Universidade Técnica de Lisboa Instituto Superior de Agronomia

Contributos para uma hermenêutica da paisagem
Relatório do Trabalho de Fim de Curso de Arquitectura Paisagista Andreia de Sousa Saavedra Cardoso Orientador: Profª. Arquitecta Paisagista Manuela Raposo Magalhães Orientador externo: Profª. Adriana Veríssimo Serrão

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Universidade Técnica de Lisboa Instituto Superior de Agronomia

Contributos para uma hermenêutica da paisagem
Relatório do Trabalho de Fim de Curso de Arquitectura Paisagista Andreia de Sousa Saavedra Cardoso Orientador: Profª. Arquitecta Paisagista Manuela Raposo Magalhães Orientador externo: Profª. Adriana Veríssimo Serrão

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AGRADECIMENTOS Ao meu pai, pela curiosidade insatisfeita que me soube nutrir, desde cedo, pela sabedoria inscrita nos livros e pelo fascínio às palavras para a dizer. À minha mãe, sempre atenta à paisagem em tempo real, livro aberto aos livros que abriu quando estudante e professora-estudante, com os quais aprendeu a ver e a ensinar-me o mundo, também pelos olhos das ciências naturais. A ambos, pela contínua confiança e pela oportunidade de escolher o meu caminho. À minha irmã, desde sempre companheira da vida quotidiana, presente, disponível, participante e ouvinte paciente dos novelos emaranhados de pré-ideias e ideias, de que este trabalho também foi tecido, nem sempre claras e sobretudo digeríveis, orientadora nas perguntas e na calmia sábia que a experiência traz. À orientadora e coordenadora Profª. Arquitecta Paisagista Manuela Raposo Magalhães pela oportunidade de realizar o projecto de Reabilitação do Bº Social da Bela Vista em Setúbal, primeira e enriquecedora incursão na experiência profissional acalentada pela confiança, entusiasmo, responsabilidade e elevadas expectativas, que em mim e na restante equipa envolvida soube depositar; bem como pela orientação prestada e pelo interesse que a sua abordagem à concepção da paisagem me suscitou, desde os primeiros anos do curso, pelas temáticas teóricas abordadas. À orientadora Adriana Veríssimo Serrão, pela disponibilidade, interesse e empatia demonstradas, contribuindo para o adensar da motivação, importante no redigir do trabalho, como pela curiosidade suscitada para as próximas leituras. À equipa de trabalho do Centro de Estudos de Arquitectura Paisagista Caldeira Cabral, pela ajuda e motivação nos momentos cruciais, mas em particular ao Duarte Mata exemplar nos conselhos e na participação activa na fase terminal do projecto, companhia nas preocupações e guia nas escolhas, sempre sem interferir com a autonomia necessária ao aprender; assim como à Ana Müller, como profissional, companheira e amiga que descobri, ao longo do desenrolar do projecto, que acompanhou e coloriu, com a sua forma particular de encarar a vida. Aos amigos em geral, que sempre me perguntaram pelo decorrer do trabalho e me souberam escutar e sobretudo esperar pelo términos, até que o meu tempo e entrega voltasse a ser também ou de novo, um pouco mais deles; e em particular aos que pela sua disponibilidade e envolvimento pessoal me auxiliaram na crucial fase de preparação final para a entrega. Às bibliotecárias e funcionários da Biblioteca Municipal Central do Palácio Galveias, pelo profissionalismo e companhia nesse lugar singular, cenário vivido onde tornei visível a pesquisa feita.

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(...) estejamos atentos à velha e perigosa fábula conceptual que pressupôs um sujeito de conhecimento puro, sem vontade, sem dor, sem tempo , estejamos atentos aos tentáculos de conceitos contraditórios como razão pura , a espiritualidade absoluta , o conhecimento em si ; pois eles pedem-nos sempre que imaginemos um olho que é impossível de imaginar, um olho que supostamente não olha em nenhuma direcção concreta, um olho que supostamente reprime ou não tem poderes activos de interpretação que começam por fazer a visão ver qualquer coisa − pois aqui, então, é pedido um disparate e um não conceito ao olho. A visão perspectivada é a única espécie de visão que existe, o conhecimento perspectivado é a única espécie de conhecimento ; e quanto mais sentimentos em relação a um assunto deixamos tomar expressão, mais olhos, olhos diferentes através dos quais conseguimos ver este mesmo assunto, mais completa será a nossa concepção dele, a nossa objectividade . (Nietzsche, 2002, p.107)

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RESUMO A abordagem à complexidade da paisagem, decorre da interpretação da sua face visível enquanto constelação objectiva de sinais que a arquitectura paisagista procura codificar, deles inferindo a actuação dos processos sistémicos como resultantes da actualização de padrões ou configurações mutáveis de relações existentes entre o mosaico de ecossistemas, que na sua relação com os sistemas socio-culturais humanos se expressam estruturalmente na paisagem. O presente trabalho esclarece a necessidade de uma hermenêutica da paisagem gerada pela sua complexidade, abordando o conceito de evoluções por instabilidade, implícito na teoria dos sistemas auto-eco-organizados e à elevada conexão entre escalas espaciais e temporais, que caracteriza as interacções complexas e o determinismo-indetermismo envolvido no seu comportamento autopoiético, que causa a necessidade de narrativas ambientais. Mas se a complexidade da paisagem patente na sua representação ecológica considera as interacções sujeito objecto, concebendo os sistemas socioculturais enquanto construtores do conhecimento científico, realça-se igualmente a carência de uma hermenêutica, que analise as representações da paisagem como projectos possíveis da paisagem real, que a nossa acção deve considerar como obra aberta, pela integração das dimensões ecológica e fenomenológica, encarando a intervenção na sua complexidade resultante de uma estruturação ecológica e de uma configuração existencial, como espaço-tempo vivido ecoestesiológico.

Palavras-chave: filosofia da natureza, pós-modernismo, paisagem, auto-organização, complexidade, fenomenologia.

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ABSTRACT

The approach to landscape complexity, elapses from the interpretation of its visible face while constellation of objective signs, which landscape architecture engages to code, inferring the action of the systemic processes as the result of the actualization of patterns or changeable configurations of existing relations between the mosaic of ecosystems, that in its relation to socio-cultural systems have a particular expression on landscape structure. The present work clears the need of a landscape hermeneutics generated by its complexity, approaching the concept of evolutions by instability, implied on the self-organizing-systems theory due to the high connection between spatial and temporal scales, that characterize the complex interactions and the determinism-indeterminism involved in its autopoietic behaviour, causing the need of environmental narratives. But if the landscape complexity as an ecological representation takes into account the subject object interactions, by conceiving the socio-cultural systems as builders of the scientific knowledge, highlights the lack of an hermeneutics, that analyzes landscape representations as possible projects of the real landscape, that our action must consider as an open work, by the integration of ecology and phenomenology, as means to view the intervention process in its complexity, and the landscape itself as a lived eco-aesthesiological space-time.

Key-words: philosophy of nature, post-modernism, landscape, self-organization, complexity, phenomenology.

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ÍNDICE GERAL 0. INTRODUÇÃO I
A COMPLEXIDADE DA PAISAGEM COMO REALIDADE ECOLÓGICA

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01. Paisagem − de realidade experienciada a representação científica 02. o naturalismo moderno − o homem: observador ausente da natureza 02.1 O nascimento das ciências modernas e o materialismo mecanicista 02.2 A natureza do romantismo e o positivismo científico 02.3 Da natureza como paisagem à paisagem como objecto científico 03. O naturalismo pós-moderno − o papel do homem como conceptor da natureza 03.1 O pós-modernismo científico e a ideia de natureza contemporânea

03.2 O aparecimento da ecologia: o conceito de ecossistema: para além do reducionismo e do 39 holismo sistémico 04. A concepção ecossistémica da paisagem − do ecossistema à paisagem multidimensional 04.1 A paisagem como resultado de interacções entre sistemas auto-eco-organizados 04.1.1 Autopoiesis: a auto-eco-organização sistémica 04.1.2 Estruturas dissipativas: a morfogénese aberta e bifurcante 04.2 A paisagem multidimensional: integração sistémica da bio-geo-noosfera II
A ECO-ESTESIOLOGIA DA PAISAGEM COMO ESPAÇO-TEMPO VIVIDO

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01. A fenomenologia como hermenêutica do mundo pós-moderna da paisagem

contribuições para uma teoria

01.1 A intencionalidade do corpo próprio: enraizamento existencial e constituição metafórica 01.2 A complexidade da natureza como paisagem: estruturação ecológica e configuração existencial 0.Conclusões Bibliografia

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LISTA DE FIGURAS 1. SILVA, M. H. Vieira da (1937) − La scala - Les yeux. In LASSAIGNE, Jacques; WEELEN (1978) − Vieira da Silva. [s.l.]: Publicações Europa-América. p.119. 2. TELLES, Gonçalo Ribeiro [s.d.] − [s.n.]. In TELLES, Gonçalo R. (2000) − Por uma paisagem global. Arquitectura e Vida. 3 28-35. p.31. 3. [s.a.] [s.d.] − Colina da grande serpente. In JANSON, H. W. (1992) − História da Arte. Trad. de J. A. Ferreira de Almeida e Maria Manuela Rocheta Santos. 5.ª ed. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian. p.35. 4. POUSSIN, Nicolas (1660-1664) − Le quatro stagioni La Primavera. In THUILLIER, Jacques (1974) − L opera completa di Poussin. Milano: Rizzoli Editore.p.71. 5. COURBET, Gustave (1870) − O vale do Loue sob céu tempestuoso. In BARDI, P.M. (1968) − Gustave Courbet. São Paulo : Abril Cultural. p.21. 6. TURNER, William (1842) − Chuva, vapor e velocidade − O grande caminho-de-ferro Ocidental. In SHANES, Eric (1995) − Turner. Trad. de Isabel Teresa Santos. Lisboa : Editorial Estampa; Editorial Circulo de Leitores. p.127. 7. BRAQUE, Georges (1908) − Casas de L Estaque . In BARDI, P.M. (1967) − Braque. São Paulo : Abril Cultural. p.12. 8. STEENBERGEN, Clemens (2000) − [s.n.]. In STEENBERG, Clemens (2000) − Doing research on the fatlands. Topos: European Landscape Magazine. München : Callwey Verlag. 32 86-93. p.87. 9. DERAIN, André (1905) − L Estaque. In BERNARD, Edina (2000) − 1905-1945 : A arte moderna. Trad. de José Lima. Lisboa : Edições 70. p.16. 10. GORMLEY, Antony (1984) − Home. In CAUSEY, Andrew (1998) − Sculpture since 1945. Oxford : Oxford University Press. (Oxford History of Art).p.253. 11. FABRO, Luciano (1986) − La doppia facia del cielo. In PRADEL, Jean-Louis (2001) − A arte contemporânea. Trad.de Fernando Brazão. Lisboa : Edições 70. p.83. 12. HORN, Rebecca (1970) − Measure box. In CAUSEY, Andrew (1998) − Sculpture since 1945. Oxford : Oxford University Press. (Oxford History of Art).p.165. 13. HEPWORTH, Barbara (1946) − Pelagos. In CAUSEY, Andrew (1998) − Sculpture since 1945. Oxford : Oxford University Press. (Oxford History of Art). p.43. 14. HORN, Rebecca (2000) − Ocean in my heart. In ZWEITE, Armin [et al.] (2005) − Rebecca Horn : Bodylandscapes Desenhos, esculturas, instalações 1964 - 2004. Lisboa : Fundação Centro cultural de Belém. p.77.

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0. INTRODUÇÃO
A explicitação da complexidade da paisagem define-se consensualmente, no âmbito da arquitectura paisagista, pela sua representação científica como realidade ecológica, decorrente da interpretação da sua face visível, enquanto constelação objectiva de signos, dos quais se infere a actuação dos processos sistémicos; concepção que se pretendeu abordar através da incursão nas recentes abordagens da ecologia da paisagem, acometidas no estudo da sua morfologia e da relação fundadora com os padrões de organização que a geram, tidos como configurações mutáveis de relações existentes entre os componentes de um ecossistema e entre a multiplicidade de ecossistemas, na sua relação com os sistemas socio-culturais humanos, que actuam numa determinada área do território. A actualização processual destas inter-relações e a não-linearidade introduzida no contexto do naturalismo pós-moderno pela teoria dos sistemas auto-eco-organizados, permitiu conceber a necessidade de explicitação da existência de uma causalidade complexa ou finalidade interna, no seu diálogo com a causalidade externa e os determinismos e aleatoriedades da envolvente polissistémica de um tracto de paisagem, influenciadora da sua dinâmica. Esta apesar de gerada por ligações locais considera-se actualmente autoorganizada, no sentido de estas relações resultarem num comportamento coerente e guiado por uma finalidade mutável e indeterminada, devido à elevada conexão, que caracteriza as interacções resultantes da reconhecida ordem complexa, gerada sob o efeito das flutuações e seu cruzamento de escalas espaciais e temporais diferenciadas e mutáveis consoante os processos em estudo. A intervenção da arquitectura paisagista deve procurar a compreensão do funcionamento que permite a manutenção da identidade estrutural da paisagem em que opera, no sentido de clarificar ou pelo contrário conceber a incapacidade de prever deterministicamente a sua evolução face às intervenções projectuais directas sobre a paisagem ou indirectas, no âmbito do ordenamento do território, caso tipo em que não se projecta directamente na paisagem, mas institui-se uma representação eminentemente funcional, que afecta directamente a sua evolução, ao determinar parcialmente as práticas humanas, procurando o alcance não apenas dos factores antrópicos, mas também dos restantes produtores da paisagem real e tanto quanto possível concebendo a integração sistémica e as potencialidades da inscrição não linear de marcas estruturais no decorrer evolutivo dessa paisagem determinarem a necessidade de uma hermenêutica ou interpretação reconstituinte, quer dos possíveis passados da paisagem como objecto projectual, como dos cenários que o presente parece deixar em aberto, sobretudo em face das intervenções concebidas. No entanto, apesar da direcção a dar ao trabalho parecer clara ao inicío, a consideração dos conceitos de causalidade complexa remeteu para a necessária explicitação dos seus

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reversos contraditórios, cuja hegemonia gerou a tardia conceptualização da complexidade, que a abordagem inicial deste trabalho às filosofias da natureza anteriores ao pósmodernismo procurou acometer, como gerada pela conflitualidade inerente à ideia de natureza, concebida na história do pensamento ocidental, alternadamente sob a alçada de visões finalistas, ou por outro lado dominadas por uma causalidade linear, passível de encerrar numa narrativa indiferente ao espaço e intemporal, na ausência plena de um tempo diferenciador e expressivo de uma finalidade intrínseca. Ao inflectir no sentido de uma narrativa das concepções passadas da natureza evidenciouse a relevância de procurar a gestação da dissociação sujeito/objecto no pensamento filosófico e na aurora da constituição das ciências, por constituir esta antinomia outro impedimento paradigmático à plena emergência conceptual da paisagem, procurando o destrinçar do parentesco e a distinção entre esta e o conceito de natureza na história do pensamento ocidental; considerações necessárias na constituição do percurso desta tese gerada na interrogação da paisagem e da procura de uma concepção teórica da sua complexidade, necessariamente mais ampla que a ideia de natureza identificável na sua independência da experiência estética, legitimada pela cisão moderna entre o domínio do sensível e uma pretensa consciência universal, legitimadora da existência de um real em si acessível exclusivamente ao conhecimento positivo e absoluto das ciências. Se as abordagens à complexidade da paisagem efectuadas pela ecologia permitiram desde o começo acentuar a dialógica sujeito - objecto concebida de forma sistémica, considerando os sistemas socioculturais enquanto construtores do conhecimento ou projectos possíveis do real, resultantes do encadeamento sistémico do objecto-sistema com o sujeito tido como observador-conceptor, assumiram-se no decorrer da pesquisa restritivas na sua análise apenas à materialidade da paisagem, focando o seu interesse sobre a forma como as interacções natureza - cultura se expressam sob a forma de marcas no território, enquanto usos do solo, condicionantes da sustentabilidade e biodiversidade; concebendo a complexidade funcional e estrutural, inerentes ao funcionamento ecossistémico da paisagem, mas insuficientes na concepção da complexidade da paisagem, por a excluírem sob a forma de espaço vivido, resultado de uma inserção fenomenológica e existencial. Se a primeira parte do trabalho assumiu a sua relevância pela compreensão do conceito de complexidade esboçado pelo pensamento do pós-modernismo científico e sua aplicação à paisagem, a segunda assumiu-se pela necessária exegese das representações da paisagem enquanto fundadas nos lugares de existência, formados na inerência à paisagem real, no sentido de colmatar a estreiteza da representação científica, que sempre está latente como paradigma pronto a obliviar outras formas de aproximação ao real, procurando clarificar a criação concreta da paisagem, que se podendo tomar como experiência intersubjectiva, é esteada numa singularidade criada pelo indivíduo, enquanto hermeneuta de uma paisagem, reflexo das ligações natureza-sociedade mas traduzidas numa vivência

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corporal e única, que a arquitectura paisagista enquanto interveniente na paisagem às mais diversas escalas deve procurar abordar. O caso prático de reabilitação urbana do Bairro da Bela Vista, apresentado em apêndice, constituiu a experiência mesma de como as representações da paisagem, neste caso eminentemente sociais, podem afectar não apenas a experiência do habitar, mas também limitar a capacidade interventiva e insinuadora de paisagens possíveis pelo projecto arquitectónico, pelo que a hermenêutica das representações deve insurgir-se na descrença genésica na universalidade e pretensa legitimidade absoluta de qualquer forma de conhecimento, que face à complexidade do real constitui sempre uma proposta ou construção conceptual parcial e por isso inibidora de uma formalização arquitectónica, assente na leitura complexa das potencialidades inscritas na experiência da paisagem, enquanto interpretação compósita de uma natureza espacializada por uma existência individual que, em suma, apenas se aproxima da complexidade pela consideração da existência dos outros e das suas representações.

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2. Gonçalo Ribeiro Telles [s.d.] − [s.n.]

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A COMPLEXIDADE DA PAISAGEM COMO REALIDADE ECOLÓGICA

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01. PAISAGEM − DE REALIDADE EXPERIENCIADA A REPRESENTAÇÃO CIENTÍFICA

As primeiras designações de paisagem foram descobertas nas línguas germânicas, em manuscritos datados da Idade Média, encontrando-se ligadas à tradução da palavra latina regio, tida por área, território, ou país (Cf. Tress, B.;Tress, G., 2001, p.144), envolvendo um cariz administrativo, que permitia a identificação da posse e regência de uma determinada extensão de terras, numa altura em que o traçar de limites ou fronteiras, defensivas, assim o exigia; mas o étimo da palavra acumula outros sentidos, que já esboçados nas designações anteriores permitem antever uma relação de apropriação, ao associarem-se a uma ocupação humana, enquanto lugar ou local habitado, circunscrito a um horizonte de vida. Assim, se inicialmente o termo paisagem surgiu pela necessidade prática do registo escrito da posse de terras, quer em manuscritos ou sob a forma de marcas no território, traduzia-se espacialmente na interligação do homem com este suporte físico, sob a forma de práticas concretas, que antecedendo o conceito, de alguma forma, o terão sucessivamente ampliado. Na Idade Média, o termo alemão landschaft referia-se assim (...) a uma associação entre o sítio e os seus habitantes, ou se preferirmos de uma associação morfológica e cultural (...) (Holzer, 1999, p.152), já presente na palavra Landschaffen, que resulta dos termos land ou terra e schaffen que significa criar, trabalhar ou produzir; associação entre as características tangíveis de uma região e a sua modelação pelo homem, resultando numa integração espacial destas duas dimensões − a natureza e a cultura. Apesar deste significado de paisagem, enquanto sedimentação das práticas sobre a terra encontrar um liame com o étimo latino regio, e com a concepção de espaço de produção romano, segundo alguns autores, a palavra surge nas línguas latinas, apenas no Renascimento, mas com um horizonte semântico limitado, pela sua origem nas artes plásticas (Cf. Holzer, 1999, p.152); acepção contestada pela clara relação etimológica existente entre o termo latino pagus e a palavra paisagem em todas as línguas latinas, com o mesmo significado que a raiz Land, presente nas línguas germânicas (Cf. Amaral, 2001, p.75), indiciando antes um aditamento do termo, pela acentuação da componente visual através da pintura. Da raiz pagus é possível derivar uma profusão de ideias sobre o que a paisagem poderia ter significado antes da própria necessidade de demarcação militar, que remetem pelo verbo pango ao acto de enterrar os mortos, estabelecendo sobre a paisagem visível, as silhuetas das pedras tumulares, com o sentido que o culto dos mortos poderia assumir nas civilizações pagãs ou praticantes do paganismus, similarmente derivado do étimo pagus; mas também o cultivo do campo, plantação e limitação por marcos, na sua ligação a um paganicus, povoado ou aldeia, enquanto forma de sedentarismo e vínculo necessário ao acto de habitar.

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Pagus désigne donc d abord la borne fichée, plantée, d un champ, la marque de sa limite, pierre enterrée à demi, terme, stèle qui, dans sa première version, s éleva sur la tombe de l ancêtre gisant là. Par cette trace verticale dont la fondation pénètre sous le sol, le lieu se réfère à la mort et le être-là au ci-gît. Les sites apparaissent sur l espace ainsi référé. Culte funéraire des ancêtres, la religion la plus ancienne, notre langue l appelle, à juste titre, païenne, de ce paganisme issu de nouveau du pagus. (Serres, 1999, p.58)

No entanto, alguns autores1 insistem numa origem ou invenção da paisagem ocidental considerando apenas o liame com a pintura renascentista, qui émerge au XVe siècle (...) lorsqu apparaît ce moment incroyable òu l homme décide de contrôler l étendue spatiale à partir de son point de vue projeté sur le tableau comme signe infini de sa maîtrise (...) sélectionne à l intérieur du tableau un segment de pays et le transforme en paysage. (Tiné, 2002, p.4); evidenciando a recriação pela perspectiva do espaço tridimensional e dos enquadramentos e estruturação perceptiva próprios do homem. A técnica de representação elaborada exigiria um código pictórico, e uma selecção de elementos, que se pretendia identificar com a realidade percebida ou instituí-la e a paisagem passou assim, sucessivamente de fundo, para sujeito ou figura principal, na pintura paisagista do séc.XVIII. Mas a perspectiva, enquanto técnica, é actualmente interpretada em estreita relação com o paradigma de afastamento do sujeito, em relação ao seu meio, que teria caracterizado o paradigma ocidental da ciência moderna, como refere Berque (Cf. Panofsky Ap. Berque, 2000ª, p.66).
Le milieu est alors devenu un environnement objectifié, donc objectivable par la science, donc manipulable par la technique, et représentable par l art selon des règles rigoureuses, non moins mathématiques que les lois de la nature d après Galilée (Berque, 2000ª, p.67).

Estes enunciados pictóricos constituíram então, uma retórica da paisagem como refere Cauquelin (2000), que derivava não apenas da técnica de representação visual, entendida na sua acepção de transcrição positiva da realidade, mas de uma tradução cultural, (...) mobilização dos sentidos, aprendizagem de códigos de selecção, apreciação e valorização (...) (Salgueiro, 2001, p.38), que reflectia tanto o paradigma científico dominante, como o que era entendido, por uma elite, como paisagem.
Ainsi le paysage, sa réalité sociale, une construction qui est passé par des filtres symboliques, héritages anciens. Une forme mixte, d autant plus prégnante qu elle est finement tressée, au point qu on n en voit pas le début, et qu elle peut passer pour originelle, n ayant pas d origine repérable. (Cauquelin, 2000, p.84)

Enquanto reflexo de uma ideia de natureza, a paisagem assume plenamente pelo romantismo, no séc.XIX a categoria de objecto de fruição estética, emergindo pela primeira vez na literatura, e a sua expressão (...) tanto na pintura como nos modelos de cidade ideal (...) , passa a procurar (...) uma representação da natureza, tal e qual ela é, na sua versão natural, ou com uma reduzida intervenção do homem. (Magalhães, 2001, p.51) Através da pintura paisagista pretendia-se reproduzir a natureza, ( ) comme si s établissait une

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Sobre este assunto vid. Andresen (1992), Cauquelin (2000), Salgueiro (2001) e Tiné (2002).

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transparence entre la nature et nous, sans intermédiaire. Nous aurions grâce au paysage, un regard vrai sur les propriétés de la nature. (Cauquelin, 2000, p.108) Entre território concreto, atravessado por fronteiras administrativas e naturais, espaço rural resultante da intervenção humana, representação pictórica de espaço rural, espaço de lazer ou de natureza; os conceitos de paisagem até ao séc.XIX, apareceram como um nexo entre natureza e cultura, atravessando a concretude das práticas sobre a terra para chegar a ser, apenas e tanto, a intangível interpretação da natureza. Se enquanto enunciado pictórico, a paisagem vê-se reduzida a uma representação, pretensa tradução da natureza para uma linguagem artística, a desconsideração desta dimensão, como parte integrante do conceito, rejeita as componentes intangíveis ou simbólicas da paisagem, enquanto construção mental, que se encontram inerentes a essa tradução e fazem portanto parte do imaginário individual do artista e ou do imaginário colectivo. Será este o corte efectuado sobre o conceito de paisagem, após a sua introdução e necessidade de legitimação nas ciências, o que levaria a uma identificação redutora com a envolvente natural objectivada, através da obliteração da ideia de cena e de representação, que ao remeter para o simbólico, estaria para além do âmbito circunscrito destas. De facto, a partir da segunda metade do séc. XIX, a aparente pluralidade contraditória do termo paisagem seria decomposta pela análise científica, reduzindo a complexidade inerente ao conceito apenas à sua imediaticidade física, ela própria desarticulada, segundo as fronteiras recentemente delineadas entre as diversas áreas disciplinares (Cf. Tress, B.;Tress, G., 2001, p.145).

3. Colina da grande serpente (2000 a.C. ?) − colinas-efígies Neolíticas, realizadas pelos índios da América do Norte, esculturas em que o medium é a própria rocha da colina, ilustração de uma intervenção que se inscreve na paisagem e que advém de uma relação de leitura específica da envolvente natural; arquitectura paisagista que precede o conceito, mas não ignora decerto a paisagem experienciada-instituída cultura. por uma

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02. O NATURALISMO MODERNO − O HOMEM: OBSERVADOR AUSENTE DA
NATUREZA

02.1 O nascimento das ciências modernas e o materialismo mecanicista

A compreensão da conflitualidade inerente ao conceito de paisagem, enquanto objecto das ciências, tem inevitavelmente de considerar, a caracterização dessas mesmas ciências e a visão de natureza, que o pensamento moderno descreveu e tornaria dominante, durante cerca de três séculos. De facto, o estabelecimento de uma concepção complexa de paisagem tem de se fundar na compreensão da concepção simplificadora de natureza mecanicista difundida pelas ciências modernas e na exigência do paradigma de objectividade inerente a estas, base legitimadora de um conhecimento, que se assumiu pela necessária exclusão do homem dessa mesma realidade; passível de análise apenas por exumação das componentes subjectivas ou fenoménicas, intrínsecas à apreensão humana do real. O materialismo mecanicista constituiu o projecto comum às múltiplas correntes do pensamento moderno, insurgidas contra a escolástica e o naturalismo pré-moderno (Cf. Lenoble, 1990, p.15), que desde o séc.XIII, através de Tomás de Aquino, instituíam a reunião da doutrina cristã com a visão de natureza orgânica, que caracterizava a filosofia aristotélica. O pensamento medieval decorrente de uma adaptação das filosofias naturalísticas gregas, baseava-se na projecção das qualidades humanas na natureza, enquanto macrocosmo idealizado à semelhança do homem, mediado por uma racionalidade imanente (Cf. Collingwood, 1986, p.107), contra a qual se havia insurgido no séc.XIII, a concepção teológica de Tomás de Aquino; através da distinção do ser mundano da natureza, do ser divino e eterno, causa do devir ou mudança, intrínsecos ao mundo imperfeito da realidade terrestre. Tal como no pensamento grego o devir ou processo inerente a toda a matéria, decorria de uma forma cíclica, supondo-se uma interdependência entre todas as coisas ditas naturais, que permeadas por uma causa final, se desenvolviam processualmente, no sentido de uma actualização em direcção a um forma ou essência precisa, que proventa do acto criador divino, seria primeira e transcendente a toda a matéria. Ao movimento ordenado do mundo celeste, perfeito na sua previsibilidade, distinguia-se a incompletude do mundo terrestre, mutável e imprevisível, numa cosmologia apenas unificada pela ideia de causa final, directora do devir imperfeito das coisas ditas naturais e terrenas; que tinham como única condição de inteligibilidade, o pressuposto da obediência aos desígnios divinos. O materialismo negaria este pressuposto de finalidade transcendente a toda a matéria postulando uma metafísica ausente de causas imateriais, e desde aí desprovida da ideia de

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desenvolvimento, dando lugar a uma concepção da mudança, baseada meramente em causas eficientes, distintas de uma orientação teleológica, mas antes marcadas pelo acaso do embate, atracção ou repulsa existente entre os corpos. (Cf. Collingwood, 1986, p.93)
A ciência moderna nasceu da ruptura de uma aliança animista com a natureza; no seio do mundo aristotélico, o homem parecia encontrar o seu lugar, simultaneamente como ser vivo e ser conhecedor; o mundo era à sua medida; o conhecimento intelectual atingia o próprio princípio das coisas, a causa e razão última do seu devir, o fim que as habita e organiza. (Prigogine; Stengers, 1986, p.128)

A concepção mecanicista da realidade encontrou os seus princípios fundadores, (...) no atomismo antigo e nas concepções astronómicas dos Gregos e Alexandrinos (...) (Cabral, [et al.], 1991, p.761), alcançando no entanto, a sua expressão mais desenvolvida apenas no séc.XVII, mais concretamente na doutrina física do Iluminismo de Newton. Este desenvolvimento implicou a ruptura da visão de natureza finalista da idade média e renascença, imbuída ainda do pensamento aristotélico, em que o homem projectava a sua alma, dando lugar a uma natureza matematizada, por Galileu e objecto da mestria do conhecimento científico, baseado no diálogo experimental, cuja veracidade era garantida pela racionalidade divina. A experiência consistia para Galileu no estudo directo da natureza, que deveria purificar-se no sentido de uma objectividade, apenas possível pela exclusão das componentes subjectivas das qualidades sensíveis, isto é não quantificáveis. A matemática torna-se o critério de objectividade e Galileu procede à efectiva (...) eliminação de toda e qualquer consideração finalística ou antropomórfica do mundo natural (...) realizou completamente a redução da natureza à objectividade mensurável e conduziu a ciência moderna à sua maturidade. (Abbagnano, 1982,p.19) A exclusão de todas as características que não pudessem ser quantificáveis tratou-se da eliminação, das qualidades fenomenais ou dependentes da observação, e da sensibilidade estética, que caracterizam a experiência sensorial e vivida da realidade; destituída assim de existência objectiva e reduzida, pelo conhecimento científico emergente, a aparência sem lugar designável no mundo real. Ao contrário da ciência aristotélica, na dependência de uma atitude contemplativa, própria da apreciação intrínseca à relação humana de mundanidade com a natureza, a ciência moderna procede à exumação dos dados qualitativos da experiência, que (...) pertencem à união dos espíritos com os corpos. (Descartes Ap. Collingwood, 1986, p.116) e limita-se (...) a desenvolver e a consumar aquilo que já está em gérmen na metafísica; (...) a tarefa que consiste em denunciar as opiniões ingénuas, sensíveis, em nome de uma verdade oculta acessível apenas à razão do homem da ciência. (Ferry, 2003, p.191) A união grega da matéria e do espírito deu lugar, com o pensamento teológico à transcendência do espírito em relação ao corpo, pela necessária introspecção que o

