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Habitantes

&
HabitatA Expansão da Fronteira
Vol. 2

Traços históricos e culturais dos bairros
Ayrton Senna, Boa União, Boa Vista,
Floresta Sul, Invasão da Sanacre, João Paulo II,
Plácido de Castro e Sobral

Reginâmio Bonifácio de Lima
Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio
Lelcia Maria Monteiro de Almeida
(Orgs.)
Copyrigth © 2007 - @ LIMA, Reginâmio B.; BONIFÁCIO, Maria
Iracilda G. C.; ALMEIDA, Lelcia M.M. (Orgs.)
Projeto: Sobre Terras e Gentes: Amazônia em Foco
Líder de Grupo: Reginâmio Bonifácio de Lima
Coordenadoras: Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio,
Lelcia Maria Monteiro de Almeida.
Pesquisadores: Cleunilde Silva dos Santos, Leila Gonçalves da
Costa, Sâmya Teixeira de Alencar, Antônio Vladimir da Silva
Barbosa, Regineison Bonifácio de Lima, Pedro Bonifácio de Lima,
José Erivan Gomes Cavalcante e Deusimar da Cruz Albuquerque.
Editoração Eletrônica:
Reginâmio Bonifácio de Lima

Revisão e Correção Histórica:
Regineison Bonifácio de Lima

Capa:
Reginâmio / Anderson

Diagramação:
Anderson F. da Silva

Impresão:
GRAF-SET

H116 Habitantes e Habitat: A Expansão da Fronteira. Reginâmio
Bonifácio de Lima, Maria Iracilda Gomes Cavalcante
Bonifácio e Lelcia Maria Monteiro de Almeida (Orgs). Rio
Branco: Boni, 2007.
v. 2. il.:

Coleção Sobre Terras e Gentes

1. História – Ensaio – Ocupação I. Título

CDU: 981 (813.3)

Impresso no Brasil
Foi feito o depósito legal
AGRADECIMENTOS
Ao Deus Eterno, que nos capacitou e permitiu a realização deste
trabalho, dando ânimo em momentos de angústia, cuidando de seus
filhos para que pudessem estar bem e concluir esta obra;
À nossas famílias, que nos apoiaram em todo o tempo;
Aos funcionários da Biblioteca Pública do Acre por tão
prestativamente terem gastado seu tempo, auxiliando na pesquisa
das referências;
Aos amigos do CDIH e da Biblioteca da UFAC pela tamanha
presteza com que nos acolheram;
Às bolsistas Selyana G. Cavalcante e Thaylinne C. Andrade pelo
empenho nos trabalhos, transcrição de DVD's e coleta de dados;
Aos colaboradores Maria Alzerina, Ana Iris e Tiago por ajudarem
na coleta de dados para a pesquisa;
Ao colaborador Jeferson pelo auxilio nas correções dos textos;
Às escolas existentes nos bairros pesquisados pelo apoio e
prontidão;
Aos amigos da Fundação Garibaldi Brasil pela disponibilização do
acervo para pesquisa;
Aos amigos do Patrimônio Histórico e Memorial dos
Autonomistas pelas fotos cedidas;
Aos amigos do Setor de Georeferenciamento da Prefeitura de Rio
Branco pelos mapas do setor e de cada bairro em específico;
Aos amigos da União das Associações de Moradores de Rio
Branco;
Aos amigos da Federação das Associações de Moradores do Acre;
Aos amigos do Setor de Cadastro Imobiliário da Prefeitura pela
ajuda com os Boletins de Cadastro Imobiliário;
Aos amigos do Departamento de Água e Saneamento do Acre –
DEAS, pelo prestativo atendimento e fotos cedidas;
A todos os entrevistados que muito contribuíram com a pesquisa;
Aos amigos da Miragina por darem crédito e incentivarem a
historiografia acreana;
A todas as pessoas que direta ou indiretamente contribuíram para a
conclusão deste trabalho. Muito Obrigado.
SUMÁRIO
Prefácio ............................................................................ 07
O Terceiro Eixo Riobranquense e o Mundo ................. 09
Reginâmio Bonifácio de Lima
Regineison Bonifácio de Lima
Vivências e Andanças Fluídas no Bairro Ayrton Senna ... 25
José Erivan Gomes Cavalcante
Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio
Boa União: A Conquista de um Sonho ......................... 35
Regineison Bonifácio de Lima
Trajetórias e Cotidiano no Bairro Boa Vista ............... 51
Cleunilde Silva dos Santos
Alinhavando Histórias no Bairro Floresta Sul ........... 63
Lelcia Maria Monteiro de Almeida
Invasão da Sanacre: Águas, Vidas e Vivências ............ 79
Leila Gonçalves da Costa
Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio
João Paulo II: Lugares, Pessoas e Histórias ................. 91
Lelcia Maria Monteiro de Almeida
Antônio Vladimir da Silva Barbosa
Vivências e Ideais no Bairro Plácido de Castro ........... 99
Pedro Bonifácio de Lima
Trajetórias e Experiências no Bairro Sobral ............. 113
Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio
Observações Sobre as Religiões dos Moradores ........ 131
Deusimar da Cruz Albuquerque
Reginâmio Bonifácio de Lima
Baixada do Sol: Processos de Ocupação no Início do
Século XXI .................................................................... 139
Lelcia Maria Monteiro de Almeida
Reginâmio Bonifácio de Lima
Regineison Bonifácio de Lima
Vivências e Lazer na “Baixada da Sobral” ................ 143
Maria Alzerina Bonifácio da Silva
Reginaldo Bonifácio de Lima
Selyana Gomes Cavalcante
Thaylinne Cavalcante de Andrade
O Fluxo de Águas no Rio Acre e as Alagações
que Atingem o Terceiro Eixo Riobranquense ............ 155
Reginâmio Bonifácio de Lima
Pedro Bonifácio de Lima
Referências .................................................................... 163
Sobre os Autores ........................................................... 167
Habitantes & Habitat

Prefácio
Elson Martins disse uma vez que o Acre se constrói como
sociedade dos povos da floresta, revolvendo o húmus onde
florescem as peculiares manifestações de sua identidade original.
Ao ler este livro organizado por Reginâmio Lima, Lelcia Almeida e
Iracilda Bonifácio e toda a equipe de pesquisadores é isto que sinto.
Vejo Rio Branco se construindo como sociedade de “povos da
floresta”, mas se construindo desordenadamente, como filhos
órfãos, sem “mãe gentil”, sem governo, gente que não podendo
continuar na mata verde que tanto ama, acaba migrando para a
cidade em busca de tempos melhores que nunca chegam.
Esse grupo de pesquisadores é formado por estudiosos
preocupados em revolver todo o húmus da formação destes
bairros: Ayrton Sena, Boa União, Boa Vista, Floresta Sul, Invasão
da Sanacre, João Paulo II, Plácido de Castro e Sobral. Eles
conseguem com pesquisa minuciosa levantar e tirar deste “húmus”
as singulares manifestações da identidade original dos habitantes
destes bairros.
Falando das origens de cada bairro, da densidade
demográfica, da importância do Rio Acre para seus moradores, da
religiosidade desta gente e de seus divertimentos de fim de semana,
sempre o leitor pode desfrutar de um magnífico painel de todas as
peculiaridades destes bairros. A coragem deste segundo volume de
Habitantes e Habitat: A Expansão da Fronteira está em mostrar a
trama do cotidiano desta gente, que algumas vezes tem apenas água
com farinha como alimentação.
O leitor se depara com uma trama tecida em vários artigos,
que envolvem detalhes da vida de cada um, retratam a irreverência
dos que se sacrificam até o extremo em busca de uma vida melhor,
lutando pelo o que lhes é negado: os direitos mais sagrados tais
como ter uma casa, uma terra para cultivar, um emprego, comida na
mesa e educação, a valorização pessoal e igualdade de condições e

07
Apresentação

de respeito em relação aos outros bairros da cidade.
O livro tem a ousadia mesmo de mencionar os descasos das
autoridades para com o local, e de que há muitos aspéctos ainda a
serem estudados e pesquisados. Tudo o que já foi dito justifica
afirmar que este livro é uma maravilhosa oportunidade de oferecer
aos acreanos do século XXI imagens e lições de “florestania” e
história.

Profª Drª. Margarete Edul Prado de Souza Lopes
Diretora do Centro de Educação, Letras e Artes/UFAC

08
Habitantes & Habitat

O TERCEIRO EIXO
RIOBRANQUENSE E O MUNDO
Reginâmio Bonifácio de Lima
Regineison Bonifácio de Lima

Terceiro Eixo na cidade de Rio Branco. Fonte: Setor de Georeferenciamento PMRB.

O Estado do Acre tem uma superfície territorial de
153.149,9 km², o correspondente a 3,2% da Amazônia
brasileira e 1,8% do território nacional. Com um tamanho
tão gigantesco desses, não deveria haver nenhum problema de falta
de moradia para qualquer acreano, ou mesmo para aqueles que não
são acreanos por naturalidade, mas de coração. Dados do IBGE
davam conta de que a estimativa da população acreana para 1º de

09
O terceiro eixo riobranquense eo mundo

junho de 2006 foi de 686.652 habitantes, isso corresponde a 4,48
habitantes/km2.
De acordo com dados da Prefeitura, o município de Rio
Branco tem uma área de 922.300 hectares e população de 290.639
habitantes (IBGE, 2007), sendo a zona urbana da Capital formada
por uma área de 10.873 hectares e população de 226.298
habitantes1, ou seja, aproximadamente 20 habitantes/hectare. A
distribuição da população do Terceiro Eixo, de acordo com a
Prefeitura de Rio Branco, é de 33.908 habitantes, numa área de
6,9955 km², o que corresponde a uma população de 4.847,11
habitantes/km 2, ou seja, 48,47 habitantes/hectare. Assim,
percebemos que, enquanto a média da zona urbana de Rio Branco é
de 20,81 habitantes/hectare, no Terceiro Eixo, o número excede o
dobro, com 48,47 habitantes/hectare. Isso porque não estamos
levando em conta a área de mais de 100 hectares no bairro Floresta
Sul, que não era habitada até maio de 2007, e, hoje, encontra-se em
fase de ocupação por cerca de duas mil famílias. Se
desconsiderássemos esse “vazio urbano do bairro Floresta Sul”, o
número de habitantes por hectare, no Terceiro Eixo Expandido,
seria de 56,55 habitantes/hectare, o triplo da média urbana
riobranquense.
Na relação de vivências e concepções das sociabilizações
no ambiente urbano, podemos verificar que a cidade de Rio
Branco, uma das 26 capitais dentre os Estados de nossa República
Federativa, tem seu Índice de Desenvolvimento Humano - IDH -
muito baixo se comparado às outras cidades do Brasil. Se no IDH
de Rio Branco atualmente se apresenta na posição 1.767º do
ranking nacional é porque faltam políticas e investimentos
voltados para os setores sócio-culturais, governamentais,
industriais/comerciais. Evidentemente, não somente nessas três
esferas, mas também em todas as que se encontrem seres humanos
envolvidos em atividades voltadas para o benefício da sociedade.
Isolados ou não, todos interagem em sociedade, e, como seres
humanos, merecem respeito.
Se esse IDH fosse medido também por localidades isoladas
nas cidades, como estariam os 16 bairros que formam o Terceiro
1
Dados da Secretaria Municipal de Planejamento/PMRB – 2003.

10
Habitantes & Habitat

Eixo Expandido de Rio Branco? Possivelmente, pelas condições
que ainda se apresentam, assim como os demais bairros periféricos
desta cidade e do interior deste Estado, com certeza, o resultado
para toda essa área periférica seria de um índice menor que o da
cidade de Rio Branco.
Se pensarmos Rio Branco em seu IDH correlacionando-a a
outras cidades do país, consideramos que deveria ficar, no mínimo,
em 26º lugar, na “lanterna das Capitais”. Sabemos que existem
outras grandes cidades com boa qualidade de vida, por isso, até
aceitaríamos que Rio Branco ficasse entre as 100 melhores. Seria
ótimo. Mas, infelizmente, a cidade está em 1.767º lugar, ou seja,
muito longe do mínimo aceitável para uma cidade que valorize sua
população.
É interessante estudar essas relações em um âmbito maior,
vendo a cidade e o local em relação ao país porque podemos
retornar um pouco no tempo e compreender a gigantesca crise
econômica que o país enfrentava em fins da Ditadura Militar e anos
proximamente posteriores. A lógica do discurso na década de 1980
era a seguinte: “a situação está ruim para todos”. Porém, a chamada
camada mais pobre da população estava passando por maiores
dificuldades que as camadas mais abastadas.
Um exemplo dessa crise foi o que ocorreu em meados dos
anos de 1980, quando em cerca de dois anos foram assinados pelo
ministro do Planejamento Delfim Netto sete cartas de intenção
com o FMI, com sucessivas solicitações de pedidos de retratação
porque as metas diante do Fundo Monetário Internacional não
foram cumpridas, sendo que destas sete, o FMI recusou
exatamente a sétima carta, suspendendo os empréstimos ao Brasil.
O último ano da década, 1989, teve uma inflação
acumulada de 1.782,90%. Para exemplificar, resolvemos criar uma
“situação hipotética”: se em 1º de janeiro de 1989 uma lata de óleo
custasse Cr$ 25.000,00 (vinte e cinco mil cruzeiros), em 31 de
dezembro de 1989, essa mesma lata de óleo, do mesmo fabricante,
custaria Cr$ 470.725,00 (quatrocentos e setenta mil, setecentos e
vinte e cinco cruzeiros), ou seja, 18,82 vezes mais caro num

11
O terceiro eixo riobranquense eo mundo

período de 365 dias; um verdadeiro absurdo inflacionário. Agora,
imagine a força que essa inflação tinha numa relação de custo e
consumo entre os habitantes que moravam no centro da cidade,
comparados com os que habitavam nas “periferias”. Nas áreas
mais afastadas do centro, a situação era ainda mais difícil, pois era
comum os comerciantes aumentarem os preços dos produtos pelo
fato de já comprarem de “atravessadores”, além da necessitarem
aumentar a margem de ganho para continuar suprindo seus
respectivos estabelecimentos comerciais.
A década de 1980 foi palco de uma enorme crise econômica
no país, e a isto podem ser acrescidos, pelo menos, dois fatores: o
final de um Regime Militar decadente, sucedido por um processo
de “redemocratização” que não contou com o devido preparo da
população para as mudanças políticas e sócio-econômicas. Em
suma, a prática diferiu em muito do discurso.
O auge do início da migração para o Terceiro Eixo, no
início dos anos 1980, foi marcado por uma inflação acumulada que
chegava ao patamar de 4.276,49%. Isso fez com que as populações
andantes chegassem ao seu novo habitat completamente à beira da
miséria, tornando o sonho da casa própria cada vez mais distante e
fantasioso. Para o século XXI, diante de uma moeda como o Real,
que já alcançou patamares de solidez e uma inflação mais amena,
essa grandeza inflacionária é inimaginável. Atualmente, os índices
de inflação oficial não chegam nem perto de 10% ao ano, enquanto
a taxa básica de juros varia nas proximidades de 13% ao ano e o
risco Brasil está abaixo dos mil pontos. Durante os anos de 1980,
entretanto, vivia-se uma “inflação galopante”, com juros
exorbitantes e o risco Brasil sempre muito elevado.
A cidade de Rio Branco conseguiu se constituir
basicamente desta forma: primeiramente chegava uma pessoa de
um seringal, ou de uma colônia, logo depois aqueles que haviam
ficado para trás, tinham, como primeiro ponto de referência, a
localidade dos que haviam ido primeiro se aventurar na cidade.
Embora sabendo das precariedades vividas por aqueles que saíam
primeiro, não hesitavam e diziam: “Meu parente está bem, lá na
capital. Nós vamos também”.
12
Habitantes & Habitat

Os grandes bolsões populacionais de Rio Branco foram se
formando assim: muitos iam para o bairro do Bosque, outros para o
Quinze, outros para o Cadeia Velha, outros para o Seis de Agosto, e
daí por diante. A cidade foi se remodelando com o passar dos anos,
foram surgindo bairros como o Bosque, o qual foi se destacando
como um dos mais urbanizados, além de outros bairros e conjuntos
habitacionais.
A ordenação na ocupação do solo urbano de Rio Branco
apresenta certas peculiaridades, como por exemplo, o Conjunto
Tucumã, situado no Distrito Industrial, ao qual alguns até
chamavam de “outro município” por ser distante do centro. Esse
local tornou-se um conjunto nobre, vários benefícios foram
implementados ali pela população e pelos governantes, tais como
asfalto, ônibus, saneamento básico, energia elétrica e,
recentemente, a construção do Parque do Tucumã. Além disso, o
Conjunto Habitacional possui localização privilegiada, por situar-
se em frente à única Universidade Federal deste Estado. O que, no
final dos anos de 1970, parecia ser um possível prejuízo tornou-se
área valorizadíssima, e esse é o sonho de cada habitante dos bairros
que surgem, “às margens” do centro da capital acreana.
Uma coisa é certa: é necessário que os governos e os
governantes, em todas as esferas, repensem as questões sociais
que, pela inexistência de políticas públicas eficientes, degradam a
sociedade, cerceiam direitos constituídos e levam grupos a se
organizarem e se auto-intitularem sem-teto. Esses sujeitos são,
antes de tudo, seres humanos que foram excluídos das políticas de
repartição das terras, de reforma agrária, de moradia, de emprego,
segurança, saúde, educação, e até mesmo da urbanização de cada
cidade.
Em meio a tantas possibilidades e conjecturas é que surgem
as chamadas habitações “urbanas” na área do Terceiro Eixo.
Sabemos que Rio Branco se constituiu há mais de um século e sua
trajetória é bem abrangente, contudo, os índices de populações
provenientes da zona rural que vieram para as cidades e
constituíram os alargamentos das periferias é muito mais recente.

13
O terceiro eixo riobranquense eo mundo

Rio Branco passou por vários períodos de expansão, dentre
eles, podemos citar a fase do Terceiro Eixo Ocupacional de Rio
Branco, ocorrida durante a década de 1970 e início da década de
1980, na área que compõe os bairros Aeroporto Velho, Bahia,
Palheiral, Glória, Pista, Bahia Nova, João Eduardo I e João
Eduardo II. Contudo, a expansão dessa localidade não se encerrou
por aí, após o ano de 1983 surgiram outros bairros na localidade,
como expansão dos primeiros e interdependentes uns dos outros,
são os bairros Ayrton Senna, Boa União, Boa Vista, Floresta Sul,
Invasão da Sanacre, João Paulo II, Plácido de Castro e Sobral.
Rio Branco está passando por uma “adequação” dos
bairros em seus conceitos e estruturas – tanto o conceito de bairro
quanto o de estruturas estão sendo construídos pelo projeto de
Plano Diretor em Rio Branco. Não tivemos acesso ao critério
técnico utilizado pela Prefeitura, para a “reorganização dos
bairros”, portanto, quando falamos em bairros, lembramos que
ainda não existem bairros legalmente constituídos de fato e de
direito na cidade de Rio Branco. O Plano Diretor – que servirá para
pôr em prática as novas tomadas técnicas, os estudos sobre as
mudanças antrópicas e os estabelecimentos oficiais de fomentação
de ocupações das áreas urbanas – ainda não foi posto em prática. A
primeira parte dele, apresentada ao público, disponível na página
da Prefeitura na internet, não apresentava o critério sócio-cultural,
indispensável para qualquer tentativa de se trabalhar com os
espaços de convivência humana, por isso, acreditamos que foram
refeitos os termos e, pelas pressões sociais, o estudo sócio-cultural
está, finalmente, sendo elaborado ao mesmo tempo em que este
artigo é escrito.
A Prefeitura estabeleceu uma série de estudos e medidas
para construir e implementar o Plano Diretor de Rio Branco.
Dentre essas medidas, encomendou o estudo de diversos aspectos
da cidade, desde regionais, abastecimento de água e saneamento,
até a evolução urbana. A partir desses estudos, surgiram mapas
oficiais que foram disponibilizados ao público2 e que serão
2
Disponível em www.riobranco.ac.gov.br. Acesso em 29/07/2006.

14
Habitantes & Habitat

considerados por esta equipe de professores/pesquisadores. Todos
os mapas têm a assinatura da Secretaria Municipal de
Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas – SEDOP, e foram
confeccionados a partir de dados do IBGE, Secretaria de Estado de
Meio Ambiente, Cadastro Imobiliário e Setor de
Georeferenciamento. Mesmo sendo documentos de consulta
pública, teoricamente, abertos a qualquer pessoa interessada, esses
mapas têm no seu rodapé, em letras minúsculas, quase ilegíveis,
uma declaração que garante os direitos serem reservados às
instituições que o produziram. Nos mapas está escrito: “proibida a
reprodução total ou parcial sem a prévia autorização dos
responsáveis pela execução do trabalho”. Assim sendo, ao estudar
Rio Branco, enfatizando o Terceiro Eixo e sua expansão, não
poderemos fazer uso de recortes ou exposição de qualquer parte
desses mapas para ratificar o que dissermos, mas a comprovação
pode ser feita por qualquer pessoa que tenha acesso a eles. Iremos
estudar e citar os mapas produzidos pela SEDOP, a partir de dados
de 2005 e 2006, sem mostrar os mesmos, por questões de direitos
reservados de documentação pública.
Na localidade do Terceiro Eixo são encontradas cinco áreas
que, segundo a Prefeitura, são áreas de loteamentos3. Dessas, três
conjuntos de loteamentos constam no bairro Floresta Sul – com
uma área aprovada e cadastrada, outra aprovada, e ainda outra que
vai do Floresta Sul até o bairro Plácido de Castro, que foi
considerada não aprovado; uma outra área de loteamento não
aprovado consta no bairro Boa União. Esse bairro é fruto de um
loteamento “desestruturado” que foi executado pelos donos da
terra, mas sem infra-estrutura básica, o que fez com que a
Prefeitura não o reconhecesse como loteamento aprovado. A
última área é a dos bairros João Eduardo I e II, que, segundo a
Prefeitura, é um loteamento regularizado e aprovado, contudo, a
informação não procede, haja vista ter sido fruto de ocupação,
conflitos e prelos judiciais, por estar em terras públicas e privadas,
objeto de necessidade de uns e cobiça de outros e que, por fim,
3
Loteamentos. Plano Diretor de Rio Branco/PMRB – 2006.

15
O terceiro eixo riobranquense eo mundo

culminou na morte do líder do bairro, João Eduardo do
Nascimento.
O sistema de abastecimento de água na região é
insuficiente, uma vez que grande parte da expansão dos bairros
Sobral, Boa Vista, Ayrton Senna e Floresta Sul sequer contam com
rede de água4. Se por um lado parece haver precariedade no pouco
abastecimento de água da Regional5, o atendimento do serviço de
esgoto é quase inexistente na área da Expansão. Somente algumas
poucas ruas dispõem do serviço de encanamento para escoar os
dejetos e águas pluviais.
Ao retratar o tipo de pavimentação física existente nas ruas
da localidade percebemos que o Terceiro Eixo Expandido não
destoa do restante de outras localidades da Capital: a maior parte de
suas ruas é feita de chão batido, sendo parte dos logradouros
aterrados com barro piçarrado e apenas algumas ruas principais
possuem asfaltamento. Apenas o Bairro Aeroporto Velho dispõe de
uma melhor infra-estrutura que os demais bairros da chamada
Regional VI.
A localidade do Terceiro Eixo Expandido conta com
apenas uma via coletora de ônibus, a Estrada da Sobral, por onde
passa o ônibus de mesmo nome. São quatro, as linhas de ônibus
disponibilizadas para atender um sétimo da população da Capital.
Dos ônibus que fazem o percurso para o local, como
Bahia/Palheiral, Ginásio Coberto, Floresta e Sobral, o que atende a
maior quantidade de usuários da região é o último.
Mas, nem só de mapas se faz a análise da ambiência
ocupacional em uma determinada localidade. É necessária a ida a
campo, pesquisa bibliográfica, entrevistas, questionários,
tabulações, reuniões com lideranças, concepções de como foi
modificado o local desde a chegada dos migrantes.
Durante os meses de março, abril e maio de 2007,
executamos a aplicação de questionários nos bairros que fazem
parte da expansão do Terceiro Eixo; foram aplicados pouco mais de
4
Abastecimento de Água. Plano Diretor de Rio Branco/PMRB – 2006.
5
Para melhor implementação do Plano Diretor, Rio Branco foi dividida em VII regionais, sendo a regional VI a que
comporta os 16 bairros do que chamamos Terceiro Eixo Expandido, excetuando-se o bairro Floresta Sul, que
embora faça limite com a maioria dos outros bairros do Terceiro Eixo, tecnicamente, faz parte da Regional V.

16
Habitantes & Habitat

600 questionários nos 08 bairros que compõem a expansão, além
de dezenas de entrevistas com moradores da regional. A
metodologia utilizada foi a de perguntas semi-dirigidas em
questionário previamente elaborado e aplicado aos “chefes” das
residências, sejam eles homens ou mulheres, ou a eles em conjunto
com seus familiares. Neste caso, não há a necessidade de o “chefe
da casa” ou a “chefe da casa” morar lá 23 anos, nem de ser um dos
líderes dos bairros, como no trabalho anterior. Após o questionário,
as pessoas que demonstraram conhecer um pouco mais
aprofundadamente a história de seus bairros, nos prestaram
entrevistas e deram detalhes da formação das localidades.
Primamos pela pesquisa por amostragem na aplicação do
conteúdo, sendo formulados questionários para serem aplicados
em apenas doze por cento dos domicílios da região. O critério para
escolha dos domicílios foi o de aplicar em uma residência e passar
oito, aplicando na seguinte ou na proximamente anterior. Também
utilizamos os mapas e dados sobre as modificações antrópicas
recentes na Capital, produzidos pelo Setor de Georeferenciamento
da Prefeitura Municipal de Rio Branco, além de fotos aéreas das
localidades. Contamos, ainda, com dados da UFAC, do Patrimônio
Histórico Estadual, do IBGE e da Biblioteca Pública Estadual.
A história sócio-cultural inglesa, de Paul Thompson,
continua sendo o foco metodológico de embasamento da pesquisa,
assim como no livro Habitantes e Habitat v. I. A partir desse viés
teórico, foram observadas as relação de vivências na comunidade
do Terceiro Eixo Expandido, o corpus de estudo/análise foi
composto e os ensaios foram produzidos. Todos os artigos têm o
caráter de ensaio, embora busquemos que estejam próximos à
vivência das gentes e das terras que são os sujeitos de nossas
pesquisas.
Neste primeiro momento pretendemos mostrar o perfil
geral dos entrevistados nas pesquisas executadas, num momento
posterior, os professores que compõem o grupo de estudo Sobre
Terras e Gentes: Amazônia em Foco irão expor as impressões que
tiveram sobre cada um dos bairros.

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O terceiro eixo riobranquense eo mundo

Conforme entrevistas realizadas nos oito bairros,
percebemos que mais da metade dos entrevistados têm menos de
40 anos, sendo que dois terços são casados e quase 20% ainda se
mantêm solteiros.
Um terço dos moradores que se dirigiram para a Regional é
proveniente de outras localidades da cidade de Rio Branco,
enquanto 18% vieram de Tarauacá e 16 %, de Sena Madureira.
Preocupa-nos o fato de haver uma migração constante dessas duas
últimas localidades para o setor, por causar um “esvaziamento” no
local de origem e um “inchamento” no local de chegada e
assentamento dessas populações. Se compararmos os estudos das
localidades envolvidas com dados do IBGE/2000, podemos dizer
que existem mais tarauacaenses na cidade de Rio Branco que na
zona urbana de Tarauacá. O problema não está apenas na migração
continuada de Tarauacá, se o fluxo de migração permanecer, Feijó
e de Sena Madureira terão aumentados os seus fluxos de migração
para Rio Branco.
A maioria absoluta dos domicílios existentes no Terceiro
Eixo Expandido de Rio Branco não comporta somente os
entrevistados, mas também suas famílias. As casas são
“normalmente” feitas de madeira ou de madeira com uma “puxada
pra frente” de alvenaria, alguns até com uma “puxada pra trás”, que
serve como área de serviço, para fazer o “lavatório de roupa” e o
banheiro interno, em alguns casos.
Dos entrevistados, 17% moram com os pais, numa casinha
no fundo do quintal, ou num quartinho dentro da residência. Nesse
percentual não estão inclusos os filhos que tiveram relacionamento
marital e se desquitaram, separaram ou romperam, regressando
para a casa dos pais com os filhos pequenos. Os dados apontados
referem-se apenas às famílias nucleares convivendo e habitando
juntas.
Dois terços das residências possuem água encanada,
embora um terço possua poço semi-artesiano ou cacimba, o que
demonstra o fato de que mesmo os bairros estando próximos às
Estações de Tratamento de Água I e II, ainda assim, não são

18
Habitantes & Habitat

plenamente assistidos por elas. Cerca de 4% das residências não
possuem energia elétrica. O número seria maior se estivéssemos
levando em conta a rede elétrica, o que não vem ao caso agora.
Mas, cerca de 10 % das residências têm sua energia “puxada de
rabicho”.
Quase todos os entrevistados disseram possuir residência
própria (ainda que a casa de 17% seja no terreno dos familiares), e
6% moram de aluguel. Moram, em média, 4.2 pessoas por
domicílio, sendo que em um quinto das casas tem mais de seis
moradores. A maioria dos entrevistados tiveram, em média, quatro
filhos, embora um terço tenha mais de cinco filhos e 5% tenha mais
de dez filhos. Nem todos os filhos moram com os pais, muitos já se
casaram e se mudaram. Contudo, um quarto das residências dos
entrevistados conta com, pelo menos, um neto morando junto,
sendo a média, dois netos por residência.
Mais de um terço dos entrevistados afirmou que antes de vir
para o bairro em que atualmente vive, trabalhava de biscate,
autônomo ou vendedor, sendo, em sua maioria, os homens que
responderam pertencer a essas profissões. Em contrapartida, quase
um terço das mulheres eram empregadas domésticas ou
trabalhavam no lar sem remuneração financeira.
Atualmente, um quinto das mulheres afirmam estar
desempregadas, trabalhando apenas em casa, enquanto entre os
homens aumentou a atividade de trabalho informal como biscates e
autônomos.
Ao sair para trabalhar, metade dos entrevistados que
possuem filhos os deixam aos cuidados de familiares, e 22% os
deixam sós, por não terem com quem deixá-los. Eles disseram que
se locomovem, principalmente, a pé ou de ônibus para irem
trabalhar (54%), contudo, quase um terço vai de bicicleta (28%)
para o trabalho. Apenas 11% dos entrevistados têm moto, e, 7%
têm carro; na maioria dos casos, esses veículos foram financiados e
ainda se encontram em fase de quitação.
Essas populações que vieram para a chamada Regional VI,
mostram índices preocupantes relacionados às ocupações e

19
O terceiro eixo riobranquense eo mundo

trabalhos remunerados. Apenas 31% têm trabalho fixo, com
contrato ou carteira assinada, sendo a maioria desse percentual
constituída de funcionários públicos. O número de biscateiros é de
34%, são pessoas que vivem de vendas, trabalho informal,
camelôs, carpinteiros, pedreiros, empregadas domésticas, “orelhas
secas”, picolezeiros e profissões afins. Além desses que
informalmente conseguem trabalho, no momento da pesquisa,
cerca de 22% dos entrevistados se encontravam desempregados,
sendo que, a maioria não conseguia sequer fazer uns “bicos” para
ajudar na renda, sendo sustentados por parentes.
Metade dos moradores do local veio para Rio Branco antes
de 1982, sendo que, 90% de todos os entrevistados veio antes de
2000, o que mostra um fluxo contínuo de migração no sentido
municípios-Capital, desde a década de 1970. Mais da metade
desses moradores afirmaram ter vindo para o bairro em que
moram, entre 1999 e 2007, ou seja, migraram para Rio Branco,
passaram quase uma década em outros bairros, e, depois vieram
para formar a expansão do Terceiro Eixo. Um dado interessante é
que quase metade das pessoas que formam a expansão do Terceiro
Eixo é proveniente de bairros das proximidades, principalmente do
Aeroporto Velho, Glória, Pista, Bahia, Bahia Nova, Palheiral, João
Eduardo I e II, a outra metade é formada por pessoas provenientes
de outros bairros da Capital (29%), de outros municípios (13%) e,
para a nossa surpresa, das colônias adjacentes a Rio Branco (11%).
A migração de outros Estados e outros países para a Regional
cessou quase que totalmente.
Esses homens e mulheres tiveram seus motivos para migrar.
Motivos que nem sempre são fáceis de expressar ou entender.
Lágrimas nos olhos, muitos relembram com apreço a localidade de
onde vieram e sonham voltar para lá. Por outro lado, há os que
saíram e não querem voltar mais. São realidades, vivências e
relacionamentos que não podem ser tabulados. Ao tentar expressar
através de números apenas congelamos memórias, não sendo
possível perceber a fluidez dos acontecimentos proporcionada
pelos relatos orais.

