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Carlos Drummond de Andrade

A ROSA DO POVO
´ ANALISE DA OBRA

IVAN TEIXEIRA

SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA Vida
Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, na pequena cidade mineira de Itabira, que, na ficção de sua poesia, o poeta soube transformar numa espécie de mito, associando-o sempre à tópica da lembrança dolorosa. Conforme o mesmo argumento poético, as jazidas de ferro da cidade teriam fornecido ao poeta seu jeito austero e brioso de ser. Descendia de fazendeiros e mineradores da região de Itabira. Estudou em Belo Horizonte, tendo se formado em farmácia. Depois de estabelecer contatos com o Modernismo paulista, fundou, em 1925, A Revista, primeiro periódico de vanguarda em Minas Gerais. Participavam de seu grupo literário: João Alphonsus, Emílio Moura, Martins de Almeida, Pedro Nava e Abgar Renault. Trabalhou também na grande imprensa de Belo Horizonte, representada pelo Diário de Minas e Minas Gerais. Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu funções burocráticas no serviço público até 1962. Paralelamente, manteve seções de crônicas em diversos jornais do país. Foi também tradutor e ensaísta. Morreu no Rio de Janeiro, em 1987. Drummond sempre se comportou de modo discreto, avesso à publicidade, notabilizando-se como pai de família tradicional. Todavia, após a morte, veio a público sua faceta íntima de amante dedicado, pois manteve um longo e intenso amor paralelo à vida familiar, que, segundo o discurso biográfico logo estabelecido, lhe teria inspirado diversos poemas eróticos, bem mais explícitos do que os que normalmente publicava em seus livros, como é o caso de O Amor Natural, editado em 1992. Drummond tinha 28 anos quando, em 1930, editou Alguma Poesia, seu primeiro livro. Os poemas que o compõe vinham sendo divulgados desde 1923, quer fosse em periódicos mineiros como o Diário de Minas, A Revista e Verde; quer fosse em veículos mais cosmopolitas do Rio de Janeiro, como O Jornal, Festa; ou em órgãos dirigidos pelos modernistas de São Paulo, como Estética, Terra Roxa e Outras Terras, Revista de Antropofagia.

Obra: Reunião, Nova Reunião
A obra poética de Drummond editada em vida constitui-se, basicamente, por dezenove livros, que se agrupam em dois volumes, com o título de Nova Reunião. Esses volumes foram organizados para homenagear o octogésimo aniversário do poeta, em 1982, mas acabaram saindo no ano seguinte, quatro anos antes de sua morte. Antes disso, porém, os dez primeiros livros dessa série foram organizados e editados pelo autor em 1969, no volume Reunião, que, segundo a unanimidade da crítica, são os melhores livros de Drummond: Alguma Poesia, 1930 Brejo das Almas, 1934 Sentimento do Mundo, 1940 José, 1942

SISTEMA ANGLO DE ENSINO

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ANGLO VESTIBULARES

Os poemas de Antologia Poética foram extraídos dos dez livros que. formas. a política. Por causa desse clima de renovação de estruturas. Vinícius de Morais. 1959 Lição de Coisas. A visão marxista da história propicia um posicionamento crítico dos valores francamente capitalista. o operário. a terra natal (“uma província: esta”) 3. preocupada com a criação de uma linguagem. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 121 • ANGLO VESTIBULARES . da existência (“tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo”) Não é difícil perceber que todos esses temas estão estreitamente interligados: o indivíduo. a família (“a família que me dei”) 4. o presente. domina o propósito de atualização do conceito de arte no Brasil. o individual. Conforme a mesma divisão. na qual tanto se adestra que chega a brincar com as palavras. Mário de Andrade. duas argolinhas”) 9. o coletivo. livros que ficcionalizam o passado mineiro (rural e urbano) da personagem lírica que o poeta institui como autor de suas obras. Esses motivos cristalizam-se de maneira admirável sobretudo em A Rosa do Povo. descobre a poesia. a própria poesia (“poesia contemplada”) 8. ao completar 60 anos e depois de publicar Lição de Coisas. razão pela qual agrupou os poemas em torno de nove núcleos temáticos. mais tarde. seriam coligidos em Reunião. normalmente tomada como mais típica do século XX. que conferem diversidade temática e densidade semântica aos novos poetas: a guerra. tomadas como instrumento para a solução do impasse deixado pelo esgotamento das fórmulas do século XIX. Nessa fase. Então. o burguês. Os temas e as respectivas seções do volume são os seguintes: 1. Em rigor. a família. ainda que aparente: ao mesmo tempo em que se buscam sugestões de matrizes européias (Futurismo. o amor. os anos 1930 marcam o surgimento de poetas que consolidariam a tarefa da geração anterior. Já formado. o universal e o local serão temas comuns na poesia da segunda geração modernista. o indivíduo (“um eu todo retorcido”) 2. Como se vê. o Existencialismo e a Psicanálise oferecem uma variada gama de tópicas e técnicas. Dadaísmo. Cubismo. Da mesma forma. a poesia do período apresenta um certo gosto tecnicista. explicou que sua escolha obedeceu a critérios informativos. o verso sem rima e a ausência de pontuação convencional — grandes conquistas da primeira fase — convivem pacificamente com versos. investigando grandes questões sociais e existenciais. Oswald de Andrade e Manuel Bandeira formariam o núcleo de uma primeira fase (1922-30). o passado. entendido como personagem poética. Já não há tanta aversão ao século XIX nem à tradição clássica do Ocidente. A Poesia dos Anos 1930 Conforme uma divisão clássica da poesia brasileira do século XX. Surrealismo). que compõem o perfil da segunda fase do Modernismo Brasileiro.A Rosa do Povo. o mundo e a existência. no qual se condensa uma das mais extraordinárias experiências artísticas da literatura brasileira. há o projeto de se produzir uma síntese artística do país. exercícios lúdicos (“uma. A poesia se torna mais conceitual. o que conduz o olhar do artista local para as grandes formulações das vanguardas européias. 1962 Entre os livros acrescidos ao volume Nova Reunião. dando à poesia praticada no Brasil uma certa estabilidade formal e temática. de seu povo. O verso livre. Cecília Meireles e em Jorge de Lima. com títulos específicos. os quais formaram seções no volume. uma visão. que. os oito últimos temas da Antologia Poética não passam de variação ou projeções do primeiro — o indivíduo. amigos (“cantar de amigos”) 5. não raro. 1948 Claro Enigma. 1951 Fazendeiro do Ar. de um temário e de uma suposta sensibilidade que fosse adequada à expressão do homem no século que se iniciava. composta por Boitempo & A Falta que Ama (1969). Menino Antigo: Boitempo II (1973) e Esquecer para Lembrar: Boitempo III (1979). Cresce. ritmos. de Carlos Drummond de Andrade. motivos e temas tradicionais. o choque social (“na praça de convites”) 6. Faz amigos e freqüenta a praça. ou tentativa de. com todas as diversidades de sua língua. mas podem ser surpreendidos também em Murilo Mendes. onde amplia suas relações e conhece a política e o amor. de suas regiões e de sua história. surge de uma família numa terra qualquer. 1945 Novos Poemas. produz o efeito de artificialismo e pesquisa formal. 1954 A Vida Passada a Limpo. o poeta organizou uma seleção de seus poemas. o conhecimento amoroso (“amar-amaro”) 7. Assim. Na pequena nota introdutória ao volume. Principais Temas de Reunião Em 1962. Reunião deve ser lido como uma espécie de unipoema. encontra-se uma trilogia memorialística. as vanguardas européias deveriam funcionar como um conceito para a revisão do país e para a construção de uma arte que se ajustasse aos novos tempos. a que deu o título impessoal de Antologia Poética. Esse primeiro momento será marcado por um paradoxo. genericamente chamada modernista. adquire opinião sobre as coisas.

