You are on page 1of 7

ARTIGO ARTICLE

61

Controle operacional da fluoretação da água de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil Operational control of water fluoridation in Niterói, Rio de Janeiro, Brazil

Lucianne Cople Maia 1 Ana Maria Gondim Valença Eduardo Lúcio Soares 3 Jaime Aparecido Cury 4

2

1 Departamento de Odontopediatria e Ortodontia, Faculdade de Odontologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Av. Brigadeiro Trompowski s/n, Rio de Janeiro, RJ 21941-590, Brasil. rorefa@microlink.com.br 2 Departamento de Clínica e Odontologia Social, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal da Paraíba. Campus Universitário s/n, João Pessoa, PB 58051-900, Brasil. 3 Centro de Ciências Médicas, Universidade Federal Fluminense. Rua Marquês do Paraná 308, Niterói, RJ 24033-900, Brasil. 4 Departamento de Ciências Fisiológicas, Faculdade de Odontologia de Piracicaba. Av. Limeira 901, Piracicaba, SP 13414-018, Brasil. jcury@fop.unicamp.br

Abstract The aim of this study was to evaluate the operational control of water fluoridation at
the city water supply plant in Niterói, Rio de Janeiro, Brazil, from January to December 2000. The water treatment supervisor filled out a questionnaire on the control of water fluoridation. In addition, water samples were collected every two weeks for fluoride analysis before and after treatment. Samples were analyzed by an independent laboratory using an ion-specific electrode. According to the water treatment supervisor, the entire process for controlling fluoride concentration in the water was rigorous and complied with Brazilian guidelines, but according to testing, 96% of samples were inadequate in terms of risks/benefits of fluoride use from water. The information obtained from the plant supervisor and the test data were thus mutually inconsistent. Based on these data, an independent water fluoride concentration control program is needed to ensure the benefits of dental caries prevention for the population. Key words Fluoridation; Water Supply; Water Treatment; Water Analysis

Resumo O objetivo deste estudo foi avaliar o controle operacional da fluoretação da água na
estação de tratamento (ETA) que abastece o Município de Niterói, Rio de Janeiro, durante o período de janeiro a dezembro de 2000. Um questionário elaborado para avaliar o processo de fluoretação da água foi respondido pelos responsáveis pelo tratamento da água na ETA. Além disso, amostras de água, antes e após a adição de flúor, foram coletadas quinzenalmente na ETA para a análise do flúor. As amostras foram analisadas por laboratório externo por meio de eletrodo íon específico. Embora os responsáveis pela ETA tenham afirmado que o processo de controle da fluoretação da água era rigoroso e seguia a legislação brasileira, observou-se que 96% das amostras analisadas encontravam-se inadequadas, considerando-se os riscos/benefícios da fluoretação da água. Assim, verificou-se incoerência entre as informações obtidas pelos responsáveis pela fluoretação na ETA e os valores obtidos nas análises das amostras de água. Esses dados demonstram que deve ser estabelecido um programa independente de controle da concentração de flúor na água do município de Niterói, a fim de garantir à população os benefícios do flúor no controle e na prevenção da cárie dental. Palavras-chave Fluoração; Abastecimento de Água; Tratamento da Água; Análise da Água