20
Habitantes & Habitat

Um quarto dos entrevistados afirmou que a vida no local
onde moravam não era boa, era problemática ou muito pior. Eles
ansiavam por melhores condições de vida. Nesse mesmo contexto
de vivências presentes, quase metade dos entrevistados disse que a
vida no local anterior era boa, dava para viver. Nesse ponto
percebemos que eles mudaram não por querer de anseio voluntário,
mas por uma necessidade maior que a “comodidade” existente.
Quase metade dos entrevistados saiu dos bairros de origem
em busca de melhores condições de vida. Um quarto dos
entrevistados resolveu sair do bairro onde morava porque casou ou
porque morava de aluguel. Quando perguntados sobre o motivo
pelo qual escolheram morar no local em que residem atualmente,
quase metade dos entrevistados afirmou que a escolha se deu por
quererem morar perto da família ou por falta de opção. A maioria
absoluta dos entrevistados mudou de bairro com a família nuclear,
almejando morar mais próximo dos parentes. Nesse ponto
percebemos que não é um membro isolado de uma família que
resolveu se mudar. Na maioria dos casos, vários integrantes de uma
mesma família se mudaram para a mesma localidade ou
localidades próximas. A título de exemplo citemos a família “C”.
Uma grande família de Tarauacá. Três de seus membros adultos
(com cônjuge e filhos) moram no João Eduardo I, um de seus
membros mora no bairro Bahia, dois membros moram no João
Eduardo II, dois membros moram no Plácido de Castro e outros
tantos espalhados pelos bairros riobranquenses.
Um terço das pessoas diz ter encontrado conflito por terra
no local em que chegaram. Não estamos falando da década de
1970, estamos falando de anos próximos, como 2001 e seguintes.
Conflitos por terra em pleno século XXI, o que demonstra uma
falta de políticas públicas na atividade de estruturação dos lotes e
terras urbanas na Capital.
O estudo formal seriado ou a falta dele demonstra como
está o “nível educacional” dos moradores da localidade: 16% dos
adultos “chefes de família” nunca estudaram, 23% sequer
concluíram o segundo ciclo do Ensino Fundamental (antigo
primário), 10% concluíram o segundo ciclo do Ensino
Fundamental (primário completo), 12% não chegaram a concluir o
21
O terceiro eixo riobranquense eo mundo

quarto ciclo do Ensino Fundamental (antigo primeiro grau), 13%
concluíram o quarto ciclo do Ensino Fundamental (Primeiro Grau
completo), 22% concluíram o Ensino Médio (antigo Segundo
Grau), 3% concluíram alguma faculdade e 1% fez Especialização.
Analisar números é algo muito frio, que pode nos fazer esquecer a
realidade. Realidade que pode se mostrar dura e preocupante se
olharmos com um pouco mais de atenção: 61% “dos chefes e das
chefes de família”, não concluíram o Ensino Fundamental, 74%
não concluiu o Ensino Médio, e os que concluíram, em sua maioria,
são os jovens que se casaram recentemente e foram morar na
localidade. A educação, sem dúvida, não é um ponto forte no local.
Quando perguntados sobre o que gostam de fazer para se
divertir, quase dois terços dos moradores afirmaram que quando
“sobra algum dinheiro”, gostam de fazer churrasco no final de
semana para reunir a família e/ou gostam de jogar bola.
Percebemos que as lideranças de bairro atualmente se
articularam melhor em relação à expansão das habitações urbanas
na localidade que em relação ao movimento de busca por moradia
na década de 1970, mostrando que as novas lideranças e os novos
presidentes de bairros, surgem dentre os filhos dos migrantes que
vieram para a Capital há décadas atrás.
Ainda há um fluxo intenso de troca de moradia nos bairros
da chamada Regional VI. Esse fluxo talvez se dê pela falta de
apreço ao lugar em que se chegou ou ainda pelo fato de, em alguns
seringais, os seringueiros terem se acostumado à vida de mudança
entre colocações e/ou pela falta de posses e, quando a localidade é
beneficiada com alguma benfeitoria, as pessoas vendem a casa
valorizada, usam parte do dinheiro para comprar uma de
“qualidade inferior”, em um bairro mais distante e outra parte
destinam, muitas vezes, ao sustento dos filhos que se “juntaram e
constituíram família”. Mas essas são apenas possibilidades. Todos
esses casos ocorrem com freqüência, contudo, não foi nosso
objetivo saber qual ocorre mais, nem dizer por qual motivo as
pessoas migram tantas vezes em tão diversas situações.
A atividade de grileiros em terras urbanas parece uma
constante em Rio Branco, em quase todos os locais de ocupações e
invasões, de assentamentos e loteamentos, parece existirem

22
Habitantes & Habitat

pessoas que buscam apenas o benefício próprio, nem que para isso
tenha que expropriar outras pessoas. Na expansão do Terceiro Eixo
não foi muito diferente, mais da metade dos entrevistados disse ter
sofrido com grilagem nas terras onde atualmente vivem ou
conhece algum vizinho que passou por esse tipo de situação.
Essas pessoas gostariam de ter encontrado o bairro em que
moram com ruas (32%), saneamento (22%) e segurança (20%).
Eles até fazem reuniões da associação de moradores, arrumam a
rua, limpam a frente das próprias casas, mas não têm dinheiro para
fazer o beneficiamento necessário de “urbanidade” nos bairros –
tarefa essa que é dever do poder público nas diversas esferas.
Dois dados antagônicos que nos chamaram a atenção estão
presentes em um único questionamento. Quando perguntamos por
que não mudaram de bairro quando tiveram a chance, 37% dos
entrevistados afirmaram gostar do local, enquanto 39% afirmaram,
categoricamente, que ainda não tiveram chance.
É comum presenciar atitudes de espanto e preconceito
quando alguém, ao ser perguntado sobre onde mora, responde que
mora “na Bahia”, “no João Eduardo”, “no Palheiral”, ou em
qualquer outro bairro do Terceiro Eixo. A idéia que muitas pessoas
têm, de forma geral, é que naquela Regional, conhecida como
Regional VI ou Baixada da Sobral, “só mora gente com três 'P's:
“Pobre, Puta e Preto”. O que, além de muito preconceituoso e
antiético, não condiz com os dados oficiais fornecidos pela Polícia
Militar–PMAC.
Em levantamento realizado pelo Centro Integrado de
Operações de Segurança Pública – CIOSP, quanto às ocorrências
atendidas no ano de 2006, percebemos que os bairros do Terceiro
Eixo representaram apenas 13,65% das 62.502 ocorrências
atendidas em Rio Branco.

23
O terceiro eixo riobranquense eo mundo

Natureza de Ocorrências registradas por bairro de Rio
Branco em 2006
Nome do bairro Ocorrência Percentual Nome do bairro Ocorrência Percentual
Aeroporto Velho 1.260 2,02 João Eduardo I 914 1,46
Ayrton Senna 487 0,78 João Eduardo II 510 0,82
Bahia Nova 384 0,61 João Paulo II 99 0,16
Bahia Velha 304 0,49 Palheiral 267 0,43
Boa Vista 171 0,27 Pista 661 1,06
Boa União 321 0,51 Plácido de Castro 211 0,34
Floresta Sul 769 1,23 Sobral 1.802 2,88
Glória 370 0,59 16 bairros 8.531 13,65
Invasão da Sanacre 1 0,00 Rio Branco 62.502 100,00

Fonte: CIOSP/SEJUSP

Segundo dados da PMAC, o lugar onde se registra o maior
índice de ocorrências é no Centro (8,89%), seguido do bairro de
classe média denominado Bosque (4,34%) e do Taquari (2,91%).
Portanto, é certo dizer que o Terceiro Eixo Ocupacional Expandido
de Rio Branco – que representa, na atualidade, 14,98% da
população urbana riobranquense, e comporta em sua área 17,14%
dos domicílios da cidade – está abaixo da média de ocorrências
geradas na Capital acreana.
Essas foram algumas informações que trouxemos para que
você possa conhecer um pouco mais a localidade de forma geral.
No decorrer dos ensaios, será possível obter informações mais
detalhadas sobre cada local específico, bem como sua ambiência
ocupacional e as vivências neles estabelecidas. Então, convidamos
vocês para um passeio no Terceiro Eixo de Ocupação
Riobranquense, um lugar tão especial quanto qualquer outro da
Capital Acreana. Propomos a você duas opções: sair e conhecer in
loco este tão empolgante lugar ou folhear essas modestas páginas
para conhecer um pouco mais da geo-sócio-história dessas
populações.
Após ter uma idéia inicial do que é o lugar teoricamente,
fica mais fácil conhecê-lo. Em papel ou pessoalmente, desejamos
que você tenha uma boa viagem. Fique conosco e boas páginas.

24
Habitantes & Habitat

VIVÊNCIAS E ANDANÇAS FLUÍDAS
NO BAIRRO AYRTON SENNA
José Erivan Gomes Cavalcante
Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio

A yrton! Ayrton! Ayrton Senna do Brasil!

Era assim que Galvão Bueno sempre encerrava os grandes
prêmios de Fórmula 1 quando o notável brasileiro, maior campeão
nacional da categoria, cruzava a linha de chegada. Era uma
emoção. Milhões de brasileiros na frente da televisão, torciam ao
ver a bandeirada marcando mais uma vitória do “herói nacional”,

25
Vivências e andanças no bairro Ayrton Senna

Ayrton Senna. Como esses brasileiros, os moradores de uma
localidade que se fazia expansão do bairro Sobral também torciam
pelo piloto.
O domingo de 1º de maio de 1994 era para ser mais um
feriado do Dia do Trabalhador. Muitas pessoas se acomodavam em
frente à televisão, enquanto esperavam o início do Grande Prêmio
de Fórmula 1, em Ímola. Milhões de brasileiros torciam por mais
uma vitória de Ayrton Senna, que tinha acabado de trocar a
McLaren, onde ganhou seus títulos na F-1, pela Williams, a então
potência da categoria.
Mas o sonho da vitória foi despedaçado na curva
Tamburello. Os brasileiros que acompanhavam atônitos pela
televisão não acreditavam no que estava diante de seus olhos. Uma
batida a mais de 300 Km/h tirou a vida do tricampeão mundial. A
morte de Senna chocou o país.
Assim como a morte do campeão Ayrton Senna consternou
também vários brasileiros, marcou de forma definitiva os
moradores da expansão do Sobral que, aos poucos começavam a
erguer seus casebres, em busca de, um dia, também, serem
campeões, de conseguirem uma vitória bem simples: realizar o
sonho da casa própria e de proporcionar uma moradia digna para os
filhos.
Entre sonhos, tristezas e lutas, os moradores dessa área, na
época, recém ocupada, resolveram homenagear Ayrton Senna, por
considerá-lo um ícone de vitória, liderança e conquista, dando ao
bairro seu nome.
Ayrton Senna, um bairro de vivências e andanças fluidas,
cujos sujeitos marcados pelo ir e vir anseiam por melhores
condições de vida e buscam um lugar do qual possam dizer
legitimamente seu. Suas vivências e andanças são tão fluidas
quanto o ciclo de águas que atinge a localidade, quando a água
sobe, os moradores saem da localidade, quando as águas baixam,
eles retornam a suas casas. Na fluidez das águas do rio Acre se
constituem, ainda que parcialmente, as trajetórias de vida desses
moradores.

26
Habitantes & Habitat

O bairro Ayrton Senna tem 299.073 m². Limita-se a norte
com os bairros Glória e Aeroporto Velho, a oeste com o Boa União,
a sul com o Sobral, sendo que nas partes sul e leste limita-se com o
rio Acre.
Para melhor entendimento da realidade do bairro no
período de sua formação, realizamos pesquisas junto aos
moradores buscando colher dados relativos às condições de vida da
população – saúde, educação, lazer, dados sobre as condições
sociais e econômicas, saneamento básico, etc. A pesquisa foi
realizada a partir do mês de março de 2007, sendo que o critério

Foto de moradores próximo a suas residências. Durante as cheias do rio a água quase alcança o teto dessas casas.

adotado para a escolha dos entrevistados foi a amostragem. Nosso
objetivo, pois, neste ensaio, é compreender o processo de formação
e modificação da ambiência ocupacional do bairro pelos
moradores.
Ao realizarmos a pesquisa no local, constatamos que a
maioria absoluta dos entrevistados desconhece o dono anterior das
terras que formam o bairro. Grande parte dos que declararam
27
Vivências e andanças no bairro Ayrton Senna

conhecer o dono, afirmaram que as terras eram pertencentes a
particulares, e uma minoria afirmou que seriam de propriedade da
Marinha; embora saibamos que, juridicamente, as áreas que estão
à margem dos cursos de água pertencem oficialmente a Marinha do
Brasil.
Por estar situado à margem do rio Acre, o bairro é um dos
primeiros atingidos pelas enchentes. A cota de alerta do rio Acre é
de 13,5 m. A essa altura grande parte do bairro já foi atingida,
principalmente a área situada mais próxima à margem do rio, bem
como, a área norte, que faz limite com o bairro Aeroporto Velho.
Vale ainda ressaltar que, pelo fato do bairro ser bastante
atingido nas épocas de cheias do rio Acre, muitas residências são
postas à venda. Quando indagamos aos moradores acerca do
motivo pelo qual permanecem no local, mais da metade afirmou
que ainda não tiveram chance de mudar para outro lugar, o que
demonstra que esta é uma população cujas vivências são marcadas
por andanças fluidas e uma movimentação muito freqüente devido
às alagações.
Queremos destacar também, os percalços vividos por essa
população andante, que constantemente têm que se deparar com o
sofrimento e a incerteza nos momentos que precedem a invasão de
suas casas pelas águas. Após isto, só lhes resta aguardar a ajuda que
vem dos órgãos responsáveis pelo translado, segurança e bem-
estar. Dentre esses órgãos, os mais atuantes são: Defesa Civil,
Exército, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar. Os primeiros
moradores que recebem a ajuda conseguem retirar boa parte de
seus bens, já os que ficam aguardando socorro não têm a mesma
sorte, pois a água avança rapidamente em suas casas, causando
prejuízo não apenas material, mas principalmente moral, uma vez
que possuir um lugar para abrigar-se é uma necessidade básica de
todo ser humano.
Após a longa espera, seja pela ajuda dos órgãos
competentes ou pela diminuição do nível das águas durante alguns
dias, o destino dessas pessoas é passar um período de tempo incerto
nas casas de parentes ou nos abrigos improvisados. Nos abrigos
disponibilizados pela defesa Civil, essas populações têm que viver

28
Habitantes & Habitat

aglomeradas, dividindo pequenos espaços com outras centenas de
outros desabrigados, tendo em vista que as famílias possuem um
grande número de pessoas.
Neste ínterim, acontecem os furtos nas residências
atingidas pela inundação. Os criminosos aproveitam-se do fato de
o local estar desabitado e da rede de energia elétrica ficar desligada
durante esse período para furtar não apenas os bens contidos no
interior das casas, mas também retirar as fiações elétrica e
telefônica para comercializar no “câmbio negro”.
Além da incerteza sobre o momento em que poderão voltar
a seus lares, a população atingida pelas enchentes passa por
privações, dependendo da ajuda de órgãos de assistência social
para prover suas necessidades, principalmente de alimentação e
vestimenta. Um outro problema enfrentado refere-se à educação
dos filhos, os quais neste período perdem aula e outros chegam até
a perder o ano letivo, contribuindo com o aumento do índice de
evasão escolar.
Quanto à população do bairro, quase metade dos
entrevistados se concentram na faixa etária dos 25 aos 40 anos; o
que nos chama a atenção é o fato de mais de um terço da população
ter mais de 40 anos. A maior parte dos moradores migrou para o
local no final da década de 1990 e quando chegaram ao bairro
tinham mais de 30 anos, ou seja, tratavam-se de pessoas com certa
experiência de vida, porém, ainda estavam em busca de moradia
própria. Dentre os entrevistados, a maioria absoluta é composta por
pessoas casadas e uma parte significativa é composta por viúvos.
Um dos principais motivos que levaram essas pessoas a mudar para
um bairro desconhecido foi a busca por melhores condições de
vida. Outras razões importantes que ocasionaram essa migração foi
o fato de que um quinto da população morava de aluguel ou eram
recém casados, precisando, portanto, de uma moradia.
Mais de um terço dos moradores afirmou ter tomado
conhecimento do local para morar através de parentes; um quarto,
através de amigos e outra parte considerável soube porque estava
procurando. A escolha do bairro Ayrton Senna por esses moradores

29
Vivências e andanças no bairro Ayrton Senna

deu-se, em sua maioria, pelo desejo de permanecerem próximos
aos familiares, o que justifica o fato de haver nos bairros adjacentes
famílias inteiras morando perto.
Chama atenção o fato de pouco mais de um quinto dos
entrevistados ter afirmado que mudaram-se para o bairro por falta
de opção. Quase metade dos entrevistados respondeu que, se
pudessem, teriam continuado a morar no bairro de onde eram
provenientes. A insatisfação com o novo bairro é compreensível,
tendo em vista que, por ser um bairro recém-formado, o Ayrton
Senna ainda não dispunha, como ainda não dispõe, da infra-
estrutura almejada pelos moradores. Ao chegarem ao local, a
maioria absoluta afirmou não ter recebido ajuda de nenhuma
instituição pública, o que demonstra o total desamparo dessas
populações andantes e a falta do mínimo de condições para
sobreviver.
Entre as atividades de lazer realizadas pelos moradores ao
chegarem ao bairro, destaca-se a participação em cultos religiosos
e programações das igrejas, freqüentados por quase um terço dos
habitantes do local. A população evangélica do bairro, desde sua
formação, vem crescendo, dado o grande número de templos
religiosos ali existentes. Dados obtidos mediante a pesquisa,
revelam que os evangélicos, em termos quantitativos,
correspondem a mais da metade da população. É também
significativo o número de pessoas que professam a religião
católica, chegando a pouco mais de um quarto dos moradores. Vale
ressaltar que um sexto do universo pesquisado é composto por
agnósticos, os quais não participam de nenhuma denominação
religiosa.
A maioria dos moradores do bairro nasceu no município de
Tarauacá, outra parte expressiva nasceu nos municípios de Rio
Branco e Brasiléia. A migração de pessoas dos municípios para a
Capital não se restringiu às décadas de 1970 e 1980, quando da
chegada dos pecuaristas do Centro-Sul do Brasil, o que ocasionou a
substituição da economia da borracha pela atividade agropecuária.
Vários fatores contribuem para a continuidade do processo de

30
Habitantes & Habitat

migração dessas populações interioranas para Rio Branco, dentre
eles podemos citar a busca de emprego, a perspectiva de estudo
para os filhos, visando a qualificação profissional, bem como
tratamento de saúde. Dentre os aspectos que tornam Rio Branco
atraente para essas populações, podemos citar o fato de concentrar
as sedes dos poderes legislativo, executivo e judiciário do Estado, o
maior número de instituições de ensino fundamental e médio,
graduação e pós-graduação, centros técnicos de ensino, maiores
oportunidades de trabalho, centros de atendimento hospitalar bem
aparelhados.
As migrações do interior para a Capital, em muitos casos,
resultam da vinda, de parentes e familiares. Aqueles que
permaneceram no interior, ao tomarem conhecimento - por meio de
cartas ou mensagens via rádio - das melhorias alcançadas pelos
primeiros membros da família que chegaram em Rio Branco,
sentem-se atraídos pela possibilidade de melhoria e decidem

Rua do Barro. Foto: Reginâmio B. Lima.

31
Vivências e andanças no bairro Ayrton Senna

De acordo com a pesquisa realizada no bairro Ayrton
Senna, verificamos que a maioria absoluta dos moradores está
inserida no mercado de trabalho informal ou encontra-se
desempregada. As condições de vida de muitas dessas pessoas são
marcadas por privações, pois a baixa escolaridade e a conseqüente
falta de experiência profissional contribuem para sua manutenção
no estado de extrema pobreza.
Dentre as funções desempenhadas, muitos atuam em
trabalhos braçais, como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, “orelhas
secas” e auxiliares de serviços gerais. No tocante ao trabalho
desenvolvido pelos moradores quando chegaram ao bairro,
destaca-se o fato de que mais de um quarto da população
encontrava-se desempregada e quase um quinto trabalhava como
autônomo, biscate ou doméstica.
Além da baixa remuneração, os moradores do Ayrton
Senna enfrentam problemas na hora de se deslocarem aos seus
locais de trabalho, uma vez que apenas a Estrada da Sobral e a rua
principal do bairro – rua Jatobá – dispõem de pavimentação
asfáltica. O poder público atuou pouco nesse local tão necessitado
de bem-feitorias, é necessário que sejam tomadas medidas
incisivas para que a população que ali reside possa ter melhor
qualidade de vida.
Os problemas enfrentados pelos moradores não dizem
respeito apenas à infra-estrutura. O bairro é desprovido de rede de
esgoto, embora a maioria absoluta seja contemplada com o
abastecimento de água e a energia elétrica. Na localidade, existe
apenas uma escola pública e um centro de saúde.
Quase totalidade das residências do bairro Ayrton Senna é
própria. Quanto aos tipos de edificações, predominam as casas
construídas em madeira. Mesmo com a proximidade do bairro em
relação à Estação Tratamento de Água da Sobral – ETA I, pouco
mais de um terço dos moradores não são beneficiados com esse
serviço, precisando recorrer à construção de poços semi-artesianos
e cacimbas.
Ao serem perguntados a respeito de como era a
convivência com os vizinhos quando chegaram ao bairro, a maioria
32
Habitantes & Habitat

absoluta respondeu que era boa. Com a chegada ao local, os
moradores tiveram que estabelecer novos relacionamentos, isto é,
uma interação com os demais, o que se deu, de certa maneira, com
poucos índices de agressões físicas violentas, visto que os mesmos
tinham interesses comuns.
Pelo fato da ocupação do bairro Ayrton Senna ser recente e
muitas famílias estarem se assentando no local, ainda não
romperam os laços de afetividade com o antigo lugar de moradia.
Muitos afirmaram não sentir saudade de nada do que aconteceu no
momento da chegada ao bairro, pois a ocupação ainda se encontra
em fase de processamento e eles estão enfrentando as dificuldades
características da maioria das ocupações ocorridas nas áreas
“periféricas”.
É perceptível, também, nas falas dos entrevistados, a falta
de sensação de tranqüilidade, o que pode demonstrar o fato de o
bairro estar ficando menos calmo que antes. A falta da construção
de uma interação com o lugar é indicativo de que a população do
bairro Ayrton Senna ainda representa uma população móvel. Ao
buscar novas condições de vida, essas pessoas migram para outros
lugares. Entretanto, ao se estabelecerem no novo local e
perceberem que não terão condições favoráveis para uma vida
estável, essas pessoas continuam em trânsito. Já não estão onde
moravam e a localidade onde vivem não as faz identificar-se com
ela. Ainda buscam um lugar que possam chamar de seu, o que
denota o fato de muitos seguirem o fluxo de migração ainda
existente no local. É muito provável que eles mudem de residência
novamente. E como o piloto Ayrton Senna, em suas andanças,
talvez nunca mais os vejamos.

33
Habitantes & Habitat

BOA UNIÃO
A Conquista de um Sonho
Regineison Bonifácio de Lima

O desenvolvimento de uma sociedade, sem dúvida alguma,
é uma das tarefas mais complexas do ser humano. Ao falar
sobre o bairro Boa União, faz-se da complexidade uma
simplicidade de fatos, de vidas, de um pedaço da sociedade
riobranquense que mais parece não desistir nunca de seus sonhos e
objetivos. Uma grande população, dentro de um bairro muito
pequeno, com condições extremas de precariedade em todos os
setores.
Perceber traços e características do bairro Boa União e de
seus habitantes é o primeiro passo para que possamos ter uma

35
Boa União: A conquista de um sonho

maior compreensão sobre os espaços e os motivos pelos quais as
populações de outras localidades migraram para ali. Um aspecto
muito importante que marca as pessoas nesse local – e porque não
dizer também, fundamental – é o fato de se colocar o ser humano
como personagem principal de um desenvolvimento de vida e
histórias de uma sociedade cheia de desafios.
Nosso objetivo é dialogar sobre a complexidade de
adaptação do homem juntamente com sua família, as dificuldades
encontradas, os desafios, as persistências e os sonhos de uma casa
própria (choupana, coberta de palha, piso de paxiúba e paredes de
papelão), ainda que fosse simplesmente, algo fora e bem distante
dos moldes de urbanização tão desejados por esta sociedade
contemporânea. A urbanização brasileira no século XX,
principalmente em suas últimas décadas, foi marcada por
importantes impactos que envolveram o aumento da população das
cidades e o ritmo bastante acelerado de crescimento capitalista,
sobretudo, na área urbana das Capitais.
O bairro Boa União está localizado a Sudoeste da cidade de
Rio Branco, capital do Estado do Acre. Segundo dados oficiais da
Prefeitura Municipal de Rio Branco, o bairro apresenta atualmente
uma superfície de 142.894 m2, fazendo limite ao norte com o bairro
Bahia Nova e Glória, ao sul e leste com o bairro Ayrton Senna e a
oeste com o bairro Sobral.
A presente pesquisa sobre o bairro Boa União foi
desenvolvida dentro de uma perspectiva historiográfica sócio-
cultural, descrevendo os acontecimentos e comentando os fatos, as
condições de vida, independente de raça, religião ou ideologia
política, como elementos básicos, essenciais e necessários para a
constituição de um modo de vida em sociedade, independente do
local de onde as pessoas se deslocaram.
As informações trabalhadas a respeito do ocorrido com a
população do Boa União, levam-nos à compreensão de que o
tempo que é consagrado ou mencionado pela história, através de
seus momentos e acontecimentos, relembra ocasiões corriqueiras
ao longo dos anos. Datas e épocas na história não são passíveis de

36
Habitantes & Habitat

serem representadas, encenadas ou escritas exatamente como
ocorreram, mostrando todos os detalhes. O anseio do historiador é
vasculhar as memórias, perceber as singularidades que perpassam
as narrativas de pessoas que foram entrevistadas e que nos
depositaram a confiança e a honra de podermos descrever a
situação em que elas viveram e ainda vivem. Buscamos compor,
através dos vários fragmentos de histórias que se cruzam e
entrecruzam, um cenário de como foram e de como se configuram
as relações de ambiência no bairro Boa União. Todavia, jamais
daria para voltar no tempo e trazer para este escrito, todos os
acontecimentos vividos, na exatidão como foram, mostrando o dia
e hora em que muitas mães deixaram de comer à noite, chegando
até a passar fome, para que seus filhos pudessem se alimentar, ou
mesmo mostrar os dramas e angústias vividos pelos pais, diante das
dívidas, ou pelas saídas dos locais onde viveram.
Olhando o viver de cada habitante do bairro Boa União,
verificamos que a mesma em alguns momentos se confunde com a
história de outros bairros periféricos desta cidade, como descrito
pelas pesquisadoras Lelcia Almeida e Clenilde Santos relataram
sobre o bairro da Pista. Um contexto bem semelhante ao que ocorre
nos demais bairros do Terceiro Eixo:

É essa dinâmica do viver, do se identificar
enquanto sujeitos do passado e transformadores do
presente, que faz do Bairro da Pista um local de
interação, onde novas famílias surgem, novas casas
se constroem e novas amizades acontecem, através
das lembranças dos moradores, da alegria de poder
contar suas histórias de vida. Os Franciscos, Josés,
Raimundos, as tantas Marias evidenciam as
passagens transitórias entre o seringal e a cidade; é
mais que poder relembrar tantos acontecimentos, é
se situar como agente da transformação do próprio
bairro no decorrer dos tempos.
Essa história coincide com o surgimento de muitos
outros bairros da cidade inseridos no contexto dos
anos de 1970, um período marcado por uma nova
diretriz governamental onde as políticas de

37
Boa União: A conquista de um sonho

investimentos estavam voltadas para o “progresso
econômico”. “Progresso” esse que nunca chegou.
(LIMA; BONIFÁCIO, 2007, p. 54).

A maioria das famílias que se fizeram migrantes,
ocuparam esse local por viverem sem condições financeiras. Eram,
em sua maioria, chefes de famílias em torno de seus 25 a 40 anos de
idade, homens e mulheres que, mesmo sem condições acessíveis
para dar um bom conforto para suas famílias, batalharam e se
esforçaram para adquirir um lote de terra, uma choupana, um
casebre. Cidadãos que vieram em sua maioria com seus cônjuges,
transportando em média três filhos a “tira-colo”, como é a forma
mais comum de se dizer pela região.
Essas famílias – que para cá vieram na segunda metade
dos anos 1980 e de forma mais acentuada nos anos 1990 – não
sabiam ao certo como discriminar o nome do bairro. Vários
questionamentos surgiram, o mais intrigante deles era se a área de
terras que compõem o bairro seria parte de uma expansão do Bahia
Nova, do Sobral, ou mesmo do bairro Glória. Mas, por fim, a
definição da questão foi resolvida pelos próprios moradores,
criando-se um novo bairro, chamado de Boa União.

Rua Boa União: Limite entre o bairro Boa União (à Esquerda) e Sobral (à Direita). Foto: Iracilda G. C. Bonifácio.

38
Habitantes & Habitat

Até os dias atuais, a maioria dos moradores vive um dilema
muito sério a respeito da falta de clareza de delimitação do Boa
União. Ao adentrarmos a parte sul do bairro Bahia Nova, logo após
a parada final do ônibus Bahia/Palheiral e, nas primeiras casas,
perguntarmos: “Que bairro é este?”, a maioria absoluta dos
moradores respondeu que era o bairro Boa União. Esse fato
ocorreu porque os moradores imaginam estar realmente situados
no Boa União, e os próprios moradores da área reconhecida do
bairro Boa União pela Prefeitura Municipal de Rio Branco
imaginam que a área situada próximo parada final da linha Bahia
Palheiral também é Boa União.
A questão de limites dentro dessa área é tão interessante,
que vai além da capacidade de compreensão de qualquer indivíduo.
Um bom exemplo disso é quando um morador liga para a empresa
Brasil Telecom solicitando a ligação de um telefone fixo para sua
residência. Uma das primeiras perguntas feitas pelo profissional de
tele-marketing da operadora é: “Qual o seu endereço?”. E,
logicamente, quando esse endereço é fornecido, o profissional diz:
“Desculpe-me, senhor, mas esta rua e este número de sua casa não
batem com o bairro que o senhor está nos informando. Em nossos
registros que foram repassados pela Prefeitura de sua cidade,
constam que o senhor não é morador do bairro Boa União e sim do
bairro Bahia Nova”.
Se uma operadora de telefone no Centro-Sul do Brasil sabe
onde exatamente esse povo mora, porque muitos dos residentes do
próprio bairro não o sabem? Se a Prefeitura se omite em fazer um
trabalho de mapeamento da área juntamente com os moradores e
líderes de cada bairro, então, a questão é mais complicada do que o
nosso grupo de pesquisadores esperava.
Pelo menos na área que é oficialmente reconhecida pela
Prefeitura desta cidade, algo se torna bastante curioso e por demais
interessante: aquela velha lógica do antigo e do novo, o novo que
rompe com o velho para formar um novo espaço. A questão dos
bairros na cidade de Rio Branco é muito complexa, acentuando-se,
principalmente, nas décadas de 1970, 1980 e 1990. A forma como

39
Boa União: A conquista de um sonho

vários bairros surgiram foi marcada por conflitos, era uma
constante de ocupações, venda de lotes pelos proprietários das
terras e, às vezes, vendas dos mesmos lotes que outrora já tinham
sido vendidos para novos donatários. Este último caso ocorreu em
grande parte do bairro Boa União, exemplo dentre tantos outros
bairros situados no Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco e de
grande parte da cidade.
Diante disso se torna de difícil compreensão poder se
expressar sobre a grandeza extensiva de um bairro periférico, as
condições de moradia, saneamento básico, água, luz, asfalto,
escolas, posto de saúde, transporte público, esgoto, segurança
pública, telefonia privada, pública, comércio e transporte, bens
necessários para que um cidadão urbano possa se adaptar de forma
mais apropriada.
A decisão dos moradores do Boa União de fundar um novo
bairro resultou no rompimento com o velho. Os bairros Bahia
Nova, Sobral e Glória já tinham se formado num passado bem
próximo, estando em melhores condições de desenvolvimento e
tendo, sobretudo, algumas benfeitorias importantes. Entretanto,
aquela porção de terra, inerte até então, estava ladeada por bairros
já constituídos, sendo mais difícil receberem benfeitorias por parte
da Prefeitura se fosse considerada apenas uma expansão de outras
localidades. As terras que deram início ao Boa União constituíam
um grande cerrado de matas que atravessava a parte final da Bahia
Nova, indo até o bairro Floresta Sul. Era, na época de formação,
uma área marcada pela indecisão, não apenas quanto ao nome do
bairro, mas também pela incerteza e precariedade das condições de
vida.
A respeito dessa indecisão, Leila Costa comenta:

O bairro que deveria, dentro do Terceiro Eixo, ser
chamado de Boa União era o Bairro João Eduardo
II, que sofreu um grande fluxo ocupacional no
período de 1979 a 1982, sendo este originado de
uma ocupação nas terras do governo que se
destinavam à construção de um estádio de futebol.
(COSTA. __ In: LIMA; BONIFÁCIO, 2007, p. 65).

