Agatha Christie

OS TRÊS RATOS CEGOS E OUTRAS HISTORIAS
The three blind mice and Other stories (1950)

OS TRÊS RATOS CEGOS................................................................................ 2 ESTRANHA CHARADA................................................................................ 63 O CRIME DA FITA MÉTRICA...................................................................... 74 O CASO DA EMPREGADA PERFEITA ....................................................... 86 O EPISÓDIO DA CASEIRA ........................................................................... 98 OS DETETIVES DO AMOR......................................................................... 110 O SINAL VERMELHO ................................................................................. 130 O QUARTO HOMEM ................................................................................... 149 O RÁDIO ....................................................................................................... 165 TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO................................................................ 178 O MISTÉRIO DO VASO AZUL................................................................... 198 A ÚLTIMA SESSÃO..................................................................................... 217 S. O. S............................................................................................................. 231

OS TRÊS RATOS CEGOS
Três Ratos Cegos Três Ratos Cegos Vejam como correm Vejam como correm Todos correram atrás da mulher do fazendeiro Ela cortou o rabo deles com um trinchante Vocês nunca viram na vida coisa igual

Estava muito frio. O céu, cinzento e carregado de neve ainda por cair. Um homem metido num sobretudo escuro, o cachecol em volta do rosto e o chapéu puxado sobre os olhos, desceu Culver Street e subiu as escadas do número 74. Apertou a campainha e ouviu-a tocar no subsolo. A Sra. Casey, as mãos ocupadas com louças na pia, disse, ríspida: — Droga de campainha. Nunca a gente tem paz. Ofegando um pouco, ela subiu as escadas e abriu a porta. O homem, cuja silhueta se recortava contra o céu, perguntou num sussurro: — Sra. Lyon? — Segundo andar — disse a Sra. Casey. — Pode subir. Ela está esperando? O homem balançou a cabeça, devagar. — Bem, pode subir e bater. Ela o observou enquanto subia a escada forrada de tapetes surrados. Depois ela disse que ele "lhe dera uma impressão estranha”. Mas, na verdade, só pensara que ele devia estar horrivelmente resfriado para sussurrar assim. Também, com um tempo desses... Quando chegou à curva da escada começou a assoviar baixinho. A música era Os Três Ratos Cegos. Molly Davis deu um passo atrás na calçada e olhou para o cartaz recém-pintado, perto do portão. Monkswell Manor Pensão 2

Com um movimento de cabeça expressou sua aprovação. Parecia, realmente parecia, bastante profissional. Ou, talvez, podia-se dizer, quase profissional. O S de Pensão ficara um pouco acima da linha e o fim de Manor estava um pouco juntinho demais, porém, no todo, Giles tinha feito um belíssimo trabalho. Giles era mesmo muito inteligente. Sabia fazer tantas coisas. Sempre descobria coisas novas sobre seu marido. Ele havia falado tão pouco sobre si mesmo que só aos poucos lhe ia descobrindo os vários dotes. Um ex-marinheiro era sempre um homem prático, é o que dizem. Bom, Giles iria necessitar de todos os talentos neste novo empreendimento. Eram totalmente crus na tarefa de administrar uma pensão. Mas seria bem divertido. E resolvia o problema de habitação. Foi idéia de Molly. Quando tia Katherine morreu, e os advogados escreveram para ela comunicando-lhe que herdara Monkswell Manor, a reação natural do jovem casal foi a de vendê-la. Giles lhe perguntara: — Como é a casa? E Molly respondeu: — Ah, é uma casa grande e antiga, cheia de sufocantes e antigas mobílias vitorianas. Tinha um jardim bonito, mas muito mal cuidado desde a guerra, pois só restou um velho jardineiro. Então decidiram colocar a casa à venda e só conservar alguns móveis para mobiliar um pequeno apartamento ou uma casinha para eles. Mas logo apareceram duas dificuldades: primeiro, não encontravam nem casinha nem apartamento pequeno e, em segundo lugar, todos os móveis eram enormes. — Bom — disse Molly —, temos que vender tudo. Acha que alguém compra? O advogado assegurou-lhes que se vende qualquer coisa hoje em dia. — Com toda a certeza — disse ele —, alguém irá comprá-la para usar como hotel ou pensão, e assim irá gostar de comprá-la com toda a mobília. Felizmente a casa está em muito bom estado. A falecida Srta. Emory fez várias reformas e modernizações antes da guerra, e houve muito poucos estragos. Ah, sim, está em muito bom estado. E foi aí que Molly teve a idéia: — Giles — disse ela —, por que não a dirigimos como pensão? A princípio o marido achara a idéia absurda, mas Molly insistiu. 3

— Não precisamos hospedar muita gente, pelo menos no começo. É uma casa fácil de se dirigir — tem água quente e fria nos quartos, aquecimento central e fogão a gás. E podemos ter galinhas, patos, nossos próprios ovos e vegetais. — Quem faria todo o serviço — não é difícil encontrar empregados? — Más faríamos o serviço. Em qualquer lugar que morássemos, teríamos que fazer isso. Algumas poucas pessoas a mais não justificariam empregados. Depois arranjaríamos alguém, quando já estivéssemos

estabelecidos. Com cinco pessoas, cada uma pagando sete guinéus por semana — Molly partiu para os reinos, um tanto otimista, da aritmética. — E pense, Giles — concluiu —, seria nossa própria casa. Com nossas coisas. Do jeito que vai, parece que levaremos anos até encontrarmos um lugar para morar. Isso, admitiu Giles, era verdade. Tiveram tão pouco tempo juntos depois do apressado casamento que ambos desejavam um lugar para morar. E então passaram das palavras à ação. Colocaram anúncios nos jornais locais e no Times e receberam várias respostas. E agora, hoje, o primeiro dos hóspedes estava para chegar. Giles havia saído cedo para comprar uma cerca de arame que estava em liquidação, do outro lado da cidade. Molly teve necessidade de andar até a aldeia para fazer as últimas compras. O único toque ruim era o tempo. Nos últimos dois dias, o frio era intenso e agora começava a nevar. Molly apressou-se, grossos e fofos flocos de neve caindo-lhe sobre a capa à prova d'água e os brilhantes cabelos encacheados. A previsão do tempo não era nada animadora. Devia-se esperar uma grande nevasca. Ela tinha esperança de que a água não congelasse nos canos. Seria péssimo se tudo saísse errado logo quando estavam começando. Olhou para o relógio; já passava da hora do chá. Será que Giles já tinha voltado? Estaria imaginando onde ela se encontrava? — Tive que ir até à aldeia de novo comprar algumas coisas de última hora — ela diria. Ele iria rir e perguntar: — Mais latas? Os enlatados eram uma piada deles. Estavam sempre comprando alguns. A despensa apresentava um farto estoque para os casos de 4

Fazia um barulho sussurrante. E. E o estranho ficou lá. de repente. De repente a casa caiu no silêncio e no vazio. desempenhando um papel que não lhe parecia muito natural. um estranho aproximavase. ainda bem que chegou! 5 . uma cozinheira no outro extremo da mesa observando os superiores com olhos assustados. Uma sombra passou pela janela e ela pulou. Molly foi primeiro à cozinha. pensou Molly. E então. sacudindo-se para tirar a neve. incômodo. Wren no quarto leste com a janela de sacada. E. Molly deu uma esticadela na colcha e desceu de novo. Já ficara sozinha muitas vezes antes. o de mobília de mogno e cama de quatro colunas. Todos os quartos estavam muito bem arrumados e era uma bênção Tia Katherine ter um estoque esplêndido de lençóis. grande. fazendo uma careta ao olhar para o céu.emergência. Ela ouvia os rangidos da porta lateral. no momento. A Sra. Era uma casa solitária a quatro quilômetros de uma aldeia e. Molly Davis. Sr. confortável. mas nunca estivera tão consciente desse fato. na soleira da porta. em vez disso. E se Giles não conseguisse voltar — se a neve estivesse tão grossa que o carro não passasse? E se tivesse que ficar sozinha aqui — sozinha por dias. a ilusão desapareceu. A casa estava vazia. pedia uma cozinheira também grande e confortadora presidindo a mesa. de meia-idade e por uma governanta rechonchuda e corada. Giles — exclamou ela —. Toda sua vida. Boyle no quarto sul. Escurecia. como dizia Molly. — Oh. Giles ainda não voltara. Major Metcalf no quarto azul com a de carvalho. Rajadas macias de neve batiam contra a vidraça. só havia. os maxilares movendo-se ritmicamente enquanto comia açúcar-cande e bebia chá preto. parecia irreal — Giles parecia irreal. um homem estranho entrando na casa vazia. Ela desempenhava um papel — era só isso. esta seria ladeada por uma arrumadeira alta. ela. as emergências não tardariam a aparecer. e depois subiu para fazer a inspeção dos quartos recém-preparados. a quatro quilômetros do nada. talvez? Ela olhou a cozinha.

Molly. eles estão trazendo bagagem.— Alô. um jornal. Não iria servir. — Conseguiu o arame? — perguntou ela. — E se nas malas só tiver um monte de pedras enrolado em jornal? A verdade. purê de batatas. — O que é isso? — perguntou o marido. Como você acha que ele é? Na minha opinião. é que não temos a mínima idéia do que vamos enfrentar neste tipo de negócio. — Ela é deste tipo. não é? — A Sra. Wren devem chegar hoje. um cachecol. um rolo de barbante e a correspondência da manhã que enfiara no bolso toda misturada. só para justificar o nome. querida! Que tempo horrível! Meu Deus. Quando 6 . apanhou um pouco de queijo e preparou-se para ralá-lo. — Não era do tipo exato. E você. — Ah. não. — Com certeza a Sra. o que fez? Ninguém apareceu ainda. — Farelos de pão. é melhor cobrarmos uma semana de aluguel adiantado. a chaleira no fogo. Boyle vai notar — disse Molly. — Fico pensando que posso fazer uma coisa de cada vez. Pendurou-o no cabide tirando. e um tiquinho de queijo. — Você demorou séculos. já? Molly voltou-se. antes. — O Major Metcalf e o Sr. o protótipo do funcionário público aposentado. dos bolsos cheios. muito ao seu estilo. Ele bateu os pés e bafejou para aquecer as mãos. Boyle só vem amanhã. em seguida. Abriu um jornal sobre a mesa. acho que é um artista. — Assim. mas o que tinha lá não servia também. Giles. jantamos nós e o Sr. reteremos as malas. Wren. — Não. Num gesto automático. Se não pagarem. batatas. — Que cozinheira esperta! — disse o marido com admiração. Dirigindo-se para a cozinha. Tomara que não reparem que estamos iniciando. estou congelado. — Torradas ao forno — Molly informou-lhe. — Como você sabe? Nunca a viu. — O major mandou um cartão dizendo que só chegaria aqui amanhã. ela colocou os artigos sobre o aparador e. Fui a outra loja. — Neste caso — disse Giles —. Molly apanhou o casaco que ele jogara sobre a arca.

Gosto do aparador e das prateleiras. café e torradas. — É mesmo. é claro. Se não funcionam. sem que ninguém me veja. mas nunca ficavam fechadas e. todo moderno. e cada gaveta abrindo e fechando sem emperrar. Deve ter sido adorável a Era Vitoriana. Paddington. que conforto e quanto espaço para guardar as roupas. — Isto é que é o pior desses inventos. que íamos alugar? Era tudo embutido e corrediço. você está perdido. coxas de carneiro. 7 . quando fechavam não se conseguia abri-las. — Amanhã de manhã. toda enfeitada. e simplesmente adoro esta sensação de exuberância que uma cozinha enorme me dá. Eu adoro essa. A gente tem que ficar ativa como gato escaldado. — Por quê? — Porque tudo acontece ao mesmo tempo — ovos. Potes colossais de geléia de morango feita em casa com quilos e quilos de açúcar. de longe. Mas pense bem nas carnes que deviam assar aqui: filé mignon. esteja muito contente por não ter que cozinhar nela. — Já que vamos passar a maior parte do tempo na cozinha. mas. E a mobília lá de cima. também. — Vamos levar a bandeja para o escritório e ouvir o rádio? Está quase na hora do noticiário. ah!. tinha-se de empurrá-las. sólida. tenho que entrar de mansinho. Lembra-se daquele lindo apartamento. ardorosas discussões no parlamento e um assassinato na Culver Street. O café da manhã é o pior. — A chaleira está fervendo — disse Molly. venha. vamos ouvir as notícias. só que nada corria. grande. leite quente. o habitual impasse nas negociações com o exterior. para assistir a essa personificação do gato escaldado. principalmente. O noticiário consistia. ou a torrada queima. — Com toda a certeza. o lugar mais bonito da casa. observando tudo ao mesmo tempo. em assustadoras previsões do tempo. bacon.junta tudo é que é preciso prática. ou o bacon fica todo encrespado ou então os ovos ficam duros. — Aposto que as provisões de combustível para o ano se gastariam em um dia. — Bom. sempre emperrava. Acho que é. era melhor colocar um rádio lá. embora. Ou o leite entorna. Para fechar as portas. Como são bonitas as cozinhas.

Tudo o que Molly pôde ver da porta da biblioteca era a silhueta do recém-chegado contrastando com o mundo branco lá de fora. O som estridente da campainha fez com que ambos se levantassem de um salto. É a Sra. revelou ser um homem jovem. e também falava. Pouco depois. — Quando se diz que a polícia está ansiosa para fazer perguntas a um homem que foi visto nas vizinhanças. E não vou ficar ouvindo apelos para que se economize combustível. — Entra um assassino — acrescentou. — O pior do inverno inglês — uma reversão a Dickens — Scrooge e Tiny Tim e tudo o mais. descansava no chão a maleta e tirava o chapéu — tudo. se você ou eu. O Sr. à luz “do vestíbulo. sentar e congelar? Acho que não devíamos ter começado a pensão no inverno. Não acha? E fiz uma viagem horrível do País de Gales até aqui. Wren e uma rajada de neve entraram juntos. medonho — dizia ele. O tom de voz era alto. de supetão. O que eles querem que se faça. numa peça de teatro. O Sr.— Completamente diferente da idéia que fazia 8 . pensou Molly. Wren. quer dizer que ele é o assassino? — Geralmente é assim. ao mesmo tempo. — Talvez guardasse uma fortuna debaixo do colchão. — Só notícias ruins. Giles fechava a porta contra os elementos. Agora vamos ver quem está certo sobre ele. Davis? Mas que prazer! — Mãos fortes e ossudas apertaram a de Molly. — Seria. Depressa. chapéu cinza. Wren desenrolava o cachecol. Como se pareciam. e. A pessoa tem que ser muito saudável para agüentar isso tudo. cachecol em volta do pescoço. — É a porta da frente — disse Giles. quase que lamurioso. Devíamos ter esperado até a primavera. parecia. Só um modo delicado de dizer as coisas. brincalhão.— Nossa — disse Molly desligando o rádio. — Depois acrescentou num tom de voz diferente: — Como era esta mulher. e olhos pálidos. — Medonho. a que foi assassinada? — Sra. inquietos”. Lyon? — Como é o nome dela? Fico pensando em quem a quis matar e por quê. Deve ser o Sr. os homens com este uniforme de civilização: sobretudo escuro. de claros cabelos emaranhados.

9 . — Tem uma cama de quatro colunas com pequenas rosas de chintz? 1 N. ciente do perfil de Giles. se tivesse a mesa. Pensava que fosse a viúva de um general do exército indiano. muito grata por lhe darem uma boa casa.da senhora. à sua esquerda. quero dizer. — Não! Posso vê-lo? Aqui mesmo? Sua agilidade chegava a ser desconcertante. soltando pequenos gritos de elogio. é maravilhosa — austeridade da Era Vitoriana. muito casa Senhorial sem o brasão de Benares. Adorável. — Quarto leste? — É — disse Molly. — E a mesa de jantar? Por que não é daquelas grandes de mogno? Por que todas essas mesinhas espalhadas? — Pensamos que as pessoas preferissem assim — disse Molly. — Querida. E então lançou um olhar de reprovação à dona da casa. Molly entrou atrás dele. de barba — a mãe fértil e apagada — onze filhos. teria que ter a família certa em volta dela. simplesmente adorável.T. Terrivelmente feia e Mem-sahibish1 e bibelô de Varanasi — um bibelô da Era Vitoriana. e acendido a luz. — Vou levar sua bagagem para cima — disse Giles. enquanto Giles subia as escadas. desaprovador. nós temos. Wren passou os longos e ossudos dedos pelos entalhes do maciço bufê. bonito. Sr. Por acaso vocês têm daqueles bufês lindos — de mogno avermelhado. É claro que. é claro que está certíssima. Olhe para a lareira — pense nas labaredas subindo pela chaminé e fustigando as costas da pobre Harriet. Em vez disso. uma governanta feia e alguém chamado "pobre Harriet" — o parente pobre — que age como conselheira e é muito.: Forma de tratamento dada às mulheres européias na Índia. Ele havia girado a maçaneta da sala de jantar. Wren já estava de novo no vestíbulo. Tem flores de cera? Ou pássaros do paraíso? Mas eu vou amar este lugar. com grandes frutas incrustadas? — Para falar a verdade — disse Molly um tanto sem fôlego sob esta torrente de palavras —. Um pai severo. Sr. Meu gosto por essa época me influenciou. Pensei que fosse estilo Velho Mundo — muito.

— Agora. Mas os Ninhos Pré-fabricados de Chris Wren podem alcançar a fama. E 10 . Giles disse: — Bem. — Suponho — disse Molly. Isto é comércio. Meus pais eram muito românticos. lhe dei o quarto rosa. — Onde ele serviu? Na Marinha? — Isso mesmo. e. sou —-disse o Sr. Há quanto tempo está casada? Está muito apaixonada por ele? — O senhor não quer subir para ver o quarto? — Sim. por isso. mas não ria. escute aqui. Mas gostaria mesmo de saber. Sim. — Foi o que pensei. Ainda não me formei. Sabe. Wren. Nunca serei o Christopher Wren. — E o senhor é arquiteto? — perguntou Molly. Veja bem. não acha? O que sentem e pensam. Giles desceu novamente as escadas e Molly disse: — Vou-lhe mostrar o quarto agora. segurou os cabelos com ambas as mãos e os puxou. Quando ela voltou. recatada — que é o Sr.— perguntou ele. — Acho que seu marido não vai gostar de mim — disse o Sr. ele gostou da bonita mobília de carvalho? — Ele estava louco por uma cama de quatro colunas. Mas é realmente um exemplo notável de racionalização de desejo. Então pensaram que seria uma idéia esplêndida batizar-me Christopher — meio caminho andado. poucos minutos depois. realmente o nome será um empecilho. não tem — disse Giles. — Não. quase. produzindo resultados imediatos. triunfante. claro que esta pergunta foi impertinente. — Isto aqui não é uma festa onde entretemos os convidados. não? O jovem parou. — Pelo menos. que desapareceu na curva da escada. Wren. e não só o que são e o que fazem. sou Christopher Wren. Sr. São bem menos tolerantes do que o Exército e a Aeronáutica. incapaz de reprimir um sorriso. Tinham esperanças de que eu fosse arquiteto. Giles — Molly assumiu uma postura séria. — Sim. — Mas que horror! Nunca começo pelo princípio. acho interessante conhecer tudo sobre as pessoas. Wren. Wren. Giles grunhiu e resmungou qualquer coisa que terminou com: cara ridículo.

pensou Molly quando ia adormecendo. disse-lhe ela. Temos a carta dele. seria servido dentro de meia hora. Está tão leve que deve estar é vazia. que parecia muito bonita. Tratava-se de uma mulher corpulenta. — Pouco importa. — Se ele pagar. será diferente. que tal ir até a cozinha para ajudar? —Posso fazer uma omelete se o senhor quiser — disse. O tempo tornaria tudo difícil. A Sra. foi necessário usar correntes nas rodas. com as cadeiras grandes e a lareira. caso 11 . Neste caso. amanhã. — Sshh. — Ele concordou em pagar. e Molly sentia o coração apertado. Os fatos subseqüentes desenrolaram-se na cozinha. Em resposta a uma pergunta. é claro. O jantar. cativante. e Christopher ajudou a lavar os pratos. ele está vindo — advertiu Molly. quando vierem os outros. Boyle chegou no táxi local. bom. — Muito galante. A manhã chegou com céu escuro e neve. — Nevascas. de aparência intimidativa. Mas você poderia carregar facilmente. Por algum motivo Molly achava que não era a maneira certa de se começar uma pensão convencional — e Giles não gostou nada. A Sra. com certeza — profetizou. pensou Molly. Ah. — Não gosto — atalhou Giles.goste você de Christopher Wren ou não. Nem se deve desconfiar de que haja pedras enroladas em jornal lá dentro.. — Você levou aquela mala dele para o quarto rosa? — Ele a carregou. Giles parecia preocupado. Ele está pagando sete guinéus por semana e é isso que interessa. ela explicou que não havia outros hóspedes no momento. Christopher Wren foi levado à biblioteca. disse Christopher. A agressividade natural fora aumentada por uma carreira de grande utilidade e persistência durante a guerra.. voz ressonante e despótica. e o motorista fez observações quanto ao péssimo estado da estrada. Boyle não ajudou a alegrar a atmosfera. — Pensei que este fosse um estabelecimento de profissionais.

dali a dois dias. a Sra. Se as coisas piorassem muito. Sra. de acordo com linhas científicas. Boyle olhou-o. — Meu Deus. ao entregar o pão. — Têm bastante coisa estocada. naturalmente. — Temos uma porção de enlatados. Boyle — disse Giles. Depois que a Sra. ela poderia lançar mão disso. não há nada que a obrigue a ficar. Ela lembrou-se vagamente de que os irlandeses faziam alguma coisa chamada pão-de-soda. administrada adequadamente. — Talvez.contrário. realmente. Giles deu um risinho irônico. As ruas não estão bloqueadas. avisou que a próxima ida. Se houve algum equívoco. podia não acontecer. — A maneira com que a enfrentou. não penso em fazê-lo. — Pensei. Davis. agressiva. realmente. — Não. você foi maravilhoso — disse Molly. Boyle observou: — Este rapaz é muito excêntrico — com um distinto tom de desagrado na voz. cobraremos preços mais altos. que fosse uma pensão bem-estabelecida. não é? — Ah. — Claro que não vou embora antes de experimentar o lugar. — Ele acrescentou: — Temos tido tantos pedidos que vamos lotar isto aqui com a maior facilidade. — Os arrogantes logo caem do galho quando tomam o próprio remédio — disse Giles. 12 . — Querido. como será que vai se relacionar com Christopher Wren? — Não vai. Boyle — disse Giles —. — Se não estiver satisfeita. talvez fosse melhor a senhora se hospedar em outro lugar. Sra. sim — disse Molly. Sra. ainda pudesse chamar um táxi. naquela mesma tarde. A Sra. Não estou acostumada a me secar em lenços. O padeiro chegou parecendo um explorador do Ártico e. Gostaria de uma toalha de banho grande. Boyle se retirou. por enquanto. Mas acho que é melhor comprar mais farinha. E. — Trânsito interrompido em tudo quanto é lugar — anunciou. não teria vindo — disse ela. futuramente.

Boyle com um bufido — essa criatura teve o que mereceu.O padeiro também lhe trouxera os jornais que ela espalhou sobre a mesa do vestíbulo. Dependentes. vestidos com a melhor roupa de que dispunham. baixando a voz: — Já imaginou. não? — Não sugeri nada parecido. Boyle disse novamente. qual a sensação de ser estrangulada? A Sra. não acha? Uma mulher de aparência vulgar numa rua tão vulgar. indiscutivelmente. Wren! Christopher aproximou-se dela. de estatura média. Parminter estudou-os com uma rápida olhada. Sr. — Na verdade — disse Christopher Wren — se parecia com todo mundo. Reações um tanto lentas. usava um cachecol de lã. Lyon ocupavam a primeira página. Boyle. Ela olhava para a reprodução pouco nítida da assassinada. — Então acha que é. dois homens um tanto embaraçados. Sr. — Ah! — O Sr. — Mas ela foi estrangulada. com todo mundo. Sr. Era hábil em conseguir colocar as pessoas à vontade. Sra. Os assuntos do exterior diminuíram em importância. Wren voltou-se para ela com vivo entusiasmo. o inspetor Parminter disse ao Sargentodetetive Kane: — Vou falar com os dois operários agora. na Scotland Yard. — Ele riu. 13 . — Francamente. senhor. Wren. entraram na sala. Pouco depois. Dá para sentir que tem alguma coisa por trás disso. O tempo e o assassinato da Sra. mais indignada: — Francamente. Wren! Molly leu alto: — O homem que a polícia está ansiosa por interrogar vestia um sobretudo escuro e chapéu de feltro claro. — Como são eles? — Operários decentes. — Sim. Na sua sala. . quando a voz de Christopher Wren disse-lhe por trás das costas: — Um crime muito sórdido. não foi? Fico pensando — e ele esticou as longas e alvas mãos — qual deve ser a sensação de se estrangular alguém. — Certo — o inspetor Parminter aquiesceu. não é? — Sem dúvida — disse a Sra. um crime sexual. — Sim — disse Molly —.

Parminter anuiu novamente. não. como os outros. Minha caixa tinha acabado e o isqueiro de Bill não funcionava. O inspetor Parminter anuiu. estava todo encasacado. — Não tinham fósforos — repetiu. — Fala você. vamos ao que interessa. mas a gente não encontrou ele. — Como um coelho apressado. senhor? Não pensei em nada. não foi. onde ocorrera a tragédia.Pegou uma pneumonia. vai ver que não era importante. "Que frio medonho". "deixou cair uma coisa". — Foi bom terem vindo. — É sim. Fumam? Ele esperou os dois acenderem o cigarro que lhes ofereceu. Joe falou: — Foi assim. e já 'tava tarde e também como era só um caderninho. Os dois homens entreolharam-se. Era um caderninho que deve ter caído do bolso dele quando tirou a caixa de fósforos. e devolvi para ele a caixa e ele saiu tão depressa que. e ele respondeu assim. — Bom. Ele sabia que Jarman Street ficava bem próxima a Culver Street. Joe — disse o mais forte dos dois. senhor.— Então acham que têm alguma informação que possa ser útil no caso Lyon — disse ele. eu chamei. 14 . eu disse. apressou o passo e desapareceu na esquina. à guisa de estímulo. receosos das dificuldades da narração. Depois pediria os detalhes exatos quanto ao tempo e lugar. A gente não tinha fósforo. Eu disse: pode emprestar um fósforo pra gente. quando eu vi. "O chapéu todo em cima do olho e todo abotoado. Bill? — Foi — concordou Bill. Ele 'tava só passando. — Onde isso? — Jarman Street — 'távamos trabalhando na rua lá — gaseiros. Não disse nada. "Ei. "Cara engraçado". senhor". não era nem uma carteira sem nada. naquela hora. Então falei com um cara que 'tava passando. ele tinha deixado cair alguma coisa mas já era tarde. senhor”. só que perguntei pra ele. Mas ele não ouviu. — Não. Eu disse: "Obrigado. como um bandido dos filmes". Sentem-se. — Que tempo horroroso. — Seguimos ele pela Harrow Road. Bom. sussurrando: "É. disse Bill. pensei. está”. sabe. — Aí ele deu o fósforo pra gente.

— Agiram acertadamente — elogiou Parminter. disse para Bill: "Vai até lá”.Aí ele voltou e disse que tinha um monte de gente e que a polícia estava lá. e que a proprietária tinha achado ela e estava gritando. bom. "Culver Street. no 74 e algum maldito solar”. — Então eu disse pra gente dar um pulo lá pra ver. e tenho certeza.— Bom. Anotou lugares horas. Com aquele tempo! — É mesmo — concordou Bill. E ele pegou e leu: "Os Três Ratos Cegos". disse para o Bill. numa rua perto dali. nós veio aqui e perguntemos se podia ver o home que tomava conta do caso. — Então. e quando a gente descobriu que o número era setenta e quatro. senhor —. e então eu vi uma coisa que 'tava escrita em cima da página. Agora. Quando a gente largar. "É aqui pertinho. "Onde foi isso?". mas eu disse que talvez tivesse e. a gente leva". eu olhei. — Engraçado eu dizer isso — não que 'tivesse pensando alguma coisa. Bill tossiu e esfregou os pés com o ar tímido de quem foi injustiçado. bem. desdenhoso. procurando a polícia. e que tinham cortado a garganta de uma mulher ou ela tinha sido estrangulada. — Ela berrou. datas — a única coisa que não perguntou foi a descrição do homem que 15 . perguntei. "Só alguns endereços". ele disse. e ele disse que não tinha visto bem. Suas perguntas tornaram-se rápidas e profissionais.disse para Bill. "Que número?". Joe continuou a narrativa com um certo entusiasmo. depois que a gente discutiu e ouviu que a polícia queria interrogar um homem que saiu de lá por esta hora. "Na Culver Street". perguntei a ele. eu disse para Bill. espero. — Trouxeram o caderninho? Bem. com toda razão. 74". aí a gente discutiu e Bill disse que talvez o endereço do caderninho não tivesse nada a ver. "O que é isso?". — Chique — disse Bill. — Então disse pro Bill: "Vamos dar uma olhadinha no caderninho pra ver se é importante”. não foi? — recomeçou ele. que não 'tamos tomando seu tempo. a gente ouviu uma mulher berrando: "Assassinato!". e nesse exato momento — sim. Com pressa de chegar em casa. Joe fez uma pausa neste clímax artístico. obrigado. — "Culver Street. não disse? — Foi o que você disse — concordou Bill. foi nesse exato momento. disse para Bill.

Não demonstrava medo de nada. mãos enluvadas. Este fora preso cuidadosamente na vítima. quando completou a sentença. é isso mesmo. ele continuou a olhar para o livrinho que permanecia aberto sobre a mesa. dizendo ser Maureen Lyon. Quando os homens saíram. Kane permaneceu detrás dele e assoviou baixinho ao ler: — Os Três Ratos Cegos! Não é possível! — É isso mesmo. um cachecol cobrindo o rosto. Abaixo. Mas agora sua atenção estava voltada para os dois endereços e para a linha da caligrafia miúda no topo da página. pois perdera a voz.. Ele voltou-se quando o Sargento Kane entrou na sala. — E a mulher já foi identificada? — Foi sim. um desenho infantil de três ratos. a descrição de um chapéu enterrado até os olhos. como se chamava a si própria. Este homem toca a campainha. Ela não pode descrevê-lo. e uma pauta musical. Foi libertada de Holloway há dois meses. Lyon. A Sra. É este o tema. Ela 16 . Em vez disso. setenta e quatro. pergunta por ela e a proprietária lhe diz para ir ao segundo andar. nem de ninguém. — É.deixara cair o caderninho. pensativo: — Ela foi a Culver Street. e sabe-se que levou um homem para lá uma ou duas vezes. Não há razão para se pensar que estivesse em perigo. Kane assoviou a melodia: Três Ratos Cegos. mas sabe que é de estatura mediana e que deve ter pego um terrível resfriado. a voz que não passava de um sussurro. vejam como correm. Daqui a pouco iria para o departamento apropriado para ver se havia algum indício. obteve a mesma descrição que obtivera da histérica proprietária. Parminter disse. senhor. Kane. um casaco todo abotoado. era. Está aqui o relatório do departamento de impressões digitais. — Que loucura! — É mesmo — Parminter franziu o cenho. na realidade Maureen Gregg. ou impressões digitais. — Entre. — Parminter abriu uma gaveta e tirou um pedaço de papel que colocou ao lado do caderninho. Olhe.. Ela bebia de vez em quando. Neste estava escrito: Este é o primeiro.

e que servira a maior parte do tempo na índia. enquanto ele e a Sra. e você. Com a chegada do Major Metcalf. Ele parecia satisfeito com o quarto e a mobília. Sua bagagem. duas pesadas malas de couro de porco. Foi cuidadosamente planejado. olhe. O inspetor seguiu-lhe o dedo indicador. senhor — é um jornal velho. — Ligue-me com a polícia do Município de Berkshire. satisfez até mesmo a natureza desconfiada de Giles. posso jurar que vi este nome recentemente. o serviam. Parminter atalhou: — Ora. comiam e lavavam satisfatoriamente. — Monkswell Manor. Espere um minuto — Hotéis e pensões — só um instante. entretanto. Monkswell Manor entrou na rotina de uma empresa em funcionamento. — Está aqui. e. Major Metcalf elogiou o café. Berks... Não ouviu o homem sair. Monkswell Manor. Ele saiu apressado da sala.. Boyle. Eles mesmos faziam o jantar. Verdade seja dita. — Ele calou-se e depois acrescentou abruptamente: — Quantas pensões na Inglaterra que se chamam Monkswell Manor? — Só deve haver uma. e voltou triunfante. jornal — Times. Os olhos do sargento demoraram-se nas duas anotações do caderninho: Culver Street. Era um homem fleumático. Eu estava fazendo palavras cruzadas. não? — Pode ser.. foi levar o chá para a hóspede e encontrou-a estrangulada. Cerca de dez minutos depois. Ele disse: — Então o senhor acha. Espere um pouco. senhor. — Onde? — É isto que estou tentando me lembrar. de meia-idade. Bom.. Molly e Giles não tinham muito tempo para especular sobre os hóspedes. e Giles e Molly foram17 .voltou de novo lá para baixo e não ouviu nada de que pudesse desconfiar. — Seria sorte demais. 74. Monkswell Manor. não vamos perder tempo. Harpleden. Ultima página. ora! onde. — Ele puxou o telefone para junto de si.. trajado com distinção. nem excêntrico como Christopher Wren. — Não foi um crime casual. ele conhecera primos de amigos dela — "do ramo dos Yorkshire" — em Poonah. Major Metcalf não era tão difícil quanto a Sra. Boyle não encontravam amigos comuns. Sabe. Kane.

Ele conseguiu sair. esta noite não é nada propícia para um ladrão sair por aí. — Apresse-se — disse Molly.. quando viu nossa pensão. Giles enfiou-se no roupão. 18 . Que diabos. com uma barba curta e preta e sobrancelhas mefistofélicas.. — Vá ver quem é. legal? — Querida. — Você acha que ele é. E meus pés. que estava agachada. delicadamente. Fragmentos da conversa lhe chegaram aos ouvidos. — Ele é estrangeiro. — Entre aqui. Molly espiava inquisitivamente pelo corrimão da escada. Lançando um olhar reprovador a Molly.. Um homem que se movimentava com passadas de jovem e lépidas. e subiu apressadamente as escadas. até eu preparar o quarto. — Brrrr. Giles fechou a porta da biblioteca. Lá embaixo. — Meus dedos estão tão gelados que não estou nem sentindo. cansados mas vitoriosos — para se levantarem mais ou menos às duas horas da manhã por um persistente toque na campainha. apesar das têmporas grisalhas. Vi a carteira dele — até acho que ele mostrou de propósito —. ela saiu da cama e foi espiar do alto da escada. Molly ouviu os ferrolhos sendo abertos e vozes no vestíbulo. levantou-se. — Ouviu-se o barulho de pés batendo no chão. — É a porta da frente. Pouco depois. — Era um som explosivo. — Quem é? — perguntou. deixando-o lá dentro. simplesmente recheada de dinheiro. andou como pôde — a nevasca continua. — Droga — disse Giles. Que quarto a gente dá para ele? — O quarto verde. Giles sorriu. levada pela curiosidade. — Está quente. Giles ajudava um estranho barbudo a tirar o casaco coberto de neve.. O carro capotou por causa da neve. Só temos que fazer a cama. — Giles abriu a porta da biblioteca. É melhor esperar aqui. e desceu as escadas. Está prontinho. — Outro hóspede para a pensão. está ouvindo? — pela rua. Viu um homem já maduro. não é? — É. — Realmente tenho muita sorte — disse o desconhecido. Molly..se deitar. Disse que foi como uma resposta às suas orações. O nome dele é Paravicini..

A neve chegava a quase um metro e meio de altura.— Acho que tenho que emprestar meu pijama a ele. batendo contra portas e janelas. sem dúvida. A mesa do Sr. A Sra. de um modo sutil. ameaçador. E temos bem pouco. mas o padeiro traz de qualquer jeito. não vai haver padeiro. ainda nevava. a luz elétrica só depende do nosso gerador. Sentia-se indecisa. Lá fora.. Não havia mais ninguém no refeitório. sei lá qual é o nome dele. — Só o rádio nos dizendo o que fazer? — De qualquer jeito. Giles disse: — A neve está caindo grossa. A Sra. o lugar do Major Metcalf acabara de ser limpo. Vá depressa e traga para. Na mesa ao lado. Todas as coisas ficaram no carro. um madrugador e um dorminhoco. — Nem açougueiro. Por um lado é emocionante. completamente isolados. — Nunca tentei fazer pão.. não teremos telefone. Boyle sabia que. E. Pode estar fresco ou dormido. — Você tem que fazer ele funcionar de novo amanhã. Você pode fazer qualquer coisa — disse o fiel marido. Molly apanhou lençóis. Nada de jornais. Boyle sentou-se para o café. Mas se ficarmos isolados pela neve. — Acha que consigo fazer pão-desoda. Boyle acabara de degustar a excelente omelete e trincava a torrada entre os alvos e fortes dentes. — Acho que nosso suprimento de carvão não virá agora. — Oh. relutante. Meu Deus! Giles. Enquanto faziam a cama rapidamente. A manhã trouxe a confirmação das previsões de Giles. só havia um horário adequado ao café da manhã: nove horas. silencioso e. não é? — Eu não sei — duvidou Molly. Monkswell 19 . Ele disse que teve de sair pela janela. Vou voltar para a cama. A Sra. Presumivelmente. acho que vamos enfrentar um tempo duro. É o tipo da coisa que a gente aceita e pronto. O mundo estava branco. Wren ainda estava posta. Giles? — Claro que sim. Vamos ficar cercados. fronhas e toalhas. com toda a certeza. E temos de manter o aquecimento central bem provido. nem correio.

Boyle gostava de conforto. Mas as dificuldades domésticas tornaram sua volta impraticável. no momento. E ela escolhera ir para Monkswell Manor. horrorizadas. O fim da guerra deixara a Sra. que fora requisitada pelo exército. fora-lhe retirada uma causa legítima para queixa. os lençóis bordados. toda essa vida agitada acabara. desesperada. de fundo verde berrante. além das insinuações que faria à importância e sigilo de seu serviço de guerra. Sua casa. que fosse encontrar solteironas apagadas às quais impressionaria com sua posição social e seus contatos. Pensou que jogaria bridge. Boyle abandonada como que no meio do deserto. cruzando. O fato de o café estar excelente e bem servido. Sempre fora uma mulher ocupada falando fluentemente de eficiência e organização. Ela afastou o prato de si. e uma gravata de lã. preocupava os chefes de departamento e. Muito desonesto. precisava de reforma total. Assim. Tinha qualquer coisa de incomum. Ela olhou à sua volta. passava o tempo. geléia feita em casa curiosamente a aborrecera ainda mais. perturbador naquele olhar ligeiramente 20 . era macia. Seu vigor e sua energia evitavam que as pessoas realmente duvidassem que ela fosse uma organizadora boa e eficiente. na porta. E agora. A Sra. A maneira com que ele a olhou. com o extraordinário jovem de cabelos vermelhos. — Grotesco. Um hotel ou uma pensão pareciam ser a resposta. mas também gostava de encontrar defeitos. Grotesco — disse para si mesma. intimidava-as. quando fazia menção de franzir o cenho. Qualquer dia encontraria seu cantinho. Mandava nas pessoas. usava uma gravata xadrez. A cama também. Esta manhã. disse para si mesma. As atividades de guerra lhe caíram como uma luva. Aliás. não se poupava. para conseguir o que queria. mas. o leite muito bom. e travesseiro confortável. também não lhe agradou. além de ser redecorada antes que ela voltasse a morar lá. dispersos. Levantou-se com toda a pompa e saiu do refeitório. Mulheres subservientes andavam de lá para cá. esta última era uma paixão mais forte do que a primeira. e esta já havia desaparecido. de soslaio.Manor não se parecia em nada com o que imaginara. Os amigos estavam espalhados. Voltara à vida privada. não me haverem dito que estavam somente começando.

por volta dos sessenta. Que cadeiras confortáveis. Ela respondeu à sua reverência floreada com um seco movimento de cabeça e marchou em direção à grande sala de visitas. O Major Metcalf estava ajudando Giles a tirar neve da porta dos fundos. Giles levantara-se antes das sete. — Suponho que não vá ficar. Olhou pela janela. a título de precaução andou pela sala e depois colocou a mão na calefação.. Boyle. ela não ficaria aqui por muito tempo. Um homem nada fácil de se analisar: obstinado. Era um bom trabalhador. Poderia reclamar disso. à procura de uma válvula de escape. e Giles chegou a ser clamoroso nas expressões de gratidão Como se estivesse lendo os pensamentos de Giles. devido às exigências de serviço. o major disse: — Foi ótimo sua esposa ter-me servido um café da manhã àquela hora. Era melhor ela deixar bem claro de uma vez que esta cadeira era dela. grande. principalmente esta rosa. há muita neve para ser tirada. Um monte de neve deslizou pelo telhado maciamente. Bem. — Não — disse alto. Os olhos da Sra. a não ser que viessem mais pessoas e tornassem o lugar divertido. — Não vou ficar aqui muito tempo. estava apenas morna. Olhou de esguelha para o companheiro. Alguém soltou uma risadinha de escárnio. Ela voltou a cabeça. E os ovos então. aparentemente cheio de energia. Boyle brilharam. Da soleira da porta. A Sra. Deve ser um desequilibrado — pensou a Sra. Entretanto o major já se levantara.. — Não — disse ele. Que tempo horroroso — horroroso. tomaram chá e foram arrumar as salas de estar. o jovem Wren observava-a com aquela curiosa expressão que lhe era peculiar. se ele mesmo fosse hóspede deste estabelecimento. Bent — pensou Giles —. e vagueava pela casa.zombeteiro. Boyle pulou. tomara o café da manhã. Giles não pôde deixar de pensar que. e não quente. Como desconfiava. fresquinhos. alguma coisa de sempre atento nos 21 . Tudo brilhava de tão arrumado. nada o teria tirado da cama numa manhã como aquela. beligerantes. Colocou o tricô sobre a mesma. Ele e Molly comeram ovos quentes.

com um ligeiro e agradável sotaque. o telefone funcionava ainda. Molly praguejou por ser interrompida. alisando os lençóis e puxando-os para cima. Quem está falando. A princípio. Davis. — Gostaria de falar com o Comandante Davis. apanhou o receptor: — Alô! Uma voz cordial. — Sra. Molly ficou um pouco ofegante: — Ah! pois não. O Sr. na pia — cada um tem que tomar o café numa hora diferente? É um pouco duro. tão rápido quanto possível...olhos. Molly ficou um pouco desconcertada quando lhe levou o café. Reformado. depois. Quando chegou à biblioteca estava um tanto sem fôlego. — Aqui fala Sra. esta manhã. mas. Giles perguntava-se por que teria ele vindo a Monkswell Manor. mas enviei o Sargento-detetive Trotter. Polícia de Berkshire. e sem emprego. Não quero falar muito ao telefone. — E por que — pensou ela ao empilhar a louça um tanto descuidadamente. e correu para atendêlo. Tomou café com uma torrada — uma refeição frugal típica do Continente. por favor. não estou? Molly admitiu um tanto vagarosamente que ele estava certo. surgiu um assunto muito importante. Pensão. Deixou os pratos e subiu correndo para arrumar as camas. Paravicini desceu tarde. Ia começar a cuidar dos banheiros quando o telefone tocou. — No momento não pode atender — disse Molly. por favor? — Superintendente Hogben. Davis. fez uma mesura exagerada e exclamou: — Minha encantadora anfitriã? Estou certo. talvez. Molly fez as camas. sem muito esmero. admitiu. Tinha que limpar o caminho que levava ao boiler e ao galinheiro. e ele se levantou. sentiu um ligeiro alívio pois. Um homem a quem nada escapava. Não podia esperar a menor ajuda de Giles. Não se sentia com disposição para receber elogios àquela hora. Mais do que depressa. perguntou: — É da Monkswell Manor? — Monkswell Manor. chegará a qualquer 22 . afinal.

hoje em dia. com certeza. Ela voltou-se quando a porta abriu. — Superintendente Hogben. Por isso é que as pessoas vivem sentindo-se culpadas. Acho que está errado — mas também acho que é bastante justo. Isto é tudo. — Não vai conseguir chegar aqui. era a polícia. o que. o telegrama está na escrivaninha. — Mas por quê? O que foi que fizemos? — Não sei. Daqui a pouco cuido das galinhas e vejo o boiler. quase tudo o que se faz é ilegal. que mais que fizemos? — Outro dia tirei um fino com o carro. Será que é por causa daqueles três quilos de manteiga da Irlanda? — Mas tenho certeza de que obtive licença.. Giles trazia neve no cabelo e fuligem de carvão no rosto. Giles. por favor. Mandaram um inspetor ou sargento. então por que não posso ficar com os cupons? Oh. Davis. — Giles. Sra. sei lá. Molly? Parece assustada. não foi? — Sim. e desligou.. Tenho um casaco a menos. Com certeza tem alguma 23 . — A polícia? — Giles parecia não acreditar. diga a seu marido para ouvir atentamente o que Trotter tem a dizer-lhes e para seguir à risca suas instruções. Bidlock me deu cinco dos seus cupons por aquele meu velho casaco de tweed. meu amor? Já enchi as caixas de carvão e trouxe lenha. você chegou. Molly bateu uma ou duas vezes no gancho. Estamos isolados por causa da neve. e depois desistiu. Mas foi culpa do outro. — O que é. Sem dúvida. — Ah. — O problema é que. Parecia encalorado. a velha Sra. As estradas estão bloqueadas. Não houve nenhuma hesitação na voz do superintendente: — Trotter chegará aí. Mas ouviu-se um clique definitivo.minuto. — É. Giles querido. Hogben dissera claramente tudo o que havia para ser dito. meu Deus. sem dúvida. E. — Alguma coisa a gente fez — suspirou Molly. Está bem? O que houve.

Dirigir uma pensão deve ser uma atividade cheia de empecilhos dos quais nunca ouvimos falar. 24 . Boyle interrompeu-lhe a frase implacavelmente. Davis — disse a Sra. Paul. há um jovem muito excêntrico se hospedando aqui. vão comer todas as nossas reservas de enlatados. Molly. suas gravatas — e será que nunca penteia o cabelo? — É um arquiteto extremamente brilhante — replicou Molly. agora. Boyle voltou-se para Molly: — Se não se incomoda que lhe diga. Fora isso. Boyle. Vamos ficar isolados durante dias. Disse simplesmente: — Vou colocar mais carvão.. Boyle. — Como? — Cristopher Wren é um arquiteto e. Estamos com pouco carvão e. Claro que era um arquiteto. e a Sra. Sra. Não quero congelar.. desculpe. Mas tudo é mais ou menos proibido. hoje em dia.. Ele beijou-lhe o alto da cabeça. Giles corou. — Ah. — Anime-se.. disse com a voz diferente: — Sabe. Ele saiu. Construiu St. — Ele apontou lá para fora. querida — disse Giles. Não demos bebida a ninguém. mas tudo vai dar certo. Davis.coisa a ver com a administração deste lugar.. — Estou pagando sete guinéus por semana — sete guinéus. Sra. Boyle entrou. a porta abriu e a Sra.. — Deve ser alguma coisa realmente urgente. Quando se entreolharam. soltando-a.. — Ah! até que enfim o encontrei. deve ser alguma coisa muito séria para mandar um sargento até aqui com toda esta neve. — Seria melhor nunca termos começado. pensando bem. — Pensei que o único problema fosse a bebida. um tanto distraído e. por que não podemos dirigir a pensão como bem entendermos? — Eu sei. todos vão ficar zangados.. Parece legal. A Sra. — Estamos com azar. — Minha jovem senhora — retrucou a Sra. — Sabe que o aquecimento central da sala de estar está praticamente frio? — Ora. — É claro que já ouvi falar de Sir Christopher Wren. Sr. meu deus — suspirou Molly. Seus modos. Boyle.

O Sr. — Nunca ninguém me ouve entrar ou sair. É o que preciso saber. também. quase. de modo que deu certo. riu e esfregou as mãos. A Sra. A Sra. Boyle —. Muito estranho. Boyle. Sra. Se fosse você.. numa espécie de regozijo satânico. — Você é jovem e inexperiente e devia acolher os conselhos de quem tem mais conhecimentos. Boyle enrubesceu de cólera. Às vezes ouço conversas.. — Molly acrescentou docemente: — Talvez não saiba disso. — Cuidado. Paravicini. Mas não me esqueço do que ouço. o próprio diabo a estivesse interpelando. faria umas investigações.. que ambos me pagam sete guinéus por semana. ou pelo menos. Ele aproximou-se dela meio que saltitando: 25 . Isso. — Entrei na ponta dos pés — disse o Sr. esta história me parece muito mal contada. Molly ficou olhando para o Sr. — Não o ouvi entrar. Uma hora nada convencional. me diverte. A Sra. O que sabe sobre ele? — Tanto quanto sei sobre a senhora. tem a aparência de. — Hummmmm — resmungou a Sra. por alto. Fala-se do diabo e então. realmente. E ele é. Pouco me importa se gosto de meus hóspedes ou se — Molly olhou fixamente para a Sra. isto é. Boyle disse um tanto parva: — Realmente? Tenho que pegar meu tricô. Ela saiu apressada. — O senhor me assustou — disse a Sra. ou coisa parecida. — Não aceitar viajantes legítimos é contra a lei. — Tudo o que sei é que esse Paravicini. O nome dele é Christopher. Boyle — não gosto. — Francamente.Parece que os jovens pensam que a cultura foi introduzida junto com a Lei da Educação. Acho isso muito divertido.. Paravicini como que perplexa. Boyle sobressaltou-se como se. E este estrangeiro? Quando chegou? — De madrugada. cuidado. não? E é o que me interessa. cara senhora. — Me refiro a este Wren. que entrara com passinhos miúdos sem ser notado por nenhuma das duas mulheres. Paravicini. Deixei-o lá na sala. Boyle. Seus pais o batizaram na esperança de que se tornasse um arquiteto.

Talvez não saiba nada também dos seus outros hóspedes. de maneira um tanto ameaçadora. Vou-me sentar aqui. capotou. — Sim. Talvez o Sr. Tem referências de seus hóspedes? — É costume fazer isso? — Molly parecia preocupada. minha querida dama? Molly deu um passo para trás. não é? Ou então as faz muito simples. Davis? Não devem confiar em todo mundo. — O Sr. ele tomou-lhe as mãos e beijou-as. — Não sabemos mesmo.. O que sabe sobre mim? Nada. não conhece muito sobre a administração de uma pensão. bravo. pensou Molly. a senhora é uma cozinheira maravilhosa. 26 . Paravicini lhe tenha lido os pensamentos. O Sr. — Bravo. — É sempre bom saber alguma coisa sobre as pessoas que dormem sob o mesmo teto. — O que foi.— Minha adorável anfitriã parece aborrecida. O fato é que seu comportamento mudou. mas calou-se quando a própria voltou. — Na verdade. Olhava-a de soslaio como um antigo sátiro. beligerante. — A Sra. Boyle — começou Molly. eu conto. adiantando-se: — Deixe-me avivar o fogo para a senhora. Afinal de contas — a voz de Molly deixou transparecer uma ligeira ansiedade —. Não sabia ao certo se gostava muito do Sr.. — Eu. — Antes que pudesse evitá-lo. Ela encaminhou-se para a lareira. "Que cacetes. Mas vamos fazer o melhor. antes de tudo. — A senhora me permite um conselho. — Pensei que era só as pessoas virem. pensativo. Falou calmo e sério. — Por causa da neve. Sra. tricô na mão. estes estrangeiros". — Aquela sala de estar é muito fria. Paravicini deu uma pirueta. — E há muita coisa que não sabe. por exemplo. — Não — disse. — Ele inclinou-se para frente e bateu-lhe no ombro. Paravicini. não cozinho muito mal. Paravicini voltou a cabeça para olhar pela janela. Meu carro. Acho que. — Tudo está um tanto difícil hoje — disse. — Não sei o que quer dizer. — A neve torna as coisas bastante difíceis. Apareço de madrugada. Molly levantou o queixo.

de jovem. Este homem. Molly. ela disse para si mesma. Não conseguia defini-la. zangado. Disse numa voz curta. — Por quê? — Ah. a porta abriu-se e Giles entrou. Paravicini estava hábil. deixando atrás alguma coisa talhada na madeira. agora que ele se ajoelhara. uma forte emoção se estava processando. e desta vez sua voz só revelava uma certa curiosidade: — O que tem a polícia? — Eles telefonaram — disse Molly. — Ouvi dizer que a polícia vem até aqui — disse ele. — Por que estão mandando a polícia para cá? — Ele aproximou-se dela. para atiçar o fogo.Molly impressionou-se. — Agora mesmo. — Mas não creio que consiga chegar aqui — disse esperançosa. Boyle parou de tricotar. Ele disse de novo. cuidadosamente forjado. de staccato: — Polícia? Ela tinha consciência de que. com aqueles passos lépidos. atrás daquela dura imobilidade. Parecia até mais velho. Paravicini deixou cair o atiçador na lareira com um estrondo. não o conseguia. O Sr. ficou confusa com a súbita imobilidade e indescritível expressão. atenção ou excitação — mas havia alguma coisa. mas indubitavelmente "maquiado". — Veio muita pedra junto com este carvão — disse. A entrada barulhenta do Major Metcalf a trouxe de volta às desagradáveis realidades. — Sra. olhando para o Major Metcalf. Só aquele andar é que parecia incoerente. — Meu Deus! Que dia horrível. Ela notara que ele parecia ter sempre a preocupação de estar sempre contra a luz e. assim como na noite anterior. Primeiro a polícia e depois os canos. mas antes que ela pudesse responder. Então o velho idiota tentava parecer mais jovem do que era na realidade? Bem. A Sra. Davis.. também. Talvez fosse. — Ela olhou em direção da janela. — ele baixou a voz — vestiário lá embaixo estão congelados. creio que os canos do. — Ninguém pode passar. pode ser perigoso. Podia ser medo. Era como se toda a emoção tivesse sido sugada de seu rosto. não é nada — disse Giles. A neve 27 . Depois acrescentou: — Aconteceu alguma coisa? Major Metcalf virou-se para ele. Mandaram um sargento para cá. ela pensou ter encontrado a razão para isso: o rosto do Sr..

Davis? Ela encolheu-se um pouco diante da malignidade daquele olhar. E neste momento ouviu-se distintamente. Quando a porta do vestíbulo se fechou. — Ê o Sr. Um policial — esquiando! 28 . mais alta do que o clique das agulhas de tricô: — Acredite ou não. venha comigo. com um grito. Este veio com a ênfase e a ameaça de um aviso fantasmagórico. Paravicini aproximara-se de Molly. azeda: — Com certeza é para isso que pagamos à polícia. Boyle disse. com reprovação. animado. Isto os assustou. — Não pode ser sargento — disse. — É muito jovem. E ali estava um homem. mas este homem é um policial. baixinho: — Por que mandou chamar a polícia. O rapaz. batendo na vidraça e o mistério de sua chegada era explicado pelo fato de usar esquis. Para que se divirtam com os esportes de inverno. Sua voz era animada e o rosto bronzeado. três batidas na janela. E então Christopher Wren entrou porta adentro. Eu não chamei. Giles atravessou a sala. lutou com o ferrolho e abriu a porta envidraçada. que era mesmo muito jovem. dizendo num sussurro penetrante: — Quem é o homem ali no vestíbulo? De onde veio? Tão cordial e cheio de neve. a Sra. A voz da Sra. enfrentou a crítica e respondeu um tanto aborrecido: — Não sou tão jovem quanto pareço. Boyle fez-se ouvir. — Obrigado. Sra. Por alguns momentos não localizaram o som. desanimada: — Mas eu não chamei. Todas as estradas estão interrompidas. — Sargento-detetive Trotter — apresentou-se. senhor — disse o recém-chegado. E disse. Molly apontou para a porta-janela. Ninguém vai chegar aqui hoje. Boyle olhou-o por sobre o tricô. A Sra. E então. com descrédito.chega a um metro e meio de altura. Com uma exclamação. Foi com uma espécie de assovio na voz que perguntou. hoje em dia. Passou os olhos pelo grupo e viu Giles. Davis? Posso tirar esses esquis e guardá-los em algum lugar? — Claro. Por um momento sentiu medo. Este era um novo Paravicini.

muito sério. fluente: — Relaciona-se com a morte da Sra. É mais uma questão de proteção policial. O Sargento Trotter fechou cuidadosamente a porta. Depois deu um largo sorriso. que fora honrada por esse nome. — Ora. Christopher continuava a ter ataques de riso. não acha? Sempre achei os policiais muito atraentes ““. Boyle. que foi assassinada em Londres há dois dias. um riso alto. — Fizeram? — O sargento olhou-a durante alguns segundos. Major Metcalf murmurou para Molly: — Desculpe-me. — Alô. irritado.. Trouxe com ele uma atmosfera de lento processo judicial. — O que foi que fizemos. entende? Não tendo a mínima idéia do que se tratava. Não. Lyon. chorosa. Giles entrou com o Sargento Trotter. Sra. completamente mudo.. O Sargento Trotter prosseguiu. — De jeito nenhum — concordou a Sra. — Molly — disse Giles —. — É uma piadinha particular — disse ele. mas posso usar o telefone? — Claro. Christopher Wren estava rindo. Isso é engraçado. Voltou-se para Molly: — Sra. estridente: — É muito bonito. Davis. Os três saíram da sala. este telefone está mudo. Davis. o detetive está chegando. Este se livrara dos esquis."A ruptura final das classes mais baixas chegara". Desculpe se houve uma interpretação errônea. Ilhados. retirara a neve e vinha segurando um caderno grosso e um lápis. Entraram numa salinha atrás do vestíbulo. pareciam dizer seus olhos. 29 . — Estava funcionando agora mesmo. Davis. o sargento quer falar conosco em particular. Ele dirigiu-se ao aparelho enquanto Christopher Wren dizia. não é? — Não vejo motivos para risos — disse o Major Metcalf. alô — Major Metcalf batia no telefone. estridente. ambos olharam para ele de maneira inquisitiva. — Vamos ao gabinete — disse Giles. Maureen Lyon. Ela foi interrompida. Eu. — Shhhhh — colocou o dedo nos lábios —. sargento? — Molly perguntou. quase histérico. não é nada disso. — Então estamos mesmo isolados agora. Major Metcalf. Sra. é algo completamente diferente.

A Sra. na verdade. e ambos os Greggs foram condenados à prisão. Trotter continuou. Sra. Só um som quebrou a quietude. Davis. — Acho que me lembro de ter ouvido falar — disse Molly um tanto ofegante. é o que esperávamos. Uma destas crianças veio a morrer como resultado de negligência criminosa e maus-tratos. O verdadeiro nome dela era Gregg. — Perigo? — repetiu Giles. O falecido marido era fazendeiro e morava na Fazenda Longridge. — Nunca tínhamos ouvido falar dela — disse Giles. — Onde a mulher foi assassinada? — disse Molly.Talvez tenham lido sobre o caso. Ela era fichada e. Apanharam um caderninho perto da cena do crime. não muito distante daqui. senhor. Era um som secreto. um macio e inesperado prop da neve que deslizou pelo telhado para cair no chão. — E agora foi assassinada — disse Giles. Gregg escapou a caminho da prisão. E o outro endereço era Monkswell Manor. quase que sinistro. foi fácil identificá-la. Nele havia dois endereços. 30 . Gregg cumpriu a pena e foi libertada há dois meses. O fato causou sensação. — Em 1940 eu era um aspirante e servia no Mediterrâneo. Sra. — A primeira coisa que quero saber é se conheciam a Sra. incrédulo. Davis. este não era o nome verdadeiro da vítima. O primeiro era Culver Street. senhor? — perguntou. Giles balançou a cabeça. — Sim. Talvez tenham ouvido falar no caso da Fazenda Longridge. roubou um carro e sofreu um acidente quando fugia. Mas. — Isso mesmo. Trotter olhou então para Molly. A sala estava muito quieta. — Mas por que veio aqui? O que temos com isso? — É questão de estar em perigo. Lyon. — Três crianças evacuadas alojaram-se com os Greggs na Fazenda Longridge. em 1940. Morreu na hora. pelas impressões digitais. — Bom. Maureen Gregg. e Molly concordou. — Lembra-se do caso. — Quem o senhor acha que é o assassino? Mas o Sargento Trotter não se deixava apressar. — Lemos — disse Molly. setenta e quatro.

sargento? — perguntou Molly. ou com essa casa ou com o caso da Fazenda Longridge. — E. sim. Giles disse. Ele teria vindo pessoalmente se fosse possível. Giles fez uma pausa. Pregado ao corpo da vítima. — Há. como que se desculpando: — Não queria aborrecer a senhora.— O quê? — A voz de Molly revelava incredulidade. homem. sério: — Segurança? — Meu Deus. Molly cantou baixinho: Três Ratos Cegos Vejam como correm Todos correram atrás da mulher do fazendeiro! 31 . — Mas que motivos podia haver. não acha que alguém vai ser morto aqui. por ser uma loucura. ele mandou-me aqui com instruções para saber de todos os detalhes sobre os que se encontram aqui. absolutamente nada — disse Giles. — Mas isso tudo é uma loucura. mas. um desenho de três ratos e uma pauta musical. — Não há nada. senhora. O Sargento Trotter disse com brandura: — O Superintendente Hogben não acha que seja coincidência. e já que sou exímio esquiador. — Por isso o Superintendente Hogben achou imperioso saber se tinham conhecimento de alguma conexão com vocês. No alto da página do caderninho estava escrito "Os Três Ratos Cegos".. na realidade. e Trotter disse: — É justamente para descobrir isso que estou aqui. não é. achamos perigoso. acha? Trotter disse. um pedacinho de papel onde se lia: "este é o primeiro”. relatar-lhe tudo por telefone e tomar todas as medidas que julgar convenientes para a segurança da casa. Devido ao tempo. — Mas que estranho. A música é a daquela historinha infantil em verso Os Três Ratos Cegos. — Há mais alguma coisa que ainda não nos contou.. — Deve ser alguma coincidência. é justamente isso que o Superintendente Hogben acha.Abaixo.

cartões de racionamento. Sargento Trotter. então ficaremos de sobreaviso. — E se me disser quem mais está hospedado aqui? Eles deram-lhe os nomes. Ela saiu do gabinete abruptamente. — Acha que foi ele quem matou a Sra. devem ter carteira de identidade. 32 . — O que sabe sobre estas pessoas? — Eu — nós — Giles hesitou.. O mesmo se aplica a senhora? — Eu. uma menina de quatorze e o menino de doze que morreu. ou melhor do branco — o carro dele capotou aqui perto. Alistou-se no Exército com dezoito anos.. Sr. Major Metcalf. é claro. Ela cessou bruscamente. não é? — Isso mesmo. Wren de um hotel particular em South Kensington. Sra. Paravicini. Christopher Wren.. Major Metcalf. Ele os anotou no caderno. Um menino de quinze.Ela. O Sr. Depois desertou. — E que ele é um maníaco homicida capaz de aparecer aqui por alguma razão desconhecida? — Achamos que deve haver uma ligação entre alguém aqui e o •negócio da Fazenda Longridge. Não conseguimos localizá-la. Depois disse. O senhor disse que não tinha nada a ver com o caso. Contam que ele sempre foi um tanto — efeminado. Davis. Lyon? — perguntou Giles.. O psiquiatra do Exército afirma que ele não é. normal. absolutamente. do nada. Sra. Quando pudermos esclarecer qual é essa ligação. Havia três crianças. Mesmo assim. claro. esse tipo de coisa. O menino deve ter uns trinta e três anos agora. Boyle. Boyle escreveu do hotel Bournemouth. Nós o perdemos de vista. Desde aí. desapareceu. calmamente: — Na verdade. Paravicini é que apareceu assim. A Sra. — E isso me faz lembrar que tenho de colocar as batatas no fogo. Trotter voltou-se para Giles. — Empregados? — Não temos nenhum empregado — disse Molly. não sabemos nada sobre eles. de Leamington. Sr. — É horrível — horrível. o Sr. — O que aconteceu com os outros? — Acho que a menina foi adotada por alguém.

curiosa. Às vezes desejo que Sir Walter Raleigh nunca tivesse descoberto estas coisas abomináveis.. Sargento Trotter suspirou. Davis — são fatos concretos. — Ficaria agradecido. Christopher Wren! Sargento Trotter foi ter com Molly na cozinha. — Tem a descrição do homem? — perguntou Molly. — Sim. Molly disse. — Não é fantástico. a não ser no caso do Paravicini. Todos os hóspedes chegaram depois disso. muito gentil. Como vê — pode ser qualquer um. Parecia cansado quando disse: — Estes crimes foram premeditados. não. sabe. falava sussurrando. Davis. franzino. Sr. Davis. Davis. Davis. — Como assim? — A Sra. é claro.. O Sr. — O que quer dizer com isso? Sargento Trotter hesitou por um momento e então disse: — Tem que pensar que ele pode já estar aqui. — Crimes? Mas só houve um crime por enquanto. e escondia o rosto com o cachecol. Espero evitar isso. Por que tem tanta certeza de que haverá outros? — Que haverá. Sr. sô pode ser uma pessoa. — Certo. Sra. O Sargento Trotter manteve um silêncio de desaprovação. usava casaco escuro e chapéu claro. Que será tentado. Davis. é bom que o tempo esteja assim. O assassino não vai poder locomover-se. é tão fantástico. deixe só eu acabar de preparar estas batatas.— Vou ver tudo isso. — Altura mediana. — Mas então. Sra. sim. se estiver certo — Giles falava agitado —. já se adiantou para preparar tudo. 33 . Sra.. vai? — Talvez ele não precise. — Ele fez uma pausa e acrescentou: — Há três casacos escuros e chapéus claros pendurados no cabide do vestíbulo. Gregg foi morta há dois dias.. Só há uma com a idade certa. Giles olhou-o fixamente. Desejo fazer uma exposição a todos. — Por um lado. mas fizeram reservas anteriormente. se viesse comigo à biblioteca. como que para se desculpar: — Não consigo acreditar.