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(1):61-67, jan-fev, 2003

1991). pouco se sabe sobre o processo de fluoretação feito na estação de tratamento (ETA). 2001). (2) média das temperaturas máximas anuais. de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. Saúde Pública. composto de flúor utilizado e possíveis períodos de interrupção do processo. sem intervenção nas variáveis (Lakatos & Marconi. de acordo com Schneider Filho et al. tais como: número de fontes. foram coletadas quinzenalmente duas amostras da água bruta (proveniente dos rios Guapiaçu e Macacu. 2000). Entretanto. Santos. Também foram coletadas duas amostras quinzenais da água tratada. et al. Além disso. bem como sobre a concentração de flúor presente na água tratada nessa estação. foi elaborado um questionário para ser respondido pela administração da ETA. Coleta de informações relativas à fluoretação da água de abastecimento do Município de Niterói. mediante o preenchimento de um questionário pelos responsáveis pelo controle operacional da fluoretação da água. C. 2001). Nas últimas décadas do século 20. Introdução Ao longo dos anos. Os dados quantitativos foram obtidos por meio de pesquisa de campo e laboratorial (Lakatos & Marconi. (3) existência ou não de flúor natural nas águas de abastecimento. minimizando seus riscos. 2003 . Por 12 meses consecutivos (janeiro a dezembro de 2000). 2001). (6) existência ou não de dados gerados pelo sistema de controle operacional da(s) empresa(s) Cad. (4) teor de flúor a ser agregado às águas de abastecimento. Na fase de campo e laboratorial. Nesta linha de raciocínio. a área de políticas e estratégias públicas em saúde bucal. Partindo dessa premissa. a odontologia tem passado por grandes mudanças relacionadas ao entendimento do processo saúde-doença. Os seguintes itens foram abordados. durante o período de janeiro a dezembro de 2000. (1992): (1) situação da rede de abastecimento. 1996). sem aumentar a prevalência de fluorose dental (Clarkson et al. estações de tratamento. No que diz respeito ao Município de Niterói. foram analisadas amostras da água tratada e fluoretada na ETA que abastece Niterói. contou-se inicialmente com a obtenção de dados qualitativos a respeito do sistema de fluoretação empregado na ETA de Imunana/Laranjal. com vistas a avaliar o teor de flúor na água a ser distribuída à população. 1991. captada através do canal Imunana/Laranjal). jan-fev. foi considerada nos Estados Unidos como uma das dez principais medidas de saúde pública do século 20 (Anonymous. L. mais especificamente. Rio de Janeiro. a fim de se identificar a existência de flúor natural nos mananciais que abastecem a ETA. 1994). Visto que o principal objetivo da utilização de flúor é maximizar seus benefícios. sendo. áreas de abrangência e cobertura populacional. a existência de mecanismos que viabilizem sua adequada concentração na água torna-se indispensável para que a medida exerça o maior impacto possível na prevenção e controle da cárie. a criação de mecanismos que controlem a concentração de flúor é fundamental para a melhoria da qualidade da água a ser fornecida à população.62 MAIA. 19(1):61-67. Narvai. Rio de Janeiro. muitas são as cidades brasileiras que não dispõem desse processo ou não possuem uma política de vigilância sanitária que controle de forma satisfatória a sua execução (Calvo.. Para tanto. 1992. o presente estudo desenvolveu-se no sentido de analisar o mecanismo de controle operacional da fluoretação da água executado na ETA que abastece o Município de Niterói. portanto. indispensável a ação correta da empresa responsável pelo seu tratamento e fluoretação (Cury. o presente estudo pode ser classificado como uma pesquisa do tipo descritiva. assumindo novas posturas preventivas em relação à cárie dental. uma vez que pretendeu descrever um fato (fluoretação da água de abastecimento) por meio de observação sistemática das suas características. a medida de maior impacto referente no controle do desenvolvimento dessa doença foi o uso de flúor (Cury. visando a detectar a concentração de flúor na água tratada disponibilizada aos munícipes. Rio de Janeiro Com o objetivo de conhecer a realidade do Município de Niterói. Em relação à utilização do flúor em saúde pública. 1999). ainda que sejam conhecidos os benefícios da adição do flúor às águas como medida de promoção de saúde e prevenção da cárie dental. a fluoretação das águas de abastecimento público tem sido uma das principais medidas envolvidas na redução dos índices de cárie em todo o mundo (WHO. abrangendo as áreas de saúde coletiva e. Metodologia Caracterização do estudo Segundo seus objetivos. (5) data de início da fluoretação.