40
Habitantes & Habitat

Conforme o trecho acima, a intenção de se formar um
bairro denominado Boa União já havia ocorrido no momento da
formação do bairro João Eduardo II. Podemos apontar como
semelhança entre esses dois bairros não apenas o intento de se dar o
mesmo nome, mas principalmente o ambiente conflituoso em que
surgiram. Na área hoje denominada João Eduardo II, no início da
década de 1980 houve muitos assaltos, e vários crimes, dentre eles,
o assassinato de uma moradora do bairro Bahia, chamada Hosana
Carneiro.
Essas eventuais circunstâncias causavam um sentimento de
inquietação, geravam apreensão e revolta por parte dos moradores,
que decidiram desmatar a área. Logo depois, no dia 18 de fevereiro
de 1981 ocorreu o assassinato do líder comunitário João Eduardo
Nascimento, este era uma espécie de líder no bairro Bahia, Monitor
da Igreja Católica e um dos representantes da Comunidade Eclesial
de Base. Além disso, este homem era, na localidade, o principal
representante da FUNBESA – Fundação do Bem-Estar Social –,
entidade da qual havia recebido autonomia para a distribuição de
lotes de terra naquelas localidades. Vale lembrar que, no início dos
anos 1980, ainda não havia uma configuração exata a respeito da
delimitação dos bairros; então, com tão grande onda de violência
nas terras que ficavam a oeste do bairro Bahia, os moradores dessa
área e os da Bahia resolveram homenagear o líder comunitário,
formando, assim, o bairro João Eduardo.
Ao serem ocupadas as terras da parte sul do bairro João
Eduardo I, as quais fazem limite com a Rua Campo Grande, os
moradores resolveram colocar também o nome do líder
comunitário João Eduardo. O bairro passou, então, a ser
denominado de João Eduardo II. Devido a tantas violências, esse
bairro recém formado não tinha mais razão de se chamar Boa
União, como queriam os primeiros residentes da localidade.
Assim, ficaram divididos os bairros: o situado ao norte ficou sendo
chamado de João Eduardo I e o outro, ao sul, sendo chamado de
João Eduardo II.

41
Boa União: A conquista de um sonho

A grande dificuldade de escolha de “um nome” para o
bairro pelos líderes locais não demonstra a incapacidade desses
representantes, mas aponta para a preocupação que os moradores
tinham em escolher um nome que representasse bem aquela
localidade. O bairro Boa União foi primeiramente chamado de
bairro “José Nolasco”, somente depois os moradores chegaram a
um denominador comum e escolheram o nome que o local tem
hoje. De mesma forma, a interação dos moradores com a localidade
fez com que em outros bairros também fossem postos nomes de
acordo com a situação verificada. Assim ocorreu na escolha de
nome de bairros como o Bahia, que, segundo os moradores,
recebeu esse nome por ter sido formado em uma área alagadiça,
uma verdadeira baía; com o bairro Glória, nome escolhido pela
população por traduzir todo o processo de luta pela terra e sua
conseqüente conquista enquanto uma glória alcançada; como o
bairro Boa Vista, assim denominado em virtude da vista
privilegiada proporcionada pela localização do bairro em uma área
elevada.
No caso da escolha do nome “Boa União”, entretanto,
revela uma grande contrariedade, haja vista que, se por um lado os
moradores buscavam “união e melhores condições de vida”, por
outro, o bairro, por algum tempo, constituiu um dos piores cenários
de violência de Rio Branco. Isso implica dizer que tamanha
intensidade de constrangimento físico e moral para uma localidade
tão pequena é “inaceitável”. Essa situação foi gerada,
primeiramente por cidadãos infratores que vieram da
circunvizinhança e, logo depois, pelos próprios filhos dos
ocupantes daquela localidade. Dentre estes, alguns são
adolescentes e jovens que entraram no mundo das drogas, estupros,
violências e até mesmo assassinatos. Nem todos, mas vários jovens
e adolescentes, a saber, a nova geração que surgiu nos últimos 15
anos, fizeram do cenário de seu próprio habitat, algo digno de
vergonha, jogando o bairro para uma situação ainda pior, marcada
pelo abandono, exclusão social e noticiários de fatos horrendos.
Ainda assim, o sonho de muitos dos habitantes é a paz, a

42
Habitantes & Habitat

prosperidade do bairro, o aconchego da família, o tão amado lar e o
acreditar em um mundo melhor. A sociedade do Boa União deseja
chegar, de forma satisfatória, pelo menos, próximo das utopias, das
representações de ideais em que vigorem normas e instituições
políticas altamente aperfeiçoadas, um local em que tudo poderia
ser bem melhor, com muito mais acessibilidade. Mas, como disse
Thompson: “O processo de escrever história muda juntamente com
o conteúdo” (1992, p. 28). Ainda que tais desejos, ou mesmo
processos sejam considerados pouco práticos, até mesmo
irrealizáveis, brota no coração desses moradores o anseio, a
vontade de fazer algo para concretizar o que seria um simples
sonho em uma situação real.
Quando os primeiros moradores vieram para o bairro, em
busca de abrigo para si e suas famílias, descobriram um local sem
nenhuma infra-estrutura, sem água encanada, energia elétrica,
esgoto, policiamento, transporte, escola, posto de saúde, enfim,
nada. O que encontraram foram varadouros, caminhos pelos quais
o gado dos fazendeiros da localidade faziam suas passagens. Estes
varadouros eram pequenos caminhos, estreitos e tortuosos,
lamacentos nas épocas de chuva, serviam de pequenas estradas,
sendo abertos a machado, terçado e motosserra. Ao longo desses
caminhos estreitos, que apresentavam curvas irregulares, surgem
as primeiras casas, algumas sem paredes, outras com paredes de
alumínio, de papelão, algumas com piso de paxiúba, e outras com
piso de chão, o teto de alumínio, ou de palha. Neles, meninos e
meninas bem pobrezinhos, dormindo ao chão. Apesar das
dificuldades, a demarcação de um pequeno lote era o bem mais
precioso, tudo isso, devido às necessidades daqueles que ali
começaram a se estabelecer. Quanto a essa questão, Thompson
afirma:

Uma coisa é saber que as ruas ou campos em torno
de uma casa tinham um passado antes que ali
tivesse chegado; bem diferente é ter tido
conhecimento, por meio das lembranças do
passado, vivas ainda na memória dos mais velhos

43
Boa União: A conquista de um sonho

do lugar, das intimidades amorosas por aqueles
campos, dos vizinhos e casas em determinada rua,
do trabalho em determinada loja (Thompson,
1992, p.30-31).

O interessante é que mesmo depois das dificuldades,
quando olhamos para esses desbravadores do bairro, podemos
perceber que o que Thompson quer afirmar é uma realidade: essas
pessoas criam relações íntimas de amor pelo local em que se
estabeleceram. Isso, possivelmente, ocorre devido às lutas
travadas num processo de vida, numa avaliação quantitativa e
qualitativa do que conseguiram ao longo de árduos anos. As
dificuldades encontradas na vida fazem com que essas pessoas,
após conseguirem um local de moradia, exerçam um apego ao
local. É interessante destacar que, quando questionados sobre o
porquê de não terem mudado de bairro quando tiveram a chance,
dos 26 entrevistados, a grande maioria demonstrou um grande
amor pelo local em que vivem. Mas, nessas respostas, vez por
outra, há uma mistura de valores entre amor e o fato de terem se
acostumado com o local.
Tais valores estão “impregnados no sangue” e “arraigados
no coração”, estão constituídos num bom relacionamento com a
vizinhança, com os amigos que fizeram ao longo dos anos de
moradia no local, no barzinho tomando uma dose de pinga, até
mesmo numa lavagem de roupa e possivelmente o medo de
mudança, de descobrimento de novos locais. Além disso, podemos
citar, ainda, a possível insatisfação de ir buscar de um novo local
para morar, o que faz com que esses moradores se questionem e
reflitam, voltando à memória aquilo que eles passaram para se
estabelecer em seu lar. A relação essencial com o local está apegada
com o próprio ser humano; essa relação homem-habitat existente é
muito forte, corresponde a uma história de sonhos e realizações,
por mais simples ou humilde que seja o estabelecimento.
A dificuldade no momento de se conseguir um lote de terra
foi algo lamentável. Dos moradores entrevistados, 48% se referem
com grande insatisfação à questão da grilagem no Boa União. De

44
Habitantes & Habitat

norte a sul e de leste a oeste, quase toda a cidade de Rio Branco, e
principalmente as autoridades competentes desta cidade,
conseguiram ficar de braços cruzados, diante desses
acontecimentos. Eram os lotes de terras vendidos para mais de um
donatário, algo cruel de se ver.

[...] eu senti na pele o drama de comprar um lote de
terra no bairro Floresta Sul, e este não me foi
concedido, antes já haviam até tido tramitações do
vendedor com outros compradores que também eram
inocentes, senti na pele o drama de empenhar o
dinheiro em algo que não seria meu, e quando o caso
foi para a justiça, consegui receber o dinheiro do
terreno, depois de uma espera, e uma tremenda
paciência que durou mais de três anos (Entrevista com
R. L., realizada por Regineison Lima, 2007).

As migrações tiveram como motivo principal, o que se
segue em quase todos os bairros deste estado que são: a busca por
“melhores condições de vida”, “o aluguel” e “as doenças”. Quanto
ao primeiro fator, implica dizer que as condições anteriores eram
bem complicadas, e, possivelmente, um fardo muito pesado para
ser carregado. No que se refere ao aluguel, o sonho da casa própria
estava declarado no coração de cada habitante que ali chegou com
seu cônjuge e média de quatro filhos. As condições de vida eram
bastante desconfortáveis financeiramente, levando-se em conta
que 11 dentre os 26 entrevistados são autônomos que vivem de
biscate, outras 10 pessoas são do lar, não recebendo renda alguma,
e outras 02 estão desempregadas. Esses dados representam 88%
dos moradores que têm poucas condições financeiras para se
manter, quanto mais para pagar aluguel. Outro motivo da vinda
para o bairro foi “a doença”, a vinda do interior do estado para a
Capital e para o bairro, para ficar um pouco mais próximo dos
centros médicos e disporem do atendimento mais especializado, o
que ocorre com pouca freqüência nos municípios do interior.

45
Boa União: A conquista de um sonho

Rua sem Saída. Esse tipo de rua é comum no Boa União. Foto: Pedro B. Lima.

Diante de muitas lutas e obstáculos, a migração daqueles
que partiram para o Boa União foi bastante interessante porque,
primeiramente, algumas pessoas se situaram no interior do bairro,
viram as condições, transformaram o ambiente, tornaram-no mais
agradável, fizeram de si próprios bons vizinhos e bons amigos,
daqueles que ali haviam chegado de forma concomitante. Logo
depois, quando alguns de seus parentes buscavam moradia em
locais da periferia riobranquense, não hesitaram e viram que o
melhor era realmente ter que ir para próximo de seus parentes.
Esses laços familiares eram, e ainda são, uma constante no bairro, a

46
Habitantes & Habitat

lógica de que “a união faz a força” se concretiza, nesse momento,
de forma brilhante. São laços familiares estabelecidos que podem
ser vistos até os dias atuais.
A vinda para o bairro se deu através de laços familiares bem
intensos; porém, aqueles que chegavam depois, traziam consigo
não somente o cônjuge e os filhos, mas também familiares, como
irmãos, pais e parentes. Ao que tudo indica, o Boa União conseguiu
mesclar muito bem essa sintonia amizade-parentela. Isso é bom,
principalmente, para todos conseguirem se solidificar e solidificar
a localidade na qual vivem, formando, assim, novos costumes,
novas culturas e novos valores de vida.
Quando as pessoas chegaram ao Boa União, seu intuito
principal era a construção de uma casa, um local para se
estabelecer. Essas casas, logo após sua construção, vão, ano após
ano, sendo melhoradas através de reformas domésticas, dentro das
condições financeiras de cada morador. No Boa União, assim
como em toda a área do Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco,
o que vai se estabelecer são as casas próprias, que é o principal
sonho de consumo, as casas e/ou apartamentos alugados ou
cedidos são “disparadamente” uma minoria. A população tenta se
estabelecer de forma fixa, criando vínculos ainda mais arraigados
com a terra e a localidade. Nos dias atuais, já podem ser vistas pela
localidade diversas casas feitas em alvenaria em um bom estado de
uso, várias casas de madeira e mistas. Isso tudo tem mostrado que
aqueles que chegaram vieram para ficar, estabelecendo relações
com o local e laços mais estreitos com a comunidade.
O bairro mesmo a uma distância considerável do rio Acre
sofre com as enchentes. Isso porque passa pelo meio do bairro um
igarapé, chamado popularmente de Igarapé do Bueiro, que durante
o período de chuvas, enche muito e transborda;
A massa de terra que circula o bairro é muito baixa, por isso,
fica muito propício para alagar alguns quintais. As chuvas fortes
também elevam a quantidade de água no leito do igarapé, com isso,
o local fica inapropriado para construção e moradia. O interessante
é que o local por onde passa o igarapé faz parte de um dos vazios
urbanos da cidade de Rio Branco, cerca de 20% do total de terras
que compõe o bairro.

47
Boa União: A conquista de um sonho

Muito ainda falta ser feito pelo poder público no bairro Boa
União, como escolas, postos de Saúde, mercado alimentício, praça
de lazer, linha de ônibus, esgoto, dentre outras conquistas ainda por
ser alcançadas.
O problema da falta de moradia aparece em toda a cidade,
ora como problema principal, ora relacionado com outros
problemas ou mesmo como causa de outros, estendendo-se como
falta de uma política habitacional para populações de baixa renda.
O bairro ainda não conta com uma linha de ônibus correndo
em seu solo, os moradores que utilizam esse transporte público têm
que se locomover de seus lares para pegar a condução na Estrada da
Sobral ou no bairro Bahia. A insuficiência da frota de ônibus que
atende com o serviço de transporte coletivo, infelizmente, é regra
em toda a cidade de Rio Branco. São linhas de ônibus insuficientes,
intervalos de tempo muito longos entre um ônibus e outro,
superlotação de passageiros, falta de abrigos nas paradas. Motivos
de reclamação não faltam, tanto no bairro como em toda a cidade,
principalmente o elevado custo da passagem.
O traçado das ruas é, de um modo geral, interrompido, com
muitas ruas desordenadas e sem saída. O bairro ainda não tem ruas
que apresentem potencial para se tornar referenciais na malha
viária, ruas que concentrem qualidade e quantidade significativa de
comércio e serviços, a não ser a Estrada da Sobral, que já oferece
para a Regional VI uma pequena expressividade comercial.
Dentre algumas conquistas alcançadas, ou parcialmente
abrangidas, podemos citar algumas que seguem nos parágrafos
abaixo.
O SAERB – Serviço de Abastecimento de Água e Esgoto
de Rio Branco tem beneficiado o bairro com água potável. Ainda
assim, em algumas poucas ruas por trás da Estrada da Sobral falta
tubulação de água. Mas, já existem planos e fomentos para o inicio
do ano de 2008, de uma possível melhoria na qualidade do
abastecimento de água. Os moradores irão se beneficiar com uma
melhor qualidade da rede hidráulica para distribuição de água
tratada no bairro e em sua circunvizinhança.

48
Habitantes & Habitat

A Eletroacre tem atendido à população com energia elétrica
que funciona 24 horas por dia. Essa população hoje, ao contrário do
que ocorreu no início do bairro, quando usavam velas e lamparinas,
se beneficia muito da energia elétrica, pois, mesmo com as
corriqueiras “quedas de força elétrica”, seu funcionamento tem
sido satisfatório. De acordo com os moradores, o que não tem sido
satisfatório, são os altos custos das contas de energia elétrica
cobrados pela empresa.
Já existe a coleta de lixo no bairro, que tem atendido a
população três vezes na semana. Os serviços atendem a todos os
moradores, mas, no inverno, dada à precariedade de algumas ruas,
levando-se em conta que a maioria delas são apenas piçarradas,
existe a dificuldade no acesso para que se faça a devida coleta por
parte da empresa responsável.
Existem planos elaborados pela Prefeitura para melhorar a
urbanização da localidade. Segundo os moradores, uma das
intenções dos governantes é deixar o bairro Boa União mais
aprazível. Com essa “modernização”, o bairro receberá várias
benfeitorias, dentre elas: esgoto; alargamento na estrutura tubular
de água; calçadas; asfalto, uma vez que a maior parte das ruas são
apenas piçarradas, dentre outras benfeitorias.
Maria Iracilda Bonifácio (2007, p. 25) afirma que “ao
migrar, as pessoas buscam novos lugares, transformam o habitat e
se transformam no deslocamento”. Nesse ponto culminante,
podemos perceber que nem o espaço físico, nem os moradores, e
nem mesmo o meio ambiente permaneceram como estavam,
porque ocorreram diversas transformações necessárias à sua
sobrevivência. As transformações dos moradores se deram no
sentido de terem em comum situações de mudanças, suas
trajetórias de vida, e ao novo espaço ocupado, pois passaram por
rupturas, novas adaptações e “resistiram” às situações que suas
realidades lhes permitiam.
As relações que essas populações estabelecem no local são
complexas e intrigantes. Fica, portanto, o desafio para que novas
pesquisas sejam feitas no local. Nesse ensaio, buscamos ampliar o

49
Boa União: A conquista de um sonho

conhecimento por parte da sociedade sobre a realidade de
formação de um dos bairros periféricos mais pobres da cidade de
Rio Branco, mostrando que é importante a criação de laços mais
estreitos entre o bairro como local de moradia e as pessoas que nele
residem. As considerações aqui feitas constituem uma grande
oportunidade para que outros moradores de bairros periféricos
possam refletir sobre suas andanças e vivências, como também
representam um ensejo para que as pessoas que conhecem o Boa
União apenas pelos relatos das páginas policiais dos periódicos da
cidade possam ver o local além do pré-conceito.

50
Habitantes & Habitat

TRAJETÓRIAS E COTIDIANO NO
BAIRRO BOA VISTA
Cleunilde Silva dos Santos

C ontextualizar a história de um lugar, dialogando com
sonhos e esperanças de gentes na delimitação de seu espaço
é o que almejamos neste ensaio, tendo como foco, na
ocasião, o bairro Boa Vista. Para isso, foram realizadas entrevistas,
aplicação de questionários, registro fotográfico e consulta a órgãos
públicos e privados, tendo como foco principal as experiências de
vida dos moradores. Desta forma, algumas pessoas da comunidade
nos convidaram a ouvir velhas e novas histórias; percorremos ruas,
subimos e descemos ladeiras, conhecemos os Joãos, as Marias,
que, entre um gole e outro de café, nos contavam sobre o processo

51
Trajetórias e cotidiano no Boa Vista

de ocupação e transformação do bairro, paralelo a suas trajetórias
de vidas.
Um exemplo dessas histórias e trajetórias é a moradora
R.C, de 62 anos, natural do Amazonas e filha de pais nordestinos,
chegou ao Acre por volta de 1970, veio com o marido e filhos.
Antes de fixarem residência no local, morou no bairro João
Eduardo em companhia de familiares. Em seu relato, ela fala de
suas vivências:
(...) Meu marido sabe melhor do que eu dessa
história do bairro Boa Vista. Antes de vir para cá,
morei no João Eduardo. Em 1984, a gente ficou
sabendo que um candidato, não lembro o nome
dele, estava dividindo lotes para entregar as
famílias que não tinha onde morar; como a gente
morava na casa de um tio dele, eu falei para o meu
marido: homem, dá o nosso nome lá.
Conseguimos esse terreno aqui, vim morar na
metade de 1985, tinha poucas casas, uma mata,
essas ruas era só lama, hoje melhorou muito.
Alguns moradores mais antigos falam até de uma
Fazenda Sobral, que existia aqui antes de ser
bairro. (R.C., entrevistada por Cleunilde Santos).

O período mencionado pela moradora e que se refere à
Fazenda Sobral, faz menção à criação e ampliação das colônias
agrícolas e pequenas fazendas desenvolvidas na década de 1940,
durante o Governo de Guiomard Santos.
Conforme descrito na obra Estudo do Território do Acre
20046, a Fazenda Sobral foi adquirida em 1943 pelo Governo
Territorial, que tinha como objetivo aproveitar a mão-de-obra dos
seringueiros, em sua maioria, vindos dos seringais para a cidade de
Rio Branco, em virtude da falência da atividade da extração do
látex da borracha. Esta fase é representada também, pelo plano de
colonização que se inicia nos municípios do Território do Acre. O
lema era aumentar a produção agrícola viabilizando o seu
funcionamento.
6
Estudo Geográfico do Território do Acre. Brasília, 2004.

52
Habitantes & Habitat

Esse plano teve sua efetiva implementação somente em
1947, época em que essas terras foram compradas pelo Governo
Estadual e divididas em lotes.
Com o passar dos tempos, essas áreas destinadas à
agricultura e pecuária, principalmente em Rio Branco, foram
transformadas em novos bairros que, a partir da década de 1970,
tenderiam a crescer com a vinda de ex-seringueiros em busca de
melhores condições de vida na cidade.
O bairro Boa Vista surgiu nesse contexto. Conforme
depoimento de nossa entrevistada e matéria jornalística noticiada
pelo jornal O Rio Branco, de 19907, sua ocupação com ares
“urbanos” iniciou-se em 1984, com o auxilio do Governo Estadual.
De acordo com o levantamento bibliográfico e
depoimentos, a atual área do bairro Boa Vista esteve interligada por
duas colônias agrícolas: a Fazenda Sobral e Colônia Cunha
Vasconcelos, que se separavam pela atual localização da rua Carlos
Lopes, estando à esquerda da Estrada da Sobral até a Rua da Torre
em direção ao bairro – (Fazenda Sobral); da Rua Carlos Lopes no
sentido Centro da cidade até as proximidades da Escola João Paulo
– (Colônia Cunha Vasconcelos). Ambas as colônias agrícolas
tiveram formas diferenciadas de ocupação.
(....) Meu pai chegou no Acre em 1990 pelo
riozinho do Rola, quando chegou nesta área
depois da Escola João Paulo, onde agora é o inicio
do bairro, ele comprou essas terras do Turco
chamado Assem, tenho documentos desta compra,
olha aqui (...), aqui próximo a Escola João Paulo
até a Rua Carlos Lopes era a Colônia Cunha
Vasconcelos, tinha um pouco acima a Fazenda
Sobral (...) era, era as Rua da Torre até a Rua Lúcia
Assem, e não tinha somente essas colônias, tinhas
outras (...) (Entrevista com C.L, de 72 anos, por
Cleunilde Santos).
Conforme identificado no Estudo Geográfico do Território
do Acre (2004), a Colônia Cunha Vasconcelos foi fundada em 1913
e pensada sem nenhuma orientação técnica. Para lá foram
7
Jornal O Rio Branco, de 25 de abril de 1990.

53
Trajetórias e cotidiano no Boa Vista

encaminhados lavradores, os quais receberam o titulo de colonos.
A floresta espessa foi transformada, anos mais tarde, em uma pobre
área para pastagem. Esse transporte ao passado se faz necessário,
em virtude de apresentarmos as características atuais presentes na
comunidade tanto em relação às vivências de seus moradores como
em relação ao processo de transformação.

Estrada do Colégio Agrícola, à esquerda o bairro Plácido Castro, à direita o bairro Boa Vista. 2007.
Foto: Cleunilde Santos.

O presente bairro é mencionado como um dos menores do
município, sua extensão é de 175.220 m² e situa-se próximo aos
bairros Sobral, Plácido de Castro e Invasão da Sanacre. A origem
do nome Boa Vista, de acordo com alguns moradores, está ligada
ao fato do mesmo estar localizado na parte mais alta da Baixada do
Sol.

(....) Não sei o porquê desse nome, mas eu e algumas
amigas mais antigas, falam do Bairro como uma

54
Habitantes & Habitat

parte alta da cidade, dizem até que a torre da Rádio
Difusora Acreana é aqui por isso. Mas a vista e tão
bonita, o nome deve ter saído daí. (Entrevista com
M.S., de 40 anos, realizada em 15.08.07 por
Cleunilde Silva dos Santos).

A fala da moradora é confirmada pela ampla visibilidade
proporcionada da rua da torre, tanto dos bairros mais próximos,
quanto de partes “centrais” da cidade. Do bairro Boa Vista, avista-
se do outro lado do rio Acre o Segundo Distrito de Rio Branco.
Esses recortes históricos relacionados ao bairro, foram
identificados e vitalizados pela memória dos seus habitantes, que
subsidiados por documentos e registros contribuíram para nos
revelar o contexto no qual a comunidade ocupou a área e construiu
seu cotidiano. Os apontamentos levantados hoje favorecem o
conhecimento que os moradores têm em relação a si e aos outros,
exaltando um sentimento de pertencer ao local.
E são justamente as relações que se estabelecem entre
vizinhos que contribuem para que o seu João da padaria planeje
mais um dia de trabalho, anote no caderno pão e leite, para que
algumas famílias possam efetuar o pagamento de suas contas no
final do mês, demonstrando as relações de amizade e confiança,
prática comprovada na troca de alimentos, favores domésticos,
auxílio na construção de casas ou limpeza de terrenos, como
ocorria no tempo áureo dos seringais. A moradora F.G., de 49 anos,
relata: “O que falta na minha casa eu posso pedir da vizinha, que
pode contar comigo quando não tiver também”.
Muitas práticas estabelecidas no cotidiano da localidade
foram trazidas na bagagem dessa gente, como hábitos e costumes
apreendidos pelos vários lugares em que passaram. É o caso, das
parteiras e dos curandeiros, personagens marcantes no início da
ocupação do bairro. Por um longo período de ausência do poder
público essas pessoas prestavam seus serviços para as
comunidades, conquistando laços de amizades duradouros e, como

55
Trajetórias e cotidiano no Boa Vista

conseqüência de tal prestígio, eram considerados como membros
das famílias às quais atendiam.
Foram essas e outras adequações de costumes e
improvisações a um novo local que os moradores do Boa Vista
tiveram que cultivar para conduzirem suas vidas, mantendo antigas
práticas, visíveis no trato com os animais criados no quintal, ou na
preparação dos almoços realizados por mulheres nos finais de
semana para confraternização de familiares e amigos, e porque
não, na lida com o canteiro, na utilização da melhor terra, da melhor
semente, indispensável para o cultivo de verduras.
Se esses fatores demonstram saberes e fazeres da
localidade, a diversão é outro aspecto trabalhado nas narrativas dos
moradores, já que a própria temática lembra alegria, risos, igrejas,
hinos e músicas. A relação desses componentes vislumbra espaços
determinados, um dos apontados é a Praça Governador Joaquim
Macedo, inaugurada em 26 de outubro de 2006, localizada no
bairro Plácido de Castro. E ainda, a utilização do complexo Poli
Esportivo denominado SEJA e o Ginásio Coberto Álvaro Dantas,
localizados no bairro Aeroporto Velho. Mas estes não são os únicos
lugares de lazer da localidade, já que um jogo de dominó em frente
as suas casas, o encontro de vizinhas regadas a um bom papo ou a
participação em aniversários foram traduzidos como expressões de
divertimento da comunidade.
Se os dados trabalhados até o presente momento,
apresentam a diversão da comunidade, outra característica
almejada na pesquisa foi perceber a religiosidade dos moradores,
representada, principalmente, nas Igrejas Protestantes, Católicas e
Espíritas.
Segundo pesquisa realizada na localidade, cerca de um
terço dos moradores professa a fé católica e quase um terço
professa ser evangélico. Notamos a tendência de crescimento desse
último percentual, uma vez que nos últimos anos, aumentou
consideravelmente o número de Igrejas Protestantes. Ainda
constitui como parte da religiosidade o Centro Ordem Maçônica
Rosa Luz – Centro Espírita União do Vegetal, construído em 1980,

56
Habitantes & Habitat

sendo a primeira instituição religiosa a se consolidar no bairro, já
que as chamadas “rezas populares” faziam-se presentes desde a
origem do local.
Assim, essas particularidades foram possíveis de serem
descritas mediante aplicação de questionários e entrevistas, que
permitiram também estabelecer o perfil de origem das pessoas ali
residentes. Mais da metade veio de outros municípios,
principalmente de Tarauacá, Sena Madureira e Cruzeiro do Sul,
outros vieram de bairros próximos.
Atualmente, um terço dos moradores tem idades que
variam de 25 a 40 anos, a maioria absoluta encontram-se casados. A
partir deste pequeno demonstrativo, obtemos dados que indicam
que cerca da metade das famílias são compostas de 06 ou mais
pessoas, destas também fazem parte os netos, já que na grande
maioria são criados e educados pelos avós.
Uma das perguntas direcionadas aos moradores, refere-se à
avaliação de suas vidas antes de fixarem residência no local. A
maioria absoluta afirmou que tinha uma vida tranqüila, mas o
desejo da casa própria sempre os motivou a buscar um lugar
permanente, a casa digna de sossego no sentido de proteção e
abrigo, com uma boa vizinhança, infra-estrutura e, principalmente,
tranqüilidade. Esses anseios sempre os impulsionaram a ir mais
além, sobretudo, quando esse desejo estava ligado ao fato de
deixarem de pagar aluguel.
Assim sendo, o bairro foi ganhando forma, os primeiros
moradores foram delimitando seus espaços e o processo de
ocupação foi ganhando vida, ocorrendo de forma mais intensa ente
os anos de 1984 a 1990, quando sua população aumentou em
16,60%. Cabia aos sonhos e anseios dessa gente primar por
melhores condições de vida, já que nas muitas andanças, essa
melhoria se interliga com o desejo de morar próximo a parentes e
amigos. Esse motivo é descrito nos questionários pela maioria dos
moradores que veio para o bairro em companhia da família, como
principal impulsionador da mobilidade das pessoas na demarcação
de suas moradias. Eles queriam, justamente, ousar em busca de
novas oportunidades.

57
Trajetórias e cotidiano no Boa Vista

Nesta busca, o desempenho de grupos religiosos, enquanto
representações de bairro, exerceu um papel importantíssimo para a
união de pessoas participantes de determinadas igrejas,
propiciando encontros para decisões comunitárias, voltados,
principalmente, para a resolução de problemas ligados à falta de
infra-estrutura.
Na luta por melhores condições, a comunidade
desenvolveu certas adaptações ao novo local, a realidade do bairro
se mostrou inconstante, instigando soluções diante das
dificuldades apresentadas. Aqui se destaca a via de acesso
conhecida como o “trapiche” da rua Carlos Alberto Lopes; a
mesma foi feita através de mutirão8, e se estende por mais de 100
metros até o acesso principal da Estrada do Colégio Agrícola.

Trapiche da rua Carlos Alberto Lopes – 2007. Foto: Cleunilde Santos
8
Expressão típica de moradores da região amazônica que traduz uma forma de organização de trabalho coletivo.

58
Habitantes & Habitat

Tal implantação se deu porque a rua ocupa uma área
constituída de córregos, não favorecendo ao poder público sua
pavimentação. Entretanto, a comunidade optou por essa alternativa
de locomoção, já que era primordial o acesso para a participação
em Igrejas, desenvolver práticas esportivas e, principalmente, irem
ao trabalho. O morador E.D., de 27 anos, nos relatou que esta forma
de “caminho”, já dura 05 anos e realça que a dificuldade de asfaltar
a rua, está relacionada à falta da rede de esgoto.
Se esse é um dos problemas mencionados por parte dos
moradores da rua Carlos Lopes, as entrevistas nos possibilitaram
conhecer as principais dificuldades e também as qualidades
existentes no local. O abastecimento de água foi apontado como
algo positivo, já que o bairro comporta em sua área a Estação de
Tratamento de Água – ETA Sobral, conhecida no inicio como
Sanacre. Segundo depoimentos dos moradores, a prática de
repentinas e longas caminhadas com baldes e bacias ao encontro do
líquido precioso, era tarefa obrigatória. A antiga Estação de
Tratamento – Sanacre, funcionava com a chamada “torneira
comunitária”, com o passar dos tempos se implementou no bairro a
Estação de Tratamento, a qual conhecemos hoje.
Atualmente todas as famílias têm água encanada em suas
casas, mesmo porque a encanação até as residências, na maioria
das vezes, fica a cargo dos próprios moradores.
Varias foram as formas e estratégias de vivências
desenvolvidas diante dos obstáculos, uma das principais citadas
pela maioria dos entrevistados se traduziu na palavra “trabalho”.
Na cidade, as alternativas para os chefes e as chefes de
família, com a adequação aos chamados serviços “urbanos”,
careciam de uma melhor formação. Os dados coletados na pesquisa
revelam que o indicativo de escolaridade em relação aos moradores
se apresenta da seguinte forma: um terço concluiu o Ensino Médio,
outro terço é composto por pessoas não alfabetizadas e 16% têm
apenas o primário incompleto, equivalente ao atual primeiro e

59
Trajetórias e cotidiano no Boa Vista

segundo ciclos do Ensino Fundamental. ficando os nossos
entrevistados a desenvolver funções como autônomos, biscates,
ambulantes, carpinteiros, pedreiros, vendedores, domésticas, do
lar, dentre outras profissões.
Apesar do alto índice de analfabetismo e a baixa
escolaridade, essas famílias são conscientes da importância da
educação para melhoria na qualidade de vida, incentivando seus
filhos para que não passem pelas mesmas dificuldades que viveram
no passado e ainda vivem pela falta de formação.
Atualmente o bairro não dispõe de nenhuma escola. O
estabelecimento de ensino mais próximo é a escola Ramona Mula
de Castro, situada no bairro Invasão da Sanacre e inaugurada em
1990. Não existem escolas de Ensino Médio nas proximidades, a
mais próxima é a Escola José Ribamar Batista – EJORB –, que fica
no bairro Aeroporto Velho.
O baixo índice de formação escolar acaba revelando as
funções exercidas por seus moradores. Esse é um bairro formado,
principalmente, por famílias de baixa renda, que são carentes de
serviços públicos, tais como: agências de correios, delegacias,
bancos e comércios que atendam satisfatoriamente à comunidade.
Mesmo com as dificuldades apontadas, a casa, objeto de
apego e concretização de sonhos, foi algo conquistado por essas
famílias. Neste sentido, vale ressaltar que a maioria absoluta dos
moradores têm casa própria.
As residências do bairro mesclam arquiteturas diversas,
casas construídas em madeira, em contraposição às casas de
alvenaria que inovam o ambiente. Essas casas oferecem condições
regulares e precárias de conservação, em sua grande maioria, com
terrenos de podologia íngreme e relevo acidentado, com áreas
alagadiças e áreas de sedimentos consolidados.
Várias conquistas se deram ao longo desses 23 anos de
história da comunidade, as transformações advindas com as
melhorias implementadas no bairro trouxeram luz elétrica,

60
Habitantes & Habitat

telefones públicos, transporte coletivo e pavimentação de suas
ruas. As vias mantêm, apesar do passar do tempo, a preservação de
traços históricos referentes, principalmente, às suas nomeações.
O bairro iniciou-se com apenas três ruas, rua do Operário,
rua Nabor Júnior e Coronel Gualter. Hoje, é constituído por cerca
de 16 ruas, algumas delas destacam-se pelo fato da relação entre
seus nomes e antigas famílias proprietárias; são exemplos, a rua
Lúcia Assem, nome da primeira proprietária de terras da Colônia
Cunha Vasconcelos, a rua Carlos Alberto Lopes, João Amâncio e
Travessa Dorela Vasques, todos familiares do segundo
proprietário.
Outras ruas têm origem em nomes de personalidades
políticas ou de outro fato acontecido na comunidade, caso, da rua
Nabor Júnior (Governador da época), rua Coronel Gualter,
homenageado por ter contribuído na desapropriação e ocupação da
antiga área pertencente à Fazenda Sobral, e ainda a Rua da Torre,
homenagem a primeira estrutura montada responsável pela
transmissão dos programas da Rádio Difusora Acreana.
E foram estas e várias outras informações, que nos
permitiram conhecer partes da história do local, suas
transformações e particularidades subsidiaram a elaboração desse
ensaio. Através da voz dos moradores do Boa Vista e dos relatos do
seu cotidiano, esperamos contribuir para ampliar o conhecimento
da população de Rio Branco sobre a constituição do bairro e das
trajetórias de suas gentes.

