança está aprendendo a controlar os esfíncteres. regras e princípios morais dos grupos sociais. expressas em diferentes fases. O desenvolvimento humano é. representante do inconsciente. marcado pela força da libido que assume várias formas e localiza-se em determinadas regiões do corpo nas quais o sujeito encontra mais satisfação à medida em que se desenvolve. o id. O ego consiste naquelas funções psíquicas ligadas às relações do indivíduo com seu meio. mordedor. A boca vai se tornando o centro do prazer através da alimentação. Você verá que a criança estará voltada para si. O superego é o depositário das normas. Nessa fase. genital. no treino do banheiro. o funcionamento mental é dinâmico em seu todo e em suas partes. tendo repercussões na formação da personalidade. a energia libidinal se desloca para a região anal. da descoberta do próprio corpo e das questões ligadas ao desejo e à fantasia que permeiam a relação com os pais. funciona como o grande reservatório da libido. O id compreende as representações psíquicas dos impulsos ou pulsões (FREUD. que coloca o sujeito para agir. Funciona como controlador das pulsões do id e das intenções do ego. • Fase fálica: A fase posterior. a criança só se interessa pela gratificação de seu prazer de foma egocêntrica. Desse modo. Como a criança já faz uma diferenciação entre ela e o mundo externo.

esse desejo pelo pai deve se dissipar a fim de que a menina possa sair da situação edípica e seguir com suas escolhas de objetos de amor. 2. podem irromper em forma de sintomas neuróticos ou outros conflitos como 16 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . dada a concentração de energia libidinal que ali se forma. artes e atividades escolares ganham um papel de destaque na vida da criança.tais. entram em conflito com as barreiras do superego bem fortalecidas. tendo inveja e desejando o órgão masculino.1. ocorre um grande deslocamento de energia da libido que leva consigo para o inconsciente as vivências infantis das fases oral. Coincide com o ingresso da criança no ensino fundamental. anal e fálica. correspondendo à etapa seguinte. Esta fase é assim denominada pela relevância que Freud atribuiu às fantasias infantis inconscientes com o orgão genital masculino. As energias recalcadas no id. brincadeiras. com todas as transformações orgânicas e hormonais ocorridas. A situação feminina é distinta. sabemos que os fatores culturais também intervêm fortemente nessa crise. a sexualidade é genital e não fálica. a mãe é o primeiro objeto de amor. É marcada também pelo Complexo de Édipo. fora dessa relação pai e mãe. ocorrendo gradativamente a diferenciação de investimento para a figura paterna. ele mantém um desejo incestuoso pela mãe. Os sentimentos vivenciados nas fases anteriores. o menino terá que recalcar o desejo incestuoso pela mãe e identificar-se com o pai. Posteriormente. nesse momento da vida da criança. principalmente na fálica. de natureza física ou intelectual. e portanto. Então. Fases psicossexuais Oral. Este é um momento crucial para a constituição do superego na personalidade infantil. Pode ser um período de muitos conflitos. escolhendo-o como modelo de papel masculino. Na superação do Édipo. Deste modo. Agora. impossibilitadas de manifestar-se plenamente. A menina ressente-se por não possuir algo que os meninos têm. desenvolve um sentimento de inferioridade. A menina percebe em si a ausência do pênis. Nesta etapa. Com relação ao menino. Ela atribui à mãe a culpa por ter sido gerada deste modo e rivaliza com ela. É o que Freud denominou de sublimação. Fase da latência - É o período em que a libido permanece voltada para atividades que não tem um caráter sexual. O pai é percebido como rival que lhe impede o acesso ao objeto desejado (mãe). os sentimentos incômodos e proibidos experimentados nessas etapas. Ao mesmo tempo. inclusive na discussão do próprio conceito de adolescência. Temendo ser punido com a perda dos órgãos genitais (angústia da castração) e do lugar fálico (de poder) em que se encontra. fálica. estando voltada para as relações exteriores à família. A partir do início da puberdade. no qual ela pode se destacar em atividades. o menino percebe a presença do pênis e manipula-o obtendo a satisfação libidinal. Em ambos casos. Assim. latência e adolescência Hoje. internalizando regras e normas impostas pela autoridade paterna. meninos e meninas retornam aos interesses de ordem sexual. manterá sua integridade sexual e adotará papéis masculinos. gerando fenômenos que muitos denominam de Síndrome da Adolescência (ABERASTURY). posto que há um retorno dos sentimentos e desejos recalcados no inconsciente no período da latência. precisa se identificar com a figura materna a fim de obter o amor do pai. esportes. anal.2.

ente o dentro e o fora. o bebê poderá desenvolver experiências que lhe permitam integrar a imagem de si e a representação dos outros. pois uma mãe que nunca falha é igualmente danosa. como para a capacidade de lidar com as angústias de separação. como refletir sobre quais são as características do ambiente escolar que poderíamos comparar à uma boa capacidade de holding. entre o bebê a mãe. permitindo ao filho se sentir protegido e cuidado. viva e integrar as experiências acerca de si. O recém-nascido vive em situação de dependência em relação à figura materna. Por outro lado. algo bom que a criança se apega e utiliza para se proteger de situações difíceis. Desta forma. é uma expressão da necessidade de ser amada e compreendida. 2. Ao longo de uma das carreiras mais ativas e com numerosos casos de atendimento.2. ambientes que cuidam de crianças e adolescentes. aquilo que ele por si ainda não pode se proporcionar. elaborou uma teoria acerca do desenvolvimento inicial do ser humano. Este fenômeno é muito presente no ensino médio. Isto consiste na criação de um espaço mental composto de objetos transicionais. ela deve ser "suficientemente boa". seguro. Diante de tal fato. se esta dependência se dá em uma ambiente favorável. O que são esses objetos transicionais? São objetos que representam a mãe. Um dos conceitos centrais de sua teoria é o de holding. Winnicott estende este conceito para as instituições como hospitais. A mãe não é boa em excesso. uma tentativa de esperança de encontrar o objeto. junto ao bebê. atribuindo ao ambiente um papel crucial nesse processo. ele constatou que boa parte das questões emocionais apresentavam sua origem nas etapas precoces do desenvolvimento. de cuidado? PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 17 . é crucial tanto em termos evolutivos. a criança nasce indefesa. É um ser em estado de não integração que percebe os estímulos que lhe chegam de forma desorganizada e sem muitos recursos para se proteger. O conceito de “suficientemente boa” chama a atenção porque traduz a ideia de um limite correto. quando o aluno transfere esses sentimentos conflituosos da relação com as figuras paterna e materna para os professores. propicia um avanço em direção à independência e a uma maior diferenciação entre o interno e o externo. uma manifestação motora. pois ajuda a criança a se sentir especial. Essa capacidade oferece a possibilidade de integração do ego da criança através da mãe que funciona como um ego auxiliar. confortável. agride ( e que quanto mais o objeto é capaz de resistir à agressão da criança mais favorece que o objeto interno se fortaleça). Este termo relaciona-se à capacidade da mãe de oferecer um ambiente emocional previsível.aversão à autoridade do adulto. escolas. é. Winnicott enfocará a primeira infância como essencial para o desenvolvimento humano. São objetos que a criança manipula. A boa mãe permite à criança a vivência de experiências narcísicas saudáveis. nesse período. Neste percurso. a mãe não pode ser insuficientemente boa. Graças a essa capacidade de sustentação da mãe. capaz de identificar as necessidades do filho e atender as demandas de cuidado e de suas necessidades de sobrevivência. É importante compreender que a agressão da criança não é considerada algo destrutivo por si. A teoria de Winnicott Donalds Woods Winnicott iniciou seu interesse em compreender o psiquismo infantil a partir do seu trabalho como pediatra na Londres de 1923. a fim de se cuidar. falhando no sentido de sempre deixar a criança à deriva. Graças à capacidade da mãe de desenvolver uma "preocupação materna primária". Partindo da sua experiência no atendimento a crianças. pois desenvolve. antes. de sustentação. a criação de uma zona intermediária. imersa em angústias inomináveis e desintegradoras. sem deixar espaço para a criança se constituir. Para Winnicott.

