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A “Consolidação” Paulatina da Democracia Brasileira

I – Primeiras lições Antes de adentrarmos na análise a que nos propomos neste trabalho, faz-se necessário tecer alguns conceitos importantes para o entendimento rigoroso do assunto. Conforme nos ensina a melhor doutrina, República (res= coisa / pubblica= do povo) é a forma de governo em que o poder é exercido por uma pessoa ou por um colegiado. O governante (ou os governantes) é eleito pelo povo, direta ou indiretamente, e inexistem direitos sucessórios dos detentores do poder (José Cretella Júnior e José Cretella Neto, 2007). E tendo como características essenciais: a eletividade, a temporariedade e a responsabilidade do chefe de governo. Assim, literalmente, o termo significa a “coisa pública”, referindo-se ao interesse público, coletivo. Já o termo república democrática designa o sistema em que todo poder emana do povo, podendo ser direta, indireta ou semidireta, e contrapondo-se à república aristocrática em que o governo é realizado por uma classe

privilegiada por direitos de nascimento ou de conquista, vulgarmente popularizado como o governo de elites, da nobreza, enfim, dos melhores. Dentre as espécies democráticas a que nos referimos acima, a realmente mais participativa é aquela defendida por Rosseau: república democrática direta, onde todos os cidadãos governam coletivamente, por meio de assembléias populares da forma como faziam os cidadãos da antiga Ágora grega. Na atualidade encontramos alguns cantões suíços onde a democracia direta ainda resiste, com formato adaptado para a vida moderna, mas sem perder os traços característicos dessa forma democrática de governo: são as denominadas “Landsgemeinde”, que em alemão significa assembléia regional. Conforme nos ensina com maestria Paulo Bonavides, ao tratar do tema “teoria da representação”, com a queda da doutrina da duplicidade devida ao “declínio da doutrina da soberania nacional, ascensão política e social da classe obreira, o ideário novo da participação aberta de todos”, dentre outras razões, eis que surge a doutrina da identidade na representação popular, tendo em Rosseau seu maior defensor e maior crítico da doutrina anterior, através de suas idéias democráticas.

“Para Rosseau.” “Os deputados do povo não são seus representantes. também não pode ser representada. não é lei. Todavia. Soberano. bem como a grande complexidade técnica dos assuntos a serem discutidos e a falta de aptidão do povo para compreensão desses mesmos assuntos. Sem tais atrativos. não se pode olvidar que apesar de tratar-se de instrumento cabal demonstrador de democracia. para corrigir o problema. a finalidade. É essa “vontade geral” que representa o soberano. a finalidade do Estado está na defesa dessa “vontade geral”. pelo mesmo motivo que a soberania não pode ser alienada. o Poder Legislativo deveria ser exercido diretamente pelo povo. pois somente enquanto estava no estado pré-cívico é que era um indivíduo feliz e bom. A soberania é a vontade geral e a vontade geral não se representa: ou é ela mesma ou algo diferente. este sistema direto tem sua existência quase impossível de ocorrer nos dias de hoje. . é que existem corrupções. e não para defender interesses particulares. enfim. ao contrário do pensamento de Hobbes que via no rei o soberano do Estado. portanto. não há meio termo. Assim. Segundo consta. na participação popular. Toda lei que o povo não haja pessoalmente ratificado é nula. vivendo sob uma vontade geral. tornar-se-ia necessária a renovação freqüente das assembléias com a diminuição do tempo dos mandatos e a submissão dos mandatários do povo às instruções de seus mandantes. e. E. a passagem do status naturalis para o status civilis seria impensável e impraticável. tendo em vista o imenso tamanho dos territórios. para a legitimidade do pacto os homens firmariam um acordo em que todos governariam juntos. para Rosseau. estaria apenas e tão-somente na defesa do interesse comum. Concluindo. ao contrário dos demais pensadores contratualistas. são apenas comissários. apesar das brilhantes idéias rosseunianas. a própria legitimidade do pacto social. a impossibilidade de milhares de pessoas participarem direta e pessoalmente de inúmeras decisões. Neste ínterim. pois participa da vontade geral (princípio democrático) e súdito.” No entender do filósofo francês. nos exatos termos do mandato. nada podem concluir em definitivo. coletiva. Tal entendimento pode ser encontrado na concepção rousseauniana do contrato social. e por não ser assim. na defesa da democracia. em prol do bem comum. o indivíduo é ao mesmo tempo soberano e súdito. porque se submete a essa mesma vontade geral. pois nenhuma vantagem traria ao indivíduo.