61
Habitantes & Habitat

ALINHAVANDO HISTÓRIAS NO
BAIRRO FLORESTA SUL
Lelcia Maria Monteiro de Almeida
De um lado e outro Casas
De um lado e outro Gentes
Ao meio via Via Verde
Um lugar ao todo Lugar-Bairro
Bairro cheio Cheio de gentes
Gentes cheias de histórias
Histórias a contar
De seus habitantes
De seu habitat
(Lelcia Almeida - Migrante e filha de migrantes cruzeirenses)

A linhavar histórias, costurar o tecido das informações para
que não sejam esquecidas, é nosso objetivo neste ensaio.
Não pretendemos costurar uma história qualquer, ocorrida
em qualquer lugar; mas a história do Floresta Sul, um bairro da
63
Alinhavando histórias no bairro Floresta Sul

cidade de Rio Branco, com seus lugares e com os sujeitos que os
habitam.
A escolha da expressão “alinhavando histórias” para o
título deste ensaio ocorreu por concebermos que os fatos e
acontecimentos aqui apresentados não constituem um resgate
histórico do bairro, pois acreditamos que isso não é possível, uma
vez que, nenhum lugar está sujeito a ser caracterizado ou
conhecido a partir de uma única versão histórica. O que nos
propomos aqui é realizar uma leitura sobre os fatos e
acontecimentos que traduzem segundo os múltiplos sujeitos
moradores do lugar as muitas histórias que lhes constituem,
conhecendo, através dessas histórias, seus hábitos, valores,
comportamentos e as distintas maneiras de viver, de se identificar e
de se relacionar com a cidade, com o bairro e uns com os outros.
Quando nascemos, moramos ou adotamos uma cidade para
viver, projetamos nela uma história, construímos referências onde
mantemos nossa identidade. Essa identidade é construída ao longo
do tempo na relação do homem com o lugar. Uma relação que não
deve ser esquecida, pois uma cidade que não tem memória é uma
cidade sem alma.
Assim como as cidades, são os bairros; cada um possui
trajetórias históricas próprias e particularizadas, que precisam ser
identificadas. Definitivamente, essa não é uma tarefa fácil se
consideramos as dificuldades de identificarmos os fatos e
acontecimentos que compõem a história e a “alma” de um bairro.
Na Amazônia, e especialmente no Acre, há um ditado
popular que diz: Não fale do que você não conhece. Nesse sentido,
a maneira encontrada para tornar “conhecível” a história desse
lugar e de seus moradores foi caminharmos pela comunidade.
Caminhando e perguntado, foi a forma que nos permitiu traçar
contatos, ouvir, ver coisas e gentes diferentes. As muitas gentes
com quem conversamos contribuíram para que percebêssemos que
a reconstrução da história de um lugar ou de uma comunidade
implica partir do principio que a história está presente em todos os
64
Habitantes & Habitat

momentos das experiências vividas no dia-a-dia por seus
habitantes.
Para compreendermos a “alma” de uma comunidade é
necessário que estejamos conscientes de que ela nasce no cotidiano
das vidas de seus moradores, na atividade em que trabalham, na
família, na escola, na vizinhança e na rua onde residem, estando
presente nos seus hábitos, costumes e nas relações que as pessoas
mantêm entre si ao longo dos anos.
Então, para conhecermos e entendermos a história desse
bairro foi preciso prestar muita atenção, pois os seus lugares
estavam repletos de histórias que escapavam aos nossos olhos e
conhecimento. E se faltavam a nós documentos escritos suficientes
que nos permitissem conhecer melhor o lugar, necessário se fez que
alguém nos contasse algumas das muitas histórias que percutem na
comunidade.
Nesse chão de antigos roçados, precisávamos colher o
“fruto” que nos fornecesse mais informações e nos possibilitasse
saber mais sobre esse lugar conhecido por Floresta Sul. Durante a
busca, identificamos alguns moradores para realizarmos
entrevistas. A cada um dos entrevistados nos apresentávamos,
dizíamos quem éramos e o que desejávamos. Alguns nos
convidavam a entrar em suas casas, outros, nos atendiam em seus
quintais embaixo da sombra de uma árvore há muito plantada.
Realizamos uma, duas, três, quatro (...) mais de vinte
entrevistas e com elas alguns dados para iniciarmos nosso trabalho.
No entanto, ainda nos faltava encontrar a “fruta”, ou melhor, a
“linha” certa para costurar essa história.
Há tempo para todas as coisas, já disse o sábio Salomão.
Na última casa em que tínhamos estabelecido que encerraríamos a
pesquisa, conhecemos uma pessoa que a gente vê, olha e se
interessa por enxergá-la e senti-la. Gente humilde. Seu nome?
Maria Helena da Silva, 70 anos de idade, nascida no dia 25 de maio
de 1937, ali mesmo, no bairro onde reside. Filha de José Bonifácio

65
Alinhavando histórias no bairro Floresta Sul

da Silva, um cearense que veio em 1920 para o então Território do
Acre, não para trabalhar na extração do látex, como a grande
maioria dos cearenses e nordestinos que para cá vieram, mas na
agricultura; ali, onde seus descendentes ainda vivem.
Após os primeiros dados fornecidos, sabíamos que
tínhamos encontrado um norte para, quem sabe, entendermos a
origem do bairro Floresta Sul. Havíamos encontrado nosso “fruto”
de informações, e a “linha” para costurar essa história seria a
memória dessa senhora nascida há 70 anos.
Descendente de nordestino - como a maioria dos acreanos -
tem na sua estrutura física a marca de sua identidade étnica. Negra
de descendência e na pele. Sua estrutura mediana deixa-nos
transparecer uma vitalidade, demonstrando ser uma mulher de
força, coragem e determinação. Tem ainda, cabelos brancos
“afros”9 reafirmando sua negritude, e sorriso aberto, traduzindo a
sabedoria de tempos vividos e dificuldades superadas. Essas são
algumas das características dessa senhora, que com gestos suaves
convidou-nos a entrar em sua casa, o que foi aceito de imediato.
Humildemente, pediu desculpas pela “desorganização” da casa,
mostrando-se modesta, já que, em nosso julgamento, tudo estava
completamente em ordem. Na sala ampla, poucos móveis e em um
deles, uma televisão antiga da marca National, colorida, e também
uma Bíblia afirmando sua fé. Nas paredes, muitos quadros dos
familiares e dos Santos aos quais é devota

9
Dizem-se cabelos afros aqueles que se assemelham aos dos negros africanos. No Brasil é conhecido popularmente
e/ou vulgarmente como cabelos “ruins”, “enrolados” e ainda “pichains”.

66
Habitantes & Habitat

Dona Helena em sua cadeira de balanço. Foto: Reginâmio B. Lima.

67
Alinhavando histórias no bairro Floresta Sul

Acomodando-se em uma cadeira de balanço, pediu para
que fizéssemos o mesmo. Olhou-nos, e quase inocentemente
perguntou: “Mas o que é que vocês querem saber mesmo?”.
“Gostaríamos que a senhora nos contasse como ocorreu o
surgimento desse bairro, como foi sua vida nesse lugar, do que tem
saudade do passado, as mudanças e conquistas que ocorreram no
bairro e que necessidades a comunidade ainda possui”.
Como quem sabe o tamanho da “encrenca” das perguntas
feitas, abriu um leve sorriso, respirou fundo como quem consome
energia para uma longa viagem. Parou, fechou os olhos e os abriu
começando a lembrar, tornando a memória um “túnel do tempo”,
onde suas reflexões nos remetem a vislumbrar a realidade das
coisas. Margeada pelo sentimento das lembranças começou a
descrever emoções e confessar saudades:

Olha, no passado o lugar era diferente. Era uma colônia
do governo. Era a Colônia Gabino Besouro. Não era
como hoje. Tinha poucas famílias. O governo dividiu
os lotes e cada colono cultivava sua roça, criava seus
bichinhos. (...). Naquele tempo, era outro tempo.
Naquele tempo a gente se amava, era muito tranqüilo.
Todo mundo se conhecia, não tinha essa violência nem
o medo de hoje.

A memória de Dona Helena acabou por nos levar para um
tempo e para um lugar que surgiu 29 anos antes que ela nascesse.
A colônia citada no depoimento foi fundada em 190810,
quando Gabino Besouro era prefeito departamental, originando daí
o nome da colônia. Essa foi a primeira colônia implantada com o
objetivo de iniciar uma colonização organizada pelo poder público
no Território do Acre. Para esse local, foram encaminhados
lavradores que receberam o título de colonos.
Inicialmente, a fundação dessa colônia tinha como objetivo
o desenvolvimento da agricultura. No entanto, ainda em 1915, sete
10
Estudo Geográfico do Território do Acre. Brasília: Editora do Senado Federal, 2004.

68
Habitantes & Habitat

anos após sua criação, a pecuária despontava como uma das
principais atividades. Fato concretizado em 1951, época em que a
colônia tinha uma população estimada em 160 pessoas: 77 homens,
sendo 52 maiores de 12 anos de idade e 25 menores; e 83 mulheres,
sendo 50 maiores de 12 anos e 33 menores. Nesse período, a
colônia já tinha 43 anos de existência e a maioria dos lotes agrícolas
já haviam se transformado em pequenas fazendas.
Como aponta a lembrança de Dona Helena, esse tempo, era
outro tempo. Na sua fala era o tempo da tranqüilidade, onde todo
mundo se conhecia e ninguém corria o risco de ser atacado ou
agredido. Era o tempo de sua infância e das brincadeiras, da
mocidade e das festas.
No tempo de agora, seus olhos esbarram nas lembranças de
outrora, e lembra-se que “a maior dificuldade que se vivia no
passado era o transporte. Era uma aventura ter que ir à cidade
enfrentando o caminho e a lama para comprar o que a colônia não
produzia”. Mas, essa é uma história de antigamente, como bem diz
Dona Helena. Uma história da origem do lugar. A nós, a cada
instante, é preciso seguir, afinal, precisamos saber como surgiu o
bairro Floresta Sul.
Pelos depoimentos da maioria dos entrevistados, e,
segundo o jornal O Rio Branco (1990), o bairro surgiu na primeira
metade da década de 1980, fruto de tensões e disputas de interesses
diversificados. Essa era uma época em que o movimento social de
caráter comunitário singularizava-se por ser um forte movimento
de reivindicação, e que tinha sua representação pautada na criação
de inúmeras associações de moradores. Essas associações serviam
para reivindicar os benefícios dos quais as comunidades
necessitavam, mas também, como estratégias de interesses
políticos partidários.
Como um bairro não é um lugar homogêneo – onde vivem
indivíduos, homens e mulheres compartilhando dos mesmos
ideais, interesses e experiências – ali também não poderia ser. Os
confrontos de interesses e idéias ocorridos nessa época

69
Alinhavando histórias no bairro Floresta Sul

desenharam outros rumos para a história do lugar e de seus
moradores, dando origem à criação de um novo mapa da área e com
ele o surgimento de um novo bairro na cidade de Rio Branco.

Escola Clínio Brandão em 1948. Foto: Irisan.

Atualmente, o bairro Floresta Sul conta com uma área de
984.191m², segundo dados do Setor de Georeferenciamento da
Prefeitura de Rio Branco.
De acordo com depoimentos dos entrevistados e matérias
de jornais11, o Floresta Sul é uma área que foi desmembrada do
bairro Floresta, com base na alegação de que o bairro era muito
grande e os recursos destinados às associações de moradores
também eram muito pequenos para que se pudesse fazer alguma
coisa. A partir dessa argumentação, ocorreu a divisão de uma área
de mais de 4 mil metros quadrados em dois bairros, Floresta Norte e
Floresta Sul, para atender os desejos das duas principais facções
políticas existentes no local: o Partido de Mobilização
Democrático Brasileiro (PMDB) e o Partido dos Trabalhadores
11
Periódico O Rio Branco, 08 de dezembro de 1978; 20 de março de 1990; e 17 de outubro de 1990.

70
Habitantes & Habitat

(PT). O pretexto era que só através da divisão seria possível que o
“progresso” chegasse ao mesmo tempo no bairro inteiro. Interesses
políticos surgiram acima dos interesses do bairro e a diretoria foi
dividida, com a criação de outra associação com mandato paralelo.
Se outrora o bairro era a expressão da tranqüilidade, a partir
de então, se tornou um espaço de disputa de poder, e como toda
cidade quer o novo, nesta época, a busca pelo “progresso” virou
uma “bandeira de luta”, defendida não só por uma, mas pelas duas
facções políticas existentes e rivais.
Entre conflitos e intrigas, o “progresso” foi chegando aos
poucos, e assim, o caminho virou rua Rio de Janeiro, que ficou
conhecida como Estrada da Floresta, sendo, posteriormente,
transformada em Via Verde. Mas essa mudança levou alguns anos e
só se concretizou após algumas gestões de governos e de
presidentes da associação.
A chegada do “progresso” trouxe consigo profundas
mudanças nas maneiras dos moradores verem e viverem o seu
cotidiano. Os caminhos de passagem, os antigos espaços típicos de
lazer, das trocas de experiências e idéias entre os moradores após o
trabalho e nos fins de semana, e onde se promoviam festas,
brincadeiras e outras formas de distração, perderam em boa parte a
função de gerar e manter a identidade da vizinhança. Com as
transformações ocorridas no lugar perdeu-se muito de suas
características como ponto de encontros freqüentes e gratuitos,
deixando para trás antigos usos que davam à vida dos moradores
criatividade e solidariedade.
A rua foi asfaltada, virou via de passagem para veículos de
grande porte, e com eles a chegada de intenso movimento e
barulho. Nem todos os moradores se acostumaram a essa nova
realidade. Os mais antigos destacam que não gostam muito das
mudanças, e apontam que, se por um lado a estrada tornou-se um
ponto de redução de distâncias, por outro, trouxe consigo o
aumento da violência.

71
Alinhavando histórias no bairro Floresta Sul

Os fatos descritos acima contribuíram para que muitos dos
antigos moradores se mudassem do local em busca da
tranqüilidade perdida.
O “progresso”, que chegou à rua principal em conseqüência
da construção da Terceira Ponte, via de acesso do Primeiro ao
Segundo Distrito com o objetivo de diminuir o trânsito de veículos
de grande porte no centro da cidade, não se fez presente nas demais
ruas do bairro, que em sua grande maioria mais lembram um misto
de “campo-cidade”, constituídas de ruas sem pavimentação com
aparência de pequenos “ramais”, dando um aspecto “pacato” que
parece ter sobrevivido ao longo dos tempos da antiga colônia que
ali existiu.
Antigas e novas características se somam e contribuem
para que conheçamos outros aspectos que fazem parte da(s)
história(s) do bairro. Aspectos que nos permitem conhecer
questões referentes à origem dos moradores, trabalho, habitação e
serviços públicos existentes.
Em relação à origem, a maioria dos atuais moradores veio
do município de Tarauacá e outros nasceram no próprio município
de Rio Branco. Os taraucaenses vieram, principalmente, no
período da crise dos seringais, no final da década de 1970 e início
de 1980, na esperança de vir para a Capital e terem melhores
condições de vida, condições que estavam expressas na conquista
de trabalho, saúde e educação para os filhos. Já os riobranquenses
se mudaram para o local por dois motivos principais: ficarem
próximos a parentes que vivem no bairro ou em bairros próximos,
ou ainda para saírem do aluguel.
No que diz respeito à ocupação dos moradores, quase
metade tem trabalho fixo; pouco menos de um terço são
biscateiros; 17,64% são aposentados e 5,88% não têm trabalho
remunerado.
Os dados referentes à questão do trabalho contribuem para
entendermos também os aspectos referentes à questão da
habitação. Dos atuais moradores, quase totalidade possuem casa
72
Habitantes & Habitat

própria, sendo que a predominância é de casas de estrutura mista,
construídas em madeira e alvenaria, e que apresentam um estado de
boa conservação, seguidas de casas com estrutura em alvenaria, e
por último, ou em menor quantidade, casas totalmente construídas
em madeiras.
Uma observação interessante referente à questão das
habitações construídas totalmente em madeira é que elas são, em
sua grande maioria, pertencentes aos moradores mais antigos do
bairro, e que estes constituem também o grupo de pessoas mais
idosas da comunidade. É como se a estrutura da casa fosse uma
forma de manter uma união entre as novas conquistas e antigos
valores. Valores culturais que são praticados e percebidos, por
exemplo, nos quintais repletos de árvores, flores e canteiros com
seus coentros, cebolas, tomates, couves, pimenta de cheiro e
pimentas ardosas para molho (malagueta, peito-de-moça, olho-de-
peixe), e outros sabores e cheiros herdados de tempos passados e
locais não esquecidos.
O bairro não conta com rede de esgoto, nem serviços de
saúde, o que acaba por provocar revolta em muitos moradores. Os
serviços públicos existentes são caracterizados pela presença de
rede de água e de energia elétrica que chegam a quase todas as
residências.
Um aspecto importante dentro da comunidade é o referente
à educação. O bairro possui uma das escolas mais antigas da cidade
de Rio Branco.
Essa escola foi inaugurada no dia 02 de junho de 194712,
quando José Guiomard Santos era governador do então Território
do Acre. Nesse período, Guiomard Santos tinha como um dos
objetivos para o desenvolvimento do Território a valorização de
antigas colônias e a instalação de novas. Essa foi a primeira escola
rural edificada em alvenaria. Foi construída para que os filhos dos
colonos pudessem ter acesso à educação, o que contribuía para a
fixação dos pais na área garantindo a permanência de mão-de-obra
no lugar.
12
Departamento de Geografia e Estatística – Efemérides Acreanas 1857/1969.

73
Alinhavando histórias no bairro Floresta Sul

Recebeu o nome de Clínio Tavares Brandão em homenagem ao
gaúcho da cidade de Pelotas do Estado do Rio Grande do Sul,
que veio ao Acre juntar-se à causa “revolucionária” acreana.

Vista da Via Verde. 2007. Foto: Lelcia Monteiro de Almeida.

No ano de 2004, a escola passou por uma reforma, sendo
ampliada com toda a infra-estrutura necessária para atender à
comunidade escolar, que hoje conta com aproximadamente 560
crianças e adolescentes em uma faixa etária de seis a dezoito anos,
de 1ª a 8ª série do Ensino Fundamental, e também o Projeto
Poronga. A gestão escolar dá-se de forma participativa, onde as
idéias são compartilhadas entre alunos, professores e pais e as
decisões são coletivas e democráticas.
Em reconhecimento à importância histórica e social da
instituição, na perspectiva do Projeto Político Pedagógico
implantado e desenvolvido, a escola recebeu da Assembléia

74
Habitantes & Habitat

Legislativa Moção de Aplauso13 à equipe gestora pela homenagem
realizada no dia 13 de junho de 2007, junto aos moradores do
bairro, pela passagem dos 60 anos de serviços educacionais
prestados à comunidade escolar.
É de acreditarmos que a ausência da violência no passado
apontada por Dona Helena e outros entrevistados, tenha profundas
ligações não só com o fato de que quase todos se conheciam, já que
trabalhavam, viviam e conviviam na comunidade, mas também,
pela presença da escola contribuindo para a formação da cidadania
e na preservação de valores da comunidade escolar e dos
moradores do bairro.
Assim como antes, o bairro não dispõe de Unidade de
Segurança, mas hoje, segundo os próprios moradores, a realidade
sobre a tranqüilidade e a violência já não é mais a mesma. A

Escola Clínio Brandão – 2007. Foto: Lelcia Monteiro de Almeida

13
Moção de Aplauso n. 12/2007 – Autoria de Deputada Naluh Gouveia.

75
Alinhavando histórias no bairro Floresta Sul

abertura dos loteamentos e o conseqüente crescimento do bairro
alteraram a rotina daqueles que se conheciam desde a infância e
que passando a conviver com “estranhos” dizem-se temerosos,
requerendo do poder público policiamento, expressando a
necessidade de segurança.
Mesmo com os receios em relação à falta de segurança
apontada, os moradores buscam encontrar caminhos que lhes
garantam viver o cotidiano, principalmente, em relação ao lazer. O
lazer dos moradores do bairro consiste basicamente, para os
idosos, nas visitas a casas de parentes, vizinhos e a ida às Igrejas.
Para os mais jovens, rodas de conversas na rua, em casas de
amigos, jogo de bola e banhos que existem em bairros próximos.
Os benefícios que ainda faltam na comunidade são os
motivadores dos sonhos de seus moradores. São as conquistas
alcançadas e as ainda almejadas, que nos permitem dizer que o
bairro é muito mais que o conjunto de suas ruas, é também, suas
casas, famílias, sonhos distantes e os desejos imediatos de seus
habitantes.
A maioria dos idosos reconhece que muitas de suas lutas e
necessidades foram vencidas. Hoje a comunidade conta com
serviços de água, luz e abertura de ruas, benefícios que foram
conquistados com muitas dificuldades, mas também, destaca que
ainda faltam “coisas” a serem conquistadas, como saúde,
segurança, pavimentação das ruas, lazer para os jovens e mesmo
para os idosos.
A quem desejar viver o mistério do bairro Floresta Sul,
basta entregar-se, sem julgamento, a suas ruas e seus sentidos,
conhecer seus personagens e histórias, de agora e de antigamente, e
assim, viver o bairro na plenitude de seus caminhos.
O mistério do bairro é o mistério da vida, e assim como a
vida, a sua imagem é a do passado, presente e do futuro. O bairro
Floresta Sul, assim como os demais bairros da cidade de Rio
Branco, tem muitas historias a contar e muitas necessidades a

76
Habitantes & Habitat

serem supridas, e sua “alma” está nos seus afazeres domésticos
cotidianos, expressos na criação dos filhos e netos, nos momentos
de festas, de perdas, de fé.
E por falar em futuro, consideramos que memória não é
coisa somente do passado, mas também do futuro, por isso, no
decorrer da leitura aqui realizada sobre o bairro Floresta Sul, suas
gentes e suas histórias, buscamos melhor conhecer e dar a conhecer
os saberes e os fazeres de pessoas comuns para que suas histórias
não sejam esquecidas.

77
Habitantes & Habitat

INVASÃO DA SANACRE
Águas, Vidas e Vivências
Leila Gonçalves da Costa
Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio

“ gua que nasce na fonte serena do mundo, e que abre o

Á profundo grotão... águas que banham aldeias e matam a sede
da população”. Como diz a música de Guilherme Arantes, a
água é um dos mais importantes minerais utilizados pelo homem.
Sua preciosidade não é mensurável em valores exorbitantes como
o ouro, a prata, o diamante, ou outros minerais valiosos. O valor da
água está no fato de ser essencial ao homem; sem ela, não há vida.
Refletir sobre o valor e a preciosidade da água é nosso ponto de
partida para podermos pensar as vivências e convivências no bairro
denominado Invasão da Sanacre.
Como o próprio nome informa, a formação da ocupação
que originou o bairro está intimamente ligada à questão água, mais

79
Invasão da SANACRE

especificamente, à distribuição desse líquido tão importante às
casas de milhares de riobranquenses. A criação da Estação de
Tratamento da antiga Companhia de Saneamento do Acre –
SANACRE – foi o motivo que gerou a ocupação das terras em que
o bairro surgiu. O bairro Invasão da Sanacre corresponde à área
cuja formação originou-se da ocupação das terras próximas à
Estação de Tratamento de Água da antiga Fazenda Sobral. Limita-
se ao norte com os bairros Plácido de Castro e Boa Vista, a oeste
com o Floresta Sul, a leste com o Sobral e ao sul com o rio Acre.
O nome Invasão da Sanacre, a princípio, parece incoerente
para se designar um bairro. O processo natural pelo qual passaram
quase todos os bairros existentes em Rio Branco, em sua formação,
foi a transformação das chamadas “invasões” em bairros, após a
urbanização destas. No caso do Invasão da Sanacre não foi assim,
mesmo contando com as vias principais asfaltadas e até mesmo
uma escola, os moradores do local ainda não podem dizer que
moram de fato em um bairro, mas em uma “invasão”.
O problema, nesse caso, não é a nomenclatura, mas o
sentido pejorativo que a palavra “invasão” representa. O “invasor”
é aquele que usurpa o que é alheio, agindo em âmbitos que não lhe
pertencem, e reivindica para si a posse de algo pertencente a outro.
A extensão habitada do bairro é de pouco mais de dois
hectares, embora sua área total seja de 489.353 m². Além de a área
habitada ser muito pequena, encontramos, durante a pesquisa feita
na localidade, apenas 37 domicílios. Seria mais coerente
considerar o Invasão da Sanacre como uma expansão do bairro
Sobral, já que o mesmo não apresenta nem espaço suficiente nem
características que possam configurar-lhe como um bairro. Ao
denominar a localidade de uma “invasão”, temos outro problema:
como um bairro devidamente registrado no Setor de Cadastro
Imobiliário da cidade pode ter o nome de “invasão”? Mais que isso,
como se sentem as pessoas que ali residem quando têm que dizer
que, após tanto tempo, ainda moram em uma invasão?
A história do Invasão da Sanacre confunde-se com a
própria história do bairro Sobral. Isso ocorre em virtude da

80
Habitantes & Habitat

ocupação de terras adjacentes à Estação de Tratamento da Sanacre
ter também se mesclado com a ocupação das terras da antiga Fazenda
Sobral. Assim, durante muito tempo, as poucas casas existentes entre
os dois locais eram as únicas habitações erguidas. A Fazenda Sobral
situava-se na área de terra que está contida entre a rua Francisco José
de Oliveira, que segue até a Estação de Tratamento de Água de Rio
Branco e adjacências, até o encontro da Estrada da Sobral.
Segundo Lopes (2007), as terras da Fazenda Sobral
pertenciam ao casal Pedro e Juricaba, que venderam sua propriedade
para o Território Federal do Acre, no Governo de Guiomard Santos.
A sede da Fazenda Sobral era uma casa, ainda da época dos antigos
moradores. Na fazenda era desenvolvida a pecuária, inclusive com a
criação de cavalos de raça, tendo até veterinário para fazer o
acompanhamento dos animais. Também era o local onde a “alta
sociedade, as equipes de governo se reuniam para comemorar,
descansar, festejar. Lá eles bebiam, tomavam banho, matavam bois e
faziam churrasco”.
Possivelmente um dos poucos moradores que viram não
apenas o Invasão da Sanacre surgir, mas toda a área denominada
Baixada da Sobral, e que ainda permanecem morando no local é o
senhor L.V.C.. Em entrevista a Reginâmio Bonifácio de Lima, ele
relata que chegou à área que hoje constitui o bairro Sobral, ainda em
1960. Em seu relato, ela fala de suas vivências e do processo de
mudanças que a área sofreu ao longo dos tempos:

(...) Na fazenda Sobral, passei muitos domingos
lá. (...) As famílias sentavam ali, ficavam
admirando alguma beleza do rio, né? (...) Então, a
Fazenda Sobral tinha, assim, mesmo em frente à
beira do rio, umas casinhas redondas, cobertas de
telha de barro. (...) As pessoas sentavam ali e
ficavam admirando a beleza do rio. Tinha muito
gado, era muito divertido dia de domingo. A
população da cidade vinha toda praí... tinha
acesso, né? Os banhistas... Tinha a Praia do
Amapá e tinha a praia também da Fazenda Sobral.
(L. V. C., 58 anos, entrevistado por Reginâmio
Lima).

81
Invasão da SANACRE

Como se percebe pelo relato acima, o rio é elemento
marcante na vida dos antigos moradores. A Fazenda Sobral era
local de divertimento da sociedade acreana do antigo Território
Federal.

Sede da Fazenda Sobral – 1953: Propriedade do Governo do Território Federal do Acre. Fonte: Acervo Digital IBGE

Anos depois, nessa área, através da Lei n. 454, de 1.º de
outubro de 1971, foi autorizada a constituição da Companhia de
Saneamento do Estado do Acre S/A – SANACRE, tendo por
finalidade realizar estudos, projetos, construção, operação e
exploração dos serviços públicos de abastecimento de água potável
e de esgotos sanitários.
De acordo com o Sr. Oscar Pereira dos Reis, um dos
engenheiros da obra da Companhia, a urbanização do bairro Sobral
se deu em decorrência do caminho aberto para a adutora. Teve-se a
necessidade de desmatar e cavar por onde a tubulação iria passar,
transportando a água tratada do reservatório até o depósito da Volta
Seca, e de lá, seria distribuída para os moradores.

82
Habitantes & Habitat

A ocupação das terras na antiga Fazenda Sobral ocorreu
durante fins da década de 1970 e princípio da década de 1980,
iniciando-se o processo de urbanização da mesma, sendo que, já
existiam algumas dezenas de famílias residindo área rural. Em
1989, com o fluxo migratório proveniente principalmente das
proximidades do Colégio Agrícola e Rodovia Transacreana,
algumas famílias se fixaram no local próximo à Estação de
Tratamento de Água, adutora de Rio Branco, entre a Estrada da
Sobral e o rio Acre, o que mais tarde viria a se chamar bairro Sobral.
Atualmente, segundo o Setor de Cadastro da Prefeitura,
existe uma expansão do bairro Sobral, na margem esquerda da
Estrada da Sobral. Contudo, sua formação inicial se deu na margem
direita, onde atualmente se situa a escola João Paulo II, na faixa de
terras pertencente ao Governo do Estado, onde está localizada a
estação adutora de tratamento de água da cidade, indo até a margem
do rio Acre.
Com o aumento considerável da população urbana de Rio
Branco, após a década de 1960, o poder público percebeu que o
serviço de água e esgoto da Capital deveria acompanhar a demanda
populacional. Assim, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto do
Acre, foi extinto em 1971, sendo criado em seu lugar, a Companhia
de Saneamento do Estado do Acre – SANACRE. Conforme
disposto no Decreto 302, de 11 de novembro de 1971, que
regulamentava a criação da SANACRE, competia à instituição
“estudar, projetar e executar obras novas, reformas e ampliações de
instalações do sistema de água e esgotos sanitários”. Assim sendo,
a Estação de Tratamento de Água da Fazenda Sobral teve o início
de sua construção nos primeiros anos da década de 1970. Somente
em 1974 as instalações foram inauguradas.
A instalação da Sanacre na área da Fazenda Sobral
impulsionou o processo de ocupação da área do atual bairro Sobral.
Na foto abaixo, podemos visualizar a área pertencente à Estação de
Tratamento de Água da Fazenda Sobral e a ocupação quase
inexistente das proximidades:

83
Invasão da SANACRE

Estação de Tratamento de Água da Fazenda Sobral, ainda em construção, em 1973.
Foto: Acervo pessoal do senhor Filogônio.