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encontro com o divino, tido como imanente ao espírito2, exigia, gerando um pensamento dualista, que tornado pleno com a doutrina das substâncias cartesiana, opera uma disjunção na realidade; patente na incapacidade de conjugar o pensamento científico e a reflexão filosófica, a física e a metafísica, a natureza e a cultura ou sociedade, através da eliminação positivista do sujeito pelo realismo das ciências e pela negação metafísica do objecto através do idealismo moderno, e consequentemente do corpo, enquanto constitutivo do nosso lugar de encontro com o real. A natureza desta realidade científica poderia ser totalmente determinada pelo conhecimento das leis da mecânica, articulantes dos acontecimentos naturais tidos como independentes entre si, que formuladas matematicamente por Newton, através do cálculo diferencial, resultavam da síntese de dois desenvolvimentos anteriores da física as leis do movimento de Kepler e a queda dos corpos formulada por Galileu (Cf. Prigogine; Stengers, 1986, p.99). O carácter reducionista, implícito nesta formulação independente dos fenómenos, teria sido primeiramente delineado por Francis Bacon (1620), através da sua teoria da indução das formas, segundo a qual o esclarecimento da forma característica de uma propriedade natural implica o isolamento, (...) eliminando progressivamente, por sucessivas experiências, tudo o que, na realidade não tem relação com ela. (Ducassé, 1963, p.63), até obter o resíduo ou forma experimental da característica em estudo. A indução requeria portanto uma fragmentação prévia, para que pudesse prosseguir através da eliminação das diferenças, sob o controle da experiência, ao entendimento do que era similar e compunha as leis gerais explicativas, da aparente diversidade dos fenómenos. Mas, apenas a síntese newtoniana permitiu o abandono da metafísica aristotélica, combinando o experimentalismo de Galileu e Bacon, com (...) a ciência das máquinas ideais, onde o movimento se comunica entre peças já em contacto, sem choques, nem atritos, e a ciência dos astros que se influenciam à distância (...) (Prigogine; Stengers, 1986, p.108), permitiria a redução de todos os fenómenos à acção de forças, constituindo uma explicação total e coerente, que caracterizaria o paradigma da ciência moderna. A concepção do mundo, enquanto massa inerte em movimento, poderia ser explicitada através da (...) redução da mudança a um conjunto de trajectórias (...) (Prigogine; Stengers, 1986, p.102), cuja totalidade de estados, passados e futuros, o determinismo e a reversibilidade, como atributos fundamentais do sistema, permitiriam determinar, a partir do conhecimento de um dado inicial e da aplicação directa das leis universais. O espaço dos fenómenos físicos descritos pela dinâmica, correspondia ao espaço abstracto da geometria euclideana, destituído de propriedades e inalterável pelos próprios fenómenos físicos, que nele ocorriam, absoluto, uniforme e matematizável que, assim como o tempo,
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Na física pré-socrática supunha-se a pertença e união íntima do espírito ao corpo, mas o pensamento moderno vai designar a transcendência da alma em relação à matéria, seguindo uma orientação platonista, presente na obra filosófica de Santo Agostinho (séc. IV), em que o conhecimento de Deus e da verdade são considerados os objectivos únicos da reflexão e forçosamente inacessíveis sem uma procura unicamente interior.(Cf. Abbagnano, 1999, p.122-123)

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constituía uma dimensão vazia, com função apenas referencial, onde os elementos se movimentavam perpetuamente. De facto, o sistema newtoniano não [daria] sentido algum à diferenciação do espaço, à constituição de limites naturais, à aparição de um funcionamento organizado, em resumo, a nenhum dos processos que o desenvolvimento de um ser vivo implica. (Prigogine; Stengers, 1986, p.136) Em contraponto a uma mudança ou devir orientados para uma visão aristotélica de actualização de uma tendência estruturante, organizadora da matéria e origem da diversidade da natureza, o mecanicismo substitui uma ordem imutável, a das (...) máquinas simples de movimento perpétuo e igualmente as trajectórias dos planetas, que de ora em diante, são assimilados a seres naturais. (Prigogine; Stengers, 1986, p.362) À semelhança da legalidade eterna, que antes definia o movimento dos corpos celestes em redor da terra, o mecanicismo postula a previsibilidade do mundo terreno, unificando-o à esfera celeste, através da necessária universalidade das leis, que passam a determinar integralmente a evolução do sistema a partir do conhecimento das condições iniciais; expressando uma causalidade linear, em que causa e efeito são equivalentes ou proporcionais, no determinismo próprio da natureza descrita pela dinâmica clássica, (...) desprovida de história e inteiramente determinada pelo seu passado; uma natureza indiferente, para a qual todo o estado é equivalente, uma natureza sem relevo, plana e homogénea (...) (Prigogine; Stengers, 1986, p.130). A física clássica realizaria a omissão do homem nesta descrição da natureza enquanto sistema dinâmico, (...) totalmente independente da actividade experimental, da escolha dos pontos de vista e da selecção das propriedades pertinentes [mas também] o homem, na qualidade de habitante num devir natural é nele inconcebível (...) . (Prigogine; Stengers, 1986, p.131) A actividade científica desenvolvia-se sobre as fundações do realismo moderno, na consideração dos factos isentos da sua interpretação, numa acepção positiva da independência do dado em relação ao sujeito; o objecto de conhecimento não reside no sujeito, nem é afectado pelas diferentes aproximações, que consideram assim uma individualidade ahistórica, unidimensional e anónima. Existe uma total transcendência do objecto em relação ao sujeito, este reside para além dele, através de uma identificação moderna do sujeito com a consciência, com o pensamento, (...) por oposição ao objecto, que é realidade em si das coisas independentemente do pensante que as pensa ou conhece. (Cabral [et al.], 1991, p.1339) Esta eliminação do sujeito empírico do próprio processo de conhecimento, efectuada pela ciência clássica, viria a ser assumida pela filosofia transcendental de Kant, cuja reflexão sobre as ciências culminaria na distinção destas da filosofia, através da delimitação precisa dos seus objectos − as ciências tratavam o fenoménico, encarregando-se a filosofia do numénico. O fenoménico, objecto do conhecimento científico para Kant, não corresponderia às coisas em si, mas sim ao que é dado à experiência, enquanto material ou empírico, e que é modelado por uma ordem a priori, que determina (...) a linguagem única que a ciência

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decifra na natureza, o conjunto único de pressupostos, que condicionam a física (...) (Prigogine; Stengers, 1986, p.146) e que caberia a uma crítica da razão esclarecer. Kant reconhecia a autenticidade do conhecimento físico-matemático da natureza e justificaria o realismo científico através do seu idealismo transcendental, já que este assentava nos elementos formais do conhecimento, a priori da experiência e logo imanentes ao espírito, garantiam uma veracidade e uniformidade universais, que (...) a crítica da razão pura [deveria] alcançar e realizar a possibilidade fundamentadora da ciência, o autêntico saber humano. (Abbagnano, 2000a, p.111) Ainda que considerando os limites da experiência e reconhecendo a ciência, enquanto actividade activa de imposição de um código sobre o real, este deriva das categorias a priori da razão o que lhe doaria a sua validade e carácter positivo, já que, segundo o filósofo, a investigação da razão (...) estará em grau de justificar a própria experiência na sua totalidade, portanto também os conhecimentos universais e necessários que se encontram no seu âmbito. (Abbagnano, 2000a, p.111) Estaria, no entanto reservada à filosofia a reflexão sobre o numénico, isto é a realidade em si, ou antes o pensamento sobre os limites e possibilidades do conhecimento fenoménico ou científico, determinando a incapacidade reflexiva da (...) empresa científica como muda e sistemática, fechada sobre si própria. (Prigogine; Stengers, 1986, p.146) A filosofia consagra e estabiliza assim a situação de ruptura, abandona à ciência o campo do saber positivo a fim de reservar para si a meditação sobre a existência humana (...) (Prigogine; Stengers, 1986, p.146), ao rematar o que havia sido começado, no séc.XVII, por Descartes, através da disjunção entre o sujeito pensante ego cogitans, tornado transcendente pela sua exclusão do mundo objectivo, e a matéria ou res extensa. A identificação da ciência com a vertente mecanicista, presente nas múltiplas correntes do pensamento moderno, viria a afectar todos os ramos do conhecimento, na sociedade iluminista do séc. XVIII e XIX, desde as ciências da natureza às ciências da sociedade, que ao se basearem no seu modelo de cientificidade, assimilavam as vicissitudes do determinismo e reducionismo, que lhe eram inerentes, participando da nítida exclusão do homem, enquanto sujeito empírico e participante na construção desse mesmo conhecimento.
4. Nicolas Poussin (1660-1664) − Le quatro stagioni La Primavera, obra do pintor classicista, que procurava representar a paisagem através de uma natureza ideal, rigidamente ordenada como cenário ou fundo para enredos mitológicos, preocupações inteligibilidade, acentuando formais, ligadas em detrimento as à da

exuberância cromática, relacionada pelo pintor com os sentidos.

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02.2 A natureza do romantismo e o positivismo científico

O paradigma mecanicista, permaneceria a base dominante do pensamento científico do séc.XIX, usufruindo dos desenvolvimentos posteriores, que aplicavam o seu modelo às mais diversas áreas do conhecimento, mesmo entre aquelas, que na tentativa de compreensão do funcionamento dos seres vivos, supunham a existência de uma força vital, inerente ao desenvolvimento vivo, mas entendiam, que esta não podia ser objecto de estudo científico, por não intervir de forma causal (Cf. Prigogine; Stengers, 1986, p.149). Mas, nos finais do séc.XVIII - inícios do séc. XIX, surgem na Alemanha os indícios de um movimento literário, artístico e filosófico, que pela sua transversalidade, se oporia a uma visão meramente materialista da natureza, enquanto puro sistema de forças mecânicas, constituindo a base do movimento romântico, enquanto (...) primeiro grande protesto contra o mundo moderno, isto é a, civilização científico-racional que começara a formar-se no séc.XVII, e que assumira grandes proporções no séc.XVIII. (Baumer, 1990, p.23). Designado por Sturm und Drang ou tempestade e impulso, este movimento procurava a (...) compreensão e esclarecimento daquilo que a razão não abarca, a vida, o sentimento, a arte e a natureza. (Abbagnano, 1978, p.223) Schiller e Goethe, seriam as principais figuras, que perfilhando este movimento, desenvolveram o tema da unidade entre natureza e espírito, e ao afirmarem a impossibilidade de alcançar a alma senão através do corpo (Cf. Abbagnano, 1978, p.228), desafiariam a ruptura cartesiana entre alma e matéria, num revivalismo clássico da ideia de imanência do espírito na substância corpórea. A ideia da irredutibilidade da experiência sensível e estética à razão, consistiria a base fundamental do pensamento Romântico, que via nestas a forma privilegiada de compreensão profunda do mundo, reconhecendo, no seguimento do pensamento iluminista, os limites da razão, já formulados por Kant, no conhecimento das coisas ditas superiores ou identificadas com o numénico. Ao contrário de Kant, que considerava a finalidade da natureza uma questão sem validade objectiva, Goethe cria que esta finalidade constituía a própria estrutura dos fenómenos naturais (Cf. Abbagnano, 1978, p.229), definindo a existência de um arquétipo ou linguagem da natureza, uma origem comum a todas as formas vivas e a partir da qual se processaria o desenvolvimento e metamorfose inerente a uma ideia romântica de natureza como processo, formulada pelo autor na obra − A metamorfose das plantas. A ideia de evolução inerente aos estudos naturais de Goethe, tornar-se-ia, fundamental no pensamento do séc.XIX, baseada no pensamento sobre a história introduzido nas ciências naturais, através das descobertas da geologia e estudo dos fósseis, nomeadamente através dos trabalhos precursores de Hutton (1785), Lyell (1830) e Cuvier (1815), que indicavam o

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pressuposto inegável do desenvolvimento da terra, derivado da acção no tempo das forças naturais. De facto, até cerca do séc.XIX, como refere Engels (1882), na obra − Dialéctica da natureza, esta (...) não era, de forma alguma, considerada como algo que se desenvolvia historicamente, que tinha uma história em termos de tempo; somente a extensão no espaço era tida em conta; (...) a história natural era válida para todos os períodos, tal como as órbitas elípticas dos planetas. (Engels Ap. Baumer, 1990, p.103) A ideologia do evolucionismo relacionou-se ainda com a revolução burguesa, que se expressou no declínio da sociedade feudal, através da alteração das relações sociais e formas de ascensão ao poder, que implicitamente veicularam uma imagem de sociedade, que já não se pautava por relações fixas, permitindo uma concepção dos sistemas naturais, sujeitos à constância das leis da mudança, numa perpétua competição pela vida. (Cf. Lewontin; Levins, 1985, p. 236) A formulação em biologia do pensamento evolucionista, seria avançada por Lamark, no começo do séc. XIX, que ao considerar a evolução como resultado da acção do meio sobre os organismos, desencadeou a falência da até então aceite teoria da mudança, que postulava um universo estático e imutável desde a criação, sujeito apenas a alterações infligidas pontualmente por acção divina. (Cf. Lewontin; Levins, 1985, p. 234) O papel dado ao meio, na diferenciação tanto dos organismos vivos como na alteração da superfície terrestre, definia uma interacção, que permitiu conceber o devir dos seres, assim como traduzia a capacidade de um contexto mutável influir sobre este mesmo desenvolvimento, servindo como contraponto à visão de espaço amorfo descrita pela dinâmica. Darwin, em − A origem das espécies (1859), ao sintetizar as obras anteriores do pensamento evolucionista, forneceria as provas necessárias para o abandono da concepção cartesiana de mundo finalizado, como máquina construída pelo criador, sugerindo um universo enquanto sistema em evolução e em permanente mudança, no qual a complexidade organísmica se desenvolvia a partir de formas mais simples, mas ainda assim, no cumprimento de leis fixas. (Cf. Capra, 1982, p.67) A ideia de evolução em filosofia, desencadearia ainda no período romântico, uma visão da história enquanto progresso, cedendo lugar à substituição da razão limitada de Kant, por uma razão infinita existente em potência e em estado de realização contínua (Cf. Abbagnano, 1978, p.246). A ciência recupera o seu estatuto de actividade paradigmática, desta razão ilimitada, através do positivismo, que enquanto manifestação filosófica do romantismo, abraça a ideia de progresso e identifica-o com a ciência tornada alvo de culto e expressão máxima das possibilidades humanas; ideia acentuada pelos avanços tecnológicos, que sustentavam o auge da época industrial, enquanto domínio humano da natureza através da máquina. Se o mecanicismo presidiu à constituição de uma ciência positiva, isto é uma ciência, que determina as relações causais entre factos, depurados pelo método científico da observação e manipulação humanas, seria a partir do séc. XIX, que o positivismo, enquanto exaltação romântica da ciência (Abbagnano, 2000, p.70), determinaria a convicção de que (...) o

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homem deve regular-se pela natureza; e uma vez que a natureza não depende senão da ciência, daí resulta que a ciência diz tudo e que as nossas certezas já não carecem de metafísica (Lenoble, 1990, p.317).

5. Gustav Courbet (1870) − O vale do Loue sob céu tempestuoso, este pintor exemplo do movimento realista assumia a representação do real em si , procurando silenciar, aliás como o positivismo científico seu contemporâneo, o acto representativo como interpretação baseada neste caso num código icónico, procurando a similaridade com a paisagem real acedida pela experiência perceptiva, sempre parcialmente limitada pelo conhecimento ou representações do real.

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02.3 Da natureza como paisagem à paisagem como objecto científico

Paralelamente às representações de natureza veiculadas pelo pensamento científico da realidade, que através do evolucionismo haviam encontrado uma ordem histórica e genealógica na realidade, já desde o Quattrocento as artes haviam descoberto na realidade uma ordem espacial representada na pintura, através da técnica da perspectiva, que se assumiu como paradigma de representação no mundo ocidental. Enquanto técnica, que visava a similitude com o real objectivo através de uma visão unidimensional e restrita a um ponto de vista fixo, no espaço e no tempo, tornar-se-ia símbolo precedente da viragem, que constituiu a formação do individualismo moderno ou a (...) metafísica da subjectividade em que o homem ocupa um ponto de vista sobre o mundo a partir do qual este último aparece como um material manipulável e dominável à sua vontade. (Francastel Ap. Ferry, 2003, p.230) As representações pictóricas viram o seu realismo acentuado, através das regras da perspectiva e a paisagem enquanto espaço pictórico pode emergir, segundo o conceito positivo de espaço tridimensional, onde o posicionamento dos objectos ou elementos definia a deformação segundo linhas de fuga e a atribuição de cor e valor, que permitiam a recriação da profundidade e distância próprias de uma percepção estática da realidade; tida enquanto espectáculo que se desenvolvia defronte ou para além do observador, numa relação de distanciamento característica do paradigma de subjectividade moderno. Devido à estética naturalista do romantismo, a paisagem enquanto objecto estético já presente na pintura, encontra um lugar proeminente na literatura, na transição do séc.XVIIIXIX, inicialmente sob influência das narrativas de viagens, tornadas populares pelos estudos em geografia, récem-criada disciplina científica, na Alemanha do séc.XIX.. (Cf. Salgueiro, 2001, p. 40) A cristalização da noção de paisagem veiculada pelas representações pictóricas, vê-se assim ampliada ao campo do texto narrativo, onde a sua expressão encontra uma formulação distinta do sentimento de natureza , identificado por Buescu (1990), como situação de distanciamento entre o sujeito e o exterior natural. (Cf. Buescu, 1990, p.88) Segundo a autora, o organicismo, desencadeou na estética romântica, um progressivo apelo às sensações, enquanto forma de contacto com a paisagem, sobrevindo o início de uma indefinição entre o sujeito e o espaço, que deixa de constituir o cenário sobre o qual as personagens evoluem, para passar a ser um espaço ou paisagem vivenciados (Cf. Buescu, 1990, p.86). O pitoresco associado à visão e já patente na pintura paisagista é assim seguido no texto narrativo, de um investimento na descrição das sensações de todos os sentidos, e a sinestesia surge como forma fundamental de expressar uma paisagem romântica corporizada através do sujeito. Esta integração do sujeito romântico na natureza evidenciada pela literatura de ficção, permitiu a exploração de uma dimensão até aí oculta

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da paisagem, enquanto forma de experiência sensorial, mas esta permaneceria reservada ao campo das artes, adiando a formulação de um conceito de paisagem, que ao abranger as vivências humanas, considerasse esta, enquanto construção de sentido ou apreensão simbólica. A ordem genealógica pressuposta pelo pensamento evolucionista da natureza, adoptada no domínio do pensamento científico, seria coetânea da emergência nas artes, e nomeadamente na literatura, do conceito de nature as landscape (Maltzahn, 1994, p.109), motivado pela enfâse dada ao sentimento e à experiência estética como complementares da razão; sendo possível a irrupção da experiência sensorial como intencionalidade, ou construção mediada pelo imiscuir das categorias sujeito-objecto, na estruturação perceptiva da paisagem. Sob esta mesma herança da estética naturalista do romantismo, a paisagem passa a ser considerada enquanto objecto de estudo científico (Cf. Salgueiro, 2001, p.38), na geografia de Humboldt e Vidal La Blache, mas como acepção reduzida à soma total das características físicas de uma região (Cf. Humboldt Ap. Tress, B.; Tress, G., 2001, p.145). No seguimento destes estudos, a paisagem estudada pela geografia clássica, enfatizava a tipificação de morfologias, que derivadas de variáveis físico-naturais e culturais pediam uma síntese entre as ciências naturais e humanas, necessária a uma explicitação das marcas sedimentadas, com base na actuação de uma cultura e expressão da sua identidade. Da influência da geografia clássica decorreu a abordagem morfológica, que caracterizou a escola de Berkeley, identificada com Sauer (1925), que considerava o conceito de paisagem, enquanto associação de formas naturais e culturais: El paisaje cultural se crea, por un grupo cultural, a partir de un paisaje natural. La cultura es el agente, el área natural el medio, y el paisaje cultural el resultado. (Sauer Ap. Anschuetz [et al.], 2001, p.164). O estudo da paisagem, deveria no entanto, restringir-se ao seu carácter material concreto, adoptando unicamente um ponto de vista científico, que restringia o estudo da intervenção humana na paisagem aos aspectos visíveis desta acção. Este trabalho de síntese naturalista e historicista, que inicialmente caracterizou o estudo descritivo das paisagens, foi cedendo lugar a abordagens segmentadoras, devido à emergência de um paradigma neopositivista, que ao denunciar a subjectividade do discurso paisagístico, introduziu as noções de território e espaço geográfico, enquanto objectos de estudo principais, na geografia do séc.XX (Cf. Domingues, 2001, p.57). De facto, a dualidade do conceito, seria criticável pela comunidade científica, por evocar a cultura enquanto agente interveniente na paisagem, o que introduzia dificuldades na procura de uma definição directa, consensual e quantificável do que participava da constituição efectiva do objecto de estudo, que deveria necessariamente manter-se ao nível da concretude dos seus aspectos materiais. Este debate expressaria de forma significativa a polémica, que caracterizou a procura e abandono da definição de paisagem ao longo do

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séc.XX, devido à influência de uma visão moderna da natureza, da qual o homem se excluía, através da eliminação das componentes simbólicas, enquanto parte integrante do conceito. Apenas assim seria possível uma definição total e única, como o paradigma de simplificação moderno assim o exigia, adoptando a via da racionalização, que como Morin refere, procura encerrar a realidade num sistema coerente, desviando as contradições a esse sistema pré-definido, em favor de uma visão unidimensional (Cf. Morin, 1991, p.85). A persistência do conceito, enquanto objecto disciplinar deve-se sobretudo à emergência da arquitectura paisagista, presente enquanto escola paisagista desde o séc. XVIII, com um âmbito de acção restrito ao projecto de parques e jardins, viria a integrar na Europa os cursos universitários apenas a partir dos anos 30, incidindo sobre a intervenção na paisagem humanizada, tida como (...) figuração da biosfera [que] resulta da acção complexa do homem e de todos os seres vivos (...) em equilíbrio com os factores físicos do ambiente. (Cabral, 1984, p.1072) Enquanto figuração, a paisagem expressa no conceito de Cabral (1984) apela para a sua dimensão estética, pressupondo o homem enquanto agente de uma cultura e origem dessa imagem, que integra já (...) significados ecológicos e culturais [ao] incluir por um lado os ecossistemas que lhe estão subjacentes e lhe deram origem, e, por outro, os processos de humanização (...) (Magalhães, 2001, p.51), numa síntese que indicia o início da superação da contradição fundamental inerente ao conceito de paisagem; enquanto espaço concreto e enquanto apreensão simbólica da realidade, em que sujeito e objecto se integram dialogicamente. A maior abrangência do conceito, tida no âmbito da arquitectura paisagista, deriva necessariamente do facto de se ter constituído, em alguns países da Europa, entre os quais Portugal, enquanto actividade assente numa perspectiva transdisciplinar, englobando conhecimentos das ciências naturais e do funcionamento ecossistémico subjacente à paisagem, num método que ao ter por objectivo final a formalização, inclui as disciplinas artísticas por mediadoras. A concepção do funcionamento complexo inerente a uma perspectiva ecossistémica da paisagem, emergeria apenas a partir da segunda metade do séc. XX, através da constituição de uma ecologia holística apoiada pelos avanços científicos, que dispersos por diversas áreas, convergiram na reificação da sistémica, contribuindo para a construção de uma acepção de natureza pós-moderna. O paradigma de objectividade das ciências modernas afectaria, assim as abordagens da paisagem, ao longo do séc. XX, tida enquanto território ainda actualmente, ignorando os pressupostos ecológicos e os simbólicos; quer por uma concepção redutora do seu funcionamento, quer pela incapacidade de conceber o seu carácter complexo, retalhado pelas fronteiras disciplinares ou pela coerência, que privilegia a unidimensionalidade à contradição, respeitando a doutrina cartesiana de definição dos conceitos pelos seus limites, em favor da clareza e distinção, caracterizadoras do pensamento disjuntivo (Cf. Morin, 1991, p.9). A acepção de paisagem enquanto resultado da integração criadora entre sujeito e espaçoobjecto, exigiria assim uma nova concepção de objectividade científica pós-modernismo

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científico, que ao supor a interacção com a realidade derivada da observação da realidade microfísica colocará, ao nível da física a relatividade inerente à observação, da até aí considerada, uniformidade do real. A expansão desta ruptura, teria por sua vez consequências, que reverberariam por todas as áreas de conhecimento e levariam sobretudo, a partir do aparecimento do paradigma da complexidade, na década de 70, no seio das disciplinas científicas, à visão das consequências derivadas da mutilação de conceitos, devida à fragmentação operada no interior das ciências, mas sobretudo à cisão entre as ciências, filosofia e artes. Esta ocasionou a incapacidade de descrever o carácter plural da paisagem, enquanto experiência corporal, estética, e marcadamente cultural, derivada de uma criação sujeito-objecto, fruto de experiências perceptivas singulares. Estas primeiramente esboçadas pela natureza como paisagem do romantismo literário, sendo claramente não redutíveis às descrições objectivas das disciplinas científicas, serão a tempo oportuno abordadas neste trabalho.

6. WilliamTurner (1844) − Chuva, vapor e velocidade − O grande caminho-de-ferro Ocidental, uma das paisagens mais conhecidas do movimento romântico, que expressou o sublime da natureza, esse excesso que preside a uma experiência da paisagem, em que imiscuindo as emoções do autor na representação,como forma de exaltação da sensibilidade, instituinte de uma paisagem intencional, enquanto resultado da integração criadora entre sujeito e espaço-objecto.

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03. O NATURALISMO PÓS-MODERNO − O PAPEL DO HOMEM COMO CONCEPTOR
DA NATUREZA

03.1 O pós-modernismo científico e a ideia de natureza contemporânea

A transição do século XIX para o XX, seria caracterizada pela dominante perspectiva neoiluminista, mas assistiria à formação de correntes antagónicas ao positivismo, que designadas por fin-de-siécle (Cf. Baumer, 1990, p.129), incidiam criticamente sobre a interpretação mecanicista da teoria darwiniana e implícito determinismo da natureza, caracterizada pela permanente sujeição a leis fixas, num automatismo reactivo às perturbações do ambiente, na qual a criação não encontrava lugar. A filosofia da mudança de Bergson, presente na sua obra − A evolução criadora (1907) e influenciada pelo pensamento de devir nietzscheano, constitui um dos focos da enfâse dada por este grupo de pensadores, ao papel da criatividade, que embora mencionada por Darwin, havia sido ignorada em favor de uma visão mais consentânea com o pensamento científico; que vinculado directamente com o progresso tecnológico simbolizado pela máquina, persistia numa visão da natureza rígida, sujeita à mudança apenas pela actuação de mecanismos. O cientismo, ou redução de todas as formas de conhecimento ao modelo científicoracionalista, permitia assegurar a estabilidade e ocultava as ideias de indeterminação natural, que persistiam com um carácter marginal, pela imposição da ideia de progresso, num mundo onde a mudança ou devir já haviam, no entanto, irrompido e eram acentuados pelas filosofias vitalistas, que como a bergsoniana contestavam a ideia de tempo, enquanto (...) essência eterna e inerte (...) uniforme como espaço (...) (Baumer, 1990, p.138), que patente nas ideias de mecanismo e também de finalidade rígida e necessariamente progressista, impunham uma imagem de natureza onde (...) tudo é dado; as forças pelas quais a natureza é animada estão todas determinadas e organizadas previamente. (Bergson Ap. Baumer, 1990, p.138) Em contraponto ao tempo reversível marcado pela homogeneidade dos estados, que dominava ainda o pensamento científico, Bergson define a duração real, insistindo na persistência de um devir espiritual, que derivado da sua interpretação do evolucionismo naturalista, seria ao mesmo tempo conservação e criação total, (...) uma vez que nela [memória] cada momento, embora seja resultado de todos os momentos anteriores, é absolutamente novo em relação a eles. (Abbagnano, 2000b, p.69) O conceito de irreversibilidade intrínseco ao pensamento de Bergson, já havia sido introduzido no pensamento científico, pela termodinâmica, ciência da energia, emergida em pleno séc.XIX, com os trabalhos de Sadi Carnot (1824), mas esta contribuiu inicialmente, pela formulação do princípio de conservação da energia, para assegurar (...) a exigência geral de inteligibilidade da natureza (...) o postulado de uma invariância fundamental para

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além das transformações naturais. (Prigogine; Stengers, 1986, p.179) Seria, no entanto a partir desta ciência nova, que ocorreria a associação inovadora entre conservação e irreversibilidade, como caso ampliador da dualidade conservação-reversibilidade tida como conceito base da mecânica, que se provou não ser aplicável às transformações físicoquímicas, marcadas pela irreversibilidade; abordada por Clausius (1850) na sua interpretação do ciclo de Carnot, mas primeiramente conceptualizada através da segunda lei da termodinâmica por William Thomson (1852), ao acentuar a existência de uma dissipação irreversível de calor, ou degradação da energia inerente às transformações em sistemas fechados, característicos desta termodinâmica clássica (Cf. Prigogine; Stengers, 1986, p.182-187). Os sistemas tenderiam para um estado final, caracterizado pela cessação de toda a actividade e de todas as diferenças originárias passíveis de gerar efeitos − o estado de equilíbrio térmico. Essa dissipação tendencial a toda a transformação termodinâmica, seria associada por Clausius (1865) ao étimo grego entropia, operando a introdução na física de um objecto, que (...) contrariamente ao objecto dinâmico, nunca é controlado senão parcialmente; pode acontecer-lhe escapar-se numa evolução espontânea, porque para ele nem todas as evoluções se equivalem. (Prigogine; Stengers, 1986, p.195) Este princípio de degradação da energia, ou perda da capacidade de trabalho, seria associado por Boltzman (1877), a um estado de desordem molecular, já que o calor é a energia própria aos movimentos desordenados das moléculas (...) todo o aumento da entropia é um aumento da desordem interna (...) [formulando-se] em termos de organização e desorganização, visto que a ordem de um sistema é constituída pela organização (...) (Morin, 1997, p.39) Nos finais do séc.XIX, assumem-se desta forma duas vias diametralmente opostas e complementares ao conceito de evolução reversível da mecânica − o tempo entrópico e a probabilidade crescente e irreversível da desordem e desorganização, característica dos sistemas fechados e a evolução criadora da organização viva. Esta ambiguidade permaneceria em parte silenciada, pela crença na distinção entre organização física, associada a uma evolução irreversível para a desorganização entrópica e organização viva, que baseada numa matéria específica, tenderia inversamente para o desenvolvimento (Cf. Morin, 1991, p.74). Essa especificidade permaneceu ignorada pela necessária universalidade das leis, que evidentes no âmbito da organização física, permitiriam ainda explicitar os processos naturais, que reduzidos ao nível físico, exprimiriam uma similar simplicidade. A universalidade determinava uma equivalência das leis inerentes a fenómenos operados a escalas diferentes e ainda que se pudessem verificar níveis de organização distintos, como por exemplo os verificados no domínio biológico, a contínua redução ao químico e ao físico, permitiria encontrar a inteligibilidade suficiente e completa. A complexidade inerente às transformações naturais era portanto encarada como apenas uma dificuldade de cálculo, inerente a um sistema em que o maior número de interacções, constituía a única diferença, mas apenas de uma forma quantitativa e logo passível de ser reduzida.