alusão à opressão da Ditadura Vargas. revoltar-me? Euforia Épica Apesar da ironia e do ceticismo. o poeta publicara: Alguma Poesia (1930). pois é mais ou menos óbvia a idéia de que o absurdo da vida não dispensa certa dose de inconformismo. demonstraria alguma crença na vida. Assim. mas também sem grandes esperanças. caso a voz lírica a recomendasse. A referida euforia épica (discreta) encontra-se em diversos poemas sobre a Segunda Guerra. sem armas. A Rosa do Povo representa a consolidação qualitativa e formal do Modernismo. como se fossem amenos acidentes de crise momentânea. instrumento com que procura superar os erros do mundo. Por isso. Em certo sentido. Começaremos pela estação da estrada de ferro e pela usina de energia elétrica. Contribuem para o efeito de rapidez e modernidade dos poemas. Nele.A ROSA DO POVO (1945) Poesia da Crise e do Impasse A Rosa do Povo contém 55 poemas. simpatia pelo trabalhador destemido. evitando nomear o desconsolo. Casa e mais casa se cobrirá o chão. cobrindo as feridas. esperança na reconstrução democrática do mundo. Não tentaste qualquer viagem. Aqui se chamava e se chamará sempre Stalingrado. mas. lamento pelo genocídio do conflito. Drummond adota tanto o verso livre quanto o verso tradicional (redondilho e decassílabo). Quando a enumeração constitui-se de elementos logicamente desconexos. tendo sido a mais longa obra até então composta por Carlos Drummond de Andrade. E o texto apresenta um discurso inconformado com aparência de resignação. leva o nome de enumeração caótica. O pensamento irônico evita atitudes francas. A Rosa do Povo é um livro dominado pela idéia de crise: crise do indivíduo. crise da sociedade. Trata-se de seu quinto livro. Assim. Brejo das Almas (1934). que tem muito a ver com o pensamento ficcional de Machado de Assis. Em “A Flor e a Náusea”. a voz irônica sugere que a personagem se entregue ao sono. como soldados. sendo também a maior realização artística do poeta até o momento. crise dos mitos e crise dos sonhos. Em A Rosa do Povo persiste a tópica do impasse. que sempre incorporam a participação russa. o poeta sempre recusará solução fácil para problema difícil. como evidenciou no famoso poema “José”. comentado adiante. Pela lógica do leitor. Em “Rola Mundo”. porque a estaria considerando digna de confronto. No final. crença na utopia comunista. a repetição (redundância. Mas tens um cão. em outras casas. Demonstrando extrema lucidez diante do impasse da vida e da arte. O vento varreu a dura lembrança. enumeram-se as mais atrozes desvantagens do indivíduo desvalido. recomenda o sono. como a indicar que a utopia marxista integra a mínima dose de otimismo necessário para a lucidez da análise do tempo presente. sem nenhum desespero. se o livro é. revestida de ceticismo irônico. terra. crise da poesia. A Rosa do Povo ostenta certa esperança na solidariedade da poesia e na crítica às instituições opressoras. A neve baixou. continuarão a mesma certeza. Nesse breve texto de versos regulares. atenção ao desenrolar da segunda grande guerra. cético e irônico. a enumeração e a gradação destacam-se entre os processos estilísticos do livro. o que também ocorre com freqüência na obra. o poema põe em xeque o próprio conceito de ironia. Antes dele. a fábula gravam no ar o fantasma da antiga cidade que penetrará o corpo da nova. com a família e com o amor. dando preferência a poemas longos de estrofação e versos irregulares. é o poema “Consolo na Praia”. a ironia explica-se por insinuar o contrário do que afirma. Ao lado desse aspecto propriamente social e coletivo. que figura como consolo no título: SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 122 • ANGLO VESTIBULARES . Rua e mais rua o trânsito ressurgirá. essa idéia importante acha-se sintetiza em três versos inenfáticos. por um lado. — Stalingrado: o tempo responde. do livro homônimo (1942). a morte seria a verdadeira solução para a personagem do poema. Como em outros livros do autor. exceto na hipótese provisória da poesia. a voz lírica pergunta: posso. tal como programou em Sentimento do Mundo (1940) e somente agora realiza: denúncia do burguês desumano. em que o poeta realiza a promessa de uma poesia adequada ao canto da vida presente. adotado como suporte de exercício no final do presente estudo. reiteração). de quem Drummond se coloca como o mais perfeito herdeiro na arte brasileira. Para exemplificar a tópica da reconstrução do mundo por via democrática. nem por isso deixa de apresentar uma discreta euforia épica. Sentimento do Mundo (1940) e José (1942). tautologia. navio. há intensa investigação lírica do indivíduo e sua relação com a passagem do tempo. Outros homens. porém precisos em sua força semântica: Como vencer o oceano se é livre a navegação mas proibido fazer barcos? Perdeste o melhor amigo. como forma de ensaiar a morte. veja-se o poema “Telegrama de Moscou”: Pedra por pedra reconstruiremos a cidade. de A Rosa do Povo. Não possuis casa. Sobraram apenas algumas árvores com cicatrizes. Mas o assombro. Ceticismo Irônico Exemplo clássico de riso desencantado.