essencialmente pela resolução de uma importante “crise”. Winnicott. As quatro primeiras “idades” se referem à infância. de que cria tudo que deseja. Alguns dos objetos transicionais conhecidos são ursinhos. integrada e capaz de lidar com processos de separação. É importante perceber. nos Estados Unidos. Diante deste fato. pois o bebê. a criança pode construir a constância perceptiva de si e de seu mundo interno. a sustentação para o progresso do desenvolvimento destas capacidade do filho. 2. Cada uma das “idades” está caracterizada. que permite ao bebê amadurecer e progredir. uma canção. em 1902. e que passam a ser utilizados. Para Winnicott. Contudo. Deste modo. o bebê vive a ilusão da onipotência. Outro aspecto relevante é que a criação desta área transicional será a responsável pela criatividade. criou sua própria teoria. O bebê experimenta situações que devem gerar segurança e confiança. Para este teórico. muitas vezes. Enquanto em uma experiência com a mãe. através da sua capacidade de holding. No início. E qual o papel do pai nesse percurso de desenvolvimento infantil? O pai também é fundamental na garantia dos cuidados da mãe com o filho. A teoria Psicossocial de Erik Erikson Nascido na Alemanha. e falecido em 1994. não tomou o inconsciente como foco central. Erikson tornou-se psicanalista. à relação bebê e mãe nos dois primeiros anos de vida. como ser suprido quando tem fome. social e individual. ou seja. em seus estudos. um outro acréscimo se dá ao psiquismo: a capacidade de objetivação do objeto. a quinta. oferece um papel fundamental ao ambiente. na capacidade de representar a lei e de ajudar o filho no processo de autonomia e independência. • Confiança básica versus desconfiança básica: Está relacionada. a formação simbólica. pedaços de pano. o indivíduo psicologicamente saudável é aquele que constituiu um forte sentido de identidade. apesar de possuir capacidades inatas de desenvolvimento. vai se distanciando de tais objetos. O polo masculino possibilita um contraponto fundamental: o fazer. o desenvolvimento se dá em direção à formação da identidade através de diferentes estágios que ele denominou de “oito idades do Homem”. tendo trabalhado com Anna Freud. dedicando-se ao tema da crises do ego no problema da identidade e à investigação das influências culturais no desenvolvimento psicológico das crianças. traduzem a busca por afeto e compreensão. 1978). à adolescência e as três últimas à vida adulta. entendida a partir da integração dos sistemas biológico.3. separação e frustração introduzido pelo elemento masculino. Isto lhe garante o estabelecimento das fronteiras do self. pedaços de roupa da mãe. À medida que se sente mais confiante. Nesse processo. precisa que a mãe assegure. em situação de defesa contra angústias. ao entrar em contato com o processo de diferenciação. bonecas. através da qual o indivíduo evolui buscando um equilíbrio (GALLATIN. ao viver com a mãe (a qual ainda não é percebida como um outro) a constância das experiências. a criatividade faz parte da capacidade vital saudável. podemos pensar em várias ações agressivas presentes na escola que. respeitar e não destruir este objeto no qual a criança deposita tanto investimento emocional. ser acalentado quan- 18 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . É herdeira da relação de amor estabelecida entre o bebê e sua mãe. especialmente. principalmente. Erikson destacou a adolescência como etapa fundamental no percurso do desenvolvimento humano. desta forma.

a compreensão de quem ele é e de qual o seu papel no mundo. manipular e buscar alcançar suas metas. gerando um sentimento de desconfiança. • Intimidade versus isolamento: Até os 30 anos. pode se preparar para assumir as responsabilidades que a vida adulta trará. explora o mundo usando o corpo e a imaginação. a criança começa a ter necessidade de autocontrole e de aceitar o controle de outros. Aqui também a relação com os pais é fundamental. é marcado pela confusão de papéis e pela dificuldade de saber quem é e o que quer em relação à sua vida. Embora vivencie novas conquistas. antes dos compromissos futuros que. a pessoa tem a sensação de tempo perdido. pode haver um sentimento de PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 19 . pode experimentar sentimento de inferioridade por não conseguir dar conta dos novos desafios. Quando esta avaliação é negativa. com mais recursos cognitivos. no polo oposto. a sociedade vai conceder ao adolescente um “tempo” para que ele possa vivenciar esses conflitos na busca pelo seu espaço e sua função no meio em que vive. levando ao isolamento.do chora. • Identidade versus confusão/difusão: Embora a resolução do conflito básico de cada fase seja fundamental para a seguinte. • Generatividade versus estagnação: Nesse período. que vai dos 30 aos 60 anos. É um período de pausa. conforme as exigências dos pais e professores. Uma retrospectiva identificando se o que viveu teve sentido. O lado negativo é quando a vivência com a mãe ou cuidadora não ocorre dessa forma. a criança. • Integridade versus desespero: a “última idade” é caracterizada por uma avaliação daquilo que o indivíduo fez ao longo de sua vida. vivenciando um rudimentar sentido de autonomia. Nessa etapa. Porém. agora. traz uma crise fundamental: a aquisição de uma identidade psicossocial pelo adolescente. os jovens adultos vão se deparar com a tarefa de construir relações afetivas de intimidade com os outros no plano do amor e da amizade. O adolescente. Há uma destreza maior para poder fazer. aumentam as expectativas com relação ao seu êxito. de que não valeu a pena. tem dificuldades em fazer escolhas. • Diligência versus inferioridade: Este é o período que geralmente coincide com o ingresso da criança no ensino fundamental quando suas tarefas se tornam mais complexas e. saber que a mãe vai e volta etc. de experimentação. o indivíduo experimenta um maior descentramento do ego. ao mesmo tempo em que deseja ser como os adultos. e isto pode ocorrer de forma negativa quando usa a vergonha como punição. esta idade. A vertente negativa aparece na dificuldade de partilhar intimidade e de estabelecer vínculos. ou seja. • Iniciativa versus culpa: Dos três aos seis anos. levando-a ao medo do fracasso e da punição. Assim. posto que vai ajudá-la a internalizar normas. produtivo de sua vida e com o seu legado para as gerações futuras. compreendida entre 12 e 18/20 anos. É o que Erikson denominou de moratória social. agora com mais autonomia. centrado apenas em suas preocupações e na posse de bens materiais. por conseguinte. ou seja. convive com as expectativas que eles têm sobre ela. • Autonomia versus vergonha e dúvida: Por volta do segundo ao terceiro anos de vida. O aspecto negativo é quando o sujeito fica estagnado. e passa a preocupar-se com o sentido criativo.

sua teoria é denominada Epistemologia Genética. a compreensão da relação entre aquele que conhece e os objetos do conhecimento. Com isto virão a escolha profissional.4. para níveis tão complexos como a capacidade de pensar abstratamente. Esse processo é vivido de maneira diferente entre os adolescentes e entre as diferentes culturas. embora possuam níveis diferentes na capacidade de conhecer. 20 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . que a criança e o adulto. entre o adolescente e os múltiplos desafios que lhe são postos pelo avanço de suas estruturas de pensamento e pela ampliação das relações sociais/afetivas nesta etapa da vida. proposta por Erikson. o Homem vai construindo suas estruturas de pensamento. Apoiado na Psicologia. Por conseguinte. ao pensarmos e sentirmos. Como foi possível observar nessa dinâmica do desenvolvimento. inclusive produzindo grandes avanços científicos. entre o bebê que está descobrindo o mundo e as pessoas e objetos com os quais interage. manifestamos um desequilíbrio no nosso organismo. etc. temos necessidades ou motivos que nos levam a agir no ambiente em que estamos. nasceu em 1896 e morreu em 1980. utilizam os mesmos mecanismos cognitivos. como por exemplo. como o sujeito passa de um estado de menos conhecimento para um estado de maior conhecimento. uma ideia. da vida afetiva. solucionavam diversos testes. o conhecimento se refere à ação do sujeito de estruturar. O foco de suas investigações passa a ser. Deste modo. Por exemplo. mobilizamos em nossa mente mecanismos que vão nos permitir restabelecer o equilíbrio.Para Piaget. ou seja. ele estudou a evolução do pensamento e da moralidade. Constantemente. 2. uma passagem de um estado de menor equilíbrio para um estado de maior equilíbrio. em relação ao meio físico e social (PIAGET. quando necessitamos conhecer algo. maturidade mental e responsabilidade social que vão prepará-lo para vivenciar e e superar a crise de identidade. então. quer dizer. agir para atender aquela necessidade. reconciliação com suas experiências. organizar e explicar o mundo a partir das suas vivências e experiências. Desta forma. a fim de alcançarmos um equilíbrio. o sujeito aciona os mecanismos de: assimilação e de acomodação. Então. é na adolescência que o sujeito adquire os pré-requisitos de crescimento fisiológico. Isto ocorre no âmbito da inteligência. Quando é positiva. portanto. há um sentimento de integridade. O objetivo central de sua obra foi investigar como o ser humano constrói o conhecimento. fundamental para a resolução dos conflitos nas idades posteriores. estudo da gênese do conhecimento. observando o modo como crianças e adolescentes. para buscarmos conhecer o que queremos. experimentos e exercícios. é um processo de equilibração progressiva. desesperança. 1967). pegar um objeto. A epistemologia genética de Jean Piaget Jean Piaget. o conhecimento é construído na permanente interação indivíduo/ meio. então. Por isso. caracterizado pela proposição de situações problemas aos sujeitos pesquisados. uma forma de executar uma tarefa. preocupou-se em explicar como. os relacionamentos mais duradouros e a definição de sua singularidade. serenidade. Piaget escolheu o método clínico. contribui para o fortalecimento da singularidade do adolescente. estamos manifestando uma forma de ação. Assim. os dados/informações sobre O desenvolvimento humano. Constatou. seja uma informação. Quando Piaget fala de ação está se referindo não só ao movimento no plano físico. o sujeito entra em contato com a realidade externa. biólogo e epistemólogo suíço. Na assimilação. em diferentes idades. uma troca afetiva. trazendo para as estruturas mentais que já possui. também está considerando que. bem como no organismo de um modo geral. ao longo da vida. escrever uma carta etc. partindo de níveis de pequena complexidade. Isto é. das relações sociais. uma solução de um problema matemático ou pessoal. Erikson destaca que o êxito na resolução dos conflitos anteriores. Nesse processo de permanente reajustamento. típicos de um bebê.