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A generalidade das leis clássicas, seria no entanto enfraquecida, no campo próprio da física através da teoria da relatividade, formulada por Einstein no primeiro decénio do séc.XX, através da descoberta da existência de um comportamento diferenciado qualitativamente, consoante a escala física dos objectos, ligado por sua vez à sua velocidade, o que determinava a impossibilidade da homogeneidade do universo (Cf. Prigogine; Stengers, 1986, p.304). Segundo este autor, o isomorfismo de escala, que era implícito à ideia da universalidade, havia permitido explicitar comportamentos de objectos a escalas diferentes, segundo leis comuns, e a mecânica newtoniana teria sido assim ampliada do domínio dos objectos dinâmicos, como os corpos celestes e os pêndulos, a todo o universo; o que partir da relatividade foi realçado pela incapacidade de (...) imaginar o átomo como um pequeno sistema planetário. Os electrões pertencem a uma escala diferente da dos planetas e do conjunto de seres macroscópicos, maciços e lentos, de que nós fazemos parte. (Prigogine; Stengers, 1986, p.304) Mas a teoria da relatividade, mais concretamente a relatividade restrita definida por Einstein (1905), colocou em causa o próprio estatuto da objectividade científica, através da afirmação (...) de que a distância espacial ou temporal não é uma entidade ou valor em si, sendo antes relativa ao corpo que se escolhe como sistema de referência; (...) [negando] a existência de qualquer sistema de referência privilegiado. (Abbagnano, 2000c, p.101) Esta formulação explicitava a dependência de todos os conceitos físicos em que o espaço-tempo intervinha, do sistema de referência em que se encontrava o observador, sendo possível a passagem entre dois sistemas de referência através das equações definidas por Einstein. Esta relação entre referenciais diferentes, consistia na abertura da ideia de que a uniformidade não era inerente aos fenómenos, que de facto seriam percebidos de forma diversa, por observadores diferentes, mas constituía atributo das próprias leis científicas, (...) transferindo assim a própria noção de objectividade dos fenómenos para as leis. (Abbagnano, 2000c, p.102) Operava-se assim uma mudança fundamental no conceito de objectividade, que pressupunha pela primeira vez a referência ao observador, enquanto ser físico, investido na descrição dos fenómenos, em contraponto ao seu total apagamento na física clássica, estabelecendo a entrada dos (...) procedimentos e métodos de medida, assim como a própria acção do observador (...) na verdadeira análise científica. (Abbagnano, 2000c, p.101) A relatividade restrita, constituiu igualmente uma reforma, pela ruptura da ideia de espaço estático, através da associação das duas variáveis − espaço e tempo, no conceito de acontecimento, onde estas constituíam dimensões indestrinçáveis. A aplicação da teoria precedente a sistemas gravitacionais, mediante a teoria da relatividade geral (1912), permitiu completar esta mutação do conceito de espaço, através da perda da homogeneidade, pela assunção da sua descrição mediante geometrias não-euclideanas, anteriormente formuladas por Riemann e agora aplicadas por Einstein, como modelo de toda a realidade física.

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A confirmação do papel do observador/conceptor, na constituição da realidade científica proposta pela relatividade de Einstein, seria efectuada pelos estudos dedicados à física atómica, nomeadamente através da interpretação da constante de Planck (1900) elaborada por Heisenberg no princípio de indeterminação (1927), segundo o qual, à escala do átomo, a descontinuidade dos fenómenos tornaria imprevisíveis os efeitos da observação, o que impedia a clássica atitude de negligenciar os resultados dessa interacção (Cf. Abbagnano, 2000c, p.103). Desta forma, o determinismo absoluto é banido das explicações que envolvem o esclarecimento do comportamento das partículas, pois devido à acção do observador sobre elas, é introduzida uma indeterminação, que permite apenas uma descrição probabilitária dos futuros estados possíveis, inibindo a possibilidade de previsão rigorosa, como a causalidade inerente ao mecanicismo permitia. A objectividade dos sistemas quânticos, estabeleceu-se assim pela acentuação não apenas do papel do observador, mas numa dependência das interacções entre partículas do todo contextual, de uma forma tal, que as características do átomo não podiam ser induzidas das partículas, mas os caracteres das partículas é que só poderiam ser compreendidos em referência à organização do átomo (Cf. Morin, 1997, p.95). As partículas tidas enquanto entidades últimas e estáveis, só podiam ser concebidas segundo inter-relações ou acontecimentos, verificando-se a existência de relações não-locais e não causais entre elementos distantes (Cf. Bohm, 1983, p.175), portanto dependentes da dinâmica total do contexto envolvente e assumindo padrões de comportamento duais − enquanto corpúsculo ou onda, ou estados intermédios, sem que houvesse uma necessária continuidade entre estados. Esta dualidade de comportamento introduziu uma contradição lógica, que ao desafiar o princípio da identidade indiciava a persistência do domínio microfísico à redução a um modelo ordenado, que se conformasse à coerência das leis; revelando uma desordem, que segundo Morin, ao contrário da desordem termodinâmica associada a uma degradação da energia, seria de carácter constitucional, inerente à própria existência da matéria física. (Cf. Morin, 1991, p.42) A descoberta da linguagem que permite a descrição do sistema quântico passa a ser considerada como uma proposta parcial, ao contrário da ideia clássica da possibilidade de definição de uma fórmula total, de onde seria possível deduzir a diversidade dos fenómenos naturais, encerrando a pluralidade de pontos de vista possíveis de conceber, acerca daquele aspecto da realidade. Seria a ideia de parcialidade da escolha da linguagem conceptual, que Bohr (1928) esboça no princípio da complementaridade, segundo o qual, nenhuma representação matemática, (...) pode esgotar a realidade do sistema; as diferentes linguagens possíveis, os diferentes pontos de vista tomados sobre o sistema, são complementares, todos tratam da mesma realidade, mas não podem ser reduzidos a uma descrição única. (Prigogine; Stengers, 1986, p.319) Esta incapacidade de unir conceptualmente as várias formas de manifestação do sistema reflecte apenas a forma singular como cada observação afecta a realidade microfísica, excluindo-se assim a

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possibilidade de distinguir uma conexão causal entre acontecimentos, que legitime a infinitude total de estados passíveis de serem provocados. Operou-se assim através da teoria dos quanta, a distinção que marcaria a ruptura do ideal descritivo da ciência, da capacidade de descobrir a realidade física em si, isto é independente do modelo que a actividade científica propõe na forma escolhida de se lhe dirigir; permitiu a consideração dos métodos utilizados, introduzindo uma reflexividade num conhecimento, que desde as suas origens no séc.XVII, sob o desígnio da legitimidade divina, ou da razão infinita, se permitiu ver como decifrador das coisas em si. Mas esta indeterminação não é considerada como inerente ao real, ela releva da interacção das condições de observação com o sistema alvo, pelo que passam a elaborar-se (...) esquemas explicativos nos quais a conexão necessária entre os acontecimentos é substituída pelas conexões possíveis e pela consideração do cálculo dos seus respectivos graus de possibilidade, isto é pela sua probabilidade relativa. (Abbagnano, 2000c, p.104) A alteração do quadro epistemológico desencadeada pela mecânica quântica abrangeu não apenas o conceito de objectividade científica, mas definiu um abandono do reducionismo, numa acepção dupla, por conceber a organização do átomo, como explicativa das propriedades das partículas e à escala da experiência, através da descoberta da inevitável integração do observador, como interveniente na organização do sistema quântico, não apenas do ponto de vista formal, mas sobretudo fenomenalmente. A reforma permitida pela teoria quântica, introduziria assim no campo da física, uma visão holística da realidade, enquanto composta por (...) estruturas cujos membros constituem funções relacionais. ( Cabral [et al.], 1991, p.1181) A impossibilidade de um conhecimento positivo e infinito da realidade seria igualmente confirmada pelas formulações de Sahnnon (1948), na designada teoria da informação, que ao demonstrar a deformação das mensagens pelo ruído durante o processo de transmissão, viria a generalizar a existência necessária da desordem, devido às inevitáveis perdas de informação, geradas por interferência do acaso (Cf. Abbagnano, 2001, p.104). Ordem e desordem surgem pela primeira vez associadas num modelo teórico, que pautado pela objectividade, previa a ampliação transversal aos vários domínios do conhecimento e as derivadas implicações filosóficas, inerentes a uma visão da experiência humana como parcial, já que (...) uma informação infinita é impensável e impossível (...) (Brillouin Ap. Abbagnano, 2001, p.105). As perdas de informação seriam comparadas por Shannon, Wiener e Brillouin à degradação da energia nos sistemas físicos fechados, exposta na segunda lei da termodinâmica (Cf. Abbagnano, 2001, p.104), associando-se assim a informação efectivamente transmitida, a uma forma de entropia negativa, resíduo de significado que soçobraria após os efeitos do ruído, sendo de carácter improbabilitário. À perda da capacidade de realizar trabalho devido à degradação da energia sob a forma de calor, estipulada pela termodinâmica do equilíbrio, equivale assim, na teoria da informação,

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à perda da capacidade de comunicar, devido à introdução perturbadora de elementos de desordem no processo de transmissão da mensagem. Através dos trabalhos de Wiener (1948), a teoria da informação foi associada pela cibernética ao estudo dos processos de comunicação, enquanto forma de auto-regulação e controlo em sistemas artificiais ou naturais, introduzindo a noção de feedback, enquanto forma de retardar os efeitos do ruído. Esta regulação estaria na base do funcionamento dos organismos vivos, dependentes de um padrão de organização circular ou recursivo, que Wiener (1950) supunha, numa analogia mecanicista, comum às máquinas e que permitia quebrar a linearidade da relação entre causa e efeito. Através deste padrão, os organismos podiam corrigir erros, ou adequarem-se a alterações, através da acção ou antes retroacção, dos efeitos sobre as causas. Esta recursividade estaria na base do comando ou regulação, baseado num sistema de informação fechado, que ao pressupor a influência ou ligação entre os seus elementos, mais uma vez assumia a ideia de interdependência, interacção e transformação das partes na constituição qualitativa do comportamento do todo. A questão da organização biológica e a resolução da aparente contradição inerente à sua evolução, quando equacionada com a tendência irreversível para a desordem termodinâmica, seria abordada pelo biólogo Bertalanffy nos anos 40, ao efectuar uma síntese dos conceitos da teoria da informação e da cibernética, e sua aplicação ao estudo dos sistemas vivos, considerados como sistemas abertos. Segundo os desenvolvimentos desta concepção na sua obra − Teoria geral dos sistemas dos anos 50, a evolução para ordens de crescente complexidade, intrínseca ao desenvolvimento dos sistemas vivos, estaria relacionada com a sua condição de abertura ao meio envolvente, que permitindo a importação de matéria, compensaria o acréscimo de entropia devida aos processos irreversíveis ocorridos no seu interior (Cf. Bertalanffy, 1968, p.106). Este tipo de sistemas, ao contrário dos definidos pela termodinâmica, caracterizavam-se pela tendência a procurar um estado estacionário de não-equilíbrio, possível por uma auto-regulação, que semelhante à definida pela cibernética e formulada por Cannon (1932) sob a designação de homeostasia, estabelecia uma aparente constância possível apenas, através de um contínuo estabelecimento de fluxos de matéria e energia com a sua envolvência, assegurando uma permanente regeneração dos constituintes. Um dos caracteres definidores da singularidade da organização viva, seria a equifinalidade, propriedade que permitia, perante uma pluralidade de condições iniciais diferenciadas e sujeição a perturbações, o alcance sistémico de um estado estacionário semelhante, provento de fenómenos de auto-regulação. Este estado estacionário de não-equilíbrio havia sido definido por Onsager (1931), ao esboçar as primeiras formulações da termodinâmica linear de não equilíbrio, descrevendo o estado estacionário, enquanto um comportamento geral e previsível, caracterizado por uma produção de entropia constante, possível através da compensação da entropia derivada dos processos irreversíveis, por um fluxo de calor ou matéria vindo do meio (Cf. Prigogine; Stengers, 1986, p.215). A independência do tempo

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que define o estado estacionário, encontrava-se implícita na noção de equifinalidade, mencionada por Bertalanffy, como característica dos sistemas abertos, mas (...) como a evolução para o equilíbrio a evolução para o estado estacionário significa o esquecimento das condições iniciais particulares (...) [representando] uma evolução para um estado inteiramente dedutível a partir de leis gerais (...) [identificando-se] com um devir geral, e de modo algum com um devir complexo (...) (Prigogine; Stengers, 1986, p.216). A estabilidade que caracteriza o estado estacionário implica que o comportamento do sistema seja em si tão simples, no que respeita ao papel do tempo, quanto o que se verifica no estado de equilíbrio, pelo facto de não se operarem alterações singulares nas propriedades estruturais − It is therefore also impossible for him [the system] to develop an intrinsic conception of time, for the perception of time involves an awareness of change, and there is no change. (Prigogine; Nicolis, 1989, p.10) A irreversibilidade não seria portanto considerada, enquanto condição da morfogénese; o tempo irreversível não possui em si um carácter diferenciador, já que a evolução para o estado estacionário é independente do tempo, pressupõe aliás o esquecimento das condições iniciais e estabelece a indiferença ao percurso de estados passados do sistema. A equifinalidade, enquanto regularidade e previsibilidade inerente e característica do comportamento dos sistemas vivos, surge como expressão residual do paradigma clássico, que estabelece a invariância entre estados futuros de sistemas com diferentes histórias, como condição fundamental de controle, de conhecimento total e absoluto. As ciências da mudança puderam nascer apenas enquanto ciência do invariante (...) (Ceruti, 1995, p.167), disciplinadas por uma quadro epistemológico em que dominava:
(...) uma perspectiva tendente a considerar a mudança como dedutível, e mais, como controlável, a partir do conhecimento − o único verdadeiramente científico − dos aspectos invariantes e necessitantes dos fenómenos (...) [e] se viram na estranha condição de serem obrigadas a tentar reduzir a variedade e multiplicidade dos processos evolutivos por elas estudados a uma série de núcleos substancialmente invariantes e atemporais (Ceruti, 1995, p.167)

A termodinâmica linear do não-equilíbrio constituía a única formulação matemática contemporânea desta primeira sistémica, pelo que se encontrava adiada a resolução, da considerada dissidência, entre a ordem e complexidade da organização viva e a desordem tendencial da física, que permaneciam assim, conceitos antagónicos e inconciliáveis. A formulação dos sistemas vivos enquanto abertos, permitiu conceber os fluxos enquanto capazes de contrabalançar os efeitos da produção de entropia, através dos processos irreversíveis, mas na primeira sistémica encontra-se ainda ausente a função basilar da desordem, enquanto pré-condição genésica para o estabelecimento da organização. O paradigma da ordem clássica, com estatuto de lei, e da estabilidade permaneciam, ainda que houvesse o salientar do estado de desequilíbrio, enquanto caracterizador dos sistemas vivos; a irreversibilidade não possui, na formulação inicial da sistémica, papel determinante na criação ou morfogénese, mas constitui antes facto inevitável, da necessária conciliação teórica com a termodinâmica, mero condicionamento solucionado pelo sistema, através da gestão dos fluxos dissipativos.

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Só através da união entre as ideias de coacção ou imposição e singularidade ou acaso, se estabeleceria a base do pensamento da organização viva ou complexa, cuja originalidade, já para Von Neumann (1950), residia na capacidade para funcionar com a desordem. O papel da desordem, seria também desta forma abordado no campo da cibernética, através de Von Foerster (1959), que caracterizou a ordem própria da organização viva na dependência constitucional da desordem, através da expressão order from noise , mostrando (...) que o encontro entre algumas coacções elementares e energias não-direccionais produz novas formas de organização, ou seja, desenvolve ordem. (Morin, 1984, p.84). O apelo à reconciliação destas antinomias, considerado desde os anos 50 como crucial na compreensão dos funcionamento das estruturas vivas, em áreas diversas do pensamento científico, veio a ser confirmado nas últimas décadas, sendo actualmente assente, que não existe uma ordem eterna, há antes um diálogo ordem-desordem pela organização, uma vez que (...) a inovação, que comporta um aspecto aleatório, vai, suscitando a formação de uma estrutura-forma estável, [e inscreve-se] na repetição, ou seja, numa forma organizacional que ela terá modificado e ao mesmo tempo mantido. (Morin, 1984, p.89) Entre os anos 40 e 60, os trabalhos do físico e químico Ilya Prigogine, sobre a termodinâmica dos processos irreversíveis, conduziram à descoberta da ligação entre a não-linearidade e o estado de desequilíbrio, que caracteriza os sistemas vivos e revelando a necessidade de utilização de equações matemáticas não-lineares, para a descrição dos fenómenos inerentes à organização biológica, inicia o desenvolvimento da formulação matemática da termodinâmica do desequilíbrio. De forma a estabelecer as condições de manutenção de estabilidade em situações longe de equilíbrio, Prigogine incidiu o seu estudo sobre fenómenos, que caracterizados pela conjugação contraditória das referidas propriedades, apresentavam maior simplicidade − fluxos de calor por convecção, identificados no domínio da física, no início do séc.XX e conhecidos por turbilhões de Bénard, conduziriam-no ao desenvolvimento do conceito de auto-organização. (Cf. Capra, 1996 p.86) Estes fenómenos foram observados num fluido, em que a indução uniforme de um gradiente de temperatura, iniciava um afastamento do equilíbrio, e progressivamente a ruptura do estado estacionário e da estabilidade do sistema até que, alcançado um gradiente de temperatura crítico, ocorria o estabelecimento de um estado de desequilíbrio, a partir do qual se desencadeava um movimento e estruturação do fluido em células de convecção; configuração instável resultante de um padrão de comportamento global, que pressupunha a existência de correlações entre pontos distantes do sistema (Cf. Prigogine; Nicolis, 1989, p.10). A inicial homogeneidade espacial do sistema cessa de existir, devido à disposição em células de convecção, pelo que se pode considerar o desenvolvimento de diferenciação espacial, ou estruturação, inerente ao fenómeno de auto-organização, isto é à organização a partir de desordem inicial, que apresenta assim características genésicas, como refere Prigogine (1989):

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The emergence of the concept of space in a system in which space could not previously be perceived in an intrinsic manner is called symmetry breaking ( )[which] brings us from a static, geometrical view of space to an Aristotelian view in which space is shaped and defined by the functions going on in the system. (Prigogine; Nicolis, 1989, p.13)

As células de Bénard, modelo mais simples de auto-organização, enquanto fenómeno sistémico característico de um comportamento complexo, introduziu a matéria física enquanto detentora de características, que permitiam a morfogénese, até aí concebidas como exclusivas da organização biológica. Prigogine associaria o conceito de autoorganização a um tipo de estruturas particulares, que designaria de dissipativas, associadas ao funcionamento de sistemas abertos, e onde a ordem produzida implicava a intervenção de fenómenos dissipativos, até aí concebidos pela física clássica como perdas, e nunca como origem ou pré-condição de configurações ordenadas. Estes fenómenos organizadores seriam resultado da ampliação de flutuações através de mecanismos de feedback positivo, que na concepção da cibernética surgiam associados a factos eversivos, acentuando experimentalmente o papel genésico das instabilidades (Cf. Capra, 1997, p.89). Ao contrário do estado estacionário caracterizado pela estabilidade e previsibilidade, os estados longe do equilíbrio, na conjugação de perturbações, provaram-se estar na origem de uma ordem singular dependente da história do sistema, existindo a possibilidade de evolução para maiores graus de complexidade, através do aumento dos fluxos de energia e matéria que o atravessavam e indução pelo exterior de novas perturbações. Durante as décadas de 60 e 70, ocorreria a expansão de dados na física, bioquímica e ciências cognitivas3, que confirmavam a teoria de Prigogine, através de diferentes modelos experimentais, permitindo a ampliação do conceito de auto-organização, ao funcionamento dos sistemas vivos, enquanto processo de interacção entre o sistema e o seu ambiente, que assegurava a adaptação às variações externas e se podia equiparar a um modo de cognição, pois implicava a percepção das características mutáveis do ambiente e associação destas a determinados comportamentos, considerados como adequados a uma maior estabilidade ou persistência (Cf. Cilliers, 2000, p.92). Como toda a forma de aprendizagem a auto-organização implicaria a persistência dos padrões de comportamento pertinentes e a erosão selectiva dos que, devido à mudança ambiental deixariam de ser convocados e se desvaneceriam. O papel da diacronicidade, estaria assim inerente à autoorganização verificada em sistemas físico-químicos, já que os processos caracteristicamente não-lineares, se relacionavam não apenas com a noção de endocausalidade 4 (Morin, 1997, p.248), derivada das retroacções positivas, mas sobretudo com o reconhecimento da existência de estados muito longe do equilíbrio, onde as bifurcações ou possibilidades evolutivas acessíveis ao sistema seriam múltiplas e o papel da história seria determinante, na selecção, produzindo efeitos imprevisíveis e singulares.
3 Eigen dedicou- se ao estudo da auto-organização verificada em lasers; Haken a ciclos catalíticos de enzimas, enquanto sistemas químicos auto-organizados e precedentes da vida biológica; Maturana e Varela, no campo das neurociências abordaram a auto-organização do cérebro humano, estabelecendo-a como uma forma de cognição, característica dos sistemas vivos, mesmo na ausência de sistema nervoso (Cf. Capra, 1996, p.89-99). 4 Conceito explicitado no ponto 04.1.2..

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No limiar dos anos 70, a viragem conceptual já iniciada permite o estabelecimento de uma nova sistémica, que pela integração dos fenómenos organizadores e desordenados através dos conceitos de autonomia e auto-organização, será capaz de formular uma teoria dos sistemas auto-eco-organizados, inserida no contexto mais abrangente das teorias da complexidade. No âmbito desta segunda sistémica, a obra − O método (1977) − realizada pelo sociólogo Edgar Morin, constituiu a primeira abordagem integradora sobre a temática da complexidade, vindo enriquecer os conceitos já avançados em diferentes áreas disciplinares, pela acentuação do carácter contraditório, concorrente e complementar, que é irrevogavelmente próprio a todas as dualidades conceptuais antinómicas, cindidas pelo pensamento moderno e que inerentes à compreensão do paradigma insurgente, o escritor se propôs religar dialogicamente, segundo um movimento reflexivo e circular; entre estas: natureza / cultura, sujeito / objecto, ciência / filosofia, equilíbrio / desequilíbrio, ordem / desordem, organização / antiorganização, identidade / alteridade, estabilidade / instabilidade, causalidade / finalidade, entre tantas outras disjunções, que a tempo oportuno e consoante a pertinência, serão referidas neste trabalho. Na procura de uma reflexão sobre o conhecimento, o autor sublinhou a inevitável interligação das categorias clássicas de sujeito e objecto, que decorre do carácter necessariamente subjectivo do sistemismo, negando a pretensão ainda moderna, de identificação directa dos sistemas existentes na realidade, pretensamente independente do observador. A dicotomia sujeito/objecto, base fundamental do pensamento moderno, permitiu o avanço das ciências clássicas, na descrição, classificação e manipulação da natureza, mas demonstrou-se irrevogavelmente incapaz de persistir aos abalos suscitados pela descoberta, na microfísica e na macrofísica, da incontornável implicação do sujeito com o seu objecto de estudo; expressa pela convicção de que o método já não pode separar-se do seu objecto (Heisenberg Ap. Morin, 1997, p.11). A irrupção da desordem, ampliada a todos os domínios da realidade, a partir da constatação termodinâmica da entropia, como inerente a todas as actividades e transformações naturais e sua compatibilização com a complexidade dos sistemas vivos, através da teoria dos sistemas auto-eco-organizados, veio colocar em destaque, a partir dos anos 70, as relações de incerteza, para além do domínio microfísico, como já haviam sido identificadas pela mecânica quântica e fundadas por Heisenberg, no princípio do indeterminismo (1927). A natureza ordenada do paradigma moderno permitia a ideia de uma isenção ou eficaz eliminação do sujeito, através da clareza que os modelos mecanicistas atribuíam ao real, que se entregava sem reservas a um observador arguto, sem que ocorressem contaminações da subjectividade. A desordem insurgida no real levou a questionar as suas origens; seria característica do real ou prova concreta das limitações do espírito humano?
Efectivamente, enquanto a ordem é precisamente aquilo que elimina a incerteza, e portanto apaga o espírito humano (pois toda a certeza subjectiva se considera realidade objectiva), a desordem é precisamente aquilo que, num observador, faz surgir a incerteza, e a incerteza tende para fazer que o

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incerto se volte para si próprio e se interrogue (...) a partir daqui, a ausência de um ponto de vista objectivo faz surgir a presença de um ponto de vista subjectivo em toda a visão do mundo. (Morin, 1997, p.87)

A incerteza passa a assumir duas faces, uma imposta pelo real e ligada à evolução indeterminada dos sistemas complexos5, e uma outra ligada ao corte do real fenoménico, operado pelo observador, por limites que sendo impostos pelos objectivos do trabalho, implicam o olhar próprio daquele, que mais do que um observador é um conceptor da natureza. A partir da segunda sistémica, esta ausência de um ponto de vista único donde seja possível uma descrição ou observação do real, isenta da realidade subjectiva do observador, é claramente assumida, através da integração da reflexão sobre o próprio conhecimento, que se quer complexo, pela necessária adequação à complexidade da realidade fenoménica.
Há portanto sempre, na extracção, no isolamento, na definição dum sistema, alguma coisa de incerto ou de arbitrário: há sempre decisão e escolha, o que introduz no conceito de sistema a categoria do sujeito. O sujeito intervém na definição de sistema nos e pelos seus interesses, selecções e finalidades, quer dizer que traz ao conceito de sistema, através da sua sobredeterminação subjectiva, a sobredeterminação cultural, social e antropológica. (Morin, 1997, p.134)

Para além dos avanços que permitiram conceber a complexidade do real, o pensamento científico e com ele todas as áreas do conhecimento que o tomam por paradigma, viram-se obrigadas a complexificarem os seus métodos, revendo o papel da subjectividade na constituição da própria ciência, que desde o séc. XVII a assumia apenas, enquanto resíduo metafísico; integrando assim a própria auto-observação enquanto clarificadora dos aspectos sociais e culturais da própria ciência.

7. Georges Braque (1908) − Casas de L Estaque, o cubismo e a sua contestação da representação icónica convencional, geral da constituiu alteração em si uma expressão epistemológica

verificada no campo das ciências, assim como o reflexo do pensamento filosófico insurgido contra o positivismo, que havia dominado de forma marcante o séc.XIX. Á semelhança de outras paisagens cubistas persiste uma indistinção figurafundo e uma constituição do espaço por cada elemento figurado, em contraponto às representações do espaço como fundo ou cenário sobre o qual surgem em destaque as figuras, bem como a substituição do olhar unidimensional e fixo por um olhar que engloba vários ângulos do mesmo objecto.
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A abordar nos pontos 04.1.1 e 04.1.2, em que se expõem as características dos sistemas auto-eco-organizados e sua aplicação ao funcionamento ecossistémico da paisagem.

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03.2 O aparecimento da ecologia: o conceito de ecossistema − para além do reducionismo e do holismo sistémico

O legado deixado pelo desenvolvimento das ciências da natureza nos sécs. XVIII e XIX e particularmente os estudos de Humboldt, na área da geografia das plantas, permitiram salientar a interligação entre os parâmetros físicos do meio e as características fisionómicas das espécies botânicas, enquanto formas de adaptação, criando paisagens específicas, que por sua vez determinavam a distribuição da fauna e a ocupação humana. Humboldt e Bonpland (1805), na obra − Essai sur la géographie des plantes, procuravam estabelecer a ligação subjacente entre a morfologia das plantas e as características da paisagem, método de designar, entre a aparente diversidade, uma ordem espacial que postulasse a similitude formal patente em similares condições edafo-climáticas (Cf. Maltzahn, 1994, p.13). A contínua elaboração de conceitos na área da geografia botânica e a definição de causas para a distribuição das formações florísticas, durante todo o séc.XIX, levaria Warming (1909) à assunção da importância a dar às questões de adaptação, estrutura e classificação das comunidades, em detrimento do mero estudo sistemático, que até então dominava a geobotânica (Cf. Lévêque, 2002, p.36). Sob a influência das teorias evolucionistas, e a ênfase dada pelos naturalistas ao papel do ambiente abiótico na organização e dinâmica das comunidades, surge no séc.XIX, o termo ecologia, criado pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1866), através da conjunção dos termos gregos oikos ou casa e logos ou discurso, para designar (...) a ciência do conjunto das relações dos organismos entre si e com o mundo exterior. (Haeckel Ap. Lévêque, 2002,p.15). A formulação do conceito de ecossistema resultaria da síntese dos trabalhos efectuados no estudo das comunidades vegetais, mas sobretudo da ideia de unidade entre organismo-meio, que presente implicitamente nestes estudos, seria formalmente expressa por Haldane (1884) e Möbius (1886), enquanto base de estudo da ciência ecológica (Cf. Lévêque, 2002, p.40). Ao contrário da ideia darwiniana da espécie, enquanto unidade de sobrevivência, a ecologia progredia em direcção a uma visão sistémica, na qual o estudo da entidade deixa de ser pertinente, assumindo-se o sistema organismo-meio-ambiente, enquanto modelo de organização e objecto de estudo científico, através do conceito de ecossistema designado por Tansley (1935). Seria no período entre as duas guerras, que a emergência da nova ecologia, com base nas descobertas da termodinâmica, teoria da informação, teoria dos sistemas e teoria económica, se insurgiria contra ideia redutora de comunidade, que ao considerar apenas as componentes bióticas, imprimia ao meio físico-químico um papel secundário, que o termo

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holístico de ecossistema se propunha substituir (Cf. Lévêque, 2002, p.44). Apesar deste pretenso holismo, identificado por Capra (1996) como associado ao aparecimento da teoria dos sistemas e à viragem conceptual, cujo desenvolvimento levaria à teoria da complexidade, originariamente as abordagens da ecologia estariam, contudo marcadas pelas características das ciências físicas do séc.XIX. De facto, o conceito reflectia originalmente (...) uma teoria mecanista aplicada à natureza (...) , resultante da física moderna (Golley Ap. Lévêque, 2002, p.54), segundo um modelo que tomava a biosfera como máquina e os processos como mecanismos, que accionados pela energia solar utilizavam e operavam a degradação desta energia, segundo uma evolução dinâmica determinista, e logo passível de uma pretensa previsão dos fenómenos naturais. O reducionismo encontrava-se subjacente à metodologia aplicada, que examinava as relações organismo-ambiente uma a uma, analisando tanto quanto possível os detalhes distinguidos, no sentido de determinar as relações simples, das quais resultaria a compreensão e formulação das leis inerentes ao funcionamento do ecossistema enquanto todo. A evidência da necessária integração e transformação das partes na constituição organizacional do ecossistema, seria realçada pelas correntes holistas, nomeadamente através dos trabalhos dos irmãos Odum (Odum, E., 1953; Odum, H., 1957), que sob a influência da primeira sistémica e da importância do holismo nos modelos microfísicos da mecânica quântica, centraram os seus estudos nas propriedades emergentes do todo, inacessíveis exclusivamente através de uma abordagem analítica.
The tendency to study systems as an entity rather than as a conglomeration of parts is consistent with the tendency in contemporary science no longer to isolate phenomena in narrowly confined contexts, but rather to open interactions for examination and to examine larger and larger slices of nature. (Bertalanffy, 1968, p.7)

A explicitação da necessidade de um novo paradigma para fundamentar e desenvolver o holismo ecossistémico, permaneceria no entanto até à década de 90, sem uma abordagem metodológica, que permitisse o estudo da complexidade (Cf. Lévêque, 2002, p.73), persistindo o debate entre reducionistas e holistas, cuja resolução seria coetânea ao desenvolvimento da perspectiva transdisciplinar, que caracterizaria o estudo dos sistemas complexos. A complexidade descoberta como inerente às relações ecossistémicas, comprovaria a ineficácia do estudo individual dos processos, de cuja interacção passam a considerar-se, segundo Jorgensen (1992), os efeitos das transformações por acção de sinergias, de emergências e da existência de relações indirectas, em que a participação e interdependência de uma multiplicidade e diversidade de elementos, modelada pela coevolução, exigem um enfoque específico sobre as propriedades sistémicas, tidas ainda assim como inacessíveis a um conhecimento absoluto. O conceito de unidade complexa, seria avançado por Morin (1977), na obra O método, que constituiu a primeira abordagem simultaneamente científica e filosófica do conceito de complexidade, enquanto unitas multiplex, o que é tecido em conjunto no seio de uma unidade sistémica, que assegura a manutenção, organização e produção de diversidade (Cf. Morin, 1997, p.139). O ecossistema passa a poder ser concebido de acordo com a noção de

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sistema complexo, definido por Morin (1997) como (...) conceito-piloto resultante das interacções entre um observador-conceptor e o universo fenoménico; permite representar e conceber unidades complexas, constituídas por inter-relações organizacionais entre elementos, acções ou outras unidades complexas; a organização, que liga, mantém, forma e transforma o sistema, comporta os seus princípios, regras, imposições e efeitos próprios; o efeito mais notável é a constituição duma forma global retroagindo sobre as partes, e a produção de qualidades emergentes quer ao nível global, quer ao nível das partes (...) (Morin, 1997, p.142) Através desta definição, que constituiu uma abertura para o tema da complexidade sistémica, encontra-se subjacente a insuficiência, quer do reducionismo, quer do holismo, na aproximação ao problema, pois ambos efectuam uma redução às partes ou ao todo, respectivamente; já que (...) se as partes devem ser concebidas em relação ao todo, devem igualmente ser concebidas isoladamente (...) para [se] conhecer melhor, as imposições, inibições e transformações operadas pela organização do todo. (Morin, 1997, p.121) A condição de virtualidade a que podem estar sujeitas algumas das componentes de um sistema, devido às imposições da configuração sistémica global, podem impedir que sejam consideradas através das aproximações holísticas, por não serem dedutíveis do todo, isto é, visíveis ao nível médio do comportamento geral; mas as abordagens recentes em ecologia ao suporem a complexidade inerente à dinâmica evolutiva de um ecossistema, passariam a conceber a possibilidade de ocorrer o desbloqueio organizacional destas, assim como refere Jorgensen (1992):
The ecosystem contains within itself the possibilities of becoming something different, i.e., of adapting and evolving. The evolutionary potential is linked to the existence of microscopic freedom, represented by stochasticity and non-average behaviour, resulting from the diversity, complexity and variability of its components. (Jorgensen, 1992, p.27)

A complexidade inerente ao funcionamento ecossistémico, traduz-se igualmente como incerteza, não apenas intrínseca ao nosso conhecimento, mas enquanto componente fundamental do comportamento destes sistemas auto-eco-organizados, cuja abertura ao meio evidencia, como única possibilidade de aproximação teórica, os conceitos elaborados pela segunda sistémica, desenvolvidos a partir da termodinâmica não-linear do desequilíbrio, e sua acentuação da natureza, por vezes estocástica das interacções e a imprevisibilidade inerente aos seus efeitos. Ao nível integrador da paisagem, as abordagens que procuram demarcar-se da concepção estática de equilíbrio e da evolução determinística abrangem áreas como a ecologia − Jogersen (1992), Allen e Hoekstra (1992) e a ecologia da paisagem − Naveh e Lieberman ( 1994).

