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I.

Iniciação à Atividade Filosófica

1. Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar 1.3. A dimensão discursiva do trabalho filosófico Define-se por vezes as disciplinas em termos de objeto e método: O objeto de estudo da aritmética elementar é as principais propriedades da adição, da subtração, etc. O seu método é a demonstração matemática. O objeto de estudo da biologia é as propriedades dos organismos vivos. O seu método é a observação e a elaboração de teorias que depois são testadas, por vezes em laboratórios. Objeto e método da filosofia: A filosofia tem como objeto os conceitos mais básicos que usamos nas ciências, nas artes, nas religiões e no dia a dia. A filosofia estuda conceitos como os seguintes: o bem moral, a arte, o conhecimento, a verdade, a realidade, etc. O seu método é a troca de argumentos, a discussão de ideias. As definições deste tipo não são muito informativas. Para compreender o que é a filosofia o melhor é ver alguns exemplos do que se faz em filosofia.

Exemplos de problemas da filosofia: Será que tudo é relativo? Será que a vida tem sentido? E se tem, qual é? Como se justifica a existência do Estado, das Leis, e da Polícia? Será que não faz diferença fazer sofrer os animais? Será que Deus existe realmente, ou será que os ateus têm razão e os crentes estão enganados?

as religiões e as artes: O que é realmente a arte? E o que é a música? Como poderemos conciliar a existência de um Deus bom e sumamente poderoso e sábio com tanto sofrimento no mundo? O que é realmente uma lei da física? E como podemos ter a certeza que essas leis são verdadeiras? A filosofia é uma reflexão que surge naturalmente. Mas nem toda a reflexão que surge naturalmente é filosófica. A filosofia é diferente da história da filosofia. A filosofia é consequente. O que significa dizer que a filosofia é uma atividade crítica? Significa que temos de justificar as nossas conclusões. A filosofia é um estudo conceptual ou a priori. Mas só começamos a fazer filosofia quando exigimos justificações públicas para essas convicções. E justificar conclusões é apresentar argumentos. Podemos e devemos partir das nossas convicções pessoais. Características importantes da filosofia: A filosofia é uma atividade crítica. As respostas pessoais às perguntas filosóficas não são respostas filosóficas. Outros problemas surgem da nossa reflexão sobre as ciências. em contacto com o mundo.Estes problemas surgem naturalmente da nossa capacidade para pensar. A importância dos argumentos em filosofia: .

Em filosofia. o estudante tem a liberdade de defender o que quiser. Tem de aceitar discutir os seus argumentos. Ser crítico é dizer «Sim». A filosofia é uma atividade dialogante: consiste em trocar e discutir ideias. Ser crítico não é dizer «Não» só para marcar a diferença. será que a resposta que Platão dá ao problema da imortalidade da alma é boa? E precisamos de saber avaliar argumentos porque os filósofos passam grande parte do seu tempo a apresentar argumentos a favor das suas ideias e contra as ideias que eles acham que estão erradas. avalia cuidadosamente os nossos preconceitos mais básicos. Por exemplo. Ser crítico não é «dizer mal». O objetivo do estudo da filosofia não é repetir o que diz o professor ou o manual. Por exemplo. O objetivo é aprender a pensar sobre os problemas. as teorias e os argumentos da filosofia. Ser crítico não é ser extravagante. «Não». será que o argumento de Santo Anselmo a favor da existência de Deus é bom? Porque a filosofia é uma atividade critica. mas tem de adotar uma atitude crítica: Tem de sustentar o que defende com bons argumentos. por exemplo. Ser crítico é olhar com imparcialidade para todas as ideias para podermos avaliar se são verdadeiras ou não. A diferença entre uma discussão filosófica e uma gritaria. é esta: em . mas com base em bons argumentos. Precisamos de argumentos para mostrar que os problemas que estamos a estudar não são meras ilusões e confusões. será que o problema do sentido da vida faz sentido? Porquê? Precisamos de argumentos para avaliar as respostas que os filósofos e nós próprios damos aos problemas da filosofia. Por exemplo. ou até «Talvez».

Conhecimento empírico ou a posteriori: baseia-se na experiência. Saber formulá-los claramente. . Os problemas da filosofia não se resolvem olhando para o mundo para recolher informação. têm proposto teorias que tentam resolver os problemas filosóficos. independentemente de saber de que lado está a verdade. Os três elementos centrais da filosofia: Problemas Teorias Argumentos Os filósofos. 2. Se defendemos que toda a vida é sagrada e que isso quer dizer que nunca devemos matar um ser vivo. O nosso papel perante os problemas. mas teremos de ser responsáveis pelas consequências do que defendemos. Queremos dizer que a filosofia se faz unicamente com o pensamento. Essas teorias apoiam-se em argumentos. É por isso que dizemos que a filosofia é um estudo a priori ou conceptual. ao longo dos séculos. O pensamento filosófico é consequente. independentemente de saber quem «ganha» a discussão. não podemos ao mesmo tempo defender que se pode comer salada de alface.filosofia discutimos para chegar à verdade das coisas. Ser consequente é aceitar as consequências das nossas ideias. Somos livres para defender as posições que queremos. Para saber qual é a natureza da SIDA é necessário fazer observações e experiências laboratoriais. as teorias e os argumentos da filosofia é duplo: 1. Saber discuti-los com rigor. numa gritaria discute-se para «ganhar» a discussão. Se defendemos que tudo é relativo e que não há verdades. Exemplos: para saber se há vida em Marte é necessário enviar sondas e fazer observações. não podemos defender que esta ideia é verdadeira.