é a imitação diferida. reflexos de caráter hereditário. revelando que a criança adquiriu a capacidade de recordar algo vivido. Esses reflexos vão melhorando com o exercício e dão lugar a uma generalização da atividade. Nesse sentido. Conclusão: nenhum está preocupado ou interessado no programa do outro. pois têm dificuldade de se perceberem um no lugar do outro. aos poucos. 2. a vida mental se reduz ao exercício dos aparelhos. o primeiro estágio do desenvolvimento cognitivo vai aproximadamente de zero a dois anos de idade. elas estão mais centradas em seus pontos de vista. Período pré-operatório Aproximadamente aos 2 anos. Nesse período. a professora coloca os alunos em círculo e vai indagar-lhes sobre o final de semana. é fundamental para a evolução psíquica do sujeito porque representa através da percepção e dos movimentos. No momento inicial da aula. Agora. uma linguagem egocêntrica. oposição interno-externo. imitando os adultos. entregando-se à verdadeira experiências de exploração do meio. a criança torna-se capaz de exteriorizar a vida interior. etc. a criança evoluiu para um estado de maior atividade e participação. ela brinca de escola. característica do 2o estágio. Outro exemplo é quando as crianças brigam e a professora fala para não baterem mais. o bebê suga melhor no 8o dia do que no 1o e.1. Por exemplo. a qual vai gerar mudanças significativas no campo afetivo e do pensamento. No momento eles se concordam. Aqui. a possibilidade de representar acontecimentos e objetos que já não estão presentes diante da criança. Um deles diz que foi à praia.aquilo que está desejando conhecer. Predomina. No início desse período. brinca de cozinhar. o outro fala sobre o brinquedo que ganhou. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 21 . imitando a professora. sendo denominado de período sensório-motor. Tente descrever o processo vivido até conseguir obtê-lo. mas logo podem voltar ao comportamento de antes. Por conseguinte. o bebê incorpora novos objetivos a seus esquemas de ação.2. leia os parágrafos seguintes e veja como tal processo de aquisição desse conhecimento seria explicado pela teoria de Piaget. a criança desenvolve a capacidade de representação mental de objetos e eventos. Uma outra importante forma de representação. na medida em que já conta coisas que já aconteceram. imaginando a dor que sentem os colegas. Marcado por extraordinário desenvolvimento mental. Ao ler o texto. Pense em um conhecimento que você possua sobre algo. desenvolve a linguagem falada. nesse estágio. Essa é uma aquisição essencial. a conquista pela criança de todo o universo prático que a rodeia. No campo afetivo. então. Observando uma sala de aula de pré-escola podemos ver com clareza esta linguagem egocêntrica. bem como é capaz de falar sobre eventos futuros. Período sensório-motor Para Piaget. Por exemplo. Isso permite a noção de permanência do objeto. suga também seu dedo ou qualquer objeto que lhe seja apresentado. ou seja. causalidade e tempo.4. uma criança de 8 anos se depara com um livro novo.4. Há uma diferenciação progressiva entre o eu da criança e o mundo exterior. também a criança faz escolhas mais objetivas. Embora iniciem-se as trocas entre as crianças. ela traz para as suas estruturas 2. graças à construção de categorias de espaço. como a sucção. Com a fala. em função de suas experiências no meio. outro sobre a festa que foi e assim por diante.

Como o uso da linguagem torna-se mais comunicativo. a criança ficará confusa ou responderá 10km. rabiscos lineares e circulares.10). pois não apresenta o egocentrismo mental. pupilas. No pré-operatório.Uma segunda forma de representação é o jogo simbólico. Portanto. “Sou uma princesa e todos me adoram”. sobrancelhas. Segundo Greig (2004). O pensamento operacional concreto é caracterizado pela descentração. 2. isto é. ocorre uma diminuição considerável do egocentrismo. pelos chapéus e pelas roupas” (p. se mantém presa ao sentido utilitário dos objetos e ao campo perceptivo concreto. um obje- 22 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . característico do estágio anterior. da forma mais realista possível. Outra forma de representação acontece através do desenho. algumas situações que ela gostaria de vivenciar. ou seja. aquilo que deseja expressar. a criança ainda não possui a capacidade de pensar sobre algo e depois fazer o caminho inverso. Há. executando o ponto de partida e de chegada no círculo.) espera-se a diferenciação sexual. Por exemplo: “faz de conta que eu sou bem pequenina e minha mãe me põe no colo”. Contudo. desenha um quadrado complexo e avança até os cinco anos para o desenho da figura com cabeça e corpo bem definidos. No plano afetivo é capaz de cooperar e trabalhar em grupo. A criança sensório-motora se expressava através das chamadas garatujas. ou seja. particularmente pelos cabelos. observa-se que ainda não são capazes de fazer as operações matemáticas de adição. condizentes com os objetos da realidade. voltando pelo mesmo lugar. ainda sem forma definida. subtração com números. de imaginação. “a criança deste estágio atinge um nível de atividade intelectual superior à criança pré-operacional. “a cada trimestre. O jogo simbólico vai se transformando em jogo de regras e a socialização vai se estruturando em torno da cooperação. Cílios. no desenho da figura humana podemos observar bem as ricas transformações pelas quias a criança vai passando nesse período. o jogo também permite que a criança se expresse e transforme os objetos em coisas que deseja. Além de ser imitativo.. etc. Aos 4 anos.concreto O período dos 7 aos 11/12 anos dá início à construção lógica. uma vassoura vira um avião. no jogo. a expressão da criança se enriquece de diversos modos. etc. uma corda vira um trem. ou seja. ela ainda pensa de modo pré-lógico. isto é. Segundo o autor. Além do mais. Desse modo. trocando informações com outras crianças e com adultos. nas coisas que conhece e pode considerar como sendo reais. sua aprendizagem está ainda muito baseada em suas vivências. etc. muito comum nas brincadeiras infantis do faz de conta.4. Aos 3 anos de idade adquire o controle de seus traços. em todos os aspectos”. estas são capazes de perceber todas as características relevantes em um problema. qual é a distância da praia para a casa dela. diálogo e debate de ideias. Ao contrário das crianças no estágio anterior. ela pode manifestar. uma rigidez de pensamento em termos de estabelecimento de relações entre os fatos. adquire maior poder de argumentação. A criança pré-operatória avança em relação ao desenho. Período operatório . É a irreversibilidade do pensamento. buscando representar. a capacidade de a criança estabelecer relações que permitam a coordenação de pontos de vista diferentes. a criança está mais adaptada à realidade.. Na escola.3. também. orelhas ou bochechas dão precisão ao rosto (. Segundo Wadsworth (1996: 104). Ao final desse período. Por exemplo: se você diz a uma criança que o caminho de sua casa para a praia é de 5 km e depois pergunta.