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04. A CONCEPÇÃO ECOSSISTÉMICA DA PAISAGEM − DO ECOSSISTEMA
PAISAGEM MULTIDIMENSIONAL

À

O conceito de ecossistema, que havia emergido, nos anos 30 permaneceu limitado pela sua natureza abstracta, a uma entidade funcional, que permitia conceber as relações entre as comunidades e o fragmento de biosfera em que se inseriam, mas em que o carácter espacial era simplificado, ainda quando considerado teoricamente, não só por não se abordar a interacção entre unidades ecossistémicas, mas pela dificuldade prática inerente à limitação de fronteiras, tão variáveis quanto os processos ou questões visados, que em si constituíam o amâgo do estudo. O enfoque desenvolvia-se portanto sobre a análise da estrutura e dinâmicas tróficas dos ecossistemas, enfatizando os ciclos de matéria e energia, e as interacções entre elementos orgânicos e inorgânicos existentes nos vários compartimentos bióticos ou abióticos considerados, numa análise que incidia no invisível, sem que o espaço em si fosse considerado enquanto paisagem, sem que houvesse, como referiu Blanc-Pamard (1982), um relato da história que o suporte espacial registava (Cf. Blanc-Pamard Ap. Lévêque, 2002, p.53). Seria através da constituição disciplinar da ecologia da paisagem, pelo biogeógrafo Troll (1939), que a ecologia seria integrada espacialmente, através da paisagem, definida como entidade espacial e visual, própria à espécie humana, que engloba a geosfera, a biosfera e o conjunto dos artefactos humanos (Cf. Léveque, 2002, p.197), mas o seu sentido seria posteriormente abreviado na sua relação com o indivíduo, à ideia de porção de território heterogéneo composto por conjuntos de ecossistemas em interacção e repetidos de forma similar no espaço (Cf. Forman; Godron, Ap. Lêveque, 2002, p.239). A abordagem de Forman e Godron (1986), concentrou-se na tangibilidade da paisagem, distinguindo uma composição estrutural comum a todas as paisagens, de que participariam os elementos − matriz ou fundo, marcas ou elementos pontuais e os corredores ou elementos lineares; cuja integração funcional se exprimiria segundo um parâmetro de conexão, característico da organização em sistemas complexos, traduzindo a intensidade e regularidade dos processos estabelecidos entre elementos (Cf. Lévêque, 2002, p. 241). Especificamente, a ecologia da paisagem considerou a dinâmica inerente à estrutura espacial, na sua relação com as interacções funcionais existentes entre elementos da paisagem, isto é aos fluxos de energia, materiais e organismos, verificados através dessa estrutura, reflectindo nas implicações dessa alteração dialógica na biodiversidade. Actualmente as abordagens da ecologia da paisagem consideram-na de uma forma geral, enquanto resultado de uma auto-organização, de que relevam propriedades novas em relação aos ecossistemas tidos isoladamente, ligadas à estrutura dos mosaicos de unidades

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ecológicas em interacção no espaço e no tempo, resultando numa heterogeneidade espacial, marcadamente afectada pela intervenção humana.
Landscapes are concrete systems in their own right with different scales, serving as the spatial matrix for organisms, populations and ecosystems. Ecosystems on the other hand are diffuse in space and intangible, functional systems. They can therefore not be regarded as a key set for larger-scale landscapes, and these are not just large-scale repeated patterns of ecosystems, as suggested by Forman and Godron (1986). Like all evolving systems, they organize themselves in a coherent way, maintaining their structural integrity, in a process of continuous self-renewal and self-regulation or autopoiesis . (Naveh, 1995, p.45)

À semelhança da regulação operada nos organismos vivos, a estabilidade foi considerada dependente de fenómenos de retroacção, e função da escala, pela existência de elementos de paisagem, que ao funcionarem como unidades organizadas, segundo uma hierarquia, implicam que o estudo dos elementos em cada nível necessite de abordar no mínimo, as ligações desse nível com os níveis imediatamente superior e inferior (Cf. Allen; Hoekstra, 1992, p.30). A estabilidade dos elementos no interior de uma unidade, não deve ser entendida enquanto constância, mas resulta de uma dinâmica organizadora, em que os níveis hierárquicos superiores operam um efeito estabilizador e os níveis inferiores, traduzem uma variabilidade espacial e funcional mais intensa (Cf. Allen; Hoekstra, 1992, p.31). Esta característica sistémica, que permite manter uma relativa constância formal nos níveis de organização superiores, através da reposição contínua dos elementos que os compõem, traduz uma propriedade constitutiva da auto-organização, o que levaria algumas correntes da ecologia da paisagem6 a abordarem directamente o seu objecto de estudo, enquanto sistema complexo, adoptando os conceitos da teoria das estruturas dissipativas na interpretação da paisagem.

8. Steenbergen (2000) - A paisagem de polders holandesa, que constitui um exemplo paradigmático da actuação da técnica como definidora e impositora da estabilidade as estrutural da possibilidades de um autoestado reduzindo particular paisagem,

organizadoras em função dos usos, fundados numa estrutura artificial de drenagem da água.

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Sobre este assunto vid. os trabalhos de Naveh e Lieberman (1994), Turner [et al.] (1987), Tress, B. e Tress, G., (2001).

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04.1 A paisagem como resultado de interacções entre sistemas autoeco-organizados
O que é que sempre é e nunca está em devir? O que é que sempre está em devir e nunca é? (Platão Ap. Baumer,1990 , p.11 )

Uma compreensão ecossistémica da paisagem baseia-se numa abordagem que procura interpretar as estruturas da paisagem, na sua relação com os padrões de organização que as geram. Estes padrões consistem em configurações mutáveis de relações existentes entre os componentes de um ecossistema e entre a multiplicidade de ecossistemas, que actuam numa determinada área do território, compreendendo aqui também o papel das actividades humanas, enquanto parte das interacções definidas, das quais resultam as características distintivas dos sistemas na sua inter-relação; de que decorrem propriedades emergentes em relação a uma hipotética situação de isolamento entre sistemas. As propriedades estruturais, que participam da morfologia da paisagem derivam assim da actuação do que Brossard e Wieber (1984), consideram os sub-sistemas produtores da paisagem visível, que concernem o objecto de estudo sectorial de várias disciplinas (geomorfologia, fitogeografia, hidrologia, etc.), mas sobre o qual se desenvolvem estudos integrados sobre eco- e geossistemas7, que procuram estabelecer a ligação entre estes sistemas produtores e o seu produto − a paisagem visível, através da sua interpretação enquanto constelação objectiva de signos ou índices, dos quais se infere a actuação dos processos sistémicos. (Cf. Brossard; Wieber, 1984, p.7)
Une paysage serait donc un groupement d objets visibles, reflétant(bien imparfaitement) une structure présent et (très incomplètement) des structures disparues, toutes ces structures représentant des états d équilibres successifs des systèmes qui les ont produits : le paysage est donc, même, un reflet au deuxième degré. L objectif est donc de lire le paysage parmi d autres documents, qui livrent eux-mêmes des indices (enquêtes, statistiques, mesures, cartes, etc.) : c est l ensemble de ces indices qui permet d accéder aux signifiés : si ont peut encore employer ce terme, c est-à-dire aux structures et aux systèmes. (Brunet, 1995, p.16)

A estrutura corresponde portanto ao resultado formal da actividade sistémica, mas o conhecimento das leis, que Piaget concebeu como regentes da transformação da estrutura ao longo do tempo (Cf. Piaget Ap. Magalhães, 2001, p. 320), implica não apenas a abordagem das propriedades formais ou visíveis, que compreendem a estrutura, mas recorre necessariamente aos conceitos, que desenvolvidos em diferentes áreas disciplinares, permitem avançar o funcionamento invisível8 dos sistemas, que é também gerador da paisagem.

A definição de geossistema parte da integração de vários ecossistemas, mas considera as actividades antrópicas, enquanto influentes na sua evolução, tratando-se portanto de uma abordagem à paisagem do ponto de vista ecossistémico. 8 A abordagem da natureza para além do alcance dos sentidos é uma aquisição das ciências a partir do final do séc. XVIII; sobre este assunto vid. Andresen (1992).

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Os elementos visíveis que constituem parte de determinado contexto ecológico podem resumir-se ao relevo, à natureza do solo, à água e à vegetação. Por outro lado, existem outros factores de ambiente que, embora não apresentem uma expressão espacial visível, influenciam os primeiros de forma determinante. Entre estes contam-se o subsolo, a fauna e o clima. (Magalhães, 2001, p.340)

Os sistemas enquanto construções conceptuais derivam a sua génese teórica de uma abordagem estrutural do seu objecto de estudo, isto é a partir da sua estrutura, compreendida no âmbito deste trabalho, na acepção dada por Capra (1996):
The structure of a system is the physical embodiment of its pattern of organization. Whereas the description of the pattern of organization involves an abstract mapping of relationships, the description of the structure involves describing the system s actual physical components − their shapes, chemical compositions, etc. (Capra, 1996, p.154)

No caso da paisagem a interacção dos factores de ambiente, visíveis e invisíveis determinam o que Magalhães (2001) define como estrutura ecológica da paisagem − a expressão espacial no território resultante (...) [das] complexas interacções entre os factores ecológicos, que dão origem ao todo global que poderíamos designar por paisagem natural. (Magalhães, 2001, p.340) O mesmo padrão organizacional, pode realizar-se fisicamente segundo diferentes configurações estruturais, gerando uma multiplicidade de paisagens particulares, como nos indica a experiência, que se verifica p.e. na variação existente ao nível das formas do relevo, em que ainda que se possa identificar um tipo descritivo, característico de um padrão de relações, processos e similitudes estruturais, p.e. relevo Cársico, não seria possível encontrar orografias idênticas; apenas a necessidade de classificação homogeneíza a singularidade de cada paisagem. Outro conceito fundamental, no entendimento da paisagem e salientado por Capra (1996) em relação aos sistemas complexos é o de processo, enquanto ligação fundamental entre os conceitos de padrão e estrutura, sendo através dos processos, que o padrão de organização se realiza na estrutura da paisagem. Esta concepção encontra-se implícita na abordagem de Forman e Godron (1986), já referida anteriormente, quando estabelecem como características da paisagem os conceitos de estrutura, função e mudança, que equivalem à tríade estrutura-padrão-processo adoptada pelas abordagens recentes em ecologia da paisagem9, segundo uma concepção sistémica. O conhecimento do padrão de organização resulta parcialmente da interpretação da sua tradução física, mas inclui também, como já vimos, o estudo de factores de ambiente invisíveis, mas que participam do funcionamento ecossistémico subjacente à paisagem. Aliás a implicação mútua e imbricada de vários processos na configuração espacial, dita que as leituras estruturais, encaradas sobretudo sobre o ponto de vista formal, se revelem insuficientes, pelo que o estudo dos processos que lhes deram origem seja fundamental; para uma compreensão profunda das implicações, que alterações dos parâmetros de ambiente, naturais ou induzidas pelo homem, têm na expressão física da paisagem. Esta reconstituição da actuação dos
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Sobre este assunto vid. os trabalhos de Naveh e Lieberman (1994), Turner [et al.] (1987), Tress, B.;Tress, G., (2001).

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sistemas retroage sobre a visão concreta da paisagem, sobre o nosso conhecimento das estruturas, pelo que se torna comum apelar a um conceito de paisagem que a considera indistintamente, enquanto resultado estrutural e enquanto sistema de sistemas; devido à interdependência constitutiva entre padrão-estrutura e processos, que lhe é íntrinseca e necessariamente se expressa na leitura ecossistémica da paisagem. O comportamento complexo, actualmente considerado como descritivo da dinâmica da paisagem, é resultado da actuação de vários sistemas e implica a existência de interacções não lineares, de carácter eminentemente local, entre uma diversidade e multiplicidade de componentes organizados sistemicamente. No entanto, a condição local destas interacções, permite ligações entre componentes distantes, assegurando fenómenos de modelação ao longo do percurso, o que seria impossível se a determinação das relações fosse realizada directamente, sem a intervenção de uma rede organizada de elementos comunicantes (Cf. Cilliers, 2000, p.3). É a existência desta organização em rede, que permite a recorrência ou existência de feedback, fundamental na correcção e ajuste da actividade dos sistemas em relação a flutuações externas ou internas, mas paradoxalmente o carácter local das interacções impede que exista um conhecimento global do estado do todo, ao nível de cada elemento particular. O seu comportamento é ditado pelas ligações locais e auto-organizado, no sentido em que apesar de resultado de actuações desta natureza, estas resultam num comportamento coerente e com uma finalidade − If each element knew what was happening to the system a whole, all of the complexity would have to be present in that element (...) [instead] complexity emerges as a result of the patterns of interaction between the elements. (Cilliers, 2000, p.3) Esta finalidade é no entanto mutável, não assimilável ao conceito determinista de equifinalidade. É este ponto que define a singularidade dos sistemas ditos auto-ecoorganizados, identificados actualmente com todos os sistemas vivos, em que se incluem os ecossistemas, as sociedades humanas, e as paisagens que pressupõem ambos, apresentando níveis de complexidade superiores à organísmica. É no sentido de esclarecer a dinâmica própria dos sistemas ditos complexos, que actuam na produção da paisagem, participando da sua identidade formal e funcional, que em seguida se incide sobre o conceito de auto-eco-organização.

04.1.1 Autopoiesis: a auto-eco-organização sistémica A capacidade inerente aos sistemas complexos de contínua renovação de si próprios, sob a acção das flutuações exteriores e interiores, mantendo uma identidade estrutural relativamente estável, constitui de facto uma dinâmica complementar entre as antinomias − identidade/alteridade e ser/devir, possível apenas por um comportamento, que assegurando a autonomia, reflecte no entanto uma dependência do exterior, daí a designação de sistemas auto-eco-organizados.

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O termo autopoiesis formulado por Maturana e Varela (1970), deriva da conjugação dos termos gregos auto, que se refere a autonomia e poiesis, que designa criação e renovação, tendo sido avançado, na sequência de estudos em neurociências, que procuravam estabelecer a relação entre a existência de vida e a auto-organização, inerente à produçãode-si e verificada como condição do fenómeno vivo, mesmo ao nível pré-biológico (Cf. Capra, 1996, p.97). Um sistema diz-se assim auto-organizado ou autopoiético, segundo Morin (1997) quando a sua constância ou identidade formal derivam da sua actividade organizativa permanente, na ausência de um determinismo por pré-programação interior, e de um determinismo exterior, o sistema anela sobre uma forma organizacional os processos irreversíveis, que de outra forma se manteriam apenas como anti-genésicos, condicionando o sistema a um estado inicial e único, caracterizado pela desordem. A anti-organização é definida pelo autor como ligada aos processos irreversíveis e activa, participa através da regulação do organismo, na produção de organização, isto é reorganização, que permite ao sistema a manutenção de estados estáveis, através da submissão dos desvios, manutenção das flutuações, dentro do limiar permitido pela organização, que define o presente estado. Esta regulação depende de um processo recorrente de feedback negativo, em que os efeitos últimos agem sobre os elementos iniciais, no sentido de modelar o seu curso causal previsível, através da anulação das variações.
A este nível a ideia de anel retroactivo confunde-se com a ideia de totalidade activa, articula num todo, ininterruptamente, elementos/acontecimentos, que, entregues a si desintegrariam este todo (...) o anelamento é, por isso, a constituição permanentemente duma, totalidade sistémica, cuja dupla e recíproca qualidade emergente é a produção do todo e (generatividade) e o reforço do todo pelo todo (regulação) (Morin, 1997, p.175) visto que mesmos, renovada todo pelo

Um sistema pressupõe então um multi-processo retroactivo, ou padrão organizacional, envolvendo vários anéis interligados, que permitem a regeneração dos seus constituintes sistémicos, necessária à contínua produção-de-si pela reorganização, opondo-se à alteração degeneradora da própria actividade, simultaneamente com carácter eversivo e entrópico, assim como às pertubações induzidas pelo exterior. É este padrão de organização, que sobressai da configuração de relações existente entre os componentes do sistema, que mantém as características distintivas do todo, em relação às contingências actuais, pela criação de uma ordem e determinismos internos, de que resultam o estado estacionário ou steady state, produzindo através da improbabilidade estatística geral (...) uma probabilidade de existência local e temporária . (Morin, 1997, p.178) Pela retroacção negativa as flutuações são, segundo Morin (1997), anuladas no sentido de permitir, uma morfostase através da reorganização permanente, de uma estabilidade global na instabilidade, através de um estado em si contraditório, impossível de definir através da inactividade e ausência de fluxos, que caracteriza a homogeneidade do equilíbrio termodinâmico, mas também irredutível ao domínio desordenado do desequilíbrio.

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Á complexificação da relação equilíbrio/desequilíbrio devemos juntar a complexificação da relação estabilidade/instabilidade. A ideia de estabilidade comporta já não só a manutenção dum estado definido, mas também a propriedade de retomar este estado após pequenas perturbações (...) assim o steady state nasce de uma instabilidade, mantém-se através das instabilidades, reconstitui incessantemente uma estabilidade global para lá da instabilidade. (Morin, 1997, p.179)

A retroactividade reguladora, que estabelece o estado estacionário, aparentemente similar ao conceito de homeostasia (homeo = igual; stasis = estado) formulado por Cannon (1932), a partir da evidência da constância formal e interna do organismo, diverge ainda da definição de Odum, que a traduz como (...) tendência que os sistemas biológicos têm para resistir à alteração e permanecer em estado de equilíbrio ; (Odum, 1997, p.51) pois ambas ignoram que, internamente, esta persistência morfológica, depende antes de um devir organizacional constante para evitar, exactamente, a deriva para o equilíbrio termodinâmico. Esta fuga às condições mais prováveis processa-se através da organização da abertura do sistema, mas tem por condição necessária, um influxo de energia de fraca entropia, no caso dos ecossistemas − a radiação solar, que não só mantém o sistema longe do equilíbrio, mas compensa directamente as produções de entropia, verificadas pela irreversibilidade geral da maioria dos processos ecológicos, assegurando a possibilidade de regeneração permanente dos componentes.
Ecosystems have a global attractor state, the thermodynamic equilibrium, but will never reach this state as long as they are not isolated but receive negentropy from outside to combat the decomposition of its compounds. As ecosystems have an energy through-flow, the attractor in nature becomes the steady state, were the formation of new biological compounds is in balance with the decomposition processes. (Jorgensen, 1992, p.136)

Mas este estado estacionário de não-equilíbrio definido por Onsager (1931), e associado por Bertalanffy à equifinalidade própria dos sistemas abertos, corresponde a condições de produção de entropia mínima, não compatíveis com uma actividade intensa e caracteriza-se por uma independência das condições iniciais, definindo uma evolução totalmente derivável e intemporal, identificada com um devir geral, controlável e previsível, como o determinismo das trajectórias da dinâmica clássica.
The theorem of minimum entropy production is strictly valid only in the neighbourhood of equilibrium and for many years great efforts were made to extend this theorem to systems farther form equilibrium ( ) it was shown that in systems far from equilibrium the thermodynamic behaviour could be quiet different − in fact, even directly opposite, that predicted by the theorem of minimum entropy. (Prigogine [et al.] Ap. Jorgensen, 1992, p.138)

A existência de um fluxo de radiação solar impele o ecossistema para longe do equilíbrio termodinâmico, pelo que o efeito da retroacção negativa é manter um dinamismo, que conduz a um estado estacionário atractor, mas este nunca chega a ser alcançado, pois existe uma mudança contínua de atractor, ainda que sob os efeitos de uma regulação − the ecosystem is moving toward a moving target and will therefore never reach it (...) the state variables and the steady state will steadily change. (Jorgensen, 1992, p.276)

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A estabilidade existe na dependência e centralidade do factor tempo; considera a variabilidade intrínseca às condicionantes externas e internas, que sujeitas a periodicidades, também comportam elementos aleatórios e conduzem o ecossistema a uma mudança contínua de estado atractor para outro, sem que o estado estacionário seja atingido. O conceito de resiliência, enquanto capacidade do ecossistema para retornar ao mesmo estado após perturbações, é actualmente considerado como capacidade de recuperação, que denota a flexibilidade do sistema, mas que não se expressa jamais através de uma repetição de estados, pela preponderância da diacronicidade nas evoluções, que caracterizam a complexidade − almost the same combination of external factors may give different steady states. The choice between two or more possible steady states is dependent on the short term history of the system. (Jorgensen, 1992, p.277) Neste sentido, tornam-se insuficientes com o comportamento ecossistémico as noções clássicas de resistência, resiliência e equifinalidade, quando se consideram os processos de desenvolvimento ou processos de sucessão descritivos da evolução em ecologia de ecossistemas. A sucessão ecológica conceptualizada como (...) processo ordenado de desenvolvimento da comunidade (...) razoavelmente dirigido e, portanto, previsível (...) [culminando] num ecossistema estabilizado (...) (Odum, 1997, p.403), de acordo com a equifinalidade, em detrimento de diferentes percursos históricos, numa comunidade final ou clímax, auto-perpetuável e em equilíbrio com o habitat físico, respondem a um paradigma de ordem clássico, determinista, incompatível com as evidências, que parecem descrever o comportamento de sistemas, que operam em condições longe do equilíbrio. É consensual actualmente, que não existe uma real imutabilidade; nem no estado presente, nem no decurso da evolução, se pode considerar a existência de um estado final de clímax único, (...) mas um padrão de diferentes clímaxes, que variam continuamente ao longo dos gradientes ambientais (...) (Sérgio, 2004, p.70). Foi possível deduzir até aqui, uma auto-organização dos ecossistemas a partir de processos de regulação e retroacção negativa, mas estes descrevem apenas uma manutenção de uma tendência geral de evolução, que apesar de conter intrinsecamente flutuações que transformam o sistema, mantêm um mesmo nível organizativo, sem o corromperem, não permitindo a concepção da evolução criativa e aberta, que caracteriza a imprevisibilidade do comportamento complexo. À falibilidade da ideia de estado estacionário, sugeriu-se a complexificação da noção de estabilidade, que implica uma alteração contínua de estado atractor, sem uma deriva determinada para este; mas urge agora a incursão nas possibilidades das instabilidades, enquanto re-criadoras de novos estados de organização e de complexificação dos ecossistemas e das paisagens, que sugerem antes uma ideia de discontinuous stability (Jorgensen, 1992, p.275).

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04.1.2 Estruturas dissipativas: a morfogénese aberta e bifurcante
As estruturas dissipativas que caracterizam o funcionamento termodinâmico dos sistemas complexos, associam-se a uma evolução em condições longe do equilíbrio, marcada por uma estabilidade descontínua, que permite fenómenos morfogenéticos a partir de um limiar de instabilidade, atingido por uma forma de regulação particular − a retroacção positiva, a partir da qual podem emergir novas direcções evolutivas para o sistema. A retroacção positiva instala-se pela desintegração dos fenómenos reguladores, alimenta-se a si própria, através da acentuação dos desvios e das perturbações, desencadeia e propaga estes elementos de desorganização, estabelecendo uma tendência ou deriva para uma complexidade potencial e insurgente. Ao fomentar as instabilidades este tipo de retroacção posiciona e mobiliza o sistema para a morfogénese, através da generalização das flutuações locais ao todo sistémico, permitindo a multiplicação das vias de desenvolvimento organizacional. Neste ponto podemos já associar as retroacções positivas ao comportamento das estruturas dissipativas, que à semelhança das células de Bénard, atravessadas por fluxos ininterruptos, se definem pelo estabelecimento de novos estados de organização, associados a configurações estruturais, dependentes da gestação no seio das instabilidades. A instabilidade do percurso evolutivo geral para um determinado atractor, estabelecida através da amplificação das flutuações em pontos longe do equilíbrio, determina o cessar da tendência para o nivelamento das diferenças inerente às regulações, e implica uma passagem abrupta de estado atractor para outro, impondo a ideia de uma discontinuous stability (Jorgensen, 1992, p.275), característica da não-linearidade própria de sistemas complexos, como é o caso dos ecossistemas.
Linear chains of cause and effect exist very rarely in ecosystems. Thus a disturbance will not be limited to a single effect but is likely to spread out in ever-widening patterns. It may even be amplified by interdependent feedback loops, which may completely obscure the original source of the disturbance. (Capra, 1996, p.290)

Os instantes temporais que antecedem estes saltos descontínuos, para a realização de um dos múltiplos estados atractores possíveis, denominam-se de pontos de bifurcação, sendo que o estado singular provento da sequência de instabilidades é definido temporalmente, porque apenas inteligível de uma forma (...) histórica ou genética: é preciso descrever o caminho que constitui o passado do sistema, enumerar as bifurcações atravessadas, a sucessão das flutuações que decidiram da história real entre todas as histórias possíveis. (Prigogine; Stengers, 1986, p.235) O carácter bifurcante destes estados longe do equilíbrio, característicos de sistemas estruturalmente instáveis, isto é com capacidade evolutiva, são indicativos de um comportamento não-linear, imprevisível na sua dependência diacrónica de estados prévios do sistema, como pela susceptibilidade às condições aleatórias do ambiente, cujo papel no seguimento ou curso do sistema pode ser decisivo nestas situações. A imprevisibilidade do

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processo evolutivo dos ecossistemas, na dependência destes pontos de instabilidade, devese à criação ininterrupta, em cada cadeia de retroacção positiva, de uma finalidade e um comportamento específico, claramente temporais, que excluem a possibilidade de definir uma lei geral, que permita a partir do instante presente, deduzir as consequências de determinadas causas no estado futuro, da situação concreta em análise. O conceito de ordem por flutuações , implícito na teoria das estruturas dissipativas de Prigogine enfatiza a importância, que os desvios aparentemente insignificantes, podem tomar no curso evolutivo do sistema, em pontos de instabilidade acentuados por retroacções positivas. Estes estados caracterizam-se por uma elevada conexão entre elementos, que ao invés de proporcionar o nivelamento das tendências individuais, constitui pelo contrário, a oportunidade para a sua expressão, pois (...) o desvio em relação à lei geral é total (...) podem aparecer correlações entre acontecimentos normalmente independentes (...) [dado que o] sistema no ponto de bifurcação se comporta como um todo (...) os acontecimentos locais repercutem-se, portanto, através de todo o sistema (...) as pequenas diferenças, longe de se anularem, se sucedem e propagam sem cessar. (Prigogine; Stengers, 1986, p.247) Os feedbacks positivos ao conduzirem os sistemas para limiares de instabilidade, permitem atribuir aos desvios, um papel gerador de novas estruturas e estados de organização, evidenciando a sensibilidade dos estados de não equilíbrio não apenas às flutuações engendradas pela sua actividade interna, mas também às dos fluxos que os constituem, do meio no qual estão mergulhados, [confirmando] a ideia de que a estrutura dissipativa constitui de facto a tradução singular dos fluxos que a nutrem. (Prigogine; Stengers, 1986, p.251) À sequência das instabilidades própria da morfogénese sucede a estabilização através da regulação ou retroacção negativa (Cf. Morin, 1997, p. 209), que permite que a finalidade emergente, definida pelo novo estado atractor, se constitua e integre numa forma de organização, que gerada a partir das instabilidades temporais, se traduz numa estrutura mais adequada às novas condições. O papel dos feedbacks é apenas o de estabilizar ou fomentar instabilidades, quando a regulação é suficiente no caso dos primeiros, ou quando pelo contrário a estabilidade face às variações internas ou externas exige e torna necessária, a evolução do sistema para estados de menor entropia e logo a passagem obrigatória por uma fase de instabilidades, para que tal objectivo seja alcançável. Ainda que os feedbacks positivos sejam pré-condição de morfogénese por fomentarem as instabilidades, que necessariamente a precedem, não são condições únicas; novas configurações estruturais exigem ainda o comportamento não-linear nos pontos de bifurcação. Existe assim uma contínua metamorfose da finalidade interna através das bifurcações, que permitem a emergência de novos estados atractores para o sistema, posteriormente fixados pela regulação, durante tempo indeterminado.