mas recusa raivoso filtrar o mínimo acorde. Construção da Intimidade Apesar da força dos poemas sociais de A Rosa do Povo. Que paz nos móveis. Pobre piano. do tempo e da morte. de que os mortos controlam os vivos. Uma cadeira se renova ao meu desejo. Nossa vontade é amar. Insinua também que o cerco da cidade russa imita a epopéia homérica. do amor. A casa vive. foi de alguma avó. Amor aos velhos. a voz lírica alerta que a poesia fugiu dos livros para os jornais. Desenho de Beatriz Sherman SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 123 • ANGLO VESTIBULARES . A essa tópica associa-se o tema de que o indivíduo é sempre menor do que a família. o caso de “A Flor e a Náusea”. em hora espessa de sono. afago. Confio em cada tábua. obra-prima de perquirição do desajuste da pessoa com o mundo objetivo. Do outro lado é a noite. circulam por entre a matéria sarcástica. É um rato? O vento? Descemos a escada. o liso. talvez a maior informação estética do livro venha da investigação lírica do indivíduo. ao cego. O dia perdoa. quando os nazistas foram derrotados. morta em outro século. a cidade exercia posição estratégica na União Soviética. No primeiro desses poemas. seu destino cumprido. irredutível. como em “Carta a Stalingrado”. E ele toca e ele chora e ele canta sozinho. ignóbeis. e uma tecla põe-se a bater. seu prazer sepultado. embora rouco: ele estronda. “Onde há pouco falávamos” e “Os Últimos Dias” exemplificam essa vertente temática do livro. tematizam a idéia do indivíduo diante da família. se o fere mão de moça presente. olhamos apavorados a forma escura. O exemplo de Stalingrado terá tido o poder de unir pessoas dos quatro cantos do mundo. Ao figurar a cena da reconstrução da cidade pelas supostas forças democráticas. ao vacilante ajuda. Esse cerco passou para a história como uma das mais importantes batalhas da Segunda Guerra. A cidade foi invadida por Hitler em agosto de 1942. Uma parede se encosta em nós. Respeitemos seus fantasmas. Mas a casa é um amor. ao tonto. cruel. o tempo aqui passou. paz aos velhos. Além de sua força simbólica (compunha-se do nome de Stalin). piano. Mas esquecemos.Stalingrado era importante cidade russa à beira do Volga. então entendido como opção esclarecida do ponto de vista ideológico. Floresta de dedos. Nele. A poeira profusa salta. Canta. docilidade. um velho piano simboliza o elo indissolúvel entre o passado e o presente. o poema de Drummond institui sua resistência em símbolo da liberdade contra a opressão. com a vantagem de caber em telegramas. o tapete. noção básica nos poemas de construção da intimidade em Drummond: É um antigo piano. os vulpinos. o exército alemão começou a perder o privilégio de grandes iniciativas. sucede que um íncubo perturba nossa modesta. Jesus! Sua gente está morta. e cessa seu lamento. Uma parede marca a rua e a casa. e se resigna. do transporte de alimentos e de petróleo. Outros haverá que. e aranhas. profunda confidência. singularizando um pouco mais a noção do “eu todo retorcido”. dedos se acumularam no verniz roído. tendo resistido até fevereiro de 1943. “Carta a Stalingrado”. os caçadores. da memória. É toda proteção. Esse será. seres de asa e pus. A lã. muito reiterada em A Rosa do Povo. por certo. o medo imemorial. Ora. encarnando a tópica. montes de música e valsas e murmúrios E sandálias de outro mundo em chãos nublados. os inspetores da penitenciária. Assim nosso carinho encontra nele o fel. organizada de tal forma que não se distancia muito dos poemas que ficcionalizam a objetividade do mundo exterior. A partir daí. Ai piano enguiçado. Há outro poema em A Rosa do Povo sobre essa batalha. As coisas plácidas e confiantes. o piano cabe Em nosso amor. por causa de seu depósito de armas. em torno do ideal comunista.

assim. Em outro momento do poema. o mais conhecido poema sobre os “laços de família” em A Rosa do Povo. dividida entre o passado e o presente. noções ou conceitos que possibilitam a inclusão da vida à arte pode se chamar linguagem. Por ironia. não se pode esquecer que os motivos se mesclam com freqüência. Este é semelhante aos dois anteriores. Em perspectiva existencialista. morta em outro século. no Poesia: Imagem . a poesia. Todavia. será discutido o princípio de que a vida não cabe na poesia. mesmo porque a matéria social.Viagem: Linguagem Se o livro começa por considerações acerca do conceito de poesia. isto é. É o que se percebe em “Canto ao homem do Povo Charlie Chaplin”. ao segundo. segue a matéria propriamente dita. O volume é organizado da seguinte maneira: no começo. devem-se observar os efeitos sonoros dos poemas de A Rosa do Povo. Em casos como esses. Em outros termos. a voz lírica dirá: oh abre os vidros de loção/e abafa/o insuportável mau cheiro da memória. o texto classifica a confidência do indivíduo em família de profunda. também será submetida a tratamento lírico. Sem os perigos da vida exterior (inspetores. Nesse exemplo específico. há dois poemas sobre poesia. e não apenas questões ligadas ao indivíduo ou à sociedade. caçadores. As imagens. símbolo da interferência inquietante do passado sobre o presente. entendida como representação cultural do mundo. deixando em suspense a complementação semântica dos mesmos. “Morte no Avião”) quanto explora a música silente da intimidade de pequenas seqüências que recompõem os espaços sombrios da memória. a poesia figurada em A Rosa do Povo encarna temas. isto é. dos mais famosos do volume. O tema oscilará entre o impasse insolúvel ou a proposta de precárias soluções. a maneira com que o poeta termina um verso e inicia o seguinte. imagens da natureza e imagens dos homens em sociedade. cuja função é apresentar e discutir a concepção de poesia adotada no volume. temas e finalidade do poema. A linguagem seria o ponto de união entre aquelas duas categorias temáticas. são: “Consideração do Poema” e “A Procura da Poesia”. O tom poderá ser de discreta euforia ou de ceticismo irônico. pois funciona como uma espécie de anúncio temático da obra: o indivíduo e sua relação conflituosa com o mundo. Tais poemas. Trata-se. nos quais se esboça um conceito de poesia. duas poéticas ou manifestos poéticos. tentando sempre racionalizar sua insatisfação: “posso sem armas revoltar-me?”. Instabilidade Social Fica. não será incorreto afirmar que termina por longa reflexão lírica sobre o cinema. Por propor uma diretriz temática que será retomada em diversos poemas. todavia. pois aí reside o invisível demônio da memória (íncubo). que será discutido mais adiante no presente ensaio: sobre o que deve falar a poesia. portanto. transcrito parcialmente na página anterior: É um antigo piano. Aqui se desvenda o grande mistério colocado nos dois primeiros poemas do livro. livro que tanto tira proveito da orquestração panorâmica de grandes painéis (“Nosso Tempo”. se ela não consegue incorporar os sentimentos. Organização do Volume Evidentemente. tal como o cinema. foi de alguma avó. Depois desses três poemas programáticos. pode-se dizer que “A Flor e a Náusea” é também de uma espécie de poética. conforme se queira acentuar a conformação melódica ou a estrutura semântica do texto. fundindo-se com a da pessoa. Inquietudes do Indivíduo. ao produzir imagens. o cinema poderá ser uma espécie SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 124 • ANGLO VESTIBULARES . e b) a instabilidade social. presente ensaio. de textos metalingüísticos. a poesia trata de imagens dos sentimentos. apresenta outros riscos. a leitura correta deve produzir ou evitar pausas. admitido que os dois principais núcleos temáticos de A Rosa do Povo são: a) as inquietudes do indivíduo. idéias. o irônico com o emotivo. transpostas ao poema como imagens da vida. A arte de ligadura entre um verso e outro atinge grande relevo no livro. Em ambos os casos. o piano é comparado ao corvo do poema homônimo de Edgar Allan Poe. senão por meio de imagens ou noções conceituais que a representam. a natureza nem os homens em sociedade? Tal como no cinema. ao poeta compete investigar também a linguagem do próprio livro. deve-se notar a arte do enjambement. a casa. vulpinos [espertalhões como raposa]). O velho instrumento será o elo precário entre as duas abstrações. pressupostos e questões que Drummond concebe como adequados ao debate cultural de seu tempo. Além da metáfora e da mistura de estilos (o baixo com o elevado. Mais adiante. com idéias sobre técnicas compositivas.Esse texto representa um momento forte da poesia sobre a família em A Rosa do Povo. e não como a própria vida em si. trabalha com a linguagem. Em “Resíduo”. a vertente épica. que tanto pode ser de caráter social quanto pessoal. Em outros termos. o sério com o paródico). A família entendida como frágil motivo de (in)segurança do indivíduo. o poema propõe o tema do sujeito revoltado até a náusea. O terceiro poema do volume é “A Flor e a Náusea”. talvez piores que os de fora. premissas. Observe-se a primeira estrofe de “Onde há pouco falávamos”. Assim. sabendo-a frágil (modesta). que inviabiliza qualquer estabilidade emocional (confidência). Ao primeiro corresponde a inclinação lírica do livro. é necessário observar que a interrupção semântica imposta pelos finais dos versos pretende sugerir a fragmentação psicológica da memória afetiva.