É um mundo mental muito mais abrangente. realizar experimentos que exijam a relação entre diferentes variáveis e situações. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 23 . ainda obedece a uma lógica da realidade concreta. A música do grupo Ultraje a Rigor expressa essa contradição: Imagine um jovem de 15 anos que acabou de ingressar no ensino médio. de massa aos sete ou oito anos e depois de volume.4. A criança prevê que as bolas sairão do tubo na mesma ordem em que foram colocadas. Assim. como se o mundo devesse se submeter àquilo que o adolescente pensa sobre ele. Observa-se também um avanço significativo na capacidade de realizar atividades de seriação. Contudo. etc. ou seja. é comum a oposição aos adultos e os conflitos de opiniões. o adolescente é um sujeito capaz de construir teorias sobre o mundo e sobre o que ele gostaria de modificar na sociedade. hipotetizar. A crinaça pré-operacional continuará dizendo que as bolas sairão na mesma ordem (VAP). para expressar suas ideias o adolescente não precisará. discutir temas filosóficos mais complexos. que o pensamento lógico possibilita um conhecimento mais compatível em termos de lógica convencional com o mundo real. refletir espontaneamente cada vez mais independente do real. A chegada dessas novas estruturas de pensamento traz. das percepções ou das crenças. por exemplo ordenar varetas. Assim. na qual o adolescente percebe o seu “eu” suficientemente grande para reconstruir o universo à sua maneira. Isto se torna viável em função da capacidade de o adolescente generalizar. já será percebido pela criança neste estágio. que já caracteriza o inicio da adolescência. caracterizando uma das conquistas da adolescência: a reflexão espontânea. Além disso. desenvolver análises sobre temas baseados em situações hipotéticas. geometria. ela já é capaz de acompanhar as transformações. Para Piaget. Aliás. uma situação analisada. interpretações de textos mais amplos e aprofundados. a capacidade de abstrair e de gerar hipóteses. A criança operacional concreta será capaz de prever que as bolas sairão em ordem invertida (PAV) No inicio deste período também surge a noção de conservação de números por volta de seis ou sete anos. É a idade da metafísica. problemas de adição como perceber que 3+2 é igual a 5 e que 2+3 também dá o mesmo resultado. da experiência. ocorre a passagem para o pensamento formal. necessariamente. vivenciadas pela criança. O pensamento. então. possibilitando ao sujeito o exercício da reflexão.4. abstrair. procure lembrar de sua transição do ensino fundamental para o médio. Pense em quantas coisas novas você conheceu e no quanto mudou sua forma de aprender e de se relacionar. e vai lidar com operações matemáticas mais complexas. vira-se o tubo para baixo. embora evoluindo. indo da menor para a maior. No plano cognitivo. As operações lógicas começam a ser transpostas do plano da manipulação concreta para o das ideias. se comparado à criança. 2. o que amplia seu poder e liberdade. Deste modo. que são expressadas também pela linguagem. Período operatório formal No período seguinte. surge uma nova e importante capacidade: as operações reversíveis. pode raciocinar sobre vários aspectos ao mesmo tempo. Assim. mesmo a reflexão que se inicia se exerce a partir de situações presentes ou passadas. etc. amarela e preta (VAP) sendo colocadas nesta ordem dentro de um cilindro. O pensamento formal é hipotético-dedutivo.to. Vemos. podendo solucionar problemas que demandem a observação de passos sucessivos. relações entre diversos conceitos. Em seguida. é possível resolver complicadas equações matemáticas com variáveis e números. Vejamos um exemplo: Mostra-se para uma criança três bolas de cores diferentes: vermelha. Uma das formas de reversibilidade adquirida é a capacidade de inversão. consigo. um egocentrismo intelectual.

1. Todo esse sistema de pensamento é preparativo para a capacidade do adulto de elaborar suas criações pessoais. memória mediada. etc. também. estar mais certo do que eles em seus pontos de vista. Essa 24 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . S. quando o adolescente encontra um parceiro. já pode imaginar e planejar como serão. Podem decorrer daí as decepções. grupos. Mas. pelos materialismos. atenção seletiva. linguagem. ou seja. Gradativamente ele vai atingindo o equilíbrio e sua reflexão vai deixando a função de contradizer o mundo e assumindo seu papel central de interpretar o meio e se antecipar às experiências a serem vivenciadas. Apesar de sua curta existência. etc. aos 38 anos de idade.. O trecho da música do grupo Roupa Nova fala desse tema: você lembra. A Psicologia histórico-cultural de L. Por conseguinte.. o próprio amor adolescente possui relação com estas novas aquisições propiciadas pelo pensamento formal. criatividade. naquele tempo/ eu tinha estrelas nos olhos e um jeito de herói/era mais forte e veloz que qualquer mocinho de caubói/ Você lembra/eu costumava andar bem mais que mil léguas/ prá poder buscar. flores de maio azuis e os teus cabelos enfeitar. vítima de tuberculose. 2. São assim denominadas em oposições às funções mais básicas como os tipos de percepção e memória que alguns animais possuem. o adolescente afirma-se através da conquista de uma personalidade mais autônoma e cooperativa. bem como da sua inserção no universo adulto. rupturas e mudanças repentinas de parceiros.5. ou seja. Assim. As conquistas próprias da adolescência asseguram ao pensamento e à afetividade um equilíbrio superior ao da infância. ele deixou uma rica produção no campo da Psicologia. Vigotski Lev Semionovich Vigotski nasceu em 1896. Então. os ídolos e os herois são mitificados. e morreu em 1934. A verdadeira adaptação à sociedade vai se dar quando o adolescente passar de reformador do mundo a realizador. tais como consciência. 2. com pretensões de mudar o mundo? Qual sua opinião sobre eles? Pense sobre estas questões e as analise tendo por base a teoria piagetiana. ao mesmo tempo em que quer se colocar em plano de igualdade com os adultos.Não vai dar/ assim não vai dar/ como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar/ Não vai dar/ assim não vai dar/. desequilíbrios e oscilações emocionais que trazem de volta o egocentrismo. Você lembra se em sua adolescência você teve ídolos ou heróis? Como se sentia em relação a eles? Em que momento passou a vê-los de modo diferente? Conhece adolescentes que sejam idealistas. lembra. é como se este fosse a projeção de um todo ideal em um ser real. que nos diferenciam dos demais animais. interesses. se eu amadurecer sem ter com quem me rebelar/Meus pais não querem que eu fique legal/ meus pais não querem que eu seja um cara normal. o adolescente. nesse período. Essa supervalorização do “eu” pode resultar em uma visão mística ou altruísta no sentido de idealizarem projetos de reforma do mundo e até de salvação da humanidade.. em Belarus (na então União Soviética). Influenciado pela Psicologia Fisiológica. estão presentes. também quer vencê-los.” Vigotski investigou como se formaram nossas funções psicológicas tipicamente humanas. Afinal. e pelo contexto soviético pós-revolução russa de 1917. A formação das funções psicológicas superiores A Psicologia vigotskiana considera que as funções psíquicas são formadas na relação dialética do sujeito com a cultura e a sociedade. a capacidade de elaborar hipóteses e deduções. Para Piaget.5. desenvolveu seus estudos buscando responder como o Homem se constituiu humano. ultrapassá-los.. um objeto de amor. histórico e dialético. No plano afetivo.

com suas mãos. Agora. Afinal. como a criatividade. a qual é produzida social e historicamente. por exemplo. inclusive na sociedade atual. poderia se transformar em outros objetos. expressos. ele vai. para Vigotski (1986). ele se modifica como sujeito e passa a pensar. a palavra representa o universo de cada indivíduo com suas relações interpessoais e vivências afetivas. os instrumentos e os signos. a roda. a partir do meio externo. Tudo que ele apreende da sociedade e da cultura ele pode transformar em material simbólico. consigo mesmo e com a própria consciência. as ideias. sendo elemento vivo. Ele poderia planejar. o Homem imaginou que uma pedra ou madeira. Para compreender a fala de Pensando no exemplo ao lado. foi dando origem a nossa função simbólica. a dar significado ao mundo. principalmente. E. ou seja. é a arena onde se confrontam valores sociais e todos os tipos de relações. Nessa internalização. por exemplo. a nossa possibilidade de pensar. imaginar. o signo é ideológico. ele não precisaria mais.relação acontece tendo como mediadores. enfim os modos de ser e de pensar de uma cultura. para otimizar suas atividades de caça ou de defesa. retida na consciência. instintivamente. pela linguagem. fazendo destes objetos um instrumento mediador de sua relação com a natureza. A ação de crianças. a construir sua subjetividade (modo de ser) a partir dos aspectos internalizados que se transformaram em elementos constitutivos do seu “eu”. Para Vigotski. transformadas. a criar. não é neutro. o fogo. vamos voltar um pouco à história da evolução da espécie humana (filogênese). Neste sentido. que são construídos culturalmente. ao internalizar determinados valores culturais. A palavra. Esta capacidade imaginativa. ou um livro que nos aproxima do conhecimento sistematizado. poderíamos exemplificar com muitas outras conquistas da espécie humana. Isto passava a exigir dele uma grande capacidade de antecipar mentalmente a tarefa que iria realizar. ao mesmo tempo. criar e comunicar. ao pegarem qualquer objeto e os transformar em brinquedos é exemplo dessa nossa capacidade imaginativa. plural e dirigida para fora do indivíduo. poderiam se tornar uma arma. mais adiante falaremos dos signos. Assim. refletindo a realidade da qual o indivíduo faz parte e sendo. que permite ao indivíduo arar a terra. ele vai convertendo aquilo que são elementos produzidos socialmente em aspectos seus. a atenção seletiva. Em um determinado momento. através das quais ele internaliza os valores. o raciocínio lógico. com significado. O ser humano se constitui através da mediação das palavras. podemos dizer que. cite outros instrumentos que. Toda função mental. Além dos instrumentos. Por exemplo. nossas funções mentais nascem de nossas relações com o meio. são exemplos de mediadores importantes para o desenvolvimento humano. da nossa atividade e experimentação no mundo. Quando falamos de instrumentos em Vigotski estamos nos referindo também a objetos mediadores em nossa interação. Para entendermos melhor o que Vigotski chama de instrumentos. como pontes entre indivíduo e meio. A pedra não era mais apenas um mineral. o segundo fator decisivo na formação do psiquismo humano foram os signos. nem sempre eles foram percebidos/utilizados pelo Homem como instrumentos auxiliares em sua vida. Contudo. ou seja. construindo suas funções psicológicas superiores. por exemplo: objetos de trabalho como uma enxada. enfrentar diretamente um animal ou inimigo de súbito. nos tornamos humanos indo do plano interpsíquico para o intrapsíquico. e de como necessitamos dos objetos em nossa interação com o mundo. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 25 . dava um salto em sua constituição psíquica. para você. enfim. por exemplo. ou seja. pensar no que fazer para obter alimento ou defender o seu povo. assim. nasceu da nossa troca com o ambiente. o arado. as palavras são os meios de contato do indivíduo com o mundo. parte dessa realidade. para além do instinto. ou seja. os costumes. os comportamentos. Considerando essas ideias. Há milhares de anos já havia na natureza pedras e galhos de árvores.