— Há um ano. talvez. permita-me dizê-lo. Ela conhecia muito pouco da infância e adolescência de Giles. tola e infantil. Davis são novos neste ramo. — Foi — disse ela. é? — Não — disse Molly vagamente. Quando voltou ao presente. e acrescentou. ambos sabiam. para dirigir um lugar desses — disse o sargento. — Seu marido-não é daqui. — Não? — Com um rápido movimento..— Acho que nenhuma dessas pessoas veio de Londres. — Mas que coisa estranha! — Molly parou. Seus pensamentos voltaram àqueles quatorze dias de estonteante namoro. Sra. Ela fez uma pausa brusca quando a porta se abriu e Giles entrou. — São ambos muito jovens. eles haviam descoberto o milagre um do outro. Deu um leve sorriso. — E acrescentou: — Pelo que concluí. — Está tudo preparado. encontrou o Sargento Trotter olhando-a. o Sargento Trotter foi ao aparador e apanhou um jornal. com deleite. Sra. Num mundo agitado e de preocupações. De repente ela sentiu-se jovem. — Amor à primeira vista — disse o Sargento Trotter. — O Evening Standard de 19 de fevereiro. tentando lembrar-se — De onde pode ter vindo este jornal? — Não deve julgar ninguém pelas aparências.. Não conhece nada sobre estas pessoas que hospedou. compreensivo. Os pais estavam mortos. Dois dias atrás. — Aconteceu tudo tão de repente. Não havia dúvidas. e ele sempre evitava falar no passado. não sei. — Ele é de Lincolnshire. Já dei a eles uma pequena idéia da coisa. — Não está casada há muito tempo. uma infância infeliz. — Ela corou ligeiramente. a senhora e o Sr. não são? — Sim. Molly sentia-se incapaz de tratá-lo com aspereza. pensava ela. Davis. confidencialmente: — Só nos conhecíamos há quinze dias. Alguém trouxe esse jornal aqui. Tenho vinte e dois anos e. Está 34 . Davis. Ele deve ter tido. — Ah. somos — admitiu Molly.

mais insistente. Mas ninguém falou ou se mexeu. Não sei nada. vou perguntar a um por um. Quatro rostos sem expressão olhavam para o sargento. Boyle uma espécie de acompanhamento de contrabaixo: — Um desmando absoluto — pura incompetência. Sargento? — Me poupa tempo — disse Trotter. surpreendentemente. por favor. A voz de Trotter revelava uma certa raiva. Davis? Quatro vozes falaram ao mesmo tempo quando o Sargento Trotter entrou na biblioteca. Ele levantou as mãos num gesto de protesto tipicamente estrangeiro. 35 . Sra. temos razão para acreditar. será que podiam dar-lhe todos os detalhes sanguinolentos? Partia da Sra. Ele pedia fatos. o Sr. — Mas sou estrangeiro. — Bom. Um de vocês. O Sargento Trotter falou de novo. indignação. Sr. Davis já disse mais ou menos o porquê de minha presença. Os gestos diziam mais do que as palavras. então. levantou a mão. Podia-se ouvir o Major Metcalf vociferar de vez em quando. Paravicini era eloqüente. — A polícia não pode deixar os criminosos vagando por aí. As emoções de momentos atrás — animação. histeria. — Muito bem. sobretudo com as mãos. A mais alta e estridente era a de Christopher Wren que dizia que isto também era muito emocionante. — Por favor. Tenho que saber quem é. procurem entender. autoritário e. O Sr. inspetor. as quais eram abafadas pelo contrabaixo da Sra. desses assuntos locais já passados. que não dormiria nada à noite e. — Está pronta. nada mesmo. corre sério risco — risco de morte. fez-se silêncio. Trotter esperou alguns momentos e. — Obrigado — disse ele.bom assim. Boyle. Quero só saber uma coisa. Paravicini? Um sorriso muito desmaiado oscilou no rosto do Sr. curiosidade — apagaram-se como uma esponja apaga as marcas de giz numa lousa. uma coisa só e quero saber com rapidez. Paravicini. Quem de vocês tem ligação com o caso da Fazenda Longridge? Ninguém quebrou o silêncio.

Ele olhou à sua volta e riu de novo. Não me lembro nem de ter ouvido falar sobre isso. ora. Boyle? — Realmente. — Isso é tudo o que têm a dizer? Silêncio de novo. — Meus queridos — disse Christopher. Tão ríspidos e decididos. Trotter soltou um suspiro exasperado. Que coisa emocionante. Perguntou direto: — Sra. Nunca me confundiram com um assassino. Giles disse. Wren. — Que melodramático! — E acrescentou: — Ele é muito bonito. não vejo por que. — Puro melodrama — disse a Sra.Trotter não perdeu tempo. Os claros olhos de Christopher dançaram. e estou me divertindo muito. por que teria eu alguma coisa a ver com este negócio horrível? — Sr. Naquele tempo servia em Edinburgh. — Se um de vocês for assassinado — disse ele —. Como é mesmo a melodia? Ele assoviou a área. Ele voltou-se subitamente e saiu da sala. Ê o que a torna tão deliciosamente macabra. Boyle. De qualquer forma. — Mas espere. — Se pudessem ver suas caras — 36 . até que eu lhe pule em cima e a senhora sinta minhas mãos em volta do pescoço. — Ah. — Li sobre isso nos jornais. quero dizer. — Major Metcalf? O Major disse abruptamente. Molly encolheu-se. é uma brincadeira sem graça. não é? Realmente admiro a polícia. — É justamente isso — brincadeira de um homem louco. só poderá se culpar a si mesmo. Boyle — ele baixou a voz —. — Não chega nem a ser brincadeira — disse Metcalf. Sra. Wren? Christopher disse com a voz estridente: — Eu era apenas uma criança naquela época. — Não acredito em nem uma palavra. Os três ratos cegos. baixinho e Molly gritou involuntariamente: — Não! Ele rodopiou em direção a ela e riu: — Mas querida. mas é — disse Christopher. este é meu prefixo. zangado: — O senhor está aborrecendo minha esposa. maliciosos.

Boyle. Muito injusto. calmamente: — Acho que a senhora era. — Ele olhou para Molly que anuiu. Major Metcalf. Boyle foi a primeira a se recuperar. — Acho que na guerra sofri como todos e meus nervos vão muito bem. — Provavelmente se nega a cumprir com certas obrigações. — Talvez isto não faça diferença para a senhora — disse Metcalf. — Um neurótico maleducado — disse ela. — sua voz foi sumindo aos poucos. — Francamente. momentoso: — A senhora foi responsável por mandar três crianças para Longridge. a senhora era encarregada dos alojamentos. — As pessoas têm tantas desculpas para perder o controle dos nervos — disse a Sra. Boyle corou. Boyle. Giles disse vivamente: — Por que não contou ao Sargento Trotter? — Não é assunto da polícia — retrucou a Sra. — E daí? — perguntou. Depois saiu apressadamente da sala. 37 . amarga. Molly murmurou: — É claro.disse ele. também ele saiu da sala. irada. Boyle. em 1940. você sabia? — Giles olhou-a.. — Isso explica muita coisa. Boyle. Sra. Metcalf disse. o oficial encarregado dos alojamentos neste distrito. E então. Não sei como podem culpar-me ou me responsabilizar. não vejo como podem responsabilizarme pelo que aconteceu. — É isso mesmo. — Molly. — Posso cuidar de mim mesma. na verdade. não tinha? — Já requisitado — disse a Sra. — Ele me contou que ficou enterrado durante um ataque aéreo durante quarenta e oito horas — disse o major. na minha opinião. — E completamente arruinado — acrescentou com amargura.. A Sra. surpreso. Agora me lembro. séria. — O que quer dizer? Major Metcalf disse. O pessoal da Fazenda parecia muito bom e ansioso por ter crianças. — Devastado. não é? A Sra. — A senhora tinha aquele casarão na comunidade. Major Metcalf disse calmamente: — É melhor tomar cuidado.

— Mas estava funcionando antes disso. Gostaria de usar o telefone. — Você acha que ele — mas ele é muito mais velho. Ele encaminhou-se para o telefone. — Mas.. o sargento reentrou na sala. Talvez esteja maquiado para parecer mais velho. — Não confiaria nem um pouco nele. o Sr. — E não sou inspetor. Estou estragando o efeito de seu solene aviso. Neste momento. irado — que todos achem isso tão engraçado. — Vou sair de mansinho. Davis. os passos lépidos e elegantes que Molly notara antes. Recebeu o recado do Superintendente Hogben? — Recebi. o senhor acha. Acho que desde aí o telefone emudeceu — por causa da neve. Realmente peço desculpas. O Sargento Trotter foi ríspido com ela. — Queira me desculpar — disse. Lançou um olhar reprovador para o Sr. Tem o andar de um jovem. realmente.. Paravicini começou a rir baixinho. E lá foi ele. — Tipo do criminoso — disse Trotter. Sargento Trotter. Sou apenas um sargento. — Peço mil desculpas — disse Paravicini. Davis. — Peço desculpas. — O quê? — Trotter voltou-se com uma pirueta. Tenho que me comunicar com o Superintendente Hogben. — Não vamos chegar a nada com especulações inúteis. ou será que não chega a ser velho? Ele usa maquiagem — e muita. Estou me divertindo muito. acho isso tudo muito divertido.. O alarma de sua voz impressionou a todos. Depois jogou a cabeça para trás e riu a não mais poder.. — O telefone está mudo. — Mudo? Desde quando? — Major Metcalf tentou falar um pouco antes do senhor chegar. ofegante.. Sra. — Ah! — exclamou Molly. Paravicini. Sargento Trotter deu de ombros. meu querido inspetor.E então. Sra. — Mas o senhor não pode — disse Molly. — Fico contente — disse.. muito mesmo. — Fiz o que pude para tornar clara a situação — disse ele. 38 . — Ele é um sujeito esquisito — disse Giles. por favor.

Murmurou infantilmente: — Não posso continuar. Giles estava ao lado do telefone do seu quarto.. Não vou pagar sete guinéus por este tipo de coisa. — Será que. Trotter abriu a janela e pendurou-se. por favor. seu rosto mudou. Ali encontrou uma luva de Molly. Examinando-a bem. Apanhou-a. Ele levantou-se. — O senhor acha? — Vou me certificar. Molly arregalou os olhos. Depois enterrou o rosto nas mãos e pôs-se a soluçar. Quando saiu apressada da sala. não teremos nada para comer. Curvou-se até o rodapé. assoviando vivamente. talvez tenha sido cortado. a Sra.. e depois saiu também. Paravicini encontrava-se na sala de estar grande. De dentro dela caiu uma passagem de ônibus cor-de-rosa. abriu a porta e ficou um momento com o olhar perdido. O Sargento Trotter abaixou-se. Dirigiu-se ao magnífico piano e o abriu. seguindo os fios. no nosso quarto. lá em cima. Ele sentou-se na beira da cama. E então. Giles ficou-lhe observando a queda. — Tenho que continuar. O Sr. Giles subiu correndo. O homem que andou vagarosamente. tirando neve do parapeito. Quer que vá lá para examinar? — Sim. Sentado no banco. Molly terminou de descascar as batatas. Boyle resmungou: — Pirralha incompetente! Que lugar. endireitou os ombros.. parecia outro. começou a tocar uma melodia com apenas um dedo. Giles hesitou.. Christopher Wren estava no quarto. Perguntou a Giles: — Tem extensão? — Tem.O rosto de Trotter continuou sério. Molly exclamou: — Minha nossa! Está quase na hora do almoço. Três Ratos Cegos Vejam como correm. Se não me apressar. Tenho que ir até o fim com isso. como num sonho. Andava de um lado para o outro. jogou-as dentro de uma 39 . De repente o assovio foi diminuindo até desaparecer. sua disposição alterou-se. Ele saiu apressado da sala.

é você — disse aliviada. A Sra. não — repetiu baixinho. A casa estava mergulhada em silêncio. Boyle vociferou: — E que mais posso fazer? — perguntou. Aquela melodia. Dirigiu-se uma vez mais para a porta da cozinha. não — disse Molly. Vamos dizer que você se encontre sozinha numa sala. A Sra. confortável e espaçosa recendendo ligeiramente a comidas saborosas. Tudo saía de acordo com o planejado. foi informada por uma voz refinada: “A psicologia do medo deve ser totalmente entendida. Boyle. Não consigo encontrar nada que valha a pena ouvir. a não ser por alguém que assoviava. Tão quentinha. abriu a porta do grande armário sob as escadas e examinou-o curiosamente. olhando mais uma vez para a cozinha que lhe era familiar. Olhou para o forno. — Ah. Ninguém por ali. Boyle. Boyle. como sonâmbula.”. — Que programas idiotas. Abriu a porta... — Ah... virou-se rápida. Se ao menos pudesse se lembrar. Sobre a mesa da cozinha.. Tudo parecia quieto. levou a mão aos olhos. Mudando. uma cópia do Evening Standard de dois dias atrás.. não! Aos poucos afastou as mãos dos olhos. Ao vê-lo. Não podia haver melhor hora para cumprir o que determinara fazer. — Ah. na biblioteca. A Sra. Na primeira tentativa. impaciente. Ele esperou alguns momentos no vestíbulo. A última coisa que queria ouvir. Sim. — Ah. Sra.vasilha e colocou-as no fogo. De repente. de estação. Major Metcalf descera tranqüilamente pelas escadas dos fundos. — 40 . Foi andando devagar. Molly estremeceu e recuou. Uma porta se abre suavemente por trás de você. terrivelmente sobressaltada.. girou os botões do rádio com alguma irritação. Olhou à volta da cozinha como alguém que está num lugar estranho.. Esperou um pouco. franziu o cenho. em direção ao vestíbulo. tudo estava em ordem e progredindo. — Não me daria ao trabalho de ouvir. pegara uma conferência sobre a origem e significação das histórias infantis em verso.

. zangado. Estavam todos amontoados na cozinha. — Mas foi um pouco antes. O delicioso cheiro de torta de fígado. Davis. que emanava do forno. O assassino era muito esperto para deixar que isso acontecesse. Sra.. Apenas cinco minutos se haviam passado desde que os gritos apavorados de Molly fizeram com que ele e os outros corressem para a biblioteca. Molly. O rádio agora tocava mais alto.. a quinta. Quatro pessoas abaladas entreolhavam-se. Não tenho certeza. — Não está vendo o estado em que se encontra? — Estou investigando um assassinato. olhava para todos reunidos. embaixo. à direita? — Não sei. O próprio Sargento Trotter.. — Que porta? — Não sei. — Pense. desculpe-me. assim que eu. Boyle.Trancada com um possível assassino — não que acreditasse naquela história melodramática. Sra. No fogão. Boyle? — O que — o que quer dizer? A faixa de uma capa de chuva se enrolara tão depressa em volta do pescoço que ela mal percebeu seu significado. — Ela acabava de ser morta quando a encontrou. Sr. Sra. — Não acredita. Mas não houve muito barulho. irado. a voz apagada. Davis — tente pensar — em cima. enchia a cozinha. em algum lugar. mas creio que ouvi uma porta fechar-se suavemente. o Sargento Trotter. dava pequenos goles no uísque que a sexta pessoa. — Não pode parar de importuná-la? — disse Giles. que eu entrei na biblioteca. à esquerda. pálida e trêmula. Tem certeza de que não viu nem ouviu ninguém quando atravessou o vestíbulo? — Alguém assoviando — disse Molly. 41 . — Vai ver que nem ouvi nada. estou lhe dizendo — gritou Molly. O conferencista sobre a psicologia do medo gritou as cultas observações na sala e abafou quaisquer barulhos eventuais concomitantes à morte da Sra. forçava-a a beber. acho. por nenhum momento. as batatas borbulhavam alegremente. Davis.

— E o que tocava? — OS Três Ratos Cegos. Boyle está morta. — Sim. sargento. — Bobagem. não seria tanta coincidência assim. sargento. Davis estava lá em cima no quarto examinando a extensão telefônica? — Estava — disse Giles. — Ele fez uma pausa como se tivesse dito alguma coisa sutil.Comandante Davis. — Outra? Tolice. Paravicini. Davis. teria que haver. Só existia uma possível vítima em Culver Street. Aliás. Giles disse. quando ouviu a Sra. sargento. A Sra. Ela está morta. só com um dedo. setenta e quatro. todos vocês. Ninguém o ouviu tocar. — A mesma coisa 42 . a não ser que se vá ao fundo disso — e rapidamente —. ambas com uma parcela de culpa no caso da Fazenda Longridge. Mas em Monkswell o campo é mais vasto. Boyle foi morta. pode haver outra morte. Seria uma coincidência improvável. — Não uso minha patente de guerra. Sr. — O Sr. Paravicini? — Estava tocando muito. — Já me disseram onde estavam quando a Sra. Até agora ninguém tinha levado a coisa com seriedade. tocava melodias ao piano. — Devido a certas circunstâncias. duas pessoas vindas aqui por acaso. Trotter. Por quê? — Porque — respondeu o sargento. na sala de estar. — Ele sorriu. — Sr. incrédulo: — Uma morte para cada um deles? Mas teria que haver uma ligação — quer dizer — uma outra ligação com o caso. Boyle me sonegou informação. — É verdade. circunspecto — havia três ratinhos cegos. a Sra. Wren. — Ele dirigiu-se também aos outros. Bom. sargento. muito baixinho. O senhor estava no seu quarto. Vou verificar a versão de cada um. Sr. Pense um pouco. senhor. — Mas por que outra morte aqui? — Porque só havia dois endereços no caderninho. E. Davis gritar? — Estava. Sr. estou investigando um assassinato. — Como dizia.

fazemos um curso sobre psicologia. — Certamente. major. — Vamos deixar de muita conversa? — disse Giles. — Foi isso o que ouviu. — Espiei aquele armário sob a escada e então notei uma porta. sabe? — Ele acrescentou: — No nosso treinamento.que o Sr. Vocês têm bonitos porões — disse a Giles. Uma secção foi cortada do lado de fora da janela da sala. perigo. — E o fio do telefone? — perguntou Metcalf. Como podemos esperar resolver alguma coisa? — perguntou Christopher. — Então. estridente. — Foi a porta do armário que fica sob as escadas. Uma porta fechou-se com um leve rangido. — Cripta de um antigo monastério. Pode ser que. Davis? Vou deixar a porta aberta. Major Metcalf. A esquizofrenia é muito interessante. O senhor disse que estava no porão — Por quê? — Só estava dando uma olhada — disse o Major. — Não estamos interessados em pesquisas sobre coisas antigas. esquivando-se pelo vestíbulo. A melodia que está na cabeça de todo mundo. suas impressões digitais estarão do lado de dentro do 43 . Sra. fechando a porta ao entrar. — Ou. Davis? — perguntou ele ao reaparecer. — Foi cortado deliberadamente? — Foi. a tenha ouvido sair da cozinha e tenha ido esconder-se neste armário. Davis gritou. o assassino. — Ele saiu. Os assassinos ficam assim. É nisso que nos concentraremos. Major Metcalf. Sr. — Mas é uma loucura. — É. Boyle. Wren assoviava lá em cima. depois de matar a Sra. — Talvez ele não ligue muito para isso — disse ele. quero esclarecer bem seus movimentos. No momento devemos nos preocupar com duas palavras curtas: uma é morte e a outra. — É uma música horrível — disse Molly. eu diria. quando a abri vi um lance de escadas e resolvi descer. Agora. A senhora pode escutar por um momento. Estamos investigando um assassinato. Sra. acabara de localizar o corte quando a Sra. O sargento observou-o atentamente. talvez tenha certeza de que é muito esperto para nós. Davis. parece que sim.

Estão sempre todos contra mim. Giles ficou muito carrancudo. para ser franco. — Não é verdade! Não é verdade! Estão todos contra mim. Colocou-lhe a mão sobre o braço. Chris.. Molly. a voz lhe saiu alta.. — Espere. — Não. Mas esta é minha casa e. fique quieto. Isso é perseguição — perseguição. você também. por favor. — Calma. histérica. — Molly aproximou-se. — Sargento Trotter. estridente. — Diga-lhe que não vai prendê-lo. espere — interrompeu Molly. Para fazer isso preciso de provas e. Giles. parecia acreditar que o menino mais velho fosse o responsável por 44 . Ele olhou diretamente para Christopher Wren. não temos? — Escute aqui. — Não incriminamos as pessoas — disse o sargento. Ele saiu da sala junto com os outros e bateu a porta. — É verdade — disse o sargento. me sinto responsável pelas pessoas aqui hospedadas. E você também. Molly. Ele disse: — Não sei o que aconteceu com você. — Está tudo bem. sargento — disse Giles —. Vaime incriminar por isso. Sargento Trotter. Diga a ele que está tudo bem — disse ela ao sargento. — Mas temos uma explicação satisfatória para elas. até agora. Só uma pessoa se encaixa e. até certo ponto. Giles. prendendo a pessoa claramente indicada como o principal suspeito. é claro que está encarregado deste caso. não há nenhuma.. — Não vou prender ninguém. — As minhas já estão lá — disse o Major Metcalf. Giles perdeu a paciência: — Acho que está maluca. rapaz — disse o Major Metcalf. — Oh.. • Christopher Wren deu um pulo para frente. Não deveríamos tomar medidas preventivas? — Tais como? — Bom. quando nos contou sobre o caso da Fazenda Longridge.armário — disse Christopher. sargento. — Ninguém está contra você. posso — posso falar com o senhor um instantinho? — Eu fico — disse Giles.

o pai também podia ser. Não negligenciei nada. não tenho certeza. enfim. relatório psiquiátrico. Estas três crianças não tinham parentes. passados um ou dois anos. voltasse à querida rotina de todos os dias. trabalho de casa. Ele fez uma pausa e continuou: — Sei muito bem o que lhe vai pela cabeça. Tenho cá minhas convicções. — É verdade. O Sargento Trotter disse. familiar. É muito difícil saber sobre alguma coisa ou alguém. que ele é um bancário foragido.tudo isso. deserção do Exército. Sentiu o coração mais leve. o assassino pode ter meia-idade ou ser velho. e portanto tudo leva a apontar Christopher. Mas não acredito que seja ele. ajoelhouse e abriu a porta do forno. Sra. 45 . Disso. até mesmo a irmã. Ficou estática por alguns momentos e depois encaminhou-se lentamente para o fogão. ainda mais com os casamentos apressados. calmo: — Por favor. principalmente hoje em dia. Às vezes ela descobre. Mas as probabilidades levam a isso — instabilidade mental. — Ah. Poderia ser uma mulher. Ele dirigiu-se à porta. Sra. Era como se. os pais? — Tinham. Davis. Mas o pai servia fora. — Assim sendo. mas ainda não sei. de repente. Davis. Só há uma coisa que gostaria de lhe dizer. o pai. — E se o filho era desequilibrado. O cara diz que é piloto ou major do Exército e a garota acredita. por exemplo. Molly permaneceu muito quieta. Lembre-se de que o Major Metcalf ficou terrivelmente aborrecido quando lhe disse que a polícia acabara de telefonar. Deve haver outras possibilidades. O menino — Jim. As pessoas aceitam a palavra das outras. eu sei. as faces em fogo. uma vida comum e prosaica. acredite-me. O assassino está se divertindo. ou um desertor. casamentos por causa da guerra. A senhora nem imagina o que anda a polícia. com mulher e filhos. — E ele? Onde está ele agora? — Não temos informação. A mãe já havia morrido. Mas não tem certeza disso? — Realmente. Não se tem o histórico da pessoa. desde o começo tinha todas as possibilidades na cabeça. tenho plena certeza. Sem famílias nem parentes. Cozinha. Realmente ficou. Sentiu um cheiro bom. Foi reformado no ano passado.

O rosto dela. Christopher Wren permaneceu olhando-a. Que estranho! — Ele riu alto. ríspida: — Não diria isso se fosse o senhor que a encontrasse. A porta da cozinha se abriu. A Sra. Não pensei. Christopher aproximou-se. se o sargento decidisse ir embora e nos deixar. — Não estão mais lá. não. — A mim. tudo voltou. Ela voltou a cabeça quando Christopher Wren entrou. — Que baderna! Alguém roubou os esquis do sargento. Boyle. uma expressão estanha no rosto. fica para trás. — Compreendo — disse ele. — O sargento está muito zangado com isso. Ela estremeceu. Sou um idiota. todo inchado. Boyle ser assassinada. desde tempos imemoriais. como num pesadelo. — Eu sei. é melhor eu sair para não interrompê-la. Molly reprimiu um soluço. — Os esquis do sargento? Mas por que alguém haveria de fazer isso? — Realmente não consigo imaginar. as mulheres cozinham para os homens. Continuo pensando nisso. cozinhando — a cozinha — ela falava de maneira confusa e incoerente. — E então. de repente. Este insiste em dizer que não notou se estavam lá ou não quando ele olhou o armário. Estou achando muito estimulante. Não consigo esquecer. O mundo do perigo. Ê tudo tão deliciosamente irreal. Se quiser saber — Christopher baixou a voz e inclinou-se para frente —. roxo. 46 . — Minha querida — disse ele. Quer dizer. Colocou-lhe a mão no ombro. — Está deprimindo a todos nós — disse Molly. Rabugento como uma tartaruga. — Ele começou a afastar-se. — Bom. Trotter diz que ele deve ter notado. este negócio está deprimindo o sargento. pouco antes da Sra. tão certo. — Compreendo. eternamente.Pois. Jogou a culpa no pobre do Major Metcalf. Molly disse. Não faz o menor sentido. penso que o assassino só possa ficar muito contente. faz? — Giles os colocou no armário sob as escadas. Ele estava um tanto sem fôlego. As mulheres em suas cozinhas estão a salvo. da loucura. — Agora mesmo parecia tudo tão bom.

Estive conversando com o Sargento Trotter sobre elas. Não quero ficar sozinha. — Meu Deus. não estou. fechou a porta do forno e foi para junto dele. Sra. não podem ser verdadeiras. Foi o sargento. Estou com medo de ficar sozinha. — Não. Especialmente esta última frase: Sei muito bem o que lhe vai pela cabeça. Não está. Molly inclinou-se. — Ele concordou? — Não discordou — disse Molly. Certas palavras ficaram-lhe girando na cabeça. — O quê? — Que não esteja com medo de ficar sozinha comigo. — No entanto. — Oh. Christopher sentou-se perto da mesa. — Que coisa estranha de se dizer. — Por que não está com medo. — Fala sério? — Sobre o quê? — Realmente não quer que eu vá? — Não. está? Apesar do que acaba de dizer. sou a única pessoa que se encaixa na descrição do assassino. apanhou a torta e colocou-a na prateleira de cima. devagar. E então voltou devagar. Davis. perplexo. não — respondeu Christopher. Molly? — Não sei. Detesto aquele homem. — Isso é muito interessante — disse Christopher. Sabia mesmo? Seria possível? Ele também dissera que o assassino estava se divertindo muito. — Há outras possibilidades. Ele voltou-se. Seria verdade? Ela disse para Christopher: O senhor não está exatamente se divertindo. monocórdio. Ele — ele põe coisas na cabeça da gente. o olhar inquisitivo. não fui eu quem disse. não quero. coisas que não são verdadeiras. — Não — disse Molly. não é? Ela balançou a cabeça.Molly gritou: — Não vá! — assim que colocou a mão sobre a maçaneta. Não estou. 47 .

Christopher? Dois dias? — Mais ou menos. Molly. Molly? Molly olhou-o. Para falar a verdade. um longo olhar aquilatador. o pessoal costumava zombar de mim chamando-me de Christopher Robin. Não significaria nada para você. Eu lhe disse que era o único que se enquadrava nas especificações. — Escolheu esse? Bom. — Não seja estúpido — disse Molly. Possivelmente porque nós dois passamos por apuros. que era uma afirmação. Foi por uma 48 . associação de idéias. Christopher pegou-lhe as mãos. acho. quer dizer. com mais medo do que os outros. Está pensando que. — Escute. Por um segundo. Não era uma pergunta. — Sim — disse ele. — Seu nome verdadeiro não é Christopher Wren. — Qual o seu verdadeiro nome? Christopher disse. sou desertor do Exército. não é? — Ah. Ela perguntou. Há uma espécie de compreensão mútua. Na verdade. é estranho. Não. cobrindo os olhos. o que há? Ela deixou-se levar até a cadeira perto da mesa. Era uma afirmação. me pareceu uma extravagância agravável. embora seja um curto espaço de tempo. não estava com medo. Disse para si mesma. — O que há. despropositadamente: — Há quanto tempo o conheço. — Por que você. Seus modos não eram mais histéricos nem infantis.Ela colocou as mãos na cabeça. Muito suavemente.. Robin. Não sou um arquiteto. nos conhecemos bem. é? — Não. e não uma pergunta.. os olhos de Molly revelaram apreensão. Na escola. não sei. Wren. — Sim. Christopher notou. embora seja curioso. sereno: — Acho que não devemos entrar nesse campo. ganhei alguma reputação de ser um tanto frio sob tiroteio. várias vezes.. Por que desertou? Crise nervosa? — Por estar com medo? Não. — Já lhe disse que não acredito que seja assassino. Molly deixou passar.. — Como nosso assassino desconhecido.

tive medo de voltar. o jovem rosto em desespero. não sei explicar bem. — Foi — ele percebeu o sorriso quase tímido que lhe passou pelos lábios. mas. quando as idéias ficaram claras. — Giles apareceu e tudo ficou seguro. Minha mãe. não sei. não sou nada. Ela estremeceu como se tivesse 49 . suponho.. pelo menos uma vez na vida. — Pode começar de novo. Tiveram que tirá-la de sob os escombros. Sei que nunca poderia explicar. Isto me fez pensar que a vida fosse sempre horrível. Tive que enfrentar algo bastante cruel e desumano.. Ele encarou-a. pensando que é o fim. E então. confirmou minha crença de que a vida era cruel e traiçoeira. Giles! O sorriso desapareceu-lhe dos lábios. ou de mim. — Você se sentiu. Tive um choque tremendo quando era mais moça. que não pode continuar. feliz. Quando Jack foi morto. Não sei o que aconteceu comigo quando ouvi isso — acho que fiquei um tanto louco.coisa bastante diferente. — Você não chegou ao fim.. você é muito jovem. — E o que aconteceu? — Aconteceu comigo o que acontece com uma porção de pessoas... cheguei ao fim. Estava noiva de um jovem piloto de caça e ele foi morto. — Sua mãe? — Sim. Molly? Para falar assim. Soterrada. — E não foi nada além disso? — Acho que sim. só pensa que chegou. apareceu Giles. de me apresentar. E então. e me desenterrar. estava tudo tão confuso. — Sei. — Não — disse Molly. sabe. — Ele apoiou a cabeça nas mãos e falou com a voz abafada: — Vaguei durante muito tempo à procura dela. — É verdade. Pensei que tivesse acontecido comigo. — Entendo. Senti que tinha que ir depressa para casa e.. Desde aí. não foi. tem que ter sentido. Acho que todo mundo se sente assim. — Será que poderei mesmo? — Claro que sim. — Não deve sentir-se assim — disse Molly docemente. ela foi morta durante um ataque aéreo.

— Sugerindo coisas. — Não estava? Molly falou de um só fôlego. isto não faz o menor sentido. mas parou abruptamente. e foi o que pensei até.. — Paravicini? — Não. ele 50 . colocando idéias horríveis na minha cabeça sobre Giles.. Christopher olhou-a.. — Saiu o dia todo. Mas olhe aqui. — E tem a ver com Giles? Alguma coisa que tenha dito ou feito? — Não é o Giles. ele deve ter estado em Londres. Molly? O que a assusta? Você está assustada. — Até o quê? Lentamente Molly esticou a mão e passou o dedo sob a data do Evening Standard que cobria uma parte da mesa. — O que houve. Christopher arregalou os olhos. O Sargento Trotter. Christopher olhou-o e disse: — Edição de Londres de dois dias atrás. Franziu os lábios e começou a assoviar. Giles também se enquadra na descrição do criminoso. até. pelo menos foi o que disse. Giles estava aqui com você no dia em que aquela mulher foi assassinada em Londres. de carro. ele e eu somos mais ou menos da mesma idade. É aquele homem horrível..frio. Odeio ele. — Giles? Giles! Sim. idéias que não sabia que já existiam. fixando-os primeiro no jornal e depois em Molly. Christopher foi aos poucos levantando as sobrancelhas. odeio. curioso. insinuando coisas. claro. não. as palavras jorrando. Não adiantaria assoviar aquela melodia justamente agora.. não está? Ela anuiu.. Escolhendo as palavras com todo o cuidado e evitando olhá-la. Molly. surpreso. mas suponho que não seja. Ele me parece mais velho do que eu. Sim. Molly não respondeu. Ele. — Que homem horrível? — Christopher estava surpreso. — Estava no bolso de Giles quando ele voltou. propriamente. foi ao outro lado da cidade para ver uma cerca que estava em liquidação. incoerentes.

— Pode deixar que eu me preocupo — disse ele.. Giles entrou. — Posso cuidar de minha mulher.. ouviu? — Ah. Molly. Wren. — Não irei muito longe — disse ele. Saiu fechando a porta.perguntou: — Até que ponto você realmente conhece Giles? — Não! — gritou Molly. — Quer fazer o favor de sair? Christopher soltou uma risadinha alta e infantil... certamente. comandante. — Verdade? Escute aqui. A porta da cozinha se abriu. — Ê justamente isso o que me preocupa — disse Christopher. Ela não vai ser a próxima vítima. Não é verdade! Eu. Molly disse numa voz clara: — Por favor. Que as mulheres raramente conheciam alguma coisa sobre o homem com o qual se casavam. Simplesmente voltou o rosto rubro de ira mal contida. Giles voltou-se para ela. — ela alterou a frase rapidamente —. Christopher deslizou pela mesa. Ela calou-se. Christopher. Acreditamos em qualquer sugestão fantástica. vá. você não tem juízo? Fechada aqui com um perigoso maníaco homicida! — Ele não é. carregadas de um significado bastante definido. tête-à-têtes não são indicados para o momento atual. principalmente durante a guerra. — Acho que isso é verdade. Christopher encaminhou-se lentamente para a porta. Giles não prestou atenção se aquelas palavras faziam sentido ou não. — Estou tomando algumas aulas de culinária. Fique fora da cozinha. — Estou interrompendo alguma coisa? — perguntou ele.. — Pelo amor de Deus. Havia cinismo em seu olhar. — Sim senhor. Tudo porque estamos arrasados. — Você também? Não posso agüentar isso. Sempre aceitam o que eles dizem. nervosos. Wren. e as palavras se dirigiam a Molly. — Não pergunte isso! Foi justamente o que aquele animal do Trotter disse ou insinuou. ele não é 51 .. Dê o fora daqui. — Fique longe de minha esposa.

. — Giles. É meio estranho que tenha vindo parar num lugar tão contramão. Nunca tinha visto Christopher Wren antes de ele chegar aqui. Desde quando se tratam pelo primeiro nome? — Oh. e da Sra. Molly disse. — Giles. pare com isso. Posso cuidar-me. você ficou louco? Por Deus.. devagar: — Tenho pena dele. — Você não foi a Londres há dois dias para se encontrar com ele e combinar de se encontrarem aqui como estranhos? — Você sabe muito bem que há várias semanas que não vou a Londres. Estou com os nervos em frangalhos. Molly arregalou os olhos. Giles. não sei o que vê nele. Você sabe disso. — Oh. Boyle? — É. Boyle também podia.. não é? — Mais estranho do que a vinda do Major Metcalf e. — Mesmo depois de dois dias? Mas talvez seja mais do que isso. não seja ridículo. minha querida. — Acho que você vai sustentar que nunca o viu antes que entrasse aqui. — A Sra. — E chamando-o de Christopher. Sempre li que estes lunáticos têm fascinação pelas mulheres. estou alerta. Talvez os dois tenham tramado tudo isso. Giles riu de maneira desagradável. Giles. Como o conheceu? Há quanto tempo isso vem acontecendo? — Não seja absurdo. acho que é. este falso arquiteto Christopher Wren. Mas aquele mísero rapaz. Giles. você deve estar louco. o que está sugerindo? — Estou sugerindo que Christopher Wren é um velho amigo e que vocês mantêm um relacionamento mais íntimo do que querem aparentar. Talvez sugerisse sua vinda para cá. De qualquer jeito. Talvez o conhecesse antes. Parece que é verdade. — Não? Isso é muito interessante. — Pena de um lunático homicida? Molly lançou-lhe um olhar curioso. — Desculpe. Todo mundo usa o primeiro nome hoje em dia. — Poderia ter pena de um lunático homicida.perigoso. — Pescou no bolso uma luva e 52 .. também.

— Você foi a Londres — disse Giles. — Para encontrar esse cara. não foi para encontrar Christopher. — Está certo — disse Molly levantando o queixo. — Quando menti para você? Molly riu. Paravicini tossiu um pouco. — Realmente espero que vocês não estejam dizendo coisas que realmente não sentem. — Eu não a odeio — disse Giles. — Quer dizer que vai dar tempo a si mesma para inventar uma boa história. — No dia em que você estava em Sailham para comprar a cerca — disse Molly.. Se só foi até lá. Isso é tão comum na discussão entre amantes! — Discussão entre amantes — disse Giles. — Acho que o odeio — disse ela. — Você disse que foi até a Cidade. não era? No dia em que eu estava em Sailham para comprar a cerca. mostrou a passagem rosa de ônibus.. — Então. usei essas luvas quando saí. O Sr. Giles. — Com certeza você me viu lá — disse Giles. sarcástico. naquele dia. lentamente.. 53 . — Mas quase que gostaria que isso fosse verdade.. — Sim..Acha que acreditei naquela história da cerca? Você esteve em Londres também. Não sei nada sobre você. Sinto que. nunca. Um homem que mente para mim. — Você é apenas um estranho. — Tão embaraçoso — murmurou. para que foi? — Não vou contar-lhe neste momento. o que isso está fazendo dentro da luva? Acusadoramente. . — Fui a Londres. Houve um momento de silêncio.. — Sinto a mesma coisa — disse Molly. — Confiar em você? Nunca mais vou confiar em ninguém. que não a conheço mais. — E não confiou em mim o bastante. — Essa é boa. — Esta é uma das luvas que você usava anteontem. Christopher Wren? — Não. Nenhum dos dois notou que a porta se abrira suavemente. olhando-o fixamente.mostrou-a.

Disse para Giles: — Você é muito sábio. saltitando agilmente pela cozinha e aproximando-se de Molly —. — O Sr. Já passei por isso quando era jovem. — Seu marido teme por você. — A polícia tem pistas. Me rendo. — Vamos. Sr. é realmente uma musiquinha horrorosa. sem dúvida — disse o Sr. que não sou um maníaco homicida? Não.Claro que as crianças adorariam isso. Molly disse. não. Paravicini. salpicada de mostarda? — Não se vê muito foie gras hoje em dia — disse Giles. — Quer que fique para ajudá-la. Paravicini balançou a cabeça. sem jeito: — Oh. O Sargento Trotter pode arranjar-se sem mim.— Sem dúvida. Negativas são coisas difíceis de se provar. nosso Sargento Trotter. Mas uma idéia? Duvido muito. não posso. Parece que tem uma idéia. Sr. Paravicini soltou um risinho abafado.. Já notou isso? Esta é bastante inglesa. Posso provar a você. — Vá. "Cortou o rabo deles com um trinchante”. Mas só vim para dizer que o inspetor insiste para que passemos à sala de estar. O Sr.. Paravicini. já experimentou fígado de galinha servido na torrada previamente recheada com grossa camada de foie gras e uma fatia fininha de bacon. Gilles — disse Molly. tenho certeza. Não se arrisque. Teme minhas tendências sádicas. — O cruel e bucólico campo inglês. — Tenho que acabar de fazer o almoço. Muito natural. — Por favor.. Paravicini. — Curvou-se graciosamente e beijou a ponta dos dedos. mas não é muito dotado de inteligência. 54 . Paravicini riu suavemente. meu jovem.. Agora que prestei mais atenção.. Paravicini. — Por falar nisso — disse o Sr. Não são versos bonitos. — Os Três Ratos Cegos! A melodia ficou na minha cabeça. ouve-se isso freqüentemente. O Sr.. Paravicini. Mas as crianças gostam de coisas que assustam. Não quer nem saber de deixá-la sozinha comigo. alegre. — Sei como se sentem. ou ao inspetor. esta melodia horrorosa. Um oficial zeloso e esforçado. Ele cantarolou. querida dama? — Você vem para a sala. Molly retraiu-se. poderia contar para vocês coisas sobre crianças. não as desonrosas. Paravicini — disse Giles.

Olhou para Molly ansioso. — Não tenho certeza de concordar com você — disse Paravicini. Ela começou a rir. — Vai levar muito tempo? — perguntou Molly. esperando na sala. não faça isso — pediu Molly. Trotter vai ficar impaciente. por exemplo. Afinal de contas. Boyle. Parecia malhumorado. — Calma.— Por favor. a meu ver. disse ao entrarem: — É isso mesmo. seguindo-os com passos lépidos e saltitantes. Christopher Wren juntou-se a eles no vestíbulo.. Queria todos juntos. — O senhor ri e sorri. Davis. baixinho. — O condenado tomou um lauto café da manhã — é o que sempre dizem. Quero fazer uma certa experiência e para isso necessito de cooperação. Mas posso adiantar que tenho sérias suspeitas sobre quem os apanhou. Marcharam quase que como uma procissão para a sala. mas ela. não os encontrei. Vamos juntos para a sala. — Sua voz foi ficando mais alta. O jovem enrubesceu. não diga — pediu Paravicini. sargento — disse o major. — Encontrou os esquis. sargento? — perguntou Molly. — Acho que o senhor é cruel também. mas quero que todo mundo coopere com o que vou fazer. Sra. — Sempre achei que as explicações devem ser guardadas para o finalzinho. histérica. 55 .. também gostaria muito. e Giles o recebeu muito carrancudo. há coisas mais importantes do que refeições! A Sra. Por enquanto. O Major Metcalf estava de pé. Não se incomode com o almoço. — Que maneira inábil de colocar as coisas. O sargento. — Por favor. Paravicini vinha atrás com os passinhos saltitantes. — Desculpe. brincando. major. — Sim. caminhava olhando para frente. E por que os apanhou. não direi mais nada. Sra. — Francamente. não precisa de outra refeição. Molly — disse Giles. como um gato brincando com o rato. Mas. — Estou um tanto ocupada na cozinha. Assassinatos são mais importantes do que comida. corado e enérgico. — Não. temos que comer alguma coisa. o último e emocionante capítulo. de cabeça alta. — Venha. Davis.

O sargento vai nos dizer o que quer que a gente faça exatamente. — O assassino está se divertindo — murmurou Molly. O Sr. quatro dessas declarações são Verdadeiras — mas uma delas é falsa. — Ora. Ninguém falou. Davis. O Sr. Podem ser verdadeiras. o Sr. vamos — disse o Major Metcalf. — Anotei as declarações de cada um de vocês há pouco tempo atrás. — Duvido muito. Davis estavam cada um no seu quarto.. — Não é? Agora acho que o senhor está errado. Wren e o Sr. mas vamos supor que todos fizessem os mesmos movimentos pela segunda vez? — Ora! — exclamou o Major com desagrado. — Só estou repetindo o que o Sargento Trotter me disse. Tenho um plano que pode me ajudar a descobrir o mentiroso. senhor. — Não. O Sargento Trotter não parecia muito satisfeito. Se descobrir aquele que me mentiu — então saberei quem é o criminoso. necessariamente. Paravicini mencionando últimos capítulos e falando como se isso fosse um romance policial — ele disse. — Foi isso o que disseram. — Isto é real. Falando claramente. Davis estava na cozinha. um está mentindo. Qual? Olhou para um de cada vez. — Está muito bem. homem? Acabou de dizer que não tem meios de verificar essas afirmações. Sr. rapaz. Os outros a olharam. — Quatro estão falando a verdade. Sua voz tornou-se autoritária.— Isso não é uma brincadeira. Paravicini nesta sala. Está acontecendo. Alguém pode ter mentido por outras razões. Boyle foi assassinada. passando delicadamente a ponta dos dedos pelo pescoço — não aconteça comigo. Giles disse rispidamente: — Não. perplexos. Acho que é uma brincadeira para alguém. Major Metcalf no porão. — Mas qual é o plano. Ela corou. A Sra. — Contanto que — disse Christopher Wren.. Ele fez uma pausa e depois continuou. ou não. — Pare com isso. Não tenho meios de verificar essas afirmações. Estas dizem onde se encontravam na hora em que a Sra. Trotter temperou a garganta. — Reconstituição do 56 .

”. Uma reconstituição dos movimentos de pessoas aparentemente inocentes. Paravicini nos disse que foi ao piano e tocou uma certa melodia. tocou com um dedo a melodia de Os Três Ratos Cegos. De alguma maneira era um silêncio constrangedor. pensou Molly. — Nós vamos cooperar. Para mim parece bobagem! — Parece. Major Metcalf. Sr. Sr. tiveram um lúgubre efeito. Uma ligeira ambigüidade na frase fez o Major Metcalf olhar repreensivamente para o sargento. — Não é uma reconstituição do crime. Christopher disse. Ele arreganhou os dentes e. fazendo uma reverência. com elaborada afetação. o que espera descobrir fazendo as pessoas agirem como agiram antes. sargento — disse Giles. Temos que fazer exatamente o que fizemos antes? — As mesmas ações serão desempenhadas. Fez-se silêncio. estridente: — Mas não entendo. "Ele está se divertindo". — Mais ou menos. mostrar o que fez exatamente. Mas não sei como. Pode. Paravicini? — Certamente. "É uma armadilha". simplesmente não entendo. Wren? — Claro que o senhor é quem manda. Sra. por gentileza. Este continuou: — O Sr. — E o que espera saber de nós? — Desculpe-me. Na grande sala. Davis. — Você poderia pensar que havia cinco culpados na sala em vez de um culpado e quatro inocentes. quase em surdina. O Sr. mas não vou esclarecer isso agora. sim. — O senhor quer uma repetição do desempenho? — perguntou Molly.crime. "É uma armadilha. meu caro sargento. — Todos lançaram olhares de soslaio para o sorridente e ousado rapaz que propôs esta manobra aparentemente inocente. Idéia estrangeira. Paravicini atravessou agilmente a sala e sentou-se no banquinho do piano.. "Ele está se divertindo". 57 . aquelas notas macias. — O maestro ao piano irá tocar o prefixo musical de um assassino — disse. pensou Molly..

Wren. Depois dirigiu-se lentamente ao piano. sargento. Davis. Davis ficará aqui.. Obedientemente. — Toca piano. sargento. — Quarenta e oito. Molly começou a tocar. de uma afirmação em particular. Sr. Davis — disse ele. foi exatamente assim que tocou a melodia da.— Obrigado. Paravicini. sargento. E a repeti três vezes. Sra. Paravicini levantou-se protestando. Paravicini fez. Depois as quatro pessoas movimentaram-se lentamente em direção à porta. devo dizer. Sr. Sr. Eu estava sentado aqui. — Então quer fazer o favor de sentar-se ao piano e fazê-lo quando lhe der o sinal? Molly ficou um pouco espantada. — Conte até cinqüenta e comece a tocar. Sr. — Serão realizadas as mesmas ações mas. ao acabar de contar. Paravicini — disse o sargento. Saiu junto com os outros. tocando exatamente da mesma maneira? — Claro que sim. da outra vez? — Sim. cinqüenta. Olhou por sobre o ombro. O Sr. pode exercitar seu talento musical assoviando Os Três Ratos Cegos. necessariamente pelas mesmas pessoas. quarenta e nove. — Há um objetivo. quer olhar no armário do vestíbulo e depois descer ao porão? Houve um momento de silêncio. A Sra. Wren? Lá. Davis e examinar o telefone? E o senhor.. — Pelo que entendi. Sargento Trotter voltou-se para Molly. Antes da porta se fechar. 58 . Agora. quer ir para o quarto do Sr. Ê um meio de verificar as afirmações anteriores e. Molly ouviu Paravicini dizer. vou-lhes passar as tarefas. Davis? — Toco. não. — Eu não vejo o objetivo disso — disse Giles. — Poderia tocar esta melodia. Davis. Trotter seguiu-os. como o Sr. a voz aguda: — Nunca soube que a polícia gostava de jogos de salão. como ele. Major Metcalf. quer ir para o quarto do Sr. quer ter a bondade de ir para a cozinha? Dê uma olhadinha no forno para a Sra. Sra. ao piano. Sr. veemente: — Mas. Davis. pensei que cada um fosse repetir o papel anterior.

Molly sentiu o coração bater cada vez mais depressa. A porta da sala de estar foi aberta. Trotter conseguiria o que planejara: pegar a pessoa que mentira. Boyle. de tão baixo. Ele enfatizara bem que tocou muito baixinho. saltitante. Além do mais. Molly. na expectativa de encontrar Paravicini. amedrontada. tinha certeza. então.. — Então está tocando sua própria marcha fúnebre. Lá de cima chegava-lhe.. de repente. ora. Devia ser o sargento Trotter. Davis — disse ele. uma idéia acertada — Bobagem. Paravicini tocar. o rádio foi ligado.Mais uma vez a musiquinha cruel foi penetrando na sala enorme. estrangulando a Sra. E se entrasse alguém? E se o Sr. Uma corrente de ar frio soprou-lhe o pescoço. aquela melodia. em vez de estar na sala. tão aterrorizante para um adulto. querida senhora. pela terceira vez. se aproximasse lépido do piano. Enfatizou na esperança de que.. Não. horrenda. Paravicini chegou mesmo a tocar? Será que. Da mesma maneira que ele pode ouvir você. Mas foi apenas o Sargento Trotter que entrou. estivera na biblioteca? Na biblioteca. Sra.. Então ele estava desempenhando o papel da Sra. Continha aquela incompreensão infantil da piedade. quando Trotter a fez tocar. Boyle? Ele ficara muito aborrecido. Três Ratos Cegos Vejam como correm. Mas. lá em cima. você pode ouvi-lo assoviar. quase gritou. Rapidamente ela voltou a cabeça. Alguém entrara na sala. não imagine coisas. não seja estúpida. 59 . torcendo os longos dedos. Seria essa a armadilha? Será que o Sr. De repente. não pudesse ter sido ouvido fora da sala. Ela quase tirou as mãos do piano quando teve esta idéia! Ninguém ouviu o Sr. Porque se alguém ouvisse agora o que não ouviu antes. a sala estava vazia. na sala contígua.. quanto a isso não tinha a menor dúvida. — Obrigado. Mas por quê? Qual o objetivo disso tudo? Onde estava a armadilha? Pois havia uma armadilha. A porta fora aberta. esta era uma melodia obcecante. muito mesmo. Paravicini viesse.. baixinho. Como dissera Paravicini. assim que ela acabava de repetir. fazendo o papel de Christopher Wren. a mesma melodia assoviada por Paravicini. sentiu-se nervosa.

Eu não queria me lembrar. — Pare. quando comecei a especular sobre quem seria a próxima vítima. a senhora era professora da Escola Abbeyvale. Molly tirou a mão do teclado. Demonstrou conhecimento sobre o assunto da Fazenda. — Isso eu posso compreender. Em 1940. — Ah. A carta pedia ajuda — ajuda de sua bondosa professora. — Não compreendo. A senhora não descobriu. — Consegui exatamente o que queria. — Quero dizer que não foi honesta comigo. Davis. Sra. vamos. — O rosto de Molly estava afogueado. a senhora foi muito tola. esteve correndo sério risco. A senhora ignorou a carta do pobre-diabo. Ficou perturbada. Nós. E foi a senhora quem confirmou que a Senhora Boyle era a encarregada do alojamento desta parte da cidade. Sra. Boyle. — Não! — Era sim. Molly disse. Davis? Ora. policiais. a senhora sabia tudo sobre ele. compreende. Sonegou informação. Quando falei pela primeira vez no caso da Fazenda Longridge. sim. — Sim — exultou. Conseqüentemente. — Não era. quando isto aconteceu. sim. — A voz dele alterou-se um pouco. não somos tão burros quanto parecemos ser. — Conseguiu o que queria? — perguntou. Sra. Ele roubou o selo. dei meu voto imediato à senhora. Davis. não é assim tão difícil. Sabia. É assunto da professora descobrir por que um aluno não vai ao colégio. assim como a Sra. baixinho: — O senhor não compreende. — Quem? Qual? — Não sabe. confiantes.Parecia bastante satisfeito consigo mesmo. e seus movimentos eram rápidos. Me deixou caçar a terceira vítima. estou-lhe dizendo. A propósito. não é? — Exatamente. A senhora e ela são daqui. — E é um pouquinho mais velha do que diz ser. Então. — Seu nome de solteira era Wainwright. — A criança que morreu conseguiu obter uma carta endereçada à senhora. — O senhor está 60 . — Eu? Não sei o que quer dizer.

— Os policiais não andam — disse o rapaz. meu irmão. Estava doente. Ele tirou alguma coisa do bolso. Pensou que eu fosse um policial porque telefonei do posto telefônico. O revólver estava apontado para ela. — Ele sorriu de maneira estranha. feliz. Trotter a estava fitando. E então cortei os fios telefônicos da casa quando cheguei. E isso a perturbou terrivelmente. e disse que enviaria o Sargento Trotter. Sra. estava se transformando na voz de uma criança. terrivelmente. Então eu disse que mataria cada um de vocês quando crescesse. Sou Jim. suavemente: — Então era sua irmã. Para mim. não sou um policial. E realmente tinha intenção de cumprir o planejado. horrorizada. como ela ficou assim tão magoada. Os adultos podem fazer o que quiser. Ela só chegou a ver a carta depois que o menino já estava morto. — Fale com ele — disse para si mesma. de modo que não pudessem telefonar para a delegacia. Seu rosto 61 . eu tinha que fugir. Jim. Georgie morreu na Fazenda Longridge. Era uma pessoa muito sensível. ao falar. E. — Distraia-o.. Ela era a diretora do colégio. irmão de Georgie. E sua voz. Tinha medo de que eles me impedissem de fazer o que tinha que ser feito. — Já não importa muito. Ele continuava a sorrir. Vivi pensando nisso. Sorria agora. agora. Davis e não grite. Mas agora já estou crescido. E disse. um sorriso infantil. — Mas ouça. senão puxo o gatilho. Era. franziu o cenho. sou o irmão de Georgie. Quando as tirou do rosto. Molly arregalou os olhos. não é? Sua irmã. na aldeia. Molly cobriu os olhos com as mãos.. Aquela malvada nos mandou para lá e a mulher do fazendeiro foi muito má com a gente e a senhora não nos ajudou — três ratinhos cegos. Molly controlou-se. — Pensei que os policiais não andassem de revólver — disse ela. Mas não foi culpa dela. — Não se mexa. você nunca vai escapar com segurança. — Eles me amolaram muito no Exército — o médico vivia me fazendo perguntas. com pneumonia. foi sempre um pesadelo. E não ignorou a carta.falando de minha irmã. percebeu Molly. Molly olhou para o objeto que segurava. E continuou: — Mas sabe. nunca consigo me lembrar do caso sem ficar perturbada. — De repente. Davis. — Sim. Sra.

chegava-lhes ao ouvido um assovio. Ninguém vai-lhe fazer mal. voou em cima de Trotter. De qualquer maneira. A Scotland Yard achou aconselhável ter alguém aqui. tão apreciadas pela falecida Srta. Vão pensar que ele atirou na senhora. Não consigo encontrá-los — ele riu. O Sr. Foi tudo muito distraído. perto da porta. Está tudo bem. Fingir! Aquela mulher em Londres. sem soltar o braço de Trotter. Sra. hoje de manhã. virou um pandemônio: Giles entrou correndo. sozinhos. saindo do esconderijo atrás do sofá. quer dizer. Tirei da gaveta. a cara dela quando me reconheceu. explosivas: — Entrei enquanto tocava — escorreguei para trás do sofá — desconfiei dele desde o princípio. Fiquei tão confusa. Eu sou um policial — Inspetor Tanner. Eles saíram juntos. amigo. Alguém assoviava a melodia dos Três Ratos Cegos. Cheguei a pensar que 62 . — Mas está tudo bem. Numa voz infantil e chorosa. Momentos depois estavam um nos braços do outro. Claramente. o bronzeado rapaz perguntou: — Georgie não vai ficar zangado comigo? Metcalf disse: — Não. Davis. ele não vai ficar zangado. Venha comigo. — Você também. sabia que não era um policial. Paravicini tocou o braço de Christopher Wren. — Venha comigo. coitado. tem certeza de que ele não a machucou? — Eu estou bem. Agora. meu rapaz — falou de maneira suave com o agora dócil Trotter. e a bala foi-se alojar numa das medíocres telas.ficou sombrio. Aquela estúpida mulher. com efeitos lúgubres. — Querida — disse Giles —. — Alguém tirou meus esquis. Combinei com Metcalf ficar no lugar dele. Paravicini. entreolharam-se. Giles. Trotter arregalou os olhos. Molly jogou-se no chão enquanto o Major Metcalf. seguido por Christopher e pelo Sr. Um momento depois. Vamos cuidar de você. falou em frases curtas. não me interessa. Emory. Este é o revólver de seu marido. O revólver disparou. o revólver oscilou — uma voz gritou: — Abaixe-se. Murmurou para Giles quando passou por ele: — Completamente louco. Giles e Molly. O Major Metcalf.

hein? Bom. mas está um cheiro horrível de queimado na cozinha. — Náilons? — murmurou Molly. Estava felicíssimo. Davis. Um jipe da polícia conseguiu chegar aqui. — Meus queridos — disse ele — espero não estar interrompendo. um presunto. um peru. — Interrompendo a reconciliação. Ele beijou a mão de Molly e foi andando. Molly saiu voando da sala. Christopher Wren esticou timidamente o pescoço. terminando as apresentações — é Miss Marple! Como toda atriz. O estranho é que a pessoa tão efusivamente apresentada não passava 63 . — Puxa! Eu fui a Londres para comprar um presente de casamento para você. Devia estar louco. será com os cumprimentos para uma dama encantadora. Era uma surpresa. queria comprar um presente de aniversário de casamento para amanhã. infelizmente. — Fiquei bestamente enciumado daquele neurótico. o triunfante final! O tom de sua voz era igualmente respeitoso. eu acho — disse Giles.você.. Paravicini? Papai Noel? — Contrabando. Paravicini entrou saltitante. — Foie gras! Quem é o Sr. Desculpe-me. até a porta. agilmente. querida. A porta abriu e o Sr. tenho que dizer adeus. — Ele se inclinou e segregou misteriosamente no ouvido de Molly: — Pode ser que no futuro próximo eu tenha dificuldades mas tenho certeza de que posso dar um jeitinho e caso receba uma mala com um ganso. Aquilo era realmente o clímax. ao abrir a porta. Sr. ESTRANHA CHARADA — E esta — disse Jane Helier. Mas. Era uma surpresa. por que foi a Londres naquele dia? — Querida. que cena encantadora.. Fui pedir a eles uma carona. algumas latas de foie gras. digamos. meu cheque está na mesa do vestíbulo. conseguiu o seu intento. Quer que faça alguma coisa? Com um angustiado grito de: "Minha torta!". meias de náilon.