ao dizer homem./que se prevalecem do equívoco e tentam a grande viagem. dá esperança. “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin” apresenta outra noção importante para o conceito de poesia de A Rosa do Povo. isto é. que recorre de diversas maneiras em todo o volume. produz a impressão de natureza. será uma máquina de produção de efeitos. de que a vida. Trata-se de “Mário de Andrade Desce aos Infernos”. Em “Consideração do Poema” o eu lírico confessa que arriscou toda a vida na literatura. convoca. exclui qualquer homem particular e empírico para incorporar um determinado conceito de homem em vigor num tempo historicamente determinado. Entretanto. tem-se a impressão da vida em seus múltiplos aspectos cotidianos. em assunto. pois articula conceitos e noções culturais. a criação poética é metaforizada na idéia de viagem: essa viagem é mortal. O penúltimo poema do livro também discute o conceito de arte. percebe-se a idéia de que. em símbolo. porque o texto transpõe para a linguagem verbal as variadas situações vividas por Carlitos e instituídas em signos da arte cinematográfica. mas é também inevitável e absoluta. o heroísmo não fica bem sem ironia. que é a idéia de que. há uma passagem sugestiva da flor como metáfora de poesia. em estrutura narrativa e em figura de retórica. em “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”. e começá-la. Nesse poema. Aqui. nem me reveles teus sentimentos. a poesia. um chamado. a poesia possui uma missão: anuncia. o canto poético é comparado. em tom interrogativo. Nesse sentido. Tanto em “Consideração do Poema” quanto em “Procura da Poesia”. trabalhando com categorias culturais. escrito por ocasião da morte do amigo e. o SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 125 • ANGLO VESTIBULARES . em tópica. Assim. ela pode ser metáfora do amigo que acaba de morrer: A rosa do povo despetala-se. tal como o cinema. apesar da ironia. no mundo contemporâneo. Eis a mágica da arte.de alegoria da literatura. Tem-se aí a noção. discutida nas duas poéticas de abertura do volume. uma esperança embora frágil. Somente assim se realiza a grande viagem da natureza para a cultura e desta para a arte. de poesia e de cultura. Trata-se de uma voz inoperante em face dos negócios concretos do mundo. esse homem da poesia produz a impressão de um homem singularizado. No final do terceiro verso. tem de se transformar em signo artístico. mestre do poeta Carlos Drummond de Andrade. pranto infantil no berço? Por esse fragmento. em tema. em arquétipo situacional. com o choro de criança. em certos sentidos. antes de entrar para a arte. que. Nesse sentido. Ou ainda conserva o pudor da alva? É um anúncio. que. a que se pode dar o amplo nome de linguagem.

De todo o orgulho. os poemas do volume possuem algumas imagens obscuras. Enfim. Furto a Vinícius sua mais límpida elegia. não importa. Subitamente. o canto poético é figurado como um navio que leva uma mensagem. O ensaio viu antes e retoma aqui a idéia de que a poesia se apresenta sob o signo da viagem. há uma parte que nega (não faças) e outra que afirma (penetra). sentir que há ecos. funcionam como meio de adensamento estético da frase. que sugerem a multiplicidade de tópicas de que pode falar o poeta. funde-se com a existência. os aniversários. embora sempre lógicos. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda minha vida que joguei. e aves de bico longo conferindo sua derrota.. boca tão seca. Ei-los sós e mudos. por isso mesmo. o vocábulo rosa será metáfora de poesia e ressurge em diversos poemas do livro. tais imagens devem ser entendidas como incorporação da poética surrealista. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. Não aquece nem ilumina. na segunda. Na primeira. o poeta expõe o que não se deve esperar da poesia. e dois ou três faróis. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 126 • ANGLO VESTIBULARES . [. O poeta recusa a poesia fundada na relação direta com o fato. Adeus. Aqui. impedindo que o poema se perca no mar negro da jornada rumo à consecução da arte acabada. Murilo Mendes. meu poema. Conforme se viu anteriormente. Esse excelente. resultando de uma atitude intelectual. as questões sociais — nada transcendentes e nem um pouco sentimentais. Na parte afirmativa. completo e confortável corpo. apenas pressupõe a mediação imagética coisa e signo: Penetra surdamente no reino das palavras. o vocábulo povo encontra-se no próprio título do livro. As afinidades. Pablo Neruda. o poema informa sobre um dos principais temas do livro: o povo. como fenômeno de linguagem.. a vida é um sol estático. Esse texto de abertura ensina também que. que destoam da racionalidade da média dos enunciados. Anteriormente. que todas me convêm. ele possui dois ou três faróis que orientam a confecção poética. Maiakovski.] Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. Nesse fragmento. que pretende ser cristal e vencer o tempo. o povo. Além dessas noções. mas não há desespero.. Essa noção encontra-se também nas poéticas de abertura de A Rosa do Povo. tão infenso à efusão lírica. que simboliza a imprevisibilidade da aventura da criação. poucos. Tanto nesse texto como nos demais de A Rosa do Povo. que não a aparta da vida dos fenômenos. Procura da Poesia “Procura da Poesia” é semelhante ao poema comentado anteriormente. Estão paralisados. [. mas ardor tão casto. em estado de dicionário. Observem-se os seguintes versos: Dar tudo pela presença dos longínquos. sem frágeis lágrimas.] Tal uma lâmina. carregado de imagens fragmentárias. não rocha apenas. apresentada como observadora objetiva e impiedosa dos fatos dignos de se incorporarem ao canto. Não faças poesia com o corpo.] O que pensas e sentes ainda não é poesia. últimos! esperança do mar negro. Apensar da noite. Guillaume Apollinaire. cuja função é caracterizar os caminhos desconhecidos e imprevistos da viagem da voz lírica por entre a linguagem e os assuntos de que pode tratar. surgem esses versos obscuros. isto é. há calma e frescura na superfície intata. sim. mas cristal. Não há criação nem morte perante a poesia. cantor sem piedade. [. te atravessa. Vladimir Maiakovski): Não rimarei a palavra sono com a incorrespodente palavra outono. supostamente apoiada no sentimentalismo das relações amorosas ou na subjetividade de circunstâncias pessoais: Não faças versos sobre acontecimentos. marcada pela própria experiência poética passada (uma pedra no meio do caminho) e por leituras de poetas contemporâneos (Vinícius de Morais.. como acontece com quase os poemas-manifestos. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Me perco em Apollinaire. Além de indicar o diálogo com essa corrente da vanguarda européia. Estes poetas são meus.ceticismo irônico seria apenas um modo de construção da ficção poética. como deixam ver esses versos da parte final do texto: Poeta do finito e da matéria.. Diante dela.. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. decorre das opções artísticas do poeta e. apresenta suas reivindicações. há uma espécie de declaração do princípio de que a poesia. o texto vinha caracterizando a própria voz lírica. os incidentes pessoais não contam. do trânsito imprevisto da natureza para a linguagem. defende-se a idéia de poesia como fato lingüístico. Consideração do Poema Em “Consideração do Poema”. São todos meus irmãos. de toda a precisão se incorporaram ao fatal meu lado esquerdo. Bebo em Murilo.