foram utilizadas soluções-padrão contendo de 0. foi encontrada uma baixa concentração de flúor durante todo o período do estudo.03ppm F a 0. um valor desprezível (0. para que se pudesse identificar quaisquer alterações nos teores de flúor da água do rio que viessem a interferir em sua concentração final. e (7) a existência e o conteúdo de regulamentação sobre a fluoretação da água no âmbito estadual e/ou municipal. utilizando-se como composto o ácido fluossilícico (H2SiF6 PM = 144. em média. mediante análise laboratorial feita pela técnica espectofotométrica (Tabela 1). verificou-se que. Rio de Janeiro. micropipetas. verificou-se que não existe flúor nos mananciais que abastecem a ETA e que. 2003 . É importante salientar que até o mês de novembro de 2000 o método utilizado pela ETA para a análise de flúor na água era o colorimétrico da alizarina. béqueres. Para as curvas de baixa. Saúde Pública. tubos de ensaio plásticos e estantes porta tubos de ensaio. por ser este mais apropriado. eletrodo combinado seletivo para íon flúor (Orion 9609). Cad. Procedeu-se inicialmente à realização de curvas de baixa concentração. Análise laboratorial do íon flúor A metodologia seqüencial para medição do íon flúor na água foi realizada seguindo-se recomendações preconizadas por Schneider Filho et al. Soluções de concentração conhecida de flúor foram preparadas a partir de uma solução-padrão de 100ppm de flúor.49ppm F) durante todo o período do estudo. também realizada duas vezes por mês. a fim de se observarem quaisquer desvios nos teores de flúor. desde o ano de 1996. através de uma bomba dosadora de fluxo contínuo. Assim. entretanto. não havendo necessidade. em conjunção com um medidor de atividade iônica. Para tal.1) aplicado diretamente na água filtrada. 19(1):61-67. até o fim do estudo. foram realizadas no Laboratório de Bioquímica Oral da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas. tomadas ao acaso.00 ppm F e uma solução-teste de 0. Coleta da água Tomando-se por base a concentração de flúor.00ppm F. A respeito da água tratada. e (b) amostras quinzenais de água tratada na ETA durante o ano de 2000. jan-fev. Constatou-se também. passou-se a confeccionar curvas de média concentração.0625ppm F a 1. de 0. optou-se por fazer: (a) coleta da água do rio (bruta). utilizou-se de 0. Análise dos resultados Após a conversão dos valores de milivoltagem em concentração de flúor (ppm). (1992). onde eram analisadas em duplicata. após fluoretação feita pela ETA. foi observada (Tabela 2) uma grande variação da concentração de flúor (0.21mg/l (Tabela 1). Já para as curvas de média. esta procede à fluoretação das águas de abastecimento após o seu tratamento. fato que corroborou as informações obtidas na ETA. durante os 12 meses do estudo. nas quais se fez a tabulação dos valores encontrados. sendo seu residual controlado por um operador. em relação à água bruta. de desprezar nenhuma amostra. segundo Prado et al.00ppm F e um teste de 1. (b) coleta da água tratada diretamente na estação de tratamento. a cada hora.03ppm F a 1. portanto. levando-se em consideração: (a) amostras quinzenais de água do rio (bruta) no período do estudo. sendo que 96% das amostras possuíam concentração inadequada. Para fins de avaliação.7mg/l. foram confeccionadas planilhas. a partir do momento em que se verificou a presença de F– na água. pelas respostas ao questionário. considerando-se o valor ótimo residual de flúor. (1992). Contraprovas. As amostras coletadas foram remetidas ao Laboratório de Saúde Bucal do Programa de Pós-Graduação em Odontologia Social da Universidade Federal Fluminense (UFF).05ppm F) foi observado em 100% das amostras.20ppm F a 2. nenhuma das amostras extrapolou o período máximo de 150 dias de armazenamento. realizada duas vezes por mês. Resultados A partir das informações obtidas nas respostas ao questionário ( Tabela 1). que a taxa de aplicação média de flúor na água pela ETA é de 2. utilizouse analisador de íons modelo HI-8417 (Hanna). que se baseiam na dosagem direta dos íons flúor livres com o uso de um eletrodo íon seletivo para flúor. segue-se a Portaria n o 36 do Ministério da Saúde. utilizando-se como valor referencial a média das duas leituras (avaliações). mantendo-se constante por todo o ano. utilizando-se o programa Microsoft Excel 97. Com relação às análises laboratoriais das amostras de água coletadas (Tabela 2) realizadas por laboratório independente.CONTROLE OPERACIONAL DA FLUORETAÇÃO DA ÁGUA 63 de águas que servem à localidade. tendo sido substituído pelo espectofotométrico.40ppm F. Para tanto.