. em resposta a seu olhar —. Edward Rossiter. Pena que no nosso caso falte o romantismo de costume. bem. O local foi preparado para virar uma horta. Não será difícil. Deixe tudo por conta dela. ela é uma pessoa maravilhosa. Mas agora vocês me deixaram curiosa. a moça. realmente.de uma solteirona afável e bisbilhoteira. Miss Marple — completou Edward. para Jane Helier. No olhar dos dois jovens a quem Jane. mas ela protestou. É bastante prosaico o lugar onde devemos procurá-lo. É que quem mora em uma cidadezinha como essa sempre acaba conhecendo um pouco melhor a natureza humana... — Vocês já tentaram? — Nós cavamos cerca de dois acres. — Jane nos disse que a senhora é uma excelente detetive. — E voltando-se para Miss Marple: — Você resolverá tudo para eles.. que talvez pudesse. nem indicações como "quatro passos à esquerda. um pouco ofegante. a oeste pelo noroeste". Eram ambos bonitos. um tesouro enterrado — informou Edward. — É um prazer enorme conhecê-la — disse Charmian. Não há mapas marcados com uma caveira ou um fêmur. louro. — Edward e eu estamos com um problema sério. impaciente. Mas lançou um rápido olhar. humilde: — Não. a tinha apresentado. — Querida — disse Jane. tenho certeza. — É mesmo? Isso parece muito interessante! — Pois é. Qual é o problema? — Acho que é algo terrivelmente corriqueiro. e o rapaz. Os olhinhos da solteirona piscaram. cheio de dúvidas. tão gentil. Charmian Stroud... — Será que. Miss Marple volveu os calmos olhos azuis para Edward: — Poderia dizer-me do que se trata? — Jane é uma grande amiga nossa — disse Charmian. Prometi que a traria e cumpri a promessa. dizendo que nos apresentaria a alguém que poderia. Então. alto e amável. Jane nos convidou para esta festa. devemos falar-lhe a respeito disso? — interrompeu Charmian. Agora estamos decidindo se devemos plantar verduras ou batatas. Não! De forma alguma. havia incredulidade e uma certa decepção. 64 . morena e elegante. Como a Ilha do Tesouro.

— Fale. a propriedade da nossa família. Isso. Venha. mas não ganha quase nada. é o seguinte. Tudo começou com tio Mathew. Edward? Edward concordou. — À medida que tio Mathew envelhecia. ficaríamos bem. Edward. ia-se tornando cada vez mais desconfiado. — E. Mas já estava doente há algum tempo. — Charmian. Pretendíamos nos casar e não estávamos preocupados com dinheiro porque sabíamos que. quando morresse. francamente. ainda não tocamos no X do problema — disse Edward. — O problema é que tudo o que ele deixou era praticamente nada. Edward encarou Miss Marple. gostava bastante de nós e sempre dizia que. Era o que tio Mathew também pensava. Edward e eu a amamos tanto! Acho que não suportaríamos isso! Se não encontrarmos o dinheiro de tio Mathew. — A ambição dos homens pode chegar a limites inacreditáveis. Ele tinha um amigo que perdera todo o dinheiro em negociatas bancárias. de verdade. provavelmente terá que ser vendida. Ele era muito velhinho. quer dizer. nos deixaria todo o seu dinheiro. mas sua morte não me alegrou absolutamente. Sou da Marinha e só tenho o meu soldo. Ansteys.. não foi. nós estávamos contando com isso. É um trabalho interessante que ela gosta de fazer. — Muito sensato de sua parte — retrucou Miss Marple.. Tio Mathew morreu em março e deixou tudo o que tinha para ser dividido igualmente entre Edward e eu. só precisamos encontrar um lugar tranqüilo. meu e de Edward. foi um choque para nós. minha querida! — Então. de chofre: — Bom. Quando se espera receber uma bolada. — E como vê. e outro que fora arruinado por um advogado desonesto e ele próprio já havia perdido o dinheiro 65 . um tio de nosso avô. o que é pior. não se faz muito esforço pra ganhá-la. Gostava dele. — É. e Charmian não possui nada. de outra forma. então. — Ela saiu da sala apinhada e sufocante de fumaça e dirigiu-se a uma saleta no segundo pavimento.— Mas é claro. Suspeitava de tudo e de todos. Trabalha como assistente de diretor num teatro de segunda categoria. Pode até pensar que é mentira. algum dia. Sentaram-se.. dizendo: — Sabe. não estamos! — disse Charmian. Tem razão.. é o que teremos de fazer. e Charmian disse.

— Não.. e enterrá-lo..? — É isso o que nos deixa loucos. Pobre Tio Mathew! — Ele piscou o olho. Ele não deixou nada. — Jane jurou que você diria logo onde deveríamos cavar. Não me ocorre nada no momento. É provável que tenha agido de acordo com seus princípios.que investira em uma companhia fraudulenta. — repetiu Miss Marple. não sou mágica. feito o que dizia — concluiu Charmian. apesar de ser muito rico.. — Descobrimos que tinha vendido algumas ações e retirado grandes somas em dinheiro. realmente.. — Talvez fosse fácil dizer alguma coisa — respondeu Miss Marple. Mas tio Mathew não tinha olho de vidro. Olhou-nos e suspirou levemente. ou seja. Miss Marple sorriu. Havia alguma coisa escondida no olho de vidro de um homem. Não conheci seu tio. Edward replicou ansioso: — Isso lhe diz alguma coisa? Fez-me lembrar de uma história de Arsène Lupin. não sei que tipo de homem era ele e não conheço nem a casa nem o solo. uma carta. — E. pensativa. mas ele estava irredutível. — Ótimo — disse Charmian. Miss Marple abanou a cabeça. deixou muito pouco em ações. — Os amigos argumentaram com ele. transformar o dinheiro em tesouro. Edward continuou a explicação. — Venha conosco a Ansteys para ver o 66 . fazendo-o ver que não obteria nenhum lucro desta forma. — E se o conhecesse? — perguntou Charmian. meus queridos pombinhos. quando morreu. mas voltou a si pouco antes de morrer. Por isso acreditamos que tenha. Dizia que seu dinheiro deveria ser guardado em uma caixa debaixo da cama ou ser enterrado no jardim.. Ficou inconsciente por alguns dias. Tio Mathew ficou tão impressionado com esses acontecimentos que decidiu de uma vez por todas. — Começo a compreender. mas ninguém sabe o que fez dele. — Então piscou o olho direito e morreu. Depois disse: — Vocês estarão bem. — Bem. comprado ouro e enterrado.. — Ele não disse nada antes de morrer? Não deixou nada escrito? Um documento. Charmian estava desapontada. — Ah — disse Miss Marple.

Estiveram também no sótão. Sempre desejei procurar um tesouro escondido. em volta de cada árvore.que pode fazer. Nenhum fora destruído e Charmian e Edward sempre voltavam a relê-los. estava fechada e o jardineiro teve que subir numa escada e entrar pela janela. porém. Acabavam de visitar as dependências de Ansteys. situação muito embaraçosa para a Sra. ansiosa. havia uma escavação. cuja criada era especialista em polir assoalhos. e isso. até então. Estiveram no jardim (que mais parecia uma trincheira). Sempre achei que se devia ter um plano. Estou sempre me desviando do assunto. — Será que sobrou ainda algum lugar? — perguntou Charmian. minha querida. Uma pilha de papéis jazia sobre uma mesa do escritório — todos os documentos deixados pelo finado Mathew Stroud. e olharam tristemente para as alamedas outrora limpas e belas. e — continuou olhando para eles com um jeito romântico e cúmplice — ainda mais havendo amor em jogo! — Aqui estamos — disse Charmian. — Parece que nada foi esquecido. Um dia ela tanto se esmerou em polir o chão do banheiro que a Sra. a Sra. às vezes. Entraram em porões onde lajes foram retiradas à força dos suportes. Eldritch. como era de se esperar. convite ou correspondência. Desculpem-me. ajuda. caiu e quebrou a perna. onde velhos baús e cômodas foram esvaziados. O que quis dizer é que se 67 . Talvez tudo tenha sido vasculhado demais. minha querida. na esperança de se deparar com uma pista que. Mediram e deram tapas nas paredes e mostraram a Miss Marple todas as peças do antigo mobiliário que pudessem abrigar uma gaveta falsa. andaram pelo pequeno bosque. E que uma coisa lembra outra. ao sair do banho. Ê possível que Charmian não imaginasse que Miss Marple fosse levar o convite a sério. Eldritch. tivesse passado despercebida. onde. Edward mexia-se na cadeira impacientemente. É como diz uma amiga minha. Miss Marple abanou a cabeça. uma mulher de respeito. gesticulando vivamente. Foi um lamentável acidente porque a porta do banheiro. examinando cuidadosamente cada promissória. Eldritch. ela disse logo: — É muita gentileza sua. escorregou. por favor.

é claro. Bem parecido com meu tio Henry — amigo de brincadeiras óbvias. meu querido! É muito cansativo para vocês. gostava tanto de um cafezinho depois do jantar. Isso tomou conta dele de tal maneira — pobre homem! — que. eles estavam mesmo.. Edward sentiu que se ouvisse mais alguma coisa a respeito do tio Henry iria enlouquecer. Ã medida que os examinava. E. Estava definitivamente convencido de que os criados o estavam roubando. desconfiava de que estivessem envenenando sua comida. evidentemente. Charmian fez um sinal para Edward indicando que Miss Marple estava ficando gagá. ficou olhando para elas por alguns minutos. Mas acho que descobri que tipo de pessoa era seu tio Mathew.. Miss Marple? Ela sobressaltou-se. 68 . Quando terminou. Se não se importam. Algumas pessoas sentem-se mal com charadas. se não forem confidenciais. — Encontrou alguma coisa importante? — Não. Querido tio Henry! Eu o conheci tão alegre. metódico. talvez uma desilusão na juventude. O meu cérebro e o de Charmian não são mais capazes disso! — É claro. — Desculpe-me... Edward perguntou.. Costumava dizer que ninguém pode envenenar um ovo quente... — Pense. Miss Marple continuou a falar animadamente de seu tio Henry. gostaria de examinar tudo isso — e apontou os documentos que estavam sobre a mesa. com um toque de malícia na voz: — Então. não. Mas acho que não vai encontrar nada. Um solteirão. não gostava de se sentir preso. Não quero parecer bisbilhoteira. Edward interrompeu. às vezes. não sei bem por que. Passou a só comer ovos quentes. Estava distraída. — Gostava de charadas. poucos solteirões gostam! Por trás das costas de Miss Marple. um simples jogo de palavras pode ser irritante. Miss Marple sentou-se e começou a examinar aquele amontoado de papéis. Costumava dizer: — Este café está muito frio — o que se podia traduzir por: — Quero mais um. no final. ia organizando-os em pequenas pilhas. — Esteja à vontade.tentássemos imaginar um lugar.. Era desconfiado também. Miss Marple. — Isto é.

e fazia muito alarde sobre isso. — disse Miss Marple — precisamos encontrar o dinheiro! Você não pode desistir. ou seja. — É uma idéia! Que W olharmos na biblioteca? Charmian sacudiu a cabeça com desdém. uma. sim. Guardava uma boa quantia em dinheiro em casa. Por causa de todo o seu falatório. E isso deve ser 69 . mas tente novamente! — Quer dizer que devemos continuar tentando? — Exatamente — disse Miss Marple. tente. Edward..Mas onde é que estava mesmo? Ah.. Se não conseguir a princípio. "Primeiro cace sua lebre. Sacudi-os. uma noite ladrões entraram em sua casa e arrombaram o cofre. querida! Era apenas um velho solteirão não muito ligado a crianças. mas não havia nada no cofre — disse Miss Marple." como ensina aquele famoso livro de receitas. Um livro maravilhoso. — Bem feito! — disse Edward. Costumava colocar sacos de balas fora do alcance das crianças.Mas. .. dentro de um cofre seguro. três vezes. Vou tirar o carro e a senhora poderá apanhar o trem das 15 e 30.. — Você acha que ainda não tinha pensado nisso? Procurei atrás de todos os livros. Dizia que ninguém retirava um livro desse tipo da prateleira! Edward interrompeu. e só nos falta descobrir onde ele escondeu o dinheiro. não. seu tio Mathew. mas tinha certa tendência a instigá-los. Foi terça-feira passada. — Ah. Deixando a educação de lado. caçamos nossa lebre. — Foi muito gentil de sua parte ter vindo e tentado nos ajudar. Depois levantou-se e tratou de livrar-se estrategicamente de sua indesejável hóspede. — Ele guardava o dinheiro em outro lugar — atrás de algumas obras religiosas na biblioteca.— Gostava dos jovens — continuou Miss Marple —. quando você foi a Portsmouth. de alguma forma. duas... Até que ele não era de todo ruim. Charmian disse: — Ele me parece horrível! — Ah. Sentimos muito desapontá-la e tomar seu precioso tempo. Tirei todos os livros das prateleiras. mas caríssimo e a maioria das receitas começa assim: "Tome meio litro de leite e uma dúzia de ovos”. — Eu ainda nem comecei. Nada! Edward suspirou. Acho que nós.

Antigamente.. por exemplo. Abriu uma portinhola central e tocou uma mola por dentro da gaveta da esquerda. não. — Mas ele sempre dizia. — Mas nós procuramos em todas as gavetas secretas! Clamamos um carpinteiro para examinar a mobília.bastante simples. que havia num dos lados do segredo. Retirou a tampa. secamente. Ela apanhou um grampo do coque dos cabelos grisalhos e impecáveis. não há nada lá. puxou uma gavetinha dentro da qual se via um maço de cartas amareladas e um papel dobrado. — Verdade? Você é esperta. ao mesmo tempo. revelando uma cavidade vazia. É aquela ali. os carpinteiros eram mais engenhosos quando fabricavam esses esconderijos. Dentro dela havia caixilhos e pequenas gavetas.. Mas não há razão para crermos que o dinheiro esteja em ouro. poderiam estar em uma gaveta secreta. — Sim. Uma gaveta secreta. — Acredito — disse Miss Marple — que o carpinteiro fosse muito jovem para conhecer tudo a respeito de sua profissão. Estou certa de que ele teria feito o óbvio. a gaveta da escrivaninha de seu tio. perto da parede? — É. apenas a madeira era diferente. Eu sugeriria. — Isso não é uma coincidência? — exclamou Miss Marple. — De qualquer forma — disse Charmian —. Há segredos dentro de segredos. — Tio Henry tinha uma escrivaninha semelhante a esta.. — Meu tio Henry também. espetou em um orifício quase imperceptível. Charmian retirou-o. 70 . — Ninguém poderia esconder barras de ouro em uma gaveta secreta — disse Edward. é claro que não. — Simples? — exclamou Charmian. Lembra-se do cofre? Eis por que acredito que aquilo fosse uma pista falsa. Vou mostrar. como se pode ver. — Charmian foi até ela. — Não. este é meu palpite. querida.. Diamantes. Edward e Charmian debruçaram-se sobre o achado. Com um certo esforço. O fundo da parte central soltouse.

mas também às vezes me sinto triste por um motivo que você conhece. Provavelmente morreu de febre amarela ou coisa parecida. Escolheu uma e leu-a rapidamente. — Mauritânia. Enquanto isso. Seu verdadeiro amor. As suas sinceras manifestações de carinho e afeto animaram-me muito. P. O pastor Gray já fez algumas conversões. Edward desdobrou o papel para logo deixá-lo cair com um grito de decepção. como sempre. Betty Martin. Espero que Deus me perdoe este pequeno subterfúgio. Não se vestem. meu querido. examinando o resto das cartas. querido Mathew. Charmian lia: — "Meu querido Mathew: Devo confessar que parece ter passado muito tempo desde que recebi sua última carta.S. desde que cheguei à América”. Um leve suspiro chamou-lhes a atenção. dançando e adornando-se com guirlandas de flores. Charmian interrompeu bruscamente a leitura: — De onde é esta carta? Do Havaí! — E prosseguiu: Por incrível que pareça. Tento ocupar-me com minhas tarefas e sempre penso que sou mesmo muito feliz por ter a oportunidade de conhecer o mundo e que nunca poderia imaginar que viajaria tanto por essas ilhas. são selvagens e passam a maior parte do tempo nadando. Charmian desatava a fita do maço de cartas. — Esta está endereçada à nossa amiga Matilda Graves. — Uma receita! Presunto ao forno. esses nativos são mesmo de um primitivismo incrível. — Muito bem — disse ela. Tenho feito o que posso para encorajá-los. — Uma missionária! Eis o romance de Tio Mathew! Por que será que nunca se casaram? — Ela parece ter viajado pelo mundo inteiro — disse Charmian. toda espécie de lugares. Miss Marple estava muito intrigada.Com os dedos trêmulos. — Cartas de amor! Miss Marple exclamou romanticamente: — Que lindo! Talvez esteja aí a razão por que seu tio nunca se casou. A distância é uma prova muito severa para um coração apaixonado. mas o trabalho é quase sempre inútil. e tanto ele quanto sua esposa estão muito desmotivados. Agora e sempre você é dono de meu devoto e fiel coração. Edward assoviou. — Vejam isto agora. 71 .

Sentindo seus olhares inquiridores. — Não. Mas o que acham disso tudo? De repente o rosto de Edward iluminou-se. É evidente! Por qual outro motivo ele guardaria esta receita numa gaveta secreta? — Exatamente — disse Miss Marple. Realmente um homem muito simples. Miss Marple pigarreou. querida. — Realmente acho que vocês estão tornando tudo muito difícil. Charmian fitou as próprias mãos. — Acha que isso pode ser um código? — Apanhou o papel.Ela lia a receita de presunto ao forno. Miss Marple? — perguntou Charmian.O que acham disso? — Que estranho — disse Edward. os envelopes são antigos. Assem em forno morno e sirva com purê de espinafre”. Charmian. Gritava. 72 . Pela primeira vez os dois jovens deram total atenção a Miss Marple. — Quero dizer. — O que quer dizer com isso. animado: — Charmian. recheie com cravo-da-índia e cubra com açúcar mascavo. Mas Edward nem a ouviu. talvez fosse até gostoso. Quis apenas brincar. Edward assim o fez mas não havia sinal de tinta invisível. Nunca houve missionária alguma! -Minhas queridas crianças! Não há razão para dificultar as brincadeiras. sim. Acenda o fogo — disse Charmian. — Olhe. As cartas é que devem ser importantes. começou a ler em voz alta: "Presunto ao forno com espinafre. — Quem sabe não é o truque da tinta invisível? Vamos aquecer o papel. — Tudo deve ser código. venha cá! Ela está certa! Veja. — Isto é muito significativo. A receita deve ser apenas uma pista. mas as cartas foram escritas há pouco tempo. Aposto como foi o próprio tio Mat quem as envelheceu! — Exatamente — disse Miss Marple. — As cartas? — Sim. especialmente a assinatura. Elas foram envelhecidas. — Exatamente — disse Miss Marple. que você tem o dinheiro em suas mãos neste momento. Tome um bom pedaço de presunto defumado.

sim. não foi o que disse? Muito bem.. Se não fosse por Miss Marple. Seus olhos estavam fixos no papel que tinha nas mãos. que as cartas. são importantes. Foi ele quem me contou a respeito de um tipo de selo raro e valiosíssimo. você já deve ter ouvido uma expressão que indica que alguma coisa não é o que parece. querida! É a chave de tudo. Eis a pista! — Quem está louco aqui. datado de 1851. Sem dúvida seu tio os comprou através de intermediários e tomou todo cuidado para não deixar pistas.000 libras.. se bem me lembro. Imagino que os outros selos também devam ser raros e valiosos. — Também não faria sentido para mim se não fosse meu sobrinho-neto. nós ou a senhora? — perguntou Charmian. Era um selo de dois centavos. presunto e espinafre. — É claro. Edward resmungou alguma coisa. como se diz nas histórias policiais. Como você mesmo disse. nós teríamos queimado essas cartas sem dar-lhes maior atenção. minha querida. Um menino maravilhoso e um apaixonado filatelista. Ela estacou e repetiu bem devagar. nada! Está claro.— A assinatura. As cartas foram escritas por seu tio e acredito que ele se tenha divertido muito com isso. Presunto e espinafre! Significam. Principalmente se levarmos em consideração tudo o que seu tio fez pouco antes de morrer. — 1851. Os envelopes são bem mais antigos. Lionel. Edward. — Sem dúvida. Meu 73 . Isso explica tudo. ou será que já não é mais usada? numa situação como esta costumava-se dizer: "um piscar de olhos e Betty Martin”. não poderiam pertencer às cartas porque o selo postal data de 1851. Edward ficou sem ação. — Nada. sentou-se e escondeu o rosto nas mãos. não? — Não para mim — disse Edward. Foi arrebatado por 25. Apenas um mau pensamento. então. Cravos-da-índia. — O que houve? — perguntou Charmian. não existe ou não existiram tais pessoas. — Ah! É isso que esses velhinhos espirituosos nunca imaginam. o que significa? Ora. Ele piscou o olho. A receita é apenas uma pista. Sabe tudo sobre selos... — Betty Martin. açúcar mascavo e tudo o mais. — Claro! — exclamou Miss Marple. Um deles foi achado recentemente e leiloado.

um tanto envelhecida — que cumprimentou-a com sua voz de contralto: — Boa tarde. A impressão de Edward a respeito de tio Henry sofreu uma completa transformação. Hartnell — vinte e cinco anos. possuía nariz e lábios finos. Hartnell — respondeu a costureira. Lançou os olhos pela rua e viu alguém que se aproximava a passos largos. uma almofada de alfinetes e uma tesoura. fechouo e escreveu: "Todo o meu amor e votos de felicidades. Spenlow está em casa? — Não faço a menor idéia — retrucou a Srta. O CRIME DA FITA MÉTRICA Politt segurou a argola da porta e bateu levemente. — A moça. — Por favor — continuou Politt —. tornou a bater. Na mão esquerda. por exemplo. E ele acabou tendo que enviar-lhe outra nota. que ela havia acabado de aprontar. e o sotaque um pouco afetado. Após alguns segundos. ela 74 . Spenlow. Sinto só poder enviarlhe isso este ano”. cabelos ralos e acobreados. e ela voltou a arrumá-lo. Era a Srta. O embrulho que trazia no braço esquerdo ameaçou cair. Sua voz era excessivamente fina. Srta. desiludida com a mensagem. Ela hesitou um pouco antes de bater pela terceira vez. Politt era alta e esquálida. alegre. certo Natal enviou uma nota de cinco libras para sua sobrinha favorita. — Miss Marple — disse ele — vou abrir uma garrafa de champanha. atirou o cartão na lareira sem ao menos abri-lo. às três e meia. Este continha o vestido verde da Sra. Seu primeiro trabalho tinha sido como dama-de-companhia de uma senhora. Hartnell. Politt! — Boa tarde. Combinamos que hoje. Vamos beber à saúde de seu tio Henry. Colocou a nota dentro de um cartão de Boas Festas. sabe dizer se a Sra. Politt carregava uma sacola de seda preta com uma fita métrica. — Não sei o que fazer.tio Henry.

já sei! Hoje é quinta-feira e ela está de folga. Hartnell fez uma pausa significativa que levou as 75 .experimentaria o vestido novo — disse Politt. Não satisfeita. e olhou. mas não dei atenção. Ela disse que não queria ficar sozinha. O casal preferia a saleta dos fundos. Hartnell ao relatar o que se passara. Hartnell abriu o portão e aproximou-se de Politt. caída sobre o tapete ao lado da lareira. A Srta. mas ninguém atendeu. Era preciso ser firme com ela. porque ela não tem o hábito de esquecer seus compromissos e ainda mais que ela precisa do vestido para depois de amanhã. Spenlow não deu sinal de vida. É estranho. — Ela não pode ter saído. Creio que você não bateu o suficiente. Spenlow surgiu de um dos lados da casa. a Srta. Eu já bati três vezes. Encontrei-me com ela ainda há pouco. Politt não saberia o que fazer. — E dirigiu-se para a saída. Neste ponto. Spenlow precisou sair e esqueceu o combinado. Assim eu já estava de saída quando o Sr. Hartnell com firmeza. Spenlow está dormindo. Vou olhar pela janela. e ver se ela dá algum sinal de vida. — Ah. Dizendo isso. Disse-lhe que precisávamos manter a calma: ela ficaria lá e eu iria falar com o Investigador Palk. sem muito interesse. -Digo sem muito interesse porque ela sabia que a sala da frente raramente era usada. Hartnell encontrou o que procurada. o olhar da Srta. mas de morte. — Tolice! — disse a Srta. a Sra. — Por que será que Gladys não abre a porta? — perguntou. agarrou a argola e bateu violentamente na porta. Acho que a Sra. Mesmo desinteressado. — Sem dúvida — disse a Srta. Provavelmente a Sra. — É. bateu também com toda força nas almofadas da porta e gritou: — O de casa! Há alguém aí? Não houve resposta. pela veneziana da janela mais próxima. Politt murmurou: — Acho mesmo que ela esqueceu e saiu. A Srta. Sempre achei que esse tipo de pessoa gostava de criar problemas. — Eu tive que me controlar. Hartnell consultou o relógio: — Já passa um pouco das três e meia. Eu volto outra hora. Ela soltou uma risada para indicar que era brincadeira. De fato.

Foi interrogada pelo Investigador Palk. Miss Marple. — disse Miss Marple. A polícia também concordou. que folheava um livro com ar de importante... foi chamada a depor cerca de meia hora após a descoberta do crime. Se não se importa. — Espero que seja verdade. já não estava lá. Tão desconfiados estavam do alheamento do Sr. gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. mas como soube disso? — Um passarinho me contou. e não creio que seja natural um homem saber que a esposa está morta e não demonstrar o menor sinal de emoção. Todos concordaram.. Não parecia nem um pouco surpreso. Como é que o pequeno Fred sabe disso?. Palk compreendeu logo a resposta. Estava calmo demais.. a doce — e. Mas. retire-o e terá sorte o resto do dia.. Hartnell prosseguiu: — Sinceramente. — A respeito da morte da Sra. Palk não esperava o comentário.pessoas que a ouviam a perguntar: — Como estava ele? A Srta. Spenlow? — disse Miss Marple. Mas.. um tanto maldizente velhinha que morava ao lado da igreja.. — Desculpe. eu suspeitei dele imediatamente. Spenlow que nem perderam tempo em verificar em que situação ele ficara com a morte da mulher. encontre um alfinete em sua roupa. quando foi levar-lhe o jantar. mas não perdeu a calma.. Palk ficou surpreso. Miss Marple interrompeu o investigador: — Há um alfinete no seu paletó. de acordo com um testamento feito pouco depois do casamento. Provavelmente o filho do dono da pensão ter-lhe-ia contado. Miss Marple prosseguiu calmamente: — Deitada no chão da sala de estar. esticou os ombros e consultou seu livro: 76 . com o que quer que tenha sido. alguns diziam. Quando descobriram que ela era rica e que com sua morte o marido seria o único herdeiro. — Como diz o velho ditado. estrangulada — talvez com um cinto bastante estreito. o que deseja saber? Palk pigarreou. as suspeitas aumentaram ainda mais. senhora. senhora. Palk estava intrigado.

aparentemente seca. — Ele esteve aqui. sem querer citar nomes. de podas. Isto é verdade? — Evidente que não! — disse Miss Marple. mas eu estava numa reunião da Sociedade Feminina. — Ah! — fez o investigador. — Isso é verdade — disse Miss Marple. desde criança. Spenlow às duas e meia? — Nem às duas e meia e nem em qualquer outra hora. Era estranho que ele tivesse vindo morar no interior. marido da finada. é como se alguém. bastante engenhoso.. que lhe perguntou se ele poderia ir até sua casa por volta das três e quinze. Ele era baixo. às duas e meia ele atendeu a um telefonema de Miss Marple.. Spenlow. Spenlow? Ela gostava do Sr. como lhe fora solicitado. Chegando aqui. O Sr. e cultivar um jardim. passando a mão pelo bigode com grande satisfação. porque ela precisava muito falar com ele. de temporadas. foi informado pela criada de que Miss Marple não se encontrava em casa. Havia pedido a Miss Marple algumas 77 .. Sempre adorei flores. Foi lá que a conheci. nada sabia a respeito de flores. pois vivera a maior parte da sua vida na cidade. Spenlow. tivesse sido. Não entendia de sementes. — Diga-me.. — Ah! — fez novamente o investigador. mas. repleto de flores perfumadas e coloridas. Spenlow? — Disse que veio até aqui. — Que mais disse o Sr. magro. entretanto. Miss Marple disse quase que para si mesma: — O Sr. A Sra. — A senhora não telefonou para o Sr. Vislumbrava apenas a imagem de um jardinzinho em uma pequena casa de campo. Spenlow? — Ainda é cedo para dizer. de canteiros. Spenlow. jovem e bonita. ir viver no campo um dia. Sr.— De acordo com o que ouvi do Sr. rodeada de flores. A Miss Marple ele contou por quê: — Sempre pretendi. Spenlow. deixava entrever todo um romance. Palk: suspeita do Sr. tendo deixado sua casa às três e dez. rígido e convencional — o máximo em respeitabilidade. Minha esposa tinha uma floricultura. Esta frase.

Patrocinava obras sociais da cidade. Spenlow. quando a Sra. Deixou o emprego para casar-se com o jardineiro. — Não acha que ele poderia ter representado o papel de marido 78 . Mary Mead. Coronel Melchett. morreu pouco depois. Spenlow — e logo toda a cidade de St. Algum tempo depois. chamou o Inspetor Slack. e desta vez já tinha vaticinado: — Foi o marido! — Você acha mesmo? — Acho. aumentouo e fê-lo prosperar. um joalheiro de meia-idade. que havia herdado uma pequena loja que não dava lucros. os homens da lei aprenderam muito a respeito da Sra. Todos os seus investimentos prosperaram. A Sra. mas o jardineiro. A Sra. E. e anotado todas elas cuidadosamente em um caderninho. Ao invés desse fato aumentar a sua crença no espiritualismo. Depois. venderam a joalheria e foram morar em St. o delgado. Slack um homem firme. A viúva deu continuidade ao negócio. Estava sempre na paróquia. foi assassinada. como ela fazia questão de explicar. Voltou à casa sabendo que ela estava morta. Era um homem metódico. interessava-se pelos acontecimentos do local e jogava bridge. Spenlow chegou a St. e com ele montar uma floricultura em Londres. Mary Mead também. que há muito andava doente. e ia aos cultos regularmente. o casal Spenlow praticamente abandonou os médiuns para envolver-se completamente com uma seita de inspiração hindu. Nunca demonstrou o menor sinal de pesar ou emoção. O negócio prosperou. Os espíritos tinham-na aconselhado com surpreendente sagacidade. Basta olhar para ele. Com paciência e perseverança. sob orientação espiritual. de repente. tinha realmente certeza do que dizia. Mary Mead. Uma vez tendo formado uma opinião. Talvez por causa disso a polícia tenha se interessado tanto por ele quando sua esposa foi encontrada morta. Os lucros provenientes da venda da floricultura tinham sido investidos. voltou-se por um certo tempo para a igreja ortodoxa inglesa. Spenlow começou a vida como criada em uma mansão. alguns de forma inesperada. Entretanto. Levava uma vida rotineira.informações. Spenlow tinha uma boa situação. Culpado dos pés à cabeça. vendeu-o por um bom preço e casou-se pela segunda vez — com o Sr.

Não creio nessa possibilidade. Blade vê todas as pessoas que entram lá. O principal é que ele disse que Miss Marple telefonou para ele e isso certamente não é verdade. Os únicos telefones públicos da cidade são o da estação e o do correio. Melchett interrompeu-o: — Fingiu? — Sim. — Isso pode muito bem ter acontecido. — Mas arrependeu-se e fez tudo o que pôde para emendar-se. sim. — Foi o que aconteceu. — Não descobri nada a respeito. Está muito contente. ele restituiu o dinheiro daquele desfalque. — Havia alguma outra mulher em sua vida? — perguntou o Coronel Melchett. E isso também quer dizer que ele mentiu ou que aquela chamada foi feita de um telefone público. e sim que. — E está ligado ao tal Grupo Oxford — disse Melchett. Já investiguei isso também. Planejou tudo com cuidado. A Srta.. Seus chefes é que não tiveram bom senso. Ele não ganharia nada com isso. e sempre se forma um certo tumulto. está? — O senhor está pensando em Ted Gerard. — Mas ele não presta.. Há pessoas que não sabem fingir. Evidentemente deve ter encoberto suas pistas. Acho que ele simplesmente estava farto de sua esposa. Ele é esperto. Então. Do correio não pode ter sido. Da estação. decidiu livrar-se dela e viver confortavelmente sozinho. Ela própria estava na Sociedade Feminina. A chamada não partiu de sua casa. Admito que ele tenha sido astuto. — Você não está considerando a possibilidade de o marido ter sido deliberadamente afastado da casa por alguém que desejasse assassinar a Sra. Devia saber que suspeitavam dele e resolveu bancar 79 . Spenlow. Fingiu receber um telefonema. eu sei. Ela tinha dinheiro. São insensíveis demais. Há um trem que chega às duas e vinte e sete. — Não estou dizendo que ele preste. e creio que devia ser mesmo horrível viver com ela — sempre falando de religião. Já deu um desfalque uma vez.desesperado? — Ele não faria isso. de uma forma ou de outra.

— Ele é realmente muito gentil. Os ladrões nunca foram apanhados. estava envolvido no caso. — Sim. Contou-me que aquilo que a senhora não sabe a respeito de St. Robert Abercrombie. Não sabia que ele se lembrava de mim. Mary Mead não vale a pena procurar saber. principalmente quando soube que ele tinha sido enviado pelo Coronel Melchett.. Um perdulário! Nadava em dívidas e. Mas ela sabe de tudo o que acontece na cidade. mas eu não me convenci. A senhora sabe como se comenta sobre isso. Miss Marple recebeu o Inspetor Slack com alegria. Ê uma conversa informal.. Ela nem conhecia Spenlow naquela época. — Você é um céptico. Deve ter acontecido quando a Sra. Não foi lá que houve um roubo de jóias? Esmeraldas. Spenlow ainda trabalhava lá. 80 .. Uma fortuna. era voz corrente que um dos filhos de Abercrombie. Slack mudou de assunto: — Gostaria de perguntar-lhe uma coisa: aquele primeiro emprego da falecida — a casa do Sr. embora ela fosse quase uma menina na época. Slack — disse o Coronel. — É claro que se lembra..o penitente. Lembro-me bem do caso. claro! Mas de que adiantaria ficar repetindo fofocas? Slack tentou ser esperto: — Isto não é um interrogatório. — Foi apenas uma idéia — disse Slack. — Já falou com Miss Marple? — E o que ela tem com isso? — Nada. Melchett abanou a cabeça: — Não acredito nisso. mas eu não sei mesmo nada a respeito desse assassinato. Estive investigando isso. Principalmente porque o velho Robert tentou afastar a polícia do caso.. Na polícia. Por que não bate um papo com ela? E uma velhinha bastante esperta. Ela não poderia estar metida nisso? Spenlow era um desses joalheiros pobretões — a pessoa indicada para isso.. elas foram saldadas. Disseram que fora ajudado por uma mulher muito rica. Jim. — Foi uma gentileza do Coronel. logo depois do roubo.

vindo pelo campo até minha casa. de manhã à noite.— Quer mesmo saber o que as pessoas estão dizendo. por certo. e muitas senhoras tornaram-se anormalmente diligentes no trabalho da paróquia. — Há também o lado financeiro. as pessoas sempre exageram muito as coisas. O companheiro é. a primeira pessoa de quem se desconfia. que o crime fosse atribuído a algum vagabundo ou ladrão. Esperava. Miss Marple prosseguiu: — Há quem diga que foi Ted Gerard — um rapaz bem apessoado. Além disso. não é mesmo? — Pode ser — disse o inspetor. Acho que o senhor sabe. O inspetor murmurou entre os dentes: — Ela provavelmente não sabia. O inspetor concordou: — E o dinheiro? Eles poderiam não estar se entendendo bem ultimamente. Soube que o dinheiro que possuíam era dela e que o Sr. de uma forma ou de outra.. Gladys. as piores maldades acabam tendo justificativa. Isto sem contar os casacos e 81 . deixado a casa pelos fundos. Seria plausível que ele a tivesse estrangulado. fingindo ter recebido um telefonema e voltado para casa. Lembra-se do último vigário que tivemos? Foi um achado! Todas as moças compareciam à igreja. Spenlow seria beneficiado com sua morte. a aparência às vezes influencia mais do que deve.. teria espalhado o fato por toda a cidade. — Exatamente. com cautela. Neste mundo corrompido. e se é verdade ou não? — Isso mesmo! — Bem. Miss Marple não o deixou continuar: — Eles se entendiam muito bem! — Como pode estar tão certa? — Todos saberiam se eles brigassem! A criada. perguntado por mim. — Ele ficou com uma soma respeitável. há duas correntes de opinião: uma acredita que foi o marido. encontrando a esposa assassinada. — e recebeu um olhar descrente como resposta.

evitaria ser visto a caminho do sítio. Tinha a impressão de que a conversa tinha por objetivo tocar em algum ponto que ele ainda não havia captado. a roupa que a Sra.. — Não creio. Miss Marple fez uma pausa e continuou: — Eu estou convencida de que não havia nada além disso. — Miss Marple enrubesceu. O Sr. — Imprópria? — Um quimono. sem passar pela estação. Eu não acho! Para mim. saltando do trem das duas e vinte e sete. sim. Miss Marple. Spenlow estava muito impressionada com isso. e não um vestido. Ela disse com firmeza: — O senhor não tem nenhuma pista. O Inspetor Slack disse: — Isso poderia ser mais uma prova contra o marido: ciúme. Muito embaraçoso para o rapaz! — Mas. embora a própria Sra. o que eu estava dizendo? Ah. Não é do tipo observador.. isso é perfeitamente normal. não. E. saltar a cerca e contornar a sebe. São bastante sinceros e fervorosos e a Sra. Muita gente acha que a senhora Spenlow estava encantada com o rapaz e que lhe havia emprestado uma soma considerável. Assim. logicamente. mas sabe como é o povo. Vinha vê-la com freqüência. Mas é claro que seria mais fácil para ele pular para o outro lado da linha. Têm falado nele. sim! Esse tal Ted Gerard. imprópria. entrar pelo atalho. Spenlow tenha dito que ele era membro do tal Grupo Oxford — um movimento religioso. Além disso. Se sua esposa o tivesse abandonado e deixado um bilhete de despedida. — O Inspetor Slack estava intrigado com a maneira decidida pela qual ela o olhava. — A senhora acha normal? — De acordo com as circunstâncias.. 82 . — Esse tipo de coisas não deixa de ser sugestivo para algumas pessoas.. — A senhora também acha? — Não.os cachecóis que faziam para ele. ele foi visto na estação naquele dia. inspetor? — Ninguém deixa pegadas ou pontas de cigarro hoje em dia. Spenlow estava usando era um tanto. Spenlow nunca seria ciumento. — O olhar de Miss Marple era frio e pensativo. esta seria a primeira vez que ele pensaria no assunto.

eu acho — como se nada houvesse acontecido. disse. Slack retrucou: — O que quer dizer com isso? Miss Marple respondeu calmamente: — Acho que o Investigador Palk poderá ajudá-lo.. Mas. continuou calmamente a tocar um gongo pela rua — um costume chinês. — E a senhora? Entende? Miss Marple fez que sim: 83 . — Mas — disse Miss Marple — o povo de St. como se costuma dizer. Spenlow ergueu-se e disse: — Minha senhora há alguns anos li que um filósofo chinês. se o senhor me desculpar a indiscrição. O Sr. a opinião dos pais. O povo da cidade ficou muito impressionado com isso. Spenlow estava sentado em sua espreguiçadeira. quando perdeu sua esposa. Asseguro-lhe que senti muito perdê-la. De fato. — Mas o que poderia ter sugerido essa idéia a um menino? Miss Marple pigarreou: — Sem dúvida. mas ouvi distintamente um garotinho dizer na rua: "Quem é o assassino?" Isso. ela não se adaptou tão bem à vida no campo quanto eu gostaria. sem dúvida. mas ninguém pode concordar em tudo. O Sr. com um fio de voz: — Posso imaginar o que ocorreu. Miss Marple. — E provável. Após algum tempo. Já não escuto tão bem quanto escutava antes. não parece. Isso me deu a impressão de que ele estava querendo dizer que eu matei minha querida esposa. Mary Mead. Ele foi a primeira pessoa a chegar ao local do crime.. — Mas.— Mas esse eu tenho a impressão de ter sido um crime à antiga — sugeriu ela. Parecia perplexo. disse: — Essa era a impressão que ele queria dar. — A senhora realmente acredita que outras pessoas pensem assim? — Quase a metade do povo de St. despetalando delicadamente uma rosa. o que poderia ter dado ensejo a essa suposição? Eu gostava muito da minha esposa. Mary Mead reage de maneira um pouco diferente. A filosofia chinesa não tem muito prestígio por aqui. minha senhora. Isso é um ideal impossível.

Antes que a funcionária retornasse. Por alguns minutos. O delegado ficou surpreso quando soube que Miss Marple desejava vê-lo. Quero dizer: acho que ele não deveria cuidar desse caso. Miss Marple subiu até seu quarto. a costureira.. Miss Marple viu-se sozinha nas dependências do correio. — Eu estava pensando — disse o Sr. Eram duas e trinta. se fosse possível. cujo nome não me lembro agora e que. Eu não gostaria de criar problemas para o Investigador Palk. Miss Marple disse: — Tenho um catálogo de flores ilustrado. que é muito interessante. Todavia. Eu sei que o senhor é um homem muito ocupado. Spenlow com certo entusiasmo — que poderia cultivar ramadas no lado oeste do sítio. A Sta.. além de cuidar do correio. despachando pacotes. mas tem sido sempre tão atencioso. porque. E há um tipo de flor estrelada. que eu preferi vir falar diretamente com o senhor ao invés de procurar o Inspetor Slack. Politt. Politt disse que ia ver o que podia fazer. livros de bolso e brinquedos. Ela entrou na sala e foi logo pedindo desculpas: — Desculpe incomodá-lo. O Coronel Melchett olhou-a espantado: 84 . Spenlow no jardim a examinar o catálogo. e uma perua estacionou na porta do correio. Deixando o Sr. ela vendia balas. morava num pequeno apartamento. Rosas vermelhas e glicínias também. Seu lema era nunca demonstrar emoção e também gostava muito de flores. Isso acontecia todos os dias em St. no segundo andar do edifício. Usando o mesmo tom com que falava com seu sobrinho-neto de três anos. Miss Marple não subiu imediatamente até lá. Politt e explicou que gostaria de reformar seu vestido cinza — torná-lo um pouco mais moderno. A Srta. embrulhou rapidamente um vestido num pedaço de papel pardo e saiu em direção ao correio. Miss Marple subiu até o apartamento da Srta.— Meu tio Henry — explicou — possuía um autocontrole fora do comum. Gostaria de dar uma olhada? Preciso ir até à cidade. A funcionária do correio andava de um lado para outro. Mary Mead.

não parece? Então ela saiu e ficou do lado de fora batendo a porta como se tivesse acabado de chegar. — E foi Politt quem telefonou para Spenlow? — Sim. o que representa um alfinete? Ele pode ter ficado preso na roupa dele quando ele estava examinando o corpo. é claro. Mas. o que pode representar um alfinete? Era um alfinete comum — o tipo da coisa que qualquer mulher usa. Coronel Melchett. Ele veio aqui ontem e contou isso a Slack. Depois. Ocorreu-me que o alfinete poderia ter ido parar lá porque ele estivera na casa da Sra. Spenlow estava usando um quimono porque ia experimentar um vestido novo. Miss Marple sacudia a cabeça veementemente. às duas e meia. Mary Mead! O que foi que ele fez? — O senhor não se lembra? Havia um alfinete no seu paletó no dia do crime. a lavoura não progredia e a propriedade ia cada vez pior. que ela já havia estado lá. foi só puxar a fita. Fácil. — Eu acho. Ela foi até a sala de estar e a Srta. Aos poucos. Acredito que ele o tenha feito falar. — Mas é claro! Para mim está claro como água! A Sra. O alfinete prova. Do Correio. parecia ir compreendendo tudo. — Minha cara Miss Marple. o que não acontecia com Gordon. mas como eu já disse. por que motivo ela faria isso? Por Deus! Não se pode assassinar alguém sem motivo. que isso é uma velha história. Cavalos adoeciam. muito fino. geralmente usado por costureiras. Fez-me lembrar meus dois irmãos: Anthony e Gordon. — Em quê? 85 . Um homem não saberia distinguir um alfinete comum de um especial. afinal. Não deveria ter agido assim. Elas devem ter trabalhado juntas no passado. Politt disse alguma coisa a respeito de tirar medidas e colocou a fita métrica em torno do seu pescoço. — É possível. Tudo o que Anthony fazia dava certo. Aí é que o senhor está enganado. no entanto. Spenlow. Acho que isso deve ter acontecido com as duas mulheres. e aquele era especial. Melchett ficou paralisado. Coronel. não. — Não.— Palk? Mas ele é o investigador de St. Exatamente na hora em que a perua chega e o local fica vazio.

sem dúvida. pelo que eu sei. Mas a outra moça não deve ter sido bem-sucedida e acabou se tornando apenas uma costureira de cidade do interior. tornara-se fervorosamente religiosa. dando-lhe certeza de que iria passar na prova para a Academia de Polícia. Tudo parecia ir bem até Gerard aparecer. podia falar com a senhora um instante? Podiase pensar que este pedido estivesse ao nível do absurdo. Miss Marple insistiu: — Não será difícil. Spenlow fosse incriminado. instigava-a a purificar-se. Ela vai dar falta do objeto e pensar que poderá ir parar nas mãos da policia. não pensava assim. É uma pessoa ignorante e pensará que isso é uma prova decisiva contra ela. Como a criada casou-se com o jardineiro e logo montou uma floricultura? Logicamente. A dama-de-companhia e a criada. O CASO DA EMPREGADA PERFEITA — Por favor. mas. uma coisa não está clara. No final tudo deu certo. Spenlow. 86 . madame. já que Edna. Porque. Politt serem a mesma pessoa. Começou a achar que poderia ir para a cadeia por um roubo que praticara há muito tempo e resolveu acabar com a Sra.. com a sua parte do roubo. Eram esmeraldas valiosíssimas. O dinheiro foi bem aplicado — rendeu. pode estar certo. A Sra.. Falou como lhe falara sua tia. Acredito que ela sempre tenha sido um pouco fraca. Ela é o tipo da mulher que confessará tudo no momento em que for acusada. Além disso.— No roubo. O Coronel Melchett disse bem devagar: — Há um dado da sua hipótese que podemos verificar: o fato de a dama-de-companhia dos Abercrombie e a Srta.. E ele passou. Provavelmente não moveria uma palha se o Sr. Spenlow tinha crises de remorso.. O rapaz. ontem eu apanhei sua fita métrica quando fui experimentar uma roupa. Há muito tempo.. Aí novamente se encontraram. porém. Miss Marple sorriu encorajando-o: — O senhor não terá trabalho. Miss Politt. e não duvido que ela própria estivesse realmente inclinada a fazê-lo..

é minha prima. — Não. Sabe. Gladdie. — Ora. por favor. pensando na pior hipótese. senhora. — Minha nossa — disse Miss Marple. o jeito que a Srta. Ela não é dessas. Lembrava-se de Gladys. sim senhora. entretanto. — Pode falar — Miss Marple encorajou-a. claro. ninguém gosta que uma coisa dessa aconteça. madame. Skinner? — Estava. E Gladdie está muito aborrecida com isso. compreende? — E dessa vez. não é? 87 . foi o contrário? — perguntou Miss Marple. risonha. não é? — É verdade. — E como — perguntou Miss Marple pacientemente — a Srta. Edna avançou. não está em apuros? Edna apressou-se em tranqüilizá-la. muito mesmo. um dos broches da Srta. pois. que pena. madame. por ser a mais comum. nada disso. na realidade falava com a patroa naquele momento. foi o jeito que aconteceu. Skinner 'tá pensando. — Oh. que nos dias de folga ia tomar chá na cozinha. não. madame. Skinner pensa? Desta vez Edna fez um amplo relatório da situação. não estava. É só que ela está aborrecida. Ela estava em Old Hall. foi um choque horrível para Gladdie. Miss Marple parecia surpresa. como uma moça forte. — Mas Gladys estava sempre trocando de emprego. madame. Edna prosseguiu: — Sabe. a gente fica aborrecida. Emily desapareceu e houve muito barulho. Edna.. — Oh. e isso a aborreceu muito.. perdeu o emprego.empregada de Miss Marple. entende? Mas foi sempre ela que se despediu. não. — Oh. — Sim. secamente. com a Srta. Parece que nunca se estabelecia. torceu a ponta do avental entre os dedos e engoliu em seco uma ou duas vezes. Miss Marple disse prontamente: — É claro.. Sabe. com as Srtas. de temperamento estável.. entre e feche a porta. Reconhecendo o estilo de linguagem. O que é? Fechando a porta obedientemente. madame.

Esta senhora. Edna disse. como sempre. Estes inquilinos apenas se cumprimentavam. Dou uma palavrinha com as Srtas. um especulador dividiu-a em quatro apartamentos. acolhia uma multidão alada para alimentar. junto com a empregada. ríspida. quebrou um prato. no dia seguinte. desanimada. obrigada.E Gladdie ajudou a procurar em todo lugar. era cercada por bosques e jardins. amante dos pássaros. todos os dias. Um juiz indiano aposentado e a mulher alugavam o segundo. — Isso passa — disse Edna. — Ah. A experiência foi satisfatória.. uma grande casa em estilo vitoriano. então não tem motivos para ficar aborrecida. Embora não tivesse simpatia pela buliçosa e obstinada Gladys tinha absoluta certeza da honestidade da moça e imaginava como aquele caso deve tê-la aborrecido. que foi por causa do broche e que elas acham que ela pegou ele e botou ele de volta na gaveta porque falaram na polícia e a Gladdie num ia fazer uma coisa dessas. então o broche apareceu de novo lá no fundo da gaveta da cômoda. e depois que a Srta. e disso tenho certeza. Lavínia veio falando grosso e disse a Gladdie que 'tava dando pra ela o aviso prévio. Uma senhora rica e excêntrica ocupava um apartamento.. O que temia eram amizades. e ela acha que elas vão denunciar ela e é uma coisa muito séria pra uma moça. 88 . o prato é só uma desculpa. tendo os inquilinos direito a usar os jardins. Ouviu-se o proprietário dizer que isso era excelente. E a Gladdie sente que não pode ter sido por causa do prato. madame. Um jovem casal. seguidas de entreveros e de conseqüentes queixas. vou passar por aqueles lados hoje de tarde. — Mas. Lavínia disse que ia na polícia. Miss Marple disse: — Bem. com um sistema de água quente central. Skinner. sequiosa: — Com certeza a senhora não pode fazer nada. já que não tinham nada em comum uns com os outros. Old Hall. nunca que ela ia. Como não pôde ser alugada e também não foi vendável. e a Gladdie ficou muito contente. Miss Marple concordou. e a Srta. a senhora sabe. recém-casado. — Se ela não pegou o broche. não é? Ela está tão agitada! — Diga-lhe para deixar de ser boba — falou Miss Marple. ocupava o terceiro. e o quarto havia sido alugado há dois meses por duas solteironas de nome Skinner.

não passavam de pura imaginação. mandado chamar o Dr. voz áspera e modos abruptos. pedindo sempre outra coisa — geralmente alguma coisa difícil de se conseguir. na opinião de St. sala de visitas. que a saúde melhorasse. Miss Marple respondeu educadamente. Nenhum enfadonho clínico geral poderia entender seu caso. a Srta. teria. Hartnell. Entretanto. Lavínia. e murmurou que seu caso não era simples. tendo fracassado este tratamento arbitrário. a Srta. superior. — Que prazer — disse ela. mas há dias em que ela não quer ver ninguém. os melhores especialistas de Londres haviam ficado confusos e que um homem maravilhoso ministrava-lhe um tratamento revolucionário e que ela esperava. — Emily hoje está acamada.Miss Marple familiarizara-se com todos os inquilinos. magra e ossuda de cinqüenta anos. Lavínia Skinner era uma mulher alta. A mais velha das irmãs Skinner. Mary Mead. Era opinião de St. naquele jeito brincalhão dele. há muito tempo. Quando insinuaram isso. banheiro e dependências de empregadas). "Gladdie" abriu a porta para Miss Marple. queixando-se de coisas que. mais deprimida do que nunca. e a rejeitar quase tudo que fora cozido para ela. Miss Marple disse que ouvira falar que aquela ótima 89 . Só a Srta. embora não os conhecesse muito bem. lavínia levantou-se para cumprimentar Miss Marple. para se levantar e não fazer muito estardalhaço! Isso iria fazer-lhe muito bem. Haydock. A Srta. com disposição. realmente. Emily continuava a deitar-se nos sofás. tão paciente. Mary Mead que se a Srta. Emily passava a maior parte do tempo na cama. que fora dividida em sala de jantar. Lavínia acreditava piamente no martírio da irmã e. Na sala de estar (uma parte da antiga sala de visitas. era o que chamamos de membro ativo da firma. — E minha opinião é a de que ela é muito esperta em não mandar chamá-lo — disse a falante Srta. Haydock. de modo que não foi difícil levar a conversa para este lado. corria até a cidade para comprar coisas que "minha irmã teve repentina vontade de comer". Espero que ela possa vê-la. Srta. Empregadas eram o assunto principal das conversas de St. — O querido Dr. muito deprimida. Emily sofresse a metade do que dizia sofrer. coitada. iria dizer que ela não tinha nada. isso iria animá-la. a cercar-se de estranhos vidrinhos de remédio. Emily fechou os olhos. Mary Mead. Pobrezinha. a Srta.

Sei que fará bem a ela. A Srta. ia embora. — Vai sim. refeições a qualquer hora. como ele diz. aquela menina não sabe nada sobre a direção de uma casa. abundantes cabelos louro-acinzentados presos de qualquer jeito no alto da cabeça. Srta. Depois ficou assustada e o colocou de volta. pudera! sempre brigando. — Quem foi que disse? Aposto que foi aquela Gladys. Emily. querendo chota hazri. Quebrava coisas. — Venha ver a Srta. às cinco da manhã. Lavínia aquiesceu. Lavínia balançou a cabeça. Larkin sempre alvoroçada. Não dá para ficar com ela. Gladys Holmes. Conheço toda a família. claro. O quarto recendia a água de colônia.. a menos que se tenha certeza. Era tão difícil conseguir moças para o campo. desfrutava aparentemente aquela semiobscuridade e os próprios e indefiníveis sofrimentos. jazz a noite toda. À meia luz lhe pareceu ser uma criatura magra. A Srta. — Os Devereuxs não têm ninguém. pessoal muito honesto. e rompendo em cachos. Com olhos semicerrados e voz fina e fraca. Miss Marple seguiu-a documente. mas também. Falando francamente. com as cortinas fechadas.menina. disse que todos nós tínhamos que agüentar certas coisas hoje em dia. — Ela mudou de assunto. não é de se estranhar. e a Sra. misteriosa. com o gênio do juiz indiano.. Srta. Miss Marple murmurou: — Pelo que sei. — Tenho meus motivos — disse. tenho quase certeza de que ela o tirou. Mas também. E os Larkins acabaram de perder a empregada. Emily. mas. Emily Skinner explicou que 90 . sentiria orgulho. foi-lhe dada a permissão para entrar. Tenho pena do marido. Srta. biscoitos mofados e cânfora. não se pode dizer nada. Lavínia bateu à porta. de aparência indefinível. Miss Marple. Miss Marple suspirou e. e ela acompanhou a convidada entrando no melhor quarto da casa. deitada. mergulhado na semi-escuridão. — Então não acha que devia reconsiderar sua decisão sobre Gladys? Ela é boa moça. perdeu um broche. o penteado mais parecia um ninho do qual nenhum passarinho que se desse ao respeito. Skinner realmente achava prudente despedir Gladys? — Sei que é difícil conseguir empregadas — admitiu Lavínia.

se levante e faça alguma coisa. melancólica — é que se sabe o peso que a gente é para todo mundo. dá muito trabalho arranjar ostras a esta hora. deram a ela referências por escrito dizendo que tinha boa vontade. Naquela noite. Miss Marple contou a Edna que sua diplomacia não lograra êxito. Acho que o leite estava um pouquinho azedo hoje de manhã. Dizem que as ostras são muito nutritivas. Wetherby provocou-a: — Minha querida Jane. detesto dar-lhe trabalho. realmente não poderia beber chá sem limão. Posso passar sem elas. mas não falaram nada sobre honestidade. a Srta. Vão ver como é difícil conseguir outra. Emily sorriu levemente para a visita. não. se não está suficientemente cheia. sem sérios motivos. e disse mais uma vez que não gostava de causar problemas a ninguém. A Srta. Lavínia saiu do quarto murmurando alguma coisa incoerente sobre ir de bicicleta até a cidade.. As moças simplesmente detestam ir para Old Hall. muito cheia. querida. Não há bolachas em casa. aquela hipocondríaca. talvez possa tornar a enchê-la. não é? — não. Por outro lado. Posso jejuar até amanhã. — Lavínia é tão boa para mim. Um pouco de chá fraco com limão — não tem limão? Não. Ficam loucas para ir para casa nos dias de folga.aquele era um "de seus péssimos dias". Acho que deve ter algum fundamento porque ninguém dispensa uma empregada. Isto me parece bastante significativo! Ouvi dizer que houve problemas por causa de um broche. Lavvie. Só que me sinto tão fraca. respeitável. era sóbria. No correio. hoje em dia. mas se ao menos minha garrafa de água quente pudesse ser enchida da maneira que gosto. é peso demasiado para mim. — Já que vai fazer isso. Vou esvaziar um pouquinho. Todos na cidade sentiram muito quando souberam que as Skinner 91 . — Desculpe. talvez. não faz mal. as Skinner não vão encontrar ninguém e então. — O pior da doença — disse Emily. aquela terrível irmã. Posso passar sem chá. estavam-se espalhando pela cidade. Ela começou a ficar preocupada por descobrir que os boatos quanto à possível desonestidade de Gladys. Talvez se eu comesse algumas? Não. fica logo fria. querida. Você vai ver. Não faz mal..

Sei que não pode fazer nada. à última hora. a quem estes detalhes foram fornecidos pela Srta. a empregada-modelo iria dar o bolo e não chegaria. Lavínia.tinham contratado. ela torna as coisas um tanto difíceis. serve bem. Quando Miss Marple fez outra visita a Old Hall. Acho que tivemos a maior sorte. não poderia estar presente devido à preocupação com a irmã mas. Em St. através de uma agência. isso sem falar na voz baixa. E também é maravilhosa com Emily. corada. cabelos negros. uma nova empregada.. por ocasião do recrutamento de paroquianos para a festa da igreja. Mary Mead. Quer certas coisas cozidas e. diz que não pode comer naquele 92 . embora lamentasse. — Bom. — Realmente acho que devo muito a Mary. Miss Marple comentou sobre sua aparência sadia. tão diferente daquela adenoidal e alta de Gladys. Srta. prefere o campo e pede um salário menor do que o de Gladys. avental branco e touquinha — "o tipo da boa empregada de antigamente" como explicou depois Miss Marple.. e a cidade pôde observar o tesouro doméstico. uma figura imponente no seu discreto uniforme preto. Mary Higgins. era perfeita. Mary não existe. — Referência de três anos recomendando-a claramente. — Parece bom demais para ser verdade. a qual tudo indicava. Miss Marple perguntou por ela. Tinha-se que admitir que sua aparência era muito boa. Rapidamente. mantém nosso apartamentinho bem limpo. Mary Higgins abriu a porta. Uma mulher de aparência respeitável. coitadinha. atravessar a cidade de táxi para chegar a Old Hall. Cozinha bem. dos seus quarenta anos. Sem dúvida era uma empregada de aparência superior. mesmo assim. quando ficam prontas. vira o colchão todos os dias. realmente — disse Miss Marple. Entretanto nenhum destes prognósticos se tornaram realidade. Dou graças a Deus por ter tomado a decisão de mandar a outra embora. contribuiria com uma grande quantia e prometeu conseguir abatimentos na compra de meias de bebê e limpadores de canetas. discreta. tem estado muito mal ultimamente. às vezes. — Ah. muito bem vestida. mas. todos passaram a ser de opinião que. na peixaria. Lavínia parecia bem menos atormentada do que o costume e.

tentou apanhá-lo. um vidro de anotações. A eficiente Mary emergiu do quarto e. dois shillings. me lembro bem. realmente. não se esqueça. Desperdiça tudo porque tem que ser feito outra vez. deixou cair a bolsa que se abriu. se fosse você.. Quero uma xícara de chá e um ovo duro — só três minutos e meio de fervura. pode ficar tranqüila que faço tudo para que se sinta confortável. É um descanso. dizendo para Lavínia "Srta. e pegou minha bolsa para brincar com ela. Pronto. ainda bem. madame". entregando-lhe o guarda-chuva de maneira irretocável. teria um pouco de cuidado. Não é como Mary. tira-se um peso dos ombros. um tanto confusa. Allerton insistiu que tinha que ser constantemente renovada. não acha? Como está sua Edna? — Está indo muito bem. Emily quer vê-la. gritando: — Esta compressa ficou seca. tem sorte. — Para mim ela parece até boa demais para ser verdade. Eu teria. Miss Marple apanhou o guarda-chuva. Miss Marple recebeu este último. delicadamente. e peça a Lavínia para vir aqui. Ainda não sei tudo sobre Edna porque ela é moça daqui da cidade. meia hora depois quer de novo. Lavínia Skinner não percebeu o significado da observação. Não sei o que faria se ela fosse embora. adiantou se para abrir a porta para Miss Marple. — A Srta. Ela disse: — Ah. — Minha nossa — exclamou Miss Marple. Ela disse que está acostumada a lidar com inválidos e que os entende. Acho mesmo que Mary nos veio como resposta às nossas orações. ouviu a voz da inválida. Quando se dirigiu ao vestíbulo. bem. Mary. Dr. Ele estava chupando bala.momento.. — Ê. — Com certeza não vai embora até que esteja pronta para fazê-lo — disse Miss Marple e olhou muito duro para a dona da casa. — Oh. meu Deus. pronto. uma antiga bolsinha de couro. Srta. colheu várias bugigangas: um lenço. três pennies e um pedaço de papel de bala de hortelã. 93 . deve ter sido o menino da Sra. deixou-o cair. ajudando-a a vestir o casaco. deixe aí. Clement. É claro que dá muito trabalho mas Mary parece não se importar. Não é excepcional. Lavínia disse: — Quando não se tem preocupações domésticas.