esse poema não se encontra suficientemente esclarecido.] Chega mais perto e contempla as palavras. mas não como instancias singulares dos fenômenos. da reificação a que está condenado o homem na sociedade capitalista. Se os fatos não contam. No décimo livro da República. defender a idéia de que poesia só se faz com temas. o artesão nada mais faz do que imitar a idéia de cadeira. por meio de metáforas e símbolos. isto é. não poderá ser considerado como cadeira. senão como temas. a recente tradição da poesia contemporânea. desfaz-se a aparente contradição entre a proposta de “Procura da Poesia” e a matéria so- cial e individual dos poemas de A Rosa do Povo. O tempo é ainda de fezes. tornam-se matéria do mesmo canto depois de se converterem em linguagem. isto é. maus poemas. que consiste na crítica. Como toda arte. “A Flor e a Náusea”. Por essa perspectiva. Normalmente. de revolta. os textos de A Rosa do Povo serão tomados como poéticos desde que se aproximem do conceito de boa poesia adotado pelo autor e por seus leitores. Como se viu anteriormente. são realidades virtuais que integram as hipóteses previstas pelo código da poesia de cada tempo. pobre ou terrível. como interpretar poemas em que a voz lírica simula a presença do próprio pai (“Rua da Madrugada”. e não com os fatos em si. Será outra coisa. explicitamente negados como matéria do canto. Por essa razão é que os poemas pré-existem a si próprios. Ao dizer que os acontecimentos e os incidentes pessoais não devem entrar na poesia. como metáfora de poesia. dependendo do caso específico de cada texto. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. um poema deverá parecer com os poemas que integram a noção de poesia de um dado momento. discutido anteriormente e retomado a seguir. quando transpostos para a condição de imagens ou conceitos culturais de natureza e de sociedade. de fato. rio de aço do tráfego. com as negativas e as afirmações de “Procura da Poesia”. a natureza e os homens em sociedade. as palavras. antes de escrevê-los. tal contradição é aparente e se desfaz com a compreensão efetiva do poema. que lhe deres: trouxeste a chave? Repara: Ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Assim. pois parece haver uma contradição entre a poética de A Rosa do Povo e seus poemas concretamente considerados. da razão e cultura. a poesia de Drummond resulta de operações intelectuais do juízo. onde residem os poemas que esperam ser escritos. Melancolias.. A dificuldade maior de seu entendimento consiste em que o poeta nega o valor dos acontecimentos (pessoais ou coletivos) como matéria de poesia num livro radicalmente voltado para a multiplicidade dos fatos pessoais e coletivos. Todavia. como entender poemas como “A Morte do Leiteiro” (o caso de um trabalhador que morre por ser confundido com um ladrão) ou “O Caso do Vestido” (a estória de um homem que solicita a mediação de sua esposa na conquista de outra mulher)? Se os incidentes pessoais também não servem à poesia. revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não o tempo não chegou de completa justiça.. idéias. senão como conceitos gerais ou noções ideais. de singularidade ou indignação. de fato. no caso. imagens ou conceitos associados à realidade das coisas. pois contém a síntese da visão política e existencial do volume. que oferece uma mínima esperança para os tempos de crise: Preso à minha classe e a algumas roupas. o poeta pretende. O tempo pobre. bondes. um texto para ser. alucinações e espera.. É nesse sentido que os poemas moram no reino das palavras. Assim. o poeta pretende ressaltar o valor da linguagem no processo poético. Ainda úmidas e impregnadas de sono. Platão explica que. as quais ficcionalizam (instituem em ficção) as particularidades da vida concreta. A Flor e a Náusea O terceiro poema de A Rosa do Povo. é também uma espécie de poética. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. esse texto recomenda o mergulho no reino das palavras. É nesse sentido que se deve entender a noção de linguagem. aparece na perífrase reino das palavras. que. vou de branco pela rua cinzenta. [. sem interesse pela resposta. Em outros termos. Embora muito comentado pela fortuna crítica de Drummond.] Uma flor nasceu na rua! Passem de longe. Isso é verdade. mas não é tudo. ônibus. tópicas ou assuntos escolhidos. residem no espaço convencional da linguagem. os críticos alegam que. mercadorias espreitam-me. o que entra na poesia são idéias ou representação dos fatos que se cristalizam nas palavras. mas não como matéria bruta. pela primeira vez. sem armas. o poeta pobre Fundem-se no mesmo impasse.Convive com teus poemas. ao construir uma cadeira. isto é. Tanto os sentimentos pessoais quanto a vida em sociedade entram no poema. [. na linguagem.. o vocábulo flor. do código cultural da comunicação artística. porque aí há muitos acontecimentos e muitos incidentes pessoais no livro. Se o objeto resultante de seu trabalho não parecer com uma cadeira e não exercer a função que se espera de uma cadeira. Devo seguir até o enjôo? Posso. no poema. “No País dos Andrades”)? Alguma coisa requer explicação. Surge aí. Em substituição aos acontecimentos. O domínio competente desse código (trouxeste a chave?) produzirá o efeito de espontaneidade. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 127 • ANGLO VESTIBULARES .

“Visão 1944” e “Notícias”.Uma flor ainda desbotada Ilude a polícia. Pequenos pontos brancos movem-se no mar. símbolos e outras [armas promete ajudar a a destruí-lo como uma pedreira. destaca-se. há passagens de aberta alegoria ideológica. depois. a voz lírica incorpora noções típicas do intelectual de convicções marxistas (preso à minha classe e a algumas roupas) e do existencialismo (o tempo não chegou de completa justiça). Suas pétalas não se abrem. em que a guerra e a desconfiança dividiam as pessoas: Este é tempo de partido. abolirá os mortos. Mas é realmente uma flor. Na seqüência. política e social da época. este se apega à poesia como instrumento de confronto: uma flor nasceu na rua!/Furou o asfalto. No primeiro fragmento.] SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 128 • ANGLO VESTIBULARES . De mãos viajando sem braços. À beira do desespero. ele viaja sempre. ainda. Ele caminhará nas avenidas. como uma estrela cintilante. A seqüência trigo e sol nascendo associa esse poema moderno à tópica da sociedade sem classes dos antigos pastores ideais. trigo e sol nascendo. tal como se observa nos poemas “Carta a Stalingrado”. Do lado das montanhas. É feia. É feia. o que pode ser interpretado como possível ironia do autor à própria convicção política. beijo de moça. um verme. anunciada em “A Flor e a Náusea”: O poeta declina de toda a responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. esse canto. paralisem os negócios. o poema “Nosso Tempo”. a alusão à Segunda Grande Guerra. do filósofo existencialista Jean Paul Sartre. A Rosa do Povo possui dois poemas de aberta propaganda da utopia comunista. Em seu romance Seara Vermelha. então considerada como hipótese histórica que seduziu grande parte de artistas conscientemente radicais: “Mas Viveremos” e “Com o Russo em Berlim”. entrará nas casas. O título do poema alude ao romance A Náusea. em que se retoma de maneira convincente a antipatia contra a mais-valia capitalista. flores. grandes artistas e intelectuais dos anos 1940 partilharam da convicção comunista. essa palavras. que fornece certa linha de argumento temático de A Rosa do Povo. a revolta impõe-se como tema do poema que se inicia: devo seguir até o enjôo/posso sem armas revoltar-me. rompe o asfalto. Mas é uma flor. que apresenta um amplo painel da fragmentação psicológica. Tempo de homens partidos. nuvens maciças avolu[mam-se. Jorge Amado é o caso mais célebre no Brasil. ga[linhas em pânico. Em ambos os casos. como uma espécie de navio da esperança vermelha: Pouco importa que dedos se desliguem e não se escrevam cartas nem se façam sinais da praia ao rubro couraçado.. essa rosa.. No primeiro destes. Sua cor não se percebe. o [nojo e o ódio. o comunismo é figurado. Como hipótese de solução para a crise do conflito entre o indivíduo e a sociedade. viu-se antes. Outro índice do tempo presente no livro de Drummond é. E ganhará enfim todos os portos. Os versos idealizam a era comunista como uma espécie de idade de ouro moderna. crianças estudando. resta à voz lírica a adesão ao mito da rebeldia das hipóteses alternativas. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas [da tarde E lentamente passo a mão nessa forma insegura. Este é tempo de divisas. intuições. o tédio. ele viaja o mundo. de 1946. Façam completo silêncio. Ele chegará. Conforme se viu anteriormente. uma floresta. em que haverá paz e fartura para todos. autoraricatura Nosso Tempo Na linha da poesia social. tal como se vê nessas estrofes de A Rosa do Povo. primeiro. o texto enumera imagens que traduzem a indisposição do indivíduo correto contra o mundo errado. Tempo de gente cortada. petróleo. Seu nome não está nos livros. entre outros. em versos de extrema modernidade. avião sem bombas entre Natal e China. o tédio. Furou o asfalto. [. Obscenos gestos avulsos. Além da modernidade da adesão marxista. “Telegrama de Moscou”. o nojo e o ódio. tal como se vê no final desse texto importante. esse navio.