03 0. Tabela 1 Aspectos relevantes obtidos mediante questionário realizado com os responsáveis pelo controle operacional da fluoretação da água dentro da estação de tratamento de Niterói.04 0.65 0.04 0.11 0.04 1.12 0.03 0.01 1.04 0.04 0.03* 0.02 0.05 0.05 0.03* 0.46 0.20 0.22 0.04 0.64 MAIA.47 0.05 0.03 0.04 0.04 0.03 0.13 1. 19(1):61-67.48 0.04 0.21* 0.49 0.01 1.04 0.04 0. respectivamente.04 0. Rio 1 e Rio 2 = Primeira e segunda amostras de água do rio.04 Rio 2 0.45 Média ETA 0.03 1.05* 0. * Coletas feitas fora da ETA/Laranjal (em um estabelecimento comercial).04 1.03 0.95 1.03 0. Quinzenas dos meses do ano Janeiro (1a) Janeiro (2a) Fevereiro (1a) Fevereiro (2a) Março (1a) Março (2a) Abril (1a) Abril (2a) Maio (1a) Maio (2a) Junho (1a) Junho (2a) Julho (1a) Julho (2a) Agosto (1a) Agosto (2a) Setembro (1a) Setembro (2a) Outubro (1a) Outubro (2a) Novembro (1a) Novembro (2a) Dezembro (1a) Dezembro (2a) Média anual Rio 1 0.04 0.01 1.44 ETA 2 0.07 0.04 0.03 0.02 0.03 0.65 0.05 0.06* 0.03* 1.03 1.03 – – – 0.03* 1.03 0.00 1.05* 0. Rio de Janeiro.11 1.04 0. Média rio = valor médio entre os valores de Rio 1 e Rio 2.03 0.04* 0. ETA 1 e ETA 2 = Primeira e segunda amostras de água tratada na ETA.03* 0.12 1.03 0.07* 0.07* 0.03 0.64 0. C.03 0.03 0.02 0.05* 0.04 0.04 0.03 0.03* 0.12 0.04* 0. Cad.03 0.04 0. L.04 0. Rio de Janeiro.03 0. Questionamentos Situação da rede de abastecimento Existência de flúor nos mananciais Início da fluoretação/composto/ método de aplicação Regulamentação seguida pela ETA Residual de flúor na água Dados gerados pelo controle operacional na ETA Controle dos teores de flúor Possíveis interrupções na fluoretação da água na ETA Respostas O volume de água tratada pode chegar a 7.21 0.03 Média rio 0.04 0.02 – – – – – 0.05 0.48 0. Saúde Pública.04 0. respectivamente.05 0.50 0.03 – – – – – 0.04 0.09 0.04 0.04 – – – 0.96 1.04 0.03 1.09 0.03 0.03 0.05* 0. jan-fev.03 1.04 ETA 1 0.0m3/s Não existe flúor nos rios que abastecem a ETA Outubro de 1996/ácido fluossilícico/aplicado com bomba dosadora Portaria no 36 de janeiro de 1990 Residual médio de 0.02 1.08 0. 2003 .93 1.04 0.7mg F/L taxa de aplicação média de 2. Média ETA = valor médio entre os valores de ETA 1 e ETA 2.04 0.45 ETA = estação de tratamento.21mg/l de ácido fluossilícico Controle residual diário/registro em boletins próprios Técnica de espectrofotometria Apenas para manutenção do sistema ou por ser um produto com produção sazonal Tabela 2 Média quinzenal da concentração de flúor na água bruta (rio) e na água tratada (ETA de Imunana/Laranjal) no período de janeiro a dezembro de 2000.04 – – – 0.02 1.04 1.05 0.03 0.03 0.04 0.04 0.03 – – – – – 0.03 0. et al.14 0.