à noite. A jovem senhora Devereux perdera os diamantes. ao recuperá-lo. as pessoas sentiram um certo prazer sádico. Lavínia jactara-se tanto das maravilhas de sua Mary. Carmichael foi a que mais sofreu: além de valiosas jóias. chamando pássaros e atirando-lhes farelos. A Sra. a perfeição. madame? — Você faria isso? Muito obrigada.Deve ter colocado aí dentro. tinha a chave de todos os apartamentos. não está? — Quer que o jogue fora. No décimo primeiro dia. minha querida! E as surpresas não pararam aí! Não só Mary desaparecera como também a agência que a mandara e fornecera suas credenciais estava alarmada por descobrir que Mary Higgins. O juiz e a mulher também deram por falta de algumas jóias e dinheiro. a empregada perfeita. Saíra furtivamente durante a noite. três anéis. Mary. Era a noite de folga de Janet. o rosto completamente sem expressão. Mary Mead teve que agüentar ouvir sobre as excepcionais qualidades do tesouro da Srta. — E não passava de uma ladra. Lavínia. desaparecera! Sua cama não fora desfeita. ela guardava no apartamento uma grande quantia. Emily também haviam sumido! Começara o capítulo da catástrofe. A Srta. perto da porta. Está muito pegajoso. E Mary não foi a única a desaparecer! Dois broches e cinco anéis de Srta. em St. um pingente. Parecia bastante claro que Mary. Durante mais dez dias St. uma pulseira e quatro broches da Srta. Recolhidos todos os itens ela se foi. segurando um papel de bala. A verdade é que. e a patroa tinha o hábito de dar voltas nos jardins. Emily. Desapareceu tudo. Mary esperando. e. que guardava numa gaveta sem chave e também algumas peles valiosas que lhe foram dadas como presente de casamento. Mary abaixou-se para apanhar o último item. educadamente. Lavínia e Srta. e a porta da frente ficou encostada. um espelhinho. Mary Mead. inscrita lá e cujas referências haviam 94 . Miss Marple exclamou vivamente: — Mas que sorte não ter quebrado. a cidade acordou para viver sua grande emoção.

Era o nome de uma empregada que morava com o irmão de um deão. o assistente do farmacêutico. mas posso dispensar-lhe uns minutinhos. então. Srta. Miss Marple. ele a recebeu. Lavínia continuava chorosa. A Srta. e Mary Higgins continuava triunfalmente em liberdade. de que o delegado. acho que a mulher trabalha com uma quadrilha. se quer saber minha opinião. Anunciou-se que o apartamento estava para ser alugado. Haydock. Meek. Emily ficou tão perturbada e sentiu-se tão alarmada que realmente mandou chamar o Dr.tomado. — Muito trabalho a fazer. Haydock lhe prescrevera uma mistura de assafétida e valeriana que. 95 . porém. em que posso servi-la? — Ah. Coronel Melchett. Price-Ridle. mas a verdadeira Mary Higgins vivia. há um ano. naturalmente. e chamou o Inspetor Slack. pacificamente em algum lugar de Cornwall. também. Era justo. não compartilhava desta opinião. Em vão. Meek. de acordo com o Sr. não lhe podiam perguntar. que estava saindo com Clara. Mas dados satisfatórios foram revelados através do Sr. — Uma bolação muito inteligente — o Inspetor Slack foi forçado a admitir. disse ela. o Inspetor Slack redobrou a energia que desmentia seu nome. Poucos dias depois disso. vejo que está com pressa. Pouco depois soube-se que a Srta. foi até a delegacia de polícia em Much Benham. Entretanto. Tinha consciência. a empregada da Sra. Houve um caso parecido em Northumberland. para Lavínia. que o Dr. sentia que era necessário ficar perto do especialista em Londres que entendera tão bem o seu caso. Soube-se. insatisfeita com o atendimento médico que lhe fora dispensado. A cidade inteira ansiava por saber o que ele achara das queixas da Srta. Mas as semanas se passaram. nos sairemos melhor em Much Benham! O inspetor sempre fora um homem confiante. Um tanto contrariado. Emily. Emily. nunca existiu. meu Deus. declarava que. — E. Miss Marple. O inspetor não gostava de Miss Marple. muito agitada. era o remédio que se dava no Exército aos soldados que se fingiam doentes a fim de escapar do serviço. devido a seu estado. mas. — Boa tarde. Nem um sinal das coisas e nunca a pegaram.

meu Deus. Devem ser satisfatórias. Porque as pessoas pensam em certas coisas. — Mas do que depressa Miss Marple assegurou-lhe de que não queria falar sobre fungo. havia pego 96 . tenho — disse Miss Marple. não acha? Não. não. enrubescendo. concordou. não fui educada no estilo moderno. Skinner. — Pronto — disse Miss Marple. — Não. madame. sabe. mas extremamente honesta. É sobre a empregada da Srta. tomara que consiga concatenar minhas idéias — disse Miss Marple. — Posso fazer-lhe uma pergunta? Não se usa mais impressões digitais hoje em dia? — Ah. — É tão difícil a pessoa se explicar. Discursiva. a Gladys. não. — Certamente — concordou o inspetor. Parece que fazia todo o serviço de luvas de borracha. uma garota impertinente e muito orgulhosa. Não pudemos achar nenhuma impressão digital naquele lugar. — Ah. entusiasmada. Miss Marple. Que é o que pretendo ser agora. neste ponto ela foi espertíssima. mas isto piora a situação. momentos antes. Mas sabe. — Tem alguma idéia? — Bom. para falar a verdade. — Até agora não houve queixa contra ela — disse o inspetor. qual era mesmo a terceira? Fungo? — A senhora quer falar sobre fungo? — perguntou o inspetor. enrolado em algodão cru. com um gesto de cabeça. E teve o cuidado de apagar as do quarto dela e da pia. Mas me refiro a Gladys Holmes. — Mary Higgins — disse o Inspetor Slack. sim. Dentro. — E se encontrasse. Ela. Não é o primeiro golpe dela. meu Deus.— Ah. mas nada objetiva. só tive uma governanta que ensinava os nomes dos reis da Inglaterra e conhecimento geral — Doutor Brewer —. ajudaria? — Poderia ajudar. e é importante que se reconheça isso. O que quero dizer é que o importante é encontrar Mary Higgins. sabe? E como são feitas as agulhas. — Só uma ilustração. como é difícil de explicar. a segunda empregada. sei que não há nenhuma queixa. — As impressões digitais da empregada estão aí. um espelhinho. míldio e. três tipos de doenças do trigo: praga. — Ah. Ah. na minha opinião. Pode ter ficha na Scotland Yard. Abriu a bolsa e tirou uma pequena caixa de papelão. talvez o senhor não ache.

pálida. recuperando o equilíbrio —. Miss Marple inclinara um pouco a cabeça e o olhava com bastante interesse. Ele calou-se. 97 . rechonchuda. Foi o que senti o tempo todo. Pensei muito. Foi o que disse à Srta. não acredito em perfeições. O Inspetor Slack olhou-a.. A Srta. com Gladys e o broche. E se aquele cabelo dela não é uma peruca. Vou mandar estas impressões para a Scotland Yard. inspetor. Sabe. Emily passa quase que o tempo todo em um quarto escuro. boa empregada. — Pegou as impressões dela de propósito? — Claro. de examinar um pouco mais perto de casa? — O que quer dizer. mas é a primeira hipocondríaca que não chama um médico. muito pelo contrário! Por que estava tão ansiosa em dispensar a menina. Nós todos temos nossos defeitos — e estes aparecem logo no serviço doméstico! — Bem — disse o inspetor. Lavínia. — O que está sugerindo. — O senhor não acolheria a idéia. quero dizer. Mas ela não entendeu a dica. quando as boas empregadas estão tão difíceis de se encontrar? Bastante estranho. Emily são pessoas excêntricas. a gente nota. então? — Bom..numa substância extremamente pegajosa. E ninguém chegou a ver a Srta. — Desconfiava dela. Então por que a Srta. A Srta. Emily. pelo menos de vez em quando. Lavínia e a Srta. corada. suponho. não. Então pensei. cabelos acinzentados e lamurienta ser uma mulher de cabelos negros. Miss Marple? — É muito difícil de explicar mas quando a gente se depara com alguma coisa diferente. estou sugerindo que a Srta. Emily é hipocondríaca. Emily e Mary Higgins juntas. Ela é honesta. me pareceu que ela era boa demais para ser verdade. ela não tirou o broche. ao mesmo tempo. Miss Marple? — Bem. É claro que certas peculiaridades não têm importância. e vamos ver o que dizem. Os hipocondríacos adoram médicos. Lavínia pensou que fosse ela? Ela não é tola. estou grato à senhora. E notei outra coisa estranha! Srta. macacos me mordam! O que quero dizer é o seguinte: é perfeitamente plausível para uma mulher magra.

então. — Sim. Mary Higgins desaparece e todos querem ir no seu encalço. quando aparecesse uma. Não vou deixar que pairem dúvidas sobre a honestidade de uma moça de nossa cidade. Miss Marple suspirou e balançou a cabeça. livrar-se da moça. se não acredita em mim. No sofá de Emily Skinner! Pegue as impressões digitais dela. eu trouxe este remédio comigo! 98 . é o que são as Skinners. E então. deu-lhe um sorriso sem emoção. chegado o momento exato. acho que estou melhor. O EPISÓDIO DA CASEIRA — Bem — indagou o doutor Haydock a sua paciente —. A Srta. O doutor Haydock interrompeu-a com sua habitual aspereza. típica reação posterior a este tipo de gripe. e falou seriamente com ela para estabilizar-se numa boa situação. mas sinto-me tão deprimida! Acho que melhor seria se tivesse morrido.— Houve muito tempo para fazer as chaves dos apartamentos. — E mais — continuou o doutor Haydock —. e todos vão saber disso! Boa tarde! Miss Marple já havia saído quando o Inspetor Slack se recuperou. E eu lhe digo onde encontrá-la. de um tônico mental. no dia seguinte. inspetor. saber tudo sobre os outros inquilinos e. Mas desta vez não vão escapar. chega na estação como Mary Higgins. como é que vamos hoje? Miss Marple. Miss Marple convidou Gladys para tomar chá com Edna. sim. Ninguém me quer ou se preocupa comigo. Sou uma mulher velha. e verá que estou certa. Emily sai durante a noite e. A senhora está precisando de um pouco de distração. — Sinceramente. Gladys Holmes é honesta como o dia. recostada em seus travesseiros. — Hummmm! Quem sabe ela não está certa? E logo descobriu que Miss Marple estava certa de novo. Coronel Melchett parabenizou Slack por sua eficiência. Um par de ladras inteligentes.

Mesmo os donos de vidraças quebradas por estilingue tinham visto sua indignação dissipar-se ante a expressão de profundo arrependimento do jovem Harry. levemente ruborizado. Harry poderia ter morado em Londres. — Um esforço literário meu — respondeu o médico. ou comprado uma propriedade em alguma estação elegante de caça. Miss Marple pegou o manuscrito e começou a ler: “— E onde está a noiva? — perguntou Miss Harmon alegremente”. e mais tarde se enchera de dívidas. Tomara juízo. o filho pródigo voltara — não em aflição.Ele jogou um envelope grande sobre a cama. mas preferira voltar para esta parte do mundo que era seu lar. retirou-se. — Quebra-cabeça? — Miss Marple pareceu interessada. — Mas por que um quebra-cabeça? — perguntou Miss Marple. Um vigia de idade avançada e sua 99 . Quero ver se a senhora é tão esperta como parece. mas em triunfo. — Feito sob encomenda para a senhora. — Porque a interpretação fica a seu cargo. Kingsdean House esteve desocupada durante quase 70 anos. Os fatos da história são reais. comprara a propriedade em ruínas. dona de considerável fortuna. representado pelas várias solteironas envelhecidas. roubara pomares. coelhos. Harry Laxton "dera-se bem". Havia um alegre consenso generalizado de que Harry — o jovem mau elemento — tivera uma grande sorte. Todos sempre foram muito tolerantes para com Harry. Ele quebrara janelas. Ele criará juízo! E agora. a casa na qual passara a infância. murmurara indulgentemente: — Ah. E lá. "ela disse". A espécie de quebra-cabeça que a senhora aprecia. Toda a aldeia estava ansiosa para ver a jovem rica e bela esposa que Harry Laxton trouxera do exterior. — Tentei fazer uma história bem exata: "Ele disse". "a moça pensou" etc. bem! Coisas da juventude. Com esta observação. da forma mais romântica. O doutor Haydock sorriu. Entrara gradualmente em decadência e abandono. trabalhara arduamente e finalmente conhecera e namorara uma jovem anglo-francesa. como diz o populacho. metera-se em complicações com a filha do dono da tabacaria local — conseguira livrar-se delas e fora mandado para a África — e o vilarejo.

O Major Laxton morrera há alguns anos. dona de uma mansão e que se considerava a "locomotiva" local. A pequenina Miss Brent. fazia perguntas enquanto se esgueirava através da sala apinhada. Lindos modos. acidulada. Os empregados chegaram. Todos estavam excitados. — Oh! querida. aparentemente. confundia as informações. mandou convites para uma festa "a fim de apresentar a noiva". Foi um grande acontecimento. e fora alugada por longos anos ao Major Laxton. Era um solar vasto. Beleza. dinheiro. Um exército de construtores e empreiteiros infestou o lugar.mulher viviam no único canto habitável da propriedade. Price. quase miraculosamente. e. em seguida. era para a casa de sua infância que Harry levara a esposa. pai de Harry. de forma que. não existiam mais laços que trouxessem Harry de volta — entretanto. uma solteirona alegre. A casa estava pronta. entre as árvores. Harry correra por toda a propriedade e conhecia cada pedacinho do bosque emaranhado: a casa sempre o fascinara. educação — tão distinta. A gente sente até inveja de ver alguém que tem tudo isto. você acha mesmo? 100 . branca e brilhante. Depois veio um enxame de jardineiros e. em curto espaço de tempo — o dinheiro fala alto — ergueu-se a nova casa. Por último. Diversas senhoras encomendaram vestidos novos para a ocasião. — Oh. A casa era agradável. os jardins repletos de vegetação luxuriante e cercado de árvores frondosas que pareciam guardar um recanto encantado. uma procissão de caminhões de mudança. A arruinada Kingsdean House foi demolida. ansiosos para ver aquela criatura fabulosa. curiosos. não há nada de vulgar com ela — além do querido Harry. ainda é cedo para falar! O nariz fino de Miss Brant tremeu apreciativamente. Diziam que era tudo tão parecido com um conto de fadas! Miss Harmon. e a Sra. grandioso. uma solteirona magra. A aldeia correu para as visitas. despretensiosa. querida. uma limusine luxuosa deixou o senhor e senhora Harry na porta da casa. tão devotado! — Ah — disse Miss Harmon —. tão encantadora. rosto curtido. Em garoto. E bem jovem.

Laxton ficasse freguesa de Boots. sempre impostor alegre. — Mas eu acho que ela deve saber — disse Miss Harmon. sobre seu caso com a filha do dono da tabacaria. Ele olhou-a com curiosidade. — Aposto que o próprio Harry Laxton sugerirá isto — disse Miss Harmon. Porque a filha do dono da tabacaria estava agora casada com Mr. — Sim. — Seria tão mais fácil — disse Miss Brent — se a Sra. — Muitos jovens têm casos desta espécie. — Sabemos o que ele era! Mas espero que agora. acho que ela terá problemas com ele. o farmacêutico. — Ah. Mas. Para que ficar tocando no assunto? Trazendo-o à tona depois de tantos anos. Alguém deve preveni-la. minha querida. você sabe eles têm tão pouco assunto aqui que tendem a falar de escândalos passados.. Parecem abutres vorazes refestelando-se sobre os mortos. indignada. Tão desagradável. — Sobre Laxton? — Sim. — O doutor deu de ombros. ao dizer: — Todas aquelas pessoas dizendo coisas. de bom coração e impulsiva. Será que ela já ouviu algo sobre a velha história? — Parece tão injusto — retrucou Miss Brent — que ela não saiba de nada. E está tudo acabado. Mas estou curioso para saber: por que isto a preocupou tanto? 101 . bonita. Uma vez impostor alegre. Seus grandes olhos castanhos brilhavam de indignação. E de novo as duas trocaram um olhar cheio de significado. conversando com seu tio. — Animais. isto. — Que lástima! Pobrezinha! — Miss Brent parecia muito mais feliz.— Todos nós sabemos quem é o Harry — respondeu Miss Harmon.. Conheço o tipo. Algumas pessoas são perfeitos animais — exclamou Clarice Vane. em Much Benham. Ela era uma jovem morena. Edge. os homens são sempre os mesmos. Especialmente quando só se tem uma farmácia na aldeia. — Ah. insinuando coisas. alta. — Claro que têm. o doutor Haydock. — Pode parecer assim para você.

quero dizer. vivo e entusiasmado — e. Elas farão algumas visitas de cerimônia. numa voz abafada: — Eles — eles parecem tão felizes. acho que nada deu errado para ela em toda sua vida.” Uma figura pequena e delicada. O senhor a viu. falatórios e maldade geral. não. há pouco. A longa fila de cumprimentos cansaraa. Uma filha mimada da fortuna. Está tão feliz.Clarice Vane mordeu os lábios e corou. Olhou-o de soslaio. Tinha que ser feita. estava conversando comigo. Detesto pensar que isto seja arruinado por murmúrios. ombros largos. você retribuirá as visitas e depois não tem mais com que se preocupar. — Querido. entendi. E ela — bem. Quem sabe se Harry não decidiria que já era tempo. Tão alto. "Pobre menina rica. — Não há ninguém divertido por aqui? — perguntou Louise. — Sim. Louise fez uma careta.. Clarice continuou. amor. Para outras pessoas. que recepção terrível! — disse ela. Ela sempre teve tudo. São jovens e apaixonados. Todas estas velhotas conheceram-me quando eu era um garoto e morava aqui. Elas ficariam muito desapontadas se não tivessem visto você de perto. ou o que você quiser. Harry olhou para a mulher com o ar divertido. Você pode convidar os seus próprios amigos para virem aqui. Estava ansiosa pela hora de partir. Ela evocara para ele apenas o refrão de uma música popular ouvida há muitos anos. e é tudo tão belo para eles. grandes e pensativos olhos azuis. divertindo-se tanto nesta festa monótona e horrível. horrorosa. depois de 102 . empolgado — por ter realizado seu sonho e reconstruir Kingsdean. Louise Laxton poderia ser um objeto de inveja. — Hum. Harry riu. de cabelos louros e crespos emoldurando o rosto. Os Laxton. — Ele.. Não importa. Eles estavam saindo de carro da festa. Pobre menina rica — — Ufa! — Era um suspiro de alívio. Louise estava ficando cansada. deixarão seus cartões. — Temos que estar com elas muitas vezes? — O quê? Oh. insinuações. Disse. O que pensa dela? O médico não respondeu logo. Parece uma criança. sim.

alguns momentos. Louise disse. Ela morou lá durante muito tempo. brandindo o punho e gritando contra eles. e ele mal conseguiu desviar-se. Há um cavalo em Englinton que quero que você veja. ela não se conformou com a demolição da casa. é claro. Harry estava indignado. — Ela — bem. pouco à vontade: — Ela. quando caminhava com os cachorros. Harry deu um golpe de direção e praguejou quando uma figura grotesca pulou no meio da estrada. Ela ficou lá. bem treinado. — Mas estava em ruínas. espantada: — Então por que ela se importa? Harry franziu a testa: — Como é que eu vou saber? Loucura! Ela adorava a casa. A riqueza a impedia de entrar em contato com a realidade. — Oh.. sim. é claro — e muito boa! Achei uma casinha para ela e tudo mais. Muito interessados em cebolas. Louise agarrou o braço do marido. Louise. Oh! Harry. Mas você pode achá-los um pouco chatos. Ah! Sei lá! A pobre coitada enlouqueceu. Um lindo animal. que idéia! Eu lhe dei uma pensão. E ela também foi despedida. mais ou menos perigosa. Moraram lá quase 30 anos. não está? As idéias de Louise eram vagas e melodramáticas. — O que é aquilo — aquela mulher horrível? O sobrecenho de Harry estava carregado. não? Você gostará disto. quando montava.. — Por Deus. acho que ela nos amaldiçoou. Ela e o marido eram caseiros da velha casa. O carro diminuiu a velocidade para entrar nos portões de Kingsdean. Há os Country. — Por que ela brandiu o punho contra você? Harry ficou vermelho. — Ela está na miséria. não estava? — Claro que sim — caindo aos pedaços — o teto esburacado —. sem nenhum vício. — Ela é a velha Murgatroyd. Louise perguntou. cachorros e cavalos. também. mas muito esperto. um chapéu velho de palha sobre os cabelos grisalhos. Seu marido morreu há dois anos. Agachada. lá estava sempre a mesma figura. eu acho. Dizem que ela ficou meio amalucada depois de sua morte. preferia que ela não o tivesse feito. Parecia a Louise que sua nova casa estava maculada e envenenada pela figura malevolente de uma velha louca. e o 103 . Quando saía de carro. Você monta.

Gostava mais de montar — algumas vezes com Harry. Louise indagou-se se ela bebia. Passou por Mrs. — Ela não é uma feiticeira. querida. Não conhecia e não sentia nenhuma atração pela vida de campo inglesa. um pouco fora dos portões. Quem me expulsou de Kingsdean House? Eu morei lá. querida. Chamar a polícia de nada adiantaria e. isso não tornava as coisas fáceis. — Não se preocupe. nem cometia violências. os cabelos grisalhos. Ela nos odeia! Posso sentir isto. garota e mulher. mas de repente virou-se e foi direto até ela. Murgatroyd nunca veio até à casa. 104 . Ele encarava as coisas com mais facilidade que Louise. quando ele estava ocupado com a propriedade. ameaçadora. a não ser pelo ato final de "arrumar" as flores. Ela acabará se cansando deste praguejar idiota. Harry. nem usava ameaças definidas. Murgatroyd.. Certa vez Louise encheu-se de coragem. sozinha. se bem que pareça! Não seja mórbida. Acostumara-se com a vida de Londres e da Riviera. — O que há? O que está acontecendo? O que a senhora quer? A velha piscou para ela. Ela corria pelos bosques e alamedas. mesmo assim. Não entendia de jardinagem. o cavalo castanho muito sensível. Tinha um rosto astuto e escuro de cigana. Harry era contra isto. Agora que a primeira excitação de se instalar terminara. Ela estava passeando a pé. Louise ficou silenciosa. fingindo não vê-la. ela está nos rogando praga. A Sra. — Não. Talvez ela esteja apenas tentando esgotar a nossa paciência. — Você pergunta o que é que eu quero? Eu quero o que foi tomado de mim. olhos desconfiados e turvos. Serviria apenas para despertar a simpatia local pela velha. de qualquer modo. Sua figura acocorada estava sempre lá. e outras. Mesmo assim. Os vizinhos que conhecia a entediavam. ela sentia-se curiosamente solitária e sem saber o que fazer. Mas mesmo Prince Hal. gozando o trote fácil de um belo cavalo que Harry comprara para ela.. Ela.lento desfilar de maldições. Louise começou a acreditar que Harry estava certo — a velha era louca. Não ligava muito para cães. Ela falou com voz queixosa mas. relinchava e assustava-se com a figura da velha mulher malevolente.

— disse Louise. Que seu belo rosto apodreça. tanto para você como para ele. Meu coração dispara.. Ele exclamou: — Partir daqui? Vender a casa? Por causa das ameaças de unia velha? Você deve estar louca! — Não. E muito aborrecida para você. — Tolice. tanto no caráter como nos gostos. A mais negra aflição a visitará! Tristeza. tão decidida. Sinto que algo vai acontecer. Naquele momento tal solução parecia fácil para ela. você não deve impressionar-se com estas tolices. eu.. Clarice. As duas moças tinham a mesma idade. esta casa. Mas a completa incompreensão de Harry pegou-a desprevenida. — Eu odeio este lugar! Detesto estar aqui. — Você tem uma boa casinha e.. Em breve ela se cansará. Na companhia de Clarice. Os bosques. Foi uma má ação expulsarem-me de lá. se bem que fossem bem diferentes. — Esta espécie de coisa é tão estúpida.durante quase 40 anos. Murgatroyd e suas ameaças. que pessoas? 105 . — As pessoas. ao lado da qual eu me sentei durante todos estes anos.. Clarice era tão segura de si. Ela ficou silenciosa por uns momentos. Quanto a você e a ele. e isto lhes trará muita má sorte. não estou. Não chegou a terminar. Pensava: "Tenho que sair daqui! Devemos vender a casa! Temos que ir embora". Louise contou o caso da Sra. Clarice perguntou: — O que há? Louise titubeou um pouco. depois sua resposta veio num jato só. eu lhes digo: não haverá felicidade para você naquela linda casa nova. A velha levantou os braços e gritou: — De que adianta isto? Quero meu próprio lar e minha lareira. Oh! e as pessoas e tudo o mais. Vou dar um jeito! Entre Clarice Vane e Miss Laxton nascera uma grande amizade. Murgatroyd comigo. Harry Laxton disse carrancudo: — Deixe a Sra. — Sabe. Louise encontrou segurança. Louise virou-se e saiu correndo. e o horrível silêncio à noite e os ruídos estranhos nos campos. mas Clarice pareceu encarar o fato mais como algo desagradável do que assustador. Mas ela me assusta. morte e minha maldição. eu fico muito amedrontada às vezes.

— As pessoas da aldeia. Edge. Mas elas têm as mentes sujas.. Estas solteironas faladeiras e curiosas. quando parou no meio da frase e exclamou alegremente: — Bem! Veja quem está aqui! Bella. Clarice assentiu. Disse abruptamente: — Tenho que ir agora. Miss Harmon e Clarice Vane estavam na loja do Sr. Mas Harry adora isto aqui — disse Louise. Quando você conversa com elas. — Desejaria nunca ter vindo para cá. uma comprando naftalina e a outra um pacote de ácido bórico. Clarice pensou: "Como ela o adora". quem diria! 106 . Ela não se livraria tão cedo do medo supersticioso. — Conseguir gostar? Por favor! É o lugar mais maravilhoso do mundo! Louise sentiu um pequeno arrepio. este lhes foi negado pela pronta ação de Harry Laxton. — Esqueça-as.. — Oh! Harry. em ninguém mesmo. E muito das sujeiras de que falam é pura invencionice. Clarice perguntou abruptamente: — O que elas andam dizendo?' — Não sei. um dia ele disse: — Boas novas. eu providenciei para ela ir embora e encontrar-se com ele. Harry voltou-se para o balcão e estava pedindo uma escova de dentes. Sua voz abrandou-se. Elas não têm nada a fazer senão fofocar. Harry alegrou-se ao vê-la mais contente e dali em diante insistia com ela para convidar Clarice mais vezes. Mary Mead estavam contando com o prazer de dar informações sob o passado de Harry para a esposa. quando Harry Laxton e a mulher entraram. — Qual? — Eu dei um jeito na Murgatroyd. sabe? Bem. — Eu vou mandar levá-la de carro. sente que não deve confiar em ninguém. Depois de cumprimentar as duas senhoras. que maravilha! Acho que acabarei conseguindo gostar de Kingsdean. Volte breve. Nada em especial. Então. Louise sentiu-se retemperada pela visita da nova amiga. Ela tem um filho na América. querida. Paguei a sua passagem. Se as senhoras de St.

não é verdade. você atrapalhou seus planos. Parece um conto de fadas vê-lo casado e construindo uma nova casa. para sua sobrinha: — Que tolice é esta da Sra. Viram Louise cavalgar para fora dos portões. mostrando os grandes dentes brancos. Louise riu. — Eles. Dois homens num carro de padeiro testemunharam o acidente. de repente. Preocupou muito Louise. Harry pagou sua passagem para a América. se bem que tivesse engordado. hesitante —. Edge —. Estive apaixonadíssimo por ela. quando os Murgatroyds eram caseiros. eles nunca paravam de resmungar sobre o lugar. Ela fora uma bela jovem morena e ainda era uma mulher vistosa. em pouco tempo. Edge. e a escova de dentes? Clarice. A velha chega a gritar de raiva. e os traços do rosto se tornassem mais vulgares. que viera dos fundos da loja para ajudar no trabalho. dizendo: — Meu marido está muito feliz vendo os velhos amigos outra vez. Harry. Louise. Harry. Edge riu e respondeu que tudo estava bem com ela. viram a velha pular e ficar na estrada agitando os braços e gritando. empinar e depois 107 . só ficavam porque Murgatroyd bebia e não conseguia outro emprego. não esquecemos do senhor.A Sra. sorriu alegremente para ele. — Você está muito bem e bonita — disse Harry. Sr. — Diga-lhe que não precisa impressionar-se. — Contarei para ela — disse Clarice. Louise foi atirada de seu cavalo e morreu. Bella? — Isto é o que o senhor diz — respondeu a Sra. Não posso entender isto. Murgatroyd ficar rondando Kingsdean e maldizendo o novo regime? — Uma tolice. pensou com seus botões: — Bem feito. mas seus grandes olhos castanhos eram cordiais enquanto respondia: — Bella mesmo. mas acho que ela não acreditará no senhor. — Ah! — disse a Sra. Três dias mais tarde. ficarão livres dela. Doutor Haydock perguntou. no lugar daquela Kingsdean House arruinada. — Ela sempre gostou de Harry quando ele era criança. Edge. Harry. Sr. e a Sra. viram o cavalo assustar-se. vendo o olhar frustrado de Miss Harmon. mas é verdade. Harry virou-se para sua mulher: — Bella foi uma antiga namorada. e contente em vê-lo depois de todos estes anos.

Um deles ficou perto da figura inconsciente. Se bem que tenha esperado lá por seu navio. Mas não era a casa dela. Assim 108 . O acidente a assustou. É. Harry Laxton admira Bella Edge. Ela morreu sem recobrar a consciência e antes do médico chegar. e isto significa que alguém pagou para ela fazer o que fez. e muito mais animação em suas maneiras. tenho que lhe contar isto? — Acho que é a conduta peculiar da caseira. doutor Haydock? — contrapôs Miss Marple. não foi? — Esta é sua conclusão? — Bem. não era natural que ela se comportasse daquele modo. Por que ela se comportou de modo tão estranho? As pessoas não gostam de serem expulsas de suas casas antigas. parece muito suspeito! O que aconteceu com ela. nem de longe o seu tipo. jogando Louise para fora. — Bem — disse — qual é o veredicto? — Qual é o problema. — Sim. acredito. Suborno. Sua sobrinha Clarice é assim. alegrou-se em ver que havia uma cor rosada no rosto de Miss Marple. ela devia estar "representando" como diz o outro. outra vez. — Oh! minha cara senhora. Na verdade. Dinheiro. (Fim do manuscrito do doutor Haydock) Quando o doutor Haydock chegou no dia seguinte. E sempre reparei que os homens tendem a admirar sempre o mesmo tipo.disparar enlouquecido pela estrada. o rosto apavorado. — E sabe quem é este alguém? — Acho que sim. por falar nisto? — Disparou para Liverpool. Mas a pobre mulherzinha era bem diferente — loura e dependente —. não sabendo o que fazer. um tipo moreno e vivaz. acho que o "Problema de Conduta da Caseira" pode ser resolvido facilmente. ela costumava reclamar e resmungar enquanto estava lá. Harry Laxton veio correndo. Eles tiraram uma porta do carro e levaram-na para a casa. — Mas tudo se ajusta muito bem. enquanto o outro correu para a casa a fim de conseguir auxílio. — Agora não estou entendendo. — Tudo muito conveniente para alguém — disse Miss Marple.

ou talvez uma atiradeira — ele era muito bom com o estilingue. morrendo sem recobrar a consciência. Se bem que ela tenha feito a pobre mulher achar que sim. também —. — O tombo pode tê-la matado. E a senhora Edge podia dar-lhe algo apropriado sem o marido saber. e a Sra.. quando ele se atirou no sofá para representar um pouco e uma seringa caiu de seu bolso.que deve ter-se casado com ela por dinheiro. Estava dizendo algumas palavras de consolo para o viúvo — e sentindo muita pena dele. Acho que queria ficar com o dinheiro da mulher e casar com sua sobrinha! Ele pode ter sido visto conversando com a Sra. assim que o cavalo atravessou os portões. Laxton foi atirada. um médico não suspeitaria de nada. Ademais. — Foi muito bem cronometrado — com o carro do padeiro como testemunha. eles atribuíram o susto do cavalo a isso.. Acho que. que podia ser administrada antes de sua chegada. ele a terá em suas mãos. De outro modo. — A senhora usou a palavra "assassinato"? — Bem. — Ele agarrou-a depressa e pareceu tão assustado que eu comecei a 109 . E ele parece o tipo de homem que não deixa nada ao acaso. por que Harry se preocuparia com ela? Sim. Atraente para as mulheres e completamente sem escrúpulos. — Como a senhora acha que ele a matou? Miss Marple fitou o espaço por algum tempo com olhos azuis sonhadores. se uma mulher é atirada de seu cavalo e sofre ferimentos graves. Edge. acho que ele tinha alguma droga poderosa à mão. — Não houve nenhuma esperteza especial da minha parte — respondeu o doutor Haydock. franzindo o cenho. Ele parou. Mas ele não estava certo disto. O cavalo empinou. ele me parece o tipo certo. E assassinou-a por dinheiro. também. bem. não é mesmo? — O doutor Haydock assentiu. é claro. — Apenas o fato comum bem conhecido do assassino ficar tão encantado com sua habilidade que esquece de tomar as precauções apropriadas. é claro. Sim. para seus próprios fins. em breve. — O que o levou a suspeitar? — perguntou Miss Marple. Mas eu imaginaria que um revólver de ar comprimido. Mas acho que ele não gosta mais dela. Eles podiam ver a velha e.

Os dois homens eram amigos principalmente porque seus pais o foram também. Murgatroyd confessou que foi Harry Laxton que a fez representar as maldições. então. basicamente. O Sr. moda feminina. com uma seringa? Fiz a autópsia prevendo certas possibilidades. finalmente. O médico pegou seu manuscrito. E. Laxton tinha estrofantina em seu poder. Satterthwaite. Sua grande paixão era observar a natureza humana — e era um perito no seu campo: observador da vida. já que este não se interessava pela vida de seus vizinhos e tinha verdadeiro horror a qualquer tipo de emoção. está em perfeita saúde. sete e meia. que ele e o coronel tivessem pouco em comum. Satterthwaite. Miss Marple — e nota máxima para mim pela minha receita.pensar: Harry Laxton não toma drogas. cujo conhecimento sobre cavalos resumia-se. Sua maior paixão na vida era o esporte. OS DETETIVES DO AMOR O pequeno Sr. pensativo. e Melrose descrevia uma caçada do inverno passado com vivo entusiasmo de um caçador. aproximadamente. Autoridade em culinária francesa. a velha Sra. Eram. e Bella Edge. o que estava fazendo. mas não amor. A senhora praticamente voltou a ser o que era antes. admitiu tê-la dado para ele. Poderia parecer. — E sua sobrinha consolou-se? — Sim. sabia tudo sobre todos os últimos escândalos. — Nota máxima para a senhora. ficara de má vontade. Descobri estrofantina. inquirida pela polícia. Satterthwaite olhou. As poucas semanas em que se via obrigado a passar em Londres. era um homem da cidade. para seu anfitrião. A amizade entre os dois era bastante peculiar. portanto. O resto foi fácil. à visita matinal às 110 . Os dois homens estavam sentados no confortável escritório do coronel. O Sr. por outro lado. ela sentia atração pelo cara. pois freqüentavam as mesmas pessoas e tinham pontos de vista reacionários quanto aos nouveaux riches. O coronel era um nobre simplório que vivia no campo.

insinuações. O ouvido treinado de Satterthwaite detectou uma sutil reserva por detrás da curta negativa. cabelos grisalhos. rosto corado. impressionado. — O quê? O Sr. Voltou o pensamento agora para Lady Dwighton. — Devo ir imediatamente a Alderway. — Se não for atrapalhar — disse. lacônico: — Certo. mas nada esperto. sua imaginação o estava levando longe demais. hesitante. Tenho a impressão de que isto vai transformar-se num caso bastante desagradável. aqui é o Coronel Melrose. Curtis. Você quer acompanhar-me? O Sr. 111 . Foi o Inspetor Curtis quem chamou. Sir James era um velho pomposo de modos bruscos. Gostaria muito que você me acompanhasse. Escutou por alguns instantes e depois disse. Naquele momento. Satterthwaite estava perplexo. — Já prenderam o autor do crime? — Não — respondeu secamente Melrose. A imagem dela apareceu-lhe na mente: jovem. — De modo algum. É um sujeito bom e honesto. O que deseja? Melrose alterou todo seu comportamento — ficou rígido e formal. — Recolocou o fone no gancho e voltou-se para seu hóspede. Então era isto: esta era a razão de Melrose estar tão mal-humorado. Tornou a concentrar-se. quem estava na sala era o chefe de polícia. A campainha do telefone interrompeu Melrose. — Alô! Sim. Estarei aí daqui a pouco. ouvia a narrativa. O tipo do homem que devia fazer inimigos com facilidade. fofocas. Lembrou-se de vários rumores. Consideravam-no um homem de pulso forte. cabelos ruivos e corpo esguio. Satterthwaite lembrou-se de que o coronel era chefe de polícia do condado. polidamente. Provavelmente na casa dos sessenta. Este se dirigiu à mesa e pegou o fone.cocheiras — hábito ainda em voga em algumas casas de campo mais tradicionais —. Ele começou a recordar tudo o que sabia sobre os Dwightons. e não o desportista. — Sir James Dwighton foi encontrado em sua biblioteca — assassinado.

— Com um instrumento rombudo — murmurou Satterthwaite. — Ah! — disse Satterthwaite. — Se quer saber. — Dwighton não foi envenenado.. foi golpeado na cabeça com uma estátua de bronze. Naquelas circunstâncias. — O Sr. Por que você me fez esta pergunta? — Ah. Satterthwaite. O coronel deixou o carro virar ligeiramente e Satterthwaite parou de falar. balançando a cabeça sabiamente. um pouco curioso. foi golpeado na cabeça. Já haviam percorrido mais de dois quilômetros sem que houvessem trocado uma só palavra. acrescentando: — Ela representou numa peça de caridade na primavera passada. — Sabe alguma coisa sobre um homem chamado Paul Delangua? — perguntou Melrose após um minuto. O coronel era um homem taciturno. — Linda! — declarou Satterthwaite. e partiram rumo a Alderway. o Sr. ou como Lucrécia Bórgia. eu. É pura antigüidade. eu não sei. Ele. — Satterthwaite estava nervoso. — Sei. — Passou pela minha cabeça. — Bom. Imaginou que tipo de fatalidade poderia ter acarretado sua menção a Lucrécia Bórgia.. foi? — perguntou repentinamente.Cinco minutos mais tarde. sabia? Fiquei muito impressionado. ele perguntou: — Você os conhece? — Os Dwightons? É lógico que sei tudo sobre eles. Repentinamente. É um cara bonitão.. — Você acha mesmo? — Uma verdadeira beleza renascentista — declarou Satterthwaite. lacônico. ele não foi envenenado — disse Melrose. e retomou o silêncio. de repente. E com ela estive mais vezes. Melrose olhou-o de soslaio. que me lembre. Podemos facilmente imaginá-la em um palácio de Doge. — Encontrei-o apenas uma vez. 112 . Não tem um traço moderno. Satterthwaite sentou-se no carro ao lado do anfitrião. — Pare de agir como um maldito detetive de romances policiais. Satterthwaite sempre sabia tudo sobre todo mundo.. — Bonita mulher — disse Melrose.

.. aprumou-se adequadamente. mas não conheço bem estas redondezas e não há nenhuma sinalização indicando a preferencial. com os Dwighton. não gosto. Fico feliz por seu carro não ter sofrido danos maiores. saltou do carro. O Sr.. Ele monta a cavalo muito bem. — As estradas mais perigosas da Inglaterra — disse Melrose. 113 . o Sr. Satterthwaite ouviu fragmentos da conversa. mais calmo. Melrose. O coronel. Pobre Melrose. O Sr. — Por quê? — Encontrou-o na cama com a esposa. — Você não gosta dele? — Não. agitado. mas foi interrompido. Estamos na preferencial. — A culpa foi minha — disse o estranho —. — Como um forasteiro em um rodeio. Houve uma virada violenta e um impacto estridente. animado. pulou para fora do carro em dois tempos e segurou o estranho amigavelmente pela mão. — Que coisa fantástica! Realmente incrível. — começou a dizer o coronel. — Ele está aqui neste fim de mundo? — perguntou. Agradavelmente consciente de um ponto de vista cosmopolita. — São todas iguais. cheio de truques. Os dois homens recostaram-se no carro do estranho que estava sendo examinado por um motorista. — Eu pensaria justo o contrário. — Mas não quero retê-lo por mais tempo. acho que as mulheres o classificariam assim — murmurou o coronel. Um homem saiu do outro veículo e aproximou-se. — Questão de meia hora. — Na realidade. O outro motorista devia ter tocado a buzina. Falase que Sir James o despediu semana passada. A conversa tornou-se bastante técnica.. era tão britânico no seu modo de agir. Satterthwaite. acho.— É. Que diabos. — Não acredito! Pensei ter reconhecido a voz — disse. Acho que o carro dele ficou mais avariado do que o nosso. de um pulo. acho — disse o estranho. Satterthwaite reprimiu um riso. — Há algum tempo que trabalha em Alderway. Satterthwaite deplorava a atitude bitolada das pessoas em relação à vida.

Satterthwaite? Satterthwaite ficou estático por um momento. Quin pareceu. enquanto Satterthwaite falava: — Não o vejo desde. Melrose? — Oh. você se lembra. Positivamente.. nesta estrada. Harley Quin. vibrou de alegria. claro. perplexo. — Sr. Mas assistiu à cena educadamente. esta noite. — Que nome estranho para um motel! — Apenas um nome antigo — disse o Sr. Devido a um curioso efeito de luz — os faróis de um carro e as lanternas do outro — o Sr.— Hein? — disse o Coronel Melrose. — Desde aquela noite no Bells and Motley — disse o outro calmamente.. — Não — disse ele. sim. com toda certeza.. — observou ele — estamos trabalhando. estar vestido como um bufão. Ele lhe mostra as provas que estiveram no local do crime o tempo todo. por um momento. O coronel não parecia se lembrar. O Coronel Melrose olhou para o amigo. — Bells and Motley? Guizos e Bufões? — disse o coronel. Melrose.. — O problema é que.. — Não podemos deixá-lo aqui. Há espaço de sobra para três no carro. — Venha conosco. não é. deixe-me ver. — Lembra-se do que lhe falei sobre nosso amigo Derek Capei? A razão do suicídio. parado no meio da estrada — continuou Satterthwaite. Sr. — É... Satterthwaite pegouo pelo braço. acho que sim. Você está com a razão — disse Melrose vagamente. Não foi um mero imprevisto nos encontrarmos. A cabeça girava-lhe num turbilhão. Quin. que ninguém conseguia explicar? Pois foi o Sr. — Um motel — explicou Satterthwaite. — Não! Como não pensei nisso antes! Isto não foi por acaso. — Mas a voz do coronel não apresentava muita certeza. Quin.... 114 . Mas fora apenas um efeito de luz. Ele piscou os olhos. estou certo de que já ouviu falar muito dele. — Houve um tempo em que isto estava mais em voga na Inglaterra do que atualmente. Quin quem solucionou o problema — assim como desvendou outros mistérios desde então.

mas que não conseguimos ver. Ele é fantástico! — Meu caro Satterthwaite, você está me deixando sem graça — disse o Sr. Quin, sorrindo. — Pelo que me lembro, foi você quem fez estas descobertas, e não eu. — Vieram à tona porque você estava lá — disse Satterthwaite com grande convicção. — Bem — disse Melrose, tossindo com embaraço. — Não devemos perder mais tempo. Vamos. Pôs-se a dirigir. Não estava gostando muito da presença do estranho, imposta pelo entusiasmo de Satterthwaite; não tinha, porém, qualquer objeção válida para apresentar e queria chegar a Alderway o mais rápido possível. O Sr. Satterthwaite deixou o Sr. Quin sentar-se no meio, e tomou o lugar perto da janela. O carro era bastante espaçoso e levou os três sem grande desconforto. — Então o senhor se interessa por crimes, Sr. Quin ? — disse o coronel, fazendo o máximo para ser simpático. — Não, não é bem por crimes. — Pelo quê, então? O Sr. Quin sorriu. — Vamos perguntar ao Sr. Satterthwaite. Ele é um observador bastante astuto. — Acho — disse Satterthwaite, lentamente — que posso estar equivocado, mas acredito que... o Sr. Quin se interessa por... amantes. Ele corou ao proferir a última palavra, que um inglês não pronuncia sem um certo constrangimento. O Sr. Satterthwaite falou como que se desculpando, como se falasse entre aspas. — Nossa! — exclamou o coronel, surpreso, e depois calou-se. Pensou consigo mesmo: — Que amigo estranho este. Olhou-o de soslaio. Tinha boa aparência, a pele escura, mas não parecia estrangeiro. — E agora — disse Satterthwaite enfático — devo colocá-lo a par do caso. Falou durante aproximadamente dez minutos. Sentado ali na escuridão, correndo pela noite, tinha a sensação extasiante do poder. Qual a importância de ele ser um mero observador da vida? Dominava as palavras, unia-as em um padrão, um estranho padrão renascentista composto da beleza 115

de Laura Dwighton, com seus braços brancos e cabelos ruivos — e a figura escura e nebulosa de Paul Delangua, o galã das mulheres... Tudo isso posto contra o cenário de Alderway, construída nos tempos de Henrique VII e, dizem, até mesmo antes disso. Alderway, totalmente inglesa, com seus teixos, celeiros e lagos, onde monges guardavam as carpas para as sextas-feiras. Em poucas palavras, ele descreveu Sir James, um Dwighton, um verdadeiro descendente dos antigos De Wittons, que há muito tempo enriqueceram e trancaram o dinheiro em cofres, de modo que, quando chegasse a época das vacas magras, os donos de Alderway nunca se vissem em apuros. Finalmente Satterthwaite parou de falar. Tinha certeza da receptividade de sua audiência. Ele esperava agora pelo elogio que merecia e ouviu-o.

— Você é um artista, Sr. Satterthwaite. — Eu... eu faço o que posso. — O pequeno homem tornou-se, repentinamente, humilde. Eles haviam transposto, há pouco, os portões da casa. O carro parou diante da entrada principal, e um policial desceu correndo as escadas para recebê-los. — Boa noite, senhor. O Inspetor Curtis está na biblioteca. — Certo. Melrose subiu as escadas com pressa, seguido pelos outros dois homens. Ao cruzarem um amplo saguão, um mordomo idoso olhou da porta, apreensivo. Melrose cumprimentou-o. — Boa noite, Miles. Este é um acontecimento muito triste. — De fato — respondeu o outro. — Mal posso acreditar, senhor; é muito difícil de se crer. Pensar que alguém poderia matar o patrão... — Sim, é verdade — disse Melrose, interrompendo-o. — Falarei com você daqui a pouco. Entrou na biblioteca. Lá, um inspetor alto e com ar de soldado o cumprimentou respeitosamente. — Negócio sórdido, senhor. Não toquei em nada. Não há impressões digitais na arma. Quem quer que tenha feito isso, é um entendido no assunto. 116

O Sr. Satterthwaite olhou para a figura debruçada sobre a grande escrivaninha e desviou rapidamente o olhar. O homem fora golpeado pelas costas, um golpe tão forte que lhe quebrara o crânio. A visão não era das mais agradáveis. A arma jazia no chão — uma figura de bronze, com uns setenta centímetros de altura, cuja base estava manchada e molhada. O Sr. Satterthwaite abaixou-se para vê-la, curioso. — Uma Vênus — disse, calmo. — Então ele foi golpeado com uma Vênus. Encontrou campo para devaneios poéticos neste pensamento. — As janelas — disse o inspetor — estavam todas fechadas e trancadas por dentro. Fez uma pausa significativa. — O que leva a crer que foi alguém de casa — disse o chefe de polícia com relutância. — Bem, bem, veremos. A vítima vestia roupas de golfe, e uma sacola de tacos fora jogada, displicentemente, sobre uma grande poltrona de couro. — Tinha acabado de chegar do jogo — explicou o inspetor, seguindo o olhar do chefe de polícia. — Isto ocorreu às cinco e quinze. Pediu que o mordomo trouxesse o chá aqui. Mais tarde, pediu ao criado que lhe trouxesse um par de chinelos. Pelo que sabemos, o criado foi a última pessoa a vê-lo com vida. Melrose aquiesceu e voltou mais uma vez a atenção para a escrivaninha. Grande parte dos enfeites fora derrubada e quebrada. Dentre eles. destacava-se um grande relógio preto esmaltado, bem no centro da mesa. O inspetor tossiu. — Isto é o que se chama sorte, senhor — disse ele. — Como pode ver, o relógio parou. Às seis e meia. Isto nos dá a hora exata do crime. Muito conveniente. O coronel olhava o relógio. — Como você disse — observou —, muito conveniente. — Parou por um momento, e então acrescentou: — Conveniente demais! Não gosto disso, inspetor. 117

Olhou para os outros dois homens. Seus olhos procuraram os do Sr. Quin, súplices. — Droga — disse ele. — Está tudo muito arrumado. Sabe o que isto significa. As coisas não acontecem assim. — O senhor quer dizer — murmurou Quin — que os relógios não caem à toa? Melrose olhou-o por alguns momentos, depois voltou o olhar para o relógio, que tinha aquela aparência patética e inocente, familiar aos objetos que foram repentinamente privados de sua dignidade. Com muito cuidado, o Coronel Melrose recolocou-o de pé. Deu um soco violento na mesa. O relógio balançou, mas não caiu. Melrose repetiu o gesto e, muito lentamente, com uma certa má vontade, o relógio tombou para trás. — A que horas foi descoberto o crime? — perguntou rispidamente Melrose. — Por volta das sete horas, senhor. — Quem descobriu? — O mordomo. — Traga-o aqui — disse o chefe de polícia. — Quero vê-lo agora. Por sinal, onde está Lady Dwighton? — Descansando, senhor. Sua criada disse que está muito nervosa, e que não pode receber ninguém. Melrose abanou a cabeça e o Inspetor Curtis foi procurar o mordomo. Sr. Quin olhava, pensativo, para a lareira. Satterthwaite seguia-lhe o exemplo. Olhou durante alguns minutos para as toras apagadas e então, algo brilhante caído na grelha chamou-lhe a atenção. Curvou-se e apanhou um pequeno pedaço de vidro côncavo. — Quer falar comigo, senhor? Era o mordomo ainda trêmulo e ressabiado. O Sr. Satterthwaite colocou o achado no bolso do paletó, e voltou-se. O velho estava parado no vão da porta. — Sente-se — disse, delicadamente, o chefe de polícia. — Você está tremendo. Acho que deve ter sido um choque para você. — Foi sim, senhor. — Bom, não o deterei por muito tempo. Seu patrão chegou em casa 118

Será que o homem se apercebia da importância daquela resposta? — pensou Satterthwaite. e todos na sala observaram a hesitação do mordomo. Tocou no corpo ou em qualquer outro objeto? — Oh... senhor. não é? — Sim. — A que horas foi isto? — Aproximadamente seis e dez. Melrose interrompeu-o.. Peça a Jennings. senhor. às sete horas. eu acho que sim. — A que horas foi isso? Poderia ter-se escutado uma agulha cair. senhor... Madame ficou nos aposentos desde a hora da tragédia. para vir aqui. senhor. Ele me pediu que lhe trouxesse o chá aqui. más os ouvidos astutos de Satterthwaite captaram uma certa ansiedade naquela interrogação. eu só a vi. — Sim. pediu-me que chamasse Jennings. que eu vi. — Ela entrou aqui? O Sr. Era um homem de rosto miúdo. senhor. passos 119 . Depois. Satterthwaite prendeu a respiração: — Eu. por favor. o valete. sim. você não precisa reviver tudo isso. — Deviam ser umas seis e meia. quando voltei para apanhar a bandeja. E foi apenas quando voltei aqui para fechar as janelas e cerrar as cortinas. — Eu. senhor. obrigado. — Não falei com ela não. então? — Falei com Jennings. O Coronel Melrose deu um profundo suspiro.. senhor.. — Sim. — Você não esteve com ela durante toda a tarde? O Coronel Melrose fez a pergunta distraidamente. Jennings chegou em seguida. o valete. — Está bem. quando ela descia as escadas.. antes de responder. — E depois? — Contei a Janet — a criada de madame — para que falasse com a patroa. não! Corri o mais rápido que pude para chamar a polícia.um pouco depois das cinco. — Você a viu antes disto? A pergunta foi incisiva.

lhe dizer.. Havia algo de fortuito e misterioso nele. aproximadamente. Ele esteve em seu quarto das seis e vinte às sete horas.. Alguém bateu à porta. 120 . Jennings? — No meu quarto. com ar inquiridor. Prendia-os em um coque simples. Eles se entreolharam. Repartia os ruivos cabelos no meio e os prendia atrás da cabeça. — A que horas deixou seu patrão? — Deviam ser seis e quinze. que mataria tranqüilamente o patrão se tivesse certeza de que não seria descoberto. Satterthwaite escutou atentamente as respostas dadas às perguntas que lhe eram feitas pelo Coronel Melrose. Mas sua história parecia certinha demais. oscilando levemente de um lado para o outro. trazia um livro. no outro. Jennings? — Voltei para meu quarto. Olhou para Curtis. — O que fez depois disso. Apareceu uma criada com ar apavorado. Já verifiquei. pensou Satterthwaite. Trazia os braços descobertos. — Confere. Uma pessoa totalmente diferente estava agora no umbral da porta.felinos. Trajava um vestido de brocado azul. Trouxera os chinelos para o patrão e levou os sapatos. — Entre — disse o coronel. estilo medieval. — Além do mais. com pena. não havia nenhum motivo. Apoiava um dos braços contra o arco do umbral e. — Então isto o deixa fora do caso — disse o chefe de polícia. — O senhor poderia fazer o favor de me acompanhar? Madame soube que o Coronel Melrose estava aqui. Ela ficou parada ali. O Coronel Melrose dirigiu-se a ela. — Claro — disse Melrose. Lady Dwighton nunca cortava os cabelos. e deseja vê-lo. Um homem. pensou Satterthwaite. Consciente de que possuía um estilo próprio.. O Coronel fez sinal para que o homem saísse. Parece. Onde é? Mas uma mão afastou a garota para o lado. senhor. uma madona extraída de uma tela italiana. — Onde estava às seis e meia. — Irei imediatamente. Laura Dwighton parecia um ser de outro planeta. — Vim aqui lhe dizer. senhor..

sua aparência era solene e distante. Havia um cortador de papel dentro dele. a cabeça recostada em uma almofada colorida. Lady Dwighton. — Bem. Admito minha culpa.. Satterthwaite. O coração de Satterthwaite disparou. Pode-se matar um homem com isto.. Ao fazer isto pensou: este é um brinquedo perigoso. as pálpebras fechadas.Sua voz era baixa. está muito abalada. Falou lentamente: — Eu o matei — disse ela. — Melrose rodeou-a com o braço para apoiá-la. Ela aquiesceu e levantou-se. — Foi isso que vim lhe dizer. ela abriu os olhos e sentou-se.. Fui eu quem o matou. Eu o matei! Houve um momento de angustiante silêncio. melodiosa. Acho que não está certa do que diz. Será que ela se desculparia agora — enquanto havia tempo? — Estou plenamente consciente do que digo. Quin falou: — O que a senhora fez com o revólver. cujas paredes eram revestidas de seda de cores suaves. — Será que o senhor não entende? Eu desci e atirei nele. — Lady Dwighton — disse Melrose —. Dona de si. — O que a senhora acaba de me dizer é muito sério. Peço-lhe que vá para o seu quarto até que eu tenha. tomado algumas providências. o que o senhor vai fazer agora? Prender-me? Levar-me daqui? O Coronel Melrose teve dificuldade em falar. — a voz de Laura Dwighton revelava impaciência —. Laura Dwighton curvou-se ainda mais para frente. o outro não emitiu nenhum som.. Lady Dwighton? Um ar de incerteza passou-lhe pelo rosto. 121 . Os três homens a olhavam. esquecera sua realidade.. colocando-o sobre a mesa. O livro que segurava caiu ao chão. a senhora sofreu um grande choque. Satterthwaite apanhou-o mecanicamente. Ele a levou até uma pequena ante-sala. Quando se dirigia para a porta o Sr. Ela afundou-se no sofá. De repente.. incrustado com jóias. Dois dos homens engoliram em seco. — Por favor. O Sr. Lady Dwighton. em forma de adaga. Quin e Satterthwaite o seguiram. O Sr. tão enlevado pelo valor dramático da cena.

virou a cabeça e saiu majestosamente da sala.... ele não seria capaz de matar uma mosca. um som distante chegou até eles. não é? — De quem? — De Jennings. No silêncio que se seguiu. Talvez tenha sido isto o que ela ouviu. não é? E também aprecia uma boa apresentação quando a assiste. O Sr. — A moça preparava-se para subir. parado educadamente à porta. Não. você admira a literatura. Não tem importância. — Sr. É como aqueles papéis ridículos que as heroínas desempenham em tantos romances. com os diabos! Há mais coisas envolvidas nisso do que podemos supor. eles não suspeitam dele. claro que não. acompanhado aquela figura de vestido. ai. A empregada de olhar assustado estava parada ao pé da escada e o Sr. — Por favor. e não apresentava qualquer sinal de sua fraqueza anterior. O Sr. acho que o joguei pela janela. A garota subiu as escadas correndo. Pensou que ela pudesse desmaiar a qualquer momento. senhor.. Satterthwaite voltou para a sala. Então. Ela olhou-o. — O quê? — disse Melrose. não? Satterthwaite lançou-lhe um olhar de censura. O Coronel Melrose dizia com voz grave: — Bem. — Sim. — Sim. — Parece um tiro — disse o Coronel Melrose. — Jennings? Não. Delangua — disse o mordomo. perplexa e um tanto alarmada. senhor. Chegou à conclusão. senhor.— Eu. — O que disse? 122 . acho.. — Não é real — concordou Satterthwaite. Juro. Não deve ter-se aproximado nem examinado o corpo. Pode ser que tenha descido para ver de que se tratava. Satterthwaite falou-lhe com autoridade. — Tome conta de sua patroa — disse ele. Vá e cuide de sua patroa. — Um dos vigias. Quin concordou. Satterthwaite saiu atrás dela. não é? — Não — disse o Sr. eu deixei-o lá.. — E. não consigo me lembrar. senhor. Quin. jogado no chão. O Sr. — Acho que não tem nenhuma importância. Que importância tem isso? Eu mal sabia o que estava fazendo. Mas já estava no meio da escada. — Parece coisa de romance.

Ele estava com as costas voltadas para mim. — Por que me entreguei? Pode chamar de remorso ou de qualquer outra coisa.. e eu o peguei.. é claro. — E a que horas foi isso? 123 . havia algo de estrangeiro nele — a delicadeza dos movimentos. — Lançou um olhar para a mesa. Fez uma pequena reverência teatral. olhos um pouco juntos.— O Sr. O Coronel Melrose recostou-se na cadeira. — Eu não entendo. Um pequeno instrumento muito útil. senhor. — Isto mesmo. — Pela janela? — Pela janela. — Um momento — disse o coronel. estou vendo. Eu o apunhalei. saí. — Mande-o entrar — disse. Lady Dwighton. — Tem muito a ver com ele. Como o Coronel Melrose suspeitara. Delangua o interrompeu com um sorriso. — Não sei qual o assunto que o traz aqui. Os olhos do jovem se fixaram na mesa. marcando as páginas de um livro. mas se não estiver relacionado com o caso em questão. — Pelo contrário — disse ele. Sr. — Será que está querendo insinuar que apunhalou Sir James com isto? — Ele segurou a adaga no alto. — Boa noite. — A arma está ali.. senhores — saudou Delangua. carrancudo. infelizmente. Ele e Lady Dwighton sugeriam a mesma atmosfera. — O que é que o senhor está querendo dizer? — Quero dizer que vim me entregar como autor do assassinato de Sir James Dwighton. Delangua está aqui. um golpe certeiro. Parecia envolto numa aura renascentista. deixou-o jogado por aí. Momentos depois Paul Delangua parou à soleira da porta. Como entrei. Delangua — disse asperamente o coronel —. e gostaria de falar-lhe se possível. — O senhor sabe o que está falando? — Sei exatamente o que estou dizendo.. Entrei pela janela. o rosto de pele escura e bonita. Foi muito fácil.

Melrose concordou. não poderia fazer isto. procurando coerência. Estava falando com o vigia. por volta das seis e meia.. — Dois belos idiotas. — Seis e meia foi a hora em que morreu. Não daria atenção ao que ela diz. Talvez tenha ouvido alguém dizer isto. e o senhor confessou que o apunhalou. Delangua jogou a cabeça para trás e riu de um modo forçado. — Por quê? — Porque tantas pessoas já assumiram a culpa — disse o coronel. Ao ver Delangua. — O valete — exclamou Satterthwaite. O coronel franziu o cenho e então tocou a campainha. — Meu Deus! — exclamou Delangua. — Lady Dwighton deve estar histérica. sorrindo. — Agora vamos começar do início. mas nunca tinha visto acontecer. digamos. — Aquela moça. mas há mais um detalhe curioso sobre este assassinato... ela 124 . — Exato — disse ele. Esperaram em silêncio até que ela apareceu. — Lady Dwighton. Deve ter sido. mordendo os lábios. Quando a atenderam. — Quem mais confessou? — perguntou numa voz que mal dava para esconder o nervosismo.. ele disse: — Por favor. Ouviram a respiração pesada de Delangua. — Sempre li sobre isto — disse —. — Deixe-me ver. — Concordo — disse Melrose —. cada qual assumindo a culpa por achar que o outro é o autor — disse Melrose. com toda a certeza. Lady Dwighton confessou que atirou em Sir James... peça a Lady Dwighton para fazer a gentileza de vir até aqui. Mas. Ele calou-se. — O que é? — Bem. Um leve sorriso brotou nos lábios do coronel. agora mesmo. Amassaram-lhe o crânio. bem.Delangua hesitou. eu não estava prestando atenção na hora — ele parou. felizmente para vocês. ele não foi nem baleado nem apunhalado. — Mas uma mulher. — Tinha medo de que suspeitássemos dele. isto foi às seis e quinze. Ouvi o repicão do sino da igreja. Deve haver algum motivo. Mas este é um assassinato totalmente peculiar.