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O progresso consiste em integrar a finalidade na causalidade interior, que procede da geração-de-si, e conceber esta causalidade generativa interior − a endocausalidade, na sua relação complexa com a exocausalidade. Daí em diante, não há resolução de um conflito entre finalidade e determinismo clássico, há a manutenção necessária dum conflito no seio duma relação complexa, ou seja complementar, concorrente e antagónica, entre endo e exocausalidade. (Morin, 1997, p. 248)

A evolução aberta e indeterminada, procede exactamente desta integração entre retroacções positivas e negativas, entre uma causalidade externa, que mantém o sistema em estados longe do equilíbrio e lhe permite auto-organizar-se, no sentido de uma contínua insurgência de novas endo-causalidades, que combinam uma contraditória dialéctica entre dependência/autonomia do sistema, derivada da sua relação de abertura ao meio. À causalidade linear do determinismo, a dinâmica dos sistemas complexos evidencia, desta forma, o metaconceito de endo-exocausalidade (Maruyama Ap. Morin, 1997, p.248), que inerente à auto-eco-organização, consiste exactamente numa causalidade complexa gerada na relação do sistema aberto e os determinismos e aleatoriedades do meio, que o coproduz, mas que este também subjuga e modela. A auto-organização pressupõe uma reacção organizadora em relação à causalidade externa, através da criação contínua de uma causalidade interna, um determinismo ou finalidade próprios do sistema, inerentes ao jogo entre retroacções negativas e positivas, permitindo uma adaptação ao meio ou sua transformação, pela actividade reorganizadora e criativa do sistema; (...) a inovação é certamente seleccionada, mas por um meio que ela contribui para criar (...) a sua lógica não é pura e simplesmente a das exigências do meio. (Prigogine; Stengers, 1986, p.258) A singularidade do comportamento intrínseco aos sistemas complexos, é a dialógica entre retroacções negativas, com a necessária e activa exploração das estabilidades, que o meio proporciona, evidenciando um devir geral, que adia a evolução para a desordem dos estados de equilíbrio ou estacionários próximos dele; e as retroacções negativas que usufruem das instabilidades e permitem a insurgência, nas bifurcações, de acasos individuais, que tomam o lugar dos estados médios anteriores, instalando-se como novo regime de funcionamento. Existe portanto uma aliança, na designada ordem por flutuações, entre o determinismo das leis médias, que opera entre zonas de bifurcação e a indeterminação própria dos pontos de instabilidade, (...) entre acaso e necessidade, entre inovação provocadora e [mera] resposta do sistema (...) entre estados do sistema onde toda a iniciativa individual é votada à insignificância e a zonas de bifurcação, onde um indivíduo, uma ideia ou um comportamento novo podem perturbar o estado médio (...) utilizar em seu proveito as relações não-lineares que asseguravam a estabilidade do antigo estado médio (...) [e] determinar a destruição dessa ordem, a aparição para além de uma outra bifurcação, de um outro regime de funcionamento. (Prigogine; Stengers, 1986, p.264) Existe portanto ao nível dos sistemas auto-eco-organizados um desafio à integração complexa dos conceitos de determinismo e indeterminismo, entre a natureza descrita pelo pensamento científico moderno, estática e previsível e a natureza aberta para uma evolução improvável, mas possível, no âmbito das condições singulares que os estados longe do equilíbrio permitem; convocando um olhar sobre o mundo material, que lhe associa características

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como a criatividade, historicidade e liberdade, para além da universalidade das leis; propriedades antes exclusivamente concebidas como reservadas ao domínio humano. A indeterminação própria do tempo bifurcante das evoluções por instabilidade e amplificação das flutuações, exige que no campo das ciências naturais, se considere uma aproximação histórica ao estudo dos sistemas complexos, como os ecossistemas e implicitamente as paisagens, pelo facto destes reterem o registo das perturbações, que marcaram o seu devir; e estas poderem, em qualquer ponto de instabilidade, determinar o percurso evolutivo. A amplitude desta alteração pós-moderna do objecto de estudo das ciências da natureza, apresenta consequências metodológicas derivadas das limitações, actualmente conhecidas, como intrínsecas à descrição sincrónica de um estado do sistema, ou seja, apenas a partir das condições particulares do instante em análise, e do conhecimento das vicissitudes funcionais ou leis, que presidiram à sua evolução. Existe uma aleatoriedade que é íntrinseca ao real, uma desordem objectiva, que não deriva directamente da existência de limites para o conhecimento científico, mas que se identifica com a própria natureza dos fenómenos complexos. A abordagem aos ecossistemas ou às paisagens exige assim, como o estudo de qualquer sistema complexo, num determinado instante de intervenção, um enquadramento ou reconstrução histórica da sua evolução, uma narratività ambientale (Caravaggi, 2002, p.63) ou antes uma hermenêutica10 da paisagem, porque dependente do acto de traduzir e interpretar a sua transmutação no tempo. A dialógica, as dialécticas endo-exocausais têm um carácter aleatório. Isto significa que a causalidade complexa comporta um princípio de incerteza: nem o passado nem o futuro podem ser inferidos directamente do presente. (Maruyama Ap. Morin, 1997, p.250) A complexidade da paisagem, encontra-se portanto directamente relacionada com o problema crucial das escalas11, não apenas temporais, de acordo com a ideia de causalidade complexa, mas também, pela já assumida interligação entre processos correspondentes a diferentes escalas espaciais, que são igualmente susceptíveis de interagir (Cf. Levêque, 2002, p.242). O estudo de uma paisagem particular, implica geralmente um prévio estabelecimento de limites de intervenção, que por serem geralmente

Termo derivado do étimo grego hermeneuein, que significa traduzir ou interpretar e que é usado desde a antiguidade para designar os métodos de interpretação de textos. O primeiro grande pensador a propor uma teoria geral da interpretação foi Friedrich Schleiermacher (1768-1834), no contexto de emergência da linguagem no quadro do pensamento filosófico do séc. XIX., abordando a interpretação enquanto reconstrução imaginativa. De facto, segundo Magalhães (2002), desde Kant que o acesso ao real passa a ser considerado não como directo, mas nascente na interpretação, postura filosófica assumida e extremada pelo perspectivismo de Nietzsche, que destituiu o conceito de objectividade pela existência real apenas de interpretações. A hermenêutica tornou-se, pois o espaço onde a filosofia concentra a necessidade de estabelecer um sistema justificativo da significação, ou seja, uma teoria que assegure a possibilidade da compreensão, problema que transcende a própria hermenêutica. (Magalhães, 2002, p.13) O termo hermenêutica seria assim apropriado no séc. XX pela fenomenologia, para designar uma teoria ontológica, que explora a existência e a capacidade humana para interpretar o mundo, enquanto objecto de uma compreensão primordial. Sobre esta acepção de hermenêutica vid. segunda parte do presente trabalho.
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As observações expostas neste ponto sobre a problemática das escalas espaciais e temporais baseiam-se na interpretação da teoria dos sistemas auto-eco-organizados e sua aplicação teórica à paisagem; para uma abordagem aprofundada da questão da escala em ecologia da paisagem vid.Turner [et al.] (1987).

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territoriais derivam de uma lógica, quase sempre baseada em imposições administrativas, negligenciando inúmeras vezes o funcionamento subjacente à paisagem, ao processar esse corte. A ligação total entre elementos, que caracteriza o modelo em rede dos sistemas complexos e a elevada conexão, nos ditos pontos de instabilidade determina, que fenómenos aparentemente irrelacionáveis do ponto de vista espacial possam concorrer, para uma determinada transformação. Os critérios que presidem a uma identificação de unidades de paisagem para actuação devem considerar portanto, as suas possíveis lógicas de funcionamento, no sentido de evitar a exclusão à partida de elementos e processos que concorrem para a situação em análise. A procura de uma delimitação, que se identifique estruturalmente o mais possível com o padrão funcional da paisagem observada e concebida, requer uma sensibilidade sistémica (...) arte aleatória e incerta, mas rica e complexa, como toda a arte, de conceber as interacções, interferências e encadeamentos polissistémicos. (Morin, 1997, p.135), da qual depende inevitavelmente a acuidade da intervenção. Os limites espaciais designados são também susceptíveis de variar, não apenas consoante os processos visados, mas também com as escalas de tempo consideradas como pertinentes, dado que, a constelação de elementos relacionados sistemicamente varia igualmente ao longo do tempo. Do ponto de vista temporal, a identificação dos pontos críticos ou de bifurcação, a partir dos quais se desencadearam alterações significativas na paisagem, é uma forma de a partir destes tentar isolar os factores em actuação nesses momentos, pressupondo a possibilidade de factores latentes sob a forma de marcas no sistema poderem ainda, pela sua actuação individual, desencadear efeitos inesperados por amplificação de retroacções positivas, para além de uma escala temporal à partida considerada previsível, a partir do momento presente tido como referência. A evolução dos sistemas sociais, pela acentuação das potencialidades da tecnologia vieram complexificar as relações existentes entre os nossos actos e os sistemas naturais, através da ampliação no tempo e no espaço das suas implicações, ocorrendo um crescendo dos efeitos perturbantes, para além das capacidades reguladoras ou auto-organizadoras dos ecossistemas, é natural que a possibilidade de cadeias de retroacções positivas longas sejam, cada vez mais, responsáveis por efeitos insuspeitos, que vêem adiadas as suas múltiplas e bifurcantes possíveis formas de expressão na paisagem.
Enquanto anteriormente os actos sociais partilhavam a mesma dimensão espácio-temporal das suas consequências, hoje em dia a intervenção tecnológica pode prolongar as consequências, no tempo e no espaço, muito para além do próprio acto através de nexos de causalidade cada vez mais complexos e opacos (...) a previsão das consequências da acção científica é necessariamente muito menos cientifica do que a acção científica em si mesma. (Santos, 2000, p.55)

Neste sentido, enquanto projectistas da paisagem, devemos assumir a incerteza inerente à sua dinâmica derivada do carácter bifurcante das evoluções por instabilidade, dependente do efeito diacrónico das perturbações, sabendo que (...) podemos e devemos construir

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cenários possíveis e improváveis para o passado e o futuro. (Morin, 1997, p.250) No caso da paisagem encontramos portanto duas formas de narrativa, que se imiscuem, e se pressupõem mutuamente − uma ambiental marcada pela incerteza inerente ao funcionamento complexo e outra cultural na interpretação de qual o significado a atribuir a determinados tractos de paisagem, que somos obrigados a reconstituir, também historicamente, as origens, os estados passados e qual o sentido que devem tomar a partir da presente intervenção. Em ambas as narrativas históricas, o sujeito implica-se no seu objecto a paisagem, pelos objectivos prévios, que presidem ao nosso olhar, pela selecção dos vestígios, pelas ligações que estabelecemos entre os factos, pelo enquadramento num discurso; com a imaginação e a curiosidade que nos fazem colocar determinadas interrogações, que são irrevogavelmente proventas da nossa subjectividade, enquanto indivíduos situados num determinado contexto social, cultural e histórico. A procura de cenários para o passado e para o futuro constitui não uma descoberta passiva de percursos claramente definidos e consensuais, mas construções que vivem da relação entre a concretude dos factos e a nossa interpretação e capacidade de insinuação de mundos possíveis; e é nesse sentido que (...) o imaginário tem tanta realidade como o material (...) todos esses vestígios, o historiador não os pode conscientemente apagar, não pode apagar nenhum deles. E é obrigado a insinuar a sua invenção, a sua parte de imaginação e de criação, no interior de um arquipélago. (Duby, 1989, p.38)

9. André Derain (1905)

L Estaque, A paisagem segundo o estilo fauvista, em que a exaltação da

cor na representação do espaço, expressa a procura de novos códigos para significar o real vivido pelo pintor na contemplação da natureza; insinuação de outros mundos possíveis, que as artes do séc. XX nos seus vários movimentos, procuraram abordar.

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04.2 A paisagem multidimensional: integração sistémica da bio-geonoosfera

A integração pós-moderna das ciências naturais e das ciências humanas, excede a superficialidade inerente à similitude de métodos que o positivismo determinou em pleno séc. XIX, mas relaciona-se antes com o paradigma da complexidade, nomeadamente com a ideia de auto-organização, que emprestou à natureza características similares às tidas, exclusivamente como humanas, durante séculos de história das ideias, sobre a influência cartesiana da dicotomia res extensa/res cogitans.
As características da auto-organização, do metabolismo e da auto-reprodução antes consideradas específicas dos seres vivos, são hoje atribuídas aos sistemas pré-celulares de moléculas. E quer num quer noutros reconhecem-se propriedades e comportamentos antes considerados específicos dos seres humanos e das relações sociais (...) Hoje é possível ir muito além da mecânica quântica. Enquanto esta introduziu a consciência no acto de conhecimento, nós temos hoje de a introduzir no próprio objecto de conhecimento, sabendo que, com isso, a distinção sujeito-objecto sofrerá uma transformação radical. (Santos, 1999, p.37)

A dialógica sujeito - objecto concebida de forma sistémica, exige a consideração dos sistemas socioculturais enquanto construtores de todas as formas de conhecimento, que são apenas projectos possíveis do real, resultado do encadeamento sistémico do objectosistema, provento de uma organização física, com o sujeito, tido como observadorconceptor, cuja identidade deriva de uma organização de ideias, inerente à sua realidade noosférica; assim sendo, (...) o observador também faz parte do sistema observado, e o sistema observado também faz parte do intelecto e da cultura do observador-sistema (...) cria-se uma nova totalidade sistémica que engloba um e outro (...) [de onde é] possível encontrar o metaponto de vista, que permita observar o conjunto constituído pelo observador e a sua observação. (Morin, 1997, p.137)
Neste sentido a noosfera está presente em toda a visão, concepção, transacção de cada sujeito humano com o mundo exterior, com os outros sujeitos, humanos, e enfim consigo próprio (...) é como que um meio, no sentido medidor do termo, que se interpõe entre nós e o mundo exterior para nos fazer comunicar com ele (...) do mesmo modo que as plantas produziram o oxigénio da atmosfera, agora indispensável à vida terrestre, assim as culturas humanas produziram símbolos, ideias, mitos (...) [que] criaram um universo onde os nossos espíritos habitam. (Morin, 1993, p.102)

A necessária compreensão da complexidade do mundo exige a acentuação da necessária integração sujeito-objecto, que no estudo da paisagem se modela de uma forma claramente mais óbvia, pela evidente componente cultural que lhe é intrínseca e que produz uma expressão concreta na matriz espacial. Desta forma as correntes holistas, da ecologia da paisagem, colocam-na na dependência da noosfera, considerando a integração dos sistemas sociais, enquanto componentes de um nível hierárquico superior − o ecossistema total humano, nível geo-bio-antropológico, considerado como unidade holística, acima do ecossistema tido na acepção comum da ecologia, que considera o homem, apenas

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enquanto factor externo, elidindo a construção inerente a qualquer forma de conhecimento da realidade Naveh (2000). O conceito de noosfera remete exactamente para essa realidade humana, que temos demasiadas vezes por objectiva e consensual, pelo esquecimento das raízes eminentemente subjectivas, que todas as ideias possuem, e que a linguagem, através dos códigos, e as regras da lógica atribuem uma ilusória universalidade; transparecendo, quer a ideia de um mundo real coincidente com a nossa concepção humana, quer a assunção de uma comunicação inter-subjectiva cabal e isenta de lacunas funcionais. A paisagem constitui para Naveh (2000), a expressão sistémica concreta do ecossistema total humano, originada pela co-evolução entre o homem e o seu ambiente, esta matriz compreendida entre as escalas do ecótopo à ecosfera, difere dos ecossistemas por depender de processos cognitivos de origem noosférica, o que lhe atribui uma natureza multidimensional; oposta à monodimensionalidade ecossistémica, que ao ostentar um funcionamento cingido apenas a fluxos de energia, matéria e informação de tipo biofísico, permite uma descrição exaustiva através de linguagens formais ou matemáticas.
As human beings we live not only in the three-dimensional Euclidean physical-geographical space of our land and water systems, but also in this conceptual space of noosphere (from the Greek noos = mind), namely the sphere of the human mind and consciousness. This is also the realm of our feelings, imagination and understanding, perception and conception ( ) it is our existential space. (Naveh, 1995, p.46)

De facto, a experiência humana de uma paisagem não é passível de se encerrar numa descrição quantitativa, por mais que esta possa conter cientificamente e de forma exaustiva a reprodução e formalização matemática dos processos nela ocorridos, ainda que juntamente com estes fossem considerados do ponto de vista fisiológico as faces sensorial e cognitiva, o registo das trocas electro-químicas do cérebro, inerentes à nossa experiência enquanto seres humanos; descrever uma paisagem exige outras formas de linguagem, que complementem as linguagens formais, em que se baseiam as disciplinas científicas. Apesar de o conceito de ecossistema constituir uma abstracção humana da realidade fenoménica, fazendo parte do domínio da noosfera, assim como o conceito de paisagem refere-se a fenómenos, que ainda que estejam sob a influência do homem, existiriam sob outras formas na sua ausência. Nesse sentido a paisagem, enquanto construção humana advém de uma relação cultural específica, que implica uma postura estética, uma impregnação de narrativas imaginárias e simbólicas, com uma criação de sentidos pessoais e únicos, ao contrário do ecossistema, ao qual consensualmente ninguém se oporia a uma descrição matemática, ou apenas com o auxílio de organigramas, exactamente por ser um conceito, que deriva apenas da cultura científica, ao contrário da paisagem; profundamente enraizada à nossa relação com os lugares que marcaram a nossa existência. De outra forma, como seria possível sentir a ausência de uma paisagem particular, de uma experiência passada e efémera, mas ainda assim latente, que se recorda por se totalizar na nossa identidade, acrescentando-se de cada vez que se erege, ainda que dela pareçam

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restar apenas imagens? Daí a insuficiência da racionalidade cognitivo-instrumental da ciência, que de facto constitui apenas uma fracção do que a noosfera, enquanto espaço singular da mente humana, consegue conter. Apesar de sob o ponto de vista teórico as abordagens recentes da ecologia da paisagem evidenciarem a consideração dos aspectos intangíveis da paisagem, sob o ponto de vista das aplicações concretas, verifica-se uma incidência reduzida ao espaço físico, sendo os aspectos culturais considerados apenas na acepção de artefactos; desprovidos de uma reflexão sobre o âmago que os originou.
Throughout their evolution, natural elements, such as soil, rocks, water, microbes, plants and animals of the geosphere and biosphere interact with human-made artifacts of the noosphere, such as terraces, roads, bridges and other human constructions. They have created closely interwoven natural and cultural patterns and processes. Cultural landscapes thus create a tangible bridge between human minds and nature. (Naveh, 2000, p.18)

A análise dos artefactos presente nesta concepção da ecologia da paisagem e ilustrada nesta citação é, de facto remetida para a sua origem noosférica, mas a consideração da paisagem cultural, reconduz unicamente para o carácter tangível da interacção humana com a paisagem, são os elementos construídos que interferem com os elementos naturais; elidindo portanto as componentes simbólicas como actuantes primeiras na modelação da paisagem, enquanto acontecimento interior, que se reflecte materialmente através das actuações humanas. Por não efectuarem intervenção e projecto e operarem sobretudo a uma escala de ordenamento do território, estas abordagens, apesar de mencionarem as componentes humanas, como inerentes ao carácter multidimensional da paisagem, consumam uma restrição na sua análise apenas à materialidade, focando o seu interesse sobre a forma como as interacções natureza - cultura se expressam sob a forma de marcas no território, enquanto usos do solo, condicionantes da sustentabilidade e biodiversidade; enfatizando sobretudo a necessidade de preservar os padrões e processos, que caracterizaram estados anteriores da co-evolução homem natureza, numa postura conservacionista. De facto, apesar de conceberem a complexidade funcional e estrutural, inerentes ao funcionamento ecossistémico da paisagem estas aproximações não se distanciam significativamente, da aplicação do modelo dos sistemas auto-eco-organizados efectuada pela ecologia, não reflectindo ainda um pensamento e aplicação metodológica, que conceba a complexidade da paisagem, segundo um metaponto de vista, incluindo-a também sob a forma de espaço vivido, resultado de uma inserção fenomenológica e existencial.

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10. Antony Gormley (1984) − Home

II

A ECO-ESTESIOLOGIA DA PAISAGEM COMO ESPAÇO-TEMPO VIVIDO

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01. A FENOMENOLOGIA COMO HERMENÊUTICA DO MUNDO
PARA UMA TEORIA PÓS-MODERNA DA PAISAGEM

CONTRIBUIÇÕES

01.1 A intencionalidade do corpo próprio: criação de sentido, enraizamento existencial e constituição metafórica

O sentimento estético oriundo da inserção do sujeito no mundo, em estado de empatia − pathos, ou condição de ligação à sua envolvência, derivado mais do corpo do que da alma, acentuada na origem grega da palavra − é a ascendência primeira do espaço existencial, baseado na estesia, não tanto na sua acepção de sentimento do belo, quanto de uma concessão de sentido esteada numa mundanidade ou inerência ao mundo, origem da sensorialidade e da sensibilidade, fontes primeiras de um sentido do espaço e da existência − faces indissociáveis de um percurso pela vida, que a fenomenologia, renovando a herança do método hermenêutico, procurou acometer, insurgindo-se face ao realismo científico como mimética plena e suficiente do real, como pela afirmação de um (...) sujeito [que] não se opõe ao mundo descrito, antes adere a ele: não é pois um conhecimento objectivo nem subjectivo, mas um conhecimento onde os dois aspectos se fundem numa atitude de profunda empatia. (Barbosa, 1995, p.177) Essa apreensão estética desde o interior de si e mediada na interioridade ao mundo, através do corpo é similar à relação vivida de entendimento do real adoptada pela postura artística; o esteta surge associado ao que considera a arte o valor empíreo da vida, mas esta palavra é uma derivação do étimo grego aisthesis, que descreveria primordialmente o que apreende pelos sentidos e que abarca portanto, não apenas o artista, mas a singularidade de abertura e enraízamento organísmico geral ao meio, estudada no âmbito da existência humana pela fenomenologia, que reflectiu sobre a proximidade da criação artística com a ideia de uma filosofia que acentuasse os desígnios da criação existencial, de que a arte não prescinde, mas que as ciências modernas preferiram desde a sua origem obliviar.
(...) a apreensão estética implica uma inserção empática do sujeito cognoscente no mundo a conhecer (...) o conhecimento estético nasce precisamente desse relacionamento vivenciado entre sujeito e objecto (...) aquilo que se pretende caracterizar aqui como apreensão estética do real ou como visão artística do mundo parece resumir-se essencialmente num peculiar modo de relacionamento gnosiológico entre o sujeito e o objecto. (Barbosa, 1995, p.169)

A fenomenologia como filosofia das essências procurou distanciar-se de uma teorização do real assente na passividade e exterioridade do sujeito em relação a este, tendo surgido através de Husserl (1913), na procura da forma como a consciência humana significa a realidade, como teoria do conhecimento não subordinada às ciências positivas,

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nomeadamente à psicologia experimental, que pensava poder considerar uma realidade de factos empíricos isolados do sujeito que os apreende, procedendo à naturalização da consciência , como redução das (...) vivências cognitivas a simples factos empíricos, espácio-temporalmente determinados, encerrados sobre si. (Paisana, 1992, p.39) A originalidade da fenomenologia residiu na afirmação da constituição da essência dos fenómenos através das vivências humanas, colocando a questão do sentido do mundo como fundado numa prévia abertura e aproximação do sujeito, reflectindo sobre a experiência das próprias coisas, enquanto constituição activa da realidade, ou seja de uma forma intencional; mas a fenomenologia transcendental de Husserl enfatizaria apenas (...) a estrutura intencional da consciência [que] não poderia ser dada através de um ponto de vista empírico, ela apenas é acessível à consciência reflexiva. (Paisana, 1992, p.44) O conceito de intencionalidade indiciava deste modo, no pensamento filosófico do início do séc. XX, o avivar da tendência crítica sobre o positivismo, já esboçada anteriormente pelo movimento fin-de-siécle (Baumer, 1990, p.129), incidindo na particularidade da relação humana de atribuição de sentido às experiências conscientes e reflectindo sobre a multiplicidade de formas de aproximação ao mundo passíveis de serem esboçadas, através da experiência fenoménica, que deveria ser considerada pela filosofia; entretecendo assim as narrativas especificamente humanas da realidade vivencial, eximidas da realidade enquanto objecto científico. Se os objectos da experiência podem considerar-se na percepção sobre um horizonte de modos possíveis, (...) mediante aparições parciais e mutáveis (...) que [o]s esboçam de um modo mais ou menos adequado, mas sem lhe[s] anular a transcendência (...) (Abbagnano, 2001, p.15), o objectivo desta fenomenologia transcendental seria encontrar os objectos intencionais, a significação objectiva ou idêntica, para além de multiplicidade de formas dadas de uma mesma coisa na experiência empírica do mundo vivido; mas este eidos ou essência não residiria (...) nem no exterior nem nas funções reais da consciência, mas apenas na consciência enquanto acto intencional. (Paisana, 1992, p.48)
Afirmar que a intencionalidade é a estrutura essencial da consciência significa que a consciência não é primeiro algo encerrado em si, para depois se abrir sobre aquilo de que é consciência, mas, pelo contrário, é afirmar que toda a consciência é consciência de alguma coisa, isto é, ser para a consciência é necessariamente visar algo (...) (Paisana, 1992, p.48)

A epoché fenomenológica mediaria o acesso aos objectos intencionais por um retorno às próprias coisas através de um esvaziamento das pré-existências cognitivas que determinam a realidade, sendo possível uma revelação do mundo enquanto fenómeno da consciência, alcançando o sujeito, a significação ou essência dos fenómenos, através de um conhecimento de carácter intuitivo, que concebia uma suspensão do mundo próprio, um desprendimento em relação ao lugar de enunciação subjectivo e ao contexto histórico e cultural do sujeito, para nele encontrar uma invariante da realidade, a distinção do que é essencial, para a estrutura dos fenómenos, tida como apodíctica ou verdadeira e universal (Cf. Depraz, 2001, p.25). Esta essência ou estrutura universal revelaria para Husserl, o

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carácter estruturante da consciência reflexiva e a singularidade da percepção enquanto forma de noesis ou apropriação dos objectos (Cf. Abbagnano, 2001, p.15), que configurava a mediação necessária entre um sujeito e o mundo por si dado à consciência, tida como fundamento original do sentido enquanto acesso aos invariantes das coisas, mas ainda assim dependente da forma como o mundo se manifestava através da experiência perceptiva; (...) rompant ainsi d un seul coup avec les traditions intellectualiste et empiriste, pour lesquelles la perception comme telle n existe pas puisqu elle se réduit à des sensations ou à un acte intellectuel de connaissance. (Barbaras, 2001, p.57) Se inicialmente a fenomenologia, através de Husserl, se debruçou sobre a explicitação da forma como a partir da corrente de vivências singulares, a consciência reflexiva consegue alcançar o sentido do noema ou conjunto dos predicados do objecto dados na experiência (Cf. Abbagnano, 2001, p.15), pretendendo através da concepção das invariantes legitimar a validade e universalidade da constituição subjectiva do mundo; a partir da obra de MerleauPonty o primado de uma consciência interiorizada no sujeito é desvalorizado em detrimento de uma experiência primordial do mundo, que assentaria na ligação fundamental entre o corpo e os fenómenos na percepção, sobre a qual se estabeleceriam posteriormente todas as formas de conhecimento reflexivo e intelectual. Esta inflexão operada na fenomenologia havia sido já iniciada pelo próprio Husserl na obra tardia −The crisis of the european sciences and transcendental phenomenology, na qual dando relevo ao carácter matricial da experiência vivida da realidade, como constituição de um mundo intersubjectivo através das práticas, acentuaria o aspecto social das vivências humanas, que a sua teoria inicial havia negligenciado, em favor da introspecção subjectiva: como forma de acesso ao sentido do mundo, inicialmente por si concebido, como meramente acessível pelo encerramento numa reflexão individual (Cf. Varela, F. [et al.], 1997, p.17). Este conhecimento originário do mundo seria desenvolvido ao longo de toda a obra de Merleau-Ponty como fundado a partir de uma indistinção entre o sujeito e o objecto, própria da experiência fenoménica, que implicaria uma inserção empática, o enraizamento no vivido e a experiência da corporeidade, como condições prévias constituintes da realidade, enquanto tecido de subjectividades, como contraponto a um sujeito cognescente totalmente determinado e determinante, do encerramento do real numa apreensão única da consciência reflexiva; pelo que, (...) o centro da filosofia não é mais uma subjetividade transcendental, autônoma, situada em todas as partes e em parte alguma (...) a reflexão só é verdadeiramente reflexão se não se arrebata para fora de si mesma (...) (Merleau-Ponty, 1999, p.97). A intencionalidade seria pelo filósofo definida na obra − A fenomenologia da percepção (1945), como afectada originalmente pela corporeidade e não reducente a um pensamento, a uma (...) intériorité, même dynamique (...) (Zielinski, 2002, p.116), que derivasse da suspensão do mundo e da situação singular que o sujeito e o mundo configuram mutuamente, ela releva precisamente a experiência vivida do real, sob a forma subjectiva de uma realidade situada ou existencial; decorre de uma apreensão própria e perspectiva do que o mundo é para si , em relação à qual se assume a transcendência do real em si , que

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necessariamente supera a unicidade de uma visão singular, temporal e por isso perpetuamente inacabada.
Dizendo que a intencionalidade não é um pensamento, queremos dizer que ela não se efectua na transparência de uma consciência, e que ela toma por adquirido todo o saber latente que o meu corpo tem de si mesmo. Apoiada na unidade pré-lógica do esquema corporal, a síntese perceptiva (...) parece fazer-se no próprio objecto, no mundo, e não neste ponto metafísico que é o sujeito pensante (...) (Merleau-Ponty, 1999, p.312).

Merleau-Ponty (1999) define uma existência primordial das coisas para o sujeito, não como representações intelectuais, mas enquanto referências em relação às quais as suas acções se projectam intencionalmente, essa constitui a razão da indissociabilidade entre a percepção de espaço e a percepção das coisas; existem espaços inscritos na estrutura do nosso corpo, que resultam da sua experiência como corpo fenomenal, forma primeira não de contacto com um espaço objectivo em que o sujeito se posiciona e desloca porque representa, mas de constituição de um espaço próprio ou espaço corporal, através da motricidade e da percepção, na necessária tarefa de orientação e apropriação 12 do mundo. A constituição das coisas, implica a sua inserção num mundo que o sujeito habita através do corpo próprio, como sistema de possibilidades de acção potenciais ou virtuais, (...) que é, assim, não uma massa de sensações efectivas, mas o corpo que é preciso ter para perceber um espectáculo dado. Tudo nos reenvia às relações orgânicas entre o sujeito e o espaço, a esse poder do sujeito sobre o seu mundo que é a origem do espaço. (MerleauPonty, 1999, p.338) Este poder sobre o meio, que permite derivar uma espacialidade de situação ou espaço-tempo vivido é resultado da unidade intersensorial e sensoriomotora, possível pela tradução dos sentidos uns nos outros, ou sinestesia, e do carácter eminentemente espacial de cada um, que contribui assim de forma própria para a síntese de um espaço único, enquanto quadro de referência da nossa existência a cada momento dado (Cf. Merleau-Ponty, 1999, p.299).
Si mon corps se découvre une spatialité de situation, c est parce qu il est pris ou enveloppé dans un seul mouvement intentionnel: c est l intentionnalité qui est première et peut donner au mouvement sa forme kinesthésique ( ) [elle] permet donc de penser l unité du corps avec la conscience: mon corps serait mouvement vers quelque chose. (Zielinski, 2002, p.53)

O esquema corporal é a constituição mesma desta unidade, entre a percepção sinestésica e a motricidade, como núcleo simbólico primeiro, (...) Logos du monde naturel, esthétique (...) (Merleau-Ponty, 1995, p.274), que precede a predicação e a significação intelectual e permite considerar (...) que o corpo enquanto tem condutas , é este estranho objecto que utiliza suas próprias partes como simbólica geral do mundo, e através do qual, por

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Conceito formulado primeiramente por K. Marx, que seria retomado posteriormente pela psicologia, segundo a acepção de processo especificamente humano esteado na intersubjectividade, envolvendo a reorganização e transformação das aprendizagens colectivas sob a alçada de significações, que tanto remetem para a um saber social acumulado, como para uma interiorização própria do sujeito (Doron, R.; Parot, F., 2001, p. 79) e que ocorre (...) no âmbito de interacções verbais e não verbais (...) [na sua] mediação accional e comunicativa (...) com os parâmetros do mundo físico e social. (Doron; Parot, 2001, p. 79).