. Freitas et al. caracterizando um percentual de 96% de amostras com valores inadequados. Sabe-se que um dos compostos mais utilizados em todo o mundo na fluoretação das águas de abastecimento público é o ácido fluossilícico (Brasil. Discussão Atualmente. Freire et al. o percentual médio de redução de cárie observado após 25 anos de fluoretação da água foi de 79%. 2001. também foi impossível efetuar a coleta da água do rio (bruta). embora o CPO-D médio encontrado (2.CONTROLE OPERACIONAL DA FLUORETAÇÃO DA ÁGUA 65 Esses valores demonstram a grande incoerência existente entre as informações fornecidas pela ETA em resposta ao questionário e os dados obtidos pelo heterocontrole da fluoretação.. em algumas quinzenas do período de coleta (Tabela 2). impossibilitou a coleta de água tratada dentro da ETA. 1995). Em relação ao município alvo do presente estudo. adequada e sob o controle de um sistema operacional e de vigilância efetivos (Basting et al. considerando-se os dados obtidos no Primeiro Inquérito Epidemiológico de Prevalência de Cárie Dental e Necessidade de Tratamento em Escolares no Município de Niterói (Coordenação de Saúde Bucal. quando utilizada de maneira contínua. Outro fato que merece destaque diz respeito ao tipo de composto fluoretado utilizado e à quantidade e à forma pela qual este é acrescentado à água de abastecimento. ligado a um alarme capaz de disparar toda vez que houver irregularidade Cad. Easley.. pode-se destacar que. (1992). Destaque-se que. Já na cidade de Piracicaba. que era feita diretamente de uma bica receptora próxima aos tanques de tratamento dentro da estação (Tabela 2). jan-fev. segundo Basting et al. foi realizada no ponto mais próximo da estação (um estabelecimento comercial que se localizava a aproximadamente 50 metros da entrada da ETA). Modesto et al. 19(1):61-67. 1996. (1997). Esse fato denota a necessidade de manutenção de medidas de prevenção e controle da cárie dental. o que poderia ser obtido com uma efetiva fluoretação das águas de abastecimento. Saúde Pública. Goiás (57. (1997). Enquanto os valores menos expressivos de decréscimo foram encontrados por Rocchi et al. sendo considerado a pedra angular da prevenção da cárie dental. bem como o seu impacto na prevenção e redução dos índices de cárie da população. Nesses momentos de proibição.7 ppm F (0. 2000).49ppm F) nos valores encontrados.. Diante desse quadro e levando-se em consideração os resultados obtidos no presente estudo. os índices de diminuição da incidência da doença se mostraram mais elevados na cidade de Goiânia. principalmente quando se considera o nível sócio-econômico das crianças estudadas. 1997. A coleta. São Paulo. 1996. sendo necessário também um dispositivo automático de monitoramento da injeção de ácido. não resta dúvida de que o flúor tem um papel fundamental na promoção da saúde bucal. 1975. certamente implicaram prejuízo dos benefícios advindos da fluoretação das águas de abastecimento público no Município de Niterói.. 2003 . considerandose os dados obtidos no Instituto de Geoquímica da UFF.1%). Sua aplicação deve ser feita diretamente no suprimento de água por meio de uma bomba dosadora. Rio de Janeiro.03ppm F a 1.. 1992). uma proibição de caráter verbal. então. sem preocupações com os riscos de fluorose dental. em estudo de Freire et al. com grande abrangência e acessibilidade a todas as camadas da população.6 ppm F a 0. por parte da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae). 2000.81) situe-se dentro dos níveis de prevalência considerados moderados. Murray. Para o Município de Niterói. Reeves.4oC. pôde-se determinar que a concentração ótima de flúor na água da cidade deveria ser em média de 0. 1996. 1999). ainda que a ETA tenha afirmado existir um controle operacional dos teores de flúor na água tratada em seus reservatórios centrais. Tomando-se os valores sugeridos por Schneider Filho et al. tanto em crianças como em adultos (Clarkson & McLoghlin. (1991) em Bauru. ainda existe disparidade nos valores identificados.8 ppm F) para que se pudesse obter o máximo de efeito preventivo. Rocchi et al. a temperatura média anual de 2000 foi de 28. outros tendem a falhar no que diz respeito à adequação e regularidade dos níveis de flúor na água de consumo humano (Calvo. 1992. as análises laboratoriais das amostras obtidas quinzenalmente na ETA de Imunana/Laranjal não demonstraram regularidade nas concentrações de flúor (Tabela 2).. Correia et al.45ppm e as oscilações (0. os percentuais médios de redução de cárie encontrados variaram de 29% a 79%. podem-se identificar grandes distorções no sistema de controle operacional executado na ETA que abastece o município. Schneider Filho et al. São Paulo (29% a 36%). Embora no Brasil diversos estudos tenham demonstrado a eficácia da fluoretação das águas de abastecimento público ao longo dos anos. 1997. A média anual dos teores de flúor igual a 0. 1991). Em algumas cidades brasileiras que possuem água fluoretada. E.