— Laura. — Você viu o quê? — Meu marido estava debruçado sobre a escrivaninha. — Eu lhes direi. Lady Dwighton. oh! Ela cobriu o rosto com as mãos. O Coronel Melrose veio rapidamente em seu auxílio. O mordomo disse que a senhora entrou na biblioteca às seis e meia — isto é verdade? Laura olhou para Delangua.. acho eu. Vamos parar com esta encenação. — Está tudo bem. Ele acabou de chegar para "confessar" o crime. Lady Dwighton. — Não estou entendendo. Paul — implorou. O Sr. foi por mim — porque você pensou que eu.. a senhora tornou a subir e.. está tudo bem.. disse. por que você fez isto? — Isto o quê? — Eu sei. Laura afundou-se numa cadeira que Satterthwaite lhe oferecera. — Então. pelo que estou entendendo... o sangue. não foi ele! Mas o que nós queremos é a verdade... — A senhora e o Sr. Ele balançou a cabeça. Pensou que o assassino fosse Delangua? Ela anuiu. — Lembro-me disso. Ela respirou profundamente. — Desculpe-me. Delangua tiveram uma sorte enorme... meu amor! O coronel tossiu. — Que o mataria como a um animal — disse Delangua rispidamente. não disse nada. O que faz o Sr. — Mas como você disse.... — Perdoe-me. Delangua aqui? Delangua aproximou-se dela. Não precisamos discutir os motivos.. — É isto o que queremos saber. encorajando-a. Lady Dwighton. Satterthwaite aproximou-se e bateulhe na mão. — A verdade. — Sim — disse ele. Afinal. O chefe de polícia inclinou-se. A senhora não 125 . Vi sua cabeça. não se assuste. Ele era do tipo que não gostava de emoções e detestava qualquer coisa que se parecesse com uma "cena". Ah. Ela parou e engoliu em seco. Mas. Laura — disse ele. Laura. — Eu realmente desci.assustou-se e apoiou-se para não cair. Foi quando descobri que ele a maltratava. Por favor.. O chefe de polícia prendeu-se estritamente ao assunto em questão. seria até natural.. Abri a porta da biblioteca e vi.

Bem. Ele fez pressão com o polegar e a tampa do relógio abriu. com toda a certeza. tinha alguma coisa contra o seu marido? Laura levantou o rosto.. James. — Não tinha exatamente nada contra. Será que este não se quebrou. no bolso. — Parece que parou — observou. — Ah! — disse. Voltei correndo para o meu quarto. foi isto? — Eram seis e meia quando voltei para o quarto. — Mas temo. exatamente. Diga-me. — Então às. — Aqui está. isto parece restringir as suspeitas ao mordomo e ao valete. 126 . bem. — Aquele relógio — foi preparado! Sempre desconfiamos disso. Sir James já estava morto. mas fizeram mal em deixá-lo tombado daquele jeito. exultante. Na palma da mão.. também. senhor — disse ele. um relógio de prata usado por golfistas. Curtis! O inspetor entendeu logo e saiu da sala. digamos. mas. Jennings... Nada mais fácil do que se mover os ponteiros para a hora que quisermos. Jennings fora despedido sem uma chance. O coronel pegou-o e encostou-o ao ouvido.. Ele o pegou roubando. — Mas temo que não terá nenhuma serventia.tocou o corpo nem se aproximou da escrivaninha? Ela estremeceu. seis e vinte e cinco. se quer saber a hora exata. Lady. — Não. entendo. o vidro estava rachado. James disse-me esta manhã que o havia despedido.. Estes relógios são resistentes. A que horas. deveria estar usando o pequeno relógio de golfe. quando ele caiu? — Ê uma idéia — disse vagarosamente o coronel. não. — Ah. junto com as bolas.. e não posso acreditar que tenha sido o mordomo. O ponteiro marcava seis e quinze. — O senhor disse algo sobre um relógio — disse Laura Dwighton — só há uma chance. Voltou um minuto depois.. Do lado de dentro. — O chefe de polícia olhou para os outros. este homem. Uma coisa séria para ele. — Ah! Agora estamos indo bem.

— Eu estava certo — disse. — Nunca imaginei que isto pudesse acontecer na vida real — afirmou o Coronel. — Ele lançou um olhar para o Sr. — As coisas que lemos às vezes nos voltam à mente nos momentos mais estranhos. não foi necessário — concordou Satterthwaite. Ela não poderia ter chegado à conclusão de que o marido fora baleado. Não nos podemos esquecer de como é fácil se adiantar ou atrasar um relógio. — Do modo como tudo se desenrolou. Quin concordou e repetiu as palavras. Quin. Do mesmo modo como Delangua foi um idiota por acreditar que fora apunhalado só porque a adaga estava em uma mesa na nossa frente. Sr.. — Lady Dwighton esteve magnífica. Salvou dois jovens de se meterem em encrenca. — Não se altere — disse Satterthwaite recostando-se e bebendo seu porto. — Agora. Nunca vi nada tão dramático no palco. Quin. — Você não pode negar. Quin. O Sr. — Foi mesmo? Lógico que não. O Sr. — Foi de onde tiraram esta idéia. — Para a frente — disse ele. — Provavelmente — concordou Satterthwaite. — E aconteceu? — perguntou o Sr. Havia algo de estimulante em sua voz. Foi uma mera coincidência que Lady Dwighton tenha trazido a adaga com ela. mas cometeu um erro. Eram nove e meia e os três homens tinham acabado de jantar na casa de Melrose. Seus olhos escuros e brilhantes fixaram-se em Satterthwaite. soberba.. qual teria sido o resultado? — Acreditaríamos neles — disse o Sr. — Diabos! Aconteceu esta noite. Quin. Quin. sem detalhar como. Nunca esquecerei o momento em que Lady Dwighton disse "eu o matei". — É lógico — disse — o relógio realmente parecia suspeito desde o início. — continuou Satterthwaite —. 127 . — A coisa toda foi como um romance — falou o coronel. Não fiz nada. acho — disse Quin. se eles tivessem se limitado a dizer que mataram Sir James. Quin. O coronel encarou-o.— Um ótimo vinho do porto — disse o Sr. sorrindo. talvez pela vigésima vez naquela noite. Satterthwaite estava particularmente exultante. — Mas poderia ter sido. — Foi mesmo? — perguntou Quin. e fez uma pausa — ou para trás. — Tenho que concordar com você — disse o Sr.

Ah. Tinham a sensação de que o chão se lhes escapava dos pés. o rosto de tez escura e sorridente do Sr.. Satterthwaite olhou para ele. alguém que tivesse um álibi para aquela hora. Eles se entreolharam. O plano é o mesmo. não — murmurou o Sr. sem entender nada.. Quin. Eles deveriam ter contado uma história muito melhor do que esta se quisessem que acreditássemos nela. E tiraram a idéia de um livro. Satterthwaite repetiu o tempo todo que parecia uma representação. — Foram? — perguntou Quin. Nós os consideramos inocentes — há a força da tradição por trás disso. — começou Melrose — neste caso. O mordomo disse que entrou na biblioteca às sete para fechar as janelas — ele deveria achar que estavam abertas. Os dois homens olharam para o Sr. E pensei em mais uma coisa. o senhor disse. acho eu. — Ele disse isso de um modo muito peculiar — disse Satterthwaite.. Quin.. Os fatos começaram a rodar. Vocês dois estavam com a razão. E no centro do caleidoscópio. Não era real. — Até então você suspeitava deles. apresentando novas e inesperadas faces. — Ele matou Sir James com um golpe. Quem lucraria com isso? — Apenas. Satterthwaite rapidamente concluiu a frase. — Mas neste caso.— Os ponteiros do relógio foram adiantados — disse Satterthwaite. É impossível! Por que cada um deles assumiu a culpa? — Sim — disse o Sr. absurdo.. — Seria mais inteligente — disse o Sr. O Sr. — É tudo exatamente ao contrário... É o que o herói e a heroína fazem.. É impossível. mas não pode ser. — Impossível. mas é um plano contra o criado. — Meu Deus! — exclamou o coronel. Quin. Vocês repetiram isto o tempo todo. — O que quer dizer? Que o relógio foi atrasado? Mas isto não faz sentido. fizeram o que tinham a 128 . e depois. não é verdade? Como algo extraído de um livro. — Foi deste modo que Delangua entrou — disse Quin. os dois juntos. coronel. — Naquela hora o jovem Delangua disse estar conversando com o vigia. — Bem.— Sabemos disso. Quin. Satterthwaite — diabolicamente mais inteligente. O Sr. sem saber o que estavam dizendo.

certamente. Mas é uma moça muito bonita e acho que ama muito Jennings. foi por puro acaso que pensamos no relógio. Eles. humilde. Quin olhou para o Sr. sério. hesitante. quebrou o vidro e o fechou. geralmente. — Eles quebraram o relógio e o arrumaram para ajudá-los no álibi. Então ele saiu pela janela e ela a trancou. Satterthwaite. divagando — a única pessoa que provavelmente não desprezaria o relógio seria o criado. O Sr. — E foi o que fiz — disse o Sr. Quin. alterou os ponteiros. Alguém retirou o relógio do bolso de Sir James e o abriu.. Quin continuou: — Você tem uma prova de que aquele relógio não quebrou no bolso de Sir James. Alteraram o relógio e o quebraram. — O Sr. sabem melhor do que ninguém o que seus patrões levam consigo. Ela não estava nem vestida de brocado azul e não representava um papel dramático. fascinado. Aqueles dois não entendem nada da natureza humana. Se ele tivesse alterado o relógio de mesa. Satterthwaite o encarou. — Ah. — Não temos nenhuma prova — disse o Coronel Melrose. Quin sorriu. Não são como o Sr. Tente e comprove. O Sr. Talvez não tenha percebido a criada de Lady Laura. mas há uma coisa sem sentido. não — disse o Sr. Quin. encorajando-o a reconstituir a cena. não aqueles dois mas os outros. Quin. Acho que vocês poderão salvar seu companheiro da forca. Este anuiu. Não se pode quebrar um relógio daqueles sem se abrir a tampa. E ele o fez. Satterthwaite. — Qualquer pessoa poderia ver através de um artifício tão frágil quanto aquele. Satterthwaite tem. lembra-se? O Sr. 129 . teria alterado o outro também.fazer. — Pensei que estivesse vindo para salvá-los. — E ainda mais — disse o Sr. — Mas. Por que se preocupar com o relógio? Por que simplesmente não o atrasaram? — O relógio sempre foi muito óbvio — disse o Sr. Ora. — Foi por sugestão de Lady Dwighton. — Eu? — Satterthwaite estava atônito.. — Ah. Sim. Quin. o relógio era muito artificial. — Eu estava totalmente equivocado — murmurou.

é realmente misterioso. e logo você se lembra de que sonhou com um gato preto na última terça-feira — maravilhoso! Você pressentiu que alguma coisa iria acontecer! 130 . Claire? Ela dirigiu-se à anfitriã fazendo um ligeiro beicinho e inclinando os ombros. Era um pequeno jantar: ela e o marido. — Ah! — gritou Satterthwaite. não é mesmo. algumas vezes — quer dizer. senti-las —. Ele nutria um imenso desprezo por tipos tolos e bonitos. — Sempre se diz que as mulheres têm um sexto sentido. Sir Alington? O famoso psiquiatra sorriu sarcasticamente. Violet! Seu velho amigo morre num acidente de trem. — Sei que se fala uma porção de asneiras. Um homem ligeiramente insolente. Claire sabe o que quero dizer. E é realmente extraordinário como as pessoas parecem saber certas coisas. conhecê-las. — Puro farol. tal como esta convidada. — Com isto — disse Satterthwaite imponente — posso salvar um homem da forca. Sir Alington West e seu sobrinho Dermot West. cuja presença era marcante. uma autoridade suprema em doenças da mente. O que significa isto — um sexto sentido? — Vocês cientistas são sempre tão rígidos. um homem espalhafatoso. tinha plena consciência de sua posição e importância. Sra. colocando rapidamente a mão no bolso do paletó. acha que isso é verdade. Não perceberam que faltava um pedaço do vidro. Violet Eversleigh. Eversleigh. Retirou de lá um pedaço de vidro côncavo. velho amigo de Jack Trent. Eversleigh. de sorriso bem-humorado e gargalhada agradável. Alington West. O SINAL VERMELHO — Mas que emocionante — disse a linda Sra. arregalando os adoráveis. mas ligeiramente inexpressivos olhos azuis. O próprio Jack Trent.recolocando-o no lugar. Claire Trent não respondeu logo. entrou na conversa. Foi seu apogeu.

verde se tudo está certo. Passamos pela vida como um trem que se precipita através da escuridão a um destino desconhecido. contrastando com a pele bronzeada. nem sexto sentido.. talvez — admitiu o médico. Depois voltei para minha barraca. — Eu posso dar um exemplo. você se esqueceu dos sinais.— Ah. Dermot desviou o olhar dela. impaciente. levantando a cabeça pela primeira vez e tomando parte na discussão. o senhor tem que admitir que as premonições são reais. logo depois do Armistício. — Sinais? — Sim. — Então. Os claros olhos acinzentados. inquietando-me desnecessariamente. levei um cobertor lá para fora'. conte. — Este não é um aspecto muito agradável. não. — E depois? — Na manhã seguinte. curioso: — Você fala como se fosse uma experiência real. — Mas a coincidência explica várias coisas e há sempre esta tendência de aumentar a história depois — tem-se que levar isto em considerarão. Fiz uma ronda no campo. Quando entrei. me enrolei nele e dormi ao relento. Trent — disse Dermot West. entrei na minha barraca com uma forte sensação: Perigo! Atenção! Não tinha a mínima idéia do que podia acontecer. Ora. Perigo à vista! O sinal vermelho! Atenção! Trent olhou-o. — Claro que esta é apenas uma forma de descrever a situação. Lá na Mesopotâmia. Sra. de maneira um pouco abrupta. foi. mal entrei na barraca. não são? — Até certo ponto. e tomei todas as precauções contra um ataque dos árabes hostis. a sensação ficou mais forte do que nunca: Perigo! No fim. e vermelho — para o perigo! — Vermelho — para perigo. — Sabe. nada dessas coisas sobre as quais falamos com tanta loquacidade. que emocionante! — sussurrou Violet Eversleigh. Sir Alington. brilharam de maneira estranha. Dermot! — E é. Jack! Você está misturando intuição com premonição. a primeira coisa que vi foi 131 . com cautela. — Nem intuição.. ou melhor. — Acho que não existe premonição — disse Claire Trent.

Seu consciente não notou nem se lembrou. de quase meio metro. 132 . tio Alington. sorrindo. — Atualmente. querido Dermot. — Também é possível que você tenha ficado alerta. Hoje em dia. O que discuto é a sua origem. como você mesmo disse. Uma vez recusei um convite para passar uns dias numa casa de campo. — Mas não tão emocionante — censurou a Sra. Logo descobri tudo. no subconsciente. Sir Alington continuou.. porém. Este nunca se esquece. do nosso ser subconsciente. o ser subconsciente acreditou que tentariam matá-lo e teve êxito em penetrar na sua percepção consciente. não é? — Não duvido que tenha tido a premonição do perigo. — O velho subconsciente — falou Jack Trent. embora as condições que a governam sejam pouco conhecidas. — Houve algum outro exemplo? — perguntou Claire a Dermot. O filho dele morreu como espião. achamos que quase tudo vem de dentro.uma armadilha feita de uma lâmina comprida. A propósito. — Mas você tem uma explicação igualmente boa.. o que não aconteceu com o subconsciente. atravessada na minha cama. ela veio do exterior. Eversleigh. — Ah. sem fazer caso da interrupção. O lugar pegou fogo. O que você tem a dizer. Segundo você. independentemente da vontade consciente. Ora. um dos empregados árabes. simplesmente pelo "hasteamento" do sinal vermelho. sim! Mas nada muito pitoresco — acho que todos podem ser explicados pela coincidência. bem onde eu devia estar. Também acreditamos que ele seja capaz de raciocinar e deduzir. — Minha idéia é a de que pelo olhar o árabe se tenha traído. — Uma estória muito interessante. para o ódio deste homem em relação a você. — Admito que é bastante convincente — disse Dermot. vamos. impressa por alguma fonte externa em seu espírito. Aquilo que antes se chamava telepatia certamente existe. tio Alington. Assim. Não precisa ficar cheio de dedos com os parentes próximos. — Mas você não a aceita sem reservas. é pau para toda obra. onde entra o subconsciente? — Acho que não entra — sorriu Alington. a respeito deste exemplo do que chamo de sinal vermelho? O especialista sorriu reservadamente.

até. — Não interessa. Perigo! Perigo à vista! Mas por quê? Que perigo poderia haver aqui na casa de amigos? Pelo menos. ele viu logo. "Não assim".. cujo feito lhe rendeu a medalha Victoria Cross. 133 . uma coisa de ouro. ele tinha que superar isso. O Sinal Vermelho agigantava-se na escuridão.. mas não perigo. alguma coisa lhe dizia. Nada poderia machucar assim para sempre.. Pode-se viver sem isso. sim. — Acredito no seu sinal vermelho. a maravilhosa inclinação da cabeça dourada. — Como? — Nada.. e não uma mulher real. marfim e pálido coral rosa. Não o perigo do Sinal Vermelho. A última vez que sentiu isso foi na Mesopotâmia? — Foi. dando voz a um pensamento que ainda não fora conscientemente percebido. bom. porém. meu querido sobrinho... Aí estava. Jack Trent era seu melhor amigo e. não havia probabilidade de ser aguçado. Isto se devia a outro motivo. Mágoa. Jack era um bom rapaz. — Não adianta — riu Dermot. até hoje à noite". se por acaso viesse a desconfiar. uma linda estátua. — Seus argumentos são mesmo convincentes. depois do incêndio.. Elas vieram de maneira inesperada. eu diria que você recusou o convite porque realmente não queria ir e que. Nada de perigo. mais do que isso. Esse perigo já existia há algum tempo. o homem que lhe salvara a vida em Flanders. não ligaria.— Bom. pode-se viver sem isso. só pensar no nome dela. Ela nunca suspeitaria e.. Ele olhou para Claire Trent. West — disse Violet Eversleigh. mencioná-lo em silêncio o feria.. Dermot calou-se. se sugestionou de que recebera um aviso de perigo.. sua pele alva.. em cuja explicação agora acredita implicitamente. Já se apaixonara por outras mulheres antes. Sr. As palavras que quase lhe escaparam dos lábios eram: "Foi. não".. Mas ela seria esquecida algum dia.. Que azar ter-se apaixonado pela mulher de Jack. Afinal. que eram verdadeiras. Um brinquedo de rei. Claire.. sua elegância. havia esse tipo de perigo. Uma estátua. "Mas assim.. é claro. um dos melhores....

como diria o tio. torcia as mãos de vez em quando. Uma célebre médium viria depois do jantar fazer uma sessão. Ele parecia observá-la. — Sempre ouvi dizer que são muito espertos — observou a Sra. percorremos um longo caminho. do outro. sanidade. quero dizer. E a repressão de uma determinada ilusão muitas vezes 134 . Eversleigh. O grande médico olhara mais de uma vez para Claire. Contudo até chegarmos a este grau. Eversleigh conseguira que o grande homem falasse sobre o assunto de sua preferência. trivial. e sorriu deleitado. Bem. — Bastante. com toda a certeza não conseguiríamos distingui-la de um ser normal. mais difícil ele se torna. a pessoa que tem alucinações resolvesse não falar nada sobre isso. — Os birutas. por exemplo. Será que a sessão era apenas uma desculpa para tornar natural a presença do especialista no jantar? Em caso afirmativo. havia uma desculpa. Não era como se os Trent fossem velhos amigos.Ele olhou a mesa e. Em que determinado lugar devemos erguer um marco e dizer: "deste lado. Sir Alington tomou um gole de vinho. ninharias até então despercebidas ou. por acaso. pela primeira vez. E ela não devia estar à vontade. qual o verdadeiro propósito de sua presença aqui? Uma série de detalhes cruzaram a mente de Dermot. A Sra. Sir Alington manifestou interesse pelo espiritismo. terrivelmente nervosa e será que estava assustada? Por que assustada? Com um sobressalto. de modo estranho. nunca jantava fora de maneira informal. até aquela noite. ele voltou a tomar parte na conversa. muito estranho. nos prendem. — Minha cara senhora — dizia ele — o que é a loucura? Posso assegurar-lhe que quanto mais estudamos este assunto. A extraordinária sanidade do insano é um assunto muito interessante. achou que aquela era uma reunião estranha. E vou lhe dizer mais: se. Dermot nem se apercebera de que ele os conhecia. Todos nós experimentamos um certo grau de fantasia mas. certamente havia uma desculpa. A palavra ficou a martelar-lhe a cabeça: uma desculpa. despercebidas pela mente consciente. loucura?" Não se pode fazer isso. Sim. O tio. quando chegamos ao ponto de acreditar que somos o Czar da Rússia. Estava nervosa.

Todas as repressões são perigosas. que aparenta ser perfeitamente normal pode ser. para isso. algumas vezes é congênito. Era isso o que ele queria dizer? Era a isso que queria chegar? Impossível.. Eversleigh. como um golpe. Estava muito pálida. é preciso que o daltonismo esteja latente na mãe e presente no pai — coisa muito difícil de acontecer. É transmitido diretamente aos homens. — Entendo bem que se deve ter muito cuidado sempre para — para expressar a personalidade. — A tuberculose não é hereditária — disse Sir Alington secamente. O que mais? — Gota — disse Sir Alington. mas. — E daltonismo também. sorrindo. afastando a cadeira de um modo tão abrupto que esta virou e caiu no chão. é mais difícil encontrar-se uma mulher com estas características já que. raramente ultrapassa o limite. enquanto há vários homens daltônicos. na realidade. — Minha querida Sra. — E tudo porque a pessoa se reprime — suspirou a Sra. uma constante fonte de perigo para a comunidade. Ele lançou um breve olhar a Claire e tomou outro gole do vinho. É o que chamamos de hereditariedade limitada ao sexo. como mostra a psicanálise. Mas a loucura é! Que horror. Claire levantou-se de repente. — Não é? Sempre pensei que fosse. — Que interessante. e os movimentos nervosos dos dedos eram aparentes. — Tísica pulmonar e tudo isso. — A Sra. — A hereditariedade é uma tristeza — suspirou a senhora. O homem cuja excentricidade é inofensiva. Este é muito interessante. não é? — pediu ela. é? — A loucura pode passar tanto para o homem quanto para a mulher — disse o médico. e pode entregar-se a ela como tal.. mas é latente nas mulheres. 135 . Dermot sentiu um medo horrível. ou a mulher. Mas a loucura não é assim. Eversleigh — advertiu o médico.tem um efeito terrível. — Você — você não vai se estender muito. vagamente. sério. Thompson estará aqui dentro de alguns minutos. De modo que. Mas o homem — ele fez uma pausa —. A causa do mal reside na matéria física da mente — algumas vezes originária de um agente externo. Os perigos do outro são assustadores. — A senhora não me entendeu.

Dermot sentia-se um estranho na companhia do amigo. rechonchuda. não foi? — A senhora foi muito pontual — disse Claire na sua voz doce. inacreditável. — Acho que fiquei falando sobre assuntos profissionais — observou o médico ao voltar a seu lugar. Bebericaram o vinho. Mas acho que. Entre os dois havia um segredo que nem mesmo um velho amigo poderia compartilhar. tudo parecia fantástico. A médium era uma mulher de meia idade. Thompson? As cadeiras foram arrumadas em círculo. ligeiramente rouca. Fico louca. Um grande cirurgião toma precauções às vésperas de uma operação delicada. ha. E por que não a Sra. não é? Ha. — Não podem imaginar como detesto quando não satisfaço as pessoas. Ele parecia preocupado. sabem) vai dar conta do recado. — Este é o nosso pequeno círculo. perfunctório. Claire deu um leve sorriso de agradecimento e saiu da sala. sua voz era alta e comum. como de costume. Pela primeira vez. hoje. — Espero que obtenhamos bons resultados — observou. disse nove horas. Que coisa mais vulgar! E no entanto. Shiromako (meu controle japonês. E. não que eu precisasse de motivos. mesmo gostando de queijo derretido. animada. — Não foi nada — disse Trent. será que ele não estaria julgando de maneira tola? Afinal de contas. — Ele fez uma reverência. tenso. pois foi anunciada a chegada da Sra. mas por pouco tempo. E em que se baseava? Nada além dos olhares e do nervosismo de uma mulher. e as luzes de modo a serem 136 . E não se fizeram outras apresentações. Trent — disse alegremente. mas imperfeitamente entendidos. Thompson. — A Sra.— Só mais um cálice de vinho e estarei com você — declarou Sir Alington. — Desculpe-me. — Vim para ver o notável desempenho dessa Sra. pessimamente vestida num veludo carmim. Sra. ao mesmo tempo. tudo era natural — os poderes reivindicados pelos médiuns eram naturais. entre divertido e enojado. — Espero não estar atrasada. a mão pousada no ombro da Sra. Thompson. Eversleigh. Estou me sentindo muito em forma e até recusei as torradas ao forno. A médium os varreu com olhar penetrante e astuto. Dermot ouvia.

convenientemente acesas ou apagadas. Dermot notou que não houve testes e que ninguém duvidou de que Sir Alington se satisfazia quanto às condições da sessão. Não, este negócio todo de Sra. Thompson era apenas um pretexto. Sir Alington estava ali por motivo bem diferente. A mãe de Claire, lembrou-se Dermot, morrera fora do país. Algum mistério a cercava... Hereditário... Com um sobressalto, ele forçou a mente a concentrar-se no que estava acontecendo. Todos tomaram seus lugares e todas as luzes, com exceção de uma pequena lâmpada vermelha, sobre uma mesa distante, se apagaram. Por algum tempo não se ouviu nada, a não ser a respiração ritmada da médium. Gradualmente, ela foi-se tornando estertorosa. E então, de maneira tão repentina que fez Dermot pular, ouviu-se uma forte pancada vinda da extremidade da sala. Ela se repetiu do outro lado. Depois ouviu-se um perfeito crescendo de pancadas. Estas deram lugar a risadas zombeteiras que encheram a sala. Depois o silêncio, quebrado por uma voz bem diferente daquela da Sra. Thompson, uma voz alta exoticamente modulada. — Estou aqui, senhores — disse a voz. — Sim, estou aqui. Querem me fazer perguntas? — Quem é você? Shiromako? — Sim. Eu, Shiromako. Morri há muito tempo. Eu trabalho. Eu muito feliz. Seguiram-se outros detalhes da vida de Shiromako. Tudo muito monótono, sem interesse e Dermot já ouvira isso muitas vezes antes. Todos eram felizes, muito felizes. Mandava recados de parentes, os quais descrevia de maneira vaga e tão imprecisa que se podia encaixar quase que em qualquer contingência. Uma senhora mais velha, a mãe de um dos presentes, passou algum tempo transmitindo máximas de um livro com ar de novidade, dificilmente praticadas por ela mesma. — Outra pessoa quer se comunicar agora — anunciou Shiromako. — Tem um recado importante para um dos cavalheiros. Houve uma pausa e uma nova voz se fez ouvir, prefaciando sua observação com uma risada diabólica. — Ha! ha! Ha! ha! ha! Melhor não ir para casa. Melhor não ir para casa. Ouça meu conselho. 137

— Com quem você está falando? — perguntou Trent. — Com um de vocês três. Não iria para casa se fosse ele. Perigo! Sangue! Não muito sangue — o bastante. Não, não vá para casa. — A voz foi sumindo — Não vá para casa. E sumiu completamente. Dermot sentiu o sangue martelando-lhe as têmporas. Estava convencido de que o aviso lhe era dirigido. De algum modo havia perigo hoje à noite. Ouviu-se um suspiro da médium, e depois um gemido. Ela estava voltando. As luzes acenderam-se e, pouco depois, ela sentou-se empertigada, os olhos piscos. — Saiu tudo bem, querida? Espero que sim. — Muito bom mesmo, obrigada, Sra. Thompson. — Shiromako, não é? — Sim, e outros. A Sra. Thompson bocejou. — Estou morta. Completamente arrasada. Tira muito da gente. Bem, estou contente que tenha sido um sucesso. Tinha um pouco de medo que não fosse, que alguma coisa desagradável acontecesse. Hoje, as vibrações desta sala estão estranhas. Ela olhou por sobre os ombros, encolhendo-os depois, desanimada. — Não está me agradando — disse ela. — Alguma morte repentina entre vocês, recentemente? — O que quer dizer — entre nós? — Parentes próximos, amigos? Não? Bem, se quisesse ser melodramática diria que, esta noite, a morte paira no ar. Mas é bobagem minha. Até logo, Sra. Trent. Que bom que ficou satisfeita. A Sra. Thompson, no seu vestido de veludo carmim, retirou-se. — Espero que tenha sido interessante, Sir Alington — murmurou Claire. — Uma noite das mais interessantes, querida senhora. Muito obrigado pela oportunidade. Deixe-me desejar-lhe boa noite. Todos vão dançar, não vão? — Não vem conosco? — Não, não. Tenho como regra já estar deitado antes de onze e meia. 138

Boa noite. Boa noite, Sra. Eversleigh. Ah, Dermot, gostaria de dar uma palavrinha com você. Pode vir comigo, agora? Depois se encontra com os outros nas Grafton Galleries. — Claro, tio. Então eu o encontro lá, Trent. Durante o curto percurso a Harley Street, tio e sobrinho trocaram poucas palavras. Sir Alington desculpou-se por tê-lo afastado dos outros, mas garantiu que só o deteria por alguns minutos. — Você vai querer o carro, meu rapaz? — perguntou, quando saltaram. — Não se incomode. Eu tomo um táxi. — Muito bem. Não gosto de manter Charlson acordado sem necessidade. Boa noite, Charlson. Mas onde coloquei minha chave? O carro afastou-se, enquanto Sir Alington, parado nos degraus da escada, vasculhava inutilmente os bolsos. — Devo ter esquecido a chave no outro paletó. Quer tocar a campainha? Johnson ainda deve estar acordado. O imperturbável Johnson realmente abriu a porta em sessenta segundos. — Não encontrei a chave, Johnson — explicou Sir Alington. — Quer fazer o favor de trazer uísque e soda para a biblioteca? — Pois não, senhor. O médico encaminhou-se a passos largos para a biblioteca e acendeu as luzes. Pediu a Dermot que fechasse a porta. — Tem uma coisa que quero lhe dizer, Dermot. Será fantasia minha ou você tem uma certa... tendresse, digamos, pela Sra. Jack Trent? Dermot enrubesceu. — Jack Trent é meu melhor amigo. — Desculpe-me, mas isso não responde minha pergunta. Sei que você considera minha opinião sobre o divórcio bastante puritana, mas devo lembrarlhe de que é meu único parente próximo e meu herdeiro. — Ninguém falou em divórcio — disse Dermot, zangado. — Claro que não, e por um motivo que talvez eu entenda melhor do que você. Não lhe posso dizer agora qual é este motivo, mas quero apenas avisá-lo: Claire Trent não é para você. O jovem encarou o tio. 139

— Eu entendo e, talvez melhor do que você possa supor. Sei o motivo de sua presença ao jantar de hoje à noite. — Sabe? — O médico estava realmente surpreso. — Como é que soube? — Chame de suposição. Estou certo em dizer que esteve lá em caráter profissional? Sir Alington andava de um lado para o outro. — Certíssimo, Dermot. Claro que eu mesmo não podia contar a você, embora ache que, mais cedo ou mais tarde, todos vão saber. Dermot sentiu um aperto no coração. — Quer dizer que... já chegou a uma conclusão? — Já! Há insanidade na família — do lado materno. Um caso triste, muito triste. — Não posso acreditar. — É difícil mesmo. Para o leigo são poucos os sinais aparentes, se é que há algum. — E para o perito? — As provas são conclusivas. Em tal caso, o paciente tem que ser internado o mais rápido possível. — Meu Deus! — exclamou Dermot. — Mas não se pode trancar alguém por nada. — Meu querido Dermot! Só se interna os pacientes quando a liberdade deles resulta em perigo para a comunidade. Um perigo muito grande. Provavelmente, uma forma peculiar de mania de homicídio. Foi o que aconteceu com a mãe. Dermot enterrou o rosto nas mãos. Claire — a toda branca e dourada Claire! — Nestas circunstâncias — continuou o médico, consolador —, sentime na obrigação de avisá-lo. — Claire — murmurou Dermot. — Minha pobre Claire. — Sim, todos devemos ter pena dela. De repente, Dermot levantou a cabeça. — Não acredito. — O quê? 140

— Estou dizendo que não acredito. com uma bandeja e copos. nestas circunstâncias. — Uma mulher que. Por Jack Trent ser meu melhor amigo é que nunca falei de amor a Claire. — Estou lhe dizendo que não acredito e. Johnson — disse Sir Alington. — É só isso. Todo mundo sabe disso. — Tio — disse Dermot. Eu retiro sua pensão e faço um novo testamento deixando tudo o que possuo para vários hospitais. — Não deveria ter falado da maneira que falei. Eles não haviam atentado para Johnson que entrava. vou levá-la para longe. Mas Dermot pôs-se a pensar no quanto ele teria ouvido. — Realmente não adianta mais discutir. — Pode deitar-se. Está louco? Dermot riu com desdém: — Você diria isso. senhor. — O rosto de Sir Alington estava vermelho pela cólera reprimida. Os homens se entreolharam. Boa noite.. — Faça o que quiser com seu maldito dinheiro — disse Dermot. — Dermot. — Obrigado. não me importo. guardá-la. de qualquer maneira. digno de um bom criado. Mas há muito tempo que amo Claire Trent. Boa noite. Amo Claire. protegê-la com meu amor. isso não interessa mais. tio Alington. O rosto estava imperturbável. lacônico. Sinto 141 .. em voz baixa. — Não vai fazer nada disso. no calor da discussão. Boa noite. se for verdade. E estão sempre interessados na própria especialidade. você está certíssimo. A interrupção momentânea acalmara a tempestade. — Quero que me compreenda. Johnson retirou-se. — Se disser uma palavra contra ela eu o mato! — gritou Dermot. Se ela vier comigo.. — Se você fizer isso — essa coisa vergonhosa — é o fim. Mas. muito longe. Entendo que do seu ponto de vista. Os médicos se enganam. Vou cuidar dela. Acho que ambos dissemos o que havia para ser dito. Um leve tilintar de copos os fez girar.. É absurda a idéia de que qualquer condição sobre dinheiro possa me deter. — Terei a mulher que amo. — Meu caro Dermot — repreendeu Sir Alington. Dermot. fora do alcance de médicos intrometidos.

— É que. confuso. Será que havia sonhado? Impossível que aquela terrível conversa com o tio tivesse acontecido realmente.. o rosto dela fora calmo e sereno? Estava ensombreado pela ansiedade. Esperava qualquer coisa. eu me apaixonei por você. vamos a algum lugar onde possamos conversar. — Pode dizer. alguma vez. — Cansada? Quer parar? — Se não se importa. Quero dizer-lhe uma coisa. Claire. Quanto será que ela sabia? Eles encontraram um cantinho calmo e sentaram-se lado a lado. Quero que se afaste porque eu.. ele convidou-a para dançar. Dermot apanhou um táxi que acabava de deixar uma pessoa um pouco adiante e encaminhou-se para Grafton Gelleries. Com certeza fora tudo um sonho. — Claire! 142 . pelo medo. Ele saiu apressado. Pouco depois ela estava perto dele. O vestíbulo estava escuro. o rosto calmo e sereno.. Ele estava perplexo. A dança cessava. Ele atravessou-o. — Tinha os olhos baixos. sorrindo-lhe..muito. Ele sentiu-a desfalecer. Como num sonho. a cabeça rodando. bem difícil.. Ela agora estava nos seus braços. O som estridente do jazz. Será que. quero que você se afaste por algum tempo. — Bem — disse ele. Brincava nervosamente com o enfeite do vestido. Parou um minuto à porta do salão de festas. as mulheres sorridentes — era como se tivesse entrado em outro mundo. não é? Sei que você é um cavalheiro e meu amigo. a música recomeçava.. — É. fingindo uma frieza que não sentia. batendo a porta. Claire passou por ele. — Quer que me afaste? Por quê? — É melhor ser honesta. fechando a porta. Não era um sonho. menos isso. — Você queria dizer alguma coisa? — Sim. abriu a porta da frente e emergiu na rua. flutuando como um lírio dentro do vestido branco e prateado que lhe caía como uma luva. Ela sorriu-lhe. Ele voltou à terra com um sobressalto.

— Por favor — disse ela. Nunca poderia ficar com você. as lágrimas rolando pelas faces. De repente. Venha comigo. sombrio.. sentiu-lhe um estremecimento. Ele hesitou. você não deve acreditar nem pensar nisso. feio. Lá você será feliz e eu tomo conta de você — estará a salvo para sempre. Sem dar uma palavra.. gostaria que fosse embora. Ele abraçou-a. Claire. encontrou Trent. — Por favor. Tudo menos isso! 143 . eu sou louca — não sei o que estou dizendo. — Não.. — E. ela soltou-se com um repelão. Não queria que Trent lhe fizesse confidências. Dermot. frustrado por essas palavras. — Oh! — exclamou ela — por que não me disse? Na época em que poderia ter ido para o seu lado! Por que me dizer agora? Agora é tarde. — Foi uma noite terrível — disse Trent. Dermot levantou-se e deixou-a. Dermot ficou em pânico. e. Ela fitou-o. Vamos para os mares do Sul. o que quer dizer com: "agora é tarde"? É por causa do meu tio? Do que ele sabe? Do que ele pensa? Ela assentiu em silêncio. por favor! Agora não posso. espantada. Suas palavras o haviam tocado. É só que. — Claire. Foi buscar o chapéu e o casaco. Ao fazê-lo. — Claire. Seria feio. — Apaixonou-se? Há muito tempo? — Desde o começo. abalado. não estou com disposição para dançar hoje. puxando-a para perto de si. — Olá. Não. está saindo cedo. você não sabe que. Todo este tempo quis ser boa. não sou muito feliz e. para ilhas que mais parecem jóias perdidas no oceano. algum dia.. apaixonar-se por mim. — Escute. — Mas você não tem as minhas preocupações. me apaixonei? Ela levantou os olhos. — Quero ser boa. abismado.Suas palavras o deixaram mudo. desde que a conheci. não pense que sou tão pretensiosa a ponto de pensar que você possa. ao fazê-lo.. feio.. um apelo no olhar. e agora seria feio.

Já ia recolocá-lo na gaveta quando a campainha tocou. Boa noite. hein? E o aviso dos espíritos? — Vou-me arriscar. ele afastou os lenços e tirou o objeto que ali se escondia: um revólver. Ele voltou para o quarto e começou a despir-se. apoderou-se dele. a expressão carregada. neste mesmo quarto. o Sinal Vermelho lhe dera aviso com tempo suficiente para que ele evitasse o desastre. Fora disso. Alguém o colocara na gaveta nesta mesma noite. — Perigo — perigo — perigo. Ele foi a pé. não sabia nada. Até agora. Quem poderia ser a esta hora? E só lhe vinha uma resposta. até — disse. Guiado por um instinto para ele inexplicável. completamente vazio. Talvez seus esforços fossem secretamente covardes. e acendeu a luz do quarto. parecendo muito alta na quietude do apartamento vazio. apressado. Jack. ele estava em perigo. Perigo! Ele estava em perigo! Neste exato momento. Não estava lá quando se vestiu para o jantar — disso tinha certeza. Entrou com a própria chave. De tão forte. a que dera o nome de Sinal Vermelho.— Bom. Não era de um padrão comum e fora usado recentemente. Era possível que algum malfeitor tivesse entrado e estivesse escondido. sentindo necessidade do ar frio para acalmar a mente que fervia. uma resposta instintiva e persistente. ele fez uma ronda cuidadosa no apartamento. O apartamento de Dermot não era muito distante. A sensação de perigo era cada vez mais forte. 144 . — Vou para casa. Soou mais uma vez. Mas a busca deu em nada. estava de folga e o apartamento. Milson.. — Para casa. Havia uma saliência nada familiar dentro da gaveta — alguma coisa dura. Seu empregado. Com dedos rápidos e nervosos. E de repente. Sorrindo um pouco de sua superstição. a sensação de perigo.. Dermot apagou a luz. Abriu uma gaveta para apanhar um lenço e estacou. Mais do que perplexo. Tentou inutilmente ridicularizar o medo para livrar-se dele. chegou a varrer-lhe Claire da mente. pela segunda vez naquela noite. Dermot examinou-o com interesse.

Por trás deles. Dermot recuou diante dos temíveis visitantes. qual é seu nome? — Milson. — Dê uma busca — disse ele para o outro. Com a mente em turbilhão.enfiou-se num sobretudo que estava sobre uma cadeira. Levou-o ao inspetor um tanto animado. — Não. o segundo homem entrou vindo do quarto contíguo. hein? Muito bem! Então é melhor entrarmos e esperarmos por ele. afinal. pode ver. de Harley Street. Pareceu a Dermot que passavam-se anos antes que respondesse. passaram-se apenas poucos segundos. Dermot vislumbrou um uniforme azul. ou fingiu fazê-lo. Deparou-se com dois homens. — Você fique aqui. — Saiu de lá há mais ou menos uma hora. Tem certeza de que não passou aqui? — Acho que não. senhor. West ainda não chegou. Foi à sala de visitas e acendeu a luz. respondeu: — O Sr. Depois voltou-se para Dermot. Nas mãos trazia o revólver. imitando a voz inexpressiva de seu criado. Creio que em Grafton Galleries. O inspetor o seguiu. Acho que ia dançar. Milson? — Não sei. meu nome é inspetor Verall da Scotland Yard e tenho um mandado de prisão contra seu patrão. Se quiser. rapaz. rapaz. senhor. Na verdade. isso não. Sir Alington West. O que querem com ele a esta hora da noite? — Ainda não chegou. Uma 145 . Um policial! — Sr. West? — perguntou o homem que estava em primeiro plano. e abriu a porta do vestíbulo. perguntando numa voz aturdida: — Por quê? O que fez ele? — Assassinato. — A que horas acha que seu patrão volta. E. Eu o teria ouvido chegar. Nesse momento. — Escute. Nada de fugir para avisar o patrão. Dermot leu cuidadosamente o referido documento.

Dermot sentiu um aperto no coração quando percebeu a seriedade das provas contra ele. Pôs a cabeça para funcionar. Cawley aceitou logo. rápido. Lá. E então. e olho vivo neste rapaz. mas ele continuou. e Cawley mostrou-se disposto a falar.expressão de contentamento passou pelo rosto deste último. Ê melhor eu ir andando. — Um caso claro — dignou-se a dizer. Pegando-o pelo 146 . Poucos minutos depois. Trent estava bastante alerta para os perigos da situação. Este lhe cortou as mãos. e do lado de fora da janela havia um pequeno elevador usado pelos vendedores. ele colocou a chaleira no fogo e fez tinir xícaras e pires astutamente. Este jovem West entrou com o tio e eles estavam discutindo quando Johnson foi levar as bebidas. Ele já revistara o apartamento: não havia porta de fundos. Que cara bobo. Johnson. fora a fuga. levou um tiro no coração. não via solução. que descia e subia sobre um cabo de aço. A esta altura já deve ter dado o fora. Perigo — perigo horrível! E. fazendo-as sangrar. dirigiu-se às escondidas para a janela e levantou o vidro. Ele pode saber mais sobre o patrão do que faz parecer. O inspetor saiu alvoroçado. Encontrou Sir Alington morto. — Meu Deus! Dermot! Depressa. Ele nos telefonou e nós ouvimos a estória dele. Para seu espanto. no caso de ele voltar. — Totalmente. — Deve ter entrado e saído sem que você ouvisse. emergia cautelosamente no fim do quarteirão. deparou-se com um homem na calçada. desesperado. Como um raio. Ah! bastante claro. Pouco depois ofereceu-se para preparar um chá. Realmente bastante claro. — O assassino foi descoberto quase que de imediato. o criado. não fique aí parado. — O que tornou o caso bem claro? — arriscou Dermot. acabara de se recolher quando pensou ter ouvido um disparo e voltou. você fica aqui. reconheceu Jack Trent. Ao virar a esquina. — Isso explica tudo — observou. Dermot pulou a janela e desceu aos solavancos pelo cabo de aço. Ele deu licença a Dermot para ir à cozinha. Cawley. O apartamento era no segundo andar. Uns cinco minutos depois ouviu-se um tiro. O velho ameaçava fazer novo testamento e seu patrão falava em matá-lo. Dermot esforçou-se para obter os detalhes do assunto.

quem pode ter dado cabo do velho? — Não tenho a menor idéia. uma pequena sala no primeiro andar. é um caso complicado para você. — Chegamos. para seu apartamento. — Dermot. Agora vejo com mais clareza. — Devia ter desconfiado. você está liquidado. — Claro que não. Depois podemos pensar no que fazer para tirar estes bobalhões do caminho. "Não vá pra casa". — Por enquanto aqui é bastante seguro — observou. sacudido por uma alegria mal contida. a que horas saiu etc. — Uma conspiração muito bem bolada — arfou. — Agora podemos pensar melhor no que deve ser feito. Deve nos ter observado bem de perto. colocou o revólver na minha gaveta. Vim na esperança de poder avisálo antes que a polícia chegasse. o qual fizeram parar. — E se aplica a mim também — disse Dermot.. Isso era para o pobre West. a que horas chegou a Grafton Galleries.. Mas seja quem for. abriu a porta com sua chave e guiou Dermot escada acima.. meu rapaz. Ele foi para casa e morreu. Ele puxou o telefone. Abriu a porta e Dermot entrou. Mesmo assim. e entraram. — Nem sabia que você tinha conhecimento disso. nem por minuto. suponho. 147 . Viram um táxi. enquanto Trent acendia a luz para se juntar a ele. — Esse negócio da sessão espírita foi engraçado. você não acredita. mas. — Eu fui um idiota — disse Dermot de repente. — Fui para casa e encontrei um revólver e um inspetor de polícia. de que você está rindo? Pois Trent recostara-se na cadeira.braço. — É o lugar mais seguro no momento. espero que não me pegue também — disse Trent. afinal. Eles vieram fazendo perguntas. Ele pagou o táxi.. Jack. desceram por ruas secundárias. Havia alguma coisa de terrível nele e um brilho curioso nos olhos. no escuro. Dermot. meu amigo. Trent deu ao motorista o endereço dele. — Bom. mas já era tarde. Era tudo uma conspiração.

Estava de volta a Grafton Galleries de novo quase que ao mesmo tempo que você. Não adianta olhar para a porta atrás de mim. Fui muito astuto. você sabe. só para feri-lo. fui ao seu apartamento e deixei o revólver. eu tranquei a porta quando entrei. Por que está olhando por cima de minha cabeça? Aquela porta? Não adianta. O revólver disparou só uma vez e encontrou seu 148 . É para Claire. enforcado. Ninguém mais vai ouvir e gostaria que você soubesse que fui eu. mesmo que Claire a abrisse — e talvez o fizesse para você —. eu atiraria antes de você chegar lá. Apanhei esta chave e a sua também.. O velho West sabia. Ela sempre sabe quando estou pensando naquela faca — uma faca longa e afiada. Trent. a linda Claire. não para matar.. Não é para você que quero a faca. Tenho uma ótima pontaria. tão branca e macia. Ele queria me internar — assim eu não podia atingir Claire com a faca. Dizer que o que procuram está aqui — preso a sete chaves. você não. é isso. Dermot ia saltar sobre ele quando este lhe apontou um horrível revólver. Trent girou.— O que vai fazer? — perguntou Dermot. — O primeiro eu coloquei na sua gaveta — depois de matar o velho West. — Chamar a Scotland Yard. Trent foi rápido. É do quarto de Claire e ela sempre a tranca. Atirei e saí depressa. quero vê-lo enforcado. Não no coração. sabe? Há muito tempo que tem medo de mim. e a chave está no meu bolso. você voltar para casa. Meu Deus! Como tudo isso me faz rir! Em que você está pensando? Diabo. Teria sido melhor. para onde está olhando? — Estou pensando em algumas palavras que você disse.. Foi para isso que veio hoje à noite para ver se eu estava louco ou não. Vi você sair da casa dele e entrei. Sim. Não. Depois. coloquei a chave de volta no bolso do seu paletó quando me despedia. Salvei sua vida uma vez. Tem medo de mim.. Saí sorrateiramente da boate logo que cheguei lá. — Este é o segundo deles — riu Trent. — O que quer dizer? — Olhe para trás. Que tolo! Não. Parados no vão da porta estavam Claire — e o inspetor Verall. impedindo sua fuga. Não me importo de lhe contar tudo isso.

ao observar isso. todos. Correr para pegar o trem não era um bom negócio para um homem da sua idade. com simpatia —. — Ora. você sabe!" Ele mergulhou num canto da cabine de primeira classe com um suspiro de alívio. Que sorte achar uma poltrona de canto numa longa jornada noturna. O cônego referia-se dignamente a essa tendência com um "Meu coração.objetivo. você deu uma corridinha. Ele caiu por cima da mesa. O tio. seria um tormento. Caso contrário. ter pena dela" — a conspiração entre ela e Sir Alington. O inspetor levantou-se. Sir George Durand era. Partiff — observou. e os cabelos começavam a esbranquiçar nas têmporas. na verdade. a qual o astuto Trent percebera através do grito dela. não foi? — Muito ruim para o meu coração — disse o cônego. ele sempre teve uma ótima pontaria. um famoso advogado. tinha o rosto excêntrico. feio!" Sim. Lá fora. — Sim — Dermot ouviu-se dizer —. Em primeiro lugar. a discussão.. quanto a isso não havia a menor sombra de dúvida. O QUARTO HOMEM O Cônego Partiff ofegou um pouco. O calor do carro lhe agradava. sua silhueta já não era a mesma e. feio. Só podia ser advogado. o tremendo mal-entendido. a neve caía. agastado. Devia haver um leito nesse trem. enquanto Dermot olhava para Claire como num sonho. as leis inglesas sobre divórcio que nunca libertariam Claire do marido insano — "devemos. Estava bem barbeado. — Morto — disse. Pensamentos desconexos passavam por sua mente. com a perda do corpo esbelto. O inspetor pulou para seu lado. — Que 149 . surgiu a tendência a ficar sem fôlego. mas agora. Os três outros cantos já estavam ocupados e. "Feio. o cônego Partiff tomou consciência de que o homem sentado no outro extremo sorria para ele como se o reconhecesse..

Era um homem ligeiramente moreno. Dr. — Cônego Partiff de Bradchester? — inquiriu Dr. e seu último livro. Dr. Sir George. Clark destacava-se como médico e especialista da mente. Campbell Clark? O homem. pensou o cônego. — Confesso que sofro de insônia e que. Para onde vai? — Newcastle — respondeu. quase esperando receber um olhar de alguém que reconhecesse. O cônego parecia lisonjeado. Aqueles "sermões científicos" realmente fizeram muito sucesso — especialmente quando a imprensa passou a publicálos. olhos azuis muito plácidos. era disso que a igreja precisava: assuntos modernos. — Outra coincidência. Campbell Clark com grande interesse. — A Igreja. O Problema da Mente Inconsciente. Campbell Clark — disse ele. atualizados.coincidência encontrá-lo aqui. mas já escassos. e o livro que trouxe é muito monótono. É lógico — disse o cônego. Já ouvira muito falar naquele nome. prefiro conversar. somos um grupo bastante representativo — observou o médico. Campbell Clark numa voz agradável. cônego? — perguntou ele. por isso. Cônego Partiff olhou para o Dr. Também teve a impressão de ser ele uma personalidade muito forte. — Encontramo-nos na plataforma — continuou o advogado. sentado do mesmo lado do vagão que o cônego. mas o quarto ocupante da cabine resultou ser um estranho — um estrangeiro. Por uma associação de idéias perfeitamente natural. — Raramente durmo durante estas viagens noturnas. 150 . Bom. Durand interferiu: — O senhor prefere dormir ou conversar. lacônico. fora o mais discutido do ano. — Ah! Claro. inclinou a cabeça afavelmente. — Pensando bem. sorrindo. — A propósito — acrescentou —. — Li seu livro com grande interesse. a Lei e a profissão médica. Embrulhado num grande sobretudo. o cônego olhou para a poltrona a sua frente. Cônego Partiff viu um queixo quadrado. os cabelos avermelhados intocados pelo branco. conhece o Dr. de aparência insignificante. parecia ferrado no sono. — Embora houvesse passagens um tanto científicas para eu seguir.

Campbell Clark. a crua superfície produzida pela mente em atrito com a mente. — A Igreja com o ponto de vista espiritual. meu Deus. — É tão importante? O homem comum geralmente não está errado? — Oh! Quase sempre. alma e espírito — corrigiu o sacerdote suavemente. Descobri isso na minha profissão. apenas nervos. rápido como um relâmpago. Doutor. não se pode fugir das relações pessoais.. Mas hoje sabemos só um pouco mais sobre as coisas obscuras de centenas de doenças nervosas do que sabíamos em. — Corpo. Mas. — Antigamente. suponho — observou o cônego. isto é um sinal de graça — continuou o Dr. — O senhor tem uma porção de pacientes com "histeria". — Há um outro ponto de vista que você omitiu e que é bastante importante. exatamente como o senhor fez. fulano. — E qual é? — perguntou o advogado. De todos os pacientes que vêm a mim realmente doentes.— São raros os assuntos sobre os quais não podemos opinar. e o que quer dizer com isso? — o outro voltou-se para ele. mas é tudo a mesma coisa. com o campo mais vasto de todos. considerávamos o homem como um simples animal. Afinal. um pouco espantado com esta investida. e o senhor. — Ah. — O ponto de vista do homem comum. Dão vários nomes a isso: desde de inflamação no joelho até paralisia dos escrivões. — É verdade? — E veja bem. — Não tão completamente quanto você imagina. que vai do puramente patológico ao superpatológico! Creio que nós três podemos cobrir qualquer campo quase que completamente. bom. na minha opinião — disse Dr. — História! As pessoas usam esta palavra e riem. pelo menos em cinco não encontro nada errado. não é? — riu Durand. Clark. 151 . mas ele tem uma coisa que falta na opinião dos peritos: o ponto de vista pessoal. Não há nada.. desdenhoso. a não ser a inabilidade de viver em harmonia com os habitantes da mesma casa. eu com o ponto de vista puramente legal e terreno. no reinado da Rainha Elizabeth! — É mesmo? — disse o cônego Partiff. o ponto crítico de tudo são os nervos! Não se pode curá-los com um medicamento puramente físico. corpo e alma com ênfase no primeiro elemento. Seu próprio sistema nervoso era excelente.

uma massa de ruína e deterioração. mas não estamos conscientes da presença de outros — criados de passo macio. sabe. Será que minha mente é um campo de batalha de personalidades em conflito? Ê esta a última descoberta da ciência? Foi a vez do médico dar de ombros. Campbell Clark recostara-se na poltrona. — Você me fez sentir intranqüilo. mas. quarenta e um. Mas o Dr. Inclinou-se para frente e bateu levemente no peito do outro homem. dificilmente notados a não ser pelo trabalho que fazem — trabalho esse que você não tem consciência de ter feito? Ou amigos ou disposições de ânimo que tomam conta de você e o tornam. setenta e um anos? E no fim. O médico prosseguiu: — Será que podemos afirmar que a palavra é espírito. Desde priscas eras vocês se esquivam de dar uma definição exata. durante algum tempo. — O que vocês sacerdotes querem dizer exatamente com espírito? Nunca foram muito claros sobre isso. por que não a mente? — Muito interessante — disse o cônego Partiff — ah! Maravilhosa ciência — maravilhosa ciência. vinte e um. E disse para si mesmo: — Posso extrair um sermão imponente a partir desta idéia. esta residência desejável a ser alugada mobiliada por sete. — Isso mesmo — Campbell Clark desviou o olhar para ele. zombeteiro. é um caso 152 . e esta desaba. para sua tristeza. "um homem diferente" como diz o ditado? Você é o rei do castelo.— Espírito? — o médico sorriu de maneira esquisita. os inquilinos tiram suas coisas — pouco a pouco —. — Se o corpo é. levantando as sobrancelhas. sem dúvida. arrastando as palavras. — Na verdade — observou de maneira seca. — Tem certeza — disse sério — de que só há um ocupante desta estrutura. profissional —. O cônego temperou a garganta preparando-se para falar. não lhe foi dada oportunidade. pois é isto a que se reduz. — Meu caro Clark — falou o advogado. mas fique certo de que a "suja ralé" está lá também. Você é o dono da casa — admitimos isso. saem da casa. já passado seu momentâneo entusiasmo. — O seu corpo é — disse secamente. e não espíritos? — Espíritos? — perguntou Sir George Durand.

até então 153 . mas os fatos principais permanecem. Felicie 2. dona de uma espécie de casa para crianças sem recursos. pelo menos há uns sete anos. — Dupla personalidade — disse Sir George Durand. — Lembro-me de ter lido nos jornais. foi deportado. Felicie tinha então cinco anos. Felicie 3 etc. Há também perda de memória. de repente teve consciência de que o homem à sua frente mexia-se ligeiramente. pensativo. mas bastante genuína. Slater. filha de um alcoólatra com uma retardada mental. Srta. ela não pôde fazer grandes coisas por Felicie. Dr. — A menina tornou-se uma das pessoas mais famosas da França. perspicaz. Algumas pessoas caridosas interessaram-se pelas crianças e Felicie foi criada e educada por uma senhora solteira. se me lembro bem. o pai estrangulou a mãe e. Era a terceira de uma família de cinco. mas há muito tempo atrás. Lembra-se de ter ouvido falar nele? — Certamente — concordou o cônego Partiff. burra. Esta mulher. — Não chegaram a dizer que havia algum truque? — perguntou Sir George. Os olhos. não há? Sei que este caso surgiu na Vara de Família outro dia. Um caso muito interessante. — Houve um pouco de dúvida quanto às personalidades de Felicie 3 e Felicie 4 — admitiu o médico —.de dupla personalidade que me leva a Newcastle esta noite. Paciente neurótica. Dr. Cientistas de todo o mundo foram vê-la. realmente. O médico fez uma pausa e o cônego. encontrou vários lugares onde pôde trabalhar quando atingiu idade para isso. Numa das bebedeiras. Mas ela nunca parou muito tempo em lugar nenhum por causa de sua burrice e profunda preguiça. Ela a descreve como uma pessoa de uma lentidão fora do normal. que só aprendeu a ler e escrever com grande esforço e que também era desajeitada com as mãos. é claro. Eram conhecidas como: Felicie 1. — O caso clássico. cruzando as pernas e aconchegando-se mais ao travesseiro de viagem. Felicie Bault era uma camponesa da Bretanha. Campbell Clark fez um sinal afirmativo com a cabeça. Clark anuiu. Entretanto. é claro — disse ele —. Ela tinha nada menos de quatro personalidades distintas. tentou treinála para o serviço doméstico e. foi o de Felicie Bault. — Não é muito raro.