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conseguinte, podemos frequentar este mundo, significação para ele. (Merleau-Ponty, 1999, p.290)

compreendê-lo

e encontrar uma

Le corps humain est symbolisme = non pas au sens superficiel = un terme représentatif d un autre. Perception et mouvement symbolisent. Et les sens entre eux. Pour l unité du corps. Expressif = par leur insertion dans un système d équivalences non conventionnel, dans la cohésion d un corps. Un il qui inspecte un paysage = interrogation et réponse. Mais est-ce plus q une métaphore ? Le symbolisme du langage peut-il éclairer le corps ? N est-il pas tout autre? Symbolisme d indivision, sens latent et symbolisme conventionnel, sens manifeste. (Merleau-Ponty, 1995, p.281)

A indissociabilidade das categorias de sujeito e de objecto assumiria na sua obra − Le visible et l invisible (1964) a sua expressão máxima, sendo que o que se pode dar aos outros enquanto corpo objectivo é em nós inseparável da sensibilidade, o corpo próprio não se esgota na objectividade da matéria sensível, mas pressupõe uma reversibilidade para com o mundo, que assim como é tangível para nós, retorna sob o mesmo toque ao nosso corpo, ecoa nele o reverso dos nossos gestos, por essa mesma simbólica, possível pela forma como permanecemos abertos numa relação de imanência ao mundo, a sermos tocados pela realidade enquanto corpo fenomenal ou aquele que se sente na sua mundanidade:
Nous disons donc que notre corps est un être à deux feuillets, d un côté chose parmi les choses et, par ailleurs, celui qui les voit et les touche; nous disons, parce que c est évident, qu il réunit en lui ces deux propriétés, et sa double appartenance à l ordre de l objet et à l ordre du sujet ( ) (MerleauPonty, 2004a, p.178)

Através deste simbolismo o corpo configura pré-reflexivamente um mundo visível circunscrito pelos nossos gestos e referencialidade segundo uma visibilidade secreta (Gil, 1996, p.30) − interiorização da natureza no corpo, tradução na nossa matéria sensível de uma expressão primeira do mundo, que o filósofo identifica com o sentido natural acessível pelo (...) Logos silencieux de la perception (...) (Merleau-Ponty, 1995, p. 274), como raiz de uma consciência de si e prova da nossa coexistência íntima com as coisas, que permite a emergência de uma natureza em nós, reverso da natureza exterior, através da síntese perceptiva, sempre espacializante e passível de ser percorrida num plano único (Gil, 1996, p.303) estabelecido pelo corpo e o mundo.
Cela veut dire que mon corps est fait de la même chair que le monde (c est un perçu), et que de plus cette chair de mon corps est participée par le monde, il la reflète, il empiète sur elle et elle empiète sur lui, ils sont dans rapport de transgression ou d enjambement − Ceci encore veut dire : mon corps n est pas seulement un perçu parmi les perçus, il est mesurant de tous, ( ) (Merleau-Ponty, 2004a, p.297)

O visível, na obra de Merleau-Ponty, diz da singularidade da apreensão estética como entrelaçamento do sujeito e objecto através da percepção, descrita por Gil (1996) enquanto constituição de um plano único (Gil, 1996, p.303), em que o sujeito existe pela sua imersão no objecto, deixando de fazer tento pensar o sentido como dado a uma consciência, que se defronta com um mundo de objectos: encontramos mais do que objectos, uma visibilidade de que fazemos parte, sem que haja indistinção entre nós e as coisas, pois somos assim

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como observados, observadores, tocados e tocantes e (...) les choses passent en nous aussi bien que nous dans les choses. (Merleau-Ponty, 2004a, p.162) A visibilidade de que fazemos parte, descrita enquanto conjugação de todos os visíveis, que são o acontecer das coisas e do mundo em todos os corpos-sujeitos constitui a experiência estética do mundo, que não se reduz em Merleau-Ponty (2004a) a algo somente inteligível, mas inicia-se na sensorialidade estruturada sob a forma de uma sensibilidade (Cf. Fonseca, 1990, p.38), que consiste no início da nascença do sentido e da inteligibilidade do mundo, assim dependentes da entrega a uma experiência primordial, que não é senão uma entrega estesiológica de um corpo-sujeito disponível para essa unificação num mesmo plano de si e do mundo:
(...) fazemos como se (...) deixássemos de nos colocar num ponto de vista conservando ao mesmo tempo a percepção cognitiva trivial, o olhar desprende-se de um lugar desligando-se do corpo próprio. Eu, espectador numa galeria de pintura, olhando um quadro (...) abandono o meu corpo situado nesse espaço objectivo: o meu olhar já não parte daqui, entra subitamente no espaço das formas e das cores do quadro. Perceber esteticamente é tecer um plano do olhar que prolonga o plano espacial das formas; e, porque o olhar já não depende do corpo, deixa de se submeter a um ponto de vista. Este plano único olhar-quadro resulta de uma transformação corporal (...) o olhar deixa de estar fixado no corpo, porque os próprios lugares do quadro se tornam lugares de visão (...) esse plano que une olhar e quadro mudou-se em corpo onde vidente e visto pertencem a uma única e múltipla visão. Já não vejo o quadro, participo na visão total (Merleau-Ponty) que o corpo-plano oferece. Já não há ponto de vista, porque já não há corpo (...) porque eu me torno cor, torno-me forma e movimento das formas e das cores; não as vejo, mas é a própria visibilidade delas que sou. (Gil, 1996, p.303)

Esta suspensão efémera do ponto de vista através da participação na visibilidade das coisas ou desenredar do mundo por uma impregnação corpo-mundo, que torna as coisas efectivamente visíveis na experiência estética, pressupõe uma disponibilidade para uma conexão sujeito-mundo ou sujeito-obra de arte, que não se confunde com a contemplação, enquanto forma de pensar ou meditar profundamente sobre algo, mas é antes uma entrega às coisas, que pode preceder o pensamento e a atitude natural 13 e actualiza em nós parte do que existe potencialmente acessível no que é fora de nós, mas que é nascente a cada olhar, a partir de uma abertura própria da experiência pré-consciente, que a fenomenologia de Merleau-Ponty procurou descrever e que segundo Gil (1996), se identifica com a percepção estética da obra de arte, enquanto (...) alargamento do espaço interior vivido (...) [em que] a inscrição visível das formas (...) ressoa mais profundamente ao nível do invisível (...) [e] obriga-me a descobrir possíveis insuspeitados em mim; acrescenta ao meu espaço interior outros lugares e outros tempos. (Gil, 1996, p.299) O espaço interior surge da configuração das emoções proventas indistintamente da simultaneidade dos estados de alma (Gil, 1994, p.10) e do desvelar do espaço ou paisagem exterior que os suscita ou assiste − é a ocorrência própria da metaphorá, étimo grego que expressa a passagem,
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Termo introduzido na fenomenologia por Husserl, derivado da preocupação filosófica de determinar qual a postura a tomar para aceder ao conhecimento apodíticamente verdadeiro do real, distinguindo a atitude dita natural como a adoptada ingenuamente na vivência mundana da realidade, fundamentalmente direccionada para o exterior, contrariamente à atitude fenomenológica ou transcendental a adoptar pelo filósofo (Cabral [et al.], 1991, p. 501), que (...) atende à realidade enquanto manifestada, ou seja, enquanto meramente significada, praticando a epoqué (...) (Cabral [et al.], 1991, p. 501), forma de introspecção que visa aceder à essência transcendental da realidade.

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comunicação ou transporte pela estesia do corpo de uma exterioridade, que deixa de se poder nomear como objectiva ou subjectiva, mas que emerge através da instituição ontológica do espaço, pela estesia do corpo; criação mesma de uma topologia ou referência interna de um lugar ambígeno, pois se gera no movimento relacional do corpo e da sua envolvência, que se transmuta em interioridade, sem que cesse de ser para além da apreensão humana. As metáforas14 constituem o devir da realidade através do corpo, a passagem entre a experiência sensorio-motora e inconsciente e os esquemas conceptuais que compõem o consciente cognitivo, mediada pelo simbolismo da corporeidade que esteia a ossatura de padrões presentes na cognição inconsciente (Cf. Lakoff, G.; Johnson, M., 1999, p. 102), sobre a qual se funda toda a arquitectura conceptual e o pensamento consciente, indiciando a razão não enquanto totalidade explicitadora do pensamento humano, mas parte segunda do processo revelando a sua indissociabilidade do corpo, porque estruturada na singularidade das relações inconscientes que este estabelece com a envolvente espacial, de forma que:
Subjective experiences and judgements correlate in our everday functioning with the sensoriomotor experiences so regularly that they become neurally linked. Primary metaphor is that activation of those neural connections, allowing sensoriomotor inference to structure the conceptualization of subjective experience. (Lakoff; Johnson, 1999, p. 555)

O invisível surge assim do entrosamento no visível do corpo e do mundo, tem um modo de aparecer, que depende da percepção e portanto do mundo sensível para que a sua virtualidade se desembacie e seja através de nós; é [assim] um invisível-sensível, embora seja do inteligível que se trata (...) situa-se entre o sensível e o inteligível, o que permitirá noções como sobreposição, entrelaçamento, articulação ou sistema de equivalências sensíveis (...) (Gil, 1996, p. 26), como se esta ambiguidade pretendesse exprimir a nossa condição humana restrita a uma apreensão do invisível pela única origem de tudo − a sensibilidade e a capacidade expressiva do corpo próprio simbolizar o mundo através da sua carne pela criação de um (...) Logos du monde naturel, esthétique (...) (Merleau-Ponty, 1995, p.274) ou sentido invisível, porque gerado ou actualizado a partir do mundo pelas dobras do corpo.
Comme la structure sensible ne peut être comprise que par sa relation au corps, à la chair, − la structure invisible ne peut être comprise que par sa relation au logos, à la parole − le sens invisible est la membrure de la parole − le monde de la perception empiète sur celui du mouvement ( ) De même le monde des idées empiète sur le langage qui inversement empiète sur les idées ( ) Certes, il faut penser pour parler mais penser dans le sens d être au monde ou à l Être vertical ( ) Les pensées sont la monnaie de cet être global − Des délimitations − à l intérieur de lui. (Merleau-Ponty, 2004a, p.273)

O invisível como uma visibilidade segunda sobre duas acepções: a da linguagem, como inteligibilidade do visível e por outro lado o contínuo desembaciar do invisível pela
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O papel das metáforas na constituição da paisagem pelo sujeito é abordado por vários autores vid. Berque (2000b), Berque(1985) e Cauquelin (2000), mas para um aprofundamento científico no âmbito das ciências cognitivas vid. Lakoff e Johnson (1999).

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descoberta de outras formas visíveis, de outras delimitações, mas ainda não baseadas na linguagem artificial, de exprimir o visível através do corpo do artista ou do corpo fenomenal em geral; o invisível enquanto latente no visível, como um mundo possível nunca expresso pelo meu corpo e que o artista gera através da expressão artística e se vive em mim pela experiência primordial ou estesiológica do mundo − (...) uma consciência inspirada está aberta a certos possíveis, que não são possíveis lógicos, mas potencialidades inscritas naquilo que pode ser chamado a natureza (...) cada mundo possível assinado pelo autor não seria assim apenas um mundo irreal inventado pela imaginação criadora mas, um mundo possível da natureza, um aspecto do real inexaurível que se quer actualizar na obra. (Dufrenne Ap. Barbosa, 1995, p.94). Ambas as expressões pela linguagem verbal e pela linguagem não-verbal das artes se geram através de um sentido primeiro através da expressividade do corpo e o que interessa reter é a fundação do inteligível no sensível, assim como a ideia de que não existem limitações, que por serem ditas objectivas alcancem plenamente os objectos, que totalizem numa só significação todo o sentido, que determinado fragmento do mundo pode conter.
Un certain rapport du visible et de l invisible, où l invisible n est pas seulement non - visible (ce qui a été vu ou sera vu et ne l est pas, ou ce qui est vu par autre que moi, non par moi), mais où son absence compte au monde (il est derrière le visible, visibilité imminente ou éminente ( ) où la lacune que marque sa place est un des points de passage du monde . C est ce négatif qui rend possible le monde vertical, l union d incompossibles, l être de transcendance, et l espace topologique et le temps de jointure et membrure, de dis-jonction et dè-membrement, − et le possible comme prétendant à l existence (dont passé et futur ne sont que expressions partielles) ( ) Mais cette unique possible que notre monde n est, dans son tissu même, pas fait d actualité ( ) (MerleauPonty, 2004a, p.277)

O pensamento é este estar no mundo delimitando da sua verticalidade ou transcendência conceitos, que fazem do invisível inicial uma actualização, que remete para o único possível que o mundo é, mas que como o autor refere, não é este mundo actual na sua transcendência, nem para um indivíduo singular, nem para na união dos visíveis actuais neste instante do mundo e que constituem a visibilidade de momento, mas consiste antes na union des incompossibles (Merleau-Ponty, 2004a, p.277), a actualização de toda a virtualidade do mundo de todos os percursos possíveis, que todas as coisas possíveis de existência, presentes, passadas e futuras, pudessem ter realizado ou possam vir a realizar − excesso ou transcendência que a humanidade apenas pode abarcar aos soluços. A causalidade impede-nos de conceber este sentido das coisas por excesso, que não pode ser encerrado numa significação, há sempre algo que escapa aos códigos e à linguagem dita por Merleau-Ponty como artificial é sempre a perda de um sublime15, que o (...) Logos
15 Conceito elaborado por Pseudolongino na obra − Tratado do sublime (Peri Hypsos), datada do séc. I ou II, enuncia uma categoria estética que define (...) o belo poético na sua genuína expressividade (...) [derivada da] capacidade originária de conceber pensamentos elevados, riqueza espiritual interior (...) (Cabral [et al.], 1991, p.1322); na acepção tomada neste trabalho identifica-se com a inflexão da teoria do sublime tomada a partir do séc. XVIII, em que a natureza era tida como motivadora de emoções que estão para além da limitação racional, o sentimento do sublime seria identificado por Kant como estese desmesurada, (...) reflecte os limites da nossa natureza sensível e fenoménica, da nossa inadequação ao infinito(...) (Cabral [et al.], 1991, p.1323), expressão de um carácter ilimitado que ao contrário do belo, experienciado por passiva contemplação

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du monde naturel, esthétique (...) (Merleau-Ponty, 1995, p. 274) concebe sem a consciência reflexiva, mas que ao passar para o pôr em forma da inteligibilidade se limita, ocorrendo assim uma passagem pelo mesmo corpo de uma experiência estética primeira, que é a do informe
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(Nabais, 2005, s.l.) e de uma experiência estética segunda − a da forma ou

Gestalt , que se apoia nesse excesso primeiro e resolve a disformidade, essa transcendência que pressinto, mas cuja magnitude não consigo conceptualizar em uma forma absoluta e que culmina num visível que expresso, mas esconde em si algo de invisível, que permanece transcendente − corresponde a um pôr dentro de limites, a uma demarcação da minha experiência do sublime a um passar para os códigos, sejam eles os da linguagem verbal ou os da expressão não-verbal das artes a experiência da informidade inicial do mundo.
Il faut supprimer la pensée causale qui est toujours: vue du monde du dehors, du pont de vue d un kosmotheoros avec, en anti-thèse, le mouvement de reprise réflexive antagoniste et inséparable ( ) ce qui remplace la pensée causale, c est l idée de la transcendance, c est-à-dire d un monde vu dans l inhérence à ce monde, grâce à elle, d une Intra ontologie, d un être englobant-engloblé, d un Être vertical( ) et ce qui remplace le mouvement réflexif( ) c est le pli ou creux d être ayant par principe un dehors, l architectonique des configurations. Il n y a plus − conscience, projections, en soi ou objet. Il y a des champs en intersection, dans un champ des champs où les subjectivités sont intégrées ( ) (Merleau-Ponty, 2004a, p.276)

Enquanto categoria do entendimento, a causalidade linear baseia-se na distinção de uma causa e de um efeito, institui uma simplificação, que pressupõe uma visão do tempo como linear e a capacidade de abstracção de um momento inicial a partir de um fluxo de acontecimentos, concebendo uma sequência lógica totalmente encerrada nesse intervalo de tempo, uma única possibilidade de existência ou significação a partir dessa causa inicial e genésica; a existir causalidade esta seria de alguma forma resultante do entrelaçar de uma série de linhas de tempo, de uma série de causas indestrinçáveis, de uma latência de passado e de futuro e de algures, como refere Merleau-Ponty (2004a), que originaria, face a este mundo único, enquanto matriz das nossas identidades, uma série de mundos possíveis parcialmente imprevisíveis em face da relação mesma de abertura existencial com esse mundo de que são proventos. Um mundo em si visto como positivo, porque fundado na cisão entre corpo e mundo e dado de uma vez por todas na revelação à consciência de uma essência única, nega a existência de uma autopoiesis de mundos possíveis em cada corposujeito e todos eles derivam de uma mesma verticalidade, determinam-se a partir dessa
é a experiência de um excesso, não redutível ao prazer da contemplação, mas que contém em si algo de terrível e de excessivo, pela incapacidade de ser contido ou representável na sua totalidade (Cabral [et al.], 1991, p.1321-1325). 16 Comunicação pessoal do autor (3 de Junho de 2005) em que foi feita a distinção entre a estética do informe, associada ao sublime kantiano, ao que é excessivo e ilimitado e a estética da forma associada ao belo. No presente trabalho associam-se as duas estéticas enquanto dois momentos da experiência situacional da paisagem.
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Termo derivado da Psicologia Gestalt, movimento iniciado na última década do séc. XIX, através dos estudos dirigidos individualmente por C. Ehrenfels e E. Husserl, acerca da forma como totalidade organizada ou Gestalt dada originariamente na percepção; esta era tida enquanto globalidade estruturada evidenciando o carácter activo do acto perceptivo e intelectual, distinto da passividade defendida pelo empirismo, que considerava as ideias como originadas pelo acaso da associação entre sensações. (Doron, R.; Parot, F., 2001, p.344)

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indeterminação, mas não são sobreponíveis ou ajustáveis a uma leitura única do mundo ou a uma essência finalizada:
Il y a préexistence du monde à notre perception ( ) [mais] la question de savoir si le monde est unique pour toutes les sujets perd toute le signification lorsqu on a admis l idéalité du monde ; demander si mon monde et celui d autrui sont le même numériquement ou spécifiquement ne veut plus rien dire, puisque comme structure intelligible, le monde est toujours par-delà mes pensées comme événements, mais aussi par-delà celles des autres, de sorte qu il n est pas divisé par la conaissance que nous en prenons, et pas non plus unique au sens où chacun de nous est unique ( ) (Merleau-Ponty, 2004a, p.71)

O invisível do mundo enquanto parte secreta inscrita no visível, permite pensar que (...) l essence à l état vivant et actif est toujours un certain pont de fuite (...) (Merleau-Ponty, 2004a, p.157), toda a concretude do mundo toda a visibilidade, toda a sensibilidade, de que participam todos os corpos fenomenais e todos os corpos sensíveis que não se sentem e também aqueles aos quais é negada a sensação do meio, possuem múltiplas faces de invisibilidade, apresentam uma virtualidade incessante, encerram um manancial de configurações possíveis, que qualquer esforço de descoberta de uma invariância, não é senão uma estrutura parcial, uma visibilidade que esconde uma armação invisível. Assim como os espaços derivados de cada um dos sentidos18 se fundem na percepção de um espaço único, sem que sejam no entanto sobreponíveis ou coincidentes (Cf. Merleau-Ponty, 1999, p.300), também os mundos ou espaços existenciais realizados em cada momento, a partir do mesmo mundo sensível dependem da corporeidade de cada um, mas formam com esta uma chair du monde (Cf. Merleau-Ponty, 2004a, p.297), uma actualização pela sensibilidade geral, um mosaico de experiências estéticas diferenciadas, tecido de infinitas interpretações ou citações do mundo pela estesia do corpo, que demonstram a incapacidade de actualização absoluta: existe um inacabamento do mundo em todas as existências, mas estas referem-se a um être brut , univers vertical ou charnel , que é em si único, mas que se define exactamente pela sua matrice polymorphe e inesgotável de experiências estéticas diferenciadas (Merleau-Ponty, 2004a, p.270). Se o existencialismo permitiu pensar a autenticidade do homem enquanto capacidade (...) de se arrancar a qualquer forma de aprisionamento numa essência (...) a existência do homem ( a ek-sistência = a transcendência, a capacidade de se arrancar aos códigos), está sempre para além de qualquer redução a uma essência. (Ferry, 1991, p. 238), a fenomenologia existencialista de Merleau-Ponty (2004a) matizaria antes a ideia de uma transcendência da própria natureza, incluindo o homem no seio desse Ser bruto, acentuando o seu carácter indeterminado, pela profundidade intrínseca do visível e o lugar da intersubjectividade e da comunicação com outrem, como participação da chair du monde : único modo de superar a nossa subjectividade ou confim, pela realização mais plena da visibilidade, através do imiscuir nas estremas do outro pelo olhar.
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Já na Fenomenologia da Percepção o autor aborda a questão de que todos os sentidos têm uma apreensão do espaço própria e é dessa forma legítimo considerar a existência de um espaço cromático, um espaço do tacto etc., mas o corpo próprio efectua uma síntese num espaço único, organização global dos vários dados estruturados por cada um dos sentidos.

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Le propre du visible, disions nous, est d être superficie d une profondeur inépuisable : c est ce qui fait qu il peut être ouvert à d autres visions que la nôtre. En se réalisant donc, elles accusent les limites de notre vision de fait, elles soulignent l illusion solipsiste qui est de croire que toute dépassement est dépassement par soi ( ) pour la première fois, par l autre corps, je vois que, dans son accouplement avec la chair du monde, le corps apporte plus qu il ne reçoit, ajoutant au monde que je vois le trésor nécessaire de ce qu il voit, lui. (Merleau-Ponty, 2004a, p.187)

A transcendência, definida na sua ligação com o anti-humanismo é antes entendida por Ferry (1991) como caracterizante de uma inclinação, já presente na tradição humanista, identificada com uma incapacidade de definir o homem na dependência causal das determinações, quer da natureza, quer da história e da intersubjectividade, ou seja de uma sujeição plena à dita atitude natural, sendo próprio do indivíduo essa mesma subtracção aos códigos ou uma (...) capacidade de se arrancar a qualquer forma de aprisionamento a uma essência (...) (Ferry, 1991, p. 238), que seria já no séc. XX, a partir da fenomenologia de Heidegger reafirmada, sob a influência da necessária atmosfera de suspeição deixada pela genealogia nietzscheana, cujo sujeito fragmentado pelas suas perspectivas do real, só poderia conceber a existência real de interpretações do mundo, enquanto tecido complexo das múltiplas realidades construídas por cada sujeito.
A nossa compreensão do mundo é por certo historicamente e simbolicamente instituída, quer dizer tomada numa certa abertura histórica (...) [mas] precisamente porque somos seres humanos, não [estamos] presos como espelhos a essa ordem (...) a que pertencemos: podemos arrancar-nos à atitude natural para nos interrogarmos sobre a significação dos códigos ou das ordens no interior das quais vivemos. (Legros Ap. Ferry, 1991, p.240)

A humanitas ou natureza humana, em Merleau-Ponty, não deve ser entendida enquanto o que distingue o homem como superior à natureza, aliás a natureza do homem é um pretexto ou forma de a alcançar − La nature comme l autre coté de l homme comme chair nullement comme matière (Merleau-Ponty, 2004a, p.322) − sincretismo de objecção à geralmente assumida acepção única da natureza, como algo existente fora do homem, uma natureza em si e à qual o homem se sobrepõe; a transcendência na fenomenologia do filósofo é um inacabamento do mundo, que se define pela liberdade como definidora da correlação corpomundo, que implica sempre uma indeterminação, um invisível que escapa à limitação da inteligibilidade humana ou às determinações permitidas pela linguagem enquanto sistema artificial, e acusa o estreitamento do papel da consciência na criação do mundo em nós.

11. Luciano Fabro (1986) − La doppia facia del cielo, criação que procura imiscuir os espaços do imaginário e do real através da proposição de situações que contrariam as limitações impostas pela racionalização, projecto de um mundo possível tornado corpóreo pela expressão artística.

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01.2 A complexidade da natureza como paisagem: estruturação ecológica e configuração existencial

Il est vrai qu un livre de géographie contient un large savoir scientifique sur les paysages, les fleuves, les mers, mais ce savoir ne m est accessible que sur la base d une expérience individuelle originale, plus fondamentale et plus absolue. Cette expérience nécessite un contact quotidien avec les paysages les fleuves et les mers. (Merleau-Ponty Ap. Sanguin, 1981, p.560)

A concepção de um mundo objectivo na pretensa ausência de uma configuração subjectiva desse mundo − esteada no colmatar de uma existência singular e urgida de uma relação ao meio − constituiu a exclusão legitimadora do modo de apropriação de uma natureza objectivável, mas em função das necessidades humanas e por assim dizer já imbuída de um olhar próprio, expressão manifesta da cultura ocidental do período moderno, cujas raízes filosóficas remontam, no entanto, ao aparecimento da metafísica na Grécia; herança que levaria a física e a filosofia modernas, enquanto verso e reverso de um mesmo modo de pensar, a determinar (...) une nature foncièrement stupide et dépourvue de creativité (...) por contraponto a uma visão de natureza pós-moderna essencialmente (...) sémiotique. Elle tend d elle même à déployer des schèmes d activité communicative et significative de plus en plus complexes. (Hoffmeyer Ap. Berque, 2000b, p.121), que não são passíveis de encerrar num reducionismo causal (Jung Ap. Pieri, 2005, p.69) centrado unicamente no desenredar científico de uma verdade subjacente à natureza, ignorante de si próprio como baseado numa actividade projectiva de uma cultura sobre este meio, genericamente legitimada na sua interpretação redutora (Jung Ap. Pieri, 2005, p.72), que é necessário exceder, no sentido de circunscrever a complexidade que caracteriza a vivência do mundo. A positividade da natureza assumida na acepção do pensamento moderno e a necessária objectivação dos organismos havia determinado a modelização do seu comportamento, segundo uma relação causal de estímulo-resposta, como se a existência de um mundo em si na sua unicidade determinasse a mecanicidade ou o acaso do devir organísmico, mas as pesquisas realizadas por Von Uexküll, nas primeiras décadas do séc. XX, viriam a considerar a configuração diferenciada do meio pelos organismos animais, introduzindo o conceito de subjectividade nos domínios da etologia e ecologia, em estreita relação com o conceito de nicho ecológico, como a estruturação do habitat físico em função das necessidades da espécie (C f . Gibson Ap. Maltzahn, 1994, p.53); esta interpretação considera a implícita imanência ou composição interior dos fragmentos do meio relevantes para o organismo, passíveis de utilização para a sua sobrevivência orientada pela percepção e acção − instrumentalização específica, que não corresponde senão a uma atribuição de sentido à envolvência, elaboração que esboça uma intencionalidade corporal,

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semelhante à que a fenomenologia conceptualizou, na tentativa de se aproximar da condição humana no mundo.
O primeiro ato filosófico seria então retornar ao mundo vivido aquém do mundo objectivo, já que é nele que poderemos compreender tanto o direito como os limites do mundo objectivo, restituir à coisa sua fisionomia concreta, aos organismos sua maneira própria de tratar o mundo, à subjetividade sua inerência histórica, reencontrar os fenômenos, a camada de experiência viva através da qual primeiramente o outro e as coisas nos são dados, o sistema Eu-Outro-as coisas no estado nascente, despertar a percepção e desfazer a astúcia pela qual ela se deixa esquecer enquanto fato e enquanto percepção, em benefício do objeto que nos entrega e da tradição racional que funda. (MerleauPonty, 1999, p.90)

O conceito de Umwelt surgiu através do biólogo Von Uexküll, tendo sido desenvolvido na sua obra − Teoria da significação (1942), para expressar a incapacidade da abstracção redutora de espaço homogéneo, cuja leitura pudesse ser monodimensional e ignara do sentido, que os organismos aí existentes pudessem atribuir-lhe, perante a multiplicidade de ambientes situacionais criados pelas relações ecológicas definidas, a partir de uma mesma extensão de território físico, com o intuito de resolução de problemas na sua adequação mútua com o meio: construção de uma situação em que o comportamento do organismo reconhece os condicionalismos e oportunidades do território, por referência ao seu corpo e cria um padrão ou programa de acção, adequado à sua sobrevivência e que por isso se pauta pela flexibilidade necessária, face às flutuações dos parâmetros ambientais. No que Uexküll definiu como situation circle , forma geratriz de atribuição de sentido a um estado do meio envolvente, em função da especificidade do organismo (Cf. Uexküll Ap. Maltzahn, 1994, p.49) em Merleau-Ponty é identificado como modelo plural de estar na natureza comum ao homem, que visa a configuração de uma situação espacial no mundo, espaço habitado porque definido no esforço de conhecimento do meio, definidor de uma natureza existencial, resultante de uma interiorização por determinação parcial da natureza em si inacessível ou indeterminável, no sentido em que é apropriada de formas diversas por outros corpos noutras situações e possui uma potencialidade para além das experiências sensíveis, que circunscrevemos enquanto indivíduos, na relação de abertura corponatureza.
Voilà en effet ce qu a symbolisé l émergence simultanée de l écologie et de la phénoménologie au XXe siècle. Celles-ci récusent le dualisme et questionnent même le substantialisme. Les êtres vivants − les humains comme les autres − n existent qu en relation, entre eux comme avec le monde physique. A la triple objectification moderne − celle du corps, celle des gens, celle de l environnement − tend à succéder la vision d entités relationnelles complexes, qu engendre l interaction perpétuelle des deux pôles désormais théoriques du sujet et de l objet. Ces entités relationnelles mettent en jeu à la fois la corporéité, les liens sociaux et les trophismes écologiques. (Berque [et al.], 1994, p.26)

O entendimento desta natureza eco-estesiológica (Umbelino, 2003, p. 713) em MerleauPonty definiu-se na procura da compassibilidade entre duas concepções de natureza veiculadas pela ontologia ocidental, procedendo na obra − La nature: notes de cours du collège de France (1956-1960) − à clarificação desta complementaridade, como dois momentos do relacionamento do homem com a envolvente natural, que derivam quer da necessidade de atribuir ao exterior uma previsibilidade fundamentadora da

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instrumentalização da natureza como objecto legal analisável, aquém das qualidades humanas e outra ligada por outro lado à sua condição existencial, sob a forma de ser do corpo estesiológico: (...) reassumindo a dicotomia para a revelar derivada de uma profundidade carnal ou entrelaçamento originário do qual não só participa já o animal no seu habitat, como também o corpo próprio, enquanto vive esse entrelaçamento como outro lado do seu saber. (Umbelino, 2003, p.716) De acordo com a sua fenomenologia existencialista, a nossa relação de abertura ao real, é dada sob a forma de uma natureza espacial (Cf. Merleau-Ponty, 1995, p.281), a espacialidade humana é antes uma espacialidade de situação, que depende da sensibilidade do corpo como modo estruturação do meio, a partir da qual as nossas propriedades singulares e a nossa existência ou história individual, participam na criação de um sentido irredutível ou impossível de ser captado totalmente através de uma representação objectiva; é portanto vivido sob a forma de paisagem, distinta das paisagens objectivas das ciências, mas irrevogavelmente, origem primordial destas. Como contraponto a esta compreensão originária, que define para nós um espaço expressivo ou existencial, estão os espaços intelectualizados, o espaço geométrico e isotrópico, em que o carácter dos corpos nele localizados em nada depende da sua espacialidade, definida unicamente por coordenadas relativas a um referencial absoluto − é por isso que os espaços vividos não se podem descrever matematicamente, não são assimiláveis ao espaço euclideano, nem ao conhecimento científico da paisagem, sob a forma de espaço geográfico, pois têm por referencial as vivências humanas ou outras, implicam uma diferenciação interna pelo sentido que se lhes atribui, a partir do qual a conceptualização se funda; esta deriva exactamente de uma compreensão primeira do mundo e por isso o (...) nosso corpo não é apenas um espaço expressivo entre todos os outros (...) ele é a origem de todos os outros, o próprio movimento de expressão, aquilo que projeta as significações no exterior dando-lhes um lugar, aquilo que faz com que elas comecem a existir como coisas, sob nossas mãos, sob nossos olhos. (Merleau-Ponty, 1999, p.202)
(...) théorie de la chair, du corps comme capable de sensation, et des choses comme impliquées en lui (...) l enroulement d un corps objet sur lui-même (...) n est pas un survol du monde par une conscience, c est mon corps comme interposé entre ce qui est devant moi et ce qui est derrière moi, mon corps debout devant les choses debout, en circuit avec les choses, avec les animaux, avec les autres corps (comme ayant un côté perceptif aussi compréhensible par cette théorie de la chair − Car la chair est ce qui peut être originairement présenté du ce qui n est pas présenté comme tel, visibilité de l invisible − l esthésiologie ( ) la figuration dans le visible de l invisible prise de conscience . (Merleau-Ponty, 1995, p.271)

Esta natureza expressa na teoria da carne, é ponto de origem incessante da interpretação e desenleamento do que somos a partir do que esta é em nós, constitui a reversibilidade identificada por Merleau-Ponty (2004a), e que se prende exactamente com a ligação entre o visível e o invisível, como indestrinçáveis um do outro; a partir do visível emerge o sentido que constitui o invisível do mundo que se actualiza em nós, pelo corpo como mediador simbólico, mas este visível permanece sobre um fundo inesgotável, remanescência virtual de um mundo, que se define sem se encerrar, assim como o homem permanece irredutível

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aos códigos, o real persevera sempre pregnante, para outras experiências para além da minha e impassível, para além do cercear do conhecimento científico.
(...) ela [ciência] manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Para si estabelece modelos internos das coisas e, operando sobre estes índices ou variáveis as transformações permitidas pela sua definição só se confrontam de quando em quando com o mundo actual (...) opção de tratar qualquer ser como objecto em geral , ao mesmo tempo como se não nos fosse nada e se encontrasse, no entanto, predestinado para os nossos artifícios. (Merleau-Ponty, 2004b, p.13)

A concepção de natureza como objecto reservado aos artifícios da tecnologia, fundada pela conceptualização do naturalismo moderno, principiou o devir da sua instrumentalização e a sua objectividade cedeu lugar a uma atribuição de sentido, sobretudo enquanto origem de proficuidades legitimada pela relação de exterioridade do sujeito em relação a este objecto natural, acentuando-se a dominância da ideia de manipulação em função de um uso, como única relação possível do homem face a esta natureza em si ; poiesis mediada pelo homem, a partir de uma natureza mecânica e sem desígnios, revelada pela física e sobre a qual incidiria uma segmentação, enquanto reserva de acções da sociedade moderna ocidental, culminar da expansão do corpo animal em direcção ao meio (Cf. Heidegger Ap. Malttzahn, 1994, p.42). As potencialidades do corpo individual na revelação ou poiesis do real, enquanto possibilidade de domínio espacial de uma circunstância, como demarcante de uma natureza espacializada e reserva de acção, tem em si imbricada uma expressão sua da sociedade e enquanto transformador da paisagem projecta sobre esta as marcas da sua percepção ou demarcação do meio, ela própria parcialmente determinada culturalmente, instituindo-se num corps médial (Berque, 2000b, p.98), exteriorização mesma do corpo sobre a paisagem através dos sistemas tecnológicos, explicitando a filosofia da carne merleau-pontiana, enquanto constituída exactamente pela relação centrada num mesmo lugar que é o do corpo, da natureza como paisagem e da própria sociedade, (...) la jointure entre corps animal et corps médial par [le] schéma corporel (...) (Berque, 2000b, p.188), gerado e reconstituído como manancial de práticas estruturantes de comportamento, proventas tanto de uma projecção do corpo sobre a paisagem pela técnica, quanto de uma introjecção ou incorporação desta no sistema de equivalências expressivas do corpo, predicação primeira do mundo e base da linguagem instituída.
12. Rebecca Horn (1970) − Measure box, a diferença entre as medidas do corpo e este enquanto medidor simbólico do mundo através da estese, contraponto entre o espaço ocupado pelo corpoobjecto e o espaço existencial provento desse corpo-fenomenal; movimento de exteriorização e interiorização simbólica que cria a paisagem experienciada e diz dessa relação entre o lugar físico e a experiência estesiológica, dada nas coisas mesmas através da percepção.