o que faz com que os indivíduos percam o maior e mais efetivo instrumento de participação popular e de controle social do poder. nunca existiram de forma eficiente. essa idéia é plenamente difundida. ao contrário da doutrina da identidade. como se fosse um cheque em branco. o processo de democratização brasileiro foi longo. um presidente fosse eleito. Conforme podemos vislumbrar do texto “A Democratização Brasileira – um balanço do processo político desde a transição” que utilizamos como base para o nosso presente estudo. viam duas deficiências principais nos cidadãos representados: tempo e instrução. estes deveriam prestar contas apenas à sua consciência. afirmava que os mandatários são plenamente aptos a discutir a coisa pública. E essa idéia sempre deu certo. após a eleição. Montesquieau. e que a função de governo deveria ser entregue de mãos beijadas. pelas razões acima expostas.Saliente-se que os defensores da doutrina da duplicidade acima referida. defensor da doutrina da duplicidade. tal regime passou por diversas crises. Inicialmente. Segundo os tribunos da época. o certo é que a democracia direta realmente não é possível de acontecer na atualidade. eis que a “política” brasileira se presta a incutir na consciência social de que o brasileiro não possui competência para a participação popular. para poucos capazes para tal. sem levar em conta as idéias de Montesquieau e seus adeptos com relação à teoria da representação. falta instrução para compreender os projetos de lei e tempo para estuda-los (Paulo Bonavides. pois a participação popular e o controle social. por meio do voto popular. durante os 21 anos de regime militar. o representante do povo não precisava de instruções particulares acerca de cada assunto. em que foi preciso 11 anos para que o poder fosse retomado pelos civis e mais 5 anos para que. No Brasil. pois ao povo cabe apenas escolher seus representantes e. Para ele. necessário esclarecer que a ditadura militar no Brasil é diferenciada. II – O sistema democrático brasileiro: breve histórico Conforme a autora Maria D’Alva G Kinzo. além do fato de tratar-se de um sistema autoritário sui generis . modernamente. Enfim. 2005). Aliás. lento e gradual.

fazendo-o se caracterizar por fases alternadas de repressão e liberalização permeadas por crises políticas resultantes de conflitos dentro do exército e entre estes grupos e a oposição democrática (Kinzo. não obteve êxito ao final. assim. na tentativa de aprovar uma emenda à Constituição para restabelecer o voto direto. É o que percebemos do texto de autoria da professora Maria D’Alva. Necessário ressaltar que. por sucessivas crises políticas que acompanharam o regime. Outros fatores (conflito interno e problemas econômicos) também contribuíram para a lentidão no processo de democratização na sua primeira fase. e. que atraiu toda a população brasileira na ilusão de que a sociedade havia acordado para os problemas anti-democráticos.quando analisado ao lado das demais ditaduras latino americanas. a empreitada não deu certo. o que levou o governo a barrar as eleições e controlar aquele instrumento de oposição democrática. principalmente. a sucessão presidencial de 1985. Tal mobilização. por um partido de oposição. a segunda fase do processo de democratização foi marcada pela saudosa campanha “Diretas Já”. estrategicamente. com as mudanças das regras eleitorais para que a oposição não tivesse chances de obter maioria. pois a população deixou claro que não apoiava o regime militar ao apoiar o partido de oposição. Ainda com base no texto aludido. Senão vejamos: “Este arranjo peculiar foi o responsável. situação esta que fora denunciada. o pontapé inicial para a democratização foi dado pelo general Geisel que trouxe promessas mais concretas para o povo. na busca pela liberalização. como por exemplo o controle sob o partido de oposição (MDB). Ressalte-se que essa segunda fase foi marcada pelo que a autora denomina “transição negociada”. 1988). que reparte o “processo de liberalização” em três fases. pelo processo de democratização. em grande medida. estratégia esta que “contribuiu para que a nova ordem instaurada em 1985 desse seus primeiros passos com sua legitimidade já questionada”. controlando. dando como aperitivos dessa liberalização a revogação parcial da censura e sinalizando valorizar as eleições legislativas em condições livres. deixando claro que os militares ainda tinham força suficiente para controlar o Legislativo. . Segundo essa professora. pois mesclava características tanto de um sistema autoritário quanto o democrático. Porém. o governo que criava condições possíveis para esse processo era o mesmo governo que também constantemente minava as atuações oposicionistas. na reforma partidária em que o governo objetivava deixar a oposição dividida.