como direi. paródia do célebre poema de Gonçalves Dias.. o sabiá. o poema “Nova Canção do Exílio”. pode-se observar um traço importante de A Rosa do Povo. “Caso do Vestido”. Injusto padecer exílio. esse talvez seja um dos textos mais equívocos de A Rosa do Povo. voltado para o tema da idealização da mulher. o espaço mítico de Drummond caracteriza-se. Estilo Mesclado O tema amoroso é muito forte em A Rosa do Povo. mas que também pode ser a arte ou a poesia. como em quase todo poema do gênero. Termina com a idéia de que a burguesia apodrece. essa indiferença gaia e não gritar: Vem. Pensando com unha. escárnio. é cruel existir em tempo assim filaucioso. Ótimo exemplo de mistura de estilos em A Rosa do Povo encontra-se no poema “Anúncio da Rosa”. amargo. pequenas cólicas cotidianas. estudado em Drummond pelo crítico José Guilherme Merquior. o amor será sempre amaro. para lhe satisfazer a vontade: Eu não amo teu marido. que entra para a arte sem sair da vida cotidiana do século XX. Sem nenhuma utopia nacionalista..Tema Amoroso. oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa [irrisão. não por mim. nesse sentido. outra experiência enigmática com a linguagem. Aí.. ter-se-á de concluir que propõe a ironia como postura ideal para a produção de poesia nos tempos modernos. Aí. coloquialismos e expressões eruditas. de origem cubista e surrealista. Desbaratado é que é.. cavalheiros. que de orgulhoso me basto pensando nela. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.. a mulher. Como se trata de texto experimental. tal como se deixam vislumbrar em certos arquétipos do imaginário popular: o homem define-se pelo exclusivismo da vontade. Olhei para a dona ruim. filaucioso: egoísta. dá-se o nome de estilo mesclado. Amor tão disparatado. convém recorrer ao dicionário e examinar o astucioso emprego de alguns vocábulos: Aurilavrado: trabalhado em ouro. desânimo. Trata-se de um sentimento absurdo. gilete. Nunca a sentei no meu colo nem vi pela fechadura. Olhei para vosso pai. não. Seria possível também imaginar que o texto ridiculariza o poeta antiquado querendo sustentar o emprego de linguagem velha em tempos modernos. fúria. perdendo. o que necessariamente implica a mistura de diferentes espécies de vocábulos e a interpenetração de elementos de esferas semânticas distintas: Menos eu. presunçoso. não quero homem. Fulana! A essa espécie de montagem. Primavera não há mais doce. Sem nenhum conceito explícito. um dos mais populares poemas do livro. Se se admitir que o texto fala do valor da arte na sociedade capitalista. é estória de amor em forma de diálogo. Nesse poema. Não obstante. “O Mito” é um longo texto sobre o conceito de amor.] Por preço tão vil mas peça. Mas eu sei quanto me custa manter esse gelo digno. mercancia: mercadoria. Simples na aparência. caracterizada pela radicalidade do estilo telegráfico. imagina-se a notícia da venda irônica de algo que não se pode vender. sede permeáveis. Na dimensão do estilo mesclado enquadra-se. para o ambiente prosaico da sociedade moderna. que é a transferência de um assunto tradicionalmente elevado. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 129 • ANGLO VESTIBULARES . pela submissão a seu ponto na hierarquia familiar. para “Áporo”. O objeto de venda é uma flor. antes. me falou ela se rindo. a unidade de caráter reside nesta. também. herdado do primeiro modernismo: Ainda um grito de vida e voltar para onde é tudo belo e fantástico: a palmeira. postas em situação de negócio: Imenso trabalho nos custa a flor. os olhos dela gozavam.. os olhos dele pediam. em que uma esposa implora que uma mulher fatal durma com seu marido. Daí o tom sarcástico diante da situação que estabelece baixo preço para o que pode valer muito. rosa tão meiga onde abrirá? Não. e não naquele. razão pela qual a linguagem oscila entre afirmações e negaceios. o conceito de contemplação amorosa. irrisão: zombaria. pela idealização de um ponto abstrato em que o indivíduo pudesse encontrar o vazio da própria solidão e sentir-se bem aí. o longe. aurilavrada. só pra lhe satisfazer. isto é. plasma. a narrativa do poema esconde um conceito sobre o indivíduo e sobre a família. [.