à medida que se complexifica vai intervindo qualitativamente na estruturação dessa linguagem. autor e produtor de sua história. então. já explicitamos ao falarmos no item anterior sobre os instrumentos que medeiam a nossa relação com a realidade. Na primeira infância. se antes a criança usava o balbucio ou as suas primeiras palavras apenas para se comunicar com o adulto. pode então. para Rego (1995). agora essa fala foi interiorizada. constituiu o pensamento. a linguagem é organizadora e dinamizadora do pensamento. quando a criança começa a falar. deduz e abstrai. mas também o seu pensamento. Isto se dá em permanente movimento no mundo. Ao contrário. falar consigo mesma para solucionar um problema ou planejar uma ação futura. expressa a própria essência do desenvolvimento humano. Sobre o plano filogenético. São quatro aspectos do desenvolvimento que estão inter-relacionados e constituem a origem de quem somos nós e como nos tornamos humanos. 2. sociogênese e microgênese. serve ao próprio indivíduo (discurso interior). Vigotski (2001) discorda de Piaget sobre o egocentrismo. mas também como alguém que sente. Embora tenha se referido mais à linguagem verbal. o significado da palavra é muito importante. Assim concebeu o desenvolvimento humano a partir de quatro planos genéticos: Filogênese. 26 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . na formação de suas funções superiores mediado por instrumentos e signos. O sentido. Assim. ela alcançou uma capacidade fundamental que vai mudar radicalmente sua relação com as pessoas de seu entorno. Nessa perspectiva. Vigotski. Vigotski chama atenção para a importância da escrita como forma de linguagem mais complexa e fundamental na aquisição dos conhecimentos sistematizados pela cultura. essa fala passa a ser internalizada. ou seja. como ser concreto. os aspectos do nosso desenvolvimento que trazemos em virtude de nossa evolução como espécie. e que foram nos compondo como humanos. ou seja. quando a criança fala consigo mesma não está sendo egocêntrica. Por conseguinte. sua fala tem apenas a função de comunicação e contato social com o meio (discurso externalizado). Nesse tema. ontogênese. imagina e se sensibiliza. concebe o Homem como um ser que pensa.5.2. o pensamento. o autor explica a origem do psiquismo humano. se emociona. Dialeticamente. Para ele. deseja. o qual se assenta no que ele denominou de “Planos Genéticos”. Aos poucos. O próprio desenvolvimento da linguagem no ser humano explicita bem essa dinâmica. A criança. ou seja.outra pessoa não basta entender suas palavras. Através deles. Os planos do desenvolvimento Vigotski reafirma a natureza histórica e social do ser humano.

Por conseguinte. quando não temos suficientes oportunidades e estímulos para desenvolvê-lo. reflita sobre os versos das duas letras de músicas: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso) “Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz” (Almir Sater) Como pudemos perceber. Caso não tenhamos nenhuma disfunção ou problema orgânico. vida adulta e velhice atravessaremos esse processo por caminhos e com significados distintos. a interação permanente como base da formação humana. Como poderíamos exemplificar para melhor compreendermos? Vejamos a linguagem. fazer com que floresça. nascendo em determinado país. Embora sejamos seres eminentemente interativos. Por outro lado. ao longo da vida. Um bebê. ao nascer. Embora não tenhamos nenhum déficit neurológico. adolescência. caracterizadas por aquelas funções que já adquirimos. Nesse sentido. nessa troca com o meio. o nosso desenvolvimento ao longo da vida. nascendo em uma sociedade de surdos-mudos. Embora sejamos da mesma espécie. ou seja. O segundo plano se refere à ontogênese (ciclo vital específico). falará o idioma específico nativo. a partir de nossa interação no mundo. é preciso lembrar também que. de nossa particularidade como sujeitos. valoriza bastante a interação entre os seres humanos como propulsora de novos desenvolvimentos em cada indivíduo. na qual os aspectos biológicos e culturais estão em permanente articulação e movimento. na apropriação da cultura o ser foi se transformando e adquirindo novas facetas. é preciso considerar. por exemplo: uma criança de quatro anos já é capaz de montar um quebra - cabeças de 12 peças. Outro exemplo é a nossa capacidade de raciocínio abstrato. Contudo. Vamos sendo transformados. construindo cultura. ou seja. a criança não falará. Baseado nas ideias de Vigotski. diferentes uns dos outros). ninguém pode aprender por mim. ela só estará consolidada em nossa mente se interagirmos com outros seres que falam. é singular. ou seja. Embora com características advindas da evolução da espécie. mas precisa do ambiente para atualizá-lo. mas também transformamos o mundo. atribuindo significados à realidade. o plano da sociogênese. podemos nos tornar adultos com dificuldades de compreender conceitos e relações entre fenômenos e situações. Também vamos vivenciando afetos e interesses que mobilizam nossas ações. Todavia. Por conseguinte. Podemos dizer que nos desenvolvemos. interagimos com o meio e desenvolvemos nosso psiquismo a partir dos conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade. ou seja. É o que Vigotski denomina de nosso plano microgenético (indivíduos singulares. nascemos com capacidade de falar. vivemos sozinhos nossas aprendizagens. Somos seres que nos desenvolvemos em sociedade. nos apropriando dos elementos do meio social e cultural do qual fazemos parte. que vai da infância até a velhice. no sentido de origem. Desde que nascemos. tenhamos o mesmo ciclo vital de infância. ela PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 27 . Vigotski concebe o desenvolvimento humano como uma produção. temos zonas de desenvolvimento reais. traz seu equipamento genético. no estudo do desenvolvimento. É desta perspectiva que nasce um outro importante conceito do autor: zona de desenvolvimento proximal. Para ele. cada um de nós é diferente.

resultando em permanentes reorganizações. com forte influência do materialismo histórico e dialético. continuaram a desenvolver suas ideias. A criança que monta o jogo de 12 peças. comportamentos. O que um dia era potencial. Para Wallon. esse estudo deve ser feito tomando a própria criança como ponto de partida e a observação como método de investigação. Através do estudo da criança. nos momentos de passagem. o sujeito vai avançando em novas aquisições no seu desenvolvimento. Porém. mas um dia terá condições de realizar. O desenvolvimento.6. São aquelas atividades que não consegue ainda fazer só. Cada idade constitui um conjunto indissociável e original de características no plano afetivo. Assim. Leontiev. O meio deve favorecer ações que permitam à criança e ao adolescente avançar constantemente. Wallon deu extrema importância aos períodos de conflitos. a criança vai interagido de forma singular com um ou outro aspectos. Para ele. mas com a ajuda de outra pessoa pode conseguir realizar. pela interação e mediação de outras pessoas. motor. pessoas próximas. atitudes no conjunto de suas possibilidades.também possui uma zona potencial (aquilo que ela ainda não faz. Portanto. nasceu em 1879 e morreu em 1962. Luria e A. A escola e o professor têm papéis protagonistas nesse processo. Wallon concebe o desenvolvimento infantil marcado por suas sucessivas etapas. podem sobreviver nas seguintes. Deste modo. pode e deve ser promovido constantemente. que Wallon vai situar o desenvolvimento humano. então. 2. sua teoria pode ser considerada como a psicogênese da pessoa. o estudo da criança é essencialmente o estudo das fases que vão fazer dela um adulto. 20. Para ele. Ambos após a morte de Vigotski. cognitivo e social. Wallon descobriu o desenvolvimento do Homem. Com frequência. ao estudarmos a pessoa de forma contextualizada. cujo ritmo é de descontinuidade. através da integração entre a razão e a emoção. será possível compreender suas manifestações. posto que ela possui características próprias e problemas específicos. O cenário deste desenvolvimento está constituído por múltiplos aspectos como: espaço físico. podemos perceber a dinâmica específica de reciprocidade entre ela e o ambiente. Cada etapa. um ser cuja estrutura orgânica necessita da intervenção da cultura para permanentemente evoluir e se atualizar. linguagem e conhecimentos de cada cultura. pode instalar-se uma crise afetando o comportamento da criança. ou seja. Sua teoria. por exemplo. rupturas. embora marque mudanças profundas com relação ao estágio anterior. Conforme a disponibilidade da idade e as suas necessidades. sem censura da lógica adulta. etc. Para concluir estas ideias gerais sobre a teoria histórico-cultural de Vigotski é importante salientar que muitos de seus trabalhos foram desenvolvidos em parceria com outros dois importantes nomes da Psicologia soviética: Alexander R. a cada idade. a Psicologia da criança é fundamental. retrocessos e reviravoltas. montar um jogo de 24 peças). com ajuda pode montar de 15. Sua concepção de infância se insere na ideia do Homem como um ser organicamente social. A psicologia genética de Henri Wallon É nessa relação do individuo com o meio. até ir alcançando novos conhecimentos. Henri Wallon. investigou como o sujeito se constitui pessoa. Entre o que ela sabe (zona real) e o que pode vir a saber (zona potencial) existe a zona proximal. 28 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . médico francês. pois compreende o ser humano em sua totalidade. vai se tornando real.