Como se percebe, na parte superior da foto aparece a
estrada de terra que dava acesso à Estação de Tratamento de Água
da Fazenda Sobral, pelo bairro Floresta. No início da década de
1980, quando abriram a Estrada da Sobral, o acesso passou a ser
feito direto ao centro da cidade indo pela Ladeira do Bola Preta.
A Companhia de Saneamento do Estado do Acre –
SANACRE, que é uma empresa pública, de economia mista, da
autarquia estadual, foi cedida, por tempo indeterminado, ao
município de Rio Branco, em 31 de março de 1997. O município
assumiu todos os bens e responsabilidades destinados à captação,
tratamento e distribuição de água, bem como o sistema de
esgotamento sanitário da cidade.
Com a rua aberta para a SANACRE, e pela existência de
um festival de praia nas terras do Amapá, do outro lado do rio Acre,
muitas pessoas passavam pela Invasão da Sanacre para ir ao local
se divertirem. Logo no período de criação desse festival, não
existiam ônibus que levassem as pessoas até a praia do Amapá.

84
Habitantes & Habitat

O Festival do Amapá acontecia no período de verão,
geralmente durante os meses de agosto e setembro, quando o rio
estava com as águas baixas. Durante as décadas de 1980 e 1990, o
Festival do Amapá se constituía num dos principais pontos de lazer
e divertimento para a população riobranquense.

Banhistas nas praias do rio Acre, no Festival do Amapá. Ao fundo, no canto esquerdo, vê-se a ETA I.
Data: Década de 1980.
Fonte: Acervo Digital do Memorial dos Autonomistas.

Pessoas das mais variadas idades se deslocavam de várias
partes da cidade para aproveitar o lazer daquele local. Lá, crianças,
jovens e adultos podiam tomar banho às águas do rio Acre, se
bronzear nas areias da praia, jogar bola no campo de futebol, beber,
comer, dançar e namorar. Havia também muitos ambulantes que
vendiam seus produtos para os banhistas. Eles vendiam melancia,
milho, bebidas, comidas, e outros.
As atrações do Festival consistiam em shows de artistas
locais e nacionais no início de carreira, como por exemplo, Zezé Di
Camargo, que tentava fazer carreira solo como cantor, mas sem
nenhuma condição financeira, precisava contar com o apoio do

85
Invasão da SANACRE

radialista e desportista Campos Pereira, que muitas vezes, o
hospedava em sua casa.
Havia também torneios e campeonatos de futebol
organizados e patrocinados pelo governo do Estado do Acre,
através da Fundação Cultural. Os times inscritos nos campeonatos
atraíam um grande público, tendo em vista que cada time
participante levava a sua torcida.
A área hoje denominada Invasão da Sanacre servia de
passagem para muitos banhistas que, para irem aos festivais,
passavam pelas terras da ETA I. Era comum ver casais
“namorando” em meio às árvores, alguns faziam piqueniques,
outros cantavam ao som de violão e cavaquinho “enquanto
tomavam uma”. Os festivais atraiam muita gente, mas na margem
em que fica a Adutora da Sanacre também ficavam várias pessoas,
em busca de proteção dos raios solares.
Já nesse período de fins da década de 1980, o rio Acre
apresentava problemas quanto ao seu volume de água. Era comum
ver centenas de pessoas atravessando o rio “com água na cintura”
para chegar à praia do Amapá.
Muitas das populações que passavam pelas terras da
Sanacre foram ficando e se apossando da localidade, cada vez mais
aumentando a expansão da Sobral rumo à Estação de Tratamento.
Se observarmos bem o mapa, que está contido no início deste
ensaio, veremos que quase não aparecem ruas, somente a limítrofe
entre a Invasão da Sanacre e os bairros Floresta Sul, Boa Vista e
Sobral, na parte de cima. No mapa, perto de onde está escrito o
nome do bairro existem quatro ruas perpendiculares que começam
no bairro Sobral, e pouco a pouco, vão adentrando no Invasão da
Sanacre. Nessas ruas, existem pouco mais de trinta domicílios,
ficando os outros poucos domicílios no restante da extensão do
bairro.

86
Habitantes & Habitat

Rua da Sanacre – principal rua do bairro Invasão da Sanacre. Foto: Reginâmio B. Lima.

Nesses locais moram homens e mulheres que, para garantir
o sustento da família, trabalham de biscate, dependendo sempre
das oportunidades que surgem para conseguirem manter suas
famílias. Menos da metade tem trabalho fixo. Em sua maioria, são
pessoas jovens, que cursaram o Ensino Fundamental. Entretanto,
menos da metade deles conseguiu concluir o Ensino Médio.
A religiosidade é um aspecto muito importante na vida dos
moradores do Invasão da Sanacre. A escolha da denominação
religiosa professada pelos moradores encontra-se dividida quase
ao meio, pouco menos da metade dos moradores professa a religião
católica e outra igual quantidade professa crença pentecostal, em
sua maioria da Igreja Assembléia de Deus. Ainda há os que não
professam religião ou são adeptos de outras religiões.
A freqüência nas atividades religiosas costuma dar-se,
entre os católicos, uma vez por semana, geralmente na missa do
domingo, pela manhã, e entre os assembleianos, semanalmente,

87
Invasão da SANACRE

duas vezes, no culto durante a semana e no domingo. É interessante
destacar o grande número de congregações da Assembléia de Deus
nas proximidades do bairro, o que tem contribuído para cada vez
mais aumentar o número de membros dessa Igreja na localidade.
Todos foram unânimes em afirmar que nunca receberam
ajuda de nenhuma instituição ou órgão do governo. Infelizmente,
ainda hoje, o bairro tem sido tratado pelo poder público como de
fato uma “invasão”. O anseio de quem espera há tanto tempo por
melhorias no bairro aparentemente, resume-se em algo bem
simples: ver, pelo menos, as ruas asfaltadas. E a motivação é mais
simples ainda, a cada ano, os moradores sofrem com os efeitos da
poeira e da lama, que a sua época, trazem graves problemas de
saúde e dificultam o deslocamento para seus locais de trabalho.
As ruas do bairro que têm pavimentação asfáltica são
apenas a Estrada do Colégio Agrícola, que margeia o bairro,
fazendo limite com o bairro Plácido de Castro, a Via verde, do trevo
da Sobral até a Terceira Ponte e a rua da Sanacre, que vai da
intersecção da Estrada da Sobral até a entrada da ETA I.
Todos os domicílios são atendidos com os serviços de água
encanada e energia elétrica. A grande dificuldade é o não
atendimento do serviço de esgoto na localidade. As residências são
simples, tendo casas construídas em madeira, em alvenaria e
mistas. O grande fluxo de migrantes para o bairro Invasão da
Sanacre concentrou-se em fins da década de 1990 e tem perdurado
até os dias atuais. Os moradores que têm se deslocado para o local,
em sua maioria, são provenientes de outros bairros do Terceiro
Eixo. Há uma espécie de identificação com o lugar e esses laços,
muitas vezes, se reforçam com a convivência amigável com os
amigos e pela proximidade dos familiares que residem em bairros
próximos.
Há uma mobilidade marcante no local. Muitos moradores
conseguiram um pedaço de terra para morar, mas venderam a
outras pessoas. O interessante é que essas outras pessoas quase
sempre são provenientes do bairro Sobral ou do Boa Vista.
Na parte sul do Bairro, próximo à Terceira Ponte, a
Prefeitura está construindo uma Central de Abastecimento de

88
Habitantes & Habitat

produtos agrícolas e hortifrutigranjeiros, que se pretende que seja o
principal ponto de escoamento no atacado e no varejo da cidade de
Rio Branco. As obras de construção já começaram, é possível ver
homens e máquinas trabalhando.
Ao olhar para a obra sendo construída nas terras da Invasão
da Sanacre percebemos algumas diferenças quanto aos
trabalhadores: os técnicos, engenheiros, “pensadores da
construção” são quase todos de outros locais da cidade; os braçais,
“orelhas secas”, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, biscateiros, “seu
João do picolé”, “seu Francisco do salgadinho”, “dona Maria da
tapioca”, esses são quase sempre moradores dos bairros da
localidade. Aqueles, especialistas que pensam o trabalho a ser
executado; estes, os executores práticos da construção: um exército
de mão-de-obra barata que pode ser encontrada nos 16 bairros da
região e disponível para o trabalho temporário que lhes dará a
possibilidade de sonhar com o sustento dos filhos, a compra de uma
televisão, ou simplesmente, o pagamento da conta efetuada na
taberna próxima de casa.
Mas a vida não é só trabalho. Os moradores do Invasão da
Sanacre também têm saudades. Muitas são as lembranças do tempo
em que foram morar no bairro. Para muitos, uma das maiores é a
falta dos familiares que moravam perto. Com a construção da
Terceira Ponte, a valorização das terras e o aumento do fluxo de
pessoas no local, muitas pessoas venderam suas casas e foram
morar em outros bairros. Muitos ficaram pela falta de opção,
porque se acostumaram à dinâmica do local, sempre movimentado,
outros, porém, permanecem porque gostam do lugar.
Um bairro com nome de invasão. Quem sabe uma invasão
que virou bairro? As famílias que encontramos na localidade não
têm o título definitivo das terras, como a maioria dos moradores de
Rio Branco, e, como esses, se demonstraram pessoas receptivas,
que nos aceitam em suas casas e respondem perguntas sobre vários
assuntos, inclusive sobre sua situação no local. A grande maioria
dos moradores que se encontram no bairro não são invasores, já
compraram essas terras de outras pessoas que para lá haviam se

89
Invasão da SANACRE

dirigido. Eles ocupam uma terra que pertence oficialmente ao
Estado, mas que há muito estava sem ser utilizada.
Então, juntaram-se as terras sem ninguém morando com os
migrantes que não tinham terra. É certo que muito do bairro precisa
ser revisto, mas já existem os sonhos, e esse é um dos principais
elementos para se conseguir alcançar os objetivos. Os moradores
daquela localidade sonham com a possibilidade de uma vida
melhor, de poder ter um lugar de fato e de direito que possam
chamar de seu. As trajetórias e vivências dessas gentes são
semelhantes ao curso das águas: deslocam-se de um lugar para
outro, levando vida, alegria e esperança e a certeza do renovar
contínuo.

90
Habitantes & Habitat

JOÃO PAULO II
Lugares, pessoas e histórias
Lelcia Maria Monteiro de Almeida
Antônio Vladimir da Silva Barbosa

N este ensaio, temos o intuito de mostrar de forma sucinta
alguns aspectos históricos e a ambiência cotidiana em que
estão submetidos os habitantes do bairro João Paulo II,
conhecendo um pouco de suas famílias, idéias, emoções e sonhos.
As informações aqui contidas foram construídas a partir da
realização de entrevistas, aplicações de questionários,
levantamento bibliográfico e dos olhares e conhecimentos dos
moradores do bairro acerca de seu lugar de moradia.
O bairro João Paulo II, que possui essa denominação em
homenagem a Karol Wojtyla conhecido popularmente em todo
mundo por Papa João Paulo II, tem uma área territorial de

91
João Paulo II: lugares, pessoas e histórias

289.779m² e sua formação “urbana” inicial ocorreu como extensão
do bairro Sobral em meados da década de 1980. Sua extensão
territorial parece pequena, mas de lá para cá, já se foram mais de
vinte anos de histórias; cada morador que viveu ou vive no lugar,
deixou nele suas marcas. Algumas dessas marcas o tempo levou,
outras permanecem com ou sem significado para as atuais
gerações, e outras ainda, permanecem na memória afetiva das
pessoas que usam os lugares do bairro cotidianamente e que
carregam os seus significados. Significados que estão presentes na
relação existente entre os lugares e as pessoas e que pode ser
observada na paisagem, no modo de viver e de ver o mundo.
Falar de paisagem aqui é importante porque é na forma de
imagens que o bairro ganha existência na memória de seus
habitantes. São nas imagens constituídas de elementos distintos:
cores, formas, volumes, localização, e outras, que estão
representados os registros e as mensagens do tempo, sendo as
imagens formadas como resultado de processos econômicos,
políticos e sociais, assim, a imagem existente no bairro descreve o
território, sua memória, sua história.
Considerado periferia da cidade de Rio Branco, o bairro
João Paulo II passou por várias fases de ocupação, e ao longo
dessas fases, a conseqüente transformação de suas imagens e
paisagens, que foram provocando, a cada tempo, passado e
presente transformações físicas em seu espaço, representativas das
necessidades da comunidade.
A primeira fase de ocupação ocorreu em meados da década
de 1980, época em que 10,52% dos atuais moradores se mudaram
para o bairro. A segunda fase ocorreu dos anos de 1991 a 2000,
quando chegaram mais de um terço dos atuais habitantes. O
período que vai de 2001 a 2004, corresponde à terceira fase de
ocupação, época em que o bairro recebeu um contingente
populacional de 15,78%. A quarta fase de ocupação está ocorrendo
desde o ano de 2005 até 2007, quando novamente é possível
perceber a migração para o bairro de um percentual de mais de um
terço dos atuais moradores. Os processos de migração para a
comunidade são constantes, se antigamente a maioria vinham

92
Habitantes & Habitat

principalmente das áreas de colônias, hoje ocorre não só desses
lugares, mas também de outros bairros da cidade.
O movimento migratório vivido por essas gentes não foi
um movimento sem conflito, afinal de um lugar a outro, ou melhor,
do campo para a cidade e de bairro a bairro o processo foi
dramático, na medida em que esses sujeitos adquiriram e
desenvolveram novos hábitos, tendo que se adaptar a uma nova
dinâmica em outro lugar. A antiga geografia física de seus espaços e
de suas vidas ficaram para traz. No novo bairro, um novo processo
os esperava. O lugar era diferente, os ritmos eram outros e
diferentes deveriam ser seus comportamentos. No bairro a
solidariedade era outra, a cultura era a síntese de dois ou mais
lugares.

Rua na parte Sul do bairro João Paulo II, após breve chuva de inverno. Foto: Reginâmio B. Lima.

Os motivos de mudança dos habitantes que foram para o
bairro são muitos. Quase todos os moradores saíram de onde
moravam em busca de melhores condições de vida e, quando

93
João Paulo II: lugares, pessoas e histórias

chegaram ao local se depararam com uma situação totalmente
diferente do que imaginaram. Mais da metade veio para morar
perto dos familiares, e 25% saíram de onde moravam porque
pagavam aluguel. Destes, a maioria absoluta ficou sabendo da área
por informação de parentes que já residiam no local e/ou nas
proximidades.
A grande maioria dos moradores é casada, e mais de um
terço da população do bairro que são “chefes de casa” estão
inseridos na faixa etária entre os 25 e 40 anos de idade, que ao
mudar-se para o bairro trouxeram consigo toda a família.
O perfil do trabalho desenvolvido pela população é
constituído, em sua grande maioria, de domésticas, trabalhadores
autônomos, lavadeiras, pequenos agricultores, biscateiros e
trabalhadores do lar. É provável que essa característica do trabalho
executado pelos moradores esteja vinculada com a falta de acesso
ao ensino formal, nesse sentido, mais da metade dos habitantes não
concluiu sequer o Ensino Fundamental. Apesar dessa característica
do trabalho desenvolvido, mais da metade dos moradores da
comunidade têm trabalho fixo.
Como resultado das várias fases de ocupação do bairro, seu
processo de formação e urbanização ocorreu “sem muito
planejamento”, o que leva aquele que chega, se não tomar cuidado,
a incorrer em um erro muito comum em nossa cidade. O erro de
caracterizar o lugar de moradia de muitas pessoas como
simplesmente violento e perigoso. O bairro possui uma imagem
confusa, mesmo inconveniente para alguns, o que acaba por
contribuir para a estigmatização da área enquanto lugar de
expressão da violência.
As coisas nem sempre dão a entender, a quem olha, ser
delicado, equilibrado, harmonioso, mas ali, tudo tem uma razão de
ser, tudo tem um sentido, ou uma explicação. Para compreender é
necessário captar os sentidos que os moradores usam, e com os
quais criam e recriam o lugar e vão construindo sua paisagem.
Uma rua entre um beco e um “valão”, depois de uma
esquina torta, onde os carros só passam de lado, acaba por
evidenciar que a grande maioria dos habitantes “não vive” as ruas
94
Habitantes & Habitat

do bairro. Isso ocorre não porque as ruas perderam seu sentido, mas
porque seus sentidos nos parecem ainda não encontrados, uma vez
que a infra-estrutura existente não lhe são suficientes para atender
as necessidades da comunidade, nem tão pouco, para que seus
moradores criem para com elas uma estreita relação de afinidade.
As casas foram e são construídas se ajustando conforme os
passos dos terrenos, ora constituídos de áreas altas, oras de áreas
baixas, e essas, juntamente com os esgotos existentes a céu aberto,
fazem com que no período de grande intensidade de chuvas, ruas e
quintais fiquem alagados, causando preocupações para os
moradores que de pés descalços sobre a lama ou em sacos plásticos
de supermercados tentam sair até a rua principal para que consigam
pegar o ônibus com destino ao trabalho, deixar os filhos nas escolas
ou simplesmente visitar um amigo ou vizinho. Quase dois terços
dos moradores têm como principais meios de transporte a
caminhada a pé, ônibus e bicicletas, o que favorece para a revolta
dos habitantes do bairro.

Loteamento recente na parte norte do bairro João Paulo II. Foto: Reginâmio B. Lima.

95
João Paulo II: lugares, pessoas e histórias

Quase metade dos domicílios do bairro são construídos em
madeira, seguidos de um terço de construções mistas e uma
porcentagem de 17% em alvenaria – essas, em sua maioria, ficam
na Estrada do Colégio Agrícola –, sendo que, quase metade das
construções apresenta estado regular de conservação. Apesar de
quase totalidade dos moradores possuírem residências próprias, e a
maioria absoluta contarem com serviços de água encanada e de
energia elétrica, muitos não escondem o desconforto de ter que
morar no local.
Mais da metade dos atuais moradores afirma que, se
tivessem condições ou pudessem, teriam continuado no local onde
moravam antes, alegaram que onde moravam se sentiam bem e já
estavam acostumados.
A relação com o bairro pode ser traduzida para parte dos
moradores através do depoimento da moradora L.M.que diz:

Se eu pudesse teria continuando no
antigo bairro onde morava porque eu nasci lá
e as pessoas de lá formavam uma família (...)
Quando cheguei aqui tinha 10 anos, agora
estou com 23 anos de idade, mas ainda não me
acostumei, continuo não gostando do bairro.
(...) aqui não existe ajuda comunitária
ninguém ajuda ninguém. No passado
brincávamos na lama dos esgotos, para as
crianças de hoje nem isso, elas acabam
vivendo na rua ou dentro de casa brincando de
videogame (L. M.. Entrevistada por Lelcia
Almeida).

A infra-estrutura, somada aos seus processos de ocupação
contribui para que os moradores tenham dificuldades de
pontuarem o bairro em que moram. Nesse sentido, muitos ora
dizem morar no bairro Sobral, ora no bairro Plácido de Castro,
dependendo da proximidade de um ou outro bairro em relação às
suas moradias.
A relação que os moradores têm para com o bairro contribui
para que conheçamos a própria paisagem da comunidade, que pode

96
Habitantes & Habitat

ser comprovada, por exemplo, pela relação estabelecida dos
católicos, que são a maioria no bairro e com a Igreja Católica,
através da paróquia e das congregações que estão próximas
fisicamente, mas distante no contato, nos desejos e na coletividade.
Segundo alguns moradores, isso ocorre não porque os
representantes da igreja não estejam presentes, mas porque a
comunidade, apesar de convidada, não sente entusiasmo suficiente
para se fazer presente.
Apesar da necessidade de mudanças, poucos moradores se
animam na busca da superação dos problemas do local. Quase
todos os quintais são arborizados, no entanto, nem sempre são
limpos, assim como também não o são as frentes dos quintais e da
maioria das casas.
É bom que se diga que muitos moradores do bairro, mesmo
reconhecendo a profunda falta de infra-estrutura existente
representada principalmente na falta de saneamento básico, saúde
e segurança, gostam de morar na comunidade e sonham com o dia
em que o poder público realizará os benefícios de que necessitam.
Enquanto isso não ocorre, as pessoas seguem com um olhar
confiante diante de algumas barreiras a serem vencidas.

97
Habitantes & Habitat

VIVÊNCIAS E IDEAIS
NO BAIRRO PLÁCIDO DE CASTRO
Pedro Bonifácio de Lima

A historiografia acreana é grandiosa do ponto de vista de
mitos e lendas, fortes e fracos, “grandes homens” e “não
tão bravos”, vencedores e vencidos. É como se repetisse a
teodisséia persa do Yng Yang, o bem e o mal, contrastantes que se
completam e aperfeiçoam. Nesse viés de lutas e conquistas,
vencedores e vencidos surgem, nas terras mais ocidentais do
Brasil, o “herói” Plácido de Castro, tido pela historiografia oficial
como “bravo guerreiro que venceu as tropas inimigas e propiciou
um Acre livre”.
Dentre as muitas homenagens dispensadas ao “guerreiro
acreano de coração”, expandiu-se de entre as terras da antiga

99
Vivências e ideais no bairro Plácido de Castro

Fazenda Sobral, uma ocupação de terra loteada parcialmente, que
recebeu o nome do gaúcho Plácido de Castro.
Neste trabalho não intentamos estudar o gaúcho Plácido de
Castro, tampouco seus feitos, nos deteremos em buscar conhecer
um pouco mais sobre a área de terra que é expansão do bairro
Sobral e que recebeu o nome desse “ícone” da história acreana.
Objetivamos estudar e conhecer a ambiência ocupacional da
localidade, visando abordar aspectos históricos, físicos, humanos,
sociais, econômicos, bem como as relações interpessoais
produzidas por seus habitantes.
Partindo de uma abordagem que visa ao contraste entre o
ontem e o hoje, objetivamos expor como se deu a ocupação das
terras que formam o bairro Plácido de Castro, desde a sua formação
e crescimento até a atualidade, mais especificamente, o período
compreendido entre os anos de 1991 e 2000. O bairro Plácido de
Castro faz parte do Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco, daí
nosso intento de comentar a formação do bairro, mostrando seu
processo de formação e as transformações ocorridas ao longo dos
anos.
O bairro surgiu na primeira metade da década de 1990,
como uma expansão do bairro Sobral. Os primeiros migrantes que
chegaram ao local eram, em sua maioria, oriundos de outros bairros
do Terceiro Eixo. A proximidade em relação à Estrada do Colégio
Agrícola contribuiu para que a área situada entre as ruas Adalberto
Sena e Tucano recebesse os primeiros moradores, ainda no final da
década de 1980.
A necessidade de uma moradia própria impulsionou essas
pessoas a saírem dos bairros adjacentes e ocuparem a área em que
atualmente se encontra o bairro Plácido de Castro. É interessante
destacar o grande número de migrantes nascidos em outros
municípios acreanos, os quais chegam a perfazer um total de quase
metade dos moradores entrevistados. Em sua maioria, são
provenientes dos municípios de Tarauacá e Sena Madureira. Além
destes, chegaram para formar o bairro pessoas de diversas áreas da
zona rural riobranquense; juntas, essas pessoas foram, a cada dia,

100
Habitantes & Habitat

tornando o Plácido de Castro seu “lugar” de morada.
A mistura de costumes considerados como típicos da “zona
rural” misturou-se ao modo de viver “da cidade”. O resultado foi
uma ambiência que agrega tanto características do antigo local de
moradia quanto aspectos do novo local em que chegaram. Essa
transformação da ambiência ocupacional pode ser visualizada na
própria configuração dos pequenos quintais existentes no bairro,
em contraste com o agitado vai-e-vem dos automóveis e carros na
via principal. É comum observarmos plantações de hortaliças,
plantas ornamentais da região e até gêneros alimentícios como
mandioca e cana-de-açúcar. As árvores frutíferas são também
muito comuns, principalmente, nos quintais de pessoas oriundas de
outros municípios acreanos e da zona rural de Rio Branco.
De acordo com moradores, a formação “urbana” da
localidade se deu durante o governo de Iolanda Lima, no final da
década de 1980. Nessa época, a localidade hoje denominada
Plácido de Castro fazia parte do Sobral. Em virtude de interesses de
algumas pessoas em se tornar presidentes da associação de
moradores, decidiu-se transformar a ocupação das terras que
atualmente compõem o Plácido de Castro em um novo bairro. Para
resolver o impasse ocorrido com a ocupação das terras, a então
governadora Iolanda Lima indenizou o dono da área, sendo doados
cerca de 200 lotes, situados na parte sul do bairro, para pessoas que
não tinham onde morar. Posteriormente, a parte norte do bairro foi
ocupada por pessoas que também necessitavam de moradia, por
viverem de aluguel ou em casas cedidas.
A área próxima à Praça Joaquim Macedo é, atualmente, a
mais urbanizada do bairro, tendo as ruas que a circundam todas
entijoladas. No local onde foi construída a praça, havia um campo
de futebol, que vários moradores utilizavam para lazer. Essa área
constitui o centro cultural do bairro, concentrando grande número
pessoas, tanto do Plácido de Castro como dos bairros adjacentes,
que buscam entretenimento na única Praça da região da “Baixada”.

101
Vivências e ideais no bairro Plácido de Castro

Praça Joaquim Macedo. Foto: Paulo K. L. Carneiro.

O traçado da maioria das ruas apresenta-se de forma
regular, tendo em vista que o bairro é composto, em sua maioria,
por terras loteadas. A área que circunda a Praça Joaquim Macedo
constitui um loteamento irregular, tendo em vista que, segundo os
moradores, a imobiliária encarregada, após várias parcelas pagas
pelos moradores, deixou de repassar o dinheiro para o dono dos
terrenos. Diante da insegurança da situação, grande parte dos
moradores resolveu deixar de pagar as parcelas para aguardar uma
posição da imobiliária, o que até o momento ainda não ocorreu.
Outros, porém, continuam pagando por seus terrenos, mesmo na
incerteza de receberem o título das terras.
O bairro Plácido de Castro se localiza dentro do perímetro
“urbano” riobranquense, próximo ao final da “Baixada da Sobral”
e início da Estrada Transacreana, e possui uma área de 334.695m²,
fazendo fronteira ao Norte e a Oeste com o bairro Floresta Sul, a
Leste com o bairro João Paulo II e ao Sul com os bairros Boa Vista e
Invasão da Sanacre.
102
Habitantes & Habitat

A localidade é privilegiada por ter uma praça onde os
moradores desse e dos bairros vizinhos se reúnem para atividades
de lazer, como praticar esportes, passear, brincar e se divertir. Na
praça podemos encontrar uma quadra poliesportiva, um campo de
areia, dois parques infantis, duas lanchonetes e uma grande área
para passear.
Percebemos ainda, a existência de uma Unidade de Saúde
da Família, na qual as pessoas doentes do bairro são atendidas.
Apesar de haver essa Unidade no bairro, a mesma, a exemplo da
maioria das Unidades de Saúde da cidade, não dispõe de médicos
para atuar no serviço público. Além disso, faltam equipamentos
para que os enfermeiros e auxiliares de enfermagem trabalhem. O
que se percebe é um descaso do Estado em relação à população do
bairro, que precisa de serviços médicos.
O bairro não possui escola de Ensino Médio, apenas uma
de Ensino Fundamental e uma de Educação Infantil. Nessas
escolas, estudam os alunos do bairro e também os dos bairros
vizinhos a ela. Quando os alunos concluem o Ensino Fundamental
precisam ir estudar em escolas de bairros próximos ou nas escolas
do centro da cidade. Quando os pais de família precisam sair para
trabalhar e não têm com quem deixar os seus filhos, eles deixam na
escola de ensino infantil que fica no bairro.
Após visitar a localidade e verificar os mapas existentes
sobre o bairro Plácido de Castro, percebemos que a pavimentação
asfáltica existe apenas nas ruas principais do bairro, que são a
Estrada do Colégio Agrícola, rua Zilda Rodrigues e parte da rua
Maria José Bezerra dos Reis, sendo que a maioria absoluta das ruas
apresenta pavimentação apenas com piçarramento. No verão, com
a incidência de ventos fortes ou com a passagem dos carros pelas
ruas, há um acúmulo de poeira que chega a adentrar as casas. Em
contrapartida, no inverno, ou com as chuvas fortes, os moradores
sofrem ao precisarem sair de casa e se depararem com a lama.
As principais ruas são as que possuem maior urbanização e
são mais movimentadas, como a rua Maria José Bezerra dos Reis,
Afonso Pinto de Medeiros e Adalberto Sena. Nessas ruas se
encontram a escola municipal, o posto de saúde da família, uma
praça e uma escola de educação infantil.
103
Vivências e ideais no bairro Plácido de Castro

O bairro possui aproximadamente 26 ruas, sendo que a
maioria não são asfaltadas e em várias delas não é possível o
tráfego de carros. A maioria das vias tem ligações entre si em forma
de quadra, com paralelas e perpendiculares, sendo que poucas ruas
não têm saída. A maioria delas são íngremes devido às
características do solo da região e à má conservação das mesmas. A
quantidade de capim que existe no meio da rua é muito grande, isso
ocorre devido à falta de uma política pública de limpeza regular e
aparamento do capim no bairro e ao fato de muitos moradores não
zelarem as frentes de suas casas, atrapalhando a convivência com
vizinhos pela dificuldade de trafegabilidade. Em algumas vias, as
ruas mais parecem varadouros, os moradores são obrigados a
passar por caminhos entre o capim para chegarem até suas casas.

Uma das várias ruas do Plácido de Castro que estão tomadas pelo mato. Foto: Pedro B. Lima.

O transporte coletivo circula pela via principal de acesso ao
bairro, a Estrada do Colégio Agrícola, a localidade aos demais
bairros da cidade e ao centro. A maioria das ruas do bairro não
oferece condições de trafegabilidade para veículos pesados, tendo

104
Habitantes & Habitat

em vista que são ruas piçarradas e várias estão em péssimo estado
de conservação, não oferecendo condições de passar nem veículos
de pequeno porte.
O meio de locomoção mais utilizado no bairro é o
transporte público. Embora o preço das passagens de ônibus não
seja condizente com a realidade econômica dos trabalhadores que
residem no local, este ainda é o meio de transporte mais utilizado
pela população. A falta de boas condições financeiras não permite
que muitos moradores comprem um carro ou uma moto para irem
ao trabalho, poucas pessoas podem comprar esse tipo de veículo. A
bicicleta é muito utilizada entre os moradores para se
locomoverem até os seus locais de trabalho, devido ao baixo preço
e custo com a manutenção em relação aos outros veículos. Ela
também é utilizada para passeio e para as crianças se divertirem.
As ruas que não foram tomadas pelo capim têm um bom
acesso, pois as vias de rolamento das ruas têm cerca de dez metros
de largura, a maioria dá acesso às demais ruas do bairro. A Estrada
do Colégio Agrícola funciona como rua principal do bairro. A rua
Maria José Bezerra dos Reis é a segunda rua mais importante e
mais movimentada do bairro, por ser uma das principais vias de
acesso. Parte dessa rua é asfaltada e o restante é atijolada, é nela que
se localiza a única Praça do bairro e a Unidade Saúde da Família
Plácido de Castro.
No bairro, não existem calçadas para os pedestres e muito
menos calçadas com rampas para pessoas com deficiência. A infra-
estrutura das ruas do bairro não atende às necessidades dos
moradores.
Segundo dados da Secretaria Municipal de
Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas, metade das ruas da
cidade de Rio Branco não têm pavimentação e apenas um quarto é
asfaltada, havendo também lugares com ruas atijoladas e
piçarradas. No bairro Plácido de Castro a situação não é diferente, a
maioria das ruas são piçarradas, tendo também algumas ruas com
asfalto, tijolos ou sem pavimentação.
No bairro, não há um arborizamento adequado. Não há
árvores nas margens das ruas, aquelas que existem no local são as
que os moradores plantaram nos próprios quintais, como

105
Vivências e ideais no bairro Plácido de Castro

laranjeira, goiabeira, acerola, jambo e mangueiras, essas últimas
são as árvores predominantes do bairro.
Na parte norte do Plácido de Castro, existe uma área com
bastante floresta, a qual está sendo ocupada por várias famílias.
Para construir suas moradias, essas pessoas derrubam a mata com
terçados, machados e tocam fogo para fazer a limpeza. Essa
ocupação acabou com grande parte da floresta ali existente.
Com a inauguração da Via Verde e da Terceira Ponte da
cidade, que ficam próximas ao bairro Plácido de Castro, aumentou
a valorização das casas da região. Em se concretizando as
mudanças na localidade, e continuando o processo de
“urbanização”, as pessoas de menor poder aquisitivo têm vendido
as suas casas por um preço melhor para irem morar em um outro
local.
Durante o inverno, o rio Acre causa grandes alagações,
atingindo diversos bairros de Rio Branco, do Primeiro e do
Segundo Distrito. Muitos desses bairros só são atingidos pela
“alagação” por causa dos diversos igarapés que atravessam a
cidade. O Plácido de Castro se localiza em uma das partes mais
altas do Terceiro Eixo e só é atingido pela “alagação” por causa de
um igarapé que passa por dentro do bairro. A enchente só atinge o
local quando a cota de água do rio Acre chega a 16,00m de água e
enche o igarapé, atingindo vários imóveis. Em outros bairros do
Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco o processo de inundação
acontece mais rapidamente; com 15,00m de cota de água já começa
a alagar parte de alguns bairros como Sobral, Invasão da Sanacre,
João Paulo II, Aeroporto Velho, João Eduardo I e II, Palheiral,
Bahia Velha, Bahia Nova, Boa União e Ayrton Sena.
A “alagação” chega a vários bairros próximos ao rio por
causa dos igarapés. Estes são, muitas vezes, transformados em
esgotos pelos próprios moradores do bairro que jogam lixo e esgoto
doméstico, poluindo-o e atrapalhando o escoamento da água. Com
o bairro Plácido de Castro a situação não é diferente, os moradores
jogam os resíduos domésticos e lixo dentro do igarapé, que foi
transformado em esgoto.