as artes e as religiões. A filosofia é inevitável porque não é mais do que a procura sistemática de justificações sensatas para as nossas ideias mais básicas. Em história da filosofia estudamos o que os filósofos dizem só para saber o que eles dizem. aprendemos apenas a apreciar a música do passado. Exemplos: para saber se 7 é um número par basta dividi-lo por dois e ver se o resultado é um número inteiro. A Submissão das Mulheres (1869) Peter Singer. Conhecimento conceptual ou a priori: baseia-se no pensamento apenas. . Para saber se todos os objetos verdes têm cor basta pensar no conceito de verde e de cor. aprendemos a discutir ideias e a propor ideias e a defendê-las. Num caso. Estudar filosofia é como estudar música e estudar história da filosofia é como estudar história da música. A filosofia opõe-se ao dogmatismo porque nenhuma ideia tem o direito de suplantar quaisquer outras ideias. Libertação Animal (1975). as artes e as religiões. Num caso. como as ciências. mas temos de ter informações sobre tudo o que for importante para a solução dos problemas que estamos a tratar. aprendemos apenas a formular as ideias dos outros. como as ciências. no outro. enquanto não mostrar que é realmente melhor do que as outras. aprendemos a tocar um instrumento ou a compor peças musicais. O estudo filosófico é a priori. A filosofia serve para mudar as nossas vidas. Exemplos: John Stuart Mill. Na filosofia estudamos o que os filósofos dizem para discutir as suas ideias. no outro. A filosofia é diferente da sua história. Para que serve a filosofia? A filosofia serve para alargar a nossa compreensão das coisas.

A filosofia ajuda a tomar melhores decisões. A filosofia produz ideias e argumentos que nos inspiram e maravilham. Quem sabe argumentar bem toma melhores decisões. A filosofia ensina-nos a enfrentar os problemas morais levantados pela ciência. teorias e argumentos da filosofia não têm qualquer utilidade prática. Muitos dos problemas. E as coisas sem utilidade prática podem ter valor porque o conhecimento é algo suficientemente importante para ter valor em si. As razões pelas quais a filosofia serve para alguma coisa são a razões pelas quais as artes. nunca poderíamos saber à partida quais das nossas ideias se viriam a revelar úteis. As artes são úteis porque produzem obras que nos inspiram e maravilham. A ciência é útil porque nos ensina a curar a tuberculose. as ciências e as religiões servem para alguma coisa. desde que se disponha da informação adequada. A filosofia é útil para a vida pública de um país porque nos ensina a pensar melhor sobre qualquer assunto. A filosofia fornece orientação a qualquer pessoa. por exemplo. Os argumentos . Mesmo que só as coisas úteis tivessem valor. e põe a descoberto problemas que nos convidam a dar o nosso melhor para tentar resolvê-los. porque as decisões que tomamos são baseadas em argumentos. Mas também a maior parte do que constitui as religiões. as artes e as ciências não tem qualquer utilidade prática.Comparações de utilidade: A religião é útil porque fornece orientação e conforto espiritual aos seus crentes.

Definição dos conceitos nucleares Problema: algo que se pretende resolver. a que se chamam premissas. Descobrir que razões ele dá para defender essa conclusão. Conceito: é uma abstração elaborada pela razão. 4. 2. As disciplinas da Filosofia e os problemas de que tratam . Tentar encontrar as premissas ocultas do nosso pensamento é uma parte importante da discussão filosófica. acrescentá-las. Descobrir o que o autor quer defender. Tese: é uma proposição que se apresenta para ser defendida. Perante um texto que defende ideias devemos fazer o seguinte: 1. Isso é a conclusão. Formular o argumento de maneira completamente explícita. Um argumento é um conjunto de proposições organizadas de tal modo que uma delas é a conclusão que defendemos com base na outra ou nas outras. Só os conjuntos de proposições organizadas de tal modo que justifiquem ou defendam a conclusão apresentada são argumentos. Se o autor omitiu premissas. Argumento: é um conjunto de proposições organizadas de tal modo que uma delas é a conclusão que defendemos com base na outra ou nas outras. a que se chamam as premissas. Nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. 3. no caso de impugnação. Tema. Chama-se entimema a um argumento em que uma ou mais premissas não foram explicitamente apresentadas. Essas razões são as premissas. e que serve para designar toda uma classe de objetos ou seres. a partir dos dados obtidos na experiência. assunto a tratar.