em que o tema da memória se funde com a idéia de que o presente é a somatória de experiências passadas e. “Retrato de Família” contém uma descrição metafórica de uma antiga fotografia. Quem fala? De onde fala? Qual sua relação com o que fala? Objetivo e quase indiferente.. dentes. até que. Tudo funciona como sempre. [. Talvez fosse melhor não entender a poesia reflexiva de Drummond como decorrência de sua experiência verdadeira com a vida. um esforço dialético do espírito ou se traduzem como desejo de participar de um debate instaurado pela mais remota tradição da lírica ocidental. O verso final do fragmento é particularmente significativo para a compreensão do repertório temático de A Rosa do Povo. que termina com um desastre aéreo. como a passagem do tempo. visto-me. Terá dificuldades com o seu “fatal lado esquerdo”. Aspecto instigante do poema é o ponto de vista da elocução. que se torna misterioso pelas projeções ancestrais. A persistência da memória é o núcleo temático de “Resíduo”. calva. Podem se associar tanto à insistência de um traço de caráter quanto à permanência de um rato ou de um botão. Suas inquietudes serão SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 130 • ANGLO VESTIBULARES .] E de tudo fica um pouco. a inevitabilidade da morte e a ameaça do medo.. [raio choque estrondo fulguração rolamos pulverizados caio verticalmente e me transformo em notícias. em que o passado é interpretado como antecipação do presente... Oh abre os vidros de loção E abafa O insuportável mau cheiro da memória. do paletó. Rugas. cujo início é tão incisivo quanto o final: Acordo para a morte.] golpe vibrado no ar. por isso. Os traços que compõem o indivíduo decorrem da história ou da genética. Será problematizante. É meu último dia: um dia Cortado de nenhum pressentimento. calço-me. Barbeio-me. O poeta acha-se à esquerda. Em qualquer das hipóteses. A inquietação do pensamento poético de A Rosa do Povo associa-se a certas tópicas da tradição da poesia européia. e o medo de novas descobertas. o genro lírico consubstancia-se em diversos poemas sobre a família. fatigado. o relato tanto pode ser atribuído a alguém que já morreu quanto a alguém que sabe da morte próxima sem que haja condição lógica para isso. Morte Em Drummond. subitamente. Mas vem o tempo e a idéia de passado visitar-te na curva de um jardim. Uma aceitação maior de tudo. e te penetra dentro de um cinema. entendida como os antecedentes da formação do indivíduo. a intromissão do passado no presente.. Em “Morte no Avião” o impasse da completa dissolução ganha corpo no monólogo de um homem que recompõe o último dia de sua vida. O pensamento geral de A Rosa do Povo é dominado.. Aí se condensa a tópica da intromissão do passado no presente. Há paradoxo em ambos os casos. o início da velhice e outras carências do indivíduo formam o núcleo temático dos decassílabos de “Versos à Boca da Noite”: Sinto que o tempo sobre mim abate sua mão pesada. Retrato de Família Além de se manifestar no tema amoroso. à busca de pupila que as reflita. [. Fica um pouco de teu queixo No queixo de tua filha. enroscam-se no sono e te perseguem.antes um questionamento temático. lâmina de vento no pescoço. cristalizando a idéia de que o momento atual nada mais é do que a confluência de experiências preteridas. E depois das memórias vem o tempo trazer novo sortimento de memórias. da guerra. pela idéia do circunstancial. a pessoa carregará sempre um “eu todo retorcido”. Se o poema tematiza a permanência do humano. E as memórias escorrem do pescoço. Vem a recordação. Também tematizam a família os poemas “Rua da Madrugada” e “No País dos Andrades”. idéia forte nos poemas de ponderação existencial do volume. Tempo. de braços cruzados. do arco-íris. Saio para a rua. não se pode extrair dele nenhuma idéia de transcendência. do material e do histórico.] Família de Drummond. o absurdo incrustado no cotidiano da cidade grande confere densidade ficcional ao texto. dolorosas: Pois de tudo fica um pouco. Vou morrer. [. antes. porque em 1945 o poeta tinha apenas quarenta e três anos... Reflexões sobre a passagem do tempo. Corrosão. te recuses e não saibas se a vida é ou foi.

atingiremos o cimo de nossa cauta subida. sequer colocado. Em ambos os textos. nem por isso deixa de o acompanhar nas pequenas coisas do dia-a-dia. sem medo ou remorso: E que a hora esperada não seja vil. perdida entre as pequenas coisas da vida: Faremos casas de medo. mas sim o temor. de solidariedade e de comunicação humana. b) integra o núcleo temático do amar-amaro: expressão da angústia decorrente da solidão coletiva. outras vidas. Texto para a questão 2 Carrego comigo Há dezenas de anos Há centenas de anos O pequeno embrulho. manchada [de medo. Quarenta anos e nenhum problema resolvido. Mário de Andrade e Charlie Chaplin A amargura dos poemas sobre o tempo. pelo assunto. Se foi um presente Ou se foi furtado. Eu não a escolhi. com resplendores covardes. edifícios. mas em notícia. a pequenez. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 131 • ANGLO VESTIBULARES .. medrosos caules. O medo. c) integra o núcleo temático do impasse social: revolta contra o isolamento do indivíduo. O texto pertence a “A Flor e a Náusea”. LEITURA E EXERCÍCIOS Texto para a questão 1 Vomitar esse tédio sobre a cidade. sabendo que o perdem. repuxos. a velhice e a família se dissolve um pouco na homenagem aos grandes artistas. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo. se aproxima de “Morte no Avião”. Partindo de metáforas concretas. e) integra o núcleo temático da crise do indivíduo: irritação contra os valores capitalistas. deserta. Ainda aqui. sinistra. tal como se vê em riso sem boca (morte) e cama calcária (cova). tal como se observa em “Mário de Andrade Desce aos Infernos” e “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”. os homenageados funcionam como metonímia de arte. os atos que atrás de si deixaram situações. dedos torcidos. Assinale a alternativa correta: a) integra o núcleo temático do existencialismo: revolta contra a desigualdade social no país. Nenhuma carta escrita nem recebida. Mas levo uma coisa. se o medo não deve macular a extrema experiência do homem. com suas física. Será rígida. tanto produz: carcereiros. duros tijolos de medo. nunca saberei. submissão ou cálculo.. [. a personagem não se transforma em alma. escritores. Jamais a fitei. o extremo da experiência humana não desperta nenhum dos mitos salvacionistas da teologia cristã. Trata-se de “Os Últimos Dias”. a voz lírica imagina como seria a percepção do mundo se fosse possível prever o exato instante do fim. os pensamentos maduramente pensados. um elemento de dor rói sua base. Bem sei. síntese da idéia de poesia em A Rosa do Povo. este poema. E com asas de prudência. lívido suor de remorso. pois anda comigo algo indescritível. mas não a quero negando as outras horas nem [as palavras ditas antes com voz firme..] Não ouso entreabri-lo. não estou sozinho. que fala da condição pouco heróica da pessoa em seu funcionamento diário. Mas. Não estou vazio. Há um poema que. Esse é o tema do poema “O Medo”.] Já não me recordo Onde o encontrei.] Não sei que seja. Trata-se da alegoria da tópica de que o motor da história não será jamais a coragem. [.. espécie de arte de morrer ou preparação para a morte. aqui o homem não acaba em transcendência. ou se algo contém. o poema formula uma noção abstrata. Entre os preparativos para o encontro solene. d) integra o núcleo temático do impasse existencial: revolta contra uma inércia sem explicação. [..Como em todos os poemas de A Rosa do Povo.. ruas só de medo e calma. A dureza de algumas imagens condiz com o realismo do pensamento geral do texto. 1. propõe-se uma orgulhosa resignação. Todos os homens voltam para casa. Vira matéria de jornal. Nela. e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas. Que coisa contém. Depois da morte. Que o riso sem boca não a aterrorize.