. existe atualmente uma proposta de emenda à Constituição para incluir outros instrumentos. a conclusão acima exposada é realmente verdadeira. um partido de oposição havia votado contra a emenda constitucional em troca de cargos no governo. e a estrutura constitucional passou a ser mais democrática do que se pensava por conta daquela “transição negociada”. podemos enumerar algumas. referendo e iniciativa popular (art. a saber:  Com relação ao procedimento de elaboração da Carta Política. Supostamente. Por fim. bem como pelos problemas sociais e econômicos da época. a Carta Magna de 1988 apelidada de Constituição Cidadã. Por outro lado. tais fatos demonstram que a democracia no Brasil não nasceu da luta lenta mas árdua e constante de um “povo heróico”. 1º e consagrando o sufrágio universal. houve participação igualitária de todos os constituintes e ampla cobertura pela imprensa. acordos e convenções organizadas pelos atores principais do sistema. assim. apesar da pressão naturalmente recaída sobre a administração que se fazia. pois especificamente no caso daquela mobilização popular. sem o respaldo das urnas e não pertencia ao partido moderador vencedor na eleição (PMDB)”. mas sim.  A opção do constituinte pela democracia representativa e a técnica da soberania popular expressada no parágrafo único do art. 14). (e. Dentre as várias conquistas trazidas pela Constituição de 1988. Ou seja. a terceira fase do processo de liberalização iniciou-se com mais um gravame: a legitimidade do vice-presidente ao assumir a Presidência era contestável. o apoio dos dissidentes em troca do cargo de vice-presidência nas eleições. iriam permitir a tão aguardada abertura democrática. como por exemplo. pois tratava-se “de uma figura política marcada por anos de vínculos com os militares. tem origem em pactos. como ocorreu nas democracias de países ocidentais desenvolvidos marcados por Revoluções populares e idéias iluministas.Conforme verificamos. pois ora a oposição era minada pelo governo.  Alguns instrumentos de participação popular foram inseridos: plebiscito. ora ela entrava em acordo com o regime para angariar vantagens que. a democratização foi intensificada principalmente pela criação da nova ordem jurídica sob o manto do paradigma do Estado Democrático de Direito: nascia. como o recall e veto popular). ressalte-se. supostamente. por meios muitas vezes nem um pouco éticos e sem aval popular.

17). eis que a nova Carta Política trouxe diversos direitos sociais. O apelido de Constituição Cidadã não foi exagero. pluralista e sem preconceitos). ao menos em tese. pela doutrina.  O amplo rol de enumeração exemplificativa de direitos e garantias fundamentais (individuais e coletivos) contando não apenas com os direitos em si. não consolidou definitivamente a democracia no Brasil. consoante naturalmente ocorre em toda sociedade. ao contrário das anteriores constituições brasileiras. tendo em vista os diversos fatos na área política. o final de um longo e complicado processo de transição democrática” (Maria D’Alva G Kinzo). a possibilidade de criação de orçamentos participativos na comunidade e consultas e audiências públicas organizadas pelas autarquias e demais entes estatais.  Adotou de forma harmônica a “tripartição dos poderes” de Montesquieau (art. O pluripartidarismo constou de forma expressa e como princípio político (art. elevou a objetivo fundamental do Estado a promoção de todos.  As diversidades de todo o tipo. A terceira fase desse processo democrático brasileiro encerra-se com a eleição presidencial de 1989 que “marca. mas com diversos remédios constitucionais para efetivação desses direitos. etc. e incluiu vários instrumentos de participação e controle popular além dos já relatados acima constantes do art. 2º) adotando mecanismos de efetividade da independência entre os poderes. simbolicamente. a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais. 14. o direito de petição ao poder público em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder. como por exemplo. 5º). tais como: a ação popular para anular ato lesivo ao patrimônio público. foram erigidas a princípios e garantias fundamentais. inclusive a pluralidade constando do próprio preâmbulo da Constituição Federal. apesar de vantajoso. sem preconceitos. econômica e social que provocaram e ainda . que dispunham dessas garantias geralmente ao final das Cartas. na denominada. Uma importante constatação pode ser feita com relação à forma que a Constituição foi organizada: os direitos e garantias fundamentais foram apresentados logo no início da Carta (art. “santíssima trindade” (sociedade fraterna. o habeas data. o que demonstra a crucial importância que fora dada pelos constituintes. Tal processo.