é importante destacar os esforços empreendidos pela ETA. Cad. L. bem como o seu controle. tomandose por base as mesmas amostras (Brossak et al. 1994). na aplicação do composto fluoretado (Reeves. jan-fev. procede de forma irregular à fluoretação da água.47ppm. 2003 . na prática. Embora os esforços da ETA (Cedae) tenham sido evidentes. baseados nos resultados da presente pesquisa.66 MAIA. Tal preocupação é compartilhada pela Organização Mundial de Saúde. Um exemplo disso ocorreu (por ocasião da troca do método de alizarina por Spands. Murray (1992) aponta que o controle do conteúdo de flúor na água pode ser praticado com eletrodo de ionização específico e destaca que é fundamental que os operadores da ETA tenham recebido treinamento para a execução dessa tarefa. infelizmente apenas a mudança no método de análise dos teores de flúor na água. o que pôde ser verificado quando da mudança do método de análise inicialmente utilizado (visual de alizarina) para o espectrofotométrico (Spands). e a Michelle Cecille Bandeira Teixeira. Em nenhum momento a Cedae admitiu a possibilidade de erros provenientes do método de injeção de flúor na água. as correções da injeção de flúor. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior pelo suporte financeiro ao presente estudo. Conclusões A ETA que abastece o Município de Niterói. C. que preconiza a existência de equipamentos de alto padrão para o controle operacional. no período de janeiro a dezembro de 2000. uma vez que a mesma água coletada e medida na ETA (alizarina e/ou Spands) e no Laboratório de Saúde Bucal do Programa de Pós-Graduação em Odontologia Social da UFF (eletrométrico) apresentava diferenças na concentração de flúor.60ppm. em caso de necessidade. não existe mecanismo automático de controle nas oscilações da injeção do ácido. não se mostrou suficiente para promover uma constância nos valores encontrados. Assim como se faz em relação ao cloro. os primeiros tendem a superestimar a concentração de flúor presente na água. Em relação a este último método. Embora os responsáveis pelo controle operacional da fluoretação tivessem ciência das incorreções do sistema. et al. Rio de Janeiro. 1996). 1987). o que foi caracterizado pela variabilidade e descontinuidade nas concentrações de flúor encontradas nas amostras coletadas quinzenalmente. bem como a disponibilização dos compostos fluoretados e o treinamento de recursos humanos para administrar o sistema (WHO. Agradecimentos A Waldomiro Vieira Filho. Além disso. a cada hora é efetuada uma análise da concentração de flúor na água e. pelo auxílio na fase laboratorial da pesquisa. apresentada como um dos requisitos do Programa de Pós-Graduação em Odontologia Social da UFF. enquanto no Laboratório de Saúde Bucal observou-se um teor de 0. técnico do Laboratório de Bioquímica Oral da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas. Esse fato pode ter influenciado diretamente os resultados do presente estudo. no mês de novembro) quando as medições na ETA acusaram um teor de 0. ao se compararem os métodos colorimétricos com o eletrométrico. para ajustar os teores de flúor na água tratada. Rio de Janeiro. tampouco para mantê-los dentro de um nível considerado ótimo. são feitas por um operador. Este trabalho é parte da tese de doutoramento da primeira autora.. Na ETA de Imunana/Laranjal. O controle operacional da fluoretação da água não se mostrou suficientemente adequado no que diz respeito à manutenção de níveis ótimos de flúor na água de abastecimento público. embora se utilize o ácido fluossilícico aplicado por meio de uma bomba dosadora de fluxo contínuo. nem se mostrou receptiva à idéia de que alguns valores encontrados situavamse acima do ótimo recomendado. Tal fato pode ter contribuído para a grande variabilidade da concentração de flúor encontrada em todo o período do estudo. mestranda em Odontologia Social da Universidade Federal Fluminense (UFF). Saúde Pública. 19(1):61-67.