Perdeste o melhor amigo. a bênção. Tudo somado. nas águas. dedo.2. navio. Por que? SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 132 • ANGLO VESTIBULARES . Qual o argumento do poeta contra o domínio da lei? Texto para a questão 5 Consolo na Praia Vamos. viajamos e nos colorimos. de vez. juventude (enumeração caótica). III. de dimensão mais filosófica do que social. II. do corpo esquecido na mesa. O segundo amor passou. Sapatos. c) Dominado por nítida inclinação tautológica. terra. afirma-se que as leis não dão conta de uma organização social justa. e escreve-se na pedra [. O fragmento pertence a “Carrego Comigo”. Texto para a questão 4 Nosso Tempo Este é tempo de partido. Responda: a) Pode ser considerado como exemplo da chamada poesia do impasse ou da crise. Os homens pedem carne.. 3.. vento. Conheço bem esta casa. Algumas palavras duras. O texto pertence a “Desfile”. Assinale a alternativa correta: a) Dominado por processo reiterativo e por comparação lógica entre juventude e cicatriz. O poema pertence ao núcleo de poesia social de A Rosa do Povo. O terceiro amor passou. Texto para a questão 3 O rosto no travesseiro. te golpearam. Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas. e) Somente I e III estão corretas. no vento. nostálgicas de bailado. a) Todas estão corretas. As leis não bastam. b) Todas estão erradas. ao claro jardim central. Como remédio entornado em camisa de doente. Trata-se de alegoria do pecado original. mas tens um cão. Mas. Nunca. Dorme.. Certas histórias não se perderam. b) Marcado por processo reiterativo e pela comparação entre elementos logicamente desconexos: remédio. cicatriz (enumeração caótica). a partida. escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. devias precipitar-te. conduz à copa de frutas ácidas. É tempo de muletas. Estás nu na areia. vento. Em vão percorremos volumes. Meu nome é tumulto. A infância está perdida. A mocidade está perdida. pela esquerda sobe-se. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. meu filho. tempo de homens partidos. em voz mansa. como vento no cabelo. d) Somente I e II estão corretas. Texto alegórico. cicatriz. mas ainda é tempo de viver e contar. à água que goteja e segreda o incesto. nunca cicatrizam. Não possui casa. 5. que contêm: Papéis? Crimes? Moedas? 4. não chores.] E continuamos. d) Dominado por processo metafórico. A “coisa” misteriosa pode ser a identidade do eu lírico. pela direita entra-se.. O primeiro amor passou.. juventude. Mas o coração continua. Por que? b) Na primeira unidade. Os lírios não nascem da lei. doente. À Sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. e o humour? A injustiça não se resolve. Observe as afirmações e assinale a alternativa correta: I. com reiteração gradativa de elementos logicamente relacionados: remédio. Não tentaste qualquer viagem. Já não tenho cicatriz. O título insinua o contrário do que o texto sugere. dedo. conduz às celas fechadas. c) Somente III está correta. Fogo. fluindo: fiquei mais moço. como dedo na penugem de braço de namorada. como o do enterro que não foi feito.. Responda: a) Em que consiste a contradição entre o título e o sentido geral do poema? b) O poema é irônico. a sala grande conduz a quartos terríveis. tempo. e) Com versos metrificados e gradação do elemento menor para o maior: travesseiro. com metonímia: o vocábulo cicatriz emprega-se como metáfora de juventude. Mas a vida não se perdeu. Mas virão outros.

que se insinua pela imagem do país bloqueado. se era virgem. A imagem da flor ou da rosa é recorrente em A Rosa do Povo. A rosa é símbolo importante em A Rosa do Povo.Texto para a questão 6 Morte do Leiteiro Há pouco leite no país. se era bom. Qual o sentido do surgimento da orquídea no final? b) A última palavra do primeiro verso e a primeira do segundo evidenciam um procedimento típico do estilo de A Rosa do Povo. um segredo comunica-se.] Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). Responda: a) Em que consiste tal oposição? b) Há uma imagem em particular que se afasta da regularidade lógica do poema. Seguro teus chifres: eis-me transportado sonho e compromisso ao País Profundo. em país bloqueado. Há no país uma legenda. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. Alheio à polícia Anterior ao tráfego ó boi. Que ladrão se mata com tiro... Responda: a) Ao anunciar a rosa do povo como símbolo de poesia. é tarde para saber. enlace de noite raiz e minério? Eis que o labirinto (oh razão. pranto infantil no berço? Talvez apenas um ai de resta. Mas há um ouvido mais fino que escuta. qual seria ela? SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 133 • ANGLO VESTIBULARES . um chamado. Pára à minha porta sua lenta máquina. Não sei. Há muita sede no país. antieuclidiana. 9. Ladrão? Se pega com tiro. todos os leitores se comportam de maneira uniforme diante da rosa do povo? Há diferenças em sua recepção? Se houver diferença. De que imagem se trata? Qual sua função na significação geral do texto? Texto para a questão 7 Áporo Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. uma orquídea forma-se. um peito de artista que incha. Qual o sentido dessa expressão na economia geral do poema? Texto para a questão 9 Mário de Andrade Desce aos Infernos A rosa do povo despetala-se. Se era noivo. é preciso entregá-lo cedo. De que procedimento se trata? Qual sua função na poesia moderna? Texto para a questão 8 Episódio Manhã cedo passa à minha porta um boi. e uma rosa se abre. A comparação entre a primeira estrofe e o final da segunda revela um paralelo e uma oposição significativos. sozinha. teu reino. Que fazer. De onde vem ele se não há fazendas? Vem cheirando o tempo entre noite e rosa. 8. 6. [. que pode ser observado tanto no início de “Morte do Leiteiro” quanto em “Consolo na Praia”. anunciou. mistério) presto se desata: em verde. é preciso entregá-lo cedo. Responda: a) O poema encena uma situação de impasse. ou ainda conserva o pudor da alva? É um anúncio. o poeta. nas trevas. uma esperança embora frágil. exausto. entre outras. me conquistas para outro. o que simboliza o boi? b) A expressão “País Profundo” está grafada com iniciais maiúsculas. Responda: a) Ao irromper do nada em meio à cidade. não quis saber de mais nada. O revólver da gaveta Saltou para sua mão. 7. o poeta anunciou. se era alegre. quem sabe. O poema apresenta pequena narrativa alegórica. como o poeta a caracteriza? b) Pela lógica do texto.

o texto esforça-se por personalizar as noções. b) A expressão indica o espaço abstrato das forças inconscientes do indivíduo. a) Identificada como “rosa do povo”. as leis divorciaram-se demais da natureza. 5. despida de todo amparo moral e físico. Além disso. Embora seja “do povo”. 6. b) A “rosa do povo” não é percebida de maneira uniforme. que não individualiza as noções. A recomendação final do sono como forma de solução evidencia que não há saída para o impasse da personagem. individualizando o caso singular de um leiteiro específico. Associa-se à idéia de fragilidade. D 2. D 3. 9. mas demonstra que o mundo é fragmentado e sem sentido. A repetição pode assumir várias formas na poesia moderna. cuja função realça a ação mecânica do burguês ao tirar a vida de um trabalhador. de pranto e de infância. b) Trata-se da seguinte passagem: “O revólver da gaveta/saltou para sua mão”. A diferença entre tom e matéria resulta em ironia. b) Trata-se da repetição. a) O surgimento da orquídea pode simbolizar o nascimento de uma solução para a crise figurada ao longo do texto. embora represente a dimensão pura de algumas manifestações culturais. 8. Quase sempre sugere a mesmice e a rapidez com que se reproduzem as coisas do cotidiano. 7. Trata-se de uma prosopoéia ou personificação. No final da segunda estrofe. Mas na consciência de suas limitações consiste sua verdadeira força. pode-se admitir que ela seja uma solução para os impasses da vida social. e o poema tematiza o total desespero. a) Porque o enunciado apresenta problemas.RESPOSTAS 1. ela se prolonga por todo o poema. a) O título anuncia consolo. O poema insinua que a solução consiste na unidade. pois não conseguem regular o nascimento dos lírios. no livro. moradia (fogo) nem conforto (sapato). dotados de talento artístico. cujo tom é ameno no anúncio da carência total. Aqueles que a percebem devidamente são seres mais sensíveis. b) As leis não garantem alimentação (carne). a poesia não é assimilada por todos. a poesia é apresentada como uma força espontânea e sem muita eficácia. B 4. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 134 • ANGLO VESTIBULARES . Depois. que surge inexplicavelmente para reconquistar seu lugar no espaço civilizado da cidade. questões e críticas para as quais não vislumbra soluções. processo muito freqüente em A Rosa do Povo. predomina a impessoalidade de uma voz objetiva. b) A primeira ironia consiste em anunciar consolo e apresentar desespero. a) Na primeira estrofe. Como. a imagem da flor simboliza a poesia. a) O boi simboliza a natureza. que se identificam com as formas simples da natureza.