106
Habitantes & Habitat

O igarapé do bairro nem sempre foi poluído. Logo no início
da formação do bairro, os moradores se utilizavam de suas águas
para tomar banho e para pescar. Às margens do igarapé, as
mulheres lavavam suas roupas, as crianças se divertiam nadando,
enfim, havia uma forte movimentação em torno do local. Após ter
sido transformado em esgoto, o igarapé tornou-se motivo de
apreensão, tanto pelas doenças que ajuda a proliferar, quanto pela
possibilidade de enchentes que representa.
Assim como vários bairros de Rio Branco, o Plácido de
Castro possui um grande vazio urbano, esses vazios costumam ser
formados por áreas de florestas ou campos de pastagem dentro da
cidade. O vazio urbano que se localiza no bairro Plácido de Castro
se encontra com outros situados no Terceiro Eixo, se estendendo
pelos bairros Floresta Sul, João Paulo II, Invasão da Sanacre,
Sobral, Bahia Nova, Bahia Velha, João Eduardo I e II.
A população do bairro Plácido de Castro, de acordo com
pesquisa por amostragem realizada na localidade, é composta por
casais, em sua maioria, com quatro filhos. Percebemos, ainda que
as famílias residentes no bairro são relativamente grandes,
chegando a uma média de pouco menos de seis pessoas por
domicílios, contando adultos e crianças.
A maioria absoluta das pessoas mora em residências
próprias, normalmente construídas em madeira ou mistas,
madeira-alvenaria, em estado regular de conservação. Há,
também, muitas pessoas que moram em casas alugadas ou em
quarteirões e quando moram em casa cedida, normalmente, o
imóvel pertence a algum membro da família.
Pelo fato de ter havido uma urbanização inicial na
localidade, o bairro conta com uma rede de água que abastece as
casas em dias alternados, o que faz com que quase não existam
poços semi-artesianos ou cacimbas. Dificilmente falta água no
bairro. As casas que têm poço semi-artesiano ou cacimba os
utilizam quando falta água; alguns utilizam diariamente, para
suprir as necessidades básicas do lar, evitando, assim, a utilização
do serviço de abastecimento de água do SAERB.

107
Vivências e ideais no bairro Plácido de Castro

Assim como a água, o sistema elétrico atende a todas as
residências, embora quase dois terços não sejam atendidas pelo
sistema de tubulação dos esgotos. Não há esgoto na localidade, o
esgoto das casas escorre a céu aberto por uma vala aberta no terreno
em direção ao bueiro que fica na margem da rua, muitas vezes essas
valas abertas passam pela frente de várias casas até chegar ao
bueiro, podendo causar vários tipos de doenças entre os moradores.
A maioria das residências conta com sanitário interno,
embora seja comum ver “privadas” no “fundo dos quintais”. A
maioria dos domicílios é usada para a moradia. Com relação à rede
de serviços privados, ainda não existem bancos no local, tampouco
hospitais, postos de gasolina e supermercados.
A coleta de lixo é feita por um homem que passa com um
“carro de boi” colhendo os detritos e levando até a Estrada do
Colégio Agrícola, onde passa o caminhão da empresa responsável
pelo serviço de limpeza da Capital. Isso acontece por causa da má
condição de trafegabilidade das ruas do bairro. Após ser colocado
dentro do caminhão, o lixo é levado para o aterro sanitário da
Prefeitura, sendo que a coleta é feita normalmente às terças, quintas
e sábados.
Quanto à escolaridade dos moradores, percebemos que o
nível de educação formal não é muito elevado. Entre os
entrevistados, a maioria concluiu o Ensino Médio, sendo que
muitos sequer concluíram o primeiro e segundo ciclos do Ensino
Fundamental, antigo primário. Vários pais de família tiveram que
parar de estudar para criarem os seus filhos pequenos ou para
continuarem trabalhando e sustentarem suas famílias.
A média da faixa etária dos entrevistados situa-se entre
dezoito e quarenta anos, sendo pessoas ainda novas, em plenas
condições para estarem inseridas no mercado de trabalho e
sustentarem suas famílias. Muitas dessas pessoas são casadas e
moram com o cônjuge e com os filhos, outros são solteiros e moram
com seus pais e irmãos.
As populações que compõem o bairro Plácido de Castro
saíram de onde moravam por diversos motivos, principalmente,

108
Habitantes & Habitat

em busca de melhores condições de vida, de um trabalho, casa
própria para saírem do aluguel, para proporcionar oportunidade de
estudo para os filhos, porque casaram ou queriam tentar uma vida
melhor em outro lugar.

Rua local do bairro Plácido de Castro. Foto: Reginâmio B. Lima.

Ao se mudarem para o bairro, tentaram vencer as
dificuldades da vida, muitos para ficar mais perto de suas família e
terem mais condições de ter um futuro melhor. Como muitos não
tinham para onde ir e também não tinham boas condições
financeiras, juntaram-se com outros que podiam ajudá-los, ainda
que com o pouco que tinham, e fizeram do Plácido de Castro sua
nova morada. Segundo a pesquisa com os moradores, normalmente,
quando uma pessoa se dirigia par ao bairro, ia sozinho ou com o(a)
esposo(a).
Dentre os casais entrevistados, foi expressivo o número
daqueles que tinham, pelo menos, um filho casado morando na
mesma casa com a mulher e seus filhos. Além do filho, muitos

109
Vivências e ideais no bairro Plácido de Castro

tinham cerca de um a dois netos morando juntos na mesma casa, e
esses filhos casados que moram com os pais contribuem nas
despesas do lar. A permanência dos filhos casados junto aos pais se
dá, muitas vezes, por não terem condições financeiras de
adquirirem um terreno para construir suas casas.
Dentre os moradores do bairro, podemos encontrar pessoas
que têm trabalho fixo, a maioria trabalha no centro da cidade como
funcionários públicos, trabalhadores de supermercado, lojas e
autônomos. Também encontramos pessoas que trabalham por
conta própria para garantirem o seu sustento e o de suas famílias,
como vendedor de picolé, padeiro, pedreiro, carpinteiro, roçador
de terrenos, dentre outros. Essas pessoas que trabalham como
biscateiros costumam trabalhar no próprio bairro e em outros
bairros da cidade. Mesmo com um grande número de trabalhadores
que trabalham no mercado informal, também encontramos muitas
pessoas desempregadas que chegam a totalizar quase metade dos
entrevistados. Mas essas pessoas não desistem e continuam
procurando trabalho, principalmente no centro da cidade.
Em várias casas existem pessoas aposentadas e o salário
dessa aposentadoria ajuda no sustento do lar, principalmente nas
casas onde os moradores não têm trabalho fixo. A quantidade de
pessoas por casa varia de três a seis membros. Normalmente,
residem em uma mesma casa os donos, um filho casado e a esposa e
os dois netos.
Quando o chefe ou a chefe da família sai para trabalhar, o
que em muitos casos dura o dia inteiro, os filhos ficam com a mãe.
E quando é o casal que sai para trabalhar os filhos normalmente
ficam com os avós ou sozinhos, quando não tem ninguém para
cuidar, eles ficam na casa dos vizinhos.
A vida dos moradores antes de irem morar no bairro era boa
em questão de tranqüilidade, mas com muito sacrifício para
sobreviver, tendo que trabalhar bastante para poderem ter uma
melhor qualidade de vida. Tinham que desenvolver atividades
como doméstica, pedreiro ou em algum tipo de atividade informal
para garantir o seu sustento.

110
Habitantes & Habitat

Os moradores desse bairro quase sempre têm algum
parente nos bairros próximos ao Plácido de Castro, irmão, tio,
sobrinho, etc. E ficaram sabendo daquela área para morar através
de parentes ou amigos que avisaram da ocupação daquelas terras.
Segundo os moradores, não houve conflito com homicídios
durante a ocupação das terras, os conflitos existentes eram por
causa de bebidas ou marginais bagunçando pela rua. A grande
maioria desses moradores não sabe de quem eram as terras em que
hoje residem, uma grande parcela da população acredita que as
terras foram doadas pela ex-Governadora Iolanda Fleming.
Muitos moradores, se pudessem, teriam continuado no
lugar onde moravam antes de irem para o bairro, porque
acreditavam que lá onde moravam era melhor e já estavam
acostumados com o local. Outros passavam tanta dificuldade no
local onde moravam como “alagação”, o pagamento do aluguel, a
falta de água e problemas para se locomoverem para outras partes
da cidade, que preferiram migrar para o bairro. Todos tiveram
vários motivos para terem saído do local onde moravam, em busca
de melhores condições de vida, quando chegaram ao Plácido de
Castro, tiveram que continuar trabalhando ou procurando trabalho
mesmo sem ser de carteira assinada.
As famílias que migraram para o Plácido de Castro foram
impulsionadas pela expectativa de mudança de vida. Ao se
deslocarem para o bairro, acreditavam que, mesmo diante da falta
de condições do local recém-ocupado, ali poderiam, um dia,
encontrar emprego, casa, escola para os filhos, boa alimentação,
lazer, saúde, descanso, conforto. Com as lutas diárias, logo
perceberam que não seria fácil realizar essas conquistas. Apesar
das dificuldades, não desistiram de sonhar, crendo que a cada
melhoria que ia surgindo no bairro, poderiam desfrutar dos sonhos
que os levaram a migrar.
A formação e a transformação da ambiência ocupacional
no bairro Plácido de Castro revelam mais uma faceta do processo
de êxodo rural no Acre. A dinâmica de exclusão social no meio
rural levou várias famílias a migrarem para a cidade de Rio Branco

111
Vivências e ideais no bairro Plácido de Castro

em busca de oportunidades de sobrevivência. As populações que
migraram para o bairro apresentam uma trajetória marcada por
vários deslocamentos, muitas andaram de município em
município, depois vieram para Rio Branco, se estabeleceram em
vários bairros, antes de chegarem ao Plácido de Castro. Os motivos
que levaram a essa mobilidade espacial são diversos. Em sua
maioria, essas pessoas foram guiadas pelo anseio de encontrar
novas e melhores possibilidades de vida.

112
Habitantes & Habitat

TRAJETÓRIAS E EXPERIÊNCIAS
NO BAIRRO SOBRAL
Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio

M ovimento, travessia, fronteira, essas são palavras que
fazem parte da vida cotidiana dos moradores do Sobral.
Acima de tudo, um local em que as pessoas sobressaem
ao lugar. Falar em Sobral é falar das gentes que ali vivem. Tentar
traduzir em palavras o que só se conhece vivenciando é tarefa
difícil. Mas, o convite, aqui, é para ir além das palavras, ir além do
que se costuma dizer ou ouvir sobre esse bairro.
A vida no bairro Sobral é um intenso vai-e-vem. Cedo, os
moradores se encontram nas paradas para embarcar no ônibus que
os levará a seus locais de trabalho, geralmente, nas proximidades
do “Centro” da Cidade. Quem tem outro destino, ou não dispõe de
condições para pagar o transporte coletivo, sai mais cedo, no meio
de transporte mais usado no bairro, a bicicleta. Rapidamente o

113
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

trânsito na Sobral se torna frenético, a palavra de ordem para esse
que é o bairro mais “populoso” de Rio Branco. O movimento de ir e
vir é muito intenso na única via coletora da localidade – a Estrada
da Sobral. Tem sempre alguém indo ou alguém chegando. Um
caminhão de mudança pára em frente àquela casinha... Sonhos,
esperanças e até medo para quem chega. Quem parte, continua a
caminhada em busca de uma vida melhor.
Perceber a dinâmica desse tão complexo local requer o
exercício de aproximar-se, buscar o novo, conviver, mas também
exige distanciamentos e reflexões. Seria possível perceber o lugar
unicamente observando dados estatísticos do IBGE ou da
Prefeitura? Estaria o Sobral representado nas manchetes dos
jornais, que vão passo a passo compondo a histórias dos discursos
que circulam em nossa sociedade? Ou ainda, nas teorias
acadêmicas ou conversas de botequim e de paradas de ônibus?
A cidade surge a cada fala, a cada gesto, no compartilhar de
crenças, costumes e perspectivas apreendidos e socializados por
seus habitantes, que criam, recriam e transcriam novas vivências
em seu habitat. Diante da complexidade de se discutir as vivências
de populações em seu contínuo construir, reconstruir e
transconstruir de forma geral – o que não diminui, mas detalha o
setor quando focalizamos o olhar sobre a localidade – buscamos,
neste ensaio, discutir o processo de formação e transformação do
bairro Sobral, a fim de perceber os recuos e avanços dos sujeitos em
suas lutas diárias.
Dentre os muitos sujeitos que constituem a cidade de Rio
Branco, existem alguns milhares que moram no que se
convencionou chamar de Sobral. O bairro originou-se a partir da
ocupação das terras da antiga Fazenda Sobral, comprada em 1943
pelo governo territorial para o fomento da pecuária na região. É
certo que já havia moradores naquela área, fruto da expansão do
segundo ciclo da borracha para a Amazônia ocidental. E, antes
deles, os índios já habitavam a região, contudo, neste ensaio
focalizaremos o bairro enquanto parte do processo expansivo da
cidade.
Segundo moradores da localidade, o nome “Sobral” foi
dado por causa de um nordestino que teria homenageado sua

114
Habitantes & Habitat

cidade natal, Sobral, no Estado do Ceará; outros, porém, afirmam
que o nome do bairro resulta da antiga Fazenda Sobral, pertencente
ao Governo do Estado (LIMA, 2006). Por esta segunda versão, a
partir do ano de 1983, quando da venda de alguns seringais, várias
famílias ficaram sem ter onde morar, por isso ocorreu uma intensa
migração dessas famílias provenientes de áreas como as do atual
Colégio Agrícola e da Estrada Transacreana, o processo de
urbanização das terras da Fazenda Sobral começou a ganhar
expressividade, intensificando-se com a transformação do
ambiente “rural” em ambiente com características de “urbano”.
Uma das áreas do bairro a receber os primeiros moradores
foi a que fica entre a Estrada da Sobral e a rua da Sanacre, cujo
povoamento surgiu após a desativação da área de um seringal que,
foi transformado em Colégio Agrícola. Então, uma leva de
migrantes dirigiu-se para a parte situada ao sul do Aeroporto
Salgado Filho, para o bairro da Glória e para a Fazenda Sobral.

Bairro Sobral. Ao centro surgiu a 1ª fase de expansão do bairro; à esquerda, a 2ª fase; à direita,a 3ª fase.
Foto: Reginâmio B. Lima

115
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

Ao estudar a localidade, percebemos que o bairro Sobral
passou por quatro fases de expansão. Não estamos dizendo que
ocorreu primeiro isto, depois aquilo, e, após, outra coisa. Houve
momentos marcantes de ocupação das terras, que, por sua
temporalidade de ocupação, podem ser divididos em quatro
momentos, ora distintos, ora concomitantes. No primeiro, as terras
entre a Estrada da Sobral e a rua da Sanacre, que até então eram
ocupadas por algumas famílias apenas, foram, em grande parte,
sendo ocupadas de forma mais intensificada a partir de 1983. A
segunda fase de expansão do bairro ocorreu já em fins da década de
1980; a área que fica entre a rua da Sanacre e a margem do rio Acre
foi tomada por migrantes que fizeram daquele local seu lugar de
moradia.
A expansão teve seu terceiro momento em meados da
década de 1990, com o loteamento – ainda que irregular – das terras
que ficam entre o limite dos bairros Boa União e Bahia Nova, indo
até a área próxima ao encontro da Estrada da Sobral com a rua da
Sanacre. Essa, que é a maior área do bairro, está quase toda tomada
por construções domiciliares – vale ressaltar que essa terceira área
de Expansão do bairro Sobral comumente é confundida com o
bairro Boa União, já que, tiveram sua “urbanização em forma de
loteamentos” quase que ao mesmo tempo. A quarta fase de
expansão do bairro se deu por volta de 2003, quando do loteamento
das terras que ficam entre os bairros Floresta Sul, Bahia Nova e
João Paulo II. Essa área ainda está em fase de construção
domiciliar, embora apresente algumas construções de alvenaria e
ruas tracejadas.
Vale ressaltar que localidades como o bairro Ayrton Senna,
Boa Vista, Boa União, João Paulo II que tiveram a intensificação de
sua constituição no mesmo período da segunda fase de expansão do
bairro Sobral. De igual forma, o Plácido de Castro e o Invasão da
Sanacre também tiveram sua constituição próxima à terceira fase
de expansão, tendo feito parte, em algum momento, do bairro
Sobral. Contudo, por conflitos políticos e ideológicos, essas
localidades foram separadas do Sobral e criados como bairros
independentes. O problema, nesse caso, reside no fato de que essa

116
Habitantes & Habitat

criação não foi aceita de forma oficial, antes, os próprios
moradores decidiam e executavam a nomenclatura do local. Daí a
grande confusão entre os próprios moradores sobre a delimitação e
o nome de seu bairro, e a partir de onde começa o Sobral. Apenas
em 2006, em um levantamento efetuado pela Prefeitura, essas
localidades foram catalogadas como sendo “bairros” distintos,
embora isso não implique oficialização das localidades.
No início da década de 1980 o local começou a ganhar ares
de bairro. A população que vivenciou o processo de transformação
da Fazenda Sobral em espaço tornado “urbano” re-significou o
cotidiano expresso nas relações sociais mantidas anteriormente no
campo. Essa transposição de hábitos, teoricamente característicos
do campo, para o espaço da cidade, se fez presente em costumes
como o cultivo de plantas ornamentais ou medicinais, árvores
frutíferas e canteiros de hortaliças no pequeno espaço dos quintais.
As relações de solidariedade ganharam também novo
significado no momento em que a população se viu unida por
situações que requeriam a busca de seus direitos, no qual era
necessário expressar os valores de respeito, de solidariedade, de
afetividade, de dignidade. Esses homens e mulheres eram oriundos
de vários locais: de outros municípios acreanos, de outros bairros
de Rio Branco, e, até, de outros Estados. Os novos moradores que
chegaram nas primeiras fases de formação/expansão do nascente
bairro Sobral tinham em comum a busca por melhores condições
de vida, representada no desejo de terem simplesmente um lugar
para morar.
Da população que reside atualmente no Sobral, quase
metade é originária de outros bairros da própria cidade de Rio
Branco, sendo interessante destacar que a maioria é oriunda de
bairros adjacentes que formam o que Lima (2006) chamou de
Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco. Na outra metade dos
entrevistados, destaca-se a grande quantidade de moradores
nascidos no município de Tarauacá. A migração de pessoas vindas
desse município para Rio Branco ocorre desde a década de 1970,
quando da “grande abertura das portas do Acre” para a implantação

117
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

da pecuária por investidores do Centro-Sul do Brasil. O processo
violento de ocupação dos seringais tarauacaenses resultou na
venda de uma imensa área de terras, tão grande quanto a atual
extensão da “zona urbana” do município de Rio Branco, a
investidores do Sul e do Sudeste brasileiro. Com isso, a alternativa
que restou à população expropriada foi migrar para a Capital
acreana, onde pensavam encontrar melhores condições de vida. A
região escolhida por grande parte dos tarauacaenses que migraram
para Rio Branco foi a área do Terceiro Eixo Ocupacional, embora
seja possível encontrá-los com facilidade nos bairros Cidade Nova
– e adjacências – e Tancredo Neves – e adjacências.
As populações do bairro Sobral têm uma característica
peculiar, são formadas por pessoas que costumam migrar com
grande intensidade. De acordo com os dados da pesquisa realizada
em 2007 por essa equipe de pesquisadores, dos moradores que
migraram para o local no período de formação, por volta de 1983,
apenas 3% permanecem no local. Dos que migraram entre 1983 e
1990, apenas 10% permanece morando no bairro. No período entre
1991 e 2000 concentra-se o maior número de entrevistados que
migraram para o bairro, perfazendo um total de mais de um terço
dos moradores. Uma outra fase expressiva de migração para o
Sobral concentra-se no período entre os anos 2001 e 2007. Nesse
pequeno espaço de tempo, mais da metade dos moradores
entrevistados passou a morar no bairro, aumentando ainda mais sua
povoação, principalmente nos locais que identificamos como
sendo a terceira e a quarta fase de expansão do Sobral.
O grande fluxo de pessoas tem contribuído para aumentar o
comércio no local. A Estrada da Sobral conta com uma diversidade
de estabelecimentos comerciais que vão desde panificadoras, lojas
de confecções, fundições, bares, até lan houses. Pela localização
do bairro, é comum, nos finais de semana, os moradores visitarem
seus amigos e parentes que residem nos bairros próximos.
O Sobral limita-se a norte com os bairros Bahia Nova,
Floresta Sul e Boa União; a leste com o bairro Ayrton Sena e com o
rio Acre; a oeste com os bairros João Paulo II e Boa Vista; e ao sul

118
Habitantes & Habitat

com o bairro Invasão da Sanacre e com o rio Acre. O trânsito entre
pessoas dos bairros que se situam após a Ladeira do Bola Preta é
intenso. Quem mora no Sobral sempre tem um parente ou
conhecido logo ali, no Bahia, Palheiral, João Eduardo, Pista. Dado
o intenso fluxo de pessoas entre esses bairros, muitos chamam toda
a área situada após a ladeira do Bola Preta de bairro Sobral ou
Baixada da Sobral.
A delimitação do bairro Sobral oferece grandes dúvidas
para seus moradores, uma vez que durante muito tempo se
convencionou chamar “Sobral” grande parte dos bairros situados
após a Ladeira do Bola Preta. Assim, como muitos moradores desse
bairro migraram para formar outros bairros como Ayrton Sena, Boa
União, Boa Vista, João Paulo II, Invasão da Sanacre não ficou
claro, de início, se o que estava surgindo era uma expansão do
bairro Sobral ou um novo bairro.
A Prefeitura de Rio Branco, pretende em seu Plano Diretor,
que os 16 bairros que formam o Terceiro Eixo, ou Salgado Filho, ou
Baixada da Sobral , ou Baixada do Sol, como se prefira chamar,
formem um único bairro. A cidade, assim, passará a ter apenas 50
bairros, e não mais os 184 que existem na atualidade. Com essa
atitude, o poder público municipal pretende que os bairros deixem
de ser convenção de moradores, ou setores georeferenciados
desconhecidos da população local e desprovidos de legislação que
os torne válidos, para se tornarem bairros dentro dos parâmetros
legais e, com infra-estrutura que permita habitá-los salubremente.
A comunidade residente no Sobral, desde a formação do
bairro, enfrentava dificuldades para que seus filhos tivessem
acesso à escola. Diante disso, a comunidade passou a se mobilizar e
reivindicar junto ao poder público a construção de uma escola para
seus filhos estudarem. Conforme informações obtidas em
entrevista com o senhor L.V.C. – desde 1960, morador da área em
que hoje está situado o bairro Sobral –, no ano de 1981, Francisco
José de Oliveira, crente da Igreja Batista Filadélfia, cedeu um
quarteirão de madeira que ficava localizado na avenida que hoje
tem seu nome, também denominada rua da Sanacre, para que

119
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

fossem instaladas salas de aula. O quarteirão, existente ainda hoje,
tinha espaço reduzido, pois possuía apenas um cômodo, onde
funcionavam turmas multiseriadas de l.ª à 4.ª série e, assim
permaneceu aproximadamente por sete meses.

Local onde funcionou a primeira escola do bairro Sobral. Foto: Maria I. G. C. Bonifácio.

Nesse mesmo ano, o então governador Joaquim Falcão
Macedo designou a construção do primeiro prédio da escola em
outro local, na mesma rua. O prédio foi edificado em madeira e
continha duas salas de aula, uma secretaria, na qual funcionava
também a diretoria, dois banheiros e uma cozinha. A escola ficou
sob a direção a Senhora Iracy Oliveira da Silva, nomeada pela
Secretaria de Educação, permaneceu na direção por três anos. Na
administração do governo Nabor Júnior, a escola foi ampliada com
mais três salas de aula e mais dois banheiros.
A partir de l984, a escola passou a oferecer da Educação
Infantil à 5ª série do Ensino Fundamental. Em l987, o Ensino
Fundamental foi ampliado até a 8ª série. Somente no dia l3 de

120
Habitantes & Habitat

março de l990, foi inaugurado um novo prédio, construído em
alvenaria na estrada do Colégio Agrícola, constando oito salas de
aula, uma biblioteca, um pátio, uma cantina, uma secretaria, uma
sala de acervo tecnológico, dois almoxarifados, uma diretoria, uma
sala de coordenação pedagógica, uma sala de professores, uma sala
de datilografia e seis banheiros. Apesar da carência de escolas no
Sobral, a população é atendida, em sua maioria, por essa escola que
atua apenas com o Ensino Fundamental.
Em l997, com a necessidade de vários alunos jovens e
adultos voltarem à escola, foi extinto o Ensino Fundamental de 5ª à
8ª série e implantado o Ensino Supletivo de l° grau. Esses
estudantes haviam deixado de estudar porque precisavam também
trabalhar. Dois anos depois, foi implantado o Telecurso 2000 - 2°
grau, a fim de atender à demanda do supletivo l° grau em 2000,
todo o supletivo foi substituído pelo Telecurso 2000 Fundamental e
Médio. Em março de 2004, foram implantadas duas salas do
Projeto Poronga, atendendo à clientela de l4 a l8 anos com
distorções de idade série referentes ao Ensino Fundamental.
Além da luta pelo acesso à educação, a luta por moradia
sempre esteve presente em Rio Branco e no bairro Sobral se
demonstrou de forma latente. Muitos lá chegaram com a esperança
de terem, finalmente, um lugar para morar com a família. Apesar de
quase totalidade dos domicílios do bairro serem próprios, é, de
certa forma, expressivo o número de casas alugadas. Nem todos
dispõem ainda de um local que possam chamar de “seu”, gastam o
baixo salário que recebem no aluguel ou moram em casas cedidas.
Quase não se vêem terrenos disponíveis para a compra e, a cada
dia, cresce o número de pessoas no local. O aspecto móvel dessa
população e a super-povoação do local, acentuam os problemas de
acesso à moradia, principalmente pelas baixas condições
financeiras dos habitantes.
O nível de escolaridade dos moradores do bairro Sobral
revela a extrema carência dessa população. Quase totalidade dos
moradores estudou apenas até o Ensino Fundamental, sendo que
desses, quase um quinto nunca estudou. A baixa escolaridade é,

121
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

muitas vezes, responsável pelas dificuldades de se conseguir um
trabalho melhor remunerado, como demonstra o levantamento das
condições sócio-econômicas realizado pela Escola João Paulo II,
junto a grande parte desses moradores, que também são pais da
maioria dos alunos do estabelecimento de ensino.
Segundo essa pesquisa, a maioria das profissões exercidas
pelos pais dos alunos são: açougueiro, motorista, vigia, mecânico,
serralheiro, padeiro, frentista, gari, marceneiro, pedreiro,
borracheiro, carpinteiro, segurança e laborista. Entre as mães, as
profissões mais comuns são: operadoras de serviços gerais,
domésticas, autônomas, comerciantes e secretárias, sendo que
quase metade delas ganha apenas um salário mínimo; e quase um
terço ganha menos de um salário mínimo, sendo apenas pouco
mais de um quarto o número das que recebem acima desse valor.
Os dados constantes no Projeto Político-Pedagógico da
Escola dão conta de que, no ano de 2006, funcionaram vinte e
quatro turmas, sendo que, no período diurno, funcionaram quatro
turmas de 1ª série, quatro de 2ª série, quatro de 3ª série, quatro de 4ª
série; e no período noturno funcionaram três turmas de Telecurso
Ensino Fundamental e quatro de Telecurso do Ensino Médio,
perfazendo um total de 949 alunos atendidos.
O que chama a atenção é que, segundo a pesquisa realizada
por esta equipe de pesquisadores, ultimamente, o número de
pessoas que concluiu o Ensino Médio tem crescido
acentuadamente na localidade, perfazendo um total de cerca de um
quinto da população do bairro. O aumento desse índice deve-se ao
grande número de jovens que têm sido beneficiados com o
oferecimento do Ensino Médio por meio de programas como o
Telecurso 2000, o Poronga e o PEEM. Se, por um lado, esses
programas beneficiam essa população, por outro, ainda permanece
desleal a concorrência desses alunos com outros que cursaram o
ensino regular, no que dizer respeito a concursos públicos e
vestibulares.
À precariedade de estabelecimentos de ensino no bairro
soma-se a carência de atendimento de saúde, pois existe no bairro

122
Habitantes & Habitat

apenas uma Unidade de Saúde Familiar. A existência de apenas um
módulo de saúde no bairro obriga a população a buscar
atendimento médico no Posto de Saúde mais próximo, situado no
bairro Palheiral, denominado Augusto Hidalgo de Lima, ou ainda
no próprio Pronto Socorro da Capital.
Desde o final do ano de 2006, a Estrada da Sobral, via
principal de acesso ao bairro, encontra-se em processo de
pavimentação e duplicação. Com a desapropriação das terras,
várias famílias moradoras da referida via terão que sair da
localidade. Isso mexe não apenas com o aspecto estrutural do
bairro, mas, principalmente, com o aspecto humano. Há quase
trinta anos essas famílias se estabeleceram naquele local,
construíram laços de amizade com os vizinhos e apego com o lugar.
Mudar bruscamente, a espera de uma indenização que precisará
passar por alguns prelos judiciais não parece ser a situação mais
confortável para quem construiu ali mais que uma casa para morar,
mas um lugar para se viver.
As principais vias de acesso do bairro são a Estrada da
Sobral, Estrada do Colégio Agrícola e a Via Verde, que passa pelos
bairros Floresta Sul e Invasão da Sanacre, sendo que a primeira liga
o bairro ao Centro da Cidade, passando pelo Primeiro Distrito; a
segunda, interliga as várias fases de expansão do bairro; e a
terceira, faz a conexão do que se pretende ser o “novo centro de Rio
Branco” com o Segundo Distrito.
Geralmente, o que conhecemos do Sobral se resume à via
principal do bairro. Durante a realização da pesquisa no local,
tivemos a chance de vivenciar um dos grandes problemas pelos
quais passa a população das ruas transversais sempre que cai uma
chuva. Quintais alagados, ruas enlameadas e escorregadias,
verdadeiros varadouros a transpor para chegarmos aos moradores.
Parece irônico, perguntar como eles gostariam que o bairro fosse.
“Pelo menos com ruas!”, diz a maioria deles. Algo tão simples, mas
tão distante ainda de ser concretizado, pois onde moram, como eles
mesmos dizem, “nenhuma autoridade chega”, “ninguém
conhece”, “ninguém sabe que existe”.

123
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

A Estrada da Sobral e a Estrada do Colégio Agrícola são as
únicas vias do bairro com pavimentação asfáltica. O asfalto só
chegou a essa área devido à necessidade de os técnicos da Sanacre,
no início dos anos 1980, chegarem por um caminho mais rápido
que a Estrada da Floresta à Estação de Tratamento de Água. Outro
fator que contribuiu para o asfaltamento da Estrada da Sobral, foi a
necessidade de interligar o centro da cidade à estrada do Colégio
Agrícola, para facilitar o escoamento da produção dos colonos por
essa via. A maioria das ruas, ainda na atualidade, se encontram sem
pavimento, acentuando os problemas de deslocamento dos
moradores nos dias de chuva. Das poucas ruas do bairro que
receberam piçarramento, podemos dizer que, de significativo,
apenas as ruas que compõem o loteamento que fica na divisa com o
bairro Boa União, ocupado durante a terceira fase de expansão do
Sobral, receberam piçarramento. Em geral, os moradores não
contam sequer com as piçarras para amenizar os problemas de
tráfego pelas vias do bairro.
A maioria das casas são simples, construídas em madeira.
Pelo menos são atendidos com o serviço de distribuição de água,
que passa pela rua da Sanacre. Apenas uma minoria dos domicílios,
encontrados principalmente na terceira e na quarta fase de
expansão do bairro, ainda não foram contemplados com esse
serviço. Quase metade da população, além de ser atendida com a
distribuição de água pelo Serviço de Águas e Esgoto de Rio Branco
(SAERB), possui também poços semi-artesianos e cacimbas. No
que se refere ao serviço de energia elétrica, a maioria absoluta da
população é atendida, embora na quarta fase de expansão do bairro
as casas, em sua maioria, são atendidas por “rabichos” e “gatos”,
haja vista os postes por onde passará a rede elétrica na localidade já
terem sido colocados, mas os cabos elétricos ainda não foram
instalados, bem como os cabos telefônicos.
Quase metade dos entrevistados que residem no bairro
possuem faixa etária entre 25 e 40 anos, e cerca de um quinto do
percentual total é composto por jovens com menos de 25 anos.
Como se percebe por esses dados, a população que hoje habita o

124
Habitantes & Habitat

bairro Sobral é bastante jovem. Quando indagados sobre o motivo
pelo qual não mudaram do bairro, quase um terço respondeu que
ainda não tiveram a chance. Trata-se, portanto, de uma população
em trânsito, que busca a perspectiva de uma vida melhor, e que,
muito provavelmente, estará em breve se deslocando para outros
bairros da cidade. A identificação que demonstram com o local de
onde vieram ainda é muito forte, pois grande parte declarou desejo
de retornar ao local de origem, caso tivessem condições.
Acostumados com o estilo de vida da “zona rural”, grande
parte dos novos habitantes do bairro Sobral tiveram que passar por
toda uma “reestruturação de vida” gerada com a “urbanização” do
local. Essas famílias são compostas, em sua maioria, por casais
com uma média de 3,4 filhos, e se mudaram para o local porque
tinha a intenção de alcançar melhores condições de vida,
impulsionados pela perspectiva de oferecer a possibilidade de
continuidade nos estudos e de uma moradia digna para os filhos.
Além do cuidado com os filhos, uma outra preocupação
dessas famílias é o cuidado com os netos, uma vez que em metade
das residências existe, pelo menos, um neto morando junto, sem
contar com o número acentuado de familiares e agregados
morando em uma única casa, chegando à média de quatro
moradores por casa, embora em várias delas o número passe de dez
moradores por residência. Um quinto dos lares é formado pelos
donos do domicílio e família, acrescidos de filhos que também
constituíram família, e continuaram morando com os pais.
Segundo dados obtidos nas escolas adjacentes ao bairro
Sobral, a maioria dos alunos são filhos de pais separados, o que
acentua a existência de tantas pessoas morando em uma única casa,
pois, muitas vezes, após a separação, as mães dessas crianças
voltam a morar com os próprios pais.
A religiosidade do bairro é muito acentuada, dado o grande
número de igrejas. Existem no bairro duas congregações da Igreja
Católica, além da presença de Igrejas Evangélicas. Dentre essas,
destacam-se a Assembléia de Deus, Batista, Universal do Reino de
Deus, Igrejas Reformadas, Igrejas em Células e Neo-Pentecostais.