J.. R. R. F. 1992. 50:119-126. 50:1-42.. Andrada & S. Análise da fluoretação da água de abastecimento público na zona sul do município do Rio de Janeiro. E. Revista Brasileira de Odontologia. CURY. 2001. HARDWICK. CLARKSON. J. Decreto no 76. J. 2001.. A. & ANTUNES. Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clínica Integrada. 2003 . 2:32-33. J. MODESTO. Recebido em 19 de abril de 2001 Versão final reapresentada em 10 de dezembro de 2001 Aprovado em 1 de julho de 2002 Cad. C. A.. A. M. Estabilidade do flúor em amostras de água. M.. BROSSAK. BARBOSA.. Technical aspects of water fluoridation in the United States and overview of fluoridation engineering world-wide. M. no Período 1990-1999. Secretaria Municipal de Saúde. A. Fundação Municipal de Saúde. A. J. K. Vice-Presidência de Atenção Ambulatorial Coletiva e da Família. NARVAI.. São Paulo. Journal for Dental Research.. M. M. 2001. 1992. 1991. & KUTHY. C... D. Celebrating 50 years of fluoridation: A public health success history. F. CLARKSON.. C. SCHNEIDER FILHO. Universidade de São Paulo. Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo. PEREIRA. Fluoretação da água. São Paulo: Editora Atlas.. BREVILLIERI. Baratieri. P. A. E. 56:217-221. 21:72-75. L. L. Geneva: WHO.. após 25 anos de fluoretação das águas de abastecimento público. COORDENAÇÃO DE SAÚDE BUCAL. I. 33-68. M.. E. SANTOS. C. D. C. 1975. McTIGUE. 1992. 1999. NARVAI. WHO ( World Health Organization). & BARBOSA. R. riscos e sugestões. & CURY. Centers for Disease Control and Prevention. M. A. M. & ROSA. C.... ALGE. BASTING. 19(1):61-67. Avaliação da prevalência da cárie dentária em escolares do município de Piracicaba-SP. In: Odontologia Restauradora (L. L. C... BRASIL. A. J. A. 2001. FREITAS.CONTROLE OPERACIONAL DA FLUORETAÇÃO DA ÁGUA 67 Referências ANONYMOUS. ZENEBON. D. 1:1-23. Fluoreto em água: Estudo de metodologia analítica e níveis encontrados na região de Campinas.872. International Collaborative Research on Fluoride. P. BARMES. A.. Brasil. M.050 de 24 de maio de 1974. G. FERREIRA Jr. 2000. T. P. M. Revista Gaúcha de Odontologia. M.. R. Tese de Livre Docência. 1991. J. São Paulo: Editora Santos. de 22 de dezembro de 1975. T. 31:44-52. S. 56:29-36. Role of fluoride in oral health promotion. T. São Paulo: Editora Santos. PEREIRA. 