Felicie 3 tinha vários pontos em comum com Felicie 2: era inteligente e instruída mas. Felicie 2. era um grande contraste. — Cinco anos depois. Felicie Bault começou a sofrer de uma doença nervosa muito séria e. fluente e expressivo. — Ela aparece como uma rude camponesa de compleição forte. quando tinha 22 anos. na convalescença. Seu linguajar era imundo. Felicie 3 ou 4. Eu poderia dizer que (talvez com exceção da Felicie 4) cada personalidade era distinta e separada e não tinha conhecimento das outras. Parecia ser. agora estavam abertos e havia alguma coisa de indefinido e zombeteiro neles que surpreendeu o respeitável cônego. às vezes. considerada como um embuste deliberado por parte de Felicie 3 — uma espécie de brincadeira para com seu crédulo público. falava com fluência o italiano e moderadamente o alemão. Finalmente havia Felicie 4. devota e clarividente confessa. quase que imbecil. blasfemava contra a religião e as chamadas "boas pessoas". na verdade. Sabia todos os argot de Paris e as expressões do demi monde. A personalidade chamada de Felicie 1 era indistinta da Felicie Bault dos últimos vinte e dois anos. e em cada caso havia completa perda de memória dos outros estados. mas estas duas raramente permaneciam em comando por mais que algumas horas. os estranhos fenômenos começaram a manifestar-se. uma depravada. nos termos mais insultantes. Felicie 2 predominava e por vezes durava quinze dias. Sem dúvida. — Existe uma fotografia de Felicie Bault com dezessete anos — continuou o médico. da maneira parisiense e não provinciana. Nada nesta fotografia indicava que ela se tornaria uma das pessoas mais famosas da França. e então Felicie 1 aparecia abruptamente por um ou dois dias. Discutia política e arte e adorava tocar piano. ao contrário. A personalidade em questão retomava a vida onde a havia interrompido. Depois disso. e seu francês. A letra era bem diferente daquela de Felicie 1. Era como se o homem estivesse escutando e vangloriando-se secretamente do que ouvira. inconsciente da passagem do tempo. quanto ao aspecto moral. Os fatos que vou contar foram atestados por vários cientistas eminentes. mas esta quarta personalidade era muito insatisfatória e esquiva e. sonhadora. 154 .fechados. Cada mudança era acompanhada por fortes dores de cabeça e sono profundo. talvez. não falava outras línguas nem sabia tocar piano. Felicie 1 escrevia pessimamente o francês.

quádrupla —. Campbell Clark aquiesceu. Encontraram a menina morta. — De que mais podemos chamar? Quer dizer — se a personalidade é a alma? — Ainda bem que este estado de coisas é apenas uma anomalia — observou Sir George.— Notável — murmurou o cônego. na realidade. — Pena que um estudo mais longo não pudesse ser feito. Os outros três pularam como se tivessem sido alvejados. Foi aí que o homem do outro extremo riu. para estupefação geral. lentamente. É claro que seu equilíbrio mental deve ter sido sempre precário. Nunca se descobriu o que levou a menina a isso. Dr. afinal de contas. E. a morte inesperada de Felicie colocou um ponto final em tudo. havia algo de estranho — disse. — Uma coisa inexplicável. Campbell Clark. — Maitre Quimbellier investigou o caso completamente e confirmou o ponto de vista dos cientistas. — Notável. sem dúvida nenhuma. ela se enforcou. — Sabemos que há vários impostores astutos que nele habitam — observou o advogado secamente. — A condição é anormal — concordou o médico. daria margem a grandes complicações. Campbell Clark voltou os inquisitivos olhos azuis para ele. Haviam 155 . — Se não me falha a memória. — Se o caso fosse comum. mais do que depressa. embora não seja fisicamente impossível. foi constatado que. como neste caso. Havia sido estrangulada. Dr. Mas é isso: a cortina desceu para sempre sobre o mistério de Felicie Bault. na cama. por que tanta surpresa? Encontramos ovos com duas gemas. numa manhã. — O caso de Felicie Bault foi investigado por advogados. Um método de suicídio que. As marcas no pescoço eram de seus próprios dedos. Mas. assim como por médicos e cientistas — disse o Dr. não é? E bananas gêmeas? Por que não a alma dupla — ou. o advogado. necessita de uma força muscular tremenda e de uma força de vontade quase que sobre-humana. Por enquanto não sabemos quase nada das maravilhas do universo. num único corpo? — A alma dupla? — protestou o cônego.

a história de uma é a história de outra. fazendo uma reverência de troça. Entre elas estavam Felicie Bault e Annette Ravel. o homem riu de novo. — Felicie Bault? — Sim. — Desculpem-me. — Sim. Slater quem veio me salvar do que equivale ao asilo inglês. na ciência diz-se a última palavra? — Sabe alguma coisa sobre o caso que discutíamos? — perguntou polidamente o médico. definhou até morrer. A mãe fora uma dançarina. Ele sentou-se ereto. desejava dançar. cerca de vinte crianças. se estiverem interessados. Se não puder fazer com que entendam a personalidade de Annette.esquecido totalmente a existência do quarto homem. — Por favor. sob seus cuidados. Mas eu a conhecia. mesmo assim. foi a Srta. também. cavalheiros. Srt? Slater. não entenderão nada. — Meu nome. E Annette Ravel também. conte-nos — pediu o médico. cá para nós. e Annette. com sabor estrangeiro. Havia. que se interessava por obras de caridade. — Sobre o caso. não se sabe nada sobre Felicie Bault se não se conhece também a história de Annette Ravel. Acredite-me. Quando a vi pela primeira vez. — Ficaria encantado — disse o cônego. Quando olharam em sua direção. e quando meus pais morreram num acidente de trem. desculpem-me — disse ele. Tenho tempo para lhes contar a história. Ele tirou um relógio do bolso e consultou-o: — Meia hora até a próxima parada. abandonada pelo amante. meninos e meninas. Ela era filha do que chamamos de uma "filie de joie" que. tinha onze anos. — Mas. cavalheiros — disse ele num inglês perfeito. senhores — começou o estranho companheiro de viagem — é Raoul Letardeau. Não ouviu falar em Annette Ravel não é? E. mas. isto é. Eu nasci numa aldeia de pescadores na Bretanha. não. ainda embrulhado no sobretudo. no entanto. revelando um rosto pálido com um pequeno bigode azeviche. Os senhores acabaram de falar numa senhora inglesa. um 156 . — Encantado! Sir George Durand simplesmente se colocou numa atitude de profunda atenção.

burra como uma porta. Felicie zangava-se com isso. E vou morar num apartamento requintadíssimo. Raoul. sem fôlego. para o sol. Ela tinha o dobro da vitalidade de qualquer menina da casa. Acho que era um tipo de fascínio. tornei-me escravo dela. Olhe e veja como elas são grandes e ásperas. tão refinada. Felicie — tão elegante. — Ela parece até uma dama. E nunca adoecia. e nos dizia o que pretendia fazer e ser. Manter-se assim é o que importa. Quanto a você. Era "Raoul. E lá. logo de saída. Vou protegêlo e fazê-lo subir em sua carreira. Mas era burra. bonitos e ricos. penso que realmente odiava Annette e. Todos os meus amantes vão ser jovens. isso mesmo. "Raoul. da seda mais fina. E então. nós três. E realmente era. e ela sabia disso. Felicie será empregada. superfamosa. na verdade. porque a Felicie vinha conosco. ora prometiam. Já a adorava. Algumas vezes. Vou para o Sul.pedaço de gente cujos olhos ora zombavam. Me perguntava muitas vezes por que ela rondava Annette daquele jeito. Annette tirava os sapatos e meias e dançava na areia. por mais famosa e rica que eu seja. — Sou forte como um cavalo — Felicie gabava-se. faz isso pra mim". Vou deitar-me sob o sol em almofadas de seda. Há cidades lá com laranjeiras. — É. Annette continuava a implicar com ela. Serei dona de uma delas. Eles vão gritar. — Seu pai deixou sua mãe apodrecer — Felicie replicava. comendo laranjas. ha! — Pelo menos meus pais eram casados — Felicie resmungava. sim — Annette se tornava pensativa. — Veja bem. E então ela se deixava cair. toda Paris virá me ver. — Pauvre Maman. uma criaturinha cheia de fogo e vida. É uma princesa disfarçada. não. e seu pai matou sua mãe. E quando eu dançar. Isso mesmo. — Ah. vou ser famosa. Que maravilha ser filha de um assassino. chamar. entende. E eu obedecia. 157 . as mãos dela são muito inábeis. faz aquilo pra mim". berrar. nunca vou esquecê-lo. Íamos até à praia juntos. E durante os invernos não danço. enlouquecer com minha dança. Terei milhares de meias de seda. E de saída. A pessoa deve manter-se forte e bem. rancorosa. ha.

Pontualmente. ao meio-dia. Parte dele ela não entendeu e. Um dia Annette veio a mim muito animada. eles dizem. era muito complicado para ela. vamos nos divertir muito hoje com essa estúpida Felicie. Tratava-se de um trabalho antigo sobre hipnotismo. Espalhamos a notícia para os colegas e. eu disse.Annette não era nada boa para ela. — O livro diz que sim. — Mas ela nunca vai fazer uma coisa dessas — objetei. Raoul. sabe que começou. Felicie? E ela respondia: — É o melhor galeto que já comi. Zombava da sua lentidão e burrice e atormentava-a na frente dos outros. Fiz Felicie olhar para ela a noite passada. ela gira. apareceu Felicie com um pedaço de vela na mão. instintivamente. Parece que Annette pegou algum livro. Oh! Raoul. mas. — O que você vai fazer? — Venha para trás do galpão que eu lhe conto. você vai sempre fazer o que eu mandar". "Não tire os olhos dela". aprendeu a revidar de uma maneira infalível. Ela viu (coisa que eu sempre soube) que Annette invejava-lhe o físico forte e. Annette. já pensou?”. — Um objeto brilhante. Vi Felicie ficar lívida de raiva. Raoul. Não que eu acredite. — E nós morríamos de rir. Vamos morrer de rir. E então. como que assustada. todos nós estávamos no playground. olhou para a vela e depois para 158 . E se alguém perguntar. a mordiscá-la? Ficamos histéricos! De vez em quando alguém ia perto dela e dizia: — Isso que você está comendo é gostoso. fiquei assustada. investia contra o ponto fraco do inimigo. Piscou os olhos. E. você vai dizer que é o melhor galeto que já comeu. Algumas vezes pensava que ela fosse apertar o pescoço de Annette e matá-la. e vai comê-la. A bola de metal da minha cama. — Raoul — disse ela —." respondeu ela. solenemente. ao meio-dia. se o livro for verdadeiro. realmente. Depois rimos tão alto que o barulho deve ter despertado Felicie para o que estava fazendo. como vamos nos divertir! Eu também achei a idéia muito engraçada. então eu disse: “Amanhã você vai trazer uma vela de sebo para o playground. com o tempo. "Olhe fixo". Ela não tinha bastante astúcia para responder aos insultos de Annette mas. E depois eu a fiz girar rapidamente. Os olhos dela ficaram tão esquisitos! "Felicie. "Eu farei sempre o que você mandar. eu disse.

nós. Raoul! Estou com medo de Felicie. Eu mandei — gritou Annette. Odeio vocês todos. — Eu mandei você fazer isso. Felicie. a partir daquele dia. — Então foi você — foi você quem me ridicularizou? Parece que me lembro. Vou matar você por isso. E então. fiquei cinco anos fora. Mas. Só uma brincadeira. Annette cantou em francês e em italiano. — Comendo uma vela — nós gritamos. Nesta noite fui ao teatro em questão. um cartaz me chamou a atenção. Pouco depois disso. Agora acredito que Felicie sempre a tenha odiado mas. mesmo assim. mas ela desenvolveu uma bonita voz quando cresceu. Meu trabalho levou-me para longe. Slater era obrigada a evitar que ela se excedesse. Trabalhava com afã. não podia ficar longe dela. mas Annette correu e escondeu-se atrás de mim. Acho que Annette ficou assustada com o resultado da experiência e não tentou repeti-la. Ela passou a mão na testa. Foi só uma brincadeira. era um anúncio de Annette Ravel e seu retrato. quando voltei a Paris. Depois aproximou-se lentamente de Annette. A princípio recebi uma ou duas cartas de Annette. e a Srta Slater consentiu que fosse treinada como cantora. — Não gosto destas brincadeiras — disse Felicie — Você entende? Tenho ódio de você. sua ascendência sobre Felicie pareceu cada vez maior. mas depois disso. O desejo de Annette de tornar-se bailarina não foi levado a sério. Não era preguiçosa aquela Annette. nada. cavalheiros. Reconheci-a de imediato. — Tente convencê-la a não trabalhar tanto. — Mas o que estou fazendo aqui? — ela murmurou. sem descanso. Felicie olhou-a por um momento. Uma vez me falou sobre ela. E de repente ela caiu no choro e fugiu. Por acaso. — Salve-me. Ela falou com toda a calma. A Srta. Ela costumava seguir Annette como se fosse um cachorro. encontravam trabalho para mim e eu só ia para casa nos feriados. — Você sempre gostou de Annette — ela disse. Ela agora está com uma tosse que não me agrada. Estava 159 .

fechando-a no pulso de Annette. e os médicos disseram que nada poderia ser feito. et voilà! Então o homem mostrou-se afável. Dizem nas minhas costas. ouvi-a tossir. Nunca vou esquecer o que vi! Ela estava deitada numa espécie de abrigo no jardim. Slater deve ter orgulho do seu sucesso. — A boa Srta. Quando me levantei para ir embora. mas ela não queria ouvir. Só a vi de novo dois anos mais tarde. Mas quando saí de lá. Raoul — ela gritou estendendo-me as alvas mãos. Ela programou minha ida para o conservatório. E foi aí que entrou um senhor de meia idade. bem apessoado. — Está vendo onde cheguei? Ela fez um gesto com as mãos. Estava num estado adiantado de tuberculose. cortês. Ficava ao ar livre dia e noite. Todos os grandes médicos dizem isso hoje em dia. Sabia o que significava aquilo. não chego? Tenho o mundo todo a minha frente. sabe? Comigo são cheios de palavras de consolo. Raoul. Na minha presença. em triunfo. que posso me expressar. reconfortantes. realmente. Por onde você andou estes anos todos? Eu teria lhe dito. Ela me recebeu logo. Depois fui ao seu camarim. Ela cumprimentou-me com tal desespero que me surpreendeu. Tinha ido refugiar-se com a Srt. Mas eu sou uma artista. logo vi que era o protetor de Annette. Raoul. Tinha as faces chupadas e rubras. no palco de variedades. — Isto é maravilhoso. os olhos brilhantes e febris. Ele olhou-me de esguelha e Annette explicou: — Um amigo de infância. Mas não é verdade. E é aqui. Parecia muito fino. Estava passando por Paris. Pelo seu jeito. 160 . Sua carreira terminara. ela lançou-me um olhar de vitória e sussurrou: — Eu chego lá. Era a herança da mãe tísica. — Ora. . Slater. Canto clássico. — Aquela velha? não. não é verdade! Não vou permitir-me morrer.esplêndida no palco. e tossia repetidamente. mostrando o camarim cheio de buquês. — Que bom ver você. uma tosse seca. que nada. viu meu retrato num cartaz. Sabem o que eles dizem — que posso não me curar. Morrer? Com uma vida maravilhosa a minha frente? É a vontade de viver que conta. apanhou uma pulseira de rubis e diamantes.

riu. — Olhe para ela. Annette também viu aquele olhar. e depois caiu para trás. Eu já me sinto infinitamente melhor — infinitamente melhor. Posso mandar você fazer o que eu quiser. posso enfeitiçá-la. Olhe para ela. tomada por um acesso de tosse que lhe sacudia o corpo. os braços abertos. Você tem que fazer o que eu mandar. está ouvindo? Ela apoiou-se nos cotovelos para fazer-se entender. eu sou. Fará. — E as hemorragias não me assustam. você se ajoelharia a meus pés nesta grama. Ela jogou o copo longe. — Não me importo com o que ela diz — observou em tom monocórdio. — Mas. — Sempre me odiou. Seja por um forte apelo na voz dela ou por algum motivo profundo. — Você me odeia — gritou Annette. sim. Felicie. Um copo de leite quente. Lembre-se. exausta. — A tosse — não é nada — ela ofegou. Sou católica.Não sou daquelas pessoas fracas que se deixam levar. E então surgiu Felicie com uma bandeja. nunca ficou doente! E tudo isso para nada. Para me agradar. Pode-se levantar agora. Havia uma espécie de satisfação recalcada. Ela o deu para Annette e observou-a beber com uma expressão que não pude compreender. — Que idéia absurda — disse Felicie. Ah. você fará isso. Foi penoso. Felicie obedeceu. Está contente porque vou morrer. o rosto vazio e estúpido. não digo nada. Ela recostou-se nos travesseiros. Ela dobrou os joelhos devagar. De que lhe vale essa grande carcaça? Qual a utilidade? Felicie abaixou e catou todos os cacos de vidro. E regozija-se com isso. estará conhecendo o jogo do purgatório muito breve. pouco à vontade. Ela. Annette. que cara de burra! Como está ridícula. Raoul. Annette jogou a cabeça para trás e riu — riu. mesmo assim. De joelhos. Vou surpreender os médicos. É a vontade que conta. sem parar. Felicie apanhou a bandeja e 161 . eu vou viver. Agora mesmo. eu. se eu pedisse. mas. Sou sua dona. Estou pedindo. — O que interessa? Sou uma menina respeitável. entendem? muito penoso. — Está vendo? Ela agora só me olha assim. com raiva e este ficou em pedacinhos. De joelhos. Felicie. Quanto a ela. obrigada! Não adianta me fazer esta cara. que é forte e saudável.

contou-me. Você mesmo sabe. Mas parece que foi terrível. Eu anuí. Começou a falar de outras coisas. Poucos minutos depois entrei na Salle de Lecture. realmente não cheguei a uma conclusão sobre ela. Slater me contou tudo isso quando fui vê-la meses depois. Não vamos falar sobre isso.afastou-se devagar. Mas a maneira de dizê-lo naquela hora foi diferente — como 162 . não é? — Sempre. desde que nos encontramos depois de adultos.. Ela que era tão brilhante. Eu não estava lá quando Annette morreu. Não consigo descrever a maneira como ela disse isso. Mas Felicie. eu pensei — bom. Sempre a subestimei. Lutou contra a morte como uma louca. Depois olhou por sobre meu ombro. — Você a amava. — Ela tem talento. — Meu pobre Raoul — disse ela. ouviram? Não vou morrer. Vocês podem imaginar como fiquei.. Está morta. Raoul. Por um momento. Slater depois de um momento de hesitação — que ela está aprendendo piano? Eu não sabia. Slater. tão cheia de vida.. A garota teve uma espécie de desequilíbrio nervoso. ela sempre foi muito burra. e desde então tem agido de maneira muito estranha. Felicie aprendendo piano! Eu diria que ela não sabia distinguir uma nota da outra. — Você sabe — disse a Srta.. — Não consigo entender. E então. — Tiens! — disse ela. e o contido ressentimento de seus olhos me surpreendeu. Queria se agarrar à vida. Estava muito preocupada com Felicie. A Srta. Para Annette sempre fui Raoul. não vou dizer o que pensei. — Então é você — Monsieur Raoul. Slater era uma mulher compreensiva. sempre me chamou de Monsieur Raoul.. arquejante: — Não vou morrer. é o que dizem — continuou a Srt. carinhosamente. sempre. Era a ária que ouvi Annette cantar em Paris. A todo o momento dizia. Ela agia de maneira tão estranha às vezes. A Srta. ao ouvir-me. ela parou de repente e olhou-me com olhos zombeteiros e cheios de inteligência. e fiquei muito surpreso. Vou viver — viver.. Felicie estava tocando piano. Mas eu não servia mesmo para ela.

se enfatizasse ligeiramente a palavra Monsieur e isto fosse, de alguma maneira, muito engraçado. — Ora, Felicie! — gaguejei. — Você está muito diferente hoje. — Estou? — disse, pensativa. — Que estranho! Mas não seja tão formal, Raoul — decididamente vou chamá-lo de Raoul —, não brincamos juntos quando crianças? A vida foi feita para o divertimento. Vamos falar sobre a pobre Annette, ela que morreu e foi enterrada. Fico pensando: será que está no Purgatório? E ela cantarolou o trecho de uma canção, bastante desafinada, mas as palavras me chamaram atenção. — Felicie! Você fala italiano? — Por que não, Raoul? Não sou tão burra quanto fingia ser, talvez. — Ela riu diante de minha perplexidade. — Não entendo... — comecei. — Mas eu vou lhe dizer. Sou uma ótima atriz, embora ninguém desconfie disso. Posso fazer vários papéis e desempenhá-los muito bem. Ela riu de novo e saiu correndo da sala, antes que pudesse alcançá-la. Antes de sair, eu a vi de novo. Estava adormecida numa poltrona. Ressonava muito. Parei para observá-la, fascinado e, ao mesmo tempo, com desagrado. De repente, ela acordou como que assustada. Os olhos, sem vida e apáticos, encontravam os meus. — Monsieur Raoul — murmurou, mecanicamente. — Sou eu mesmo, Felicie. Já estou de saída. Você toca de novo para mim antes de eu sair? — Eu? Tocar? Como uma pobre coitada como eu pode tocar? Ela calou-se por um minuto, como se mergulhada em pensamento e depois aproximou-se de mim. — Monsieur Raoul, estão acontecendo coisas estranhas nesta casa! Fazem brincadeiras comigo. Alteram os relógios. Sei o que estou dizendo. E é tudo coisa dela. — De quem? — perguntei estarrecido. — De Annette. Aquela perversa. Quando era viva sempre me atormentava. Agora, que está morta, volta para me atormentar. Olhei para Felicie. Percebi que estava aterrorizada, os olhos saltando163

lhe das órbitas. — Ela é má. Ela é muito má. Capaz de tirar-lhe o pão da boca, deixá-lo desnudo, tirar-lhe a alma do corpo... De repente ela agarrou-se a mim. — Estou com medo, muito medo. Ouço a voz dela, não no meu ouvido, mas aqui, na cabeça — ela deu uns tapinhas na testa. — Ela vai levar-me para longe, levar-me para longe e, então, o que vou fazer, o que vai ser de mim? Ela já estava quase gritando. O olhar era o de um animal acuado, aterrorizado... De repente ela sorriu, um sorriso agradável, cheio de astúcia; alguma coisa nele me fez tremer. — Se eu chegar a este ponto, Monsieur Raoul, minhas mãos são muito fortes, muito fortes. Eu nunca prestara muita atenção nas mãos dela antes. Desta vez olhei-as e estremeci involuntariamente. Dedos brutos, grossos e, como dissera Felicie, terrivelmente fortes... não posso explicar aos senhores o enjôo que senti. Com mãos iguais a estas, o pai deve ter estrangulado a mãe dela. Esta foi a última vez que vi Felicie Bault. Logo depois fui para a América do Sul. Voltei de lá dois anos após a morte dela. Li alguma coisa nos jornais sobre a sua vida e a morte repentina. Esta noite ouvi maiores detalhes dos senhores! Fico pensando: Felicie 3 e Felicie 4? Bem, ela era boa atriz! O trem começou a perder velocidade. O homem do canto sentou-se ereto e abotoou o sobretudo. — Qual a sua teoria? — perguntou o advogado, inclinando-se para frente. — Mal posso acreditar que... — disse o cônego Partiff e calou-se. O médico não disse nada. Olhava fixamente para Raoul Lepardeau. — Deixá-lo desnudo, tirar-lhe a alma do corpo — citou o francês. Ele levantou-se. — Eu lhes digo, senhores, a história de Felicie Bault é a história de Annette Ravel. Não a conheceram. Eu, sim. Ela gostava muito da vida... A mão na porta, pronto para saltar, ele voltou-se subitamente, curvouse e bateu de leve no peito do cônego. — O M. le docteur, lá, acabou de dizer que isto — a mão dele deslizou pelo ventre do cônego e este encolheu-o — não passa de uma residência. 164

Diga-me: se encontrar um ladrão em sua casa o que você faz? Atira nele, não é? — Não — respondeu o cônego. — Não, quer dizer, não neste país. Mas disse as últimas palavras para o vento. A porta do vagão bateu. O sacerdote, o advogado e o médico ficaram sozinhos. O quarto canto estava vazio.

O RÁDIO
— E, acima de tudo, evite a preocupação e a emoção — disse o Dr. Meyvell naquele modo confortador simulado pelos médicos. A Sra. Harter, como quase sempre acontece com as pessoas que ouvem estas palavras reconfortantes mas sem sentido, parecia mais tomada por dúvidas do que aliviada. — Realmente existe um certo problema cardíaco continuou o médico, fluente — mas não precisa alarmar-se. Pode ficar tranqüila. — Mesmo assim — acrescentou — seria muito bom instalar um elevador. O que acha disso, hein? A Sra. Harter parecia preocupada. Dr. Meyvell, por outro lado, estava satisfeito consigo mesmo. O motivo pelo qual gostava mais de atender clientes ricos do que pobres era que, com os primeiros, podia exercitar sua fértil imaginação ao prescrever os medicamentos. — Sim, um elevador — disse o Dr. Meyvell, tentando pensar em algo ainda mais arrojado, sem conseguir. — Assim evitaremos o esforço desnecessário. Exercícios diários no plano, todos os dias, mas evite subir montanhas e, acima de tudo — acrescentou, alegre —, bastante distração para a mente. Não se concentre na sua saúde. Para o sobrinho da Sra. Harter, Charles Ridgeway, o médico foi um pouco mais explícito. — Não me entenda mal — disse ele. — Sua tia pode viver ainda muitos anos. Mas os choques ou o excesso de exercício podem tirar-lhe a vida assim! 165

— e estalou os dedos. — Ela tem que levar uma vida calma. Nada de esforços desnecessários. Nada de fadiga. Mas, é claro, não se pode permitir que fique remoendo as coisas. Tem de manter-se alegre e bem distraída. — Distraída — repetiu Charles Ridgeway, pensativo. Charles era um rapaz imaginativo. Ele também acreditava em aprofundar as próprias inclinações, sempre que possível. Aquela noite, sugeriu a instalação de um aparelho de rádio. A Sra. Harter, já bastante aborrecida com a idéia do elevador, não se mostrou de acordo. Charles era fluente e persuasivo. — Acho que não me interesso por essas novidades — lamentou a Sra. Harter. — As ondas, sabe, as ondas elétricas. Podem afetar-me. Charles, de um modo superior e bondoso, mostrou o absurdo desta idéia. A Sra. Harter, cujo conhecimento sobre o assunto era o mais vago possível, mas que era aferrada às próprias idéias, permanecia irredutível. — Toda esta eletricidade — murmurou timidamente —, você pode dizer o que quiser, Charles, mas a eletricidade afeta certas pessoas. Sempre tenho uma dor de cabeça terrível antes de uma tempestade com trovões. Eu sei. Ela balançou a cabeça, triunfante. Charles era um jovem paciente. E persistente também. — Minha querida tia Mary — disse — deixe-me esclarecer isso. Ele era bastante entendido no assunto. Fazia agora quase que uma conferência; animado, falou sobre os tipos de válvula, alta e baixa freqüências, amplificações e condensadores. Sra. Harter, submersa num mundo de palavras desconhecidas, capitulou. — Claro, Charles — murmurou —, se pensa realmente... — Minha querida tia Mary — disse ele, entusiasmado —, é a coisa mais apropriada para você, a fim de evitar o tédio e tudo isso. O elevador prescrito pelo Dr. Meyvell foi logo instalado e quase causou a morte da Sra. Harter que, como muitas outras senhoras, tinha arraigada objeção a homens estranhos em casa. Desconfiava que todos estavam de olho na sua prataria antiga. Depois do elevador, veio o rádio. A Sra. Harter ficou a contemplar o 166

sempre de bom humor e alegre. Harter com um vestígio de interesse. sentava-se na cadeira de espaldar alto. Miriam foi devolvida à mãe com uma nota lacônica. mas Miriam não correspondeu às expectativas. e a Sra. Depois de decepcionar-se com as sobrinhas. Harter voltou-se para os sobrinhos. cheia de botões. — Bruxelas — anunciou com entusiasmo. Miriam Harter. Tia Mary. meteu-se com um rapaz que a tia desaprovava inteiramente. a Sra. Estava impaciente e nitidamente amolada com a convivência. ha! — disse Charles. Charles. Mais uma vez Charles girou os botões e um uivo sobrenatural ecoou na sala. Charles nunca se entediava. — Escute. Harter não pôde deixar de sorrir-lhe. estamos pegando Berlim. com a forte convicção de que essas coisas modernas não passavam de amolações. Harter. Gostava muito dele. discursando com eloqüência ao fazê-lo. Estava sempre "vagabundeando". Harter. logo de início. paciente e educada. Fora sua intenção fazê-la herdeira. morou com ela. Nisto. Ela casou-se com o tal rapaz. — Parece que estamos no além — disse a Sra. girando os botões. Tinha sempre atitudes de deferência para com a tia. Dizia várias vezes por dia 167 . A Sra. que se aborrecia francamente e o demonstrava. hein? Muito boa essa! A Sra. Harter. como dizia a Sra.repelente objeto — uma caixa grande. Charles continuou a girar os botões. ele fazia um grande contraste com Miriam. — Fazendo suas piadinhas. — Ha. No fim. a quem ainda restava um certo senso de humor. — É mesmo? — falou a Sra. como se fosse uma mercadoria sob condições. Charles estava em seu elemento. deselegante. Durante alguns anos uma sobrinha. Harter. fez o maior sucesso. não é esplêndido? Está ouvindo o locutor? — Só estou ouvindo zumbidos e estalos — disse a Sra. e ouvia com aparência de profundo interesse as reminiscências de sua juventude. Foi necessário todo o entusiasmo de Charles para reconciliá-la com o rádio. Harter geralmente lhe manda uma caixa de lenços ou um centro de mesa no Natal.

Harter. Harter retesou-se. A Sra. falando com ela. Mas quando Charles ia jantar fora com os amigos. a música cessou por um momento. as mãos agarradas a cada braço da cadeira. A Sra. Quem sabe não cochilou por alguns minutos? Que coisa curiosa ter sonhado 168 . Charles fora jogar bridge. com um ligeiro sotaque irlandês falou: — Mary. Houve uma pausa repentina. Este lhe foi entregue devidamente aprovado por ela e assinado. Mas não era assim com Charles. no meio da Annie Laurie aconteceu uma coisa estranha. E agora. vou buscá-la breve. Ela divertia-se muito. Foi cerca de três meses depois de instalado que ocorreu o primeiro acontecimento soturno. a Sra. clara e distinta. está me ouvindo. pegar estações estrangeiras. não estará. até no caso do rádio. enquanto ele tentava. Harter escrevera uma carta ao advogado com instruções quanto à feitura de um novo testamento. A Sra. Guinchos dissonantes quebravam a harmonia. uma palestra sobre Lucrécia Borgia ou a vida nas montanhas. Harter divertia-se muito.à tia que ela era uma velhinha adorável. Não. quase que imediatamente depois. a princípio antagônica. Mary? É Patrick quem fala. Será que estava sonhando? Patrick! A voz de Patrick! A voz de Patrick nesta sala. teve a impressão de que o aparelho estava sintonizado com algum lugar muito longínquo e depois uma voz masculina. os zumbidos e estalos continuaram e depois sumiram também. entusiasticamente. Harter. feliz e em paz com o mundo. Altamente satisfeita com a nova aquisição. a Sra.. Houve um silêncio mortal.. e depois um leve zumbido fez-se ouvir. mas quando Charles não estava. Harter sentava-se confortavelmente numa cadeira ouvindo um concerto sinfônico. talvez. sentava-se na cadeira de espaldar alto e aproveitava o programa daquela noite. uma alucinação. Porque Charles não parava de mexer no rádio. Você estará pronta. tornou-se tolerante e. A Sra. finalmente fascinada. Charles logo revelou ter seus próprios louros. tinha que ser um sonho. Uma famosa soprano cantava Annie Laurie e. sem saber o porquê. O programa desta noite era um concerto. Mary? Então. Girava os botões. os acordes de Annie Laurie mais uma vez encheram a sala.

que a voz do falecido marido lhe falasse do além. Assustou-se um pouco. Quais as palavras que ele dissera? "Vou buscá-la breve, Mary. Você estará pronta, não estará?" Podia ser uma premonição? Problema cardíaco. Seu coração afinal estava envelhecendo. — É um aviso, é isso — disse a Sra. Harter, levantando-se com dificuldade e vagarosamente da cadeira e acrescentou, fazendo um comentário que lhe era típico: — E todo este dinheiro gasto no elevador! Não comentou com ninguém a experiência mas nos dois dias seguintes, ficou pensativa e um pouco preocupada. E então aconteceu de novo. Também desta vez ela estava sozinha na sala. O rádio apresentava uma seleção de músicas orquestradas; com a mesma subtaneidade de antes, esta se extinguiu. De novo o silêncio, a sensação de distância e, finalmente, a voz de Patrick, não como era em vida. Mas rarefeita, longínqua com uma estranha qualidade sobrenatural. — Patrick falando com você, Mary. Vou buscá-la muito breve... O estalido, o zumbido e novamente a seleção musical. A Sra. Harter olhou para o relógio. Não, desta vez não dormi. Acordada e em plena posse das faculdades mentais, ela ouvira a voz de Patrick. Não era alucinação; tinha certeza disso. De maneira confusa tentou pensar na teoria das ondas etéreas que Charles lhe explicara. Será que Patrick realmente falara com ela? Que sua voz fora soprada através do espaço? Faltavam comprimentos de onda, ou algo parecido. Lembrava-se de Charles ter falado em "interrupções na escala". Será que as ondas que faltam explicariam o chamado fenômeno psicológico? Não, não havia nada de impossível nesta idéia. Patrick falara com ela. Ele lançava mão da ciência moderna a fim de prepará-la para o que viria. A Sra. Harter tocou a campainha para chamar a empregada, Elizabeth. Esta era uma mulher alta, magra, de sessenta anos. Por trás de um exterior inflexível, ela escondia uma profunda afeição e ternura pela patroa. — Elizabeth — disse ela quando a fiel criada apareceu —, você se lembra do que lhe disse? A gaveta de cima do lado esquerdo da escrivaninha. Está trancada, a chave comprida com a etiqueta branca. Está tudo lá, pronto. 169

— Pronto, madame? — Para meu enterro — vociferou a Sra. Harter. — Você sabe muito bem o que quero dizer, Elizabeth. Você mesma me ajudou a colocar as coisas lá. O rosto dela mudou de expressão: — Oh, madame — ela gemeu —, não pense nessas coisas. Pensei que a senhora tava bem melhor. — Mais cedo ou mais tarde todos nós temos que ir — disse a Sra. Harter com espírito prático —; já passei dos setenta, Elizabeth. Ora vamos, não banque a boba. Se tiver que chorar, vá chorar em outro lugar. Elizabeth retirou-se fungando. A Sra. Harter olhou-a com uma grande dose de afeição. — Tolinha, mas fiel — disse ela — muito fiel. Vamos ver: deixei para ela cem libras ou só cinqüenta? Tem que ser cem. Está comigo há muito tempo. Esta dúvida a preocupou e, no dia seguinte, ela sentou-se e escreveu ao advogado pedindo-lhe para enviar o testamento de modo que ela pudesse examiná-lo. Neste mesmo dia, Charles surpreendeu-a com algo que disse no almoço: — A propósito, tia Mary — disse ele —, quem é aquele cara engraçado ali no quarto de hóspedes? Do quadro, sobre a lareira. Aquele fulano de barba e costeletas?

A Sra. Harter olhou-o, austera. — É o seu tio Patrick quando era moço — disse ela. — Desculpe, tia Mary. Sinto muito, não quis ser rude. A Sra. Harter aceitou a desculpa com um nobre inclinar de cabeça. Charles continuou, hesitante. — Eu só estava pensando. Sabe... Ele parou, indeciso e a Sra. Harter disse vivamente. — E então? o que você ia dizer? — Nada — respondeu Charles mais do que depressa. — Nada que faça sentido, quero dizer. A senhora não disse mais nada naquele momento, mas pouco depois, quando estavam a sós, ela voltou ao assunto. 170

— Gostaria que você me dissesse, Charles, o que o levou a perguntar sobre o retrato de seu tio. Charles parecia confuso. — Já lhe disse, tia Mary. Foi uma bobagem minha, uma coisa absurda. — Charles — disse a Sra. Harter com o tom mais autoritário que lhe foi possível —, insisto em saber. — Bom, querida tia, se quiser saber eu imaginei tê-lo visto — o homem do retrato — olhando pela janela dos fundos quando eu estava chegando na noite passada. Vai ver que foi algum efeito de luz. Quem poderia ser? O rosto parecia do começo da Era Vitoriana, sabe? E então Elizabeth disse que não havia ninguém, nenhum visitante ou estranho na casa e, mais tarde, por acaso me dirigi ao quarto de hóspedes e vi o quadro sobre a lareira. O mesmo homem! Mas acho que se pode explicar facilmente. Subconsciente! Devo ter visto o quadro sem dar maior atenção, e depois imaginei ver o rosto na janela. — Janela dos fundos? — perguntou rápido a Sra. Harter. — Foi, por quê? — Por nada — disse a Sra. Harter. Mas ela estava abismada. Este havia sido o quarto de vestir do marido. Na mesma noite, na ausência de Charles, a Sra. Harter sentou-se para ouvir o rádio com profunda impaciência. Se ela ouvisse pela terceira vez a voz misteriosa, provaria que, sem sombra de dúvidas, estava se comunicando com um outro mundo. Embora o coração batesse rápido, ela não se surpreendeu quando houve a interrupção, e depois do costumeiro intervalo de silêncio profundo, a voz irlandesa vinda de longe falou mais uma vez: — Mary — agora você está preparada... Na sexta-feira venho buscála... sexta-feira às nove e meia... Não tenha medo, não haverá dor... Esteja pronta... E então, quase que cortando a última palavra, a orquestra irrompeu de novo, estrepitosa e dissonante. A Sra. Harter permaneceu sentada, muito quieta, por um ou dois minutos. Seu rosto ficara pálido, e os lábios arroxeados. Pouco depois ela levantou-se para ir sentar-se à escrivaninha. Numa caligrafia um tanto tremida, escreveu as seguintes linhas: 171

Esta noite, às 9:15 ouvi distintamente a voz de meu falecido marido. Ele me contou que viria me buscar na noite de sexta-feira, às 9:30. Caso eu morra neste dia e a esta hora, gostaria que estes fatos fossem divulgados para provar a indubitável possibilidade de comunicação com o mundo espiritual. MARY HARTER. A Sra. Harter releu o bilhete, colocou-o dentro de um envelope e endereçou-o. E então ela tocou o sino o qual foi prontamente respondido por Elizabeth. A Sra. Harter levantou-se e entregou o bilhete, que acabara de escrever, à criada. — Elizabeth — disse ela —, caso eu morra na sexta-feira à noite gostaria que você entregasse este bilhete ao Dr. Meyvell. Não — disse ela, quando Elizabeth ia começar a protestar —, não discuta comigo. Muitas vezes você me disse que acreditava em premonição. Estou tendo uma agora. E há mais uma coisa: no meu testamento, deixei-lhe 50 libras. Gostaria que recebesse 100. Se não puder ir ao banco, antes de morrer, o Sr. Charles se encarregará disso. Como da outra vez, a Sra. Harter abreviou os protestos de Elizabeth. De acordo com seus planos, a Sra. Harter falou ao sobrinho sobre o assunto, na manhã seguinte. — Lembre-se, Charles, se alguma coisa me acontecer, Elizabeth deve receber 50 libras extras. — A senhora tem andado muito melancólica estes dias, tia Mary — disse Charles à guisa de animação. — O que lhe vai acontecer? De acordo com o Dr. Meyvell, nós vamos celebrar seu centésimo aniversário daqui a uns vinte anos. A Sra. Harter sorriu-lhe carinhosamente, mas não respondeu. Pouco depois disse: — O que vai fazer sexta-feira à noite, Charles? Charles ficou um pouco surpreso. — Bem, os Ewings me convidaram para jogar bridge, mas se a senhora quiser que eu fique em casa... — Não — respondeu ela com determinação. — Claro que não. De verdade, Charles. Esta é a noite em que mais quero ficar sozinha. Charles olhou-a, curioso, mas a Sra. Harter não deu mais nenhuma 172

E então. carinhoso. Harter não tinha dúvidas quanto às suas sensações. Selecionou e arrumou todos os pertences pessoais e colocou etiquetas em uma ou duas jóias com nomes de amigos ou parentes. Estava com medo. tirara 50 libras em dinheiro e os entregara a Elizabeth. O rádio foi ligado. Ela mal percebia.. Charles ficaria rico.. mas agora o olhara novamente para refrescar a memória. um som que conhecia muito bem. Harter sentou-se. Os vasos Sèvres ao jovem William. na cadeira de espaldar alto. Hopkinson. Achava que devia passar por esta experiência sozinha. Embora repetisse estas últimas palavras para si várias vezes. A noite de sexta-feira encontrou a casa muito silenciosa. seu coração batia descompassado. Era um documento curto. Era uma mulher corajosa e decidida. mas chegara ao ponto de um colapso nervoso. Fizera todos os preparativos. Ela olhou para o relógio. O serviço de Chá Worcester destinava-se à prima Emma. apesar dos chorosos protestos. 173 . também escreveu uma lista de instruções a Charles. Veio de novo. A Sra. Em vez disso. muito calma. de acordo com as instruções dela. Sempre bondoso. um vento gelado pareceu varrer a sala. Bem. ele sempre fora um amorzinho para ela. e assim por diante. Quando ela morresse. mas que esta noite a fez sentir como se uma mão de gelo lhe apertasse o coração: passos hesitantes na porta da frente. com um papo tão alegre que nunca deixou de agradá-la. Uma doação de 50 libras para Elizabeth Marshall com reconhecimento aos serviços prestados. Já o havia lido com todo o cuidado. Bom.. perto da lareira. A Sra. duas legações de 500 libras para uma irmã e uma prima em primeiro grau. O que ouviria ela? Uma voz conhecida anunciando a previsão do tempo ou uma voz longínqua de um homem que já morrera há vinte e cinco anos? Mas não ouviu nenhuma das duas. Harter meneou a cabeça. Ela olhou para o comprido envelope que segurava e tirou de dentro um documento dobrado. conciso. Agora a Sra. ela estava pronta. e o restante ao querido sobrinho Charles Ridgeway.. Nove e meia. Naquela manhã fora ao banco. escutou um som familiar. E calma. Faltavam três minutos para as 9:30. Tratava-se do testamento que lhe fora enviado pelo Sr. como de costume.informação.

Um passo macio do outro lado da porta — um passo hesitante. oscilando ligeiramente de um lado para o outro. Só dois dias mais tarde Elizabeth lembrou-se do bilhete que a patroa lhe entregara. Patrick é agora um estranho para mim. a autópsia não passava de formalismo.. ele retirou um certo fio que ia da parte posterior do rádio ao quarto dele. Meyvell foi logo chamado. ele pedira a Elizabeth para acender a lareira no quarto. — Alguma coisa deste tipo. de barbas e costeletas castanhas trajando um casaco do começo da Era Vitoriana. Na obscuridade do vão da porta. E também já que a noite fora fria.. e quando chegou realmente a hora ela morreu do choque. no andar de cima. os olhos fixos no vão da porta. E então a porta foi aberta silenciosamente. — Nestas circunstâncias. A Sra. Terror! Era isso o que a invadia.mais do que com medo.. Ela desabou no chão enroscada sobre si mesma. Harter cambaleou. Patrick viera buscá-la! Seu coração deu um terrível salto e permaneceu quieto.. ela se pôs a pensar: vinte e cinco anos é muito tempo. Dr. E ali Elizabeth achou-a. 174 . — Auto-sugestão? — perguntou Charles. quando toda a casa dormia. Charles assentiu compreendendo. ela estava aterrorizada. e alguma coisa escorregou-lhe dos dedos indo cair na lareira. Dr. Deve ter chegado a tal ponto de excitação que foi fatal. de repente. A Sra. uma hora depois. Vou lhe dar o resultado da autópsia logo que possível. E. Meyvell leu-o com grande interesse e mostrou-o a Charles Ridgeway. Na noite anterior. — Uma coincidência curiosa — disse ele — É claro que estava tendo alucinações com a voz do falecido marido. Mas não havia nada que pudesse ser feito. uma figura familiar. Harter ultrapassara o plano da ajuda humana. embora eu não tenha nenhuma dúvida. e Charles Ridgeway veio correndo do jogo de bridge. Ela deu um grito abafado que lhe morreu na garganta.

no sótão. O advogado sentou-se e. Harter nunca fizera segredo de suas intenções. Bom. Acreditava estar a salvo. Charles desvencilhou-se de tudo de maneira eficiente e metódica. Charles. com uma tosse seca. Suas atividades. cujo esboço se formou pela primeira vez quando o Dr. — Mas é claro — ouvi minha tia dizê-lo. Graças a — sim — a uma peça que pregou. acompanhando uma corrente oculta dos próprios pensamentos. tivera um êxito admirável. pensou Charles. Ninguém. o jogaram onde o futuro lhe reservava as sombras de uma prisão. em relação a isso estava salvo. sorriu para si mesmo. a estes pensamentos. Meyvell lhe contou que a tia viveria por muitos anos se levasse uma vida moderada. não levantasse uma quantia considerável de dinheiro. Harter. 175 . Dr.na qual queimou uma barba castanha e costeletas. Reprimindo uma tendência a assoviar. Um choque repentino. Não se preocupava. pois a Sra. Quando o médico saiu. Reservas de trens para os parentes vindos de longe. vestiu uma máscara de adequada seriedade e dirigiu-se à biblioteca. Charles entregou-se às tarefas mecanicamente. muito menos a falecida tia sabia da situação periclitante em que Charles se encontrava. este jovem carinhoso. Sr. O senhor parece ter a impressão de que estamos de posse do testamento da Sra. Hopkinson gostaria de vê-lo. Eliza-beth apareceu para anunciar que o Sr. Fazendo coro. — Não entendi a carta que me escreveu. Já não é sem tempo. adorado pelos mais velhos. Certas roupas da época vitoriana pertencentes ao falecido tio ele recolocou no baú rescendente a cânfora. Meyvell dissera. por um quarto de século fora o advogado da Sra. nada de criminoso. agora estava tudo bem. Harter. Um ou dois deles iriam passar a noite. em poucos meses. Seria desmascarado e arruinado se. O plano. pôs-se a falar de negócios. as quais escondera de todos. Ridgeway. Charles sorriu para si mesmo. Uma ótima tacada comercial! Era este seu maior peso. Era agora um homem rico. Ali cumprimentou o meticuloso cavalheiro que. Alguns preparativos finais para o funeral tinham que ser feitos. bem oportunamente.

Já procurara nos documentos da Sra. Sabia como era o testamento — a pobre da patroa o tinha nas mãos na manhã de sua morte. Ela veio de imediato. é verdade. Sentiu uma longínqua premonição de contratempo. e respondeu a todas as perguntas. Ele levantou-se e dirigiu-se à escrivaninha. Harter nos escreveu pedindo que mudássemos o testamento para ela. — Sem dúvida estará entre os documentos dela — continuou o advogado.— Ah. É verdade. terça-feira passada. O testamento estava dentro de um envelope azul comprido. Pouco depois quando já se tinha controlado. Ela me disse. sim senhor. Elizabeth. falou com o advogado. Hopkinson. o havia feito. Este examinou-o e fez um movimento afirmativo com a cabeça. Tinha certeza de que não vira nenhum documento. — Estavam? — É o que disse. — Tem certeza? — perguntou o advogado. triste e empertigada. Pouco depois voltou com um envelope na mão e entregou-o ao Sr. Eu botei na escrivaninha. — Alguém já examinou os pertences dela? — perguntou o advogado. Não confiava na própria língua. E me fez aceitar 50 libras em notas. — Isso mesmo — disse o Sr. Os dois homens olharam para Elizabeth. — Agora estou me lembrando — continuou Elizabeth — que este mesmo envelope azul estava nesta mesa na manhã seguinte — mas vazio. — Este é o envelope no qual mandei o testamento na terça-feira passada. O Sr. Já examinara todas as roupas e pertences da patroa. Charles não disse nada. calmamente. Hopkinson. Uma sensação desagradável começou a apossar-se de Charles. Charles respondeu que a empregada. Harter e estava certíssimo de que o testamento não se encontrava entre eles. A voz soou-lhe irreal e ele teve a sensação de água gelada atravessando-lhe a espinha. A Sra. Hopkinson sugeriu chamá-la. Estávamos de posse dele. — Tenho. — Me lembro de tê-lo visto lá — disse Charles. 176 .

Com um choque. Se não. é só isso.— Mais alguma coisa.. — Espere um minuto — disse o advogado. repousando a mão trêmula sobre a mesa. Elizabeth saiu. e que tia e sobrinho tenham tido uma discussão sobre o assunto. descrença total. deu-lhe a quantia em dinheiro. Que quadro era este que lhe aparecia diante dos olhos? Uma senhora com a mão no coração.. — Por enquanto não. Mas não era verdade! Charles conheceu um dos momentos mais amargos de sua carreira: acreditaram nas mentiras dele. digamos... senhor? — perguntou respeitosamente.. até o fim.. Hopkinson sem olhar para ele. sempre estava acesa... 177 . Sua tia pediu o testamento para destruí-lo. — Mas por quê? — gritou Charles. Charles inclinou-se para a frente.. desentendimento com sua tia. se não aparecer? — Temo que só há uma conclusão plausível.. Hopkinson balançou a cabeça. Que ironia! Claro que a tia não queimou o testamento! Claro que.. E nada mais natural supor que estes mesmos boatos tenham chegado aos ouvidos da Sra. — Por quê? O Sr. Charles arfou: — Não. Como não queria que Elizabeth saísse perdendo. — Obrigado. obrigado. — Não teve nenhum. O que este velho não teria ouvido? Boatos sobre os atos de Charles podem ter chegado aos ouvidos dele. caindo nos braços incandescentes. Hopkinson tossiu. um papel. estacou de repente. Agora que falava a verdade. Sr. — Ah! — exclamou o Sr. algo caindo. — O que o senhor acha? A que conclusão está chegando? O Sr. — A lareira estava acesa naquela noite? — Sim senhor. — Bem. descontrolado. Elizabeth dirigiu-se à porta. Ridgeway? — murmurou. Harter. uma tosse seca. — Ainda devemos ter esperanças de que apareça. na verdade nós nos entendíamos às mil maravilhas.. Charles percebeu que não era acreditado...

Harter. Alguém devia estar rindo.. Harter deixa tudo para a sobrinha. a Sra. estridente. o senhor está doente? Que se danassem todos! O presunçoso advogado. Aquele médico venenoso. Ridgeway? Achei que gostaria de saber. Depois olhou novamente para o homem à sua frente.. Ele sentiu que alguém estivera brincando com ele — brincando com ele como gato e rato. Estava consciente da voz do advogado. a voz bondosa e cordial. 178 . idiota.? — Há um antigo testamento da Sra.. Ridgeway. — Desculpe-me — disse Charles —.. agora Miriam Robinson. Miriam Harter. — É você. típica dele. Mas Charles tinha batido o telefone. com o marido indefinível e os quatro fedelhos chorões.Charles empalideceu. Mayherne ajustou o pince-nez e limpou a garganta com uma tosse sequinha. Pensei que gostaria de saber. Pode servir-lhe de consolo. Mas. Era o médico.. meu caro rapaz. — Tudo caminhou para o melhor desfecho. 1920. Nenhuma esperança à sua frente — só a sombra da parede da prisão. Toda sua inteligência para Miriam! O telefone soou. acusado de homicídio culposo. um pouco mais alto. De acordo com ele. Mesmo com o extremo cuidado ela não viveria mais do que dois meses. sabe. É de setembro. Ouviu uma voz rouca — a sua própria voz — perguntar: — E se este testamento não for encontrado. ainda em vigor. o problema cardíaco era bem mais sério do que supunha quando ela estava viva. incomoda-se de repetir? — Ela não viveria mais de dois meses — disse o médico.. Sr.. na verdade.. TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO O Sr. O que este velho tolo estava dizendo? Miriam? Miriam. A causa é a que antevi. falando como que a distância: — Santo Deus. Acabamos de fazer a autópsia. Ele atendeu-o.

Sua voz. era seca mas não destituída de compreensão. Quero saber até que ponto as coisas estão contra o senhor para depois traçar a melhor linha de defesa. E então. sem esperança. Mas. — Mas por Deus! Juro que não sou! Sei também que o caso está negro contra mim. Tossiu de novo. involuntariamente. Mas não fui eu. — Devo deixar bastante claro de novo que o senhor corre um sério perigo e que é necessária a maior franqueza. para qualquer lado que vire. — O senhor está certo. — Pensa que sou culpado — disse Leonard Vole. culpado. tirou o pince-nez. O Sr. poliu-o com cuidado para recolocá-lo novamente no nariz. Agora. um tolo. — É negra a situação. vamos aos fatos. com suas próprias palavras. Mayherne era bem alta. No meio da rua ela 179 . que estivera olhando. de maneira alguma. e o prisioneiro. Vole. na verdade. sério. aceito sua afirmação. pela primeira vez. transferiu seu olhar para o advogado. Carregava uma porção de pacotes. como conheceu a Srta. para não dizer de maneira afetada. Mayherne sabia disso. O Sr. Sr. Sr. não fui eu! Em tais condições. em voz baixa. um par de olhos astutos e penetrantes. Mayherne era baixo. Leonard Vole. Podia ser que. Mayherne era prático. — É o que vem me dizendo. O homem continuava a olhá-lo do mesmo modo. Mas acho que ainda não me conscientizei de que me acusam de assassinato — assassinato. Vole — disse. perplexo. Mas agora.O Sr. como advogado. Mayherne. aturdido. — Eu sei — disse. sim. meticuloso. estou preso. vamos fazer um tremendo esforço para libertá-lo e teremos êxito — teremos êxito. todo homem protesta inocência. Mayherne o caso parecia bastante negro. afinal de contas. para a branca parede à sua frente. sem esperança. ficou em dúvida. Leonard Vole fosse inocente. meu caro Sr. É como se tivesse sido apanhado por uma rede. Não era. — Foi um dia na Oxford Street. Um crime tão pérfido. ao falar com o cliente. estava impressionado. nada emotivo. Quero que me conte. Mas tenho que saber de todos os fatos. Aos olhos do Sr. Mesmo assim. Emily French. disse: — Sim. Vi uma senhora muito velhinha atravessando a rua. vestido com apuro. a reputação do Sr. sim. Agora.

tirei a lama da melhor maneira que pude. — começou Leonard Vole. realmente. Conversamos durante alguns minutos. viu que um ônibus quase a pegou e. excêntrica. Então soube que se tratava da Srta. Vivia de maneira simples. Deu um valor enorme ao que fiz. Ela ficou extremamente grata. disse algo sobre meus modos. como seria grosseiro recusar. Disseram que era rica. Claro que agora já passou algum tempo. desde logo revelado? — Se quer saber se eu perguntei.. que teria o maior prazer em fazê-lo e ela pediu-me para marcar o dia. pelo menos no início. que morava sozinha com uma empregada. Emily French e que ela vivia em Cricklewood. French fosse uma senhora de posses. exatamente. quase que humildemente. e que tinha nada mais nada menos que oito gatos. Ela reconheceu-me de imediato e pediu que lhe fosse apresentado. — O fato dela ser rica foi. Mayherne. cambaleando conseguiu chegar ao meio-fio. Quem foi. marquei para o sábado seguinte. — Acha que ele se lembraria de ter contado? — Não sei. não me lembro das palavras exatas. Mas a vida é cheia de coincidências. mas o Sr. tentou recuperá-los. então. um ato simples que qualquer um teria executado. encontrei-a numa festa na casa de um amigo. Recuperei os embrulhos. Depois que ela saiu.. Respondi. agradeceu-me carinhosamente. — Compreendo — disse o Sr.deixou-os cair. — Tenho que considerar o caso da maneira pela qual será apresentado pelo outro lado.. Acho que era o tipo de pessoa que fantasiava o ato dos outros. irado. Não esperava vê-la de novo. 180 . diferente dos jovens da minha geração. os amigos contaram-me coisas sobre ela. amarrei de novo um deles e devolvi-os a ela. Não tinha muita vontade de ir. Mayherne acalmou-o com um gesto. com certeza acharia que ela estava na miséria. Na noite deste mesmo dia. Um observador comum não iria supor que a Srta. é claro. A não ser que fosse informado do contrário. Tudo o que fiz foi ser cortês. que lhe contou da riqueza dela? — Meu amigo. em cuja casa houve a festa. Ao sair. apertou-me carinhosamente a mão e pediu-me para ir visitá-la. — Quer dizer que não chegou a salvar-lhe a vida? — Ah. sã e salva. George Harvey. perplexa por ver que as pessoas gritavam para ela. Depois tirei o chapéu e fui embora.. não. mas.

acredite ou não. Não estou discutindo. French. o primeiro objetivo da acusação é afirmar que o senhor estava em má situação financeira — e isto é verdade. — Acredito que sim.. levando-o a pensar que esta conversa ocorreu mais tarde? Leonard Vole refletiu por alguns minutos. e a amizade prosseguiu. e uma ou duas delas caçoaram de mim por ter conquistado uma velha rica. — Não sei. — Tenho estado numa maré de azar.— É verdade. dificilmente. — Infelizmente. Persistir nesta linha seria um desastre. não é? Leonard Vole corou. teria alguma coisa em comum? Leonard Vole estendeu as mãos num gesto nervoso. não sei dizer não. Sr. Mas dou-lhe os parabéns pela resposta franca. Como sabe. Ela mostrou claramente que gostava de mim e fiquei numa posição embaraçosa. Seu julgamento é bastante acertado. Mayherne de novo. apreciador de esportes. em má situação financeira. Depois disse de maneira segura. Mayherne. Será que ele se lembra da conversa ou não? A acusação pode confundi-lo. Agora. Quero situar-me em seu próprio benefício. e achei difícil recusar. minha natureza é fraca.. — É verdade — disse o Sr. se pudesse ser dito que não tinha a mínima idéia de que ela era rica e que a visitava por pura bondade. — E assim. com a qual. falou da solidão em que vivia. O advogado tentou esconder a decepção fazendo um gesto vago. Como vê. devotava tanto do seu tempo a uma mulher mais velha. Depois da primeira visita ela pressionoume para voltar de novo. querido pelos amigos. Sr. E. boa aparência. Sr. um jovem de trinta e três anos. visitou-a. Vole. Por que o senhor. Temos que abandonar este ponto. depois da terceira ou quarta visita. Vole. — Sim — disse baixinho. — Que é o caso. comecei a me 181 . Mayherne. Várias pessoas presentes ouviram esta observação. Queremos uma razão clara para tudo isso. O senhor conheceu a Srta. Sr. Harvey. Estou vendo a coisa sob outro prisma. encontrou esta senhora rica e cultivou-lhe a amizade. Muita coisa depende da memória do Sr. o rosto um tanto pálido: — Acho que esta linha de raciocínio não teria êxito. não sei explicar.

— Aceito sua explicação. caçando pretextos para trazê-lo à sua casa. continue sua narrativa. French. Sr. — Foi o que ela me disse. Ela também morreu antes que eu completasse quinze anos. Leonard Vole ficara envaidecido. e estava preocupada com alguns investimentos. Pouco depois fez outra pergunta: — E o senhor lidou com os negócios a pedido dela? — Lidei. declarou que a patroa era uma boa mulher de negócios e sabia lidar com o dinheiro. O Sr. Emily French fora uma mulher de muita força de vontade. Mayherne. Vole. Tudo isso passou rapidamente pela cabeça do Sr. Embora não tivesse a menor intenção de dizê-lo. e pedir que a ajudasse nos seus investimentos. Mayherne não riu. fascinada pelo rapaz de boa aparência. O Sr. Se lhe dissesse que realmente gosto de ser mimado. que é psicologicamente provável. Vole — disse. Mayherne olhou-o. Conhecia um pouco a mentalidade das mulheres mais velhas. — Não posso fazer nada — disse Vole ardentemente. finalmente. . — Creio. Vole — disse o advogado —. Mayherne olhou-o por alguns minutos em silêncio. Sr. também. sua crença na inocência de Leonard Vole reforçou-se neste momento. Perdi mamãe quando era jovem e fui criado por uma tia. o que é sustentado pelos bancos com os quais operava. acho que iria rir. tirou o pince-nez e poliu-o de novo. French pediu-lhe que cuidasse dos negócios dela? — Depois de minha terceira ou quarta visita. Janet Mackenzie. Entendia pouco de assuntos financeiros. ela não fosse avessa à idéia de deixar o jovem saber que era rica. para a qual uma resposta honesta 182 é de vital importância. mas ele não deu nenhum sinal disso. sério. vou fazer-lhe uma pergunta muito séria. — Tenha cuidado. Visualizou a Srta. Talvez. Em vez disso. mesmo. Era bastante mulher para perceber que qualquer homem fica ligeiramente lisonjeado por um reconhecimento de sua superioridade. disposta a pagar seu preço pelo que queria. um sinal de que pensava profundamente. — Sr. O Sr. Quando foi que pela primeira vez a Srta. Nada mais indicado que alegar ignorância do mundo dos negócios. Mas será que um júri acreditaria? Por favor. A empregada.afeiçoar realmente pela velha.

No caso de ter cultivado a amizade de uma velha rica para tirar dinheiro dela. de acordo com sua própria afirmação. Agi. Só depois de firmemente recolocado no nariz. que não pudesse ser trazida à luz? — Ele sufocou a resposta do outro. repetiu o gesto inconsciente com o pince-nez. salientando que seria pouco provável que o senhor cometesse homicídio para obter dinheiro que podia ser conseguido de diversas maneiras mais fáceis. sabia muito pouco ou nada sobre negócios. houver qualquer coisa em suas transações que sirva de trunfo para a acusação ou. French deixou um testamento pelo qual o senhor é o principal beneficiário? — O quê? — O prisioneiro levantou-se de um salto. — Espere um minuto antes de responder. sempre. o senhor estava na lona. Seu terror era flagrante. converteu para o próprio uso os títulos com os quais lidava? Meteu-se em alguma transação. Sr.Financeiramente. Se. Acredito que seja bastante inteligente para não mentir sobre assunto tão importante. Vê a diferença. Vole. já que ela era uma fonte de renda valiosa para o senhor. French de alguma maneira. ele falou: — O senhor não tem conhecimento. de que a Srta. — O senhor me deu um grande alívio. ansioso —. não é? Agora eu lhe peço que reflita antes de responder. da melhor maneira. em linguagem mais simples. — Certamente — disse Vole. o ponto mais forte a meu favor é a falta de motivo. French eram todas perfeitamente honestas. por outro lado. — Obrigado — disse o Sr. — Meu Deus! O que o senhor está dizendo? Ela deixou o dinheiro para mim? 183 . devemos dizer que não havia motivo para o assassinato. — Minhas transações com a Srta. de alguma maneira. para seu próprio lucro. Há dois caminhos abertos para nós: um é mostrar sua honestidade e probidade ao conduzir os negócios da falecida. não é assim? O advogado olhou-o fixamente. Mayherne. genuíno. não é? Certamente a morte dela frustra todas as minhas esperanças. como qualquer um pode constatar se fizer uma boa averiguação. se puder ser provado que o senhor ludibriava a Srta. defendendo os interesses dela. Mas Leonard Vole não levou quase nada para responder. bem devagar. Então. Tinha em mãos os negócios de uma senhora — uma senhora que. que é a essência do que o senhor estava dizendo. O senhor alguma vez.

claro que não! Que motivo teria ela? — Não sei — disse o Sr. Janet é uma mulher idosa. Ela foi. Vole sentou-se de novo. realmente. — Janet. consegui que ela fizesse um testamento deixando o dinheiro para mim e depois fui à casa dela naquela noite em que não havia ninguém — e a encontram no dia seguinte — oh! Meu Deus. 184 . subiu. — Acha que ela antipatiza com o senhor a' ponto de mentir deliberadamente sobre o assunto? Leonard Vole parecia chocado. — Finge não saber nada sobre este testamento? — Fingir? Claro que não há o menor fingimento. — Às nove e meia — disse Leonard Vole.. French confiou-lhe suas intenções e que ela ou não entendeu bem alguma coisa que foi dita ou convenceu-se de que eu persuadi a velha solteirona a fazer isso. French lhe tenha dito isso. a Srta. — Não. Não sabia de nada. irá jurar que uma delas era a Srta. — Às nove e meia. como se lembra. Eu a cortejei. jura que o senhor sabia. — É terrível. que coisa horrível! — Está enganado quanto a não ter ninguém em casa — disse o Sr. a cabeça entre as mãos. Diria que ela agora acredita que. Sempre foi fiel à patroa. O desafortunado rapaz gemeu de novo. apanhou o tal modelo e saiu de novo. Entrou pela porta dos fundos. e não gostava de mim. — Mas ela está sendo implacável. é isso o que vão dizer. Ouviu vozes na sala de visitas e. mas às nove e meia voltou para apanhar o modelo de uma manga de blusa que tinha prometido a uma amiga.O Sr. Mayherne pensativo. deveria sair naquela noite. Mayherne. perplexo.. — O que diria se lhe contasse que a empregada. embora não pudesse entender o que diziam. Janet Mackenzie. Eu diria que a Srta. Que a patroa lhe contou claramente que o consultara sobre o assunto e que o informara de suas intenções? — O que diria? Que está mentindo! Bom. Mayherne bateu a cabeça em sinal afirmativo. — Estou começando a compreender — murmurou. French e a outra de um homem. Tinha ciúmes e era desconfiada.

minha esposa. — Isto vai adiantar muito pouco. Vou visitá-la logo que sair daqui. ela volta hoje à noite. a polícia nunca se teria desviado da pista certa. Quando saí da casa da Srta. — As coisas que estão faltando não têm o menor valor. mas ela estava ausente quando o senhor foi preso. Tenho um álibi.. de qualquer jeito — acrescentou mais animado —. — É — disse Vole. Oh! Graças a Deus — Graças a Deus! Bendito modelo de manga de Janet Mackenzie. Quem. Lembre-se de que forçaram a janela. era o homem que Janet ouviu conversando com a Srta. — Então. em sua opinião? — Ora. Vole — disse o advogado. e encontraram esta ferramenta no chão. — Já devia tê-la visto. O senhor tem que ver Romaine. logo de uma vez. às nove e meia não estava mais na casa. — Claro. — É. Ela foi morta por um forte golpe de um pé-de-cabra. Mayherne. — O que quer dizer com salvo? — perguntou o Sr. — Por volta das nove e meia estava de volta em casa! Minha esposa pode provar isso. — Mas então estou salvo — salvo. Sr. Mas as palavras deste o trouxeram de volta à realidade. um ladrão. foram levadas para deixar uma pista falsa. ao lado do corpo. Não fosse pela desconfiança absurda e a antipatia de Janet por mim. Vole.. Em sua exuberância.. Cheguei em casa por volta das nove e vinte. French. estou fora disso. Sr.Pôs-se de pé de um salto. Faltavam várias coisas. Vole anuiu. French na sala de visitas? É bem difícil que tenha tido uma conversa amistosa com um ladrão. Minha mulher estava lá me esperando. E as marcas na janela não são decisivas. o senhor diz que. atônito. é claro. — Mas. Pense bem. mal notou que a grave expressão do rosto do advogado não se alterou. French faltavam uns cinco minutos para as nove. Comuniquei-me de imediato com a Scotland e. como pensaram a princípio.. mas o senhor gosta muito de sua esposa? 185 . Romaine vai contar-lhe. — Certamente — aquiesceu o advogado. — Ele parecia confuso e desesperançado. uma expressão de grande alegria tomando conta de seu rosto. então. pelo que entendi. Meu Deus! Que sorte! — Desculpe-me. quem matou a Srta.