às políticas públicas a serem implementadas. tais como. crises econômicas externas. passamos agora a verificar o estágio atual da participação popular no Brasil. de preservação de certos direitos trabalhistas (e capitalistas). Não modifica a substância das coisas. um ambiente verdadeiramente democrático. que os avanços da política ocorreram mais no campo formal que substancial. impeachment. o fato de princípios democráticos constarem ou não expressamente de textos constitucionais não quer dizer muita coisa. ainda. o modelo estatal funda-se em dois princípios basilares: o princípio da legalidade. Ocorre. Como é cediço.provocam um abalo na estrutura democrática. Ora. isto é. pois o sistema econômico normalmente é distinto de sistema político. . Por essa razão. O primeiro ponto a considerar refere-se ao fundamento do Estado Democrático de Direito. a democracia existe. são exatamente estes dois princípios que darão guarida a toda a ordem jurídica infraconstitucional e legitimidade às ações governamentais. quanto em regimes totalitários. Segundo se verifica da Carta Política de 1988. É preciso muito mais que simples disposição constitucional. pois é raro um Estado se auto-intitular anti-democrático. como forma de limitação ao poder estatal e garantia dos direitos fundamentais. “O Estado de Direito Social não se confunde com o Estado Democrático porque esta modalidade ou vertente de atuação social. medidas econômicas desajeitadas. no Brasil Getulista. CPI’s. e o princípio democrático. III – A democracia brasileira na atualidade Após analisarmos a transição de um sistema autoritário para democrático. não se revelou. o eminente professor Paulo Bonavides (2004) nos ensina que o Estado de Direito Social tanto pode se adaptar e fluir no regime democrático e progressista. bem como na Inglaterra de Churchill e na América de Roosevelt.” Por essa razão. também foi marcante da Alemanha Nazista. pois ressalte-se que a linha divisória entre atuação democrática e autoritária é demasiada imprecisa e subjetiva. entendido literalmente como participação popular. escândalos e denúncias de malversação do erário público. na Itália Fascista. Este é o cerne da questão. Até então. não se pode passar por despercebido que a democracia pode existir em qualquer sistema econômico. todavia. etc. observando a efetividade da Constituição Federal de 1988.

Para o filósofo. muitas vezes utilizando de meios intimidatórios para seu intento. Atualmente. não podemos olvidar outro ataque à democracia: os partidos políticos em seu estágio atual. pois estariam sempre voltados aos seus interesses particulares em detrimento do bem comum. se se sobrepõe o interesse pelo bem comum ou interesse próprio do governante. o governo poderá ser uma monarquia. esse “governo invisível” seria uma permanente ameaça ao Estado e à própria democracia. oligarquia ou despotia. sendo que a ética será o critério legitimador do governo. mas principalmente da forma como ele será conduzido.” Por outro lado. para que os governados vejam como e onde as tomam. In verbis: “O que constatamos no Brasil contemporâneo é que a democracia está se sustentando. a democracia existirá ou não. Para parte da doutrina especializada. Tudo vai depender da quantidade de pessoas no governo. as decisões governamentais são tomadas às escondidas da sociedade civil mas com a participação de determinados segmentos dessa mesma sociedade. mas também poderá ser tirania. grupos estes que influenciam o poder político para obtenção de uma determinada medida de governo que lhe favoreça. depende da forma como o Estado será conduzido. Como atributo principal da democracia. por meio dos grupos de pressão. estão cada vez mais submetidas aos interesses privados dos setores econômicos. temos a transparência. em seu texto “Cultura Política Participativa e Desconsolidação Democrática”. Neste sentido. e com propósitos nem sempre claros à opinião pública. mas suas instituições. . aristocracia ou democracia. Norberto Bobbio define a democracia como “o poder em público”. Por isso.Trata-se da mesma visão entendida por Aristóteles ao falar sobre suas formas de governo. Não é outra a constatação do eminente professor Marcello Baquero. nem sempre é isso que ocorre entre os “decision makers”. No entanto. É sabido que a democracia é apunhalada a todo instante no momento em que as principais decisões são tomadas pelo Executivo e Legislativo. no sentido de que os governantes devem tomar suas decisões às claras. longe de se consolidarem.