1999. I.. CALVO. S. C. Revista de Saúde Pública. MMWR. BATISTA.. & MANFREDINI. Como fazer a vigilância sanitária? Cadernos de Saúde Bucal. 1996. Monteiro Jr. Prevalência de cárie e necessidade de tratamento entre escolares de 6 a 12 anos de idade. A. & BASTOS. M. Brasil.. Universidade de São Paulo. PRADO. M.. S. G. NARVAI. Recommendations for using fluoride to prevent and control dental caries in the United States. 39:228230. 1994. & MENEGHIM. 9:204-207. GO. CURY. BERNARDES. Metodologia Científica. & RICHARDSON. 11:287-292. Revista de Odontologia do Brasil Central. P. REEVES. 3a Ed. Who Technical Report Series. J. T. Seção 1.. P.. British Dental Journal. Uso do flúor e controle da cárie como doença. The use of a colorimeter in analysing the fluoride content of public well water. São Paulo: Departamento de Prática de Saúde Pública. ROCCHI. Primeiro Inquérito Epidemiológico de Prevalência de Cárie Dentária e Necessidade de Tratamento em Escolares de 6 e 12 anos no Município de Niterói/Rio de Janeiro: Relatório Final 1a Parte. EASLEY. J. Saúde Pública. C. R. V. E. Situação da Fluoretação de Águas de Abastecimento Público no Estado de São Paulo – Brasil. A. A. M... BOESSO. Community of Dental Health. M. SCHNEIDER.. 79:893-904. C. F. & McLOUGHLIN. 1997.. Regulamenta a Lei n o 6. Fluoretação e saúde gengival. Revista Gaúcha de Odontologia. TANAKA.. M. 1a Ed. MURRAY. 1:17-22. & MARCONI. A. J. LAKATOS. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública.. 16997. Avaliação da concentração de fluoreto na água de abastecimento público do município do Rio de Janeiro. International Dental Journal.. I. A.. jan-fev. Brasil.. J. C. P. FREITAS.. pp. C. A. Fluoretação da água: Benefícios. O. F. R. A. 1995.. 1987. N. C. Rio de Janeiro: De Paulo Editora. V. H. D. Pediatric Dentistry. Dispõe sobre a fluoretação de sistemas públicos de abastecimento. Rio de Janeiro. V.) CORREIA. Brasília: Diário Oficial da União. 1992. 2000.). SILVA. D. W. B. Vigilância Sanitária da Fluoretação das Águas de Abastecimento Público no Município de São Paulo. 13:21-26. L. M... 40:197-199. BRÍGIDO. 1996. Dissertação de Mestrado. Uso Correto de Fluoretos em Saúde Pública.. M. 2000. PRADO. 1997. Metodologia Científica: A Construção do Conhecimento. Revista do Instituto Adolfo Lutz. FREIRE. G. L.. J. (mimeo.. Goiânia. M. J. D. R. 1996. & MAIA. Niterói: Coordenação de Saúde Bucal. org. Fluorides and Oral Health. p.