. não sei.. French me emprestasse algum dinheiro. — Só mais uma coisa: a Srta. French? — Não. mas o coração do advogado ficou um pouquinho mais apertado. — Francamente. hesitou. Por quê? Pela primeira vez Leonard Vole hesitou ao responder: — Bem. Percorri parte do caminho de ônibus. Como o senhor sabe. O testemunho de uma esposa apaixonada teria crédito? — Alguém mais o viu voltar às nove e meia? Uma empregada.. cheio de dúvidas. Ela faria qualquer coisa por mim. French sabia que o senhor era casado? — Ah. 186 . — Sabia que Janet Mackenzie diz que a patroa acreditava que o senhor fosse solteiro. não consigo entender sua atitude. eu estava duro. Mayherne apressou-se em dizer. Ele falava com entusiasmo. é? — Pode ser que não — o Sr. — Mais uma vez o constrangimento.— Claro. — O fato permanece. Tinha esperanças de que a Srta. Sua esposa não chegou a conhecer a Srta. não há ninguém que possa confirmar o testemunho de sua esposa? — Não.. por exemplo? — Não temos empregada. Mayherne abanou a cabeça. — Encontrou-se com alguém na rua quando voltou? — Ninguém que conhecesse. sabia. — Que absurdo! Ela era quarenta anos mais velha do que eu. O motorista pode ser que se lembre. O Sr. Vole corou. — Mesmo assim o senhor nunca levou a esposa para vê-la. Mas isto não é necessário. — Então. e então disse: — Vou falar com a maior franqueza. — Não é um fato inédito — disse o advogado secamente. e que tinha esperanças de futuramente se casar com o senhor? Vole riu. — E ela do senhor? — Romaine me adora.

Espero prová-lo e fazer-lhe justiça. Nunca se falou em casamento. O advogado balançou a cabeça enquanto saía. Não disse nada e deixei a velha pensar o que quisesse. — Ela o odeia. isto é imaginação de Janet. Os Voles moravam numa casinha velha perto de Paddington Green. — Agora vamos à Sra. Ela me disse que era como se eu fosse seu filho adotivo. Sr. De novo. Quanto a isso não há dúvidas. apesar dos fatos estarem contra você. Mayherne calmamente. Vole já chegou? — Chegou já faz mais de uma hora. Depois fechou-lhe a porta na cara. — Tudo gira em torno do testemunho de Janet Mackenzie — disse o Sr. entusiasmado. por causa de Romaine. Mas.Ela gostava de mim. — Por favor. desconfiada. Vole — disse para si mesmo. — Isso é tudo? — É. Houve um pouco de hesitação nestas palavras? Foi o que o advogado pensou. Não sei se o senhor pode vê ela. — Até logo. Vole. limpou a mão no avental e apanhou o cartão. E para lá o advogado se dirigiu. a Sra. e falou num raro impulso: — Acredito na sua inocência. — O senhor vai ver que tenho um bom álibi — disse. que estávamos separados. Vole sorriu para ele. tenho certeza de que ela irá receber-me — disse o Sr. eu queria o dinheiro. — Ele olhou o rosto conturbado do rapaz. A mulher olhou-o. isso é tudo. Ficara bastante perturbado pelo rumo que as coisas iam tomando. poucos minutos depois. Ele levantou-se e estendeu a mão. ela voltou ligeiramente mudada: 187 . obviamente uma empregada doméstica. e deixou-o esperando do lado de fora. Mais tarde descobri que estava convencida de que não vivíamos bem. Mayherne. mas não estava nem um pouco interessada nas lutas de um jovem casal. Atendeu a campainha uma mulher desleixada. Mayherne. mal notou que o outro não respondeu. Sr. — Se levar o meu cartão. — Ela não pode me odiar — protestou o jovem.

— Ela hesitou. — Isto é o que quero saber — disse ela. Estava perfeitamente calma. — Ele quer que eu diga que ele chegou às nove e meia aquela noite? — Ele chegou às nove e meia. Ele calou-se. Quero saber p pior. Mayherne teve consciência de que estava diante de algo que não entendia bem. O Sr. Agora. ele não se apercebera de que era estrangeira. Quero saber de tudo. bem quieta. se viu diante de uma mulher alta a pálida que entrara tão silenciosamente que ele não ouviu. Ela chegara muito depressa ao X do problema. — Não é esta a questão — ela disse friamente. — Sr. — Vamos.. Desde o começo.— Entre. Mayherne repetiu a entrevista com Leonard Vole. Tão quieta que fazia a pessoa sentir-se pouco à vontade. Não tente pouparme. o Sr. Ela escutou atenta. aquiescendo de quando em vez. O Sr. — Eles vão acreditar em mim? O Sr. por favor. de repente. muito quieta. não é? Quer sentar-se? Até ela falar. Mayherne? O senhor é o advogado de meu marido. — Entendo — disse ela quando ele terminou. Mayherne pôs-se a examinar um desenho na parede e. Era óbvio que Romaine Vole não tinha a menor intenção de desanimar. — Conte-me tudo. — Será o suficiente? Alguém mais poderá confirmar meu depoimento? Havia um quê de ansiedade reprimida nos seus modos que o fez sentir-se ligeiramente inquieto. ninguém — disse. — Até agora. com uma curiosa ênfase que o advogado não entendeu:— Quero saber o pior. Mayherne estava estupefato. relutante. — Compreendo — disse Romaine Vole. e um ligeiro e ocasional movimento de mãos nada inglês. depois repetiu falando mais baixo. Ela permaneceu sentada. não foi? — perguntou o advogado. observando-a mais de perto. Ela levou-o a uma salinha de visitas. Um sorriso 188 . Uma mulher estranha. o cabelo negro-azulado. Vole — disse ele — a senhora não deve desanimar. notou as maçãs salientes do rosto. por favor. Sra.. por alguns minutos.

. Vole.... concentrava-se agora no tom da voz dela. odeio. O advogado recuou diante dela e da paixão que escondia nos olhos. — Ele lhe disse que eu era uma esposa dedicada? — perguntou.. E se eu disser que ele sabia tudo sobre isso. naquela noite. — Nestas circunstâncias.. veemente: — Talvez eu veja isso. — Como? A rispidez de sua voz o fez estremecer. O advogado ia ficando cada vez mais alarmado. estúpidos. ele admitiu o que havia feito? Que havia sangue no casaco dele? E então? E se eu disser todas estas coisas no tribunal? Os olhos dela pareciam desafiá-lo. Ela levantou-se de repente. Com esforço... que contava com isso e que cometeu assassinato para obter o dinheiro? E se eu disser que. Vole. Romaine Vole meneou a cabeça devagar. aflito. Sendo tão dedicada ao marido. Toda a intensa emoção que o advogado sentira no ar. isso sim. odeio! Gostaria de vê-lo pendurado pelo pescoço até que morresse.. minha querida Sra. Como os homens são estúpidos! Estúpidos. Ela deu um passo à frente e continuou. — Sabe? Será que sabe? — Nestas circunstâncias. — Ah! Claro! Ê claro que disse. — Mas. pretendia jogar sozinha. a senhora está extenuada. Ele olhou-a. o mesmo estranho sorriso nos lábios. ele escondeu a crescente consternação e tentou falar num tom racional: — Não se pode pedir que testemunhe contra o marido. estúpidos. — Eu o odeio. — Como? 189 .. calma. — Sra.. sei como deve estar se sentindo. — Ele não é meu marido! As palavras saíram tão depressa que ele pensou não tê-las entendido bem.brincava nos seus lábios. E se eu disser que ele não chegou às nove e vinte mas sim às dez e vinte? O senhor diz que ele desconhecia que herdaria o dinheiro. Eu o odeio..

. honestamente. Mayherne soltou sua tosse seca e levantou-se. Mas não vou lhe dizer. Mayherne. — Não. madame. Vou manter meu segredo. enquanto descia a rua. Ele retirou-se da sala.. que ele era inocente quando veio aqui hoje? — Acreditei — disse o Sr. Ele conseguiu parecer calmo e frio como sempre. — Eu era artista em Viena. — Acho que não há mais motivo para prolongar esta entrevista — observou ele. Os interrogatórios preliminares no tribunal foram breves e 190 .. — Diga-me — ela falou —. O que poderia fazer? Aquele pobre homem não teria onde se apoiar. Uma mulher perigosa. — Sim. Mas nunca falará no tribunal. Meu marido está vivo. olhando-o com os maravilhosos olhos escuros. não pudemos nos casar. o senhor gostaria de saber.— Ele não é meu marido. Mayherne para si mesmo. possivelmente cometera o crime. levando com ele a lembrança daquele rosto alarmado. — Gostaria que me dissesse uma coisa — falou o Sr.. As mulheres ficam diabólicas quando encostam a faca no peito de alguém. Mayherne. — Terá notícias minhas depois que eu me comunicar com meu cliente. — Não — disse o Sr. Mayherne para si mesmo. O Sr. Inventou esta história toda. O silêncio era tão grande que se podia ouvir uma mosca voando. Ele gostaria de ter mais certeza quanto a isso. sorrindo um pouco. — Boa noite. — E ainda acredito — atalhou o advogado. Claro. Assim. Era tudo extraordinário. — Por que está tão zangada com Leonard Vole? Ela abanou a cabeça. — Coitadinho — riu ela. há muitas provas demais contra ele. mas num sanatório. Não acredito nesta mulher. Ela aproximou-se dele. Ainda bem. — Vai ser um negócio dos diabos — disse o Sr. acreditou. Uma mulher extraordinária.

O advogado soube que Janet Mackenzie sempre foi ligada a este rapaz e nunca deixou de defendê-lo perante a tia. há algum tempo. Tal e qual lhe dissera durante a entrevista. O Sr. Tudo estava contra Leonard Vole. French estivesse conversando com o sobrinho depois de Leonard Vole ter saído. Os interrogatórios não levaram a nada. O Sr. Uns garranchos de pessoa semianalfabeta. quem era o homem que Janet ouvira conversando com a Srta. Mayherne estava desorientado. O prisioneiro adiou sua defesa e ficou em prisão preventiva para aguardar julgamento. Quanto a outras linhas de ação. French às nove e meia? O único raio de luz aparecia na forma de um sobrinho mau-caráter que. sem muita certeza. Foi na véspera do julgamento que o Sr. e tivesse saído da casa da falecida às nove horas. escritos em papel comum e colocados dentro de um sujo envelope sobre o qual se encontrava um selo completamente torto. empregada da falecida e Romaine Heilger. as pesquisas do advogado foram negativas. Mayherne sentou-se no tribunal e ouviu a comprometedora história que Romaine contou. — Se pudermos abalar o depoimento desta austríaca. Até o famoso advogado da Coroa escalado para defesa deixava pouca esperança. amante do prisioneiro. Ninguém vira nenhum outro homem entrar ou sair da casa. Era bem possível que a Srta.surpreendentes. talvez se possa fazer alguma coisa — disse. O Sr. QUERIDO SINHÔ: 191 . Mayherne leu e releu a carta até entender-lhe o significado. bajulou e ameaçou a tia por causa de dinheiro. French. Mayherne concentrara as energias num único ponto: supondo que Leonard Vole estivesse falando a verdade. Mayherne recebeu a carta que mudou completamente os rumos de seu pensamento. — Mas está muito difícil. O Sr. As principais testemunhas de acusação eram Janet Mackenzie. sobretudo porque não fora encontrado em nenhum dos lugares que costumava freqüentar. Chegou pelo correio das seis horas. em Cricklewood. Ninguém vira Leonard Vole entrando em sua própria casa nem saindo da residência da Srta. austríaca.

he. Mayherne ficou convencido de que era genuína e de que era uma esperança para o prisioneiro. — Então é você. uma cama ainda por fazer. Mogson. Pregunte pela Sta. deu um risinho gutural e abriu totalmente a porta. Foi aí que ouviu um arrastar de pés e. quando pesou bem. Era seu dever salvar o cliente a qualquer custo. o mesmo curioso risinho gutural. É claro que podia ser um embuste. mas. era. não me 192 . né? Nada de truques? Está bem. O advogado leu e releu a estranha epístola. querido? He. Bateu à porta e. — Quer saber por que escondo minha beleza. com o lampião tremeluzente. muito fraca. pouco depois. Ela afastou o lenço do rosto e. você vai ver. Se quisé desmascara aquela sirigaita e u montão di mentira vem até Shaw's Rents 16 hoji di noiti. por trás dela. não é queridinho? He. Pela primeira vez o Sr. uma mesa de pinho e duas cadeiras bambas. O Sr. Com alguma relutância. foi levado a uma sala no terceiro andar. a porta foi cautelosamente aberta. he. desgrenhados cabelos grisalhos e um lenço amarrado em volta do rosto. e a linha que a defesa queria seguir. o advogado recuou diante da quase disforme mancha escarlate. Uma mulher de meia idade. entra.U sinhô é o adivogado do rapais. o advogado cruzou a soleira da porta para entrar numa salinha suja. Ela recolocou o lenço. Vai te custa 200 libras. um edifício em ruínas numa favela malcheirosa. he. O depoimento de Romaine Heilger prejudicou-o completamente. No canto. Mayherne teve uma visão total da inquilina do repugnante apartamento. Ela o viu olhando para o lenço e riu de novo. pois se tratava de uma mulher. bateu de novo. pelo menos. involuntariamente. De repente. Tinha que ir a Shaw's Rents. o Sr. querido — disse numa voz roufenha. a mulher. não obtendo resposta. Mayherne tomou uma decisão. de que o depoimento de uma mulher que vivia uma vida imoral não era digno de confiança. surgiu uma criatura encurvada. — Não está muito a fim de me beijar. Ele encontrou um pouco de dificuldade em achar o lugar. Ao perguntar pela Sra. — Não tem ninguém com você. Morgan. Pode entrar. eh? Mas você vai ver. Tem medo que possa tentar você.

A mulher. querido. Finalmente ela calou-se.. o Sr. observando-a de perto. Dirigiu-se até a cama e tirou alguma coisa debaixo do roto colchão. seu desgraçado! — vociferou. que o 193 . — Isso não vai adiantar. ácido sulfúrico. Entende? — Que tipo de dica? — O que diria de uma carta? Uma carta dela. Ela jogou-lhe um maço de cartas. e pode ser chamada para fazê-lo. — Chega disso — disse o advogado. queridinho? — disse com a voz fanhosa. — Está aqui. cedeu. E isso. Depois. tirou do bolso a carteira e contou: vinte e uma libras. — Vinte — disse o Sr. — A que interessa é a de cima. Leonard Vole. O Sr. Ah! mas ela vai me pagar. por fim. ríspido. é tudo o que tenho comigo. — Como vê — disse ele —. Mayherne. aquela. — E esta é minha última palavra. como de costume. E ela despejou uma torrente de blasfêmias que o advogado tentou reprimir. Mas já fui uma menina bonita e não foi há muito tempo atrás. só se a carta for o que está dizendo que é. — E o dinheiro. Mas se me der duzentinhos. — Vim até aqui porque tenho motivos para acreditar que você pode me dar informações que podem inocentar meu cliente. Mas ele já previra que a visão do dinheiro seria demais para ela. foi isso que causou essa beleza. talvez eu possa dar umas dicas para você. É isso ou nada. Ele levantou-se como que para ir embora. querido.. como deve estar pensando. as mãos abrindo-se e fechandose nervosamente. É isso? Olhou-o de soslaio. e só. 'tá lembrado? — É seu dever prestar depoimento. Ela xingou. Não interessa como veio parar aqui. Ácido sulfúrico. Mas quero o dinheiro.espanto. Mayherne desamarrou-as e pôs-se a examiná-las metódica e friamente. Mayherne olhou-a friamente e tomou uma decisão: — Eu lhe dou 10 libras. — Dez libras? — ela gritou e esbravejou. mas em vão. — Duzentos mangos. Isso é comigo. Já sou velha e não sei nada. mas. blasfemou em vão.

Leu cada carta. 194 . Estava no tribunal e ouvi o que a sirigaita disse. espionei mesmo. não vai. A carta de cima datava do dia da prisão deste. Vai embora. Mayherne colocou as notas sobre a mesa. Ele não perdeu tempo. para trazer ele de volta. — É o homem que me fez isso. o porteiro reconheceu-a de imediato. E quando fui procurar ele. Quando olhou para trás. Nestes anos eu segui ela. voltou à de cima e a leu de novo. grossa. Eram cartas de amor escritas por Romaine Heilger e não eram dirigidas a Leonard Vole. Ela vai sofrer por causa disso. — Presa — é isso que quero. não acaba? O Sr. seu advogado? Vai sofrer? — Provavelmente será presa por perjúrio — disse o Sr. Agora já faz muito tempo. — Falei a verdade. na noite em questão. não falei? — gemeu a mulher. Vê se descobre onde ela estava às dez e vinte. o Sr. saiu do sórdido aposento. — Só tem o primeiro nome aqui. ele jogou essa coisa desgraçada em mim! E ela riu. Pergunta no Lion Road Cinema. elegante — desgraçada! — Quem é o homem? — perguntou o Sr. — Mas sei mais uma coisa. Por fim colocou a mão no rosto. viu a mulher cantarolando com o dinheiro na mão. as mãos se abrindo e se fechando. Chegara ao cinema com um homem. E agora apanhei ela. Eles se lembram — uma mulher fina. pouco depois das dez horas. a hora que disse que estava em casa. aquela desgraçada! Tenho uma raiva danada dela. Foi direto ao cinema Lion Road e mostrou uma fotografia de Romaine Heilger. — Essa carta acaba com ela. E então. Mayherne calmo. não vai? Onde está meu dinheiro? Onde está este bendito dinheiro? Sem dizer uma palavra. com cuidado. Depois amarrou novamente todo o maço. Mayherne.observava ansiosa. Mayherne colocou as cartas no bolso e fez uma pergunta: — Como conseguiu esta correspondência? — Isso é dedurar — disse ela lançando um olhar de soslaio. respirando fundo. A voz da outra tornou-se rouca. Ela tirou ele de mim — e era uma pirralha naquela época. não pudera detectar nada daquele rosto impassível.

cerca de uma hora. pareceu ao Sr. — Seu nome é Romaine Heilger? — É. Por causa de seu ódio inventara tudo. O segredo entre aqueles dois permanecia um segredo. Ele declarou com veemência que era inacreditável uma coisa dessas — mas. — E austríaca? 195 . A testemunha chamada a seguir foi Romaine Heilger. Vários depoimentos técnicos foram ouvidos. Saberia da verdade algum dia? O advogado consultou o relógio. eles enfatizaram o fato de que. acusado de assassinar Emily French. para completar. Ele sabia. French. O advogado pôs-se a pensar no que estaria por trás deste ódio. A sessão iniciou-se em ambiente de calma. e muito se inventou sobre sua origem e história. embora ela tenha ouvido uma voz masculina na sala de visitas aquela noite. e também conseguiram dar a entender que ciúmes e antipatia pelo prisioneiro eram a base de seu depoimento. faltava sinceridade aos seus protestos. Saíram várias fotografias dela no jornal. O que teria Leonard Vole feito a ela? Ele parecia perplexo quando o advogado lhe relatou a atitude dela. Ele sabia. Em primeiro lugar.Ele não reparara no par. O Sr. mas se lembrava dela que comentou com ele a fita que estava em cartaz. Romaine Heilger. mas não tinha a menor intenção de revelar o fato. Ficaram até o fim. Mayherne que depois do primeiro momento de espanto. contou a mesma história de antes. a principal testemunha de acusação. do princípio ao fim. acusado de um crime por demais covarde e. Depois Janet Mackenzie foi chamada. Substancialmente. suscitou o maior interesse. O Sr. O depoimento de Romaine Heilger não passava de um monte de mentiras. Já estava tarde. não havia nada que indicasse que Vole estivesse lá. Os advogados de defesa conseguiram fazê-la cair em contradição uma ou duas vezes sobre a amizade de Vole com a Srta. Mayherne estava satisfeito. o prisioneiro era jovem e bonito. mas o tempo era tudo. — Sir Charles tem que tomar conhecimento disso de uma vez — murmurou ao entrar no táxi. Chamou um táxi e deu um endereço. O julgamento de Leonard Vole. Mayherne estava convencido disso.

Com o desenrolar da história. melancólico. finalmente! Havia peritos presentes prontos para jurar que a letra era a de Romaine 196 . Max. a defesa levantou-se. meu amor! Felicidade. os olhos de Romaine Heilger encontraram-se com os do homem no banco dos réus. o surpreendente desfecho: uma carta. agora se voltava totalmente contra ele.— Sou. Entretanto podia-se notar que a acusação procurava diminuir a animosidade de Romaine. E então. que era incapaz de matar uma mosca! Até que enfim vou me vingar. deliberadamente. — Vivi. felicidade. Ele a fez calar-se por meio de ameaças. Na noite em questão. Seria preferível uma testemunha menos parcial. Os fatos comprometedores foram aparecendo. o tribunal. que nem mesmo estava em sua própria casa na hora em questão. Max. o destino colocou-o em nossas mãos! Ele foi preso por assassinato — o assassinato de uma velha solteirona. E o interrogatório continuou. Voltou às dez e vinte e confessou ter matado a solteirona. — A senhora viveu estes últimos três anos com o prisioneiro e se fez passar como mulher dele? Por um breve momento. Os punhos da camisa estavam sujos de sangue e ele os queimou no fogão da cozinha. Romaine negou estas alegações com extrema insolência. E então. Leonard. Vou enforcá-lo. meu adorado. que estava apaixonada por outro homem e que. O advogado disse a ela que sua história era uma invenção dolosa do princípio ao fim. que a princípio nutrira uma ligeira simpatia pelo prisioneiro. Leonard Vole permanecia de cabeça baixa. tentava levar Vole à condenação por um crime que não cometeu. Imponente e poderosa. e quando ele estiver lá irá perceber que foi Romaine que o levou à morte. Coitado! Vou dizer que voltou para casa de noite com a camisa manchada de sangue e que me confessou o crime. o prisioneiro levou um pé-de-cabra com ele. Foi lida em voz alta em meio ao mais profundo silêncio. como se soubesse que seria condenado. Sua expressão trazia algo de curioso e insondável.

Era impossível. ao se lembrar. Mas Romaine Heilger era uma atriz. — Já felicitou nosso homem? Ele esteve por um fio. Aquela mulher. justo na noite anterior sua mulher lhe dissera que isto estava se tornando uma mania. Mas o advogado balançou a cabeça. Mas ele 197 . Que coisa curiosa as manias. A acusação tentou. Em vista da carta. Que coisa curiosa as manias. As pessoas nunca percebem que as têm. nove e vinte.. o próprio prisioneiro subiu à tribuna e narrou sua história de modo direto e decidido. você sabe. em Paddington. Ela inventara toda esta história para arruiná-lo.. O resumo da prova do juiz não foi totalmente favorável ao réu.. voltar ao ataque. mas não foi necessário. o caso também terminou para a Coroa. Ele pilhou-se polindo o pince-nez vigorosamente. Ele só queria uma coisa: ver Romaine Heilger frente a frente. Mas ele havia visto alguém fazer a mesma coisa bem recentemente. Sir Charles chamou suas poucas testemunhas. Leonard Vole voltara para casa na hora em que disse ter voltado.Heilger. em vão. O que mais o intrigava era a figura de Romaine Heilger. O advogado da Coroa veio por trás dele e bateu-lhe de leve no ombro. parecera uma criatura pacata. história essa que se manteve inalterada quando do outro interrogatório. um tanto curvada. O advogado permaneceu quieto. Se fechasse os olhos conseguiria vê-la agora. alta. Leonard Vole estava livre! O pequeno Sr. Na sua casa.. ofegante.. a mão direita abrindo e fechando inconscientemente o tempo todo. Com a queda de Romaine Heilger. Romaine Heilger. Venha comigo. mas o júri levou pouco tempo para chegar ao veredicto: — Declaramos o réu inocente. Ora. Romaine Heilger confessou tudo. Este gesto devia ser uma mania dela. quem era mesmo? Bem recente.. Tinha que felicitar o cliente. impossível. A mulher de Shaw's Rents. a cabeça girando. Mayherne levantou-se depressa da cadeira. Um caso interessante. mas no tribunal ela se inflamou: agitou-se como uma flor tropical. Ele respirou. um caso muito interessante.

Mayherne. isso foi facílimo.. — Mas por quê? por quê? — Porque joguei uma cartada solitária? — Ela sorriu um pouco. Com um suspiro. meu amigo. ao lado da bola. o senhor pensava que ele fosse inocente. De pé. estabelecer-se-ia. Seu rosto revelava o desprezo e a revolta que sentia. O depoimento de uma mulher dedicada ao marido não teria sido o bastante — o senhor mesmo o disse. um dente-de-leão e um tufo 198 . Mayherne. — Nunca existiu. — Então. como se chama? uma conspiração. virou-se para olhar o tee. — O rosto? Ora... um pouco ofendido.. — E a senhora sabia. — Eu ainda acho que a senhora poderia tê-lo libertado através do. — Uma comédia! — Meu amigo — eu tinha que salvá-lo. não é? Compreendo — disse o pequeno Sr. pareceria um. apanhou o taco. a carta vital. em cada vez. executou dois swings defeituosos destruindo. o tal Max... Quando descobrissem que meu depoimento era falso e comprometedor. — Meu caro Sr.. Eu sabia — que ele era culpado! O MISTÉRIO DO VASO AZUL Jack Hartington analisou tristemente seu frustrado drive. procedimento normal — disse o Sr. o senhor não compreende coisa alguma. — E o maço de cartas? — Uma única carta. Sabe. Mayherne — disse Romaine —. o lugar do encontro é irrelevante. e a luz do lampião era horrível de modo que não pôde ver a maquiagem. de imediato. — Então o senhor desconfiou — disse ela quando ele lhe contou tudo.. Mas conheço a psicologia das platéias. lembrando-se da última vez em que usou estas palavras. — Não quis arriscar. medindo a distância.só a viu algum tempo depois. uma reação favorável ao prisioneiro.

num excesso de zelo. no fim. Jack chegou à conclusão muito natural de que fora ela quem gritara por socorro. Como resultado de suas jogadas. por um momento. Jack largou o taco no chão e correu em direção ao som. que. ser forçado a desperdiçar tempo e dar atenção ao problema de ganhar a vida. Este se ocultava atrás de uma subida coberta por urzes. a bola corria alegremente pelo solo. em uma espécie de suspiro gorgolejante. Depois concentrou-se firmemente na bola. É duro ter-se vinte e quatro anos e a ambição única de reduzir o handicap no golfe. Na verdade. Ele viu uma menina de pé. e quatro putts parecia ser o mínimo em qualquer green. mas ele a contornou e. Durante cinco dias e meio da semana. mas.de grama. Ela trazia na mão uma pequena cesta. aveludados. um chalezinho pitoresco que Jack muitas vezes notara. — Assassinato — dizia. macios. e não olhe para cima. Este trecho do campo de golfe era bem deserto e havia muito poucas casas por ali. A uma tacada desastrada seguia-se um drive em falso.46 para a cidade. evidentemente. Jack se vê preso numa espécie de túmulo de mogno. estava com a mão na fechadura do portãozinho. em vez disso. havia apenas uma perto. Jack suspirou. A tarde de sábado e o domingo são religiosamente dedicados ao verdadeiro negócio da vida e. E foi na direção deste chalé que ele correu. Mas ele logo mudou de idéia. agarrou firme o taco e repetiu as palavras mágicas: "Solte o braço esquerdo. O seu todo era o de um amor-perfeito. Os olhos dela. O plano só tinha uma desvantagem: a esta hora da manhã ele era declaradamente incapaz de acertar qualquer coisa. no jardim e. escuros e mais violeta do que azuis. Viera de algum lugar bem próximo. eram como estas próprias flores. quando um grito estridente cortou a silenciosa manhã de verão." Ele girou o corpo e parou. ele alugara quartos num pequeno hotel perto dos campos de Stourton Heath e levantava-se diariamente às seis da manhã para praticar durante uma hora antes de tomar o trem das 8. quase cheia de ervas. petrificado. pelo seu ar de requinte do velho mundo. na cidade. acabara de arrancar de um canteiro de amor-perfeito. Jack notara. no 199 . — Socorro! Assassinato! Era uma voz feminina que se transformou. em menos de um minuto.

A voz dela era macia e bonita com uma ligeira inflexão estrangeira. Ela mostrava-se tão céptica que Jack foi ficando cada vez mais confuso. — Eu não ouvi nada. A menina olhava para Jack entre aborrecida e surpresa. — Desculpe-me — disse ele. Mas tinha cada vez mais certeza de que ouvira o grito. — Assassinato — socorro! Assassinato! — Assassinato — socorro! Assassinato! — repetiu a menina. Ela agora o olhava com desconfiança. Quem poderia ser assassinado aqui? Jack olhou ao redor com a idéia confusa de descobrir um cadáver no jardim. ao mesmo tempo. Sua surpresa era tão genuína que Jack sentiu-se confuso. tinha certeza absoluta de que o grito que ouvira era real. — Veio de algum lugar bem próximo — insistiu ele. Tudo parecia perfeitamente calmo e em paz. — Alguém deve estar-lhe pregando uma peça. — Veio de algum lugar próximo. — Mas você deve ter ouvido — exclamou ele. mas não viu sina! de nada estranho. Mas. — Deve ter vindo lá da floresta. — Quer dar uma busca em nossa casa? — perguntou a menina secamente. Monsieur. agora mesmo? — Eu? Não. — E o que gritavam? — ela perguntou. ao mesmo tempo. Era simplesmente inacreditável que ela não tivesse ouvido o grito angustiado pedindo ajuda.seu vestido de linho roxo. de jeito nenhum. Jack por sua vez olhou-a. Ele olhou para as janelas do chalé. Durante algum tempo ele embrenhou-se floresta adentro. 200 . Ele tirou o chapéu à guisa de cumprimento e retirou-se. Mas. Olhou por sobre o ombro. e não produto de sua imaginação. mas você deu um grito. Ela olhou-o. Ele voltou-se para ir embora. estava tão calma que não podia ser mentira. — Desculpe-me — disse o rapaz —. e viu que a menina voltara calmamente à tarefa de limpar as heras.

E tinha ele absoluta certeza de que ouvira o grito? Nesta altura já não estava tão seguro quanto antes — o resultado natural de tentar recapturar uma sensação perdida. desistiu da busca e correu para casa a fim de engolir o café e apanhar o trem de 8.Por fim. Naquela noite. Na manhã seguinte. correu para o trem e. Mas não havia nada. — Que estranho — disse Jack para si mesmo —. Jack levantou-se o mais tarde possível. furioso. que a garota estava no jardim. pela costumeira estreita margem de um segundo. Este pode ser um fato útil para a polícia caso — caso se descobrisse alguma coisa. Nos jornais da tarde. limpando ervas daninhas. Será que não deveria ter comunicado logo à polícia o que ouvira? Só não o havia feito por causa da incredulidade da menina do amor-perfeito. — Sete e vinte e cinco — murmurou.46. — Assassinato — socorro! — Assassinato! Jack voltou correndo. com o rabo do olho. que até o maior entusiasta por golfe teria desanimado. Lembrava-se de ter olhado o relógio pouco antes do grito. Ela claramente desconfiara de que fosse fantasia dele. Quando passou pelo chalé notou. As palavras congelaram-se nos seus lábios. mais uma vez. Quando colocou a bola no tee seguinte. — Será. Eram sete e vinte e cinco. Por trás dele. Quem sabe o grito de um pássaro distante que se lhe assemelhasse à voz de mulher? Mas. um hábito. a mesma coisa. ao chegar em casa. mas é isso. e ele sentiu-se entre aliviado e decepcionado. examinou os jornais. leu os jornais na ânsia de ver se havia alguma menção de assassinato. ansioso. Sua consciência o atormentou um pouco quando sentou-se no trem. olhou para o relógio. Ele havia feito uma tacada de aproximação bastante boa. engoliu o café às pressas. era bem possível que a polícia pensasse o mesmo. o mesmo grito que o deixara perplexo antes. nenhuma menção sobre alguma hedionda descoberta. e ele a ouvira. rejeitou a sugestão. A voz de uma mulher em extrema aflição.. Vai ver que eram meninos brincando lá no bosque. A manhã seguinte foi tão chuvosa — tão. A menina do amor-perfeito estava perto do 201 . Obviamente. ele saiu cedo. e tinha esperanças de que ela tivesse notado.. E mais uma vez. Era a voz de uma mulher.

Ela balançou a cabeça. balançou a cabeça e voltou à sua tarefa rotineira. não? Num repente. Mas não vou ouvir. Não podia distinguir as palavras. ele voltou-se e foi-se embora aos tropeções. ele permaneceu acordado quase que a noite toda e perdeu a hora. A sinceridade dela era tão evidente que ele não podia desacreditar. Mas ele não pode ter imaginado. Já eram sete e vinte quando saiu do hotel rumo ao campo. sem dizer uma única palavra sequer. olhando-o: — Não ouvi nada — disse.. mas. é claro que sofro de algum tipo de alucinação. atônita. o fato reanimou-o. e ele notou que. como ducha fria. Ela parecia surpresa e Jack aproximou-se dela. Jack compreendeu-lhe o olhar de medo — ela pensava que ele sofria de alucinações. A menina observou a cena. suspirou.. Sete e vinte cinco. ela se encolheu e até olhou para a casa como se planejasse fugir em busca de abrigo. não pode.. Passou o dia agitado e foi-se deitar cedo. os olhos fixos nos ponteiros do relógio. — Se eu ouvir esta droga de novo às sete e vinte cinco — disse para si mesmo —. Jack tentou organizar os pensamentos. chamando. triunfante. gritando: — Desta vez você ouviu. Ela arregalou os olhos com uma expressão que não pôde definir. ele a ouviria em qualquer lugar. Ele continuou correndo.. Viu que não poderia chegar ao lugar fatal às sete e vinte e cinco.. se a voz era uma alucinação. ao aproximar-se.. pura e simples. que vinha do mesmo lugar.portão. disposto a tirar a prova no dia seguinte. Ele ouviu-a falar suavemente. de algum ponto próximo ao chalé. — Você é neurótico de guerra. Por estranho que pareça. E então. Afinal de contas. Como é natural em tais casos. não pode. podia ser 202 . Era como se tivesse levado um soco em cheio. De longe veio o eco da voz de uma mulher. quase que em tom de compaixão. veio-lhe o terrível pensamento: será que ela estava certa? Será que ele tinha alucinações? Obcecado pelo horror deste pensamento. mas estava convencido de que era o mesmo grito que ouvira antes.

— Estou perfeitamente bem — disse ele. Ele jogou mais alguns holes e voltou correndo para tomar o café. Jack tinha a irritante sensação de que ela não acreditava nele. Jogaria os poucos holes até ao chalé. Jack sabia. como sempre. e é bom para a saúde. tinha consciência. Seu tom encorajador aborreceu-o muito. como Jack 203 . Ajeitou os ombros. quando ele tirou-lhe o chapéu. era Lavington e ouvira vagos rumores de que era um especialista famoso mas. — O sol é bom. — Acho que ela está tentando me curar por auto-sugestão. apanhou o taco da sacola.. não! Minhas flores precisam de chuva.um embuste. não é? A menina riu um pouco. Mesmo que parecesse improvável. está lindo mesmo. a menina podia estar-lhe pregando uma peça. desajeitado. Desta vez ela o encarou e. não é? — disse Jack alegremente. — Essa não! — disse para si mesmo. não é? — disse ela. nem tanto — observou. A menina estava no jardim. Tinha uma barba curta e escura. o rosto vigoroso. — As flores podem ser regadas. não pela primeira vez. Monsieur está muito melhor hoje. consciente do olhar ligeiramente apiedado da menina. — Não. Seu nome. Olha como estão todas ressecadas. ela disse "bom dia" quase que timidamente. olhos penetrantes e uma atitude relaxada e segura que o colocava entre as posições mais elevadas das classes profissionais. amaldiçoando a inevitável banalidade da observação.. O sol dá força. Era um senhor de meia-idade. sem dúvida. — Isso é muito bom — disse ela. resoluto. revelando uma fascinante covinha. reconfortadora. de que um homem sentado a uma mesa próxima o observava. — É. — Um dia lindo. cheio de força. — Ora. Enquanto comia. Jack aceitou o convite do gesto dela. e aproximou-se do murinho que dividia o jardim do campo de golfe. — Bom para o jardim. Ele a achou mais bonita do que nunca.

Ou. Eles começaram um pouco antes das sete. 204 . como sempre.. Concentrara-se completamente na crise que estava por vir. E se alguém fosse com ele? Havia três hipóteses: a voz se silenciaria. Lavington era o homem indicado para acompanhá-lo. O dia estava perfeito. Ele resolveu levar o plano adiante. Claramente. Jack estava tenso. por vocação profissional. A voz parecia rouca. hesitou e acabou caindo. As duas bolas estão no green. principalmente. Alcançaram o sétimo tee. os olhos grudados no relógio. por uni motivo ou por outro. Eram sete e vinte. Será que todos liam no seu rosto o que se passava? Será que este homem. entre este e o hole situava-se o chalé. Ambos a ouviriam. A menina. e isto o assustou um pouco. — Bom putt — disse Jack. ele interessava-se por Jack. Olhava contínua e sub-repticiamente para o relógio. Mas nesta manhã ele estava bem consciente de que o observavam. sabia que havia algo de errado? Jack estremeceu. estava ficando louco? Sofria alucinações. O médico estava jogando bem. parou na boca do hole. escolhendo a linha que ia seguir. ou tudo não passava de um embuste gigantesco? E. Jack.: Uma rua de Londres ocupada. realmente. o nome não lhe dizia nada. de repente.. Facilmente entabularam uma conversa. por consultórios de membros proeminentes da profissão médica. Ele curvou-se.não era assíduo freqüentador de Harley Street2.. Seria verdade? Será que. diferente da sua. Combinaram para a manhã seguinte. estava no jardim quando passaram. o médico parecia ter esperado por essa abertura.. Ela não levantou os olhos. a de Jack perto do hole e a do médico um pouco mais distante. mas não muito quente. de maneira deplorável. Até agora. só ele a ouviria. estivera sozinho no campo. Eram exatamente sete e vinte e cinco. Com 2 N. antes do café. ocorreu-lhe uma forma muito simples de testar a solução. tranqüilo e sem nuvens. — Vou tentar a tacada — disse Lavington.T. Este sugeriu naturalmente que ambos jogassem alguns holes juntos. A bola correu ligeira pela grama.

— Continue. aconteceu. alta e aflita. — Meu Deus. O mundo parecia rodar. E então. que dia lindo — observou. Por quê? Lavington piscou um pouco. — Qual é o problema? Alguma coisa o preocupa? — Já vou contar. estava deitado sobre a grama. com as mãos. — Pergunte o que quiser — disse ele para reconfortá-lo. Lavington. chegou bem perto disso. Não acontecera nada. — Meu Deus! — exclamou Jack. Lavington inclinado sobre ele. — Esta pergunta é um tanto esquisita. A voz de uma mulher. No exato momento em que o médico atingia a bola. Ele deu um ou dois passos. — Não brinque. olhou sem fôlego para o companheiro. mas gostaria de perguntar uma coisa antes.um suspiro de imenso alívio. olhando para o homem à sua frente. O médico acendeu o cachimbo e sentou-se na grama. Quebrara-se o encanto. cambaleando. não conseguiu evitá-lo. — Se não se incomoda esperar um minuto — disse ele —. — O que houve? — Você desmaiou. — Um pouco curto — quase uma jogada perfeita. calma. rapaz — ou pelo menos. Por que me observou? Tenho 205 . Ele não ouviu nada. Jack encheu o cachimbo e acendeu-o com dedos trêmulos. Um gato pode olhar para um rei. fez o relógio escorregar mais para cima do braço. — Assassinato — Socorro! — Assassinato! O cachimbo caiu das mãos descontroladas de Jack quando ele voltouse na direção do som e então. Parecia ter tirado um enorme peso dos ombros. protegendo. Fizeram uma pequena pausa no oitavo tee. lembrando-se. Quando recobrou os sentidos. estou falando sério. é sua vez. acho que vou fumar um cachimbo. cheio de contentamento. — O senhor vem me observando já há dois dias. os olhos contra o sol. calma. — Pronto. Lavington olhava para o campo. creio.

e fiquei intrigado imaginando o que poderia ser. o corpo. — Eu já estou louco. Jack ficou indignado. Para falar a verdade. mas não acredito. — Você vai me perdoar. rapaz. de certa maneira. — Ah! — Senti o tom de menosprezo. meu jovem amigo. 206 . — Muito curioso mesmo.razões vitais para perguntar isso. Mas vamos chamá-la de mente ou de ser subconsciente ou de qualquer coisa que lhe agradar. ele repetiu: — Estou ficando louco. — Acho que isso é tudo que pensa. Jack olhou-o com vivo interesse. Para começar. mas devemos usar alguma palavra para designar o princípio ativo que pode ser separado e que existe independente da casa material. quer dizer. Percebi em você todos os indícios de um homem sob grande tensão. — Vamos. embora tenha me formado. — É muito fácil: estou ficando louco. — Não pode ser — disse o médico. não apenas em termos religiosos inventado por sacerdotes. — Vou falar-lhe francamente. Você ofendeu-se com o que eu disse. mas posso assegurar-lhe que achei muito curioso que um jovem equilibrado e perfeitamente normal como você tenha a ilusão de que está ficando louco. — Muito curioso — murmurou Lavington. O rosto de Lavington ficou sério. mas a melhor qualificação é a de médico da alma. mas. É preciso ter boas relações com a alma. não sou médico. não sou médico do corpo. Completamente maluco. como a afirmação não suscitou o interesse nem a consternação esperadas. — Depois do jantar? — Não. não pratico medicina. Ele fez uma pausa dramática. está falando sem saber. vamos. de manhã. acendendo de novo o cachimbo que se havia apagado. Os médicos são tão insensíveis. — Nem da mente? — Sim. — Tenho delírios.

— O problema é que vocês. Seu relógio está adiantado cinco minutos. não se sabe. — O que não posso entender — concluiu ele — é por que esta manhã aconteceu às sete e meia. estão tão certos de que não existe nada fora de sua própria filosofia que se alarmam quando algo inesperado acontece. mas o subconsciente nos prega peças engraçadas. Jack narrou da maneira mais fiel possível. após consultá-lo.— Estou lhe dizendo que ouço coisas que ninguém mais ouve. Só porque os outros novecentos e noventa e nove não as vêem. O médico olhou-o com toda atenção por alguns instantes. cinco minutos mais tarde. certamente. Este sentiu-se infinitamente calmo e entusiasmado. é bastante simples. Vamos ouvir os motivos pelos quais acha que está ficando louco. — Não conscientemente. — É bem provável que os delírios de hoje sejam os fatos provados. jovens. Nas manhãs seguintes você sugestionou-se a ouvi-lo exatamente à mesma hora. Aos poucos. — De mil homens. — Então. não há razão para se acreditar que o milésimo homem esteja louco. é claro. toda a série de ocorrências. Se fosse um caso de sugestão. Bom. esta explicação não é aceitável. a explicação óbvia é a de que da primeira vez você realmente ouviu algum grito — talvez uma brincadeira. Na verdade. não há motivo para se duvidar de que as luas existam e. — As luas de Júpiter são um fato provado cientificamente. depois disso. você sabe. — Como assim? Jack começava a interessar-se. No meu são vinte para as oito. Depois perguntou: — Que horas são no seu relógio? — Quinze para as oito — respondeu Jack. um vê luas em Júpiter. cientificamente. decidiremos se deve ser internado. Isto é muito interessante e um ponto importante — para mim. Lavington pensou por alguns momentos. é de valor inestimável. ou não. de amanhã. de qualquer jeito. você teria ouvido o grito às sete e 207 . — Bom. a maneira direta de Lavington surtia efeito em Jack. e depois meneou a cabeça: — Assim é melhor — disse ele. — Tenho certeza de que não fiz isso.

— Mas o que eu vou fazer? — perguntou Jack. entre dez. sem dúvida nenhuma. 208 . nove não querem nem ver nem ouvir e se convencem de que estão tendo alucinações. mas. por muito tempo ficamos sem saber por que e tivemos que nos contentar com o fato.. espíritos se arrastando e tudo o mais.vinte e cinco pelo seu relógio. Algum dia. mas por que só eu é que ouço? Não acredito em fantasma nem nessas coisas de almas do outro mundo. senhor.. — E então? — Bom. O lugar é próximo ao chalé e a hora é sete e vinte cinco. no momento. — Pode falar. Não sabemos por que e. Jack corou de maneira embaraçosa. saberemos por que você ouve e eu e a menina. não é? Este grito de socorro ocupa um lugar no tempo e no espaço perfeitamente definidos. Uma coisa curiosa é que muitos dos melhores médiuns são pessoas sabidamente cépticas. eu é que vou bisbilhotar por aí para ver o que descubro sobre o chalé. Tudo é governado pela lógica. você vai tomar um bom café e sair sem se preocupar mais com coisas que não entende. não. Descobrir as leis que governam os chamados fenômenos físicos é um trabalho árduo — mas cada pouquinho já ajuda. Agora. Por que haveria de ouvir essa droga? — Ah! Não podemos dizer. — Está bem. como você. Hoje em dia já sabemos o motivo. estou vendo. e o sobrenatural não existe. é óbvio. Não são as pessoas interessadas em ciências ocultas que captam as manifestações. Lavington deu uma risadinha. Algumas pessoas vêem e ouvem coisas que outras pessoas não vêem nem ouvem tampouco. — Tenho certeza de que não há nada de errado com a menina — murmurou. meu amigo. Algumas substâncias são boas condutoras e outras não. como você pensou. Posso jurar que é ali que se encontra o mistério. Jack levantou-se. mas nunca poderia tê-lo ouvido atrasado. entendo o que quer fazer. Bom. — É. Ê como eletricidade. — Espírito prático.

ele vendeu o chalé para umas pessoas de nome Turner. e rarissimamente saíam do jardim. Turner. Os corretores locais receberam uma carta do Sr. na mesma mesa. foram embora e nunca mais voltaram. Ele era inglês. fora tão objetivo e. tuberculoso. calmo. Este só morou lá durante quinze dias. Jack empalideceu. há dez dias. e a mulher. não viam ninguém. o novo amigo esperando-o no vestíbulo. Turner. Jack chegou em casa naquela noite fervilhando de curiosidade. o Sr. mas não encontrei ninguém que tivesse visto a Sra. — Agora sei a história da vida do Chalé Heather. Estão lá.— Você não me disse que se tratava de uma menina bonita! Vamos.. Quando desceu para o jantar. e depois a própria casa foi comprada pelo Sr. — Alguma novidade? — perguntou Jack. Desde então.. e o médico sugeriu que jantassem juntos. Os móveis foram vendidos. realmente. Eram bastante acomodados. encontrou..imparcial que deixara Jack impressionado. — Mas isso. de origem russa. Sr. e a filha. Confiava cegamente em Lavington. E então. bem cedinho. — Qual a sua opinião? — Gostaria de saber mais sobre os Turners — disse Lavington. ninguém os viu partir. Os atuais moradores são um professor de francês. ansioso. mas acho que não devemos nos fiar nisso. depois colocou anúncio para alugar. — Acho que isso não explica grande coisa — disse finalmente. muito bonita e exótica. Primeiro foi ocupado por um velho jardineiro e a mulher. Pelo que deduzi. Acho que o mistério começou antes dela. anime-se. vinda de Londres. instruindo-os a vender a casa o mais rápido possível. — Eles saíram numa manhã. Turner. Segundo os boatos locais. O velho morreu e a esposa foi morar com a filha. Há cerca de um ano. Turner foi visto. e Sra. de repente. Pelo que soube. Jack assinalou tudo em silêncio. O médico aceitara o fato de maneira tão natural.. parece que tinham medo de alguma coisa. 209 . o senhor quer dizer que. formavam um casal bastante curioso. Depois uma construtora o modernizou com grande êxito e o vendeu a um cavalheiro que só o utilizava para os fins de semana. sabidamente. Mauleverer.

por vir procurá-lo assim? Mas tem uma coisa que quero contar. Ele deixara definitivamente de jogar golfe antes do café da manhã. — Agora sente-se. Um dia. no hotel. Ele estremeceu. Jack foi informado de que uma jovem o aguardava. Monsieur. Mas o que tenho visto. — Mas. rapaz. Monsieur. a menina do amor-perfeito. Srta. como que se livrando de alguma obsessão. assombrando um lugar por alguma razão. Srta. Ela olhou em torno. Eu não acredito em espíritos presos à terra. a menina era nada mais nada menos que a menina do jardim. transmitindo-a a um receptor adequado — neste caso. Durante o fim de semana. é cega e mecânica. Tudo aqui deve ter absorvido esta influência. — Por que não alguém que pudesse fazer alguma coisa? — Você está analisando a força como se fosse inteligente e objetiva quando.. O elo seguinte da corrente surgiu de maneira inesperada. ao voltar. e não posso acreditar ser pura coincidência. como ele costumava chamá-la em pensamento. na verdade. e voltouse para Jack... ele mesmo se encarregou de fazer as investigações. — Entre aqui — disse Jack prontamente.. — Marchaud. por que eu? — murmurou Jack. revoltado. você. mas não achou assim tão fácil banir a questão de sua própria mente. Felise Marchaud.. Jack concordou de imediato. levando-a para a agora deserta "Sala de Estar de Senhoras". hesitante.. — O senhor me perdoa. um aposento monótono decorado com muita camurça vermelha. é uma espécie de tatear cego em direção à justiça — um movimento subterrâneo de forças ocultas trabalhando às escondidas em direção àquele objetivo. A influência de qualquer um no momento exato da morte — e principalmente de morte violenta — sobre o ambiente é muito forte.— Não se agite. Ela estava nervosa e confusa.. sorrindo: — Vamos abandonar o assunto — pelo menos por essa noite — sugeriu. 210 . Para sua grande surpresa. mas descobriu muito pouco além do que o médico já descobrira.

— Um anjo — pensou o rapaz enamorado. — É o seguinte — explicou Felise —: Estamos aqui há pouco tempo e desde o começo que ouvimos que a casa — nossa doce casinha — é malassombrada. Isso não importa muito — eu posso fazer a ménage e cozinhar com facilidade. Felise sentouse obediente. que as palavras que ouço são por acaso. Ela e o vaso azul desapareceram e. Mas ontem à noite o sonho veio de novo. e Jack saiu à procura de Lavington. Os empregados não param lá. Isto foi o que sonhei nas duas primeiras noites — mas anteontem. aconteceu outra coisa.. parada. Quando sentou-se ao lado dela. e conte-me tudo. Vou dizer-lhe o que gostaria que fizesse. entende? e. Felise expressou sua concordância em adotar esta medida. — Está bem. — Este negócio de fantasmas. Lavington. — Ela é maravilhosa. Este fingiu uma falta de interesse que. Pouco depois. Monsieur. alta e muito loura. implorando que faça alguma coisa com ele — mas ela não pode falar e eu — eu não sei o que ela está pedindo. bonita. o que é isso? O senhor também ouviu. Mademoiselle Marchaud. o Dr. Não deve preocupar-se. Mas. não sentia. Tem nas mãos um vaso de porcelana azul.. ouvi uma voz gritando — sei que é a voz dela. vieram os dois. ajuda a Jack. O que faremos? Felise estava aterrorizada. pelo menos até quatro dias atrás. mantinha uma atitude de atenção puramente comercial. se não se importa: repita toda a história para um amigo meu que está aqui.— Sente-se. Monsieur. Ela está angustiada — muito angustiada —. Lavington observou-a com 211 . de repente. Vestia-se hoje de verde-escuro e a beleza e o charme do rostinho orgulhoso eram mais evidentes do que nunca. Ah! Monsieur. pedindo. Jack fez rapidamente as apresentações. por quatro noites seguidas. tive o mesmo sonho. Digo para mim mesma que tudo não passa de um pesadelo. as palavras que ela diz são as que mencionou para mim aquela manhã: "Assassinato — Socorro! — Assassinato!" Acordei aterrorizada. com os olhos. acho que é tudo besteira — quer dizer. o coração de Jack bateu mais rápido. e a toda hora estica os braços como se fosse me entregar o vaso. absolutamente. externamente. Aquela mulher lá. Apertava nervosamente as mãos. Mademoiselle Marchaud.

Permaneceu alguns minutos perdido em pensamento. em aquarela. o esboço de uma mulher. acho que sim. este é o rosto da mulher que vi no sonho. com ternura. Com poucas e reconfortantes palavras. o vaso azul. perto de uma mesa sobre a qual repousava o vaso de porcelana azul. Mademoiselle Marchaud. há quanto tempo seu tio tem este vaso? — Há quanto tempo? Não sei ao certo. — Compreendo — disse Lavington. Ele ainda está muito doente — os olhos dela se encheram de lágrimas —. Representava uma mulher alta e loura. — É claro! Que bobagem a minha. ele colocou a menina à vontade e então. Não me interesso muito por porcelana chinesa. Monsieur. — Vi um exatamente igual na coleção de meu tio. e eu oculto tudo que possa agitá-lo. — É chinês — declarou Jack. e então levantou a cabeça. — A chave deste mistério é. — Pense. olhe o que achei atrás de um dos armários de cozinha. — Muito curioso — disse ele quando ela terminou. um estranho brilho nos olhos. — Gostaria de não preocupá-lo. — Falou com seu pai alguma coisa sobre isso? Felise balançou a cabeça. — E me alegro que tenha vindo nos procurar. — O vaso chinês — murmurou Lavington. mas agora me lembro de que me mostrou as "recentes aquisições" e 212 . Podemos dizer que agora estamos na pista. Ela mostrou um pedaço sujo de papel de desenho sobre o qual se via. Estava de pé. Como sabe. escutou-a atenciosamente. sabe. e este vaso é idêntico também. ele é um grande colecionador de porcelana chinesa e lembro-me de ter visto um vaso como esse. — Só encontrei hoje de manhã — explicou Felise. Não passava de uma pintura grosseira. Me parece um vaso chinês e. sem dúvida. — Hartington. — Extraordinário — comentou Lavington.interesse. provavelmente. Há mais alguma coisa? Felise fez um rápido movimento. há pouco tempo. É o ponto central da história. Hartington teve uma experiência semelhante à sua. com algo de sutilmente estrangeiro no rosto. mas a semelhança era bastante boa. — Monsieur le docteur. antigo. É uma compra recente? — Não sei. por sua vez.

na verdade. — Acho a idéia maravilhosa — exclamou. talvez. Uma coincidência curiosa ou. O entusiasmo trouxe-lhe brilho aos olhos. devemos usar nossa própria engenhosidade. onde ele comprou este vaso.esta era uma delas. Hartington. o que chamo de o tatear da justiça cega. Fez-se silêncio total. — Isto é impossível. Felise olhava ansiosamente de um para outro. — É. Jack empalideceu. Jack não se sentia assim tão animado. — O que o senhor acha que vai acontecer? — perguntou. e o fantasma derrotado. mas nada o faria demonstrar isso diante de Felise. Traga-o para cá e. O médico agia como se sua sugestão fosse a coisa mais natural do mundo. você tem que se apossar do vaso. ele estava apavorado. Ele está fora do país. com seu tio. Felise entrelaçou os dedos. levando conosco o vaso azul. Jack ficou arrepiado. — Não há nada que se possa fazer? — perguntou ela timidamente. passaremos a noite no Chalé Heather. não há nada que o impeça de ter comprado este determinado vaso no leilão das coisas dos Turner. — Sim. Se não ocorrer nenhum fenômeno. — E quanto tempo vai ficar fora? — Pelo menos três semanas ou um mês. — Talvez não seja o usual. mas acho que o mistério será resolvido. — Então. inquieto. — Seu tio às vezes freqüenta leilões no campo? — Ele está sempre às voltas com leilões. — Há menos de dois meses? Os Turners abandonaram o Chalé Heather há dois meses atrás. num tom de reprimida animação. Hartington. acho que foi isso mesmo. voltando-se 213 . há uma coisa — disse Lavington. Nem sei para onde poderia escrever. — Não tenho a menor idéia. mas acho que vai dar certo. você deve saber o quanto antes. se Mademoiselle permitir. Talvez haja um fundo falso no vaso com algo escondido. — Quando podemos apanhar o vaso? — perguntou Felise.

mas a lembrança do frenético grito pedindo ajuda. — Não pense em nada ou pense em tudo. ela preparou-lhes um café muito cheiroso. — Meu Deus! — exclamou entusiasmada.. Convencia-se cada vez mais de que era idêntico ao vaso do desenho. Não force a mente. Eu o reconheceria em qualquer lugar. não conseguia ver nenhum sinal de fundo falso. Em volta dela dispôs três cadeiras.para Jack. Enquanto isso. esta pessoa entrará em transe. era algo para ser impiedosamente eliminado e no qual não se devia pensar mais do que o necessário. — Entrem — sussurrou. tirando os vários papéis que o envolviam. a contragosto. Na noite seguinte. Muito fácil para Lavington dizer "tirem o medo do coração". — Amanhã — disse este último. Venham. Tirem o medo do coração e deixem-se levar — deixem-se levar. Os outros o obedeceram. colocou-o sobre a mesa. Eram onze horas quando ele e Lavington chegaram ao Chalé. não há nada a temer. de modo que abriu a porta antes que batessem. Sobre a lareira. porém. estamos prontos. E então. Então Jack foi desembrulhando o vaso chinês. Felise já os esperava. Jack não tinha medo: estava em pânico. por mais que o olhasse. coisa que o atormentou a cada manhã. De 214 . no escuro. e não devemos acordá-lo. Agora ele tinha que levar isso adiante até o fim. Lavington fazia seus preparativos. Apaguem as luzes e vamos ficar sentados em volta da mesa.. — Agora — disse ele —. Tirou todos os enfeites de uma mesinha e os colocou no meio da sala. Fiz café para vocês. É possível que um de nós tenha poderes mediúnicos. inclinada sobre esta. A cada minuto. Lembre-se. Sua voz sumiu e a sala ficou em silêncio. uma lamparina a álcool e. Felise ficou sem ar ao vê-lo. Ela os levou a uma pequena e aconchegante sala de visitas. — Meu pai está dormindo lá em cima. — É esse mesmo. ele foi à casa do tio e apanhou o vaso. Se isso acontecer. A voz de Lavington soou no meio da escuridão. o silêncio parecia cada vez mais impregnado de possibilidades. apanhando o vaso com Jack.

Ao chegar no chalé. meio indignado. ofegante de alegria. tio George.. Eu sinto isso. — Não lutem contra a influência. Estava deitado. O que teria acontecido? Ele sentou-se.. — Ah! mas não estava.. olhando para o céu. Não havia ninguém perto. Ia começar a fazer algumas perguntas na recepção quando um soco colossal nas costelas quase o derruba no chão. — Não me esperava. A sessão. tudo voltou-lhe à mente. paz. Mas não houve resposta nem sinal de vida lá dentro. E o que encontro? Fora a noite 215 .. A pequena sala. E então.. E aquela sensação de ameaça aproximava-se cada vez mais. Jack moveu-se ligeiramente. Pensei em ir para Londres de carro e parar aqui para vê-lo. a cabeça latejando desagradavelmente e olhou à sua volta. Com certeza haviam ficado alarmados por ele não sair do estado de transe e o levaram para o ar livre. Voltando-se. corrente abaixo. E então. Onde estava? Sol brilhando. e o silêncio mais profundo. A cabeça pesava-lhe como chumbo. hein? Não me esperava mesmo. Para seu total espanto registrava 12:30... asfixiar. Devem ter ido procurar ajuda.. em algum lugar da Itália. baixa e cheia de terror. pensei que estivesse a milhas de distância. Ele apanhou o relógio.repente ele ouviu a voz dela. aquela coisa má aproximando-se cada vez mais.. Estava deitado num pequeno souto. — Alguma coisa horrível vai acontecer. O que acontecera na noite passada? Voltou ao hotel o mais depressa possível. Ou então — Jack sentiu um medo indefinido. os olhos fechados. escuridão.. Tudo parecia ficar mais escuro. não muito longe do chalé. Jack levantou-se com dificuldade e correu o mais depressa que pôde na direção do chalé. não é? — disse o indivíduo. Cheguei a Dover ontem à noite. Felise e o médico. — Não tenham medo — disse Lavington. Jack sentiu-se sufocar. pássaros.. bateu à porta bem alto. — Ora.. deparou-se com um senhor grisalho. o momento de conflito passou. Ele deixava-se levar.