do plano fisiológico para o psíquico. as emoções ganham papel fundamental. Sublinhando. Esse período denominado por Wallon como impulsivo- emocional. principalmente pela capacidade de pegar objetos e andar. Outro elemento fundamental é o desenvolvimento da função simbólica e da linguagem. havendo alternância entre pensamento e afetividade (alternância funcional). nos movimentos da criança. as pessoas e com o próprio corpo. O filhote humano é completamente dependente do outro. conhecendo e integrando em um todo as partes do corpo e. Neste estágio. Estágio impulsivo-emocional Um recém-nascido não se diferencia de outro.1. construindo uma imagem sobre ele e sobre si. 2001). assim. mais determinantes no início. Sua primeira comunicação dar-se-á pelo choro. Isto constituirá a formação do seu “eu” corporal. operando a passagem do mundo orgânico para o social. ganhando autonomia. esses processos através dos diferentes estágios identificados por Wallon. é comum vermos uma criança abrir os braços para contar que ganhou um brinquedo bem grande. Estágio sensório-motor e projetivo Do 2o ao 3o ano de vida. Em cada fase predomina um tipo de atividade. Para Wallon. Afinal. é na ação sobre o meio humano que deve ser buscado o significado das emoções (GALVão. que a duração de cada uma e as idades correspondentes são variáveis e que. integrando a imagem que ela tem do próprio corpo com a imagem que o os outros têm a cerca dela. 2. o recém-nascido não possui ainda as habilidades motoras necessárias ao atendimento de suas necessidades vitais. Podemos observar. posteriormente. nem mesmo no aspecto do corpo. é intrínsecamente emocional.6. ainda nascente. tem a emoção como centro do processo de desenvolvimento da pessoa.6. o biológico vai cedendo lugar ao social. como o próprio nome revela. a criança volta-se para explorar o mundo físico. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 29 . situando alguns importantes conceitos e centrando-nos mais nos processos do que nas características presentes em cada etapa. mais detalhadamente. porém. denominado sensório- motor e projetivo. É a afetividade que vai orientar as primeiras relações do bebê com as pessoas e com o mundo físico. a criança continuará a formar seu “eu corporal”. 2.2. Essa diferenciação se dará gradativamente pela relação da criança com os objetos. ou seja. é traduzido nos atos motores. O pensamento. ou seja. Aqui.Nesse processo.

ao conhecimento e às coisas. Nessa visão. em relação a seu “eu” psíquico a criança ainda está na sociabilização sincrética. no sentido de possibilitar conhecimentos e análises reflexivas sobre os fatores implicados 30 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . a emoção é a base do desenvolvimento humano ou de sua inserção no mundo. Como podemos perceber. mas também para o adulto.6. predominam as relações cognitivas com o meio. sociais e corporais que esse período traz consigo. usando bastante o vocábulo “não”. Na adolescência.6. nas relações com o meio no qual está inserida. movido pelas novas conquistas afetivas. Porém. a Pedagogia está voltada para a expressividade do “eu” na criança. retomando a predominância afetiva. 2. equilibrando razão e emoção (R-E). identidade). Estágio do personalismo Dos 3 aos 6 anos. traz importantes avanços no âmbito da inteligência. é um instrumento fundamental na ampliação do desenvolvimento da pessoa. tonicidade muscular e qualidade dos gestos. Por conseguinte. de fato.4. portanto. assim.3. está na explicação da realidade. o aspecto cognitivo. pois é o campo da razão que vai reger as principais aquisições. cognitivas. Estágio categorial Por volta dos seis anos. Também manifestam o desejo de que todos os objetos e pessoas queridas pertencem a elas. para Wallon a criança caminha do processo de indiferenciação (ainda não se percebe como um ser separado do mundo) até a diferenciação (consciência de si. O interesse da criança se orienta em direção ao mundo exterior. É muito comum ouvirmos crianças. Suas contribuições são fundamentais no campo da formação docente. A construção da consciência de si. isto é. reorientar suas relações afetivas. A teoria walloniana constrói uma criança concreta. a criança passa a imitar as pessoas com as quais se identifica em um movimento de reaproximação do outro. que em função das conquistas alcançadas nos estágios anteriores.6. fundida nos objetos e situações familiares. a individualização. É nesse período que elas costumam se opor aos adultos. o sujeito maduro deverá ser capaz manter o controle sobre suas emoções. o sujeito busca seu sentido de afirmação. Afinal. nessa idade. fornece as pistas sobre seus estados cognitivos e afetivos. buscando diferenciar seu eu do dos outros. identidade. A imitação do período anterior dará lugar à representação. Estágio da adolescência Este estágio será marcado por novos conflitos e nova definição da personalidade. dizerem que o pai ou a mãe são só delas. que a casa é dela etc. para a criança. A função da inteligência. a tarefa central é o processo de formação da personalidade. Com o fortalecimento da função simbólica que amplia a imaginação e capacidade criadora. É uma tentativa de identificar. o processo de tornar-se indivíduo.5. com um corpo. Embora a relação R - E seja de oposição. o que é seu e quem é ela. 2. Para Wallon. Portanto. inicia-se o estado categorial. Predomina. vai redirecionar o interesse da criança por outras pessoas e. não podemos esquecer que ambos estão profundamente interconectados. Alcança. Isto quer dizer que a personalidade da criança ainda está calcada. portanto. 2. a razão nasce da emoção e vive de sua morte. o pensamento adquire um caráter mais positivo. Por conseguinte. cuja eficiência postural. As crianças vivem uma série de conflitos.Nesse período.

principalmente crianças nas quais o poder das emoções é muito maior. Apresentadas as principais teorias psicológicas que abordam o desenvolvimento humano e que. Inclusive.nos conflitos vivenciados pelos alunos. Inclusive. de algum modo. especialmente a partir da década de 80 do século passado. Embora trazendo os três teóricos. trouxeram contribuições significativas para compreendermos as transformações vividas na adolescência. no próximo item abordaremos os principais fatores que interferem no desenvolvimento humano. ancorados nas ideias de Piaget. nos dando certeza do caráter múltiplo da Psicologia. as teorias são diversas. Por conseguinte. é preciso esclarecer que suas teorias têm diferenças do ponto de vista epistemológico. em função dos contextos nos quais foram desenvolvidas. É mais uma oportunidade de ampliarmos nossos conhecimentos sobre essas teorias tão complexas e tão influentes na educação brasileira. como mostramos ao longo deste item. Vigotski e Wallon. autores como Bock e Furtado (2005) têm utilizado a nomenclatura “Psicologias”. ideológico e conceitual. Como vimos ao longo deste item. optamos por discutir os fatores do desenvolvimento humano. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 31 .

sem ter passado pelo pré-operatório. consequentemente. este teórico os apresentou de forma mais sistematizada. 3. 4. crescimento orgãnico e maturação do cistema nervoso e endócrino. Para ele. Vale salientar ainda que. eles também se referem a estes quatro fatores. em permanente interação. embora utilizem termos diferentes. interação e transmissões sociais. Afinal. É nessa perspectiva que vamos discutir sobre os quatro fatores intervenientes no desenvolvimento humano. para ele. um aumento das influências do meio físico e social. na qual atuam. o cérebro humano foi desenvolvendo novas funções criadas ao longo da história. constatamos que. para o aparecimento de certas condutas. Adotamos a terminologia piagetiana. para nomear cada um dos fatores. mecanismo reguladores. sendo condição necessária. assim denominados: 1. à medida que as aquisições do indivíduo na construção da inteligência vão se complexificando há um decréscimo da influência da maturação e. 2. Todavia. Assim. como ponto de partida. posto que na permanente internalização da cultura e interação com o outro. exercício e esperiência. essa base não é imutável. Afinal. Embora não explique todo o desenvolvimento. nenhum fator pode ser visto isoladamente e nem tomado em preponderância sobre os demais. 3. mas não suficiente. investigando as teorias de Vigotski e Wallon. Vygotsky defende que a base biológica do funcionamento psicológico humano se assenta no cérebro como órgão principal do desenvolvimento mental. 32 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . explica que uma criança não pode pular do estágio sensório-motor para o operatório - concreto. No entanto. suas estruturas vão amadurecendo gradativamente. os fatores de natureza biológica e os de natureza social e cultural. O crescimento orgânico e a maturação do sistema nervoso e endócrino Piaget destaca que a maturação abre possibilidades novas ao ser humano. O cérebro é a base da atividade psíquica que cada indivíduo traz consigo ao nascer. a maturação desempenha papel fundamental na ordem fixa dos estágios do desenvolvimento da inteligência.Capítulo 3 Fatores do desenvolvimento: fios que se entrelaçam e constituem o humano Cada vez mais.1. Sobre o fator maturação. para os três teóricos. funções e comportamentos no indivíduo. psicólogos e educadores têm defendido uma concepção que entende o desenvolvimento em uma dimensão integradora e transformadora.