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Le paysage n est pas seulement une donnée , qui serait la forme objective du milieu. Il n est pas seulement, non plus une projection, qui serait le regard subjectif de l observateur. Le paysage, c est un aspect du rapport fondamental qui institue le sujet en tant que tel, dans son milieu en tant que tel. La réalité du milieu n étant ni simplement subjective, ni simplement objective, mais transcendant dynamiquement cette dichotomie, disons-la trajective. (Berque, 1985, p.100)

A trajection (Berque, 2000b, p.94) consiste precisamente no duplo movimento que caracteriza a existência humana e a criatividade a partir da qual os organismos no seu habitat para si representam um mundo subjectivo a partir do real, esquematização interior presente sob a forma de uma cognição anterior ao pensamento, que se gera pelo configurar pré-reflexivo e organizador das suas potencialidades de acção, postura genésica da tecnologia humana, como forma de projecção de si sobre um mundo acessível pela percepção e interiorizado ou transferido pela estese, segundo uma pluralidade de sentidos específicos, que derivam de escalas temporais diferenciadas; abrangentes não apenas da diacronicidade da experiência individual e do cruzamento entre indivíduos, mas também de uma narrativa da espécie-no-meio, que descreve as aprendizagens da sua evolução biológica, segundo trâmites ecológicos de co-adaptação, quer ao meio inerte como às espécies, configuração de uma paisagem que funda e a funda: aprendizagens que se encontram integradas no próprio organismo individual sob a forma de arquétipos ou sentidos previamente esboçados, que são intrínsecos a uma natureza-cultura e remetem para a anterioridade e profundidade do inconsciente colectivo19, permitindo conceber que (...) nous avons la métaphore d un schème comportamentel (étho-écológique) en un schème psychologique (esthétique). (Berque, 1985, p. 102)
Si le mot trajectivité conceptualise un état ou une propriété, il s agit donc aussi d un processus : la trajection. Ce terme exprime la conjonction dynamique, dans l espace-temps, de transferts matériels et immatériels: des transports (par la technique), comme des métaphores (par le symbole) ; et c est la convergence de tout cela vers un même foyer qui fait la réalité de la chose. Sa concrétude. (Berque, 2000b, p.94)

A paisagem surge através do oblívio da incompossibilidade das categorias − sujeito e objecto, natureza e cultura, mas também pelas synesthésies inconscientes (Berque, 1985, p.102) de escalas temporais, individuais e colectivas, no plano único do espaço-momento vivido, os limiares são assim ténues neste plano de latência, que precede a representação e constitui o nível (...) [de] la métaphore instituante du paysage − c est à dire de la réalité ( ) Cette métaphore combine, en les transforment réciproquement, souvenirs, anticipations et traitement perceptif des sensations directes. Elle intègre tout cela en une seule donné : le présent vécu à un moment t. (Berque, 1985, p.102)
19 Conceito elaborado por Jung (1919) (Roudinesco,E.; Plon, E., 2000, p.424), que remete para uma elaboração mais ampla da acepção de inconsciente, que deveria segundo o autor considerar não apenas as experiências vividas do sujeito em situação de inacessibilidade ao pensamento consciente, mas também a existência de um património psíquico colectivo que não teve passagem, ainda que temporária pela consciência, mas se obteve antes pela hereditariedade e que diversamente do inconsciente pessoal composto por complexos, acolhe antes arquétipos (Pieri, 2005, p.105). O termo arquétipo teria sido adaptado por Jung do pensamento filosófico de Platão (Pieri, 2005, p.105) para designar (...) formas típicas dos nossos modos de pensar e as inatas possibilidades de representação que presidem à nossa actividade imaginativa (...) os arquétipos precisamente por ordenarem a experiência, não implicam a hereditariedade da experiência (...) são, isso sim, as possibilidades herdadas das representações. Sendo factores que se afirmaram progressivamente com base nas experiências acumuladas na ascendência genealógica (...) (Pieri, 2005, p.106)

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A crítica do cientismo assume-se na fenomenologia de Merleau-Ponty como contraponto à renúncia das metáforas enquanto constitutivas de um mundo vivido e ao esquecimento da origem primordial de toda a arquitectura conceptual humana esteada num modo de conhecer inconsciente, primordial face à formulação científica da natureza, como se o sujeito dela e de si se pudesse apartar, imerso que se encontra nas suas tramas, pela relação entre o (...) Logos du monde naturel, esthétique (...) e o ( ) Logos du language ( ) (Merleau-Ponty, 1995, p.274); sendo que a paisagem não pode ser concebida apenas como objecto científico, exige um confronto com o que dela habitamos e dessa forma gerase uma indistinção entre os conceitos de paisagem e lugar, como espaço tempo-vivido pelo corpo na sua integridade, e por este circunscrito até ao horizonte existencial que actualizo. Nesse sentido, o ponto de vista absoluto, abstracto porque de todas as situações prefere a altivez do sobrevoo (Merleau-Ponty, 2004b, p.15), como forma de unificar num molde geral um conhecimento do modo de funcionar específico de tractos de uma paisagem geográfica, elide o que de si é intrinsecamente multiforme, porque base de uma experiência individual ainda que circunscrita no seio da sociedade, de quotidianos de concessão de sentido, constituindo o modo de dominar especificamente científico, que a fenomenologia procurou debelar, pela proventa ignorância de nós mesmos, enquanto lugar (...) du monde qui se pense (...) (Merleau-Ponty, 2004a, p.177). Se a paisagem enquanto objecto científico apela para o conhecimento da natureza exterior ao sujeito, como totalidade acessível em si , uma perspectiva fenomenológica da paisagem permite conceber esta não apenas como apreensão fenomenal, mas na necessária referência a uma realidade física aquém da mediação particular do corpo, como constituinte de uma paisagem simbólica pela expressividade corporal, mas não obliviando este, permitindo pensar essa estruturação mediada entre o meio e o organismo, proventa de uma relação exterior-interior resolvida não tanto como dualismo, mas enquanto constituição recíproca presente no movimento de indeterminação-determinação, que caracteriza os sistemas complexos; padrão similar ao que se processa na relação fenomenológica de um corpo disponível a se deixar atravessar pela paisagem, como forma de existir, de operar num meio que se interioriza, porque se compreende, não tanto como representação mimética, mas transcrição na nossa matéria do que existe de facto em ambas as faces do mundo, participação de uma visibilidade, pelo determinar do corpo estesiológico, ainda que a incompletude ou a indeterminação se mantenham. É esta leitura da paisagem como acontecimento anterior e interior, como hermenêutica do visível em nós, que se acrescenta apenas a partir dos outros, que nos doam parcialmente o nosso e o seu visível através do seu olhar ou das suas práticas, que é necessário circunscrever se pretendemos uma aproximação à complexidade da vivência de uma paisagem; esta permanece lacunar enquanto vivida e demarcada por uma subjectividade, em relação ao seu modo de existir dependente de outras subjectividades, para além das restrições da própria, o que na obra de Merleau-Ponty se identifica com o inacabamento do mundo, com a sua profundidade intrínseca, que não pode ser abarcada unicamente pela experiência individual −

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actualização possível ou exemplar de uma visibilidade mais geral, constituída por todas as subjectividades.
O mundo no sentido pleno da palavra não é um objeto, ele tem um invólucro de determinações objetivas, mas também fissuras, lacunas por onde as subjetividades nele se alojam, ou, antes, são as próprias subjetividades (...) a coisa e o mundo só existem vividos por mim ou por sujeitos tais como eu, já que eles são o encadeamento de nossas perspectivas, mas transcendem todas as perspectivas porque esse encadeamento é temporal e inacabado. Parece-me que o mundo se vive a si mesmo fora de mim, assim como as paisagens ausentes continuam a se viver para além de meu campo visual, e assim como outrora meu passado se viveu para aquém de meu presente. (Merleau-Ponty, 1999, p.447)

Essas lacunas são a determinação mesma de um (...) segundo espaço através do espaço visível é aquele que nossa maneira própria de projetar o mundo compõe a cada momento (...) (Merleau-Ponty, 1999, p.385) pela emergência de uma paisagem interior ou espaço existencial, que se nutre de uma paisagem concreta e exterior, acessível para além da minha percepção a outras percepções, que nela eventualmente actualizem aspectos que permaneceram para mim transcendentes, no horizonte espácio-temporal da minha experiência, e que em Merleau-Ponty (1999) surge mencionada como espaço geográfico ou mundo comum ; paisagens que fluem permanentemente uma na outra, constrói-se o espaço interior a partir da estruturação de fragmentos da paisagem exterior e esta dicotomia perde o seu sentido na medida em que o fluxo e a constituição mútua permitem desvelar sob uma outra luz a relação do invisível com o visível, que existe sempre no reverso da visibilidade merleau-pontiana. O espaço de paisagem (Strauss Ap. Merleau-Ponty, 1999, p.386) aparece referido na sua obra − A fenomenologia da percepção, enquanto o espaço existencial associado a distúrbios mentais, em que a existência de um mundo objectivo é perdida em detrimento desse espaço individual, ainda que momentaneamente em estados de alucinação, momento de perda de ligação com o espaço geográfico ou mundo comum; sendo singular a utilização do termo paisagem pela psicologia, para designar esse lado privado da experiência humana, que em determinadas patologias surge apartada da generalidade de uma topografia exterior. O esquizofrênico não vive mais no mundo comum, mas em um mundo privado, ele não vai mais até ao espaço geográfico: ele permanece no espaço de paisagem e esta própria paisagem, uma vez cortada do mundo comum, está consideravelmente empobrecida. (Merleau-Ponty, 1999, p.386) A clivagem entre o mundo comum e a paisagem enquanto facto interior revela a dualidade contraditória entre os estados de demência e a própria artificialidade da crença exclusiva num espaço geográfico, enquanto realidade em si , que o cercear das ciências procura destrinçar a partir desse mundo comum, que definimos na multi-especificidade e multiculturalidade, que se configura antes a partir do movimento dialógico que define a existência, apoiada num real transcendente, que se recria perpetuamente a partir das subjectividades, sob a forma de uma paisagem interior-exterior, visível-invisível, cuja obliquidade se esteia na abertura ecológica e estesiológica do corpo, permissiva da manifestação ou aparição do mundo, ( ) num lugar que não seja nem o da consciência

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pura (ou do eu que lhe corresponde), nem o da representação como geografia de uma paisagem exterior. (Gil, 1994, p.9)
Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita (...) aquele em que não somente o puro interior e o exterior se fundem e se interpenetram, mas em que também o sentido decorre naturalmente desse facto: a paisagem exterior projectada no espaço interior, faz imediatamente sentido (...) (Soares, B. Ap. Gil, 1994, p.9)

A partir de um diagrama do caos (Deleuze Ap. Gil, 1994, p. 64) inicial, que em Platão designa o espaço imenso e tenebroso precedente da existência das coisas (Cf. Berque, 2000b, p.22), os elementos do espaço interior tornam-se um devir-paisagem , o foco dos acontecimentos interiores dá-se exactamente nas coisas mesmas, mas numa sucessão que se encontra presente na prosa de Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa, sob a forma de três momentos, que esboçam o devir dos acontecimentos interiores nos caracteres e acontecimentos que decorrem na paisagem exterior, determinando o principiar dessa indistinção de categorias (Cf. Gil, 1994, p.58), que diz do imiscuir da interioridade com a exterioridade num mesmo plano de uma paisagem híbrida, porque tornada vivida pela estesiologia e poeticidade do sujeito literário: (...) em primeiro lugar uma descrição mais ou menos objectiva da paisagem; em seguida e sem transição, o estado de alma que não tem ligação imediata e visível com a paisagem; enfim o entrelaçamento do estado do sujeito e das imagens objectivas (...) (Gil, 1994, p.58)
O regime das imagens mudou, a paisagem também: ele confunde-se agora com os afectos, as sensações, as emoções, num enredo por vezes tão íntimo que é impossível distinguir o que pertence à alma e o que brota da paisagem (...) os movimentos dessa vida, isto é as sensações dessa vida, se tornaram os movimentos das coisas na paisagem. (...) ora a paisagem serve de metáfora às emoções, ora a emoção metaforiza a paisagem. (...) A questão é outra, e formula-se assim: como se consegue fazer coincidir tão intimamente a alma e a paisagem, de tal forma que elas se confundem (...) que uma parece sair de, e prolongar a outra no mesmo movimento? Deixa de haver lugar para metáforas, há apenas imagens tais como a maré baixa em mim descobriu a lama enegrecida do exterior, em que qualquer diferença entre exterior e interior, entre eu e paisagem, entre sujeito e objecto é abolida. (Gil, 1994, p.60)

Através da participação mútua do corpo e da paisagem na configuração de um horizonte, être de porosité ou corporeidade única de que são criadores a paisagem e o corpo-sujeito nela englobado, enredado nessa vivência, que não é senão (...) l exploration d un invisible (...) dévoilement d un univers d idées. (Merleau-Ponty, 2004a, p.193), cessa a ideia da formação de um campo fenomenal através de um movimento de introspecção, que pudesse ocorrer na interioridade da consciência, mas concebe antes uma configuração ou estruturação primeira da experiência vivida, segundo um horizonte, que não é a restituição ao interior de um mundo em si , mas uma construção já não entendida como (...) o encontro fortuito entre nossas sensações (...) (Merleau-Ponty, 1999, p.92), mas proventa da participação da intencionalidade do corpo-sujeito, na delimitação de uma forma Gestalt, tida como originária do sentido desenredado pela percepção e continuamente alterado pela situação de abertura ao mundo, própria de um corpo-consciência criadores e não de uma razão constituinte universal, (...) é o nascimento de uma norma, mas não se realiza

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segundo uma norma (...) [como] projecção de um interior sobre o exterior. (Merleau-Ponty, 1999, p.95)
( ) l horizon n est pas plus que le ciel ou la terre une collection des choses ténues, ou un titre de classe, ou une possibilité logique de conception, ou un système de potentialité de la conscience : c est un nouveau type d être, un être de porosité, de prégnance ou de généralité, et celui devant qui s ouvre l horizon y est pris, englobé. Son corps et les lointains participent à une même corporéité ou visibilité en général, qui règne entre eux et lui, et même par-delà l horizon, en deçà de sa peau, jusqu au fond de l être. (Merleau-Ponty, 2004a, p.193)

Considero assim a experiência da paisagem como lugar, que permite evidenciá-la como espaço tempo-vivido em contraponto à concepção científica de espaço geográfico ou grafia espacial do real independente do meu olhar, ou à concepção físico-admnistrativa de território, fazendo-a depender primeiramente da delimitação ou circunscrição de um horizonte existencial, actualização mutável de uma forma a partir deste (...) excesso, relativamente à linguagem de um sentido visual (...) (Gil, 1994, p.63) primeiro, que envolve uma (...) ancoragem do corpo ativo em um objecto (...) (Merleau-Ponty, 1999, p.146), ou num tracto de paisagem em que me concentro e limito, apartando da estranheza inicial um lugar, da ilimitação da paisagem que se estende para além de mim, e se esta particularidade consiste num carácter específico da (...) visão como acto com duas faces. (Merleau-Ponty, 1999, p.104), encerra em si a atitude própria, de a partir de um acto pré-linguístico de fixação temporal de um sentido, que precede a significação − a doação mesma de um lugar de existência − um espaço-tempo que consigo abarcar pelo corpo, como sistema de equivalências expressivas e que se traduz num preenchimento desse distanciamento inicial através da percepção, como participação numa corporeidade ou visibilidade, que encerra a paisagem enquanto tissu de possibilités (Merleau-Ponty, 2004a, p.320) num lugar de apropriação.
(...) com um único movimento fecho a paisagem e abro o objecto (...) é necessário adormecer a circunvizinhança para ver melhor o objecto, e perder em fundo o que se ganha em figura, porque olhar um objecto é entranhar-se nele, e porque os objectos formam um sistema em que um não se pode mostrar sem esconder os outros (...) apoio o meu olhar em um fragmento de paisagem, ele se anima e desdobra, os outros objetos recuam para a margem e adormecem, mas não deixam de estar ali. (Merleau-Ponty, 1999, p.104)

A estrutura objecto-horizonte (Merleau-Ponty, 1999, p.105) é por mim interpretada como estrutura lugar-paisagem, no sentido em que os lugares definidos pelo corpo ou por ele habitados não apenas pelo olhar, circunscrevem-se assim como olhar um objecto é vir a habitá-lo e dali apreender todas as coisas segundo a face que elas voltam para ele (...) , também o lugar se compreende mediante uma rede de relações que os elementos na paisagem tida como fundo narrativo, estabelecem com o lugar que delimito, (...) e dali apreend[o] todas as coisas segundo a face que elas voltam para ele (...) [estas] permanecem moradas abertas ao meu olhar e, situado virtualmente nelas, percebo sob diferentes ângulos o objecto central da minha visão atual (...) cada objeto é o espelho de todos os outros (...) (Merleau-Ponty, 1999, p.105), no sentido em que procuro constituir as faces escondidas deste lugar que vivencio e se expressa através do meu corpo, na sua

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relação com o fundo, horizonte ou paisagem de que se destaca, como se o visse ou procurasse reconstituir a partir de todos os outros pontos com os quais se encontra ligado. A paisagem será nesta acepção, a conjugação infindável de todas as formas-fundos, passíveis de serem actualizadas por um corpo-sujeito ou organismo situado ou que habitasse todos os lugares e não meramente todas as posições, compreende antes todas as perspectivas ou todas as estruturas objecto-horizonte delimitáveis e é nessa acepção que (...) body and landscape collude in the generation of what can be called placescapes (...) (Casey, 1993, p.25).
Body and landscape present themselves as coeval epicentres around which particular places pivot and radiate. In my embodied being I am just at a place as its inner boundary; surrounding landscape, on the other hand, is just beyond that place as its outer boundary. Between the two boundaries − and very much as a function of their differential interplay − implacement occurs. Place is what takes place between body and landscape. Tanks to that double horizon that body and landscape provide a place is a locale bounded on both sides, near and far. (Casey, 1993, p.29)

Esta apreensão da paisagem segundo um mosaico de lugares definidos a partir de diferentes pontos existenciais, implica-os nessa acepção de formas existenciais ou sentidos expressivos, que são dados a determinados tractos de paisagem a partir de vivências específicas, que incluem portanto uma síntese de horizontes espaciais e temporais, que permanecem apenas aproximados, parcialmente determinados dada a incapacidade da nossa situação de conceber uma síntese efectiva de horizontes (Merleau-Ponty, 1999, p.443), que se pudesse aprofundar em direcção ao passado e ao espaço longínquos; reconstituíveis apenas de uma forma inacabada, por referência à nossa corporeidade e situação, coexistência espacial e temporal, que nos agarra ao momento-espaço presentes e nos impede de desenlear ou resolver esta indeterminação do mundo pois o (...) o acabamento é tornado impossível pela própria natureza das perspectivas a ligar, já que cada uma delas reenvia indefinidamente, por seus horizontes, a outras perspectivas. (Merleau-Ponty, 1999, p.443)
Por meu campo perceptivo, com os seus horizontes espaciais, estou presente à minha circunvizinhança, coexisto com todas as outras paisagens que se estendem para além dela, e todas essas perspectivas formam em conjunto uma única vaga temporal, um instante do mundo; por meu campo perceptivo com os seus horizontes temporais, estou presente ao meu presente, a todo o passado que o precedeu e a um futuro. (Merleau-Ponty, 1999, p.443)

O contacto quotidiano com as paisagens, não é assim estabelecido por um homem desenraizado, pois mesmo que o contexto lhe seja desusado, a intimidade do corpo com o mundo permite-lhe reconstruir, a cada momento, o seu esquema corporal a partir das espacialidades anteriormente esboçadas, indiciando que o espaço existencial é sempre estruturado ou interpretado em relação a experiências prévias, faz nascer as ligações e as diferenças entre elas, ainda que de forma pré-reflexiva e mesmo descontextualizados, configuramos através da corporeidade a nossa inerência ao mundo: proventa tanto do momento-espaço presente, como de um cruzamento de espaços-tempos ou lugares da nossa existência, pressupondo sempre uma situação de proximidade com a paisagem actual, a partir da qual se desenrolam todas as outras, que se encontram latentes no espaço

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de inscrições do corpo e é nessa acepção que a paisagem pode (...) tornar-se imago de todo um segmento de vida. (Merleau-Ponty, 1999, p.84), por emergir a partir de uma concretude física plena de narrativas, que se vive através de mim em diálogo com toda a diacronicidade imbricada, mesmo aquela de que permaneço inconsciente, mas que me perpassa assim como o mundo sensível, traduzindo-se numa configuração circunstancial e simultaneamente imagem de toda a minha existência.
Nosso corpo e nossa percepção sempre nos solicitam a considerar como centro do mundo a paisagem que eles nos oferecem. Mas esta paisagem não é necessariamente aquela de nossa vida. Posso estar em outro lugar mesmo permanecendo aqui, se me retêm longe daquilo que amo me sinto excêntrico à verdadeira vida. Além da distância física ou geométrica que existe entre mim e todas as coisas, uma distância vivida me liga às coisas que contam e existem para mim, e as liga entre si. Essa distância mede, em cada momento, a amplidão de minha vida. (Merleau-Ponty, 1999, p.384)

A amplidão da vida a cada momento se expressa no espaço existencial, que permite pensar a invariância mas também a mutabilidade presentes no decorrer da experiência, sempre irreproduzível de uma mesma paisagem, se é verdade que o habitar implica a modelação de um modo factível de funcionamento, um caminho passível de ser percorrido pelo olhar ou uma forma de agir, que resulta de uma adequação recíproca espaço-corpo, esta estruturação pela sensibilidade, difere a cada vez que o corpo-sujeito se deixa atravessar por ela; pela alteridade que define o movimento existencial próprio do sujeito e própria da paisagem, determinando que o que existe em mim de um sentido prévio, não seja coincidente com o sentido presente; ela actualiza-se em mim a cada vez, enquanto corpo disponível, retroagindo sobre o sentido passado e circunscrito sob uma forma base, de que emerge outra constelação semântica.
Contre une pensée de type empiriste, Merleau-Ponty présente la perception comme une sorte de création continuée du monde; non pas un mécanisme donné une fois pour toutes, dont on n aurait plus que décrire les rouages (comme si la perception était un fait), mais ce qui me donne le monde à chaque fois à nouveau. La perception n est pas un système ni un dogme, elle est une manière d être au monde, elle-même informée jusqu à en être transformée par ce qui du monde lui est donnée et qu elle donne en retour. (Zielinski, 2002, p.118)

O mundo ou a natureza dados na filosofia de Merleau-Ponty, são neste contexto entendidos na acepção de uma paisagem existencial, já que (...) a existência é espacial, quer dizer, que por uma necessidade interior ela se abre a um fora , a tal ponto que se pode falar de um espaço mental e de um mundo das significações e dos objetos de pensamento que nelas se constituem (...) construídos [contudo] sobre o espaço natural (...) (Merleau-Ponty, 1999, p.394), sendo que esse movimento existencial se desenreda através de uma colocação dentro de limites, um cercear subjectivo ou pango, fixar ou delimitar um lugar pela apropriação, determinado sob um fundo a partir do qual o espaço existencial perpetuamente se nutre, fundo que não é senão o pagus ou paisagem, que permanece sempre em latência: tecido de possibilidades de escrita, remanescente na percepção, que sempre coíbe uma impercepção, um vazio de consciência, (...) Ce qui fonctionne comme pivot existential, et en ce sens n est pas perçu. Car on ne perçoit que figures sur niveaux − Et on ne les perçoit que par rapport au niveau, qui dont est imperçu ( ) (Merleau-Ponty, 2004a, p.240). Pango

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designa também escrever, compor ou gravar, o que indica de alguma forma, que este verbo relacionado directamente com o étimo pagus, tido como origem latina da palavra paisagem, depreende não só os actos ou práticas de marcar o território fisicamente, sob a forma de uma escrita cultural decorrente do modo como uma civilização se apropria da paisagem, como indicam as significações marcar, enterrar, fixar e plantar; mas implica também o acto humano de delimitar conceptualmente − escrita, gravação ou composição como actos linguísticos ou semânticos de doação de uma significação, através de uma apropriação primeira do espaço e a sua transmissão póstuma através da escrita, passagem dos sinais a signos verbais ou icónicos, pela instituição de um código. Se podemos falar destas paisagens interiores como traduções sensíveis da visibilidade e tangibilidade do mundo, encontramos aqui a incompletude pela existência dos outros e de outras potencialidades inscritas na natureza, pois se podemos acordar cientificamente uma determinada construção como única a partir das condições fixadas para esse conhecimento, a experiência estética da paisagem não se constrói de uma forma única, como um protótipo com regras de montagem, mas acusa a singularidade do indivíduo, é diacrónica e liga-se às suas experiências passadas como aquele sensível que é capaz de sentir, mas também à sua imaginação ou capacidade de projectar nessa paisagem o seu mundo possível de actuação e as suas quimeras, pela transfiguração ou actualização de uma face invisível ou virtual inscrita na visibilidade geral; experiência espacial retida interiormente, que vem acrescentar o diagrama espacial daquela paisagem, reinteriorizada e redefinida sob a alçada de outras significações, pela atribuição de uso diferente ou pela descoberta de outra forma de a habitar, metaforização do real que passa pela porosidade do corpo para a concretude das práticas humanas − (...) l opération métaphorique s il en est − par laquelle des échelles et des niveaux incommensurables, la nature et la culture, le passé et le possible, se trouvent simultanément convoqués sur le seul plan du présent vécu. (Berque, 1985, p.102)
(...) la perception comme la liberté, est inventive. Toutes deux inventent le monde a partir du corps, invention rendue possible par l inachèvement corrélatif de mon corps, du monde et de l avenir que j engage ( ) la perception m engagent dans une manière d être au monde ( ) elle engage le corps dans une ouverture au monde qui est aussi création ( ) (Zielinski, 2002, p.120).

A compreensão da paisagem como evento em nós revela o estear dos étimos num entendimento pré-linguístico, acentuando o carácter erróneo da procura da nascença do sentido no aparecimento dos termos para designar esta realidade, marcadamente fundada na apreensão estética, como se encontrar a primeira vez e sob que acepção as palavras tivessem sido primeiramente escritas fundasse o aparecimento da paisagem, firmado apenas a partir desse momento; antes que houvessem palavras para designar a nossa relação com a paisagem já esta possuía um lugar na relação corpo-mundo, enquanto experiência primeira de desvelamento e entrega a uma estética do informe que se vive e sente em nós repetidamente em cada momento da nossa existência e se resolve através do movimento duplo de projection-introjection (Merleau-Ponty, 1995, p.272) sobre a

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paisagem, emergente mesmo desta dualidade de proximidade e distanciamento, que caracteriza o fluir da trajectivité (Berque, 2000b, p.94) − se somos tentados a designar os acontecimentos em nós, apenas como fundados na consciência e sob a forma de pensamentos facilmente traduzíveis em palavras, crer que desta formalização nada se subsume pelo caminho, somos totalmente desconhecedores da nossa existência, incapaz de ser exaurida no conhecimento do mundo. Subjacente às representações conscientes e à interpretação racional do meio, sobre a qual se baseiam as práticas científicas, pré-existe um nível de práticas inconscientes e um sentido pregnante de uma multiplicidade de configurações passíveis de serem atribuídas ao mundo, significações que se esteiam sobre a apropriação intencional da estrutura das paisagens em que se desenrola a existência humana; que derivam das matrizes20 culturais de determinação do meio e da especificidade deste, mas que se encontram similarmente imbuídas da especificidade de uma existência própria, que apesar de intersubjectiva é determinada pela singularidade de cada subjectividade, definida no mesmo movimento existencial que constitui a multiplicidade de paisagens intencionais, que transbordam de cada tracto de espaço geográfico passível de ser abstractamente cartografado − porque o meu visível não é sobreponível ao dos outros, citando por si o mesmo mundo cada subjectividade deixa por tecer indeterminações em zonas diferentes do real, lacunas de sentido que permanece pregnante para outras determinações, ponto de fuga de que apenas nos aproximamos pelo entretecer das determinações entre si, pelo encontro com o outro, como criação de uma tessitura mais complexa21 do real. Simultaneamente a uma topografia da estrutura física do espaço geográfico, as paisagens nascentes da apropriação existencial carecem de uma corografia, não na acepção de descrição científica de uma paisagem, mas na sua relação com o étimo grego Khôros, como coreografia ou Khoreía − determinação dos passos ou expressão mesma das atitudes e poses existenciais, que acrescem ao topos ou singularidade própria das coisas independentemente da nossa existência − é o movimento ou dança a partir da qual a terre se desenreda em monde (Cf. Heidegger Ap. Berque, 2000b, p.143), devir existencial a partir do qual as coisas se tornam inteligíveis, através da sensibilidade, como estruturação e passagem mesma do sensível ao inteligível, delimitação no sentido de uma forma para citar o mundo, através do corpo e da linguagem, assim carecidas da abertura que descreve a própria existência.

Do latim matrice, lugar onde alguma coisa se gera, molde que depois de ter recebido determinada impressão permite reproduzir essa mesma impressão, origem primordial, neste caso a cultura onde emerge a consciência do indíviduo e que este expressa na sua existência.
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Apesar de frequentemente considerado sinónimo de complicado esta palavra apresenta origem latina diversa deste e fundada no termo complexus, que designa a característica do que é compósito por partes heterógeneas, definindo-se nas acções de rodear, abranger, ligar ou encadear, acepção derivada dos étimos complector e complecto que indicam mesmo o abraçar ou abranger pela inteligência, sendo ainda designação do que pode causar peleja ou luta, assim como surgir associado a ligação afectuosa, o que exprime o carácter contraditório implícito neste termo, mas também a latência de uma resolução das contradições.