Jack abriu-o. Que diabo! O que você fez com meu VASO AZUL? Jack saiu correndo da sala. Aposto que não vai acreditar. mas. obra-prima de minha coleção. em meio a uma refeição substancial. quase que o rasgando. A jovem da recepção olhou-o com frieza. — Ming.toda. — O VASO AZUL! Que fim levou? Jack olhou-o sem entender. oferecimento de Hoggenheimer. único. — Mas tenho que comer qualquer coisa — continuou Jack. hein? Que farra! — Tio George — atalhou Jack. Temos doze horas de vantagem. narrou toda a história. o milionário americano. rapaz. ele começou a compreender. — Tenho uma história extraordinária para lhe contar. — Aposto que não vou mesmo — riu o velho. submerso na torrente de palavras que se seguiram. Felise. Tinha que encontrar Lavington. — Dr. E sabe Deus o que aconteceu a eles — finalizou. Atenciosamente AMBROSE LAVINGTON. Médico da Alma. Deixou um bilhete para o senhor. avaliado em. Era curto e objetivo. O tio parecia estar à beira de um colapso. tarde da noite. pelo menos. de carro. — Mas esforce-se. 216 . Ele dirigiu-se ao restaurante e. o pai inválido e eu mandamos lembranças. dez mil libras. — Estou morrendo de fome. o que deve ser mais do que suficiente. O vaso — ele conseguiu exclamar finalmente. o único do tipo em todo o mundo. Lavington foi embora ontem. MEU JOVEM E QUERIDO AMIGO: Já acabou o dia do sobrenatural? Nem tanto — principalmente quando disfarçado em nova linguagem científica.

dirigindo-se ao apartamento do terceiro andar. Enquanto esperava que alguém lhe viesse abrir a porta. Raoul bateu-lhe no ombro para reconfortá-la. Ela passou na frente de Raoul e abriu-lhe a porta do pequeno salon. Monsieur. digo e repito. Engenheiro por profissão. Elise. não é natural. Elise fechou a porta da frente e voltou-se para ele. No devido tempo chegou a Cardonet e entrou no número 17. não? — perguntou ele por sobre os ombros. o senhor pode dizer o que quiser. Monsieur. sessões e mais sessões! Não está certo. — Bom dia. — Ah. Depois subiu as escadas. — Como ela poderia estar bem. — Ah.A ÚLTIMA SESSÃO Raoul Daubreuil cruzou o Sena cantarolando. — Madame me espera. bom — resmungou baixinho —. Para mim. No momento está repousando. Raoul olhou-a. madame estará com o senhor em poucos minutos. — Pronto. Uma senhora francesa foi quem lhe abriu a porta. de boa aparência. não se agite e não esteja tão pronta a ver o diabo em tudo o que não entende. — Ela não está bem? — Bem! — vociferou Elise. mas não gosto mesmo. sério. resmungando um "bom-dia" ao qual ele respondeu alegremente. — Bom dia. cada dia mais magra. pobrezinha? Sessões. é o mesmo que negociar com o diabo. dos seus trinta e dois anos. Elise balançou a cabeça. não foi o que o bom Deus nos determinou. Raoul Daubreuil sentia-se particularmente bem disposto esta manhã. 217 . Era um francês jovem. Ele entrou e ela o seguiu. tirando as luvas ao fazê-lo. O porteiro olhou-o de sua toca. rosto corado e bigode preto. cantarolou mais uma vez sua musiquinha. — Bem! — continuou ela. seu rosto enrugado abriu-se em sorrisos quando viu quem era o visitante. Elise. Ele se passou para o vestíbulo. pronto. — St Monsieur fizer a gentileza de passar ao pequeno salon. Olhe a Madame. claro.

— É verdade o que está dizendo? — perguntou. suplicante —. entusiasmada. sua patroa é a médium mais maravilhosa de Paris — mais. Elise — disse ele —. Elise — disse Raoul ao deixar-se cair sobre uma cadeira. como você chama. envolvendo terrível tensão nervosa. — Depois que estiverem casados. Acredita nisso? Elise empertigou-se e falou com uma certa dignidade: — Trabalho para Madame há muitos anos. Pessoas do mundo inteiro vêm a ela porque sabem que com ela não há truques nem embuste. mas agora já fez seu papel. A vida de uma médium é muito árdua e fatigante. quando ela for minha esposa. — É — disse ele. Como você observou. falando quase que mais para ele mesmo do que para ela. todo esse "negócio de espírito” . e aquelas dores de cabeça! Ela apertou as mãos. tudo isto tem que terminar. Monsieur. e os outros no purgatório. — Sim. — Você é uma criatura boa e fiel. — Ela é um anjo — disse o jovem. Madame não poderia enganar nem a um recém-nascido. A velha empertigou-se. isso não vai continuar. não é bom esse negócio de espírito. Com todo o 218 . dirigiu-se à porta e depois parou. — Embuste! Claro que não.definhando. Ela vez o sinal da cruz. Monsieur. sério. Espíritos! Todos os bons espíritos estão no paraíso. com ardor. Elise riu com desdém. Elise fez-se toda sorrisos. — Sou uma boa católica. Não haverá mais séances para Madame Daubreuil. a mão sobre a maçaneta. De qualquer jeito. Elise. vai? Raoul sorriu-lhe afetuosamente. — Sua visão da vida depois da morte é animadoramente simples. e dedicada à sua patroa. irá parar. se tentasse. Simone tem um dom maravilhoso e o tem usado livremente. — Não. O outro anuiu. da França. — E vou fazer — fazer tudo que está ao alcance de um homem para torná-la feliz. ela está cada dia mais magra. Monsieur — disse ela. Não tenha medo. Elise.

Madame é boa. — O quê? — É difícil explicar. — É uma bobagem acreditar neles. Não é truque. É contra a natureza e le bon dieu. Tenho certeza. — Acalme-se. a porta abriu-se e uma mulher 219 . Raoul riu. desconfiada. Ele esperou que a mulher fosse receber a brincadeira com uma risada. hesitante —. — Não acredito mesmo — disse.. que os espíritos não a abandonem. e alguém vai ter que pagar. Monsieur.. Sabe. de que isto não está certo. desconsolada. percebeu que ela continuou séria. — Madame não está preparada. Mas Madame não é assim. Elise! Você é uma amiga fiel e agora deve consentir neste casamento. Monsieur — disse. obstinada. Se não acreditasse que o senhor a adora como merece ser adorada — eh bien. já que lhe disse que Madame vai abandonar os espíritos. coisas acontecem.. Raoul levantou-se da cadeira. — começou ela. Elise balançou a cabeça. e é por isto que estou com medo. sorrindo. — A última. aproximou-se dela e bateu-lhe de leve no ombro. Mas suas palavras foram interrompidas. o que quer dizer com isso? — Eu disse — repetiu Elise — para supor que os espíritos não a abandonem. não é? — perguntou a mulher.. a última. Madame é honesta e. — Coisas acontecem. minha boa Elisa — disse ele. pedacinho por pedacinho.. devo dizer que a adoro. Elise.. — Então tem uma hoje... Ela baixou a voz e falou num tom de respeito e temor.respeito. estaria disposta a fazê-lo em frangalhos. — Sabe. — Ei. pensei que não acreditasse em espíritos. Monsieur. Mesmo assim. — Vamos supor. um tanto surpreso. vou lhe dar uma boa notícia: hoje é a última destas sessões. sempre pensei que estes médiuns fossem vigaristas inteligentes que enganassem as pobres almas que perderam o ente querido. depois de hoje não haverá mais nenhuma. — Bravo. — Elise. mas.

Ele olhou-a. — Sim. é a tensão. não. Simone. — Então me conte o que há. mas estou o tempo todo com esta idéia de que alguma coisa terrível. tensão da vida de uma médium. não está doente. só isso. — Simone. Ela olhou-o agradecida. — A médium deu um leve sorriso. doente. — Você vai achar que sou boba — murmurou. você não se deve entregar. disse. minha querida? — Não. pensando que ela fosse continuar. meu querido. — Simone! Ele tomou as compridas e alvas mãos e beijou uma de cada vez. Como ela não o fez. Sei o que é. A face de Raoul iluminou-se e Elise retirou-se depressa e discretamente. Ele levou-a para o sofá e sentou-se ao seu lado. Ela murmurou o nome dele muito suavemente: — Raoul. é um absurdo. está.. Ele esperou um pouco. não é? Mas é o que sinto. Raoul passou-lhe o braço delicadamente em volta da cintura.alta e loura entrou. Não sei de que nem por que. — Ele beijou-lhe novamente as mãos e olhou intensamente para seu rosto. para estimulá-la: — Sim. só isso. o rosto da Madonna de Botticelli. terrível. Simone soltou as mãos. Raoul. Era magra e graciosa. Ela fitou um ponto no espaço. Amedrontada. perplexo e ela correspondeu ao olhar rapidamente. medo de quê? — Com medo. — ela hesitou. os olhos fixos no tapete.. Depois falou apressadamente e em voz baixa: — Estou com medo. Você só precisa de descanso e de paz. como você está pálida! Elise me disse que você estava descansando.. 220 . vamos. vai-me acontecer. — Mas. Sentou-se muito quieta por alguns segundos. — Eu? Pensar que você é boba? Nunca.. — Minha querida.

Depois disso não se sabe nada. vem o lento e doloroso retorno. — Olhe aqui. enquanto ela o olhava. — Eu sei — murmurou Raoul —. Simone. mas nem mesmo sabe o que significa. — É sim — Raoul insistiu. e um cansaço tão grande — terrivelmente grande. esperando. Você sabe de tudo isso. eu sei. do vazio. sorrindo um pouco. espíritos para eles. como uma criatura acuada. os olhos ainda fechados. não se sente nada. Ele tirou duas cartas do bolso. Ele levantou-se e pegou-lhe a mão. Simone. não. de Nancy. trêmula. Você me prometeu que isso ia acabar. sim. Raoul olhou-a. Ele puxou-a mais para perto de si. Mas estou tão orgulhoso de você. — Mas você é maravilhosa. — É claro que está terminado. Esqueço minha vida — a terrível vida de uma médium. pois é a escuridão do nada. Genir. por fim. você está certo. e por isso mencionei essas cartas. Raoul. — Não. — Senta-se na sala. Raoul. ambos implorando que você continue a receber. 221 . É disso que preciso: descanso e paz. a pessoa se entrega para perder-se nessa escuridão. Ela balançou a cabeça. mas. — disse ele. — Ah. tentando fazê-la compartilhar do mesmo entusiasmo. não farei isso. — Você é inigualável — a maior médium que o mundo já conheceu. — Sim. Ele pegou-lhe as mãos. o despertar de um sono. estou a salvo. Todo seu corpo pareceu esmorecer quando ela repetiu as palavras. — Um cansaço tão grande — sussurrou Simone novamente. Os olhos abriram-se de novo. Ele sentiu o corpo dela enrijecer contra o seu.— Sim. esporadicamente. Ela fechou os olhos e apoiou-se um pouco no braço dele. Simone. e a escuridão é terrível. Deliberada-mente. e essa do Dr. Raoul. sim. — E felicidade — murmurou Raoul ao seu ouvido. do Professor Roche da Salpêtrière. atônito. Quando estou abraçada com você. Simone levantou-se. Raoul. De repente. — Sim — murmurou —. deu um profundo suspiro. no escuro.

Para você. deveria compartilhar da dor de uma outra mulher. Sabe. Mas ela o interrompeu. — Ela é uma mulher estranha.. seguia sua própria linha de raciocínio. sim. Ela entrelaçou os dedos sobre a testa e dirigiu-se para a janela. nunca mais. para estes velhos amigos. — Não é verdade que você não quer mais que eu receba algum espírito? — É verdade — disse Raoul —. — Prometa-me que nunca mais — disse ela. não. Raoul seguiu-a e colocou-lhe os braços sobre os ombros. carinhoso.. Ah! Ela teve um leve estremecimento e fechou os olhos. Mas. Já notou as mãos dela. — Eu prometo que. na condição de mulher. tinha-me esquecido de Madame Exe.Ela olhou-o de soslaio. falando irritada: — Não. — Deve chegar a qualquer minuto agora. Raoul consultou o relógio. Raoul. Simone. como que desconfiada. eu sei. Você. — Minha querida — disse. — Ah. Raoul? Mãos grandes e fortes. você nunca mais vai receber nenhum espírito. a mãe é sagrada e é rude de minha parte sentir-me assim em relação a ela quando está de luto pela criança que perdeu. — Simone! Havia reprovação na voz dele. o que não lhe passou despercebido. Simone não parecia escutá-lo. você é como todos os franceses. Raoul afastou-se um pouco e falou-lhe com frieza: — Realmente não posso entendê-la. depois da sessão de hoje.. Simone. a menos que você mesma queira fazêlo.. uma mulher muito estranha. tão fortes quanto as de um homem. Posso dizer com certeza que há um grande perigo. a mãe que perdeu o filho único. e as mãos dela. Ele sentiu o corpo de Simone estremecer. se não está se sentindo bem. ela é tão grande e tão negra. Eu sinto isso. mas talvez. mais calma... 222 .. não sei como explicar. Estou lhe dizendo. talvez. — Hoje — murmurou ela. Raoul. tenho quase que horror a ela. — Sim. Há algum perigo. sim..

Simone voltou-se de novo em direção à janela. ela me traria azar. sério..Simone fez um gesto de impaciência. Professor Roche tinha que estar presente em pelo menos uma delas. mas certeza absoluta. há sempre perigo. — Raoul. você sabe que não tenho a mínima idéia do que acontece quando estou em transe.. mas na última séance. na realidade. senti.. a figura da criança tornou-se visível. No mundo inteiro há exemplo de mártires da Ciência. de alguma maneira. pioneiros que pagaram para que outros pudessem segui-los com segurança. 223 . — O que houve? Ele falou suavemente: — Simone. O espírito da pequena Amelie pôde controlar você de imediato e as materializações foram realmente impressionantes. como se envolta numa névoa — explicou ele —. — Só que. as materializações são realmente assim tão maravilhosas? Ele anuiu entusiasticamente. meu amigo! Não se consegue evitar essas coisas. — Eu estava cansadíssima quando acordei — murmurou. — Medo! — Você se lembra que demorei muito até "receber" para ela? Tinha certeza de que. ela lhe trouxe justamente o contrário — disse secamente. Raoul deu de ombros. Cheguei mesmo a tocá-la. Ela estendeu as mãos. — Todas as sessões foram um grande sucesso. não permiti que Madame Exe fizesse o mesmo. Tive medo de que ela perdesse o autocontrole e pudesse causar-lhe algum mal. — Nas primeiras sessões. tem certeza. mas a causa é nobre pois é a causa da Ciência. de carne e osso. é você que não entende. — Sabe o que acho — disse Raoul... Já faz dez anos que você trabalha para a Ciência às custas de uma tremenda tensão nervosa. de que isto está certo? Você sabe que a querida Elise pensa que estou negociando com o diabo? Ela riu um pouco incerta. real. — Materializações — disse Simone em voz baixa. Desde o primeiro momento em que a vi. — Lidando-se com o desconhecido. — Ah. mas quando notei que o toque não fazia bem a você. — Raoul.. a criança que apareceu era uma criança viva.

— Suponho que sim — concordou Simone sem ouvi-lo realimente. 224 . — E é isso que estou dizendo. Ela interrompeu-o desafiadoramente. Simone andou pela sala. em desespero. — Ao mesmo tempo. — Acho que virá — disse Raoul.Você já fez sua parte. — Não me sinto eu mesma. Um pequeno vaso de porcelana que segurava escapou-lhe dos dedos e se fez em pedaços no chão da lareira. — Madame Exe está atrasada — murmurou ela. Ela voltou-se abruptamente para Raoul: — Está vendo? — murmurou. Ela sorriu-lhe afetuosamente. — Não é em dinheiro que estou pensando. — Não vou fazer. Vou fazer o que quiser mas agora sei do que tenho medo: é da palavra "mãe". esta mulher é mãe. Não vou.. — Claro que há — concordou. a partir de hoje está livre para ser feliz. se não passa de um capricho de sua parte. — A maioria das pessoas que recorrem aos médiuns prefere ficar incógnita — observou ele. Depois lançou um rápido olhar para o relógio.. a calma restaurada. — Seu relógio está um pouco adiantado. arrumando uns enfeites sobre a mesa. Ela encostou-se na parede. Raoul deu de ombros. E mais uma vez o olhar dele. docemente reprovativo. como pode negar a uma mãe uma última visão da filha? A médium esticou os braços para frente. você está certo. — Oh. Raoul. — Você prometeu. — Quem será esta Madame Exe? — observou ela. embora esta mulher lhe tenha oferecido uma vultosa quantia na última sessão. — É uma precaução elementar. a fez tremer. Raoul. — Há coisas mais importantes do que o dinheiro. uma mãe que perdeu a única filha. — De onde vem. Se você não está realmente doente. Simone. Simone. seria covardia dizer à Madame Exe que hoje não posso conduzir uma sessão? Seu olhar de dolorosa perplexidade a fez corar. você está me torturando — murmurou. — Talvez nem venha. Lembrese. quem é sua família? É estranho não sabermos nada sobre ela.

mas obedeceu. — Ela sorriu para ele e saiu da sala. — Deite-se por alguns minutos — aconselhou: — Descanse até que ela chegue. mas a maternidade continua como no começo. Raoul aproximou-se para apertar a mão de Madame Exe. Não conhece lei. mas em uma das extremidades havia um vão onde fora colocada uma grande poltrona. um chifre. gostaria que já tivesse terminado. estridente. A campainha soou. — Vou avisar à minha patroa que a senhora está aqui. e então caminhou a passos largos em direção da porta. Pesadas cortinas de veludo preto estavam arrumadas de modo a serem fechadas. Raoul. As palavras 225 . nem piedade. Monsieur. perdido em pensamentos por alguns minutos. Pouco depois apareceu trazendo a visita. Elise arrumava a sala. Sei disso. Raoul permaneceu lá. Ele pegou-lhe carinhosamente as mãos. — Aí está ela. cruzou o pequeno vestíbulo. Não há nada que se iguale ao amor de uma mãe pelo filho. seres humanos. aquela mulher — continuou a velha criada. Madame. alguns papéis e uns lápis. — Muito bem. abriu-a. Ela lançou-lhe um olhar. são todos a mesma coisa. o que lhe aparecer no caminho.— Simone! — Há certas forças elementares primitivas. um pouco ofegante. e depois voltou-se para Raoul com um sorriso rápido e desconcertante. Entrou numa sala do outro lado. Ela fez uma pausa. — Como estou boba hoje. tudo ousa e esmaga. sem remorso. — Por que ela não pode rezar decentemente pela alma da criancinha numa igreja. Perto do vão colocara duas cadeiras e uma mesinha redonda. Raoul. acender uma vela para Nossa Senhora como todo mundo? Será que o bom Deus não sabe o que é melhor para nós? — Atenda a campainha — disse Raoul com firmeza. uma sala de estar bastante semelhante àquela em que ficara até agora. A maioria delas foi destruída pela civilização. tapando este vão. — Ah. Animais. Sobre a mesa encontrava-se um pandeiro. — A última vez — murmurou Elise impiedosamente satisfeita.

— Madame Simone está deitada. — Apenas poucos minutos — disse Raoul. — Ah. Madame — disse Raoul —. — Isto é muito interessante. não anda bem. poderia resultar na morte do médium. vai sim. para manifestar-se. — O senhor não pode imaginar que alegria que são essas séances para mim. Um espírito. Madame. Monsieur. Mas acreditamos que este ectoplasma seja a substância do médium. Era uma mulher grande e o luto fechado parecia um exagero no caso dela. — Mas ela vai "receber"? — perguntou. Minha pequenininha! Minha Amelie! Vê-la. ouvi-la. o perigo é bastante grande. Sua voz era muito profunda: — Acho que cheguei um pouco atrasada. afrouxando os pesados véus que a envolviam. Madame Exe soltou um suspiro de alívio e deixou-se cair sobre uma cadeira. sem usar termos técnicos. será que a materialização chegará a um tal estágio que se desprenda do médium? 226 . Vou explicar de maneira simples. Se alguém agarrasse a materialização. esgotada. Monsieur. Infelizmente. — Ah. está nervosa. para a médium. A senhora viu o vapor fluido que saiu dos lábios da médium. Este finalmente se condensa e se incorpora na imagem física do espírito do morto. Diga-me. Madame Exe ouviu-o com toda a atenção. sorrindo. tem que usar a substância física do médium. Monsieur! — murmurou ela. Raoul falou rápido e decidido: — Madame Exe — como posso explicar? — de maneira nenhuma a senhora deve fazer qualquer coisa a não ser sob minha expressa orientação. talvez ser até capaz de — estender minha mão e tocá-la.de Simone voltaram-lhe à mente: — Tão grande e tão negra. Seus dedos apertaram a mão dele como se fossem garras. caso contrário. a Ciência explica de certa maneira. — Perigo para mim? — Não. até — talvez — sim. A senhora deve entender que os fenômenos que ocorrem. Esperamos provar isso algum dia através de cuidadosos testes e exames — mas a grande dificuldade é a dor e o perigo do médium quando se quer tocar no fenômeno.

Ele também fechou as cortinas da janela de modo que o quarto caiu na semiobscuridade. talvez. — Não costumo faltar com minha palavra — disse Simone friamente. pois neste momento Simone entrou. — Mas. — É verdade — concordou Simone calmamente —. Madame — disse a outra mulher. — Você não está forte o bastante — exclamou. baseando-se em fatos. 227 . — É melhor cancelarmos esta séance. — Sim. mas. Madame Exe. De repente. — O senhor vai-me perdoar. mas readquirira total controle sobre si mesma. e estou preparada para cumprir minha promessa. para que meu testemunho tenha mais valor.— É uma especulação fantástica. Monsieur. Raoul — acrescentou suavemente —. é a última vez — última vez. — Madame Simone me prometeu uma última sessão. pálida. Raoul sentiu passar uma onda de medo. Madame Exe entenderá. Indicou uma das cadeiras a Madame Exe e preparou-se para ocupar a outra. entretanto. Raoul puxou a pesada e negra cortina do recanto. — Vamos começar? Ela sentou-se na poltrona. Parecia lânguida. um tanto rude. — Monsieur! Madame Exe levantou-se indignada. — Isto é um insulto! — Uma precaução. A um sinal dela. — Estou contando com isso. Acredito totalmente em sua integridade e na de Madame Simone. é melhor cancelar. tomei a liberdade de trazer isso comigo. graças a Deus. é impossível? — Hoje é impossível. — Madame! — gritou Raoul. hesitou. mesmo assim. — No futuro. Madame. sim. — Não tenha medo. afinal de contas. — Não é nada — disse Simone. não? Ele livrou-se de responder. Ela insistiu. Ela tirou da bolsa uma corda fina. Ela aproximou-se e apertou a mão de Madame Exe. Raoul notou-lhe o estremecimento quando o fez. — Lamento ouvir que está indisposta — disse Madame Exe.

em formato de fita. não Raoul. Esta deu lugar a uma série de gemidos. De repente. a forma de uma criancinha. Amarre meus pés e minhas mãos. saía da boca de Simone. — Lembre-se do que está dizendo. Simone deu um grito. zombeteira. — Se não há truque. Ouviu-se um riso irônico. por detrás da cortina. Por detrás da cortina o som da respiração de Simone tornava-se cada vez mais pesado e estertorante. Depois trancou a porta que dá para o vestíbulo e. amarrando Raoul na cadeira. Mais uma vez se fez silêncio. — Parece que Madame está com a impressão de que somos charlatões. — Está de parabéns pelos seus nós. a cabeça pendida sobre o peito. O chifre foi apanhado da mesa e jogado no chão. — Tenho que me certificar — disse. Deu uma volta pela sala examinando os painéis das paredes bem de perto. inflexível. — Agora — disse ela com uma voz indescritível —. não a deixe fazer isso. — Não. estou com medo. foi tomando forma.— Repito que é um insulto. estou pronta. Os minutos escoavam-se. E foi cumprindo metodicamente sua tarefa. Madame. — Não entendo sua objeção. Madame Exe riu. Monsieur — disse Madame Exe friamente. voltou para a cadeira. retirando a chave. que foi quebrado por uma repentina batida no pandeiro. o senhor não tem nada a temer. gradualmente. Raoul riu com escárnio. e pela fresta podia-se ver o vulto da médium. senhor — e avançou para ele com o rolo de corda. As cortinas estavam um pouco mais abertas. se quiser. pois Madame Exe limitou-se a murmurar de maneira imparcial: — Obrigado. — Posso assegurar-lhe que não tenho nada a temer. Madame — observou ironicamente quando ela terminou. Seu discurso não produziu o efeito esperado. 228 . — Sim. E então Madame Exe prendeu a respiração: uma corrente de névoa. — Madame está com medo — observou sarcasticamente. — Está satisfeita agora? Madame Exe não respondeu. Simone — falou Raoul. Esta se condensou e.

certamente. não tinha jeito. mas o trabalho estava bem feito. — Meu Deus! — Exclamou Raoul. — Mamãe! — Ah! — exclamou Madame Exe. Era uma criança. 229 . Sua mão tocou a pequena figura que estava na abertura da cortina. rouca. os braços estendidos. A figura enevoada foi-se condensando cada vez mais. Seu rosto revelava êxtase e alegria. — Minha pequenininha. Ele agora estava realmente alarmado. — Meu Deus! Isso é terrível. E ali estava ela.. — Tenha cuidado. eu lhe ordeno. Madame — avisou Raoul. Estava transtornada. Ali.. Raoul olhava quase que incrédulo. Madame Exe voltou-se para ele soltando uma horrível gargalhada. Uma terrível sensação de desastre iminente apossouse dele. — Mamãe! Falou uma voz macia e infantil. E ela continuou a fazer menção de levantar-se. alarmado — a médium. Madame. uma criança de carne e osso. apreensivo. Ela deu um passo à frente. — Sente-se de uma vez. — Tenho que tocá-la — disse. A materialização atravessou as cortinas. Nunca vira materialização tão perfeita. sente-se! — gritou ele. A médium soltou um gemido terrível. — Minha filha! — gritou madame Exe. controle-se — gritou Raoul. — Em nome de Deus.. — Madame.. estava uma criança de verdade. Madame Exe não lhe prestou atenção. — Pelo amor de Deus. tenho que tocá-la. sente-se! Ele lutava desesperadamente para se soltar. A médium.— Amelie! Minha pequena Amelie! O rouco sussurro partiu de Madame Exe. Madame. — Minha filha! Ela foi-se levantando da cadeira. — Madame — gritou Raoul. — Lembre-se da médium.

Juntos. a mesma palavra ecoou: — Mamãe! — Venha. Raoul esforçava-se como um louco para livrar-se dos nós. — Então. Minha bonequinha voltou dos mortos.. minha! Minha própria filha. Enquanto tentava levantarse. — Simone! — chamou Raoul. Mas diga-me. — Meu Deus! — murmurou.. Que mulher medonha! Inconseqüente. — Simone! Ele mal notou que Madame Exe passou correndo por ele. Simone! Simone! 230 . áspera e trêmula.. Raoul recuou. No seu frenesi conseguiu o impossível: arrebentou a corda. Raoul abriu a boca. Madame está morta. Eu não sei. Mas acho que vou ficar louco. mas não conseguiu emitir nenhum som. Acabou. Monsieur. Elise entrou com uma bola.— E o que me interessa a médium? Quero minha filha. chamando: — Madame! — Simone! — chamou Raoul. o que aconteceu? Por que Madame encolheu — por que está metade de seu tamanho habitual? O que aconteceu aqui? — Não sei — disse Raoul. E ouviu a voz de Elise. Os lábios da criança entreabriram-se e. destrancou a porta e desceu as escadas correndo. Com um gesto rápido. — Vermelho — tudo vermelho. pela terceira vez. viva e respirando. a pancada seca de um corpo que cai. ela apanhou a menina. então.. terrível — um grito como nunca Raoul ouvira antes. Minha carne e meu sangue. abriram a cortina. — Está louca! — Minha filha. minha querida — disse Madame Exe. Sua voz foi num crescendo até se transformar em grito: — Eu não sei. Depois. alto. absorta pela sua própria paixão. selvagem. Ainda se ouvia aquele grito longo. Ele transformou-se num risinho gutural. Por detrás das cortinas ouviu-se um longo grito de angústia.

satisfeito. Então venha e apronte. Muito melhor em todos os sentidos. — Chá. e voltou a olhar a mesa. Dinsmead levantou-se.S.. Dinsmead. Dinsmead. de amplos ombros e um rosto largo e corado. quase num sussurro. — Não há a menor probabilidade de termos visitas hoje à noite. O. Mamãe. E então ele também saiu da sala. Era um homem grande. Este é meu pedido para a ceia. Ele andou pela sala. Ele piscou o olho. A luz da lareira brilhava na branca e grosseira toalha de mesa. carne enlatada fria. — Limonada? — sugeriu a Sra. — Depois que cresceu ficou uma menina muito linda — murmurou. — Está tudo pronto — disse o marido com simpatia. vá. — Um bom prato de ovos. — Ah! — disse o Sr. Nada melhor do que uma xícara de chá quente numa noite como esta. Olhe só como o tempo está chuvoso. trazendo o resto das provisões. tendo o cuidado de enrolar o novelo de lã do tricô. S. As duas filhas vieram atrás. não vamos mais perder tempo. Era uma mulherzinha sem expressão. Uns dez minutos depois a Sra. Charlotte está na cozinha esperando para lhe dar uma mãozinha. — Está. O marido balançou a cabeça. Seus olhinhos avarentos brilhavam sob as bastas sobrancelhas. apreciativamente. Dinsmead. — Que tempo horrível — murmurou para si mesmo. — É uma doçura.. — Ah! — disse o Sr. facas e garfos e outros petrechos de mesa. Depois se aproximou da janela e olhou para fora. A Sra. os escassos cabelos penteados para trás e maneiras constantemente nervosas. Ele deu um passo atrás e analisou a mesa redonda. hesitante. pálida. O Sr. pão e queijo. — O retrato vivo da mãe! Então. está tudo pronto? — perguntou a Sra. Dinsmead. brincalhão. cantarolando. 231 . Dinsmead entrou com uma travessa de ovos fritos.

a quilômetros do nada — disse a filha Magdalen.. com uma ponta de satisfação — os milagres não acontecem. Pai — disse Charlotte. porém estremeceu um pouco. E passou a trinchar a carne enlatada com destreza. — Mas. etcetera — observou cheio de humor. — Não. a quilômetros de distância do nada. seria um milagre se isso acontecesse. Uma pancada de chuva bateu contra a vidraça da janela e a Sra. vamos. se não pudéssemos lançar mão das latas de vez em quando. birrenta. Gostaria de saber o que faríamos. — E pelo que vamos receber. Seus olhos buscaram furtivamente os de sua mulher. — E bênçãos ao primeiro homem que pensou em comida enlatada. — Não dormiria aqui sozinha por nada deste mundo. — Gostaria de saber quem teve a idéia de construir uma casa assim. No momento exato em que dizia estas palavras. é só isso. — E mal-assombrada também — disse Charlotte. A Sra. Dinsmead soltou um grito em tom de lamúria. Dinsmead ficou petrificado. alguém bateu à porta. E milagres não existem. com um estalido. — Está uma noite terrível. viu? Ora. se o açougueiro esquece da entrega semanal. minha menina? Bem. — Quanta bobagem — disse o pai. — É verdade — disse o pai —. mãe? — perguntou o Sr. nunca vemos vivalma. — Nunca viu nada. Dinsmead deixou a colher cair sobre a bandeja. Estamos a salvo ao lado da lareira. O Sr. boquiaberto. e não há possibilidade de que alguém nos venha perturbar. e apertou mais o 232 .. Este se sentou à cabeceira da mesa. Ora.Dinsmead e o filho Johnnie fechavam a marcha. Dinsmead. Não — ele acrescentou mais para si mesmo. o quê? Charlotte não respondeu. Não se preocupe. mas ela franziu a sobrancelha. tive meus motivos — tive meus motivos. — Não sei o que o levou a comprá-la. — Ver nunca. — Nunca vemos vivalma. — O que será isso? — murmurou ele. — Está nervosa. mas.

uma celebridade. Vinte minutos antes. mas. abandonado a quilômetros do nada. Logo se livrou da neblina e reconheceu a luz que vinha de um pequeno chalé. ele abandonou o carro e caminhou a passos largos encosta acima. Era uma autoridade em ciência da mente e escrevera dois livros excelentes sobre o subconsciente. teve consciência de uma excitação. as pessoas revelassem completa ignorância do seu nome e de suas realizações. Por 233 . Depois de alguns momentos de cogitação. Quando bateu à porta tudo ficou em silêncio. Mortimer Cleveland apressou o passo. era bastante suscetível à atmosfera e. na medida em que estas afetavam suas próprias conclusões e linha de pesquisa. Era bem feito por ter tentado um atalho. Ali acharia abrigo. Cleveland era. ele avistou-a de novo. Era também um membro da Sociedade de Pesquisa Psíquica e um estudioso de ciências ocultas. e deixálo entrar. depois ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada. dois pneus furados. Ele olhou à sua volta perplexo. — É melhor ver quem é. Em menos de dez minutos. e o brilho de uma luz chamou-lhe a atenção. O murmúrio lá de dentro lhe era perfeitamente audível. sem possibilidade de levar o carro adiante e sem saber se havia algum vilarejo por perto. A cor voltou ao rosto de Magdalen e ela inclinou-se para frente e falou com o pai: — O milagre aconteceu — disse ela. e ali estava ele. à sua maneira. Se pelo menos estivesse na estrada principal! Agora estava perdido nesta trilha da encosta. Quando finalmente chegou ao chalé e bateu à porta. Pouco depois um menino dos seus quinze anos abriu a porta.xale em volta dos ombros. como se todas suas faculdades tivessem sido estimuladas. em conseqüência de um constante treinamento. Mortimer Cleveland ficara sob a chuva e a névoa examinando o carro. Realmente era um azar danado. Pouco depois a névoa escondeu-o. a noite se aproximando e nenhuma possibilidade de abrigo. Por natureza. sem dúvida. esperando pacientemente. aguçara seu dom natural. de um aumento de interesse. baixando a cabeça para defender-se da fúria do vento e da chuva que pareciam fazer o máximo para impulsioná-lo para trás. embora. em meio destas chapadas de Wiltshire.

O pai. uma palidez marmórea. Cleveland. Ele era todo simpatia agora. e que seu tipo era bastante raro. — Ah! sim. severa. como que fazendo um grande esforço. — Meu nome é Dinsmead — disse o outro homem. Uma mesa redonda posta para a refeição. não é? — É. Feche a porta. sentava-se a um lado da mesa. está bem. Seus olhos alarmados encontraram os dele. ocupava a cadeira de frente a ele. era tão bonita quanto a irmã. acobreados. Era como se o estudasse. sorrindo. quase que proibitiva. e o brilho de uma lareira. Cleveland. senhor — Sr. Charlotte e Magdalen. Este lhe pareceu semelhante às pinturas dos mestres holandeses. delicado nariz aquilino e lábios austeros. de pequena estatura e rosto assustado. estava uma menina. pesando-o na balança do próprio julgamento. Finalmente. caíam-lhe em volta do rosto como uma névoa. Cleveland entrou e sentou-se num banco de madeira perto da lareira. uma mulher grisalha. penetrante. uma família sentada em volta dela. Nem mesmo um cachorro agüenta este tempo do lado de fora. A boca e o queixo eram os de uma Madonna Italiana antiga. o copo na mão. limitou-se a inclinar a cabeça e lançar-lhe um olhar atento. e as duas são minhas filhas. Ao ser apresentada. embora de tipo totalmente diverso. o pai levantou-se. os olhos. E então Cleveland entrou na sala e explicou o que lhe acontecera. Cleveland viu o interior do chalé. Entre. — Esta é minha senhora. — Entre. Johnnie? Não fique aí parado a noite toda. Sr. cinza-puro. Muito morena. Era um tipo de beleza fria. um ou dois candelabros tremeluzentes. bastante afastados um do outro. este é meu nome — disse Mortimer. Os cabelos. Ele concluiu a banal história.cima de seu ombro. não acha? Aproxime-se da lareira. e houve outra parte mais difícil de se entender. como que esquecida de leválo aos lábios. De frente para a porta. um homem grande. olhando diretamente para Cleveland. 234 . Houve um momento de profundo silêncio. Johnnie fechou a porta. Cleveland logo observou que se tratava de uma menina extremamente bonita. Pela primeira vez Cleveland viu o rosto da menina que se sentava de costas para ele e notou também que.

— Bebe alguma coisa. embora meus pijamas sejam muito grandes. Acabara de aposentar-se do negócio de incorporadoras. quando olhou o interior da casa. não sabia qual. Contou tudo sobre si mesmo ao estranho. Sim. E continuava a falar. não poderia permitir nem que um cachorro ficasse lá fora com uma noite 235 . Era expansivo. Dinsmead levantou-se. é bem melhor do que nada. O Sr. simpático. A quinze quilômetros do nada e a vinte e cinco de algum lugar que se poderia chamar de cidade. estava com os nervos à flor da pele. Cleveland? — Obrigado — disse Mortimer. Claro que não havia nada ali. deixando Mortimer quase que hipnotizado por aquela fluência. loquaz. Ele mencionou o problema de acomodações para a noite. — Como já disse. e levou o bule para a cozinha. Logo outro chá foi servido. Podemos oferecer-lhe um quarto e. Dinsmead hesitou um minuto. depois apanhou as cinco xícaras. novembro. As garotas achavam um pouco monótono. e foram oferecidas iguarias ao visitante. apenas uma vida em família. — É muita bondade. rápida. alguma ansiedade que emanava de uma das quatro pessoas. Mortimer teve a impressão de que ela ficara alegre por sair da sala. — Por isso compraram este chalé. mamãe? A Sra. da mesa e as esvaziou num alguidar. uma por uma. não se arrependiam. mas ele e a mãe gostavam daquela quietude. ao que o dono da casa replicou: — Vai passar a noite conosco — não vai encontrar nada por perto. — A vida é cheia de incertezas. tivera muito êxito. era só isso. como o senhor bem sabe. Ele e a esposa acharam que seria boa idéia morar no campo — nunca o haviam feito antes. outubro. — Uma xícara de chá viria mesmo a calhar. Não. Mesmo assim. Suas roupas estarão secas pela manhã. sentiu alguma tensão. Claro que escolheram a época do ano errada. — Não é nada — disse o outro sempre cheio de simpatia. mas não queriam esperar. — Este chá está frio — disse bruscamente. Dinsmead falava sem parar. — Faça mais um pouco para nós. hein. Pura bobagem. O Sr. Ficaram todos espantados com seu súbito aparecimento. Sr. está bem.

batendo a porta. — Colocaram uma garrafa de água quente na cama? — perguntou a Sra. — Entendo perfeitamente que duas jovens atraentes como suas filhas achem isso aqui monótono — disse Cleveland. — Boa noite. duas. Sr. e vejam se ele precisa de qualquer coisa. apanhou as roupas molhadas e colocou-as do lado de fora. uma grande lata com água quente. Boa noite. — Não se parecem muito com o pai nem com a mãe. Depois de entrar no amplo pijama rosa do Sr. — Bonitas. Envergonho-me por ter-lhes dado tanto trabalho. e Mortimer. como o anfitrião lhe pedira. subam e arrumem o quarto. mamãe. muito obrigado. Charlotte. perdido em pensamentos. Pouco depois foram avisados de que o quarto estava pronto. Não é verdade. E então as duas pararam à soleira da porta. Cleveland. não são? — disse o Sr. O quarto era bastante agradável. Dinsmead. Sobre a cadeira um par de pijama cor-de-rosa de amplas proporções. meninas. Magdalen. Mortimer Cleveland ficou sozinho.dessas. Dentro da bacia. a cama parecia confortável e os poucos e algo empoeirados móveis eram de mogno. Magdalen. Srta. As duas moças retiraram-se. A cama estava preparada. — Subam com o Sr. — Sim. Tem certeza de que não precisa de mais nada? — Tenho. Maggie? A Sra. — Boa noite. — Está bem — disse Dinsmead. formal. confessou-se cansado. mas somos muito dedicados um ao outro. Formamos um casal sem graça. de repente cônscia de seu orgulho de dona-de-casa. Cleveland. Recomeçara a tricotar. E então saíram. Foi-se despindo devagar. Dinsmead com orgulho de pai. Lá de baixo vinha-lhe o som da voz de 236 . levando a vela no alto. pequeno e com o teto inclinado. As agulhas faziam movimentos rápidos. Dinsmead sorriu. Magdalen precedeu-o na escada. Charlotte deu mais uma olhada nas peças do lavatório. Pouco depois Mortimer ouvia-lhes o movimento lá em cima. agradecendo mais uma vez. Dinsmead. Magdalen examinou os fechos da janela. Charlotte veio atrás.

estivera secretamente convencido de que quem escrevera a mensagem fora Charlotte. A casa ficara silenciosa. Como falava! Uma personalidade bastante estranha — aliás. Ele estava certo. perto da cama. algo indefinível no olhar. olhava para as chapadas. depois um O e então outro S. sempre 237 . Afinal. Foi para o jardim. amedrontada. Mortimer mal acreditava no que via. Mas de quem seria o dedo que escrevera no pó? De Magdalen ou de Charlotte? Ele lembrava-se de que ambas pararam à soleira da porta por alguns momentos. Mortimer arrancou o galho de uma árvore.. Com ele começou a fazer desenhos na terra fofa. então.. Vamos ver. Que mão escrevera secretamente aquelas letras? Viu mentalmente o rosto das duas meninas. Alguém acordara cedo também. O de Magdalen. três letras. Havia algo de errado naquela casa. Um grito de socorro. havia alguma coisa de estranho em toda a família. — Realmente.. ou seria imaginação? Ele voltou devagar para o quarto e fechou a porta. No fim do jardim. claramente visíveis: SOS. Dirigiu-se de novo à porta e abriu-a. A mesa de mogno ao lado da cama estava completamente empoeirada. Sentiu o coração bater acelerado quando se aproximou dela. Escritas no pó. Fez um S. moreno e distante. Durante todo o tempo. passando pela sala de estar. olhos afastados. Não se ouvia mais a zoeira da voz do Sr. — Muito bom dia— disse Mortimer. a moça voltou-se para lhe dizer: — Bom dia. e o de Charlotte. Depois da chuva.. Amanhã. uma confirmação de suas suspeitas e conjecturas. Dinsmead. E então ele viu. antes de sair do quarto. Ficou de pé. SOS. sorrindo. bem. uma manhã fresca e bonita. Cleveland acordou cedo.. perdido em pensamentos. como o viu da primeira vez. — Que contraste o tempo de hoje com o que fez ontem à noite. debruçada sobre a cerca.Dinsmead. Quando chegou perto dela. E ele pensou: — Não posso fazer nada hoje.. sem nenhum indício de que guardava qualquer segredo. Charlotte. — Seus olhos eram diretos e infantis.

há muitos anos. calmamente. — Sabe o que estas letras representam? — perguntou abruptamente. Raramente suas intuições o enganavam. — É. Desde que chegamos aqui. Charlotte franziu as sobrancelhas. — Alguém as escreveu na mesinha de cabeceira ontem à noite — disse ele. — Eu? Ah. Respondeu aleatoriamente a algumas observações que ele fizera. Magdalen. desatou a falar em voz baixa e de maneira apressada: — É — é estranho que me tenha perguntado sobre estas letras. Ele parou e olhou-a. — Não é o que os barcos — navios — mandam quando estão em perigo? Mortimer anuiu. tão amedrontada que quando o senhor entrou ontem à noite. Papai. SOS. De repente. é claro. Não as escrevi. Eles foram-se dirigindo vagamente em direção à casa.. Charlotte parecia preocupada com alguma coisa. Tinha tanta certeza — tanta certeza. Então. — Ah. ele se enganara. falando rápido: — Sei que parece bobagem. tenho. antes que pudesse fazê-lo. — Não sei. que é a casa. — De que tem medo? — perguntou mais do que depressa. Mas não obteve nenhuma reação esperada. este medo vem-se intensificando. Uma profunda decepção apossou-se dele. todos parecem diferentes. mas tenho estado tão assustada. Só 238 . Ela olhou-o muito espantada. com toda a certeza. Todos parecem diferentes. Mortimer não falou logo e. de alguma maneira.observando a menina. mamãe. Charlotte continuou: — Sabe que dizem que esta casa é mal-assombrada? — O quê? — seu interesse foi aguçado. — Pensei que você talvez as tivesse escrito. me pareceu que era a resposta — a alguma coisa. Um homem matou a esposa aqui.. — Não sabe? — Acho. — Tem certeza? — insistiu. e ela prosseguiu. não. mas poderia tê-lo feito.

mas eu — não sei. — O café está pronto — disse. Dinsmead — disse Mortimer —. — Srta. mas não para os outros. Neste minuto. — Ah! inconscientemente. Estaria ele satisfeito com a própria explicação? Será que esta esclarecia a tensão que sentiu ao entrar na casa na noite anterior? Talvez. Johnnie está fora disso. o próprio Johnnie saiu do chalé e aproximou-se do hóspede. Pode ser boa para o caso de Charlotte. Johnnie 239 . — Compreendo — disse ela. sem jeito. Mortimer pensava com rapidez.. — Acho que você sabe que foi você quem escreveu SOS ontem à noite — disse. pode ser que seja isto. — Acha que esta é a explicação? Alguém a chamou de dentro de casa e ela entrou. tem alguma razão para acreditar que possua poderes mediúnicos? Ela olhou-o fixamente.descobrimos isto depois que chegamos aqui. seja o que for. deixando Mortimer a andar para cima e para baixo. no jardim. Uma mente sensível como a sua pode sofrer esta influência. E ele pensou: — Não devo deixar-me levar pela explicação psíquica.. — Será que. mas não podia fazer nada. menos a Johnnie. este crime foi cometido no quarto que eu ocupava ontem à noite? — Não tenho a menor idéia — disse Charlotte. — Não quer entrar? Mortimer notou que os dedos do rapaz estavam manchados. ontem à noite. — disse Mortimer. é claro. Ele tinha absoluta certeza disso não sabia bem por quê. digamos assim. Há muitos anos. Charlotte olhou-o sem compreender. Você tem reproduzido as sensações e impressões da vítima. mais para si mesmo — sim. Minha chegada aborreceuos terrivelmente. pode ser que ela tenha escrito SOS sobre aquela mesa e. O rosto de Charlotte iluminou-se. inconscientemente. — Diga-me — falou ele num tom puramente profissional —. Papai disse que esse negócio de fantasmas não passa de bobagem. Um crime mancha a atmosfera. mas mesmo assim persistia a sensação de que sua súbita chegada causara um pouco de consternação. você reproduziu o ato dela.

Ouviu-se o barulho de algo se espatifando. Magdalen foi a última a entrar. Dinsmead já se sentara à mesa. ele apanhou um caminho que levava ao outro lado da casa.sentiu-lhe o olhar e sorriu tristemente. palavras estas que lhe chamaram imediatamente a atenção. muito séria. vamos — disse-lhe o marido. alegre. o temia. ele foi sozinho ao jardim para fumar. e. ele teve a impressão de que. A Sra. sorridente. Pareceu a Mortimer que havia admoestação e advertência em sua voz. Já chegara claramente a hora de ir embora. Sua voz apagada não permitiu que 240 . Sempre pensando e repensando. notou-lhe uma leve decepção no olhar. Ela lhe disse "bom dia". A Sra. e de como não deixar os jovens ficarem fascinados por fantasias. Dinsmead respondeu. — É uma quantia considerável. prolongar a estada sem uma desculpa plausível era outra coisa. Dinsmead deixara cair a xícara de chá. O que esperava que dissesse? Ele voltou-se para o dono da casa. jovial. Depois do café. por um motivo ou por outro. mais uma vez. — Estou sempre mexendo com substâncias químicas. — Dormiu bem? — perguntou abruptamente. sabe? As vezes papai fica muito zangado. A Sra. não tinha a menor vontade de ir-se. faziam pouco barulho. Dinsmead apareceu à janela. Passava pela janela da cozinha. de sola de borracha. — Parece que este seu rapaz se interessa por química? — disse. quando o viu. e quando ele respondeu cortesmente na afirmativa. quando ouviu lá de dentro as palavras de Dinsmead. O Sr. — Sua cama estava confortável? Ela olhou-o. mas que desculpa poderia ele dar? Na realidade. Abrigo por uma noite é uma coisa. com aquela voz descolorida e sem graça e. Maggie. ora. Ele voltou-se para o hóspede e discorreu sobre as vantagens da incorporação. mas quero fazer química e trabalho de pesquisa. — Vamos. Fez um leve aceno com a cabeça e sentou-se na frente dele. porém. Os sapatos. toda a desconfiança e antagonismo de Mortimer despertaram de novo. Quer que eu entre para o negócio das incorporações.

num impulso. uma delas é uma enjeitada que adotamos quando bebê. que ia acender o cachimbo. Magdalen e Charlotte saíram juntas da casa e. Os cabelos negros junto aos dourados faziam um alegre contraste e. — Ele suspirou. Mortimer disse: — Suas filhas não se parecem em nada. — Bem. — Não foi nada. Dinsmead pela hospitalidade sem igual. 241 . O outro lançou-lhe um olhar de desconfiança. o advogado disse. — Não. de braços dados. — Espero que o carro não tenha sofrido grandes danos. mas terá que saber em breve. — Um caso de telepatia. A menção do dinheiro parecia cristalizar a situação. mas ele retrocedeu bastante pensativo. Ela mesma não tem a menor idéia da verdade. Depois pareceu chegar à conclusão de que era melhor usar de franqueza.Mortimer ouvisse as palavras. pouco distante. O outro. — Quer descobrir quando vou partir — pensou Mortimer. — Por causa de herança? — sugeriu Mortimer. hein? — disse Mortimer e sorriu. Mortimer teve um lampejo de intuição. — O senhor acha? — perguntou. calmo. tornou-se quase que agressivamente franco e aberto. Depois agradeceu mais uma vez ao Sr. dirigiram-se a um banco rústico. Magdalen saiu para o jardim mas o pai chamou-a quase que imediatamente. acho que são. hesitou e depois decidiu falar: — Muito inteligente de sua parte — disse ele. Mortimer não tinha intenção de escutar às escondidas. mas Dinsmead respondeu: — Perto de sessenta mil libras. senhor. Dinsmead olhou-o. Pouco depois o próprio Dinsmead foi ter com o hóspede. — Mas é claro que as duas não são suas filhas — disse. não foi nada — disse o outro. e criamos como se fosse nossa. sessenta mil libras estavam em jogo. é. estremeceu deixando cair o fósforo no chão. — Que manhã linda — disse com simpatia. o que tornava a coisa mais clara — e mais feia. De qualquer maneira. de modo que ela entrou de novo. — É estranho que diga isso.

Acompanhado pelo anfitrião. ele entrou na casa para despedir-se da Sra. — Bom — disse Mortimer —. Milionária e bonita. Dinsmead — disse ele. explicava também. por sua acolhida e hospitalidade. Mortimer apanhou-a para ela. Semana que vem eu mesmo vou levá-la a Londres. Já se afastara quase que um quilômetro da casa. — É isso mesmo — concordou o pai. Sr. Ao contrário. estava apenas começando no meu trabalho. talvez. pois estavam desconfiados. neste tempo. e também ele tinha uma idéia que logo se revelou verdadeira. suponho. Era a miniatura de Charlotte. no estilo de uns vinte anos atrás. Cleveland veio despedir-se — ela estremeceu e voltou-se. Quando o marido disse de maneira bem jovial: o Sr. Colocou agentes à procura dela e deixou-lhe todo o dinheiro. mas não fazia parte dos planos de Mortimer demonstrar ansiedade em vê-las.— Foi o seguinte: nós a adotamos para fazer um favor à mãe. seu jeito frio e distante. ela não sabe nada sobre isso até agora. As duas meninas não estavam por ali. Mesmo assim. Dinsmead. 242 . Dinsmead. Sr. Mas Mortimer não tinha a menor intenção de levantar suspeitas. de costas para eles. tenho que ir andando agora. tudo ficou esclarecido. depois de muita conversa. calorosamente —. — Parabenizo a Srta. tinha que partir para matar esta suspeita. e não os ouviu entrar. — Que história interessante. Sr. havia algo que não fora esclarecido. deixando cair alguma coisa da mão. Fui falar com os advogados e. Tenho que agradecer-lhe mais uma vez. Ele notou de novo o olhar de medo e os olhares furtivos que lhe lançava. notei um anúncio nos jornais e me pareceu que a criança em questão era nossa Magdalen. Parece que o pai dela era um desses judeus ricos. terá um belo futuro. Há poucos meses. Ela estava na janela. Magdalen. Só soube da existência da criança pouco antes de morrer. Mortimer repetiu-lhe os agradecimentos. quando de dentro do bosque surgiu Magdalen. por consideração. no seu encalço. Cleveland. e também é uma ótima menina. Isso explicava a beleza morena de Magdalen. a caminho do lugar onde deixara o carro na noite passada. embora a estória pudesse ser verdadeira. Mortimer ouvia atentamente. pois.

— Foi você que escreveu SOS na mesa ontem à noite. então? — Mais uma vez Magdalen balançou a cabeça. pelo contrário. — Já a esperava — replicou Mortimer. — O senhor deve pensar que sou maluca — disse. e o senhor bateu à porta. Desde que nos mudamos para cá que sinto isso. acredita em fantasmas e espíritos. arrogante. — Não — disse Mortimer —.. pensando bem. — Diga-me — pediu Mortimer. eu sei. não foi? Magdalen aquiesceu. suavemente. sem dúvida — de que não me iriam deixar falar com o senhor — os outros.. — Por quê? — perguntou Mortimer. O senhor. — Por quem. Ela continuou: — Escrevi SOS num impulso. — Não sou do tipo que imagina nem fantasia coisas. olhando-o.— Tinha que vê-lo — disse ela. Ela parou abruptamente. honestamente não sei. Magdalen respirou fundo. ele é o único que continua o mesmo. parece extremamente sã. Ele falou em milagre e então eu rezei — realmente rezei para que acontecesse um. — Não sei — disse ela —. quero dizer. pensativa. A menina começou a tirar folhas de um arbusto. — Não — disse ela —. E papai estava. — Sou uma pessoa prática — disse ela. quando lhe digo que há alguma coisa de errado naquela casa — ela apontou para o morro — quero dizer que há alguma coisa tangível. confusa: — Não sei. papai está diferente e Charlotte também. não há outra palavra para isso: estranho. Não acredito e. Mamãe está diferente. — Eu estava com medo — terrivelmente amedrontada — como uma criança e sem saber por quê. E vai ficando cada vez mais forte. — O senhor não entende — disse Magdalen. Tive uma idéia — absurda. 243 . — Não temia — por mim. estranho. Mortimer interpelou: — E Johnnie está diferente? Magdalen olhou-o. não é só um eco do passado. Todas as pessoas sãs têm premonição do perigo quando este se aproxima delas. — E você? — perguntou Mortimer.

Dinsmead quebrou durante o café da manhã. o chá não estava assim tão frio. — Vou pensar. e ele riu de uma maneira muito estranha mas. Ele continuou perdido em pensamentos por alguns momentos. o pivô de tudo. deixe tudo em minhas mãos. Ela olhou-o. Lembrou-se do vapor que se desprendia. completamente livre de toda a rede de intrigas e desconfiança. Dinsmead. não há nada de estranho nisso. a do Sr. sentada. Pode-se fazer muita coisa desta maneira. sentado. Afinal de contas. — O que o senhor pode fazer? Mortimer deu um leve sorriso. Eu faço — disse Mortimer.Não sei o que queria que o senhor fizesse. — É isso mesmo. Mortimer vagueou um pouco e depois atirou-se sobre um tufo de grama. Johnnie! Ele sempre voltava a pensar em Johnnie. à vontade. Não sei. E rapidamente lhe veio outra lembrança. o inocente. mas. — Pelo menos ouvi papai dizer alguma coisa a mamãe sobre Charlotte ser o retrato vivo dela. Johnnie. minha filha — disse ele — e não se preocupe.. mais do que você possa imaginar. — Não tem importância. Fechou os olhos. Ela obedeceu e tomou o caminho para casa.. mas agora o via claramente. da maneira que a vira quando abriu a porta na noite passada. olhando-o por sobre a xícara de chá. libertou-se do pensamento e do esforço conscientes e deixou que uma série de imagens perpassassem-lhe a mente. desconfiada. O que causara aquela agitação? A mera referência do gosto do rapaz pela química? Naquele momento ele não tivera consciência do Sr. Isto o levou a Charlotte. Dinsmead esvaziando as xícaras e dizendo: — Este chá está frio. Diga-me: você ouviu alguma palavra ou frase que lhe tenha chamado a atenção antes da ceia de ontem à noite? Magdalen franziu o cenho. — Acho que não — disse ela. Ele lembrou-se da xícara que a Sra. 244 . Ali estava ela. e quando levantou os olhos percebeu que Magdalen o observava em dúvida. há? — Não — disse Mortimer lentamente — só que Charlotte não se parece com sua mãe. a xícara nos lábios. mesmo assim. — Vá para casa.

Mortimer Cleveland levantou-se. não? Tenho certeza de que o faz. fino e assustado. Dinsmead saía da cozinha trazendo o grande bule de chá.Outra coisa começou a avivar-se em sua mente. — Acho que o senhor lê jornais. — Tive que voltar por uma coisa. O relato sobre uma família inteira envenenada por causa da displicência de um rapaz. Neste caso. A Sra. sirva o chá. — Que diferença do tempo de ontem — disse a Sra. um mês atrás. Ele lera isso no jornal. Dinsmead. Dinsmead. animado. mamãe. Um pacote de arsênico esquecido na despensa entornara todo no pão. Seu rosto estava vermelho. Os ovos eram poché e foi servido também uma travessa de músculo. Agora. as veias saltadas. — O que. deu um gritinho repentino e levou a mão ao coração. Ele avançou um pouco. — Está tudo tão calmo que pode-se ouvir uma mosca voar. A lembrança de alguma coisa que lera há. — Voltar por uma coisa — repetiu o Sr.. Dinsmead encheu as xícaras e distribuiu-as. se incomoda de dizer? — Um pouco de chá — disse Mortimer. Dinsmead soltou um grito alto. Dinsmead olhando em direção à janela. apanhando uma das xícaras da mesa. ao descansar o bule sobre a mesa. — É mesmo — concordou o Sr. A Sra. Talvez o Sr. talvez. o que está fazendo? — perguntou. Dinsmead.. que alguns se recuperam. um não se recuperaria. Falou como quem se desculpa: — Acho que os assustei — disse ele. Cerca de meia hora depois. O Sr. desaparecendo o vermelho como que por encanto. mas vamos 245 . Pouco depois a Sra. Com um gesto rápido tirou alguma coisa do bolso e. Mais uma vez a noite caíra sobre o chalé.. Então. o Sr. As vezes as pessoas lêem o relato sobre uma família inteira envenenada. Mortimer Cleveland estava parado na soleira da porta. A família tomou os lugares costumeiros à mesa. Dinsmead deu um giro na cadeira seguindo a direção do seu olhar aterrorizado. Dinsmead também o tenha lido. ofegante. As coisas começavam a ficar mais claras. despejou um pouco de seu conteúdo num pequeno tubo de ensaio que segurava com a mão esquerda. Seu rosto ficara branco como cera.. — Que coisa. e outros não. A primeira explicação seria a carne enlatada que estão comendo.

Magdalen é sua filha. Depois sentiu uma mão sobre o braço e Magdalen puxando-o para onde não fosse ouvida. — O que leva a etiqueta vermelha — disse — contém chá da xícara de Charlotte e o outro da xícara de Magdalen. Mortimer viu Charlotte olhar para ele.. não farei nada em sinal de gratidão. — Acho que sabe. nada mais. A Sra. Mortimer pousou a mão sobre o ombro de Magdalen. talvez — repito talvez — seu pai não tivesse concebido este plano. 246 . Chá. Charlotte é a adotiva.supor que o médico fosse um homem desconfiado e não se deixasse levar por essa teoria? Há um pacote de arsênico na sua despensa. àquela mão que escreveu SOS. Na prateleira abaixo. e não limonada. Estou preparado para jurar que no primeiro encontrarei quatro ou cinco vezes mais arsênico do que no último. Se não tivesse vindo morar aqui. Dinsmead soltou um riso histérico. — Estas — ela apontou para as garrafinhas. ofegante. — Está louco — disse Dinsmead. você não. o senhor resolveu. e já que seria impossível manter sua suposta filha Charlotte escondida. a filha que se parece tanto com a mãe que quando apanhei a miniatura dela esta manhã. . Longe disso. pensei que fosse da própria Charlotte. meu Deus. furioso. Seu filho Johnnie poderia ser acusado de negligência. — Não — não sei o que quer dizer — afirmou Dinsmead. bem . Vou guardar estes dois tubos de ensaio para salvaguardar Charlotte agora e no futuro. — Papai. um pacote de chá. nada mais natural que o arsênico caísse por ali. — Chá — gritou — foi o que ele disse. — Minha filha. Mentiu. você não acredita no passado. — Mortimer apanhou uma outra xícara. por mero acaso. Acredito na atmosfera desta casa. Há um buraco conveniente na prateleira de cima. Eu acredito. — Cala essa boca — vociferou o marido. Fora disso. e encheu um outro tubo de ensaio. e alguém que conheceu a mãe poderia concluir a verdade por causa da semelhança.. Sua própria filha deveria herdar a fortuna. — Oh. não. balançando-se para frente e para trás violentamente. Hoje o senhor me disse que Magdalen não era sua filha. perplexa. colocar um pouco de arsênico branco no fundo de uma xícara.. se me permite. e uma azul em outro.. Colou uma etiqueta vermelha em um.

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