“os partidos políticos. repete aqui o que os americanos fazem por lá. sendo dominados por reduzido grupo de pessoas” (Paulo Bonavides). tais grêmios são utilizados como simples instrumentos de conquista do poder. pois segundo a melhor doutrina. forte em primeiro lugar é o partido. tendem a desenvolver programas genéricos. Senão vejamos: “A patronagem no sistema americano fez de democratas e republicanos duas gigantescas agências de empregos. que não conflitam com a opinião do eleitorado. ainda. mas cuja execução demanda decisões específicas”. Atualmente. “são instrumentos de educação das massas e de qualificação para o exercício do poder”. na busca por votos. ambos países desenvolvidos. Nos dizeres de Mário Lúcio Quintão. a fidelidade aos programas. como forma de galgar o poder público. isto é. conforme ressalta o mestre Marcello Baquero.Os partidos políticos surgiram como um canal legítimo do exercício da vontade popular. num primeiro momento. duas máquinas de eleger candidatos e ganhar eleições. a obediência ideológica no interior dos quadros políticos é ali convicção antes de ser imposição.” “Ao contrário. A opinião pública se reparte ao redor de nomes ou pessoas e não de idéias e programas. é claro. com sua tendência de sempre “copiar lá de fora”.” E o Brasil. pela insuficiência da consolidação democrática”. os partidos políticos ingleses possuem condições melhores de oferecer resistências aos grupos de pressão. A lealdade partidária. os partidos apenas formalmente buscam a realização de idéias de conteúdo político. por isso. O mestre acima citado complementa afirmando que “O papel dos partidos políticos se vê hoje comprometido na sua função de agregação de interesses. mas ao contrário. No entanto. “os partidos costumam ter nítido caráter oligárquico. na Inglaterra. . depois o candidato. mas sabemos que seu objetivo principal é lograr posições de mando e vantagens materiais para seus dirigentes. servindo como agente captador das reivindicações dos diversos segmentos sociais. e. não é exatamente esse caminho que os partidos políticos vem tomando ultimamente. como se fosse uma ponte ligando a sociedade ao governo. O mestre Paulo Bonavides ressalta a diferença de cultura partidária nos Estados Unidos e Inglaterra.

Segundo ele. O eminente jurista Celso Antônio Bandeira de Mello é incisivo ao comentar a globalização. pois igualdade jurídica. No mesmo patamar. favorecimento das importações. E. igualdade de oportunidade e igualdade econômica. é a mais importante. pelo fato de que a roupagem democrática é exigência das potências econômicas como pré-requisito para investimentos em países sub ou em desenvolvimento (Marcello Baquero). José Afonso da Silva ensina que “há uma abstenção do Estado em face da globalização da economia. etc. ter onde morar. levando ao enriquecimento desses países. assegurando concretamente os direitos sociais previstos no art. Assim. as seduzem. a saber: igualdade jurídica. ainda. um novo discurso para uma velha pretensão: o domínio internacional dos mercados por um pequeno grupo de nações mais desenvolvidas”. igualdade de sufrágio. inteligente. Ora. entendida como o estabelecimento de um padrão mínimo de vida correspondente as necessidades normais do homem e sua família. desvalorizando e enfraquecendo o mercado interno. mas as alicia. Podemos constatar. em respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana. afirmando que trata-se de instituto que não possui conteúdo. segundo o texto sob análise. que o neoliberalismo é sutil. igualdade de sufrágio e igualdade de oportunidade “são miragens para . é só jogada de marketing. a globalização só serve para favorecimento dos grandes Estados. mas ninguém quer saber de política ou de participar ativamente do governo sem antes “encher a barriga”. Como é cediço. revelam a ineficiências das instituições democráticas que preferem dar apoio a setores específicos que dominam o cenário econômico brasileiro. o regime social-democrático fornece quatro categorias existentes no conceito de igualdade.A outro giro. pois não ataca diretamente as instituições democráticas. não há que se falar em democracia plena onde não se promove o mínimo vital para a população. 6º e 225 da CF/88. É plenamente possível afirmar que a igualdade econômica. a pobreza e desigualdades sociais gritantes no Brasil. E isso ocorre porque a população se basta pela falsa aparência de ambiente democrático. onde tratar a saúde.