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A mundanidade ou predicação da terra em paisagem seria na cultura filosófica grega expressa através do termo Khôros, lugar existencial ou receptáculo matriz e marca da geração ou devir das imagens, ícones ou cópias sensíveis das ideias, tidas como essências absolutas pela metafísica platoniana, que desta forma cindia a inteligibilidade da existência relativa das coisas sensíveis e da mundanidade humana; sendo que a inteligibilidade do real seria somente apreensível pela anamnese ou memória antecendente à queda num corpo sensível e assim dependente apenas do pensamento consciente, como único modo de remontar ao absoluto, de que fomos privados pelo encerramento no corpo (Cf. Berque, 2000b, p. 54) − (...) option fondatrice de la civilisation occidentale − incommensurabilité entre l esprit et le monde (...) (Berque, 2000b, p.37).
S il n y avait pas cet écart entre le monde sensible et le monde intelligible, le premier n existerait tout simplement pas : l image ne serait autre que le modèle lui-même. Cet écart, où s origine la métaphysique, c est ce qui fait que la pensée européenne a dû désormais absolument chercher la vérité au-delà des phénomènes, c est-à-dire au-delà de l horizon du monde. Aller au-delà du mondain, pour atteindre à l universel. (Berque, 2000b, p.55)

A cisão entre a mundanidade e o absoluto seria assim proventa do pensamento grego, pelo que não só a partir deste se assumiu o apartar entre as vivências humanas e o sentido do real, considerado apenas na sua mediação com a consciência, como acesso único a um mundo universal e absoluto, distinto da realidade do mundo sensível proscrito ao avatar perpétuo, subsumindo-se assim a procura de um sentido das vivências espaciais no carácter existencial das coisas; o significado passaria a ser tido por transcendental à corporeidade e como procurar a fundação de uma concepção complexa da paisagem na civilização ocidental, quando conceptualmente esta se esteou na cisão entre física e metafísica e na rejeição da corporeidade e sua simbólica do mundo?
L histoire montre effectivement que l universion comporte souvent l élimination d autrui, selon une échelle allant de la violence symbolique envers les déviants jusqu au génocide massif. Dans le termes du Timée, cela équivaudrait à noyer la singularité de l être relatif (la genesis) dans l universalité de l être absolu. Il y a cependant, pour ce faire, une voie moins directement violente; et c est celle que dans l ensemble, a suivie la modernité: supprimer la chôra qui, ontologiquement, est nécessaire à la genesis; autrement dit, neutraliser le déploiement des lieux singuliers de l écoumène au bénéfice d un espace universel. (Berque, 2000b, p.66)

A instituição ontológica do mundo seria desta forma preterida em favor do absoluto inacessível a partir da existencialidade como devir das coisas em si em representações, passagem metafórica da topicité da terra em chorésie ou mundo, sendo que a paisagem acessível ao homem é matriz da sua existência e advém tanto do topos ou lógica da identidade das coisas, como da chôra22, que é a inerente pluralidade de representações passíveis de lhe serem atribuídas (Cf. Berque, 2000b, p.144); faces indissociáveis da paisagem e que mesmo no âmbito da teorização científica devem ser consideradas, pela necessária hermenêutica do lugar de origem do conhecimento, provento da actividade humana, que gerada no seio matricial de uma cultura, dela herda suas marcas na
22 Apesar de Berque (2000b) atribuir o termo chôra com esta grafia a Platão explicitado na sua obra − Timeu − o étimo referido pelo autor é latino, sendo que o seu equivalente grego corresponde ao étimo Khôros.

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interpretação própria do que é para si o real. O topos reúne na materialidade da coisa o tecido de relações que constitui a sua chôra, implica-nos por sua vez nesse tecido, mas este não pode ser concebido apenas a partir da unilateralidade de uma vivência particular, mas a concretude própria das coisas assim como a da paisagem está para além da sua topicité é esse vir a ser compósito, que fica além de um horizonte singular e revela a transcendência ou inacabamento do mundo referido por Merleau-Ponty (2004a), por contraponto à alegada transcendência do absoluto em relação ao mundano; o absoluto tido enquanto (...) un certain pont de fuite (...) (Merleau-Ponty, 2004a, p.157) ou a complexidade composta na pluralidade das mundanidades ou predicações do mundo, como entrelaçado de uma multitude de interpretações ou hermenêuticas da paisagem − a sua concretude como revela o étimo latino concrescere23 deriva da sua formação por condensação ou agregação de partes a partir de uma virtualidade, o seu poder vir a ser apropriavél por muitos caminhos, ou seja passível de ser acrescentada semanticamente pelo homem e por todos os organismos com função simbólica, continuamente no espaço-tempo.
Il y a antinomie apparente, mais unité réelle, entre chorésie et topicité. Cette unité dynamique, c est la mouvance de notre milieu, dans le moment structurel de notre existence. Les choses y sont en devenir. Jamais figées dans l identité de leur seul topos, mais toujours engagées dans la dynamique d un sens, elles sont pour ainsi dire des devenant-choses (ce que l on rapprochera de l image platonicienne de l être relatif comme genesis: naissance). Cette chorésie, ce n est autre que leur eksistence: le déploiement de leur être en tant que choses. Effectivement, dans l écoumène, les choses existent en vertu de l en-tant-que dans les termes du quel nous le saisissons; lequel n est cependant pas simple mondanité (lgP), car il suppose que les choses sont en elles mêmes ce qu elles sont (lgS). Elles n existent pas dans le non-sens d un pur en-soi, lequel, par définition même, nous serait à jamais insaisissable ; car nous les saisissons bel et bien, mais par le seul fait de les saisir, nous le prédiquons nécessairement dans les termes de notre monde. (Berque, 2000b, p.144)

A problemática da complexidade da paisagem depreende-se não apenas de uma ideia de natureza pós-moderna de que é paradigma a evolução por bifurcação, modelo do devir complexo e das suas características fases de indeterminismo, mas prende-se com a nossa condição humana face à incapacidade de conceber conceptualmente essa transcendência da natureza, pois como todo o conceito referente ao real é passível de uma representação complexa, isto é una no topos das coisas, mas múltipla no que respeita à sua chôra, porque sempre apropriável ou determinada parcialmente por referência à uma existência, que não subsume o sentido sempre excessivo face às significações e aos códigos em que estas se inserem, pois estes derivados da especificidade de uma cultura encontram-se sempre em aberto, na sujeição a fenómenos de invenção (Eco, 1976, p.167) ou novas formas de codificar ou trazer à visibilidade aspectos até aí invisíveis do real, porque apartados de uma correlação convencionada entre conteúdo e expressão. Projectar a paisagem como cenário real é tentar captar de que forma as paisagens se fazem no nosso corpo e traduzir essa experiência estética numa paisagem visível, (relação visível tornado sentido invisível e reproduzido por imagens mentais - a expressar numa visibilidade, que é a da formalização projectual) e é dessa forma que se pode encarar a arquitectura
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O termo latino é evidenciado na obra de Berque vid. (Berque, 2000b, p.94).

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paisagista como, em que o arquitecto procura encontrar através da sua história corporal e em face das paisagens que a formam, o modo de reproduzir por vezes com materiais e formas diferentes os mesmos estímulos, que lhe suscitaram determinada postura estesiológica, (...) mais que executar um código, [ele] está de fato experimentando e tentando instituir um. (Eco, 1976, p. 206) pela criação de uma constelação textual de signos icónicos que se supõe (...) solicitar no destinatário reações perceptivas que sejam de alguma forma equivalentes às que teria no caso de estar em presença do objeto ou evento concreto. (Eco, 1976, p.168); evocação nem sempre consciente das referências ou paisagens que constituem o seu espaço existencial, já que nem sempre temos presente de que lugar ou cruzamento de lugares em nós provêm as paisagens que projectamos. Através desta evocação das sensações primeiras, a arquitectura paisagista trabalha a modelação de uma estesia por estimulação programada (Eco, 1976, p.206), utilizando as referências ou os sentidos que o arquitecto fixou previamente na sua experiência da paisagem, opera a sua tradução segundo tipologias ou formas, que tanto remetem para arquétipos integrantes do inconsciente colectivo de uma determinada cultura, ou se usa de fenómenos de invenção reproduzindo uma (...) estrutura perceptiva semelhante àquela que seria estimulada (...) na experiência quotidiana da paisagem menos formalizada, trata-se, pois, de estabelecer o que, dada a mudança dos estímulos materiais, permanece imutável no sistema de relações que constitui a Gestalt percebida. (Eco, 1976, p.172) − expressão de determinados aspectos da paisagem segundo novos códigos arquitectónicos, pela invenção de um tipo expressivo correlacionado com um conteúdo pré-existente ou mesmo por outras delimitações de conteúdo e sua correlação com um tipo expressivo, conteúdos esses proventos da sua vivência das paisagens, expressão de uma interiorização própria do real na constituição do seu espaço existencial. A singularidade da arquitectura paisagista em relação a outras formas de expressão artística, é a fundamental consideração das componentes ecológicas deste cenário real e nesse sentido se constitui a complexidade da paisagem, enquanto espaço vivido ecoestesiológico, que exige a consideração da sustentabilidade, enquanto definição de qual o estado estacionário que se pretende como estado atractor para uma determinada paisagem, servindo-se da técnica como poiesis que contraria ou procura modelar o rumo sempre multívio da autopoiesis da paisagem, limitando a complexidade permitida em face das utilizações humanas, que em si constrangem esta complexidade ecossistémica; a actividade da arquitectura paisagista deve supor a relação entre a intervenção e um ou vários estados atractores com ela relacionados através de uma narrativa que cruze aspectos socio-culturais e ecossistémicos, desde o momento da intervenção equacionada nos tempos presentefuturo, esta constitui a tentativa da compatibilização da componente natural da paisagem com a presença humana e a segmentação funcional que sua apropriação implica. Deste modo a concepção da paisagem deve considerar a dupla acepção de complexidade definida pela eco-estesiologia no âmbito deste trabalho, procedendo ao que Magalhães (2001) defende como metodologia para a formalização da sua estrutura pela integração (...) da abordagem estrutural [e] sobretudo na última fase da concepção, enveredar por uma

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abordagem decididamente fenomenológica (...) (Magalhães, 2001, p.330) procedendo à (...) integração dos dados científicos e técnicos, com dados subjectivos (...) (Magalhães, 2001, p.331), no sentido de conciliar a intervenção, quer ao funcionamento ecológico da paisagem, como à sua apropriação iniciada pela estese, que definida na concretude da autopoiesis humana diz da constituição dessa trama intencional, que urde e funda tanto o corpo como a paisagem. Como arte conceptual que tem por matéria uma natureza espacializada − a paisagem, com maior ou menor grau de artificialidade, desenvolve estas potencialidades inscritas, supõenas através das narrativas ambientais que nunca são depuradas da ideia de humanização da natureza, de utilização da paisagem e intervém no sentido de desenvolvimento destas e actualização num mundo possível que é o do projecto e sua extensão num horizonte temporal futuro, que é considerado sob a forma de cenários possíveis de derivar a partir da intervenção; limitamos deste modo a natureza dando-lhe a forma de paisagem, não apenas pelo olhar mas cerceando pela intervenção essa indeterminação ou virtualidade de paisagens possíveis sem intervenção, sobre a qual impomos uma formalização, que não é apenas a nascença de um conceito sem consequências, mas que imprime uma determinação inflectindo a evolução de paisagens possíveis, com vista a uma situação seleccionada, que se pretende na maioria dos casos, que não seja efémera e por isso se perpetua pelos gestos da manutenção, assim como sustentada pelas relações ecológicas, mas dependente de uma técnica ou contínua projecção do homem sobre esta, para que se mantenha o artifício das características pretendidas.

13. Barbara Hepworth (1946) − Pelagos, pertence a uma série de esculturas não-figurativas consideradas como metáforas alusivas às impressões deixadas pelas paisagens na sensibilidade, nesta obra em particular referentes à experiência de uma paisagem costeira. 14. Rebecca Horn (2000) − Ocean in my heart, trata-se de uma instalação que procura exprimir uma possível estrutura perceptiva própria das paisagens marinhas, os espelhos reflectem a luz assim como a superfície da água e o emaranhado de tinta azul expressa o movimento das ondas.

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CONCLUSÕES

Paisagem obra aberta: a integração das dimensões ecológica e fenomenológica
Se nenhuma pintura conclui a pintura, se mesmo nenhuma obra está absolutamente concluída, cada criação muda, altera, esclarece, confirma, exalta, recria ou cria de antemão todas as outras. Se as criações não são algo de adquirido, não é apenas porque, como todas as coisas, passam, é também porque têm quase toda a vida à sua frente. (Merleau-Ponty, 2004b, p.74)

Na história do pensamento ocidental a paisagem permaneceu durante séculos conceptualmente latente na ideia de natureza, pela evidente negação das vivências estéticas na actividade científica, e pela cisão operada pelo platonismo entre física e metafísica; antinomia considerada genésica por Morin, como subjugadora do pensamento da complexidade, assim constrangida no elidir metafísico do objecto e reciprocamente do sujeito, realizada em favor do realismo das ciências modernas. Desta forma, a constituição do percurso desta tese até uma concepção da complexidade da paisagem procurou acometer a necessária consideração da ideia de natureza, mas também a de consciência constituinte universal, enquanto legitimadora da existência de um real em si representação apoiada pelo idealismo moderno, que ao supor a unicidade das categorias a priori de Kant, procederia à confirmação da universalidade do conhecimento científico dos fenómenos, considerado na sua insuficiência no contexto pós-moderno do séc. XX, e sua contestação do positivismo, em que se inscreveram singularmente a fenomenologia e o existencialismo. O naturalismo pré-moderno derivado da ideia de devir grego do sensível, acometido no interior de um processo ciclíco, inerente a toda a matéria, supunha a interdependência entre todas as coisas ditas naturais, que permeadas por uma causa final mediadora da rigidez do processo de actualização de uma forma ou essência, que o pensamento teológico medieval viria a identificar com os desígnios divinos, operando a disjunção entre a mundanidade imperfeita, face ao ser eterno tido como origem desta causalidade transcendente do devir natural ou modelo de perfeição, a que o domínio do sensível e a sua finitude temporal obedeciam, como pressuposto único da sua inteligibilidade. A obediência a causas finais e imateriais designadas pelo naturalismo pré-moderno como transcendentes à natureza seria negada pelo materialismo, que se constituiu elidindo a ideia grega de natureza processual, que havia dominado o pensamento medieval e da renascença, distanciando-se assim da conceptualização da criatividade íntrinseca ao real sensível, assumida actualmente pela ideia de uma natureza complexa gerida numa poisesis de si pela auto-organização, forma de cognição imanente mediada na abertura ao meio, caracterizadora da diacronicidade do comportamento biológico. O mecanicismo procederia ao elidir da visão aristotélica de mudança como actualização de uma tendência estruturante, em favor de uma ordem imutável, similar à do movimento dos

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corpos celestes, paradigma de uma natureza plenamente dada no acto criador e desprovida de temporalidade, marcada pela reversibilidade postulada pelas únicas evoluções concebidas pela dinâmica ─ paradigma do pensamento científico moderno, em que a homogeneidade e independência entre o espaço e o tempo, permitiria o alheamento das vivências da paisagem, enquanto instituição primeira do mundo pela intencionalidade genésica de uma natureza espacializada, em que as duas dimensões se imiscuem, assim como as categorias gnoseológicas de sujeito e objecto, dissociadas no contexto do realismo moderno. O reducionismo inerente às leis da mecânica, tidas por articulantes dos acontecimentos naturais fragmentados pela análise científica, instituiu-se pela suposta possibilidade de acesso racional aos invariantes ─ generalidade mediada pela eliminação das diferenças e da diversidade através do isolamento das propriedades fundamentais, mas seria ainda enfatizado pelo reducionismo causal permitido pela distinção de uma legalidade eterna, para além das escalas espaciais e temporais, que nada tinham a doar a esta natureza acabada e uniforme, claramente previsível através da racionalização unificadora do mundo terreno e da esfera celeste, pela necessária universalidade das leis, que passam a determinar integralmente a evolução de qualquer sistema, a partir do conhecimento das condições iniciais. A paisagem emergiu apenas como objecto científico no contexto suscitado pelo movimento romântico de contestação da visão científico-racional da natureza e subjacente afirmação da irredutibilidade da sua experiência estética ao materialismo, ignaro pela antinomia sujeitoobjecto, de supor a indefinição entre o sujeito e o espaço na construção de sentido ou apreensão simbólica, claramente assumidas pela paisagem do romantismo presente no pensamento filosófico, pintura e literatura, enquanto realidade experienciada. Como realidade científica, a paisagem foi representada primordialmente pela geografia, mas irrevogavelmente afectada pela concepção mecanicista da natureza, incapaz de conceber a sua complexidade como realidade ecológica, mas impedindo igualmente pela persistência das suas fundações no realismo moderno, que a paisagem conceptualmente presente na natureza espacializada pela perspectiva como representação artística ou codificação esteada numa realidade experienciada através das práticas próprias ao habitar, fosse ainda no séc. XX plenamente legitimada como objecto pelas disciplinas científicas, apoiadas no paradigma de objectividade moderno. A representação científica da natureza moderna supunha antes o cercear de uma natureza em si passível de análise directa sem a intermediação do homem, enquanto hermeneuta do real, assim pretensamente ausente desse acto interpretativo, através da exumação das componentes subjectivas inerentes à descrição dos fenómenos, mas sobretudo intrínsecas ao desenredar heideggeriano da terra em mundo; aditando até ao séc. XX a constituição de uma representação científica conhecedora da complexidade da natureza como paisagem, pela incapacidade de leitura ecológica e de concepção deste olhar pretensamente único, como assente sobre a vivência desta natureza, espacialmente definida na estruturação perceptiva da paisagem, no contexto mundano do quotidiano.

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A racionalização que caracterizou o pensamento ocidental do período moderno constituiu-se deste modo, pela negação da mundanidade intrínseca à existência e esteada na inerência à natureza forçosamente marcada por uma atitude estética e contemplativa, que havendo caracterizado o pensamento aristotélico, seria preterida pela negação teológica do corpo e da estese; bases fundamentais de uma ciência moderna passível de instituição absoluta, apenas na obediência aos dogmas teológicos, que consentiam legitimar o acesso ao real pela introspecção e recolhimento à interioridade da consciência, como única forma garantida de acesso à veracidade dos dados conceptuais, assim potencialmente aferidos pela racionalidade divina, disjunta pelo pensamento cartesiano da extensão corpórea. A disjunção operada permitiria assim o progresso do conhecimento científico, com o necessário consentimento religioso, através do paradigma da objectividade, que negligenciava as qualidades fenomenais ou dependentes da observação e da sensibilidade estética, que sempre caracterizou a experiência da paisagem, destituída pelas ciências modernas de existência objectiva; aparência sem lugar no mundo real, pela transcendência do objecto em relação ao sujeito, que alegadamente permitia uma individualidade ahistórica, unidimensional e anónima, subjugante das vivências da paisagem. A consideração da complexidade ecológica da paisagem foi sustentada na aplicação dos conceitos avançados pelo naturalismo pós-moderno, que permitiu no contexto da ecologia, a sua representação científica enquanto face visível da estruturação resultante da expressão física dos padrões organizadores da bio-geo-noosfera; conceptualização que foi adiada pela conflitualidade inerente à ideia de natureza, concebida na história do pensamento ocidental, alternadamente sob a alçada de visões finalistas, ou por outro lado dominadas por uma causalidade linear, que determinaria um comportamento mecânico, passível de encerrar numa narrativa indirente ao espaço e intemporal, na ausência plena de um tempo diferenciador, expressivo de uma finalidade intrínseca. Esta irresolução da antinomia entre causalidade/finalidade e a incapacidade de concepção de uma causalidade complexa, destacada por Edgar Morin na insubordinação dos sistemas complexos aos determinismos do meio, que antes se insurgem pela constituição de uma finalidade interna, na ausência exclusiva e originária de um determinismo por pré-programação interior ou de um determinismo exterior e esteada numa evolução irreversível, constituiu os fundamentos da explicitação da complexidade, tida por inerente a uma categoria conceptual de sistemas abertos, abordada pelo pensamento científico pós-moderno. A singularidade desta categoria de sistemas auto-eco-organizados, entre os quais os ecossistemas e indirectamente a paisagem, enquanto resultado estrutural da autopoiesis dos sistemas bio-geo-antropológicos reside nesta poiesis de si, ou auto-recriação considerada presente, quer nas fases de estase descontínua, que permitem a manutenção de uma identidade estrutural, como sob a alçada genésica das instabilidades, que contrariamente à evolução concebida no domínio termodinâmico linear, implica a criatividade e a morfogénese, em contraponto à equifinalidade, que ainda que possa estar presente, não permite explicitar o comportamento complexo, por supor apenas uma criatividade do percurso, no entanto dirigido por uma finalidade rígida e previsível. A poiesis de si identificada como característica dos sistemas complexos e definida pelo conceito de auto-organização, depende da abertura a uma causalidade externa, mas com a

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constituição recíproca de uma causalidade interna ou finalidade, supondo-se quer uma parcial determinação do sistema considerado pela sua envolvente, como uma determinação de parâmetros da envolvente pelo sistema, o que é válido tanto para o organismo em relação ao seu habitat, quanto para o homem na sua relação com a paisagem. Esta afectação da envolvente pela causalidade interna, pode cingir-se a parâmetros físicoquímicos gerados pelos fluxos que atravessam e constituem o organismo, como possuir o alcance de diferenciações espaciais; inscrição de marcas na paisagem que é tanto proventa do homem, quanto dos organismos vivos de uma forma geral, ainda que a abrangência da influência humana apresente uma estruturação visível mais acentuada. Para que haja esta inscrição das marcas organísmicas na visibilidade da paisagem é necessário que ocorra uma atribuição de sentido ao exterior, configuração de uma situação espacial no mundo dependente da sensibilidade às características mutáveis do meio, consoante diferentes escalas temporais, para que a adaptação gere ou regenere o seu padrão organizador em função da sua sobrevivência e recrie baseado nessa detecção dos sinais ambientais, que o organismo codifica, uma finalidade interna assim pautada pela flexibilidade, porque negociada na abertura ao exterior pela necessária leitura da sua dinâmica de determinismos e aleatoriedades, a partir dos quais se gera também o comportamento organísmico, ainda que na dependência simultânea das características da espécie e do código genético individual. A complexidade funcional e estrutural que constitui o caracter mais vincado dos sistemas ditos complexos pode ser assimilada às antinomias ser/devir e identidade/alteridade, que definem o devir complexo na sua similaridade à existência que a filosofia ocidental do séc. XX, através da herança fenomenológica, procurou acometer na sua descrição da singularidade da vida humana, mas que como refere Edgar Morin na sua extensa obra − O Método, constitui de facto uma característica da complexidade mesmo no domínio prébiológico. A extensão desta associação permite conceber a complexidade através deste padrão comum a uma real procura de apropriação existencial, que implica uma limitação e determinação parcial dos parâmetros do meio, que directamente afectam a sobrevivência do sistema, mas se no caso dos organismos vivos esta forma, que precede a representação não chega a definir o que consensualmente definimos por linguagem, à imagem das nossas representações, ela constitui ainda assim uma forma de comunicação, contida na acepção pós-moderna de natureza semiótica ─ forma primordial de configuração interna do meio, que merleau-ponty denominou de incorporação do mundo ou introjecção, nascença de uma paisagem interna ou antes proventa deste sincretismo entre as formas duais e mutuamente excluídas pelo pensamento ocidental, de interior-exterior e sujeito-objecto; interioridade nascente da abertura a uma paisagem real, que o homem enquanto corpo animal possui, assim como os outros, a partir da estese. Se esta paisagem intencional ou existencial surge assim da autopoiesis, no percurso pessoal deste trabalho assumiu-se a correspondência desta limitação pré-conceptual inerente à auto-organização, determinação parcial a partir da envolvente real com o verbo latino pango, que ao significar vulgarmente a inscrição física no espaço geográfico ou topos da paisagem, expressa de forma implícita a apropriação humana e constituição das práticas na experiência da topicidade do real, que esteia a paisagem interiorizada pelo corpo e que

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antecede as predicações e representações da paisagem, assim como todos os encadeamentos conceptuais humanos são assumidos pela fenomenologia merleaupontiana, como originados na percepção primordialmente espacial e penso que assim proventos de um enraizamento na paisagem, que porque interpretada pode considerar-se parcialmente interior. Esta considera-se assim de forma conclusiva como o desenredar do espaço geográfico ou da paisagem que permanece para além da nossa existência, em paisagem ambígena porque fundada no real em si ou topos das coisas, como refere Berque (2000b) a partir de Platão, mas expressão de uma corografia, coreografia ou Khoreía − determinação dos passos ou expressão mesma das atitudes e poses existenciais, que acrescem ao topos ou singularidade transcendente das coisas independentemente da nossa existência; transcendência ou inacabamento que merleau-ponty atribui ao mundo, mas que deve ser entendida na acepção deste trabalho na sua relação com a complexidade e a incerteza associada, não apenas à nossa incapacidade de conceber o real em si , mas ao indeterminismo da natureza pós-moderna caracterizada pelas evoluções bifurcantes. A estese definida como origem da linguagem pelas ciências cognitivas e pela fenomenologia diz desta ligação existencial entre a corporeidade e o espaço, sendo que se na assunção merleau-pontiana os sentidos individuados constituem diagramas espaciais irredutíveis entre si, que se sobrepõem através da sinestesia da percepção, a instituição de uma paisagem existencial é esteada na leitura de um topos exterior ao qual o corpo doa o sentido necessário à sua permanência ou desequílibrio fundamentador da sua identidade estrutural. A realidade das representações humanas surge assim da doação de sentido e predicação da envolvente real, existente de forma diferenciada em outras formas de organização viva e poderia assim pensar-se que, quanto mais elaboradas são as representações do ponto de vista cognitivo, mais extensas ou visíveis são as marcas reais sobre a paisagem em si , como parece ser esse o alcance das acções humanas sobre esta. Talvez esta visibilidade acentuada seja apenas mais consensual, quanto às marcas antrópicas, pelo facto de sermos mais sensíveis a ler o que é a apropriação humana e especificamente a expansão dos seus artefactos sobre a paisagem? Enquanto hermeneuta da paisagem o arquitecto paisagista deverá supor a questão da invisibilidade de certas faces desse resultado estrutural que interpreta, no sentido de encenar ou constituir cenários, quer das acções da sua intervenção directa e/ou indirecta através das suas representações de paisagem (caso tipo do ordenamento do território, em que não se projecta directamente na paisagem, mas institui-se uma representação eminentemente funcional), de forma a procurar perceber o alcance não apenas dos factores antrópicos, mas também dos restantes produtores da paisagem real, que integrados sistemicamente podem inscrever de forma não linear as suas marcas estruturais no decorrer evolutivo dessa paisagem, por vezes em escalas espaciais e/ou temporais demasiado extensas para se tornarem inteligíveis; pressupondo assim a possibilidade de factores latentes sob a forma de marcas no sistema poderem ainda, pela sua actuação individual, desencadear efeitos inesperados por amplificação de retroacções positivas, para além de uma escala temporal e espacial racionalmente considerada previsível, a partir do momento presente tido como referência.

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A autopoiesis implica assim uma poiesis pelas práticas e técnicas humanas, projecção do corpo pela técnica assente numa modelação primordial da paisagem no corpo-sujeito pela estesia, que precede a modelação real da sua envolvente espacial, o corpo funda uma paisagem interna pela estruturação perceptiva e funda-se nela num movimento existencial, que de facto do ponto de vista organísmico constitui também uma autopoiesis ou modelação interna, pela formação do esquema-corporal instituído na mediação sujeito-objecto, pois pressupõe a abertura ao ambiente, quer natural como social, sendo possível identificar esta poiesis de si como o arrancar aos códigos ou determinismos, associados por Ferry ao humanismo, porque definidores da natureza humana, mas através da complexidade associados à organização viva e à sua constituição própria de uma finalidade em metamorfose na abertura ao exterior, revelando a interligação existencial dos elementos duais presentes na antinomia poiesis/autopoiesis. Esta indeterminação do visível, como incapacidade de codificar o excesso do real ou a falta de informação inerente ao estar em situação próprio do homem, traduz-se num inacabamento do mundo referido por Merleau-Ponty, sob um ponto de vista exclusivamente antrópico presente pela parcialidade de estarmos situados, cede lugar no pensamento da complexidade da paisagem a um indeterminismo, que se estende ao domínio ambiental ou antes ao domínio das relações entre ecossistemas e as actividades humanas na paisagem. A abordagem da problemática do indeterminismo não parece subsumir-se à falta de informação derivada do facto de estarmos situados individualmente num corpo e subjectividade própria, ou apenas à existência de limites de inteligibilidade especificamente humanos, ou inerentes ao contexto particular de intersubjectividade que definimos em sociedade, pois de facto como já foi referido, um sistema que se caracterize por uma ordem por flutuação, apresenta uma complexidade intrínseca que não se subsume perante um conhecimento ou detenção absoluta de toda a informação acerca desse aspecto do real que consideramos, pois nem o conhecimento de todas as inter-relações da enormidade de factores envolvidos ou concorrentes poderia eliminar a instabilidade inerente ao comportamento complexo, que deriva exactamente das flutuações ao nível local, se repercutirem nos pontos críticos globalmente, ao nível do comportamento macroscópico do sistema; cessando essa indiferença às flutuações locais, que caracteriza as fases de determinismo ou dominância de retroacções negativas situadas entre bifurcações. A questão das escalas colocada no âmbito da complexidade da paisagem releva a relatividade das acepções de global e local e o comportamento dos sistemas complexos caracterizados pela sua abertura e deriva no desequilíbrio veio clarificar a definição deste estado segundo um outro olhar, face às relações entre macroscópico e microscópico que são íntrinsecas a qualquer escala e não coincidem com os domínios da física geralmente associados a estas designações, permitindo compreender pela termodinâmica não linear estudada por Prigogine, que em fases de instabilidade as flutuações locais, ao contrário do que sucede no equilíbrio, não se subsumem num qualquer estado médio ignorante das singularidades pontuais ocorridas no seio do sistema e cuja expressão segundo moldes imprevisíveis permitem assumir a indeterminação como característica do sistema, mesmo em condições de conhecimento ou disponibilização de dados total, já que semelhantes factores ambientais podem ocasionar estados atractores diversos, consoante a diacronicidade latente no sistema.

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A complexidade da paisagem é por mim entendida como proventa, tanto do seu comportamento auto-organizado, tido por real e gerado na dialéctica entre retroacções negativas de estabilização do estado atractor actual e de descontinuidades alimentadas pelas retroacções positivas, criadoras de evoluções por instabilidade face às flutuações, inferidas pela análise das estruturas da paisagem, como da constelação de representações passíveis de se constituírem a partir dessa mesma paisagem; à paisagem tida como obra aberta do ponto de vista ecológico, acresce também a sua condição de inacabamento na relação fenomenológica do homem com o real. A paisagem real surge como ponto de fuga, assim como as essências merleau-pontianas, enquanto projecto inacabado do ponto de vista ecológico e cuja narrativa ambiental deve pressupor a necessidade de criação de cenários devido ao indeterminismo, que assim como o determinismo a caracterizam, mas encontra-se similarmente inacabada pela incapacidade de fazer coincidir todas as representações numa visão única e totalitária do real; por existir apenas o acesso a interpretações ou leituras da paisagem, quer do ponto de vista ecológico, como do ponto de vista existencial esta se encontra em devir, enquanto uma multiplicidade de paisagens ou lugares intencionais passíveis de serem actualizados num dado momento, a partir de um mesmo tracto de espaço geográfico ou paisagem real. A temática da invisibilidade merleau-pontiana por mim assumida no contexto da paisagem, demonstra a sua fecundidade segundo as duas leituras ecológica e fenomenológica, acometidas na metodologia da concepção da paisagem definida por Magalhães (2001) e concebidas pela autora como complementares na intervenção da arquitectura paisagista e que conduzem à conclusão no âmbito deste trabalho, da necessidade de uma hermenêutica da paisagem pela sua complexidade, na medida em que não só as narrativas ambientais pressupõem e inferem a actualização processual de determinados padrões de organização ou funcionalidades ecológicas em si invisíveis a partir da estrutura visível da paisagem, como a invisibilidade permanece pela incapacidade de restituir os momentos passados e ainda de prever os estados futuros; esta invisibilidade concerne também as representações da paisagem, que advêm de uma experiência primordial desta, enquanto paisagem vivida pelo corpo estesiológico e não são passíveis de uma codificação absoluta, a partir da qual deixaria de ser possível a criação artística ou até uma existência humana criativa. Mesmo as artes que lidam directamente com o fenómeno de invenção de códigos ou mundos possíveis a partir do real conseguiriam esgotar ou finalizar a sua complexidade o seu devir ou vir-a-ser através da linguagem sensível do corpo e da inteligibilidade dos códigos linguísticos e icónicos, em permanente evolução, pelo que urge considerar a paisagem nesta acepção múltipla de real transcendente de funcionamento complexo, de experiência estesiológica e de pluralidade de representações, esteadas numa paisagem experienciada intencionalmente a partir do real, entre as quais se insere a sua leitura ecológica.

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