125
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

No bairro também há um centro espírita que atua com seu
culto de adoração do tipo “religião da floresta”, com a presença da
Ayahuasca.
Os índices mais altos de freqüência dos religiosos nas
Igrejas pertencem aos evangélicos da Assembléia de Deus, bem
como aos Neo-Pentecostais, perfazendo um total de duas a três
vezes por semana. Durante nossa pesquisa junto aos moradores do
bairro, constatamos que os católicos, os cristãos de Igrejas
Reformadas e Igrejas em Células são os que menos freqüentam as
atividades da Igreja, participando apenas de uma a duas vezes por
mês. Os cristãos da igreja Universal do Reino de Deus e demais
denominações religiosas comparecem às atividades no templo
religioso de uma a duas vezes por semana. Já os cristãos batistas
participam das atividades na Igreja, em média, duas vezes por
semana.
Para um terço dos moradores da localidade a vida antes de
migrar para o bairro era boa. Pouco menos de um terço afirmou que
a vida era de trabalho e um sexto afirmou que a vida era “normal,
dava para viver”.
A carência de áreas de lazer no local e o fato de a maioria da
população economicamente ativa passar praticamente o dia inteiro
no trabalho justificam o fato de maioria dos entrevistados
afirmarem não fazerem nada para se divertir no momento em que
chegaram ao bairro. Vale ressaltar que grande parte das pessoas que
estão em idade de desenvolver trabalhos está desempregada, o que,
ainda que indiretamente, aumenta os índices de inatividade e
grupos de pessoas desocupadas “perambulando” pelas ruas do
bairro. Grande parte dos entrevistados, porém, afirmou que se
divertiam ao reunir-se com suas famílias e ao ir para a igreja, o que
demonstra a manutenção dos laços familiares como forma de
resistir às adversidades da vida.
Os conflitos de terra e as atividades de grilagem de áreas
urbanas tiveram seu momento máximo quando da chegada dos
primeiros migrantes ao bairro Sobral. Nas fases de expansão
posterior, até pelo fato dos pretensos loteamentos, houve um “certo

126
Habitantes & Habitat

controle” das relações estabelecidas quanto à propriedade das
terras.

Quarta fase de expansão do bairro Sobral. Foto: Reginâmio Bonifácio de Lima.

As condições de infra-estrutura do bairro constituem o
grande eixo das reivindicações dos moradores. Essas populações,
que tiveram que se adaptar rapidamente às condições precárias do
bairro, gostariam de tê-lo encontrado pelo menos com as ruas
pavimentadas ou com o atendimento do serviço de saneamento
completo. Basta visitar o bairro em um dia de chuva mais forte para
verificar a que esses anseios se referem. São ruas alagadas ou
enlameadas, esgotos transbordando, dificuldade até mesmo para
sair do próprio quintal – isso em pleno verão, imaginem, no
inverno, as dificuldades pelas quais passam esses moradores.
É preciso maior atenção do poder público para essa área.
São mais de oito mil pessoas, aglomeradas em uma faixa de terras
de aproximadamente 516.073 m². É impossível não perceber que

127
Trajetórias e experiências no bairro Sobral

com uma população tão significativa, ainda se persista em acreditar
que o “Sobral”, como muitos costumam “debochar” seja um bairro
onde se “desconhece o controle de natalidade”. É fácil falar
precipitadamente e preconceituosamente contra os moradores da
localidade. Mas quem conhece a carência e as dificuldades de
sobreviver em um lugar desassistido pelas condições mínimas de
sobrevivência, vê que os moradores do Sobral são cidadãos
riobranquenses que apenas desejam ter condições de viver
dignamente e cuidar de suas famílias.
A rotina desses moradores, semanalmente, está em muito
ligada ao fato de precisarem acordar cedo, encarar uma viagem em
um ônibus que, de tantos passageiros, torna-se apertado, e que, de
“interessante” tem apenas a alta tarifa. Essas pessoas passam o dia
longe dos filhos, sem saber como e com quem estão, muitos ainda
têm a preocupação de que o “bico” ou o “biscate” com o qual
sustentam a família está perto do fim e novamente passarão uma
temporada sem trabalho. Essas são apenas algumas das
dificuldades enfrentadas cotidianamente por essas populações que,
em muito, se parecem com as demais populações da localidade.
Nas lutas diária, são essas gentes que “fundaram e ainda
fundam” a cidade. É através de pessoas como essas que a história
de Rio Branco se faz e se refaz para os milhares de “cidadãos” que
tornam o bairro Sobral “seu lugar” de moradia. Todos os dias,
erguendo seus “tapiris”, avistando em um terreno baldio a
esperança e a expectativa de realizar seu sonho de ter um “pedaço
de chão” para morar.
A trajetória dos moradores do bairro Sobral emerge de
sonhos, expectativas, das lutas pela sobrevivência e das
“adaptações” empreendidas. Nosso intento nesse ensaio não foi
fazer um tratado sobre o bairro, mas perceber como se dão as
relações entre os habitantes e destes com seu habitat. Esse ensaio
não esgota as possibilidades de leitura desse lugar magnífico e
instigante que é o bairro Sobral. Fica-nos a certeza de que nossa
intenção foi bem mais que analisar dados. Buscamos perceber, a
partir do fragmentário espelho que compõe as histórias desses

128
Habitantes & Habitat

habitantes em suas vivências na formação e transformação de seu
habitat, que nas condições de saúde, na casa, no aluguel, no
processo de ocupação da terra, na educação, no ônibus, na água, na
luz existem mais que dados estatísticos, existem valores
vivenciados que formam e transformam a vida das pessoas em suas
idas e vindas.

129
Habitantes & Habitat

OBSERVAÇÕES SOBRE AS RELIGIÕES
DOS MORADORES
Deusimar da Cruz Albuquerque
Reginâmio Bonifácio de Lima

Vista parcial do Terceiro Eixo ou Baixada da Sobral. Foto: Reginâmio B. Lima.

N este ensaio, nos ateremos às questões sócio-religiosas dos
bairros e como os seus moradores participam das
atividades de suas respectivas igrejas, associações
religiosas ou grupos religiosos.
Para obtermos informações que nos levassem a conhecer
melhor os moradores e suas religiões, fizemos pesquisas de campo
e entrevistas. A partir dos dados obtidos, foi possível termos um
conhecimento inicial sobre os grupos religiosos de maior
expressão na localidade.
Os brasileiros são profundamente religiosos e os acreanos
não são diferentes. Entretanto, essa religiosidade é caracterizada
por ser festiva e carnal, vivenciada de forma teatral, voltada mais
131
Observações sobre as religiões dos moradores

para as apresentações públicas e coletivas, do que para a solidão do
foro interior, no fundo de si mesmos. O conceito “Deus” está
presente nos discursos, nas idéias, na cosmovisão, mas
dificilmente encontramos consenso quanto a esse conceito.
Sobre a religiosidade dos entrevistados que moram nos
bairros Ayrton Sena, Boa Vista, Boa União, Floresta Sul, Invasão
da Sanacre, João Paulo II, Plácido de Castro e Sobral, é certo dizer
que a maioria é católica (45%), seguida pelos assembleianos – de
diversos ministérios da Assembléia de Deus (23%), neo-
pentecostais (13%), batistas (6%), agnósticos (6%), Igreja
Universal (3%), Igreja em Células (2%), Igreja Reformada –
Presbiteriana e Metodista (2%) e outras religiões (7%).
Percebemos que quase metade dos entrevistados disse ser
católica ou assembleianos, contudo, o fato de professar uma
religião não quer dizer que se compareça com freqüência aos
cultos/missas/encontros de sua crença.
Ao fazer uma relação entre o número das pessoas que
disseram pertencer a determinada religião com a quantidade de
vezes que eles asseveraram ir aos encontros/missas/cultos,
percebemos que muitas pessoas professam determinadas crenças,
mas vão à igreja apenas uma vez por ano, enquanto outras vão cerca
de cinco vezes por semana. Para não prejudicarmos o contexto de
estabelecimento de médias a serem traçadas e com o fim de
definirmos quantas vezes essas pessoas vão às “igrejas”, traçamos
cálculos matemáticos com pontuações distintas para cada resposta
de mesma categoria, tabulações distintas para cada item,
possibilidades de interações e interlocuções em setores de mesma
religiosidade e projeções de curso nos vieses crescente e
decrescente de pontos por resposta, tendo como padrão a ida às
igrejas uma vez por semana. Assim sendo, numa tabela padrão com
66 variáveis iniciais e sete variáveis base por religião, chegamos a
algumas conclusões.
Os membros da Assembléia de Deus, segunda religião mais
professada, são os que mais vão à igreja, com seus membros e
simpatizantes freqüentando os cultos em média de duas a três vezes
por semana. Em alguns bairros como o Sobral a maioria dos
132
Habitantes & Habitat

entrevistados que se disseram assembleianos vão para as
congregações mais de duas vezes por semana, contudo, os que
dizem congregar nas sede da área, vão uma vez por semana ou
menos.
As igrejas neo-pentecostais de diversas ramificações,
crenças e formas de cultos, têm uma constância de seus membros
nos trabalhos religiosos, com a freqüência variando de duas a três
vezes por semana.
Os membros das Igrejas Batistas, em seus diversos grupos,
freqüentam os trabalhos religiosos duas vezes por semana, em
média.
Algumas religiões mantiveram o mesmo padrão de
resposta quanto à freqüência de seus membros, dentre as maiores
podemos citar os Mórmons, Testemunhas de Jeová, Adventistas,
Santo Daime e Espírita. Sabemos que são religiões distintas, com
crenças e rituais distintos, contudo, pelas respostas que seus
participantes e freqüentadores assíduos deram, agrupamo-nas em
um único núcleo. Seus participantes e freqüentadores vão às
reuniões, em média, de uma a duas vezes por semana.
Os membros da Igreja Universal do Reino de Deus
afirmaram ir para o culto semanalmente, variando suas respostas
numa média de freqüência de uma vez por semana.
Os entrevistados que disseram participar das igrejas
Católica, Metodista Wesleyana, Presbiteriana e Igrejas em Células,
afirmaram freqüentar as atividades de culto em suas igrejas numa
média de uma a duas vezes por mês. Constatamos que existem
grupos de católicos carismáticos que vão à igreja todo fim de
semana, às vezes duas ou três vezes na semana; contudo, há grupos
que vão apenas uma vez por ano, isso quando vão. Quanto à igreja
em Células, a maioria das pessoas reúne-se nas casas uma vez por
semana, e raramente congregam no templo. As igrejas Metodista
Wesleyana e Presbiteriana foram as que apresentaram o menor
índice de participação de seus membros nos trabalhos religiosos,
ficando à frente apenas dos agnósticos que, por não crerem em
Deus, não vão às igrejas.

133
Observações sobre as religiões dos moradores

Respostas predominantes dos “donos e donas de casa”
por assunto e religião:
Locomoção
Religião Estado Civil Idade Filhos até o trabalho Moradia Escolaridade

Casado 26 a 49 anos 3,8 filhos Bicicleta Madeira Primário
Igreja 68% 63% em média 46,25% 46,25% 48,4%
Católica Viúvos 49 anos ou Ônibus Mista Não alfabetizados
11% mais 25,9% -------- 31,45% 27,45% 20,35
Casado 26 a 49 anos 3,0 filhos Ônibus Madeira Primário
Assembléia 65% 60% em média 45% 45 % 40%
de Deus Viúvo 49 anos ou Bicicleta Mista Não alfabetizados
15% mais 20% -------- 40% 40% 25%
Casado 26 anos ou 1,8 filhos em Ônibus Madeira Primário
Igrejas 53% menos 43,2% média* 43,2% 71% 28,4%
Pentecostais Solteiro 26 a 49 anos Bicicleta Mista Ensino Médio
43% 28,4% -------- 28% 14,5% 28%
Casado 49 anos ou 3,8 filhos em Ônibus Madeira Primário
Neo- 61% mais 53% média 46% 46% 46%
Pentecostais Solteiro 26 a 49 anos Bicicleta Mista Ens. Fundamental
31% 30% -------- 38% 30% 23%
Solteiro 26 a 49 anos 2,8 filhos Bicicleta Madeira Ensino Médio
Igrejas 54% 57% em média 57% 71% 43%
Batistas Casado 26 anos ou Ônibus Alvenaria Primário
43% menos 28% -------- 28% 15% 28%
Casado 49 anos ou 4,5 filhos Ônibus Madeira Ens. Fundamental
Outras 43% mais 42,6% em média 57% 57 % 57%
Religiões Viúvo 26 a 49 anos Bicicleta Mista Ensino Médio
29% 29% -------- 29% 28,5% 28,5%
Solteiros 26 a 49 anos 3,0 filhos Madeira Ens. Fundamental
Sem 50% 86% em média 75% 62,5%
religião Casado 26 anos ou Alvenaria Ensino Médio
37% menos 12% -------- 23% 12,5%

Fonte: Questionários da Pesquisa realizada no Terceiro Eixo Expandido.
* Pelo fato de os casais serem muito jovens, o número de filhos é menor que nos outros grupos.

134
Habitantes & Habitat

Ao compararmos as relações sociais estabelecidas pelos
moradores a partir de suas religiões, podemos pontuar alguns fatos
que se mostraram variados em suas respostas.
O número maior de casados, juntos, “amigados” e
congêneres está entre os chefes de família católicos. Enquanto
pudemos perceber o maior número de solteiros entre os Batistas, e
maior número de viúvos entre os chefes de família pertencentes ao
grupo que denominamos de outras religiões (Metodista
Wesleyana, Presbiteriana, Mórmons, Testemunhas de Jeová,
Adventistas, Santo Daime, Espírita, Umbanda, Quimbanda, etc.).
Percebemos que a idade média dos moradores está entre os
26 e os 49 anos. Sendo que, essa faixa etária corresponde,
principalmente, aos que se declararam “sem religião”. Esse dado
pode, a longo prazo, fazer com que esse grupo reduza se
comparado aos demais.
A média de filhos entre os grupos varia bastante, sendo o
grupo denominado “outras religiões” o que tem mais filhos por
média de casal, enquanto o grupo que tem a menor média de filhos
é o das igrejas pentecostais, por causa do alto índice de casais
recém-casados.
O grupo que mais se utiliza de ônibus para ir trabalhar é o de
“outras religiões”; entre os que mais utilizam de bicicletas para se
locomover até o trabalho, destacam-se os Batistas.
Os que se auto-denominaram sem religião, são os que têm o
maior número de casas em madeira, sendo que, dentre as casas de
madeira, a grande maioria se destaca por estar em estado regular de
conservação. Dentre os da Assembléia de Deus, dois quintos têm
casa mista, enquanto um quinto dos sem religião, possui casa de
alvenaria.
A escolaridade, de forma geral, ainda é muito baixa em
todos os grupos. Contudo, percebemos que entre os casais novos,
aumentou o índice de escolaridade, embora uma parte considerável
desses novos “chefes de família” tenha estudado em programas de
educação de jovens e adultos. Percebemos que os grupos “sem
religião” e “outras religiões” são os que abrangem o maior número

135
Observações sobre as religiões dos moradores

de pessoas com o Ensino Fundamental. Dentre os que têm o
primário completo ou incompleto, destacam-se os grupos neo-
pentecostais e católicos. No grupo dos que possuem o Ensino
Médio, ainda que incompleto, destacam-se os Batistas e “outras
religiões”. O maior índice de não alfabetizados foi encontrado
entre os membros da Assembléia de Deus e da Igreja Católica. De
forma geral, podemos dizer que os que mais estudaram em séries
do ensino regular são os grupos batistas e de “outras religiões”,
enquanto os que menos estudaram nessa modalidade de ensino são
os grupos das igrejas Católica e Assembléia de Deus.
Diante dos dados levantados, chegamos à conclusão de que
os grupos religiosos estão crescendo e um dos fatos que contribuem
para isso é a utilização de vários métodos para alcançar as pessoas.
Hoje, a metade dos moradores encontra-se inserida em algum
grupo religioso Evangélico e um sexto se diz fora de qualquer
grupo; os demais fazem parte do grupo católico. Se os grupos
religiosos continuarem crescendo como têm crescido, podemos
dizer que mais dez ou quinze anos, os que se dizem sem religião
serão em quantidade muito menor do que são atualmente.
Percebemos que os grupos religiosos que no passado não
davam tanta importância para os estudos e formação acadêmica de
seus membros são os que menos têm em suas membresias pessoas
que tenham concluído o Ensino Médio e, muito menos, o Superior.
Todavia, aqueles que, desde cedo, deram importância devida à
escolarização e à formação acadêmica, têm em sua membresia um
número considerável de pessoas que concluíram o Ensino Médio e
o Superior.
A maior parte dos membros de alguns grupos religiosos
disse não fazer nada para se divertir, a não ser ir para as igrejas. Mas
existem membros de diversos grupos religiosos que, para se
divertirem, praticam esportes, fazem churrasco, vão à casa dos
familiares, visitam amigos, e passeiam em parques. Essas práticas
são identificadas, em especial, nos grupos considerados
evangélicos. Já os outros grupos, como os católicos e os sem
religião, têm essas mesmas praticas em quantidade muito menor.

136
Habitantes & Habitat

Dentre suas respostas, o que mais se destacou foi o fato de afirmarem
que as formas mais utilizadas para se divertirem são as de ir para os
bares e festas em casa noturnas.
É necessário que cada ser humano saiba que é importante
professar uma convicção, uma crença, independentemente de raça,
escolaridade, aparência ou situação financeira. O homem é um ser
religioso, ele sente necessidade de adorar algo ou alguém. Dentro em
si, tende a buscar por alguém celeste, divino ou sagrado, e, essa busca
pode ser norteada por algumas orientações. Não se trata de
religiosidade ou práticas enganatórias para satisfazer a mente
humana. As diversas religiões têm demonstrado que podem cuidar
de interagir com o homem, ligando-o a algo que ele acredite ir além
das forças terrenas conhecidas.
Existe a real perspectiva de não estarmos sós no universo. De
não sermos os únicos seres pensantes. De existirem outras formas de
vida, como descritas nos vários livros religiosos espalhados pelo
mundo. O universo foi criado por alguém. Não é obra do acaso ou de
uma explosão cósmica.
A influência religiosa na vida cotidiana dos moradores dos
bairros que compõem a “Baixada da Sobral” é positiva. Eles buscam
concretizar suas perspectivas de vida no pensamento religioso, com
isso, tornam-se pessoas mais “espirituais”, que desenvolvem um
sentimento de moralidade, respeito e humanidade.
São pessoas que sonham e investem em seus sonhos,
planejam e têm esperança de realizar seus planos. O sentimento
religioso de cada cidadão os encoraja a resistir às lutas, às trajetórias,
à desilusão, às perdas familiares e às decepções com as instituições,
sejam elas do âmbito federal, estadual ou municipal; enfim, à falta de
credibilidade na política. Todos esses males são encarados por esses
sujeitos com perspectivas futuras.
Nas várias formas de religião e de religiosidade, encontram-
se alívios e expectativas sobre-humanas. Todas as religiões mostram
isso, ora no singular, ora no plural. Que dizermos de tudo isso? É
reconfortante saber que esse ser transcendente, conhecedor de tudo,
que tem poder para criar existe, e, em Jesus Cristo, podemos chamá-
lo de Pai.

137
Habitantes & Habitat

BAIXADA DO SOL
Processo de Ocupação no Início do Século XXI
Lélcia Maria Monteiro de Almeida
Reginâmio Bonifácio de Lima
Regineison Bonifácio de Lima

E m pleno século XXI, a cidade de Rio Branco ainda convive
com constantes processos de ocupação de terras em áreas
ainda não ocupadas. Exemplos desses processos é a recente
139
Baixada do Sol

ocupação de uma área de aproximadamente cem hectares de terra,
localizada no Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco, também
denominado Regional VI ou Baixada do Sol, como definida pelos
órgãos gestores do Município, ou ainda, como popularmente
conhecida, “Baixada do Sobral”.
Iniciada no mês de abril do ano de 2007, principalmente por
cidadãos, em sua maioria, provenientes dos próprios bairros da
Regional: João Eduardo I e II, Aeroporto Velho, Bahia Velha, Bahia
Nova, Sobral, João Paulo II, Plácido de Castro, Floresta Sul e
outros. Esses ocupantes alegavam, em suas muitas falas, não
possuirem uma área de terra onde pudessem construir suas
moradias e, com elas, suas vidas.
De acordo com informação dos líderes da ocupação na
área, quase duas mil famílias se dirigiram para o local em busca de
um lote de terra. Não negam, porém, que em meio a esse
significativo número de pessoas, existem muitas que têm onde
morar, mas fazem grilagem urbana, pegando seus lotes de terra
para depois venderem por um preço abaixo do estabelecido pelo
mercado.
Assim como em processos anteriores de ocupação,
ocorridos principalmente na década de 1970, em vários bairros de
Rio Branco, ao chegarem ao local, essas pessoas utilizaram como
estratégias de ocupação da área a construção de centenas de
“choupanas” e “tapiris” feitos de palha, lonas e madeira bruta.
A nova ocupação na “Baixada do Sobral” é uma área que
não possui grandes condições de infra-estrutura para seus
moradores, e essa área em especial não conta com absolutamente
nenhum serviço, uma vez que não tem ruas, energia, e nem mesmo
água potável, pois, os poucos poços existentes fornecem águas
barrentas, amargas e com cheiro desagradável.
Na busca pela terra, e especialmente pela sobrevivência, os
ocupantes da área, assim como muitos de seus companheiros do
passado, enfrentaram a violência gerida a partir de interesses
diversificados que dificultaram as construções de suas moradias e
seus estabelecimentos na área, tornando o conflito pela terra no
Terceiro Eixo Ocupacional de Rio Branco uma realidade em pleno
século XXI.

140
Habitantes & Habitat

No dia 06 de setembro de 2007, uma quinta-feira, cinco
meses após o início da ocupação da área, oficiais de justiça
estiveram no local para reintegração de posse, acompanhados por
dezenas de homens dos órgãos gestores do Estado e do Município,
bem como dos representantes da Polícia Militar e da tropa de
choque da Corporação. Durante a reintegração de posse, foram
utilizados equipamentos como caminhões, trator e outros. Eles
cumpriram o mandado de reintegração de posse, determinando a
demolição das casas e a retirada imediata das famílias da área.
Durante a desapropriação do espaço houve resistência e os
ocupantes para impedir a derrubada dos barracos fizeram uma
barreira humana. Várias pessoas ficaram feridas, algumas
disseram que foram agredidas pelos escudos dos militares quando
estavam fazendo um cordão de isolamento.

141
Baixada do Sol

O Mandado de Reintegração de Posse em favor de Joana
Simões dos Santos foi assinado pelo Juiz de Direito Luís Vitório
Comolez, da Vara de Órfãos e Sucessões da Comarca de Rio
Branco. A terra em questão faz parte de uma ação de herança da
família, que tramita há vários anos no judiciário.
Os ocupantes contestaram a ação judicial, alegando que
muitas pessoas moram na terra há vários anos. Se esse fato não é
visto como verdadeiro para todos, o Instituto de Terras do Acre –
ITERACRE – ratificou o fato de que em três hectares de terras
existem habitações que estão lá há mais de 02 anos, sendo que
algumas estão há mais de 10 anos, e pelo uso das terras, se tornaram
verdadeiros seus donos. Com isso, relembramos a antiga questão
do usucapião como modo de adquirir propriedade imóvel pela
posse pacífica e ininterrupta durante certo tempo. Apesar da
existência da lei, o conflito pela posse da terra na área pode ser
comprovado a partir das imagens produzidas por vários jornais de
circulação no Estado.
Depois de três tentativas de reintegração de posse e dezenas
de “casebres” destruídos, os ocupantes se dirigiram das terras em
litígio para a rua que dá acesso ao local. Atualmente cerca de 80
famílias estão acampadas no meio da rua, nas terras próximas ao
Campo do Vidal, no bairro Bahia Velha, aguardando providências
do poder público, em busca de um lugar para morar. Enquanto isso,
ficam expostos ao período das chuvas e ao perigo de viver em uma
área insalubre.

142
Habitantes & Habitat

VIVÊNCIAS E LAZER
NA “BAIXADA DA SOBRAL
Maria Alzerina Bonifácio da Silva
Reginaldo Bonifácio de Lima
Selyana Gomes Cavalcante
Thaylinne Cavalcante Andrade

Vista aérea da área do SEJA. Fonte: Memorial dos Autonomistas.

A área que compõe as terras que a Prefeitura nomeou como
Regional VI, e que Reginâmio Lima (2006) chamou de
Terceiro Eixo, é mais conhecida pelas populações que
moram fora da localidade como sendo a Baixada da Sobral14.
Baixada porque grande parte de suas terras são baixas em relação
ao restante da cidade, e, Sobral, por causa da Fazenda Sobral que
existia na localidade.
14
Artigo produzido pelos bolsistas que muito auxiliaram na execução da pesquisa. Após revisão, a equipe de
organizadores achou por bem inserir no corpo do texto este excelente artigo que foi escrito de forma concisa e
meritória.

143
Vivências e lazer na Baixada da Sobral

Essa área já contou com o Colégio Aprendizado (próximo
ao local em que hoje está situada a Escola Flaviano Batista), com a
Fazenda Sobral (próximo a atual Estação de Tratamento de Água –
ETA I), com a residência de descanso do governador (próximo ao
atual areal que se encontra na rua da Sanacre), com o Bola Preta
(casa de diversão que deu nome à conhecida Ladeira de mesmo
nome, situada próxima onde, atualmente, é a Vila Militar), o forró
(próximo à Escola Tancredo Neves), dentre tantos outros locais.
Ainda hoje conta com várias áreas de lazer, esporte,
entretenimento, prazer e diversão.
Existem poucas praças na localidade. Os dezesseis bairros
que formam o setor, com quase trinta e cinco mil pessoas dispõem
de apenas a “Praça da Semsur”, a pracinha do João Eduardo e a
Praça Governador Joaquim Falcão Macedo, para que as pessoas
possam se entreter. Os poucos campos de futebol situam-se em
áreas particulares, contudo, existem áreas em que se podem
praticar esporte e lazer, ainda que precariamente.
Na “Baixada” não existem teatros, nem parques urbanos
como o “Parque da Maternidade” ou do “Tucumã”. Não existem
Memoriais ou casas de shows, aliás, não tem nem agência bancária
ou dos Correios. Há apenas duas escolas de Ensino Infantil para
atender toda a região. As quadras das escolas estão caindo aos
pedaços, o alambrado corroído, as folhas de alumínio reviradas e as
arquibancadas precisando de reformas urgentes.
Mas existem pessoas que agem com boa vontade,
aproveitando os espaços para desenvolverem as atividades que
acreditam serem importantes para seu bem-estar. Mais que isso,
acreditam poder influenciar as outras pessoas com suas atividades
e anseios por melhorar o viver na localidade. Podemos ver crianças
brincando com “petecas”, “pepetas”, “tac-bol” e, nos fins de tarde,
a partir das 16 horas, muitos se reúnem nas ruas locais sem-saída,
para jogar futebol, brincar de “baleado”, da “manja”, preparando-
se para o jantar que logo-logo será servido, após muitas
negociações das mães para que algumas crianças tomem banho.
Existem vários locais que se destacam na ambiência urbana
da “Baixada da Sobral”: o SEJA, único centro poli-esportivo da

144
Habitantes & Habitat

localidade, o Ginásio Coberto Álvaro Dantas, as praças da Semsur,
do João Eduardo e a do bairro Plácido de Castro. Esses locais são
muito freqüentados, principalmente o SEJA, cujas dependências,
em dias de fluxo intenso da população para a localidade, ficam
lotadas, não comportando de forma adequada para lazer, diversão e
esporte, o número de pessoas que se dirigem ao local.
No período de verão, com o calor intenso que atinge a
Capital acreana, é comum ver banhos improvisados na quebrada do
barranco que existe em frente ao Colégio EJORB, na praia da
IBRAL, nas redondezas da ETA I, que faz frente à praia do Amapá,
além de alguns clubes que possuem açude e são convidativos para
um dia de lazer na Estrada da Floresta.
Os fins de semana na localidade, como em toda a Rio
Branco, começam às sextas-feiras à noite, com lanchonetes que
dispõem de variados tipos de lanches e sucos, sorveterias que não
deixam em nada a desejar às do restante da cidade, missas nas
diversas igrejas católicas, cultos nas evangélicas reformadas,
evangélicas pentecostais, igrejas em células, reuniões espíritas;
reuniões para “mirar” através de determinados chás; bares que
parecem funcionar diuturnamente, sem fiscalização quanto à idade
de seus freqüentadores; prática de jogos como baralho, dominós e
outros; botequins, onde se pode comprar uma dose ou uma garrafa
inteira; motéis de luxo, semi-luxo e suítes simples; e localidades
que reúnem pessoas para dançar e beber (sendo que nesses locais
quase sempre existem quartos para que os casais possam ficar mais
à vontade).
Aos sábados é comum ver alguns religiosos com suas
pastas na mão, sombrinha ou guarda-sol em outra, indo de casa em
casa, anunciando as “Boas Novas”. Também é possível ouvir os
lindos sons das canções de religiões que atuam com cultos matinais
e entoam lindas melodias que fazem pensar nas coisas boas da vida.
Por falar em canções, também é corriqueiro ouvir os vizinhos
testando quem tem o som mais potente, a cinqüenta metros de
distância se ouve muito bem a ambos, embora não seja possível
discernir muito bem se é o estilo calipso, axé, dance ou forró que

145
Vivências e lazer na Baixada da Sobral

está mais alto. Vez por outra, ouve-se uma melodia evangélica, em
meio ao potente teste de som. Nesse momento, as donas de casa
cuidam de lavar suas roupas, arrumar a casa e fazer o almoço, que
será servido próximo ao meio dia. Enquanto isso, crianças correm
pelas casas, cachorros latem, pessoas gritam, outras estão
acordando após uma noite de cansativo trabalho, e, pesquisadores
andam pelos bairros da localidade fazendo entrevistas.
Após o almoço de sábado há como que um alívio de
tensões. O ambiente fica mais calmo até perto das quatorze horas,
isso se não estiver ocorrendo um churrasco de costela na
vizinhança. Costela regada à cerveja em latinha e guaraná da
região. As pessoas se acalmam, o bairro se aquieta, os moradores da
Regional parecem, finalmente, alcançar por alguns momentos o
descanso que necessitam para continuar a luta da semana seguinte.
Em breve, começarão a sessão de sábado, o futebol ou os corpos
terão tido tempo de processar parcialmente a comida e despender
energia para o restante das atividades. Está para começar tudo de
novo.
É sábado à tarde. Muitas pessoas se reúnem em frente à
televisão, se preparam para ir jogar bola, para continuar os afazeres
domésticos, consertar algumas pendências, enquanto alguns estão
chegando do trabalho e outros, só retornarão para seus lares ao
entardecer. Algumas famílias se dirigem para os banhos, outras vão
às praças e áreas de lazer improvisadas, principalmente as crianças,
adolescentes e jovens. Algumas escolas permitem que a
comunidade use suas quadras, outras não. Aos poucos, os
comércios vão fechando suas portas, enquanto as lanchonetes e
sorveterias vão abrindo as suas para a clientela que começa a
chegar.
Algumas igrejas têm programação para seus fiéis e
familiares, enquanto os botecos de esquina viram pontos de
encontro de alguns que chegam do trabalho e vão “tomar uma pra
arrematar o dia”. Muitas e diversas são as atividades
desenvolvidas, incontáveis e imensuráveis: desde algumas
senhoras que se sentam no chão de suas casas com os filhos

146
Habitantes & Habitat

pequenos ou os netos no colo, enquanto conversam e catam
piolhos; até agitados idosos, ansiosos por ouvidos que estejam
dispostos a ouvir seus relatos. Assim, anoitece na Regional VI.
O despertar da noite se depara com adolescentes ávidos por
passear na região, ir a botecos, curtir um pouco mais o esporte, a
paquera e a azaração, ou simplesmente “dar uma volta” para ver o
movimento. Milhares de pessoas se preparam para ir às dezenas de
igrejas existentes no local, enquanto outros vão dar um passeio,
“tomar uma”, “ver no que a noite dá”. Por volta das vinte horas e
trinta minutos até às vinte três horas é comum ver lanchonetes
cheias, sorveterias de portas abertas, bares, botequins e locais de
diversão imprópria para menores. E, como em todo lugar, também
existem pessoas querendo fazer o mal. Há uma música do grupo O
Rappa, que representa bem o contexto da idéia de marginalidade e
marginalização que se tem da localidade. A música do grupo, que
foi escrita pensando em moradores das favelas do Rio de Janeiro,
bem poderia ser aplicada aos moradores da regional VI de Rio
Branco. A letra da música é assim:

Menos de cinco por cento dos “caras” do local
São dedicados a alguma atividade marginal.
E, impressionam quando aparecem no jornal
Tapando a cara com trapos, com uma Uzi na mão.
Parecendo “árabes do caos”,
Sinto muito “cumpadi”,
Mas é burrice pensar que esses caras é que são os donos
da biografia,
Já que, a grande maioria daria um livro por dia
Sobre ARTE, HONESTIDADE e SACRIFÍCIO.