Portanto. o governo brasileiro trata a população como “massas de manobra”. criar oportunidades para jovens. para viabilizar a manutenção no poder e a reeleição de líderes que defendem esse modelo”. Pobre porque desprovido de um direito inalienável: o direito de ser cidadão. em suma. Conforme temos observado. o desemprego. ainda no texto sob estudo. não difundindo a verdadeira cultura à sociedade deixando-a à margem de tudo o que lhe interessa. desde sua constituição na história brasileira. os mocambos rurais e urbanos. Neste diapasão. desenfreadamente. democracia só existirá para ricos. sempre assegurando a preservação dos valores humanos. de ter educação. por cinco séculos se dedica a espoliar a nação”. é claro. em última análise. políticos que implementam políticas assistencialistas que apenas faz gerar dependência dessa massa para com o Estado e perpetuam a pobreza. políticos que abusam dos anseios populares para. consequentemente. O brasileiro vive de migalhas. Não é outro o ensinamento do renomado autor Pedro Demo. estabelecer padrões básicos para uma vida decente. o objetivo primordial da democracia é.o homem economicamente miserável. as políticas públicas criadas são apenas de cunho compensatório e quase nunca possuem feição emancipatória. E . quando o bem comum não são visados e os reais objetivos da democracia não são implementados. de ser assistido”. da aceitação pela sociedade “de um discurso que contrapõe a continuidade ao caos. Aliás. pois é mais fácil conter e controlar uma sociedade órfã de educação do que uma sociedade politizada. em salvar o maior de todos os direitos humanos: o de sobrevivência”. “O povo brasileiro é pobre. não podemos deixar de observar a brilhante constatação de Marcello Baquero. podemos afirmar que o denominado “ambiente democrático” não existe e. na verdade. as sobras de todo o orçamento público. O que temos ainda hoje são políticos demagogos e populistas. em sua obra “Pobreza Política – a pobreza mais intensa da pobreza brasileira”: “A população brasileira continua “massa de manobra” nas mãos de uma elite inacreditavelmente perversa que. modernamente. pois está sempre mais empenhado. a insegurança. “eliminar o pauperismo. E. as políticas públicas voltadas para a redução da pobreza são. obterem seus intentos escusos e individualistas.

etc. durante as campanhas eleitorais. hodiernamente. colocação em uma vaga de trabalho. as pessoas ao invés de lutarem por melhorias do Estado. podemos constatar que. perdendo credibilidade. IV – Conclusão Após discorrermos. cada dia mais. segundo Roberto daMata citado por Marcello Baquero. urgentemente. E é exatamente esse discurso político que assistimos diariamente. Várias foram as razões apontadas neste pequeno trabalho para se chegar à conclusão de que precisamos. pobre ou não. levando à uma cultura individualista. Este autor alerta para o fato de que. Não é por outra razão que o eleitor. necessário observar. e não naquele que pensa no coletivo e que poderá trazer benefícios comuns a todos. sempre tendo como base os dois textos lançados para discussão. de uma mudança significativa sobre os instrumento de participação popular que nos foram entregues. este ainda não conseguiu consolidar-se efetivamente. elas estão preferindo procurar cada um o que precisa e o que pode pagar. . vota naquele candidato que está de prontidão para resolver seu problema imediato. É a popular troca de votos por cestas básicas. sobre a história da democracia brasileira e analisar seu estágio atual. expressa ou implicitamente. a questão da crise de legitimidade do Estado em que a autoridade constituída vai. a menos que se dê continuidade aos governos para terminar as reformas.prossegue afirmando que esse discurso “possibilita que as pessoas internalizem a crença de que. quitação da conta de luz atrasada. o caos se instalará comprometendo a estabilidade democrática”. Por fim. apesar de alguns avanços positivos no processo democrático. brevemente. o que traria lucro para toda a sociedade.

. o indigitado “Ficha Limpa” foi aprovado pelo Congresso mas com modificações que permitiram seu nascimento praticamente sem vida. mas a virtude na execução dele”. ao responder sobre qual seria a melhor forma de governo. futuramente. beneficiando os “fichas sujas”. citado por Queiroz Lima. Assim. há que se indagar sobre a melhor forma de vida”. Por fim. 242) afirma que “antes de indagar sobre a melhor forma de governo. Somente a conscientização coletiva fará com que os instrumentos de participação popular e o controle social do poder sejam. Fenelon resumiu brilhantemente da seguinte forma: “a corrupção pode ser idêntica em todas as formas de governo. será impossível falarmos em real democracia. enquanto não houver uma modificação substancial na sociedade. resta-nos lembrar o estudioso Fenelon. sempre claro. por meio principalmente da educação. É o que se depreende quando Pontes de Miranda (pág. plenamente capazes de extirparem toda e qualquer forma de corrupção e confirmarem o princípio da supremacia do interesse público sobre o particular. o principal não é o regime em si. A lei foi aprovada propositalmente com brechas possibilitando interpretações jurídicas das mais diversas.O último golpe desferido na democracia brasileira foi recente. Após uma intensa campanha nacional para recolhimento de assinaturas de um projeto de lei popular que traria toda a transparência possível para o jogo político.