ao mesmo tempo. notadamente. por exemplo. os ensinamentos serão ineficazes se não houver uma assimilação ativa da criança. 3. a experiência. pela linguagem. Wallon destaca que. relacionar. Este é um fator complexo do desenvolvimento. A escola tem um relevante papel nesse sentido. na mente do sujeito. os aspectos biológicos presentes fortemente no nascimento vão gradativamente cedendo lugar a influência dos aspectos sociais. Um ideia central de sua teoria é a construção da inteligência a partir dos atos motores. fatos e fenômenos etc. ele não se humanizaria. À medida em que a criança se desenvolve cognitivamente. o menino-lobo? Embora com os equipamentos biológicos nossas funções superiores ficarão comprometidas em seu desenvolvimento. Por exemplo. está relacionada diretamente aos estágios do desenvolvimento cognitivo. as interpretações textuais. induzir. convivendo apenas com animais. Você lembra da história de Mogli. comparar o peso e o tamanho de dois objetos. Este terceiro fator é fundamental na teoria piagetiana posto que concebe a construção das estruturas cognitivas na permanente interação do Supondo-se que um bebê nascesse e sobrevivesse em meio a uma selva. desafiar. que para ser desenvolvida necessita que o indivíduo viva experiências que o levem para além do plano concreto. etc. criar. Piaget mostra que. Alguns exemplos são as operações matemáticas com números e variáveis. sem a intervenção da cultura não garante as habilidades intelectuais mais complexas. É importante que o professor crie situações desafiadoras para que o aluno adquira conhecimentos de forma dinâmica. Há a experiência física. a maturação cerebral.Nessa mesma direção. 3. Mas há. ambos são adquiridos na ação do sujeito sobre os objetos. do contato físico com os objetos. etc. A estrutura humana se constrói em um processo de desenvolvimento cujas raízes se assentam na relação dialética entre a história individual e social.3 As interações e transmissões sociais Piaget se refere ao processo de socialização humana como sendo aquele para o qual o indivíduo contribui e.2. seu comportamento é afetado em todas as áreas. se insere em seu conceito de atividade do indivíduo no mundo. Esta é uma capacidade de pensamento mais complexa. na interação com o meio. Assim. também. ético ou antiético. no desenvolvimento humano. Portanto. É o que ele denominou de isomorfismo entre operação e cooperação. ou seja. confrontar. elementos que não têm existência física na realidade externa e. O exercício e a experiência Segundo Piaget. como a escolar. caracterizada pela ação do sujeito no mundo concreto. como fator influente no desenvolvimento. abstrair. as fronteiras entre os fatores de maturação orgânica e os sociais são bastante tênues. adequado ou inadequado. recebe dele contribuição. Assim. honesto ou desonesto. hipotetizar. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 33 . no caso das transmissões sociais. Wallon também realça a experiência como um dos elementos fundantes do desenvolvimento das habilidades intelectuais complexas. apropriando-se das experiências culturais acumuladas. Para Vygotsky. o que supõe estruturas de pensamento adequadas. Experiências que lhe permitam imaginar. é na ação da criança sobre o mundo físico que ela vai constituir a sua dimensão cognitiva. Para ele. nos processos de desenvolvimento humano. a experiência lógico-matemática que envolve a construção de relações entre objetos. o indivíduo se constroi como ser humano. reflexiva. interativa. É preciso que o aluno saia do senso comum e apreenda conceitos científicos. a capacidade do indivíduo de julgar o que é certo ou errado. sim. mediado pelos sistemas simbólicos dos quais ele dispõe. as análises de causas e consequências de determinados eventos. que exigem do sujeito um tipo de abstração denominada reflexiva. crítica e criativa. verdade ou mentira. de igual modo. o processo de construção do pensamento ocorre do mesmo modo que o processo de construção da capacidade de julgamento moral por parte do sujeito. sem as experiências da nossa cultura. fatos.

O mecanismo regulador dos outros três fatores. seja interno ou advindo do meio. sendo o desenvolvimento dependente das condições oferecidas pelo meio e do grau de apropriação que o sujeito fizer delas. as crianças se apropriam da cultura. através de assimilações.sujeito com o meio. assim como para Vygotsky. Em Vygotsky. o desenvolvimento do psiquismo é mediado pelo outro. para responder às perturbações do meio. Através das intervenções constantes dos adultos. para Wallon. os processos psicológicos complexos começam a se formar. de equilibração. a partir dos significados que os adultos atribuem às condutas e objetos culturais que se formaram ao longo da história. os quais. 3. delimita e atribui significados à realidade. as estruturas psíquicas poderão progredir num permanente processo de especialização e sofisticação. Para ele. em comunicação verbal. acomodações e adaptações. da experiência e da interação social. que indica. novas experiências. são sociais e tem a linguagem como o principal sistema simbólico humano. interagem. os fatores sociais no desenvolvimento humano encontram um lugar de destaque. O organismo. A base deste mecanismo está no conflito vivido pelo sujeito. Sua concepção de desenvolvimento já o aborda como um processo sócio-histórico.4. É o ambiente social que vai ajudar a transformar o intenso intercâmbio emocional. Desde o nascimento. desenvolve compensações ativas. investigam. 34 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . pois a internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui aspecto característico da espécie humana. evoluindo na formação dos processos psicológicos superiores. por sua vez. conhecimentos. colaboram. as atividades que antes eram mediadas (interpessoal) passam a constituir-se em um processo voluntário e independente (atividade intrapessoal). É um mecanismo interno que permite a nossa mente coordenar e conciliar as contribuições da maturação. Assim. por Piaget. é a oposição funcional entre afetividade e cognição (razão-emoção) ao longo do desenvolvimento. mesmo que do ponto de vista orgânico tendo atingido a maturação. Em Vygotsky. O uso de signos conduz os seres humanos a uma estrutura específica de comportamento que se destaca do desenvolvimento biológico e cria novas formas e processos psicológicos de inserção na cultura. Para Wallon. Quando internalizadas. considerando que em todos os meios os indivíduos constantemente discutem. Esse processo de internalização da cultura é possível graças à mediação dos sistemas simbólicos de representação do real. comportamentos etc. a cultura e a linguagem fornecem ao pensamento os instrumentos de sua evolução. com êxito. aos seus esquemas mentais. que permite ao sujeito incorporar. característico do primeiro ano de vida. A equilibração funciona como um processo de natureza autoreguladora. Mecanismos reguladores O quarto fator que intervém no desenvolvimento humano é chamado. o mecanismo coordenador dos demais fatores é o processo de internalização ou apropriação.

dentre eles. É possível perceber que o estudo do desenvolvimento humano envolve pensar muitos aspectos. como estão delimitadas as etapas do nosso desenvolvimento ao longo da vida. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 35 .

a rado. poações sensório-motoras dendo ser afetados por num primeiro momento e mudanças ambientais e simbólicas posteriormenpelos padrões vinculares te. cuidadores. sofisticação da acidente devido linguagem. o modo de abordar cada uma das fases ou estágios. Período pré-natal Primeira infância Os padrões de tempeA ação com base apenas ramento (fácil. de problemas e situações desafiadoras e jogos. Xavier e Nunes (2008). adotamos a divisão do ciclo de vida humana como: período pré-natal. Cognitivo Existem evidências no sentido de um desenvolvimento rudimentar da memória e da percepção. Desenvolvimento da estabelecidos com os linguagem. vida adulta e velhice.2.1. segunda infância. A fim de descrevermos as características gerais em cada um desses períodos de vida. controle soà impetuosidade bre as ações. primeira infância. com suas respectivas características. Características do desenvolvimeno humano Etapas Fisico Desenvolvimento físico em três etapas: germinal. do seu eu e de suas habilidades. da (conversa pessoal em Maior risco de voz alta). é visto de forma diferente por cada teoria. estados de vigília/ritmos de sono. Mudanças nas brincadeiras (que variam de cultura para cultura). Uma das principais aquisições psicossociais é a formação do autoconceito. difícil e reflexa dos bebes passa lento) se manifestam durante este período às pela primeira vez. e 1. Aumento se relativizar nos pontos da capacidade de vista. Regulação dos ritmos biológicos diários (alimentação. os principais aspectos do desenvolvimento. a partir delas. Segunda infância O raciocínio inicialmente Crescimento físico egocêntrico passa.Capítulo 4 Etapas do desenvolvimento: o ser humano em movimento Como vimos nos item 1. utilizamos o quadro apresentado por Santos. o animismo é respiratória e da muito comum. Resgatando. Percepção das diferenças de gênero. fala privaimunidade física. terceira infância. 36 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . Psicossocial Alguns estudos demonstram uma possível influencia na formação de vínculo entre mãe e filho pelos contatos e comunicação vivenciados entre ambos durante a gestação. choro). 4. adolescência. É importanmotora e falhas te estimular a inteligência no discernimento pré-operatória através cognitivo. a percepção que o sujeito tem de si.3. embrionário e fetal em que os órgãos e sistemas do corpo vão sendo formados. em menos acelecontato com o social.