A vida noturna continua, mas a grande maioria das pessoas
que havia saído volta para suas casas, preparando-se para o
domingo que está para chegar. Enquanto isso, entre uma batida e
outra de dominó, um copo e outro de cerveja, risadas e afogamento
de mágoas, nasce o domingo.
Dia agitado, mas que começa um pouco mais tarde que os
outros. Dia de banhos, futebol, igrejas, diversões, brigas de casais,
147
Vivências e lazer na Baixada da Sobral

televisões ligadas e muita esperança nos corações. De manhã, as
churrascarias improvisadas à beira das ruas assam as carnes e
frangos que serão compradas próximo às onze horas, depois dos
cultos matinais e da limpeza das residências, hora em que as
pessoas fazem suas compras nas feiras improvisadas, já que o
mercado Luiz Galvez, o Mercado da Semsur como é mais
conhecido, pouco tem a oferecer. São mais de 35 mil pessoas
vivendo e convivendo, visitando parentes, andando; o circular de
bicicletas é constante, a frota de ônibus é reduzida pela metade, os
poucos carros são de visitantes ou de alguns moradores mais
abastados da região.
É mais uma semana que se inicia. Muitas das famílias não
têm o que comer. Literalmente comem farinha com água. Alguns
estão doentes e já programam como irão dormir na fila para
agendar uma consulta no único posto de saúde da localidade. Os
módulos de saúde são muitos, só faltam os médicos, enfermeiros,
funcionários e o remédio – o restante tem. Alguns módulos
funcionam, mas a grande maioria não – o que congestiona o Pronto
Socorro. As escolas estão de portão fechado, algumas abriram suas
quadras para jogar futebol, enquanto nos barrancos e encostas do
rio Acre, às margens do rio, como dizem os geógrafos, as pessoas
começam a chegar para tomar banho no poluído e quase seco
principal rio da Capital.
Na hora do almoço, cada um se arranja como pode. Se em
algumas residências há fartura – na medida do possível –, em
outras, há falta, e muita falta, de comida.
Assim, preguiçosamente se inicia a tarde de domingo.
Preguiça essa que logo se esvai pelo agitar das crianças e das
conversas de parentes que não se viam há algum tempo. Os rituais
das tardes e noites de domingo são bem parecidos com os de
sábado. Com a diferença de que a vida noturna de domingo parece
se encerrar às vinte e duas horas, num prelúdio à segunda-feira que
se aproxima.
Na localidade, há muitas coisas interessantes para se fazer
e, a partir de agora, iremos citá-las de forma mais pontual. Aqui
mencionaremos apenas algumas das dezenas de atividades

148
Habitantes & Habitat

interessantes e locais que podem ser visitados.
Vamos começar com o Complexo Poli-esportivo Francisco
Matias, mais conhecido como SEJA, por ter pertencido à
Secretaria da Juventude do Acre – SEJA. Está localizado na rua Rio
Grande do Sul, bairro Aeroporto Velho. Abre às 4h30min da
manhã. As pessoas fazem caminhada, os alunos da Escola Áurea
Pires fazem atividade de lazer, escolinhas de futebol e o Centro de
Referência de Assistência Social – CRAS – desenvolvem
atividades.
No complexo, são realizadas várias atividades como
futebol society, futsal, futebol de areia, vôlei de quadra, vôlei de
areia, handball, cooper, caminhadas, damas, xadrez, dominó.
Também são desenvolvidas atividades de caratê, capoeira, kung fu,
Tae kaendo. A área do SEJA dispõe de estacionamento para vinte
carros, praça namoradeira, parque infantil, pista para treino de
caminhada, com boa infra-estrutura. Essa área é utilizada para
andar de bicicleta, caminhar, paquerar, estudar. Uma clientela
diversificada utiliza o local todos os dias.
Entrevistamos algumas pessoas na área do SEJA para saber
o que tem de bom para fazer no local e as respostas foram muito
interessantes por relacionar o esporte e o lazer não apenas a
momentos em que se está de folga do trabalho, mas também a uma
estrutura social.

Aqui tem de bom o lazer pra população, né? Dos
bairros dessa redondeza aqui perto só tem o SEJA pra
lazer... e lazer que eu digo é o divertimento. Pra
população carente... a população merece o prestígio e o
lazer que eles procuram. Se não tivesse essa área o que
ia ser das pessoas? Muitos que estão aqui, o destino
deles seria o vício, as drogas, a bebida. Essa área é
muito importante... Eu acho que se tivesse outros
lugares iguais a esse aqui, seria muito melhor (L. C. O.
Voluntário no SEJA. Entrevistado por Selyana G.
Cavalcante).

O maior dos problemas do SEJA não é o vandalismo ou

149
Vivências e lazer na Baixada da Sobral

alguns alunos briguentos que depredam o local, mas a falta de
funcionários e de verba para a manutenção do local. Ainda assim,
vale à pena conferir esse complexo esportivo.
Ainda no Aeroporto Velho, temos o Ginásio Poli-esportivo
Álvaro Dantas, mais conhecido como Ginásio Coberto, onde são
realizadas práticas esportivas, jogos escolares e outras atividades
correlacionadas aos esportes. Por décadas, esse foi o único ginásio
poli-esportivo da Cidade.
Saindo do Ginásio Coberto, passando pelo SEJA, ainda na
rua Rio Grande do Sul, encontramos o Centro Cultural Lydia
Hammes, mais conhecido como INPA ou torre de controle do
Aeroporto Velho. Nesse lugar, atualmente, são desenvolvidos
trabalhos sócio-culturais, como dança para os idosos, encontro de
grupos da terceira idade, ginástica, artes marciais, exposições
culturais, dentre várias outras atividades. A antiga sala de
embarque do primeiro aeroporto de Rio Branco foi tombada como
patrimônio histórico de Rio Branco e tornou-se um centro de
cultura histórica. Além do aconchegante ambiente arborizado do
local, pode-se usufruir das últimas catraias da Capital, além de uma
belíssima vista de parte da cidade. É só subir as escadas que levam à
torre e conferir.
Pouco à frente encontramos a Praia da Ibral, situada no
final da rua Rio Grande do Sul. Está localizada por trás da antiga
Indústria de Beneficiamento de Borracha ltda., daí o nome Ibral.
Lugar onde a comunidade do bairro Aeroporto Velho se encontra,
aos finais de semana de verão, para praticar esportes, tomar banho
nas águas do rio Acre, encontrar com os amigos e se divertir no
Festival de Praia da Ibral.
Ainda no bairro Aeroporto Velho, na Estrada da Sobral, está
localizado o Teatro Barracão Francisco Matias, ou “Barracão”
como é mais conhecido. Esse é um dos mais antigos teatros de Rio
Branco, o nome foi escolhido em homenagem ao artista popular e
amante do teatro, Francisco Matias, responsável pelo local até a sua
morte. Matias coordenou vários artistas de teatro e juntos
realizaram inúmeras atividades culturais e de lazer. Matias era

150
Habitantes & Habitat

carismático e muito popular, um profundo conhecedor das
dificuldades de acesso às atividades culturais e de lazer na região
da Baixada da Sobral, onde morou e trabalhou até a sua morte.
Como se pode ver, a maior parte das atividades voltadas ao
entretenimento está situada no bairro Aeroporto Velho, que teve
inicial planejamento da Prefeitura, mas que nunca foi concluído.
Além do Aeroporto Velho, outro bairro que se destaca por conter
várias áreas de entretenimento e diversão é o Floresta Sul, onde se
encontra a Escola de Ensino Fundamental Clínio Brandão, a
campeã 2007 do Prêmio de Gestão Escolar. Além de um importante
centro de lazer, é nesse local que se encontram as sedes campestres
de diversas entidades de classes tais como: SINTEAC,
ASSDERACRE, ASSDEPLAC, CLUBE DOS SUBTENENTES
E SARGENTOS DA PMAC, chácara dos maçons “Parque das
Acácias”, além do conhecido balneário Pôr-do-sol. Lá
encontramos também indústrias que geram empregos para a
população local, entre elas estão: cerâmica T.J. Barro Vermelho,
Cila Laticínios, Fábrica de Refrigerantes Libertador, etc. Existem,
nesse bairro, ainda, alguns motéis muito conhecidos na cidade,
entre eles: Scorpion Motel, Floresta, Executivo entre outros. Com a
construção da “Terceira Ponte” e a construção parcial do Anel
Viário de Rio Branco, passando pelo bairro Floresta Sul, a
localidade se tornou um importante elo entre os dois distritos da
capital, ligando o Novo Distrito Industrial ao antigo. Na localidade,
também podemos encontrar o campo da Federação Acreana de
Futebol e o segundo maior estádio da capital. Ainda no bairro
Floresta Sul encontramos a Casa do Índio, onde diversas etnias
existentes no nosso Estado hospedam-se e se reúnem para as suas
atividades culturais e de saúde.
Pouco mais à frente, no bairro Invasão da Sanacre, próximo
à “Terceira Ponte”, existe o Complexo de Motocross
“Amazonrio”, é o point para os praticantes de motociclismo e moto
velocidade. Atualmente, é onde são realizadas as provas dos
campeonatos amazônico e acreano de motocross.
Na rua da Sanacre está localizado, próximo ao seu término,

151
Vivências e lazer na Baixada da Sobral

o Forró do “Valdomiro”, um clube bastante conhecido e visitado
pelos moradores da vizinhança que gostam de dançar o tradicional
forró, xote e baião nos fins de semana, para se descontraírem um
pouco. Logo mais à frente, encontramos a primeira e mais
importante Estação de Tratamento de Água do município de Rio
Branco, a ETA Sobral, construída na década de 1970.
No bairro Bahia Velha, podemos encontrar o CRAS, onde
se aprende informática, cursos de variados tipos e se tem
acompanhamento social. Entre as ruas Men de Sá e a rua Mauá,
está localizada a Casa de Leitura “Matias”, onde todos podem ter
acesso a bons livros para ler e viajar na imaginação.
As quatro mais importantes vias da Regional são a Estrada
da Sobral, a rua Rio Grande do Sul, a rua Campo Grande e a Estrada
da Floresta, onde se encontra o maior número de localidades
voltadas ao relacionamento pessoal, comércio, lazer, diversão e
cultura.
Ainda existem duas praças que merecem destaque: a Praça

Praça do Mercado Luiz Galvez. Mais conhecida como Praça da SEMSUR. Foto: Stive K. L. Carneiro.

152
Habitantes & Habitat

da Semsur, no bairro Palheiral, e a praça Joaquim Macedo, no
bairro Plácido de Castro.
A área onde está situada a Praça da Semsur é muito
importante para os moradores do bairro, bem como para os alunos
da Escola Serafim da Silva Salgado e para os comerciantes que
atuam nas dependências do Mercado Municipal Luiz Galvez. No
mercado, são vendidos peixes, frutas, verduras, e carne. Existem
restaurantes, eletrônicas, lanchonetes, sorveteria, armarinhos,
xerox e “banquinhas de bombons”.
A praça é bastante utilizada por casais que vão namorar e
por pessoas que gostam de se encontrar com os amigos e passar um
tempo conversando, principalmente nos fins de semana. O coreto
da praça é o ponto de encontro dos alunos da Escola Serafim
Salgado, EJORB e Heloísa Mourão Marques, que passam pelo
mercado Luiz Galvez para ir às escolas ou retornar para suas casas.
O coreto também serve de palco para o forró que ocorre nos fins de
semana nas dependências da praça, reunindo dezenas de
moradores das proximidades ou cultos ao ar livre, realizados pelas
igrejas evangélicas.
A Praça Joaquim Macedo, no bairro Plácido de Castro é um
local bem diversificado no atendimento aos moradores. Lá existem
lanches, sorveterias, play ground, área de ginástica, parque
infantil, quadra de salão e quadra de areia. Aos fins de tardes e aos
finais de semana, é comum ver crianças, jovens e adolescentes em
busca de recreação, esporte e lazer na localidade. Também há os
que preferem ir namorar no local, além de grupos de religiosos que
gostam de ir cantar louvores na praça aos sábados.
Esses são alguns dos lugares onde se podem encontrar
vivências e convivências no Terceiro Eixo Expandido ou “Baixada
da Sobral”, como é mais conhecido. Lugares que, na maioria dos
casos, não têm a infra-estrutura necessária para o desempenho de
atividades diversas, mas que, com a ajuda dos moradores e muita
criatividade, se transformam em verdadeiros locais de
interatividade.

153
Habitantes & Habitat

O FLUXO DE ÁGUAS NO RIO ACRE E AS ALAGAÇÕES
QUE ATINGEM O TERCEIRO EIXO RIOBRANQUENSE
Reginâmio Bonifácio de Lima
Pedro Bonifácio de Lima

Foto do rio Acre com Terceiro Eixo em destaque (parte inferior).
Fonte: Memorial dos Autonomistas.

O rio Acre está localizado na Bacia Sedimentar Amazônica,
situada na Província Amazonas-Solimões. Por ser uma
área Equatorial situada em baixas latitudes, possui um
clima quente e úmido (Equatorial). Região de baixa latitude,
apresenta médias térmicas mensais elevadas que variam e estão
acima dos 24 °C.

Embora as médias térmicas estejam acima de 24 °C em
toda a região (exeto porções restritas do planalto das
Guianas), o regime de chuvas apresenta diferenças
importantes conforme a atuação dos diferentes
sistemas atmosféricos. Verificam-se totais anuais
superiores a 2.500 mm e ausência de estação de seca

155
O fluxo de águas no Rio Acre

em toda a Amazônia ocidental, onde a presença das BP
(baixas pressões) equatoriais é quase permanente. Por
outro lado, há uma diagonal subúmida que se estende
de Roraima ao sul do Pará, chegando até Rondônia e
parte do Acre, cujas médias pluviométricas são menos
elevadas, apresentando alternância da estação seca e da
chuvosa e caracterizando um clima equatorial
subúmido. (ROSS, 1996, p. 103).

Em meio à Região Amazônica, que tem um sistema
atmosférico quente e úmido, propícia à alta pluviosidade, o rio
Acre está inserido. Uma das características mais comuns do rio
Acre são as mudanças de direção do seu curso. A rede de drenagem
é bem distribuída, correndo sobre rochas sedimentares, não
formando cachoeiras. O rio apresenta forma sinuosa em seu curso
de águas, com pequenos trechos retilíneos. A grande quantidade de
curvas que o rio apresenta ocasiona a formação freqüente de
bancos de areia em seu leito. De mesma forma, o rio Acre
transporta grande quantidade de sedimentos em suspensão, o que
confere às suas águas uma coloração turva, típica de um rio de
“água branca”.
A dinâmica do rio Acre envolve um fenômeno muito
comum que é o deslizamento das margens. A erosão não ocorre
apenas no “perímetro urbano”, mas também no “rural”, sendo que
os impactos na “zona rural”, em alguns trechos, são menores,
porque a mata ciliar e a mata de terra firme são mais preservadas,
com muitas canaranas adaptadas à umidade, na margem do rio,
ajudando a conter a erosão.
Nas enchentes, as margens dos rios ficam saturadas de
água. No início da vazante, quando o nível da água começa a
baixar, a pressão hidrostática diminui e a água anteriormente retida
nas margens é liberada. As margens deslizam, então, de forma
rotacional, ou em pacotes, verticalmente.
O rio Acre não é um rio uniforme, ele tem um desnível em
seu leito, com algumas partes mais rasas e outras mais fundas. Esse
desnível é ocasionado pela retirada de sedimentos realizada pela
própria dinâmica do rio. Devido à velocidade e o poder de erosão
156
Habitantes & Habitat

do fundo do rio, o atrito da água no fundo consegue arrancar muitos
sedimentos com facilidade, fazendo “marmitas” gigantes e
causando essas deformações.
Durante seu percurso, o rio Acre constantemente realiza um
trabalho de erosão, transporte e deposição. Ele ainda não está com
o seu canal definido, tem essa mobilidade de meandro e vai
deixando ao longo do caminho meandros abandonados, também
conhecidos como paleocanais. Pela própria dinâmica do rio Acre é
possível que daqui a alguns anos, geologicamente, o rio deixe de
contribuir para a vida nesses paleocanais.
O intemperismo que predomina no rio Acre é o mecânico
ou físico, por causa da quebra dos barrancos e dos movimentos de
massas15.
No rio Acre, o transporte de materiais pelas águas se
processa por suspensão, rolamento e saltação. O depósito do
material detrítico e do dissolvido ocorre de modo seletivo. Quando
as águas atingem os setores dos vales de menor inclinação,
aproximando-se dos chamados níveis de base, onde ocorrem os
processos de sedimentação, primeiro são depositados os materiais
mais grosseiros e pesados, depois os finos e leves. A ação das águas
pluviais e fluviais é marcante nos ambientes de clima temperados e
tropicais, onde a água é mais abundante.
As ações produzidas pelo homem interferem no ambiente
natural, como os desmatamentos às margens do rio para a extração
de madeira ou as queimadas da floresta para a criação de gado; e
causam alguns danos irreversíveis ao meio ambiente. Com as
constantes queimadas e desmatamentos surgem cicatrizes no solo
como os filetes, ravinas e voçorocas, além de intemperismo físico
ocasionando as remoções de massa.
É surpreendente a quantidade de áreas desmatadas nas
margens do rio Acre, o que acaba desprotegendo o solo e
aumentando a erosão e o assoreamento do rio.
15
No rio Acre também ocorre o intemperismo químico, mas, durante a pesquisa, o rio estava cheio e não foi
possível observar as reações químicas em suas margens.

157
O fluxo de águas no Rio Acre

A erosão provoca remoção de massas16 em função da água
da chuva que satura o solo, como esse solo saturado não é
consolidado, por efeito de gravidade, ele vem a baixo. O material
removido se desloca barranco abaixo em direção ao rio,
provocando o assoreamento, que já está em estado bastante
avançado. Esses movimentos de massa são mais freqüentes nas
áreas com maior declividade. Nos últimos anos, esse fator tem se
agravado, principalmente na cidade Rio Branco, prejudicando a
população, causando perda de casas, ruas, prédios, etc.
O fluxo das águas do rio Acre na Capital acreana e, em
específico, nas áreas baixas como no Terceiro Eixo Ocupacional de
Rio Branco, ocasiona um aspecto que mexe com a vida dos
moradores da localidade ano após ano. Quando a cota de alerta do
nível das águas do rio atinge a régua na marca de 13,5 metros, no
Terceiro Eixo, a área baixa existente na parte norte do bairro Ayrton
Senna, a qual faz divisa com o Sul do Aeroporto Velho, bem como a
parte norte-noroeste do Aeroporto Velho, ficam parcialmente
cobertas pela água.
Um dado preocupante, que ao mesmo tempo chega a
intrigar, é o fluxo de águas do rio Acre. A cada oito ou nove anos o
rio tem seu leito tomado por uma grande quantidade de águas no
“inverno amazônico”. Os moradores mais antigos, que vivem há
décadas às margens do rio, dizem que “no ano em que as
mangueiras dão muitos brotos em novembro”, intensificando o
período de frutificação, esse é o período que o rio alcança os mais
altos índices do nível de água ao longo de seu leito.
Em nossa equipe, embora dispondo de dois professores de
geografia, não dispúnhamos de geógrafos que estudassem o fluxo e
a dinâmica das águas na Bacia do Alto Acre. Não dispomos de
trabalhos que falem desse assunto em nossa Capital. O que mais se
aproxima e até enseja um estudo de fluxo de águas é o trabalho do
16
Os movimentos de massa são fenômenos naturais da dinâmica externa responsável pela modelagem da paisagem.
O rio é responsável tanto pela erosão de planaltos e vertentes como pela sedimentação de vales e baixadas,
transformando o relevo regional, e, em especial, o relevo local.

158
Habitantes & Habitat

professor Claudemir Mesquita17. As grandes cheias do rio Acre,
segundo noticiado em jornais que circularam na Capital acreana
nas décadas de 1970 e 1980, como “Varadouro”, “Nós Irmãos”, “O
Rio Branco”, além de diversos relatos orais de moradores que
viram e sofreram com as alagações, nos fazem pensar na real
possibilidade de existência de um fluxo contínuo e periódico de
águas, que atinge a cidade de Rio Branco e todas as cidades do Vale
do Acre a cada oito ou nove anos.
Houve algumas grandes alagações em Rio Branco, e, nos
últimos anos, pelo assoreamento do leito dos rios, o desmate das
florestas ciliares e a poluição dos mananciais e fluxos de água que
deságuam no rio Acre, vemos crescer, a cada grande alagação, o
índice de água que atinge a expandida e “desordenada ocupação”
da cidade de Rio Branco.
Um senhor cearense que entrevistamos afirmou que, em
1952, houve um grande alagamento em suas terras, no município
de Porto Acre. Em suas palavras: “uma alagação como nunca vi
igual”.
Em 1961, no mesmo município de Porto Acre, fala-se de
uma grande enchente.
Há registros de que em 1970 houve uma grande alagação
que atingiu o Vale do Acre; em 1971, houve uma alagação um
pouco menor.
Em 1979 e, novamente, em 1980, houve duas grandes
alagações que atingiram o Vale do Acre.
Em 1988 há registros de que outra grande alagação ocorreu
também no Vale do Acre. Foi a maior alagação registrada na
história “urbana” de Rio Branco, até então. O IBGE e a PMRB18 já
haviam mostrado, em seus trabalhos e relatórios, a grande
probabilidade de isso ocorrer, mas pouco se fez a respeito.
Entretanto, a alagação de 1997 sobrepujou em quase um
metro a de 1988, assim, mostrando o índice crescente e
preocupante de assoreamento dos canais e leitos onde fluem as
17
MESQUITA, Claudemir Carvalho de. As inundações da bacia hidrográfica do rio Acre: alternativas de ocupação.
Rio Branco: Seplan, 1996.
18
1º Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano/PMRB.

159
O fluxo de águas no Rio Acre

águas dos rios que passam pela Capital. As enchentes não
ocorreram apenas no rio Acre, mas também no Antimary, no São
Francisco, dentre outros rios e igarapés. Mais da metade de Rio
Branco ficou submersa e uma área correspondente a mais de dois
terços do município de Sena Madureira também ficou embaixo das
águas.
Em 2005, houve uma grande alagação que atingiu todo o Vale do
Acre, inundando parcialmente várias cidades.
Em 2006, o índice registrado de áreas atingidas pela alagação foi
um pouco menor, se comparado ao das áreas atingidas na alagação
anterior. É como se houvesse uma expansão de volume de águas em
determinado período e um recuo durante vários anos, até um
próximo alagamento.

Recorte do Mapa de Imóveis e bairros atingidos em 2006 (Cota: 17 metros).
Fonte: Setor de Georeferenciamento/PMRB

Bairro Castelo Branco e Bela Vista
Terras não atingidas pelas enchentes
Terras atingidas pelas enchentes
Residências atingidas pelas enchentes

160
Habitantes & Habitat

Se os dados estatísticos produzidos se confirmarem e as
informações coletadas através dos depoimentos dos entrevistados
referentes ao ciclo de intensidade de águas estiverem corretos, é
muito provável que, ao permanecerem as atuais condições
climáticas e pluviométricas, no ano de 2014, Rio Branco passe pela
maior alagação de sua história. Assim ocorrendo, algumas áreas –
como por exemplo, as que fazem parte da expansão da cidade para
a parte baixa do Segundo Distrito da Capital, bem como para as
áreas baixas do Primeiro Distrito, com ênfase na Expansão do
Terceiro Eixo – ambas atingidas pelo rio Acre – e das áreas
próximas aos bairros Cadeia Velha, Adalberto Aragão, e a
expansão do bairro São Francisco que se estende rumo ao rio Acre,
numa área de incidência do Rio São Francisco – sofrerão
grandemente com o aumento das águas.
Precisamos nos alongar por várias páginas, falando do ciclo
das águas, para alertar a quem interessar possa e ao poder público
sobre o fato de que estudos mais aprofundados precisam ser feitos,
e que, a expansão da cidade, não deve se dar rumo ao Igarapé da
Judia, haja vista que se o novo Distrito Industrial realmente for
instalado onde está programado pelo Plano Diretor, as águas desse
igarapé ficarão impróprias para consumo. Além disso, a Estação de
Tratamento de Água da Judia não mais terá água para tratar e
abastecer o Segundo Distrito, porque o igarapé morrerá. O
abastecimento da área ficará drasticamente comprometido, sendo
necessário que a ETA II (que ainda não está em funcionamento,
mas que tem o dobro da capacidade da ETA I) distribua água
potável para a regional do Segundo Distrito.
Enquanto isso, no Primeiro Distrito, as áreas dos bairros do
Terceiro Eixo – mais conhecido como Baixada da Sobral –,
juntamente com as áreas situadas no Segundo Distrito que são
adjacentes ao Taquari, Seis de Agosto e Baixada da Cadeia Velha,
representando mais de um terço da população da Capital, sofrerão
ainda mais por causa das águas. Eles já sofrem com falta de
trabalho, saúde, educação, moradia, falta de bem-estar social. A
cada ano, durante alguns meses, sofrem com a tensão de uma

161
O fluxo de águas no Rio Acre

possível cheia do rio, que ameaça atingir suas residências.
Sofrerão ainda mais com o “inchamento” do local pelo grande
número de pessoas morando em áreas de terra tão densamente
ocupadas, com o aumento do fluxo das águas, tomando suas
residências e com o descaso dos governantes para com sua
“situação de desgraça”.
Desde muitos anos, são visíveis os transtornos pelos quais
passam os moradores desses locais. É de grande importância que
haja uma preservação da floresta que margeia o rio Acre, para que
haja preservação das vidas de animais e vegetais na localidade,
evitando que possa ocorrer situação de desmate, caça e pesca
predatória. Também é necessário se implantarem políticas de
acesso à moradia e de educação ambiental, para que os moradores
próximos às margens do rio e os visitantes não venham a degradar
essas áreas. Portanto, é preciso políticas de inclusão social e uma
fiscalização mais acirrada para conscientizar e prevenir contra
ações de pessoas que queiram tirar proveito predatório dessas áreas
alagadiças.
A natureza é capaz de se auto-sustentar. Todos os elementos
do ecossistema estão interligados: os seres vivos, animais e
vegetais, relacionam-se uns com os outros e com o meio físico. Isto
é a reunião e a interação do ambiente físico ou natural com os seres
vivos que aí habitam.
A água é um recurso renovável de fundamental importância
para a sobrevivência dos seres vivos, ela é necessária para a vida,
para a saúde e para a produção de alimentos. É necessário que se
desenvolvam ações para assegurar a preservação e a
conscientização por parte do Estado, da Prefeitura, do poder
público e dos habitantes, para que as gerações futuras também
possam desfrutar desses mananciais e viverem com dignidade na
localidade que “escolheram” para ser seu habitat.

162
Habitantes & Habitat

REFERÊNCIAS

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Entidades:
Biblioteca da UFAC
Biblioteca Pública Estadual
CDIH da UFAC
Fundação Garibaldi Brasil
IBGE
Memorial dos Autonomistas
Patrimônio Histórico Estadual
Setor de Georeferenciamento Municipal
Departamento de Água e Saneamento do Acre - DEAS

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Habitantes & Habitat

SOBRE OS AUTORES:
Reginâmio Bonifácio de Lima - natural de Rio Branco –
Acre, é Bacharel em Teologia, pela FATEBOV – RR, e Licenciado em
História, pela UFAC – AC. É Especialista em Cultura, Natureza e
Movimentos Sociais na Amazônia, pela UFAC – AC; obteve os graus
de Mestre e Doutor em Teologia, pela FATEBOM – SP. Atua como
Pesquisador e Policial Proerd na Diretoria de Ensino da PMAC, e é
professor de Teologia e Metodologia da Pesquisa, no Seminário
Teológico Kerigma, em Rio Branco – Acre. Atualmente, cursa
Mestrado em Letras/UFAC e lidera o Grupo de Pesquisa Sobre Terras
e Gentes: Amazônia em Foco. É o autor de Sobre Terras e Gentes: o
terceiro eixo ocupacional de Rio Branco (1971 – 1982); Retorno à
Santidade; O Sermão da Montanha;PROERD Rio Branco: Crianças
e Adolescentes de bem com a vida; Habitantes e Habitat v.1; e, Ensaio
Sobre Fatos e Datas da Congregação Presbiteriana do Bahia; além
de vários outros artigos.

Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifácio – natural de
Tarauacá – Acre, é Licenciada em Letras/Vernáculo; Especialista em
Cultura, Natureza e Movimentos Sociais na Amazônia. Atualmente,
cursa Mestrado em Letras/UFAC. Atua na rede pública estadual de
ensino como professora de Língua Portuguesa e coordenadora do
grupo de Pesquisa O Discurso nas Redes do Poder. Atua na Faculdade
Teológica Batista Betel, como professora de Monografia e no
Seminário Teológico Kerigma, como professora de Educação Cristã e
de Língua Portuguesa, em Rio Branco – Acre. É autora de Habitantes
e habitat v.1; O Imaginário Social nos Jornais de Rio Branco (1900-
1999); Sonhos em BVA v 1 e 2; Ideologia e Poder, além de diversos
artigos publicados em anais e congressos.

Lelcia Maria Monteiro de Almeida – natural de Cruzeiro do
Sul/AC, graduada em História pela UFAC e Especialista em Cultura,
Natureza e Movimentos Sociais na Amazônia. Atua como
coordenadora no grupo de pesquisa Sobre Terras e Gentes: Amazônia
em Foco. Atualmente, desenvolve trabalhos como Coordenadora do
Setor de Acervo na Fundação Cultural Garibaldi Brasil. É autora de

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Sobre os autores

diversos artigos e capítulos de livros, dentre eles, Osmarino Amâncio:
tempo e resistência.
Cleunilde Silva dos Santos – natural do Amazonas,
Licenciada em História/UFAC; Especialista em Psicopedagogia/IVE.
Atualmente trabalha como Coordenadora de Projetos no
Departamento de Patrimônio Histórico do Acre da Fundação Cultural
Elias Mansour.

Leila Gonçalves da Costa – natural de Rio Branco – Acre.
Licenciada e Bacharela em História. Atualmente é professora em
Brasiléia – Acre e Coordenadora de Micro-Rede da Secretaria de
Estado de Educação em Epitaciolândia. Publicou, em parceria com
Reginâmio B. Lima, o artigo João Eduardo I e II e Ambiência
Ocupacional nos bairros João Eduardo I e II.

Antônio Vladimir da Silva Barbosa – natural de Rio Branco
– Acre. É Licenciado em Geografia pela UFAC. Atualmente,
desenvolve atividades como professor na Secretaria de Estado de
Educação. É autor de diversos artigos publicados em Congressos e
Seminários.

Regineison Bonifácio de Lima – natural de Rio Branco –
Acre. Bacharel e Licenciado em História. Já atuou na rede de ensino
particular da cidade de Rio Branco. É escritor e autor de vários artigos
publicados em seminários e Anais de Congressos Acadêmicos.

Pedro Bonifácio de Lima – natural de Rio Branco – Acre.
Licenciando em Geografia, atualmente, desenvolve trabalhos junto à
Secretaria Municipal de Educação. É escritor e autor de vários artigos
publicados em seminários e Anais de Congressos Acadêmicos..

José Erivan Gomes Cavalcante – natural de Tarauacá –
Acre. É Licenciado em Matemática. Atualmente, desenvolve
trabalhos junto à Polícia da Família, pela PMAC.

Deusimar da Cruz Albuquerque – natural de Tarauacá –
Acre. Licenciando em Teologia. Atualmente desenvolve trabalhos
junto à Congregação Batista do Cordeiro.
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GRAF-SET
FUNDAÇÃO GARIBALDI BRASIL