tais como: a soma. a coexistência sucedem-se momentos entre a relatividade do de integração. A pressão dos pares. a que pensamento (contextucorrespondem mudanalidade) e a universaliças no auto-conceito dade do mesmo (regras e na auto-estima. por volta da segunda década. porém ainda apresenta dificuldade nas relações subjetivas e abstratas. Exercício pleno da sexualidade. Cognitivo Nessa fase a criança se habilita para a formulação das operações. O início da vida adulta culmina com o auge da força. havendo diferenças no ganho de peso e altura entre meninos e meninas. A co-regulação. começando a decair por volta dos 45 anos. energia e resistência física da espécie. na gerais)”. dique o zelo. Aos possibilidade de múltiplas períodos de transição soluções. a de crise e transição. viuvez. compaixão vórcio. é mais lento. dos relacionamentos afetivos. está num estágio intermediário. a administrar os problemas de forma sistemática e metódica. aliada à baixa resiliência e a eventos ambientais negativos pode levar a condutas antissociais. bem como superar mudanças imediatas e considerar a relação lógica envolvida nos acontecimentos. os papéis (casamento. nestiva que lhe possibilita tes períodos de transiinterpretar as experiênção na vida da pessoa. se comparado às etapas anteriores. “as operações pósformais na vida adulta Levinson (1978) defenacentuam o pragmatismo de que a vida adulta é na resolução de promarcada por períodos blemas da vida real. a multiplicação e ordenação de objetos em série. O desenvolvimento motor permite a participação em um número maior de atividades. Uma dieta adequada aliada à atividade física pode diminuir os impactos da idade sobre a capacidade física da pessoa nesta etapa e propiciar uma qualidade de vida melhor durante a maturidade. Este crescente vigor se estabiliza. transferência de controle do genitor para a criança. escolha de uma profissão Terceira infância Adolescência Idade adulta Segundo Moura (1999. A participação dos pais durante este período negociando regras e colocando limites é fundamental. a subtração. Gilligan (1987) sugere nascimento de filhos. uma flexibilidade cogniPara Moura (1999). p.) que e capacidade de viver o indivíduo assume têm com contradições morais crucial importância. Consegue desenvolver raciocínio indutivo. altura. A confusão de papéis é uma crise importante deste período.Etapas Físico O crescimento físico. 1). Nessa etapa acrescenta-se a lógica dedutiva. as funções corporais já estão desenvolvidas e a acuidade dos sentidos é mais acentuada. As principais aquisições são: aprender a pensar e lidar com as ideias. etc. A energia é canalizada para atividades socialmente aceitas. são características do pensamento moral deste período. Psicossocial O autoconceito evolui muito durante esta etapa se tornando mais realista. O raciocínio do percepção que este tem adulto se caracteriza por do mundo e dos outros. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 37 . A puberdade marca um conjunto de transformações físicas relativas ao crescimento (ganho de peso. cias e dirigir a sua ação. quando se tornam mais evidentes os eventuais déficits de desenvolvimento intelectual. massa muscular) e ao amadurecimento (ovários/espermatozóides etc.).

que se conduzisse por cada uma delas. foram discutidas importantes teorias psicológicas que versaram sobre o desenvolvimento em múltiplas perspectivas como: psicanálise e teorias psicogenéticas. destacando três grandes visões sobre o tema: inatista. cálculos e pelos contatos para a manutenção da os pelos tornamsociais pode manter a saúde mental do idoso. 2004). foi apresentado um quadro-síntese com as características centrais do desenvolvimento cognitivo. da leitura. Discuta os conceitos de “normalidade” e “patologia”. 521).experiências anteriores de. varia exercício da memória podem aparecer durande pessoa para operacional. Ressaltou. do ambiente e torcidos por expectativas da pessoa. Além do mais. também. vitais. no cérebro. Ao final. de ensino fundamental. dê exemplos de como seria a metodologia de um professor. bem como o caráter contínuo e descontínuo desse processo. No FALACONE. as polêmicas com relação ao que é normal ou patológico na evolução humana. vida adulta e velhice. infância. os comportamentos nos sentidos e na percebe-se uma dificuldesadaptativos. de são muito importantes ção) e nos ossos. 2. 1. “os idosos mostram período marcado considerável plasticidapelas transforde (modificabilidade) no mações físicas desempenho cognitivo e Para Cavalcanti (1995 (mudanças nos podem ser beneficiados apud CARNEIRO E sistemas e órgãos com treinamento”. A senescência. vas como o Alzheimer. trazendo exemplos 38 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . estereotipadas. A partir da discussão sobre as abordagens inatista. p. Esta unidade abordou uma introdução ao estudo do desenvolvimento humano. adolescência. se mais ralos e mente da terceira idade são percebidas em alerta e evitar algumudanças no ciclo mas doenças degeneratide sono e vigília. serem dis. Os eventos te este período e seus pessoa e depende memorizados podem. físico.Os contatos do estilo de vida. empirista e interacionista. que se refere à memória. impactos dependem das da hereditariedaneste período. empirista e interacionista. O exersociais e a atividade Há alterações na cício da cognição através produtiva neste período pele (pigmentada música. tais sexualidade) asdade maior em recordar como evitação e fuga e sociadas ao enveeventos recentes ou o a autoimagem negativa lhecimento. afetivo e social nas diferentes etapas do ciclo de desenvolvimento: pré-natal.Etapas Fisico Cognitivo Psicossocial Velhice Para Papalia (2000.

Podemos concluir. Spike Lee. 3. O filme retrata a memória de um rapaz sobre um período de sua infância aos onze anos de idade. enfrentando enormes desafios como o de aprender a falar e a andar. XAVIER e NUNES. em nossa sociedade. no qual Narciso se apaixona pela própria imagem refletida na água. só a si mesmas. Jordan Scott. que podem ser considerados “normais” e patológicos”. Filmes Lembranças de um verão Direção: Scott Hicks. SANTOS. 2008). Crianças invisíveis Direção: Mehdi Charef. também. 4. 6. O enigma de kasper Hauser Diretor: Werner Herzog. John Woo. Elabore um quadro-síntese apresentando três ideias centrais de cada um dos teóricos abordados nessa unidade. Use. procurando comparar com os aspectos descritos no quadro para cada etapa do ciclo de vida. sempre associados à idéia de doença. Escolha uma criança com idade entre 3 e 10 anos para observar o desenvolvimento de cada uma delas. que pessoas narcisistas não conseguem enxergar os outros. sobre o desenvolvimento na infância. que já havia falecido. Através de história curtas. Ridley Scott e Stefano Veneruso (Itália - 2005). Emir Kusturica. escreve um verso que se refere ao mito: “é que Narciso acha feio o que não é espelho”. desconhecendo a realidade exterior. como suporte para entender os aspectos observados. Escolha uma das teorias abordadas na unidade e justifique sua opção. Explique o que significa falar de continuidade ou descontinuidade no desenvolvimento humano. Kátia Lund. Alemanha (1974). Bela fotografia e interpretação primorosa de Anthony Hopkins. 5. É a amizade com um homem de terceira idade que ajudará o menino a ressignificar sua história com o pai e descobrir os prazeres da infância. ele busca se integrar à sociedade. apresentadas nesta unidade. de fato. nos faz humanos e qual o sentido de civilização. Narcisismo infantil: A expressão advém de um mito grego. Caetano Veloso. Seria possível torná-lo “civilizado?” Este brilhante filme nos permite questionar o que. Filme realizado por diferentes diretores retratando a realidade de crianças e adolescentes em sete países. o espectador é levado PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 39 . na música “Sampa”. Patologia: Há vários conceitos. Baseado em um fato real. então. Estados Unidos (2001). O jovem fica tão extasiado com sua beleza que ali fica preso e morre. Ao ser libertado. Faça uma síntese com uma reflexão crítica sobre os aspectos que você considera mais importantes em relação à visão sobre o desenvolvimento humano.concretos de comportamentos de crianças. conta a história do jovem Kaspar Hauser que passou a vida trancado em uma torre. Mckinnon e Michels conceituam como “a conduta considerada menos que otimamente adaptativa para determinado indivíduo em determinado estágio de sua vida e em determinada situação”(apud. as teorias do desenvolvimento. Foi uma época de intensas descoberta e conflitos na relação com a mãe e com a imagem do pai.

conhecendo famílias com seus dramas particulares. vamos buscando a inocência perdida e constatando que. 40 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO . valores assentados em uma realidade social. mesmo tão distantes. suas alegrias. misérias.a entrar em mundos completamente distintos. as crianças são semelhantes e precisam ser preservadas em seus direitos de serem protegidas. política e econômica que não poupa nossas crianças nas mais diversas realidades. No passeio pelos cenários diversos. acolhidas e a serem elas mesmas.

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